Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
Revista Brasileira de
Geografia Física
ISSN:1984-2295
Homepage: www.ufpe.br/rbgfe
Turismo e Sustentabilidade: Percepção de Necessidades de Nativos e Turistas da
Serra Negra (Bezerros - PE), à luz da Fenomenologia
Sandro Valença1, Antonio Fagner da Silva Bastos2, Kelly Maria Paz-e-Silva2
Daniel Macedo Barreto Sales2
1
Doutor em Tecnologia Ambiental e Recursos Hídricos, pelo Programa de Pós-graduação em Engenharia
Civil/Universidade Federal de Pernambuco; Professor do Núcleo de Gestão/Centro Acadêmico do
Agreste/Universidade Federal de Pernambuco (Brasil). Endereço eletrônico: [email protected];
2
Graduandos em administração, do Centro Acadêmico do Agreste/Universidade Federal de Pernambuco (Brasil).
Artigo recebido em 10/10/2012 e aceito em 11/10/2012
RESUMO
Turismo é fenômeno de interação entre nativos e turistas num local. A interação ressalta necessidades dos dois grupos
de atores. Inevitavelmente, as necessidades causam impactos na sustentabilidade do próprio fenômeno. Assim, o
objetivo do estudo foi descrever a percepção de nativos e turistas sobre necessidades relacionadas ao turismo praticado
na Serra Negra (Bezerros/Pernambuco). Para alcançá-lo, usou-se a fenomenologia hermenêutica interpretativa, de
Heidegger, norteando levantamentos bibliográficos e documentais, observações diretas e entrevistas. As evidências
coletadas foram analisadas e sintetizadas, gerando reduções eidéticas, ou seja, descrições de necessidades, na percepção
de nativos e turistas: infraestrutura básica; expansão do comércio; educação à preservação do ambiente natural;
capacitação profissional dos nativos; promoção de eventos; valorização da cultura local; melhoria da interação entre
nativos e turistas; contenção do turismo em massa; manutenção do estado original das dimensões ambientais. Com base
nestas necessidades, pode-se, agora, elaborar considerações e propostas para unir turismo e sustentabilidade.
Palavras-chave: Turismo; Sustentabilidade; Serra Negra; Fenomenologia.
Tourism and Susteinability: Perceived Needs of Tourists and Natives of Serra
Negra (Bezerros - PE), Based on Phenomenology
ABSTRACT
Tourism is phenomenon of interaction between locals and tourists in place. The interaction highlights needs of these
two groups of actors. Inevitably, needs cause impacts on sustainability of phenomenon. Thus, the aim of this study was
to describe the perception of natives and tourists on needs related to tourism practiced in Serra Negra
(Bezerros/Pernambuco). To achieve this objective, Heidegger‘s interpretive hermeneutic phenomenology was used,
guiding bibliographic and documentary surveys, direct observations and interviews. The evidence collected was
analyzed and summarized, generating eidetic reductions, descriptions of needs as perceived by locals and tourists: basic
infrastructure; commercial expansion; education for preservation of natural environment; professional training of
natives; promotion of events; appreciation of local culture; improvement of interaction between locals and tourists;
contention of massive tourism; maintenance of original state of environmental dimensions. Based on these needs, it is
presently possible to draw considerations and proposals for unification of tourism and sustainability.
Keywords: Tourism; Sustainability; Serra Negra; Phenomenology.
1. Introdução
O turismo é um gerador de emprego e
renda. Trata-se, pois, de um fenômeno
relevante a toda e qualquer localidade que o
tenha como vocação. A despeito dos impactos
*E-mail
para
correspondência:
[email protected] (Valença, S.).
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
positivos, no entanto, não se deve ignorar que
1408
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
sua prática causa também impactos negativos.
(Acselrad, 2009; Nascimento & Vianna,
2009; IBGE, 2004). Suas inúmeras definições
1.1 Turismo e Dimensões da Sustentabilidade
decorrem de um conceito que abrange,
―Estudiosos destacam que os principais
sobretudo, as dimensões econômica, natural,
impactos
do
econômicos,
social e cultural. Reitera-se, assim, que a
[naturais], sociais e culturais [...]‖ (Lohmann,
sustentabilidade exige um processo que
2008, p. 207). O ―Acordo de Mohonk‖ —
contemple
produto de um encontro, realizado em 2000,
ambientais da sociedade (Regules et al.,
em New Paltz, nos Estados Unidos, o qual
2007).
reuniu
turismo
são
proeminentes
diversas
dimensões
de
A segunda metade do século XX
e
mostrou que o crescimento econômico,
ecoturismo global —, por exemplo, definiu
embora tenha sido uma condição sine qua non
turismo sustentável como o que procura
ao
minimizar impactos sobre as dimensões
desenvolvimento. Mesmo forte e contínuo, o
natural, social e cultural, enquanto promove
crescimento pode gerar retrocessos em outras
benefícios econômicos às comunidades locais
dimensões. Por conseguinte, a avaliação do
(Ricardo & Campanili, 2008).
desenvolvimento pede critérios qualitativos
certificação
de
programas
estas
turismo
sustentável
Tal definição, é patente, está alinhada
progresso,
não
foi
suficiente
ao
junto aos quantitativos (Sachs, 2003).
ao relatório ―Nosso Futuro Comum‖ (UN,
Há um postulado para cada dimensão da
1987),
sustentabilidade, a saber:
o
qual,
pioneiramente,
definiu
desenvolvimento sustentável como o que

Econômica:
O
crescimento
atende às necessidades das gerações atuais
alicerçado
sem
das
eficiência de utilização de energia
comprometer
a
satisfação
no
aumento
de
gerações
futuras
—
e de recursos naturais, somados a
implicação,
que
um
mudanças em padrões de produção
crescimento econômico sem melhoria da
e de consumo da sociedade, a
qualidade de vida das pessoas não pode ser
reduções de desperdícios e a
considerado desenvolvimento (Valença, 2008;
maiores perspicácias acerca de
Nascimento et al., 2008).
impactos de ações (IBGE, 2004;
necessidades
afirmando,
das
por
Em outras palavras, desenvolvimento
sustentável busca integrar e harmonizar
Sachs, 2003).

Natural: A utilização racional dos
crescimento
recursos bióticos — flora e fauna
econômico, à conservação da natureza — com
— e abióticos — solo, água e ar —
a óbvia utilização racional de recursos
, sob a perspectiva do longo prazo.
naturais —, à justiça e ao bem-estar social
A
conceitos
relacionados
ao
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
utilização
sustentável
dos
1409
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
recursos renováveis ocorre ao se os
prejudiciais no longo prazo aos
aproveitar
envolvidos.
abaixo
de
suas
capacidades de reposição e a dos

O desenvolvimento sustentável será
não-renováveis, ao se os aproveitar
alcançado
com
ganhadoras‖ — crescimento econômico com
parcimônia
e
eficiência
com
―soluções
triplamente
(Valença, 2008; IBGE, 2004).
políticas de prudência sobre a dimensão
Social: A distribuição de renda de
natural e impactos positivos sobre a social
forma menos concentrada, com
(Sachs, 2003). E, com uma constituição mais
diferentes segmentos da sociedade
ampla, respeito sobre a cultural.
ampliando suas influências em
tomadas de decisões públicas, com
saneamento
O turismo é um fenômeno que ocorre
básico, de saúde e de educação e
quando as pessoas se deslocam a lugares
sem distinções de etnias, religiões,
diferentes dos de sua residência habitual com
sexos e gêneros (IBGE, 2004;
a intenção de retorno — acontecimento que
Sachs, 2003).
requer a existência de condições que o
Cultural: O reconhecimento dos
possibilitem. Ele não abrange somente o
conjuntos de aptidões peculiares
fenômeno em si, mas, também, todos os
de uma raça ou sociedade. Ela
produtos (serviços e bens) que permitem sua
caracteriza o modo de ser, viver,
ocorrência (Trigo et al., 2007).
universalização

1.2 Impactos Negativos do Turismo
de
relacionar-se e comportar-se de um
No turismo há encontro e troca de
Logo,
produtos e experiências entre um grupo
sustentabilidade cultural demanda
oriundo da localidade visitada — o dos
proteção
com
nativos — e o grupo oriundo de fora dela — o
evite
dos turistas. Trata-se de um fenômeno social,
homogeneidades dispensáveis em
que cria múltiplas relações de importância
costumes e consequentes perdas de
econômica, social e cultural — além, é claro,
valores típicos de cada população
daquelas que ocorrerão com o ambiente
— uma pessoa, ao entrar em
natural da localidade visitada (Melo, 2005).
contato com um grupo social de
Ele pode produzir grandes ganhos sobre todas
cultura diferente, pode causar e
as relações, bem como grandes problemas.
sofrer
Devido
povo
(Branco,
de
configuração
reações
1997).
aptidões,
que
distintas,
como
a
tanto,
fazer
com
que
a
embate, rejeição, aceitação ou
sustentabilidade coexista com o turismo é
assimilação (Myanaki et al., 2007).
imprescindível, o que torna o termo turismo
E as reações, em geral, são
sustentável gradualmente mais comum e
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1410
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
obrigatório.
visitada.
Por turismo sustentável se admitem as
Concentrando-se
nos
impactos
práticas que fomentem a utilização dos
negativos do turismo, é sabido que as regiões
patrimônios
receptoras, em contrapartida ao dinheiro,
natural,
social
e
cultural,
conservando o local visitado para que as
acomodam-se
gerações futuras também possam obter os
aceitando, em decorrência, transtornos no seu
mesmos benefícios (Ricardo & Campanili,
modo de vida, perda de sua identidade
2008).
cultural e degradação do seu ambiente natural
Busca-se,
então,
equilíbrio
dimensional, com estrita atenção a impactos
— entendidos como os efeitos positivos e/ou
da
maneira
que
podem,
(Krippendorf, 2001).
Alguns
dos
principais
impactos
negativos causados por certas ações em
negativos causados pelo turismo são expostos
determinado local. Sem exceção, a prática
na Tabela 1 (Lohmann, 2008).
turística causa impactos sobre a localidade
Tabela 1. Impactos negativos do turismo. Adaptado de Lohmann (2008).
Dentro das peculiaridades de seus
qualificada como equitativa se os custos e os
estudos, inúmeros outros autores corroboram
benefícios forem repartidos de forma mais ou
as evidências da Tabela 1, a exemplo de Trigo
menos equivalente entre as duas partes‖
(1998), Prado (2003), Mendonça & Irving
(Krippendorf, 2001, p. 75).
(2004), Valença (2008) e Valença et al.,
(2010).
1.3 Turismo, Nativos e Turistas
Uma prática de turismo que minimize
Um fenômeno é algo que acontece neste
ou elimine impactos negativos deve ser uma
exato momento e, só por acontecer, faz-se
meta tanto a nativos quanto a turistas. É
existente (Husserl, 2008b; 2001). É definido
notório que ―[...] uma troca só pode ser
por Husserl como o objeto intuído aparente —
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1411
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
aquele que aparece aqui e agora (Mora, 1978).
Como fenômeno, o turismo conta com o
autóctones e os alóctones — os nativos e os
turistas, respectivamente.
ser humano em sua essência. Dele e para ele
Por nativo se entende a pessoa que
se dão todas as ações turísticas. O ser humano
reside na localidade — ora, destino turístico
é, portanto, a chave à compreensão do
—, vivendo ou não ela em função do turismo.
fenômeno. E, sem ele interagindo com a
Com o aumento da atividade turística, a
infraestrutura e as organizações de atividades
população local é a que, obviamente, mais se
turísticas, existe apenas um fato turístico, não
interessa pela prática. O problema é que, na
um
2011).
maioria dos estudos — e nas ações — sobre
Qualquer estudo sobre o turismo em uma
tal, ela não tem ―voz‖ e é, por certo, esquecida
localidade
(Mendonça & Irving, 2004; Paiva, 1995).
fenômeno
(Panosso
deve
levar
Netto,
em
conta,
obrigatoriamente, seus atores nucleares: os
[A] ampliação do setor turístico deve ser vista com bons olhos, desde que se
busque
um
turismo
harmonioso
que
implique
em
princípio
a
conscientização das populações nativas dos locais que optaram ou que
visam optar por turismo com prioridade, bem como na adoção de estratégias
mais lúcidas e mais responsáveis que evitem os seus inúmeros efeitos
negativos (Paiva, 1995, p. 14).
Por turista se entende a pessoa que
para turista e que nenhuma pode ser tida
visita temporariamente determinado lugar e
como perfeita (McCabe, 2005; Hunt & Layne,
nele permanece período superior a 24 horas
1991; Morley, 1990).
— ou um pernoite — e inferior a um ano,
Com base na importância dos dois lados
com finalidade de fruição de lazer, descanso,
afetados pelo turismo — o dos nativos e o dos
entretenimento
não
turistas —, deduz-se que raros estudos sérios
lucrativa, aproveitando a paisagem, o clima
acerca da situação turística de um destino e/ou
e/ou a infraestrutura local. Uma definição
da adoção de um modelo de turismo
bastante utilizada é a da ―Conferência sobre
sustentável a este destino podem prescindir da
Viagens Internacionais e Turismo‖, de 1963
visão e da voz deles, de seus pontos de vistas,
(Beni, 2001), que o apresenta como um
de suas percepções, enfim. Percepção, note-
visitante temporário, o qual permanece pelo
se, é um processo pelo qual as pessoas
menos 24 horas no país visitado, cuja
organizam
finalidade de viagem pode ser lazer, negócio,
sensoriais com a intenção de dar sentido ao
família,
seu meio (Robbins, 2005; King et al., 1993).
missão
ou
e
outra
atividade
conferência.
Deve-se
aceitar, porém, que há várias outras definições
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
e
interpretam
impressões
Este estudo, por exemplo, teve como
1412
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
objetivo descrever a percepção de nativos e
— de cerca de 100 ha —, com rica flora,
turistas, em termos de suas necessidades, em
fontes de água, formações rochosas elevadas
relação ao turismo praticado na Serra Negra
— que servem como mirantes — e grutas,
— no município de Bezerros, no estado de
trechos de mata atlântica e trilhas; além de
Pernambuco —, a fim de se identificarem
polo cultural, composto por anfiteatro, centro
necessidades vinculadas às dimensões da
de
sustentabilidade. Por consequência, procurou
artesanato e alojamento (Melo, 2005).
conveniência
para
idosos,
loja
de
elaborar considerações e propostas para unir o
O turismo praticado na Serra Negra se
turismo às práticas sustentáveis, a partir de
dá, sobretudo, em função da natureza,
possíveis insights extraídos do conjunto final
significando, neste sentido, que quem a
de necessidades encontradas.
procura precisa de — e/ou deseja — um
ambiente natural pouco alterado pelo homem
1.4 Delimitação Espacial do Estudo
(César et al., 2007).
A Serra Negra é um dos 10 distritos do
É comum se observar as pessoas se
município de Bezerros, situado no Agreste do
referirem à Serra Negra como um destino
estado
residem,
―ecoturístico‖. Não obstante as controvérsias
aproximadamente, 300 famílias — a maioria
conceituais atreladas ao termo, ele é definido
delas, pequenas proprietárias rurais, dedicadas
pela Sociedade Internacional de Ecoturismo
à agricultura de subsistência, com baixa renda
(Needham & Benfield, 2007, p. 52) como
familiar (Melo, 2005; Buarque, 2008).
"toda a viagem responsável a localidades
de
Pernambuco.
Lá,
A localidade se acha distante 10 km da
sede do Município, em altitude média de 800
metros — com pico de 960 metros. Trata-se
de um brejo de altitude. Seus principais
naturais que conservem o[s] ambiente[s] e
promovam o bem-estar das pessoas".
A prática do ecoturismo (Regules et al.,
2007, p. 37):
atrativos são uma reserva ecológica municipal
[...] apresenta três fatores importantes: conservação do ambiente visitado,
seja ele natural ou cultural; conscientização ambiental do turista e da
comunidade receptora e desenvolvimento local e regional integrado.
Portanto, no ecoturismo, incorporam-se, efetivamente, os princípios do
desenvolvimento sustentável e o aspecto educacional.
O argumento reforça o presente estudo,
2. Material e Métodos
que tenta analisar percepções acerca do
O estudo foi de caráter qualitativo e,
turismo praticado na Serra Negra, face à sua
para buscar seus objetivos, fez uso da
sustentabilidade.
fenomenologia, a qual é, em simultaneidade,
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1413
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
um método e um modo de ver (Gadamer,
ser o que ele é, e, sem ela, ele já não é o
2012; Mora, 1978). Em outros termos, a
mesmo (Panosso Netto, 2011). Ir à essência
fenomenologia é a ciência que busca a
das respostas dos sujeitos do estudo —
descrição daquilo que aparece — por meio da
nativos e turistas —, e a analisar de forma que
compreensão da essência da subjetividade
não houvesse julgamentos, explica como as
(Husserl, 2008a). Ela trata de descrever o
evidências
fenômeno.
sintetizadas.
foram,
aqui,
analisadas
e
O método fenomenológico não existe
Uma das maneiras de se buscarem as
em forma de regra ou modelo rígido a ser
essências de um objeto sobrevem da proposta
seguido (Medeiros et al., 2011). Ele consiste
hermenêutica de três fases da fenomenologia
em
interpretativa, de Heidegger (2012). Ela se
examinar
todos
os
conteúdos
de
consciência. Mas, em vez de determinar se
fundamenta
tais conteúdos são reais ou irreais, ideais ou
relevantes (Fase 1); na interpretação das
imaginários,
são
mesmas, em busca de suas invariantes, por
puramente evidências (Mora, 1978). A tanto,
meio da redução eidética (Fase 2); e na nova
é preciso que ocorra a suspensão dos
compreensão deles (Fase 3), em busca de suas
julgamentos do(s) pesquisador(es) para que as
essências (Medeiros et al., 2011; Panosso
evidências possam ser descritas com total
Netto, 2011; Vergara, 2006). Eis o método
―pureza‖.
usado na análise de evidências do estudo.
examina-os,
enquanto
na
reunião
de
evidências
A fenomenologia se fundamenta no
Toda resposta recebida é tida como
conhecimento e na descrição do mundo das
válida, pois a fenomenologia trabalha para
essências. E, para se conhecer a essência, é
compreender o viver, em conformidade com o
indispensável o uso da intuição, o que seria,
percebido por quem faz parte deste viver
para Husserl (Husserl, 2008b; 2001), a
(Panosso Netto, 2011; Stein, 2001; Vattimo,
intuição da essência — a intuição eidética.
1996). Tal fato se torna precípuo por levar em
A redução eidética — ou epoché — é a
conta que o olhar do(s) sujeitos(s) é mais
única maneira de se alcançar a generalidade
importante que o do(s) pesquisador(es). A
essencial. Logo, seu papel elimina — reduz
experiência e a percepção dos nativos e dos
— influências psicológicas que possam haver
turistas podem se materializar sob a visão dos
no fenômeno. A redução eidética não é mais
que, verdadeiramente, vivem o fenômeno, e
que a transformação dos fenômenos em
não dos que o pesquisam (Medeiros et al.,
essências (Panosso Netto, 2011).
2011; Pernecky, 2010; Pernecky & Jamal,
Em
geral,
usa-se
o
método
2010).
fenomenológico para buscar as essências do
Nos estudos norteados pelo método
que é estudado — a essência faz o fenômeno
fenomenológico a fonte básica de evidências é
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1414
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
o relato do sujeito e a técnica mais utilizada à
três perguntas principais, vinculadas ao
obtenção deles é a entrevista aberta ou
mesmo tema: as necessidades do entrevistado
semiestruturada (Vergara, 2006; Sokolowski,
quanto ao turismo praticado na Serra Negra.
2004).
Foram elas as seguintes:
As evidências de campo do estudo
1. Em sua opinião, quais os pontos
foram coletadas nos dias 15, 16, 22 e 23 de
negativos existentes no destino
abril de 2011. Realizaram-se 11 entrevistas
turístico Serra Negra?
com nativos e turistas encontrados na Serra
Negra,
em
três
pontos
diferentes:
2. Em sua opinião, quais mudanças
no
são necessárias ao destino turístico
anfiteatro, na pousada Sítio da Pedra Solta e
Serra Negra?
na vila central. Das entrevistas, utilizaram-se
3. Se o(a) sr(a). tivesse poder para
8 no estudo — divididas igualmente entre
fazê-lo, o que mudaria/implantaria
nativos e turistas —, para evitar saturação de
no destino turístico Serra Negra?
conteúdo, devido a semelhanças nas respostas
recebidas.
Além delas, outras perguntas foram
formuladas no decorrer de cada entrevista,
Com o uso do método fenomenológico
conforme
os
pesquisadores
julgavam
— e, em particular, das entrevistas — a
pertinente. Justificam-se as perguntas, de
saturação é previsível (Godoi & Mattos, 2006;
certo modo redundantes, para se evitarem
Mattos, 2006; Sokolowski, 2004). Ao adotar
respostas
abordagens semelhantes, em estudos sobre
explorarem, ao máximo, as evidências obtidas
destinações turísticas, Valença (2008) e
durante a tarefa.
vagas
ou
insuficientes
e
se
Valença et al. (2010), por exemplo, já o
Evidências complementares utilizadas
haviam constatado. Aumentar a quantidade de
no estudo foram coletadas por meio de
sujeitos entrevistados, portanto, não afetaria
levantamentos bibliográficos e documentais e
decisamente resultados.
de observações diretas.
Entre
os
entrevistados
nativos,
A análise das evidências foi qualitativa.
figuravam uma caseira, uma comerciante
De
informal, um proprietário de padaria e um de
trabalho intelectual de se decifrar seus
restaurante. Entre os entrevistados turistas,
sentidos
por seu turno, figuravam uma biomédica, um
significados,
professor universitário, uma professora de
literal, e, então, fazendo-se uma síntese.
ensino fundamental e uma aposentada.
Tratou-se de tradicional processo de análise e
As
entrevistas,
que
duraram,
no
maneira
simplificada,
aparentes,
consistiu
desdobrando-se
implicados
na
no
seus
significação
síntese (Medeiros et al., 2011).
máximo, 15 minutos, cada, calcaram-se em
Para a interpretação de evidências, foi
um roteiro semiestruturado, o qual possuía
utilizada a hermenêutica, de Heidegger — a
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1415
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
fenomenologia interpretativa (Vergara, 2006;
transcrições das respostas recebidas — os
Stein, 2001; Vattimo, 1996). E, a partir das
trechos
respostas recebidas, fez-se a redução eidética
entrevistado — o dos nativos e o dos turistas,
dos trechos relevantes.
reitera-se —, sem identificar quem foi
Por ―trechos relevantes‖ entende-se que
estejam
dentro
do
contexto
turismo-
sustentabilidade. Assim, foram encontrados
relevantes
—
de
cada
grupo
responsável por cada resposta. Os resultados
deixam claro apenas a qual grupo pertence
a(s) resposta(s).
os resultados descritos na próxima seção.
A Tabela 2 expõe, exemplarmente, um
As respostas foram sistematicamente
modelo de procedimentos adotado na análise
das
separados — o de respostas advindas do
hermenêutico
grupo dos nativos e do grupo dos turistas. Por
fenomenológica, de Heidegger (2012). As
fim, os produtos dos dois conjuntos foram
demais respostas foram analisadas da mesma
cruzados
forma. Por conseguinte, o conteúdo da Tabela
e,
novamente,
analisados
e
sintetizados.
respostas
recebidas
—
analisadas e sintetizadas em dois conjuntos
de
o
modelo
interpretação
2 são os trechos relevantes das respostas dos
sujeitos — as essências de suas percepções —
, que desvelam necessidades relacionadas ao
3. Resultados
Ao se analisar as evidências do estudo,
optou-se
por
expor
as
essências
turismo praticado na Serra Negra.
das
Tabela 2. Modelo de análise de respostas de nativos e turistas da Serra Negra, com base na
fenomenologia interpretativa de Heidegger (2012)
Embora a Tabela 2 se estruture de
listadas.
acordo com três fases, sua função estrita foi
Conjunto de necessidades dos nativos:
expor a terceira. Logo, a começar pela análise
infraestrutura básica; expansão do comércio;
da percepção dos sujeitos, passando pela
educação à preservação do ambiente natural;
busca de suas invariantes, encontraram-se as
capacitação
necessidades turísticas essenciais, abaixo
promoção de eventos; valorização da cultura
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
profissional
dos
nativos;
1416
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
local; melhoria da interação entre nativos e
implantado na Serra Negra sem
turistas.
planejamento, a necessidade de
Conjunto de necessidades dos turistas:
infraestrutura é comum a inúmeras
infraestrutura básica; expansão do comércio;
localidades,
educação à preservação do ambiente natural;
(Lohmann, 2008; Valença, 2008),
capacitação
e que infraestruturas de suporte à
contenção
profissional
do
turismo
dos
em
nativos;
massa;
e
turísticas
sustentabilidade
ou
são,
não
hoje,
manutenção do estado original das dimensões
questões globais prioritárias (Reis,
ambientais.
2010).
Ressalta-se que as necessidades: (i) não
foram listadas segundo ordens de valores; (ii)
Ênfase
nas
dimensões
econômica e social.

Expansão
do
comércio
indicam, de imediato, impactos negativos do
(convergente):
turismo praticado na Serra Negra, face ao
quantidade
quadro referencial de ―impactos negativos do
empreendimentos
comerciais:
turismo‖ — Tabela 1, exposto anteriormente;
bares,
sorveterias,
e (iii) serão melhor descritas na próxima
mercados, postos de combustíveis,
seção.
farmácias e outros. Note-se que, a
e
Refere-se
à
qualidade
restaurantes,
à
de
despeito de ambos os grupos
4. Discussão
possuírem a mesma necessidade,
Os resultados do estudo expuseram dois
ela se dá por interesses diferentes.
conjuntos de necessidades relacionadas ao
O grupo dos nativos se interessa
turismo praticado na Serra Negra, com base
pela geração de emprego e renda
nas percepções de dois grupos de sujeitos —
para si; o dos turistas, pelo
nativos e turistas. O conjunto do grupo dos
aumento de concorrência e oferta,
nativos foi composto por 7 necessidades; o do
e pela diminuição de preços para
grupo dos turistas, por 6. Entretanto, como 4
si. Ênfase na dimensão econômica
eram convergentes, 9 se caracterizaram como
e social.

necessidades singulares:

Infraestrutura
(convergente):
básica
Refere-se
Educação
à
preservação
do
ambiente natural (convergente):
a
Refere-se à conscientização e à
sistemas viário e de transporte, de
sensibilização das pessoas para
comunicação,
saneamento
resguardar a natureza local. Note-
ambiental, de energia, de saúde, de
se que os dois grupos de sujeitos
segurança pública e outros. Note-
direcionaram a necessidade de
se que, apesar do turismo ter sido
educação predominantemente aos
de
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1417
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
nativos.
Pode-se
inferir,
a
princípio, que os turistas são mais
conscientes

da
interação
entre
preservação do ambiente natural.
aperfeiçoamento dos contatos entre
Ênfase na dimensão natural.
nativos e turistas. Note-se que a
profissional
dos
necessidade é dos nativos. São eles
nativos (convergente): Refere-se à
quem aspiram ao contato mais
qualificação dos nativos para atuar
intenso e qualificado com os
na atividade turística. Note-se que,
turistas. Ênfase na dimensão social
semelhante
e cultural.
à
do
necessidade
comércio,
a
de
de

Contenção do turismo em massa:
capacitação se dá por interesses
Refere-se à manutenção, dentro de
diferentes.
Os
nativos
se
certos
interessam
por
expansão
do
turistas. Note-se que a necessidade
turismo; os turistas, por melhor
foi lançada pelos próprios e que
atendimento. Ênfase na dimensão
está relacionada ao interesse —
econômica.
subjacente
Promoção de eventos: Refere-se a
extrapolação da capacidade de
ações
manter
carga local, senão haverá prejuízo
quantidades crescentes de turistas
ao sossego na fruição do turismo.
—
Note-se
para
atrair
trata-se,
em
promoção
de
populares,
além
e
especial,
shows
da
limites,
do
—
em
também
afluxo
de
evitar
que
a
há
musicais
controvérsias sobre a admissão do
que
já
turismo em massa como prática
existem. Note-se que a necessidade
reprovável (Beni, 2001; Trigo,
foi lançada pelos nativos e que está
1998). Ênfase(s) dimensional(is)
relacionada
não identificada(s).
a
dos
dois
interesses:
aumentar a demanda por turismo e
diminuir

Melhoria
nativos e turistas: Refere-se ao
Capacitação
sensíveis

à
expansão

e
dimensão cultural.
a
sua
sazonalidade.

Manutenção do estado original das
dimensões ambientais: Não se
Ênfase na dimensão econômica.
refere, de fato, a uma necessidade,
Valorização
local:
e sim a uma ―não-necessidade‖.
Refere-se ao reconhecimento e à
Note-se que ela advém dos turistas
preservação do modo de ser, viver,
e
relacionar-se e comportar-se dos
preocupação com a preservação do
nativos. Note-se que a necessidade
status
emerge dos próprios. Ênfase na
ambientais da Serra Negra. Mas,
da
cultura
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
carrega
quo
consigo
das
uma
dimensões
1418
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
por outro lado, carrega também
uma
despreocupação
—
usufruem do turismo (Cruz, 2002;
ou
1999).
alienação — frente ao contexto
As 9 necessidades singulares conjuntas,
local: os turistas, em geral, não se
de
interessam por reflexões sobre
sinteticamente, na Figura 1.
sustentabilidade
nativos
e
turistas,
estão
expostas,
enquanto
Figura 1. Síntese das necessidades singulares, de nativos e turistas, da Serra Negra
Os resultados expuseram 4 necessidades
certo modo, são diametralmente opostas e se
— de nativos e turistas — convergentes:
anulam. A necessidade de promoção de
infraestrutura básica, expansão do comércio,
eventos — dos nativos — e a de contenção do
educação à preservação do ambiente natural e
turismo em massa — dos turistas —,
capacitação profissional dos nativos. Elas
materializa um conflito de interesses.
estão vinculadas à preparação de uma
As necessidades — dos nativos, em
localidade para ser um destino turístico e
particular — de valorização da cultura local e
deveriam
de melhoria da interação entre nativos e
ter
sido
satisfeitas
antes
da
implantação do turismo na Serra Negra.
As
necessidades
de
promoção
turistas são diferentes. No entanto, não
de
eventos e de contenção do turismo em massa
são divergentes. Não só isto, contudo. De
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
divergentes. Assim, podem e/ou devem ser
satisfeitas, simultaneamente.
A
busca
e
o
alcance
do
1419
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
desenvolvimento sustentável e, por extensão,
atendidas, auxiliam na distribuição
do turismo sustentável, ocorre por meio do
de
equilíbrio
—
dimensional
benefícios
elementares
à
ou seja, do
comunidade e na preservação de
equilíbrio dinâmico entre as dimensões
seus costumes distintos, além de
econômica, natural, social e cultural.
na racionalidade da utilização de
Tendo os impactos negativos do turismo
— expostos na Tabela 1 — como referência
recursos naturais.

A necessidade de interação entre
para a análise e a síntese dos resultados do
nativos e turistas deve ser satisfeita
estudo, observa-se, por exemplo, que:
com cautela. Por um lado, ela

Se as necessidades de expansão do
atende
comércio
de
louvável
pleito
—
de
contemporâneo
satisfeitas,
de
multiculturalismo; por outro, ela se
maneira indiscriminada, atenderão,
arrisca em uma homogeneidade
com
cultural
forem
ênfase,
econômica
às
e
dimensões
social
—
o
dispensável.
Nestes
sentidos, a necessidade envolve
principalmente, à primeira. As
potenciais
dimensões natural e cultural, por
impactos sociais e culturais.
sua vez, sofrerão intensos impactos

um
promoção
eventos
e
a

e
significativos
A satisfação da necessidade de
negativos. Desde já, é possível
contenção do turismo em massa
prever alguns deles: aumento do
não é consensual. Seus defensores
afluxo de turistas, da violência
creem que, se bem gerenciada, a
urbana e da exploração de recursos
prática
naturais, além de deturpação ou
positivos
destruição dos valores locais.
opositores
As necessidades de infraestrutura,
inapelavelmente, o turismo em
de educação à preservação do
massa, em tal tipo de destino — o
ambiente natural, de capacitação
―ecoturístico‖ —, é insustentável,
profissional dos nativos e de
em médio e longo prazos.
valorização da cultura local, por

causa
que
mais
impactos
negativos.
Seus
creem
que,
A necessidade de manutenção do
levarem em consideração outras
estado original das dimensões
dimensões ambientais — a saber,
ambientais
as natural, social e cultural —,
uma
estão em consonância com os
realidade,
princípios
da
impossível.
turísticas.
Tais
sustentabilidade
necessidades
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
é,
categoricamente,
―não-dimensão‖.
sua
O
E,
na
satisfação
é
contexto
da
localidade já foi transformado.
1420
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
Como qualquer lugar, ela está
infraestrutura básica; expansão do comércio;
contida em um processo contínuo
educação à preservação do ambiente natural;
de transformação ―lugar / não
capacitação
lugar / lugar‖ (Gallero, 2004). Na
promoção de eventos; valorização da cultura
atualidade, pode-se apenas tentar
local; melhoria da interação entre nativos e
gerenciar
a
turistas; contenção do turismo em massa; e
transformações
manutenção do estado original das dimensões
a
velocidade

intensidade
das
e
profissional
dos
nativos;
ambientais.
ambientais. As quatro primeiras eram as
Dentre as quatro dimensões da
convergentes.
sustentabilidade, a natural foi a
O processo de análise e síntese das
menos enfatizada. Justamente ela,
percepções de necessidades permitiu que
a primeira a chamar a atenção das
considerações e propostas fossem feitas.
pessoas
—
gestoras
públicas
nativas,
e
turistas,
privadas,
pesquisadoras e outras — ao
Destacam-se,
a
seguir,
algumas,
como
exemplos:

Cada grupo de atores possui um
potencial turístico da localidade.
entendimento diferente acerca do
Eis
um
modelo de turismo que deve ser
paradoxo corrente às localidades
praticado na Serra Negra. O grupo
com potencial ―ecoturístico‖.
dos nativos tenta praticar um
a
manifestação
de
modelo que gere continuamente
crescimentos e ganhos econômicos
5. Conclusões
para si — uma clara ênfase à
O objetivo do estudo foi descrever a
percepção de nativos e turistas, em termos de
dimensão
necessidades, em relação ao turismo praticado
sustentabilidade, em detrimento
na Serra Negra, no município de Bezerros
das dimensões natural, social e
(PE). Como resultados, o grupo dos nativos e
cultural. O grupo dos turistas, por
o dos turistas expuseram conjuntos compostos
seu
por 7 e 6 necessidades, respectivamente.
modelo que equilibre mutuamente
Entretanto, a partir da análise de cada
as dimensões da sustentabilidade,
conjunto, produziu-se uma síntese única de
porém ignora as necessidades dos
necessidades singulares, fundamentada no
nativos — ao turista, parece
fato de que 4 necessidades eram convergentes
importar
entre os grupos — isto é, comuns entre eles.
sustentável, e não a comunidade
A síntese das percepções resultou nas
seguintes
necessidades
singulares:
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
econômica
turno,
tenta
mais
o
praticar
turismo
da
um
ser
local o ser.

As necessidades dos atores são, em
1421
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
alguns
casos,
diametralmente
e
em preocupante plano secundário.
—
a
Logo, faz-se premente a criação,
opostas
exemplo da promoção de eventos,
implantação
dos nativos, e da contenção do
ininterrupto programa de educação
turismo em massa, dos turistas. As
ambiental, com projetos diversos,
divergências criam, em princípio,
dirigidos a públicos diversos.
uma

divergentes
situação
e
gestão
de
um
conflituosa,
A identificação, análise, síntese e
ameaçadora à sustentabilidade do
descrição das percepções de necessidades de
turismo. E, por implicação, criam
nativos e de turistas em relação ao turismo
uma
à
praticado na Serra Negra serve como um
sustentabilidade da comunidade
ponto de partida para novos estudos —
local, em médio e longo prazos.
variados
O grupo dos turistas apresentou
sustentabilidade turística.
potencial
ameaça
e
complementares
—
sobre
uma espécie de ―não-necessidade‖:
Aproveita-se a ocasião para admitir que
a manutenção do estado original
o presente estudo não é absoluto. Há inúmeras
das dimensões ambientais. A rigor,
possibilidades para amadurecimentos — a
ela é um desejo de preservação do
exemplo da inclusão da dimensão ―política‖,
status
junto às econômica, natural, social e cultural,
quo
das
dimensões
ambientais da Serra Negra. Mas,
e do tema ―políticas públicas‖.
trata-se de uma impossibilidade.
Todo e qualquer lugar se encontra
6. Referências
em
Acselrad, H. (2009). O que é justiça
contínuo
processo
de
transformação. Portanto, a única
providência
controlar
velocidade
possível
a
é
tentar
a
Beni, M. C. (2001). Análise estrutural do
transformações,
turismo. 5. ed. São Paulo: Serviço Nacional
intensidade
das
ambiental. Rio de Janeiro: Garamond.
e
pautando-as pelos princípios de
de Aprendizagem Comercial (SENAC).
sustentabilidade.

A Serra Negra foi ―descoberta‖
Branco, S. M. L. (1997). O meio ambiente em
para o turismo em função do seu
debate. 26. ed. São Paulo: Moderna.
ambiente natural — seu atrativo
primordial. Hoje, esta dimensão
Buarque, S. C. (2008). Cidade do futuro:
ainda é diferencial. Contudo, na
desafio dos municípios de Pernambuco.
lista de necessidades singulares de
Recife: Serviço de Apoio às Micro e
seus nativos e turistas, ela figura
Pequenas Empresas (SEBRAE).
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1422
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
César, P. de A. B.; Stigliano, B. V.;
Hunt, J. D. & Layne, D. (1991). Evolution of
Raimundo, S. & Nucci, J. C. (2007).
travel
Ecoturismo. São Paulo: IPSIS.
definitions. Journal of Travel Research, v. 29,
and
tourism
terminology
and
n. 4, p. 7-11, Apr.
Cruz, R. de C. A. da (2002). O Nordeste que o
turismo(ta) não vê. In: Rodrigues, A. B.
Husserl, E. (2008a). A crise da humanidade
Turismo, modernidade, globalização. 3. ed.
europeia e a filosofia. Covilhã: Lusosofia.net.
São Paulo: Hucitec. p. 210-218.
Husserl,
Cruz, R. de C. A. da (1999). Políticas de
E.
(2008b).
A
ideia
da
fenomenologia. Lisboa: Edições 70.
turismo e construção do espaço turístico
litorâneo no Nordeste do Brasil. In: Lemos,
Husserl, E. (2001). Meditações cartesianas:
A. I. de (Organizador). Turismo: impactos
introdução à fenomenologia. São Paulo:
socioambientais. 2. ed. São Paulo: Hucitec, p.
Madras.
263-272.
IBGE
Gadamer,
Hans-Georg
(2012).
Hegel
–
Husserl – Heidegger. Petrópolis: Vozes.
(2004).
Instituto
Brasileiro
de
Geografia e Estatística. Vocabulário básico de
recursos naturais e meio ambiente. 2. ed. Rio
de Janeiro: IBGE.
Gallero, A. L. (2004). O lugar e o não-lugar
no turismo. In: Gastal, S.; Moesch, M. M.
King, B.; Pizam, A. & Milman, A. (1993).
(Organizadores).
Social impacts of tourism: host perceptions.
Um
outro
turismo
é
possível. São Paulo: Contexto, p. 36-42.
Annals of Tourism Research, v. 20, n. 4, p.
650-665.
Godoi, C. K. & Mattos, P. L. C. L. de. (2006).
Entrevista
qualitativa:
instrumento
de
Krippendorf,
J.
(2001).
Sociologia
do
pesquisa e evento dialógico. In: Godoi, C. K.;
turismo: para uma nova compreensão do lazer
Bandeira-de-Mello, R.; Silva, A. B. de.
e das viagens. São Paulo: Aleph.
(Organizadores). Pesquisa qualitativa em
paradigmas,
Lohmann, G. (2008). Teoria do turismo:
estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva, p.
conceitos, modelos e sistemas. São Paulo:
301-323.
Aleph.
Heidegger, M. (2012). Ser e tempo. 6. ed.
Mattos, P. L. C. L. de (2006). Análise de
Petrópolis (RJ); Bragança Paulista (SP):
entrevistas não estruturadas: da formalização
Vozes; Editora Universitária São Francisco.
à pragmática da linguagem. In: Godoi, C. K.;
estudos
organizacionais:
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
1423
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
Bandeira-de-Mello, R. & Silva, A. B. de.
Myanaki, J.; Leite, E.; César, P. de A. B. &
(Organizadores). Pesquisa qualitativa em
Stigliano, B. V. (2007). Cultura e turismo.
estudos
São Paulo: IPSIS.
organizacionais:
paradigmas,
estratégias e métodos. São Paulo: Saraiva, p.
Nascimento, E. P. do & Vianna, J. N. (2009).
347-373.
Dilemas e desafios do desenvolvimento
Mccabe, S. (2005). ‗Who is tourist?‘ A
sustentável no Brasil. Rio de Janeiro:
critical review. Tourist Studies, v. 5(1), p. 85-
Garamond.
106, Apr.
Nascimento, L. F.; Lemos, A. D. da C. &
Medeiros, M. L.; Passador, J. L. & Becheleni,
Mello,
D. G. (2011). A fenomenologia e a pesquisa
socioambiental estratégica. Porto Alegre:
em turismo: reflexão para aplicação com base
Bookman.
M.
C.
A.
de
(2008).
Gestão
no turismo gastronômico. Turismo – Visão e
Needham, N. & Benfield, S. B. (2007).
Ação [Eletrônica], v. 13, n. 1, p. 20-34.
Passaporte para o mundo. São Paulo: IPSIS.
Melo, M. J. G. (2005). A inserção do
ecoturismo
no
brejo
Negra/Bezerros/PE:
uma
de
proposta
Serra
de
desenvolvimento socioespacial? 2005. 125 f.
Dissertação (Mestrado) – Curso de Mestrado
em Geografia, da Universidade Federal de
Paiva, M. das G. de M. V. (1995). Sociologia
do turismo. Campinas: Papirus.
Panosso Netto, A. (2011). Filosofia do
turismo: teoria e epistemologia. 2. ed. São
Paulo: Aleph.
Pernambuco (UFPE), Recife.
Pernecky, T. (2010). The being of tourism.
Mendonça, T. C. de M. & Irving, M. de A.
(2004). Turismo de base comunitária: a
participação
como
prática
The Journal of Tourism and Peace Research,
1(1), p. 1-15.
no
desenvolvimento de projetos turísticos no
Pernecky,
T.
Brasil – Prainha do Canto Verde, Beberibe
(Hermeneutic) Phenomenology in tourism
(CE). Caderno Virtual de Turismo, v. 4, n. 4,
studies. Annals of Tourism Research, v. 37, n.
p. 12-22.
4, p. 1055-1075.
Morley, C. L. (1990). What is tourism?
Prado, R. M. (2003). As espécies exóticas
Definitions, concepts and characteristics.
somos
Journal of Tourism Studies, v. 1, p. 3-8, Dec.
ecoturismo
nós:
&
Jamal,
reflexão
na
Ilha
a
T.
(2010).
propósito
Grande.
do
Horizontes
Antropológicos, a. 9, n. 20, p. 205-224, out.
Mora, J. F. (1978). Dicionário de filosofia.
Lisboa: Dom Quixote.
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
Regules, M. P. P.; Cavalcanti, P. A. B.;
1424
Revista Brasileira de Geografia Física 06 (2012) 1408-1425
Tibério, W. & Silva, V. C. (2007). Ética, meio
Stein, E. (2001). Compreensão e finitude:
ambiente e cidadania para o turismo. São
estrutura
Paulo: IPSIS.
Heideggeriana. Ijuí: Unijuí.
Reis, L. B. dos (2010). Infra-estrutura básica
UN – United Nations (1987). General
como fundamento do turismo. In: Philippi Jr.,
Assembly – A/42/427 – Report of the World
A.
Commission
&
Ruschmann,
(Organizadores).
D.
Gestão
van
de
ambiental
M.
e
sustentabilidade no turismo. Barueri: Manole,
e
movimento
on
da
interrogação
Environment
and
Development – Our Common Future. [sine
loco]: UN.
p. 633-658.
Valença, S. (2008). Modelo para elaboração
Ricardo, B. & Campanili, M. (Editores).
de um sistema de gestão sustentável para um
(2008). Almanaque Brasil socioambiental.
destino turístico de zona costeira: um estudo
São Paulo: Instituto Socioambiental.
em Porto de Galinhas, no município de
Robbins S. P. (2005). Fundamentos do
comportamento organizacional. 7. ed. São
Paulo: Prentice-Hall.
Ipojuca, em Pernambuco. 2008. 275 f. Tese
(Doutorado) – Programa de Pós-graduação
em
Engenharia
Universidade
Trigo, L. G. G. (1998). A sociedade pós-
Civil
Federal
(PPGEC),
de
da
Pernambuco
(UFPE), Recife.
industrial e o profissional em turismo.
Valença, S.; Sobral, M. do C. M.; Ramos, D.
Campinas: Papirus.
&
Cavalcanti,
C.
(2010).
Prospective
Trigo, L. G. G.; Almeida, R. A. de; Leite, E.
scenarios of the environmental management
& Malcher, M. A. (2007). Aprendiz de lazer e
of the tourist destination of Porto de Galinhas
turismo. São Paulo: IPSIS.
based on the enlargement of the Industrial and
Portuary Complex of Suape, Pernambuco.
Sachs, I. (2003). Inclusão social pelo trabalho:
desenvolvimento humano, trabalho decente e
Management
Enviromental
Quality:
an
International Journal, v. 21, n. 3, p. 336-350.
o futuro dos empreendedores de pequeno
porte no Brasil. Rio de Janeiro: Garamond,
Vattimo, G. (1996). Introdução a Heidegger.
2003.
10. ed. Lisboa: Instituto Piaget.
Sokolowski,
R.
(2004).
Introdução
à
fenomenologia. São Paulo: Loyola.
Valença, S.; Bastos, A. F. S.; Paz-e-Silva, K. M.; Sales, D. M. B.
Vergara, S. C. (2006). Métodos de pesquisa
em administração. 2. ed. São Paulo: Atlas.
1425
Download

PROPOSTA DE ARTIGO: