Alexandro Rodrigues Ribeiro SUMÁRIO INTRODUÇÃO............................................................................................... 1. A CONSTRUÇÃO DO PROBLEMA ......................................................... 2. METODOLOGIA – O LEVANTAMENTO DOS DADOS....................... 2.1. TIPO DE ESTUDO.................................................................................... 2.2. O LUGAR DA PESQUISA E A CONSTRUÇÃO DA AMOSTRA........ CAPITULO I: A RELAÇÃO HOMEM / NATUREZA: A EDUCAÇÃO AMBIENTAL COMO RESPOSTA A ALGUNS PROBLEMAS.............. 1.1. A HISTÓRIA DA PRODUÇÃO ECONÔMICA E SEUS IMPACTOS SOBRE O AMBIENTE.................................................................................... 1.2. CRISE AMBIENTAL E DEGRADAÇÃO............................................... 1.2.1. DESASTRES ECOLÓGICOS E SENSIBILIZAÇÃO.......................... 1.3. EDUCAÇÃO AMBIENTAL UMA RESPOSTA AOS RISCOS............. 1.3.1. VISÕES DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL............................................ 1.4. UMA NOVA CULTURA – A RESPONSABILIDADE SOCIAL DAS EMPRESAS...................................................................................................... 1.4.1. A NORMATIZAÇÃO DA RESPONSABILIDADE SOCIAL.............. CAPITULO II: A EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO EM ALTO DO RODRIGUES: UMA ATIVIDADE DE RISCOS........................................ 2.1. INTRODUÇÃO......................................................................................... 2.2. O PETRÓLEO NO BRASIL E A PETROBRAS...................................... 2.3. O PETRÓLEO NO RIO GRANDE DO NORTE...................................... 2.4. O PETRÓLEO E A PETROBRAS EM ALTO DO RODRIGUES........... 2.4.1. ALTO DO RODRIGUES – ALGUNS DADOS..................................... 2.4.2. A EXPLORAÇÃO DO PETRÓLEO EM ALTO DO RODRIGUES..... 2.5. OS PROBLEMAS AMBIENTAIS DA COMUNIDADE.......................... 03 03 04 04 05 36 36 37 42 43 43 45 47 CAPITULO III: O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA PETROBRAS................................................................................................... 51 09 09 10 16 17 23 28 31 3.1. INTRODUÇÃO.......................................................................................... 3.2. CONCEPÇÃO E HISTÓRIA..................................................................... 3.3. DESTINATÁRIOS DO PROGRAMA: AGENTES INTERNOS............. 3.4. ATORES EXTERNOS: A AÇÃO A PARTIR DA ESCOLA................... 3.4.1. A FORMAÇÃO DOS PROFESSORES.................................................. 3.4.2. AÇÕES COMUNITÁRIAS..................................................................... 3.4.3. AÇÕES NA ESCOLA............................................................................. 3.4.4. ATORES EXTERNOS: A COMARG..................................................... 3.5. CONCEPÇÃO AMBIENTAL DOS MULTIPLICADORES..................... 3.6. A CONTINUIDADE DO PROGRAMA NA AÇÃO DOS MULTIPLICADORES : A BOSCH SERVIÇOS....................................... 3.7. A VISÃO AMBIENTAL DAS LIDERANÇAS LOCAIS E O ENGAJAMENTO PESSOAL........................................................................... 51 51 53 56 56 57 58 61 64 CONCLUSÕES................................................................................................. BIBLIOGRAFIA.............................................................................................. 72 76 67 69 Alexandro Rodrigues Ribeiro Introdução 1. A construção do problema O relacionamento do ser humano com a natureza tem um forte caráter histórico, que se revela nas diferentes formas como esse relacionamento se caracterizou ao longo do tempo. A história da tecnologia expressa as singularidades desse relacionamento. Para gerar os produtos de que os humanos precisam para a sobrevivência, o uso dos recursos naturais é imprescindível. Essa atividade no entanto, não só gera resíduos que são “devolvidos” para a natureza, como altera os estoques desses recursos. Esse processo foi intensificado após a Revolução Industrial, em razão da capacidade tecnológica criada. O processo de transformação de produtos primários em industrializados origina dois problemas: a degradação ambiental, pela retirada excessiva de recursos, e a poluição, pela produção de dejetos. A questão ambiental entra no imaginário contemporâneo a partir da visualização desses problemas e se firma nos anos 90, grande parte em conseqüência dos encontros temáticos promovidos pela organização das Nações Unidas, como a Eco 92, conferência de cúpula realizada no Rio de Janeiro da qual participaram mais de 100 chefes de Estado. Dentre as atividades produtivas existentes, as que mais exigem um cauteloso modo de utilização de seus recursos é a extração de recursos naturais não renováveis. O principal produto utilizado para a geração de energia, em forma de combustível fóssil encontrado na natureza, é o petróleo. Sua exploração, no entanto, gera grande risco ao meio ambiente, não somente na sua extração, mas também no transporte, no armazenamento e na utilização. No Brasil, a principal empresa que explora esse recurso é a estatal Petróleo Brasileiro S.A. PETROBRAS. Devido a importância dos recursos que ela explora, e visando diminuir os riscos da atividade, a Petrobras desenvolveu um Programa de Educação Ambiental cujo objetivo era a sensibilização dos funcionários e seus familiares para a questão ambiental, e que no município de Alto do Rodrigues, estado do Rio Grande do Norte se estendeu também à comunidade, como projeto-piloto com o nome de Programa de Educação Ambiental na Comunidade – PEAC. Como se deu a concepção e o desenvolvimento desse Programa de Educação Ambiental e que impactos ele causou na comunidade? Este é o nosso problema de pesquisa. Buscamos na pesquisa de campo analisar os fatores que motivaram a empresa a adotar tal programa, as diversas etapas do desenvolvimento do programa, seus principais resultados e os impactos nas relações com a comunidade, analisados através da percepção de atores locais e de ações efetivamente empreendidas. Desse modo, as definições de desenvolvimento sustentável, educação ambiental, bem como os impactos provocados pela exploração dos recursos naturais serão contrastados com os dados levantados, completando a finalidade da pesquisa. A noção de Educação Ambiental é uma definição cara ao nosso percurso investigativo. Para compreendê-la, retomamos uma idéia já apresentada: o setor produtivo é responsável por parcela significativa 2 Alexandro Rodrigues Ribeiro dos problemas ambientais globais. Entretanto, estudos e propostas elaboradas nas últimas décadas, têm afirmado que é possível compatibilizar o desenvolvimento econômico e social com a preservação da qualidade do meio ambiente e do equilíbrio ecológico (Valle, 1995). Desse modo, a Educação Ambiental é um instrumento que pode atuar como mediador entre a economia e o meio ambiente. A Educação Ambiental, orientada para a resolução de problemas concretos do meio ambiente, surge para tentar minimizar os problemas advindos da exploração dos recursos naturais. A capacidade de intervenção na natureza é dada pelo grau de desenvolvimento tecnológico do agente, por seu poder econômico e, também, pelo tipo de atividade praticada. Assim, a capacidade de um agente como a Petrobras provocar impactos é considerável, mesmo se ela possui uma política de controle de riscos e um programa de educação ambiental. Segundo Dias (2003), as finalidades da Educação Ambiental devem adaptar-se à realidade sóciocultural, econômica e ecológica de cada sociedade e de cada região, e particularmente aos objetivos do seu desenvolvimento. Como se tem claro hoje o descompasso entre a velocidade da evolução econômica e social e a capacidade de reorganização físico-química e biológica do planeta, a Educação Ambiental surge como instrumento de sensibilização e conscientização no sentido de buscar soluções para impactos ocorridos e prevenção para aquelas possíveis de ocorrer. 2. Metodologia – o levantamento dos dados 2.1. Tipo de estudo Considerando-se o objetivo geral desta investigação, entende-se que o levantamento dos dados caracterizou-se como um estudo não experimental, ou ex-post-facto, segundo a classificação de Kerlinger (1980, p.130) Quanto aos fins, na classificação de Vergara (1997), trata-se de uma pesquisa exploratória, devido ao pouco conhecimento acumulado sobre as práticas de educação ambiental em empresas, daí a necessidade de aprofundar os estudos existentes, examinando um caso em particular, e também descritiva, por expor características e experiências em educação ambiental e descrever as interações e reações da população em relação a essa experiência. A pesquisa descritiva, segundo Gil (1991, p.46), tem como objetivo principal a descrição detalhada do problema, o que a aproxima da pesquisa exploratória. Contando com a contribuição de Tripodi (1978, p.40), a pesquisa exploratória descritiva tem como finalidade refinar e desenvolver conceitos e hipóteses. Tanto descrições qualitativas como quantitativas do fenômeno estudado fazem parte do levantamento dos dados. Quanto aos meios, Dencker (1998, p.127) revela que o estudo de caso é um estudo exaustivo e profundo de determinada situação ou objeto, o qual permite um conhecimento aprofundado dos processos e relações sociais. Cada caso, conforme Yin (1994), deve representar um estudo completo deixando claro no final a demonstração das proposições levantadas. Yin recomenda que sejam retomados os objetivos propostos e avaliados se foram atingidos. Para Creswell (1997 apud Sato 2001) trata-se de uma pesquisa etnográfica, aquela que busca analisar, descrever e interpretar uma cultura, um grupo social ou um sistema. 2 Alexandro Rodrigues Ribeiro “Caracterizada por ser uma pesquisa tradicional da Antropologia Clássica, requer cuidadosa observação ou imersão no cotidiano da população considerada. Entretanto, a Antropologia Interpretativa (Sato & Passos, 2001) trouxe modificações no funcionalismo estrutural, com destaque ao interacionismo simbólico, cultural ou cognitivo (cultura, comportamento, linguagem e artefatos), com respeito à diversidade e contra a generalização simbólica estabelecida pela Antropologia Clássica” (Sato, 2001, p. 9) 2.2. O lugar da pesquisa e a constituição da amostra A pesquisa ocorreu no município de Alto do Rodrigues-RN, localizado na Mesorregião Oeste Potiguar, na microrregião do vale do Açu. O município tem uma área de 207,4 km2, o que corresponde a 0,39% da superfície do estado do Rio Grande do Norte. Conforme dados do IBGE, a população, de acordo com o censo de 2000, é de 9.500 habitantes, sendo 6.488 na zona urbana e 3.012 na zona rural. Curiosamente, há mais homens que mulheres nessa população: 4.849 contra 4.651 mulheres. A taxa de mortalidade infantil diminuiu 47,96%, passando de 77,33 (por mil nascidos vivos) em 1991 para 40,24 (por mil nascidos vivos) em 2000. A esperança de vida ao nascer cresceu 9,54 anos, passando de 58,11 anos em 1991 para 67,65 anos em 2000. Com relação à educação, conforme dados do Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, o nível educacional da população adulta (25 anos ou mais), apresenta os seguintes números: taxa de analfabetismo 32,8 em 2000, média de 4 anos de estudos em 2000. O nível de capacitação de professores é relativamente confortável. Dos 133 docentes das redes municipal e estadual de ensino, 80% têm licenciatura, 16% têm especialização, 1% tem mestrado e apenas 3% têm somente o II Grau. Com relação à renda per capita, ela é de R$ 143,88 em 2000. A pobreza1 diminuiu 37,23%, na última década, caindo de 71,7% em 1991 para 45,0% em 2000. Num sentido geral, houve evolução na situação do município: o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal – IDHM , em 1991 era de 0,554 e passou para 0,688 em 20002. Verificar os reflexos de um programa educacional em uma comunidade é uma tarefa complexa, no qual a construção da amostra é um passo fundamental. Nossa amostra caracterizou-se como amostra intencional ou de seleção racional. Segundo Richardson (1989), a seleção da amostra se baseia em certas premissas estabelecidas no plano e nos objetivos e na hipótese formulada pelo pesquisador. A amostra deve representar cada uma das partes da população. No nosso caso, ela foi delimitada a partir de informações da Petrobrás sobre a população atingida por seu programa de educação ambiental e pelas matizações sociais desse contingente. 1 Medida pela proporção de pessoas com renda domiciliar inferior a R$ 75,50, equivalente a metade do salário mínimo vigente em agosto de 2000. 2 O IDHM – Mede o desenvolvimento humano de uma unidade geográfica, em termos de esperança de vida (longevidade), nível educacional (educação) e rendimento real ajustado (renda). A ONU classifica países ou regiões de baixo desenvolvimento se o IDH for menor 0,500; de médio desenvolvimento humano para os índices entre 0,500 e 0,800, e alto desenvolvimento humano quando o indicador for superior a 0,800. 3 Alexandro Rodrigues Ribeiro Foram informantes da pesquisa empírica: o representante do setor de comunicação da Petrobras e monitores do Programa, atores sociais da comunidade que direta ou indiretamente foram alvo do Programa. Também foram utilizados documentos do planejamento da Petrobrás relativos à sua política ambiental e relatórios de avaliação do Programa de Educação Ambiental. Ao todo foram entrevistados 13 professores da rede estadual e municipal de ensino, o coordenador pedagógico do município, o secretário de educação do município, que representaram os disseminadores diretos do Programa. Quatro vereadores, um padre, dois comerciantes, dois cidadãos comuns foram entrevistados representando a comunidade, sendo um funcionário da prefeitura e o outro um militante do município para as questões ambientais do município. Para o levantamento das informações junto a esses informantes, foram confeccionados dois tipos de questionários principais. O instrumento principal de coleta de dados foi o questionário, complementado pelos documentos oficiais a que se teve acesso. O questionário se constituiu de duas partes diferentes e complementares. A primeira com o objetivo de coletar dados pessoais e identificar o perfil do entrevistado. A segunda parte elaborada com questões abertas, buscando mapear opiniões, atitudes e comportamentos relacionados ao Programa. Uma cópia desses instrumentos se encontra no apêndice. Enfim, o levantamento dos dados foi efetuado, usando-se o questionário, entrevistas gravadas, pesquisa bibliográfica e análise de documentos oficiais. Para que nenhuma informação passasse despercebida no ato da entrevista, já que grande parte das questões eram abertas, as entrevistas foram gravadas e posteriormente transcritas para melhor análise. Também foram feitas anotações de próprio punho no caderno de campo para registro de relatos e informações obtidas em conversas informais durante visitas à comunidade. A coleta de dados na comunidade foi realizada no mês de abril de 2004. Entretanto algumas visitas foram feitas antes desse período. O primeiro contato com a Petrobras ocorreu em outubro de 2001, em Natal, quando a empresa autorizou e incentivou a elaboração a realização da pesquisa. Esse contato foi mantido com o Sr. Antônio Silva Santos, antigo coordenador do Programa de Educação Ambiental. Na ocasião, ele fez uma apresentação com slides de aproximadamente uma hora e meia, relatando os motivos da implantação do Programa. Nos slides apresentados pode-se conhecer a área onde foi aplicado o Programa, a metodologia, as pessoas envolvidas, o cronograma e os objetivos, bem como as instalações da Petrobras na região. Nesse primeiro encontro, ele se mostrou atencioso e disposto a colaborar com informações e o fornecimento de relatórios, além de demonstrar o interesse da empresa em saber do resultado da pesquisa, uma vez que o Programa de Educação Ambiental nunca havia sido analisado. Em outubro de 2002 foi realizada uma visita ao Pólo Industrial de Guamaré. Nessa oportunidade passamos pelo município de Alto do Rodrigues. Foi então que conheci a cidade e a base da Petrobras no município. Em janeiro de 2003, através do Projeto de Recuperação de Áreas Degradadas, um convênio da UERN com a Petrobras, pude ir novamente à base de Alto do Rodrigues. Nessa oportunidade se estabeleceram contatos com a gerência de comunicação. Assim, pude conhecer com maiores detalhes as atividades da Petrobras na região. Em seguida, fizemos uma viagem de reconhecimento da área onde posteriormente seria realizada a pesquisa, conhecendo os locais de retirada de petróleo, a operação dos 4 Alexandro Rodrigues Ribeiro “cavalos mecânicos” que extraem o petróleo do sub-solo, e as comunidades do entorno. Em janeiro de 2004, já se preparando para realizar a coleta dos dados, nova visita foi feita à base em Natal. Novamente fui recebido pelo Sr. Antonio Silva Santos que me forneceu relatórios do Programa de Educação Ambiental e da instituição. Em abril de 2004 inicia-se a coleta dos dados na comunidade. Como essa etapa visava colher dados dos professores, entrei então em contato com a Secretaria de Educação do Município de Alto do Rodrigues e através da Secretária de Educação, Sra. Socorro de Sousa, fiquei conhecendo as escolas estaduais e municipais, aí identificando os diretores e professores que fizeram parte do Programa de Educação Ambiental na Comunidade. As visitas foram então acontecendo, assim pude ir percebendo o interesse que os professores tinham pelo Programa, pois sempre quando os convidava para a entrevista e explicava a que se referia, os professores, com ar de surpresa e alegria, de imediato já perguntavam se seria para a continuidade dos treinamentos, sinal de que a experiência vivida há 7 anos deixara marcas existências fortes. Desse modo, foram sendo desenvolvidas as atividades da pesquisa de campo. Com o passar do tempo, e através do contato com os informantes, fui conhecendo a realidade do Programa, suas atividades na prática e os seus principais participantes. Tive conhecimento, através das entrevistas e dos relatos dos professores, das ações desenvolvidas pela Coordenação de Meio Ambiente do Alto do Rodrigues (Comarg) e pelo Sr. Jan Van den Bosch então presidente da entidade na época, tanto na escola quanto na comunidade. No final da tarde do primeiro dia de entrevistas, em uma escola estadual, recebi a visita do Sr. Jan, conhecido como (Ian), dando-me boas vindas e se colocando à disposição para fornecer informações a respeito do Programa. A visita inesperada se deu pela repercussão de minha presença nas escolas e por estar gravando entrevistas a respeito do Programa de Educação Ambiental, o que lhe chamou a atenção, pois é um grande defensor ambiental no município. Assim, fui me sentindo à vontade e me preparando para conhecer as pessoas da comunidade envolvidas nas atividades do Programa, pois as próximas entrevistas seriam com membros de fora da comunidade educacional. Com a ajuda do Sr. Jan, tive um melhor acesso aos comerciantes, aos funcionários da Prefeitura que participaram dos treinamentos, aos vereadores e a todos os locais para onde precisasse me deslocar para poder obter informações. No decorrer das atividades, foram realizadas 4 visitas no mês de abril, e mais três em outras ocasiões para poder checar algumas informações. Em uma das ocasiões, mais precisamente na abertura da Semana do Meio Ambiente, no dia 04 de junho de 2004, quando convidado para participar das atividades, pude realizar uma palestra apresentando algumas análises já baseadas nos dados coletados. Coletados os dados, passamos à sua análise como se tratara de pesquisa qualitativa, não empregamos um instrumental estatístico. Para Richardson (1989), a análise qualitativa tem como objeto situações complexas ou estritamente particulares, buscando o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos. A análise de conteúdo foi a técnica utilizada para tratar os dados. Tal método consiste em um grupo de técnicas destinados a determinar certas características da comunicação verbal, escrita ou oral. Foi realizada a decomposição das falas em unidades e posterior classificação por reagrupamento. 5 Alexandro Rodrigues Ribeiro Para atingir o primeiro objetivo específico “Investigar os fatores que motivaram a implantação do Programa de Educação Ambiental, sua concepção, as etapas de desenvolvimento do mesmo e os resultados esperados pela empresa” foram investigados os relatórios internos, as entrevistas e o registro de conversas com os responsáveis pelo programa. Outro objetivo específico foi também atingido com a análise de conteúdo: “Diagnosticar os impactos do programa de educação ambiental através da percepção dos professores do município”. O presente estudo está organizado em 3 capítulos: no primeiro tratamos das relações do homem com a natureza, da criação tecnológica e de seus impactos sobre o meio ambiente, percepção forjada nas últimas que desemboca na Educação Ambiental; no segundo tratamos do petróleo e dos riscos de sua exploração, particularizando essa exploração no município de Alto do Rodrigues; por fim, no terceiro capítulo, apresentamos o Programa de Educação Ambiental e seus efeitos, valendo-se dos resultados de nossa pesquisa. 6 Alexandro Rodrigues Ribeiro Capítulo I : A relação homem/natureza: a Educação Ambiental como resposta a alguns problemas 1.1. A história da produção econômica e de seus impactos sobre o ambiente Na economia capitalista, predominante nos países industrializados ou em vias de industrialização, a utilização intensiva dos recursos naturais é condição necessária para garantir o processo de produção. Mas nem sempre foi assim. Para discutir a questão da utilização dos recursos naturais e demonstrar que a sociedade humana em sua evolução já passou por diferentes fases e hoje se defronta com os limites físicos do ecossistema, será analisada a relação homem/natureza e suas transformações. O ser humano sempre manteve um relacionamento desigual com a natureza, assumindo o paradigma do predador. Este tipo de relacionamento vem desde os tempos pré-históricos (a origem de ancestrais humanos remonta a dois milhões de anos, com os grupos de caçadores-coletores), passa pelas civilizações da Antiguidade, pelo colonialismo e mercantilismo da Idade Moderna, pela Revolução Industrial e chega até nossos dias, vigorando como modelo ideal por boa parte do Século XX (Távora Jr., 2001, p.1). A mentalidade dominante, sob esta perspectiva, incrivelmente acentuada a partir da Revolução Industrial e resistente ainda hoje, era a de que a civilização, compreendida como desenvolvimento econômico, seria representada pela contínua luta do homem contra a natureza, no sentido de dominá-la e recriá-la. As comunidades humanas primitivas retiravam do meio quase que só o necessário para sua manutenção, vivendo basicamente do consumo dos recursos renováveis. O homem viveu inicialmente da colheita de frutos e fragmentos de vegetais, além de animais fáceis de capturar. A invenção dos primeiros instrumentos pontiagudos lhe permitiu a caça e a pesca, portanto, um início de atividades depredadoras. Nessa época, o homem se via como parte integrante da natureza, pois suas atividades pouco modificavam seu habitat; a derrubada de árvores para alimentar o fogo e a construção de clareiras onde montavam seus acampamentos eram insuficientes para degradar a natureza (Dorst, 1973). Ainda segundo este autor o homem modificou progressivamente seu meio de subsistência, passando a pastor e posteriormente a agricultor. Essas atividades geraram mais impactos do que a de caçador, pois esta se dava em habitats fechados (florestas), enquanto a agricultura se dava em habitats abertos (savanas e estepes) e o processo de transformação desse habitat utilizava-se do fogo, eliminador de recursos naturais bióticos. Para as atividades agrícolas, o homem passou a utilizar o solo e a interferir no seu estado natural, que era o de apresentar coberto por gramíneas, árvores e arbustos. A partir de então, o processo de modificação se intensifica, principalmente pelo desflorestamento. O surgimento de ferramentas como o arado de ferro possibilitou a expansão da agricultura, substituindo as ferramentas primitivas, de pedra ou madeira. A partir daí, a possibilidade de expandir as áreas agrícolas aumentou. Essa expansão favoreceu o crescimento da população que, daí em diante, não precisou viver mais confinada, começando o processo de migração. 7 Alexandro Rodrigues Ribeiro As sociedades pré-capitalistas já apresentavam um grau considerável de avanço urbano e comercial, mas seu nível de desenvolvimento produtivo e populacional era ainda pequeno, não chegando a ameaçar de forma generalizada o equilíbrio do meio natural. O desflorestamento e a poluição do ar causada pelas fundições e pela queima de carvão foram alguns registros de problemas ambientais devido à ruralização das classes produtoras, mesmo assim o impacto destrutivo da ação humana não avançou em demasia, mantendo-se em nível suportável. De acordo com Lago (1984), ao longo da história pré-capitalista, o baixo nível de desenvolvimento das forças produtivas permitiu uma falsa impressão da existência de recursos naturais em quantidade ilimitada, para suprir o crescimento permanente das sociedades humanas. As limitações das forças produtivas e a percepção de que os recursos eram ilimitados começaram a mudar, mas muito tenuemente, a partir dos séculos XVIII e XIX, quando a vida do homem muda radicalmente no curso e após a Revolução Industrial. Em conseqüência disso, a percepção do ser humano em relação ao meio ambiente também se transformou. Essa nova realidade estabelece uma economia industrializada baseada numa tecnologia em alto desenvolvimento e que consome cada vez mais energia e matéria-prima. Seus reflexos são, em pouco mais de um século, visíveis, tamanho os impactos gerados por este modo de produção, o qual também necessita de um mercado em permanente expansão, alargado pela criação de novas necessidades. Rossetti (1991, p. 60) define, entre outros, o objeto de estudo da economia como sendo “a utilização dos recursos escassos para a satisfação de necessidades ilimitadas”. Além da percepção da escassez de recursos, as três últimas décadas do século XX assistiram a um volume crescente de eventos que atestaram mau uso desses recursos e prenunciavam uma crise ambiental nunca antes suspeitada. 1.2. Crise ambiental e degradação Em épocas recentes, sob o avanço da industrialização, discutir assuntos ligados ao progresso era sinônimo de debates meramente econômicos. Com o avanço tecnológico, a corrida ao desenvolvimento fica ainda mais intensa, mas, em contrapartida, as conseqüências desse “progresso” se encarregaram de demonstrar que existem outras variáveis a ser consideradas ao se tratar holisticamente a modernidade e a modernização. Os discursos contemporâneos, na tentativa de amenizar os riscos para os sistemas vivos e evitar a interrupção de cadeias ecológicas longamente tecidas, começaram a fazer menção à busca por um novo processo produtivo no qual as questões ambientais, culturais e sociais também fossem levadas em consideração. Sob a hegemonia do modelo capitalista, a impressão que se tem é que o progresso, evidenciando a produção e o consumismo, passa a ser a fonte de autodestruição da sociedade. Tomados como entes absolutos, eles ameaçam as atuais gerações, sua qualidade de vida e possivelmente as próprias condições de sobrevivência das gerações futuras, caracterizando a crise ambiental. O reconhecimento público crescente destes riscos para a sociedade é um dos principais fatores precipitadores da modernização reflexiva e da sociedade de risco. Para esta teoria, os cidadãos-atores não são apenas recipientes passivos do arco de forças 8 Alexandro Rodrigues Ribeiro da modernidade. A modernização pode se "voltar sobre si mesma", de forma a encarar os problemas que criou (Buttel, 2000). Neste sentido, alguns autores destacam as discussões sobre a modernização e o surgimento de riscos. Guiddens (2000) distingue os riscos em dois tipos: risco externo, experimentado como vindo de fora, da tradição ou da natureza, e risco fabricado, criado pela atividade humana, transformando a natureza com o auxilio do desenvolvimento tecnológico. Catástrofes recentes como inundações, secas, chuvas ácidas, ondas de calor podem ter como causas a ação humana em sua modificação da natureza e desse modo se constituem num risco fabricado. Ainda para Giddens (op. cit.), as questões ambientais ligadas ao aquecimento global, ao uso de metais pesados em usinas nucleares e ao consumo de alimentos alterados, como exemplo de riscos, espalhamse pelo planeta influenciadas pela globalização cada vez mais intensa. Suas conseqüências atingirão a todos, mesmo aqueles que delas não têm suficiente consciência. Para Lago (1984), o risco está embutido na desarmonia sistêmica da natureza. Mas, ao utilizar os recursos naturais como matéria-prima e transformá-los em produtos, o homem gera impactos sobre o meio ambiente. A atividade industrial, durante o processo de produção, gera resíduos sólidos, líquidos e gasosos que interferem no sistema e afeta o seu andamento. O descuido para com esses impactos tem variado historicamente, de acordo com o modo de produção, a estrutura de classes, o aparato tecnológico e o universo cultural de cada sociedade. Ainda segundo Lago (1984), existem basicamente três tipos de recursos naturais: 1) os recursos renováveis (animais e vegetais)3; 2) os recursos não-renováveis (minerais, fósseis, etc.)4; 3) os recursos livres (ar, água, luz solar e outros elementos). Desde os povos primitivos até a atualidade, esses recursos são as bases para a existência da vida no planeta. Como se apresentam para nós esses recursos após terem sido submetidos à ação do processo industrial e da urbanização? Para podermos perceber a utilização dos recursos naturais em nossa época, faremos um breve relato sobre o modo como sua exploração tem sido realizada, gerando as situações de degradação. Um dos recursos naturais fundamentais para toda forma de vida na Terra e cujo uso deve ser questionado é a água. Ela é um dos elementos que mais sofrem com o mau uso, derivando em desperdício e poluição. A água é responsável por 80 % da cobertura da superfície terrestre, e desta cobertura apenas 2,8 % são constituídos de água doce. No entanto, a água doce, potável, está acabando, pois parte desta reserva natural está sendo poluída pelos esgotos domésticos e industriais. O acesso à água potável é um problema que afeta em torno de 1,2 bilhão de pessoas; a carência de serviços de saneamento adequados atingem outras 2,4 bilhões. Ao todo, mais de 3 milhões de pessoas morrem todos os anos devido a doenças causadas pela água 3 Segundo o Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais, recurso renovável é: “Qualquer bem que, teoricamente, não possa ser totalmente consumido em função de sua capacidade de se reproduzir ou se regenerar”. 4 Qualquer recurso natural finito que, em escala de tempo humana, uma vez consumido não possa ser renovado. Na sua maioria, os recursos não renováveis só podem ser renovados ao longo de um intervalo de tempo geológico; os combustíveis fósseis e os minerais enquadram-se nesta categoria (Dicionário Brasileiro de Ciências Ambientais). 9 Alexandro Rodrigues Ribeiro insalubre, conforme dados da ONU, de 2002. O Brasil, apesar de possuir uma rica bacia hidrográfica, abriga regiões onde o acesso à água é ainda um problema, como é o caso do Nordeste. Nessa região, de clima semi-árido, a falta d’água é um problema para o desenvolvimento. O ciclo de chuvas é variável, com longas secas, e o “inverno” é irregular, o que termina por dificultar a agricultura. Se não bastasse, a utilização da água é determinada por um processo político e econômico, como afirma a Agenda 21 Base para Discussão (p. 74): “centralizam-se as ofertas, geralmente alocadas próximas a grandes fazendas, não raros pertencentes aos já detentores do poder político e econômico na região, acentuando ainda mais a concentração de renda”. Nos centros urbanos, onde se concentra a maioria das indústrias, o problema não é menor. A presença de poluentes nas águas é uma constante, já que a maioria das indústrias não trata seus resíduos. Jacobi (2000) cita pesquisa realizada em 1995 sobre os percentuais de abastecimento de água da cidade de São Paulo, mostrando que nem toda a cidade está coberta pela rede de abastecimento e que 35% da população não estão ligados à rede de esgotos. O autor ainda mostra que 26% dos esgotos não recebem tratamento. Há de se considerar que a escassez de água tem sido objeto de sérios debates, sendo retratada como um dos motivos que levará as nações a futuros confrontos, com o objetivo de manter o controle sobre suas reservas naturais. Além da escassez, nem toda a água doce existente se presta para o uso, devido aos diversos tipos de contaminação que ela sofre. É o que as ciências ambientais chamam de poluição. O meio físico será considerado contaminado quando existir, ainda que mínima, a ameaça à saúde de homens, plantas e animais, ou seja, quando os recursos naturais e o próprio homem estiverem em situações de risco. De acordo com Pereira (2003), o que causa a poluição é o lançamento indevido de resíduos sólidos, líquidos e gasosos no ambiente. Nas aglomerações urbanas, o lixo doméstico, sem sofrer o tratamento devido, é descarregado nos leitos dos córregos e esgotos e seu destino são os rios maiores, comprometendo o abastecimento em outras regiões. Dorst (1973) classifica a poluição das águas em dois tipos. O primeiro é causado pelo despejo dos resíduos domiciliares nos esgotos. Mesmo com o uso de meios de tratamento dos esgotos e com a filtração natural pelas camadas do solo, os reservatórios e os lençóis freáticos ficam comprometidas devido ao crescimento das cidades e a insuficiência das instalações de tratamento. O segundo tipo de poluição deriva do cultivo da agricultura, e se deve ao uso intensivo de agrotóxicos e fertilizantes, os quais, carreados pelas chuvas, acabam desembocando e contaminando cursos d’água, interferindo em algumas cadeias alimentares, inclusive na do homem, através de peixes e crustáceos contaminados e de produtos alimentícios irrigados com águas poluídas. Para Tomé (2003), a poluição das águas significa qualquer alteração em suas características químicas, físicas e biológicas, com prejuízo à sua utilização normal. Ainda segundo a autora, os esgotos domésticos provocam dois tipos de poluição das águas: por bactérias, através dos coliformes presentes nas fezes humanas, e a contaminação por substâncias inorgânicas de difícil degradação, como por exemplo os 10 Alexandro Rodrigues Ribeiro detergentes sulfônicos5, que destroem as células dos microorganismos aquáticos, reduzindo as taxas de absorção de oxigênio e diminuindo a velocidade de autodepuração dos rios. A poluição nos mares, de fontes extremamente diversificadas, pode se dar pela presença de resíduos transportados pelos rios a até mesmo pela presença de metais pesados. O despejo das águas usadas e de detritos de toda espécie, inclusive de resíduos industriais, assume proporções importantes. Muitas vezes o efeito de despejos poluentes no mar, ao contrário do que se pensa, pode trazer sérios problemas, pois as correntes marinhas, ao invés de arrastá-los para alto mar, trazem-nos de volta para as costas em locais distantes de onde foram lançados, recaindo sobre o próprio homem. Além da poluição das águas, o ar também é contaminado. O desenvolvimento industrial e urbano tem originado em todo o mundo um aumento crescente da emissão de poluentes atmosféricos. A eliminação de gases pelas indústrias e automotores e pelos sólidos em suspensão polui a atmosfera. A utilização dos combustíveis fósseis - carvão, petróleo e gás natural - produz gás carbônico e esse pode agir sobre todo o planeta, ameaçando o equilíbrio do conjunto da biosfera (Dorst, 1973). O ar atmosférico está poluído quando sofre alterações em sua composição natural por introdução de elementos estranhos ou por desequilíbrio na proporção de seus componentes, de maneira a causar prejuízos ambientais e possíveis danos à saúde e à economia. A alteração nas concentrações atmosféricas e a deposição de certas substâncias no solo, nos vegetais e nos materiais são responsáveis por danos à saúde, redução da produção agrícola, danos às florestas, degradação de construções e obras de arte, e de uma forma geral origina desequilíbrios nos ecossistemas. Uma das graves conseqüências da contaminação do ar é a destruição da camada de ozônio que protege a atmosfera. As moléculas de ozônio, que se encontram na estratosfera em forma cumulativa, agem como escudo protetor, absorvendo grande parte dos raios ultravioleta do sol (CDMALC, 1990, p. 102). O uso de gases ativos como os CFCs (Clorofluorocarbonos) destrói a camada de ozônio, permitindo a passagem de uma maior quantidade de raios solares na superfície da terra e aumentando a possibilidade de os indivíduos adquirirem doenças de pele, oculares e sofrerem outros efeitos sobre o sistema imunológico, podendo ainda atingir a vida marinha e algumas espécies de plantas de cultivo terrestre. A Comissão de Desenvolvimento e Meio Ambiente da América Latina e Caribe, no seu relatório Nossa Própria Agenda, afirma que “já se comprova uma erosão de 50% da camada de ozônio sobre a Antártida” e assinala que 95% dos gases causadores dessa erosão “são produzidos pelos países industrializados” (1990, p. 103). Embora a principal erosão se localize distante dos centros mais povoados, seus reflexos são negativos tanto no local como no mundo todo, uma vez que as conseqüências do aquecimento repercutem em nível global (idem, p. 102). Como o uso desses gases gera conseqüências alarmantes, o esforço para sua diminuição é fundamental, pois seus efeitos, além de diminuírem a camada de ozônio, também provocam o efeito estufa, cuja conseqüência é o aquecimento do planeta. Conforme CDMALC (1990, p. 91), as “concentrações cada vez maiores de dióxido de carbono, óxido nitroso, metano e outros gases” poderão produzir “um 5 Qualquer substância de um grupo monovalente -SO3H ligado diretamente a um átomo de carbono. 11 Alexandro Rodrigues Ribeiro aquecimento global estimado em 1 a 2º C por volta do ano 2030”. A queima de combustíveis fósseis também concorre para o agravamento do problema: “A combustão dos combustíveis fósseis para gerar energia acaba por alimentar o efeito estufa, assim como as emissões industriais e os desmatamentos. Das emissões de dióxido de carbono, 40% são emitidas na América Latina, e na sua maioria devido ao desflorestamento (CDMALC, 1990).” Nalini (2003) também faz referência ao tema, assinalando que o uso acelerado de combustíveis fósseis polui o ambiente: “Do enxofre lançado na atmosfera, 85% decorrem da queima de carvão e petróleo e 75% das emissões de carbono. A emissão de monóxido de carbono vem afetando até a camada de ozônio”(Nalini,2003, p.115). O ciclo de vida na terra depende diretamente das boas condições da água, do ar e também do solo. O solo é definido como sendo a rocha finamente particulada misturada com resíduos da decomposição vegetal e animal, constituindo a porção da superfície da Terra onde as plantas encontram apoio e nutrientes para se desenvolverem. O solo tem como componentes principais a fase sólida (matéria mineral e matéria orgânica) e a água e o ar, na designada componente "não sólida". O solo deve ser encarado como uma interface entre o ar e a água (entre a atmosfera e a hidrosfera), sendo imprescindível à produção da biomassa. Assim, o solo não é inerte, é o suporte para habitações e outras infra-estruturas indispensáveis ao ser humano. Sempre que lhe adicionamos qualquer substância estranha, estamos poluindo o solo e, direta ou indiretamente, também a água e o ar. O solo é um corpo vivo, complexo e muito dinâmico. A urbanização dos solos, as atividades agrícolas, pecuárias e industriais têm gerado como conseqüência elevados níveis de contaminação. De fato, aos usos referidos associam-se, geralmente, descargas acidentais ou voluntárias de poluentes, deposição não controlada de produtos que podem ser resíduos perigosos, lixeiras ou aterros sanitários não controlados,etc. Assim, ao longo dos últimos anos, têm sido detectados numerosos casos de contaminação do solo em zonas urbanas e rurais. A contaminação do solo tem-se tornado uma das preocupações ambientais, uma vez que, geralmente, a contaminação interfere no ambiente global da área afetada (solo, águas superficiais e subterrâneas, ar, fauna e vegetação), podendo mesmo estar na origem de problemas de saúde pública. Os riscos provenientes da desarmonia ambiental afetam diretamente o ser humano, já que este também é parte do sistema biosfera. O estilo de vida moderno constitui-se num dos fatores que mais contribuem para a desestruturação desse sistema. A capacidade humana de interferência no meio ambiente tem se multiplicado fantasticamente, tanto em razão do aumento da população como de sua concentração em áreas ambientalmente frágeis. Os grandes aglomerados humanos são resultado do desenvolvimento industrial. A sociedade daí nascida tem como característica forte a demanda crescente por produtos industrializados, o que significa 12 Alexandro Rodrigues Ribeiro pressão sobre os recursos naturais, por um lado, e por outro a crescente produção de dejetos, tanto dos resíduos da industrialização como dos descartes dos bens consumidos. Assim, a poluição do solo, da água e do ar passa a ser uma realidade perceptível, alimentada por toda uma cadeia ligada a um modo de vida. Apesar de existir uma diminuição na taxa de natalidade na grande maioria dos países, o planeta Terra já possui uma população de 6 bilhões de habitantes, todos consumidores e geradores de resíduos. Neste sentido, a mudança nos padrões de consumo e de produção deve ser acompanhada de uma política espacial de monitoramento e gerenciamento das cidades. A contemporaneidade enfrenta problemas de ordem espacial, os quais na realidade são o resultado de uma política ineficiente de manutenção da vida rural. O incentivo à monocultura e aos grandes latifúndios, financiados pelo sistema econômico vigente, além da falta de infraestrutura para uma boa qualidade de vida no campo (escolas, médicos, energia...) favoreceram o êxodo rural. Como conseqüência da expulsão do homem do campo, sobretudo nos países periféricos, de capitalismo tardio, surge a grande concentração populacional urbana, periférica, amontoada nas favelas junto aos distritos industriais. Aí os indivíduos passam a conviver com os dejetos produzidos pelo modo de vida industrial. Nas áreas urbanas, o excesso de população e a falta de infra-estrutura, devido ao crescimento rápido, acarretam problemas sociais e ambientais. A falta de emprego e de serviços essenciais, as péssimas condições de habitação e os problemas de poluição foram previstos pelo documento “Nossa própria agenda” em 1990: “há expectativas de que as cidades da região cresçam a esmo, seu tamanho sendo determinado em grande parte pelas mais pobres, que viverão em locais impróprios para o homem, sujeitos a enchentes e deslizamentos de terra, e com um grande número de famílias vivendo sem os serviços essenciais e sem trabalho ou, na melhor das hipóteses, com empregos mal remunerados” (CDMALC, 1990, p. 59). Para os países da América Latina e Caribe isto é uma realidade presente. Os problemas ambientais se referem ainda à falta de serviços sanitários devido à deficiência nas moradias, à ausência dos serviços básicos, como transporte, segurança, iluminação, etc. Do mesmo modo, a falta de mercado de trabalho para a população, marginalizada nas áreas periféricas das grandes cidades. O crescimento populacional e os meios de produção – considerando seu desenvolvimento tecnológico - são fatores determinantes na política de controle ambiental. Desse modo, Foladori (2001, p. 124) considera que “onde há menos consumo de energia (TEP- Tonelada Equivalente de Petróleo) deverá haver mais trabalhos braçais, conseqüentemente uma maior população. Ao contrário, se há consumo energético suficiente este substituirá o trabalho humano, portanto, menor população” (Foladori 2001. p, 124). Nas áreas rurais, o sistema de mecanização aumentou a produção agrícola, mas deixou uma parcela da população, a mais carente economicamente, relegada ao que resta do extrativismo vegetal para obter renda para a subsistência. Alguns problemas tidos como rurais, como o desmatamento e a erosão, no entanto, são também problemas urbanos, pois seus impactos nos rios repercutem em assoreamento, causando inundações e atingindo em seus efeitos adversos as cidades. 13 Alexandro Rodrigues Ribeiro Foi em razão da percepção desse elenco de problemas, ligados à degradação ambiental e à ameaça sobre a renovação dos recursos naturais, que o mundo tomou consciência da finitude dos recursos e da fragilidade do planeta. A partir daí começam a se levantar as primeiras vozes de alerta e os primeiros estudos com caráter de diagnóstico. Embora eles sejam suficientes para construírem por si só uma nova percepção, a eles vêm se somar, no correr de poucos anos, uma lista significativa de desastres ecológicos, com condições de tocar mais fortemente a consciência mundial e de estabelecer um novo pensamento. 1.2.1. Desastres ecológicos e sensibilização Na década de 1960, foram marcantes tanto os impactos ambientais como o início das ações para combatê-los. As ações que marcaram época nesta década foram a descontaminação do rio Tâmisa e a melhoria da qualidade do ar de Londres. Nos Estados Unidos, surgem os primeiros manifestos sobre questões ambientais, quando um movimento de proteção ao consumidor e outras reivindicações constavam também sobre os efeitos da poluição, sendo criada, nessa época, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (“Environmental Protection Agency”- EPA). No Japão, na década de 1970, empresas fabricantes de alumínio jogavam seus despejos industriais na Baía de Minamata. Esses efluentes continham metais pesados, entre eles o mercúrio, absorvidos por ostras e pequenos peixes. Eles entraram na cadeia alimentar, contaminando peixes maiores, que, pescados, vieram a contaminar animais e seres humanos. O caso ficou conhecido como o “mal de Minamata”. ( Moura, 2000, p.3) Outros acidentes marcantes aconteceram nesta mesma década. O navio petroleiro Exxon Valdez, no Alasca, ao chocar-se com blocos de gelo, teve vazamento de óleo. Combatido com ineficiência, o óleo espalhado afetou viveiros de peixes e frutos do mar, disseminando morte e prejuízo. Em Bhopal, na Índia, o vazamento acidental de resíduos tóxicos de uma fábrica resultou na morte de aproximadamente 2.500 pessoas, além de causar prejuízos financeiros e afetar a imagem da empresa. Na década de 1980, em Tchernobyl, na Ucrânia, ao se realizar atividades técnicas em uma usina nuclear, houve falhas no controle de potência, causando a explosão de um reator. O vazamento de material radioativo contaminou toda a Ucrânia e o Norte da Europa. Num raio de 30 km da usina, mais de 100.000 pessoas foram evacuadas. Trinta e uma pessoas morreram em conseqüência direta do acidente. Hoje, além de problemas de contaminação do solo, plantações, florestas e reservatórios de água, ainda se convive com áreas contaminadas por Césio-137 em níveis elevados, acima de 555 kBq/m2 (Moura 2000, p.6). Todos esses eventos, inscritos objetivamente numa nova realidade dada pelo estágio de desenvolvimento daquilo que Marx chamaria de “forças produtivas”, requerem uma nova leitura da realidade. Cresce, a partir deles, a percepção de que será necessário formar um novo olhar, capaz de compreender o que está ocorrendo e de propor uma intervenção eficaz. Esta será a tarefa da Educação Ambiental, que, alertando para os riscos, inaugure uma nova consciência. 1.3. A Educação Ambiental – uma resposta aos riscos 14 Alexandro Rodrigues Ribeiro As buscas para minimizar os problemas ambientais surgiram à medida que eles iam ocorrendo. Os debates sobre os riscos da degradação do meio ambiente iniciaram-se ainda nos anos 1960 e se fortificaram no início dos anos 1970. Indivíduos, grupos informais, associações formais e estudiosos começaram a promover discussões visando descobrir formas de como enfrentar esses distúrbios. O Clube de Roma, liderado por Dennis Meadows, foi um marco ao encomendar análises sobre o que estava ocorrendo na área do crescimento econômico e em suas relações com o meio ambiente e ao divulgar suas conclusões. Elas foram fundamentais para despertar o mundo para o problema. Um grupo de especialistas de diversas áreas (economistas, pedagogos, humanistas, industriais, políticos, etc.), tinha como objetivo promover a discussão sobre o futuro da humanidade. Reunidos em fins da década de 1960, faziam sombrias previsões sobre o que aconteceria num futuro próximo, caso não cessasse a intensa exploração dos recursos naturais utilizados para o desenvolvimento econômico (Moura, 2003). Publicado em 1972, o relatório criado a partir das discussões do Clube de Roma foi chamado de “Os limites do Crescimento” e visava, através de simulações matemáticas, observar as projeções de crescimento populacional, poluição e esgotamento dos recursos naturais da terra, além de denunciar a busca incessante do crescimento econômico a qualquer custo e a meta dos países ricos de se tornar cada vez maiores e mais ricos, sem levar em conta o custo final desse crescimento. Tal relatório criou muita polêmica, por apresentar dados alarmantes e, segundo os críticos, questionáveis. Conforme Dias (2000, p.16), apesar de o relatório gerar polêmica, ele atingiu seu objetivo: “alertara a humanidade sobre a questão. Hoje é um clássico reverenciado na literatura da história do movimento ambientalista mundial”. O Modelo de Desenvolvimento defendido pelo Clube de Roma, entre outras sugestões, propõe o congelamento do crescimento da população global e do capital industrial, despertando críticas que culminaram em buscar novas soluções para o desenvolvimento. Segundo Bruseke (2001), os intelectuais dos países do Sul, países então chamados de “em desenvolvimento”, manifestaram-se contra as teses de Meadows, questionando que após um século de crescimento industrial acelerado das economias avançadas, fechar-se-ia o desenvolvimento para os países do Terceiro Mundo. É também em 1972 que se realiza a Conferência de Estocolmo, a primeira do gênero para tratar das questões ambientais, ampliando em nível mundial as preocupações até então restritas a especialistas e militantes da causa. Em 1973, o canadense Maurice Strong usa o conceito de Ecodesenvolvimento para caracterizar a política de desenvolvimento sustentável. (Mendes, 1977) Os princípios básicos dessa nova visão foram desenvolvidos por Sachs6. Em 1980, a União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) e o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) utilizam o termo desenvolvimento sustentável no documento Estratégia Mundial para a Conservação. (Mendes 1977) Essas discussões serviram de base para o encontro do Rio, em 1992, prosseguindo o discurso global sobre as questões ambientais e o desequilíbrio sócio-econômico. Parte significativa desse encontro deve-se ao 6 Ver o livro: Ecodesenvolvimento, crescer sem destruir, de Sachs. Vértice, 1986. 15 Alexandro Rodrigues Ribeiro documento Nosso Futuro Comum (Relatório Brundtland), de 1987, resultado do trabalho de um grupo presidido pela primeira-ministra da Noruega, Sra. Gro. Harlem Brundtland. Para Bruseke (2001), o relatório Brundtland se mostra superior aos relatórios anteriores (que tratam do Desenvolvimento Sustentável). Ele “atinge um grau elevado de realismo”, não propaga a dissociação entre crescimento econômico e preservação da natrureza ou a estratégia da self-reliance (auto-confiança), ou seja, não promove a despedida do crescimento econômico. No entanto, críticas foram feitas ao relatório Brundtland, por se distanciar do modelo de sociedade industrial. Sguarezzi (1997) ressalta que a conferência foi considerada um marco histórico político no plano internacional, fundamental para o surgimento de políticas de gerenciamento ambiental. O ponto culminante da reunião foi a percepção das diferenças Norte-Sul7. Os países ricos achavam que deveria haver controle internacional para diminuição da poluição. Os países pobres, no entanto, não aceitaram esse controle, considerando que os países ricos já haviam explorado seus recursos naturais e agora tentavam impedir os outros de fazê-lo, comprometendo, assim, o desenvolvimento dos países pobres. Originou-se, a partir daí, uma divergência no modo como o “desenvolvimento” e o “meio ambiente” foram encarados pelos países do Hemisfério Norte e do Sul (Dias 2003, p.79). A segunda grande conferência mundial realizada pela ONU para tratar do meio ambiente ocorreu no Rio de Janeiro em 1992, vinte anos após Estocolmo. Desta vez, com um número muito maior de países participantes. Denominada de Eco-92 ou Rio-92, a reunião discutiu conceitos chaves sobre as questões ambientais apresentadas no Relatório Brandtland, Nosso Futuro Comum. Este documento foi o primeiro a trazer a concepção do “desenvolvimento sustentável”. Embora sem definição concreta, o grupo recomendava que o importante não era debater conceitos, mas construir ações práticas que conduzissem às estratégias de desenvolvimento. Essas estratégias, derivadas da percepção da existência limitada de recursos, guiariam toda a atividade econômica dali por diante: “mesmo que demos preferência a um determinado setor ou atividade econômica, nosso desenvolvimento futuro continuará estreitamente ligado ao uso de nosso patrimônio natural” (CDMALC, 1990, p.127). Se a relação sociedade versus natureza foi até ali guiada pelo impulso de usar até esgotar esses recursos, novas técnicas de gestão e uma conscientização ecológica permitiriam a utilização desses recursos de forma a não comprometer sua existência. Em síntese, as estratégias recomendadas o são na busca de uma sustentabilidade econômica, social e ambientalmente aceitável. O conceito, porém, existe, e pode ser inferido do Relatório Brundtland: desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem a suas próprias necessidades Ele contém duas idéias chave: a) a idéia de “necessidades”, sobretudo aquelas essenciais, as dos pobres do mundo, que devem receber a máxima prioridade; b) a noção da limitação dos recursos e de uma adequação tecnológica necessária à sua preservação para as gerações futuras. Foi na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento - Rio 92, que a noção de desenvolvimento sustentável se consolidou, apesar das críticas. O documento originário dessas 16 Alexandro Rodrigues Ribeiro discussões foi a Agenda 21, um plano de ação que pretende alcançar os objetivos do desenvolvimento sustentável para o século XXI. A Agenda 21 é o documento mestre na tentativa de minimizar a problemática ambiental, um marco que serve de base para a maioria dos programas que desenvolvem sistemas de gestão sustentável, incluindo a educação ambiental. O desenvolvimento sustentável, apesar de muito comentado e difundido, não se converteu ainda em práticas totalmente absorvidas pela sociedade como um todo e pelas empresas, em particular, como agentes econômicos transformadores da natureza. Para se ver pela ótica da sustentabilidade, é necessário que se alargue a visão, que esta não seja localizada e sim que abranja o conjunto. Precisa-se, portanto, de “uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas(...)e ainda, a percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza(e, em última análise, somos dependentes desses processos)” (Capra 1996, p. 25). Para produzir sustentavelmente é necessário utilizar os recursos e ao mesmo tempo repô-los, bem como atentar para os problemas que decorrem das relações de produção, ou seja, suas conseqüências econômicas, a distorção entre a detenção de poder e a distribuição da renda, etc. Para que se possa amenizar essas distorções, algumas medidas precisam ser levadas em conta, entre as quais a sensibilização da comunidade, fundamental para qualquer mudança de comportamento. Essa sensibilização exigida para a percepção dos problemas que alguns setores da sociedade levantam será uma tarefa da Educação Ambiental. Caberia a ela desenvolver novas metodologias pedagógicas formais e não formais que fizessem o homem se perceber como parte da natureza. Um marco na história desta disciplina foi a realização, em março de 1965, da Conferência em Educação da Universidade de Keele na Grã-Bretanha. Nela se usou pela primeira vez a expressão Educação Ambiental (EA), reivindicandose como algo que deveria ser parte fundamental na vida de todos os cidadãos, embora restritamente concebida como, essencialmente, conservação ou ecologia aplicada, conforme Dias (2003, p.78). No Reino Unido, em 1968, surgiu o Conselho para Educação Ambiental, reunindo organizações voltadas para temas de educação e meio ambiente. As reuniões e discussões sobre a temática ambiental foram ganhando força e novas reuniões surgiram. A Conferência das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Humano, que ocorreu em Estocolmo, na Suécia, em 1972, teve como objetivo analisar as questões ambientais, reconhecendo a necessidade da educação ambiental. Para Díaz (2002, p.51), a Conferência de Estocolmo foi o primeiro pronunciamento solene sobre a necessidade da educação ambiental. O autor ressalta que em ocasiões anteriores os organismos internacionais focalizavam o meio ambiente e suas questões, não tratando especificamente da educação. A preocupação maior estava nas conseqüências do ambiente em desequilíbrio. Nesta mesma linha de raciocínio, 7 Países do Hemisfério Norte (considerados desenvolvidos) e Países do Hemisfério Sul (considerados em desenvolvimento). 17 Alexandro Rodrigues Ribeiro Sato (2002, p. 23) refere-se à International Union for the Conservation of Nature (IUCN, 1971) como o primeiro organismo internacional responsável pela primeira definição internacional de Educação Ambiental, embora a ênfase também repousasse nos aspectos ecológicos da conservação. Ainda em 1972, é criado o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), que tem como objetivo a informação, educação e a capacitação, orientando as pessoas sobre suas responsabilidades de gestão social do meio ambiente. A educação ambiental ganha destaque e passa a ser discutida e articulada em vários encontros mundiais, numa seqüência cronológica. A partir de então, começam a surgir propostas defendendo a introdução, nos currículos escolares e em atividades fora da escola, da Educação Ambiental, apresentada sob uma forma crítica, visando ao combate dos desequilíbrios ambientais e com caráter interdisciplinar. Busca-se a partir dela sensibilizar o cidadão comum para um desenvolvimento sustentável e para elevação da qualidade de vida. Por ocasião do Plano de Ação Mundial em 1972, propõe-se um programa interdisciplinar para a abordagem da Educação Ambiental junto ao cidadão comum. Na formulação de uma proposta de educação ambiental para o conjunto da população, a Unesco e o PNUMA propuseram em conjunto a criação de um Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA). Esse programa teve como primeira ação a organização do Seminário Internacional de Educação Ambiental de Belgrado, em 1975. (Díaz 2002, p.52) Em Tbilisi, Geórgia, ex-URSS, no ano de 1977, aconteceu a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, promovida pela Unesco, durante a qual foi criada a declaração sobre Educação Ambiental, proposta que passou a ser fortemente apoiada após o encontro. Na declaração foram definidas as características, a natureza, os objetivos, assim como as estratégias a serem adotadas no plano nacional e internacional de educação ambiental. O encontro de Tbilisi recomendou considerar como aspectos que compõem a questão ambiental, os aspectos políticos, sociais, econômicos, científicos, tecnológicos, culturais, ecológicos e éticos. Com isso, “a EA deveria ser o resultado de uma reorientação de diversas disciplinas e experiências educativas, que facilitassem a visão integrada do ambiente”. Assim, a intenção era que ela pudesse ser eficaz para a prevenção dos problemas ambientais (Dias 2003, p.82). A conferência de Tbilisi estabeleceu como finalidade da Educação Ambiental o despertar da consciência crítica do cidadão, a fim de que se promova a compreensão da interdependência sócio-econômica, política e ambiental, pois com essa percepção holística da vida seriam adotados novos valores e diferentes formas de conduta, inserindo o ambiente como um aliado na busca de uma melhor qualidade de vida global. Sato (2002, p.23) destaca que a conferência de Tbilisi ampliou a definição de educação ambiental, saindo dos marcos estritos da ecologia e incorporando outras esferas da vida e do conhecimento humano. A partir dela, a educação ambiental é definida como “um processo de reconhecimento de valores e clarificação de conceitos, objetivando o desenvolvimento das habilidades e modificando as atitudes em relação ao meio, para atender e apreciar as inter-relações entre os seres humanos, suas culturas e seus meios biofísicos. A Educação Ambiental também 18 Alexandro Rodrigues Ribeiro está relacionada com a prática das tomadas de decisões e a ética que conduzem para a melhoria da qualidade de vida”.( Tbilisi 1997 apud Sato, 2002, p.23) Outros eventos de grande importância para a Educação Ambiental aconteceram no decorrer da década de 1980, como: I Jornada de Educação Ambiental de Âmbito Estatal (Sitges, 1983), Congresso Internacional Sobre Educação e Formação Relativa ao Meio Ambiente (Moscou, 1987), II Jornada de Educação Ambiental (Valsaín, 1987), União Européia (Resolução de 1988) e o Seminário Para Uma Estratégia de Introdução da Educação Ambiental no Sistema Educativo (Las Navas del Marqués, 1988). (cf. Díaz, 2002, p. 63) De acordo com Sato (2002) o campo epistemológico da educação ambiental possui disputas conceituais fortes e ideológicas, o que deu origem a diferentes tendências, algumas das quais se interrelacionam e se completam. 1.3.1 Visões da Educação Ambiental Entre as conferências de Estocolmo e do Rio de Janeiro, as concepções de meio ambiente alteraram a relação do homem com a natureza e a idéia de desenvolvimento econômico (Reigota 2001). Pautam-se aí as tendências da Educação Ambiental. Apesar de a Educação Ambiental ser discutida desde a década de 1970, a sociedade ainda está assimilando esta nova postura ética apresentada por esse paradigma. A operacionalização da educação ambiental, em qualquer de seus níveis, não é ainda uma unanimidade na sociedade. Escolas, empresas e até mesmo a mídia têm encontrado dificuldades em adotar um processo contínuo, permanente e interdisciplinar que desperte questões inerentes à vida saudável e justa. No tocante à sua implementação, Sguarezzi (op. cit.) argumenta que “no que se refere aos aspectos cognitivos, estes se reduzem à aquisição de conhecimentos da ecologia e biologia.” Com isso, a Educação Ambiental se confunde com o ensino da ecologia, efetuando-se, assim, uma série de reducionismos. De fato, na década de 1970, a Educação Ambiental começou a se estabelecer como campo singular com um caráter fortemente voltado para a natureza. O que se questionava era o uso inadequado dos recursos naturais, o consumo exagerado, o não tratamento dos efluentes e dejetos da industrialização, sua devolução ao meio ambiente sem tratamento, enfim, a poluição e a degradação ambiental ocupavam praticamente todo o campo de ação da educação ambiental. Mininni (1994 apud Sguarezzi, 1997) assinala que a vertente preservacionista enfatiza a aquisição de valores, de caráter essencialmente moral, a “sacralização da natureza”, referindo-se basicamente aos seus aspectos biológicos, destacando também os aspectos estéticos, razão de contemplação e respeito à diversidade das formas de vida. A autora afirma: “Segundo nos mostra Mininni (1994), não há no bojo da vertente EcológicoPreservacionista uma análise econômico-social das causas dos problemas ambientais. Assim sendo, essa vertente concebe uma educação voltada somente para preservação e conservação da natureza, enfocando a Educação Ambiental como responsável pela formação e desenvolvimento individual de atitudes éticas e 19 Alexandro Rodrigues Ribeiro aquisição de novos valores em relação à natureza que conduziriam a mudanças de comportamento.” Mininni, 1994 apud Sguarezzi, 1997. De acordo com Carvalho (2000), nas décadas de 1960 e 70, o movimento ecologista abraça a Educação Ambiental através de práticas educativas características do movimento. Com isso, as questões ambientais tornam-se visíveis, pela prática contestatória, como por exemplo a crítica ao industrialismo como poluidor do ambiente, embora ainda excessivamente ligadas a uma visão ecológica. São essas características a que se refere Loureiro (2002, p.71) “Nos anos setenta e oitenta, foi recorrente sua simplificação a medidas educativas voltadas para a conservação dos recursos naturais e a mudanças comportamentais individuais, o chamado ser “ecologicamente correto”; por sua vez, os sistemas educacionais o incluíram no currículo como disciplina, caracterizada por um conteúdo basicamente composto por categorias da ciência Ecológica. Nessa época também foram recorrentes ações institucionalmente promovidas por instâncias técnicas vinculadas à área de meio ambiente “Stricto sensu”, sem a participação de órgãos de educação. Tal quadro só foi enfrentado nos anos noventa, tendo em vista a busca de coerência com as diretrizes mundiais para a área. Assim, na última década observamos uma tentativa de se estabelecerem diretrizes nacionais compatíveis com uma abordagem sociohistórica em alguns acontecimentos oficiais, apesar de a viabilização das resoluções oriundas dos mesmos ainda se mostrar incipiente e sem alcance público e nacional”(Loureiro 2002, p. 71) Moraes (2000) trata como equívocos as concepções ambientalistas, no meio público e acadêmico, que associam “meio ambiente” exclusivamente aos elementos naturais, não incluindo aí o ser humano. Daí, propõe um conhecimento integrado para a superação da fragmentação do conhecimento científico em conseqüência das especializações em “meio ambiente”. “A necessidade de um conhecimento integrado surge da constatação que vivemos num mundo complexamente organizado devido ao emaranhado de interações entre os seus componentes físico-químicos, biológicos e humanos”(Moraes, 2000, p.41). No entanto, nesse período de 30 anos, verificamos que a percepção das questões ambientais, de início fortemente ligada à conservação da natureza, preocupada em garantir a preservação de determinadas espécies animais e vegetais e dos recursos naturais, volta-se para um novo cenário, incorporando a seu campo de visão as relações econômicas, culturais e políticas. Quando falamos em humanidade, referimo-nos a cidadãos e cidadãs, e também à natureza, em suas múltiplas interações. É a vertente sócio-ambiental. Na vertente sócio-ambiental, temos uma abordagem em que são considerados os aspectos políticos, sociais, econômicos, culturais, ambientais e históricos, dentro de uma visão integrada, necessária para a construção de uma sociedade crítica e consciente. A vertente sócio-ambiental entende meio ambiente como: 20 Alexandro Rodrigues Ribeiro “Um processo histórico de inter-relações entre as sociedades humanas e os ecossistemas naturais e postula uma compreensão dessas inter-relações mediada pela análise dos estilos de desenvolvimento adaptados e suas conseqüências sociais e biológicas” (Medina, 1996, p.24). Minini ainda destaca que “desta forma os problemas ambientais não são catástrofes inevitáveis e sim resultados históricos de uma determinada forma de relação sociedade-natureza”. A construção de novos conhecimentos, novas formas de relação, novas concepções e novos valores seria o horizonte posto por esta vertente. Dias (1994) frisa que a Educação Ambiental permite a percepção dos fatores que interagem no tempo e no espaço na modelagem do meio ambiente. Ele enfatiza também um de seus efeitos, do ponto de vista pedagógico: ao animar a resolução de problemas práticos que afetam o meio ambiente humano, ela proporciona ao cidadão conhecimentos científicos e tecnológicos, assim como qualidades morais que favorecerão interações mais harmônicas. Segundo Dias (1994), os princípios e características que representam o alicerce da Educação Ambiental estão relacionados à sensibilização da comunidade sobre seu meio ambiente na forma de conhecimento, valores, habilidades, experiências, tornando-a apta a agir e resolver seus problemas ambientais presentes e futuros. Os objetivos da Educação Ambiental são traçados mediante consideração da realidade econômica, social, ecológica e os objetivos de desenvolvimento de cada comunidade. Para compreender o papel atribuído à Educação Ambiental no processo de sensibilização, vamos considerar dois tópicos do Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global. No quarto tópico, “Princípios da Educação para Sociedades Sustentáveis”, afirma-se que “A Educação não é neutra, mas ideológica. É um ato político, baseado em valores para a transformação social”. Já no quinto tópico, temos uma outra afirmação que complementa a anterior, qual seja, “a educação deve envolver uma perspectiva holística, enfocando a relação entre o ser humano, a natureza e o universo de forma interdisciplinar” (Sato 2002, p.18). Desta pequena citação, alguns elementos podem ser destacados como características desejáveis da educação ambiental: o caráter político, a não neutralidade, o objetivo de transformação social, o aporte de valores, a perspectiva holística e interdisciplinar. Outras características podem ser acrescentadas, a partir de outras fontes: a continuidade e o caráter não pontual das atividades. Para tratar de problemas multifacetados, afetos à economia, à sociologia e ao meio ambiente, por exemplo a interdisciplinaridade é uma ferramenta importante. Para Dias (1994) “os princípios e características que representam o alicerce da educação ambiental, sob uma forma crítica, referem-se a uma ação interdisciplinar em benefício de um desenvolvimento sustentável e elevação da qualidade de vida”. A educação ambiental, holística, considera o meio ambiente em sua totalidade, o que implica em envolver diferentes campos do saber e áreas que se completam: político, social, econômico, científico, científico-tecnológico, histórico-cultural, moral e estético. Sendo assim, o surgimento de diferentes enfoques acaba por ser algo inevitável, que na realidade completa a importância de cada vertente, sendo frutos de anseios de uma época, região, cultura, enfim, a realidade de cada um (Dias 2003). 21 Alexandro Rodrigues Ribeiro Para a prática do desenvolvimento sustentável, é necessário ao homem uma visão diferente em relação à vida, calcada em novos valores. A educação ambiental estabelece, pois, uma nova visão para o homem em relação ao seu ambiente social e natural. Esta nova consciência implicará em novas posturas éticas, pessoais e coletivas, estruturando-se em uma visão crítica e transformadora da realidade, comprometendo-se com uma participação efetiva nas definições do futuro pessoal e social (Medina 1998). No processo de intervenção, a educação ambiental fomenta uma participação responsável nas decisões de melhoria da qualidade ambiental. As atividades desenvolvidas com esse fim devem possibilitar aos participantes oportunidades para aliar a sensibilização à busca por soluções. Tomada como uma educação para a vida, a educação ambiental pressupõe o uso de metodologias que levem ao compromisso com a transformação e humanização da sociedade (Santos 1996). Desta maneira é lançada uma alternativa para novas formas de interpretação e ação no mundo, suprimindo a visão exclusivamente técnica e instrumental e permitindo a manifestação de formas mais abrangentes, tanto no nível individual quanto social, na construção de conhecimentos significativos. De fato, a Educação Ambiental busca gerar uma cultura ativa do sujeito, para que defenda um meio ambiente saudável, possibilitando para a comunidade a oportunidade de repensar seu processo de desenvolvimento, corrigindo distorções e propondo inovações que garantam o desenvolvimento, sem comprometer, irremediavelmente, as condições ambientais. Para Medina (1996), a Educação Ambiental é um “Processo que consiste em propiciar às pessoas uma compreensão crítica e global do Meio Ambiente, para elucidar valores e desenvolver atitudes que lhes permitam adotar uma posição crítica e participativa a respeito das questões relacionadas com a conservação e adequada utilização dos recursos naturais, para a melhoria da qualidade de vida e a eliminação da pobreza extrema e do consumismo desenfreado. Visando à construção de relações sociais, econômicas e culturais capazes de respeitar e incorporar as diferenças, (minorias étnicas, populações tradicionais), a perspectiva da mulher e a liberdade para decidir caminhos alternativos de desenvolvimento”(Medina, 1996, p. 16). Os movimentos sociais, nos anos 1980 e 90, relacionados e caracterizados pela luta por identidade, de gênero, etnia e sexo, passam a integrar também o ecologismo. É disso que tratam autoras como Storey (2000) e Araújo (2003). Storey, a partir da realidade amazônica, destaca as contradições e os conflitos em relação ao “gênero”, essa relação entre homens e mulheres, entendida como algo socialmente construído e não simplesmente biologicamente determinado. Além disso essa relação pode e deve ser refletida no bojo das discussões ambientais. “Considerando as perspectivas éticas, filosóficas, políticas e culturais, que discutimos, a questão de gênero não pode ser ignorada. Incluir gênero será importante para permitir uma análise social das relações entre homens e 22 Alexandro Rodrigues Ribeiro mulheres, e para a criação de uma reflexão crítica, dentro de uma prática pedagógica dialógica na educação ambiental.” Storey (2000, p.78). Araújo (2003) estudando a participação da mulher na agricultura orgânica no Nordeste do Brasil, discute a visão eco-feminista, que coloca a mulher ao lado do ambiente, sofrendo a dominação do homem. Por outro lado, Reigota (2002, p.62) sustenta que em pouco mais de 20 anos ocorreram mudanças profundas na política internacional, “e com isso devem ser consideradas prioritariamente, as relações econômicas e culturais entre humanidade e a natureza e entre os homens”. Essas mudanças seriam a queda do muro de Berlim, a Perestroika e Glasnot na Rússia, bem como os temas sobre desarmamento, acordo de paz entre URSS e os EUA etc. Do mesmo modo que repercutiram na política, também “repercutiram na ecologia, na educação em geral e na educação ambiental em particular”. Assim, o autor considera que “o componente “reflexivo” da educação ambiental é tão importante quanto o “ativo” ou o “comportamental”. Referindo-se ao componente “reflexivo”, trata-se de “uma nova aliança” que não só possibilite às espécies naturais a sua sobrevivência, mas também à humanidade. “Assim, a educação ambiental deve ser entendida como educação política, no sentido de que ela reivindica e prepara os cidadãos para exigiem justiça social, cidadania nacional e planetária, auto gestão e ética nas relações sociais e com a natureza. A educação ambiental como educação política, enfatiza antes a questão “por que” fazer do que “como” fazer. Considerando que a educação ambiental surge e se consolida num momento histórico de grandes mudanças no mundo, ela tende a questionar as opções políticas atuais e o próprio conceito de educação vigente, exigindo-a, por princípio, criativa, inovadora e crítica”. (Reigota 2001, p.10). Contra tudo isso, porém, se contrapõe uma observação de Brugger (1999). Segundo ela, se existisse uma educação voltada para despertar o espírito crítico das pessoas, possibilitando-lhes a capacidade de exigir seus direitos, cumprir seus deveres e repensar suas atitudes, seria desnecessário associar o adjetivo ambiental à palavra educação. De todo modo, ao ser implantada e disseminada, a educação ambiental pode vir a gerar uma consciência sócio-ambiental e atuar como mediadora entre os setores que agridem o meio ambiente e aqueles que longe de interesses meramente econômicos necessitam dos recursos naturais. Ela expõe, em sua premissa, a velocidade em que ocorre a evolução sócio-cultural, criando uma incapacidade ou uma insuficiente capacidade em absorver os dejetos, resíduos e impactos, o que gera os desequilíbrios ambientais. A educação ambiental pode ser uma alternativa às empresas que exploram os recursos ambientais não renováveis, pois ao se tomar consciência das fragilidades do ambiente, é possível se redirecionar os processos para que se tornem mais produtivos, no sentido de minimizar as falhas, otimizar as técnicas de exploração e perceber a sustentabilidade em todas as suas dimensões: política, social, econômica, ambiental, cultural e espacial (CMMAD, 199l, p. 46). Há, portanto, um papel social reservado às empresas, conforme cobra a consciência contemporânea. 23 Alexandro Rodrigues Ribeiro 1.4. Uma nova cultura – a responsabilidade social das empresas Ao debate sobre a pertinência e o conteúdo da educação ambiental, Reigota (2002) acrescenta um elemento político e comportamental. Segundo ele, as diferenças econômicas Norte/Sul modelam sociedades de abundância e de carência, construindo, no entanto, um padrão único de comportamento, aquele calcado no consumismo. “Consome-se uma grande quantidade de produtos perecíveis, desnecessários, descartáveis, além dos recursos naturais não renováveis e poluidores, como o petróleo e os seus derivados” (Reigota, 2002, p. 24) . O autor considera a educação ambiental como sendo política, porque prepara os cidadãos para exigirem justiça social, cidadania nacional e planetária, autogestão e ética na relação sociedade/natureza. Essa ação política, acrescentamos, não deve, no entanto, ser vista como restrita aos indivíduos. Ela também cabe às instituições, e não apenas àquelas de caráter público, mas também às de caráter privado como as empresas. Uma visão puramente liberal enxergaria as empresas como agentes puramente econômicos destinados, exclusivamente, à produção de bens e serviços. E que para realizar suas atividades necessitam da integração com os indivíduos e famílias. A troca entre empresas e famílias se dá através do pagamento de salários, como contrapartida do trabalho. Chiavenato (1993, p.42), no entanto, não enxerga a empresa como limitada a essa função básica. Para ele, “As organizações constituem a forma dominante de instituição em nossa sociedade... as organizações permeiam todos os aspectos de vida moderna e envolvem atenção, tempo e energia de numerosas pessoas”. Assim, as empresas ou organizações têm alargadas suas relações com a sociedade, incluindo aí relações éticas, hoje cobradas de modo cada vez mais incisivo. É o que afirma Marques Jr. (2001): “na sociedade moderna, torna-se cada vez mais evidente a pressão que a opinião pública exerce sobre os diversos complexos industriais para o desenvolvimento de sistemas de gerenciamento ambiental de seus produtos, processos ou serviços, requerendo uma tecnologia mais adequada para o tratamento e reciclagem de produtos residuais” (Marques Jr. 2001, p. 6). Constrói-se portanto, em nossa época o consenso de que, além da responsabilidade em produzir bens, cabe também as empresas uma responsabilidade social, da qual a responsabilidade ambiental é uma de suas vertentes. Para que a qualidade de vida seja assegurada, propõe-se que a sociedade, como um todo, transforme os padrões do processo produtivo e de consumo. Produzir mais com menos recursos seria essencial para redirecionar o sistema produtivo das organizações, incorporando os aspectos ambientais e sociais (Kinlaw, 1997). Assim, sensibilizar empresas e comunidades sobre tais problemas ambientais auxiliará na busca desse desenvolvimento compatível com o equilíbrio ambiental. Para alcançar o uso racional dos recursos naturais, há a necessidade de uma exploração também racional, interagindo as empresas com a comunidade em busca de um ideal, de sustentabilidade sócio-econômica e dos recursos naturais, principalmente dos não-renováveis. O surgimento da percepção dos perigos advindos do avanço tecnológico fez com que o ser humano pensasse a respeito do modelo de desenvolvimento adotado desde a Revolução Industrial. Com os acidentes ambientais acontecendo e a percepção dos problemas evidenciados, foram surgindo os primeiros movimentos 24 Alexandro Rodrigues Ribeiro ecológicos e a formação de organizações, aumentando a pressão social por um maior compromisso com a preservação do meio ambiente e o controle dos riscos. Os acidentes ambientais também despertaram nas empresas a necessidade de aprimoramento no controle da produção, visando buscar atender à clientela e à legislação. Os acidentes como os vazamentos de petróleo, explosões, deslizamentos de terra, entre outros, tornaram evidente a necessidade das empresas adotarem uma postura ética e responsável quanto às condições de trabalho e à qualidade do meio ambiente, independentemente de possuírem Sistemas de Gestão da Qualidade implementados e certificados. A atenção da empresa em relação ao meio ambiente não surgiu repentinamente, e sim conforme a necessidade de adequar-se às exigências da comunidade, expressas pela legislação, e posteriormente com a noção de vantagem competitiva, ou seja, aquela vantagem advinda de uma produção que não gere impacto ambiental negativo, levando a empresa a ter uma imagem corporativa responsável. O quadro a seguir nos mostra a evolução nas relações estabelecidas entre a empresa e o meio ambiente. 25 Alexandro Rodrigues Ribeiro Quadro 1: Fases da relação entre empresa e meio ambiente Fase Relação Até 1970 Conflito Anos 70-80 Comando e Controle Anos 90 Parcerias Futuro Soma de parcerias Solução Reativa Controle de Poluição Impacto Incomodação Custos Adicionais SGA* RSC** Lucro Desenvolvimento Sustentável Fonte: Adaptado de: Marques Jr.(2001,p.16) – GA620 Estratégia Ambiental – p. 16 *Sistema de gestão ambiental **Responsabilidade social corporativa O quadro acima nos mostra que em 1970 a relação entre empresa e meio ambiente era conflitiva. Os agentes, incomodados com a poluição ambiental, reagiam contra os impactos negativos gerados na produção, fossem eles no ar, solo ou água, Essa reação gerava incômodo, pois as empresas não tinham controle sobre a emissão dos poluentes e a legislação ambiental era praticamente inexistente na época. De 1970 até o final da década de 1980, aconteceu a regulamentação para o controle ambiental. A década de 1980 foi considerada a fase de Planejamento. Surgiu o Estudo de Impactos Ambientais – EIA - e o Relatório de Impactos Ambientais – RIMA. Na política nacional, através do Ministério do Meio Ambiente, a lei 6.938/81 foi o principal aliado para desenvolver um controle mais efetivo sobre as ações passíveis de causar danos ao meio ambiente. Esses encadeamentos “regulatórios” permitem ao Estado controlar as ações de agressores do meio ambiente, limitando seu potencial de agressividade. Essa limitação gerava custos adicionais para as empresas, na forma de multas ou de adoção de equipamentos e ações preventivas. Com a experiência adquirida através dos anos e da busca por melhorias, o termo “qualidade ambiental” passa a fazer parte do cotidiano das pessoas. Assim, na década de 1990, há um grande impulso com relação à “consciência ambiental” na maioria dos países. Os modelos de gestão ambiental e as certificações surgem na década de 1990, numa relação de parceria entre comunidade, governo e empresa. Muitas delas também passaram a se preocupar com a racionalização do uso de energia, da água e de matérias primas, estimulando a reciclagem, o que além de evitar desperdício gera também lucros para a empresa. (Moura, 2002). Assim, o gerenciamento sistêmico, isto é, aquele que busca aliar qualidade do produto, segurança do trabalho e conformidade ambiental, começa a se instalar em vários setores da produção. Conforme Moura (2000 apud Marques Jr.2001), a relação empresa e meio ambiente vista atualmente leva à harmonização de atividades administrativas, desenvolvendo um gerenciamento integrado, no qual os objetivos de qualidade dos produtos, saúde e segurança dos funcionários e responsabilidade social, aparecem com a mesma hierarquia, visando ao final o desenvolvimento sustentável. O mesmo autor comenta que as 26 Alexandro Rodrigues Ribeiro empresas produtoras de bens e serviços estão hoje em evidência na problemática ambiental, sobretudo nos países mais desenvolvidos. As pressões exercidas pelas comunidades, ONGs e governos forçam uma postura pró-ativa na melhoria de seus processos produtivos. Assim, a empresa poderá gerar menos resíduos e poluentes e menor consumo de matérias-primas e energia. Pesquisa realizada em abril de 1990 pela Opinion Research Corporation nos Estados Unidos revelou que “71% das pessoas consultadas disseram que tinham mudado de marca devido a considerações de cunho ambiental e 27% afirmaram ter boicotado produtos por causa de maus antecedentes ambientais do fabricante.” A globalização acaba por exigir que as empresas, mesmo nos países subdesenvolvidos, tenham certificações, para garantir produção com qualidade e ambientalmente adequada. Essas certificações motivam-nas a investir em melhorias e cuidados no processo de fabricação ao diminuírem a emissão de dejetos, visando atender a uma expectativa dos consumidores. 1.4.1. A normatização da responsabilidade social A International Organisation for Standardization - ISO8 - foi fundada em 1947. A organização é uma Federação Mundial, sediada na Suíça, e tem como principal objetivo facilitar o intercâmbio eficiente de mercadorias e serviços. Os padrões desenvolvidos pela ISO são de adoção voluntária. A Associação Brasileira de Normas Técnicas – ABNT9 - é o órgão que representa o Brasil em todos os Comitês da ISO. De acordo com a NBR ISO 14001, de outubro de 1996, “Esta Norma tem por objetivo especificar os requisitos relativos a um sistema de gestão ambiental, permitindo a uma organização formular uma política e objetivos que levem em conta os requisitos legais e as informações referentes aos impactos ambientais significativos. Ela se aplica aos aspectos ambientais que possam ser controlados pela organização e sobre os quais presume-se que ela tenha influência. Em si, ela não prescreve critérios específicos de desempenho ambiental”. O Comitê ISO/TC 207 – “Gestão Ambiental” foi criado em março de 1993 com o objetivo de elaborar as normas da série 14000 para padronizar procedimentos e ações em nível de gestão da qualidade ambiental em empresas por todo o planeta, “Estas normas não especificam ações rígidas, mas sim diretrizes básicas para ações direcionadas a atividades, produtos ou serviços, sempre visando atingir o equilíbrio entre qualidade tecno-econômica e ambiental.” (Vilhena e Politi, 2000). Reis (2002) assegura que a implantação de um Sistema de Gestão Ambiental – SGA - baseado na Norma ISO 14000, “além de garantir um efetivo gerenciamento e melhorias ambientais, as empresas garantem a seus clientes que atendem e respeitam a legislação ambiental e, assim, estão em condições de ultrapassar uma série de barreiras comerciais impostas por diversos países.” Alguns autores, como Santos (s/d), retratam a importância das certificações ambientais. Pettigrew (l989 apud Santos s/d), que sugere que as empresas, embora sob forte pressão ambiental, possuem condições 8 9 Entidade civil não-governamental Entidade civil não-governamental 27 Alexandro Rodrigues Ribeiro de fazer escolhas quanto às suas ações e estratégias para minimização de impactos. A adoção das séries IS0 14000 constitui uma postura mais ativa e responsável das empresas. Utilizando as certificações, normas e procedimentos, elas incorporam políticas de produção mais limpa em suas operações, em resposta às demandas dos consumidores. No entanto, ao buscarem implementar as certificações e utilizar as normas técnicas ambientais, precisam preparar-se como um todo, ou seja, precisam adotar o treinamento a ser aplicado desde o mais elevado cargo da empresa até ao mais baixo. A preparação não efetuada corretamente causa dificuldades à compreensão e adoção da proposta, comprometendo a desejada mudança. Para que seja implantado mais facilmente um trabalho educacional voltado para a sensibilização dos funcionários aos problemas ambientais e sociais, os especialistas vêm se empenhando em treinamentos nos quais todos os colaboradores, em razão de uma compreensão sócio-ambiental ampla, interagem com a empresa, conforme assinala Badue (2003): “À empresa, que é formada por pessoas, cabe satisfazer as necessidades básicas de cada colaborador, possibilitando sua motivação e crescimento pessoal, através de um processo de educação constante”. A autora ainda enfatiza que o investimento no ser humano é a possibilidade de a empresa garantir o êxito dos programas de educação ambiental. E argumenta: “O reconhecimento dos sentimentos, valores e atitudes das pessoas que compõem o capital intelectual de uma empresa e a promoção do seu bem-estar são questões que já estão incorporadas ao cotidiano das organizações que buscam sucesso econômico e maior valorização no mercado..” (Badue, 2003). Ainda para a autora, a base da Educação Ambiental nas empresas está nos Quatro Pilares da Educação, indicados no Relatório da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI da UNESCO, que são “aprender a conhecer, onde o colaborador adquire as ferramentas para a compreensão sistêmica do mundo; aprender a fazer, para poder agir no meio; aprender a conviver, viver junto a fim de cooperar na construção de um mundo de maior equilíbrio sócio-ambiental; e aprender a ser, que é sem dúvida a aprendizagem fundamental que permeia as demais”. Neste mesmo sentido, Simons (2003) chama a atenção para as dificuldades das empresas em implantar certificações ambientais e assinala que o sucesso de implementação dessas certificações depende diretamente de seus colaboradores, pois estes devem estar predispostos à compreensão dos problemas sócioambientais, tanto da empresa, como da comunidade e de seus lares. O colaborador, sem essa visão, estaria distante de aderir à realização de tarefas capazes de minimizar os impactos ambientais. Para eles, essas tarefas seriam encaradas como uma tarefa a mais, um fardo que não mereceria ser carregado. Mas as técnicas para controle ambiental geram também críticas. Alguns autores salientam que a questão técnica carece de se ver acrescentada uma dimensão ética. Para Herculano, Freitas e Porto (2000), a qualidade ambiental “no ramo industrial e nas ciências da administração” e as preocupações com a qualidade total e a elaboração de normas de qualidade ISO 9000 e ISO 14000, entre outras políticas de controle da qualidade, “visam à disputa do mercado através do aprimoramento dos produtos, do bom 28 Alexandro Rodrigues Ribeiro atendimento aos consumidores” e aos trabalhadores da empresa através da produtividade e incentivo à integração funcional. Os autores citam Pinguelli (199- apud Herculano, Freitas e Porto, 2000), que argumenta que a “crítica social no movimento ambiental que denunciava as agressões do homem à natureza e à convivência social” através do movimento ambientalista da década de 70, apontava que a tecnologia “está a serviço de um tipo de sociedade, uma sociedade onde uns exploram os outros”, e as questões ambientais se tornaram um grande negócio, no qual os impasses são solucionados com normas. Desse modo, cada ISO implantada gera mais empresas, mais negócios ambientais, além de inspirar alunos que podem conseguir emprego estudando impactos. Ele finaliza dizendo que “a componente ética, perdida junto com a reabilitação da tecnologia, tem de voltar, a tecnologia deve subordinar-se a certos objetivos sociais perdidos na passagem das décadas de 60 e 70 para as de 80 e 90. Precisamos descer aos casos concretos, regulamentar, estabelecer normas, fazer equipamentos mais eficientes, mas é preciso, sobretudo, também discutir os princípios, o aspecto da ética ambiental, porque ele realiza a ética social” (Pinguelli s/d). Além da certificação ISO 14001, podem existir outras iniciativas que, mesmo sem a emissão de certificados, representam a racionalização do processo produtivo, no sentido de reduzir resíduos e desperdícios. Um desses programas é a ecoeficiência, definida como a “produção sustentável de bens e serviços úteis à sociedade, agregando valor através da busca pela redução de consumo de recursos naturais e da minimização/não geração de qualquer tipo de poluição”, (Vilhena e Politi, 2000, p.13) segundo o Conselho Mundial para o Desenvolvimento Sustentável. Poppof e DeSimone (2000, p.89) definem ecoeficiência como “a capacidade de adquirir preços competitivos que satisfaçam as necessidades humanas e tragam qualidade de vida para a sociedade, enquanto se reduzem os impactos ambientais e a intensidade de recursos através do ciclo de vida”. Albiero Filho (2003) ressalta que o desempenho ambiental de uma empresa, ou seja, o resultado da gestão de seus aspectos ambientais, é, primordialmente, reflexo do seu grau de conformidade a esses requisitos. Ainda segundo o autor, não basta o atendimento, quase sempre obrigatório, a requisitos ambientais para que haja competitividade, “é importante que a visão gerencial do empreendedor contemple a busca da qualidade ambiental sempre em um novo patamar superior à conformidade em si, no sentido da melhoria contínua do seu desempenho”. Albiero Filho (op. cit.) cita quatro estágios diferenciados nos negócios, dentro dos contextos empresarial, setorial e sistêmico, e que constituem a proposta de abordagem ambiental da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP/CIESP). Seriam: a) a conformidade legal, ou seja, o atendimento à legislação; b) a conformidade normativa, ou seja, o atendimento “às exigências estabelecidas em normas técnicas ambientais de gestão e de processos, com eventuais certificações”, c) a ecoeficiência, vista como a adoção de processos de produção em conformidade com os requisitos ambientais considerando a avaliação 29 Alexandro Rodrigues Ribeiro dos impactos no meio ambiente e no econegócio; d) o econegócio, objetivando a inserção de produtos e serviços em mercados de padrões de consumo ambientalmente responsáveis, os quais incorporem saltos tecnológicos significativos para a conservação ambiental, a partir de pesquisa. O reconhecimento do padrão de um produto pode ser dado na forma de um “selo”. Segundo Moura (2000, p. 4), o “selo ecológico” surge pela primeira vez em 1972, na Holanda; e na Alemanha, como “anjo azul”, em 1978. A intenção era evidenciar, através de rótulos, produtos que não estavam em consonância com a orientação do “ambientalmente correto”. Atualmente, as empresas contam também com certificações para a segurança no trabalho e para a responsabilidade social. A norma para segurança no trabalho é chamada de Social Accountability 8000 (SA 8000) e visa aprimorar o bem-estar e as boas condições de trabalho, bem como o desenvolvimento de um sistema de verificação que garanta a contínua conformidade com os padrões estabelecidos pela norma. (cf sa8000). A SAI (Social Accountability International) é uma organização não-governamental, sediada nos Estados Unidos, responsável pelo desenvolvimento e supervisão da norma internacional. Fundada em 1997, a SAI é uma entidade associada ao Conselho de Prioridades Econômicas (Council on Economic Priorities), pioneiro na área de responsabilidade social das empresas. A SA 8000 é cada vez mais reconhecida no mundo como um sistema efetivo de implementação, manutenção e verificação de condições dignas de trabalho. Os principais pontos abordados pela SA8000 são: Trabalho Infantil; Trabalho Forçado, Saúde e Segurança; Liberdade de Associação; Discriminação; Práticas Disciplinares; Horário de trabalho; Remuneração; Sistemas de Gestão. Outra forma de atingir qualidade na segurança de trabalho é através do Sistema de Gestão de Segurança e Saúde Ocupacional. Conforme Benite (s/d), essa norma foi criada por um grupo de Organismos Certificadores e por entidades normatizadoras da Irlanda, África do Sul, Espanha, Malásia e Austrália, objetivando a criação de uma norma única, internacionalmente reconhecida e aplicável a qualquer tipo e porte de empresa, passível de ser auditada e certificada. A implementação de um Sistema de Gestão de Segurança e Saúde Ocupacional (SSO) possibilitará a obtenção das seguintes vantagens: a eliminação ou redução dos riscos de acidente de trabalho e o conseqüente aumento da satisfação e qualidade de vida dos trabalhadores e da produtividade; redução dos custos diretos e indiretos relacionados a multas, ações trabalhistas, embargos, paralisações por acidentes, etc.; explicitação de sua forma de atuação ética e responsável, resultando na melhoria das relações com os trabalhadores, sindicatos, clientes, investidores e fornecedores; redução de encargos trabalhistas, visto encontrar-se em tramitação no congresso a redução do Seguro de Acidente do Trabalho - SAT, para as empresas que tiverem um Sistema de Gestão de Segurança e Saúde Ocupacional implementado. Se este conjunto de precauções e exigências é pertinente em relação à produção econômica em geral, mais pertinente ele se torna quando consideramos de perto uma atividade econômica de grande risco, como a exploração do petróleo. Esta apresenta riscos de várias naturezas: para o meio ambiente, para aqueles diretamente envolvidos nas atividades de produção e para as comunidades do entorno. Como uma empresa 30 Alexandro Rodrigues Ribeiro deste setor, no caso a Petrobras, se comporta em nível interno e que relações procura construir com as comunidades vizinhas, no caso, Alto do Rodrigues? É disso que nos ocuparemos nos capítulos seguintes. 31 Alexandro Rodrigues Ribeiro Capítulo II: A exploração do Petróleo em Alto do Rodrigues: uma atividade de risco 2.1. Introdução Conforme informações do documento Petrobras 50 anos: uma construção da inteligência brasileira, o petróleo é uma substância química natural, mistura de hidrocarbonetos de origem orgânica que aparece em jazidas minerais subterrâneas formadas ao longo de milhões de anos. Os hidrocarbonetos são moléculas compostas de carbono e hidrogênio, principalmente. Outros componentes são: enxofre, nitrogênio, níquel, ferro e oxigênio. Sua transformação em óleo e gás se dá pela decomposição de restos de animais e de vegetais depositados no fundo de antigos mares e lagos, sendo cobertos por outras camadas de solo. O calor e a pressão causados por essas novas camadas transformam a matéria orgânica em petróleo. O petróleo pode ser encontrado em diversas profundidades, no subsolo terrestre ou marítimo. Esses locais são chamados de bacias sedimentares. Mesmo nessas bacias, só aparece onde existe a combinação adequada de fatores e de rochas de características diferentes. Nessas combinações, pode variar a composição química (petróleos de base parafínica, naftênica ou mista) que é menos densa do que a água. Quanto à aparência, alguns fluidos são de cor clara, outros viscosos, variando da cor castanho-escuro ao preto ou verde. Dados nos mostram que as jazidas petrolíferas mais novas datam de menos de dois milhões de anos e as mais antigas, de aproximadamente 500 milhões de anos. O fato de que alguns povos antigos conheciam o petróleo em sua forma natural, há 4 mil anos antes de Cristo, deve-se ao fato de que quando o produto, gerado nas profundezas, não encontrava em seu caminho um reservatório onde se pudesse acumular, prosseguia até a superfície da terra, formando os chamados vazamentos. Ainda conforme o documento citado, o primeiro poço petrolífero perfurado data de 1859, na Pensilvânia, nos Estados Unidos. Sua produção inicial foi de 25 barris por dia e tinha uma profundidade de 22 metros. Os derivados do petróleo espalham-se por mais de 6 mil produtos, como fibras sintéticas para tecidos, borracha sintética para pneumáticos, produtos de limpeza, corantes, plásticos, fertilizantes, inseticidas, produtos farmacêuticos e perfumes. Os produtos considerados nobres na indústria petrolífera são: gasolina, querosene, óleo diesel, óleos lubrificantes e gases. Além de o petróleo fornecer esses componentes derivados, ele também substituiu muitos importantes produtos. Antes do descobrimento do petróleo, a iluminação das casas era feita geralmente com óleo de baleia. Com o descobrimento do petróleo, o querosene passou a ser utilizado, além da iluminação, também na calefação e uso doméstico. Na indústria, o petróleo substituiu o carvão; na área dos transportes, a invenção dos motores a gasolina e, posteriormente, a diesel, substituiu a tração animal e a vapor nos veículos. No entanto, nos locais onde há extração de petróleo ocorrem intervenções ou danos no ambiente ao redor. A atividade de exploração petrolífera produz impactos sociais e ambientais, tanto por acidentes como por prática das rotinas de operações. Em operações normais de trabalho na exploração de petróleo os efeitos podem ser maiores e tão prejudiciais quanto as catástrofes acidentais que possam ocorrer. Alguns impactos durante a prospecção e exploração do petróleo podem ser consideradas, como: a operação sísmica, na qual são utilizadas bombas de 32 Alexandro Rodrigues Ribeiro dinamites, deixando toda a área explorada afetada pelos buracos resultantes das explosões; a perfuração de poços, em cuja operação são usados lodos químicos altamente contaminantes. Além disso, usa-se água para facilitar a penetração das brocas no terreno. Essa fase de prospecção altera o equilíbrio natural, pois requer grande quantidade de água do local e aumenta os níveis de contaminação. Os lodos químicos também possuem metais pesados, como cadmio, cobre, arsênico, mercúrio e chumbo, que podem contaminar a água. As explosões podem prejudicar também, pelo impacto acústico, a conduta dos animais. Outras formas de contaminação possíveis surgem durante a etapa de transporte do óleo cru. Milhões de barris são derramados nos solos, rios, lagos e mares, em acidentes mais ou menos freqüentes. As conseqüências desses acidentes continuam afetando o ambiente muitos anos depois. A compactação dos solos também se constitui num impacto considerável. Máquinas pesadas, sobretudo durante os serviços de prospecção, circulam e destroem a vegetação, compactam o solo, favorecendo a erosão. As alterações do solo podem eliminar a vegetação mais fraca e também produzir mudanças no pH no solo. No mar, por exemplo, pode-se ter o descarte de efluentes de refinarias de petróleo situadas próximas da costa. Também podem causar impactos os “lixos” dos navios que transportam petróleo e navegam pelos mares e que não sofreram acidentes de nenhum tipo (cf.uol/ecologia). A queima do petróleo também libera elementos químicos como o dióxido de carbono, dióxido de enxofre, de nitrogênio e outros componentes voláteis, que causam graves problemas ambientais. 2.2. O petróleo no Brasil e a Petrobras No final do século XIX surgem os primeiros registros da descoberta de petróleo em solo brasileiro. Em 1897, no interior do estado de São Paulo, no município de Bofete, um fazendeiro perfura o primeiro poço de petróleo do país. No entanto, as primeiras tentativas de encontrar petróleo datam de 1864. O petróleo, que naquele momento alimentava apenas a indústria e a iluminação de algumas residências e lugares públicos, passa a alimentar os primeiros motores a explosão, cujo uso e desenvolvimento se expandiram com a utilização desse combustível. No início do século XX, a falta de pessoal treinado e de tecnologia adequada frustra as tentativas de perfuração de poços de petróleo. O esforço em nível de governo para poder descobrir fontes de petróleo fez criar o Serviço Geológico e Mineralógico Brasileiro (SGMB), em 1907. Ligado ao Ministério da Agricultura, surgiu em 1933 o Departamento Nacional de Produção Mineral, sendo que nessa época o estado de São Paulo foi o que mais colaborou com as iniciativas de exploração petrolífera. Alagoas, Sergipe, Bahia e o Amazonas eram os estados para os quais os geólogos e pesquisadores chamavam a atenção em relação à exploração do petróleo. A falta de recursos, porém, não os deixava chegar a resultados positivos. Ainda na década de 1930, alguns grupos se formaram com o intuito de exploração do petróleo, pois já o faziam em relação a outros minerais como o ferro. Em 1939, no governo de Getúlio Vargas, foi instalado o Conselho Nacional de Petróleo (CNP), fazendo com que este recurso se tornasse patrimônio da União, objetivando regularizar as atividades petrolíferas, desde a exploração, comercialização das exportações e importações até a distribuição e comércio 33 Alexandro Rodrigues Ribeiro do petróleo. A partir de então, houve um maior desenvolvimento na exploração do petróleo. Novas descobertas foram se efetivando e junto a elas, também, a mobilização da sociedade brasileira para a estatização da exploração petrolífera. Entre 1947 e 1948, era grande o interesse em privatizar a exploração do petróleo brasileiro. Trava-se a partir daí uma “luta” entre setores nacionalistas e “entreguistas”, envolvendo os movimentos estudantil, operário, políticos, militares e intelectuais. Com o lema “O petróleo é nosso” conseguiu-se nacionalizar a exploração e refino do petróleo, barrando a entrada de empresas estrangeiras nessa atividade. Em outubro de 1953, através da lei 2004, Getúlio Vargas institui o Petróleo Brasileiro S.A. (Petrobrás), como monopólio estatal de pesquisa e lavra, refino e transporte do Petróleo e seus derivados. Segundo a própria Petrobrás, a produção diária na época era de 2.700 barris por dia, 27% do que o país consumia. Nessa época, cresce a construção de rodovias no país, conseqüentemente o número de veículos e também o crescimento industrial, o que fez aumentar significativamente a procura pelo petróleo. Então, a demanda se torna maior que a oferta, necessitando o país de importar praticamente todo o volume necessário para o consumo. No final da década de 1950 e início da década de 60, algumas descobertas aumentaram a produção brasileira. Novos poços no estado de Alagoas e o primeiro poço no mar, no estado de Sergipe, fizeram com que a Petrobrás concentrasse suas pesquisas no mar. No final da década de 60, a produção brasileira era de mais de 160 mil barris por dia. Em 1973, surge a primeira crise no setor. Com a elevação dos preços do petróleo pelos países membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), ocorreu o chamado choque do petróleo. Sendo este um produto importante na economia mundial, o aumento dos preços provocou interferência direta na economia dos países dependentes de sua importação. O Brasil, como mantinha um bom relacionamento com os países membros da OPEP, conseguiu manter seu abastecimento interno. Em meio a essa crise surge um grande momento da Petrobrás, o da exploração de petróleo em águas profundas, com o descobrimento de duas bacias nos estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. A bacia de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, é considerada a mais produtiva do país e uma das maiores do mundo. Em 1975, o Brasil abre a exploração do petróleo a empresas estrangeiras, através dos chamados “contratos de risco”, pois tinha-se a esperança de que essas empresas fariam grandes investimentos, produzindo um grande aporte financeiro para o país. Além de não ter ocorrido como se esperava, dos investimentos não terem vindo, ainda houve a segunda crise internacional do petróleo. Em meio à crise, a Petrobras investe maciçamente em pesquisas para a descoberta de novas jazidas. A descoberta do campo de Garoupa, no estado do Rio de Janeiro em 1974, foi o inicio do sucesso da bacia de Campos, consolidando-se como a maior bacia produtora do país. Nessa época, a Petrobrás também buscou desenvolver novas fontes de energia para substituir os derivados de petróleo, como por exemplo, o uso do álcool carburante. Na esteira do pensamento ambiental da época, que preconiza a compatibilidade entre desenvolvimento econômico e preservação da qualidade do meio ambiente, a Petrobras começa a investir, na década de 80, numa política ambiental, na qual tem lugar a educação ambiental e tecnologias específicas para 34 Alexandro Rodrigues Ribeiro proteção do meio ambiente. Em 1984, é construído o primeiro Centro Modelo de Combate à Poluição no Mar por Óleo, em São Sebastião, no estado de São Paulo. Como fato marcante, em 1987 foi retirado o chumbo tetraetila da gasolina produzida pela Petrobrás, uma vez que este era usado para aumentar o poder antidetonante da gasolina, mas se tornava altamente poluente e cancerígeno.(Revista Petrobras, 2004, p.10) A certificação ambiental ISO 14000, recebida em 1998, foi a primeira certificação ambiental para uma empresa brasileira, concedida à unidade de produção de Urucu, na Amazônia. A empresa hoje tem “todas as unidades certificadas pelas normas ISO 14001 (meio ambiente) e BS 8800 ou OHSAS 18001 (segurança e saúde)”. (idem) Evidencia-se que as normas da série ISO 14000 vêm aprimorando o gerenciamento ambiental das empresas. No entanto, percebe-se que é importante, tanto para a empresa quanto para seus fornecedores, parceiros e sociedade o desempenho ambiental e não somente a certificação. Assim, alguns especialistas em gestão ambiental discutem a forma de atuação das empresas quanto à utilização da série 14000. As normas e procedimentos oferecidas pelas normas da série ISO e a melhoria contínua por ela evidenciada, por si só não garante uma compatibilidade ambiental. Assim, nos embasamos em Porto que diz: “A melhoria contínua exigida pela ISO 14001 não é garantia de aumento significativo no desempenho ambiental, pois uma empresa poderá adequar-se à norma simplesmente padronizando um modelo de gerenciamento ineficiente. A padronização de procedimentos exigida pela normalização pode fazer com que a empresa assuma como corretos procedimentos tradicionais, de baixo desempenho ambiental, sem qualquer abordagem de Produção Limpa” (Luiz Carlos Porto, 2003). O autor ainda argumenta que para alcançar uma melhoria no desempenho ambiental será necessário a eliminação e não o gerenciamento dos impactos ambientais e finaliza dizendo que o modelo de gestão ambiental atual não alcança o grau de desempenho exigido e ainda gera custos ambientais cada vez maiores com tratamento e disposição de resíduos e ainda com os riscos ambientais. Embora possa soar utópico o desejo de eliminar os impactos ambientais, e não apenas o de gerenciálos convenientemente, ser certificado por uma norma ambiental não é somente obter a certificação, mas mantê-la através de um amplo trabalho de sensibilização, desde o mais alto nível hierárquico ao mais baixo, juntamente com um amplo trabalho junto à comunidade, visando diminuir ao máximo esses impactos. Obtidas as primeiras certificações ambientais, continua o desenvolvimento da Petrobras em busca do aumento da produção, dessa feita com a exploração de águas profundas. A exploração e produção, com perfuração de poços em lâminas d’água superiores a 1.200 metros e produção a profundidades acima de 400 metros, constituem uma realidade nesta década. A década de 1980 foi considerada pela Petrobrás como a década das superações. Os investimentos em exploração, produção e comercialização ajudaram a diminuir a dependência energética. Para poder explorar petróleo em alto mar, a empresa ainda se utilizava de tecnologia importada, mas conseguia fazer suas primeiras extrações da bacia de Campos. A antecipação de receitas, bem como a produção antecipada, com tecnologia desenvolvida pelos técnicos da Petrobrás em 1981 e o avanço no desenvolvimento tecnológico 35 Alexandro Rodrigues Ribeiro para produção submarina foram conquistas importantes para ajudar a bater recordes na produção, além de entrar em operação o campo do Rio Urucu no Alto Amazonas, o que foi considerado um fato histórico da Petrobrás na Amazônia. A transformação do excedente do óleo combustível em diesel, gás liquefeito e gasolina destaca-se como mais uma atividade importante do setor das refinarias. De 1978 até 1984, o Brasil sofre uma grave crise no setor de petróleo, só se recuperando quando a exploração marítima supera a terrestre, e a produção brasileira se iguala à quantidade importada, em torno de meio milhão de barris diários. Os chamados contratos de riscos, surgidos em 1975, na abertura da exploração às empresas multinacionais, acabam após a promulgação da constituição de 1988. Nesse momento, a Petrobrás já dispõe de novas tecnologias e consegue fazer novas descobertas com baixo custo de operação. Chamada de “a década da tecnologia”, os anos 90 também foram anos de superações. Com o desenvolvimento próprio de sua tecnologia a Petrobras consegue extrair petróleo em águas ultra profundas. A meta na década de 80 era superar os 500 metros: em 1999, foram atingidos os 1.853 metros de profundidade, marco superior no mundo. A demanda da sociedade por produtos de qualidade fez a empresa investir em tecnologia no setor de refino para poder oferecer melhores lubrificantes e aditivos aos consumidores. Outros pontos de destaque nesta década foi a inauguração do gasoduto Bolívia-Brasil, permitindo ampliar a produção energética através do gás natural, e também o fato de a Petrobrás receber concessões da Agencia Nacional do Petróleo – ANP, o que faz aumentar o desenvolvimento da produção em campos de exploração, e em 1997, é superada a produção de petróleo em mais de 1 milhão de barris por dia. Conforme divulgação da própria Petrobras, através de nota à imprensa, de 16 de fevereiro de 2004, houve um novo recorde de processamento de petróleo: no dia 11 de fevereiro de 2004 o processamento diário de petróleo alcança a marca de 1.800 mil barris por dia. Este valor supera em aproximadamente 5.000 barris por dia o recorde alcançado em 8 de outubro de 2003. Com relação a investimentos na área ambiental, a companhia considera que dois acidentes, os vazamentos de óleo na Baía de Guanabara, no estado do Rio de Janeiro, e em Araucária, no Paraná (rio Iguaçu), no ano de 2000, foram fundamentais para intensificar esforços nas áreas de segurança e meio ambiente. Por outro lado, várias reportagens e artigos evidenciam outros acidentes e os enfrentamentos da empresa quanto às multas e punições pelos acidentes ocorridos. Segundo uma reportagem da Tribuna do Norte de novembro de 2000, as multas aplicadas e não quitadas a Petrobras até aquele momento, referindo aos acidentes acima relatados e ainda a outros ocorridos no Rio Grande do Sul e São Paulo chegavam a R$ 223,1 milhões. Na versão da empresa, as multas são encaminhadas ao setor jurídico que avalia a possibilidade de recursos, dizendo: “A companhia não se nega a pagá-las, só estuda a legalidade”. Quanto ao acidente na Baia de Guanabara, que despejaram 1,3 milhão de litros de óleo na Baia, a Petrobras pagou R$ 34 milhões, dos R$ 50 milhões cobrados, considerando que R$ 16 milhões foram descontos concedidos pelo Ibama. Sobre o acidente do rio Iguaçu no Paraná, com vazamento de 4 milhões de litros de óleo, a Petrobras pagou R$ 40 milhões em multas ao Instituto Ambiental do Paraná, mas recorreu da multa de R$ 2,3 milhões impetradas 36 Alexandro Rodrigues Ribeiro pelo Ministério Público Federal e o Ministério Público do Estado do Paraná. Segundo a Petrobras, ela recorre considerando haver duplicidade de multas sobre o mesmo acidente (cf. gazeta do povo). A companhia investiu em vários projetos ambientais. Citaremos alguns mais destacados, como o Programa de Excelência em Gestão Ambiental e Segurança Operacional (Pegaso). Iniciado em 2000, após os acidentes acima citados, “praticamente zerou os estoques de resíduos existentes à época e o teor de óleo nos efluentes está 50% inferior ao limite permitido pela legislação... e ainda, a redução de 90% no volume de vazamentos”. (Revista Petrobras, 2004, p.10) Houve ainda investimentos em Centros de Defesa Ambiental (CDAs), que são como uma espécie de “corpo de bombeiros ambiental”. Esses centros de defesa estão instalados em cinco locais estratégicos de operação da companhia, “são equipados com barcos recolhedores, balsas, dispersantes químicos, agentes biorremediadores e até 20 mil metros lineares de barreiras de contenção e absorção de óleo”. (Ibidem) Ainda conforme a mesma reportagem da revista Petrobras, a empresa investiu em navios que funcionam como Centros de Defesa Ambiental flutuantes. Esses navios “são tripulados 24 horas do dia e estão equipados para cercar e recolher do mar até 300 mil litros de óleo por hora”. Sete mil quilômetros de malha de dutos foram ainda “dotados de sistema de controle automatizado”, significando “que é interrompido automaticamente ao menor sinal de vazamento”. Outra atividade considerada também como ambiciosa foi a redução e tratamento de resíduos em suas unidades de produção. “No final de 2003, a empresa superou a meta de 80% de tratamento dos resíduos oleosos, atingindo a marca de 1,5 milhão de resíduos tratados de forma a não agredir o meio ambiente”. Além disso, a companhia instalou “equipamentos para o controle da poluição atmosférica e dos resíduos líquidos em refinarias e terminais... e iniciou programas de educação ambiental e de preservação dos recursos naturais”. (Petrobras 50 anos, 2003, p.200). A visão de futuro da companhia, anunciada por seu presidente, José Eduardo Dutra, dá conta de uma nova política, direcionada para setores de energia alternativa: “Há hoje um consenso dentro da Petrobras de que o petróleo perderá peso no futuro como fonte direta de energia ... por isso é necessário que a empresa esteja em todas as cadeias de produção de petróleo para melhor aproveitá-lo, para redirecionar seu uso... Ao mesmo tempo, fontes alternativas de energia, como a eólica, o biodiesel e o álcool já se tornaram objetos da atenção e dos investimentos da Petrobras”. (Petrobras 50 anos, idem) A visão de futuro da Petrobrás evidencia a busca pela geração de energia sustentável. Chama a atenção o contraste entre as fontes geradoras de energia: uma altamente poluente e insustentável, outra, “limpa” e sustentável. A incorporação de novas áreas de exploração, como o Rio Grande do Norte e seus campos terrestres, explicam ao aumento da produção de petróleo e a pujança da Petrobras. 2.3. - O petróleo no Rio Grande do Norte A história do petróleo no Estado do Rio Grande do Norte, segundo consta em registros do século XIX, começa pela primeiras descobertas, atribuídas ao padre Florêncio Gomes de Oliveira na comunidade de Apodi. Cópias de duas atas da Câmara de Apodi, datadas de 1853, referem-se ao padre Florêncio Gomes como o autor da descoberta do petróleo no Rio Grande do Norte. 37 Alexandro Rodrigues Ribeiro Numa das atas, os vereadores de Apodi informavam ao presidente da província, Antônio Francisco Pereira de Carvalho, os relatos do padre Florêncio: “Em um dos recantos da lagoa desta vila, que está mais em contato com as substâncias minerais da serra, tem-se coalhado, em alguns anos, uma substância betuminosa, inflamável e de boa luz, semelhante à cera, em quantidade tal que se pode carregar carros dela”. (Rosado 2000, pg. 27) Em 1922, o geólogo americano John Casper Branner relata sua experiência em terras brasileiras, observando a possibilidade de haver petróleo numa faixa de terra que se assemelha às muitas outras regiões do mundo onde já se havia encontrado petróleo, com o título de “Oil Possibilities in Brazil”. Ele escreveu: “Parece inteiramente possível que esta zona contém petróleo onde se alarga para o interior, como a Bahia, até 300 milhas, e Mossoró, no estado do Rio Grande do Norte, e Maranhão, mas em qualquer outra parte duvido de sua existência porque este horizonte é muito estreito, muito fragmentário e muito delgado, para fornecer solo para muito petróleo” (Rosado 2000, pg. 117). Entre os geólogos que pesquisaram a existência do petróleo no Rio Grande do Norte, estão Luciano Jacques de Moraes e Avelino Ignácio de Oliveira. Em 1938, Avelino Ignácio desenvolve um “mapa demonstrativo das possibilidades geológicas do petróleo no Brasil”. Neste mapa aparece a região de Mossoró, com a seguinte observação: “se enquadra nas áreas de Rochas Sedimentares com maiores possibilidades de existência de Petróleo”. Já Luciano Jacques, também em 1938, comunica à Academia Brasileira de Ciências a possibilidade da existência de Petróleo na “Costa de Pernambuco”, devido as condições geológicas favorecerem isso. Em 1952 e 1954, Luciano Jacques descobriu foraminíferos no município de Governador Dix-Sept Rosado e na Serra Mossoró “e acentuou a correlação desses protozoários fósseis com a existência do Petróleo”. (Rosado, op. cit, p. 214) A fase de reconhecimento exploratório da Bacia Potiguar vai de 1945 a 1979, período em que é descoberta na cidade de Mossoró a primeira acumulação economicamente viável, quando uma perfuração em busca de água subterrânea encontrou petróleo. A partir de então foram feitos estudos adicionais para uma avaliação mais precisa do potencial da bacia. Nas novas descobertas destacaram-se Fazenda Belém, no estado do Ceará, e Alto do Rodrigues, no Rio Grande do Norte. Hoje a região é a maior produtora de petróleo em terra no país. 2.4. O petróleo e a Petrobras em Alto do Rodrigues 2.4.1. Alto do Rodrigues – alguns dados O município de Alto do Rodrigues está localizado na Mesorregião Oeste Potiguar, na microrregião do Vale do Açu. O município tem uma extensão de 207,4 km², o que corresponde a 0,39% da superfície do estado do Rio Grande do Norte. A sede do município situa-se a uma altitude média de 13 metros acima do nível do mar, numa posição geográfica determinada pelo paralelo 05º 17’ 18” de latitude Sul e pelo meridiano 36º 45’45” de longitude Oeste. A distância da capital do estado é de 207 km. Seus limites geográficos são os seguintes: ao Norte, o município de Pendências; ao Sul, Afonso Bezerra; a Leste, Afonso Bezerra; e a Oeste, o município de Carnaubais. O município de Alto do Rodrigues possui as seguintes comunidades rurais: Alto Alegre, Baixo Assu, Barrocas, Boca da Várzea, Canafistula, 38 Alexandro Rodrigues Ribeiro Canto do Roçado, Fazenda Gangorra, Sítio São José, Estreito, Listrada, Tabatinga, Tabuleiro Alto I e II e Ponciana. Alto do Rodrigues Mapa do Estado do Rio Grande do Norte. A formação vegetal corresponde à Caatinga Hiperxerófila, vegetação de caráter seco, com abundância de cactáceas e plantas de porte mais baixo e espalhadas. Entre as espécies destacam-se a juremapreta, mufumbo, faveleiro, marmeleiro, xique-xique e facheiro. Longe dos tabuleiros, nos terrenos de várzea, destaca-se a carnaúba e uma vegetação halófila, herbácea e rasteira, constituída por plantas que suportam viver em solos com alta concentração de sais. Os solos apresentam uma fertilidade natural alta, sobretudo aqueles de várzea, de textura argilosa, planos, bem ou moderadamente drenados, com aptidão para lavouras de curto ciclo. Os tabuleiros são aproveitados como áreas de pecuária extensiva, mas possuem aptidão agrícola para culturas especiais de ciclo longo como algodão arbóreo, sisal, caju e coco. O relevo é plano, com elevações inferiores a 100 metros de altitude, observando ondulações e depressões às margens do rio Açu. Geologicamente, o município localiza-se em áreas de abrangência da Formação Jandaíra (Bacia Potiguar), do Cretáceo, com calcários cálcicos, dolomíticos e intercalações de folhelhos, argilitos e saltitos, que formam solos areno-argilosos, de coloração cinza a creme. Entretanto, a sede municipal situa-se em aluviões recentes depositados pelo Rio Açu, recobrindo os calcários regionais. Seu sub-solo possui petróleo e gás natural. Em relação à hidrogeologia, o Aqüífero Jandaíra é predominante, depositado nas formações de calcário, apresentando água geralmente salobra e uma composição química favorável à pequena irrigação. Os dados da Secretaria de Recursos Hídricos do Estado mostram que o município do Alto do Rodrigues tem 49 poços. O rio Açu, originário do estado da Paraíba, banha a cidade e constitui seu maior 39 Alexandro Rodrigues Ribeiro potencial hídrico. Encontra-se localizada no município a Lagoa de Pedras, com um volume considerável d’água, mas de caráter temporário, secando totalmente entre os meses de novembro e dezembro. Sua água não é considerada boa para o consumo humano nem para irrigação, devido ao seu alto índice de salinidade. O nome “Alto do Rodrigues” provém do comerciante e político Joaquim Rodrigues Ferreira, filho do português Manoel Rodrigues Ferreira. Em finais do século XIX, ele possuía uma fazenda de gado à margem direita do Rio Açu, onde construiu uma casa grande sobre uma elevação natural do terreno. Na década de 1950, havia aglomerados de casas ao redor da casa grande, habitadas por lavradores de algodão, cortadores de palha de carnaúba e vaqueiros. 2.4.2. A exploração do petróleo em Alto do Rodrigues A chegada da Petrobras em Alto do Rodrigues se deu no ano de 1981. Nesse momento iniciam-se os trabalhos de prospecção, ocupando um número significativo de trabalhadores. Com os resultados positivos da prospecção e o início das perfurações, algumas empresas são contratadas pela Petrobras. O mercado de trabalho se aquece. No entanto, são empregos temporários, que não necessitam de mão-de-obra qualificada, pois o objetivo das contratações era a implantação de estruturas física para instalação das empresas, construção de garagens, depósitos, galpões, terraplanagem, construção de cercas, etc. Empregos indiretos também são criados, principalmente nos setores de alimentação e imobiliário. Nesse momento, muitas empresas se instalam na cidade Alto do Rodrigues, gerando, além de empregos, impostos. A partir de 1984, com a expansão do campo e a perfuração de muitos poços produtivos, a produção de petróleo cresce. Dez anos depois, passada essa fase de aquecimento e migradas muitas das empresas, a Petrobras ainda mantinha contrato com vinte e uma empresas, das quais apenas duas de Alto do Rodrigues. Em dezembro de 1994, a reserva estimada era de 17.456.000 m³ de petróleo e em outubro de 1995 a produção do Ativo de Alto do Rodrigues foi de 27.500 barris por dia, extraída de 1.517 poços em plena produção. Havia ainda 259 poços fechados temporariamente e 25 abandonados. O total de poços perfurados entre 1981 e 1995 somava 1.801 poços. Nessa época havia 365 trabalhadores das empresas contratadas trabalhando para a Petrobras. Ainda em 1995, o Ativo de Produção de Alto do Rodrigues empregava 266 trabalhadores diretos, nenhum deles, porém, residindo no município. Pesquisa realizada por Sousa (1996) revela que nesse período apenas 16% da mão-de-obra contratada pelas empresas prestadoras de serviços à Petrobras era mão-de-obra local. Passado o período inicial, que não vai além de cinco anos, e com a estabilização da produção, o desemprego volta a ser novamente realidade, pois, como assinala Sousa (1996), as contratações são agora para mão-de-obra especializada, não disponível entre a população local. Em 1996, a Petrobras retirava da região 230 milhões de dólares10 por ano e nela deixava 36 milhões de dólares, na forma de salários diretos, contratos com empresas e royalties (cf. Sousa, 1996)11. 10 Este valor foi conseguido multiplicando-se a produção anual do Ativo (10 milhões de barris) por 23 dólares, o preço do barril à época na Bolsa de Nova Iorque. 40 Alexandro Rodrigues Ribeiro Apesar dos valores deixados e da dinâmica impressa no mercado de trabalho local durante os primeiros anos de instalação dessa nova indústria, a presença da Petrobras na região pode ser vista como um enclave, isto é, como um setor incrustado na economia local sem, no entanto, estabelecer uma comunicação mais efetiva com ela, uma vez que a massa salarial gerada pela empresa não circula na região e a empregabilidade da mão-deobra local é muito baixa. Os contornos desse enclave são diminuídos por intermédio de ações extraeconômicas, isto é, de uma ação comunitária que se traduz na instalação de chafarizes, no melhoramento de estradas, na construção de alguns equipamentos urbanos, no patrocínio de grupos artísticos. Também trabalham na diminuição desses contornos os royalties pagos à prefeitura e aos proprietários de terras produtoras de petróleo, renda que potencialmente pode se incorporar à economia local e lhe fornecer algum aquecimento. A base12 da Petrobras no município de Alto do Rodrigues ocupa-se de vários municípios produtores de petróleo: Açu, Carnaubais, Porto do Mangue, Alto do Rodrigues, Pendências, Macau e Guamaré.. Esta unidade é composta por dez gerências. A abrangência territorial do Ativo de Produção Alto do Rodrigues estende-se por um raio de mais ou menos 50 km. Como já indicado anteriormente, o município de Alto do Rodrigues, assim como todos aqueles produtores de petróleo, recebe mensalmente royalties da Petrobras. No mês pesquisado, abril de 2004, os pagamentos da Petrobras para o estado e municípios apontam Mossoró como o município que mais recebeu royalties: foram repassados para o município R$ 1,5 milhão. Guamaré e Macau receberam a segunda maior parcela no mês: R$ 1,2 milhão cada. Dos 15 municípios produtores, nove receberam valores superiores a R$ 200 mil. Alto do Rodrigues foi o sétimo colocado, recebendo R$ 227.136,32. O valor dos royalties é calculado em função da produção de cada poço no mês e é repassado à prefeitura para ser aplicado em obras de infra-estrutura. O surgimento de uma indústria como a do petróleo, singular na sua característica de reunir riscos tecnológicos e riscos ambientais, vem juntar-se no município a outras fontes produtoras de problemas ambientais e aumentar as preocupações da comunidade. 2.5. Os problemas ambientais da comunidade Os problemas ambientais percebidos no município são, num todo, problemas advindos da exploração dos recursos naturais. O principal problema evidenciado é o da água. A água consumida no município é retirada do rio Açu. Na cidade não há tratamento de esgotos domésticos; eles correm a céu aberto e são descarregados diretamente no rio. Dejetos das empresas agrícolas situadas à montante também são despejados no rio. 11 Como já indicado, os dados referentes a este item encontram-se em Sousa (1996). Apesar de certamente defasados são aqueles de que dispomos. Dados mais recentes a respeito da produção, da quantidade de poços, etc., apesar das tentativas não foi possível serem levantados. 12 Base é um conjunto de construções e instalações de escritório destinadas a prestar apoio logístico aos empregados lotados nas diversas gerências setoriais. 41 Alexandro Rodrigues Ribeiro A ocupação desordenada das margens do rio Açu, a ausência de mata ciliar, a extração de areia do leito do rio e a criação de animais com acesso ao rio, como porcos, por exemplo, contribuem para a contaminação da água. Os problemas relativos à água são fortemente percebidos por todos, inclusive por uma parcela representativa dos representantes políticos locais, de modo que parece tratar-se do maior problema ambiental do município. Não se trata, porém, da sua escassez, fato corriqueiro em outras regiões do semi-árido, mas de sua qualidade. Suas fontes de abastecimento, o rio Açu e algumas lagoas próximas, sofrem poluição por uma série de agentes. Existe mesmo uma certa luta em defesa do rio, embora ela se depare com uma mobilização incipiente e uma desarticulação entre ações que deveriam existir nos níveis municipal, estadual e federal. A organização dessa luta, em nível municipal, envolve desde vereadores até um grupo de jovens católicos denominado Grupo Filhos e Amigos do Rio. É evidente que a água não serve para consumo humano. Esta não é uma impressão baseada simplesmente numa análise visual, mas a conclusão de um amplo e detalhado estudo realizado pelo CEFETRN e concluído em novembro de 2003, intitulado Diagnóstico Ambiental da qualidade da água do rio Piranhas-Açu que abastece as comunidades dos municípios de Pendências, Alto do Rodrigues e Ipanguaçu. Por sua importância para o tema aqui tratado, reproduzimos alguns trechos: “Os impactos ambientais relativos ao rio Piranhas-Açu no trecho compreendido aos municípios de Pendências, Alto do Rodrigues e Ipanguassu são semelhantes, tendo sido identificados e quantificados vários tipos de agressões ambientais à qualidade da água do rio, tais como: lançamento de esgoto não tratado ou águas servidas no rio ou em áreas da sua bacia, descarte de lixo e animais mortos, presença de balneários e barracas nas margens do rio, destruição das margens e mata ciliar do rio, matança de animais nas margens do rio, (com limpeza de intestinos de porcos, carneiros e gado), lavagem de carros, motos, roupas sujas, presença de pocilgas em áreas próximas ao rio, lançamento de animais mortos pela população (cachorros, cavalos etc.). Todos esses impactos causam poluição por matéria orgânica e microbiológica. Nos municípios de Ipanguassu e Alto do Rodrigues foram identificados e quantificados certos tipos de impacto que diferem dos demais: grandes áreas de agricultura irrigada, adjacentes ao rio Piranhas-Açu, sendo que, em algumas, os projetos se confundem com a população e as captações de água do rio que abastecem as populações, estando praticamente dentro do rio. Esse impacto é considerado preocupante e pode contribuir para a poluição química no rio através do aporte de agrotóxicos. Tomando por base os resultados apresentados ..., pode-se afirmar que a água do rio Piranhas-Açu, no trecho estudado, apresenta-se como preocupante em sua qualidade físico-química e microbiológica e, em alguns trechos, o rio já não pode ser classificado como classe 2, conforme Resolução nº 20 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (CONAMA, 1986). Sinais evidentes de comprometimento grave da qualidade da água, tais como mau-cheiro, caramujos, população doente, animais doentes foram observados durante o estudo. O caso mais grave detecta-se nas captações de água de Macau, Pendências e Alto do Rodrigues, com água contaminada por coliformes fecais chegando a 14.000 CF/100ml na captação destinada a Macau”. “A avaliação indireta mostrou que, praticamente, toda a população considera o rio como de grande importância, estratégico, vital para a região do Vale do Açu, sendo considerado o recurso natural mais importante, a maior riqueza da região. 42 Alexandro Rodrigues Ribeiro A pesquisa também mostrou que atualmente, cerca de 82% da população não confia na água do rio. Nas cidades, apenas 37% da população não consome água do rio, consumindo por sua vez, água mineral; na zona rural cerca de 70% da população consome água do rio, esse fato sendo atribuído pela mesma à falta de condições financeiras para adquirir o bem e, dessa forma, em média, somente 50% da população da região ainda consome água do rio Piranhas-Açu; esse fato pode ser atribuído também à falta de condições financeiras para adquirir água mineral. Diversos tipos de doenças podem ser atribuídos à má qualidade da água do rio Piranhas-Açu. Foram levantadas nas Secretarias e Postos de Saúde dos municípios as seguintes doenças e problemas com maior índice de”. incidência na população: diarréia forte, vômitos, verminose reincidente, doenças de pele, abortos, grande número de casos de câncer intestinal etc. Também são citadas pela população várias fontes de poluição do rio, como causadoras da poluição na região, sendo as mesmas: esgotos das cidades, plantações de banana, lixo, viveiros de camarão, pocilgas, matança de animais, lavagem de carros, lavagem de recipientes de agrotóxicos etc”. O que no Relatório do CEFET se traduz em termos de percentuais, nós constatamos nos depoimentos de nossos informantes. É unânime a informação de que a água não é boa, assim como também é unânime a relação que se faz com algumas doenças. Uma moradora da comunidade de São José, zona rural, confessa, diante da caixa d’água, onde se lê em letras graúdas “Programa Petrobras de Água”: “Estou indo ao médico para tratar de problemas que tenho devido a água não ser boa. O doutor me disse que não posso beber mais desta água, pois não é tratada. Disse que tenho que beber água mineral, mas isso eu faço só quando o dinheiro dá. No nosso roçado tem dois poços d’água da Petrobras. A água é boa, como se fosse mineral, mas não deixam usar, não sei por que”. Outra moradora prossegue, esclarecendo o que ocorre com o sistema de abastecimento: “A prefeitura ficou de botar filtros para a gente pagar por mês, mas nunca colocaram. Disseram que depois das chuvas a água ficaria limpa. A água do rio é suja com o veneno das plantações de banana que vão para o rio. Mas agora dizem que vão tratar, que a água vai para um tanque, mas acho que não tratam não, já faz muito tempo que dizem isto. A nossa comunidade é muito fraca, não consegue nada, aceita tudo”. A posse das informações levantadas pelo Diagnóstico do CEFET, evidenciada na fala de políticos, jovens e técnicos da comunidade, tem servido para, de alguma forma, direcionar a luta e ajudar a formular reivindicações, embora, como na última frase da moradora de São José, um sentimento de impotência e de abandono se faça presente. O grupo de jovens católicos tenciona repassar as informações às comunidades a fim de que elas se mobilizem pressionando as autoridades por uma solução para o problema. Um líder comunitário diz que o problema já é do conhecimento das secretarias municipais de Saúde e da Agricultura e que planeja transformar, com a ajuda de médicos, o Relatório do CEFET e suas implicações para a saúde, em uma cartilha para ser distribuída pelos agentes de saúde nas comunidades que fazem uso da água. Alguns vereadores se perguntam com quem se pode contar para resolver o problema e se mostram desesperançados com a ação da justiça: “Nós temos uma denúncia da poluição do rio Açu, tem uma vala negra de esgoto que vem de Pendência, todo mundo vê e sabe, o promotor, o juiz, todo mundo passa em cima todo o dia mas faz de conta que não vê. É preciso fazer um abaixo- 43 Alexandro Rodrigues Ribeiro assinado da população para reivindicar”, diz um deles. Ou ainda: “Por que o governo aceita que alguém jogue esgoto com veneno dentro d’água? Entrei com requerimento junto ao prefeito para colocar filtros nas casas. Não é possível deixar que uma empresa jogue com avião óleo mineral para matar o mato, e depois veneno, para que em 24 horas esteja pronto para colocar fogo. Para onde vão esses materiais? Vão para a água. Algum tempo atrás nós tínhamos muitos pássaros na região, como o canário, por exemplo. Hoje minha filha de 4 anos nunca viu um canário, a não ser que seja de outras regiões. Os pássaros daqui estão morrendo todos bebendo água envenenada”, assegura outro. Os problemas aqui levantados são sobretudo devidos às empresas agrícolas. Mas também a exploração do petróleo provoca alguns transtornos ambientais, como esclarece um líder comunitário: “Tem seu impacto, sim. Mas tendo um bom trabalho de prevenção e de combate aos acidentes ambientais, ajuda muito. Vemos muito derramamento de produtos de perfuração de poços quando transportam as lamas de perfuração. Fizeram um trabalho para ver a situação e viram que só Alto do Rodrigues tem esse problema. Mas perceberam que é porque aqui tem quem vê e acusa os problemas. Em outras localidades não tem. A tubulação era enterrada, eu reclamei e então eles a puseram aérea, gastaram 10 milhões de reais”. De fato, se a tubulação estiver enterrada não será possível verificar se há vazamentos ou não. Com a tubulação suspensa, o problema é percebido com maior rapidez, evitando maiores danos ambientais. O relato evidencia que a Petrobras é sensível aos reclames locais de populações mobilizadas. É levantado também como problema ambiental causado pela exploração do petróleo o vazamento de óleo e de gás. Segundo um vereador, “Tem épocas que temos um cheiro de gás sulfídrico. Mas dizem que não tem problema, pela concentração ser menor. Mas o cheiro é forte. Agora que a vegetação está verde [mês de abril] não tem cheiro, mas quando está seca o cheiro é forte...”. A relação aludida é interessante, mas infelizmente não tivemos a possibilidade de checar, do ponto de vista científico, sua veracidade. O lixo também é apresentado como problema ambiental da comunidade, além de outros ligados à degradação dos solos e de ameaças à biodiversidade. Este conjunto, portanto, justificaria, por parte da Petrobras, tanto por razões ligadas à natureza de sua atividade como por razões de responsabilidade social e de aproximação com a comunidade, a concepção de um Programa de Educação Ambiental. 44 Alexandro Rodrigues Ribeiro CAPÍTULO III: O PROGRAMA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL DA PETROBRAS 3.1. Introdução Na prática, o cuidado com a exploração racional dos recursos naturais não está ainda universalizado como consenso na nossa cultura. Há, porém, algumas iniciativas tomadas por agentes sociais e por indivíduos que apontam para uma nova realidade a respeito. De maneira a construir uma intervenção consciente no meio ambiente, há que se considerar a importância da educação ambiental, seja através das escolas, das associações ou das empresas, para a sensibilização a respeito dos problemas causados pela exploração dos recursos naturais. A atuação da Petrobras em Alto do Rodrigues revela um sentimento de responsabilidade social, expresso por ações concretas de educação ambiental. O Programa de Educação Ambiental da Petrobras aconteceu em duas fases. A primeira destinou-se ao quadro interno da própria empresa, visando melhorar e capacitar diretamente os funcionários e seus familiares, bem como os funcionários das empresas prestadoras de serviços terceirizados. Segundo os objetivos do Programa, seria para melhorar as atividades dessas empresas em relação à proteção do meio ambiente. Na segunda fase, o Programa se estendeu à comunidade de Alto do Rodrigues. Essa atuação aconteceu diretamente com a comunidade, através da COMARG (Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues), órgão fundado por iniciativa da prefeitura municipal e pelos dois membros da comunidade que participaram dos treinamentos oferecidos pelo Programa, e, de um modo um tanto intermediário, através das escolas e da ação de seus professores e alunos. Ao final, tanto as atividades da Comarg quanto a dos professores e alunos na escola atingiram a comunidade, pois na escola o objetivo dos professores era educar os alunos para se tornarem multiplicadores em suas casas e na vizinhança. Nossa pesquisa, no entanto, centrou-se na parte do Programa destinada à comunidade, em suas duas vertentes, a da COMARG e a da escola. Privilegiamos as informações obtidas no âmbito das escolas e do poder público municipal. Desse modo, não indagamos sobre os possíveis resultados do Programa no interior da empresa e dos serviços por ela contratados, salvo um ou outro efeito mais visível, como mudanças nas dimensões das linhas sísmicas e o tipo de material usado na piquetagem dos terrenos. 3.2. Concepção e história Com o objetivo de capacitar funcionários, seus familiares e comunidades circunvizinhas para desempenhar suas atividades de acordo com as melhores práticas de proteção ao meio ambiente, reduzindo os impactos ambientais negativos e construindo perspectivas de melhoria das condições de segurança e saúde, a Comissão Regional de Proteção ao Meio Ambiente (COREMA), da Petrobrás, formada em março de 1992 por técnicos ligados à atividade de Meio Ambiente da Região de Produção do Nordeste Setentrional, buscava desde algum tempo concretizar a implantação de um programa de Educação Ambiental. 45 Alexandro Rodrigues Ribeiro Insatisfeitos com os magros resultados de conscientizar através de atividades pontuais, como visitas a parques, corrida de pedestres, comemoração do Dia da Árvore, etc., os integrantes da comissão regional buscaram alternativas. Foram analisadas algumas idéias em nível local com os setores de Educação Ambiental da Coordenadoria de Meio Ambiente do Estado e do Ibama e com a antropóloga da UFRN Profa. Raimunda Maria Silva, as quais não se mostraram adequadas às necessidades da empresa. Diante da dificuldade de elaboração interna de um programa destinado à conscientização básica dos empregados quanto às questões ambientais, a Comissão Regional procurou identificar empresas de consultoria que pudessem preencher essa lacuna. Embora poucas opções tenham sido identificadas, a busca culminou em processo licitatório envolvendo três candidatas: uma do Rio de Janeiro, outra de São Paulo e uma terceira do Rio Grande do Sul. Vencedor desta licitação, o Grupo de Aplicação Interdisciplinar à Aprendizagem (GAIA), uma ONG sediada em Campinas (SP), foi selecionado para o desenvolvimento de um projeto-piloto. Já contando com boa experiência em Educação Ambiental para escolas e comunidades, o Gaia desenvolveu o projeto-piloto intitulado Programa de Educação Ambiental (PEA), com duração de 4 meses, envolvendo cerca de 300 empregados. O programa, realizado de 12/09/94 a 09/01/95, estabeleceu alguns objetivos setoriais a saber: • Empresa: melhorar o nível global das atividades em relação à proteção do Meio Ambiente nas suas diversas frentes de atuação, através da conscientização de seus funcionários e familiares; • Gerentes: aumentar a compreensão sobre a relação tecnocracia e mudanças de valores, importância da educação ambiental na empresa e relação custo-beneficio; • Agentes multiplicadores: capacitar facilitadores em Educação Ambiental para atuar junto aos demais funcionários e familiares; • Funcionários: desenvolver conhecimentos que levem à reflexão sobre desenvolvimento econômico e desenvolvimento sócio-ambiental e a mudanças de atitude; • Familiares: levar a experiência do funcionário para os seus familiares, visando estender as novas posturas para além da Empresa; • Comunidades: melhorar a formação conceitual, teórica-prática, e atitudinal de professores, alunos e líderes comunitários. 3.3. Destinatários do Programa: agentes internos O GAIA – Grupo de Aplicação Interdisciplinar a Aprendizagem - começou o Programa pela etapa de treinamento, das equipes de Meio Ambiente, Qualidade e Recursos Humanos da Petrobras, com 20 horas de duração. Quinze membros dessas equipes foram treinados. A metodologia foi apresentada às equipes, nos mesmos moldes do que seria desenvolvido com os demais funcionários, coletando sugestões e adequando o Programa à realidade da Empresa. O Treinamento Gerencial, com carga horária de 24 horas, foi a segunda ação do Programa. Este constou da apresentação do Programa a todos os gerentes, num treinamento com duração de 8 horas. O 46 Alexandro Rodrigues Ribeiro objetivo era obter aprovação e o comprometimento das gerências na aplicação das atividades do Programa de Educação Ambiental. Setenta e seis gerentes foram treinados. A divulgação do Programa e a seleção dos Agentes Multiplicadores tomaram 48 horas/aula. Para isso, utilizou-se cartazes, folhetos explicativos, faixas e palestras para esclarecimento aos empregados dos objetivos do Programa, com a finalidade de criar ambiente favorável à sua implantação e propiciar a inscrição voluntária de candidatos a Agentes Multiplicadores. Seiscentos e treze funcionários assistiram a 30 palestras realizadas pela empresa consultora. O curso para formação dos agentes multiplicadores foi de 136 horas e contou com treinamento visando capacitar os funcionários escolhidos para trabalharem com uma dinâmica metodológica de Educação Ambiental desenvolvida pelo GAIA. Trinta e três empregados voluntários participaram do curso de formação. Desses, 22 atuaram efetivamente no Projeto-Piloto, treinando 305 funcionários, 46 empregados contratados e 351 familiares. Esse treinamento foi desenvolvido ao longo de 12 horas, sendo 8 horas destinadas à discussão de vídeos, textos e outros materiais sobre Educação, Meio Ambiente e Cidadania, e 4 horas de prática de campo, com a participação de familiares dos treinandos. O Gaia realizou duas visitas de acompanhamento junto aos agentes multiplicadores, chamadas de visitas técnicas, com carga horária de 40 horas. Foram realizadas para acompanhamento, avaliação e reciclagem dos agentes multiplicadores. Após o término das atividades, os cursos foram avaliados pelos participantes, obtendo na sua média o conceito MUITO BOM. O Projeto-Piloto apresentou alguns resultados práticos, como por exemplo a “redução significativa na largura das linhas sísmicas, pela Equipe Sísmica 230, como também o reaproveitamento de piquetes, que antes eram descartados”. O custo desse Projeto-Piloto foi de aproximadamente de R$ 30.000,00, representando um custo por treinando de R$ 88,00. Uma vez analisados os resultados do Projeto-Piloto, bem como a filosofia de trabalho do Gaia, a gerência da Unidade de Negócios de Exploração e Produção do Rio Grande do Norte e Ceará decidiu pela continuidade do Programa. O Gaia foi então contratado pelo período de 2 anos, a partir de outubro de 1995, para coordenar e assessorar a implantação do Programa, com vistas ao treinamento de todos os empregados da Unidade. Em fevereiro de 1996 foi institucionalizado o Programa de Educação Ambiental, implicando na participação compulsória de todos os empregados. Isto atendia também a um dos aspectos a serem verificados quando das Auditorias de Meio Ambiente e Segurança Industrial a que as Unidades de Negócios seriam submetidas a partir desse ano de 1996. Nesta etapa, o GAIA treinou 37 novos gerentes, para que estes conhecessem a metodologia do Programa e ficassem motivados a liberar os seus funcionários para participarem do treinamento. Foi realizado mais um curso para a formação de 22 novos agentes multiplicadores, a fim de reforçar a equipe anterior e o cumprir a meta estabelecida em 1996. Em junho de 1996, os agentes multiplicadores realizaram treinamento com duração de 44 horas para formação de Agentes Multiplicadores do Programa de Educação Ambiental do Senai do Rio Grande do Norte, 47 Alexandro Rodrigues Ribeiro contando também com 8 convidados da Petrobras (escolas estaduais, municipais e particulares, Universidade Federal do Rio Grande do Norte e ONG’s). Este evento iniciou a propagação do Programa de Educação Ambiental na comunidade. Em setembro de 1996, a Petrobrás foi convidada pela Universidade Regional do Rio Grande do Norte, em Mossoró, para fazer parte da programação da “Semana Universitária”. Na ocasião, 2 agentes multiplicadores do Núcleo de Produção de Mossoró (Nuprom) realizaram treinamento de 12 horas do Programa de Educação Ambiental para 34 alunos do curso de Biologia daquela Universidade. Ainda nesse mês foi realizado o I Treinamento de 12 horas para empresas contratadas no Núcleo de Produção de Mossoró, do qual participaram 16 funcionários e 20 familiares. Para 1997 foi previsto um maior envolvimento das contratadas através da execução de cursos, em todos os Núcleos de Produção. Foi buscado em 1997 o envolvimento mais direto das comunidades que abrigam as Unidades de Negócios do Rio Grande do Norte e do Ceará, através da formação dos professores da rede pública. No município de Alto do Rodrigues-RN, eles passam a incorporar as questões ambientais aos conteúdos das disciplinas do ensino fundamental e do ensino médio. De acordo com o Relatório Final, o GAIA se encarregou de implantar no município de Alto do Rodrigues-RN um Projeto-Piloto, atingindo todos os 118 professores de 1º e 2º Graus da rede estadual e municipal de ensino do município, chamado de Programa de Educação Ambiental na Comunidade (PEAC), com os seguintes objetivos: • refletir criticamente sobre o papel da escola e do professor na atualidade; • refletir sobre a Educação Ambiental como “ferramenta” para melhorar o ensino na consolidação da cidadania; • elaborar um plano de capacitação a ser desenvolvido com professores de 1º grau; • realizar ações práticas na escola e na comunidade, visando reduzir impactos ambientais e aumentar a qualidade de vida da população. Segundo o Relatório, os objetivos acima foram estabelecidos com base em um levantamento das questões sócio-econômicas, culturais e ambientais do município de Alto do Rodrigues. Realizado pelo representante do Gaia, Dr. Edison D. R. Carvalho, Diretor-Presidente da instituição, esse levantamento tinha o objetivo de gerar informações sobre a cidade e seus habitantes e servir de embasamento para a realização do Programa. Realizado em 3 dias, ele forneceu dados sobre as condições econômicas da população, a situação cultural e ambiental da comunidade. Com a coleta dos dados foi possível elaborar o plano de atuação e o material didático a ser utilizado durante os cursos do Programa de Educação Ambiental na Comunidade. A primeira atividade realizada foi uma reunião na Câmara Municipal de Alto do Rodrigues para professores, diretores e representantes do município, com o objetivo de levantar informações em relação à interdisciplinaridade nas escolas, ao nível de conhecimento cientifico e didático dos professores, (utilização de vídeos, teatro, estudo de campo, etc.) e à evasão escolar relacionada a problemas econômicos. 48 Alexandro Rodrigues Ribeiro A segunda atividade foi visitar as comunidades rurais do município para conhecer a realidade e as dificuldades enfrentadas por cada um delas no seu dia-a-dia, na escola e no campo. Nas escolas, um ponto bastante ressaltado foi o material didático, sua importância para o desenvolvimento do conhecimento por parte do aluno e o manuseio por parte do professor. Outro ponto discutido foi a conciliação entre trabalho rural e escola, já que o índice de evasão escolar na zona rural é bastante acentuado no período da colheita. Grande parte dos pais não vê na escola o impulsionador do desenvolvimento educacional da criança e exigem o trabalho rural como prioridade. A terceira atividade foi a avaliação das questões ambientais do município. Eles apontavam para a necessidade de um programa que desse respostas aos problemas ambientais. Esses problemas estavam presentes nas, áreas de carnaubeiras, no rio Açu, nos campos de petróleo e também na zona urbana. No dia 20 de outubro de 1997 foi realizado no auditório da Base da Petrobras em Alto do Rodrigues a abertura da 1ª Etapa do Programa de Educação Ambiental na Comunidade. Nesta ocasião, estavam presentes a prefeita Suzana de Melo e o representante da Petrobras, o Sr. Francisco Domingos de Paula Neto. Na oportunidade, o Sr. Domingos falou a respeito da atuação da empresa no município, das inovações por ela adotadas para preservar o meio ambiente, visando ao mínimo de poluição possível, e dos investimentos em ações comunitárias, sobretudo as educacionais, Suzana de Melo destacou o privilégio de Alto do Rodrigues em ser a primeira cidade a receber o Programa, competindo com outras cidades. A 1ª Etapa foi realizada no período de 20 a 24 de outubro de 1997, tento como treinandos diretores de escolas, supervisores, e secretários da zona urbana e rural. A escolha para se começar com essas pessoas de nível superior teve como objetivo lançar o programa “de cima para baixo” e não “de baixo para cima”. Com isso ficaria melhor o trabalho de acompanhamento, por exemplo, do supervisor, que já estaria informado sobre o curso e seu conteúdo, tornando-se mais viável o entendimento entre supervisor e professor. A equipe que participou do Programa de Educação Ambiental, na sede da Petrobras, em Natal e que representava o município de Alto do Rodrigues era composta por sete membros, sendo cinco funcionários da Petrobras: Francisco Domingos de Paula Neto, Dimas Borja Carneiro, Wellington Pereira de Oliveira, Edilson Barroso de Carvalho e Donald Macêdo da Fé, e dois funcionários da Prefeitura Municipal de Alto do Rodrigues: o então professor Jan L. S. Van den Bosch e Francisco Heriberto Bezerra da Silva. Essa equipe era responsável pelo repasse de todo o conteúdo visto e estudado sobre a temática ambiental. No mês de setembro do mesmo ano foi realizado no Núcleo de Produção de Petróleo de Alto do Rodrigues (NUARG) uma reunião com a equipe de multiplicadores para definir o plano de atuação. Assim, as atividades dos multiplicadores começam a surgir, principalmente para a comunidade, pois os funcionários da Prefeitura iniciam o trabalho de apoio aos professores depois de concedido o treinamento. Para iniciar as atividades na comunidade, foram divididos os professores participantes, uma média de 25 pessoas, estabelecido o cronograma do curso, o material didático a ser utilizado, e a atuação de cada instrutor durante o curso. Após esses preparativos, as ações começam a ser direcionadas. Assim, foram realizadas ações nas escolas e na comunidade. 3.4. Atores externos: a ação a partir da escola 49 Alexandro Rodrigues Ribeiro 3.4.1. A formação dos professores O Programa de Educação Ambiental na Comunidade foi realizado em um período de 5 meses, de 20 de outubro de 1997 a 13 de fevereiro de 1998, e teve a participação geral de 123 professores/alunos que desenvolveram diversas atividades, com a ajuda e orientação dos instrutores (multiplicadores) que se alternavam de acordo com o tema abordado, respaldados em material didático de apoio. Todas as atividades realizadas durante o curso foram executadas de forma lúdica e eclética, visando sempre um maior proveito na sala de aula e no cotidiano de cada participante. O objetivo das atividades eram sempre mostrar para os treinandos a importância do meio ambiente em suas vidas, e prepará-los para um melhor relacionamento com o mesmo. Entre muitas atividades desenvolvidas destaca-se o painel com jornal. Esse trabalho consistia na elaboração de um painel utilizando “jornais usados” (o que já mostrava a importância de reutilização), em que cada grupo teria que apresentar para os demais o seu conhecimento em relação ao meio ambiente, e falar sobre possíveis medidas para melhorar a sua preservação. Foi também realizado um trabalho em grupo, no qual diferentes temas eram abordados, tais como: sociedade sustentável, o papel do cidadão na sociedade, influência da mídia, principais correntes pedagógicas, o papel do professor na sociedade e na conscientização do aluno, abordagem interdisciplinar . Todos os temas abordados eram acompanhados de textos e cabia aos treinandos ler, interpretar e discutir com os demais seu conteúdo. Na conclusão de cada trabalho era avaliada cada colocação feita pelos treinandos, e vista a possibilidade de melhorias. O estudo do meio foi outra atividade desenvolvida. Nela, após tomar conhecimento de conceitos como meio ambiente, poluição, etc. possíveis resoluções para o problema eram discutidas, enfatizando a parte individual que cada cidadão poderia exercer para melhorar a situação. Todos tinham a oportunidade de “estudar o meio em que cada um vive”. Durante o curso, um dia da semana era reservado somente para realizar o estudo do meio e conhecer de perto a realidade. Todos tinham que tomar nota do que fosse visto para poder debater no retorno ao auditório. Os locais visitados foram a cidade de Alto do Rodrigues, Macau, um tanque de retenção da Petrobras e bases petrolíferas. Nas cidades, conforme o relatório, podia-se ver a situação do meio ambiente, a geração e o destino dos resíduos sólidos e sua patogenicidade, a poluição sonora e visual. No campo petrolífero, os treinandos tiveram a oportunidade de conhecer as ações de gestão ambiental realizadas pela Petrobras, passíveis de generalizações para muitos outros setores de trabalho, independentemente da atividade desenvolvida. O que se pretendia com todas essas atividades era tornar evidente para os participantes que para haver desenvolvimento não tem que necessariamente haver degradação e que o desenvolvimento pode se associar ao meio ambiente sem que um tome o lugar do outro. No encerramento das atividades de treinamento dessa segunda fase do Programa, no dia 13 de fevereiro de 1998, todos os participantes se tornaram multiplicadores de atividades de educação ambiental. Na sala de aula, teriam que inserir nos conteúdos conceitos e práticas de educação ambiental; no lar, teriam que adotar novos hábitos, desde não jogar um simples papel no chão até a destinação dos dejetos. 50 Alexandro Rodrigues Ribeiro Seguindo o calendário montado juntamente com os professores, as atividades da Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues entram então em prática. As atividades relatadas a seguir apresentam o que foi efetivado após o treinamento. 3.4.2. Ações comunitárias Durante os dias 16 e 17 de março de 1998, foi realizada uma panfletagem domiciliar, que contou com a ajuda dos professores treinados. Distribuindo os panfletos, eles passavam de casa em casa informando sobre a temática ambiental, fornecendo noções básicas sobre os riscos dos resíduos sólidos, ensinando a praticar a coleta seletiva (os professores passariam depois para coletar o que fosse separado), divulgando o trabalho que estava sendo desenvolvido na cidade e pedindo a colaboração para que o trabalho viesse a ter continuidade. As atividades continuaram com palestras realizadas durante a I Semana do Meio Ambiente. Este trabalho contou com a participação do corpo docente, alunos com faixa etária variada e comunidade em geral. Como continuidade do trabalho de panfletagem, durante os dias 19 e 20 de março foi realizada pelos professores uma coleta seletiva domiciliar. Eles passaram para pegar os resíduos sólidos já separados em cada casa. Acompanhava-os um trator com carretela e tambores de cores para cada tipo de resíduo. Esta atividade derivou, nos dias 21 e 22 de março, no Arrastão da Limpeza, realizado por alunos e professores com o fim de sensibilizar toda a cidade para o problema do lixo. Como nos primeiros dias, um trator com carretela transportando tambores com as quatro cores padrão da coleta seletiva (azul, amarelo, verde, vermelho) e um carro de som divulgando o trabalho que estava sendo realizado, intercalando slogans de incentivo à preservação do meio ambiente, acompanhou o grupo pelas ruas da cidade. Os estudantes, munidos de equipamentos de segurança e higiene, portavam cartazes com mensagens de preservação do meio ambiente elaboradas por eles mesmos em sala de aula. Os trechos percorridos foram algumas ruas de bairros e do centro comercial, finalizando no rio Açu. Em todo o percurso conseguiu-se chamar a atenção da população para a preservação do meio ambiente e mostrar a importância do trabalho em conjunto. No dia 26 de março, realizou-se o 1º Concurso de Artes Plásticas com Materiais Recicláveis. Este concurso teve como objetivo chamar a atenção para a reutilização, a reciclagem de objetos e a conseqüente redução de resíduos sólidos, usando a criatividade dos alunos para desenvolver este trabalho. Uma outra atividade de reciclagem foi pensada por ocasião das comemorações da emancipação política da cidade: um concurso estudantil de maquete tomando como tema a cidade de Alto do Rodrigues. No total foram confeccionadas 35 maquetes inspiradas na cidade. Entre eles, destacaram-se: O antigo casarão, As praças, O rio Açu e a Petrobras Quatro escolas públicas participaram do concurso. 3.4.3. Ações na escola A realização das atividades práticas pelos professores continuou dentro das escolas, através de inúmeras atividades. O treinamento preparou-os para planejá-las e realizá-las. Grande parte dos professores, passados seis anos da experiência, lembra do treinamento como um momento de contribuição à sua formação, porque juntou a teoria à prática e porque utilizou dinâmicas que favoreciam a compreensão dos conteúdos. 51 Alexandro Rodrigues Ribeiro A positividade do Programa pode ser observada através das práticas descritas. várias atividades foram mencionadas. Os relatos vão desde atividades desenvolvidas em feiras, seminários de conscientização, até o trabalho com o aluno, para que este possa ser o multiplicador para as outras pessoas da comunidade. “Conscientizar o aluno...limpando a sala de aula, respeitando o patrimônio público, evitando desperdiçar a água. É um trabalho difícil mas nós estamos batendo em cima até tomarem uma consciência melhor”, recorda uma professora. Esta nova atitude é reconhecida por outra colega, assim como o esforço contínuo para promover mudanças comportamentais: “Continuamos realizando [a educação ambiental], não está 100%, mas você encontra um aluno com um diferencial, não quer mais a sala suja, reclama do colega, busca uma vassoura, vai limpar”. Ou ainda, segundo o testemunho de um terceiro informante, para quem as conseqüência da educação ambiental se vê no cuidado e no respeito que os alunos têm à estrutura física da escola: “Faz 2 ou 3 anos que a escola foi pintada, mas você não encontra riscos na parede. Se sujou, vai limpar. Que ele leve isso pra casa. Um adulto é difícil mudar, mas uma criança é mais fácil. Mas nossas ações são de longo prazo”. Essas observações evidenciam o trabalho com os alunos, que num breve futuro serão os dirigentes dessa comunidade. As atividades da escola, aqui e acolá, procuram uma ligação com a comunidade. Encontra-se presente em muitas falas esta preocupação, isto é, a preocupação em fazer chegar à comunidade, a partir de uma discussão gerada na escola, certos conhecimentos, os quais, através de uma mobilização, desemboquem em atitudes práticas. “A comunidade onde eu trabalho é muito pequena. Lá próximo tem uma grande lagoa. Então, a gente faz caminhada, cata lixo. Lá eu trabalho muito o lixo. Agora, também nós trabalhamos a água. E eu vi o resultado, pois os pais me procuravam dizendo que os filhos estavam lhes ensinando como se deve cuidar da água - ferver, filtrar -, e isso é bom”. O envolvimento da comunidade é buscado também como forma de legitimação do discurso do aluno no interior da família: “Se trabalhar somente dentro da escola e não mostrar na realidade local, na comunidade, quando o aluno chega em casa o pai fala: - Menino, deixa de conversa! Por não acreditar no que ele está estudando. Então, é preciso trabalhar não só o aluno mas também toda a comunidade”. A concepção de Educação Ambiental percebida em muitas falas dos informantes aponta para a valorização das questões ambientais locais, entre elas, com grande recorrência, o lixo e a poluição das águas. Emerge também nessa consciência o papel atribuído ao professor e sua responsabilidade, a de estabelecer um vínculo forte com a comunidade, em razão de sua autoridade intelectual. É desta forma que uma professora rural justifica seu trabalho diretamente com os pais dos alunos, ao invés de fazê-lo através dos filhos: seu discurso competente teria um poder maior de sensibilização. Várias evidências demonstram que as atitudes ambientais na escola concentram-se nos temas limpeza e separação do lixo. A coleta seletiva aparece como um tema agregador. A partir dele, tem-se passado para os alunos que a responsabilidade do lixo não é só das ASGs (Auxiliares de Serviços Gerais), mas de todo mundo. E que na rua deve-se dar o exemplo de não sujar, de não jogar nada fora dos cestos coletores. O treinamento inicial aparece como a fonte de um novo comportamento e como estímulo a uma nova orientação educativa. É o que nos informa o relato de uma professora: 52 Alexandro Rodrigues Ribeiro “Nós já tínhamos algumas coisas, mas a partir desse curso melhorou muito. Depois dos textos informativos passamos a orientar as crianças. Depois desse dia começamos a fazer de outra maneira”. Na fala de uma outra, a preocupação é ainda mais evidente: na escola, “para que preserve o ambiente sempre limpo”, e na rua “ uma pessoa que joga uma garrafa fora tem que ser orientada para não fazer isso”. A percepção do problema do lixo desperta uma realidade antes ausente de suas rotinas de trabalho. “Hoje levamos muitas coisas para sala de aula, orientando nossos alunos. Eles já estão bem acostumados a pegar o lixo e por no lugar certo, acho que foi muito proveitoso. Depois do treinamento, a gente vê que os alunos já têm noção de meio ambiente, antes não tinham”. Tratar do lixo ou ter cuidados com o destino final é bom, mas devemos centrar as nossas preocupações para o modelo consumista que nos induz a comprar e a consumir descontroladamente e gerar lixo. As mudanças de atitude ficando somente na ponta, passa-nos uma idéia que esse modelo de desenvolvimento que dilapida as bases dos recursos naturais para produzir supérfluos é bom, portanto estaremos passando para nossos filhos que é preciso apenas fazer a coleta do lixo. Esse modelo de desenvolvimento é excludente, gera a todo tempo necessidades desnecessárias. Remetemos a Layrargues que faz algumas observações sobre o reducionismo da questão do lixo: “...apesar da complexidade do tema, muitos programas de educação ambiental na escola são implementados de modo reducionista, já que, em função da reciclagem, desenvolve apenas a Coleta Seletiva de lixo, em detrimento para uma reflexão crítica e abrangente a respeito dos valores culturais da sociedade de consumo, do consumismo, do industrialismo, do modo de produção capitalista e dos aspectos políticos e econômicos da questão do lixo...essa prática educativa, que se insere na lógica da metodologia da resolução de problemas ambientais locais de modo pragmático, tornando a reciclagem do lixo uma atividade fim, em vez de considerá-la um tema gerador para o questionamento das causas e conseqüências da questão do lixo, remete-nos de forma alienada à discussão dos aspectos técnicos da reciclagem, evadindo-se da dimensão política” (Layrargues, p. 180, 2002). Tem-se criado e fortalecido a concepção (que poderíamos chamar de concepção matriz) de que limpeza tem uma estreita relação com a qualidade de vida. Assim, a boa qualidade de vida depende de um ambiente no qual haja a possibilidade de se viver com higiene. E como esta depende de uma boa educação ambiental, a relação entre qualidade de vida e educação ambiental é uma outra concepção que se instala como nova forma de compreender o ambiente. Para E.B.L., professor e supervisor pedagógico, “A vida só tem qualidade se tivermos boa educação, principalmente a ambiental. [Com ela] vai-se preservar e controlar tudo no meio onde se vive”. “Se você não preserva seu meio, não vai ter qualidade de vida, vai causar inúmeras doenças provocada pelo lixão e pela sujeira da rua”, acrescenta uma professora. Essa relação, desdobrando-se numa longa cadeia, está presente em muitas outras falas, o que evidencia um certo consenso já estabelecido: “Se você respeitar o meio ambiente, você vai ter uma qualidade de vida melhor; se você não joga lixo, vai evitar baratas, ratos, transmissores de uma grande porção 53 Alexandro Rodrigues Ribeiro de doenças; se você respeita as plantas e tem plantas no seu quintal, em frente da casa, ao lado, você vai ter menos calor, vai ter pássaros, frutas, flores, vai viver melhor que no meio do concreto, de casas, e se a gente tiver um ambiente limpo, sadio, a gente vai viver melhor”. Para a professora Maria F., assim como para a quase totalidade dos nossos informantes, é evidente a preocupação em não poluir, não sujar: “Na sala de aula eu não deixo jogar nada. E pergunto: vocês jogam em casa? Eles dizem que não. Eu pergunto: porque jogam aqui na escola? Aí eles dizem que é porque tem zeladora. Então eu explico que aqui é a segunda casa deles”. A prática educativa da professora Maria S. centra-se no discurso normativo. Ela costuma dizer para seus alunos: “Não jogue o papel no chão. Em casa, converse com os pais a respeito da água; ao varrer a casa, coloque o lixo de lado... não no terreno que está próximo”. A responsabilidade do indivíduo é um valor que aparece para os professores como algo merecedor de estímulo. Ela precisa ser desenvolvida, pois a consciência pode aparecer desvinculada da responsabilidade, tanto que um aluno “mesmo consciente pode destruir”, como afirma um professor. A ação prática parece ser o caminho para ligar a consciência à responsabilidade, segundo palavras de um professora, “não ficar só no discurso, só no debate, é preciso ações mais concretas”. Ela exemplifica, contando como é sua prática em sala de aula: “Na Biologia, temos a matéria Ecologia. Então, a gente discute. Eles não são bobos, estão vendo o aumento de alergias, doenças respiratórias, de câncer, eles também assistem jornais, lêem revistas, tão vendo a pulverização de veneno das agroindústria. Bem, por enquanto a gente fica só no debate. Eu acredito que a gente precisa sentar e chegar à realmente, estabelecer quais seriam as metas, ações concretas, para fazer alguma coisa pela própria saúde e para a população como um todo”. A mesma preocupação com a mudança comportamental, ou seja, com a consciência tornada prática, é expressa por uma professora da zona rural, enfatizando a necessidade de acompanhar a ação dos alunos em casa: “A gente mostra que tem que ter cuidado com o meio ambiente, na prática. A gente vai à casa deles, procurando saber se eles estão realmente aprendendo”. No geral, as atividades práticas relatadas pelos informantes demonstram a ação do professor em sala de aula. Nas escolas visitadas é prática constante a presença de tambores com as devidas cores (amarela, verde, vermelho e azul) para a coleta seletiva do lixo. Todo esse comportamento e toda essa mobilização de ações individuais e institucionais – o espaço escola – derivam diretamente do treinamento para formação de professores ministrado na 2ª Fase do Programa de Educação Ambiental da Petrobrás, aquela destinada a um ação junto à comunidade. 3.4.4. Atores externos: a Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues - COMARG Ao término do treinamento do Programa de Educação Ambiental na Comunidade, havia a necessidade de um trabalho prático que viesse a ser realizado na cidade de Alto do Rodrigues visando 54 Alexandro Rodrigues Ribeiro despertar a consciência da população para a degradação ambiental no município. No mês de fevereiro de 1998, a prefeita municipal, Suzana de Melo, solicitou aos funcionários da prefeitura que haviam sido treinados no Programa de Educação Ambiental na Comunidade que viessem desenvolver um trabalho de mobilização da cidade em prol do meio ambiente. Em 26 de fevereiro, uma reunião na prefeitura municipal cria a Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues (COMARG). À sua frente estavam: Ciléa Caetano de Lemos, Francisco Heriberto Bezerra da Silva, Jan Laurent Stefania Van den Bosch e Maria do Céu Moura. Esta equipe ficou encarregada de dar continuidade ao Programa, de forma prática e objetiva. Após algumas reuniões, onde foram definidas as estratégias do trabalho, a Comarg definiu uma programação voltada para o tema educação e melhor qualidade de vida. Foram desenvolvidas diversas atividades visando conscientizar a população para a importância do meio ambiente e de seus recursos naturais, levando ao seu conhecimento medidas simples para diminuir a degradação ambiental. A Comarg estabeleceu como programa de trabalho: promover palestras sobre a problemática ambiental junto às escolas e o comércio e, em épocas específicas do ano, organizar mobilizações, passeatas, panfletagens e reivindicações junto aos órgãos ambientais competentes, bem como fiscalizar aos impactos ambientais negativos na região. A Comarg funcionava, segundo a Lei Orgânica do Município, como um departamento da prefeitura, e sobreviveu por volta de um ano e meio. Depois não obteve mais apoio da administração municipal, principalmente financeiro. Parou então suas atividades, parcialmente, pois algumas palestras e treinamentos os promotores custeavam do próprio bolso. Quando em atividade, a Comarg desenvolveu atividades e eventos contando com alguns parceiros como grupos de jovens e outros atores comunitários da região. A ação na comunidade foi realizada de forma a sensibilizar a população para os problemas ambientais mais graves. Realizado em parceria, o trabalho contou com a adesão do grupo de jovens local - o Jucar -, dos agentes comunitários da saúde e dos professores, tanto municipais quanto estaduais. Desse modo, a Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues iniciou suas atividades diretamente com a população. Em 1998, foram realizadas duas semanas do Meio Ambiente, uma em março outra em junho, com treinamento específico para todos aqueles que iriam atuar desenvolvendo atividades junto à população, como o grupo de jovens e os agentes comunitários. A segunda semana estendeu-se na verdade por duas semanas: uma na zona urbana, outra na zona rural. Eis o relato da atividade, retirado do relatório da Comarg: “Conseguimos programar a 2ª Semana do Meio Ambiente com uma grande variedade de eventos, entre eles uma “Campanha de Limpeza contra a dengue” associada à campanha ambiental, todos voltados à conscientização, educação e a formação de um cidadão ambiental. No contexto de nossa programação, tivemos a realização de palestras com temas diversificados, panfletagem, gincanas, arborização etc. Todas as atividades realizadas visavam despertar a comunidade à prática da atividade ambiental de cada cidadão. Foi desenvolvido um trabalho de orientação aos jovens, para que eles venham a ser uma sociedade sustentável sem ter que sofrer com a degradação do meio ambiente praticada pelo ser humano em função do seu desenvolvimento”. 55 Alexandro Rodrigues Ribeiro Foram ainda realizadas palestras e uma coleta seletiva. As palestras contaram com a presença maciça da população, de estudantes e professores, mostrando o interesse de todos pelo tema. Para a coleta seletiva a participação do grupo de jovens e dos agentes comunitários foi imprescindível. Eles saíram de casa em casa coletando os produtos recicláveis (papel, plástico, vidro, metal) em um veículo tipo trator com carretela e tambores com as cores padronizadas de cada tipo de resíduo, como já descrito anteriormente neste capítulo. Nas comunidades rurais foram realizadas palestras com o tema: Resíduos Sólidos e Cidadania Ambiental, além de uma Gincana Eco-Cultural. O registro desse trabalho está bem vivo na memória local. Durante o trabalho de campo, era comum ouvir dos professores informações como estas: “quando tem algo de que queremos dar exemplos em sala de aula, chamamos a Comarg”, ou “recebemos treinamento do Jan e sua turma”. A Comarg voltou a suas atividades em 2002, quando houve uma parceria entre a prefeitura e o Senai. A Comarg se tornou então uma associação em janeiro de 2003. A partir desse momento, e através de parceria, começa a se desenvolver a coleta seletiva na cidade de Alto do Rodrigues. Os materiais coletados são repassados para um “atravessador” ou “intermediário”, que os repassa para as empresas recicladoras. Hoje, a Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues considera que a maioria do comércio e empresas de Alto do Rodrigues esteja separando seus materiais recicláveis. A quantidade média de materiais está assim distribuídas: em torno de 3.000 kg de papelão, 400 kg de plástico e de 400 a 700 kg de metal, mensalmente. Um fato a ser mencionado é que existem catadores anônimos na cidade, que procuram principalmente o alumínio. A Coordenação de Meio Ambiente procura então deixar essas pessoas à vontade, pois não é sua meta coletar o material para si e sim fazer com que esse material não chegue ao aterro controlado, contribuindo para aumentar sua vida útil, e por outro lado, é interessante que as pessoas que catam materiais possam ter uma melhoria de renda. A atividade de coleta seletiva, embora esteja sendo realizada em todos os setores da comunidade, está tendo um maior engajamento entre o comércio e as empresas. Nas residências, o trabalho está mais moroso, pela dificuldade de implantar a contento a separação dos materiais recicláveis. A nova diretoria da Comarg, eleita em maio de 2004, pensa algumas estratégias para enfrentar o problema. O aludido treinamento teve uma importância capital na formação dos multiplicadores do Programa, professores e funcionários da prefeitura. No entanto, é fácil compreender que cada um deles tinha já suas predisposições e um certo conhecimento prévio, assim como, após o treinamento, continuaram a acrescentar novas visões sobre a questão. O que pensam os multiplicadores das ações do Programa é o assunto de que nos ocuparemos no próximo item. 3.5. Concepção ambiental dos multiplicadores A finalidade de um treinamento em vistas a um trabalho conjunto é estabelecer uma compreensão média do problema que se quer atacar e um certo consenso em relação às ações a serem empreendidas. Desse modo, é interessante compreender o grau de informação que cada um possui a respeito do problema e a relação dessas informações com o treinamento, com um momento anterior e um posterior a ele. 56 Alexandro Rodrigues Ribeiro Nesse sentido, ficou evidente que o processo de formação e as seqüências práticas produziram bons resultados em relação à compreensão da educação ambiental e dos problema locais. Muita coisa foi retida do treinamento. No geral, as pessoas são capazes de lembrar de muitos pontos do conteúdo, desde problemas globais, como a camada de ozônio, por exemplo, até problemas locais e cotidianos, como o lixo: “Tivemos orientação de como ensinar os alunos a manter o equilíbrio, não sujar, não poluir, não jogar a sujeira no rio, tomar banho e limpar lá, não jogar lixo na rua, a reciclagem do lixo”, recorda-se uma professora. É curioso assinalar que, de todos os informantes entrevistados, apenas um confessou não se lembrar do conteúdo do treinamento, justificando que “já se faz tanto tempo”. Desse modo, para a maioria, o conhecimento obtido no treinamento do Programa preservou-se. A preservação dessa memória pode ser debitada ao fato de ter havido, de uma forma ou de outra, uma certa continuidade do Programa, independentemente da coordenação da Petrobras. A presença da Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues foi fundamental para a seqüência dos trabalhos na escola e na comunidade, quando terminou a parceria entre a prefeitura e a Petrobras, e, tempos depois, quando retomou suas ações através de uma parceria com o Senai. Vale também assinalar certas predisposições individuais que garantiram essa continuidade de ações. “Eu já tinha interesse nesse assunto de meio ambiente, quando terminou o Programa e começou o trabalho do Senai, eu fui convidado para fazer parte da Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues”, informa um professor. E também uma professora: [através do treinamento] “recebemos uma informação melhor de como estava a questão ambiental, a camada de ozônio, etc. Eu já tinha um certo conhecimento, por estudar história e geografia. Mas aí tive um aproveitamento melhor”. Fizeram parte do treinamento visitas aos lixões das cidades vizinhas e a um aterro controlado construído pela Petrobras em Macau (RN). Ao ter contato com as duas realidades, a do lixão e a do aterro controlado, constrói-se a percepção de que o lixo é problema passível de solução. No mesmo período do treinamento estava sendo instalado nas proximidades do município do Alto do Rodrigues um aterro controlado. A construção desse aterro deu maior incentivo aos professores para repassarem aos alunos a importância da coleta, do tratamento e do destino final do lixo. Também como visita constante do treinamento, os treinandos conheceram a realidade do rio Açu, suas margens desprotegidas, a retirada de areia do seu leito, a contaminação por agrotóxicos e outros problemas que diminuem a capacidade de sobrevivência do rio. A duração do treinamento foi de uma semana, em período integral, incluindo as visitas de campo. Essas visitas práticas fizeram os professores, moradores da região, conhecer com outros olhos a realidade local. No entanto, a julgar pelas observações dos informantes, não foram estabelecidas maiores conecções entre esses problemas e questões sociais mais amplas, políticas e econômicas locais. Também não se percebe uma dimensão mais ampliada da consciência, aquela capaz de articular a constatação do problema a uma reivindicação pela solução deste. Desse modo, podemos inferir, amparados em Loureiro (2002), que num certo sentido o treinamento pode ter tido um conteúdo meramente instrumental e acrítico: “A atuação educativa instrumental e acrítica, a partir da concepção do ambiente como algo reificado, facilita a perspectiva de que o que podemos fazer na práxis 57 Alexandro Rodrigues Ribeiro educativa é sensibilizar, minimizar ou mitigar os problemas existentes no contexto atual, por uma correta gestão dos recursos naturais” (Loureiro 2002, p. 70). Durante o treinamento, a expressão preservação do meio ambiente foi bastante enfatizada. “Tudo que se viu lá era para que se pudesse por em prática dentro da escola a preservação ambiental, desde o lar até a escola”, lembra uma professora. Uma certa consciência pré-existente já elencava um conjunto de problemas ambientais específicos da região: o rio Açu e seus problemas, despejo de agrotóxicos, esgotos, doenças, coleta seletiva e reciclagem. “Ainda falta muita coisa pra se fazer, se bem que já se começou a fazer muita coisa, como a questão da agricultura e o rio, as empresas que usam agrotóxico, os esgotos que poluem o rio causando vários tipos de doenças”, assinala uma professora. O treinamento, nesta caso, promoveu um casamento entre certos conhecimentos anteriores e o novo conhecimento, alargando a compreensão. Neste “mapeamento” das representações ambientais dos agentes do Programa, um ponto fundamental é a concepção de educação ambiental. As idéias a este respeito são bastante heterogêneas, embora se destaque o caráter naturalista que as perpassa, dando-lhes uma certa unidade. O modelo advogado por Sato (2002) nos ajuda, por comparação, a julgar o modelo encontrado em nosso estudo de caso, esclarecendo alguns pontos. No modelo da referida autora a educação ambiental repousa sobre três eixos: “...o individuo, a sociedade e a natureza. A Educação Ambiental, portanto, não é somente o estudo antropológico do ser humano; nem apenas o estudo sociológico da sociedade onde vive; e nem só das relações dos seres vivos com seu ambiente, como propõe a ecologia. Ela é um diálogo aberto, como um passaporte de trânsito livre que circunda as diversas fronteiras da interação eu-outr@-mundo” (Sato & Passos 2002, p. 242). Trabalhar a educação ambiental com temas exclusivamente referidos à natureza, como lixo, preservação da fauna e da flora pode garantir à educação ambiental um diálogo aberto, como se refere a autora, mas reduzido a uma só esfera, a dos recursos naturais. O desenvolvimento dos estudos de educação ambiental aponta para um equilíbrio entre a natureza e o homem, estando presentes as questões sociais, políticas, econômicas e culturais. Há, porém, entre os professores, visões que apontam em outro sentido, a de que as questões ambientais se localizam em todas as esferas da sociedade e que pode ser sintetizada, de certo modo, na noção de cidadania, entendida como uma relação entre direitos e deveres e expressa em situações cotidianas, como por exemplo o dever de não sujar e a preocupação em manter a cidade limpa. Para este ponto de vista, a cidadania está expressa na seguinte assertiva: “o verdadeiro cidadão procura respeitar e preservar o meio ambiente”. Esta visão recoloca o indivíduo como ator de relações sociais. O comportamento do indivíduo na comunidade é analisado pela ação que pratica enquanto parte dessa comunidade. É o que assinala uma professora: “Se quiser ser cidadão, para ter seus direitos tem que cumprir com seus deveres. Aqui a limpeza pública não dá conta, tem que ser feita todos os dias, todos os dias tem que varrer a rua, todos os dias tem 58 Alexandro Rodrigues Ribeiro que limpar as ruas. Sujar é um direito meu? Limpar é um dever dos garis? Então eu vejo uma distorção da concepção do que é cidadania”. Desse modo, fica evidenciada a importância de se conhecer e participar dos problemas ambientais locais. Para que isto se torne real e penetre no cotidiano dos indivíduos, uma educação crítica e problematizadora seria fundamental. Como aponta Queiroz (2002, p. 133): “Levar o sujeito a compreender sua realidade, transformando-a, requer, contudo, uma educação crítica e problematizadora, que rege conhecimentos e conteúdos novos, compatíveis com as demandas da comunidade escolar. Esses conhecimentos quando sistematizados e apropriados por essa comunidade, produzirão, através de uma participação ativa dos indivíduos e da coletividade, sustentação teórica e solidez à solução de seus problemas” Um ponto que nos chamou a atenção ao analisar as concepções ambientais dos multiplicadores foi a recorrência dos termos conscientizar e conscientização. O conceito é discutido na educação ambiental. Alguns autores questionam a capacidade de um indivíduo “conscientizar” outro. Sato (2002) é categórica. Ela argumenta que a educação ambiental “não se presta a “conscientizar” as pessoas, como costuma dizer a maioria, reproduzindo um discurso sem fundamentação crítica sobre a significação política da palavra, inserida no pensamento de Paulo Freire”. E prossegue: “E, afinal, nenhuma pessoa pode dar consciência a outra. Somos seres historicamente construídos e capturamos a realidade na medida em que somos capazes de a concebermos em nossos próprios mundos” ( Sato 2002, p. 242). No que diz respeito ao estrito campo escolar, a discussão sobre o caráter disciplinar ou não da educação ambiental está presente entre os professores entrevistados. Para um deles, também assessor pedagógico, “a Educação Ambiental deveria ser implantada em sala de aula como uma disciplina, não só através dos PCN’s”. Este é um debate que persiste. Diversos pesquisadores defendem que a Educação Ambiental deve ser trabalhada em caráter interdisciplinar, devido à sua multiplicidade de conteúdos e em razão dos diversos fatores interligados no diagnóstico de um problema e na intervenção que pressupõe. Queiroz (2002) amplia a discussão para o currículo, para justificar sua defesa da interdisciplinaridade: “Do ponto de vista da educação formal, e alicerçado numa perspectiva ambiental, o currículo não pode ser entendido como uma área técnica de simples organização de conteúdos e métodos, mas sim num sentido sociológico, histórico e cultural que possibilite compreender diferentes visões da realidade e do cotidiano das pessoas. Essa forma de pensar a educação, é um canal importante para fomentar mudanças de mentalidade, sensibilizando e conscientizando os grupos humanos na luta pela melhoria da qualidade de vida. O currículo nesse contexto, não é um elemento transcendente e atemporal; é histórico e, portanto, encontra-se intrinsecamente vinculado às formas como a sociedade se organiza”. (Queiroz 2002, p. 133) Mas assim como havia uma consciência pré-treinamento, há também uma consciência pós, agora resultante daquilo que o treinamento em si acrescentou e daquilo que, também em razão dele, foi acrescentado, via leituras, atenção para programas de televisão, acorrência a palestras e cursos, etc. Há vários depoimentos que informam sobre essa continuidade, através de leituras sobre poluição, desmatamento, em 59 Alexandro Rodrigues Ribeiro revistas e jornais, sobretudo. Não há referências a leitura de livros didáticos ou leituras específicas de educação ambiental. 3.6. A continuidade do Programa na ação dos multiplicadores: a Bosch Serviços A continuidade das atividades de educação ambiental iniciadas pelo Programa da Petrobras se deve em grande medida à ação de um professor da comunidade chamado Jan L. S. Van den Bosch (Jan). Filho de belgas, ele é natural de Macau-RN. Ainda criança, mudou-se para o município de Alto do Rodrigues, onde trabalhou com os pais na área rural até os dezenove anos de idade. Depois, começou a dar aulas nas escolas de primeiro grau do município e, paralelo a esta atividade, tornou-se fotógrafo profissional. Desde os primeiros contatos com os multiplicadores do Programa de Educação Ambiental, na sede da Petrobras em Natal, já se ouvia por parte do coordenador do Programa referências à importância de Ian para a concepção e o desenvolvimento das atividades do Programa em Alto do Rodrigues, na sua fase comunitária. A referência fazia menção a um professor “muito interessado e atuante que participou diretamente das atividades do Programa de Educação Ambiental”. A sensibilização de Jan para as questões ambientais tem raízes antigas e múltiplas. Sua participação no grupo de jovens lhe desenvolveu essa sensibilidade e lhe permitiu ganhar um poder maior de comunicação. Ele considera essa passagem pelo grupo de jovens o momento do despertar para os problemas sociais. Mas foi em casa, junto à família que Jan pôde perceber como tratar melhor a natureza. Os exemplos recebidos em casa puderam ser confirmados quando ele viajou à Bélgica, país de origem de seus pais, em 1980 e 1984. Lá ele conheceu a separação do “lixo” em casa: “Naquela época eu pude ver separar o material para reciclagem e o tratamento do material orgânico na própria residência das pessoas”. Isso o despertou para o ajudar a resolver os problemas relativos ao lixo em sua comunidade. A atividade de fotógrafo profissional leva Jan a todos os recantos do município de Alto do Rodrigues. Nessas andanças, ele começou a registrar com sua máquina fotográfica os impactos ambientais na região, seja em virtude da exploração de petróleo, seja em virtude da agroindústria . Outro ponto merecedor de sua atenção foi o lixo doméstico depositado na periferia da cidade, o que gerava mau cheiro e doenças. Mas foi a exploração de petróleo o que mais lhe chamou a atenção. Inúmeras fotos registraram os vazamentos de petróleo, o lixo jogado ao lado dos poços pelas empresas prestadoras de serviços. Jan lembra que quando não havia lixo em volta dos poços, era porque estava nas imediações, “escondido”. Os vazamentos de vapor, que causavam um barulho ensurdecedor, o descarte das águas dos geradores de vapor para o mato, a contaminação das lagoas com a água contaminada, esses foram algumas das ocorrências registradas por Jan. Assim, registrando os problemas ambientais, ele montou um “dossier” e, nos anos de 1996 e 1997, convocou a Petrobrás e a Prefeitura para tentarem juntos solucionar alguns desses problemas. Seu entendimento é que “se eles (Petrobrás e Prefeitura) estão causando os problemas, tem de partir deles a iniciativa de resolver os problemas”. A partir daí começou sua efetiva luta para a solução dos problemas ambientais em Alto do Rodrigues. Participa das reuniões para implantação do Programa de Educação Ambiental, da fundação da Comarg e de inúmeras atividades aí abrigadas. 60 Alexandro Rodrigues Ribeiro A atuação da Comarg se estendeu desde as escolas até ao comércio, passando pelos grupos de jovens e culminando em 2002 com a parceria com o Senai e a Prefeitura. A atividade recente de Ian se concentra na empresa Bosch Serviços. A idéia da atuação da Bosch Serviços na limpeza pública surgiu da necessidade da Prefeitura Municipal ter um bom serviço e da intenção de Jan em desenvolver essa atividade, realizando a coleta do “lixo” tanto na área urbana como rural. As atividades da Bosch Serviços têm demonstrado o compromisso de Jan com as causas sócio-ambientais. Ele realiza palestras em empresas e na comunidade, continuando o trabalho de sensibilização que desenvolvia nos tempos de presidente da Comarg. A coleta seletiva do lixo, a apresentação dos garis e a mudança de comportamento de muitas pessoas em relação ao lixo são dados diferenciadores: os garis dispõem de todo o equipamento de segurança e higiene, dando qualidade de vida e segurança no trabalho. O tratamento da questão do lixo tem tido, portanto, um encaminhamento satisfatório. O depoimento das pessoas transmite um alto grau de satisfação: “O lixo foi minimizado em 90%. Antes era descartado em volta da cidade, depois do Programa, temos agora um aterro sanitário. A empresa particular faz a coleta. Nós temos um exemplo de limpeza pública aqui”, assegura um dos multiplicadores do Programa, funcionário público municipal. Os responsáveis pela limpeza pública têm uma visão crítica do problema: “Ainda tem pessoas que jogam o lixo por cima dos muros. Fizemos um trabalho com os agentes de saúde para que orientassem nas casas e atuamos nas escolas. O trabalho nas escolas tem sido bom. As crianças reclamam quando sabem o que está sendo feito de errado, levam para os pais e vem o resultado”. Os dados sobre o lixo de Alto do Rodrigues dão conta do novo tratamento dado ao problema: 84% do lixo coletado é destinado ao aterro controlado, enquanto 9,2% ainda é jogado em terrenos baldios e 5,8% é queimado; 0,59% é enterrado, 0,1% é jogado no rio e em outros mananciais e 0,31% tem outra destinação. Cerca de 75% do lixo recolhido pelo aterro controlado é lixo urbano e provém dos rejetos domésticos e do comércio; o restante provém de empresas como Petrobrás e suas contratadas. Em síntese, o ressurgimento da COMARG e a coleta seletiva por ela administrada e executada pela Bosch são indicadores evidentes da continuidade do Programa de Educação Ambiental da Petrobrás. A implantação do Programa, ainda que de certo modo breve, legitimou o trabalho – preexistente e, de certo modo, incipiente - de alguns atores locais, criando uma rede de apoio e dando amplificação a esse trabalho. Este foi um dos efeitos positivos do Programa. Desse modo, esses atores, a Bosch aí inclusa, possuem hoje capital cultural suficiente para mobilizar a comunidade em favor da idéia de preservação. 3.7. - A visão ambiental das lideranças locais e o engajamento pessoal As lideranças do município de Alto do Rodrigues demonstram uma certa sensibilidade para as questões ambientais e mesmo um certo engajamento. Entre essas, destacam-se os comerciantes, os vereadores, buscando algumas alternativas para os problemas, e também a Igreja Católica, num leque mais amplo de abrangência. A participação dos comerciantes se evidencia sobretudo depois das atividades desenvolvidas pela Bosch Serviços. Esta empresa vem desenvolvendo atividades regulares na Câmara de Vereadores, reunindose com os comerciantes e desenvolvendo um trabalho de sensibilização quanto aos problemas ambientais do 61 Alexandro Rodrigues Ribeiro município. Nessas atividades, além de chamar a atenção para a importância da separação do lixo e para a destinação dos materiais recicláveis, a Bosch discute como dobrar corretamente as caixas de papelão, para diminuir o volume e facilitar a coleta, e como não dispersá-las em via pública. Um percentual significativo de vereadores tem participado de atividades de formação e de sensibilização dos problemas ambientais, tais como palestras, seminários e cursos, promovidos por diversas entidades, entre as quais se destacam o Banco do Nordeste e o Pólo de Desenvolvimento Açu/Mossoró e o Idema. A situação do rio Açu tem sido recorrente em muitas dessas atividades. Um dos vereadores promove desde 1996 reuniões e atividades para sensibilizar os municípios vizinhos a atuarem juntos. Segundo ele, o problema não é só do seu município: “Realizamos seminário do meio ambiente em Açu e promovemos outro em Alto do Rodrigues e Carnaubais. Promovemos, devido algumas empresas ocupar nosso vale e poluir nossas águas. Fui à imprensa, rádio e sentamos com vereadores dos municípios vizinhos, isso em 1996. Hoje estamos unidos com os prefeitos de Açu e de Afonso Bezerra”. A Igreja Católica, por sua vez, participa do Comitê da Bacia do rio Açu, através da Secretaria dos Recursos Hídricos do estado juntamente com outros órgãos estaduais. Sua participação tem também um nível bastante local, conforme assegura um de seus representantes: “Hoje tem se criado uma conscientização maior a respeito do meio ambiente. Aqui, por exemplo, as comunidades que moram próximas ao rio criaram uma comissão chamada de Filhos e Amigos do Rio. No Dia Mundial das Águas, em Pendências, foi feito um movimento pela comunidade em prol do rio. Aqui em Alto do Rodrigues, na Semana Pedagógica, eu trabalhei o tema água, que é da Campanha da Fraternidade, nas escolas”. E em nível individual, que empenho pessoal existe no sentido de ampliar as fronteiras de seu conhecimento em relação às questões ambientais? As leituras feitas por muitos desses atores referem-se fundamentalmente a jornais e revistas. Referem-se, portanto, a uma sensibilização advinda da notícia, do fato, do que propriamente de uma formação teórica abrangente. É o que se depreende do depoimento de um vereador: “o nosso rio Açu aqui é um rio que até pouco tempo já esteve preste a morrer, porque houve denúncia de empresas que estavam jogando agrotóxicos. Então li nos jornais e revistas a respeito da poluição”. Os dois representantes da comunidade que participaram do Programa como multiplicadores se referem a um tipo de leitura mais abrangente. Um deles diz que lê “todo material com respeito a isto, na Internet, nos jornais e revistas”. A justificativa de seu interesse é bastante oportuna: “Precisamos nos capacitar para repassar para professores e alunos”. O outro diz que lê sobre reciclagem, sobre água e que já leu um livro sobre limpeza urbana. Um comerciante diz realizar leituras sobre meio ambiente, mas específicas para o comércio. Respondendo a uma de nossas indagações, referiu-se a vários materiais que passam por sua loja e que causam impactos ambientais, entre eles o plástico e o isopor. Antes ele os descartava para o lixo; agora os separa e destina à Comarg. Foi através de leituras que ele descobriu o efeito negativo das baterias de celulares comercializadas em sua loja e antes jogadas no lixão e agora coletadas em depósito próprio, embora ele não saiba ainda exatamente o que vai fazer com elas, apesar das consultas a fornecedores. Tentando apreender com mais precisão a visão ambiental das lideranças locais, procuramos identificar sua percepção da atuação da Petrobras no município. Percebe-se a atenção aos problemas 62 Alexandro Rodrigues Ribeiro ambientais e às possíveis relações com as atividades da Petrobras. Percebe-se também um certo conhecimento de alguns projetos ambientais da Petrobrás como o projeto Tamar, por exemplo. Embora aqui e acolá sobressaia uma crítica difusa à Petrobras, esta nos parece muito mais dirigida aos riscos potenciais intrínsecos à atividade da empresa do que propriamente a situações concretas, testemunhadas. A visão que se tem do Programa de Educação Ambiental da empresa é em geral positiva: “O Programa de Educação Ambiental, um programa interno da Petrobras, teve um resultado excelente e repassou para a comunidade. Alto do Rodrigues foi escolhido entre vários municípios e fomos privilegiados com um programa piloto”, avalia uma dessas lideranças. Uma outra, que teve participação direta nos treinamentos oferecidos pela Petrobras e que é o principal multiplicador das atividades do Programa na comunidade, tem uma avaliação mais crítica: “Deixaram de atuar. Fizeram um trabalho de 1996 a 98. Agora atuam com as empresas terceirizadas. Eles abandonaram a gente. Um ou dois tinham uma base, conhecimento, mas os demais não, ficaram soltos. É preciso um apoio financeiro para dar continuidade, tanto dos órgãos públicos como da comunidade também. O apoio da Petrobras foi no início, o do município, por um na., Depois tinha que tirar dinheiro do bolso. Fica difícil”. Buscamos então saber sobre as atitudes pessoais desses cidadãos, como eles têm contribuído para o trabalho de Educação Ambiental. Dos quatro vereadores entrevistados, apenas um entrou com requerimento na câmara, fazendo reivindicações relativas ao tema: “Quando sei que há alguma coisa a respeito de meio ambiente, faço questão de ir lá, mesmo que não seja convidado, mas estou presente e debatendo, mostrando minhas idéias e o que me preocupa. Nós temos a carcinicultura, que gera lucro mas prejudica o meio ambiente. Eles não deixam as áreas de preservação. Eu entrei com um requerimento pedindo que estas empresas tivessem mais responsabilidades com o meio ambiente. Nós somos pequenos, não podemos confrontar com a Delmont, multinacional poderosa, ela não tem fiscalização para exportar seus produtos, então fica fácil para eles”. Entre os militantes da Igreja Católica e professores, o engajamento pessoal é mais efetivo e visível através de várias ações concretas. Em geral, percebe-se o envolvimento da comunidade do Alto do Rodrigues com as questões ambientais, isto é, os diferentes atores sociais locais têm a percepção dos problemas ambientais do município, embora nem sempre essa percepção se expresse através de um engajamento efetivo. É inquestionável, porém, que ela está presente em nível de discurso. 63 Alexandro Rodrigues Ribeiro Conclusões Não há dúvidas de que o Programa de Educação Ambiental da Petrobras provocou impactos bem visíveis na comunidade de Alto do Rodrigues. Concebido para ser desenvolvido no interior da empresa e de suas contratadas, de um lado, e de outro na comunidade em geral e nas escolas, o Programa não chegou à sua realização plena. Mesmo assim, gerou frutos, expressos por novas percepções partilhadas por lideranças locais, por novos comportamentos forjados na escola, pela reorganização do serviço público de coleta de lixo, pela disseminação de alguns conceitos ambientais, etc., conforme pudemos constatar, uma vez que a pesquisa se ocupou fundamentalmente da parte do Programa direcionada à comunidade (escola e cidade de Alto do Rodrigues). Podemos explicar as razões do Programa através de, pelo menos, três elementos: a) a responsabilidade social da empresa, b) algumas pressões locais, c) a política de ação comunitária da empresa, visando aproximá-la da comunidade, como política de boa vizinhança e de compensação pelo seu comportamento de “enclave”. De um modo geral, o desenvolvimento das atividades do Programa de Educação Ambiental na Comunidade, quando aplicado na escola, serviu de base para que a maioria dos professores pudesse rever e complementar seus conhecimentos com relação as questões ambientais. Isto se deve, num primeiro momento, ao treinamento para formação de professores, oferecido a 123 profissionais da rede pública de ensino. Alguns deles tiveram aí a primeira aproximação com a questão ambiental. A prática na escola, através da organização de eventos e de aulas, ampliou esse conhecimento. Através do Programa, os professores puderam aproximar problemas ambientais globais, como a camada de ozônio, por exemplo, aos problemas locais, como poluição das águas, inadequação da coleta e destino do lixo e a exploração acelerada dos recursos naturais da região. Além disso, o treinamento preparou os professores para realizar trabalhos em sala de aula. A metodologia adotada para essas atividades foi um ganho pedagógico: caminhadas ecológicas e coleta seletiva na escola serviram para aumentar o conhecimento dos alunos e sensibilizá-los para a exploração irregular dos recursos naturais, principalmente os recursos não renováveis, para o cuidado com as margens do rio Açu e para o risco do uso inadequado de agrotóxicos utilizados na agricultura da região. Esses conhecimentos, teóricos e metodológicos, permitiram aos professores desenvolver tanto atividades específicas da educação ambiental como também atividades ligadas à formação geral do aluno. Dois outros elementos pedagógicos positivos podem ser acrescentados: a prática de atividades interdisciplinares e a colaboração interinstitucional, uma vez que a realização de muitas atividades contou com a presença de instituições externas à escola, como a Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues e a Bosch Serviços. Em suma, para a maioria dos professores, a temática ambiental está viva, tanto pelo interesse em adquirir novos conhecimentos quanto pela memória das atividades e pelo interesse em trabalhar com os alunos sobre o assunto. 64 Alexandro Rodrigues Ribeiro Quanto a estes, uma nova postura em relação não só à limpeza do espaço comum mas também em relação ao uso desse espaço, ao zelo pela coisa pública, constitui-se numa atitude muito positiva, assim como a interação com a família, isto é, o conhecimento escolar extrapolando os limites da sala de aula e sendo levando aos familiares através do aluno, multiplicando a ação concebida na escola. Há, porém, alguns problemas. Embora os professores, no geral, sejam portadores de uma consciência ambiental, identificada através da percepção de relações de causa e efeito entre ações humanas e situação ambiental, falta talvez um sentido mais prático de aplicação dessa consciência à construção organizada de novas atitudes, ainda que novas atitudes tenham surgido. Na prática, não foi efetivada modificação no currículo escolar como também não foram desenvolvidas novas metodologias (ainda que, como já assinalado, atividades práticas como caminhadas ecológicas e coleta seletiva evidenciem-se como metodologias pertinentes). Então, tem-se repassado essa consciência muito mais como discurso normativo e menos como atividades pedagógicas construídas, problematizadoras e direcionadas para objetivos menores e cumulativos, salvo algumas práticas como limpeza das salas de aula e de outros espaços da escola, cujo caráter pedagógico evidente e cujo poder de gerar mudança comportamental é notável. Não há, portanto, um programa estruturado, sistematizado de informações, reflexões e ações relativo ao cuidado com o ambiente, seja como disciplina seja como conteúdo transversal. Os depoimentos dos professores a respeito dos saberes e atitudes trabalhados são em geral genéricos e pouco aludem a um como-fazer pedagógico didaticamente estruturado. Em outros termos, a parte formal do Programa, aquela desenvolvida na escola, curiosamente não sofreu uma evolução que a fizesse desembocar num processo mais sistemático, planejado e pedagógico. O Programa, no ambiente escolar, não se firmou como disciplina, embora uma polêmica teórica não recomende tal opção, e também não se firmou como conteúdo singular interdisciplinar. Talvez se possa explicar esta fragilidade em razão da inexistência de um planejamento pedagógico mais efetivo em nível estadual e municipal que possam induzir positivamente ações articuladas e de maior profundidade na esfera da educação formal. Se o Programa de Educação Ambiental gerou impactos positivos no âmbito da escola, ele também gerou naquela esfera que nomeamos como “comunidade em geral”. Nesta, o trabalho com o lixo sobressai-se como um efeito positivo. Alto do Rodrigues, conta hoje com um amplo trabalho de coleta de lixo e uma atividade de sensibilização junto à comunidade para um adequado manuseio e depósito em local apropriado. O município está numa fase bastante adiantada de coleta seletiva. A atividade está sendo desenvolvida com uma parceria entre a Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues – Comarg - e o Senai, com a execução da Bosch Serviços, empresa terceirizada que realiza o trabalho. A sensibilização para a coleta seletiva atinge mais as empresas e o comércio, e numa escala menor as residências. A empresa Bosch Serviços desenvolve um amplo trabalho de sensibilização, tanto no comércio quanto nas residências. Para o comércio, foi desenvolvida uma cartilha com os benefícios e técnicas da coleta seletiva, o que foi bem aceito pelos comerciantes e empresários. Nas casas, embora tenham sido realizadas algumas atividades de sensibilização, a adesão tem sido mais morosa, mas percebe-se uma ligeira mudança de hábitos como não jogar o lixo em terreno baldio e colocá-lo à disposição da coleta nos horários estabelecidos, hábitos não existentes anteriormente. 65 Alexandro Rodrigues Ribeiro Desse modo, pode-se considerar positiva a situação atual do município, pois em pouco mais de cinco anos a comunidade não possuía local apropriado para a devida alocação do lixo, e hoje possui um aterro controlado, e o comércio num todo prática o ato da coleta seletiva. A prática da coleta seletiva, embora seja demorada sua percepção pelos indivíduos, traz benefícios não só para a saúde e financeiros, mas pode gerar uma sensibilização geral para o entendimento dos problemas ambientais e sociais. Assim, a implantação dessa atividade pode conduzir a comunidade a um entendimento positivo com relação aos problemas ambientais. Como efeito geral do Programa, percebe-se o desenvolvimento de uma sensibilização aos problemas ambientais locais, embora sem um maior poder de articulação para o enfrentamento desses problemas. As atividades desenvolvidas em relação às questões ambientais estão presentes nos depoimentos dos informantes. De um modo geral, a comunidade tem uma percepção dos problemas ambientais a um nível bastante avançado. Por outro lado, as ações desenvolvidas são limitadas por diversos fatores: a falta de “união” dos diversos setores da comunidade como os poderes executivo, legislativo e judiciário, pouco capazes de desenvolver ações conjuntas com os membros do setor privado. Percebe-se ações localizadas e limitadas de promoção de eventos pela Petrobras, atitudes reivindicatórias por alguns vereadores e a participação da Prefeitura como agente financiador dos eventos criados pela Coordenação de Meio Ambiente de Alto do Rodrigues. Se houve considerável sucesso no enfrentamento da questão do lixo, o mesmo não se deu em relação ao problema da água e de sua qualidade. Embora apareça como o problema ambiental maior da comunidade, ela tem permanecido distante das ações da Educação Ambiental. De fato, não se percebe, diferentemente do que ocorreu em relação ao lixo, maiores investimentos, seja nas ações da escola seja nas ações com a comunidade, visando enfrentar o problema da qualidade da água. Se ações da Petrobras dotaram a comunidade de água farta e próxima às residências, a qualidade permaneceu como problema. A intervenção neste caso precisaria ser de caráter mais político que técnico, e isto a comunidade não tem alcançado, evidenciando talvez um dos limites da proposta de Educação Ambiental da Petrobras. As soluções, como evidenciam o relatório do CEFET, têm sido individuais e mediadas pelas condições econômicas de cada um, isto é, quem pode resolve o problema consumindo água mineral; quem não pode permanece exposto às doenças a ela relacionadas e ao atendimento médico público. As limitações das ações dificultam o desenvolvimento de uma atividade contínua, que seja capaz não só de perceber os problemas mas que tenha condições de tomar providências para combatê-los. É bastante claro o conhecimento das causas dos problemas ambientais no município. Essa visão é percebida e mencionada por todos os setores sociais, mas a principal dificuldade é a falta de articulação para desenvolver atitudes em conjunto, evitando que ações isoladas acabem por prejudicar ações coletivas. Como razão dos limites da proposta da Petrobras pesa o fato da empresa ter um papel institucional muito forte. No desenvolvimento de suas atividades, ela precisa se relacionar com o poder local, com fornecedores e com outras empresas, com os quais estabelece interesses econômicos. Esse caráter fortemente institucional impõe limites às ações da Petrobras, o que pode levar um projeto de educação ambiental nascido no seu seio a só poder trabalhar com algumas dimensões da realidade, desenvolvendo trabalhos pontuais, correndo, pois, o risco de desenvolver uma educação não problematizadora. Neste caso, o treinamento 66 Alexandro Rodrigues Ribeiro oferecido pela Petrobras desperta nos participantes o cuidado com os recursos naturais, mas não oferece a possibilidade de reflexão ao direito de ter um ambiente sadio. É o que sustenta Carvalho (apud Layrargues, 2002): “Se a educação quer realmente transformar a realidade, não basta investir apenas na mudança de comportamentos, sem intervir nas condições de mundo em que as pessoas habitam” . Podemos afirmar que o município assistiu a mudanças muito positivas de atitudes, tanto na escola como no comércio. Para que se dê continuidade a essas ações seria imprescindível a articulação dos setores da sociedade juntamente com um projeto de políticas públicas, com o objetivo de enfrentar os maiores problemas, como a questão da água e dos impactos gerados pela exploração do petróleo. Desse modo, conclui-se que o Programa de Educação Ambiental na Comunidade, patrocinado pela Petrobras em Alto do Rodrigues, passados seis anos da experiência, não provocou maiores impactos sobre a resolução do problema da água, sobretudo na zona rural, em comunidades de significativa densidade populacional, mas teve impactos bastante positivos sobre a limpeza pública e, na escola, sobre o comportamento dos alunos, em torno de zelo pelo patrimônio, mas não teve a mesma positividade no que se refere à avaliação dos currículos. 67 Alexandro Rodrigues Ribeiro Bibliografia: ABNT, Associação Brasileira de Normas Técnicas. Informação e documentação: referências, elaboração: NBR 6023/2000. Rio de Janeiro: ABNT, 2000. AGENDA 21 BRASILEIRA Bases para discussão. Comissão de Políticas de Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional. MMA / PNUD – Brasília, 2000. ARAÚJO, Cédina Maria de. O protagonismo da mulheres rurais na produção orgânica em Baraúna-RN. 2003. 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