IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Certificação de Cafés Sustentáveis: Um comparativo das principais normas internacionais voluntárias Fabiana Ikeda de Oliveira (CDS UnB) Administradora de Empresas, Especialista em Desenvolvimento Sustentável e Direito Ambiental e Auditora da FLO-CERT GmbH [email protected] Magda Eva Soares de Faria Wehrmann (CDS UnB) Economista, Doutora em Sociologia e Pesquisadora Associada do CDS UnB [email protected] Resumo O objetivo deste trabalho é comparar as normas de quatro programas de certificação de cafés sustentáveis: Fairtrade FLO, Orgânicos, Rainforest Alliance e Utz Certified. Tendo como foco: a) a adequação ao conceito de desenvolvimento sustentável; b) a consideração dos principais impactos sociais, econômicos e ambientais específicos do café; e c) a rigidez para emissão do certificado. A metodologia utilizada envolve revisão bibliográfica, estudo comparativo, análise de dados secundários e construção de parâmetros. O estudo tem como base o café como importante produto da economia mundial e os pressupostos da certificação como ferramenta de avaliação da conformidade. Entre as descobertas, destacam-se: a norma Fairtrade FLO é a mais adequada ao conceito de desenvolvimento sustentável e a que melhor considera os impactos sociais, econômicos e ambientais do café; a norma Utz Certified é a mais rígida e a que apresenta maior equilíbrio das questões sociais, econômicas e ambientais nos seus requisitos-chave para a obtenção e manutenção do certificado. Conclui-se que, sendo as normas de certificação práticas recentes de contabilização e internalização de custos dos impactos não-econômicos, como tal ainda são passíveis de melhoria. A expectativa de melhores ganhos econômicos é o grande estímulo para a adesão dos produtores, ou seja, a dimensão econômica ainda é a preponderante. A certificação que considera aspectos da sustentabilidade não é solução definitiva e nem única para fazer do setor cafeeiro um aliado do desenvolvimento sustentável. Entretanto, verificando-se um cenário global de crescente desregulamentação, a certificação é instrumento importante de promoção de uma agricultura cafeeira mais sustentável. Palavras-chave Avaliação da Conformidade, Certificação de Agronegócios, Agricultura Sustentável, Café. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Introdução O café é a sétima commodity 1 mais comercializada do mundo e uma fonte vital de divisas para muitos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Quase meio bilhão de pessoas é empregado em sua cadeia produtiva, sendo estimadas mais de 25 milhões de famílias vivendo do seu cultivo, em pouco mais de 50 países. Além de ser uma das commodities mais importantes da economia mundial, o café está relacionado com uma série de questões sociais e ambientais, que variam desde o desflorestamento e uso intensivo de agroquímicos associados à monocultura e a emissão de efluentes resultantes de seu processamento, até baixos salários, más condições de trabalho para trabalhadores em fazendas e baixos preços pagos por intermediários a pequenos produtores. Ao invés de combatê-lo por seus inegáveis impactos, muitas vezes negativos, sobre as pessoas, economias e meio ambiente, alguns atores ligados a esse setor têm visto a cadeia produtiva do café como uma ferramenta de mudança. Ela pode contribuir para a busca pela sustentabilidade do planeta. Há mais de uma década, diversos desses atores vêm discutindo e colocando em prática o conceito de café sustentável, tendo as iniciativas internacionais e voluntárias de certificação de cafés como as principais estratégias para a efetivação da sustentabilidade no setor cafeeiro. Levando tal fato em consideração, uma questão torna-se premente: de que maneira as certificações proporcionam ao setor cafeeiro a possibilidade de contribuição para o desenvolvimento sustentável? Derivada dessa primeira questão, o artigo ainda busca resposta para a seguinte: o que diferenciaria os diversos programas de certificação de cafés sustentáveis, visto que todos eles têm como base metodológica a verificação de terceira parte e divulgam ter como pressuposto a contribuição para o desenvolvimento sustentável? Realizado por meio de revisão bibliográfica, estudo comparativo, análise de dados secundários e construção de parâmetros, este artigo tem como objetivo principal comparar quatro diferentes programas de certificação para a promoção da sustentabilidade na cafeicultura: Fairtrade FLO, Orgânicos, Rainforest Alliance e Utz Certified, verificando as diferenças das normas que os orientam. O foco está em três análises: a) a adequação ao conceito de desenvolvimento sustentável, b) a 1 Commodity, de acordo com o dicionário Houaiss, trata-se de "qualquer bem em estado bruto, geralmente de origem agropecuária ou de extração mineral ou vegetal, produzido em larga escala mundial e com características físicas homogêneas, seja qual for a sua origem, geralmente destinado ao comércio externo". São exemplos de commodities o café, açúcar, soja, trigo, petróleo, ouro e diversos minérios. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ consideração dos principais impactos sociais, econômicos e ambientais específicos da produção e comercialização do café; e c) a rigidez de cada programa para emissão do certificado. Entre as descobertas, podem-se destacar: a norma Fairtrade FLO é a mais adequada ao conceito de desenvolvimento sustentável e a que melhor considera os impactos do café; a norma Utz Certified é a mais rígida e a que apresenta maior equilíbrio das questões sociais, econômicas e ambientais nos seus requisitos chave para a obtenção e manutenção do certificado. Conclui-se que, sendo as normas de certificação práticas recentes de contabilização e internalização de diferentes custos dos impactos não-econômicos, como tal ainda são passíveis de melhoria. A expectativa de melhores ganhos econômicos figura como o grande estímulo e propaganda para a adesão a esse tipo de iniciativa voluntária, ou seja, a dimensão econômica ainda é a preponderante. Os sistemas de certificação, que levam em conta aspectos da sustentabilidade, não são uma solução definitiva e nem única para fazer com que o setor cafeeiro torne-se aliado do desenvolvimento sustentável. Entretanto, tendo em vista um cenário global de desregulamentação, a certificação pode ser um instrumento importante de promoção de uma agricultura cafeeira mais sustentável. Origem e caracterização do café Planta da família das Rubiáceas, o café é originário das regiões montanhosas africanas da Abissínia, atualmente correspondente ao sudoeste da Etiópia, sudeste do Sudão e norte do Quênia. As duas espécies cultivadas para consumo são Coffea arabica e Coffea canephora (conhecido como robusta). Perto de 80% de todo o café arábica vêm da América Latina, enquanto que uma porcentagem similar de todos os cafés robusta é produzida na África e Ásia (MCLEAN, 1997). Regulamentação e mercado mundial do café Até fins da década de 1980, o setor cafeeiro mundial sofria forte regulamentação estabelecida pelos Acordos Internacionais do Café (AIC), no âmbito da Organização Internacional do Café (OIC) 2 . Tais acordos haviam sido instituídos a partir do início da década de 1960 e objetivavam implementar políticas de sustentação de preços no mercado mundial de modo a ajudar os países produtores. A 2 A Organização Internacional do Café é a principal organização intergovernamental para o café, reunindo países produtores e consumidores para enfrentar os desafios do setor cafeeiro mundial, através da cooperação internacional. Ver em <http://www.ico.org>; acesso: 01 fev 2008. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ sustentação se dava principalmente através do estabelecimento de um sistema artificial de quotas de produção aos países. A ajuda era um dos componentes da política internacional para conter o comunismo. Com o fim da Guerra Fria, os países ocidentais ricos pararam de ajudar as frágeis economias dos países produtores e os deixaram à mercê da competição. (COUTINHO et al., 2002 apud SCHIAVI, 2003). Desde então, com o fim dos Acordos e sem a proteção que esses proporcionavam ao setor cafeeiro mundial, o preço do café caiu drasticamente, levando muitos produtores à falência; depois, por causa da escassez, os preços subiram, oscilando bastante nos primeiros anos da década de 1990. Por ser uma cultura perene, não é fácil substituí-lo por culturas alternativas em cenários de crise. Atualmente, o mercado mundial de café caracteriza-se por uma forte competição, com oscilações de preços causadas principalmente por excessos de produção. Os países produtores buscam garantir seus ganhos, diminuindo custos, melhorando a qualidade, e divulgando e promovendo o seu produto. O setor cafeeiro é constantemente desafiado em diferentes aspectos, porém muitos especialistas concordam que a superprodução é o desafio mais importante (LEWIN e GIOVANNUCCI, 2003 apud GIOVANNUCCI e KOEKOEK, 2003). De acordo com os autores, os ciclos de desequilíbrio entre oferta e demanda são inerentes às atuais estruturas de mercado, e não há soluções fáceis e nem de curto prazo para esse problema. As conseqüências, logicamente, recaem sobre os produtores, porém a instabilidade resultante ultimamente está afetando também outros atores da cadeia. Impactos socioeconômicos A concentração de terra, recursos e riqueza é endêmica na indústria produtiva do café. O setor cafeeiro é ilustrativo das relações econômicas, de trabalho e de poder do mundo atual. Conforme estudo da OIC, 125 milhões de pessoas no mundo - entre trabalhadores rurais e produtores - vivem da cafeicultura, em pouco mais de 50 países (LEWIN e GIOVANNUCCI, 2003, apud GIOVANNUCCI e KOEKOEK, 2003). No Brasil, por exemplo, 3,5 milhões de trabalhadores estão ocupados no setor cafeeiro. O padrão de tamanho de propriedades de terras e de níveis de renda é bastante variável dentre o conjunto de produtores de café. A agricultura familiar é responsável por grande parte da produção cafeeira: pequenos produtores representam estimados 80 a 85% do conjunto de proprietários de fazendas de café de todo o mundo. Na maioria dos países produtores, o café é a principal fonte de renda de parte expressiva dos IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ agricultores familiares. Rice e Mclean (1999) expõem que as rendas tendem a ser relativamente baixas nas famílias de pequenos produtores, com uma média de renda monetária variando de US$ 600 a US$ 1.200 anuais por família. Os autores ainda afirmam que trabalhadores rurais em fazendas de café ganham ainda menos, uma média de US$ 2 a US$ 4 por dia. Impactos ambientais Existem inúmeras formas e escalas de produção do café – desde pequenas plantações em quintais com culturas diversificadas, até a monocultura de café totalmente tecnificada. No total, são estimados 11 milhões de hectares sob o cultivo do café, notadamente em áreas ainda ou que já apresentaram rica biodiversidade (KATZEFF 1996 apud MCLEAN 1997). De maneira geral, conforme aumenta o grau de intensificação e mecanização da produção do café, aumentam os problemas ambientais resultantes de sua produção. A produção e processamento do café são comumente relacionados com importantes questões em pelo menos quatro áreas ambientais: 1. A biodiversidade e a conservação de ecossistemas florestais; 2. O uso de agroquímicos; 3. A emissão de efluentes do processamento do café lavado; e 4. A qualidade do solo e sua degradação (RICE e WARD, 1996). A certificação no contexto da avaliação de conformidade A organização ou produtor que busca a obtenção de selos para diferenciação de seus produtos, serviços e processos submete-se a uma certificação de conformidade, atendendo aos requisitos préestabelecidos por um conjunto de normas ou referencial técnico, e passando por um mecanismo de controle reconhecido. Sendo constatado o atendimento aos requisitos, há a emissão de um documento de certificação. Dentro do escopo conceitual da avaliação da conformidade, este estudo tem como foco a certificação por auditoria externa. A certificação, inserida no corpo conceitual da avaliação da conformidade, é o conjunto de procedimentos (observações, registros, análises e pareceres) desenvolvido a fim de garantir que certo produto, processo ou serviço possui algum diferencial caracterizado através de normas ou padrões pré-estabelecidos. Esta diferenciação muitas vezes é referida como qualidade. Cada sistema de certificação trabalha com determinados padrões, que devem ser seguidos em todas as etapas da implantação, condução e comercialização de produtos agrícolas. A base da certificação da qualidade desse tipo de produto está no registro e na rastreabilidade do processo produtivo. Na IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ certificação do café, não só as lavouras são inspecionadas, mas também todo o processo de beneficiamento (torrefadoras, embaladoras, etc.) e, de acordo com certos programas, até de comercialização. Caracterização da certificação de cafés sustentáveis As principais normas de certificação do setor cafeeiro utilizam o conceito mais corrente a respeito do desenvolvimento sustentável, ou seja, defendem que, para alcançar a sustentabilidade, as atuais necessidades ambientais, sociais e econômicas devem ser alcançadas, sem comprometer a capacidade das futuras gerações de alcançar as suas próprias necessidades. Apesar de nos últimos anos, as certificações voluntárias do café em nível global obterem crescente visibilidade, no Brasil, elas vêm ocorrendo de forma lenta e dispersa, em função principalmente dos custos de certificação, da dificuldade de gestão e de problemas na qualidade do produto. Embora aqui os mecanismos de certificação sejam ainda pouco expressivos, a demanda pela qualidade controlada tende a aumentar, considerando que o País tem como um de seus pilares de sustentação econômica a exportação de produtos, especialmente os agrícolas, incluindo-se o café. Justifica-se, dessa forma, o interesse por mecanismos que garantam a qualidade de produtos agrícolas, de alimentos e, mais especificamente, do café. Foram escolhidos quatro principais programas de certificação que declaradamente se propõe a promover a sustentabilidade na produção dos cafés. São eles (em ordem alfabética): Fairtrade FLO, Orgânico, Rainforest Alliance e Utz Certified. Cada sistema de certificação contém seu próprio conjunto de princípios, seus próprios métodos de verificação e formas singulares de promoção de suas afirmações e seu trabalho. Fairtrade FLO O Fairtrade 3 é um sistema de certificação de produto desenvolvido para permitir a identificação, por parte de consumidores, de produtos que seguem certos critérios ambientais, de trabalho e de desenvolvimento pré-estabelecidos, que favoreçam pequenos produtores e trabalhadores contratados de países em desenvolvimento. O órgão não governamental FLO International estabelece as normas 3 O termo correto em inglês seria Fair Trade, traduzido literalmente como Comércio Justo. Porém, como marca registrada pela FLO International, o termo utilizado por este tipo de certificação é mesmo Fairtrade. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Fairtrade, enquanto o órgão de certificação FLO-CERT verifica o seguimento dos padrões estabelecidos pelos produtores, por meio de auditoria independente. Um importante aspecto desta certificação é a garantia de um preço mínimo para os produtos comercializados, que deve ser pago aos produtores. Outro aspecto que impulsiona a força mercadológica do selo é a existência de um Prêmio Fairtrade. Cujo valor adicional pré-estabelecido por quantidade de produto vendido chega à organização certificada e deve ser investido em projetos de desenvolvimento das comunidades produtoras, de acordo com a decisão do grupo certificado. O sistema de certificação Fairtrade pode certificar diversos produtos 4 , especialmente agrícolas, dos quais o café se destaca por ser, historicamente, o produto mais popular. Atualmente, o café é o segundo produto Fairtrade mais vendido no mundo, seguindo a liderança das bananas. Critérios Fairtrade FLO Há dois níveis de exigência a respeito de critérios: podem ser requisitos mínimos ou requisitos de progresso. Os requisitos mínimos são aqueles que devem ser cumpridos no momento em que a organização ingressa no sistema certificado, ou dentro de um período específico. Os requisitos de progresso são aqueles que as organizações certificadas devem demonstrar permanente melhoria. Do conjunto de 106 requisitos que fazem parte dos Critérios Gerais para Pequenos Produtores, 40 são considerados requisitos mínimos. Sob Desenvolvimento Social, os requisitos totalizam 17, dos quais 8 são considerados mínimos. Os reunidos sob Desenvolvimento Econômico são 10, dos quais 6 são mínimos. Em Desenvolvimento Ambiental, o total de requisitos é 50, dos quais 14 são mínimos. Já as Condições de Trabalho reúnem 29 requisitos, dos quais 12 são mínimos. Apesar de a certificação Fairtrade ser reconhecida principalmente por seus atributos e prováveis contribuições para o Desenvolvimento Social e à situação dos atores menos favorecidos da cadeia comercial, foi verificado um maior número de requisitos no item Desenvolvimento Ambiental da norma Fairtrade. Isto mesmo considerando o espectro social como aquele que reuniria tanto os requisitos de Desenvolvimento Social quanto os sob o item Condições de Trabalho (que somariam 46 requisitos, com 20 mínimos). O que poderia ser interpretado como um maior enfoque da certificação Fairtrade no assunto ambiental. 4 Bananas, mel, laranjas, cacau, algodão, frutas (frescas e secas) e vegetais, sucos, nozes e sementes, quinoa, arroz, temperos e ervas, açúcar, chá, vinho, entre outros produtos estão entre os produtos que podem obter esta certificação. Informações obtidas do site da FLO International, disponível em: <http://www.fairtrade.net> IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Entretanto, somente a constatação desse fato não pode justificar que o foco da norma estaria na questão ambiental, pois esta pode ter sido causada pela abrangência de assuntos que envolvem a questão ambiental no processo produtivo de um produto agrícola, que por natureza está diretamente afetando e sendo afetado pelo meio ambiente de diversas maneiras. Para cada produto a ser certificado, podem existir critérios adicionais nas áreas já abordadas pelos Critérios Gerais da FLO. Ainda, em relação a cada produto, a FLO desenvolve critérios comerciais que devem ser obedecidos tanto por vendedores quanto por compradores. No caso do café, não há critérios adicionais complementares aos Critérios Gerais, e os critérios comerciais versam sobre: 1. Descrição do produto; 2. Relacionamentos comerciais de longo prazo; 3. Condições internacionais usuais; 4. Preço e prêmio; 5. Pré-financiamento (Fairtrade Standards for Coffee for Small Farmers' Organisations, versão 03/2007). Orgânicos Ricci et al (2006) definem a agricultura orgânica como “o sistema de manejo sustentável da unidade de produção com enfoque sistêmico que privilegia a preservação ambiental, a agrobiodiversidade, os ciclos biogeoquímicos e a qualidade de vida humana”. Nesse tipo de produção, os conhecimentos da ecologia são aplicados no manejo da unidade de produção, baseada numa visão holística da unidade de produção. O café orgânico O café orgânico é o café resultante de práticas de cultivo e manejo em conformidade com a filosofia, os princípios e as normas técnicas da cafeicultura orgânica. Por constituir-se em cultura perene, geralmente o café é produto de cultivos convencionais e não-orgânicos, devendo, portanto, passar por um período de conversão para que possa ser considerado orgânico pelo órgão certificador. Em propriedades manejadas com uso mínimo de insumos externos, 18 meses seriam suficientes para a conversão orgânica, enquanto que lavouras altamente tecnificadas ou semi-tecnificadas necessitariam um período mínimo de três anos para a transição, tempo previsto para que os resíduos de agrotóxicos sejam degradados no solo (ANACAFÉ, 1999, apud RICCI et al 2006). De acordo com as normas da International Federation of Organic Agriculture Movements (IFOAM Guidelines, 2092/91 - OIC, 1997, apud Ricci et al 2006), a conversão deve obedecer a um planejamento anual. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ O uso de agrotóxicos deve ser suspenso de imediato. De acordo com Ricci et al (2006), não é aconselhável a conversão completa no primeiro ano, pois tal prática pode acarretar um estresse nutricional, predispondo a planta a um ataque mais severo de pragas e doenças. A simples substituição de insumos químicos pelos orgânicos não é suficiente para um produto ser considerado de fato como orgânico, mas representa um começo. Princípios e diretrizes da Agricultura e do Café Orgânico Atualmente, o País conta com aproximadamente 20 certificadoras nacionais e internacionais. Cada certificadora desenvolveu seu próprio código de agricultura orgânica. Para fins de comparabilidade com os outros programas de certificação para cafés sustentáveis desse estudo, as autoras avalia as Diretrizes para o Padrão de Qualidade da Associação de Certificação do Instituto Biodinâmico (IBD) 5 . As Diretrizes para o Padrão IBD versam sobre 13 aspectos, mas diferentemente das normas de certificação analisadas nesse estudo, não devem, de acordo com o próprio instituto, ser consideradas “‘ao pé da letra’, conforme o modo formalista, como muitas vezes são utilizadas as leis, ou mesmo buscando eventuais brechas para usá-las procurando apenas objetivos econômicos” (IBD, 2007). Apesar de as diretrizes IBD formalmente não obedecerem a uma classificação de importância que implicaria em uma não-certificação, dentre os seus aspectos, a própria entidade destaca as seguintes como suas principais exigências: 1. Desintoxicação do solo; 2. Não utilização de adubos químicos e agrotóxicos; 3. Atendimento às normas ambientais do Código Florestal Brasileiro; 4. Recomposição de matas ciliares, preservação de espécies nativas e mananciais; 5. Respeito às normas sociais baseadas nos acordos internacionais do trabalho; 6. Bem-estar animal; e 7. Envolvimento com projetos sociais e de preservação ambiental. Rainforest Alliance A Rainforest Alliance é uma organização não governamental (ONG) norte americana fundada em 1987. Tem como missão conservar a biodiversidade e assegurar o meio de vida sustentável por meio da transformação das práticas de uso de terra, práticas de negócios e comportamento do 5 De acordo com o seu website, o IBD é a mais antiga e bem estruturada certificadora brasileira, formadora de opinião no mercado orgânico. É a única certificadora 100% brasileira monitorada por quatro organizações internacionais: - IOAS - International Organic Accreditation Service (IFOAM Accreditation) - DAR - Deutscher Akkreditierungs Rat (EM 45011 / ISO 65) - USDA - United States Department of Agriculture (NOP - National Organic Program) - Demeter International. Além disso, possui convênios com certificadoras japonesas para facilitar os processos de certificação com o selo JAS (Japan Agriculture Standard) e é reconhecido pelo Conseil D´Accréditation Du Québec (Canadá). Disponível em: <http://www.ibd.com.br>, acesso em: 25 fev 2008. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ consumidor. Entre seus programas, destacam-se os que promovem florestas e agricultura sustentáveis, ambos por meio da certificação. O programa de agricultura sustentável tem como missão integrar a agricultura produtiva com a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento humano. Foi desenvolvido para lidar com o setor agrícola como um todo, portanto, propriedades agrícolas certificadas podem ser de todos os tamanhos e tipos. Para serem certificadas, elas devem cumprir com padrões sociais e ambientais abrangentes e boas práticas de gestão, incluindo a redução no uso de agroquímicos, conservação de ecossistemas e saúde e segurança do trabalhador. A certificação é dada a propriedades agrícolas e não a empresas ou produtos. Critérios Rainforest Alliance Os critérios desenvolvidos pela Sustainable Agriculture Network (SAN), que embasam a certificação Rainforest Alliance, seguem 10 princípios sociais e ambientais. Para receber a certificação, as propriedades devem cumprir com ao menos 50% dos critérios de cada princípio, e com 80% de todos os critérios. Dentre os 90 critérios estabelecidos pela SAN para a Certificação de Agricultura Sustentável, 14 são considerados críticos. Uma propriedade deve cumprir completamente com todos os critérios críticos para ser certificada ou manter o seu certificado. Além dos critérios gerais da certificação Rainforest Alliance descritos anteriormente, existem 2 critérios adicionais e 3 critérios substitutos com indicadores específicos para a produção do café. Estes abarcam a conservação de ecossistemas e o tratamento justo e boas condições para trabalhadores 6 . Utz Certified Utz Certified é um sistema de certificação de âmbito mundial para a produção e fornecimento responsável de café. Afirma ser o maior certificador de café do mundo, liderando uma tendência de responsabilidade do café que deverá, em breve, ser padrão para toda a indústria. Anteriormente conhecido como Utz Kapeh (bom café, no idioma maia), no início de 2007 passou a utilizar o nome e identidade corporativa Utz Certified “Good Inside”. 6 De acordo com análise da autora sobre o SAN Standard, versão 2005. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Pontos de controle Utz Certified O código de conduta 7 da Utz Certified consiste em 204 pontos de controle, divididos em 12 capítulos, que seguem as diferentes etapas do cultivo e processamento do café. Os pontos de controle, por sua vez, são divididos em 3 categorias: maiores (71 pontos de controle); menores (98 pontos de controle) e recomendações (35 pontos de controle). Apesar de os capítulos do código de conduta da Utz Certified seguirem as etapas do cultivo e processamento do café, esses podem ser divididos em três categorias: Gestão Eficiente da Propriedade, Padrões Sociais de Produção e Padrões Ambientais de Produção 8 . Para obter o certificado, o detentor do certificado (seja ele um cafeicultor individual ou um grupo de produtores) precisa cumprir com 100% dos pontos de controle maior e 95% dos pontos de controle menor. As recomendações são inspecionadas, mas não são levadas em consideração na decisão final de certificação e o seu cumprimento contribui para uma produção e gestão da propriedade ainda mais responsável. Resultados da Comparação entre os Programas de Certificação Apesar de os quatro programas de certificação de cafés sustentáveis, objetos deste estudo, apresentarem similaridades - como possuir uma base metodológica na verificação de terceira parte 9 e divulgar ter como objetivo contribuir para o desenvolvimento sustentável - o que justificaria a sua comparabilidade, de fato apresentam diferenças significativas. A seguir, são apresentadas as principais descobertas. Quanto à adequação das normas à definição de desenvolvimento sustentável Para efeitos deste estudo, a definição de desenvolvimento sustentável será restringida ao entendimento de que é um desenvolvimento com vistas ao equilíbrio no tratamento de questões nas esferas ambiental, social e econômica. 7 Com base no Código de Conduta Utz Kapeh, versão 2006. De acordo com o apresentado no documento The Utz Certified Guide. Disponível em: <http://www.utzcertified.org> 9 Medaets (2005) qualifica a verificação de terceira parte como a “avaliação de conformidade realizada por uma entidade independente do produtor e dos clientes”. 8 IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Neste ínterim, dentre as diferentes normas de certificação de cafés sustentáveis (ver gráfico), pode ser constatado que a norma Fairtrade FLO apresenta uma maior adequação e equilíbrio na abordagem das vertentes social, econômico e ambiental (do total de 18 assuntos da norma, 8 são relacionados a aspectos sociais, 4 a aspectos econômicos e 6 a aspectos ambientais). A norma da Rainforest Alliance apresenta menor adequação e equilíbrio entre os assuntos, não abordando aspectos econômicos em sua definição (do total de 10 assuntos, 3 são sociais e 6 ambientais, sendo que 1 assunto trata do sistema de gestão socioambiental da propriedade – sendo considerado, para fins deste estudo, como 0,5 social e 0,5 ambiental). Cabe salientar que, no caso das normas de orgânicos e da Utz Certified, a classificação do assunto em econômico ou ambiental foi prejudicada, pois ambas apresentavam vários assuntos que tanto poderiam ser relacionados com o cuidado ambiental quanto com o modo de produção (relacionado ao aspecto econômico, portanto). O que resultou na necessidade de optar-se por verificar qual o aspecto seria preponderante naquele assunto da norma, para então classificá-lo como ambiental ou econômico. Por esta razão, não se pode afirmar, especialmente no caso da Utz Certified, que o resultado reflita um provável foco do programa de certificação nas questões ambientais. social 8 6 4 2 0 econômico Fairtrade FLO ambiental Rainforest Alliance Utz Certified Orgânica IBD GRÁFICO 1: Adequação em relação ao tripé da sustentabilidade, medido pelo número de assuntos relacionados com cada vertente (social, econômica e ambiental). Fonte: autoras. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Endereçamento dos impactos sociais, econômicos e ambientais Os 10 seguintes impactos são os mais comumente relacionados com a cadeia de produção e comercialização do café, e foram classificados pelas autoras conforme a sua “natureza” ambiental, social ou econômica: Impactos Sociais Impactos Econômicos - Questões trabalhistas – é a 2ª cultura que mais emprega - Concentração de riquezas – vendas mundiais de US$70 bi, mas só US$ 5,5 bi foram para os países produtores - Biodiversidade e conservação – monocultura a pleno sol versus sistemas agroflorestais - Baixa renda – famílias ganham entre US$ 600– 1,200/ ano e trabalhadores entre US$2-4/dia. - Uso de agroquímicos – tecnificação das lavouras - Agricultura familiar dependente – 80-85% do café mundialmente vem de produções familiares Impactos Ambientais - Emissão de efluentes – lavagem do café - Endividamento – safras bianuais e dependência do intermediário - Qualidade do solo e degradação – erosão especialmente nos monocultivos tecnificados. - Instabilidade de mercado crises oferta x demanda QUADRO: Os principais impactos sociais, econômicos e ambientais do café. Fonte: autoras. qt impactos 4 4 4 4 4 3 2 2 2 1 1 1 0 0 0 Total de Impactos Fairtrade FLO Rainforest Alliance Utz Certified Orgânicos sociais 2 2 1 1 1 econômicos 4 4 0 0 0 ambientais 4 2 4 3 4 GRÁFICO: Endereçamento das normas aos principais impactos sociais, econômicos e ambientais do café. Fonte: autoras. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Na análise das normas dos diferentes programas de certificação, pode-se destacar que a norma da Fairtrade FLO busca endereçar todos os impactos sociais e econômicos supra-relacionados, diferente dos outros códigos, que não abordam exigências relacionadas ao endereçamento dos impactos econômicos e que abordam relativamente menos a respeito dos impactos sociais. Como diferenciais da norma Fairtrade FLO, pode-se destacar que esta busca estabelecer parâmetros reais e mecanismos para diminuir o impacto da concentração de riquezas, da instabilidade de mercado e da baixa renda, através do estabelecimento de um preço mínimo; prevê em seus critérios comerciais o estabelecimento de mecanismos de pré-financiamento da colheita, buscando diminuir a ocorrência do endividamento. Em relação ao endereçamento da norma Fairtrade FLO aos impactos ambientais do café, pode-se perceber uma incongruência, pois, ao mesmo tempo em que de fato tenha sido verificado que ela apresenta um maior número de requisitos no item Desenvolvimento Ambiental (50 no total), em relação ao número de requisitos relacionados ao Desenvolvimento Social e Condições de trabalho (46 no total), podendo sugerir um direcionamento ambiental desta norma reconhecidamente relacionada com aspectos sociais, alguns aspectos ambientais importantes para a cultura do café não são adequadamente tratados, como a emissão de efluentes (não há requisitos mínimos relacionados à gestão de resíduos e nem à gestão de águas) e a conservação da biodiversidade ou ao estabelecimento de práticas de sombreamento (sistemas agroflorestais), apontando um campo de melhoria para os critérios específicos do café no tocante ao Desenvolvimento Ambiental. Além disso, seria importante salientar que a certificação Fairtrade FLO é restrita em relação ao número de grupos certificados, em comparação com outros programas de certificação. Em 2006, menos de 600 grupos produtores de diferentes culturas em todo o mundo eram certificados Fairtrade FLO, enquanto que a certificação de orgânicos, em sua totalidade de produtos, abrangia quase 15.000 estabelecimentos em 2001, somente no Brasil. Em relação ao tratamento de um importante impacto ambiental pelas normas de maneira geral, a respeito da utilização de agroquímicos, vale salientar que o uso é monitorado pela Fairtrade FLO, Rainforest Alliance e Utz Certified, mas não proibido, diferente da norma de orgânicos, em que o uso de pesticidas químicos é proibido. Há, porém, nos três casos, a proibição do uso de certos agroquímicos mais persistentes. O foco da proibição, para a Utz Certified, é o fato de o produto ser banido na União Européia, nos Estados Unidos e/ou no Japão. Em relação aos impactos sociais, todas as normas estabelecem critérios relacionados às condições de trabalho e questões trabalhistas, porém somente a norma Fairtrade FLO tem um especial foco na IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ questão da agricultura familiar, sendo aplicada exclusivamente a pequenos produtores, fato que não ocorre nas outras normas, o que pode ser considerado relevante para a cultura do café, já que 80 a 85% da produção mundial de café vêm da agricultura familiar. Quanto à rigidez dos diferentes programas de certificação de cafés sustentáveis À respeito da rigidez dos diferentes programas de certificação de cafés sustentáveis, este estudo teve como foco um aspecto considerado primordial: o número de critérios críticos que devem ser cumpridos para a obtenção do certificado pelo cafeicultor. Embora as diferentes normas apresentem números totais de critérios e números de critérios críticos bastante diversos entre si, justifica-se a utilização da quantidade de critérios críticos e não a relativa porcentagem (critério crítico / número total de critérios) para fins de comparação, pois, será o cumprimento da totalidade de critérios críticos que definirá a obtenção do certificado pelo produtor. 80 71 qt critérios críticos 70 60 50 40 40 30 20 14 10 0 Fairtrade FLO Rainforest Alliance Utz Certified GRÁFICO 3: Quantidade de critérios críticos por norma de certificação. Fonte: autoras. Dessa maneira, como apresentado no quadro comparativo, o programa de certificação mais rígido seria o da Utz Certified, em que 71 pontos de controle maior devem ser cumpridos para a obtenção do certificado. A certificação para o selo Rainforest Alliance seria a de menor rigidez entre os programas comparados, com a exigência de cumprimento de 14 critérios críticos. Infelizmente, no tocante a esta comparação, a análise do programa de certificação orgânica não foi possível de ser realizada, pois embora a certificação IBD analisada apresente quais seriam as 7 IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ principais exigências para a sua obtenção, elas não refletem o exato número de critérios necessários para o cumprimento das exigências enumeradas. Os gráficos a seguir apresentam a composição percentual dos critérios críticos de cada sistema de certificação, de acordo com a sua “natureza” social, ambiental ou econômica. Esta análise se justifica, pois, dessa forma, é possível constatar claramente qual área - ambiental, social ou econômica - é mais relevante para cada programa, visto que é o cumprimento dos critérios críticos que determina a obtenção ou manutenção da certificação. Mais uma vez a análise da certificação orgânica não foi possível de ser executada devido ao não estabelecimento normativo por parte da certificadora específica dos critérios críticos que determinam a obtenção e manutenção da certificação orgânica. Fairtrade FLO Econômico Social 32% 52% Ambiental 16% GRÁFICO 4: Composição percentual dos critérios críticos da Fairtrade FLO em relação à “natureza” social, ambiental e econômica. Fonte: autoras. Rainforest Alliance Econômico 0% Social Ambiental 39% 61% GRÁFICO 5: Composição percentual dos critérios críticos da Rainforest Alliance em relação à “natureza” social, ambiental e econômica. Fonte: autoras. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Utz Certified Econômico Social 23% 20% Ambiental 57% GRÁFICO 6: Composição percentual dos critérios críticos da Utz Certified em relação à “natureza” social, ambiental e econômica. Fonte: autoras. O gráfico 4, a respeito da norma Fairtrade FLO, confirma a “vocação” desta certificação para a questão social, pois mais de 50% de seus critérios críticos têm natureza social. O gráfico 5, a respeito da norma Rainforest Alliance, confirma a “vocação” desta certificação para a questão ambiental, pois mais de 60% de seus critérios críticos têm natureza ambiental. Entretanto, nesta norma, dentro dos três aspectos da sustentabilidade, foi constatado que não existem critérios (nem gerais e nem críticos) de natureza econômica. O gráfico 6, a respeito da norma Utz Certified, pode ser considerada como a que apresenta mais equilíbrio entre os três aspectos da sustentabilidade em seus critérios críticos. Porém, vale recordar que, mesmo que se apresente que 57% de seus critérios críticos sejam de natureza ambiental, isto não necessariamente significaria um provável foco da norma na questão ambiental, pois diversos critérios definidos como ambientais têm na realidade características ambientais e de produção (isto é, portanto, de natureza econômica). IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Conclusão É preciso ter em vista que, devido à limitação de escopo e de tempo, a conclusão deste estudo tem como foco a análise dos aspectos das normas dos programas de certificação, pois elas constituem os documentos básicos e oficiais que estabelecem as regras da certificação. A comparabilidade do sistema de certificação orgânica em relação aos outros três programas de certificação ficou prejudicada, pois foi necessário eleger um código de determinada certificadora para realizar o estudo, que pode ou não ser o mais representativo da área como um todo. Tal necessidade se justifica pelo fato de cada uma das diversas certificadoras orgânicas existentes ter um código próprio para embasar o seu processo de certificação. Além disso, deve ser destacada a resistência do próprio movimento orgânico a uma padronização com maior rigidez. Mesmo não tendo sido este o objetivo principal do estudo, algumas constatações adicionais merecem atenção. A principal versa sobre o modo de definição das normas de certificação e o seu modo de operacionalização dentro dos diferentes programas. Por constituírem-se de códigos e sistemas de verificação de aplicabilidade internacional, necessitam de soluções criativas para garantir o escopo de trabalho em nível local. Tais soluções estão intrinsecamente relacionadas com o histórico dos programas, e nenhuma solução encontrada por determinado programa é igual à outra. O aspecto de reconhecimento das certificações e sua identificação visual por meio dos selos nas embalagens é outro aspecto que merece ser destacado. O nicho de mercado de cafés especiais, em nível mundial, apresenta um significativo número de cafés ditos sustentáveis, alguns certificados e outros não. A superoferta de cafés sustentáveis gera um risco elevado de o consumidor não levar em consideração as diferenças entre eles e essa generalização é especialmente arriscada para todo o conceito, caso algum dos ditos cafés sustentáveis recorrer a práticas não-sustentáveis e elas forem descobertas e divulgadas. A tendência de “corporatização” das normas de certificação para cafés sustentáveis, corroborada pelo surgimento no final dos anos 1990 e consolidação da Utz Certified, uma iniciativa reconhecidamente do setor cafeeiro mainstream, pode induzir o surgimento de um novo paradigma de requerimentos básicos, que incluem maior responsabilização dos diferentes atores em relação aos impactos sociais e ambientais da Cadeia do Café. IV Encontro Nacional da Anppas 4,5 e 6 de junho de 2008 Brasília - DF – Brasil _______________________________________________________ Normas de certificação em geral podem ser consideradas práticas iniciais de contabilização e internalização de diferentes custos dos impactos não-econômicos. Tais custos são cobertos tanto por consumidores e compradores, quanto por produtores. Os consumidores e compradores por pagarem mais por produtos certificados como sustentáveis. Os produtores, por assumirem os custos adicionais tanto da própria certificação quanto das mudanças necessárias para cumprirem com os requisitos impostos. É preciso levar em conta, porém, que a expectativa de melhores ganhos econômicos figura como o grande estímulo e propaganda para a adesão dos cafeicultores a sistemas voluntários de certificação que levem em conta aspectos da sustentabilidade. A dimensão econômica, entre as analisadas neste estudo, ainda é a preponderante, apesar do discurso dos diferentes programas de certificação em prol de um equilíbrio entre as três dimensões: social, econômica e ambiental. Sabendo-se que a dimensão econômica é a preponderante, surgem algumas questões que seguem como sugestão para estudos futuros: até que ponto os aspectos econômicos são os definitivos para “as regras do jogo”? Ou, qual seria o real peso da dimensão econômica neste processo? Resta considerar que a certificação de cafés sustentáveis não é a solução definitiva e nem única para fazer com que o setor cafeeiro torne-se aliado do desenvolvimento sustentável. Entretanto, tendo em vista um cenário global de desregulamentação, a certificação pode ser um instrumento importante de promoção de uma agricultura cafeeira mais sustentável, o que não invalida a existência de outras ferramentas, tais como o estabelecimento de políticas públicas na área condizentes com a sustentabilidade. Referências bibliográficas FLO – Fairtrade Labelling Organizations International. Generic Fairtrade Standards For Small Farmers' Organizations, versão: 17.12.2007, disponível em: <http://www.fairtrade.net>, acesso: 10 jan 2008. _______________. Fairtrade Standards for Coffee for Small Farmers' Organisations, versão 03/2007, disponível em: <http://www.fairtrade.net>, acesso: 30 nov 2007. GIOVANNUCCI, Daniele e KOEKOEK, Freek Jan. 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