Ives Gandra da Silva Martins
O padre Antônio Vieira escreveu sobre Santo Antônio que: “Se Santo Antônio era a
luz do mundo, como não haveria de sair da sua pátria? Saiu como luz do mundo e
saiu como português. Por isso, nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e
tantas para a sepultura. Para nascer –Portugal; para morrer, o mundo” (Santo
Antonio de Lisboa, de Coimbra, de Pádua e de todo o mundo, José da Silva Martins,
Editor Martin Claret, São Paulo, 1983, orelha final do livro).
A figura de Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, admirável apóstolo franciscano, é
daquelas que mais impactaram a Igreja do século 13. Doutor da Igreja desde 16 de
janeiro de 1946, pela bula Exulta, Lusitania felix, por declaração de Sua Santidade
o papa Pio XII, teve sua canonização oficiada por Sua Santidade o papa Gregório XI,
no próprio ano de sua morte, ou seja, 1231 (13 de junho).
Sua fama, no mundo medieval e católico, foi de tal ordem que era chamado de “o
Santo de todo o mundo” ou “o Santo dos milagres”, a primeira denominação, porque
se dizia de Santo Antônio que tinha o dom da onipresença, estando em diversos
lugares ao mesmo tempo; e a segunda, porque não foram poucos os milagres
atestados que realizou em vida, ao ponto de ter sido canonizado poucos meses após
a sua morte.
Era um profundo conhecedor das Escrituras Sagradas, sabendo-se que desde criança
as estudou. Em Lisboa, onde nasceu, as festas comemorativas de seu “Dies natalis”
começam na noite de 12 de junho, ficando a cidade praticamente parada no dia 13
de junho, tal o respeito e a devoção que os portugueses lhe têm até hoje.
Em 12 de junho de 1981, voltávamos, minha mulher e eu, de Lisboa, após um
congresso das Comunidades Lusíadas, e fomos aconselhados a sair para o aeroporto
à noite, com bastante antecedência, a fim de não corrermos o risco de perder o
avião, pois as ruas ficavam repletas dos devotos de Santo Antônio, em festa.
Seu nascimento deve ter ocorrido entre 1188 e 1191, em uma casa perto da
Catedral, sendo seu nome de batismo Fernando. Sua família era da média burguesia,
com o que foi possível a Santo Antônio receber uma sólida educação humanística,
lembrando-se que, à época, a educação religiosa penetrava todos os quadrantes do
conhecimento. Sua educação fez-se em escola da própria Catedral.
A vocação religiosa surgiu desde tenra idade, tanto é assim que ainda bem jovem
ingressou no mosteiro dos agostinianos, nos arredores de Lisboa. Dizem seus
biógrafos que sua mudança para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, aos 17 anos,
deu-se porque Santo Antônio estava muito preocupado pelas constantes visitas que
a família lhe fazia, o que dificultava o desprendimento necessário e a dedicação
exclusiva a Deus, a quem serviria durante toda a sua vida. Não lhe permitiam, pois,
uma vida contemplativa. Em Lisboa foi um autêntico autodidata.
Em 1220, autorizado por seus superiores, decidiu ingressar na ordem franciscana
recém-fundada, tendo, neste momento, deixado seu nome Fernando, trocando-o
por Antônio.
Atribuem seus biógrafos a mudança de ordem ao ideal de martírio que era impossível
realizar entre agostinianos, mas possível entre os franciscanos, cujo batismo de fogo
se deu com os mártires de Marrocos de 1216. Dizem tais biógrafos que conheceu
aqueles franciscanos sacrificados, quando passaram por Coimbra e se hospedaram
com ele. Suas relíquias puderam também ser contempladas por Santo
Antônio, quando levaram-nas de passagem por Coimbra.
A pureza da nova ordem sensibilizou muito o Santo dos Impossíveis, que era de um
rigor maior do que o que encontrara no Mosteiro de Santa Cruz, onde certas regalias
permitidas o perturbavam.
Pretendeu ser martirizado em Marrocos, para onde seguiu ainda em 1220, mas uma
doença obrigou-o a voltar a Lisboa, sendo, todavia, levado, por problemas de
navegação, à Sicília em 1221. Tormentas desviaram o barco que terminou aportando
naquela ilha italiana.
Assistiu ao Capítulo Geral da Ordem em Assis, no dia 30 de maio de 1221. Por
indicação do ministro provincial da Romagna, retirou-se para o Mosteiro de Santo
Paolo, tendo sido ordenado sacerdote em Forli, muito embora não poucos biógrafos
sustentem que, em 1220, já recebera a ordem sacerdotal em Lisboa, antes de sua
viagem para o Marrocos. Os dados sobre sua vida, neste ponto, são imprecisos.
É interessante notar que, já nas suas primeira aparições na Itália, como orador, seu
talento foi reconhecido, assim como sua extraordinária capacidade de convencer
pessoas a se entregarem a Deus e buscarem um novo caminho de santidade.
Percorreu a região italiana da Romagna de 1221 a 1223 e enfrentou a heresia dos
cátaros, que dominava principalmente a França, segundo a qual inúmeras
liberdades, inclusive no plano sexual, eram permitidas aos que aderissem à seita,
que se dizia cristã, e que se formava numa linha quase panteísta.
Em 1223, o próprio São Francisco, fundador da Ordem, nomeou-o primeiro leitor e
professor de teologia, passando a residir em Bologna. Não pôde ficar muito tempo
em Bologna, pois o papa Honório III pediu que viajasse para a França, agora para
combater a heresia valdense. Passou a residir em Montpellier, percorrendo, em suas
andanças e pregações, todo o sul e o centro daquele país. Os reflexos de sua
pregação fizeram-se sentir de imediato, sendo Santo Antônio uma unanimidade
entre aqueles que o ouviam e que nele reconheciam um fantástico orador e um
santo de uma pureza incomparável.
Em 1227, foi nomeado ministro provincial na Romagna, cargo e função que não
impediram que continuasse a exercer intenso apostolado.
Seu fervor e eloquência levou-o a Assis para defender a pureza da Ordem contra
alguns desvios que começavam a aparecer, principalmente após a turbulência de
uma Quaresma em Pádua, isto em 1230.
Com saúde já debilitada, deixou o cargo de ministro provincial e retirou-se ao
Mosteiro de Arcella, nos arredores de Pádua, onde veio a falecer no ano seguinte,
no dia 13 de junho.
Entre suas obras, encontram-se Sermones in solennitatibus (Sermões para as
festas), Sermones in honorem et laudem Beatissimae Virginis Mariae (Sermões em
honra e louvor da Beatíssima Virgem Maria) e Sermones dominicales (Sermões de
domingo). Em todos eles revelou-se um profundo conhecedor das Escrituras e do
papado, além de mostrar um sólido conhecimento da cultura clássica.
Meu pai, José da Silva Martins, escreveu uma biografia de Santo Antônio, editada
por Martin Claret com o título Santo Antonio de Lisboa, de Coimbra, de Pádua e de
todo o mundo. E na sua indicação para a Academia Lusíada de Ciências, Letras e
Artes escolheu Santo Antônio como seu patrono.
O ministro Oscar Corrêa, que foi deputado federal, ministro da Justiça e ministro
da Suprema Corte, costumava dizer-me que sua devoção a Santo Antônio era
absoluta, igual à de meu pai, pois todos os objetos que perdia, Santo Antônio se
encarregava de colocá-los num lugar em que poderiam ser encontrados por ele,
embora jamais tivesse pensado em deixá-los ali. Experiências como essa, de
encontrar o objeto em lugar impossível, onde não poderia ter sido perdido — meu
pai e eu a vivenciamos diversas vezes — a tradição do pão de Santo Antônio, que é
distribuído nas igrejas no dia 13 de junho —, o santo dos que têm dificuldade de
falar, o santo dos impossíveis.
Viveu de 29 a 32 anos em Portugal e 10 anos na Itália, sendo um santo das duas
pátrias, mas, mais do que isso, como é conhecido, o Santo de todo o mundo. Termino
este breve artigo com a Oração de Santo Antônio composta por meu pai:
“Prece a Santo Antônio
Fernando Martins
Tu, que renunciaste ao conforto e riqueza
do Mosteiro de Santa Cruz
pela humildade e pobreza
do Eremitério de Santo Antão,
quando mudaste o nome de Fernando por Antônio.
Tu, que ao regressares de Marrocos
duma missão de apostolado, é o teu barco,
com destino a Portugal, jogado, por vontade de Deus
e misteriosa tempestade às costas sicilianas.
Tu, que já chegas à Itália como Sábio e Santo, virtudes
adquiridas na tua querida Lisboa e tão sábia Coimbra.
Tu que és Luz do mundo,
como te chamou o teu patrício padre Antônio Vieira,
ou Luz do universo,
como declarou o papa Pio XII.
Tu, que detiveste terríveis tempestades nas principais
praças das cidades de Bourges e Limoges para que multidões
ouvissem a palavra de Deus saída da tua divina boca.
Faz o milagre, querido Santo Antônio,
entre os milhares que fizeste, de repartir as águas,
que na sua abundância sacrificaram os brasileiros do Sul,
e reparte-as pelas áridas terras do Nordeste,
onde tantas crianças, homens, mulheres e animais
morrem de fome e de sede!
Amém.
José da Silva Martins” (pág.7, Santo Antonio de Lisboa, de Coimbra, de Pádua e de
todo o mundo, Martin Claret, São Paulo, 1983).
* Ives Gandra da Silva Martins é jurista. - [email protected]
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O padre Antônio Vieira escreveu sobre Santo Antônio que: “Se