BRAZILIAN JOURNAL OF RHEUMATOLOGY REVISTA BRASILEIRA DE REUMATOLOGIA Official Organ of Brazilian Society of Rheumatology Órgão Oficial da Sociedade Brasileira de Reumatologia NOVEMBER/DECEMBER 2012 • VOLUME 52 • NUMBER 6 NOVEMBRO/DEZEMBRO 2012 • VOLUME 52 • NÚMERO 6 ISSN: 0482-5004 EDITORIAL | EDITORIAL 817 818 Antinucleosome and anti-C1q antibodies in juvenile systemic lupus erythematosus Anticorpos antinucleossomo e anti-C1q no lúpus eritematoso sistêmico juvenil Paulo Louzada-Junior, Max Victor Carioca Freitas ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL 819 824 Disability and quality-of-life are not influenced by the prevalence of autoantibodies in early rheumatoid arthritis patients – results of the Brasília Cohort Incapacitação e qualidade de vida não são influenciadas pela prevalência de autoanticorpos em pacientes com artrite reumatoide inicial – resultados da Coorte Brasília Licia Maria Henrique da Mota, Leopoldo Luiz dos Santos Neto, Rufus W. Burlingame, Henri A. Ménard, Ivanio Alves Pereira, Jozélio Freire de Carvalho, Ieda Maria Magalhães Laurindo 830 837 Therapeutic efficacy and safety of methotrexate + leflunomide in Colombian patients with active rheumatoid arthritis refractory to conventional treatment Eficácia terapêutica e segurança de metotrexato + leflunomida em pacientes colombianos com artrite reumatoide ativa refratária ao tratamento convencional John Londono, Ana Maria Santos, Pedro Ivan Santos, Maria Fernanda Cubidez, Claudia Guzman, Rafael Valle-Oñate 846 851 Effect of hydrotherapy on quality of life, functional capacity and sleep quality in patients with fibromyalgia Efeito da hidrocinesioterapia sobre qualidade de vida, capacidade funcional e qualidade do sono em pacientes com fibromialgia Kyara Morgana Oliveira Moura Silva, Silvia Jurema Pereira Tucano, Claudia Kümpel, Antonio Adolfo Mattos de Castro, Elias Ferreira Porto 858 863 Serum levels of vitamin B12 are not related to low bone mineral density in postmenopausal Brazilian women Níveis séricos de vitamina B12 não se relacionam com baixa densidade mineral óssea em mulheres brasileiras na pós-menopausa Adriana Maria Kakehasi, Ariane Vieira Carvalho, Fabiana Alves Nunes Maksud, Alfredo José Afonso Barbosa 870 876 Impact of exercise on the functional capacity and pain of patients with knee osteoarthritis: a randomized clinical trial Impacto dos exercícios na capacidade funcional e dor em pacientes com osteoartrite de joelhos: ensaio clínico randomizado Aline Mizusaki Imoto de Oliveira, Maria Stella Peccin, Kelson Nonato Gomes da Silva, Lucas Emmanuel Pedro de Paiva Teixeira, Virgínia Fernandes Moça Trevisani 883 887 Sexual activity in ankylosing spondylitis Atividade sexual na espondilite anquilosante 892 897 Adult dermatomyositis: experience of a Brazilian tertiary care center Dermatomiosite em adulto: experiência de um centro terciário brasileiro Andrea Lopes Gallinaro, Lilian Lie Akagawa, Mariana Hissami Ichiba Otuzi, Percival Degrava Sampaio-Barros, Célio Roberto Gonçalves Fernando Henrique Carlos de Souza, Thiago Bitar Moraes Barros, Maurício Levy-Neto, Samuel Katsuyuki Shinjo REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO 903 907 Temporomandibular joint alterations and their orofacial complications in patients with juvenile idiopathic arthritis Alterações da articulação temporomandibular e suas repercussões orofaciais em pacientes portadores de artrite idiopática juvenil Renata Teixeira de Carvalho, Flávia Silva Farah Ferreira Braga, Fernanda Brito, Jonas Capelli Junior, Carlos Marcelo Figueredo, Flávio Roberto Sztajnbok 912 924 Pharmacoeconomic analysis of strategies to treat postmenopausal osteoporosis: a systematic review Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Cristina Mariano Ruas Brandão, Gustavo Pinto da Matta Machado, Francisco de Assis Acurcio 938 943 Sexual dysfunction in patients with psoriasis and psoriatic arthritis − a systematic review Disfunção sexual em pacientes com psoríase e artrite psoriásica − uma revisão sistemática Patricia Shu Kurizky, Licia Maria Henrique da Mota CASE REPORT | RELATO DE CASO 949 952 Autoantibodies coexistence in systemic sclerosis: how to interpret it? Concomitância de autoanticorpos na esclerose sistêmica: como interpretar? Scheila Fritsch, Vanessa Irusta Dal Pizzol, Eduardo dos Santos Paiva, Carolina de Souza Muller 956 960 Protein-losing enteropathy in systemic lupus erythematosus: case report Enteropatia perdedora de proteínas no lúpus eritematoso sistêmico: relato de caso Fernando Moreira Batista Aguiar, Zilaís Linhares Carneiro Menescal, Débora Maia da Costa, José Walter Correia, José Gerardo Araújo Paiva, Júlio Marcus Sousa Correia 965 968 Increased photosensitivity? Case report of porphyria cutanea tarda associated with systemic lupus erythematosus Fotossensibilidade amplificada? Relato de porfiria cutânea tarda associada a lúpus eritematoso sistêmico Scheila Fritsch, Adma Silva de Lima Wojcik, Lilian Schade, Milton Marcio Machota Junior, Fabiane Mulinari Brenner, Eduardo dos Santos Paiva BRIEF COMMUNICATION | COMUNICAÇÃO BREVE 971 976 Anti-C1q, anti-chromatin/nucleosome, and anti-dsDNA antibodies in juvenile systemic lupus erythematosus patients Anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil Adriana Almeida de Jesus, Lucia Maria Arruda Campos, Bernadete Lourdes Liphaus, Magda Carneiro-Sampaio, Cristóvão Luis Pitangueira Mangueira, Eliane Aparecida Rosseto, Clovis Artur Almeida da Silva, Morton Scheinberg INDEX | ÍNDICE 982 Content index | Índice por edição 989 Subject index 991 Índice por assunto 993 Authors index | Índice por autor EDITORIAL Anticorpos antinucleossomo e anti-C1q no lúpus eritematoso sistêmico juvenil © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. m adultos, o anticorpo antinucleossomo já foi descrito como marcador de atividade da doença e de nefrite lúpica em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES).1–4 Além disso, anticorpos anti-C1q e antinucleossomo têm efeito amplificador na etiopatogênese da nefrite lúpica de adultos.5 Neste número da Revista Brasileira de Reumatologia, Jesus et al.6 demonstram de forma clara a associação desses anticorpos com a nefrite lúpica, indicando que poderiam ser um biomarcador em potencial para a ocorrência de lesão renal no LES juvenil. Esse mesmo grupo já havia demonstrado a associação dos anticorpos antinucleossomo com a atividade da doença, mas não com a nefrite lúpica.7 Uma das principais preocupações do reumatologista é ter um exame que possa ser útil no seguimento do paciente com LES, seja adulto ou pediátrico, especialmente no que se refere em estabelecer a atividade da doença e o diagnóstico correto. Assim, o trabalho de Jesus et al.6 mostrou que os anticoporpos antinucleossomo e anti-C1q apresentaram alta especificidade e elevado valor preditivo positivo, superior a 97%, para diagnóstico de lúpus, podendo ser considerados instrumentos confiáveis na prática clínica. Por fim, os autores também mostraram que as determinações dos anticorpos antinucleossomo e anti-C1q podem ser realizadas na avaliação do diagnóstico de lúpus, especialmente em pacientes com LES juvenil, que apresentam anticorpos anti-dsDNA negativos. E REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. Kiss E, Lakos G, Szegedi G, Poor G, Szodoray P. Anti-nucleossomo antibody, a reliable indicator for lupus nephritis. Autoimmunity 2009; 42(5):393–8. Muller S, Dieker J, Tincani A, Meroni PL. Pathogenic antinucleossomo antibodies. Lupus 2008; 17(5):431–6. Gómez-Puerta JA, Burlingame RW, Cervera R. Anticromatina (antinucleossomo) antibodies: diagnostic and clinical value. Autoimmun Rev 2008; 7(8):606–11. Souza A, da Silva LM, Oliveira FR, Roselino AM, Louzada-Junior P. Anti-nucleossomo and anticromatina antibodies are present in active systemic lupus erythematosus but not in the cutaneous form of the disease. Lupus 2009; 18(3):223–9. O’Flynn J, Flierman R, van der Pol P, Rops A, Satchell SC, Mathieson PW et al. Nucleossomos and C1q bound to glomerular endothelial cells serve as targets for autoantibodies and determine complement activation. Mol Immunol 2011; 49(1-2):75–83. Jesus AA, Campos LMA, Liphaus BL, Carneiro-Sampaio M, Mangueira CLP, Rosseto EA et al. Anti-C1q, anti-chromatin/ nucleosome, and anti-dsDNA antibodies in juvenile systemic lupus erythematosus patients. Rev Bras Reumatol 2012; 52(6):971–81. Jesus AA, Silva CA, Carneiro-Sampaio M, Sheinberg M, Mangueira CL, Marie SK et al. Anti-C1q antibodies in juvenile-onset systemic lupus erythematosus. Ann N Y Acad Sci 2009; 1173:235–8. Paulo Louzada-Junior Max Victor Carioca Freitas Editores-chefe, Revista Brasileira de Reumatologia 818 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):817-818 ARTIGO ORIGINAL Incapacitação e qualidade de vida não são influenciadas pela prevalência de autoanticorpos em pacientes com artrite reumatoide inicial – resultados da Coorte Brasília Licia Maria Henrique da Mota1, Leopoldo Luiz dos Santos Neto2, Rufus W. Burlingame3, Henri A. Ménard4, Ivanio Alves Pereira5, Jozélio Freire de Carvalho6, Ieda Maria Magalhães Laurindo7 RESUMO Introdução: Embora muitos estudos sugiram que a presença de autoanticorpos, tais como fator reumatoide (FR) e/ou antipeptídeos citrulinados cíclicos (anti-CCP), sejam preditores de danos articulares na artrite reumatoide (AR), a associação entre os questionários de incapacidade e de qualidade de vida ainda são desconhecidos. Objetivos: Avaliar a correlação entre os questionários Health Assessment Questionnaire (HAQ) e Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health Survey (SF-36) com marcadores como FR, anti-CCP e antivimentina citrulinada (anti-Sa). Pacientes e métodos: Foram avaliados no momento do diagnóstico 65 pacientes da Coorte Brasília com AR inicial. Foram realizadas sorologias (ELISA) para FR (IgM, IgG e IgA), anti-CCP (CCP2, CCP3 e CCP3.1) e anti-Sa, com a aplicação do HAQ e SF-36 na avaliação inicial. Resultados: A idade média foi de 45 anos, predominando o gênero feminino (86%). Na avaliação inicial, o FR foi positivo em 32 indivíduos (49,23%); anti-CCP em 34 indivíduos (52,3%); e anti-Sa em nove indivíduos (13,8%). O escore inicial do HAQ foi de 1,8. Os escores dos domínios do SF-36 foram: emocional, 19,3; social, 43,1; dor, 25,43; estado geral, 57,6; saúde mental, 48,1; vitalidade, 49,5; físico, 4,6; e limitação por aspecto físico, 24,7. HAQ e escores do SF-36 não variaram com os níveis de autoanticorpos. Conclusão: Muitos pacientes com AR inicial apresentam comprometimento na qualidade de vida relacionada aos domínios da capacidade física e mental. Embora FR e anti-CCP tenham sido relacionados com dano articular e pior prognóstico clínico, não há correlação entre os questionários e as avaliações da qualidade de vida e incapacidade. Palavras-chave: artrite reumatoide, qualidade de vida, fator reumatoide, citrulina, estudos de coortes. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A artrite reumatoide (AR), mesmo em seu estágio inicial, pode causar impacto considerável na qualidade de vida relacionada à saúde (HRQoL, do inglês, Health-Related Quality of Life).1 HRQoL é um conceito muito amplo, que pode ser simplificado como o impacto da saúde na capacidade funcional do indivíduo e em seu bem-estar percebido nos aspectos físico, mental e vida social.2 Foram propostos vários instrumentos a fim de avaliar a capacidade física e a qualidade de vida em pacientes com AR, detectar mudanças no estado de saúde com o passar do tempo Recebido em 06/09/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Burlingame RW trabalha para INOVA Diagnostics, Inc., onde os testes sorológicos foram realizados. Ele não teve acesso aos dados clínicos dos pacientes antes de conhecidos os resultados dos testes. Carvalho JF recebeu bolsa da Federico Foundation e do CNPq (300665/2009-1). Os demais autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Comitê de Ética: CEP-FM 028/2007. Serviço de Reumatologia, Hospital Universitário de Brasília, Universidade de Brasília – HUB-UnB. 1. Doutora em Ciências Médicas, Faculdade de Medicina, Universidade de Brasília – FMUnB; Professora Colaboradora de Clínica Médica e do Serviço de Reumatologia, FMUnB 2. Doutor; Professor-Associado de Clínica Médica, FMUnB 3. Doutor; Vice Presidente de Pesquisa e Desenvolvimento, INOVA Diagnostics, Inc., San Diego, Califórnia, EUA 4. MD, Fellow of the College of Physician and Surgeons of Canada (FRCPC); Professor de Medicina, McGill University, Montreal, Quebec, Canadá 5. Doutor; Professor de Reumatologia, Universidade do Sul de Santa Catarina – UNISUL 6. Doutor; Médico Reumatologista 7. Doutora; Professora Colaboradora, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – HC-FMUSP Correspondência para: Licia Maria Henrique da Mota. SHLS 716/916 Bloco E salas 501-502, Centro Médico de Brasília – Asa Sul. CEP: 70390904. Brasília, DF, Brasil. E-mail: [email protected] 824 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):819-829 Incapacitação e qualidade de vida não são influenciadas pela prevalência de autoanticorpos em pacientes com artrite reumatoide inicial – resultados da Coorte Brasília e avaliar o prognóstico e os riscos e benefícios de determinada intervenção terapêutica,3 inclusive instrumentos gerais, como o Medical Outcomes Study 36-Item Short-Form Health Survey (MOS 36-SF),4 e instrumentos específicos, como o Health Assessment Questionnaire (HAQ).5 Poucos estudos já avaliaram instrumentos – tanto gerais como específicos – para medir a qualidade de vida em pacientes com AR inicial (ERA, do inglês, early rheumatoid arthritis).6,7 Embora evidências recentes confirmem que a presença de autoanticorpos em pacientes com AR está associada à forma mais agressiva da doença, à lesão articular maior e a um prognóstico sombrio, desconhece-se a possível associação entre esses instrumentos e a presença de marcadores sorológicos, como fator reumatoide (FR), anticorpos antipeptídeos citrulinados cíclicos (anti-CCP) e anticorpos antivimentina citrulinada (anti-Sa).8–10 O objetivo deste estudo foi avaliar a possível associação entre os escores de certos questionários de qualidade de vida (HAQ e SF-36) e alguns marcadores sorológicos (RF, anti-CCP e anti-Sa) em um grupo de pacientes com AR com menos de 12 meses de sintomas na avaliação inicial. PACIENTES E MÉTODOS Foi realizado um estudo incidente prospectivo de coorte (parte da Coorte Brasília de Artrite Reumatoide Inicial), no qual pacientes consecutivos diagnosticados com ERA foram avaliados com acompanhamento periódico durante 36 meses após o diagnóstico. Os pacientes foram avaliados na Clínica de Artrite Reumatoide do Hospital Universitário de Brasília, Brasil. Os dados apresentados referem-se à avaliação inicial (momento do diagnóstico) de 65 pacientes. A AR foi definida como a ocorrência dos sintomas articulares compatíveis com a doença (padrão inflamatório de dor e inchaço das articulações com ou sem rigidez matinal ou outras manifestações sugestivas de artropatia inflamatória, com avaliação por apenas um observador), prolongando-se por mais de seis semanas e menos de 12 meses, independente do cumprimento dos critérios de classificação do American College of Rheumatology.11 Para analisar o impacto da qualidade de vida relacionada à saúde em pacientes com ERA, os questionários utilizados no estudo foram o HAQ (um instrumento específico) e o SF-36 (um instrumento geral). O estudo do FR (IgG, IgM e IgA) foi realizado utilizando os testes Quanta LiteTM RF IgA ELISA, Quanta LiteTM RF IgG ELISA e Quanta LiteTM RF IgM ELISA (INOVA Diagnostics, CA, EUA), de acordo com o protocolo dos fabricantes. Valores superiores a 15 UI/mL (IgM e IgA) e 20 UI/mL (IgG) foram considerados pontos de corte positivos. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):819-829 Anti-CCP foi estudado usando os testes Quanta LiteTM CCP IgG ELISA, Quanta LiteTM CCP3 IgG ELISA e Quanta Lite TM CCP3.1 IgG/IgA ELISA (INOVA Diagnostics, CA, EUA), de acordo com as instruções do fabricante. Inicialmente, o soro de cada paciente foi diluído em 1:100 em diluente de amostra. Se o resultado da amostra estivesse acima de uma densidade óptica de 2,5, a amostra era retestada com diluições de 1:500 e 1:2.500, e o valor unitário resultante era multiplicado pelo fator de diluição. Os resultados foram calculados e expressados em unidades, com < 20 U sendo considerado negativo, 20–39 U fracamente positivo, 40–59 U moderadamente positivo e ≥ 60 U fortemente positivo, para todos os testes. O teste de detecção de anti-Sa foi realizado nas placas originais desenvolvidas pela McGill University Autoimmune Research Laboratory – proteína básica mielínica bovina análise ELISA.12 Os resultados foram calculados e expressados em unidades, com < 20 U sendo considerado negativo, 21–79 U duvidoso e ≥ 80 U positivo. Para detectar diferenças entre duas médias aplicou-se o teste t de Student ou o teste t pareado para amostras exibindo distribuição normal, considerando os valores médios e o desvio padrão. Para casos com rejeição da normalidade aplicou-se o teste não paramétrico de Wilcoxon ou de Mann-Whitney, levando em conta o valor da mediana e a faixa interquartis. Considerou-se um nível de significância de 5%. Para o cálculo do tamanho da amostra utilizou-se uma amostra-piloto de 10 pacientes. Considerando-se o nível de significância de 5%, uma potência de teste de 80% e as informações obtidas com a amostra piloto, calculou-se o tamanho mínimo da amostra como sendo de 40 pacientes. O estudo foi aprovado pela Comissão de Ética em pesquisas da Faculdade de Medicina, Universidade de Brasília, Brasil. RESULTADOS Características da população estudada Dos 65 pacientes inicialmente diagnosticados com AR provenientes da Coorte Brasília de Artrite Reumatoide Inicial, a idade média foi de 45,64 ± 14,51 anos, variando entre 26–71 anos. Houve predomínio de mulheres (56 pacientes, 86,15%) e da etnia branca (31 pacientes, 47,69%). De acordo com dados de história clínica, a duração média dos sintomas articulares por ocasião do diagnóstico era de 32 ± 15,4 semanas, e 23 pacientes (35,3%) tinham menos de 12 semanas de sintomas no diagnóstico inicial, indicando artrite muito inicial. As características demográficas e clínicas da coorte já foram previamente publicadas.13 825 Mota et al. pacientes estão ilustrados na Tabela 1. O padrão de respostas a questionários direcionados para a qualidade de vida na Coorte Brasília de Artrite Reumatoide Inicial foi previamente publicado.15 Autoanticorpos Na primeira avaliação dos 65 pacientes, 32 indivíduos (49,23%) foram positivos para pelo menos um isótipo de FR, 28 pacientes (43,07%) para FR IgA, 19 (29,23%) para FR IgG e 32 (49,23%) para FR IgM. Com relação aos anticorpos anti-CCP, 34 pacientes (52,30%) foram positivos para pelo menos uma das técnicas utilizadas na triagem (CCP2, CCP3 ou CCP3.1). Utilizando a técnica ELISA2 (CCP2), 33 pacientes (50,77%) foram negativos, cinco (7,69%) fracamente positivos e 27 (41,54%) fortemente positivos. Com o uso da técnica ELISA3 (CCP3), 30 pacientes (46,15%) foram negativos, cinco (7,69%) fracamente positivos, dois (3,08%) moderadamente positivos e 28 (43,08%) fortemente positivos. Utilizando a técnica ELISA3.1 (CCP3.1), 31 pacientes (47,69%) foram negativos, dois (3,08%) fracamente positivos, três (4,62%) moderadamente positivos e 29 (44,62%) fortemente positivos. Na avaliação inicial dos 65 pacientes analisados, 52 (80%) estavam negativos para anti-Sa, quatro (6,15%) apresentaram um resultado ambíguo e nove (13,85%) estavam positivos. As características laboratoriais dos pacientes recrutados nessa coorte brasileira foram previamente publicados.14 Questionários de qualidade de vida e sua associação com marcadores séricos na ERA Fator reumatoide Não houve diferença no escore HAQ ou em qualquer dos domínios de SF-36 entre pacientes positivos ou não para FR IgA, IgG e IgM, conforme mostra a Tabela 2. Tabela 1 Pacientes com diagnóstico de AR conforme escores dos questionários HAQ e SF-36 (avaliação inicial, n = 65) Questionários de avaliação da qualidade de vida e da capacidade Os escores obtidos com a aplicação dos questionários de qualidade de vida HAQ e SF-36 na avaliação inicial dos 65 Questionário Escore* HAQ 1,87 (0,81) SF-36 (domínios) Papel emocional (PE) Funcionamento social (FS) Dor física (DF) Saúde geral (SG) Saúde mental (SM) Vitalidade (VT) Papel físico (PF) Funcionamento físico (FF) 19,37 (37,04) 43,16 (34,78) 25,43 (19,76) 57,68 (26,30) 48,18 (15,89) 49,59 (15,44) 4,68 (15,98) 24,76 (27,05) *Média (DP). Tabela 2 Escores dos questionários HAQ e SF-36 para pacientes com ERA, positivos ou negativos para FR IgG, IgA e IgM na avaliação inicial Questionário HAQ SF-36 (domínios) Papel emocional Funcionamento social Dor física Saúde geral Saúde mental Vitalidade Papel físico Funcionamento físico IgA FR* MannWhitney P 2,00 (1,13) 0,68 0,00 (0,00) 37,50 (62,50) 22,00 (20,00) 52,00 (42,00) 52,00 (16,00) 50,00 (10,00) 0,00 (0,00) 10,00 (45,00) Negativo Positivo 1,75 (1,50) 0,00 (33,33) 25,00 (50,00) 22,00 (31,00) 67,00 (45,00) 52,00 (24,00) 50,00 (20,00) 0,00 (0,00) 20,00 (40,00) IgG FR* MannWhitney P 1,88 (1,14) 0,45 0,00 (0,00) 37,50 (37,50) 22,00 (29,00) 60,00 (40,00) 52,00 (16,00) 55,00 (10,00) 0,00 (0,00) 10,00 (40,00) Negativo Positivo 0,40 2,13 (1,25) 0,01 0,99 0,18 0,66 0,02 0,96 1,67 0,19 0,01 0,90 0,93 0,33 0,45 0,50 0,42 0,51 0,00 (33,33) 25,00 (50,00) 22,00 (31,00) 65,00 (50,00) 52,00 (20,00) 50,00 (20,00) 0,00 (0,00) 15,00 (40,00) IgM RF* MannWhitney P 1,75 (1,13) 1,40 0,23 0,00 (33,33) 37,5 (62,5) 22,00 (29,00) 55,00 (45,00) 52,00 (20,00) 50,00 (10,00) 0,00 (0,00) 25,00 (40,00) 0,01 0,93 2,47 0,11 0,26 0,60 0,54 0,46 0,42 0,51 2,13 0,14 0,12 0,72 0,91 0,33 Negativo Positivo 0,50 2,38 (1,25) 0,78 0,37 0,04 0,83 0,05 0,94 0,78 0,37 0,27 0,59 2,48 0,11 0,10 0,74 0,05 0,82 0,00 (0,00) 25,00 (37,5) 22,00 (22,00) 67,00 (45,00) 52,00 (24,00) 50,00 (15,00) 0,00 (0,00) 5,00 (40,00) * Mediana (faixa interquartis). 826 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):819-829 Incapacitação e qualidade de vida não são influenciadas pela prevalência de autoanticorpos em pacientes com artrite reumatoide inicial – resultados da Coorte Brasília Anti-CCP Conforme mostram as Tabelas 3, 4 e 5, ao ser utilizada a técnica CCP2 não houve diferença no escore HAQ e em nenhum dos domínios de SF-36 entre pacientes positivos ou negativos para anti-CCP. Com relação a CCP3 e CCP3.1, houve uma diferença estatisticamente significativa para o domínio de funcionamento social, que foi significativamente melhor para os pacientes com sorologia positiva para anti-CCP por essas duas técnicas (P = 0,02 para ambas). Tabela 3 Escores dos questionários HAQ e SF-36 para pacientes com ERA positivos ou negativos para anti-CCP2 na avaliação inicial Questionário HAQ Questionário SF-36 (domínios) Papel emocional Funcionamento social Dor física Saúde geral Saúde mental Vitalidade Papel físico Funcionamento físico CCP2 Média (desvio padrão) Negativo Positivo 1,99 (0,81) 1,81 (0,78) CCP2 Mediana (faixa interquartis) Teste t pareado P 0,92 0,36 P 0,30 0,07 0,05 0,82 0,58 0,80 0,74 0,13 Negativo Positivo Teste de MannWhitney 0,00 (0,00) 25,00 (37,50) 22,00 (26,00) 62,50 (44,50) 52,00 (24,00) 50,00 (15,50) 0,00 (0,00) 5,00 (40,00) 0,00 (33,33) 43,75 (62,50) 26,50 (24,50) 52,00 (14,00) 50,12 (14,58) 50,00 (17,50) 0,00 (0,00) 25,00 (47,50) 1,05 3,17 3,68 0,04 0,29 0,05 0,10 2,27 Tabela 4 Escores dos questionários HAQ e SF-36 questionários para pacientes com ERA positivos ou negativos para anti-CCP3 na avaliação inicial CCP3 Mediana (faixa interquartis) Negativo Positivo Teste de MannWhitney HAQ 2,00 (1,50) 1,88 (1,38) 0,01 0,91 SF-36 (domínios) Papel emocional Funcionamento social Dor física Saúde mental Vitalidade Papel físico Funcionamento físico 0,00 (0,00) 25,00 (37,50) 21,50 (21,00) 52,00 (20,00) 50,00 (20,00) 0,00 (0,00) 5,00 (40,00) 0,00 (33,33) 50,00 (62,50) 26,50 (29,00) 52,00 (16,00) 50,00 (15,00) 0,00 (0,00) 22,50 (45,00) 1,86 4,67 3,17 1,30 0,02 0,02 1,48 0,17 0,02 0,07 0,25 0,87 0,88 0,22 Teste t pareado P 0,45 0,65 Questionário SF-36 (domínio) Saúde geral CCP3 Média (desvio padrão) Negativo Positivo 59,27 (25,41) 56,29 (27,38) Rev Bras Reumatol 2012;52(6):819-829 P Tabela 5 Escores dos questionários HAQ e SF-36 para pacientes com ERA positivos ou negativos para anti-CCP3.1 na avaliação inicial CCP3.1 Mediana (faixa interquartis) Negativo Positivo Teste de MannWhitney HAQ 2,00 (1,50) 1,88 (1,38) 0,01 0,91 SF-36 (domínios) Papel emocional Funcionamento social Saúde mental Vitalidade Papel físico Funcionamento físico 0,00 (0,00) 25,00 (37,50) 52,00 (20,00) 50,00 (16,00) 0,00 (0,00) 5,00 (40,00) 0,00 (33,33) 50,00 (62,50) 52,00 (16,00) 50,00 (20,00) 0,00 (0,00) 22,5 (45,00) 0,80 4,67 0,83 0,02 0,02 1,48 0,37 0,02 0,36 0,87 0,88 0,22 Teste t pareado P Questionário SF-36 (domínio) CCP3.1 Média (desvio padrão) P Negativo Positivo Dor física 21,50 (18,09) 28,91 (20,77) −1,51 0,13 Saúde geral 57,37 (25,78) 57,97 (27,14) −0,09 0,92 Tabela 6 Escores dos questionários HAQ e SF-36 para pacientes com ERA positivos ou negativos para anti-Sa na avaliação inicial Anti-Sa Mediana (faixa interquartis) Negativo Positivo Teste de MannWhitney HAQ 1,88 (1,63) 2,13 (0,50) 0,18 0,66 SF-36 (domínios) Papel emocional Funcionamento social Dor física Saúde geral Saúde mental Vitalidade Papel físico Funcionamento físico 17,12 (35,58) 25,00 (50,00) 22,00 (31,00) 65,00 (47,00) 52,00 (20,00) 50,00 (20,00) 0,00 (0,00) 15,00 (45,00) 28,20 (42,70) 37,50 (50,00) 31,00 (20,00) 52,00 (45,00) 48,00 (12,00) 50,00 (16,00) 0,00 (0,00) 10,00 (40,00) 0,96 0,10 1,60 0,33 0,10 0,01 0,21 0,16 0,33 0,74 0,20 0,56 0,74 0,89 0,64 0,68 Questionário P Anti-Sa Conforme está ilustrado na Tabela 6, não houve diferença no escore HAQ e em qualquer dos domínios de SF-36 entre pacientes positivos ou negativos para anti-Sa. DISCUSSÃO Nosso estudo confirma um grande impacto na qualidade de vida e na capacidade física de pacientes com ERA. As coortes previamente publicadas demonstram ampla variação na média HAQ na avaliação inicial,16 mas os escores médios observados na maioria delas giram em torno de 1 (0,8–1,3),16–20 um 827 Mota et al. valor mais baixo que o encontrado em nossa população. Com relação ao questionário SF-36, os baixos escores dos domínios na avaliação inicial, particularmente nos domínios de “limitação de papel devido aos aspectos físico e emocional” da qualidade de vida, demonstram que, nos pacientes de nossa coorte, esses foram os aspectos da qualidade de vida mais afetados na avaliação inicial. Os domínios “saúde mental” e “vitalidade” foram os menos prejudicados por ocasião do diagnóstico. Em nossa coorte não foi observada diferença nos escores HAQ ou em qualquer domínio de SF-36 entre pacientes positivos ou negativos para FR IgA, IgG, IgM FR, anti-CCP-2 ou anti-Sa. Para CCP3 e CCP3.1, foi observada diferença significativa apenas para o domínio de funcionamento social, que foi significativamente melhor para aqueles com sorologia positiva para anticorpos anti-CCP com o uso de técnicas de terceira geração. A análise de nossos dados sugere que os instrumentos de avaliação de incapacidade e qualidade de vida, como HAQ e SF-36, podem refletir os danos causados pela atividade da AR, mas se comportam independentemente dos autoanticorpos. A associação isolada de anti-CCP, pelas técnicas CCP3 e CCP3.1, com o domínio de funcionamento social (que avalia a integração dos indivíduos em atividades sociais) parece ter sido fortuita. Silva et al..21 publicaram que o escore HAQ não se correlacionava com atividade da AR, duração da doença e FR positivo (FR IgM), embora estivesse significativamente associado à positividade para anti-CCP (CCP 2). No estudo sueco STRIP22 observou-se que a evolução do escore HAQ não era diferente entre pacientes sorologicamente positivos ou negativos para anti-CCP, embora o HAQ tivesse correlação com marcadores de atividade, como VHS, PCR e DAS-28. Ao avaliar 52 pacientes com média de três anos de diagnóstico de AR, Mohd Shahrir et al.23 informaram que havia uma correlação entre o escore HAQ e níveis anti-CCP (CCP2). Não foram publicados estudos sobre a correlação do questionário SF-36 e a ocorrência de autoanticorpos em AR. Além disso, ainda não foi avaliada a associação entre os escores HAQ e SF-36 e a presença de anti-Sa. CONCLUSÕES A população avaliada em nossa coorte (Coorte Brasília de Artrite Reumatoide Inicial) demonstrou grande impacto na qualidade de vida em decorrência da AR, conforme determinação pelos questionários HAQ e SF-36 por ocasião do diagnóstico, onde essa suposição ficou mais firmemente 828 estabelecida, em comparação com outras coortes previamente avaliadas. Não houve diferença no escore HAQ e em nenhum dos domínios de SF-36 entre pacientes positivos ou negativos para FR IgA, IgG, IgM e anti-CCP ou anti-Sa. Os instrumentos para avaliação da incapacidade e da qualidade de vida, como HAQ e SF-36, podem refletir os danos causados pela atividade da AR, mas se comportam independentemente dos níveis de autoanticorpos. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. Kosinski M, Kujawski SC, Martin R, Wanke LA, Buatti MC, Ware JE Jr et al. Health-related quality of life in early rheumatoid arthritis: impact of disease and treatment response. Am J Manag Care 2002; 8(3):231–40. 2. Ward MM. Outcome measurement: health status and quality of life. Curr Opin Rheumatol 2004; 16(2):96–101. 3. Walker JG, Littlejohn GO. Measuring quality of life in rheumatic conditions. Clin Rheumatol 2007; 26(5):671–3. 4. Ware JE Jr, Sherbourne CD. The MOS 36-item short-form health survey (SF-36). I. Conceptual framework and item selection. Med Care 1992; 30(6):473–83. 5. 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Rev Bras Reumatol 2012;52(6):819-829 Incapacitação e qualidade de vida não são influenciadas pela prevalência de autoanticorpos em pacientes com artrite reumatoide inicial – resultados da Coorte Brasília 13. Mota LM, Laurindo IM, dos Santos Neto LL. Demographic and clinical characteristics of a cohort of pacientes with early rheumatoid arthritis. Rev Bras Reumatol 2010; 50(3):235–48. 14. Mota LM, dos Santos Neto LL, Burlingame R, Ménard HA, Laurindo IM. Laboratory characteristics of a cohort of patients with early rheumatoid arthritis. Rev Bras Reumatol 2010; 50(4):375–88. 15. Mota LM, Laurindo IM, dos Santos Neto LL. Prospective evaluation of the quality of life in a cohort of pacientes with early rheumatoid arthritis. Rev Bras Reumatol 2010; 50(3):249–61. 16. Fries JF. New instruments for assessing disability: not quite ready for prime time. Arthritis Rheum 2004; 50:3064–7. 17. Young A, Dixey J, Cox N, Davies P, Emery P, Gallivan S. 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Todos os direitos reservados. m adultos, o anticorpo antinucleossomo já foi descrito como marcador de atividade da doença e de nefrite lúpica em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico (LES).1–4 Além disso, anticorpos anti-C1q e antinucleossomo têm efeito amplificador na etiopatogênese da nefrite lúpica de adultos.5 Neste número da Revista Brasileira de Reumatologia, Jesus et al.6 demonstram de forma clara a associação desses anticorpos com a nefrite lúpica, indicando que poderiam ser um biomarcador em potencial para a ocorrência de lesão renal no LES juvenil. Esse mesmo grupo já havia demonstrado a associação dos anticorpos antinucleossomo com a atividade da doença, mas não com a nefrite lúpica.7 Uma das principais preocupações do reumatologista é ter um exame que possa ser útil no seguimento do paciente com LES, seja adulto ou pediátrico, especialmente no que se refere em estabelecer a atividade da doença e o diagnóstico correto. Assim, o trabalho de Jesus et al.6 mostrou que os anticoporpos antinucleossomo e anti-C1q apresentaram alta especificidade e elevado valor preditivo positivo, superior a 97%, para diagnóstico de lúpus, podendo ser considerados instrumentos confiáveis na prática clínica. Por fim, os autores também mostraram que as determinações dos anticorpos antinucleossomo e anti-C1q podem ser realizadas na avaliação do diagnóstico de lúpus, especialmente em pacientes com LES juvenil, que apresentam anticorpos anti-dsDNA negativos. E REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. Kiss E, Lakos G, Szegedi G, Poor G, Szodoray P. Anti-nucleossomo antibody, a reliable indicator for lupus nephritis. Autoimmunity 2009; 42(5):393–8. Muller S, Dieker J, Tincani A, Meroni PL. Pathogenic antinucleossomo antibodies. Lupus 2008; 17(5):431–6. Gómez-Puerta JA, Burlingame RW, Cervera R. Anticromatina (antinucleossomo) antibodies: diagnostic and clinical value. Autoimmun Rev 2008; 7(8):606–11. 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Paulo Louzada-Junior Max Victor Carioca Freitas Editores-chefe, Revista Brasileira de Reumatologia 818 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):817-818 ARTIGO ORIGINAL Eficácia terapêutica e segurança de metotrexato + leflunomida em pacientes colombianos com artrite reumatoide ativa refratária ao tratamento convencional John Londono1, Ana Maria Santos2, Pedro Ivan Santos1, Maria Fernanda Cubidez3, Claudia Guzman4, Rafael Valle-Oñate1 RESUMO Introdução: A combinação de metotrexato (MTX) + leflunomida (LFN) demonstrou ser efetiva no tratamento da artrite reumatoide (AR), mas sua segurança tem sido questionada. Objetivo: Avaliar a eficácia e a segurança terapêutica da combinação de MTX + LFN em pacientes com AR ativa. Métodos: Estudo multicêntrico com 24 semanas de duração envolvendo 88 pacientes com doença ativa, apesar do tratamento regular com MTX e prednisolona. Resultados: Participaram do estudo 78 mulheres (88%) e 10 homens. A idade foi de 51,3 ± 12,4 anos, e o tempo de evolução da doença, 8,0 ± 6,8 anos. Os pacientes tinham doença ativa evidenciada por IQR média de 10 (7,0–13,0) nas articulações inflamadas e 14,0 (18,0–10,0) nas articulações dolorosas. As respostas ACR obtidas na semana 24 foram: ACR20: 76%; ACR50: 67,1%; e ACR70: 23,9%. Houve melhora na atividade da doença, medida pelo escore DAS-28: 5,8 ± 1,2 no início do estudo vs. 3,8 ± 1,6 na semana 24 (P = 0,000). O evento adverso mais significativo foi elevação das transaminases, ocorrida em oito (26%) pacientes. Oito pacientes descontinuaram o estudo devido a eventos adversos: quatro por elevação das transaminases, um por diabetes insípido, um por erupção cutânea, um por diabetes mellitus e um por dor osteomuscular. Conclusão: A combinação de MTX + LFN é efetiva para o tratamento de AR em pacientes que não obtiveram sucesso com o tratamento convencional. Há necessidade de rígido controle médico e laboratorial para segurança terapêutica. Palavras-chave: metotrexato, artrite reumatoide, toxicidade medicamentosa. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A artrite reumatoide (AR) é uma doença inflamatória crônica poliarticular simétrica. Com o passar do tempo, a progressão leva à destruição das articulações, deformação, diferentes níveis de incapacidade funcional e deterioração na qualidade de vida.1 Sua prevalência varia com a população estudada.2 Na Colômbia, não há uma estimativa real da prevalência de AR, exceto entre a população afro-americana na região do Pacífico, com prevalência de 0,01%.3 Os dados sobre a prevalência de AR na América Latina são escassos, e não há informação em vários países da região. Spindler et al.4 observaram um percentual de 0,2% em Tucuman, Argentina. No Brasil, Senna et al.5 estimaram a prevalência em 0,5%. Cardiel6 informou uma prevalência de 0,3% na Cidade do México. Com base nesses dados, a prevalência geral na região foi estimada conservadoramente em 0,4%.7 Foi demonstrado que o controle apropriado da inflamação reduz os danos mostrados nas radiografias e evita a destruição de articulações. O tratamento com drogas modificadoras do curso da doença (DMCDs), analgésicos e anti-inflamatórios tem sido visto como efetivo para o controle dos sintomas e a redução da progressão da lesão articular. Os resultados Recebido em 01/10/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesses. Suporte Financeiro: Universidad de La Sabana. Universidad de La Sabana. 1. Reumatologista; Professor, Universidad de La Sabana 2. Bacteriologista; Professora, Universidad de Los Andes 3. Bolsista de Reumatologia, Universidad de La Sabana 4. Bolsista de Reumatologia, Universidad Militar Nueva Granada Correspondência para: John Londono. Campus Universitario del Puente del Comun, Km. 7. Autopista Norte de Bogotá D.C. CEP: 250001. Chia, Colombia. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 837 Londono et al. publicados nos últimos anos demonstraram que a combinação de metotrexato (MTX) com outras DMCD é mais efetiva que a monoterapia com MTX.8 A leflunomida (LFN) é uma DMCD aprovada para tratamento de AR desde 1996. Como o MTX, a LFN tem efeitos antimetabólitos, inibindo a síntese das pirimidinas.9 Sua eficácia no tratamento da AR foi demonstrada em vários estudos.10,11 A combinação de MTX + LFN tem sido sugerida como efetiva para o controle da doença; porém, essa combinação não foi incluída em nenhum protocolo de tratamento, devido à possibilidade de aumento da frequência de eventos adversos hematológicos e hepáticos.12 A eficácia dessa combinação para o controle da AR foi previamente demonstrada em vários estudos de pacientes com resposta inadequada ao MTX. Os efeitos adversos informados nesses estudos não foram consistentes, embora aparentemente muitos deles fossem secundários, desaparecendo com a redução da dose ou com a descontinuação da medicação.13–15 O Consenso Brasileiro sobre tratamento da AR enfatiza a necessidade de tentar uma segunda DMCD antes de introduzir um agente biológico.16 Embora o custo seja um aspecto muito relevante na tomada de decisão sobre o tratamento da AR, essa não é a principal razão para o uso da combinação MTX + LFN. O uso prolongado dessas DMCDs, isoladamente ou combinados, é provavelmente mais seguro quando comparado a agentes biológicos, embora não existam dados seguros sobre essa suposição. Os resultados do presente estudo podem ajudar a estabelecer o real potencial dessa combinação entre os possíveis tratamentos atuais da AR na Colômbia e em outros países da América Latina. MATERIAIS E MÉTODOS Desenho do estudo Este foi um estudo multicêntrico, aberto, não controlado, com duração de 24 semanas. O estudo foi realizado entre janeiro e dezembro de 2009 em 10 centros colombianos que oferecem tratamento reumatológico. O principal objetivo foi avaliar a eficácia e a segurança da adição de LFN aos regimes terapêuticos de pacientes com AR que continuavam a exibir atividade inflamatória, apesar da terapia combinada com MTX, glicocorticoides e anti-inflamatórios não esteroides (AINEs). American College of Rheumatology (ACR),17 firmados pelo menos 12 meses antes do início do estudo, com menos de 15 anos de evolução e cuja doença permanecia ativa apesar de regularmente tratada nos últimos três meses. Consideramos tratamento regular a combinação de glicocorticoides em baixa dose (≤ 10 mg/dia de prednisona), MTX na dose ≥ 12,5 mg/semana e AINEs e/ou paracetamol na dose de 2 g/dia. Incluímos pacientes que, além desses tratamentos, também haviam sido medicados com doses estáveis de 250 mg/dia de cloroquina ao longo dos últimos três meses. Definimos atividade da doença pelas recomendações do ACR.18 Incluímos no estudo apenas os pacientes com capacidade de compreender e preencher os formulários relacionados à qualidade de vida (Short Form 12, SF-12), capacidade funcional (Health Assessment Questionnaire, HAQ-DI), atividade da doença (Escala Visual Analógica, EVA 0–10 cm), eficácia terapêutica e segurança com relação ao tratamento. Foram excluídos os pacientes com comorbidades importantes: úlcera peptídica ativa, consumo de álcool em volumes superiores a 30 cc/semana, hepatite viral, hepatopatia obstrutiva, imunodeficiência, tratamento com rifampicina, nefropatia crônica e insuficiência cardíaca congestiva. Também excluímos pacientes com níveis das transaminases superiores a 1,5 vezes o controle, níveis de creatinina sérica > 1,5 mg/dL, excreção calculada de creatinina < 55% e contagem de leucócitos < 3.500/mm3, além de gestantes e mulheres amamentando. Adicionamos LFN aos protocolos previamente descritos para todos os pacientes. A dose inicial foi de 100 mg durante três dias; em seguida, a medicação foi mantida na dose de 20 mg/dia. Registramos as informações laboratoriais a cada consulta, como parte da avaliação dos efeitos adversos. No presente estudo, utilizamos LFN fabricada pelo PROCAPS Laboratories na apresentação farmacêutica de cápsulas gelatinosas moles, aprovadas para uso na Colômbia pelo Instituto Nacional deVigilância de Medicamentos y Alimentos (INVIMA), sob o número de registro sanitário 2006M-005987. Avaliação da eficácia clínica O principal desfecho avaliado compreendia os resultados de ACR20. Também consideramos os resultados de ACR50 e ACR70. População Avaliação da segurança Foram incluídos 88 pacientes com mais de 18 anos de idade, com diagnóstico de AR estabelecido pelos critérios do A segurança foi medida pelo número de eventos adversos informados em cada consulta, avaliação física e dados laboratoriais 838 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 Metotrexato + leflunomida para tratamento da artrite reumatoide – hemograma, velocidade de hemossedimentação (VHS), transaminases, nitrogênio ureico (BUN), creatinina e urinálise. Uma elevação nos níveis das transaminases superior a 3 vezes implicava na remoção do estudo. Uma elevação persistente ≥ 2 mas ≤ 3 vezes o valor normal implicava na redução da dose de MTX para 7,5 mg/semana, ou na redução da dose de LFN para 10 mg/dia. Os regimes eram modificados sequenciadamente, a critério do investigador, que indicava qual seria a medicação inicialmente reduzida. Havendo persistência da elevação nesse nível (≥ 2 mas ≤ 3 vezes o valor normal) apesar da modificação da dose para os dois medicamentos, o paciente era excluído do estudo, a critério do investigador. Análise estatística Utilizamos medidas de dispersão e de tendência central para as variáveis quantitativas, e frequências e percentuais para as variáveis qualitativas. Para as comparações das variáveis quantitativas com a distribuição paramétrica, utilizamos o teste t de Student para amostras correlatas e o teste de postos com sinais de Wilcoxon para variáveis com distribuição não paramétrica. Para as variáveis qualitativas, utilizamos o teste do χ2 com a correção de Fisher, quando apropriado. Utilizamos um nível de significância de P ≤ 0,05 e intervalos de confiança de 95%. Aspectos éticos O estudo seguiu as normas estabelecidas pela Declaração de Helsinque, Orientações para a Boa Prática Clínica e Resolução 8430 (1993) do Ministério da Proteção Social da Colômbia. O estudo foi aprovado pela Comissão Central de Ética em Investigações Clínicas do Departamento de Medicina da Universidad de La Sabana. Todos os pacientes assinaram um formulário de consentimento informado e a confidencialidade foi rigidamente preservada. RESULTADOS Características demográficas No total, foram incluídos 88 pacientes: 78 mulheres (88,6%) e 10 homens (11,3%). As características gerais da população e as histórias de doença estão resumidas na Tabela 1. Com relação à história dos pacientes, 24 (37,5%) tinham história familiar de AR, 18 (22%) de hipertensão arterial, nove (11,2%) de úlcera péptica, 11 (13,7%) de consumo de álcool e seis (7,5%) de tabagismo. Os medicamentos recebidos no início do estudo foram: MTX, 88 (100%), 15,6 ± 3,4 mg/semana; prednisolona, 49 (55%), 7,8 ± 4,3 mg/dia; e cloroquina, 29 (32%), 225,9 ± 52,9 mg/dia. Mudanças na atividade da doença Com início na semana 6 e continuando até a semana 24, houve diferenças significativas (P = 0,000) no número de articulações doloridas, no número de articulações inflamadas, na duração da rigidez matinal, na avaliação global da atividade da doença pelo paciente e pelo médico, e na fadiga quando comparados aos valores basais. Três pacientes permaneceram com contagem elevada de articulações inchadas e doloridas durante todo o acompanhamento, mas continuaram no estudo por decisão do pesquisador, graças à melhora em outros parâmetros, inclusive no funcionamento físico e na qualidade de vida (Tabela 2). Tabela 1 Informações gerais Variável n (%) População 88 Gênero M/F 10/78 (11–89) Idade, média ± DP (anos) 51,3 ± 12,4 Aspectos operacionais Idade no início, média ± DP (anos) 43 ± 12,4 A Unidade de Investigações Clínicas da Universidad de La Sabana é o setor para investigações clínicas e farmacológicas autorizado pelo INVIMA para realizar esse tipo de investigação, do mesmo modo que todas as instituições participantes. A Unidade cumpre todos os procedimentos e satisfaz a todos os regulamentos estabelecidos em 2008 pela Resolução 2378 do Ministério de Proteção Social da Colômbia. O estudo foi aprovado e supervisionado pela subdivisão de Medicamentos Biológicos do INVIMA, tendo cumprido todas as exigências legais colombianas aplicáveis a esse tipo de estudo. Tempo de evolução, média ± DP (anos) 8 ± 6,8 Demora do diagnóstico, média ± DP (meses) 21 ± 32 Consultas ao reumatologista no último ano 3 (0–12) Nível educacional Secundário Profissional 60 (69%) 27 (31%) Manifestações extra-articulares Sicca Nódulos 12 (14%) 21 (24%) Marcadores da doença Teste anti-CCP positivo Teste positivo para artrite reumatoide 67 (77%) 63 (72,5%) Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 839 Londono et al. Tabela 2 Melhora na atividade da doença Atividade Basal Semana 6 Semana 12 Semana 18 Semana 24 Articulações dolorosas, mediana (IQR) 14,0 (18–10) 7,0 (2–10) 4,0 (2–6) 4,0 (1–6) 3,0 (0–5) Articulações inchadas, mediana (IQR) 10,0 (7–13) 4,0 (1–8) 4,0 (1–6) 2,0 (1–5) 2,0 (0–4) Rigidez matinal (min.) 72,6 ± 57,5 29,0 ± 34,2 22,8 ± 30,4 26,6 ± 41,4 15,6 ± 22,3 Atividade pelo paciente 6,9 ± 2,1 4,4 ± 2,2 3,8 ± 2,2 3,7 ± 2,2 3,4 ± 2,1 Atividade pelo médico 6,4 ± 1,8 4,0 ± 1,9 3,6 ± 1,6 3,4 ± 1,9 2,9 ± 1,8 Fadiga 5,6 ± 2,7 4,3 ± 2,4 3,6 ± 2,5 3,7 ± 2,5 2,9 ± 2,0 Dor 6,9 ± 2,1 4,5 ± 2,2 4,0 ± 2,3 3,4 ± 2,3 3,3 ± 2,0 P = 0,000 iniciando a partir da semana 6 em todas as variáveis. Tabela 3 Avaliação da mudança na qualidade de vida Basal Semana 6 Semana 12 Semana 18 Semana 24 Funcionamento físico 30,6 53,5 54,6 57,6 60,8 Papel físico 22,9 52,8 58,2 59,4 65,7 Dor física 39,1 66,2 70,0 67,8 71,3 Saúde geral 23,9 44,4 45,9 48,6 51,1 Vitalidade 48,5 61,1 63,1 67,1 74,8 Funcionamento social 49,0 62,3 65,4 67,8 69,0 Papel emocional 22,5 60,6 67,5 60,9 66,8 Saúde mental 43,4 62,0 65,0 61,6 64,6 Saúde física, total 26,5 54,2 57,1 58,2 62,3 Saúde mental, total 41,0 61,5 65,1 64,3 66,2 SF-12 total 33,9 58,1 61,1 61,4 64,2 P = 0,000 começando a partir da semana 6 em todos os componentes. Mudança na capacidade funcional e na qualidade de vida 840 90 80 Porcentagem de pacientes O funcionamento físico dos pacientes, medido pelo HAQ-DI, demonstrou melhora significativa e contínua a partir da semana 6, quando comparado com a avaliação basal; essa melhora foi mantida até o final do estudo (valor basal: 0,91 ± 0,53; semana 6: 0,43 ± 0,42; semana 12: 0,39 ± 0,44; semana 18: 0,35 ± 0,27; e semana 24: 0,32 ± 0,41). Considerados individualmente, oito (11,3%) pacientes não melhoraram, 26 (36,6%) melhoraram menos de 0,5 ponto e 37 (52%) melhoraram mais de 0,5 ponto. Ao final do estudo, 17 (24%) pacientes tinham alcançado um escore HAQ-DI igual a 0. Segundo medição pelo SF-12, houve melhora significativa da qualidade de vida em todos os domínios, começando na semana 6 e continuando até a avaliação final (Tabela 3). Resposta ACR 76 77,5 69 70 67,1 60 50 ACR 20% ACR 50% ACR 70% 52,1 50,7 40 32,4 30 20 10 23,9 22,5 12,7 14,1 Semana 12 Semana 18 5,6 0 Semana 6 Semana 24 Figura 1 Resposta ACR. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 Metotrexato + leflunomida para tratamento da artrite reumatoide Resposta ACR Depois da semana 6 com o tratamento combinado de MTX + LFN, 50,7% alcançaram ACR20, 22,5% ACR50 e 5,6% ACR70. Depois de 24 semanas de tratamento, 76% dos pacientes alcançaram ACR20, 67,1% ACR50 e 23,9% ACR70 (Figura 1). Embora o escore do Índice de atividade da doença (DAS28, Disease Activity Score) não tenha sido considerado como variável primária para a avaliação da melhora na atividade da doença, houve redução significativa, com início na semana 6, e que foi mantida até o final do estudo: 5,8 ± 1,2 no início do estudo; 4,3 ± 1,3 na semana 12; e 3,8 ± 1,6 na semana 24 (P = 0,000). Segurança Dos 88 pacientes, 72 completaram o estudo. Quatro pacientes abandonaram voluntariamente a pesquisa, e outros quatro não puderam continuar o acompanhamento. Foram comunicados 30 eventos adversos: queixas gastrintestinais (pirose, dispepsia e diarreia) em 12% dos pacientes; elevação dos níveis das transaminases em 10% dos pacientes; queixas respiratórias (resfriado comum e pneumonia adquiridos na comunidade) em 6% dos pacientes; e alopecia em 13% dos pacientes. Nos pacientes com transaminases elevadas, ajustamos as doses de MTX e/ou LFN de acordo com o protocolo. As anormalidades laboratoriais mais comuns foram enzimas hepáticas elevadas. Quatro pacientes desistiram do estudo devido aos níveis persistentemente elevados das transaminases. O acompanhamento desses pacientes demonstrou normalização dos níveis enzimáticos elevados depois da descontinuação das medicações. Quatro outros pacientes foram excluídos por causa de diabete insípido, diabete melito, dores osteomusculares e erupção cutânea. Um paciente teve redução na contagem de leucócitos para menos de 1.500 mm3, mas se recuperou com a redução da dose de LFN para 10 mg/dia (Tabela 4). Foram observados aumentos nos níveis de AST e/ou ALT entre 1,2 e 2 vezes o valor normal em 43 pacientes (48%); 17 pacientes (23%) exibiram elevações de AST, e 26 pacientes (35%) exibiram elevações de ALT (Tabela 5). DISCUSSÃO Apesar do maior volume de informações nos últimos anos acerca do uso combinado de MTX + LFN no tratamento da AR,19,20 ainda não foi publicado nenhum estudo avaliando a eficácia terapêutica e a segurança dessa alternativa na população colombiana ou em outras populações latino-americanas. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 Tabela 4 Eventos adversos Eventos n (%) Níveis das transaminases elevados 8 (26%) Alopecia 4 (13%) Erupção 2 (6,6%) Dispepsia 2 (6,6%) Leucopenia 1 (3%) Mialgia 1 (3%) Úlceras orais 1 (3%) Pneumonia 1 (3%) Dor osteomuscular 1 (3%) Descompensação diabética 1 (3%) Diabete insípido 1 (3%) Infecção respiratória leve 1 (3%) Trauma 1 (3%) Artrite 1 (3%) Dedo em gatilho 1 (3%) Dor abdominal 1 (3%) Ligeira elevação da creatinina 1 (3%) Diarreia 1 (3%) Tabela 5 Pacientes com transaminases elevadas UI/dL AST ALT FA Normal 48 (65%) 38 (52%) 56 (76%) > 1,2 a ≤ 2 17 (23,2%) 26 (35,6%) 12 (16,4%) > 2 a ≤ 3 3 (4,1%) 6 (8,2%) 2 (2,73%) > 3 5 (6,8%) 3 (4,1%) 0 *ALT: alanina aminotransferase; *AST: aspartato aminotransferase; *FA: fosfatase alcalina. No presente estudo, incluímos pacientes com AR estabelecida que não respondiam adequadamente ao tratamento com MTX ou a uma combinação de MTX e medicamentos antimaláricos. Na Colômbia, essas duas medicações são frequentemente utilizadas por reumatologistas como tratamentos de primeira linha, juntamente com baixas doses de glicocorticoides e AINEs.21 Os estudos clínicos iniciais das terapias combinando MTX com outras DMCDs chegaram a resultados desapontadores, provavelmente devido às baixas doses de MTX utilizadas. Estudos mais recentes demonstraram melhor eficácia terapêutica, sem aumento significativo dos eventos adversos.22,23 841 Londono et al. A LFN é uma DMCD cuja ação principal é a inibição da biossíntese das pirimidinas, o que limita a proliferação de linfócitos T ativados.24 O MTX opera por meio de vários mecanismos, inclusive por inibição da biossíntese das purinas, inibição da síntese das poliaminas celulares, modulação da atividade das citocinas, liberação de adenosina e ativação da apoptose celular. O sinergismo potencial já observado em estudos in vitro sugere que a combinação de MTX + LFN possa ser útil no tratamento para AR.25 Ao longo do tempo, surgiram algumas questões em relação ao uso da LFN, particularmente em combinação com o MTX. A despeito das opiniões conflitantes, no entanto, Weinblatt demonstrou que a combinação é mais efetiva e segura que a monoterapia com MTX ou LFN.12 Transcorridos nove meses de tratamento, 57% dos pacientes obtiveram uma resposta ACR20; essa resposta se manteve durante 3 meses até o término do estudo. Resultados similares foram publicados por Van Riel.26 Os resultados de um estudo randomizado de Kremer demonstraram que a combinação de MTX + LFN é superior à monoterapia com MTX. Um total de 46,2% dos pacientes medicados com a combinação obtiveram resposta ACR20 depois de 24 semanas de tratamento, em comparação com 19,5% dos pacientes medicados exclusivamente com MTX. ACR50 foi obtido em 26,2% e 6% dos pacientes, respectivamente, e as respostas ACR70 foram 10% e 2,3%, respectivamente.14 As respostas ACR a seguir foram observadas nas semanas 6, 12, 18 e 24 do presente estudo: 50,7%, 77,5%, 69,0% e 76,0%, respectivamente, para ACR20; 22,5%, 32,4%, 52,1% e 67,1%, respectivamente, para ACR50; e 5,6%, 12,7%, 14,1% e 23,9%, respectivamente, para ACR70. O percentual de pacientes que alcançaram uma resposta ACR20 aumentou rapidamente e se manteve durante o período de acompanhamento. Houve aumento nas respostas ACR50 e ACR70, à medida que o estudo prosseguia. Provavelmente em decorrência do breve período de acompanhamento, nenhum paciente obteve remissão, embora tenha havido melhora significativa nas variáveis relacionadas à atividade inflamatória da doença, começando com as primeiras semanas de acompanhamento. Em nosso estudo, os percentuais de respostas ACR20, ACR50 e ACR70 foram maiores em relação a estudos prévios. É importante enfatizar que os pacientes incluídos no presente estudo tinham, em média, 8 ± 6,8 anos de evolução da doença, tendo demonstrado que eram refratários ao tratamento estável com uma combinação de MTX, glicocorticoides em baixa dose, DMCDs e antimaláricos. Lee et al.19 publicaram respostas ACR20, ACR50 e ACR70 superiores às observadas 842 em nosso estudo, o que aparentemente está relacionado ao tempo de evolução da doença e à ausência do uso prévio de DMCD. No que diz respeito ao DAS-28, considerado indicativo de melhora clinicamente significativa quando ocorre mudança do valor prévio ≥ 1,2, houve melhora acima desse limiar a partir da semana 12 até a semana 48 em nosso estudo, sugerindo mobilização de um estado de atividade intensa para um estado entre atividade leve e moderada. Esses resultados tiveram correlação com os observados pela mensuração da capacidade funcional com o HAQ-DI. Os resultados do HAQ-DI demonstraram melhora funcional significativa nos pacientes, começando nas primeiras semanas, com manutenção até o final do estudo. Um total de 35 pacientes (52%) obteve redução superior a 0,5 na semana 24. Quatro desses pacientes obtiveram um escore HAQ-DI igual a 0. Até o final do estudo, a distribuição dos valores basais de HAQ-DI demonstrou que o tratamento combinado de MTX + LFN reduziu expressivamente a deterioração funcional e a incapacitação causadas pela AR. A eficácia da combinação também ficou evidente na mudança da qualidade de vida, conforme avaliação pelo SF-12. Houve melhora em todos os componentes a partir da semana 6 até o final do estudo. Todas essas diferenças foram estatisticamente significativas. Esses resultados foram consistentes com os obtidos em outros estudos, que informaram o mesmo fenômeno desde a primeira semana de tratamento com LFN, embora sem esclarecimento das razões para a mudança.12,14,27 Com relação à segurança, a combinação de MTX + LFN foi razoavelmente bem-tolerada. Dos 88 pacientes que iniciaram o estudo, 72 (81,2%) completaram o período de acompanhamento de 24 semanas; três pacientes retiraram seu consentimento informado e quatro tiveram de descontinuar o acompanhamento devido a mudanças nas empresas seguradoras. Na Colômbia, os pacientes mudam de seguradora de saúde em média a cada 18 meses; isso traz problemas de continuidade, quando são tratados pacientes com doenças crônicas. No presente estudo não houve efeitos adversos graves relacionados ao tratamento com LFN, conforme já havia sido publicado, como mortes, hospitalização prolongada, sepse, infecções graves ou insuficiência hepática.28–30 É possível que o tamanho da amostra e o período de acompanhamento relativamente curto não tenham permitido a detecção dessas complicações. Houve elevações significativas nos níveis das transaminases (mais de 3 vezes o limite normal) em oito pacientes (9%), quatro dos quais desistiram do estudo. Os eventos clínicos adversos relatados foram transtornos gastrintestinais, sintomas Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 Metotrexato + leflunomida para tratamento da artrite reumatoide respiratórios e sintomas relacionados à pele – todos consistentes com os descritos em estudos precedentes.12,31–33 Certamente, é preocupante o potencial hepatotóxico da combinação de MTX + LFN. Em um estudo de Kremer, os pacientes que foram trocados de placebo para LFN sem dose de ataque demonstraram elevações de 13,7% para AST e de 14,6% para ALT, embora essas elevações tivessem sido menos frequentes que naqueles pacientes medicados com LFN desde o início e com uma dose de ataque (AST 16,9% e ALT 31,5%). Nesses estudos ocorreu reversão de todos os níveis elevados das transaminases, sem intervenção por redução da dose ou suspensão da medicação. Em nosso estudo, o protocolo obrigava à suspensão de MTX se ocorresse elevação das transaminases em 3 vezes; no caso de elevação ≥ 2 mas ≤ 3, o protocolo exigia a redução da dose de MTX para 7,5 mg/ semana, ou uma redução da dose de LFN para 10 mg/dia, a critério do investigador. Depois da redução ou da remoção das doses de MTX e/ou LFN, houve normalização dos níveis das enzimas hepáticas, em comparação com controles laboratoriais, dentro de 4 e 8 semanas – conforme ocorreu em outros estudos.33,34 Recentemente, Alves publicou os resultados da monitoração de 71 pacientes com AR durante oito meses: 36,6% estavam usando 20–25 mg/semana de MTX exclusivamente, enquanto 63,4% usavam 20–25 mg/semana de MTX + 20 mg/dia de LFN. Dos pacientes em terapia combinada, 11,1% tinham níveis anormais das enzimas hepáticas versus 11,5% dos pacientes em monoterapia. Não foi observada diferença entre pacientes tratados exclusivamente com MTX ou em combinação com LFN. Os autores concluíram que geralmente a combinação de MTX + LFN em pacientes com AR é segura e bem-tolerada.13 Apesar disso, enfatizamos o risco de toxicidade hepática com o uso da combinação, além da necessidade de uma rígida monitoração dos níveis das transaminases. Esse monitoramento é necessário desde o início do tratamento e durante todo o período terapêutico. Do mesmo modo, os médicos devem evitar o uso dessa combinação em pacientes que já tiveram doença hepática, ou naqueles com fatores de risco adicionais para hepatotoxicidade. A dispepsia é outro efeito adverso frequentemente informado entre pacientes medicados com MTX + LFN, com incidência que pode chegar a 16,7%.14 Em nosso estudo, utilizamos a apresentação farmacêutica de cápsula gelatinosa mole, aprovada para uso na Colômbia desde 2006 pelo INVIMA, sob o número de registro M-0005987. Embora o tamanho da amostra não nos tenha permitido confirmar, parece haver uma Rev Bras Reumatol 2012;52(6):830-845 relação entre tolerância gastrintestinal adequada e apresentação farmacêutica. Ao iniciar o tratamento, utilizamos uma dose de ataque de LFN. Doses de ataque estão associadas com maior incidência de efeitos colaterais, particularmente náusea e diarreia. Atualmente, em alguns países é prática comum omitir a dose de ataque; isso parece ter aumentado a aceitação do tratamento pelos pacientes. Embora haja necessidade de validar esses achados, a omissão da dose de ataque pode melhorar a tolerabilidade da combinação de MTX + LFN.35 Nosso estudo não acompanhou a progressão da doença por meio de radiografias devido às dificuldades de padronização das leituras radiográficas em nosso ambiente de estudo. Não obstante, foi previamente demonstrada de maneira convincente uma redução radiográfica das lesões para o tratamento com MTX ou LFN como monoterapia.10,34 A combinação de MTX + LFN pode ser considerada uma opção terapêutica para pacientes com respostas incompletas à monoterapia com MTX ou a outras combinações de MTX + DMCDs que tenham se revelado ineficazes ou não bemtoleradas. O impacto econômico no sistema de saúde que essa combinação poderia representar, como etapa prévia à adição de agentes biológicos em pacientes refratários ao tratamento convencional, exige validação em estudos com maior número de pacientes e com acompanhamento mais longo. Mas um estudo prévio tratando dos custos médicos diretos da AR na Colômbia sugeriu que a combinação de MTX + LFN pode ser uma alternativa para regimes mais dispendiosos, com um custo anual médio de US$ 1.381.36 Recentemente, nosso grupo publicou dados sobre os custos anuais do tratamento de pacientes com AR em relação a gravidade da doença e medicamentos utilizados. Um paciente que seja moderadamente ativo e necessite do uso de MTX + LFN tem uma despesa anual variando entre US$ 1.821 e US$ 7.716, enquanto esse mesmo paciente, tratado com agentes biológicos anti-TNF-α, tem uma despesa anual entre US$ 31.931 e US$ 123.661.37 O uso da combinação de MTX + LFN poderia ser uma alternativa terapêutica mais econômica para pacientes com AR moderada a grave. Os resultados de eficácia do presente estudo sugerem que a combinação de MTX + LFN proporciona benefícios clínicos potenciais, com tolerabilidade aceitável, embora a elevação das enzimas hepáticas exija monitoração cuidadosa e frequente dos níveis das transaminases. No entanto, ao serem interpretados os resultados obtidos nesse estudo, é necessário considerar que o tamanho da amostra e o período de acompanhamento são insuficientes para que venham a ocorrer todos os graves eventos adversos possíveis que podem ser gerados pela combinação de MTX + LFN. 843 Londono et al. AGRADECIMENTOS Ao Dr. Carlos Bustamante e ao Dr. Carlos Granados, pelas recomendações técnicas e metodológicas que nos permitiram desenvolver adequadamente este projeto. A Renato Guzmán, León Felipe Jaramillo, Fernando Medina, José Fernando Molina, Juan José Jaller, Elias Forero, Javier Ramírez, Mauricio Abello, William Otero, Mario Díaz, Edgardo Tobías, Patricia Vélez e María Jose Janaut, que participaram como investigadores principais em cada um dos centros realizadores da investigação. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. Yelin E, Meenan R, Nevitt M, Epstein W. Work disability in rheumatoid arthritis: effects of disease, social, and work factors. Ann Intern Med 1980; 93(4):551–6. 2. Lawrence R, Helmick C, Arnett F, Deyo R, Felson D, Giannini E et al. Estimates of the prevalence of arthritis and selected musculoskeletal. Arthritis Rheum 1998; 41(5):778–99. 3. Anaya JM, Correa PA, Mantilla RD, Jimenez F, Kuffner T, McNicholl JM. Rheumatoid arthritis in African Colombians from Quibdo. 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Biomedica 2009; 29(1):43–50. 845 ARTIGO ORIGINAL Efeito da hidrocinesioterapia sobre qualidade de vida, capacidade funcional e qualidade do sono em pacientes com fibromialgia Kyara Morgana Oliveira Moura Silva1, Silvia Jurema Pereira Tucano1, Claudia Kümpel2, Antonio Adolfo Mattos de Castro3, Elias Ferreira Porto4 RESUMO Introdução: A síndrome da fibromialgia acomete 8% da população com mais de 40 anos de idade. Dos pacientes com fibromialgia, 75% queixam-se de má qualidade do sono. Objetivo: Avaliar os efeitos da hidrocinesioterapia sobre a capacidade funcional e a qualidade de sono em pacientes com fibromialgia. Métodos: As pacientes foram atendidas na policlínica da UNASP. Foram avaliadas 60 pacientes portadoras de fibromialgia na faixa etária entre 30 e 65 anos. Das pacientes avaliadas, 20 foram excluídas e 10 desistiram devido à impossibilidade de apresentar-se no horário do programa de exercícios. Todas as pacientes responderam aos seguintes questionários: Questionário sobre o Impacto da Fibromialgia (QIF), Índice da Qualidade do Sono de Pittsburgh e Escala de Sonolência de Epworth. As sessões foram realizadas duas vezes por semana, com duração de 60 minutos cada, por um período de dois meses. Resultados: A média da idade das pacientes foi de 45 anos; 66% eram trabalhadoras ativas e 34% estavam afastadas do trabalho. Verificouse que imediatamente após participarem do programa da hidrocinesioterapia, as pacientes apresentaram melhora nos seguintes aspectos avaliados por meio do QIF: capacidade funcional, absenteísmo ao trabalho, capacidade de serviço, intensidade da dor, fadiga, cansaço matinal, rigidez (P < 0,0001), ansiedade (P = 0,0013) e depressão (P < 0,0001). Houve também melhora da qualidade do sono (P < 0,0001) e no grau de sonolência diurna (P = 0,0003). Conclusão: A hidrocinesioterapia promove melhora de qualidade do sono, capacidade funcional, situação profissional, distúrbio psicológicos e sintomas físicos da síndrome em pacientes com fibromialgia. Palavras-chave: fibromialgia, sono, hidroterapia, qualidade de vida. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A síndrome da fibromialgia (SFM) é uma das doenças reumatológicas mais frequentes, caracterizada por dor musculoesquelética difusa e crônica, com pontos sensíveis (tender points) nos músculos ou na junção miotendinosa. São 18 tender points situados em locais distintos do corpo.1–3 Sua etiologia ainda é desconhecida, e sua fisiopatologia não está totalmente esclarecida. Entretanto, há evidências sobre alterações metabólicas e de oxigenação nas fibras musculares, desequilíbrio entre a percepção dolorosa e os mecanismos das vias aferentes, além de diminuição dos níveis de serotonina e endorfina.4 A fisiopatologia da SFM é multicausal, e vários experimentos demonstram que atuações não coordenadas dos mecanismos de nocicepção e de inibição da dor resultam de uma distorção sensorial.5 Segundo Weidebach,6 a SFM não era uma doença bem definida clinicamente antes da década de 1970, quando foram publicados os primeiros achados que deram margem para pesquisas mais aprofundadas sobre a doença. Contrariamente ao que se pensava, ela não é uma doença inflamatória, não gera comprometimentos articulares, nem causa deformidades. Recebido em 08/11/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Comitê de Ética: FR – 460754. Centro Universitário Adventista de São Paulo – UNASP. 1. Fisioterapeuta; Membro do grupo de pesquisa sobre hidroterapia em doenças crônicas, Universidade Adventista de São Paulo – UNASP 2. Mestre; Professora dos Cursos de Fisioterapia e Administração, UNASP 3. Doutorando, Universidade Federal de São Paulo – Unifesp; Professor do curso de Fisioterapia, Universidade Federal do Pampa – Unipampa 4. Doutorando, Unifesp; Professor do curso de Fisioterapia, UNASP Correspondência para: Silvia Jurema Pereira Tucano. Universidade Adventista de São Paulo – UNASP. Estrada de Itapecerica, 5859, Capão Redondo. CEP: 05858-001. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 851 Silva et al. Contudo, considerando seu caráter crônico, a SFM causa impacto negativo na qualidade de vida de seus portadores. Em 1990, o American College of Rheumatology (ACR) definiu os seguintes critérios de classificação e diagnóstico para a SFM: 1) queixas frequentes de dor difusa por um período de pelo menos três meses; e 2) apresentação de dor difusa em no mínimo 11 dos 18 tender points padronizados. Considerando que tanto os exames laboratoriais de atividades inflamatórias quanto os de imagem são normais, o diagnóstico da SFM é prioritariamente clínico.6,7 Ribeiro e Proietti8 afirmam que além da dor e da sensibilidade dos tender points, os pacientes também apresentam irregularidades no sono, fadiga, rigidez matinal, diminuição da capacidade funcional, ansiedade e depressão, que reduzem a capacidade do paciente de realizar as tarefas domésticas básicas. Todos esses sintomas prejudicam a vida social e profissional do fibromiálgico. Cerca de 75% dos pacientes com SFM queixam-se de má qualidade do sono, o que é atribuído a uma desordem eletroencefálica, pela ausência da última fase do sono, chamada sono REM (rapid eye movement).9 Segundo Dinges et al.,10 a sonolência diurna é uma das alterações mais frequentes do paciente com SFM. Neste sentido, Ferro et al.11 mostraram que a má qualidade de sono está relacionada com maior predisposição a outras doenças. Affleck et al.12 mostraram a relação entre dor e sono em pacientes com SFM, e concluíram que uma das maiores queixas é a perda do sono vinculada à dor difusa. Martinez et al.13 mostraram associação entre os números de tender points e a perda da capacidade funcional, e que pacientes com SFM têm prejuízos em relação a pessoas saudáveis. A hidrocinesioterapia, geralmente praticada em água aquecida entre 32ºC e 33ºC, é fortemente indicada para o tratamento da SFM. Durante a imersão, os estímulos sensoriais competem com os estímulos dolorosos, interrompendo o ciclo da dor.14 Os efeitos estão relacionados a alívio da dor, diminuição dos espasmos, relaxamento muscular, aumento da amplitude de movimento, aumento da circulação sanguínea, fortalecimento muscular, aumento da resistência muscular e melhora na autoestima.15 O presente estudo teve como objetivo verificar a melhora de dor, irregularidades do sono, fadiga muscular, depressão, ansiedade e redução das atividades da vida diária em pacientes portadores de SFM submetidos à hidrocinesioterapia. MÉTODOS Este é um estudo prospectivo de autocontrole em que foram avaliadas 60 pacientes com diagnóstico clínico de SFM, 852 seguindo os critérios do ACR (paciente com dor difusa com duração igual ou superior a três meses e presença de dor à palpação em 11 ou mais dos 18 tender points). Das 60 pacientes avaliadas, 20 não preencheram os critérios de inclusão e 10 desistiram devido à impossibilidade de se apresentar ao horário do programa. Foram incluídas no estudo 30 mulheres na faixa etária entre 35–65 anos e com capacidade cognitiva de entender os propósitos do estudo e de assinar o termo de consentimento livre e esclarecido, independente de estado civil, raça, religião e aspectos socioeconômicos. Foram excluídas do estudo as pacientes praticantes de musculação e de outras atividades físicas em academia previamente ao início do programa de hidrocinesioterapia, e as que apresentavam algum tipo de doença dermatológica, alterações cardiorrespiratórias incompatíveis com a realização de exercício físico aeróbico e comorbidades graves. O programa de hidrocinesioterapia foi realizado em piscina aquecida a 32ºC, em área coberta no setor de hidroterapia na Policlínica do Centro Universitário Adventista de São Paulo (UNASP). A coleta dos dados foi processada somente após a aprovação do Comitê de Ética institucional. Todas as pacientes foram avaliadas antes e imediatamente após a intervenção pelo mesmo avaliador, por meio de uma ficha contendo dados demográficos e clínicos. Para avaliar a qualidade de vida das pacientes, utilizou-se o Questionário sobre o Impacto da Fibromialgia (QIF). O QIF é um instrumento de avaliação da qualidade de vida específico para pacientes com SFM, composto de 19 questões relacionadas à capacidade funcional, situação profissional, bem-estar geral, distúrbios psicológicos (como ansiedade e depressão) e sintomas físicos (como dor, sono, fadiga e rigidez), organizadas em 10 itens. Quanto maior o escore, maior é o impacto da SFM na qualidade de vida do indivíduo. Burckhardt et al.16 concluíram que o QIF é válido para ser utilizado em situações clínicas e de pesquisa. Para avaliação da qualidade do sono utilizou-se o Índice da Qualidade do Sono de Pittsburgh (IQSP), um instrumento com confiabilidade e validade previamente estabelecidas. Esse questionário é composto de 19 itens, agrupados em sete componentes, cada qual pontuado em uma escala de 0–3. Os componentes são: 1) qualidade subjetiva do sono; 2) latência do sono; 3) duração do sono; 4) eficiência habitual do sono; 5) alterações do sono; 6) uso de medicações para o sono; e 7) disfunção diurna. Os escores dos sete componentes são somados para conferir uma pontuação global do IQSP, que varia de 0–21. Pontuações de 0–4 indicam boa qualidade do sono; de 5–10 indicam qualidade ruim; e acima de 10 indicam distúrbio do sono.17 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 Efeito da hidrocinesioterapia sobre qualidade de vida, capacidade funcional e qualidade do sono em pacientes com fibromialgia A Escala de Sonolência de Epworth (ESE) foi aplicada para avaliar e quantificar o grau de sonolência durante oito atividades rotineiras. As respostas variam de 0–24 pontos, e 10 pontos é o divisor da normalidade.18 O protocolo de tratamento foi aplicado duas vezes por semana, composto de 15 sessões de 60 minutos cada, inteiramente em meio aquático, de maneira coletiva, respeitando os limites individuais e a evolução de cada paciente. Foi aferida a pressão arterial antes de cada sessão de hidrocinesioterapia. O programa terapêutico, em cada sessão de atendimento, compõe-se de quatro fases: 1) aquecimento global com caminhada por toda a extensão da piscina em linha reta para frente, para trás e com passada lateral (por 5 minutos); 2) alongamento muscular de membros superiores e inferiores e da musculatura dorsal (por 15 minutos – as posições de alongamento foram mantidas por 20 segundos e realizadas duas vezes, consecutivamente); 3) exercícios ativos livres para membros superiores e inferiores, inicialmente sem carga externa e evoluindo para exercícios com utilização de espaguetes e pesos aquáticos que variam de 0,5–1 kg (por 30 minutos – os treinos foram cumpridos com frequência de três séries de 12 repetições); e 4) relaxamento, com alongamentos ativos de membros superiores e inferiores e cadeia posterior e anterior de tronco, associados a exercícios respiratórios, promovendo relaxamento progressivo (duração de 10 minutos). Análise estatística Os dados estão expressos como média e desvio padrão. O teste Kolmogorov-Smirnov foi utilizado para analisar a normalidade dos dados. Usamos o teste t de Student para analisar os dados pré- e pós-intervenção. Considerou-se P < 0,05 estatisticamente significativo. O tamanho da amostra foi calculado com base na variável desfecho qualidade do sono, a partir da equação efeito esperado/desvio padrão (E/S). Neste estudo, o efeito esperado escolhido foi 4 pontos a menos entre a pré- e a pós-intervenção (diferença clínica minimamente importante), e o desvio padrão da amostra considerada foi a variabilidade da pontuação do IQSP. Portanto, para um α = 0,05 e um poder estatístico de β = 0,8, eram necessárias 27 pacientes para poder amostral. Todas as pacientes, mesmo as que participaram de apenas uma sessão de treinamento, foram avaliadas utilizando-se o método de intenção de tratar. RESULTADOS Fizeram parte deste estudo 30 pacientes com SFM com média de idade de 50,8 ± 12,5 anos (35–65 anos). As pacientes que apresentavam atividade profissional somavam 34,14%, e as que estavam afastadas do serviço por razões de saúde, 24,39%. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 Em relação ao número de tender points, obteve-se média de 14,8 ± 3,1 pontos. As demais características encontram-se na Tabela 1. Quanto ao impacto da SFM, verificou-se que inicialmente as pacientes tinham alteração da capacidade funcional, absenteísmo ao trabalho elevado, redução da capacidade de serviços, alta intensidade de dor, fadiga, cansaço matinal, rigidez e depressão. Imediatamente após o programa de hidrocinesioterapia, houve melhora significativa desses domínios (P < 0,0001). Houve melhora significativa quanto à ansiedade (P = 0,0013); porém, na avaliação do bem-estar não houve melhora significativa (P = 0,05) (Tabela 2). Quanto à qualidade do sono, verificou-se que inicialmente os pacientes tinham alteração no sono; no entanto, imediatamente após o programa de hidrocinesioterapia, houve melhora significativa de 39,5 ± 6,29 para 33,2 ± 6,60 pontos (P < 0,0001) (Figura 1). Do mesmo modo, a qualidade do sono, inicialmente alterada, sofreu melhora significativa após o programa de hidrocinesioterapia, com o grau de sonolência passando de 13,8 ± 7,28 para. 10,1 ± 7,36; P = 0,0003 (Figura 2). Tabela 1 Características das pacientes com fibromialgia Média Desvio padrão Idade 51 12,562 Peso 70,63 13,43 Estatura 1,56 7,450 Comorbidades associadas 4 Tempo doença 4,36 3,200 Tender points 14,89 3,107 Tabela 2 Avaliação do impacto da fibromialgia antes e após o programa de hidrocinesioterapia Domínios Antes Após P Capacidade funcional 13,5 ± 5,7 9,4 ± 3,6 < 0,0001 Bem-estar 2,7 ± 1,7 3,9 ± 2,0 > 0,05 Absenteísmo ao trabalho 5,7 ± 2,9 1,6 ± 1,7 < 0,0001 Capacidade de serviço 9,3 ± 1,9 6 ± 2,8 < 0,0001 Intensidade da dor 9,7 ± 0,8 5,8 ± 2,9 < 0,0001 Fadiga 9,6 ± 0,9 5,9 ± 3,0 < 0,0001 Cansaço matinal 9,2 ± 1,9 6,2 ± 2,5 < 0,0001 Rigidez 9,5 ± 1,2 6,2 ± 3,4 < 0,0001 Ansiedade 9,2 ± 1,6 6,5 ± 3,1 0,0013 Depressão 9,2 ± 1,6 4,8 ± 3,2 < 0,0001 853 Silva et al. 30 60 20 Epwoth Pittisburgh 40 20 10 0 Antes 0 Depois Antes 60 r = 0,54 P = 0,0039 Pittisburgh 50 Depois Figura 3 Correlação entre qualidade do sono e impacto da fibromialgia. Figura 1 Qualidade do sono avaliada antes e após o programa de hidrocinesioterapia. 40 Pittisburgh P < 0,0003 P < 0,0001 30 60 r = 0,49 50 P = 0,0024 40 30 20 10 20 0 0 10 2 4 6 8 10 12 Intensidade da dor 0 0 20 40 60 80 100 Figura 4 Correlação entre qualidade do sono e intensidade da dor. FIQ Figura 2 Grau de sonolência antes e após o programa de hidrocinesioterapia. O impacto da SFM não correlacionou-se positivamente com a qualidade do sono. No entanto, as pacientes mais impactadas pela SFM relataram piora na qualidade do sono (r = 0,54; P = 0,0039) (Figura 3). A intensidade da dor correlacionou-se positivamente com o grau de sonolência. Já as pacientes mais impactadas pela SFM também apresentaram piora no grau de sonolência (r = 0,049; P = 0,0024) (Figura 4). DISCUSSÃO O achado original deste estudo foi que a hidrocinesioterapia mostra-se eficaz na melhora do sono e da capacidade funcional de pacientes com SFM após 15 sessões de tratamento. 854 Acredita-se que a SFM apresenta em sua patogenia alterações nos sistemas musculoesquelético, neuroendócrino e nervoso central. Como a dor muscular é o principal sintoma da doença, pensou-se no sistema musculoesquelético como causa primária da síndrome. Histologicamente, foram identificadas anormalidades na estrutura do músculo de pacientes com SFM, como fibras atrofiadas e fibras elásticas ou reticulares que não são vistas no tecido muscular normal. Vale também ressaltar a presença de alterações funcionais, como redução na concentração de fosfato de alta energia, diminuição na oxigenação muscular e fluxo sanguíneo prejudicado.19 Essas alterações são semelhantes às de pessoas com mau condicionamento físico sem qualquer doença. Por isso, esses estudos não progrediram. Sabe-se que a terapêutica medicamentosa isolada não tem sido eficiente no tratamento da doença, tornando indispensável a realização de estudos que buscam recursos para a redução dos sintomas dolorosos. Com base em estudos que preconizavam a fisioterapia no tratamento da SFM, a abordagem terapêutica Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 Efeito da hidrocinesioterapia sobre qualidade de vida, capacidade funcional e qualidade do sono em pacientes com fibromialgia desta pesquisa consistiu na utilização de um programa preestabelecido de exercícios aquáticos. Os efeitos fisiológicos da hidrocinesioterapia advêm de uma combinação dos efeitos físicos da água (térmicos/mecânicos) com os efeitos do exercício.11 De fato, na piscina terapêutica as atividades podem ser executadas com maior facilidade devido à redução da força gravitacional. Isso permite a realização de exercícios com menos dor e de execução mais fácil que no solo. Portanto, a hidrocinesioterapia, além de permitir o relaxamento muscular por meio da água aquecida, proporciona aos fibromiálgicos um tratamento com melhora da autoconfiança e evolução mais rápida.20 O QIF é um instrumento que tem sido usado em vários estudos clínicos para avaliar a função física e o impacto da SFM na qualidade de vida dos pacientes.21 Ele avalia a qualidade de vida especificamente em pacientes fibromiálgicos, juntamente com questões relacionadas à capacidade funcional, situação profissional, distúrbios psicológicos e sintomas físicos. Sua versão para a língua portuguesa foi validada em 2006,22 e mostrou-se um instrumento de fácil compreensão e aplicação, válido e confiável para medir a capacidade funcional e o estado de saúde de pacientes com SFM, auxiliando, assim, no diagnóstico e no tratamento da doença. Em nosso estudo, confirmamos os achados de alteração na qualidade do sono e de melhora da mesma após a implementação da hidrocinesioterapia. Estudos mostram que o sono não reparador está presente em 76%–90% dos pacientes com SFM, em comparação a 10%–30% dos indivíduos saudáveis.23 Má qualidade do sono foi observada em 99% dos voluntários no estudo realizado por Theadom et al.,24 que avaliaram 101 pacientes diagnosticados com fibromialgia e avaliados pelo PSQI. A qualidade do sono foi significativamente previsora de dor, fadiga e funcionamento social em pacientes com SFM. A qualidade do sono é difícil de definir e mensurar, por ser muito complexa e variar de um indivíduo para o outro. Ela inclui aspectos quantitativos, como números de despertares, duração e latência do sono, e outros aspectos como profundidade, tranquilidade e sensação de descanso após o sono.25 Em nosso estudo, o instrumento utilizado para mensuração da qualidade subjetiva do sono foi o PSQI, validado em português por Bertolazi.26 O PSQI fornece um índice de gravidade e natureza do distúrbio do sono no último mês, e é um método seguro, confiável, não invasivo e fácil de aplicar.26 No pré-tratamento, despertares noturnos frequentes e poucas horas de sono alcançaram uma média de 39,5 pontos. Após a intervenção, aproximadamente 80% dos pacientes tiveram melhora na qualidade de sono, reduzindo a média para 33 pontos. Esses achados nos fazem acreditar que a hidrocinesioterapia Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 auxilia nas correções de distúrbios do sono, melhorando a qualidade do sono. Outra ferramenta utilizada foi a ESE, desenvolvida em 1991 por Dr. John W. Murray para avaliar a ocorrência de sonolência diurna excessiva.27 Segundo o autor, assim como qualquer outro método-questionário, a mensuração não é subjetiva, apesar de depender da habilidade de leitura, compreensão e resposta honesta do paciente.28 Neste estudo, os pacientes apresentaram sonolência excessiva para realizar as atividades de vida diária no pré-tratamento, com média de 13,88 pontos observada pela ESE. Essa sonolência excessiva pode estar associada com os frequentes despertares noturnos, fazendo com que o ciclo sono/vigília seja alterado. Tais alterações no padrão do sono podem resultar em cansaço e fadiga no dia seguinte. No pós-tratamento, a média foi de 10 pontos, o que mostrou melhora significativa. Em um estudo no qual a ESE foi utilizada em 30 voluntários fibromiálgicos, a ocorrência de sonolência diurna foi associada com maior gravidade da SFM, com alterações mais acentuadas nas polissonografias.29 A melhora do grau de sonolência e da qualidade do sono pode estar relacionada com aumento da serotonina, produzida pelos efeitos dos exercícios aeróbios realizados na água a 32ºC. Segundo Goldenberg et al.,30 os pacientes com SFM têm redução de serotonina, o que desregula o sono desses indivíduos. Por outro lado, com o nível de serotonina aumentado, há maior produção de melatonina, que tem como funções regular o sono e melhorar a qualidade do mesmo, proporcionando a sensação de descanso. Neste estudo, os pacientes com SFM apresentaram redução da capacidade funcional. Segundo Chaitow et al.,31 os pacientes com SFM apresentam músculos descondicionados, tendência a microtraumatismos musculares, dor e fadiga crônica. A melhora da capacidade funcional desses indivíduos está relacionada com os efeitos dos exercícios aeróbicos na água, principalmente sobre o sistema cardiovascular e muscular esquelético, que proporciona: aumento do débito cardíaco;32 desvio da curva de dissociação da hemoglobina para a direita, aumento da capilaridade muscular e diminuição da resistência à difusão de O2 das hemácias para as fibras musculares contráteis;33 e remodelamento dos músculos exercitados, com transformação das fibras tipo II B para II A e aumento do número, do tamanho e da concentração enzimática das mitocôndrias das células musculares de contração lenta.34 Uma das limitações deste estudo foi a não realização da polissonografia, que é o padrão ouro para avaliação da qualidade do sono. No entanto, os resultados não são invalidados, considerando-se a confiabilidade de nosso método. 855 Silva et al. CONCLUSÃO A hidrocinesioterapia está bem indicada para pacientes com SFM, sendo importante para a melhora de qualidade do sono, capacidade funcional, situação profissional, distúrbios psicológicos e sintomas físicos da síndrome. A avaliação da qualidade de vida antes e após a terapia indicou melhora na percepção subjetiva das condições físicas e psicológicas. Desse modo, as intervenções destinadas a melhorar a qualidade do sono e a capacidade funcional podem contribuir para a melhora da saúde e qualidade de vida de pacientes com SFM. AGRADECIMENTOS Ao Prof. Elias F. Porto, pela orientação deste trabalho, e à Prof.a Cláudia Kumpel, pela ajuda na realização deste. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. Santos AMB, Assumpção A, Matsutani LA, Pereira CAB, Lage LV, Marques AP. Depressão e qualidade de vida em pacientes com fibromialgia. Rev Bras Reumatol 2006; 10:317–24. 2. Heymann RE, Paiva ES, Helfenstein Junior M, Pollak DF, Martinez JE, Provenza JR et al. 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Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 Efeito da hidrocinesioterapia sobre qualidade de vida, capacidade funcional e qualidade do sono em pacientes com fibromialgia 32. Wasserman K, Hansen JE, Sue DY, Casaburi R, Whipp BJ. Principles of exercise testing and interpretation. 3.ed. Philadelphia, PA: Lippincott Williams & Wilkins, 1999; p. 201–14. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):846-857 33. Hepple RT. Skeletal muscle: microcirculatory adaptation to metabolic demand. Med Sci Sports Exerc 2000; 32(1):117–23. 34. Starnes JW. Introduction to respiratory control in skeletal muscle. Med Sci Sports Exerc 1994; 26(1):27–9. 857 ARTIGO ORIGINAL Níveis séricos de vitamina B12 não se relacionam com baixa densidade mineral óssea em mulheres brasileiras na pós-menopausa Adriana Maria Kakehasi1, Ariane Vieira Carvalho2, Fabiana Alves Nunes Maksud3, Alfredo José Afonso Barbosa4 RESUMO Introdução: Osteoporose e deficiência de vitamina B12 são condições de prevalência crescente com o envelhecimento. A associação entre níveis séricos de vitamina B12, baixa massa óssea e risco aumentado de fraturas ósseas tem sido descrita, mas os estudos não são homogêneos e os resultados são controversos. Objetivo: Investigar a associação entre níveis plasmáticos de vitamina B12 e densidade mineral óssea em mulheres assintomáticas na pós-menopausa. Métodos: Mulheres assintomáticas no período pós-menopausa foram consecutivamente incluídas neste estudo transversal. A densidade mineral óssea (coluna lombar e fêmur) foi avaliada pelo método DXA Lunar Prodigy Vision, e foram determinados níveis sanguíneos de vitamina B12, cálcio, fósforo, fosfatase alcalina óssea e hormônio paratireoidiano. Os critérios da Organização Mundial de Saúde foram considerados para o diagnóstico de osteoporose. Resultados: Foram incluídas neste estudo 70 mulheres, com média de idade de 62,5 ± 7 anos. Do total, 18 (25,7%) apresentaram densidade mineral óssea normal, 33 (47,1%) tinham osteopenia e 19 (27,1%) tinham osteoporose. Seis (8,6%) pacientes haviam apresentado fratura de punho, duas (2,8%) reportaram diagnóstico de fratura vertebral e apenas uma (1,4%) paciente havia sofrido fratura de quadril. Os níveis de vitamina B12 (média ± DP; pg/mL) das mulheres com densidade mineral óssea normal, osteopenia e osteoporose foram 590,2 ± 364,3, 536,6 ± 452,3 e 590,2 ± 497,9, respectivamente (P = 0,881). A análise de regressão múltipla mostrou que o índice de massa corporal e a fosfatase alcalina óssea foram preditores da densidade mineral óssea na coluna lombar. Conclusão: Os resultados indicam que níveis de vitamina B12 não se relacionam à densidade mineral óssea neste grupo de mulheres brasileiras na pós-menopausa. Palavras-chave: osteoporose, vitamina B12, pós-menopausa, densidade óssea. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A osteoporose é uma osteopatia sistêmica caracterizada pela perda de massa óssea e de força e por deterioração da microarquitetura da estrutura esquelética.1 Trata-se de uma doença disseminada, afetando 75 milhões de pessoas na Europa, Estados Unidos e Japão. O número de fraturas incidentes anuais nos Estados Unidos é superior a 2 milhões.2–4 O conceito da doença envolve vários mecanismos patogênicos que, junto a fatores que aumentam o risco de quedas, contribuem para um aumento nas fraturas por fragilidade. Em alguns estudos, um quadro de deficiência de vitamina B12, basicamente avaliada pelos níveis plasmáticos, foi associado à baixa densidade mineral óssea (DMO) e risco aumentado de fratura.5–8 No entanto, os resultados até agora publicados, inclusive experimentos animais, são controversos.9–14 Basicamente, a vitamina B12 é obtida da dieta, pelo consumo de produtos derivados de animais, podendo interferir no metabolismo Recebido em 09/11/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Suporte Financeiro: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Comitê de Ética: 479/04. Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. 1. Doutor; Professor-Associado, Departamento de Sistema Locomotor, Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG 2. Aluna do curso de Medicina; Pesquisadora, Laboratório de Patologia Digestiva e Neuroendócrina, Faculdade de Medicina, UFMG 3. Mestre em Medicina; Professor-Assistente, Faculdade de Medicina, UFMG 4. Pós-doutorado; Professor Titular, Laboratório de Patologia Digestiva e Neuroendócrina, Faculdade de Medicina, UFMG Correspondência para: Adriana Maria Kakehasi. Departamento de Sistema Locomotor. Faculdade de Medicina, Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena, 190/193. CEP: 30130-100. Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):858-869 863 Kakehasi et al. ósseo, com estimulação positiva dos osteoblastos.15 Por outro lado, um amento nos níveis circulatórios de homocisteína causado pela deficiência de vitamina B12 pode estar implicado no surgimento precoce da osteoporose, na baixa qualidade óssea e em risco aumentado de fratura.8,16–21 Ainda não ficou claramente definido o real impacto da deficiência de vitamina B12 na saúde dos ossos e nos mecanismos associados a transtornos do metabolismo ósseo. A identificação de indivíduos que podem beneficiar-se com uma triagem para osteoporose mais imediata e com a intervenção terapêutica pode diminuir a morbidade e a mortalidade associadas à osteoporose. Considerando que tanto a osteoporose como a deficiência de cobalamina podem passar despercebidas durante vários anos e que possivelmente suas consequências clínicas serão irreversíveis,22 os esforços devem voltar-se para a detecção dos indivíduos com maior risco para baixa massa óssea e fraturas por osteoporose. Embora fatores de risco para osteoporose e fraturas – idade, uso de glicocorticoides e história familiar – tenham sido devidamente documentados em pacientes brasileiros, jamais foram estudados os níveis plasmáticos de vitamina B12 em relação à DMO nessa população.23–25 Portanto, o objetivo da presente investigação foi estudar uma possível conexão entre níveis plasmáticos de vitamina B12 e DMO em um grupo assintomático de mulheres brasileiras na pós-menopausa. MÉTODOS Determinações plasmáticas Foi coletada uma amostra de sangue de uma veia antecubital de cada mulher na manhã seguinte a um jejum noturno. A vitamina B12 sérica foi determinada em uma análise única, e sua concentração (pg/mL) foi medida com o uso de um imunoensaio de quimioluminescência comercializado (valores de referência 200–950 pg/mL, CV 7%). Os níveis séricos de cálcio foram medidos por um eletrodo seletivo para íon com correção automática do pH (valores de referência 1,17–1,32 mmol/L) fosfatase alcalina óssea (FAO) por ensaio de imunocaptura (valores de referência 11,6–43,4 U/L), fósforo por um método UV colorimétrico de rotina (valores de referência 2,5–4,8 mg/dL) e hormônio paratireoidiano (PTH) por imunoensaio de quimioluminescência (valores de referência 8–80 pg/mL). Densidade mineral óssea As DMOs do quadril e da coluna vertebral lombar foram determinadas com DXA Lunar Prodigy Vision (Lunar Corp., Madison, WI). Os estudos DXA foram obtidos por procedimentos de rotina para escaneamento e análise de acordo com as instruções do fabricante. O controle de qualidade diário foi realizado mediante a medição de um fantasma Lunar. Por ocasião do estudo, as mensurações fantasmas demonstraram resultados estáveis. O coeficiente de variação foi 1%. O diagnóstico de osteoporose foi estabelecido de acordo com os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS), representad por um T-score abaixo de −2,5 DP.26 Participantes O presente estudo transversal foi aprovado pela Comissão de Ética da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mulheres saudáveis na pós-menopausa (pelo menos cinco anos de amenorreia natural) foram consecutivamente recrutadas daquelas examinadas pela primeira vez na Unidade de Gastroenterologia do Hospital Geral entre janeiro e dezembro de 2007. Para participar do estudo, todas as participantes deram consentimento informado por escrito. Os critérios de exclusão foram: uso de medicamentos sabidamente capazes de influenciar a mineralização óssea (glicocorticoides durante mais de três meses, medicamentos antiepilépticos, suplementação de cálcio, varfarina, terapia de reposição hormonal, vitamina D e bifosfonatos), história de neoplasia, diabetes mellitus ou uso de metformina, disfunção hepática ou renal, uso de tabaco ou hábito alcoólico (mais de três doses por dia), suplementação com folato ou vitamina B12 e consumo de uma dieta exclusivamente vegetariana. O índice de massa corporal (IMC) foi calculado como peso em quilogramas dividido pela altura em metros quadrados. 864 Análise estatística A análise estatística foi realizada com o Statistical Package for the Social Sciences for Windows, versão 17 (SPSS Inc., Chicago, IL). Os dados estão informados como média ± DP. Para as variáveis contínuas sem distribuição normal, os grupos foram comparados pelo teste U de Mann-Whitney. Consideramos que P < 0,05 indica diferença significativa. Foi utilizada análise de regressão faseada para avaliar variáveis independentemente relacionadas à DMO, análise de regressão simples para expressar a relação entre uma variável independente e DMO, análise de variância de fator único ou análise de covariância para fazer comparações entre grupos, e coeficiente de correlação ranqueada de Spearman para determinar a potência da associação entre pares de parâmetros ósseos. RESULTADOS Foram incluídas no estudo 70 mulheres na pós-menopausa, todas com menopausa fisiológica. Considerando a população Rev Bras Reumatol 2012;52(6):858-869 Níveis séricos de vitamina B12 não se relacionam com baixa densidade mineral óssea em mulheres brasileiras na pós-menopausa Tabela 1 Parâmetros demográficos e bioquímicos da população em estudo de 70 mulheres na pós-menopausa, de acordo com a classificação por densidade mineral óssea Normal (n = 18) Osteopenia (n = 33) Osteoporose (n = 19) P Idade (anos) 61,7 ± 6,5 63,2 ± 7,5 62,5 ± 6,9 0,748 IMCa (kg/m2) 30,6 ± 4,9 26,3 ± 4,2 25,2 ± 3,8 0,001 Idade da menopausa (anos) 47,3 ± 4,2 49,2 ± 3,7 48,8 ± 4,9 0,308 Duração da menopausa (anos) 14,4 ± 6,1 14 ± 7,1 13,8 ± 7,9 0,908 1,213 ± 0,109 1,003 ± 0,097 0,804 ± 0,057 < 0,001 b 2 DMO da coluna vertebral lombar (g/cm ) b 2 DMO do colo femoral (g/cm ) 1,026 ± 0,089 0,833 ± 0,081 0,765 ± 0,119 < 0,001 DMOb femoral total (g/cm2) 1,090 ± 0,106 0,880 ± 0,097 0,795 ± 0,117 < 0,001 Vitamina B12 (pg/mL) 590,2 ± 364,3 536,6 ± 452,3 590,2 ± 497,9 0,881 Cálcio sérico (mmol/L) 1,22 ± 0,06 1,24 ± 0,03 1,26 ± 0,06 0,026 Fósforo sérico (mg/dL) 3,8 ± 0,59 3,7 ± 0,59 3,6 ± 0,55 0,480 Fosfatase alcalina óssea sérica (U/L) 25,6 ± 8,8 26,7 ± 5,7 34,2 ± 12,6 0,006 42,2 ± 12,0 45,9 ± 14,4 41,1 ± 16,7 0,463 c PTH sérico (pg/mL) Valores expressados em média ± DP. a: índice de massa corporal; b: densidade mineral óssea. 600 Nível de vitamina B12 (pg/mL) total do estudo, a média de idade na primeira consulta foi 62,5 ± 6,9 anos (variação: 50–79), IMC médio de 27,1 ± 4,7 kg/ m2 (variação: 17,9–43), DMO média de 0,913 ± 0,153 g/cm2 (variação: 0,533–1,317) para o fêmur total, 0,864 ± 0,137 g/cm2 (variação: 0,564–1,234) para o colo femural e 1,003 ± 0,175 g/ cm2 (variação: 0,670– 1,414) para a coluna vertebral lombar. A média geométrica dos níveis plasmáticos de vitamina B12 foi 565 ± 439 pg/mL (variação: 156–2261). Seis (8,6%) pacientes haviam sofrido fratura de pulso e dois (2,8%) informaram pelo menos uma fratura vertebral. Um (1,4%) paciente havia sofrido uma fratura do quadril. Na avaliação por DXA, considerou-se que 19 (27,1%) mulheres apresentavam osteoporose (T-score abaixo de −2,5), 33 (47,1%) apresentavam osteopenia (T-score entre −2,5 e −1), e 18 (25,7%) apresentavam valores normais para DMO. Os parâmetros demográficos e bioquímicos dos três subgrupos, de acordo com o diagnóstico densitométrico, estão resumidos na Tabela 1. A média ± DP para os níveis de vitamina B12 (pg/ mL) de mulheres com DMO normal, osteopenia e osteoporose foram 590,2 ± 364,3, 536,6 ± 452,3 e 590,2 ± 497,9, respectivamente (P = 0,881) (Figura 1). A análise de regressão múltipla demonstrou que IMC e FAO foram os principais preditores de DMO da coluna vertebral lombar (Tabela 2). Rev Bras Reumatol 2012;52(6):858-869 * 580 570 560 *P = 0,881 550 540 * 530 520 510 500 Normal Osteopenia Osteoporose Densidade mineral óssea Figura 1 Níveis de vitamina B12 de acordo com a Organização Mundial da Saúde para densidade mineral óssea. Tabela 2 Correlação entre os resultados de DXA e variáveis relacionadas ao osso DISCUSSÃO A osteoporose é um transtorno esquelético caracterizado por comprometimento da resistência óssea, predispondo o * 590 Pares de variáveis ra P DMOb e IMCc 0,287 0,002 DMO e cálcio −0,16 0,11 DMO e fósforo 0,03 0,78 DMO e PTHd 0,01 0,94 DMO e fosfatase alcalina óssea 0,34 0,001 DMO e idade −0,091 0,34 DMO e vitamina B12 0,009 0,93 a : coeficiente de Spearman; b: densidade mineral óssea; c: índice de massa corporal; d: hormônio paratireoidiano. 865 Kakehasi et al. indivíduo a maior risco de fraturas, especialmente de quadril, pulso e coluna vertebral. A deficiência de estrogênio na pós-menopausa aumenta a taxa de remodelagem óssea e a quantidade de osso perdido a cada ciclo de remodelagem.27 Além disso, muitos fatores de risco estão associados a fraturas de osteoporose, inclusive baixa massa óssea de pico, fatores hormonais, doenças crônicas, uso de drogas, tabagismo, pouca atividade física, baixa ingestão de cálcio e vitamina D, baixa estatura e história pessoal ou familiar de fratura. A deficiência de vitamina B12 também foi relacionada a baixa massa óssea e a maior risco de fratura, mas os resultados são controversos (Tabela 3). Tucker et al.6 demonstraram uma relação entre baixa massa óssea no quadril e na coluna vertebral lombar e baixos níveis de vitamina B12. O mesmo achado foi observado em estudos de Cagnacci et al.12,13 e Gjestal et al.28 Do mesmo modo, Rejnmark et al.11 demonstraram haver associação significativa entre ingestão de folato (mas não de vitamina B12) e massa óssea. Um estudo de Dhonukshe-Rutten et al.5 alertou para o fato de que a vitamina B12 estava associada à baixa DMO em mulheres, mas não em homens. A deficiência de vitamina B12, comum entre os idosos, pode levar a complicações neurológicas caracterizadas por parestesia, perda da propriocepção e redução do sentido de vibração nos membros inferiores, condições que podem aumentar a propensão para quedas.29,30 Estudos epidemiológicos na população geral demonstraram prevalência de deficiência de vitamina B12 de aproximadamente 20% (entre 5% e 60%), dependendo da definição de deficiência de cobalamina. A cobalamina é cofator importante no metabolismo dos aminoácidos, e sua deficiência pode ser responsável pelo aumento nos níveis de homocisteína, que também estão ligados à osteoporose e às fraturas ósseas.14,16,17 Aparentemente a homocisteína interfere com as interligações do colágeno recémformado e estimula a formação e a atividade dos osteoblastos. Tabela 3 Resumo dos estudos que analisaram os níveis séricos de vitamina B12, risco de fratura e densidade mineral óssea Autor Participantes DMO Risco de fratura Dhonukshe-Rutten RA et al.5 194, homens e mulheres + ND Cagnacci A et al.12 161, mulheres na pós-menopausa − ND Macdonald HM et al.40 1.241, mulheres, 45−54 anos − ND Stone KL et al.41 83, mulheres na pósmenopausa, >65 anos − ND Tucker KL et al.6 2.456, homens e mulheres + ND Ravaglia P et al.42 702, homens e mulheres ND − 1.550, homens e mulheres + ND Dhonukshe-Rutten RA et al. 1.267, homens e mulheres + + Sato Y et al.44 433, pacientes de AVC hemiplégicos − + Gjesdal CG et al.28 5.338, homens e mulheres − ND Gjesdal CG et al.45 4.766, homens e mulheres ND − Baines M et al. 328, mulheres na pós-menopausa − ND DMO associada a níveis de folato Gerdhem P et al.5 996, mulheres >75 anos ND − Sem associação com níveis de folato McLean RR7 1.002, homens e mulheres + + Cagnacci A et al.13 117, mulheres na pós-menopausa − ND Cinco anos de acompanhamento, mudança na DMO associada a níveis de folato Ouzzif Z et al.18 188, mulheres na pós-menopausa + ND Associação com DMO do quadril, mas não da coluna vertebral lombar Presente estudo, 2012 70, mulheres na pós-menopausa − ND Morris MS et al.43 14 46 Comentários Risco de fratura associado a níveis de folato DMO por BUA DMO associada a níveis de homocisteína +: relação significativa; −: sem relação; DMO: densidade mineral óssea; BUA: atenuação da onda sonora; ND: não disponível. 866 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):858-869 Níveis séricos de vitamina B12 não se relacionam com baixa densidade mineral óssea em mulheres brasileiras na pós-menopausa Mas a vitamina B12 pode influenciar o metabolismo ósseo por outras vias, além do metabolismo da homocisteína. Outro efeito possível poderia ser a ação direta da vitamina B12 nos osteoblastos, visto ter sido observada uma resposta funcional e proliferativa dose-dependente quando duas linhagens celulares de osteossarcoma foram estimuladas com cianocobalamina.15 Em concordância com nossos resultados, Cagnacci et al.,13 em um estudo com 117 mulheres na pós-menopausa, não observaram relação significativa entre a mudança na DMO vertebral e vitamina B12; mas a taxa anual de mudança na DMO vertebral estava independentemente relacionada aos níveis de folato. Não foi observada relação com homocisteína. Um estudo transversal de Rejnmark et al.11 demonstrou correlações positivas entre o consumo diário proveniente da dieta e o consumo da dieta acrescido de suplementos de folato e DMO no colo femural; mas também, nesse caso, sem relação entre DMO e vitamina B6 ou B12 em mulheres na pós-menopausa. Um estudo seccional relatou os valores médios da análise nutricional de registros alimentares com homocisteína e cobalamina sérica livre em mulheres brasileiras adultas, não tendo demonstrado ingestão deficiente.31 A redução da acidez gástrica, resultante do envelhecimento ou da gastrite atrófica (que pode ocorrer por um mecanismo autoimune, ou como estágio avançado da infecção por H. pylori), pode estar implicada em indivíduos com comprometimento do quadro da vitamina B12.32 Estima-se que a hipocloridria afete até 40% dos idosos, estando associada ao comprometimento da absorção de vitamina B12 ligada à proteína. Embora um estudo retrospectivo em mulheres tenha observado taxas mais elevadas de fratura entre aquelas com anemia perniciosa, em comparação com controles normais,33 não pudemos detectar qualquer diferença na DMO entre pacientes com gastrite autoimune, gastrite por H. pylori e controles normais.34 Também é possível que o uso aumentado de bloqueadores ácidos possa contribuir para a ocorrência de deficiência de vitamina B12.35 Apesar do cálcio sérico mais alto no grupo de osteoporose, a análise estatística entre cálcio e outros parâmetros não demonstrou diferença significativa, podendo ser explicado pela atividade osteoclástica nesse grupo, visto que nenhuma paciente apresentou níveis acima do limite superior normal nem outras condições patológicas hipercalcêmicas. Nosso estudo tem limitações, pois o tamanho da amostra não permite a generalização dos resultados; mas até onde vai nosso conhecimento, essa é a primeira investigação da relação entre o quadro de vitamina B12 e DMO em mulheres brasileiras na pós-menopausa. Embora as participantes tenham sido recrutadas da comunidade, observamos critérios de exclusão como doenças e situações que pudessem influenciar a saúde Rev Bras Reumatol 2012;52(6):858-869 óssea. Isso faz com que os resultados sejam menos passíveis de generalização, mas pode dar base à ausência de associação entre níveis de vitamina B12 e DMO, pois os estudos que investigaram vitamina B12, DMO e risco de fratura não são homogêneos.8 Também não medimos os níveis de ácido metilmalônico ou de homocisteína para confirmar a deficiência funcional de vitamina B12 e, por ter sido um estudo observacional, as participantes não foram selecionadas com base na evidência de deficiência de vitamina B12. Não fizemos determinações dos níveis de vitamina D em nossa população em estudo. Embora importante, podem ocorrer diferenças étnicas nos efeitos do baixo quadro de vitamina D na massa óssea ou no metabolismo ósseo.36,37 Caracteristicamente, os afro-americanos têm níveis de vitamina D mais baixos que os americanos caucasianos; contudo, têm prevalência mais baixa de osteoporose.38 Um estudo transversal brasileiro em mulheres na pós-menopausa avaliou a correlação entre deficiência de vitamina D e DMO. Embora tenha sido observada elevada incidência de concentrações séricas inadequadas de 25-OH vitamina D (68,3%), com presença de 8% com hiperparatireoidismo secundário, não foram observadas diferenças significativas entre as concentrações séricas de vitamina D e DMO.39 Considerando que o risco de fraturas por osteoporose é mais alto em mulheres que em homens, todas as mulheres na pós- menopausa com mais de 65 anos devem ser examinadas para osteoporose. Mulheres na pós-menopausa mais jovens com fraturas ou fatores de risco devem passar por uma avaliação densitométrica e laboratorial para osteoporose. Isso reforça a importância da identificação dos fatores de risco em diferentes populações, com implicações diretas para o sistema de saúde pública. Nossos resultados indicam que os níveis séricos de vitamina B12 não parecem ser fator indicativo para triagem de baixa DMO em determinada população de mulheres na pós-menopausa. Portanto, os resultados até agora disponíveis sugerem que um baixo nível de vitamina B12 não é fator de risco confiável para osteoporose em mulheres brasileiras na pós-menopausa. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. NIH Consensus Development Panel on Osteoporosis Prevention, Diagnosis, and Therapy. Osteoporosis prevention, diagnosis, and therapy. JAMA 2001; 285(6):785–95. Holrovd C, Cooper C, Dennison E. Epidemiology of osteoporosis. Best Pract Res Clin Endocrinol Metab 2008; 22(5):671–85. 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J Bone Miner Res 2007; 22(1):127–34. 869 ARTIGO ORIGINAL Impacto dos exercícios na capacidade funcional e dor em pacientes com osteoartrite de joelhos: ensaio clínico randomizado Aline Mizusaki Imoto de Oliveira1, Maria Stella Peccin2, Kelson Nonato Gomes da Silva1, Lucas Emmanuel Pedro de Paiva Teixeira3, Virgínia Fernandes Moça Trevisani4 RESUMO Introdução: A fraqueza muscular, especialmente do quadríceps, é uma das principais repercussões osteomusculares da osteoartrite de joelho, e os exercícios são considerados uma das principais intervenções no tratamento conservador da doença. Objetivo: Avaliar o efeito do fortalecimento do quadríceps femural na capacidade funcional e nos sintomas relacionados à osteoartrite de joelho utilizando o teste Timed Up and Go (TUG), o questionário Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) e o Índice de Lequesne. Métodos: Foram randomizados 100 pacientes, divididos em dois grupos: 1) Grupo Exercício (n = 50), o qual incluiu bicicleta estacionária, alongamento dos músculos isquiotibiais e fortalecimento do músculo quadríceps, e 2) Grupo Orientação (n = 50), que recebeu um manual de orientações a fim de descrever a osteoartrite de joelho e instruir os pacientes a como ajustar o dia a dia de acordo com os sintomas. Os pacientes foram informados sobre os sinais e sintomas da doença e os cuidados durante as atividades de vida diária. O manual não incluiu orientação de exercícios. Resultados: O Grupo Exercício apresentou melhora estatisticamente significante no teste TUG, nos aspectos dor, função e rigidez do questionário WOMAC e no índice Lequesne, quando comparado ao Grupo Orientação. Conclusão: Exercícios para fortalecimento do quadríceps com duração de oito semanas são efetivos na melhora de dor, função e rigidez em pacientes com osteoartrite de joelho. Palavras-chave: osteoartrite de joelho, osteoartrite, reabilitação, ensaio clínico controlado randomizado. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A osteoartrite (OA) é caracterizada por degeneração articular e é a maior causa de dor musculoesquelética crônica e de limitação da mobilidade em pessoas idosas no mundo.1,2 Dentre as doenças reumáticas, a OA representa cerca de 30%–40% das consultas em ambulatórios de reumatologia. Além desse fato, sua importância pode ser demonstrada pelos dados da Previdência Social no Brasil, pois é responsável por 7,5% de todos os afastamentos do trabalho; é a segunda doença entre as que justificam o auxílio-inicial, com 7,5% do total; é a segunda também em relação ao auxílio-doença, com 10,5%; e é a quarta a determinar aposentadoria (6,2%).3 A fraqueza muscular, especialmente do quadríceps, é uma das principais repercussões osteomusculares da OA de joelho.4 O déficit de força na população com OA varia entre 15%–18% em pessoas no início da doença, 24% em pessoas com grau II (segundo classificação de Kellgren & Lawrence) e 38% em pessoas com grau IV.4 Hurley et al.5 sugeriram que mudanças degenerativas na estrutura do joelho com OA podem resultar em informação sensorial alterada de mecanorreceptores da articulação e, assim, reduzir a habilidade de ativar o quadríceps. Recebido em 13/11/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Suporte Financeiro: Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP. Comitê de Ética: 0141/07. Universidade Federal de São Paulo – Unifesp. 1. Doutor em Ciências, Universidade Federal de São Paulo – Unifesp 2. Doutora em Ciências, Unifesp; Professora-Adjunta, Unifesp; Pesquisadora do Centro Cochrane do Brasil – Cochrane Collaboration 3. Doutor em Ciências, Unifesp; Professor-Adjunto, Universidade Federal do Amazonas – UFAM 4. Doutora em Reumatologia, Unifesp; Assistente-Doutora da Disciplina de Medicina de Urgência e Medicina Baseada em Evidências, Unifesp; Professora Orientadora da Pós-graduação em Medicina Interna e Terapêutica, Unifesp Correspondência para: Aline Mizusaki Imoto de Oliveira. Universidade Federal de São Paulo. Departamento de Medicina Interna e Terapêutica. Rua Pedro de Toledo, 598 – Vila Clementino. CEP: 04039-001. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [email protected] 876 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 Impacto dos exercícios na capacidade funcional e dor em pacientes com osteoartrite de joelhos: ensaio clínico randomizado Com isso, é possível perceber a relevância da fraqueza do quadríceps em pacientes com OA.4 Acredita-se que a fraqueza do quadríceps leve à redução da capacidade funcional, predispondo o joelho a maior dano estrutural, já que esse músculo atua como um absorvedor de choque da articulação do joelho.6 A origem da fraqueza do quadríceps femural em pacientes com OA não é clara. Hurley et al.5 têm demonstrado que alguns pacientes com OA exibem inabilidade de ativar o quadríceps de forma completa, uma condição que pode ser chamada de falha na ativação do quadríceps (FAQ). Os exercícios são considerados uma das principais intervenções no tratamento conservador para pacientes com OA de joelho.7 Os principais objetivos são: redução da dor, melhora da função e melhora dos aspectos sociais e ocupacionais.8 Doi et al.9 compararam o efeito de exercícios domiciliares para o fortalecimento do quadríceps e o uso de anti-inflamatório não hormonal (AINH) por um período de oito semanas. Não houve diferença na melhora obtida nos dois grupos, segundo a avaliação do Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC). Os autores concluíram que os exercícios domiciliares direcionados para o fortalecimento do quadríceps melhoram a OA de joelho não menos que o uso de AINH. Exercícios moderados mostraram ser um bom tratamento não apenas na melhora dos sintomas e da função, mas também no conteúdo de glicosaminoglicanas na cartilagem do joelho em pacientes em alto risco de OA.10 A alta prevalência da OA de joelho e seu impacto na função e na qualidade de vida mostram a importância de pesquisa sobre estratégias de prevenção e de tratamento para essa condição clínica.11 O objetivo deste estudo foi avaliar o efeito do fortalecimento muscular do quadríceps femural na capacidade funcional e na dor de pacientes com OA de joelho. MÉTODOS O presente estudo foi realizado no Ambulatório de Especialidades de Interlagos, São Paulo, Brasil. Os médicos do Departamento de Reumatologia encaminharam os pacientes para a participação no estudo de acordo com os critérios de inclusão e exclusão. Um estatístico foi o responsável por realizar a alocação dos pacientes em cada grupo por meio de randomização numérica computadorizada. A fim de evitar o viés de seleção, uma terceira pessoa, não envolvida no estudo, numerou e selou os envelopes opacos. Os pacientes foram alocados em dois grupos: 1) Grupo Exercício (GEx), (n = 50); e 2) Grupo Orientação (GO), (n = 50). A medicação dos pacientes foi padronizada e não foi modificada durante o período da pesquisa. O analgésico prescrito foi o paracetamol, e as medicações para o tratamento da OA foram a Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 diacereína e a cloroquina. Todos os pacientes assinaram o termo de consentimento informado para a participação no estudo, que foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de São Paulo (CEP 0141/07). Tamanho da amostra O cálculo do tamanho da amostra estabeleceu que uma amostra de 40 sujeitos seria capaz de proporcionar um poder de 80% para detectar uma diferença clínica mínima no teste Timed Up and Go (TUG) de 1 ± 3 segundos. Foi utilizada uma comparação pareada entre os três grupos com nível de significância de 0,05 (teste t de Student) usando ANCOVA. Para minimizar o efeito de possíveis perdas, o presente estudo seguiu o padrão ouro de evidência em reumatologia, alocando 50 pacientes em cada grupo.12 Critérios de inclusão e exclusão Os critérios de inclusão consistiram em: idade entre 50 e 75 anos; OA grau II ou maior, baseado na classificação radiográfica de Kellgren & Lawrence;13 diagnóstico de OA de joelho de acordo com os critérios estabelecidos pelo American College of Rheumatology. Os critérios de exclusão foram: uso de marcapasso; condições cardíacas instáveis; participante de outro programa de atividade física; incapacidade de pedalar em bicicleta estacionária; incapacidade de deambulação; ter sido submetido a artroplastia de joelho ou quadril; diagnóstico de fibromialgia; epilepsia e local de aplicação com tumor ou lesão cutânea. Intervenção Os pacientes de ambos os grupos (GEx e GO) receberam um manual com orientações sobre como não sobrecarregar o joelho em atividades diárias e com instruções para utilizar bolsa de gelo em caso de dor e inflamação, e compressa morna, em caso de dor sem sinais inflamatórios (Figura 1). Vale ressaltar que os pacientes de ambos os grupos foram receitados também quanto ao uso da medicação citada anteriormente. Grupo Exercício (GEx) O período de intervenção do GEx foi de oito semanas, em uma frequência semanal de duas vezes. O protocolo de exercício incluiu: aquecimento por 10 minutos em bicicleta estacionária; alongamento dos músculos isquiotibiais com auxílio de uma faixa elástica (três séries de 30 segundos); e três séries de 15 repetições de exercício para extensão de joelho, com intervalo entre as séries de 30–45 segundos. A posição de realização do exercício foi sentada, com o quadril e o joelho em 90º de flexão. 877 Oliveira et al. MANUAL DE ORIENTAÇÃO PARA PACIENTES COM OSTEOARTRITE DO JOELHO Quais são os sinais e sintomas? O paciente com osteoartrite pode apresentar dor principalmente quando vai iniciar o movimento o que denominamos rigidez matinal ou após imobilização. Com o passar do tempo, a dor pode aumentar e persistir durante o dia. É frequente a presença de crepitação ao movimento dos joelhos. Quais são as dificuldades que eu posso ter no meu dia-a-dia? As dificuldades no dia-a-dia variam de acordo com Este material de orientação tem o objetivo de esclarecer os sintomas dos pacientes. Mas, geralmente existe a sobre a osteoartrite e como você pode ajustar o seu dificuldade e dor ao apoiar o peso do corpo em cima dia-a-dia de acordo com os seus sintomas no joelho. do joelho acometido, subir e descer escadas ou andar. Procure seguir nossas orientações com seriedade para o seu próprio benefício! O que fazer se eu sentir dor? A osteoartrite tem tratamento e esse deve ser O JOELHO orientado pelo médico. Mas uma forma simples de você melhorar a sua dor é colocar uma bolsa de água A articulação do joelho é composta por 3 ossos – o morna para quente sobre a articulação do joelho. fêmur (osso da coxa), a patela (rótula) e a tíbia (cuidado para não queimar a pele; use uma proteção (osso da per na). Possui músculos, cápsula, e teste antes a temperatura da água). ligamentos, meniscos e a cartilagem que reveste os ossos e os protege contra impacto. A articulação E se eu tiver inchaço? do joelho suporta grande parte da carga do nosso Para lidar com o inchaço, você pode combinar o corpo. repouso, compressa de gelo e elevação da perna acima do nível do coração. O gelo deve ser realizado sobre a articulação do joelho por 20 min. Quais outros cuidados devo ter? l Se você estiver acima do peso, reduzir poucos quilos diminuirá o estresse sobre a articulação. l Use sapatos confortáveis com sola de borracha O QUE É OSTEOARTRITE? e sem salto. É uma doença que provoca desgaste da cartilagem como auxílio. articular. As camadas da cartilagem tornam-se l l Em caso de dor ao andar, use uma bengala Procure dormir bem. danificadas e ao passar do tempo deixam de suavizar o contato entre as superfícies ósseas da COMPLEMENTAÇÕES articulação. A dor é provocada pelo atrito de um APÓS 8 SEMANAS DO RECEBIMENTO DESTE MANUAL, osso contra o outro, na ausência ou diminuição da (DIA:___/___/___), VOCÊ DEVERÁ RETORNAR PARA cartilagem articular. VERIFICAR COMO FOI A SUA EVOLUÇÃO DURANTE ESTE PERÍODO. Figura 1 Manual para pacientes com osteoartrite do joelho. 878 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 Impacto dos exercícios na capacidade funcional e dor em pacientes com osteoartrite de joelhos: ensaio clínico randomizado A adequação da carga utilizada no exercício de fortalecimento foi definida com base no teste de 10 repetições máximas em vez do teste de uma repetição máxima, para evitar a possibilidade de lesão causada por uma contração muscular excessiva. Foi utilizada 50%–60% da carga máxima estimada.14 Grupo Orientação (GO) Os pacientes do GO seguiram o manual de orientação. Por volta da segunda e da sexta semana os pacientes receberam dois telefonemas como forma de estímulo ao seguimento das orientações. Buscou-se explicar o manual de orientação ao paciente de uma forma simples e fácil, para melhor compreensão. Desfechos primários e secundários As avaliações pré- e pós-intervenção foram realizadas por um fisioterapeuta sob mascaramento em relação a qual dos grupos o paciente avaliado pertencia. Os desfechos primários foram o teste TUG15 e os aspectos dor, função e rigidez do questionário WOMAC16,17 (que foi validado e recomendado pela Osteoarthritis Research Society e escolhido como forma de avaliação de adultos com OA do joelho).16,17 O índice Lequesne foi definido como desfecho secundário.18,19 O estudo de Faucher et al.18 verificou que o Índice Lequesne é um questionário com boa reprodutibilidade. Vale ressaltar que foram utilizadas as versões traduzidas e validadas para o português (Brasil) dos questionários WOMAC e Índice Lequesne.16–19 os 17 itens é somada para gerar uma pontuação que pode variar de 0 a 68. Quanto maior o escore, pior a função. Esse instrumento de avaliação também inclui questões em relação à dor e à rigidez. O WOMAC com tradução e validação para a língua portuguesa17 foi validado e recomendado pela Osteoarthritis Research Society como mensuração de escolha para avaliar adultos com OA de joelho.16 Neste estudo, as pontuações do questionário WOMAC para dor, rigidez e função foram analisadas separadamente. Índice Lequesne O Índice Lequesne foi traduzido e validado para a língua portuguesa em 2006.19 Ele contém 10 questões específicas para pacientes com OA de joelho relacionadas a dor, distância máxima percorrida andando e atividades de vida diária. A pontuação varia de 0 a 24 pontos, em que quanto maior a pontuação, pior a função.18 Medicação Os pacientes foram solicitados a anotar os dias em que consumiram analgésico em uma cartela, que foi entregue na reavaliação. O paracetamol foi a medicação para a dor receitada pelos médicos do Departamento de Reumatologia do Ambulatório de Interlagos, que auxiliaram na condução da pesquisa. Para controle da OA, os pacientes do estudo foram medicados com cloroquina e diacereína. Teste Timed Up and Go (TUG) Análise estatística O TUG é um teste com método simples e de baixo custo, desenvolvido para avaliar a mobilidade funcional do paciente em atividades do dia a dia. Esse teste compreende a seguinte sequência de movimentos: levantar da cadeira, andar três metros, dar a volta e sentar novamente na cadeira. O tempo que o paciente leva para realizar a sequência do movimento é registrado para a comparação antes e após o tratamento.15 Em nosso estudo, os pacientes foram familiarizados com o teste antes de registrar o tempo da coleta. Foi utilizado o melhor tempo de três tentativas. A análise estatística foi realizada segundo os princípios da análise por intenção de tratar (ITT), que engloba todos os pacientes que foram randomizados. Utilizou-se um modelo misto de análise de variância (ANOVA) com medidas repetidas, medidas de ocasião como fator intragrupo e intervenção como fator entre grupos. O tamanho do efeito (effect size) foi computado como a diferença entre as médias dividida pelo desvio padrão, utilizando Cohen’s d. As análises foram realizadas utilizando procedimentos GLM e MIXED no SAS 9.2 para Windows. Para a comparação entre os grupos quanto ao número de dias em que os pacientes consumiram analgésicos, utilizou-se o teste estatístico de Kruskal-Wallis. Questionário Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index (WOMAC) O WOMAC contém 17 questões em relação ao grau de dificuldade para realizar atividades da vida diária (p. ex., descer escadas) a fim de avaliar a função física do paciente. O indivíduo é solicitado a indicar de 0 (nenhuma) a 4 (acentuada) o grau de dificuldade nas últimas 72 horas. A pontuação individual para Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 RESULTADOS As características demográficas dos pacientes quanto a gênero, lado tratado, idade, índice de massa corporal (IMC) e valores do teste TUG, aspectos dor, função e rigidez do questionário WOMAC e Índice Lequesne estão descritos na Tabela 1. 879 Oliveira et al. Pode-se verificar a homogeneidade dos grupos quanto a gênero, lado tratado, idade, IMC e grau de OA. A pesquisa foi finalizada por 82 pacientes. A porcentagem de perda foi de 14% (n = 43) no GEx e de 24% (n = 38) no GO (Figura 2). Tabela 1 Dados da avaliação inicial: média (DP) ou n (%) Grupo Orientação (n = 50) Grupo Exercício (n = 50) P Idade 58,78 (9,60) 61,50 (6,94) 0,10 Gênero Feminino Masculino 47 (94,00) 3 (6,00) 45 (90,00) 3 (6,00) Lado tratado Direito Esquerdo Bilateral 17 (34,00) 22 (44,00) 11 (22,00) 11 (22,92) 23 (47,92) 14 (29,17) IMC 30,00 ± 5,05 29,72 ± 4,11 Grau KL (2-4) 2 3 4 91,18 5,88 2,94 92,68 4,88 2,44 Teste TUG 10,08 ± 2,96 9,34 ± 2,47 Índice Lequesne 13,39 (3,26) 13,63 (3,88) 0,73 WOMAC dor 8,90 (4,38) 10,32 (3,54) 0,07 WOMAC rigidez 3,64 (2,28) 3,66 (2,64) 0,88 WOMAC função 33,40 (12,58) 35,15 (11,88) 0,47 0,71 0,44 0,83 0,85 IMC: índice de massa corporal; KL: Kellgreen Lawrence; TUG: Timed Up and Go Test; WOMAC: Western Ontario McMaster Universities; DP: desvio padrão. Randomizados (n = 100) Teste TUG Não houve diferença estatisticamente significante na avaliação pré- e pós-intervenção no GO. Entretanto, no GEx houve diferença estatisticamente significante nos escores do teste TUG (P < 0,0001). Comparando os grupos, houve melhora estatisticamente superior no teste TUG (P = 0,0008) no GEx em relação ao GO. Aspectos do questionário WOMAC e Índice Lequesne As mudanças entre os tempos pré- e pós-intervenção no GEx mostraram que houve melhora estatisticamente significante nos escores dos aspectos dor (P < 0,0001), função (P < 0,0001) e rigidez (P = 0,0009) do WOMAC e do Índice Lequesne (P < 0,0001). Na comparação entre os tempos pré- e pósintervenção, os pacientes do GO não apresentaram mudanças estatisticamente significantes nos aspectos dor, função e rigidez do WOMAC. No Índice Lequesne, houve diferença estatisticamente significante pré- e pós-intervenção (P = 0,043). Na comparação entre os grupos, de acordo com a análise por ITT, o GEx (P = 0,0026) apresentou melhora estatisticamente significante em comparação ao GO nos aspectos função, dor (P = 0,0041) e rigidez (P = 0,017) do questionário WOMAC (Tabela 2). Quanto ao Índice Lequesne, o GEx também apresentou melhora estatisticamente significante quando comparado ao GO (P = 0,0078). Medicação consumida Não houve diferença estatisticamente significante entre os grupos quanto ao número de dias de consumo de analgésicos (Tabela 3) (P = 0,92). GEx Alocado para intervenção (n = 50) Recebeu a intervenção (n = 0) Não recebeu a intervenção (n = 0) GO Alocado para orientação (n = 50) Recebeu orientação (n = 50) Não recebeu orientação (n = 0) Eventos adversos Perdas (n = 7) Não adesão ao tratamento (n = 1) Interrompeu a intervenção (n = 6) Dor no joelho (n = 2) Morte na família (n = 1) Encontrou novo emprego (n = 2) Perdas Não retornaram para avaliação final (n = 12) DISCUSSÃO Analizados (n = 50) Excluídos da análise (n = 0) Analizados (n = 50) Excluídos da análise (n = 0) Figura 2 Fluxograma dos pacientes do estudo. GEx: Grupo Exercício, GO: Grupo Orientação. 880 Dois pacientes do GEx não toleraram os exercícios devido ao aumento da dor e da inflamação, e foram excluídos. O presente estudo mostrou a efetividade de oito semanas de exercício para fortalecimento do quadríceps, realizados duas vezes por semana, na melhora da dor e da função em pacientes com OA de joelho quando comparados a um grupo que recebeu apenas orientação. Um estudo comparou um grupo com exercício isocinético para fortalecimento do quadríceps versus um grupo que recebeu apenas orientação.20 Após oito semanas, houve melhora estatisticamente Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 Impacto dos exercícios na capacidade funcional e dor em pacientes com osteoartrite de joelhos: ensaio clínico randomizado Tabela 2 Mudanças intra e entre grupos (análise por intenção de tratar), média (DP) Grupo Orientação Grupo Exercício Diferença entre as médias P −2,00 (−2,54; −1,46) 0,81 (0,33; 1,28) 0,00* 9,78 (4,94) 3,95 (−5,39; −2,50)** 2,52 (0,67; 4,37) 0,00* 6,29 (3,96) −3,87 (−5,02; −2,72)** 2,56 (0,82; 4,28) 0,00* 2,10 (2,26) −1,51 (−2,36; −0,65)*** 1,33 (0,23; 2,42) 0,01* 23,83 (15,49) −10,95 (−14,84; −7,05)** 8,53 (3,04; 14,02) 0,00* Oito semanas Mudança 95% IC Oito semanas Mudança 95% IC Teste TUG 9,22 ± 3,31 −0,57 (1,20; 0,06) 7,42 ± 1,70 Índice Lequesne 11,76 (4,04) −1,26 (−2,49; −0,03)* WOMAC dor 7,06 (4,24) −1,05 (−2,35; 0,23) WOMAC rigidez 3,38 (2,39) −0,14 (−1,14; 0,85) WOMAC função 29,44 (15,45) −1,97 (−6,56; 2,63) *P < 0,05 diferença estatisticamente significante; **P < 0,0001; ***0,0009. TUG: Timed Up and Go test; WOMAC: Western Ontario and McMaster Universities Osteoarthritis Index IC: intervalo de confiança; DP: desvio padrão. Tabela 3 Número dos dias de consumo de analgésico Grupos Média (DP) P Orientação 7,71 ± 13,69 0,92 Exercício 6,05 ± 9,31 DP: desvio padrão. significante no aspecto dor do WOMAC no grupo exercício, em comparação ao controle. Entretanto, não houve diferença entre os grupos quanto ao aspecto função do WOMAC. Isso pode ter ocorrido devido à pouca diversidade da intervenção realizada, que consistiu apenas em exercícios isocinéticos e não descreveu a realização de alongamento ou exercício em bicicleta, esteira ou outro tipo de ergometria. Outro estudo21 não obteve diferença estatisticamente significante no Knee injury and Osteoarthritis Outcome Score, que inclui o questionário WOMAC, entre um grupo de pacientes com OA de joelho que realizou exercícios de alta intensidade por seis semanas em comparação a um grupo que não recebeu qualquer intervenção. Entre as razões possíveis para esse resultado, evidencia-se o curto tempo de intervenção e a alta intensidade dos exercícios, que pode ter sobrecarregado os pacientes com grau moderado a acentuado de OA. Nossos resultados concordam com a revisão sistemática sobre a efetividade de exercícios em pacientes com OA do joelho publicada pela Biblioteca Cochrane,22 na qual os autores concluíram que existe nível platinum de evidência que os exercícios terapêuticos proporcionam benefício em curto prazo na redução da dor e na melhora da função em pacientes com OA de joelho. Entre os tratamentos utilizados pelos estudos incluídos na revisão, figuram o fortalecimento do quadríceps e dos membros inferiores de forma global, bicicleta estacionária, caminhada e exercícios sem ênfase específica em fortalecimento ou aumento da capacidade aeróbica. A comparação entre um protocolo de caminhada e um programa Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 de fortalecimento muscular mostrou que ambos foram efetivos, e não houve diferença estatisticamente significante entre eles após 18 meses de acompanhamento.23 Dessa forma, recomenda-se uma combinação de exercícios aeróbicos e de fortalecimento muscular para um programa de reabilitação mais completo, sempre levando em consideração as características e preferências dos pacientes. É importante ressaltar que o nível de dor e o cansaço físico do paciente devem ser respeitados. Os desfechos utilizados na presente pesquisa estão de acordo com o Consenso Internacional de desfechos para estudos clínicos de OA na fase III, o qual relata que o ensaio clínico randomizado (ECR) deve incluir pelo menos o desfecho dor e a função física, ambos relatados pelo paciente.22 Vale ressaltar que o presente estudo levou em consideração aspectos metodológicos importantes, como a ocultação de alocação, o cálculo do tamanho amostral e o mascaramento dos avaliadores, essenciais para a qualidade de um ECR. Segundo a revisão sistemática sobre a efetividade dos exercícios na OA do joelho,22 56% dos 32 estudos incluídos relataram que a avaliação foi cega; 28% foram considerados estudos com baixo nível de viés, 14% foram considerados como moderado risco e 28% foram considerados como alto risco. Para descrever o presente ECR, os autores seguiram o Consort Statement (Consolidated Standards of Reporting Trials), 24 que objetiva a melhoria da qualidade dos artigos de ECR. Ele consiste em um check-list de itens essenciais que devem ser incluídos na descrição dos ECR e um diagrama para a documentação da entrada, perda e conclusão do estudo dos pacientes ao longo da pesquisa.24 Para desenvolver o presente ECR, a análise estatística dos resultados foi realizada por meio da análise ITT, que leva em consideração todos os pacientes do grupo no qual o paciente foi randomizado. Segundo o CONSORT, a análise ITT é de extrema importância.24 881 Oliveira et al. CONCLUSÃO Exercícios de fortalecimento de quadríceps com duração de oito semanas são efetivos na melhora da dor, da função e da rigidez em pacientes com OA do joelho. Sugere-se que exercícios de fortalecimento combinados a alongamento e bicicleta estacionária sejam implementados em programas de reabilitação de pacientes com OA do joelho. AGRADECIMENTOS À Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP. Aos pacientes incluídos no estudo, ao Dr. Milton Mizsputen, responsável pela classificação radiográfica, e à equipe do Ambulatório de Interlagos, São Paulo, Brasil. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 882 Peat G, McCarney R, Croft P. Knee pain and osteoarthritis in older adults: a review of community burden and current use of primary health care. Ann Rheum Dis 2001; 60(2):91–7. Thomas E, Peat G, Harris L, Wilkie R, Croft PR. The prevalence of pain and pain interference in a general population of older adults: crosssectional findings from the North Staffordshire Osteoarthritis Project(NorStOP). Pain 2004; 110(1–2):361–8. Seda H, Seda AC. Orientações ao Paciente. Sociedade Brasileira de Reumatologia [internet]. [Accessed on Jan 28, 2001]. Available from: http://www.reumatologia.com.br/. Petterson SC, Barrance P, Buchanan T, Binder-Macleod S, SnyderMackler L. Mechanisms underlying quadriceps weakness in knee osteoarthritis. Med Sci Sports Exerc 2008; 40(3):422–7. 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Assessment of the test-retest reliability and construct validity of a modified Lequesne index in knee osteoarthritis. Joint Bone Spine 2003; 70(6):521–5. 19. Marx FC, Oliveira LM, Bellini CG, Ribeiro MCC. Tradução e validação cultural do questionário algofuncional de Lequesne para osteoartrite de joelhos e quadris para a língua portuguesa. Rev Bras Reumatol 2006; 46(4):253–60. 20. Maurer BT, Stern AG, Kinossian B, Cook KD, Schumacher HR Jr. Osteoarthritis of the knee: isokinetic quadriceps exercise versus an educational intervention. Arch Phys Med Rehabil 1999; 80(10):1293–9. 21. Thorstensson CA, Roos EM, Petersson IF, Ekdahl C. Six-week high-intensity exercise program for middle-aged patients with knee osteoarthritis: a randomized controlled trial. BMC Musculoskelet Disord 2005; 6:27. 22. Fransen M, McConnell S. Exercise for osteoarthritis of the knee. Cochrane Database Syst Rev 2008; (4):CD004376. 23. Slemenda C, Heilman DK, Brandt KD, Katz BP, Mazzuca SA, Braunstein EM et al. Reduced quadriceps strength relative to body weight: a risk factor for knee osteoarthritis in women? Arthritis Rheum 1998; 41(11):1951–9. 24. Moher D, Hopewell S, Schulz KF, Montori V, Gøtzsche PC, Devereaux PJ et al. CONSORT 2010 Explanation and Elaboration: Updated guidelines for reporting parallel group randomised trials. J Clin Epidemiol 2010; 63(8):e1–37. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):870-882 ARTIGO ORIGINAL Atividade sexual na espondilite anquilosante Andrea Lopes Gallinaro1, Lilian Lie Akagawa2, Mariana Hissami Ichiba Otuzi2, Percival Degrava Sampaio-Barros3, Célio Roberto Gonçalves3 RESUMO Objetivo: Analisar a atividade sexual em pacientes com espondilite anquilosante, correlacionando com índices funcionais e de atividade da doença. Pacientes e métodos: Foram analisados quanto a dor, fadiga, questionários de atividade de doença (Bath Ankylosing Spondylitis Disease Activity Index – BASDAI), funcionalidade (Bath Ankylosing Spondylitis Functional Index – BASFI) e atividade sexual (utilizando imagens de sete posições sexuais) 32 pacientes com diagnóstico de espondilite anquilosante e 32 controles saudáveis. Após a entrevista, os pacientes foram divididos em dois grupos: grupo A (com atividade sexual) e grupo B (sem atividade sexual). Resultados: O grupo B apresentou associação estatística com maior duração da doença (P = 0,01), pior funcionalidade (P = 0,0007) e maior atividade de doença (P = 0,03). Não houve correlação entre idade e capacidade funcional. O homem deitado de costas e a mulher sobre ele foi a posição mais frequente, agradável e menos dolorosa. A figura com a mulher de costas e o homem deitado sobre ela foi a posição menos escolhida. Indivíduos-controle relataram maior frequência e duração mais longa das relações sexuais, menos fadiga e dor, embora a frequência de orgasmos tenha sido semelhante nos dois grupos. Conclusão: A natureza crônica da espondilite anquilosante, com pior capacidade funcional e maior atividade da doença, interferiu no comportamento sexual dos pacientes. Quando o sexo se tornou possível, orgasmo e satisfação sexual não diferiram dos controles saudáveis. Palavras-chave: espondilite anquilosante, sexualidade, doenças reumáticas. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A sexualidade tem sido descrita como um componente essencial do ser humano e é um aspecto importante na qualidade de vida.1–3 Qualidade de vida, a partir da perspectiva da saúde, pode ser definida como a satisfação geral percebida pelo indivíduo sob vários aspectos da vida, e não apenas ausência de doença.4 A limitação física em pacientes com espondilite anquilosante (EA) dificulta a relação sexual e compromete o estado emocional, tornando o sexo ainda mais difícil.5,6 Da mesma maneira, a perda da autoestima, a depressão e a percepção de si mesmo pelos outros pode contribuir para a disfunção sexual.7,8 Um estudo entrevistando pacientes com artrite reumatoide (AR) e EA relatou que dor e cansaço são fatores que diminuem a libido e também podem ser relacionados à limitação de mobilidade durante a relação sexual. Já os pacientes com EA referiram que a motivação para o sexo, a intensidade dos orgasmos e a frequência de relações sexuais foram mantidas.9 A disfunção sexual é caracterizada pela incapacidade de cumprir plenamente o ato sexual pela diminuição tanto do desejo, da excitação ou do orgasmo.10 Alguns estudos relataram disfunção sexual na EA e sua associação com depressão, fadiga e falta de mobilidade.7,8,11–13 A maioria dos autores refere que um baixo nível de satisfação sexual está presente nesses pacientes.7,8,11,12,14 Dois estudos recentes não observaram disfunção sexual na EA.15,16 O objetivo deste estudo foi avaliar atividade sexual, fadiga, dor, duração das relações sexuais, orgasmo e satisfação sexual em pacientes com EA e correlacionar essas variáveis com dados demográficos, índices de capacidade funcional e atividade da doença. PACIENTES E MÉTODOS Foram avaliados 32 pacientes consecutivos com diagnóstico de EA, de acordo com os critérios modificados de Nova York,17 atendidos no ambulatório de espondiloartrites da Divisão de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Recebido em 22/11/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Comitê de Ética: 13300612. Disciplina de Reumatologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – HC-FMUSP. 1. Fisioterapeuta; Mestre em reabilitação, Universidade Federal de São Paulo – Unifesp; Pós-Graduanda da Disciplina de Reumatologia, Universidade de São Paulo – USP 2. Fisioterapeuta, Universidade Cidade de São Paulo – UNICID 3. Médico reumatologista; Assistente Doutor da Disciplina de Reumatologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina – HC-FMUSP Correspondência para: Célio Roberto Gonçalves. Disciplina de Reumatologia, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Av. Dr. Arnaldo, 455 – 3° andar, Sala 3190 – Cerqueira César. CEP: 01246-903. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):883-891 887 Gallinaro et al. São Paulo. Os pacientes foram submetidos a uma entrevista direta, na qual foram aplicados os questionários sobre atividade sexual, HAQ-S18 (Health Assessment Questionnaire modificado para EA), e índices funcional (Bath Ankylosing Spondylitis Functional Index – BASFI)19 e de atividade da doença (Bath Ankylosing Spondylitis Disease Activity Index – BASDAI).20 O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de São Paulo. Todos os pacientes assinaram consentimento informado antes da participação no estudo. O protocolo de investigação de atividade sexual apresenta 24 perguntas e sete figuras. Os temas incluem aspectos como dor, fadiga, orgasmos e satisfação sexual. As figuras descrevem as posições sexuais mais comuns: homem sentado com a mulher sentada em cima, de costas para ele (posição A); homem sentado com a mulher sentada em cima de frente para ele (posição B); homem deitado de costas, com a mulher sentada em cima e de frente para ele (posição C); ambos em pé, a mulher de costas para o homem com a coluna fletida (posição D); homem de joelhos, inclinando-se sobre a mulher deitada de costas com as pernas dobradas (posição E ); mulher deitada de costas e o homem deitado em cima dela (posição F); homem deitado de costas e a mulher deitada sobre ele de frente para ele (posição G). O HAQ-S contém 25 questões, das quais 20 são agrupadas em oito componentes que avaliam diferentes aspectos da vida cotidiana relacionadas com a atividade física, enquanto as outras cinco perguntas avaliam características específicas da EA; a faixa de pontuação final varia de 0–3.18 Dor (geral e à noite) foi avaliada por meio da Escala Visual Analógica (EVA). O BASFI foi usado para avaliar a capacidade funcional, que varia entre 0 e 10.19 O BASDAI analisa a atividade da doença, podendo variar de 0–10.20 Após a entrevista, os pacientes foram divididos em dois grupos, de acordo com a atividade sexual: grupo A (com atividade sexual, 21 pacientes) e grupo B (sem atividade sexual, 11 pacientes). Os grupos foram estatisticamente homogêneos para idade (P = 0,06) e gênero (P = 0,60), mas diferentes no estado civil (P = 0,023). O grupo ativo apresentou mais pacientes casados que o grupo de inativos. O grupo-controle (C) consistiu de 32 indivíduos saudáveis que estavam acompanhando algum outro paciente no ambulatório de Reumatologia. Eles foram pareados para idade, gênero e status sociocultural e comparados com os pacientes com EA. A análise estatística foi realizada usando o programa SPSS versão 15. Foi utilizado o teste t de Student para comparação de médias e o teste exato de Fisher para as frequências. Os resultados estão apresentados como médias e desvios padrão para as variáveis quantitativas, e em frequências (percentuais) para as variáveis qualitativas. O teste de Mann-Whitney foi 888 usado para comparar as medidas entre os grupos. Os resultados foram considerados significativos quando P < 0,05. RESULTADOS Dentre os 32 pacientes com EA, 28 (87,5%) eram homens, com média de idade de 43,9 ± 10,5 anos (23–66 anos) e quatro (12,5%) eram mulheres, com média de idade de 47,8 ± 19,3 anos (31–74 anos). Vinte e um pacientes eram brancos (65,6%) e 11 não brancos (34,4%). Dezesseis pacientes eram casados (50%) e 21 tiveram filhos (65,6%). A duração média da doença foi de 12,3 ± 10,1 anos (2–49 anos), e a média de idade foi de 28,6 anos (14–51 anos) no início da doença, com maior incidência na quarta década (34,4%). O grupo C, composto por 32 indivíduos saudáveis, tinha 28 homens com idade entre 21 e 71 anos (média de idade de 38,4 ± 14,3 anos) e quatro mulheres com idade entre 19 e 46 anos (média de idade de 35,3 ± 11,5). Havia 22 brancos (68,8%) e 10 não brancos (31,2%); 23 eram casados (71,9%) e 20 tiveram filhos (62,5%). Todos os indivíduos se declararam heterossexuais. O número de pacientes em cada grupo, a idade, a duração da doença, o estado civil, o HAQ-S, o BASFI e o BASDAI e suas correlações estão apresentados na Tabela 1. O grupo B apresentou associação estatística com maior duração da doença (P = 0,01), piores resultados de BASFI (P = 0,0007) e maior BASDAI (P = 0,03). Não houve correlação entre a idade (P = 0,06) e a capacidade funcional avaliada pelo HAQ-S (P = 0,16). Ao analisar a frequência das relações sexuais no grupo A, oito pacientes (38,1%) referiram mais de três relações por semana; seis (28,6%), duas vezes por semana; e dois pacientes, uma vez por semana (9,5%). Os cinco restantes (23,8%) tiveram relações sexuais esporádicas. A duração da relação sexual variou de 10–30 minutos (duração média: 19,2 minutos). Em relação ao grupo C, 85,7% referiram duas ou mais relações sexuais por semana, com maior tempo médio de relações sexuais, conforme descrito na Tabela 2. Embora 61,9% tenham relatado dor após o sexo no grupo A, a interrupção do intercurso sexual ocorreu em apenas 9,5%. Esses valores foram estatisticamente significantes em comparação ao grupo C (P = 0,0002 e P = 0,0178, respectivamente). A mobilidade da coluna estava reduzida em 95,2% desses pacientes. No grupo A, 33,3% relataram cansaço e 28,8% disseram que a doença interferia na relação sexual. Mesmo assim, a satisfação sexual foi alcançada em 85,8% deles, e 71,4% relataram orgasmos frequentes, sem diferença estatística com relação aos controles (P = 0,7621; P = 0,6392; P = 1,0; respectivamente). Rev Bras Reumatol 2012;52(6):883-891 Atividade sexual na espondilite anquilosante Tabela 1 Dados demográficos – grupos A e B Grupo A (n=21) Grupo B (n=11) Total A + B P Homens 19 (90,5%) 9 (81,8%) 28 0,5932 Mulheres 2 (9,5%) 2 (18,2%) 4 0,5932 Casados 14 (66,7%) 2 (18,2%) 16 0,023* Média de idade (anos) 41,7 ± 10,0 49,5 ± 13,0 43,9 ± 10,5 0,06 Duração da doença (anos) 9,0 ± 6,1 18,4 ± 13,2 12,3 ± 10,1 0,01* HAQ-S 0,7 ± 0,6 0,8 ± 0,5 0,7 ± 0,6 0,16 BASFI 3,6 ± 1,9 4,5 ± 1,3 4,6 (DP ± 2,3) 0,0007* BASDAI 3,5 ± 2,2 5,3 ± 2,2 4,2 (DP ± 2,5) 0,03* *Estatisticamente significante (P < 0,05), teste exato de Fisher. Tabela 2 Dados relacionados à atividade sexual Grupo A (n=21) Grupo C (n=28) P Frequência semanal de relações sexuais (2 ou +) 66,7% 85,7% 0,1687 Casados 66,7% 71,9% 0,7621 Dor pós-relação sexual 61,9% 10,7% 0,0002* Relação sexual interrompida por dor 9,5% 0 0,01786* Fadiga 33,3% 28,6% 0,7621 Orgasmo 71,4% 75% 1,0 Satisfação sexual 85,8% 92,9% 0,6392 Ato sexual pleno 71,4% 89,3% 0,1460 Posição menos dolorosa C F Posição mais prazerosa C C Duração da relação sexual 19,2 min 34,2 min Comparando as limitações decorrentes da doença com as posições escolhidas pelo grupo, foram analisadas as sete posições apresentadas no protocolo da atividade sexual. A posição C foi aceita como mais agradável e menos dolorosa por 21,8% dos pacientes, enquanto a posição F foi a menos escolhida (3,1%), devido às limitações impostas pela doença, principalmente no quadril e na coluna vertebral. DISCUSSÃO O presente estudo confirmou que a EA pode alterar o comportamento sexual dos pacientes. Uma das causas dessa disfunção sexual pode estar relacionada à idade,8 porém essa associação não foi observada neste estudo, no qual a média de idade dos pacientes foi de 50 anos. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):883-891 Valores clinimétricos como BASFI, HAQ-S e BASDAI foram semelhantes aos observados na literatura.19,21,22 Os valores de HAQ-S foram menores que os relatados em outro estudo nacional.4 O fato de pacientes com vida sexual ativa poderem apresentar melhores valores de HAQ-S enfatiza que indivíduos com melhor função física são propensos a ter vida sexual mais plena. Um estudo em doentes com artrite idiopática juvenil mostrou que a doença poliarticular exerce mais influência na capacidade física para a atividade sexual que o envolvimento axial.23 Os pacientes com EA com vida sexual ativa apresentaram valores de BASDAI menores, sugerindo que maior atividade de doença possa exercer influência limitante em uma relação sexual completa, semelhante ao observado em outros estudos.8,12 Os valores médios de BASDAI dos pacientes que 889 Gallinaro et al. mantinham atividade sexual foram semelhantes ao de outro estudo,15 que não encontrou nenhuma disfunção sexual em pacientes com EA. Os pacientes com atividade sexual também apresentaram menores valores de BASFI, indicando que uma melhor capacidade funcional pode contribuir para uma vida sexual ativa, à semelhança de outros trabalhos.15,24 Já Dincer et al.7 não encontraram correlação entre capacidade funcional e atividade de doença em homens com disfunção sexual. Os principais fatores limitantes para uma boa relação sexual são dor, fadiga, falta de mobilidade e falta de libido.1,4,6,9,13,23,25–28 A maioria dos pacientes do grupo A relatou dor após a relação sexual, embora raros casos tivessem necessidade de interrompê-la. A causa dessa dor pode ser explicada pelo envolvimento do esqueleto axial e dos quadris, resultando em uma diminuição da amplitude dos movimentos da coluna, exigindo um esforço extra na realização do ato sexual. A dor que causa a limitação da atividade sexual também pode ser desencadeada pelo medo e pela ansiedade.7 Psoríase, associada ou não à inflamação articular, também contribui para baixa autoestima, comprometendo negativamente a imagem corporal para o sexo.10,13 A fadiga, que é uma queixa comum entre pacientes com EA, também pode contribuir para a diminuição do prazer sexual.6,27,28 Mesmo assim, a satisfação sexual foi referida por muitos pacientes com EA, que relataram orgasmos frequentes, como observado em estudo clássico.9 Não houve significância estatística entre os grupos A e C de acordo com satisfação sexual, fadiga e orgasmos no presente estudo. Estudo de Elst et al.,9 analisando pacientes com EA (50 homens e 16 mulheres) e AR (32 homens e 90 mulheres), observou que a posição F foi a preferida pela maioria dos pacientes, ao contrário do presente estudo, em que a posição F foi a menos utilizada. A principal diferença entre os estudos é o franco predomínio de homens no presente estudo. Apesar do comprometimento articular, estes pacientes variaram posições de maneira diferente dos pacientes com AR estudados por Yoshino & Uchida,25 que referiram dificuldades para mudar de posição no ato sexual. Em uma recente avaliação qualitativa da sexualidade, Helland et al.13 analisaram 21 pacientes com doenças reumáticas (AR, EA, artrite psoriásica e artrite juvenil). A média de idade e de duração da doença, bem como o valor do HAQ-S, foram semelhantes aos pacientes deste estudo. Estratégias comportamentais para as dificuldades impostas pela doença foram observadas. A postura passiva foi muitas vezes citada pelos pacientes como uma forma de controlar a dor durante o coito. O mesmo resultado foi observado em nosso estudo, em 890 que a atitude mais passiva do homem (posição C) foi considerada menos dolorosa. Em resumo, podemos concluir que a atividade de doença, a capacidade funcional e a longa duração da EA podem interferir na realização do ato sexual, mas nem sempre impedem que os pacientes tenham satisfação sexual e atinjam o orgasmo. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. Quaresma MR, Ferraz MB. The impact of rheumatic disorders in the sexuality of the patients. Rev Bras Reumatol 1996; 36(2):57–8. Prady J, Vale A, Hill J. Body image and sexuality. In: Hill J. Rheumatology nursing: a creative approach. Edinburgh: Churchill Livingstone, 1998; p.109–24. Wells D. Caring for sexuality in health and illness. Edinburgh: Churchill Livingstone, 2000. Cury SE, Ferraz MB, Sato EI, Atra E. Qualidade de vida e espondilite anquilosante: estudo-piloto. Rev Bras Reumatol 1995; 35(2):77–87. Pitts M. Sexual health: The psychology of preventive health. London: Routledge, 1996. Ostensen M. New insights into sexual functioning and fertility in rheumatic diseases. 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Rheumatology 2003; 42:280–6. 891 ARTIGO ORIGINAL Dermatomiosite em adulto: experiência de um centro terciário brasileiro Fernando Henrique Carlos de Souza1, Thiago Bitar Moraes Barros2, Maurício Levy-Neto3, Samuel Katsuyuki Shinjo4 RESUMO Objetivos: Relatamos os resultados de um estudo de coorte retrospectivo envolvendo 139 pacientes com dermatomiosite, conduzido de 1991 a 2011. Métodos: Todos os pacientes preenchiam pelo menos quatro dos cinco critérios de Bohan and Peter (1975). Resultados: A média de idade dos pacientes no início da doença foi de 41,7 ± 14,1 anos, e a duração da doença foi de 7,2 ± 5,2 anos. A amostragem constitui-se de 90,2% de indivíduos brancos, 79,9% do gênero feminino. Sintomas constitucionais foram detectados em menos da metade dos casos. Envolvimentos cutâneo e articular ocorreram em 95,7% e 41,7% dos pacientes, respectivamente. Em 48,2% dos pacientes foram apresentadas pneumopatia incipiente, opacidades em “vidro fosco” e/ou fibrose pulmonar. Todos os pacientes receberam prednisona (1 mg/kg/dia) e 51,1% receberam também metilprednisolona intravenosa (1 g/dia por três dias). Vários imunossupressores foram usados como poupadores de corticosteroide de acordo com tolerância, efeitos colaterais e/ou refratariedade. Houve recidiva de doença (clínica e/ou laboratorial) em 53,2% dos casos; 76,3% permaneceram em remissão no momento do estudo. A taxa de infecção grave foi de 35,3%, com o predomínio de herpes zoster. Houve 15 (10,8%) casos de câncer, dos quais 12 foram confirmados em um período de um ano após o diagnóstico da doença. Houve ainda 16 óbitos (11,5%) cujas causas principais foram sepse/choque séptico (27,5%), pneumopatia atribuída à doença (31,3%), neoplasias (31,3%) e eventos cardiovasculares (12,5%). Conclusões: No presente trabalho, os dados clínico-laboratoriais foram semelhantes aos de outros grupos populacionais descritos na literatura, com diferenças mínimas quanto à frequência e às características das manifestações extramusculares. Palavras-chave: dermatomiosite, miosite, epidemiologia. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO Miopatias inflamatórias idiopáticas são um grupo heterogêneo de doenças autoimunes sistêmicas que incluem dermatomiosite (DM), polimiosite (PM) e miosite por corpúsculo de inclusão (MCI). Cada uma dessas doenças apresenta características clínicas, epidemiológicas, histológicas e patológicas distintas entre si. A DM é caracterizada pela fraqueza muscular proximal simétrica e progressiva dos membros, além de alterações cutâneas típicas, como heliótropo e pápulas de Gottron. Manifestações extramusculares podem acontecer na DM, como acometimento articular, cardíaco, pulmonar e do trato gastrintestinal.1,2 A incidência é de 5–10 casos/milhão de pessoas/ano. A forma adulta afeta principalmente indivíduos entre 45 e 55 anos, e a juvenil, indivíduos de 5 a 10 anos. A DM é duas vezes mais comum em mulheres, sem predileção por etnia.3 Há poucos trabalhos epidemiológicos em DM na literatura.4–9 Em nosso meio há apenas dois estudos publicados até o presente momento. Um dos trabalhos investigou mortalidade em DM e PM,10 enquanto o outro avaliou casos de DM em sua forma juvenil.11 Recebido em 07/12/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Comitê de Ética: HC 0039/10. Serviço de Reumatologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – HC-FMUSP. 1. Médico-Assistente do Serviço de Reumatologia, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – HC-FMUSP 2. Médico Preceptor do Serviço de Reumatologia, HC-FMUSP 3. Doutor em Reumatologia, FMUSP; Médico-Assistente do Serviço de Reumatologia, HC-FMUSP; Professor Colaborador da Disciplina de Reumatologia, FMUSP 4. Doutor em Ciências; Médico-Assistente do Serviço de Reumatologia, HC-FMUSP; Professor Colaborador da Disciplina de Reumatologia, FMUSP Correspondência para: Samuel Katsuyuki Shinjo. Av. Dr. Arnaldo, 455, 3º andar, sala 3150 – Cerqueira César. CEP: 01246-903. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):892-902 897 Souza et al. O objetivo do presente estudo é, portanto, descrever as características clínicas e laboratoriais de uma grande casuística de pacientes com DM adulta em acompanhamento em um centro terciário. PACIENTES E MÉTODOS Foram avaliados 139 pacientes com DM provenientes da unidade de miopatias de nosso serviço terciário. Para melhorar a homogeneidade da população a ser estudada, foram considerados apenas os pacientes em seguimento em nosso serviço no período de janeiro de 1991 e agosto de 2011 e que preenchiam pelo menos quatro dos cinco critérios de Bohan e Peter.12,13 Não foram incluídos os indivíduos com diagnóstico de DM de forma amiopática, nem os menores de 18 anos. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética local [HC 0039/10]. Dados demográficos, manifestações clínicas e laboratoriais foram obtidos por uma revisão sistemática dos prontuários. Os dados laboratoriais apresentados são referentes ao diagnóstico da doença, enquanto as manifestações clínicas consideradas foram aquelas apresentadas durante o acompanhamento desses pacientes. Foram analisados como parâmetros: sintomas constitucionais; alterações cutâneas (heliótropo, pápulas de Gottron, úlceras, rash facial, sinal do “V” do decote, sinal de “xale”, calcinose e vasculite); acometimento articular (artralgia e/ou artrite); presença de disfagia, disfonia, dispneia; e força muscular dos membros (grau 0: ausência de contração muscular; grau I: sinais de discreta contratilidade; grau II: movimentos de amplitude normal, mas não vencem a ação da gravidade; grau III: movimentos de amplitude normal contra a ação da gravidade; grau IV: mobilidade integral contra a ação da gravidade e de certo grau de resistência; grau V: mobilidade completa contra resistência acentuada e contra a ação da gravidade).14 Exames complementares (eletroneuromiografia, biópsia muscular – bíceps braquial ou vasto lateral), quando feitos, foram solicitados de rotina nas primeiras consultas médicas. Creatinoquinase (variação normal: 24–173 IU/L) e aldolase (1,0–7,5 IU/L) foram determinadas pelo método automatizado cinético. A pesquisa de autoanticorpos contra componentes celulares foi determinada por imunofluorescência indireta, utilizando células Hep-2 como substrato. Velocidade de hemossedimentação e proteína C-reativa foram avaliadas, respectivamente, pelo método de Westergren e nefelometria. Os pacientes foram inicialmente tratados com corticosteroides (prednisona 1 mg/kg/dia, via oral), com posterior redução gradual da dose de acordo com a estabilidade clínica e laboratorial. Em caso da gravidade da doença (progressão da dispneia, disfagia, perda significativa de força muscular), 898 realizou-se pulsoterapia com metilprednisolona (1 g/dia por três dias consecutivos). Como poupadores de corticosteroides foram utilizados, em monoterapia ou em combinação, a azatioprina (2–3 mg/kg/dia), metotrexato (20–25 mg/semana), ciclosporina (2–4 mg/kg/dia), micofenolato de mofetil (2–3 g/dia), leflunomida (20 mg/dia), ciclofosfamida (0,5–1,0 g/m2 de superfície corporal), difosfato de cloroquina (< 4 mg/kg/dia) e imunoglobulina humana intravenosa (1 g/kg/dia por dois dias consecutivos). A ciclofosfamida foi utilizada quando havia quadro de dispneia progressiva associada à alteração de parênquima pulmonar comprovada por tomografia computadorizada (presença de lesões em “vidro-fosco” ou de faveolamento). A recidiva da doença foi definida como sendo a recorrência dos achados clínicos iniciais e/ou aumento sérico de enzimas musculares atribuídos à atividade de doença, após exclusão de infecções e/ou causas neoplásicas. Consideramos como infecções graves as que necessitaram de internação hospitalar dos pacientes ou tratamento com antibióticos intravenosos e/ou de forma prolongada. Foram também anotados os casos de herpes zoster, assim como os referentes à mortalidade. As variáveis contínuas foram expressas como média ± desvio padrão (DP) e as variáveis categóricas como percentuais. Os testes t de Student e chi-quadrado foram utilizados, respectivamente, para a análise dos dados paramétricos e não paramétricos. Esses cálculos foram realizados com o programa STATA versão 7.0 (STATA, College Station, TX, EUA). Valores de P < 0,05 foram considerados estatisticamente significativos. RESULTADOS Foram analisados 139 pacientes com DM, dos quais 111 eram mulheres (4:1). A maioria era branca (90,2%), com média de idade no início da doença de 41,7 ± 14,1 anos (18–84 anos) e duração média de 7,2 ± 5,2 anos (0–20 anos) (Tabela 1). Tabela 1 Achados demográficos em brasileiros com dermatomiosite Idade ± DP, média (anos)* 41,7 ± 14,1 (18–84) Duração de doença ± DP, média (anos) 7,2 ± 5,2 (1–20) Gênero feminino (%) 111 (79,9) Cor branca (%) 124 (90,2) Duração dos sintomas antes do diagnóstico ± DP, média (meses) 4,5 ± 5,4 (1–36) DP: desvio padrão. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):892-902 Dermatomiosite em adulto: experiência de um centro terciário brasileiro O intervalo entre os sintomas iniciais e o diagnóstico de DM foi de 4,5 ± 5,4 meses (1–36 meses). Apesar desse curto período, 41,0% apresentavam disfagia e 20,9% dos pacientes encontravam-se acamados no momento do diagnóstico, evidenciando a agressividade da doença nesse grupo de pacientes. De fato, aproximadamente 16,5% dos doentes apresentavam objetivamente força grau III nos membros superiores e/ou inferiores. Em contrapartida, a maioria apresentava força grau IV, e uma minoria, grau V em membros. Sintomas constitucionais ocorreram em mais de 40% dos casos. O FAN mostrou-se positivo em 62,7% dos casos, com título variando de 1:20 a > 1:320, a maioria de padrão nuclear pontilhado (Tabela 2). Não houve correlação entre a positividade desses autoanticorpos com os dados demográficos, parâmetros clínicos e laboratoriais e neoplasias no presente estudo (P > 0,05). As demais manifestações clínicas, assim como os dados laboratoriais, estão demonstradas na Tabela 2 e na Tabela 3, respectivamente. Todos receberam prednisona (1 mg/kg/dia) no início do diagnóstico, e 49,6% receberam pulsoterapia com metilprednisolona (1 g/dia por três dias consecutivos) devido à agressividade da doença (Tabela 4). Diferentes agentes imunossupressores poupadores de corticosteroide foram Tabela 2 Achados clínicos em brasileiros com dermatomiosite Achados clínicos n (%) Sintomas constitucionais 65 (46,8) Acamados 29 (20,9) Fraqueza muscular Membros superiores Grau V Grau IV Grau III Membros inferiores Grau V Grau IV Grau III 8 (5,8) 108 (77,7) 23 (16,5) 5 (3,6) 107 (78,0) 27 (19,4) utilizados como monoterapia ou em combinação, dependendo da tolerância, dos efeitos colaterais e da refratariedade da doença. Azatioprina foi usada em 66,9% dos casos; metotrexato em 50,4%; difosfato de cloroquina em 25,9%; ciclosporina em 23,7%; imunoglobulina humana por via intravenosa em 14,4%; ciclofosfamida intravenosa em 10,1%; micofenolato de mofetil em 3,6%; e leflunomida em 0,7%. Na ocasião do desfecho do presente estudo, 56 dos 80 pacientes estavam utilizando um imunossupressor como poupador de corticosteroide; 23 pacientes estavam recebendo dois, e um paciente, três imunossupressores. Durante o período de seguimento houve recidiva clínica em 74 casos (53,2%), associada, na maioria das vezes, à redução de corticoterapia. Houve 15 casos de câncer (10,8%), dos quais 12 foram confirmados em um período de um ano após o diagnóstico da doença: ovário, útero, pulmão, pele (dois de cada); um de tireoide, próstata e mama e um de dois sítios. Em três pacientes Tabela 3 Achados laboratoriais em brasileiros com dermatomiosite Enzimas musculares Creatina quinase ± DP (U/L) Aldolase ± DP (U/L) 3.677,9 ± 5.463,0 41,4 ± 73,2 VHS (mm/1a hora) PCR (mg/L) 32,5 ± 26,9 12,0 ± 15,5 Fator antinuclear (%) Nuclear pontilhado Nuclear homogêneo Nuclear pontilhado fino denso Nucleolar Citoplasmático 87 (62,6) 51 (37,4) 19 (13,7) 3 (2,2) 7 (5,0) 6 (4,3) DP: desvio padrão; VHS: velocidade de hemossedimentação; PCR: proteína C-reativa. Tabela 4 Terapia medicamentosa utilizada em pacientes brasileiros com dermatomiosite Terapia medicamentosa n (%) 133 (95,7) 117 (84,2) 20 (14,4) 9 (6,5) 31 (22,3) 69 (49,6) 21 (15,1) 14 (14,4) Metilprednisolona 70 (49,6) Prednisona 139 (100,0) Azatioprina 93 (66,9) Metotrexato 70 (50,4) Difosfato de cloroquina 36 (25,9) Articular 58 (41,7) Ciclosporina 33 (24,1) Trato respiratório Disfonia Dispneia 24 (17,3) 43 (30,9) Trato gastrintestinal Disfagia 57 (41,0) Lesões cutâneas Pápulas Gottron Heliótropo Úlceras Calcinose Vasculite Rash facial “V” decote Sinal do “xale” Rev Bras Reumatol 2012;52(6):892-902 Imunoglobulina humana intravenosa 20 (14,4) Ciclofosfamida 14 (10,1) Micofenolato mofetil 5 (3,6) Leflunomida 1 (0,7) 899 Souza et al. Tabela 5 Comorbidades associadas em pacientes brasileiros com dermatomiosite adulta Comorbidades n (%) Infecções Herpes zoster Celulite Abscesso* Broncopneumonia Sepse Calcinose Endocardite Pioartrite Osteomielite 49 (100) 21 (42,9) 13 (26,5) 10 (20,4) 7 (14,3) 5 (10,2) 4 (8,2) 2 (4,1) 1 (2,0) 1 (2,0) Óbitos Sepse/choque séptico Pneumopatia Neoplasia Eventos cardiovasculares 16 (100) 6 (37,5) 5 (31,3) 5 (31,3) 2 (12,5) *Abscesso: retroesofágico, glúteo, tornozelos, mãos, cotovelos houve metástase. Um caso (neoplasia ductal de mama) aconteceu após 12 anos do diagnóstico da DM, e dois casos precederam a DM em um ano (carcinoma basocelular de face e de membros superiores). As características clínicas, laboratoriais e as manifestações extramusculares foram similares entre os pacientes com e sem as neoplasias (P > 0,05). Foram observadas 49 (35,3%) infecções graves, conforme demonstrado na Tabela 5. A principal causa foi herpes zoster (42,9% dos casos), seguido de celulite (26,5%), abscesso em diferentes tecidos (retroesofágica, região glútea, tornozelos, mãos e cotovelos – 20,4%) e broncopneumonia (14,3%). Outras causas de menor prevalência foram as infecções das calcinoses (8,2%), endocardite (4,1%), pioartrite (2,0%) e osteomielite (2,0%). Houve 16 óbitos (11,5%), cujas causas principais foram decorrentes de sepse/choque séptico (37,5% dos casos; três dos pacientes com descrições de broncoaspiração associada); pneumopatia atribuída à doença (31,3% dos casos; fibrose pulmonar); neoplasias (31,3% dos casos); eventos cardiovasculares (12,5% dos casos; infarto agudo do miocárdio) (Tabela 5). Carcinoma espinocelular pulmonar, neoplasia colônica e três neoplasias uterinas foram encontrados como causas neoplásicas, todos com metástase. Dos pacientes remanescentes, 106 (76,3%) permanecem em acompanhamento ambulatorial. DISCUSSÃO O presente estudo apresentou o perfil demográfico, terapêutico e evolutivo de uma grande casuística de pacientes com DM de 900 um centro terciário brasileiro, apresentando, assim, uma visão geral desta população em nosso meio. A média de idade dos pacientes analisados foi de 42 anos, afetando principalmente gênero feminino e a cor branca – similar, portanto, ao perfil demográfico de outros trabalhos disponíveis na literatura.4–6 Essa distribuição se faz de forma diferente da DM juvenil e da DM que se associa a outras doenças do tecido conectivo, em que a distribuição de gênero ocorre, respectivamente, nas razões de 1:1 e 10:1.5–7,14–16 Assim como outras doenças autoimunes sistêmicas, sintomas constitucionais estiveram presentes em praticamente metade dos pacientes estudados. Apesar do curto período entre o início de sintomas e o diagnóstico da doença (média de cinco meses), aproximadamente um quinto dos pacientes já se encontrava acamado e quase metade com algum grau de disfagia, denotando a agressividade da DM na população estudada. O diagnóstico precoce é essencial não só para melhora da qualidade de vida, mas também para evitar sequelas secundárias, como atrofia/ hipotrofia muscular ou broncopneumonia aspirativa relacionada à disfagia, o que aumenta ainda mais a morbimortalidade. Embora os sintomas principais encontrados em DM sejam os musculares, observamos que aproximadamente metade dos pacientes também apresentava afecções articulares, na forma de artralgias e/ou artrites, de características não erosivas e deformantes, comprometendo a qualidade de vida dos pacientes analisados. O envolvimento pulmonar afeta 5%–47% dos pacientes,17,18 variando desde dispneia, tosse, dor torácica, e diminuição da tolerância aos exercícios físicos até insuficiência respiratória. Imagens tomográficas podem revelar alterações do parênquima pulmonar na forma de “vidro-fosco”, opacidades lineares, consolidações e/ou micronódulos pulmonares.17 Na ocasião da investigação clínica, observamos que pelo menos metade dos pacientes apresentava alterações de parênquima pulmonar nas imagens tomográficas, e um terço apresentava dispneia objetiva, de esforços moderados a médios por ocasião do diagnóstico. Em relação à evolução clínica e à mortalidade, um terço dos pacientes morreu por complicações pulmonares. A DM apresenta manifestações cutâneas típicas, como as pápulas de Gottron e heliótropo, que podem preceder, manifestar-se concomitantemente, ou podem ser posteriores ao acometimento muscular.19 O achado mais comum em nossos pacientes foi o de pápulas de Gottron, em contraste aos estudos no Senegal4 e na Tunisia,6 que relataram maiores proporções de lesões eritematosas. Outro achado foi calcinose, que tipicamente ocorre em 40% das DM juvenis, não sendo, porém, manifestação frequente nos casos adultos. Este foi um achado em apenas 6% de nossos pacientes. A demora do início do tratamento e a gravidade da doença são fatores de risco para o Rev Bras Reumatol 2012;52(6):892-902 Dermatomiosite em adulto: experiência de um centro terciário brasileiro desenvolvimento da calcinose.20 Outras lesões encontradas com certa frequência foram úlceras e vasculites cutâneas, que além de serem possíveis sinais da gravidade da doença, são áreas de infecções secundárias. De fato, observamos alta prevalência de celulites, assim como de abscessos, nos pacientes do presente estudo, o que, em última análise, contribui também para maior taxa de morbimortalidade. Mesmo sem estudos controlados e randomizados, os corticosteroides são considerados terapia de primeira linha no tratamento em DM.21,22 Entre os imunossupressores, constituem a segunda linha de tratamento: azatioprina, ciclosporina, ciclofosfamida e metotrexato.22 Não há protocolos que definam o melhor tratamento a ser instituído no manejo da DM. Entretanto, a avaliação médica deve ser baseada individualmente na gravidade da apresentação clínica, na duração de doença, na presença de manifestações extramusculares e nas contraindicações a agentes terapêuticos específicos. Todos os pacientes de nosso estudo receberam corticoterapia no início e nas recidivas da doença. Devido à gravidade das manifestações clínicas e laboratoriais na ocasião do diagnóstico, metade deles recebeu também pulsoterapia com metilprednisolona. Em relação aos imunossupressores, a azatioprina foi a mais utilizada, seguida do metotrexato e da ciclosporina. O uso de difosfato de cloroquina ficou reservado como coadjuvante para o tratamento cutâneo, enquanto a ciclofosfamida ficou reservada para os casos de acometimento pulmonar grave definido pela clínica e achados tomográficos; a imunoglobulina humana foi utilizada em quadros refratários e nos que apresentavam infecções. Reservou-se o micofenolato mofetil para os poucos casos que se faziam refratários aos outros imunossupressores e/ou àqueles que apresentavam contraindicações/efeitos colaterais a esses – a leflunomida ficou reservada predominantemente para o acometimento articular. Em relação às comorbidades, encontramos como predominantes a hipertensão arterial sistêmica e o diabetes mellitus na ocasião do diagnóstico, com aumento da prevalência das mesmas durante o seguimento dos pacientes, que pode, nesses casos, estar relacionada ao uso das medicações. Comparativamente à literatura, apresentamos taxas menores dessas comorbidades em relação às relatadas por Limaye et al.23 As complicações cardiovasculares são fatores associados à alta morbimortalidade em pacientes com DM,24,25 assim como as neoplasias e o envolvimento pulmonar. Em pacientes com miopatias inflamatórias, as complicações cardiovasculares são caracterizadas por anormalidades eletrocardiográficas, doenças valvares cardíacas, vasculite em coronárias, alterações isquêmicas, falência cardíaca e miocardite.24,25 Já acidentes vasculares isquêmicos, embolia de origem cardíaca Rev Bras Reumatol 2012;52(6):892-902 e trombofilia são raros nas miopatias.24,25 No presente estudo encontramos baixa prevalência de manifestações cardiovasculares (infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral). Isso pode ser explicado, em parte, pelo curto período de seguimento dos pacientes (média de oito anos). De acordo com a literatura, a frequência de acometimento cardiovascular em pacientes com miopatias inflamatórias varia de 6%–75%.24,25 Quanto às neoplasias, a incidência é cerca de 10 vezes maior em miopatias inflamatórias quando comparadas à população geral, com uma taxa de incidência que varia de 3%–12,6% nos pacientes portadores de DM.26–29 O risco de câncer é maior nos três primeiros anos após o diagnóstico, observado mesmo em pacientes abaixo de 45 anos.26–29 Entre os sítios de afecções, destacam-se os tratos gastrintestinal, ginecológico, pulmonar e hematológico (linfoma).26–30 A prevalência de neoplasias no presente estudo foi por volta de 10%, a maioria ginecológica (ovariana, uterina e mamária). Dois terços das malignidades foram detectados logo após o diagnóstico de DM, em um período médio de 1–2 anos de seguimento; aproximadamente dois terços são observados no primeiro ano ou simultaneamente à miopatia. Infecções são ainda a grande causa de mortalidade em pacientes com DM, responsável por 9%–30% dos casos de óbito.31–33 Uma variedade de microrganismos tem sido implicada como responsável pelas infecções oportunistas e piogênicas nesse subgrupo de pacientes,31–33 com taxas que variam de 14%–37,3%.31–33 Os mais frequentes são as micobactérias e os fungos (Pneumocystis jiroveci, Candida sp.).31–33 Em nossa casuística, a taxa de infecção foi de 14%, com predomínio de herpes zoster. Além de eventos cardiovasculares,24,25 infecciosos31–33 e pulmonares, outros fatores estão associados ao aumento de mortalidade na DM, como trombocitopenia,34 diabetes mellitus,34 neoplasia associada,10,34 mais idosos,34 níveis de creatinoquinase35 e doença pulmonar intersticial.35 Os óbitos são evidenciados em uma proporção variável de 7,8%–28%.10,34–36 Durante o acompanhamento, constatamos morte em 11,5% dos casos – índice bem menor que os trabalhos chinês34 (28,6%) e japonês35 (26,9%) e levemente maior que a estatística de Taiwan36 (7,68%). Em nossa casuística, a sepse foi a principal responsável pelos óbitos, seguida de neoplasias e acometimento dos tratos respiratório e cardiovascular, a exemplo de outros trabalhos da literatura.24,25,31–33 Diante dos dados clínicos e demográficos apresentados neste artigo, verificamos que nossa população pode servir como referência para a população brasileira com DM adulta: apresenta semelhanças referentes à descrição de predomínio do gênero feminino e da faixa etária; mínimas diferenças quanto à frequência e às características das manifestações 901 Souza et al. extramusculares; e índices de mortalidade em acordo com a maior parte da literatura, destacando-se a infecção como a grande responsável pelos óbitos neste grupo de pacientes. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 902 Callen JP. Dermatomyositis. In: Callen JP. Dermatological signs of internal disease. 2.ed. Saunders; 1995. Fathi M, Lundberg IE. 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Dentre os distúrbios orofaciais em pacientes com AIJ, as mudanças no crescimento mandibular, geradas por disfunções na região da ATM, parecem de grande prevalência nesses pacientes. As alterações mais encontradas são: retrognatismo, micrognatia, mordida aberta anterior, apinhamento dentário, assimetria facial e limitação de abertura de boca. Assim, o reumatologista torna-se uma peça-chave na detecção precoce dessas disfunções, ajudando no encaminhamento do paciente ao dentista. O diagnóstico, por sua vez, deve ser realizado pelo ortodontista, utilizando exames clínico e de imagem, o que possibilita tratamento precoce e prognóstico favorável. Distúrbios na ATM devem ser tratados de forma multidisciplinar, incluindo tratamento farmacológico para o controle da dor e tratamento odontológico por meio de aparelhagem funcional e/ou ortodôntica, fisioterapêutico e por vezes fonoaudiológico. Concluímos que dentre os distúrbios orofaciais em pacientes com AIJ, as mudanças no crescimento mandibular geradas por disfunções na região da ATM parecem de grande prevalência. Tais disfunções podem promover, principalmente, mordida aberta, retrusão mandibular, micrognatia, apinhamento dentário e assimetria facial. O reumatologista pode detectar tais alterações precocemente, encaminhando o paciente de imediato a uma equipe que deve ser, preferencialmente, multidisciplinar, composta por ortodontista, fisioterapeuta e fonoaudiólogo, visando reduzir futuras complicações oclusais e de crescimento mandibular. Palavras-chave: artrite reumatoide juvenil, ortodontia, articulação temporomandibular. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A artrite idiopática juvenil (AIJ) é a doença reumática crônica mais frequente na infância e na adolescência, e compreende um grupo de entidades clínicas distintas, de etiologia desconhecida.1 Essa doença é caracterizada pela inflamação das articulações, com sintomas persistentes por mais de seis semanas, tendo início antes dos 16 anos de idade.2,3 Atualmente, a AIJ é classificada, segundo a International League of Associations for Rheumatology (ILAR), como: artrite sistêmica, poliartrite (FR negativo), poliartrite (FR positivo), oligoartrite (persistente ou estendida), artrite relacionada com entesite, artrite psoriásica Recebido em 21/2/2011. Aprovado, após revisão, em 5/9/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Universidade Veiga de Almeida – UVA. 1. Mestre em Periodontia, Universidade Veiga de Almeida – UVA 2. Doutora em Periodontia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ 3. Doutora em Periodontia, UERJ; Professora-Assistente da Disciplina de Periodontia, UVA 4. Doutor em Odontologia, UERJ; Professor-Associado da Disciplina de Ortodontia, UERJ 5. Doutor em Periodontia, Karolinska Institute, Suécia; Professor de Periodontia, UERJ 6. Doutorando em Clínica Médica, Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ; Responsável pelo Setor de Reumatologia, Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente, UERJ Correspondência para: Renata Teixeira de Carvalho. Rua Ibituruna, 79 – Tijuca. CEP: 20271-901. Rio de Janeiro, RJ, Brasil. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):903-911 907 Carvalho et al. e indiferenciada.4 Uma complicação da AIJ a longo prazo é a diminuição da densidade mineral óssea em sítios distantes do foco inicial da doença, gerando alterações no crescimento e na maturação óssea de forma global.3,5 Essas alterações podem levar a um prejuízo do crescimento mandibular, acarretando alterações orofaciais importantes para a vida adulta do paciente com AIJ, que podem ter impacto direto na qualidade de vida desses indivíduos.5 O diagnóstico precoce de distúrbios de crescimento facial e disfunções da articulação temporomandibular (ATM) parece minimizar problemas dentários futuros em pacientes com AIJ e aumentar o sucesso do tratamento dessas alterações nesses indivíduos.6 Assim, este artigo tem por objetivo promover uma revisão da literatura sobre o comprometimento da ATM em pacientes portadores de AIJ e suas repercussões orofaciais. PATOGÊNESE DA ARTRITE IDIOPÁTICA JUVENIL Os comprometimentos articular e periarticular observados na artrite crônica têm início com as alterações inflamatórias observadas na membrana sinovial, denominada sinovite. Também na ATM, a sinovite, ao microscópio, pode ser caracterizada por uma fase de exsudação, por infiltração celular e, finalmente, pela formação de um tecido de granulação. Essas fases são inter-relacionadas com a doença ativa, e os subsequentes eventos imunopatológicos perpetuam essa reação inflamatória inicial, evoluindo para a cronificação do processo de doença.7 Durante o processo ativo da doença, as citocinas liberadas, principalmente IL-1 e TNF-α, promovem o recrutamento de mais neutrófilos, induzindo edema e marcando a fase de derrame no espaço articular. Tais neutrófilos ativados tornam-se responsáveis pela destruição tecidual e liberação de enzimas que fragmentam o colágeno e outras proteínas da matriz. Nesse momento, os linfócitos TCD4 serão atraídos para a sinóvia, tornando-se as células predominantes na região sinovial. Tais células têm a capacidade de clonar e liberar mediadores que estimulam células inflamatórias. Essas células inflamatórias, como o macrófagos, liberam citocinas pró-inflamatórias como IL-1-β, TNF-α, IL-6 e IL-8, que por sua vez estimulam a liberação de proteases por outras células, como os neutrófilos, gerando mais danos ao tecido articular.7−9 Com a destruição do tecido articular, haverá formação do tecido de granulação que substituirá o tecido destruído. Esse tecido, por sua vez, tem poder de penetração na cartilagem articular e no osso subcondral, formando o pannus. Por fim, a cartilagem hialina pode ser substituída por tecido conjuntivo fibroso denso, e, dessa maneira, sua penetração no osso 908 subcondral pode gerar ou não anquilose. Na AIJ a anquilose é, na maioria das vezes, uma anquilose fibrosa, raramente óssea.9 COMPROMETIMENTO DA ATM E SUAS REPERCUSSÕES OROFACIAIS A AIJ pode gerar, além de prejuízo funcional da articulação inicialmente afetada, lesões ósseas justa- ou periarticulares. Estudos mostram que pacientes com AIJ podem apresentar uma deficiência de crescimento global,10−12 que pode atingir de 10%–20% dos pacientes, com maior incidência em determinados subtipos da doença, como a sistêmica e a poliarticular.13 Embora a etiologia do retardo nesse crescimento seja desconhecida, vários fatores têm sido implicados, como presença de níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias, uso crônico de corticoides para o controle da doença, desnutrição e imobilização.13,14 O uso dos corticoides e o aumento marcante de citocinas pró-inflamatórias promovem uma alteração na liberação do hormônio do crescimento (GH).14 Em concomitância ao fato anterior, os pacientes com AIJ, em particular os subtipos poliarticular e sistêmico, comprovadamente apresentam uma diminuição da massa muscular, o que, acredita-se, provoca uma diminuição também na massa óssea desses indivíduos.14 Tais fatos comprometem não apenas o crescimento global do paciente, mas também o mandibular. Além disso, no caso do osso mandibular, somam-se à deficiência na liberação do GH outros dois pilares: a) lesões erosivas na região condilar, que mostram prevalência muito elevada nos pacientes com AIJ (em torno de 75%),15−17 erosão esta provocada pelo processo inflamatório da AIJ5,10,13,16−18 e b) fechamento prematuro da epífise óssea, pelo uso prolongado de corticoide durante a fase de crescimento.18 Tais ações promovem uma deficiência de crescimento mandibular, uma vez que a região condilar é sabidamente o principal centro de crescimento dessa região. Essas alterações parecem tornar-se mais evidentes nos pacientes com idades entre 9 a 12 anos,18 período em que há o surto do crescimento e no qual é esperado que a mandíbula mostre um crescimento acelerado. Como resultado, não é incomum pacientes com AIJ apresentarem micrognatia e/ou rotação posterior da mandíbula13,18 (o que pode ser observado no perfil do paciente, ficando a região do mento muito posterior quando comparada à base do crânio), assim como mordida aberta, quando não existe contato dos dentes anteriores na oclusão. Se apenas uma ATM foi atingida pela doença, a assimetria facial torna-se presente, já que nesse caso teremos apenas uma área de crescimento mandibular comprometida, enquanto a do lado oposto apresentará crescimento normal.13,18 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):903-911 Alterações da articulação temporomandibular e suas repercussões orofaciais em pacientes portadores de artrite idiopática juvenil Durante o exame clínico na AIJ, é muito comum detectarmos uma limitação marcante de abertura de boca, principalmente se a doença está na fase ativa.18,19 Podemos considerar limitação de abertura uma medida < 29,5 mm em crianças de até 3 anos; 34,5 mm em crianças até 6 anos; e 39,5 mm para maiores de 7 anos.20 Tal restrição de movimento também influencia no crescimento mandibular, já que o estímulo ao crescimento ósseo do tracionamento muscular torna-se quase inexistente. O subtipo de AIJ também influencia na gravidade das alterações orofaciais. No tipo poliarticular, tais alterações são mais pronunciadas quando comparadas às de outros subtipos.21,22 O tempo de início da doença também tem forte influência no crescimento anormal mandibular,23 uma vez que quanto mais cedo a doença se inicia, maiores são as possibilidades do aparecimento dos efeitos adversos provocados pelo tratamento e dos efeitos degenerativos da doença-base sobre o desenvolvimento normal mandibular, como descrito anteriormente. Os pacientes com AIJ, comparados a indivíduos saudáveis, apresentam as dimensões de mandíbula e corpo e altura do ramo mandibular diminuídos.16 Em uma compensação fisiológica a essa deficiência, os incisivos superiores e inferiores muitas vezes posicionam-se de forma mais inclinada anteriormente (biprotusão), acarretando em diminuição do ângulo interincisal (ângulo formado entre as pontas dos incisivos superiores e inferiores).17 Esse quadro pode ser observado clinicamente, com o paciente apresentando um perfil convexo, gerado pela biprotusão. A rotação posterior da mandíbula e a diminuição das dimensões mandibulares em pacientes com AIJ podem levar a uma mordida aberta anterior.6,17−19 Tal mordida aberta, além do comprometimento estético, promove uma sobrecarga mastigatória aos elementos posteriores, podendo acarretar desde desconforto mastigatório a dores mais intensas na região da ATM. Contudo, muitas vezes ocorre crescimento vertical compensatório na região anterior do osso alveolar mandibular, fazendo com que os incisivos inferiores e superiores sofram uma sobre-erupção, o que pode camuflar clinicamente a mordida aberta instalada.9 De acordo com estudos, a prevalência da disfunção na ATM em pacientes portadores de AIJ pode variar entre 25%–75%,1,2,12,17 e tal discrepância pode apoiar-se no fato de os estudos abrangerem diferentes idades, subtipos de AIJ e tempos de duração da doença.12 Segundo Ringold et al.,1 apesar de atingir uma prevalência alta, 69% dos pacientes diagnosticados com disfunção temporomandibular (DTM) são assintomáticos. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):903-911 DIAGNÓSTICO DE ALTERAÇÕES NA ATM Um bom diagnóstico é importante para distinguir entre má oclusão dentária e discrepância óssea,6 diferenciando, assim, o crescimento normal de um crescimento anormal causado por uma condição patológica. Há uma acentuada necessidade de critérios que facilitem o diagnóstico precoce do comprometimento da ATM, a fim de instituir-se o tratamento precoce. É altamente recomendável acompanhar a função mastigatória de crianças com AIJ, além da capacidade funcional da ATM.6 É fundamental importância que o reumatologista compreenda seu papel na detecção precoce e no encaminhamento do paciente com AIJ, incluindo o exame dessa articulação em sua rotina clínica. Devem ser considerados como parâmetros: limitação de abertura de boca, dor, desvio mandibular na abertura e/ou fechamento, estalido, crepitação12 e retrusão mandibular acentuada. Tal retrusão pode ser caracterizada clinicamente avaliando-se o paciente em perfil e observando-se um posicionamento da região mental muito posterior à base do crânio. Como auxílio ao diagnóstico, podem ser utilizadas radiografias do tipo panorâmica ou transcraniana, ultrassonografia da região articular e ressonância magnética. A ressonância magnética é considerada a melhor forma de diagnóstico precoce, uma vez que pode detectar alterações musculares, sinoviais cartilaginosas e ósseas, mesmo em início de progressão.24,21 A única desvantagem da ressonância magnética é o fato de que pacientes muito jovens necessitam de sedação para a realização do exame.12,22,25 A radiografia panorâmica apresenta como vantagens baixo custo, baixa irradiação e fácil execução, porém só possibilita a visualização de lesões tardiamente, quando as erosões condilares já estão instaladas. A ultrassonografia fica bastante limitada pela anatomia da região da ATM, sendo pouco utilizada.21 DISCUSSÃO O comprometimento bilateral da ATM é mais comum nos pacientes com AIJ, correspondendo a uma prevalência de 74%,1,17,11 o que pode levar à deficiência de crescimento de toda a região mandibular, acarretando todas as alterações orofaciais descritas anteriormente. O comprometimento unilateral pode gerar uma assimetria facial clinicamente detectável, explicada pelo crescimento assimétrico do osso mandibular.17,26 Além disso, estudos mostram que o uso dos corticoides, juntamente com o aumento marcante de interleucinas inflamatórias, promovem interferência direta na liberação do GH durante o curso da doença, além de estimularem a produção de osteoclastos e a supressão dos 909 Carvalho et al. osteoblastos.11,13,14 O diagnóstico precoce da atividade da doença na ATM é mais difícil que em outras articulações envolvidas pela AIJ, pois os sintomas clínicos acabam sendo muito sutis em crianças.6 Tal diagnóstico torna-se mais facilitado quando há lesões na região condilar, observadas na radiografia e na ressonância magnética.5,6 Os pacientes com a ATM acometida pela doença apresentam também o músculo masseter curto. A presença dessa característica é observada mais frequentemente em pacientes bastante jovens diagnosticados com AIJ e DTM, uma vez que a própria dor gerada pela DTM inibe o desenvolvimento do músculo masseter, o que leva a uma retenção do crescimento ósseo mandibular.24 Quando essa deficiência de crescimento do masseter já estiver clinicamente instalada, o profissional pode observar que o paciente, ao promover a abertura total da boca, tem um desvio para o lado do músculo encurtado.6 Em estudo longitudinal que acompanhou pacientes da fase de diagnóstico da doença (infantil) até a fase adulta, observou-se que não existe comprometimento do crescimento das dimensões mandibulares, mas alteração da direção desse crescimento.2 Porém, em estudo posterior que avaliou 100 pacientes com diferentes subtipos de AIJ, concluiu-se que as dimensões mandibulares encontravam-se diminuídas.16 Independente do tipo de alteração ocorrida, clinicamente teremos pacientes com micrognatia. Já em estudo recente em que foram examinados 60 pacientes com diagnóstico de AIJ ocorrido há 27 anos, concluiu-se que havia algum tipo de distúrbio do crescimento mandibular, porém não foi comprovada uma relação direta com o acometimento da ATM pela AIJ. Já a micrognatia mostrou ter uma relação direta com o comprometimento bilateral da ATM.27 Em estudo de corte transversal sobre a incidência do acometimento da ATM pela AIJ ao longo de 12 meses, detectada por radiografia panorâmica, concluiu-se que 66% dos pacientes apresentaram melhora da disfunção temporomandibular em relação à melhora dos sinais da AIJ.28 CONCLUSÃO Dentre os distúrbios orofaciais em pacientes com AIJ, as mudanças no crescimento mandibular geradas por disfunções na região da ATM parecem de grande prevalência. Tais disfunções podem acarretar, principalmente, mordida aberta, retrusão mandibular, micrognatia, apinhamento dentário e assimetria facial. O reumatologista pode detectar tais alterações precocemente, encaminhando prontamente o paciente a uma equipe que deve ser, preferencialmente, multidisciplinar, composta de ortodontista, fisioterapeuta e fonoaudiólogo, visando reduzir futuras complicações oclusais e de crescimento mandibular. 910 REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. Ringold S, Thapa M, Shaw EA, Wallace CA. Heterotopic ossification of the temporomandibular joint in juvenile idiopathic arthritis. J Rheumatol 2011; 38(7):1423−8. Fjeld MG, Arvidsson LZ, Smith HJ, Flatø B, Ogaard B, Larheim TA. Relationship between disease course in the temporomandibular joints and mandibular growth rotation in patients with juvenile idiopathic arthritis followed from childhood to adulthood. Pediatr Rheumatol Online 2010; 8:13. Lien G, Flatø B, Haugen M, Vinje O, Sørskaar D, Dale K et al. 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Oral health and orthodontic considerations in children with juvenile idiopathic arthritis: review of the literature and report of a case. J Ir Dent Assoc 2008; 54(1):29−36. 19. Olson L, Eckerdal O, Hallonsten A, Helkimo M, Koch G, Gäre B. Craniomandibular function in juvenile chronic arthritis. A clinical and radiographic study. Swed Dent J 1991; 15(2):71−83. 20. Kitai N, Kreiborg S, Murakami S, Bakke M, Møller E, Darvann TA et al. A three-dimensional method of visualizing the temporomandibular joint based on magnetic resonance imaging in a case of juvenile chronic arthritis. Int J Paediatr Dent 2002; 12(2):109−15. 21. Fernandes EGC, Guissa VR, Saviolli C, Siqueira JT, Valente M, da Silva CA. Osteonecrose da mandíbula com lúpus eritematoso sistêmico juvenil observada em exame de imagem. Rev Bras Reumatol 2010; 50(1):3−15. 22. Twilt M, Schulten A, Verschure F, Wisse L, Prahl-Andersen B, Suijlekom-Smit LW. 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Condylar asymmetry in children with juvenile idiopathic arthritis assessed by cone-beam computed tomography. Eur J Orthod 2008; 30(6):545−51. 27. Arvidsson LZ, Fjeld MG, Smith HJ, Flatø B, Ogaard B, Larheim TA. Craniofacial growth disturbance is related to temporomandibular joint abnormality in patients with juvenile idiopathic arthritis, but normal facial profile was also found at 27-year follow-up. Scand J Rheumatol 2010; 39(5):373−9. 28. Twilt M, Arends LR, Cate R, van Suijlekom-Smit LW. Incidence of temporomandibular involviment in juvenile idiopathic arthritis. Scand J Rheumatol 2007; 36(3):184−8. 911 ARTIGO DE REVISÃO Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Cristina Mariano Ruas Brandão1, Gustavo Pinto da Matta Machado2, Francisco de Assis Acurcio3 RESUMO A osteoporose, principalmente na pós-menopausa, apresenta alto impacto socioeconômico para o indivíduo e para a sociedade. Existem vários medicamentos para sua prevenção e tratamento; entretanto, observa-se ampla variação na eficácia e nos custos relacionados. Diversas avaliações econômicas têm sido conduzidas a fim de se avaliar as estratégias mais eficientes. O objetivo desse trabalho foi conduzir uma revisão sistemática das avaliações econômicas realizadas no Brasil e no mundo, enfocando o tratamento da osteoporose na pós-menopausa. Foi realizada uma busca de artigos sobre avaliação econômica de medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa, nas bases de dados PubMed e LILACS. No geral, os bisfosfonatos foram as estratégias mais avaliadas e que resultaram em melhores relações custo-efetividade incrementais. Terapia hormonal, suplementação de cálcio e vitamina D, ranelato de estrôncio, raloxifeno, teriparatida e denosumabe foram avaliados e apresentaram resultados variáveis dependendo da perspectiva adotada, do país e das premissas assumidas para cada estudo. Não foi possível extrapolar nenhum dos resultados para a população brasileira, limitando sua utilização pelos tomadores de decisão. Palavras-chave: osteoporose, pós-menopausa, revisão, economia da saúde. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A osteoporose implica em aumento do risco de fraturas. A ocorrência de fraturas leva a consequências para o indivíduo e para a sociedade como um todo.1 As mulheres, especialmente após os 50 anos, são as mais vulneráveis a fraturas devido às alterações hormonais da pós-menopausa, responsáveis pela diminuição da massa óssea. O aumento da expectativa de vida, que ocorre em muitas partes do mundo, evidencia que as mulheres agora vivem mais de um terço de suas vidas após a menopausa, e que o número de mulheres na pós-menopausa está aumentando. No Brasil, por exemplo, em 1990, o número de mulheres com mais de 50 anos era de 10.345.440; 20 anos depois, esse número praticamente duplicou – e o número de mulheres é 18,0% maior que o número de homens.2 Essa é igualmente uma tendência em outros países da América e da Europa.1 Considerando-se o envelhecimento populacional, o aumento da expectativa de vida e a feminização das idades mais avançadas, torna-se grande o impacto socioeconômico da osteoporose. Segundo o Latin American Vertebral Osteoporosis Study (LAVOS), estudo de base populacional, a prevalência de fraturas vertebrais radiográficas em mulheres nos países da América Latina é de 11,18% (IC: 9,23−13,4).3 Em estudo conduzido no Brasil, The Brazilian Osteoporosis Study (BRAZOS), encontrou-se prevalência de 15,1% de fraturas em mulheres e 6,0% de osteoporose.4 Lopes et al.5 encontraram que mulheres tiveram maior prevalência de fraturas osteoporóticas Recebido em 13/10/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Suporte Financeiro: CMRB foi bolsista de doutorado pela Fapemig; FAA é bolsista de produtividade em Pesquisa nível II do CNPq e do Programa de Pesquisador Mineiro da Fapemig. Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – FHEMIG. 1. Doutora em Saúde Pública, Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG; Professora-Adjunta da Faculdade de Farmácia, UFMG; Analista de Gestão em Assistência à Saúde, Economia da Saúde, Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais – FHEMIG 2. Doutor em Saúde Pública, UFMG; Professor do Departamento de Clínica Médica, UFMG 3. Pós-doutor em Economia da Saúde, Universitat Pompeu Fabra; Professor Titular da Faculdade de Farmácia, UFMG Correspondência para: Cristina Mariano Ruas Brandão. Gerência de Ensino e Pesquisa. Alameda Álvaro Celso, 100 − Santa Efigênia. CEP: 30150-260. Belo Horizonte, MG, Brasil. E-mail: [email protected] 924 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática que homens. Os principais locais de acometimento foram: antebraço (6,0%), úmero (2,3%), fêmur (1,3%) e vértebras (1,1%). A prevalência é maior conforme o aumento da idade. Após os 40 anos, foi encontrada 33% de osteoporose e 11,5% de fraturas osteoporóticas.4 Os sítios anatômicos mais comumente associados à osteoporose são vértebras, quadris e punhos.1 Muitas fraturas vertebrais são assintomáticas e têm baixo impacto no uso de recursos em saúde; estima-se que somente 25% dessas fraturas sejam diagnosticadas clinicamente.6 Fraturas de quadris, geralmente no fêmur proximal, aumentam sua incidência conforme a idade e são associadas com significante redução na qualidade de vida e elevada mortalidade.7 Os custos da sociedade podem ser considerados diretos e indiretos e estão associados tanto à prevenção e ao tratamento da osteoporose quanto ao tratamento e à reabilitação das fraturas. Estudo conduzido no setor terciário avaliou os custos anuais da osteoporose em mulheres na pós-menopausa, sob a perspectiva da sociedade, e encontrou custo por paciente de 775 dólares ao ano (1998).8 O custo da terapia depende da estratégia de intervenção escolhida e da perspectiva analisada. Em Minas Gerais, por exemplo, os gastos médios mensais per capita com medicamentos para o tratamento da osteoporose, sob a perspectiva do Sistema Único de Saúde (SUS), foram de R$27,64 para pacientes que utilizaram alendronato, R$52,85 para os que utilizaram calcitriol, R$56,73 alfacalcidol, R$94,92 raloxifeno e R$132,75 para os que utilizaram calcitonina sintética de salmão.9 Estimativas de custos hospitalares para tratamento da fratura aguda do fêmur por osteoporose em dois hospitais paulistas conveniados ao SUS (Hospital Universitário e Santa Casa de Misericórdia) encontraram que a média do custo foi de R$8.266,25 e R$1.949,65, respectivamente. Entretanto, os autores consideram que os custos não correspondem à realidade, estando possivelmente subestimados devido às fontes e metodologias de avaliação dos custos.10 No sistema de saúde suplementar (privado), a estimativa de custo por tratamento de cada fratura foi de R$24.000,00.11 O objetivo do tratamento farmacológico é a redução da incidência de novas fraturas vertebrais e não vertebrais (principalmente de quadril), responsáveis pela morbidade associada à doença. A avaliação da eficácia não tem sido suficiente para a utilização desses fármacos no contexto do sistema público de saúde, levando-se em conta as limitações orçamentárias. Análises econômicas permitem a avaliação conjunta da efetividade e de distintos componentes relacionados ao custo. Diferentes abordagens metodológicas podem ser adotadas, levando-se em consideração principalmente a medida de Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 resultados. Os tipos de estudos comumente utilizados em farmacoeconomia são os estudos de minimização de custos, custo-efetividade, custo-utilidade e custo-benefício. De acordo com o tipo de análise realizada, o benefício em saúde pode ser expresso em anos de vida salvos ou expectativa de vida, para estimar razões de custo-efetividade. Se a unidade de desfecho clínico ou efetividade utilizada for a preferência do paciente ou a qualidade de vida, então o estudo avalia razões de custoutilidade. Se o estudo converte o desfecho clínico em dólares ou unidade monetária, a relação calculada é expressa como custo-benefício.12 Conforme seja definido o público do estudo, diferentes perspectivas de avaliação econômica podem ser adotadas, o que influenciará nos tipos de custos que serão mensurados. As perspectivas mais comumente utilizadas nesses estudos são aquelas que consideram o ponto de vista do paciente e da família, o dos hospitais, o do setor público, o das companhias de seguro ou o da sociedade como um todo.13 Os resultados nas avaliações econômicas comumente são expressos em razão média e razão adicional (incremental) de custo-efetividade. A razão custo-efetividade (RCE) é calculada dividindo-se o custo da estratégia farmacológica pelo benefício na saúde obtido com essa estratégia. A razão custo-efetividade incremental (RCEI) compara os custos adicionais de uma estratégia em relação à outra, comparando com a proporção adicional de efeitos, benefícios ou utilidades que oferecem. Enquanto a RCE enfoca uma estratégia específica, a RCEI avalia a diferença entre as duas estratégias farmacológicas, sendo, portanto, de maior aplicabilidade para tomada de decisão e, por isso, seu uso é recomendado nas análises de custo-efetividade e custo-utilidade.14 Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são consideradas custo-efetivas as estratégias terapêuticas cuja RCEI não ultrapasse o limiar de disponibilidade a pagar de três vezes o produto interno bruto per capita daquele país.15 As medidas de resultados utilizadas nas avaliações econômicas de custo-efetividade e custo-utilidade de medicamentos para o tratamento da osteoporose são geralmente apresentadas em termos de fraturas evitadas, anos de vida ganhos (AVG) ou anos de vida ajustados pela qualidade (AVAQ ou QALY − Quality adjusted life years). Os AVAQ incorporam não só os anos de vida ganhos (quantidade), como também a qualidade de vida correspondente. Essa medida de efetividade é relevante nas situações em que existe um aumento da sobrevida em condições de saúde que não são ideais ou quando terapias não alteram a sobrevida, mas somente a qualidade de vida.14 Seu uso tem se mostrado muito útil para estimar doenças crônicas, como a osteoporose.16 925 Brandão et al. Análises econômicas têm sido conduzidas para subsidiar os tomadores de decisão quanto ao valor das alternativas terapêuticas disponíveis, com o intuito de prover uma alocação eficiente dos recursos para alcançar o máximo benefício nos cuidados de saúde. Essas avaliações incorporam tanto as diferenças na eficácia dos medicamentos quanto a variação nos custos com o tratamento da osteoporose. Dados de eficácia de medicamentos podem ser transferíveis de uma localidade para outra. Entretanto, em avaliações econômicas em saúde, existem inúmeras razões que dificultam a generalização de resultados. Aspectos relacionados à validade externa, como as diferenças das estimativas de efetividade e custos entre populações, devem ser considerados antes de utilizar os resultados de avaliações econômicas obtidas em diferentes países. Até mesmo estudos conduzidos dentro de uma mesma localidade podem gerar resultados que não devem ser confrontados quando existem diferenças na perspectiva da avaliação.13 Apesar disso, a apreciação desses estudos pode ser útil no direcionamento das análises, fornecendo uma visão abrangente de aspectos relevantes para condução de estudos de custo-efetividade e custo-utilidade. Nessa perspectiva, o objetivo desse trabalho foi conduzir uma revisão sistemática das avaliações econômicas completas, realizadas no Brasil e no mundo, enfocando o tratamento da osteoporose na pós-menopausa. MATERIAIS E MÉTODOS Critérios de busca Foi realizada uma busca de artigos sobre avaliação econômica de medicamentos para o tratamento da osteoporose na pósmenopausa, na base de dados PubMed por meio do programa Jabref versão 2.6. As seguintes palavras-chave foram utilizadas: {osteoporosis} and ({postmenopausal} or {post-menopausal}) and ({cost effectiveness} or {cost benefit} or {cost utility} or {economic evaluation}). Os critérios de busca foram aplicados aos títulos e resumos. Adicionalmente, realizou-se uma busca de estudos conduzidos no Brasil na base de dados da LILACS, com as palavraschave {osteoporosis or osteoporose} and ({postmenopausal} or {post-menopausal} or {pós-menopausa} or {pós menopausa}). Também foi realizada uma busca manual em revistas nacionais não indexadas. Não houve restrição de data da publicação de artigos; a busca foi feita até abril de 2012. Critérios de inclusão e exclusão Os critérios de seleção dos artigos foram os seguintes: a) ser uma avaliação econômica completa (custo-efetividade, 926 custo-utilidade ou custo-benefício); b) o estudo ter sido conduzido em população com osteoporose pós-menopausa; c) ter avaliado medicamentos para o tratamento da osteoporose. Os critérios de exclusão foram: a) tratamento de osteoporose após câncer de mama; b) população de mulheres com osteopenia; c) avaliação econômica parcial; d) comparação de estratégias de triagem clínica. Seleção dos estudos A análise dos títulos e resumos quanto aos critérios de elegibilidade foi realizada por dois revisores independentes. Nos casos discordantes, estes foram analisados por um terceiro revisor. Apresentação dos resultados Depois de aplicados os critérios de elegibilidade, realizou-se uma leitura minuciosa dos artigos e os dados foram agrupados em duas tabelas descritivas. Para facilitar a comparação entre os dados, determinou-se, a partir dos estudos, autores e ano do estudo, local onde o estudo foi realizado, perspectiva do estudo, moeda em que foi apresentado o resultado, taxa de desconto utilizada, população-alvo, intervenção analisada, horizonte temporal, instituição dos autores, desfecho, RCEI, e informações a respeito dos conflitos de interesse com a indústria farmacêutica. Para apresentação dos resultados, considerou-se a ordem de publicação dos estudos. RESULTADOS A partir dos critérios de busca, foram encontrados 170 títulos e resumos de estudos na base de dados PubMed. Na LILACS foram encontrados 69 artigos, e um na busca manual. De acordo com os critérios de elegibilidade, 210 títulos e resumos foram excluídos, principalmente por não se tratarem de avaliações econômicas (n = 143), avaliação de estratégias de rastreamento (n = 23) e outros motivos (n = 44). Permaneceram 30 estudos para a revisão farmacoeconômica. Dentre os 30 artigos apresentados, cinco foram publicados em 2006 e 2008 (cada) e quatro em 2010; três em 2003, 2004 e 2011; dois em 2002 e 2007; e um em 1998, 1999 e 2005. Foram encontrados estudos de custo-efetividade e custo-utilidade. Todos os resultados foram apresentados em RCEI, com exceção de Borgström et al.,17 que apresentaram os resultados somente em custos/QALY. Para padronização dos resultados, em um dos estudos incluídos, foi necessário calcular o valor de RCEI a partir dos dados de custo e efetividade informados em tabelas.18 Todos os dados relevantes referentes aos estudos selecionados estão apresentados na Tabela 1 e na Tabela 2. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Tabela 1 Características metodológicas dos estudos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Horizonte temporal Conflitos de interesse Estratégia 1 (Ca+ →s/tto) Estratégia 2 (TH→Ca+ →s/tto) Estratégia 3 (TH → etidronato → Ca+ → s/tto) Estratégia 4 (TH→ alendronato →Ca+ → s/tto) 3 anos Sim Osteoporose com fraturas Alendronato Placebo 3 anos Não 6% C e 1,5% R Osteoporose com fraturas e idade de 75 anos S/tto Risedronato Até os 100 anos ou até a morte Sim Coroa (2000) 3% C e R Osteoporose com fraturas e idade de 70 anos S/tto Ca+ e vit. D3 Até 90 anos ou morte Sim Sistema Único de Saúde Real (2001) − Mulheres com e sem osteoporose aos 50 e 65 anos S/tto DMO + alendronato DMO + TH TH Ca+ + Vit. D 1 ano Não Suécia Provedor de saúde Coroa (2000) 3% C e R Osteoporose com fraturas e 71 anos S/tto Alendronato Até 100 anos ou até a morte Sim Brecht et al., 200323 Alemanha Seguro social de saúde (1999) 5% C e R Osteoporose com fraturas aos 70 anos Tratamento padrão Risedronato 3 anos de tratamento e 10 anos de seguimento Sim Kanis et al., 200434 Reino Unido Provedor de saúde Euro 2000/2001 6% C e 1,5% R Osteoporose com fraturas com 70 anos S/tto Risedronato 5 anos Não Borgström et al., 200438 Suécia Provedor de saúde Euro (2001) 3% C e R Osteoporose sem fraturas e idade 60, 70 e 80 anos S/tto Raloxifeno Até 100 anos ou até a morte Sim Brecht et al., 200439 Alemanha Seguro social de saúde 5% C e R Osteoporose com fraturas com 70 anos S/tto Alendronato Risedronato Raloxifeno 3 anos de tratamento e 10 anos de seguimento Sim Stevenson et al., 200519 Reino Unido Sistema de saúde inglês Euro (2001/02) 1,5% C e 6% R Osteoporose com fraturas aos 50, 60, 70 e 80 ou mais e sem fraturas aos 70 e 80 ou mais Alendronato Risedronato Etidronato Raloxifeno Teriparatida Estrogênios 10 anos Não Borgström et al., 200624 Suécia, Finlândia, Espanha, Bélgica Sociedade Euro (2003) Suécia 3% C/R, Finlândia 5% C/R, Espanha 6% C/R, Bélgica 3% C Osteoporose com e sem fraturas e idade de 70 anos S/tto Risedronato Até os 100 anos ou até a morte Não Liu et al., 200626 Estados Unidos Sociedade Dólar (2003) 3% C e R Osteoporose com fraturas aos 70 anos Ca+ ou Vit. D Alendronato (5 anos) Teriparatida (2 anos) Teriparatida (2 anos) + alendronato (5 anos) A vida toda Sim Estudo País Perspectiva Moeda Taxa de desconto População-alvo Intervenção Rosner et al., 199820 Canadá Sociedade Dólar canadense (1996) 5% C e R Osteoporose com fraturas em mulheres com e sem histerectomia Escolar et al., 199932 Espanha Provedor de serviços Pesetas (1998) 2% C e 0% R Iglesias et al., 200221 Reino Unido Não deixa claro Euro (1999) Willis et al., 200243 Suécia Sistema Nacional de Saúde Silva, 200333 Brasil Johnell et al., 200322 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 927 Brandão et al. Tabela 1 Características metodológicas dos estudos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Horizonte temporal Conflitos de interesse S/tto Teriparatida Até 100 anos ou até a morte Sim Osteoporose com fraturas aos 69 anos e sem fraturas aos 77 anos S/tto Ranelato de estrôncio Até 100 anos ou a morte Não 5% C e R Osteoporose sem fraturas aos 65 anos S/tto Etidronato Alendronato Raloxifeno Risedronato Até 95 anos ou a morte Sim Euro (2004) 3% C e R Osteoporose com fraturas S/tto Alendronato Até os 100 anos ou a morte Sim Terceiro pagador (seguro de saúde) Dólar americano (2006) 3% C e R Osteoporose com fraturas aos 50 anos ou mais Bisfosfonatos 5 anos Sim Canadá Ministério da Saúde Dólar canadense (2006) 5% C e R Osteoporose com e sem fraturas e 65 anos ou mais Risedronato Alendronato 5 anos Sim Lekander et al., 200837 Suécia, Reino Unido e Estados Unidos Sociedade Dólar americano (2006) 3% C e R Osteoporose e 50 anos S/tto TH 100 anos ou até a morte Sim Araújo et al., 200836 Brasil Sistema de Saúde Suplementar Real (2007) 3% C e R Osteoporose com fraturas Ácido zoledrônico Risedronato 5 anos Sim Tosteson et al., 200829 Estados Unidos Sistema de saúde americano Dólar (2005) 3% C e R Osteoporose com e sem fraturas aos 65 e 75 anos S/tto Risedronato Alendronato Ibandronato Teriparatida 10 anos Sim Wasserfallen et al., 200830 Suíça Sistema de saúde Euro (2005) 3% C e R Osteoporose com fraturas aos 70 anos S/tto Risedronato 5 anos Sim Hiligsmann et al., 200841 Bélgica Pagador* Euro (2006) 3% C 1,5% efetividade Osteoporose sem fraturas ou com fraturas aos 70, 75 e 80 anos S/tto Ranelato de estrôncio A vida toda Sim Hiligsmann et al., 201042 Bélgica Pagador* Euro (2006) 3% C e 1,5% R Osteoporose com e sem fraturas aos 75 e 80 anos S/tto Ranelato de estrôncio Risedronato Ranelato de estrôncio A vida toda Sim Estudo País Perspectiva Moeda Taxa de desconto População-alvo Intervenção Lundkvist et al., 200618 Suécia Sociedade Euro (2003) 3% C e R Osteoporose* com fraturas e 69 anos, estratificado por grupos que tiveram fraturas recentes ou antigas Borgström et al., 200640 Suécia Sociedade Coroa (2004) 3% C e R Goeree et al., 200625 Canadá Governo provincial Dólares canadenses (2005) Ström et al., 200727 Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Noruega, Espanha, Suécia e Reino Unido Sociedade Earnshaw et al., 200728 Estados Unidos Grima et al., 200835 928 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Tabela 1 Características metodológicas dos estudos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Horizonte temporal Conflitos de interesse S/tto Denosumabe Até 105 anos ou até a morte Sim Osteoporose com fraturas aos 65 anos ou mais Risedronato Alendronato 6 anos Sim 3% C e R Osteoporose com fraturas aos 70 anos S/tto Teriparatida PTH (1−84) 6 meses Sim Euro (2008) 3% C e R Osteoporose com fraturas aos 71 anos S/tto Alendronato Risedronato Ranelato de estrôncio Denosumabe 100 anos ou até a morte Sim Euro (2009) 3% C e 1,5% R Osteoporose com e sem fraturas aos 70 anos Alendronato Risedronato Denosumabe Até 105 anos ou até a morte Sim Estudo País Perspectiva Moeda Taxa de desconto População-alvo Intervenção Hiligsmann & Reginster, 201044 Bélgica Pagador* Euro (2009) 3% C e 1,5% R Osteoporose com e sem fraturas aos 70, 75 e 80 anos Berto et al., 201031 Itália Sistema nacional de saúde italiano Euro 3% C e R Borgström et al., 201017 Suécia Sociedade Euro (2007) Jönsson et al., 201145 Suécia Sociedade Hiligsman & Reginster, 201146 Bélgica Pagador* Ca+: cálcio; S/tto: sem tratamento; DMO: densidade mineral óssea; HTA: Health Technology Assessment; C: custo; PTH (1–84): paratormônio (1–84); R: resultados; TH: terapia hormonal; Vit D: vitamina D. *Inclui custos pagos pelo seguro de saúde e do paciente. Tabela 2 Resultados dos artigos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Estudo Desfecho Rosner et al., 199820 Fraturas vertebrais Escolar et al., 199932 Razão de custo-efetividade incremental RCEI em relação à estratégia 1 (resultados mais importantes) Com útero intacto Estratégia 2 = 1.376 Estratégia 3 = 2.174 Estratégia 4 = 39.488 Histerectomizadas Estratégia 2 = 166 Estratégia 3 = 2.331 Estratégia 4 = 40.965 Fraturas de quadris RCE alendronato = 297.879/êxito RCE placebo = 23.301/êxito RCEI alendronato/placebo = 25.621.491/êxito Iglesias et al., 200221 Fraturas vertebrais e não vertebrais RCEI/AVAQ Risedronato/ S/tto = dominante Willis et al., 200243 Fraturas de quadris RCEI/AVG 27% eficácia = cost saving 20% eficácia = cost saving 15% eficácia = 177.600 RCEI/AVAQ 27% eficácia = cost saving 20% eficácia = cost saving 15% eficácia = 74.000 Silva, 200333 Fraturas de fêmur RCEI/fratura evitada da vitD/ S/tto 50 anos S/tto = base DMO + alendronato = 136.217,00 DMO + TH = 37.322,00 TH = 1.479.504,00 Cálcio + vit. D = 12.673,00 65 anos S/tto = base DMO + alendronato = 101.181,00 DMO + TH = 27.179,00 TH = 1.389.939,00 Cálcio + vit. D = 12.408,00 Johnell et al., 200322 Fraturas de quadris, coluna vertebral e punhos RCEI/AVAQ para alendronato/ S/tto = 76.384 Brecht et al., 200323 Fraturas de quadris, coluna vertebral e punhos RCEI/AVAQ Risedronato/tto padrão = cost saving Kanis et al., 200434 Fraturas de quadris, vértebras e punhos RCEI/ AVAQ Risedronato/S/tto = dominado Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 929 Brandão et al. Tabela 2 Resultados dos artigos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Estudo Desfecho Razão de custo-efetividade incremental Borgström et al., 200438 Fraturas vertebrais, quadris e punhos RCEI/AVG Raloxifeno/ S/tto 60 anos = 45.426 70 anos = 35.419 80 anos = 6.070 RCEI/AVAQ 60 anos = 40.213 70 anos = 32.776 80 anos = 28.477 Brecht et al., 200439 Fraturas de quadris RCEI/fratura de quadril evitada S/tto = — Risedronato = 37.348 Alendronato = 48.349 Raloxifeno = sem efeito RCEI/AVAQ S/tto = — Risedronato = 32.092 Alendronato = 41.302 Raloxifeno = 1.247.119 Stevenson et al., 200519 Fraturas de quadris, vértebras, punho e úmero proximal (ombro) RCEI/AVAQ osteoporose sem fraturas 70 anos Alendronato = 40.460 Risedronato = 98.855 Etidronato = 45.071 Raloxifeno = 18.664 Teriparatida = 247.660 Estrogênios = dominado 80 + Alendronato = 12.181 Risedronato = 17.240 Etidronato = 72.007 Raloxifeno = 27.483 Teriparatida = 218.020 Estrogênios = dominado RCEI/AVAQ osteoporose estabelecida 50 anos Alendronato = 33.621 Risedronato = 42.268 Etidronato = 78.960 Raloxifeno = 31.189 Teriparatida = 227.976 Estrogênios = dominado 60 anos Alendronato = 39.733 Risedronato = 46.596 Etidronato = 89.079 Raloxifeno = 20.696 Teriparatida = 268.104 Estrogênios = dominado 70 anos Alendronato = 16.934 Risedronato = 22.001 Etidronato = 29.742 Raloxifeno = 29.993 Teriparatida = 234.728 Estrogênios = 69.585 80 + Alendronato = 697 Risedronato = 5.022 Etidronato = 48.521 Raloxifeno = 21.183 Teriparatida = 123.205 Estrogênios = dominado Borgström et al., 200624 Fraturas de quadril, vértebras e punho RCEI/AVAQ com fratura prévia Risedronato/ S/tto Suécia = 1.176 Finlândia = 28.377 Espanha = 55.026 Bélgica = 18.020 RCEI/AVAQ sem fratura prévia Risedronato/ S/tto Suécia = 30.062 Finlândia = 82.000 Espanha = 141.353 Bélgica = 66.857 Liu et al., 200626 Fraturas vertebrais, punhos e quadris RCEI/AVAQ Ca+ ou Vit. D = base Alendronato (5 anos) = 11.600 Teriparatida (2 anos) = 172.300 Teriparatida (2 anos) + alendronato (5 anos) = 156.500 Lundkkvist et al., 200618 Fraturas vertebrais, quadris e punhos História de fratura RCEI/AVAQ = 64.432 RCEI/AVG = 82.972 História de fratura recente RCEI/AVAQ = 20.300 RCEI/AVG = 25.624 Borgström et al., 200640 Fraturas vertebrais, quadris e punhos Mulheres de 69 anos RCEI/AVG = 678.259 RCEI/AVAQ = 472.586 Mulheres de 77 anos RCEI/AVG = 503.507 RCEI/AVAQ = 259.643 Goeree et al., 200625 Fraturas vertebrais e de quadris RCEI /AVG S/tto = padrão Etidronato = 143.247 Alendronato = 72.883 Raloxifeno = 140.782 Risedronato = 346.872 RCEI /AVAQ S/tto = padrão Etidronato = 32.571 Alendronato = 32.760 Raloxifeno = 49.279 Risedronato = 78.275 930 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Tabela 2 Resultados dos artigos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Estudo Desfecho Razão de custo-efetividade incremental Ström et al., 200727 Fraturas vertebrais, quadris e punhos RCEI /AVAQ alendronato/ S/tto Com fratura prévia Bélgica = 6.461 Dinamarca = cost saving França = 4.670 Alemanha = 7.658 Itália = 15.489 Noruega = cost saving Espanha = 13.193 Suécia = cost saving Reino Unido = 1.356 Sem fratura prévia Bélgica = 23.684 Dinamarca = 6.201 França = 27.419 Alemanha = 27.821 Itália = 39.712 Noruega = cost saving Espanha = 32.943 Suécia = cost saving Reino Unido = 11.849 Earnashaw et al., 200728 Fraturas vertebrais, quadris e punhos RCEI/AVAQ Mensal/S/tto = 13.749 Semanal/S/tto = 16.657 Mensal/semanal = 9.476 Grima et al., 200835 Fratura de quadril RCEI/fratura evitada (risedronato/alendronato) = 1.867 RCEI/AVAQ ganho (risedronato/alendronato) = 3.877 Lekander et al., 200837 infarto, eventos tromboembólicos venosos, câncer de mama, câncer colorretal, fratura de quadril, fratura vertebral, fratura de punhos e doença coronariana RCEI/AVAQ TH/S/tto sem fraturas prévias Útero intacto Suécia = TH dominada Reino Unido = TH dominada EUA = TH dominada Histerectomizada Suécia = 26.644 Reino Unido = 19.265 EUA = 16.059 RCEI/AVAQ TH/S/tto com fraturas prévias Útero intacto Suécia = 16.660 Reino Unido = 29.132 EUA = 49.532 Histerectomizada Suécia = 14.163 Reino Unido = 2.054 EUA = 3.326 Araújo et al., 200836 Fratura de fêmur RCEI/fratura evitada do ácido zoledrônico/risedronato = dominante Tosteson et al., 200829 Fratura vertebral e de quadril Wasserfallen et al., 200830 Fraturas vertebrais, quadris e punhos Hiligsmann et al., 201041 Fraturas de quadris, vértebras, punhos ou outras Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 RCEI /AVG alendronato/ S/tto Com fratura prévia Bélgica = 10.090 Dinamarca = cost saving França = 7.858 Alemanha = 12.505 Itália = 25.263 Noruega = cost saving Espanha = 21.048 Suécia = cost saving Reino Unido = 1.963 Sem fratura prévia Bélgica = 36.975 Dinamarca = 7.543 França = 45.625 Alemanha = 45.319 Itália = 64.537 Noruega = cost saving Espanha = 52.783 Suécia = cost saving Reino Unido = 17.145 RCEI por AVAQ 65 anos com fraturas Sem terapia = base Risedronato = 22.068 Alendronato = 362.845 Ibandronato = dominado Teriparatida = dominado 65 anos sem fraturas Sem terapia = base Risedronato = 66.722 Alendronato = dominado Ibandronato = dominado Teriparatida = dominado 75 anos com fraturas Sem terapia = base Risedronato = dominado Alendronato = dominado Ibandronato = dominado Teriparatida = dominado 75 anos sem fraturas Sem terapia = base Risedronato = 991 Alendronato = dominado Ibandronato = dominado Teriparatida = dominado RCEI por AVAQ Risedronato/ S/tto = cost saving RCEI/AVAQ ranelato de estrôncio/ S/tto Sem fraturas prévias 70 anos = 15.096 75 anos = 6.913 80 anos = cost saving Com fraturas prévias 70 anos = 23.426 75 anos = 9.698 80 anos = cost saving 931 Brandão et al. Tabela 2 Resultados dos artigos de avaliação econômica dos medicamentos para o tratamento da osteoporose na pós-menopausa Estudo Desfecho Hiligsmann et al., 201042 Fraturas de quadris, vértebras, punhos ou outras Hiligsmann & Reginster, 201044 Fraturas do quadril, vertebral clínica, punho, outra fratura Berto et al., 201031 Borgström et al., 201017 Razão de custo-efetividade incremental RCEI/AVAQ Ranelato de estrôncio vs. risedronato Sem fraturas prévias 75 anos = estrôncio dominante 80 anos = estrôncio dominante Com fraturas prévias 75 anos = 11.435 80 anos = estrôncio dominante Ranelato de estrôncio vs. S/tto Sem fraturas prévias 75 anos = 15.588 80 anos = 7.708 Com fraturas prévias 75 anos = 16.518 80 anos = 6.015 RCEI/AVAQ denosumabe/ S/tto RCEI/AVAQ Risedronato/alendronato 85−89 anos = dominado 90−94 anos = dominado 95−99 anos = dominado 65−69 anos = 36.099 70−74 anos = 9.737 75−79 anos = dominado 80−84 anos = dominado Fraturas de quadris, vértebras, punhos ou outras Custo/AVAQ Teriparatida/S/tto = 43.473 PTH (1-84)/S/tto = 104.396 Jönsson et al., 201145 RCEI/AVG Denosumabe/ S/tto = 25.980 Denosumabe/ alendronato = 48.226 Denosumabe/ risedronato = 20.592 Denosumabe/ ranelato de estrôncio = 9.161 Hiligsman & Reginster, 201146 Cenário 2 (414,30): RCEI/AVAQ = 28.441 Cenário 3 (476,40): RCEI/AVAQ = 34.265 Cenários de preços do medicamento Cenário 1 (352,20): RCEI/AVAQ = 22.616 Fraturas do quadril, vertebral clínica, punho, outra fratura Denosumabe/ S/tto = 14.458 Denosumabe/alendronato = 27.060 Denosumabe/ risedronato = 11.545 Denosumabe/ ranelato de estrôncio = 5.015 RCEI/AVAQ Osteoporose Alendronato (marca)/ denosumabe = 14.120 Alendronato (genérico)/ denosumabe = 22.220 Risedronato/ denosumabe = −209 Osteoporose com fraturas prévias Alendronato (marca)/ denosumabe = 14.166 Alendronato (genérico)/ denosumabe = 19.718 Risedronato/ denosumabe = 4.456 AVAQ ou QALY: anos de vida ajustados pela qualidade; AVG: anos de vida ganhos; Ca+: cálcio; S/tto: sem tratamento; RCEI: razão custo-efetividade incremental; C: custo; PTH (1-84): paratormônio (1-84); R: resultados; TH: terapia hormonal; Vit. D: vitamina D. Alguns termos comumente utilizados em farmacoeconomia foram utilizados neste estudo e carecem de definições para melhor entendimento do texto. “Estratégia dominante” refere-se a uma estratégia terapêutica comparada que é mais efetiva e mais barata que a estratégia padrão de comparação. Consequentemente, a estratégia dominada deve ser descartada. “Estratégias cost-saving” estão relacionadas àquelas que produzem economia de recursos; no caso da osteoporose, os custos com o tratamento medicamentoso são menores que os custos decorrentes das fraturas evitadas; portanto, seu uso é altamente recomendado. Os bisfosfonatos foram as estratégias terapêuticas mais avaliadas. A maioria dos estudos encontrou eficácia no tratamento com esses medicamentos e RCEI dentro dos limiares de disponibilidade a pagar de cada país.19−31 A exceção deu-se em três estudos: Escolar et al.,32 que concluíram que o alendronato 932 não foi custo-efetivo frente ao placebo para prevenção de fraturas de quadris; Silva et al.,33 que questionaram a utilização dos bisfosfonatos tendo em vista os recursos escassos em saúde pública; e Kanis et al.,34 cujo estudo encontrou que os custos excederam o limiar de custo-efetividade do país. Na comparação de diferentes bisfosfonatos, Grima et al.35 encontraram que o risedronato apresentou melhor RCEI que o alendronato; Araújo et al.36 encontraram dominância do ácido zoledrônico em relação ao risedronato na prevenção de fraturas de fêmur; Tosteson et al.29 encontraram que risedronato e alendronato foram custo-efetivos no tratamento da osteoporose, mas o ibandronato foi dominado (a mais cara e menos efetiva das alternativas). Berto et al.31 observaram que o risedronato foi custo-efetivo nas faixas etárias de 65–74 anos e foi dominado em relação ao alendronato após os 75 anos – ou seja, apresentou maior custo e menor efetividade que o alendronato. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Observou-se discrepância no estudo de Kanis et al.,34 em que os autores concluíram que, no cenário-base (mulheres com osteoporose pós-menopausa estabelecida aos 70 anos), o tratamento foi custo-efetivo, considerando-se um limiar de custo-efetividade de 30.000 por AVAQ ganho. Todavia, os resultados mostraram que a estratégia de tratamento farmacológico foi dominada em relação a não tratar com medicamentos – ou seja, observou-se maior custo (10.674 vs. 10.471) e menor efetividade (8.598 vs. 8.699 AVAQ) com o tratamento. No estudo realizado pelo Health Technology Assessment, órgão inglês de avaliação de tecnologias, não se recomenda tratamento farmacológico aos 50 anos de idade. Aos 60 anos, recomenda-se raloxifeno ou não tratamento, nessa ordem de RCEI. Aos 70, não tratar, alendronato e risedronato, etidronato, raloxifeno e estrogênio. Aos 80 anos, alendronato, risedronato, etidronato, raloxifeno, estrogênio ou não tratamento. Em mulheres com osteoporose sem fraturas prévias, as intervenções custo-efetivas, aos 70 anos, foram raloxifeno ou o não tratamento. Aos 80 anos, alendronato, risedronato, raloxifeno, etidronato e não tratamento.19 Earnashaw et al.28 realizaram um estudo comparando as frequências de administração mensal e semanal de bisfosfonatos para estimar o efeito da adesão ao tratamento na RCE. A administração mensal de medicamentos foi a intervenção mais custo-efetiva, por apresentar maior adesão. Cinco estudos avaliaram o uso da teriparatida. Esse medicamento não foi considerado custo-efetivo em nenhuma das faixas etárias analisadas19,29 em população com e sem fraturas.29 Liu et al.26 relataram que o uso de teriparatida por dois anos não foi uma escolha racional. Com a utilização de teriparatida por dois anos, seguido de alendronato por cinco anos, os custos foram menores e houve maior incremento de AVAQ.26 O uso de alendronato isoladamente ainda apresentou melhor RCEI.26 Somente Lundkvist et al.,18 que compararam a teriparatida a não fazer nada, encontraram que o medicamento é custo-efetivo em populações com fraturas prévias, de 69 anos e densidade mineral óssea (DMO) com T-score −3. Outro estudo comparou a teriparatida com o paratormônio 1–84 (PTH 1–84) e encontrou que a primeira foi mais custo-efetiva que a segunda; a teriparatida também foi mais custo-efetiva que o não tratamento.17 Três estudos avaliaram o uso de terapia hormonal (TH). Todos encontraram boa RCE, mas chamam atenção para o risco aumentado de câncer de mama.20,33,37 Lekander et al.,37 que consideraram resultados do Women’s Health Initiative (WHI), concluíram que a TH é custo-efetiva para pacientes histerectomizadas, independente de presença ou não de fraturas prévias. Para mulheres com útero preservado e sem fraturas Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 prévias, não tratamento farmacológico foi a opção preferida. Todavia, os bisfosfonatos têm mostrado redução similar no risco de fraturas quando comparados com a TH, sem aumentar o risco de eventos adversos, mesmo para as histerectomizadas.37 Quatro avaliações econômicas continham o raloxifeno, e duas o consideraram custo-efetivo: Borgström et al.,38 em pacientes sem fraturas a partir de 60 anos, e Stevenson et al.,19 em pacientes com fraturas prévias a partir dos 60 anos e em pacientes sem fraturas prévias a partir dos 70 anos. Brecht et al.39 e Goeree et al.25 compararam bisfosfonatos com raloxifeno, tendo concluído que os bisfosfonatos foram mais custo-efetivos. Quatro estudos abordavam o ranelato de estrôncio. Em uma análise conduzida em diferentes países, os autores concluíram que o medicamento foi custo-efetivo em mulheres com 70 anos com fraturas prévias, mas não nas sem fraturas, já que ultrapassou o limiar de disponibilidade a pagar em alguns países (superior a 40.000 por AVAQ ganho).40 Hiligsmann et al.41,42 encontraram que o medicamento foi custo-efetivo, comparando-se ao placebo e ao risedronato aos 70, 75 e 80 anos. Em relação à suplementação de cálcio e vitamina D, Rosner et al.16 incluíram em sua avaliação um grupo no qual os pacientes utilizavam cálcio por um período, comparando a outras estratégias terapêuticas. O cálcio não se mostrou custoefetivo devido à alta incidência de fraturas vertebrais nesse grupo. Willis et al.,43 que compararam a estratégia de cálcio associado à vitamina D em pacientes de 70 anos, encontraram que o medicamento é cost saving em relação a não oferecer tratamento farmacológico. Silva33 encontrou essa alternativa com a melhor RCEI dentre as analisadas. Hiligsmann e Reginster44 realizaram uma avaliação de custo-efetividade comparando o denosumabe ao não tratamento farmacológico. Como o medicamento não estava disponível para comercialização à época do estudo, os preços foram baseados no valor comercializado para o risedronato e dois cenários, de −15% e +15%. O denosumabe foi custo-efetivo em todos os cenários, considerando-se uma disponibilidade a pagar de 35.000 por AVAQ ganho. Jönsson et al.45 constataram que, apesar de o denosumabe ter apresentado maior custo de tratamento que as alternativas analisadas, resultou em melhor RCEI devido ao maior número de fraturas evitadas. Os autores consideram este medicamento administrado por via parenteral como uma alternativa ao tratamento farmacológico por via oral, já que a adesão ao tratamento é um dos grandes problemas da efetividade em pacientes com alto risco de fraturas. O denosumabe mostrou-se custo-efetivo em comparação aos bisfosfonatos (alendronato – genérico e de marca – e risedronato) aos 70 anos.46 933 Brandão et al. Dos estudos analisados, 80% declararam existência de conflitos de interesses com a indústria farmacêutica e somente seis não apresentam representantes da indústria entre os autores. Desconto é um método usado para ajustar custos futuros e benefícios a seus valores de mercado atuais. A taxa de desconto é a taxa na qual custos e benefícios futuros são ajustados para refletir seu valor presente. Diferentes taxas de desconto são utilizadas no mundo. As taxas de desconto utilizadas para os custos variaram de 1,5%–6,0% e, nos resultados, de 0,0%−6,0%. As taxas mais utilizadas foram de 3,0% tanto para os custos quanto para os efeitos. DISCUSSÃO Observou-se grande variabilidade metodológica dos estudos de avaliação econômica que abordam a osteoporose na pósmenopausa. E isso ocorreu tanto por questões próprias de cada país, como os fatores demográficos e epidemiológicos, fatores associados a sistemas e serviços de saúde (perspectiva do estudo), referentes aos preços, à valoração dos estados de saúde pela população (utilidade); quanto por fatores inerentes à modelagem econômica, em que foram assumidas diferentes premissas na tentativa de aproximação da realidade. Todos os estudos utilizaram os critérios diagnósticos propostos pela OMS. A maioria dos estudos considerou coortes de mulheres osteoporóticas com e sem fraturas prévias. Lundkvist et al.,18 que compararam a teriparatida com a opção de não oferecer tratamento medicamentoso, consideraram apenas indivíduos com T-score −3. Os resultados foram considerados válidos somente para essa população. A maioria dos estudos que comparou estratégias terapêuticas com não oferecer tratamento medicamentoso encontrou uma RCEI razoável, de acordo com a disponibilidade a pagar de cada país. As intervenções terapêuticas tornaram-se mais custo-efetivas com o aumento da idade, redução da DMO e presença de fraturas prévias. Nesse sentido, observa-se que a combinação de fatores clínicos de risco com a medida da densidade óssea do fêmur, conforme preconizado pelo FRAXTM, é uma estratégia importante para definição dos candidatos ao tratamento.47 Recentemente, foi criado e validado no Brasil um instrumento que pretende prever o risco de fraturas a partir de fatores de risco: The São Paulo Osteoporosis Risk Index (SAPORI). Sua utilização poderá otimizar o início do tratamento farmacológico, além de reduzir custos com o diagnóstico, uma vez que o médico estabelecerá critérios de solicitação do exame de densitometria ao ponderar quantitativamente os fatores clínicos de risco.48 934 Estudo conduzido por entidade espanhola questiona a eficiência na utilização de medicamentos para a prevenção da ocorrência de fraturas. Como as fraturas tendem a acontecer em idades mais avançadas, consideram controverso iniciar uma terapia aos 50 anos para prevenção de eventos que ocorrerão somente na sétima ou oitava década da vida.49 Os bisfosfonatos são os medicamentos mais utilizados para o tratamento da osteoporose e foram as estratégias terapêuticas mais avaliadas. Entretanto, apesar de sua ampla utilização e de as avaliações econômicas demonstrarem que a utilização dessa classe de medicamentos representa estratégia custoefetiva, têm surgido informações sobre os efeitos adversos graves associados ao seu uso, o que levou a Food and Drug Administration (FDA), órgão público dos Estados Unidos, a rever a segurança desses medicamentos. Embora rara, a osteonecrose de mandíbula continua sendo uma das complicações regularmente citadas.50,51 Também têm sido identificadas na literatura complicações oftálmicas e dermatológicas. O FDA emitiu um alerta sobre dor óssea grave, fibrilação atrial e fratura induzida pelos bisfosfonatos (fratura subtrocantérica ou atípica).52 Alguns estudos contemplaram os custos decorrentes das reações adversas mais frequentes no modelo econômico, que são as reações gastrintestinais com os bisfosfonatos. Considerando-se a importância dos novos efeitos adversos citados, novos estudos devem ser conduzidos para avaliar a segurança desses medicamentos. Caso haja importância clínica e aumento significativo nos custos com o manejo das reações, novos estudos de custo-efetividade devem ser conduzidos para avaliar se haverá alteração da direção dos resultados. Os dois estudos que compararam o uso de teriparatida com os bisfosfonatos encontraram que os bisfosfonatos foram mais custo-efetivos.19,29 A teriparatida mostrou-se mais custo-efetiva quando o PTH (1–84)17 e a não oferta de tratamento farmacológico foram utilizados como comparadores.18 Quanto à TH, seu benefício para prevenção e tratamento da perda óssea na pós-menopausa e para alívio dos sintomas vasomotores associadas ao climatério é bem estabelecido.53 Assim, a TH é uma opção atrativa para o tratamento dos sintomas relacionados à pós-menopausa e apresenta boa RCE.20,33,37 Entretanto, devido à capacidade de modular a fisiologia e ao risco de doenças em outros tecidos, sua segurança deve sempre ser cuidadosamente considerada antes da prescrição.54 Apesar da ausência de efeito do raloxifeno na redução das fraturas de quadris e em outras fraturas não vertebrais, este agente tem se mostrado custo-efetivo quando comparado aos pacientes sem tratamento, sem fraturas prévias e a partir de 60 anos.38 Também foi custo-efetivo em pacientes com fraturas prévias a partir dos 60 anos e em pacientes sem fraturas prévias Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática a partir dos 70 anos.19 O medicamento não foi considerado custo-efetivo quando comparado aos bisfosfonatos.23,25 Os resultados favoráveis ao raloxifeno devem-se, em parte, ao perfil de redução do risco de câncer de mama apresentado pelo medicamento e aos comparadores utilizados (pacientes sem tratamento). Quanto ao ranelato de estrôncio, esse agente se mostrou custo-efetivo apenas em algumas faixas: mulheres com 70 anos ou mais e com fraturas prévias.40–42 Avaliações adicionais a respeito desse medicamento são necessárias para analisar os efeitos vasculares e neurológicos, além de diarreia, associados ao seu uso.55 O uso de vitamina D isoladamente não foi custo-efetivo.20 Todavia, Silva33 concluiu ser esta a opção mais custo-efetiva em situações de recursos escassos. Willis et al.43 observaram que seu uso é mais custo-efetivo que não oferecer tratamento farmacológico. O denosumabe é um medicamento novo, e os estudos que o avaliaram encontraram boa RCE.44−46 Todavia, apesar de estudos demonstrarem eficácia desse medicamento no tratamento da osteoporose, atentam para a ocorrência de reações adversas, inclusive na pele, que devem ser mais bem estudadas para se avaliar a segurança do medicamento.56–58 Considerando-se as especificidades do envelhecimento populacional no Brasil, que apresenta expectativa de vida em torno de 76,7 anos,59 menor que em países desenvolvidos, onde geralmente ela é maior que 80 anos, os resultados de avaliações econômicas conduzidas em países desenvolvidos devem ser apreciados com cautela no contexto brasileiro. Além disso, outros fatores, como a presença de conflitos de interesses, pode influenciar os resultados, levando à condução de estudos com desenhos ou interpretação de resultados de forma tendenciosa. No Brasil, somente dois estudos foram realizados. Silva33 apresentou um estudo preliminar de custo-efetividade com o objetivo de suscitar as discussões acerca da disponibilização de estratégias terapêuticas para o tratamento da osteoporose no país. Entretanto, para doenças em que a sequência de eventos após a intervenção é constante ao longo do tempo, é necessário utilizar o modelo de Markov para simulação dos resultados, e não a árvore de decisão, conforme utilizado pelo autor. Araújo et al.36 realizaram um estudo sob a perspectiva do sistema suplementar de saúde, considerando o ácido zoledrônico para a prevenção de fratura proximal do fêmur em faixa etária específica (65 anos). Nesse cenário, o medicamento apresentou-se mais custo-efetivo; entretanto, os resultados não podem ser extrapolados para outros sistemas de saúde (público ou sob a perspectiva social) e essa mesma relação pode não ser válida para as fraturas de quadris, vertebrais ou não vertebrais. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):912-937 No Brasil, a farmacoeconomia é uma área muito recente e essencial para auxiliar nas tomadas de decisão, principalmente no nível das políticas públicas de saúde. Estudos de custoefetividade que abordem a perspectiva do SUS podem ser úteis para a definição da idade em que é mais custo-efetivo iniciar o tratamento e quais estratégias terapêuticas apresentam maior RCEI. Procurando homogeneizar a condução dos estudos de avaliação econômica no Brasil e permitir a comparabilidade entre eles, o Ministério da Saúde elaborou as diretrizes metodológicas para avaliações econômicas, que devem ser seguidas. Ademais, devem-se estabelecer os custos das estratégias terapêuticas adotando essa perspectiva, utilizar um sistema de custo de internações hospitalares decorrentes das fraturas osteoporóticas que permita incluir não só os custos com medicamentos e materiais médico-hospitalares como também os honorários da equipe de saúde e administrativa, depreciação de equipamentos, limpeza, energia elétrica e outros. Reconhecemse as dificuldades da elaboração dos custos, mas também a importância desses estudos para as tomadas de decisão no contexto brasileiro. Os estudos conduzidos em outros países não podem ser extrapolados para a realidade brasileira, tendo em vista as peculiaridades de cada sistema de saúde, a extensão das taxas de desconto utilizadas e aos fatores epidemiológicos e demográficos de cada país. CONCLUSÃO O uso de estudos de avaliação econômica, principalmente estudos de custo-efetividade, tem sido cada vez mais frequente para apoiar a tomada de decisão quanto às políticas de saúde, incorporação de novas tecnologias, implementação de programas preventivos e desenvolvimento de diretrizes assistenciais na área da saúde, inclusive na abordagem da osteoporose. No geral, os bisfosfonatos foram as estratégias mais avaliadas e que resultaram em melhores RCEI. TH, suplementação com vitamina D, ranelato de estrôncio, raloxifeno, teriparatida e denosumabe foram analisados e apresentaram resultados variáveis dependendo da perspectiva, do país e das premissas assumidas para cada estudo. Não foi possível extrapolar nenhum dos resultados para a população brasileira no contexto do SUS, limitando sua utilização pelos tomadores de decisão. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 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Uma série de alterações psicológicas pode estar associada à psoríase, e são comuns os relatos de sentimentos de raiva, depressão, vergonha e ansiedade, culminando no isolamento social e, possivelmente, na disfunção sexual. Apesar de a disfunção sexual ser uma queixa comum, são poucos os dados encontrados a respeito na literatura. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão sistemática da prevalência da disfunção sexual na psoríase e na artrite psoriásica, avaliando a participação de fatores como depressão e extensão da doença nessa relação. O resultado da revisão sistemática sobre o assunto aponta que os dados a respeito das dificuldades sexuais nos pacientes com psoríase são limitados. As hipóteses aventadas para explicar a ocorrência de disfunção sexual nesse grupo de pacientes incluem a extensão do quadro cutâneo, os efeitos psicológicos da condição no paciente, a preocupação do parceiro e os efeitos colaterais relacionados aos tratamentos médicos para a psoríase. Os dados apresentados enfatizam a negligência frequente dada a este tipo de sintomatologia na prática médica e ressaltam a importância da avaliação do impacto da psoríase não apenas em relação ao acometimento cutâneo e articular, mas também psicossocial e sexual. Face às diversidades socioculturais de cada população, sugere-se a necessidade de um estudo específico na população brasileira a fim de fornecer maiores informações sobre nossos pacientes. Palavras-chave: psoríase, artrite psoriásica, gênero, sexualidade. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A psoríase é uma doença inflamatória, cutaneoarticular, crônica e recidivante, decorrente de alterações imunológicas e proliferativas da pele e, por vezes, de mucosas. A incidência mundial estimada é de 1%–3%.1−3 Em 5%−42% desses pacientes o quadro cutâneo está associado a artrite inflamatória, geralmente com fator reumatoide negativo, quadro denominado artrite psoriásica.4,5 O estresse tende a ser um fator desencadeante ou de agravamento na psoríase. Além disso, a própria doença pode gerar estresse emocional, pelo constrangimento das lesões.6 Uma série de alterações psicológicas pode estar associada à psoríase, e são comuns os relatos de sentimentos de raiva, depressão, vergonha e ansiedade, culminando no isolamento social e em consumo maior de álcool e fumo.7−11 A sexualidade, conforme definição da Organização Mundial de Saúde, é “uma necessidade básica e um aspecto do ser humano que não pode ser separado dos outros”,12 com grande importância na manutenção de uma boa saúde mental. O impacto da psoríase na função sexual é importante, pois causa intenso desgaste pessoal, prejudicando a qualidade de vida. Na literatura, podem ser encontrados relatos de impotência sexual e disfunção erétil decorrentes de terapêuticas medicamentosas para a doença, como o uso de etretinato e metotrexato.13−15 Entretanto, são poucos os estudos que relacionam a disfunção sexual diretamente à psoríase.16,17 Recebido em 03/11/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Serviço de Reumatologia, Hospital Universitário de Brasília, Universidade de Brasília – HUB-UnB. 1. Médica Dermatologista; Aluna do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas, Faculdade de Medicina, Universidade de Brasília – FMUnB 2. Doutora em Ciências Médicas, FMUnB; Orientadora do Programa de Pós-graduação em Ciências Médicas, FMUnB Correspondência para: Licia Maria Henrique da Mota. Centro Médico de Brasília. SHLS 716/916 Bloco E salas 501-502 − Asa Sul. CEP: 70390-904. Brasília, DF, Brasil. E-mail: [email protected] Rev Bras Reumatol 2012;52(6):938-948 943 Kurizky et al. As revisões sistemáticas de estudos de prevalência são importantes por fornecerem informações úteis tanto à prática médica quanto aos projetos de pesquisa. Uma visão aprofundada sobre o desenho e a metodologia aplicados na obtenção dos dados disponíveis é fundamental para o planejamento de futuros estudos. O objetivo deste estudo foi realizar uma revisão sistemática dos estudos sobre a disfunção sexual nos pacientes com psoríase e artrite psoriásica, avaliando aspectos comumente apontados como associados – entre eles, alterações psicológicas e extensão da doença. MÉTODOS No período de agosto a outubro de 2011, foram realizadas buscas nas seguintes bases de dados: Medline (1966−2011), Biblioteca Cochrane, LILACS, PubMed (1991−2011) e Scopus, nos idiomas português, inglês, francês e espanhol. As palavras-chave utilizadas foram “psoriasis”, “sexual dysfunction” e “psoriatic arthritis”. Foram incluídos estudos transversais observacionais, coortes prospectivas, estudos randomizados controlados e estudos do tipo caso e controle, que abordassem a função sexual nos pacientes com psoríase e/ou artrite psoriásica. O título e o resumo dos artigos obtidos na pesquisa inicial foram revisados por dois observadores independentes a fim de se identificar aqueles relevantes. Uma revisão da versão integral foi realizada em todos os artigos que preenchiam os critérios de inclusão, e as referências bibliográficas desses artigos foram analisadas a fim de se destacar fontes adicionais. Foram considerados para os fins do estudo os artigos selecionados após concordância dos dois observadores. Dos estudos selecionados, foram observados os seguintes dados: tipo de estudo, tamanho da amostra, instrumentos utilizados, análise estatística e resultados. RESULTADOS Dos artigos identificados nas bases de dados citadas, apenas 14 relacionavam-se diretamente com o tema pesquisado. Desses, sete foram excluídos por serem relatos de caso ou artigos de revisão. Além dos sete artigos restantes, um foi identificado a partir da análise das referências bibliográficas, totalizando oito artigos selecionados para os fins desse estudo. Dos artigos selecionados, três eram do tipo caso e controle e cinco eram estudos transversais observacionais; não foram encontrados estudos randomizados controlados nem coortes prospectivas. Em relação aos três estudos de casos e controles, 944 dois incluíram homens e mulheres com psoríase comparados a sujeitos sadios,18,19 e um foi realizado apenas em homens com psoríase comparados a grupos masculinos com outras doenças dermatológicas.20 Todos os estudos observacionais incluíram pacientes de ambos os gêneros. A Tabela 1 descreve os tipos de estudos e as amostras analisadas. No total, 4.039 pacientes com psoríase foram analisados, dos quais 2.567 homens (63,55%) e 1.472 mulheres (36,45%). A idade dos pacientes com psoríase variou entre 23 e 62 anos. A Tabela 2 apresenta as características epidemiológicas das amostras de cada estudo. A gravidade da psoríase foi avaliada por dermatologistas a partir do Psoriasis Area and Severity Index (PASI) em três estudos19,21,22 e pelo Total Body Surface Area (BSA) em um estudo,23 e pelo próprio paciente por meio do Self-Administered Psoriasis Area and Severity Index (SAPASI) em dois estudos.2,24 Dois estudos não avaliaram o grau de extensão da psoríase.18,20 A presença de lesões na área genital2,20,23,24 e o acometimento articular2,22−24 foram registrados em quatro estudos. Em todos os estudos os pacientes foram avaliados quanto à função sexual a partir de questionários autoaplicáveis, e alguns estudos também avaliaram aspectos psicológicos e qualidade de vida. Dentre os questionários utilizados para avaliação da função sexual, os mais usados foram: o item 9 do Dermatology Life Quality Index (DLQI) (“Over the last week, how much has your skin caused any sexual difficulties − not at all, a little, a lot, very much”),2,19,22,24 o International Index of Erectile Function (IIEF)19,20,24 e o Female Sexual Function Index (FSFI).19,24 Gupta et al.23 utilizaram questionário de elaboração própria, e Ermertcan et al.19 montaram um questionário baseado nas perguntas de caráter sexual de vários questionários de qualidade de vida (Skindex-29, DLQI, Psoriasis Disability Index – PDI e Impact of Psoriasis on Quality of Life Questionnaire − IPSO). A Tabela 3 mostra os instrumentos usados por cada autor. Qualidade de vida, depressão e função sexual No estudo de Mercan et al.,18 a disfunção sexual foi mais comum no grupo com psoríase que no grupo-controle, havendo diferença estatisticamente significativa (P < 0,05) entre o escore total e o subescore da experiência orgásmica do ASEX. Dez pacientes do grupo com psoríase apresentaram escore de BDI > 17, sendo considerados clinicamente depressivos. Quando excluídos esses pacientes, a análise ANOVA e o teste de Tuckey nos dois grupos revelaram resultados semelhantes no escore de ASEX. Al-Mazeedi et al.21 observaram alterações psicológicas mais prevalentes no grupo de psoríase grave. Em relação à atividade sexual, ela esteve afetada em 31,6% dos pacientes. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):938-948 Disfunção sexual em pacientes com psoríase e artrite psoriásica − uma revisão sistemática Tabela 1 Tipos de estudos e amostras analisadas Autor Publicação Desenho do estudo Pacientes Controles Mercan 2008 Caso e controle 24 33 Al-Mazeedi21 2006 Observacional 330 — Meeuwis 2011 Observacional 487 — Sampogna2 2006 Observacional 936 — Ermertcan 2006 Caso e controle 78 58 Gupta23 1997 Observacional 120 — 20 2011 Caso e controle 92 130 22 2011 Observacional 1996 — 18 24 19 Goulding Guenther Apresentaram disfunção 38,9% dos pacientes com psoríase grave, 29,7% dos com psoríase moderada e 30,8% dos com psoríase leve. Entretanto, a diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa. O estudo de Meeuwis et al.24 concentrou-se principalmente na presença de psoríase genital. A média do escore total do DLQI foi 6,6 ± 5,5. Os pacientes com lesões genitais apresentaram escores piores que os pacientes sem lesões genitais, em especial no item referente à vida sexual. Os homens com psoríase apresentaram SQoL-M (Sexual Quality of Life Questionnaire for Men) de 77,2 ± 24,1 (o índice varia de 0−100; quanto maior o escore, melhor a qualidade de Tabela 2 Características epidemiológicas das amostras estudadas Autor Psoríase - número Controle - número Psoríase - idade Homem Homem Homem Mulher Mulher Controle – idade Mulher Homem Mercan18 Não define quantidade por gênero 37,29 ± 11,27 Al-Mazeedi21 169 161 — 32−35 — Meeuwis24 278 209 — 53,9 ± 12,3 — Sampogna2 555 381 — Ermertcan19 39 39 31 Gupta23 63 57 — 92 — 130 1371 625 — Gouldin20 22 Guenther 45,7 27 22,33−59,31 — 23,21−49,44 46,8 ± 15,7 — 46,7 ± 13,1 Mulher 36,09 ± 7,97 41,77 ± 9,60 39,89 ± 9,06 — — 46 52,7 ± 17,2 — — Tabela 3 Questionários e índices usados em cada estudo Autor Instrumento Conteúdo Mercan18 ASEX BDI Função sexual Depressão Al-Mazeedi21 DQoLS Atividades, relações sociais, aspectos psicológicos e atividade sexual Meeuwis24 DLQI SQoL-M IIEF FSDS FSFI Qualidade de vida Qualidade vida sexual masculina Função sexual masculina Estresse sexual feminino Função sexual feminina Sampogna2 Questionário próprio (Skindex, DLQI, PDI, IPSO) GHQ-12 Função sexual Alterações psicológicas Ermertcan DSM-IV DLQI FSFI IIEF Alterações psicológicas Qualidade de vida Função sexual feminina Função sexual masculina Gupta23 Questionário próprio Função sexual, aspectos psicológicos e gravidade da doença Goulding20 IIEF DLQI Função sexual masculina Qualidade de vida Guenther22 Item 9 DLQI Função sexual 19 ASEX: Arizona Sexual Experience Scale; BDI: Beck Depression Inventory; DQoLS: Dermatology Quality of Life Scale; DLQI: Dermatology Life Quality Index; SQoL-M: Sexual Quality of Life Questionnaire for Men; IIEF: International Index of Erectile Function; FSDS: Female Sexual Distress Scale; FSFI: Female Sexual Function Index; PDI: Psoriasis Disability Index; IPSO: Impact of Psoriasis on Quality of Life Questionnaire; GHQ-12: General Health Questionnaire. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):938-948 945 Kurizky et al. vida sexual) e IIEF de 55,7 ± 17,2 (o índice varia de 5−75; quanto maior, melhor a função sexual), sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos com e sem lesão genital. Em relação às mulheres, 37,7% apresentaram FSDS (Female Sexual Distress Scale) > 15, mostrando alteração da vida sexual. A média do escore das mulheres com lesão genital foi significativamente mais alta que nas mulheres sem lesão genital. Em relação ao FSFI, 48,7% das mulheres apresentaram índice < 26, denotando disfunção sexual. Essa alteração apresentou-se igualmente distribuída entre as mulheres com e sem lesão genital. Sampogna et al.2 observaram que entre seus pacientes, 48,2% podiam ser caracterizados como casos com distúrbios psicológicos menores (depressão e ansiedade). A prevalência da disfunção sexual variou de acordo com a pergunta analisada, entre 35,5% na pergunta retirada do PDI a 71,3% da extraída do IPSO. A prevalência foi maior nos pacientes com artrite psoriásica, com alterações psicológicas e com escores de SAPASI > 20 em todas as perguntas. Em relação à pergunta do IPSO, a prevalência da disfunção sexual foi observada mais nas mulheres. No estudo de Ermertcan et al.,19 os pacientes foram divididos em seis grupos: controle sadios, psoríase sem depressão e psoríase com depressão, tanto femininos quanto masculinos. A média do PASI nas mulheres sem depressão foi 6,53 ± 4,25, e nas que apresentavam depressão, de 6,54 ± 6,96. O DLQI mostrou piora da qualidade de vida mais significativa no grupo com depressão quando comparado com o grupo sem depressão. O escore total do FSFI mostrou disfunção sexual significativa nos grupos com psoríase com e sem depressão quando comparados com o grupo-controle. Entretanto, não houve diferença estatisticamente significativa entre os dois grupos com psoríase. Avaliando-se os domínios separadamente, os escores de todos os domínios, exceto lubrificação e dor, estiveram significativamente piores nos grupos com psoríase. Houve correlação negativa entre o escore do FSFI e DLQI, mas o PASI não mostrou correlação. Nos grupos masculinos, a média do PASI foi de 9,27 ± 6,03 nos com psoríase pura e 7,31 ± 4,51 nos com psoríase e depressão. O escore DLQI total apresentou-se significativamente mais alto nos pacientes com psoríase e depressão quando comparado com o grupo sem depressão, caracterizando pior qualidade de vida. O escore total do IIEF mostrou disfunção significativa nos grupos com psoríase quando comparados com o controle, não havendo também diferença entre os dois grupos com psoríase. Em relação à avaliação individual dos domínios, a satisfação com a relação sexual esteve significativamente baixa nos pacientes com psoríase; os outros domínios mostraram-se 946 mais baixos também, porém sem diferença estatisticamente considerável. O escore total do IIEF não mostrou correlação com o PASI e o DLQI. Gupta et al.23 relataram que 49 dos 120 pacientes estudados (40,8%) afirmaram ter um declínio da atividade sexual após o início da psoríase. No grupo com alteração da função sexual, 77% dos pacientes apresentavam dor articular, em comparação com 54% dos do grupo sem alteração da função sexual. O grupo afetado também apresentou significativamente mais depressão e maior tendência ao consumo de álcool. O declínio da atividade sexual foi associado com o efeito da psoríase em sua aparência por 60% dos pacientes, contra 14,9% que atribuíram ao desinteresse do parceiro. O estudo de Goulding et al.20 concentrou-se principalmente na presença de disfunção erétil. A média do escore do DLQI foi significativamente mais elevada no grupo com psoríase. Dos 92 indivíduos, 53 (58%) obtiveram um escore de IIEF ≤ 21, indicando disfunção erétil, o que ocorreu em 64 dos 120 controles (49%), não apresentando diferença estatisticamente significativa. Guenther et al.22 avaliaram 1.996 pacientes quanto ao tratamento com ustekinumabe. Antes do tratamento, 22,6% dos pacientes apresentavam disfunção sexual, avaliada a partir do item 9 do DLQI. A disfunção foi mais observada nas mulheres (27,1%) que nos homens (20,8%). A proporção dos pacientes com disfunção sexual correlacionou-se diretamente com o PASI. DISCUSSÃO Os dados a respeito das dificuldades sexuais nos pacientes com psoríase são limitados. As hipóteses aventadas para explicar a ocorrência de disfunção sexual nesse grupo de pacientes incluem a extensão do quadro cutâneo, efeitos psicológicos da condição no paciente, preocupação do parceiro e efeitos colaterais relacionados aos tratamentos médicos para a psoríase.22 Vários estudos associaram a psoríase à morbidade psicológica, especialmente depressão e ansiedade.10,25,26 Alguns autores sugerem que níveis elevados de citocinas pró-inflamatórias, especificamente fator de necrose tumoral alfa e interleucina 1, envolvidos na patogênese da psoríase, estão ligados à depressão.27 Essas alterações psicológicas foram mais prevalentes nos pacientes com psoríase em quatro dos estudos analisados,. Correlação positiva entre disfunção sexual e depressão foi observada nos estudos de Mercan et al.,18 Sampogna et al.2 e Gupta et al.23 Entretanto, mesmo no estudo de Mercan et al.,18 observou-se que os pacientes com psoríase apresentavam mais desordens sexuais relacionadas ao orgasmo que propriamente Rev Bras Reumatol 2012;52(6):938-948 Disfunção sexual em pacientes com psoríase e artrite psoriásica − uma revisão sistemática de desejo sexual. Como os distúrbios sexuais na depressão afetam tipicamente o desejo e a vontade, mais que o orgasmo, os autores sugerem que a disfunção sexual na psoríase possa estar relacionada a outras razões, que não a depressão. Ermertcan et al.,19 comparando grupos de indivíduos sadios e de portadores de psoríase com depressão e sem depressão, não apontaram correlação entre problemas psicológicos e a presença de disfunção sexual. Em relação ao quadro clínico, a forma grave/moderada esteve mais associada à disfunção sexual em dois estudos,2,22 porém dois outros não mostraram diferença estatisticamente significativa.19,21 A presença de artrite psoriásica também esteve relacionada em dois estudos.2,23 A presença de lesão genital teve impacto na qualidade de vida, porém não mostrou correlação com a função sexual,2,19,20 com exceção do estudo de Meeuwis et al.24 No estudo em questão, mulheres com psoríase genital apresentavam piora da função sexual; entretanto, o mesmo não ocorreu no grupo masculino. Os autores sugerem que provavelmente não é a presença da lesão genital em si que provoca o declínio da função sexual, e sim a experiência subjetiva do paciente. Todos os estudos mostraram piora da função sexual nos pacientes com psoríase, exceto o apresentado por Goulding et al.20 Uma explicação para esse resultado pode ser o fato de os autores utilizarem como grupo-controle portadores de outras doenças dermatológicas, incluindo, entretanto, quadros que muitas vezes podem ser extensos, com limitações estéticas e físicas semelhantes à psoríase, como eczema atópico e lúpus eritematoso. Os próprios autores relatam alta prevalência de disfunção erétil na amostra total estudada (50%), que corresponderia à população com doenças dermatológicas. Além disso, a disfunção sexual já foi correlacionada com outros quadros cutâneos, como doenças sexualmente transmissíveis,28,29 vitiligo,30,31 urticária crônica31 e neurodermatite.18,28 Finalmente, é importante salientar o resultado apresentado por Meeuwis et al.,24 em que apenas 9% dos pacientes estavam satisfeitos com a atenção dada ao aspecto sexual durante suas consultas, enquanto 43% a consideraram insuficiente. Os dados apresentados enfatizam a negligência frequente dada a esse tipo de sintomatologia na prática médica32 e ressaltam a importância da avaliação do impacto da psoríase não apenas em relação ao acometimento cutâneo e articular, mas também psicossocial e sexual. Durante a revisão, a associação do termo “Brazil” na pesquisa às bases de dados não identificou nenhum artigo. Face às diversidades socioculturais de cada população, esse dado mostra a necessidade de um estudo específico na população brasileira a fim de fornecer maiores informações sobre nossos pacientes. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):938-948 REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. 16. 17. 18. Myers WA, Gottlieb AB, Mease P. Psoriasis and psoriatic arthritis: clinical features and disease mechanisms. Clin Dermatol 2006; 24(5):438−47. Sampogna F, Gisondi P, Tabolli S, Abeni D; IDI Multipurpose Psoriasis Research on Vital Experiences investigators. Impairment of sexual life in patients with psoriasis. Dermatology 2007; 214(2):144−50. Langham S, Langham J, Goertz HP, Ratcliffe M. Large-scale, prospective, observational studies in patients with psoriasis and psoriatic arthritis: a systematic and critical view. BMC Med Res Methodol 2011; 11:32. Chandran V, Chentag CT, Gladman DD. Sensitivity of the classification of psoriatic arthritis criteria in early psoriatic arthritis. Arthritis Rheum 2007; 57(8):1560−3. Kleinert S, Feuchtenberger M, Kneitz C, Tony HP. Psoriatic arthritis: clinical spectrum and diagnostic procedures. Clin Dermatol 2007; 25(6):519−23. 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Essa correlação clínico-sorológica, associada à insuficiência de casos de concomitância de autoanticorpos, originou o paradigma histórico de que seriam mutuamente excludentes. Porém, pode-se questionar essa tese. Poderia a multiplicidade de autoanticorpos significar a coexistência de duas patologias distintas? Por outro lado, se assumidos como anticorpos específicos de uma doença única, essa multiplicidade seria um evento aleatório ou representaria um subgrupo distinto de pacientes, com características clínicas, patogênicas e imunogenéticas próprias? A prevalência de autoanticorpos na ES precoce é elevada. Entretanto, a duplicidade do anticorpo anticentrômero (AAC) e do anticorpo antitopoisomerase 1 (AAT) é um evento raro. Já a coexistência de AAC, AAT e anticorpo anti-RNA polimerase (anti-RNA-P) III ainda não foi descrita em um paciente isolado. Neste relato, com positividade para AAC, AAT e anti-RNA-P III, notamos manifestações vasculares precoces e posterior comprometimento cutâneo limitado. Este parece ser o primeiro relato de concomitância de três autoanticorpos específicos em um paciente com ES. Acreditamos que essa coexistência representa um subgrupo sorológico raro de uma única doença, com possível valor clínico e prognóstico – porém, ainda há necessidade de confirmação. Palavras-chave: esclerodermia sistêmica, DNA topoisomerases, RNA polimerase III. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO A primeira descrição da dualidade de autoanticorpos na esclerose sistêmica (ES) – anticorpo anticentrômero (AAC) e anticorpo antitopoisomerase 1 (AAT) – data de 1985,1 e seu significado ainda precisa ser elucidado. Este fato pode ser explicado pela raridade da descrição desse fenômeno na literatura, com prevalência de 0,05%–5,6%,2 com variações significativas de acordo com os métodos de detecção utilizados (imunofluorescência indireta, imunodifusão, ELISA ou imunotransferência). Há também concomitância desses autoanticorpos com os anticorpos anti-RNA polimerase (anti-RNA-P) I, II e III, anti-Ro, anti-La, anti-Jo, anti-U3-RNP, anti-Th-RNP, anti-Pm-Scl, anti-Ku,3 antihistona e anticorpos antimitocondriais.2 Embora não esteja comprovado, existem dados clínicos que respaldam o entendimento geral de que o perfil autoimune individual correlaciona-se com as manifestações clínicas da ES.2–4 Na prática clínica, esse conceito induz ao monitoramento distinto do paciente em cada subgrupo da doença.5 Essa correlação clínica e laboratorial e a insuficiência de casos com concomitância de autoanticorpos originou o paradigma histórico de que seriam mutuamente excludentes. Não obstante, tal hipótese pode ser questionada, bem como a ideia de a coexistência ser explicada simplesmente de forma casual. RELATO DE CASO Mulher, de 38 anos, apresentava sintomas de artralgias associados ao fenômeno de Raynaud ao longo dos últimos três anos. A paciente não apresentava artrite, rigidez matinal, fotossensibilidade, xeroftalmia, disfagia, queixas urinárias, febre ou perda de peso, embora apresentasse evidência de Recebido em 25/01/2011. Aprovado em 05/09/2012. ESP declara ter recebido honorários por apresentação, conferência ou palestra. Os demais autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Hospital das Clínicas, Universidade Federal do Paraná – HC-UFPR. 1. Residente em Clínica Médica, , Hospital de Clínicas, Universidade Federal do Paraná – HC-UFPR 2. Especialização em Clínica Médica, HC-UFPR 3. Professor da Disciplina de Reumatologia, HC-UFPR 4. Professora voluntária da Disciplina de Reumatologia, HC-UFPR Correspondência para: Scheila Fritsch. Departamento de Clínica Médica, Hospital de Clínicas, Universidade Federal do Paraná. Rua General Carneiro, 180, 10o andar. CEP: 80060-900. Curitiba, PR, Brasil. E-mail: [email protected] 952 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):949-955 Concomitância de autoanticorpos na esclerose sistêmica: como interpretar? retardo no esvaziamento esofágico. Não havia espessamento cutâneo, sinovite ou úlceras digitais. Os testes laboratoriais foram normais, exceto pelo hipotireoidismo, com anticorpo antitireoglobulina positivo. As sorologias para sífilis, hepatite, HIV, HTLV e doença de Chagas foram negativas. Os anticorpos antinucleares (ANA) mostraram padrão anticentrômero (título de 1:10240, método de imunofluorescência indireta – Hep-2). Anti-Sm, anti-DNA, anti-La e AAT foram negativos, mas o anti-Ro foi positivo (48 U/mL, valor de referência < 10). Após um ano, a paciente apresentou esclerodactilia, quando foi então feito o diagnóstico de ES. Durante o curso da doença, outros autoanticorpos tornaram-se positivos, tais como anti-RNP, 58 U/mL (valor de referência < 10); anti-La, 41 U/mL (valor de referência < 10); AAT, 21,6 U (valor de referência < 20); e anti-RNA-P III, 22,9 (valor de referência < 20). Todos eles foram testados pela prova de imunoabsorção enzimática (ELISA). DISCUSSÃO A prevalência de autoanticorpos na ES é elevada (de 75%6 a 95%,7), e sua presença precede as manifestações clínicas em muitos casos.8 Por outro lado, a prevalência da duplicidade AAC + AAT é raramente relatada, variando de 0,05% a 5,6%.2 Esses achados, associados com a correlação entre autoanticorpos, alelos do sistema HLA e perfil de comprometimento clínico, levaram ao conceito histórico de que seriam mutuamente excludentes e de que o curso dos títulos dos autoanticorpos era constante ao longo do tempo, o que foi baseado, provavelmente, em técnicas insensíveis de análise.8 A técnica de imunotransferência parece melhorar a sensibilidade de detecção do AAC, quando comparada com a técnica da imunofluorescência isoladamente.9 Os relatos de concomitância de autoanticorpos fortalecem a necessidade de reavaliar esse paradigma. Há também a descrição da associação do AAT com o anti-RNA-P II.3 Todavia, a triplicidade (AAT + AAC + anti-RNA-P III) ainda não foi descrita na literatura. No contexto da ES, a associação clínica e sorológica do AAC, AAT e anti-RNA-P III é sugerida.4 Na teoria, não há dados para comprovar uma relação de causa e efeito entre o perfil sorológico e manifestações clínicas da doença. Deve-se considerar a ativação policlonal, com consequente hipergamaglobulinemia, além dos processos patológicos concomitantes da ES, tais como câncer.10 Além disso, técnicas diferentes para detectar ou quantificar os autoanticorpos apresentam sensibilidade e especificidade distintas, conforme descrito anteriormente, e que podem levar a falsos resultados. Finalmente, uma vez que essa doença apresenta muitas manifestações clínicas e cada uma representa uma combinação de fatores genéticos e ambientais, torna-se arriscado, ou talvez impossível, atribuir um papel tão grande ao perfil sorológico. Por outro lado, existem dados epidemiológicos que sugerem uma correlação entre o status sorológico e as características clínicas, conforme descrito na Tabela 1.2–4,6 Tendo em vista que o monitoramento e o tratamento dos pacientes apresentam abordagens diferentes dependendo do seu perfil autoimune, como proceder no grupo com múltiplos autoanticorpos específicos? No contexto da concomitância de AAC e AAT, tanto em pacientes acometidos com a forma limitada ou difusa da doença, Kikuchi et al.1 observaram a predominância do fenômeno de Raynaud (95% dos pacientes), além da disfunção esofágica e da frequência mais baixa de esclerodactilia, calcinose e fibrose pulmonar. Segundo os autores, esse achado poderia indicar um efeito supressivo recíproco desses produtos do sistema imune. Jarzabeck-Chorzelski et al.,9 usando três técnicas para a detecção do autoanticorpo (imunofluorescência, imunotransferência e dupla imunodifusão), obtiveram a mais alta prevalência da duplicidade do AAC e do AAT relatada até o momento (5,6%), com um pronunciado comprometimento vascular – telangiectasia e fenômeno de Raynaud –, bem como esclerodactilia, calcinose e comprometimento visceral (nove de dez pacientes). Com base nesses dados, foi sugerido que o resultado positivo do AAC e do AAT poderia indicar uma variante incompleta da síndrome de CREST.1 A presença do Tabela 1 Anticentrômero Antitopoisomerase Anti-RNA polimerase (I, II, III) Manifestações clínicas Comprometimento cutâneo limitado Calcinose Úlceras digitais Hipertensão arterial pulmonar Esclerose difusa da pele Comprometimento do parênquima pulmonar Lesão vascular renal Miosite/miocardite Comprometimento difuso e grave da pele Lesão vascular renal (50% dos pacientes com esclerodermia, crise renal) Prevalência 50%–90% dos pacientes CREST 40%–90% dos pacientes com ES difusa Pior prognóstico Baixa prevalência (21,9%), porém altamente específica CREST: calcinose, síndrome de Raynaud, baixa motilidade esofagiana, esclerodactilia, telangiectasia; ES: esclerose sistêmica. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):949-955 953 Fritsch et al. anti-RNA-P II não define um subtipo clínico diferente nos pacientes portadores do AAT.6 Este trabalho acrescenta à discussão o caso de uma paciente com ES que apresenta simultaneamente três autoanticorpos específicos da doença (AAC, AAT e anti-RNA-P III). Não há descrição na literatura de um caso similar. Portanto, é plenamente justificável que a validade deste achado deva ser cuidadosamente considerada. Nesse sentido, é importante notar que os valores inferiores (próximos aos pontos de corte) para os anticorpos AAT e anti-RNA-P III foram encontrados por ELISA, de sensibilidade mais elevada, porém com baixa especificidade. A maioria dos kits ELISA expressa os resultados dos anticorpos como positivos, indeterminados ou negativos; alguns kits trazem esses resultados como positivos, fracamente positivos ou negativos. Portanto, devemos ter em mente que os resultados “fracamente positivos” encontrados neste trabalho, especialmente para os anticorpos AAT e anti-RNA-P III, poderiam ser expressos como “indeterminados”. Com tal resultado, apresentado nesses termos, certamente estamos menos propensos ao erro, tendo em vista que não vamos considerá-lo como um achado definitivamente positivo. Uma vez feitas essas considerações, acreditamos que a questão dos autoanticorpos na ES, como em muitas outras doenças autoimunes, não está concluída, mas, em vez disso, está se tornando mais pungente, propiciando um debate interessante. Em nosso caso, no qual havia coexistência de AAC, AAT e anti-RNA-P III, houve um comprometimento vascular precoce (Raynaud) e subsequente patologia cutânea limitada (esclerodactilia). Contudo, não devemos tirar conclusões sobre a ausência de maior gravidade, considerando que um caso isolado não é suficiente para prever o perfil clínico de um grupo de pacientes. Todos esses achados enfatizam a participação do sistema imune na patogênese da ES. Vários mecanismos foram propostos. Os exemplos incluem a liberação da enzima topoisomerase-1, durante a apoptose da célula endotelial, com sua ligação à superfície dos fibroblastos e posteriormente aos autoanticorpos.8 Além disso, Casciola-Rosen11 sugeriu que a fragmentação/fosforilação do RNA-P e da topoisomerase-1, durante a apoptose, leve à exposição de epítopos previamente ocultos do sistema imune. A partir da apresentação desses neoepítopos, a tolerância dos linfócitos seria perdida. Esta apresentação requer as moléculas do MHC, o que explica a associação sugerida entre os autoanticorpos e os alelos HLA: AAC com DR1, 4 e 8; e AAT com DR11.2 Contudo, na ausência de associações absolutas entre a manifestação da ES e dos epítopos HLA, além da inexistência de um 954 epítopo definitivamente culpado, seria possível que vários mecanismos distintos contribuíssem para processos patológicos similares, os quais, por sua vez, poderiam expressar espectros clínicos diferentes – a assim chamada “teoria da etiologia múltipla”.6 Por outro lado, a multiplicidade de autoanticorpos poderia significar a existência de doenças diferentes (a ES como uma composição de entidades clínicas independentes). Dick et al.2 relataram três casos de pacientes com resultados positivos para AAC + AAT que apresentaram alelos HLA-específicos para cada um dos autoanticorpos. Com base nessa observação imunogenética, eles sugeriram que a duplicidade ocorre de forma independente. Além disso, os mesmos autores demonstraram a flutuação oposta das concentrações de autoanticorpos ao longo do tempo, corroborando a hipótese da independência. Harvey et al.3 também defendem o conceito de que diferentes subgrupos sorológicos (AAC, AAT e anti-RNA-P I) representam, na realidade, três patologias distintas com base na análise dos alelos HLA. Em contraste, as associações entre os alelos do classe II e os subgrupos sorológicos na ES não são sólidas o bastante para comprovar esta teoria.5,12 Em vez de ocorrer juntos por acaso ou como patologias distintas, os autoanticorpos distintos poderiam representar uma única doença com suas próprias características imunogenéticas, clínicas e fisiopatológicas. Kikuchi et al.1 consideram que os autoanticorpos não coexistem por acaso, baseados na observação de que a prevalência da simultaneidade AAT + AAC é menor que a probabilidade esperada para que eles ocorram juntos aleatoriamente. Além disso, a flutuação oposta encontrada em pacientes com duplicidade poderia refletir a atividade da mesma doença autoimune em polos diferentes. Se houver espectros sorológicos distintos ao longo do tempo, poderia ser útil medir os títulos dos autoanticorpos durante o curso da doença, a fim de prever a evolução clínica. Em nosso caso, o resultado positivo do AAT, um ano após um diagnóstico de ES limitada, enfatiza essa abordagem e poderia alterar o comprometimento dos órgãos internos e da pele, além do prognóstico global do paciente, embora isso ainda deva ser comprovado. Este relato demonstra, pela primeira vez, a coexistência de três autoanticorpos específicos na ES, além da autoimunidade tireoidiana. Defendemos a ideia de que essa triplicidade indica um raro subgrupo sorológico de uma única doença (isto é, não ocorre por acaso), com implicações prognósticas e clínicas, porém ainda não comprovadas. Além disso, acreditamos que a prevalência da multiplicidade de autoanticorpos positivos na ES deve ser reavaliada. Isso poderia ser alcançado por meio de técnicas mais sensíveis, já disponíveis, e pelo monitoramento Rev Bras Reumatol 2012;52(6):949-955 Concomitância de autoanticorpos na esclerose sistêmica: como interpretar? dos títulos dos autoanticorpos durante o curso da doença, aumentando assim a probabilidade de detecção de tal evento. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. Kikuchi M, Inagaki T. Bibliographical study of the concurrente existence of anticentromere and antitopoisomerase I antibodies. Clin Rheumatol 2000; (19):435–41. Dick T, Mierau R, Bartz-Bazzanella P, Alavi M, StoyanovaScholz M, Kindler J et al. Coexistence of antitopoisomerase I and anticentromere antibodies in patients with systemic sclerosis. Ann Rheum Dis 2002; 61(2):121–7. Harvey GR, Butts S, Rands AL, Patel Y, McHugh NJ. Clinical and serological associations with anti-RNA polymerase antibodies in SS. 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Airo’P, Ceribelli A, Cavazzana I, Taraborelli M, Zingarelli S, Franceschini F. Malignancies in Italian Patients with Systemic Sclerosis Positive for Anti-RNA Polymerase III Antibodies. J Rheumatol 2011; 38(7):1329–34. 11. Rosen A, Casciola-Rosen L, Wigley F. Role of metal-catalyzed oxidation reactions in the early pathogenesis of scleroderma. Curr Opin Rheumatol 1997; 9(6):538–43. 12. Fanning GC, Welsh KI, Bunn C, Bois RD, Black CM. HLA association in three mutually exclusive autoantibodies subgroups in UK systemic sclerosis patients. Br J Rheumatol 1998; 37(2):201–7. 955 RELATO DE CASO Enteropatia perdedora de proteínas no lúpus eritematoso sistêmico: relato de caso Fernando Moreira Batista Aguiar1, Zilaís Linhares Carneiro Menescal1, Débora Maia da Costa2, José Walter Correia3, José Gerardo Araújo Paiva4, Júlio Marcus Sousa Correia5 RESUMO A enteropatia perdedora de proteínas raramente pode ser observada em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico. Essa situação clínica deve ser suspeitada quando houver hipoalbuminemia persistente, na presença de uma função hepática preservada, ingesta proteica adequada e ausência de proteinúria significativa. Descrevemos o caso de uma paciente de 48 anos com perda ponderal, derrames cavitários (ascite e derrame pleural) e edema de membros inferiores. O diagnóstico de lúpus foi firmado a partir da presença de linfopenia, proteinúria, FAN e autoanticorpos positivos (anti-Sm, anti-DNA e anti-Ro). Houve persistência de hipoalbuminemia mesmo com corticoterapia na dose de 1 mg/kg de peso, sendo diagnosticada enteropatia perdedora de proteínas por meio da cintilografia com albumina 99mTc. A melhora clínica e laboratorial da paciente veio após a associação da azatioprina com corticosteroide. Palavras-chave: lúpus eritematoso sistêmico, enteropatias perdedoras de proteínas, agregado de albumina 99mTc. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença autoimune com envolvimento de vários sistemas, incluindo o trato gastrintestinal.1,2 As manifestações gastrintestinais mais comumente relatadas são: refluxo gastroesofágico, disfagia, dor abdominal, constipação, diarreia, pseudo-obstrução intestinal, perfuração e hemorragia.1 A enteropatia perdedora de proteínas é uma manifestação gastrintestinal incomum, já relacionada ao LES, e deve ser investigada diante de hipoalbuminemia persistente e ausência de proteinúria significativa, doença hepática, síndrome de má absorção ou ingesta proteica deficiente.1−3 A enteropatia pode manifestar-se clinicamente com edema ou derrames cavitários, dependendo dos níveis séricos de albumina. Outros sintomas que podem estar presentes são: náuseas, vômitos, dor abdominal, diarreia e anorexia.2 Relatamos aqui o caso de uma paciente com LES associado a enteropatia perdedora de proteínas. Aproveitamos este caso para discutir a abordagem diagnóstica e o tratamento instituído. RELATO DO CASO Paciente do gênero feminino, 48 anos, parda, diarista. Iniciou quadro de edema em membros inferiores e queda do estado geral em dezembro de 2009. Procurou assistência médica em julho de 2010, quando foi evidenciado derrame pleural bilateral e foram realizadas toracocentese e biópsia pleural (discreta pleurite crônica e inespecífica). Em setembro de 2010, foi internada em hospital regional apresentando dor e aumento do volume abdominal, sendo, então, referenciada ao nosso serviço em outubro de 2010. À admissão, apresentava dor abdominal difusa, aumento do volume abdominal, dispneia aos pequenos esforços e astenia. Relatava perda ponderal importante (aproximadamente 25 kg em 10 meses). O exame físico revelava paciente Recebido em 14/04/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Hospital Geral César Cals de Oliveira. 1. Médico Residente em Clínica Médica, Hospital Geral César Cals de Oliveira 2. Aluna do Curso de Medicina, Universidade Federal do Ceará – UFC 3. Doutor em Ciências Médicas, UFC; Chefe do Departamento de Clínica Médica, Hospital Geral César Cals de Oliveira 4. Mestre em Reumatologia, Universidade Federal de São Paulo − Unifesp; Preceptor do Serviço de Reumatologia, Hospital Geral César Cals de Oliveira 5. Médico Especialista em Medicina Nuclear; Professor-Associado, Universidade Estadual do Ceará − UECE Correspondência para: Fernando Moreira Batista Aguiar. Rua Dr. Joaquim Frota, 540 – José de Alencar. CEP: 60830-132. Fortaleza, CE, Brasil. E-mail: [email protected] 960 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):956-964 Enteropatia perdedora de proteínas no lúpus eritematoso sistêmico: relato de caso Tabela 1 Principais resultados de exames laboratoriais com os respectivos valores de referência Variável Resultado Referência Hemograma Hemoglobina (g/dL) Hematócrito (%) Volume corpuscular médio (fL) Hemoglobina corpuscular média (pg) 9,43 27,8 86,8 29,4 12–17 36–50 80–100 28–32 Leucócitos (/µL) Neutrófilos Linfócitos 6.360 5.316 (83%) 625 (9%) 4.000–11.000 45%–70% 20%–45% Plaquetas (/µL) 80.400 150.000–450.000 Tempo de protrombina (s) 13,2 12,7–15,4 Tempo de tromboplastina parcial (s) 33,7 26,3–39,4 Ureia (mg/dL) 42 10–50 Creatinina (mg/dL) 0,7 0,6–1,2 Velocidade de hemossedimentação (mm/h) 4 Até 20 Proteína C-reativa (mg/dL) 4,3 Até 6 Eletroforese de proteínas Albumina (g/dL) Gamaglobulina (g/dL) Aspartato transaminase (U/L) Alanina transaminase (U/L) 1,61 1,89 (policlonal) 24 17 4,30–5,10 0,60–1,10 7–41 12–38 Sumário de urina pH Densidade Proteínas Hemoglobina Hemácias (céls/campo) Leucócitos (céls/campo) Cilindros 6,0 1.020 + + 10 6 Ausentes 4,5–8,0 1.010–1.025 Ausente Ausente 0–3 0–5 Ausentes Proteinúria de 24 horas (mg/24h) 264 30–300 Líquido ascítico Celularidade (céls/µL) Neutrófilos Linfócitos Monócitos Células mesoteliais Gradiente de albumina soro-ascite (GASA) 95 59% 27% 8% 6% 0,8 0 BAAR Cultura Adenosina deaminase (ADA, U/L) Citologia oncótica Negativo Negativo 12,0 Negativo FAN 1:1.280 Nuclear Homogêneo Anti-Sm Reagente Não reagente Anti-dsDNA 1:320 Não reagente Anti-Ro Reagente Não reagente Anti-La Não reagente Não reagente Complemento C3 (mg/dL) C4 (mg/dL) CH-50 (u/CAE) 23,8 8,5 41 90–170 12–36 ≥ 60 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):956-964 ≥ 1,1 = hipertensão portal < 1,1 = provável doença peritoneal Negativo Negativo Até 40 Negativo Não reagente 961 Aguiar et al. emagrecida, taquicárdica, taquipneica, com diminuição do murmúrio vesicular em bases pulmonares, dor abdominal difusa à palpação, presença de macicez móvel e piparote e edema de membros inferiores. Iniciada investigação diagnóstica, a principal hipótese aventada foi neoplasia de sítio desconhecido. Os principais exames laboratoriais encontram-se na Tabela 1. A endoscopia digestiva alta e a colonoscopia descartaram neoplasia do tubo digestivo alto e baixo. Nas tomografias de tórax, abdômen e pelve foram evidenciados ascite volumosa, derrame pleural bilateral e derrame pericárdico. O diagnóstico de LES foi firmado a partir de título anormal do fator antinuclear (FAN), presença de autoanticorpos específicos (anti-Sm e anti-DNA), serosite e linfopenia. Foi então iniciada prednisona 1 mg/kg. A paciente evoluiu inicialmente com piora do edema de membros inferiores e da ascite, necessitando de repetidas paracenteses de alívio. Devido à hipoalbuminemia importante e persistente, com ausência de significativa proteinúria, exames laboratoriais da função hepática normais e aporte proteico adequado pela dieta, realizou-se pesquisa de enteropatia perdedora de proteínas por meio de cintilografia com albumina 99mTc. A perda proteica foi confirmada no quadrante inferior direito do abdômen quatro horas após o início do estudo e nas imagens subsequentes (6, 8 e 24 horas) (Figura 1). Uma vez acrescentada azatioprina 100 mg/dia, ao longo de quatro semanas, a paciente evoluiu com regressão dos derrames cavitários e do edema em membros inferiores, com recuperação dos níveis séricos de albumina. DISCUSSÃO A enteropatia perdedora de proteínas é uma condição caracterizada por perda excessiva de proteínas pelo trato gastrintestinal, resultando em hipoproteinemia, edema e, em alguns casos, derrames cavitários.4 Relaciona-se com doenças erosivas da mucosa gastrintestinal (doença inflamatória intestinal, colite pseudomembranosa, sarcoidose, linfoma intestinal, gastropatia erosiva), com doenças não erosivas (doença celíaca, colite microscópica, doenças reumáticas, espru tropical, doença de Whipple, gastropatia hipertrófica) e com condições que aumentam a pressão intersticial (linfangiectasia intestinal, insuficiência cardíaca congestiva, hipertensão portal, fístula entérico-linfática, fibrose retroperitoneal e tuberculose mesentérica).4,5 Figura 1 Cintilografia com albumina 99mTc mostrando extravasamento do radiotraçador na projeção do quadrante inferior direito do abdômen (imagens estáticas de 4 horas), com aumento do grau de extravasamento e progressão dessa área nas imagens subsequentes. 962 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):956-964 Enteropatia perdedora de proteínas no lúpus eritematoso sistêmico: relato de caso Essa condição deve ser lembrada diante de uma hipoalbuminemia quando causas mais usuais forem descartadas: proteinúria maciça, desnutrição e diminuição da síntese proteica por doença hepática. As manifestações clínicas são variáveis e são determinadas pela doença de base.5 Diarreia e outros sintomas gastrintestinais podem não estar presentes.4 Laboratorialmente, além da hipoalbuminemia, pode-se encontrar hipercolesterolemia pela resposta hepática à hipoalbuminemia, hipogamaglobulinemia (IgA, IgG e IgM) e diminuição da transferrina, ceruloplasmina e fibrinogênio, pois a perda intestinal independe da carga ou do peso molecular da proteína, como ocorre na síndrome nefrótica.2,4,5 Algumas revisões já descreveram a enteropatia perdedora de proteínas como condição secundária ao lúpus.1–3 Uma revisão realizada na Ásia mostrou predominância de casos em pacientes do gênero feminino com idade em torno dos 30 anos, e na maioria a condição foi a manifestação inicial do lúpus.2 Relato asiático de Mok et al.6 traz prevalência de 3,2% de enteropatia em pacientes com lúpus. Dados semelhantes são compartilhados por Zheng et al.7 e Kim et al.8 Em nosso caso, os critérios para o diagnóstico de lúpus eritematoso sistêmico9 foram: serosites (derrame pleural e pericárdico), alterações hematológicas (linfopenia), alterações imunológicas (anti-dsDNA e anti-Sm positivos) e título anormal de FAN. No entanto, não há autoanticorpos característicos quando há enteropatia perdedora de proteínas em pacientes com LES. Tais achados laboratoriais estão relacionados com a doença de um modo geral, e não obrigatoriamente com a enteropatia.6 Um mecanismo possível para justificar a enteropatia perdedora de proteínas nas doenças do tecido conjuntivo é o aumento da permeabilidade da microvasculatura intestinal.2 Algumas citocinas foram implicadas nesse processo, como INF-γ, IL-6 e TNF-α, mas faltam estudos controlados sobre a relação dessas citocinas com atividade de doença e resposta terapêutica. 7,10 Outros mecanismos relatados são vasculite mediada por imunocomplexo, dilatação linfática e lesão da mucosa, que são difíceis de demonstrar histopatologicamente.2,6 Dois métodos são utilizados para o diagnóstico da enteropatia perdedora de proteínas: clearance fecal de 24 horas de α-1antitripsina e cintilografia com albumina 99mTc. O primeiro não é invasivo e pode monitorar a resposta ao tratamento da causa-base.4,5,11 Tem como valor normal 2,6 mg/g de fezes, que reflete um clearance intestinal < 13 mL/dia. Diarreia e sangramento gastrintestinal podem resultar em valores falsamente elevados. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):956-964 A α-1-antitripsina é degradada em condições de pH gástrico < 3,5, interferindo no resultado. Não é possível definir o local da perda proteica, se gástrica ou intestinal.5 Utilizada em nosso caso, a cintilografia com albumina 99m Tc possibilita a localização da fonte da perda, o que pode ocorrer em vários pontos.2 Tem menor custo que outros radiomarcadores (111In-cloreto ou 111In-transferrina), apresenta estabilidade in vivo, alta sensibilidade e raros efeitos colaterais (náuseas, vômitos, dispneia, taquicardia, confusão e dor abdominal). Falsos positivos ocorrem na vigência de sangramento pelo trato gastrintestinal. Imagens seriadas em até 24 horas devem ser obtidas, com aumento da taxa de detecção da perda proteica, possivelmente pela natureza intermitente do processo.12 Para associar a enteropatia perdedora de proteínas ao LES é preciso encontrar as características clínicas e laboratoriais da doença e descartar outras condições por meio de ecocardiograma, tomografia abdominal, endoscopia e biópsia colônica.13 Não há estudos controlados para o tratamento da enteropatia perdedora de proteínas no lúpus. Os relatos sugerem que seja iniciada terapia apenas com corticoide isoladamente. Caso não haja resposta, a associação com imunossupressores (ciclofosfamida, azatioprina ou ciclosporina) traz resultados rápidos e duradouros. Foram relatadas recidivas em maior frequência quando os corticosteroides foram empregados isoladamente, embora essas recidivas respondam bem com o aumento da dose.2,6,7,13 A enteropatia perdedora de proteínas deve ser lembrada sempre que haja hipoalbuminemia de causa não esclarecida em pacientes com lúpus. Esses respondem bem ao tratamento com corticoides e imunossupressores, e o prognóstico, na maioria dos casos, é bom. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. 2. 3. 4. 5. Xu D, Yang H, Lai CC, Li P, Zhang X, Yang XO et al. Clinical analysis of systemic lupus erythematous with gastrointestinal manifestations. Lupus 2010; 19(7):866−9. Chng HH, Tan BE, Teh CL, Lian TY. Major gastrointestinal manifestations in lupus patients in Asia: lupus enteritis, intestinal pseudo-obstruction, and protein-losing gastroenteropathy. Lupus 2010; 19(12):1404−13. Sultan SM, Ioannou Y, Isenberg DA. A review of gastrointestinal manifestations of systemic lupus erythematosus. Rheumatology 1999; 38(10):917−32. Umar SB, DiBaise JK. Protein-losing enteropathy: case illustrations and clinical review. Am J Gastroenterol 2010; 105(1):43−9. Milovic V, Grand RJ. Protein-Losing Gastroenteropathy. In: Basow DS (ed.). UpToDate. Waltham, MA, 2010. 963 Aguiar et al. 6. 7. 8. 9. 964 Mok CC, Ying KY, Mak A, To CH, Szeto ML. Outcome of protein-losing gastroenteropathy in systemic lupus erythematosus treated with prednisolone and azathioprine. Rheumatology 2006; 45(4):425−9. Zheng WJ, Tian XP, Li L, Jing HL, Zeng XF, Li F et al. Protein-losing enteropathy in systemic lupus erythematous: analysis of the clinical features of fifteen patients. J Clin Rheumatol 2007; 13(6):313−6. Kim YG, Lee CK, Byeon JS, Myung SJ, Oh JS, Nah SS et al. Serum cholesterol in idiopathic and lupus-related protein-losing enteropathy. Lupus 2008; 17(6):575−9. Borba EF, Latorre LC, Brenol JCT, Kayser C, Silva NA, Zimmermann AF et al. Consenso de lúpus eritematoso sistêmico. Rev Bras Reumatol 2008; 48(4):196−207. 10. Yazici Y, Erkan D, Levine DM, Parker TS, Lockshin MD. Proteinlosing enteropathy in systemic lupus erythematosus: report of a severe, persistent case and review of pathophysiology. Lupus 2002; 11(2):119−23. 11. Wang SJ, Tsai SC, Lan JL. Tc-99m albumin scintigraphy to monitor the effect of treatment in protein-losing gastroenteropathy. Clin Nucl Med 2000; 25(3):197−9. 12. Chiu NT, Lee BF, Hwang SJ, Chang JM, Liu GC, Yu HS. Proteinlosing enteropathy: diagnosis with 99mTc-labeled human serum albumin scintigraphy. Radiology 2001; 219(1):86−90. 13. Castro GRW, Appenzeller S, Bértolo MB, Costallat LTL. Proteinlosing enteropathy associated with systemic lupus erythematosus: response to cyclophosphamide. Rheumatol Int 2005; 25(2):135−8. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):956-964 RELATO DE CASO Fotossensibilidade amplificada? Relato de porfiria cutânea tarda associada a lúpus eritematoso sistêmico Scheila Fritsch1, Adma Silva de Lima Wojcik2, Lilian Schade1, Milton Marcio Machota Junior3, Fabiane Mulinari Brenner4, Eduardo dos Santos Paiva5 RESUMO A associação de porfiria cutânea tarda (PCT) e lúpus eritematoso sistêmico (LES) é rara. O LES, de fisiopatologia complexa e manifestações clínicas pleomórficas, assemelha-se à PCT pela fotossensibilidade. Um achado que pode diferenciar as duas doenças são as lesões cutâneas bolhosas, raras no LES, mas características da PCT. Descrevemos um caso de associação de PCT e LES e revisamos a literatura, enfatizando questões fisiopatológicas, clínicas e terapêuticas. Um dado relevante para a prática clínica concerne ao tratamento do lúpus com antimaláricos, o que pode oferecer riscos para a PCT. Palavras-chave: lúpus eritematoso sistêmico, porfiria cutânea tarda, porfirias. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO As porfirias são doenças metabólicas causadas por anormalidades enzimáticas na via de formação do heme, necessário para a síntese de hemoglobina e citocromos.1 Dependendo da mutação responsável pela alteração enzimática, acumulam-se metabólitos diferentes. São conhecidos oito tipos de porfirias,1 que são classificadas em hepáticas ou cutâneas (dependendo de onde os precursores se acumulam em maior quantidade) ou ainda em porfirias agudas, recessivas raras ou cutâneas. Neste último grupo está a porfiria cutânea tarda (PCT), doença bolhosa de marcante fotossensibilidade. Sua associação com o lúpus eritematoso sistêmico (LES) já foi relatada, e apesar de não haver dados sobre o prognóstico da associação, tal associação pode ter implicações terapêuticas. Por isso, relatamos um caso de associação de LES e PCT e revisamos a literatura sobre o tema. RELATO DE CASO Homem de 50 anos, porteiro, previamente hígido, sem uso de medicação prévia à apresentação ou história familiar significativa. Referia hiperpigmentação cutânea de áreas fotoexpostas há quatro anos. Relatava surgimento de bolhas na pele dos membros superiores e na face há um ano, que ao se romperem originavam lesões exulceradas, crostosas, que cicatrizavam com hiperpigmentação e formação de milia (Figura 1). A dosagem urinária de porfirinogênio foi de 3 mg/24h (referência < 1,5 mg), e uma biópsia de lesão vesiculosa em dorso de mão foi compatível com porfiria (Figura 2). Após flebotomias, houve cicatrização das lesões. Seis meses depois, o paciente apresentou hipertensão arterial, plaquetopenia (76.000 plaquetas) e proteinúria nefrótica (8,25 g/24h). Diagnosticou-se sorologia positiva para hepatite C (HCV), com transaminases normais, HCV-RNA negativo e ecografia de abdômen sem evidência de hipertensão portal. As sorologias para hepatite B e HIV eram negativas, e o ferrograma apresentava-se normal. A investigação adicional revelou fator antinuclear (FAN) com título de 1:640, padrão nuclear pontilhado grosso, anti-RNP positivo, nível de C3 normal e C4 consumido e anti-DNA positivo (1:80). A biópsia renal evidenciou glomerulonefrite mesangioproliferativa, com imunofluorescência rica em depósitos granulares de IgG, IGA e C3, com índice de atividade 4 e de cronicidade 2. Devido a proteinúria em altos níveis, hipertensão Recebido em 22/04/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Universidade Federal do Paraná – UFPR. 1. Médico Residente em Clínica Médica, Hospital de Clínicas, Universidade Federal do Paraná – HC-UFPR 2. Dermatologista, HC-UFPR 3. Médico Residente em Patologia Médica, HC-UFPR 4. Dermatologista; Mestre em Medicina Interna; Professora do Serviço de Dermatologia, HC-UFPR 5. Reumatologista; Professor-Assistente de Reumatologia, UFPR Correspondência para: Scheila Fritsch. Rua Mauá, 360, apto 304 − Alto da Glória. CEP: 80030-200. Curitiba, PR, Brasil. E-mail: [email protected] 968 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):965-970 Fotossensibilidade amplificada? Relato de porfiria cutânea tarda associada a lúpus eritematoso sistêmico arterial, positividade do anti-DNA e consumo de complemento, iniciou-se pulsoterapia mensal com ciclofosfamida e metilprednisolona (0,75 mg/m2 e 1 g endovenoso, respectivamente). Não houve reativação do HCV (PCR quantitativo permaneceu indetectável), e conseguiu-se melhora da proteinúria. B A Figura 1 A) Erosões, cicatrizes e milias no dorso de ambas as mãos. B) Detalhes das lesões. a) Bolha tensa de conteúdo seroso, íntegra, em polegar esquerdo; b) lesão eritematocrostosa, erosada, após ruptura de uma lesão bolhosa; c) lesões cicatriciais e cistos de milia no dorso da mão esquerda. Figura 2 Porfiria cutânea tarda: pele com camada córnea compacta sobre epiderme com acantose moderada irregular. Nota-se fenda subepidérmica extensa, com “festonagem” das papilas dérmicas, projetando-se para dentro da bolha. A bolha mostra esparsos leucócitos e linfócitos (HE, 100x). No detalhe, deposição de material PAS positivo em paredes vasculares (seta) e membrana basal com espessura habitual (cabeça da seta). (PAS com digestão, 400x). Rev Bras Reumatol 2012;52(6):965-970 DISCUSSÃO A PCT, forma mais frequente de porfiria, é causada pela deficiência da enzima uroporfirinogênio decarboxilase (UROD). O diagnóstico baseia-se em exame físico, excreção urinária de porfirinas e detecção de isocoproporfirina nas fezes.2 As lesões, restritas a áreas fotoexpostas, são principalmente bolhas que evoluem com crostas e milias e cicatrizam em semanas a meses, deixando áreas atróficas ou hiperpigmentadas. Hipertricose, placas esclerodérmicas e alopécia cicatricial também são descritas.2 Histopatologicamente, a pele apresenta fendas subepidérmicas com festonamento (projeção das papilas dérmicas para o interior das fendas). No ácido periódico de Schiff (PAS) com digestão observa-se espessamento da parede de vasos na derme superficial − local de maior dano pela fotoexposição1 e infiltrados linfomononucleares perivasculares.3 Sob imunofluorescência, detectam-se depósitos de imunoglobulinas, principalmente IgG.4 A disfunção hepática, frequente na PCT, varia em gravidade, principalmente se houver abuso de álcool e/ou excesso de ferro. A fisiopatologia da doença pode ser explicada pelo acúmulo de porfirinas na pele, que são “fotossensibilizadoras”.4 As moléculas estimuladas pela luz transferem energia para moléculas adjacentes, promovendo peroxidação de membranas lipídicas e oxidação de ácidos nucleicos, além da ação das porfirinas na ativação de complemento, estimulação de polimorfonucleares e indução da produção de colágeno por fibroblastos.5 Além da luz ultravioleta, a PCT está associada a outros fatores que contribuem para inativação/inibição da enzima UROD, como estrógenos, álcool, acúmulo de ferro, HCV e HIV. O tratamento com hidroxicloroquina também já foi relacionado à PCT.5 O controle da doença envolve total proteção à exposição solar, cessação do etilismo e estrógenos. Em pacientes com PCT e hemocromatose, flebotomias são o tratamento mais adequado. Pacientes sem excesso de ferro podem beneficiar-se de baixas doses de cloroquina (100−200 mg duas vezes por semana), pois essa droga mobiliza porfirinas hepáticas e favorece sua excreção urinária. As lesões de pele do LES podem ser específicas ou inespecíficas.6 Destas últimas, as lesões bolhosas são raras (menos de 5% dos casos),7 devendo levar à suspeição de outras entidades (como PCT, pênfigos, dermatite herpetiforme, epidermólise bolhosa adquirida e lesões farmacoinduzidas).4,6,7 Se as bolhas forem causadas pelo lúpus, elas costumam ser crônicas, disseminadas, subepidérmicas e habitualmente não deixam cicatriz.7 O caso relatado apresentou padrão histológico de nefrite lúpica mesangio-proliferativa ou classe II,8 que habitualmente manifesta-se com proteinúria não nefrótica, sem alterações de pressão arterial, complemento, função renal, além da 969 Fritsch et al. negatividade do anti-DNA – diferente do observado neste caso. O HCV (detectado pela sorologia, com PCR quantitativo sempre negativo) também pode desencadear glomerulonefrite mesangioproliferativa.9 Como o HCV não explica os outros achados de LES neste caso, e há a possibilidade de o anti-HCV ser falsamente positivo, consideramos o quadro renal compatível com nefrite lúpica. Entretanto, esse vírus poderia estar relacionado ao aparecimento de lesões da PCT neste paciente. A PCT já foi associada a várias doenças autoimunes. A maior casuística já publicada sobre a associação de PCT e LES data de 1998.5 Naquela coorte, dentre 676 pacientes com porfiria (todos os tipos), 2% tinham LES, com a maioria dos pacientes adultos na quarta década. O diagnóstico de LES antecede o da porfiria na maior parte dos relatos, 5 o que é contrário ao nosso caso. Possíveis explicações para a coexistência de LES e porfirias já foram sugeridas por Harris et al.,10 como alterações genéticas comuns, gatilho de resposta autoimune pela porfiria ou erros metabólicos desencadeados pelo LES que levem à porfiria. Quanto à primeira hipótese, sabe-se que o gene para a enzima UROD, defeituosa na PCT, está no cromossomo 1, e outra região desse mesmo cromossomo, 1q41-q42, já foi implicada na imunogenética do LES.7 Outro fato que suporta uma patogênese comum é a simultaneidade de ocorrência das doenças em alguns pacientes.5 Essa segunda hipótese pressupõe que porfirinas fotoestimuladas agem sobre células do sistema imune, levando a dano celular e exposição de autoantígenos. Apesar de atraente, ela não explica todos os casos (já que o LES pode anteceder a porfiria), e não há aumento significativo de autoanticorpos em pacientes com PCT.5 Para corroborarmos a terceira hipótese (LES desencadeante da porfiria), seria necessário o estudo de vias metabólicas da síntese do heme em pacientes com LES, o que não existe na literatura. A ocorrência de fatores de risco em comum, como a exposição à luz ultravioleta e anticoncepcionais orais, poderia explicar apenas parte dos casos. Não há dados para definir se a concomitância é pura coincidência ou associação verdadeira de doenças,4,5 tampouco definição de fatores de risco de evolução de uma doença para outra, ou do prognóstico desses pacientes. Além do gênero masculino, seria a associação com PCT outro fator de gravidade para o prognóstico sistêmico do LES? Isso poderia corroborar porque, apesar de a biópsia renal demonstrar nefrite classe II, o paciente teve curso clínico-laboratorial mais agressivo que o esperado. 970 A associação traz consequências terapêuticas. A proteção solar deve ser mais intensa, pois as lesões da PCT são desencadeadas por comprimentos de onda maiores que do LES.5 O uso rotineiro de antimaláricos no LES pode oferecer riscos à PCT. Esses riscos são dose-dependentes, e vários autores contraindicam as posologias diárias indicadas para LES, pelo risco de porfirinúria maciça (febre, náuseas e lesão hepatocelular, inclusive com descrições de necrose hepática).1,4,5,7 Por isso, nos casos de associação de PCT e LES, indica-se o uso de baixas doses de antimaláricos (metade da dose usual e apenas duas vezes por semana).4 Na prática clínica, um paciente lúpico com fotossensibilidade marcante e lesões bolhosas deve ser sempre avaliado para porfirias, visto a implicação terapêutica da associação dessas doenças. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. Puy H, Gouya L, Deybach JC. Porphyrias. Lancet 2010; 375(9718):924−7. 2. Frank J, Poblete-Gutiérrez P. Porphyria cutanea tarda − When skin meets liver. Best Pract Res Clin Gastroenterol 2010; 24(5):735–45. 3. Vieira FMJ, Aoki V, Oliveira ZNP, Martins JEC. Estudo da imunofluorescência direta, imunomapeamento e microscopia óptica na porfiria cutânea tarda. An Bras Dermatol 2010; 85(6):827–37. 4. van Tuyll van Serooskerken AMT, Habets JMW, Badeloe S, PobleteGutiérrez P, Frank J. Porphyria cutanea tarda in pre-existent lupus erythematosus – is there an association? Int J Dermatol 2007; 46(Suppl 3):50–2. 5. Gibson GE, McEvoy MT. Coexistence of lupus erythematosus and porphyria cutanea tarda in fifteen patients. J Am Acad Dermatol 1998; 38(4):569–73. 6. Obermoser G, Sontheimer RD, Zelger B. Overview of common, rare and atypical manifestations of cutaneous lupus erythematosus and histopathological correlates. Lupus 2010; 19(9):1050–70. 7. Haendchen L, Jordão JM, Haider O, Araújo F, Skare TL. Porfiria cutânea tarda e lúpus eritematoso sistêmico. An Bras Dermatol 2011; 86(1):173–5. 8. Weening JJ, D’Agati VD, Schwartz MM, Seshan SV, Alpers CE, Appel GB et al. The classification of glomerulonephritis in systemic lupus erythematosus revisited. J Am Soc Nephrol 2004; 15(2):241–50. 9. Akagi S, Sugiyama H, Makino H. Infection and chronic kidney disease. Nippon Rinsho 2008; 66(9):1794–8. 10. Harris MY, Mills GC, Levin WC. Coexistent systemic lupus erythematosus and porphyria. Arch Intern Med 1966; 117:425–8. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):965-970 COMUNICAÇÃO BREVE Anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil Adriana Almeida de Jesus1, Lucia Maria Arruda Campos1, Bernadete Lourdes Liphaus2, Magda Carneiro-Sampaio3, Cristóvão Luis Pitangueira Mangueira4, Eliane Aparecida Rosseto5, Clovis Artur Almeida da Silva6, Morton Scheinberg7 RESUMO Objetivos: Avaliar a presença de anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-DNA de duplo filamento (dsDNA) em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil (LESJ) e controles. Métodos: Foram analisados 67 pacientes com LESJ e 34 controles saudáveis para presença de anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA pelo método ELISA. Os níveis de C1q foram avaliados por imunodifusão radial. Resultados: Na época, a média de idade era similar entre os pacientes com LESJ e os controles (14,6 ± 3,86 vs. 13,6 ± 2,93 anos; P = 0,14). Foram observadas frequências mais altas de anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com LESJ em relação aos controles (20% vs. 0%; P = 0,0037; 48% vs. 0%; P < 0,0001 e 69% vs. 3%; P < 0,0001, respectivamente). A mediana dos anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA também foi significativamente mais alta em pacientes com LESJ em relação aos controles [9,6 (5,5–127) vs. 7,5 (5–20) unidades, P = 0,0006; 18 (1,9–212) vs. 3,2 (1,7–17) unidades, P < 0,0001; e 111 UI/mL (6–741) vs. 14 (6–33) UI/mL, P < 0,0001, respectivamente]. A sensibilidade para os anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA foi: 21% (IC: 11–33), 49% (IC: 36–62) e 70% (IC: 57–81). A especificidade foi de 100% (IC: 88–100), 100% (88–100) e 97% (IC: 83–99), respectivamente. Foi observada uma correlação positiva entre os níveis de anti-dsDNA e tanto anticorpos anti-C1q (r = 0,51; IC: 0,29–0,68; P < 0,0001) como anticromatina/nucleossomo (r = 0,87; IC: 0,79–0,92; P < 0,0001). Foi observada uma correlação negativa entre os níveis de anti-C1q e C1q (r = −0,33; IC: −0,56–0,05; P = 0,018). A frequência de anti-dsDNA foi mais alta em pacientes com SLEDAI-2K ≥ 1 (P = 0,0047), e não foram observadas diferenças nas frequências desses três autoanticorpos e nefrite (P > 0,05). Conclusão: Nosso estudo demonstrou elevada especificidade para diagnóstico de lúpus envolvendo os três autoanticorpos, especialmente anti-C1q e anticromatina/nucleossomo. Palavras-chave: lúpus eritematoso sistêmico juvenil, complemento C1q, nucleossomos, autoanticorpos, DNA. © 2012 Elsevier Editora Ltda. Todos os direitos reservados. INTRODUÇÃO O lúpus eritematoso sistêmico (LES) é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de vários autoanticorpos. Autoanticorpos específicos e patogênicos foram previamente estudados em pacientes com LES juvenil (LESJ), particularmente os anticorpos anti-C1q,1–4 antiDNA de duplo filamento (anti-dsDNA)3–5 e anticromatina/ Recebido em 02/12/2011. Aprovado, após revisão, em 05/09/2012. Suporte Financeiro: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (bolsa 2008/58238-4), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico − CNPq (bolsas 303165/2008-1 para MCS e 302724/2011-7 para CAS) e Bolsa da Federico Foundation para CAS. Os autores declaram a inexistência de conflito de interesse. Instituto da Criança, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – ICr-HC-FMUSP. 1. Doutora em Reumatologia Pediátrica; Médica-Assistente da Unidade de Reumatologia Pediátrica, Instituto da Criança, Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo – ICr-HC-FMUSP 2. Doutora em Reumatologia Pediátrica; Médica-Assistente do Laboratório de Investigação Médica (LIM) 36, HC-FMUSP 3. Professora Titular do Departamento de Pediatria, HC-FMUSP 4. Doutor em Patologia, HC-FMUSP; Chefe do Departamento de Patologia, Hospital Israelita Albert Einstein, e da Seção de Autoanticorpos, Laboratório Central, HC-FMUSP 5. Médica Residente em Patologia Clínica, HC-FMUSP; Médica do Departamento de Patologia, Hospital Israelita Albert Einstein; Médica da Seção de Autoanticorpos, Laboratório Central, HC-FMUSP 6. Professor Livre-Docente, Departamento de Pediatria, HC-FMUSP; Chefe da Unidade de Reumatologia Pediátrica, HC-FMUSP 7. Professor Livre-Docente em Imunologia, HC-FMUSP; Diretor Científico, Hospital Abreu Sodré – AACD; Médico, Hospital Israelita Albert Einstein Correspondência para: Adriana Almeida de Jesus. Av. Dr. Enéas Carvalho Aguiar, 647 – Pinheiros. CEP: 05403-000. São Paulo, SP, Brasil. E-mail: [email protected] 976 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):971-981 Anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil nucleossomo.4,5 Já tivemos a oportunidade de demonstrar que, em pacientes com LESJ, a presença desses autoanticorpos foi associada à atividade de lúpus,5 podendo ser um instrumento importante para monitoração do curso da doença.3 Mas até onde vai nosso conhecimento, a avaliação simultânea desses três anticorpos com a avaliação da sensibilidade, especificidade e valores preditivos positivos e negativos para o diagnóstico de LESJ não foi levada a efeito em uma população de lúpus pediátrico. Portanto, avaliamos a prevalência dos anticorpos anti-C1q, anti-dsDNA e anticromatina/nucleossomo em pacientes com LESJ e em controles e a possível associação desses anticorpos com nefrite lúpica e atividade da doença. Além disso, avaliamos sensibilidade, especificidade e valores preditivos positivos e negativos dos três autoanticorpos para o diagnóstico de LESJ. Avaliação dos dados demográficos, de nefrite e da atividade da doença Os dados demográficos foram idade por ocasião do estudo, idade no início do LESJ e gênero. O envolvimento renal foi definido de acordo com proteinúria³ (0,5 g/24 h), presença de cilindros celulares ou hematúria persistente3 (10 eritrócitos por campo de grande ampliação). A atividade da doença por ocasião do estudo foi medida em todos os pacientes, utilizando o SLE Disease Activity Index 2000 (SLEDAI-2K).7 A atividade da doença foi definida como SLEDAI-2K ≥ 1, tendo sido consideradas as seguintes categorias de atividade, de acordo com o escore SLEDAI-2K: ausência de atividade (SLEDAI-2K = 0), atividade leve (SLEDAI-2K = 1–5), atividade moderada (SLEDAI-2K = 6–10), atividade alta (SLEDAI-2K = 11–19) e atividade muito alta (SLEDAI-2K = 20).8 Análise estatística MATERIAIS E MÉTODOS Foram avaliados 67 pacientes consecutivos com LESJ acompanhados na Unidade de Reumatologia Pediátrica. Todos os pacientes atendiam aos critérios de classificação de LES do American College of Rheumatology (ACR).6 O grupo-controle consistiu de 34 indivíduos saudáveis acompanhados na Unidade de Adolescentes no mesmo Hospital Universitário. A Comissão de Ética local aprovou o estudo, tendo sido obtido consentimento informado de todos os participantes. Avaliações dos autoanticorpos e C1q Anticorpos anti-C1q foram detectados por ensaio de imunoadsorção enzimática (ELISA) (Inova Diagnostics – QUANTA LiteTM Anti-C1q, San Diego, Califórnia, EUA). O ponto de corte para um resultado de teste positivo foi 20 unidades, conforme determinação do fabricante. Os anticorpos anticromatina/nucleossomo foram determinados por ELISA (Inova Diagnostics – QUANTA LiteTM Anti-nucleossome, San Diego, CA, EUA). O ponto de corte para um resultado de teste positivo foi 20 unidades, também conforme determinação do fabricante. Os anticorpos anti-dsDNA foram detectados pela análise de Farrzyme (The Binding Site, Birmingham, Reino Unido), com ponto de corte de 30 unidades, conforme determinação do fabricante. Todos os anticorpos foram avaliados com amostras em duplicata nos pacientes com LESJ e nos controles. Os níveis de C1q foram avaliados por imunodifusão radial (The Binding Site, Birmingham, Reino Unido) nos pacientes com LESJ, e os valores normais foram 33–209 mg/L. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):971-981 Os resultados foram apresentados como média ± desvio padrão (DP) ou mediana para variáveis contínuas, e número (%) para variáveis categóricas. Os dados foram comparados pelo teste t nas variáveis contínuas, com o objetivo de avaliar diferenças entre LESJ e controles, e nos subgrupos de LESJ. As diferenças das variáveis categóricas foram avaliadas pelo teste exato de Fisher. Utilizou-se o coeficiente de Spearman para avaliar as correlações entre autoanticorpos séricos e entre anticorpos anti-C1q e níveis de C1q. Também foram avaliados sensibilidade, especificidade e valores preditivos positivos e negativos desses anticorpos para o diagnóstico de LESJ. Para todas as análises estatísticas estabeleceu-se nível de significância em 5% (P < 0,05). RESULTADOS A média de idade por ocasião do estudo era comparável em pacientes com LESJ e controles (14,6 ± 3,86 vs. 13,6 ± 2,93 anos; P = 0,14), e o percentual de participantes mulheres foi similar nos dois grupos (83% vs. 79%; P = 0,58) (Tabela 1). A idade no início do LESJ e a duração da doença foram 8,9 ± 3,20 e 6,4 ± 3,52 anos, respectivamente. Foram observadas frequências mais altas de anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA elevados em pacientes com LESJ em relação aos controles (20% vs. 0%, P = 0,0037; 48% vs. 0%, P < 0,0001; e 69% vs. 3%, P < 0,0001, respectivamente). As medianas dos anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA também foram significativamente mais altas em pacientes com LESJ em comparação com as dos controles [9,6 (5,5–127) vs. 7,5 (5–20) 977 Jesus et al. Tabela 1 Dados demográficos e autoanticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil e em controles Variáveis Dados demográficos Idade no início da doença, anos Duração da doença, anos Idade atual, anos Gênero feminino Autoanticorpos Anti-C1q, unidades Níveis elevados (> 20 U) Anticromatina/ nucleossomo, unidades Níveis elevados (> 20 U) Anti-dsDNA, UI/mL Níveis elevados (> 30 UI) LESJ (n = 67) Controles (n = 34) P 8,9 ± 3,20 6,4 ± 3,52 14,6 ± 3,86 52 (83) — — 13,6 ± 2,93 27 (79) — — 0,14 0,58 9,6 (5,5–127) 13 (20%) 7,5 (5–20) 0 (0%) 0,0006 0,0037 18 (1,9–212) 30 (48%) 111 (6–741) 43 (69%) 3,2 (1,7–17) 0 (0%) 14 (6–33) 1 (3%) < 0,0001 < 0,0001 < 0,0001 < 0,0001 unidades, P = 0,0006; 18 (1,9–212) vs. 3,2 (1,7–17) unidades, P < 0,0001; e 111 (6–741) vs. 14 (6–33) UI/mL, P < 0,0001, respectivamente] (Tabela 1). A sensibilidade para anticorpos anti-C1q, anticromatina/ nucleossomo e anti-dsDNA foi 21% (intervalo de confiança (IC): 11%–33%, P = 0,0037), 49% (IC: 36%–62%; P < 0,0001) e 70% (IC: 57%–81%; P < 0,0001); e a especificidade foi 100% (IC: 88–100%; P = 0,0037), 100% (88–100%; P < 0,0001) e 97% (IC: 83%–99%; P < 0,0001), respectivamente. O valor preditivo positivo foi 100% (IC: 75%–100%; P = 0,0037), 100% (IC: 88%–100%; P < 0,0001) e 97% (IC: 87%–99%; P < 0,0001) e o valor preditivo negativo foi 39% (IC: 28%–50%; P = 0,0037), 50% (IC: 37%–62%; P < 0,0001) e 62% (IC: 47%–76%; P < 0,0001) para anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA, respectivamente. Nefrite lúpica ficou evidenciada em 50 (81%) dos pacientes com LESJ. Não foram observadas diferenças em pacientes com LESJ com e sem nefrite nas frequências de anticorpos anti-C1q (26% vs. 8%; P = 0,26), anticromatina/nucleossomo (48% vs. 50%; P = 1,00) e anti-dsDNA (72% vs. 58%; P = 0,30). Atividade da doença foi observada em 48 (77%) dos pacientes com LESJ. Não foram observadas diferenças em pacientes com LESJ com SLEDAI ≥ 1 vs. SLEDAI < 1 (SLEDAI = 0) nas frequências de anti-C1q (20% vs. 21%; P = 1,00) e anticromatina/nucleossomo (45% vs. 21%; P = 0,13). Por outro lado, a frequência dos anticorpos anti-dsDNA foi significativamente mais alta em pacientes com SLEDAI ≥ 1 vs. SLEDAI = 0 (51% vs. 7%; P = 0,0047). Além disso, a mediana de SLEDAI-2K foi significativamente mais alta em pacientes positivos para anti-dsDNA versus pacientes negativos para anti-dsDNA [8 (0−18 UI/mL) 978 vs. 4 (0–16 UI/mL); P = 0,004]. Contudo, as medianas de SLEDAI-2K foram similares em pacientes com anticorpos anticromatina/nucleossomo positivos e negativos [6 (0–16) vs. 4 (0–18); P = 0,11] e em pacientes com anticorpos anti-C1q positivos e negativos [5 (0–18) vs. 4 (0–16); P = 0,86]. De acordo com a atividade da doença, os pacientes foram classificados em cinco grupos: sem atividade (SLEDAI2K = 0) (n = 14; 21%); atividade leve (SLEDAI-2K = 1–5) (n = 21; 31%); atividade moderada (SLEDAI-2K = 6–10) (n = 18; 27%); atividade alta (SLEDAI-2K = 11–19) (n = 14; 21%) e atividade muito alta (SLEDAI-2K ≥ 20 (n = 0; 0%). A frequência de anticorpos anti-dsDNA foi significativamente mais baixa em pacientes sem atividade, em comparação com pacientes com atividade de doença leve (14% vs. 52%; P = 0,033), moderada (14% vs. 61%; P = 0,011) e alta (14% vs. 79%; P = 0,0018). Não foi observada diferença entre a frequência do anticorpo anti-dsDNA em pacientes com atividade leve e moderada (52% vs. 61%; P = 0,74), entre atividade leve e alta (52% vs. 79%; P = 0,16) e entre atividade moderada e alta (61% vs. 79%; P = 0,16). Com relação aos anticorpos anticromatina/nucleossomo, pacientes com atividade moderada apresentaram frequência mais alta desse anticorpo em comparação com pacientes com atividade leve (61% vs. 24%; P = 0,025) e sem atividade (61% vs. 21%; P = 0,035). A frequência do anticorpo anticromatina/ nucleossomo foi similar entre pacientes sem atividade versus pacientes com atividade leve (21% vs. 24%; P = 1.00) e alta (21% vs. 50%; P = 0,23) e entre pacientes com atividade leve e alta (24% vs. 50%; P = 0,15). Com relação ao anticorpo anti-C1q, pacientes sem atividade da doença apresentaram a mesma frequência de anticorpos anti-C1q que pacientes com atividades leve (21% vs. 24%; P = 1,00), moderada (21% vs. 17%; P = 1,00) e alta (21% vs. 29%; P = 1,00). Além disso, não foi observada diferença entre a frequência de anticorpos anti-C1q em pacientes com atividade leve versus moderada (24% vs. 17%; P = 0,70) e alta (24% vs. 29%; P = 1,00) e em pacientes com atividade moderada versus atividade alta (17% vs. 29%; P = 0,66). A Figura 1 ilustra a frequência de anticorpos anti-dsDNA, anticromatina/nucleossomo e anti-C1q de acordo com diferentes graus de atividade da doença. Em relação à discordância entre os três autoanticorpos, é interessante notar que um paciente foi positivo apenas para anticorpo anti-C1q (negativo para anticorpos anticromatina/ nucleossomo e anti-dsDNA), e outro paciente foi positivo apenas para anticorpo anticromatina/nucleossomo (negativo para autoanticorpos anti-C1q e anti-dsDNA). Rev Bras Reumatol 2012;52(6):971-981 Anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil Anti-dsDNA+ 800 anticromatina/nucleossomo+ anti-C1q+ 600 80 Anti-dsDNA Frequência (%) 100 60 40 400 200 20 0 0 1-5 6-10 11-19 0 SLEDAI-2K 0 *Frequência de positivos para anti-dsDNA em SLEDAI-2K = 0 versus SLEDAI-2K = 1–5, P = 0,033; SLEDAI-2K = 6–10, P = 0,011; SLEDAI-2K = 11–19, P = 0,0018. #Frequência de positivos para anticromatina/nucleossomo em SLEDAI-2K = 6–10 versus SLEDAI-2K = 0, P = 0,035; SLEDAI-2K = 1–5, P = 0,025. Figura 1 Frequência de anticorpos anti-dsDNA, anticromatina/nucleossomo e anti-C1q de acordo com o índice de atividade da doença para lúpus eritematoso sistêmico (SLEDAI-2K). 50 100 150 200 250 Anticromatina/nucleossomo SLEDAI-2K: índice de atividade de doença para lúpus eritematoso sistêmico- 2000. Figura 3 Correlação positiva entre anticorpos anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em 62 pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil (r = 0,87; IC: 0,79–0,92; P = 0,0001). P = 0,018). Nenhum deles teve níveis não detectados de C1q compatíveis com imunodeficiência primária de C1q. DISCUSSÃO 800 Anti-dsDNA 600 400 200 0 0 50 100 150 Anti-C1q Figura 2 Correlação positiva entre anticorpos anti-C1q e anti-dsDNA em 62 pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenil (r = 0,51; IC: 0,29–0,68; P = 0,0001). A Figura 2 ilustra uma correlação positiva entre anticorpos anti-C1q e anti-dsDNA em pacientes com LESJ (r = 0,51; IC: 0,29–0,68; P < 0,0001). A Figura 3 demonstra uma correlação positiva entre anticorpos anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com LESJ (r = 0,87; IC: 0,79–0,92; P < 0,0001). Além disso, foi observada correlação negativa entre os níveis séricos de anti-C1q e C1q (r = −0,33; IC: −0,56–0,05; Rev Bras Reumatol 2012;52(6):971-981 Nosso estudo demonstrou especificidade elevada e valor preditivo positivo para o diagnóstico de lúpus desses três autoanticorpos, especialmente os anticorpos anticromatina/nucleossomo e anti-C1q. Além disso, o anticorpo anti-dsDNA foi considerado um marcador confiável de atividade da doença em nossos pacientes, e o anticorpo anticromatina/nucleossomo demonstrou correlação positiva bastante forte com anti-dsDNA e frequência mais alta em pacientes com atividade moderada, em comparação com pacientes sem atividade e com atividade leve. Os anticorpos anti-C1q foram associados à nefrite lúpica e à atividade da doença em adultos9–12 e em pacientes com lúpus juvenil.4 No entanto, recentemente demonstramos que, em nossa coorte, esse anticorpo não estava associado a nefrite em 67 pacientes com LESJ,3 conforme pudemos observar neste estudo. Do mesmo modo, Ravelli et al.1 não observaram qualquer associação entre níveis de anti-C1q e envolvimento renal. Apesar disso, o presente estudo demonstrou correlação positiva entre anticorpos anti-C1q e anti-dsDNA. Este último é um bem-conhecido biomarcador de atividade de doença para LES, conforme ficou evidenciado neste estudo. Outra consideração importante é que ainda não foi estabelecido um conjunto padronizado de reagentes para a determinação de anticorpos anti-C1q, e isso pode explicar em parte algumas discrepâncias dos estudos precedentes. 979 Jesus et al. Além disso, em nossos pacientes com lúpus foi observada correlação negativa entre os níveis séricos de anti-C1q e C1q, o que também ficou evidenciado em um estudo chinês envolvendo pacientes pediátricos de lúpus.4 Portanto, a presença desses anticorpos poderia levar a um decréscimo secundário nos níveis de C1q e ao comprometimento na eliminação de autoantígenos, contribuindo para a patogênese do lúpus.13,14 Anticorpos anticromatina/nucleossomo também foram descritos como marcadores de atividade da doença e de nefrite lúpica em pacientes adultos.15–18 Foi demonstrada in vitro uma ligação direta de C1q e também de nucleossomos às células endoteliais glomerulares, e que os anticorpos antinucleossomo e anti-C1q têm efeito aditivo na patogênese da nefrite lúpica em adultos.19 Em relação ao lúpus pediátrico, nosso grupo já havia demonstrado anteriormente que a presença desse anticorpo estava associada com atividade de lúpus, mas não com manifestações renais,2 o que também foi observado no presente estudo, no qual demonstramos que esse anticorpo poderia ser um marcador útil de doença moderadamente ativa. Ainda mais importante, esses autoanticorpos tiveram especificidade significativamente elevada e grande valor preditivo positivo, superior a 97%, para diagnóstico de lúpus, podendo ser considerados como instrumentos confiáveis na prática clínica, especialmente os anticorpos anticromatina/nucleossomo e anti-C1q. Com efeito, nos estudos precedentes foi informado que a especificidade e o valor preditivo positivo para anticorpos anticromatina/nucleossomo com relação ao diagnóstico de LESJ foram de 96%–98%4,5 e 97%,5 respectivamente. Em relação aos anticorpos anti-C1q, a especificidade para o diagnóstico de LESJ foi de 92%–100%.3,4 As determinações dos anticorpos anticromatina/nucleossomo e anti-C1q devem ser efetuadas para avaliação do diagnóstico de lúpus, especialmente em pacientes com LESJ negativos para autoanticorpos anti-dsDNA. Esses exames podem ser considerados como biomarcadores para o lúpus, sobretudo em pacientes com lúpus incompleto (até três critérios de classificação da ACR para lúpus); há necessidade de estudos prospectivos. Em conclusão, embora os autoanticorpos anti-C1q e antinucleossomo tivessem apresentado menor sensibilidade em relação ao anti-dsDNA, a excepcionalmente elevada especificidade e o grande valor preditivo positivo dos dois anticorpos podem ajudar no diagnóstico de LESJ, especialmente em pacientes negativos para anti-dsDNA. 980 AGRADECIMENTOS Este estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (bolsa 2008/58238-4), pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPQ (bolsas 303165/2008-1 para MCS e 302724/2011-7 para CAS) e pela Federico Foundation (bolsa para CAS). Agradecemos a Mariana Acenjo pela análise de C1q e a Rufus Burlingame, da INOVA, pelo fornecimento do kit anti-C1q. REFERENCES REFERÊNCIAS 1. Ravelli A, Wisnieski JJ, Ramenghi B, Ballardini G, Zonta L, Martini A. IgG autoantibodies to complement C1q in pediatriconset systemic lupus erythematosus. Clin Exp Rheumatol 1997; 15(2):215–19. 2. Kozyro I, Perahud I, Sadallah S, Sukalo A, Titov L, Schifferli J et al. Clinical value of autoantibodies against C1q in children with glomerulonephritis. Pediatrics 2006; 117(5):1663–8. 3. Jesus AA, Silva CA, Carneiro-Sampaio M, Sheinberg M, Mangueira CL, Marie SK et al. Anti-C1q antibodies in juvenile-onset systemic lupus erythematosus. Ann N Y Acad Sci 2009; 1173:235–8. 4. Wu FQ, Zhao Q, Cui XD, Zhang W. C1q and anti-C1q antibody levels are correlated with disease severity in Chinese pediatric systemic lupus erythematosus. Rheumatol Int 2011; 31(4):501–5. 5. Campos LM, Kiss MH, Scheinberg MA, Mangueira CL, Silva CA. Antinucleossomo antibodies in patients with juvenile systemic lupus erythematosus. Lupus 2006; 15(8):496–500. 6. Hochberg MC. Updating the American College of Rheumatology revised criteria for the classification of systemic lupus erhytematosus. Arthritis Rheum 1997; 40(9):1725. 7. Gladman DD, Ibañez D, Urowitz MB. Systemic lupus erythematosus disease activity index 2000. J Rheumatol 2002; 29(2):288–91. 8. Griffiths B, Mosca M, Gordon C. Assessment of patients with systemic lupus erythematosus and the use of lupus disease activity indices. Best Pract Res Clin Rheumatol 2005; 19(5):685–708. 9. Trendelenburg M, Lopez-Trascasa M, Potlukova E, Moll S, Regenass S, Frémeaux-Bacchi V et al. High prevalence of anti-C1q antibodies in biopsy-proven active lupus nephritis. Nephrol Dial Transplant 2006; 21(11):3115–21. 10. Sinico RA, Rimoldi L, Radice A, Bianchi L, Gallelli B, Moroni G. Anti-C1q autoantibodies in lupus nephritis: prevalence and clinical significance. Ann N Y Acad Sci 2005; 1050:193–200. 11. Katsumata Y, Miyake K, Kawaguchi Y, Okamoto Y, Kawamoto M, Gono T et al. 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Anti-nucleossomo antibody, a reliable indicator for lupus nephritis. Autoimmunity 2009; 42(5):393–8. 16. Muller S, Dieker J, Tincani A, Meroni PL. Pathogenic antinucleossomo antibodies. Lupus 2008; 17(5):431–6. Rev Bras Reumatol 2012;52(6):971-981 17. Gómez-Puerta JA, Burlingame RW, Cervera R. Anticromatina (antinucleossomo) antibodies: diagnostic and clinical value. Autoimmun Rev 2008; 7(8):606–11. 18. Souza A, da Silva LM, Oliveira FR, Roselino AM, Louzada-Junior P. Anti-nucleossomo and anticromatina antibodies are present in active systemic lupus erythematosus but not in the cutaneous form of the disease. Lupus 2009; 18(3):223–9. 19. O’Flynn J, Flierman R, van der Pol P, Rops A, Satchell SC, Mathieson PW et al. Nucleossomos and C1q bound to glomerular endothelial cells serve as targets for autoantibodies and determine complement activation. Mol Immunol 2011; 49(1-2):75–83. 981 INDEX | ÍNDICE INDEX | ÍNDICE Volume 52 – 2012 CONTENT INDEX | ÍNDICE POR EDIÇÃO JAN / FEB | JAN / FEV NUMBER | NÚMERO 1 EDITORIAL | EDITORIAL 1 The therapeutic potential of the HLA-G molecule 2 O potencial terapêutico da molécula HLA-G 44 Prevalence and genetic diversity of torque teno virus in patients with systemic lupus erythematosus in a reference service in Mato Grosso do Sul 49 Prevalência e diversidade genética do torque teno vírus em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico em serviço de referência no Mato Grosso do Sul Márcio Reis da Costa, Izaias Pereira da Costa, Sylvie Devalle, Ana Rita Coimbra Motta de Castro, Solange Zacalusni Freitas Paulo Louzada-Junior, Max Victor Carioca Freitas 55 25-Hydroxyivitamin D3 levels in patients with systemic lupus erythematosus and its association with clinical parameters and laboratory tests 60 Níveis séricos de 25-hidroxivitamina D3 e sua associação com parâmetros clínicos e laboratoriais em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL 3 Switching between anti-TNF-alpha agents does not improve functional capacity in patients with long-standing and active rheumatoid arthritis 9 Estratégia de troca entre agentes anti-TNF-alfa não melhora a capacidade funcional em pacientes com artrite reumatoide de longa evolução Thiago Sotero Fragoso, Andrea Tavares Dantas, Claudia Diniz Lopes Marques, Laurindo Ferreira da Rocha Junior, José Humberto de Lima Melo, Aline Jurema Gesteira Costa, Angela Luzia Branco Pinto Duarte Maria Roberta Melo P. Soares, Edgard T. dos Reis Neto, Karine R. Luz, Rozana M. Ciconelli, Marcelo M. Pinheiro 16 Using questionnaires to assess the quality of life and multidimensionality of fibromyalgia patients 21 Uso de questionários para avaliar a multidimensionalidade e a qualidade de vida do fibromiálgico REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO 66 70 CysLT1 receptor inhibition in patients with Raynaud's phenomenon – capillaroscopic evidence of the role of leukotriene 30 Bloqueio do receptor de leucotrieno CysLT1 em pacientes com fenômeno de Raynaud – evidência capilaroscópica do papel do leucotrieno Mario Newton Leitão de Azevedo, Edda Maria T. Bernardini, Elizabeth F. Salles, Felipe Heinzmann, Frederico Marcondes, Tatiana Mello, Blanca Elena Rios Gomes 33 Reduction in alveolar bone density of patients with juvenile idiopathic arthritis 38 Redução da densidade óssea alveolar em pacientes com artrite idiopática juvenil Tânia Lúcia de Oliveira Silva, Flávia Silva Farah Ferreira Braga, Flavio Roberto Sztajnbok, Alessandra Areas e Souza, Fernanda de Brito Silva, Ricardo Guimarães Fischer, Carlos Marcelo da Silva Figueredo 982 Displasia fibromuscular: um diagnóstico diferencial para as vasculites Thaís de Carvalho Pontes, Geísa Pereira Rufino, Mariana Galvão Gurgel, Arnaldo Correia de Medeiros, Eutília Andrade Medeiros Freire Marielza Regina Ismael Martins, Letícia Oliveira Polvero, Carlos Eduardo Rocha, Marcos Henrique Foss, Randolfo dos Santos Junior 27 Fibromuscular dysplasia: a differential diagnosis of vasculitis 75 The role of the HLA-G gene and molecule on the clinical expression of rheumatologic diseases 82 O papel do gene e da molécula HLA-G na expressão clínica das doenças reumatológicas Claiton Viegas Brenol, Tiago Degani Veit, José Artur Bogo Chies, Ricardo Machado Xavier 92 98 Current and relevant concepts in psoriatic arthritis Conceitos atuais e relevantes sobre artrite psoriásica Claudia Goldenstein-Schainberg, Maria Helena Sampaio Favarato, Roberto Ranza CASE REPORT | RELATO DE CASO 107 Leukopenia and thrombocytopenia induced by etanercept: two case reports and literature review Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 INDEX | ÍNDICE 110 Leucopenia e trombocitopenia induzidas por etanercepte: relato de dois casos e revisão da literatura 189 Work and power of the knee flexor and extensor muscles in patients with osteoarthritis and after total knee arthroplasty Valderílio Feijó Azevedo, Marília Barreto Gameiro Silva, Débora Karine Marinello, Felipe Dunin dos Santos, Guilherme Barreto Gameiro Silva 195 Trabalho e potência dos músculos extensores e flexores do joelho de pacientes com osteoartrite e com artroplastia total de joelho Denise Bastiani, Cintia Helena Ritzel, Silvia Manfrin Bortoluzzi, Marco Aurelio Vaz 113 Ascites due to lupus peritonitis: a rare form of onset of systemic lupus erythematosus 203 116 Ascite por peritonite lúpica: uma forma rara de início do lúpus eritematoso sistêmico Profile of users of anticytokines offered by the health care system in the state of Paraná for the treatment of rheumatoid arthritis 208 Perfil dos usuários de anticitocinas disponibilizadas pelo Sistema Único de Saúde no estado do Paraná para o tratamento da artrite reumatoide Henrique Pott Júnior, André Amate Neto, Maria Aparecida Barone Teixeira, José Roberto Provenza 120 122 Livedo reticularis associated with autoimmune hemolytic anemia: prolonged remission induced by peripheral blood stem cell transplantation relapse after 10 years and restoration of hemoglobin levels by rituximab Astrid Wiens, Mônica Cavichiolo Grochocki, Deise Regina Sprada Pontarolli, Rafael Venson, Cassyano Januário Correr, Roberto Pontarolo 214 Use of high-voltage cathodic current for pain in experimental nerve compression Livedo reticular associado com anemia hemolítica autoimune: remissão prolongada induzida pelo transplante de células-tronco do sangue periférico com recaída após 10 anos e restauração dos níveis de hemoglobina por rituximabe 220 Uso da corrente catódica de alta voltagem sobre a dor em compressão nervosa experimental Eurípedes Ferreira, Andrezza Feitosa, Nelson Hamerschlak, Morton Aaron Scheinberg 227 Laryngeal and tracheobronchial involvement in Wegener’s granulomatosis 231 Comprometimento da árvore respiratória na granulomatose de Wegener Gladson Ricardo Flor Bertolini, Cassiane Merigo do Nascimento, Daniela Martins Cunha, Elisangela Lourdes Artifon, Anamaria Meireles BRIEF COMMUNICATION | COMUNICAÇÃO BREVE 125 Elevated serum homocysteine levels in paediatric patients with primary Raynaud’s phenomenon 128 Níveis séricos elevados de homocisteína em pacientes pediátricos com fenômeno de Raynaud primário Ascedio Jose Rodrigues, Marcia Jacomelli, Renata Xavier Baldow, Carmen Valente Barbas, Viviane Rossi Figueiredo 236 Rheumatic fever presentation and outcome: a case-series report 241 Apresentação e desfecho da febre reumática em uma série de casos Stepan Kutilek, Vladimir Nemec, Eva Bockayova Simone Manso de Carvalho, Ivete Dalben, José Eduardo Corrente, Claudia Saad Magalhães MAR / APR | MAR / ABR NUMBER | NÚMERO 2 REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO EDITORIAL | EDITORIAL 131 On mosaics and consensus: Gaudí, Brazil and rheumatoid arthritis 133 Sobre mosaicos e consensos: Gaudí, o Brasil e a artrite reumatoide Licia Maria Henrique da Mota ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL 247 Mechanisms of muscle wasting in sarcopenia 252 Mecanismos de perda muscular da sarcopenia Vivian de Oliveira Nunes Teixeira, Lidiane Isabel Filippin, Ricardo Machado Xavier 260 Bisphosphonate-related osteonecrosis of the jaw 265 Osteonecrose maxilar associada ao uso de bisfosfonatos Mariana Aparecida Brozoski, Andreia Aparecida Traina, Maria Cristina Zindel Deboni, Márcia Martins Marques, Maria da Graça Naclério-Homem 135 2012 Brazilian Society of Rheumatology Consensus for the treatment of rheumatoid arthritis 271 152 Consenso 2012 da Sociedade Brasileira de Reumatologia para o tratamento da artrite reumatoide Possible role of adipokines in systemic lupus erythematosus and rheumatoid arthritis 278 Possível papel das adipocinas no lúpus eritematoso sistêmico e na artrite reumatoide Licia Maria Henrique da Mota, Boris Afonso Cruz, Claiton Viegas Brenol, Ivanio Alves Pereira, Lucila Stange Rezende-Fronza, Manoel Barros Bertolo, Max Victor Carioca de Freitas, Nilzio Antonio da Silva, Paulo Louzada-Júnior, Rina Dalva Neubarth Giorgi, Rodrigo Aires Corrêa Lima, Geraldo da Rocha Castelar Pinheiro 175 Neuropsychological assessment of cognitive disorders in patients with fibromyalgia, rheumatoid arthritis, and systemic lupus erythematosus 181 Análise neuropsicológica de distúrbios cognitivos em pacientes com fibromialgia, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico Lucylle Fróis de Melo, Sérgio Leme Da-Silva Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 Vitalina de Souza Barbosa, Jozelia Rêgo, Nílzio Antônio da Silva CASE REPORT | RELATO DE CASO 288 Erythema elevatum diutinum as a differential diagnosis of rheumatic diseases: case report 291 Eritema elevatum diutinum como diagnóstico diferencial das doenças reumatológicas: relato de caso Dário Júnior de Freitas Rosa, Ronaldo Figueiredo Machado, Rafael de Oliveira Fraga, Antônio Scafuto Scotton, Viviane Angelina de Souza, Bruno Fernandes 983 INDEX | ÍNDICE 295 Mycophenolate mofetil in primary Sjögren’s syndrome: a treatment option for agranulocytosis 357 297 Micofenolato mofetil na síndrome de Sjögren primária: uma opção para o tratamento da agranulocitose Antinucleosome antibodies and primary antiphospholipid syndrome: an observational study 361 Anticorpos antinucleossomo e síndrome antifosfolipídica: estudo observacional Sonia Cristina de Magalhães Souza Fialho, Samuel Bergamaschi, Fabrício Souza Neves, Adriana Fontes Zimmermann, Gláucio Ricardo Werner de Castro, Ivânio Alves Pereira Alexandre Wagner Silva de Souza, Silene Peres Keusseyan, Neusa Pereira da Silva, Emilia Inoue Sato, Luis Eduardo Coelho Andrade 366 LETTER TO THE EDITORS | CARTA AOS EDITORES 300 301 370 Nazi past and changes in disease names: the Wegener’s disease case Passado nazista e mudança do nome de uma doença: o caso da doença de Wegener MAY / JUN | MAI / JUN Wester Eidi Nishimura, Lilian Tereza Lavras Costallat, Sandra Regina Muchinechi Fernandes, Roseneide Aparecida Conde, Manoel Barros Bertolo 375 Morton Aaron Scheinberg NUMBER | NÚMERO 3 Association of HLA-DRB5*01 with protection against cutaneous manifestations of rheumatoid vasculitis in Brazilian patients Associação do HLA-DRB5*01 com proteção contra manifestação cutânea da vasculite reumatoide em pacientes brasileiros 379 EDITORIAL | EDITORIAL Low prevalence of renal, cardiac, pulmonary, and neurological extra-articular clinical manifestations in spondyloarthritis: analysis of the Brazilian Registry of Spondyloarthritis Baixa prevalência das manifestações extra-articulares renais, cardíacas, pulmonares e neurológicas nas espondiloartrites: análise do Registro Brasileiro de Espondiloartrites 307 Prevalence of rubella serum antibody in autoimmune diseases Carlos Ewerton Maia Rodrigues, Walber Pinto Vieira, Adriana B. Bortoluzzo, Célio Roberto Gonçalves, José Antonio Braga da Silva, Antonio Carlos Ximenes, Manoel B. Bértolo, Sandra L. E. Ribeiro, Mauro Keiserman, Rita Menin, Thelma L. Skare, Sueli Carneiro, Valderílio F. Azevedo, Elisa N. Albuquerque, Washington A. Bianchi, Rubens Bonfi glioli, Cristiano Campanholo, Hellen M. S. Carvalho, Izaias P. Costa, Angela P. Duarte, Charles L. Kohem, Nocy H. Leite, Sonia A. L. Lima, Eduardo S. Meirelles, Ivânio A. Pereira, Marcelo M. Pinheiro, Elizandra Polito, Gustavo G. Resende, Francisco Airton C. Rocha, Mittermayer B. Santiago, Maria de Fátima L. C. Sauma, Valeria Valim, Percival D. Sampaio-Barros 312 Prevalência de anticorpos séricos contra rubéola em doenças autoimunes REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO 303 Rubella and autoimmunity 305 Rubéola e autoimunidade Arie Altman, Yehuda Shoenfeld ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL Arie Altman, Martine Szyper-Kravitz, Nancy Agmon-Levin, Boris Gilburd, Juan-Manuel Anaja, Ori Barzilai, Maya Ram, Nicola Bizzaro, Ljudmila Stojanovich, Jan Damoiseaux, Jan Willem Cohen Tervaert, Stefano Bombardieri, Howard Amital, Ari Shamis, Yehuda Shoenfeld 384 Diet and nutritional aspects in systemic lupus erythematosus 395 Dieta e aspectos nutricionais no lúpus eritematoso sistêmico Karin Klack, Eloisa Bonfa, Eduardo Ferreira Borba Neto 319 Stress perception and depressive symptoms: functionality and impact on the quality of life of women with fibromyalgia 409 Static and dynamic balance in subjects with ankylosing spondylitis: literature review 324 Percepção de estresse e sintomas depressivos: funcionalidade e impacto na qualidade de vida em mulheres com fibromialgia 413 Equilíbrio estático e dinâmico no indivíduo com espondilite anquilosante: revisão da literatura Diogo Homann, Joice Mara Facco Stefanello, Suelen Meira Góes, Chris Andreissy Breda, Eduardo dos Santos Paiva, Neiva Leite José Eduardo Pompeu, Renata Sorroche Lourenço Romano, Sandra Maria Alvarenga Anti Pompeu, Sônia Maria Anti Loduca Lima 331 Frailty syndrome in the community-dwelling elderly with osteoarthritis 417 Autoimmune thyroid disease in patients with rheumatic diseases 339 Síndrome da fragilidade no idoso comunitário com osteoartrite 423 Ocorrência de doenças autoimunes tireoidianas em pacientes com doenças reumáticas Rita de Cássia Corrêa Miguel, Rosângela Corrêa Dias, João Marcos Domingues Dias, Silvia Lanziotti Azevedo da Silva, Paulo Roberto Menicucci Filho, Tatiana Moreira S. Ribeiro 348 Validity and reliability of the Portuguese version of the American Shoulder and Elbow Surgeons Standardized Shoulder Assessment Form 352 Validade e confi abilidade da versão em português do American Shoulder and Elbow Surgeons Standardized Shoulder Assessment Form Auristela Duarte de Lima Moser, Luiz Alberto Manfre Knaut, Talita Gnoato Zotz, Karoleen Oswald Scharan 984 Teresa Cristina Martins Vicente Robazzi, Luis Fernando Fernandes Adan CASE REPORT | RELATO DE CASO 431 Cocaine-induced midline destruction lesions with positive ANCA test mimicking Wegener’s granulomatosis 434 Lesões destrutivas da linha média induzidas por cocaína com ANCA positivo mimetizando a granulomatose de Wegener Letícia Stahelin, Sonia Cristina de Magalhães Souza Fialho, Fabrício Souza Neves, Larissa Junckes, Gláucio Ricardo Werner de Castro, Ivânio Alves Pereira Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 INDEX | ÍNDICE 438 Thoracic myelopathy due to calcifi cation of the ligamentum flavum with hyperproteinorachia and responsive to steroid therapy: case report 442 Mielopatia torácica por calcifi cação do ligamento amarelo cursando com hiperproteinorraquia e resposta à corticoterapia: relato de caso Flávia Yuri Shiguematsu, Elaine Cristina Caon de Souza, Adriana Fontes Zimmermann, Gláucio Ricardo Werner Castro, Ivânio Alves Pereira, Fabricio Souza Neves 447 Cutaneous leishmaniasis in a patient with ankylosing spondylitis using adalimumab 450 Leishmaniose tegumentar em paciente com espondilite anquilosante utilizando adalimumabe Kirla Wagner Poti Gomes, André Nunes Benevides, Francisco José Fernandes Vieira, Maggy Poti de Morais Burlamaqui, Marcos de Almeida e Pontes Vieira, Lysiane Maria Adeodato Ramos Fontenelle BRIEF COMMUNICATION | COMUNICAÇÃO BREVE 496 Assessment of different instruments used as outcome measures in patients with fibromyalgia 501 Avaliação de instrumentos de medida usados em pacientes com fibromialgia Adriana Martins Barros Alves, Jamil Natour, Marcos Renato Assis, Daniel Feldman 507 Postural control parameters in elderly female fallers and non-fallers diagnosed or not with knee osteoarthritis 512 Parâmetros do controle postural em mulheres idosas com ou sem histórico de quedas associadas ou não à osteoartrite de joelhos Marina Petrella, Thamires Máximo Neves, Júlia Guimarães Reis, Matheus Machado Gomes, Renê Donizeti Ribeiro de Oliveira, Daniela Cristina Carvalho de Abreu 518 Lack of association between the CC genotype of the rs7903146 polymorphism in the TCF7L2 gene and rheumatoid arthritis 523 Ausência de associação entre o genótipo CC do polimorfismo rs7903146 no gene TCF7L2 e artrite reumatoide Licia Maria Henrique da Mota, Francieli de Souza Rabelo, Francisco Aires Corrêa Lima, Rodrigo Aires Corrêa Lima, Jozélio Freire de Carvalho, Gustavo Barcelos Barra, Angélica Amorim Amato 453 Influence of creatine supplementation on bone mass of spontaneously hypertensive rats 457 Influência da suplementação de creatina sobre a massa óssea de ratos espontaneamente hipertensos 529 Christiano Robles Rodrigues Alves, Igor Hisashi Murai, Pamella Ramona, Humberto Nicastro, Lilian Takayama, Fabiana Guimarães, Antonio Herbert Lancha Junior, Maria Claudia Irigoyen, Rosa Maria Rodrigues Pereira, Bruno Gualano The association between serum levels of potential biomarkers with the presence of factors related to the clinical activity and poor prognosis in spondiloarthritis 536 Associação entre os níveis séricos de potenciais biomarcadores com a presença de fatores relacionados à atividade clínica e ao mau prognóstico em espondiloartrites 462 Description of a new method of ovariectomy in female rats 466 Descrição de um novo método de ooforectomia em ratas John Londono, Maria Consuelo Romero-Sanchez, Viviana Garcia Torres, Wilson A. Bautista, Diego Jaimes Fernandez, Julitte de Avila Quiroga, Rafael Valle-Oñate, Ana María Santos, Juan Francisco Medina Deepak Kumar Khajuria, Rema Razdan, D Roy Mahapatra JUL / AUG | JUL / AGO 545 High frequency of calcinosis in juvenile dermatomyositis: a risk factor study 549 Frequência elevada de calcinose em dermatomiosite juvenil: estudo de fatores de risco NUMBER | NÚMERO 4 EDITORIAL | EDITORIAL 471 472 Rheumatoid arthritis: why to treat only arthritis, knowing that comorbidities are common and determine morbidity and mortality? Artrite reumatoide: por que tratar apenas a artrite, sabendo que comorbidades são comuns e determinam morbidade e mortalidade? Gleice Clemente, Daniela Gerent Petry Piotto, Cássia Barbosa, Octávio Augusto Peracchi, Claudio Arnaldo Len, Maria Odete Esteves Hilário, Maria Teresa R. A. Terreri 554 Evaluation of endothelial function in patients with limited systemic sclerosis by use of brachial artery Doppler ultrasound 561 Avaliação da função endotelial em pacientes com esclerose sistêmica limitada por meio do eco Doppler da artéria braquial Tatiana Melo Fernandes, Blanca Elena Gomes Bica, Nivaldo Ribeiro Villela, Elizabeth Figueiredo Salles, Mario Newton Leitão de Azevedo, José Angelo de Souza Papi, Rosângela Aparecida Gomes Martins Ivânio Alves Pereira ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL 474 2012 Brazilian Society of Rheumatology Consensus on the management of comorbidities in patients with rheumatoid arthritis 483 Consenso 2012 da Sociedade Brasileira de Reumatologia sobre o manejo de comorbidades em pacientes com artrite reumatoide Ivânio Alves Pereira, Licia Maria Henrique da Mota, Boris Afonso Cruz, Claiton Viegas Brenol, Lucila Stange Rezende Fronza, Manoel Barros Bertolo, Max Victor Carioca de Freitas, Nilzio Antônio da Silva, Paulo Louzada-Junior, Rina Dalva Neubarth Giorgi, Rodrigo Aires Corrêa Lima, Geraldo da Rocha Castelar Pinheiro Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 SPECIAL REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO ESPECIAL 569 Guidelines for the prevention and treatment of glucocorticoidinduced osteoporosis 580 Diretrizes para prevenção e tratamento da osteoporose induzida por glicocorticoide Rosa Maria Rodrigues Pereira, Jozélio Freire de Carvalho, Ana Patrícia Paula, Cristiano Zerbini, Diogo S. Domiciano, Helenice Gonçalves, Jaime S. Danowski, João F. Marques Neto, Laura M. C. Mendonça, Mailze C. Bezerra, Maria Teresa Terreri, Marta Imamura, Pedro Weingrill, Perola G. Plapler, Sebastião Radominski, Tatiana Tourinho, Vera L. Szejnfeld, Nathalia C. Andrada 985 INDEX | ÍNDICE REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO 594 Musculoskeletal disorders in diabetes mellitus 601 Manifestações musculoesqueléticas em diabetes mellitus Marilia Barreto Gameiro Silva, Thelma Larocca Skare 610 Suprascapular nerve block: important procedure in clinical practice. Part II 616 Bloqueio do nervo supraescapular: procedimento importante na prática clínica. Parte II Marcos Rassi Fernandes, Maria Alves Barbosa, Ana Luiza Lima Sousa, Gilson Cassem Ramos 623 Psoriatic arthritis: a clinical entity distinct from psoriasis? 630 Artrite psoriásica: entidade clínica distinta da psoríase? 665 Expression of concern: Ahlin E et al., “Anti-citrullinated peptide antibodies and rheumatoid factor in Sudanese patients with Leishmania donovani infection”, Rev Bras Reumatol 2011; 51(6): 572–86 665 Nota de preocupação: Ahlin E et al., “Anticorpos antipeptídeos citrulinados e fator reumatoide em pacientes sudaneses com infecção por Leishmania donovani”, Rev Bras Reumatol 2011; 51(6):572–86 Paulo Louzada-Junior, Max Victor Carioca Freitas ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL 666 Improvement in pain, fatigue, and subjective sleep quality through sleep hygiene tips in patients with fibromyalgia 672 Melhora da dor, do cansaço e da qualidade subjetiva do sono por meio de orientações de higiene do sono em pacientes com fibromialgia Danilo Garcia Ruiz, Mário Newton Leitão de Azevedo, Omar Lupi da Rosa Santos Aline Cristina Orlandi, Camila Ventura, Andrea Lopes Gallinaro, Renata Alqualo Costa, Laís Verderame Lage CASE REPORT | RELATO DE CASO 639 Antiphospholipid syndrome and dermatomyositis/ polymyositis: a rare association 642 Síndrome antifosfolípide e dermatomiosite/polimiosite: uma rara associação 679 Epidemiological profile of patients with extra-articular manifestations of rheumatoid arthritis from the city of Curitiba, South of Brazil 686 Perfil dos pacientes com manifestações extra-articulares de artrite reumatoide de um serviço ambulatorial em Curitiba, Sul do Brasil Mariana Costa Moura, Paola Tamara Silva Zakszewski, Marília Barreto Gameiro Silva, Thelma Larocca Skare Fernando Henrique Carlos de Souza, Maurício Levy-Neto, Samuel Katsuyuki Shinjo 695 Diagnostic performance and clinical associations of antibodies to the chromatin antigenic system in juvenile systemic lupus erythematosus 703 Vitor Alves Cruz, Lúcio Yamaguchi, Carolina Nazeozeno Ribeiro, Vanessa de Oliveira Magalhães, Jozelia Rego, Nilzio Antonio da Silva Desempenho diagnóstico e associações clínicas dos anticorpos contra componentes da cromatina no lúpus eritematoso sistêmico juvenil 651 Use of infliximab in a patient with rheumatoid arthritis and chronic hepatitis B Silene Peres Keusseyan, Neusa Pereira da Silva, Maria Odete Esteves Hilário, Eunice Mitiko Okuda, Maria Teresa S. L. R. Ascenção Terreri, Luis Eduardo Coelho Andrade 648 Uso de infliximabe em paciente com artrite reumatoide e hepatite B crônica 713 Eloisa Doubrawa, Renê Augusto de Mattos Ricca, Tiago Osternack Malucelli, Vanessa Irusta Dal Pizzol, Danilo Hamilko de Barros, Eduardo Santos Paiva Newly diagnosed dermatomyositis in the elderly as predictor of malignancy 717 Dermatomiosite recém-diagnosticada em idosos como preditiva de malignidade 645 Ulcerative colitis and rheumatoid arthritis: a rare association – case report 648 Retocolite ulcerativa e artrite reumatoide: uma rara associação – relato de caso BRIEF COMMUNICATION | COMUNICAÇÃO BREVE 656 Malondialdehyde and sulfhydryl groups as biomarkers of oxidative stress in patients with systemic lupus erythematosus 658 Malondialdeído e grupo sulfidrila como biomarcadores do estresse oxidativo em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico Yenly G. Pérez, Lissett Caridad González Pérez, Rita de Cássia M. Netto, Domingos S. N. de Lima, Emerson S. Lima SEP / OCT | SET / OUT NUMBER | NÚMERO 5 EDITORIAL | EDITORIAL 661 The indexing of the Brazilian Journal of Rheumatology in the Web of Science 663 A indexação da Revista Brasileira de Reumatologia no Web of Science Fernando Henrique Carlos de Souza, Samuel Katsuyuki Shinjo 722 Nailfold capillaroscopy in children and adolescents with rheumatic diseases 727 Capilaroscopia periungueal em crianças e adolescentes com doenças reumáticas Daniela Gerent Petry Piotto, Cláudio Arnaldo Len, Maria Odete Esteves Hilário, Maria Teresa Ramos Ascensão Terreri 733 Cross-cultural adaptation and validation of the Brazilian-Portuguese version of the Bath Ankylosing Spondylitis Functional Index (BASFI) 737 Adaptação cultural cruzada e validação da versão do Índice Funcional de Espondilite Anquilosante de Bath (BASFI) para o português do Brasil Karla Garcez Cusmanich, Sérgio Candido Kowalski, Andréa Lopes Gallinaro, Claudia Goldenstein-Schainberg, Lilian Avila Lima e Souza, Célio Roberto Gonçalves Paulo Louzada-Junior, Max Victor Carioca Freitas 986 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 INDEX | ÍNDICE REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO 742 749 Ankylosing spondylitis and uveitis: overview Espondilite anquilosante e uveíte: revisão Enéias Bezerra Gouveia, Dório Elmann, Maira Saad de Ávila Morales 757 761 ERRATUM | ERRATA 815 816 Imaging diagnosis of early rheumatoid arthritis Diagnóstico por imagem da artrite reumatoide inicial Ivânio Alves Pereira, Licia Maria Henrique da Mota, Boris Afonso Cruz, Claiton Viegas Brenol, Lucila Stange Rezende Fronza, Manoel Barros Bertolo, Max Victor Carioca de Freitas, Nilzio Antônio da Silva, Paulo Louzada-Junior, Rina Dalva Neubarth Giorgi, Rodrigo Aires Corrêa Lima, Geraldo da Rocha Castelar Pinheiro Licia Maria Henrique da Mota, Ieda Maria Magalhães Laurindo, Leopoldo Luiz dos Santos Neto, Francisco Aires Corrêa Lima, Sérgio Lopes Viana, Paulo Sérgio Mendlovitz, João Luiz Fernandes 767 774 Selective inhibition of cyclooxygenase-2: risks and benefits Inibição seletiva da ciclo-oxigenase-2: riscos e benefícios Reila Tainá Mendes, Cassiano Pereira Stanczyk, Regina Sordi, Michel Fleith Otuki, Fábio André dos Santos, Daniel Fernandes NOV / DEC | NOV / DEZ 786 Bilateral osteochondrosis of lateral femoral condyles: case report and literature review Osteocondrose bilateral de côndilos femorais laterais: relato de caso e revisão da literatura 817 Antinucleosome and anti-C1q antibodies in juvenile systemic lupus erythematosus 818 Anticorpos antinucleossomo e anti-C1q no lúpus eritematoso sistêmico juvenil Blanca Elena Rios Gomes Bica, Danilo Garcia Ruiz, Fernanda Frade Paranhos, Antônio Vítor de Abreu, Mário Newton Leitão de Azevedo 790 793 796 798 800 802 Paulo Louzada-Junior, Max Victor Carioca Freitas ORIGINAL ARTICLE | ARTIGO ORIGINAL Reactive haemophagocytic syndrome in a systemic lupus erythematosus patient – case report Síndrome de ativação macrofágica em paciente com lúpus eritematoso sistêmico – relato de caso 819 Marco Antonio Cuellar Arnez, Mario Newton Leitão de Azevedo, Blanca Elena Rios Gomes Bica Disability and quality-of-life are not infl uenced by the prevalence of autoantibodies in early rheumatoid arthritis patients – results of the Brasília Cohort 824 Incapacitação e qualidade de vida não são influenciadas pela prevalência de autoanticorpos em pacientes com artrite reumatoide inicial – resultados da Coorte Brasília Spontaneous pneumomediastinum associated with laryngeal lesions and tracheal ulcer in dermatomyositis Pneumomediastino espontâneo associado a lesões laríngeas e úlceras traqueais na dermatomiosite Licia Maria Henrique da Mota, Leopoldo Luiz dos Santos Neto, Rufus W. Burlingame, Henri A. Ménard, Ivanio Alves Pereira, Jozélio Freire de Carvalho, Ieda Maria Magalhães Laurindo Ascedio Jose Rodrigues, Marcia Jacomelli, Paulo Rogerio Scordamaglio, Viviane Rossi Figueiredo 830 Therapeutic efficacy and safety of methotrexate + leflunomide in Colombian patients with active rheumatoid arthritis refractory to conventional treatment BRIEF COMMUNICATION | COMUNICAÇÃO BREVE 837 Eficácia terapêutica e segurança de metotrexato + leflunomida em pacientes colombianos com artrite reumatoide ativa refratária ao tratamento convencional Complete heart block in ankylosing spondylitis Bloqueio cardíaco completo em espondilite anquilosante John Londono, Ana Maria Santos, Pedro Ivan Santos, Maria Fernanda Cubidez, Claudia Guzman, Rafael Valle-Oñate Juan Pablo Restrepo, María Del Pilar Molina 804 807 Posterior reversible encephalopathy syndrome (PRES) and systemic lupus erythematosus: report of two cases Síndrome da encefalopatia posterior reversível (PRES) e lúpus eritematoso sistêmico: relato de dois casos Aline de Souza Streck, Henrique Luiz Staub, Caroline Zechlinski Xavier de Freitas, Luis Marrone, Jaderson Costa, Giovani Gadonski LETTER TO THE EDITORS | CARTA AOS EDITORES 811 813 NUMBER | NÚMERO 6 EDITORIAL | EDITORIAL CASE REPORT | RELATO DE CASO 783 2012 Brazilian Society of Rheumatology Consensus on the management of comorbidities in patients with rheumatoid arthritis [Rev Bras Reumatol 2012; 52(4):474-495] Consenso 2012 da Sociedade Brasileira de Reumatologia sobre o manejo de comorbidades em pacientes com artrite reumatoide [Rev Bras Reumatol 2012; 52(4):474-495] APS ACTION in Brazil APS ACTION no Brasil 846 Effect of hydrotherapy on quality of life, functional capacity and sleep quality in patients with fibromyalgia 851 Efeito da hidrocinesioterapia sobre qualidade de vida, capacidade funcional e qualidade do sono em pacientes com fibromialgia Kyara Morgana Oliveira Moura Silva, Silvia Jurema Pereira Tucano, Claudia Kümpel, Antonio Adolfo Mattos de Castro, Elias Ferreira Porto 858 Serum levels of vitamin B12 are not related to low bone mineral density in postmenopausal Brazilian women 863 Níveis séricos de vitamina B12 não se relacionam com baixa densidade mineral óssea em mulheres brasileiras na pós-menopausa Adriana Maria Kakehasi, Ariane Vieira Carvalho, Fabiana Alves Nunes Maksud, Alfredo José Afonso Barbosa Roger Abramino Levy, Guilherme Ribeiro Ramires de Jesús, pelo APS ACTION GROUP Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 987 INDEX | ÍNDICE CASE REPORT | RELATO DE CASO 870 Impact of exercise on the functional capacity and pain of patients with knee osteoarthritis: a randomized clinical trial 876 Impacto dos exercícios na capacidade funcional e dor em pacientes com osteoartrite de joelhos: ensaio clínico randomizado 949 Aline Mizusaki Imoto de Oliveira, Maria Stella Peccin, Kelson Nonato Gomes da Silva, Lucas Emmanuel Pedro de Paiva Teixeira, Virgínia Fernandes Moça Trevisani 952 Scheila Fritsch, Vanessa Irusta Dal Pizzol, Eduardo dos Santos Paiva, Carolina de Souza Muller 883 Sexual activity in ankylosing spondylitis 887 Atividade sexual na espondilite anquilosante 956 Andrea Lopes Gallinaro, Lilian Lie Akagawa, Mariana Hissami Ichiba Otuzi, Percival Degrava Sampaio-Barros, Célio Roberto Gonçalves 960 892 Adult dermatomyositis: experience of a Brazilian tertiary care center 897 Dermatomiosite em adulto: experiência de um centro terciário brasileiro Fernando Henrique Carlos de Souza, Thiago Bitar Moraes Barros, Maurício Levy-Neto, Samuel Katsuyuki Shinjo REVIEW ARTICLE | ARTIGO DE REVISÃO 903 907 965 968 924 BRIEF COMMUNICATION | COMUNICAÇÃO BREVE 971 976 943 Sexual dysfunction in patients with psoriasis and psoriatic arthritis − a systematic review Disfunção sexual em pacientes com psoríase e artrite psoriásica − uma revisão sistemática Patricia Shu Kurizky, Licia Maria Henrique da Mota 988 Anti-C1q, anti-chromatin/nucleosome, and anti-dsDNA antibodies in juvenile systemic lupus erythematosus patients Anticorpos anti-C1q, anticromatina/nucleossomo e anti-dsDNA em pacientes com lúpus eritematoso sistêmico juvenile Adriana Almeida de Jesus, Lucia Maria Arruda Campos, Bernadete Lourdes Liphaus, Magda Carneiro-Sampaio, Cristóvão Luis Pitangueira Mangueira, Eliane Aparecida Rosseto, Clovis Artur Almeida da Silva, Morton Scheinberg Cristina Mariano Ruas Brandão, Gustavo Pinto da Matta Machado, Francisco de Assis Acurcio 938 Increased photosensitivity? Case report of porphyria cutanea tarda associated with systemic lupus erythematosus Fotossensibilidade amplificada? Relato de porfiria cutânea tarda associada a lúpus eritematoso sistêmico Scheila Fritsch, Adma Silva de Lima Wojcik, Lilian Schade, Milton Marcio Machota Junior, Fabiane Mulinari Brenner, Eduardo dos Santos Paiva Temporomandibular joint alterations and their orofacial complications in patients with juvenile idiopathic arthritis Alterações da articulação temporomandibular e suas repercussões orofaciais em pacientes portadores de artrite idiopática juvenil Pharmacoeconomic analysis of strategies to treat postmenopausal osteoporosis: a systematic review Análise farmacoeconômica das estratégias de tratamento da osteoporose em mulheres na pós-menopausa: uma revisão sistemática Protein-losing enteropathy in systemic lupus erythematosus: case report Enteropatia perdedora de proteínas no lúpus eritematoso sistêmico: relato de caso Fernando Moreira Batista Aguiar, Zilaís Linhares Carneiro Menescal, Débora Maia da Costa, José Walter Correia, José Gerardo Araújo Paiva, Júlio Marcus Sousa Correia Renata Teixeira de Carvalho, Flávia Silva Farah Ferreira Braga, Fernanda Brito, Jonas Capelli Junior, Carlos Marcelo Figueredo, Flávio Roberto Sztajnbok 912 Autoantibodies coexistence in systemic sclerosis: how to interpret it? Concomitância de autoanticorpos na esclerose sistêmica: como interpretar? INDEX | ÍNDICE 982 989 991 993 Content index | Índice por edição Subject index Índice por assunto Authors index | Índice por autor Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 INDEX | ÍNDICE ÍNDICE POR ASSUNTO A acidentes por quedas, 512 ácido úrico, 658 adipocinas, 278 adiponectina, 278 adulto, 423 agranulocitose, 297 agregado de albumina marcado com 99mTc, 960 alendronato, 265 Anellovirus, 49 anemia hemolítica autoimune, 122 anestesia local, 616 antagonistas de leucotrienos, 30 anticorpos anticardiolipina, 361 anticorpos anticitoplasma de neutrófilos, 434 anticorpos antinucleares, 703 anticorpos, 312 antígeno HLA-B27, 802 antígenos HLA, 82, 370 antioxidantes, 658 antirreumáticos, 152 artéria braquial, 561 articulação do ombro, 352 articulação temporomandibular, 907 artrite idiopática juvenil, 38 artrite psoriásica, 98, 630, 943 artrite reativa, 536 artrite reumatoide inicial, 761 artrite reumatoide juvenil, 727, 907 artrite reumatoide, 9, 152, 181, 208, 252, 278, 483, 523, 648, 653, 686, 824, 837 artrite, 98, 241, 291, 536 artroplastia total de joelho, 195 ascite, 116 atividade da doença, 9 atrofia muscular, 252 autoanticorpos, 976 avaliação de resultados (cuidados de saúde), 241 avaliação, 21 B biomarcadores, 536 bloqueio cardíaco, 802 bloqueio nervoso, 616 Brasil, 152 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 broncoscopia, 231 bursite, 601 C calcinose, 549 capacidade funcional, 9 cardiologia, 379 citrulina, 824 clínicas de dor, 21 cocaína, 434 código genético, 523 cognição, 181 colite, 116 comorbidades, 483 complemento C1q, 976 compressão da medula espinal, 442 consenso, 152 contratura de Dupuytren, 601 coreia, 241 creatina, 457 criança, 128, 423, 727 cromatina, 703 D dapsona, 291 dedo em gatilho, 601 densidade mineral óssea, 457 densidade óssea, 38, 863 depressão, 324 dermatomiosite, 549, 642, 717, 727, 798, 897 dermatopatias, 291 diabetes mellitus, 483, 601 diagnóstico de pneumomediastino, 798 diagnóstico diferencial, 70 diagnóstico, 727 dieta, 395 dinamômetro, 195 dislipidemia, 483 displasia fibromuscular, 70 distúrbios do sono, 672 DNA topoisomerases, 952 DNA, 976 doença crônica, 181 doença de Raynaud, 30 doenças autoimunes, 49, 60, 312 doenças cardiovasculares, 774 doenças maxilares, 265 doenças reumáticas, 82, 423, 887 doenças reumatológicas, 536 dor de ombro, 352, 616 dor lombar, 536 dor, 324 E economia da saúde, 924 educação de pacientes, 672 efeito Doppler, 561 endotélio vascular, 561 ensaio clínico controlado randomizado, 876 enteropatias perdedoras de proteínas, 960 entesite, 536 envelhecimento, 717 epidemiologia, 897 equilíbrio postural, 413, 512 eritema, 291 escleroderma sistêmico, 727 esclerodermia limitada, 561 esclerodermia sistêmica, 952 espondilite anquilosante, 413, 450, 536, 749, 802, 887 espondiloartrite anquilosante, 536 espondiloartrite, 536 espondiloartropatias, 98, 379, 536, 648 estenose traqueal, 231 estimulação elétrica nervosa transcutânea, 220 estresse oxidativo, 658 estresse psicológico, 324 estudos de coortes, 824 F farmacologia, 774 fator de necrose tumoral alfa, 749 fator de necrose tumoral-α, 450 fator reumatoide, 824 fatores de risco, 549, 717 febre reumática, 241 fenômeno de Raynaud, 128 fibromialgia, 21, 181, 324, 501, 672, 737, 851 G gênero, 943 glicocorticoide, 580 granulomatose de Wegener, 231, 434 H hepatite B, 653 hidroterapia, 851 hipertensão arterial, 483 HLA-B27, 749 homocisteína, 128 I idoso fragilizado, 339 imunossupressores, 297 inflamação, 252 inibidor de coagulação do lúpus, 361 inibidores de ciclo-oxigenase 2, 774 inter-relação, 630 L laringoestenose, 231 leishmaniose cutânea, 450 leptina, 278 leucopenia, 110 leucotrienos, 30 ligamento amarelo, 442 linfo-histiocitose hemofagocítica, 793 líquido cefalorraquidiano, 442 livedo reticular, 122 lúpus eritematoso sistêmico juvenil, 976 lúpus eritematoso sistêmico, 116, 181, 278, 361, 395, 49, 60, 658, 703, 793, 807, 960, 968 M manifestações neuropsiquiátricas, 807 medicamentos excepcionais, 208 medição da dor, 220 metotrexato, 450, 837 miosite, 717, 897 modelos animais, 466 N nefrite lúpica, 703 nefrologia, 379 neoplasias, 717 neurologia, 379 neuropatia ciática, 220 neutropenia, 110, 297 nucleossomos, 703, 976 991 INDEX | ÍNDICE O ooforectomia, 466 ortodontia, 907 ortopedia, 786 ossificação do ligamento longitudinal posterior, 442 osteoartrite de joelho, 195, 876, 339, 512 osteoartrite do quadril, 339 osteoartrite, 876 osteocondrite, 786 osteocondrose, 786 osteonecrose, 265 osteoporose pós-menopausa, 466 osteoporose, 457, 580, 863, 924 polimiosite, 642 polimorfismo genético, 82, 523 porfiria cutânea tarda, 968 porfirias, 968 pós-menopausa, 863, 924 postura, 413 processos nutricionais, 395 proctocolite, 648 proteção, 370 proteínas Wnt, 523 psoríase, 630, 943 Q qualidade de vida, 21, 501, 737, 824, 851 questionários, 352, 501, 737 P R pediatria, 786 perda óssea alveolar, 38 perfil de saúde, 686 periodontite, 38 pessoas com deficiência, 339 pneumologia, 379 radiografia convencional, 761 reabilitação, 876 receptores do fator de necrose tumoral, 110 regeneração, 252 relatos de casos, 642 992 reprodutibilidade dos testes, 352 ressonância magnética, 761 resultado de tratamento, 297 reumatologia, 786 revisão, 924 RNA polimerase III, 952 rubéola (sarampo alemão), 312 S serosite, 116 sexualidade, 887, 943 síndrome antifosfolipídica, 361, 642 síndrome da encefalopatia posterior reversível, 807 síndrome de ativação macrofágica, 793 síndrome de Sjögren, 297 síndrome do túnel carpal, 601 sono, 851 suscetibilidade a doenças, 370 switching, 9 T tabagismo, 686 técnicas, 616 terapêutica, 30, 152, 208, 653 terapia anti-TNF-alfa, 9 terapia biológica, 110 terapia nutricional, 395 tireoidite autoimune, 423 torque teno vírus, 49 toxicidade medicamentosa, 837 transplante celular, 122 tratamento, 580 trombocitopenia, 110 U ultrassonografia, 561, 761 uveíte anterior, 749 V validade dos testes, 352 vasculite reumatoide, 370 vasculite, 70, 291, 434 vitamina B12, 863 vitamina D, 60 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 INDEX | ÍNDICE AUTHORS INDEX | ÍNDICE POR AUTOR A Abreu, AV, 783, 786 Abreu, DCC, 507, 512 Acurcio, FA, 912, 924 Adan, LFF, 417, 423 Agmon-Levin, N, 307, 312 Aguiar, FMB, 956, 960 Akagawa, LL, 883, 887 Albuquerque, EA, 375, 379 Altman, A, 307, 312 Alves, AMB, 496, 501 Alves, CRR, 453, 457 Amato, AA, 518, 523 Amital, H, 307, 312 Anaja, JM, 307, 312 Andrada, NC, 569, 580 Andrade, LEC, 357, 361; 695, 703 Arnez, MAC, 790, 793 Artifon, EL, 214, 220 Assis, MR, 496, 501 Azevedo, MNL, 27, 30; 554, 561; 623, 630; 783, 786; 790, 793 Azevedo, VF, 107, 110; 375, 379 B Baldow, RX, 227, 231 Barbas, CV, 227, 231 Barbosa, AJA, 858, 863 Barbosa, C, 545, 549 Barbosa, MA, 610, 616 Barbosa, VS, 271, 278 Barra, GB, 518, 523 Barros, DH, 651, 653 Barros, TBM, 892, 897 Barzilai, O, 307, 312 Bastiani, D, 189, 195 Bautista, WA, 529, 536 Benevides, AN, 447, 450 Bergamaschi, S, 295, 297 Bernardini, EMT, 27, 30 Bertolini, GRF, 214, 220 Bertolo, MB, 135, 152; 366, 370; 375, 379; 474, 483 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 Bezerra, MC, 569, 580 Bianchi, WA, 375, 379 Bica, BERG, 27, 30; 554, 561; 783, 786; 790, 793 Bizzaro, N, 307, 312 Bockayova, E, 125, 128 Bombardieri, S, 307, 312 Bonfa, E, 384, 395 Bonfiglioli, R, 375, 379 Bortoluzzi, SM, 189, 195 Bortoluzzo, AB, 375, 379 Braga, FSFF, 33, 38; 903, 907 Brandão, CMR, 912, 924 Breda, CA, 319, 324 Brenner, FM, 965, 968 Brenol, CV, 75, 82; 135, 152; 474, 483 Brito, F, 903, 907 Brozoski, MA, 260, 265 Burlamaqui, MPM, 447, 450 Burlingame, RW, 819, 824 C Campanholo, C, 375, 379 Campos, LMA, 971, 976 Capelli Junior, J, 903, 907 Carneiro-Sampaio, M, 971, 976 Carneiro, S, 375, 379 Carvalho, AV, 858, 863 Carvalho, HMS, 375, 379 Carvalho, JF, 518, 523; 569, 580; 819, 824 Carvalho, RT, 903, 907 Carvalho, SM, 236 Castro, AAM, 846, 851 Castro, ARCM, 4, 49 Castro, GRW, 295, 297; 431, 434; 438, 442 Chies, JAB, 75, 82 Ciconelli, RM, 3, 9 Clemente, G, 545, 549 Conde, RA, 366, 370 Correia, JMS, 956, 960 Correia, JW, 956, 960 Corrente, JE, 236, 241 Correr, CJ, 203, 208 Costa, AJG, 55, 60 Costa, DM, 956, 960 Costa, IP, 44, 49; 375, 379 Costa, J, 804, 807 Costa, MR, 44, 49 Costa, RA, 666, 672 Costallat, LTL, 366, 370 Cruz, BA, 135, 152; 474, 483 Cruz, VA, 645, 648 Cubidez, MF, 830, 837 Cunha, DM, 214, 220 Cusmanich, KG, 733, 737 D Da-Silva, SL, 175, 181 Dalben, I, 236, 241 Damoiseaux, J, 307, 312 Danowski, JS, 569, 580 Dantas, AT, 55, 60 Deboni, MCZ, 260, 265 Devalle, S, 44, 49 Dias, JMD, 331, 339 Dias, RC, 331, 339 Domiciano, DS, 569, 580 Doubrawa, E, 651, 653 Duarte, ALBP, 55, 60 Duarte, AP, 375, 379 E Elmann, D, 742, 749 F Favarato, MHS, 92, 98 Feitosa, A, 120, 122 Feldman, D, 496, 501 Fernandes, B, 288, 291 Fernandes, D, 767, 774 Fernandes, JL, 757, 761 Fernandes, MR, 610, 616 Fernandes, SRM, 366, 370 Fernandes, TM, 27, 30; 554, 561 Fernandez, DJ, 529, 536 Ferreira, E, 120, 122 Fialho, SCMS, 295, 297; 431, 434 Figueiredo, VR, 227, 231; 796, 798 Figueredo, CM, 903, 907 Figueredo, CMS, 33, 38 Filho, PRM, 331, 339 Filippin, LI, 247, 252 Fischer, RG, 33, 38 Fontenelle, LMAR, 447, 450 Foss, MH, 16, 21 Fraga, RO, 288, 291 Fragoso, TS, 55, 60 Freire, EAM, 66, 70 Freitas, CZX, 804, 807 Freitas, MVC, 135, 152; 474, 483 Freitas, SZ, 44, 49 Fritsch, S, 949, 952; 965, 968 G Gadonski, G, 804, 807 Gallinaro, AL, 666, 672; 733, 737; 883, 887 Gilburd, B, 307, 312 Giorgi, RDN, 135, 152; 474, 483 Góes, SM, 319, 324 Goldenstein-Schainberg, C, 92, 98; 733, 737 Gomes, KWP, 447, 450 Gomes, MM, 507, 512 Gonçalves, CR, 375, 379; 733, 737; 883, 887 Gonçalves, H, 569, 580 Gouveia, EB, 742, 749 Grochocki, MC, 203, 208 Gualano, B, 453, 457 Guimarães, F, 453, 457 Gurgel, MG, 66, 70 Guzman, C, 830, 837 H Hamerschlak, N, 120, 122 993 INDEX | ÍNDICE Heinzmann, F, 27, 30 Hilário, MOE, 545, 549; 695, 703; 722, 727 Homann, D, 319, 324 I Imamura, M, 569, 580 Irigoyen, MC, 453, 457 Jacomelli, M, 227, 231; 796, 798 J Jesus, AA, 971, 976 Junckes, L, 431, 434 Junior, LFR, 55, 60 K Kakehasi, AM, 858, 863 Keiserman, M, 375, 379 Keusseyan, SP 357, 361; 695, 703 Khajuria, DK, 462, 466 Klack, K, 384, 395 Knaut, LAM, 348; 352 Kohem, CL, 375, 379 Kowalski, SC, 733, 737 Kümpel, C, 846, 851 Kurizky, PS, 938, 943 Kutilek, MDS, 125, 128 L Lage, LV, 666, 672 Lancha Junior, AH, 453, 457 Laurindo, IMM, 757, 761; 819, 824 Leite, N, 319, 324 Leite, NH, 375, 379 Len, CA, 545, 549; 722, 727 Levy-Neto, M, 639, 642; 892, 897 Lima, DSN, 656, 658 Lima, ES, 656, 658 Lima, FAC, 518, 523; 757, 761 Lima, RAC, 135, 152; 474, 483; 518, 523 Lima, SAL, 375, 379 Lima, SMAL, 409, 413 Liphaus, BD, 971, 976 Londono, J, 529, 536; 830, 837 Louzada-Junior, P, 135, 152; 474, 483 Luz, KR, 3, 9 M Machado, GPM 912, 924 Machado, RF, 288, 291 Machota Junior, MM, 965, 968 Magalhães, CS, 236, 241 Magalhães, VO, 645, 648 Mahapatra, DR, 462, 466 994 Maksud, FAM, 858, 863 Malucelli, TO, 651, 653 Mangueira, CLP 971, 976 Marcondes, F, 27, 30 Marina Petrella, 507, 512 Marinello, DK, 107, 110 Marques Neto, JF, 569, 580 Marques, CDL, 55, 60 Marques, MM, 260, 265 Marrone, L, 804, 807 Martins, MRI, 16, 21 Martins, RAG, 554, 561 Medeiros, AC, 66, 70 Medina, JF, 529, 536 Meireles, A, 214, 220 Meirelles, ES, 375, 379 Melo, JHL, 55, 60 Melo, LF, 175, 181 Ménard, HA, 819, 824 Mendes, RT, 767, 774 Mendlovitz, PS, 757, 761 Mendonça, LMC, 569, 580 Menescal, ZLC, 956, 960 Menin, R, 375, 379 Miguel, RCC, 331, 339 Molina, MP, 800, 802 Morales, MSA, 742, 749 Moser, ADL, 348, 352 Mota, LMH, 135, 152; 474, 483; 518, 523; 757, 761; 819, 824; 938, 943 Moura, MC, 679, 686 Muller, CS, 949, 952 Murai, IH, 453, 457 N Naclério-Homem, MG, 260, 265 Nascimento, CM, 214, 220 Natour, J, 496, 501 Nemec, MDV, 125, 128 Neto, AA, 113, 116 Neto, EFB, 384, 395 Neto, ETR, 3, 9 Netto, RCM, 656, 658 Neves, FS, 295, 297; 431, 434; 438, 442 Neves, TM, 507, 512 Nicastro, H, 453, 457 Nishimura, WE, 366, 370 O Okuda, EM, 695, 703 Oliveira, AMI, 870, 876 Oliveira, RDR, 507, 512 Orlandi, AC, 666, 672 Otuki, MF, 767, 774 Otuzi, MHI, 883, 887 P Paiva, ES, 319, 324; 949, 952; 965, 968 Paiva, ES, 651, 653 Paiva, JGE, 956, 960 Papi, JAS, 554, 561 Paranhos, FF, 783, 786 Paula, AP, 569, 580 Peccin, MS, 870, 876 Peracchi, OA, 545, 549 Pereira, IA, 135, 152; 295, 297; 375, 379; 431, 434; 438, 442; 474, 483; 819, 824 Pereira, RMR, 453, 457; 569, 580 Pérez, LCG, 656, 658 Pérez, YG, 656, 658 Pinheiro, GRC, 135, 152; 474, 483 Pinheiro, MM, 3, 9, 375, 379 Piotto, DGG, 545, 549; 722, 727 Pizzol, VID, 651, 653; 949, 952 Plapler, PG, 569, 580 Polito, E, 375, 379 Polvero, LO, 16, 21 Pompeu, JE, 409, 413 Pompeu, SMAA, 409, 413 Pontarolli, DRS, 203, 208 Pontarolo, R, 203, 208 Pontes, TC, 66, 70 Porto, EF, 846, 851 Pott Júnior, H, 113, 116 Provenza, JR, 113, 116 Q Quiroga, JA, 529, 536 R Rabelo, FS, 518, 523 Radominski, S, 569, 580 Ram, M, 307, 312 Ramona, P, 453, 457 Ramos, GC, 610, 616 Ranza, R, 92, 98 Razdan, R, 462, 466 Rego, J, 271, 278; 645, 648 Reis, JG, 507, 512 Resende, GG, 375, 379 Restrepo, JP, 800, 802 Rezende-Fronza, LS, 135, 152; 474, 483 Ribeiro, CN, 645, 648 Ribeiro, SLE, 375, 379 Ribeiro, TMS, 331, 339 Ricca, RAM, 651, 653 Ritzel, CH, 189, 195 Robazzi, TCMV, 417, 423 Rocha, CE, 16, 21 Rocha, FAC, 375, 379 Rodrigues, AJ, 227, 231; 796, 798 Rodrigues, CEM, 375, 379 Romano, RSL, 409, 413 Romero-Sanchez, MC, 529, 536 Rosa, DJF, 288, 291 Rosseto, EA, 971, 976 Rufino, GP, 66, 70 Ruiz, DG, 623, 630; 783, 786 S Salles, EF, 27, 30 Salles, EF, 554, 561 Sampaio-Barros, PD, 375, 379; 883, 887 Santiago, MB, 375, 379 Santos Junior, R, 16, 21 Santos Neto, LL, 757, 761, 819, 824 Santos, AM, 529, 536; 830, 837 Santos, FA, 767, 774 Santos, FD, 107, 110 Santos, OLR, 623, 630 Santos, PI, 830, 837 Sato, EI, 357, 361 Sauma, MFLC, 375, 379 Schade, L, 965, 968 Scharan, KO, 348, 352 Scheinberg, MA, 120, 122; 971, 976 Scordamaglio, PR, 796, 798 Scotton, AS, 288, 291 Shamis, A, 307, 312 Shiguematsu, FY, 438, 442 Shinjo, SK, 639, 642; 713, 717; 892, 897 Shoenfeld, Y, 307, 312 Silva, CAA, 971, 976 Silva, FB, 33, 38 Silva, GBG, 107, 110 Silva, JAB, 375, 379 Silva, KMOM, 846, 851 Silva, KNG, 870, 876 Silva, MBG, 107, 110; 594, 601; 679, 686 Silva, NA, 135, 152; 271, 278; 474, 483; 645, 648 Silva, NP 357, 361; 695, 703 Silva, SLA, 331, 339 Silva, TLO, 33, 38 Skare, TL, 375, 379; 594, 601; 679, 686 Soares, MRMP, 3, 9 Sordi, R, 767, 774 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 INDEX | ÍNDICE Sousa, ALL, 610, 616 Souza, AA, 33, 38 Souza, AWS, 357, 361 Souza, ECC, 438, 442 Souza, FHC, 639, 642; 713, 717; 892, 897 Souza, LAL, 733, 737 Souza, VA, 288, 291 Stahelin, L, 431, 434 Stanczyk, CP, 767, 774 Staub, HL, 804, 807 Stefanello, JMF, 319, 324 Stojanovich, L, 307, 312 Streck, AS, 804, 807 Szejnfeld, VL, 569, 580 Sztajnbok, FR, 33, 38; 903, 907 Rev Bras Reumatol 2012;52(6):982-995 Szyper-Kravitz, M, 307, 312 T Takayama, L, 453, 457 Teixeira, LEPP, 870, 876 Teixeira, MAB, 113, 116 Teixeira, VON, 247, 252 Terreri, MTA, 545, 549; 569, 580; 695, 703; , 722, 727 Tervaert, JWC, 307, 312 Torres, VG, 529, 536 Tourinho, T, 569, 580 Traina, AA, 260, 265 Trevisani, VFM, 870, 876 Tucano, SJP, 846, 851 V Valim, V, 375, 379 Valle-Oñate, R, 529, 536; 830, 837 Vaz, MA, 189, 195 Veit, TD, 75, 82 Venson, R, 203, 208 Ventura, C, 666, 672 Viana, SL, 757, 761 Vieira, FJF, 447, 450 Vieira, MAP, 447, 450 Vieira, WP, 375, 379 Villela, NR, 554, 561 W Weingrill, P, 569, 580 Wiens, A, 203, 208 Wojcik, ASL, 965, 968 X Xavier, RM, 75, 82, 247, 252 Ximenes, AC, 375, 379 Y Yamaguchi, L, 645, 648 Z Zakszewski, PTS, 679, 686 Zerbini, C, 569, 580 Zimmermann, AF, 295, 297; 438, 442 Zotz, TG, 348, 352 995