“Bairro Verava e a rede do sertão1.” Julia Kruszczynski Bergmann, e-mail: [email protected] Resumo: A análise de entrevistas, realizadas com moradores mais velhos do Bairro Verava, localizado no município de Ibiúna, pode nos revelar as mudanças que o desenvolvimento da cidade de São Paulo imprimiu em seus arredores. Durante o período de 1880 a 1960, o bairro passou por profundas transformações: desde a chegada dos imigrantes, o desmantelamento da subsistência, o fim das tropas,e a chegada dos primeiros caminhões para retirar carvão. Por fim, a concretização da supremacia urbana. Esse texto é fruto de entrevistas feitas com alguns moradores dos bairros Verava e Paulos, localizados no município de Ibiúna. Paulos se desenvolveu a partir de Verava e, neste sentido, constituem um só bairro. O texto apresentado é resultado de uma primeira sondagem acerca do passado do bairro. O resgate dos hábitos, das estórias e da cultura dos moradores mais antigos, traz o registro de uma maneira de viver diferente da de hoje. Com o tempo, o que se torna velho, tende a ser desvalorizado e até mesmo perdido. As gerações mais novas, tendo hoje mais acesso a informação, sofrem uma forte influência da cultura urbana. A supremacia do urbano, somada à carência de serviços básicos à população, fazem com que os próprios moradores desvalorizem seu lugar de origem. O resgate do passado pode ser um passo, para que os jovens entendam o local em que vivem. A agricultura, principalmente de hortaliças, é a principal atividade econômica do bairro hoje, que escoa suas mercadorias para municípios da Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), Baixada Santista, e até mesmo municípios do Paraná e Rio de Janeiro. A produção de hortaliças orgânicas é um ponto que merece ser destacado. Foram entrevistados: Paulino Paulo, nascido no dia 02 de março de 1930. Criado pela avó Carolina Maria das Dores, nascida em 1884, descendente de avô espanhol. Filho do “velho Miguel” nascido em Itatu, que fica perto do bairro dos Grilos, para o lado de São Lourenço. 1 Sertão é uma palavra usada para designar as áreas mais afastadas, com pouca povoação. Como a noção de aglomeração e vazios, varia conforme a experiência de cada pessoa há moradores da cidade de Ibiúna, que consideram o Verava como sertão. 1 Angelina Pereira de Oliveira, nascida em 02 de agosto de 19412. Nasceu no fundo do Verava, “nas cabeceiras do sul”. Sua irmã Maria Siles de Oliveira, nascida em 1936. A única que tem o sobrenome da avó, alemã. Florêncio Ribeiro da Costa, nascido em 11 de maio de 1936. Sua esposa Ana Pereira da Costa, nascida em 08 de março de 1939. Dona Ana é irmã de Angelina e Maria. Marinha Soares de Oliveira, nascida no dia 18 de setembro de 1942, em Juquitiba. Filha de Waldomiro Antonio Soares e Isabel Pires de Oliveira. Veio do sertão para o “Veravão” com dois anos de idade, morar perto da barra. Casou com “gente dos Alfaz”, espanhóis. Tive também conversas informais com Seu Candinho e Zé Camargo, moradores nascidos no início da década de 20, que estão com a saúde bastante debilitada. Localização Bairro Verava em relação à cidade de São Paulo (em amarelo): (Mapa do estado de São Paulo 2007. Multimapas) 2 Em seu registro consta que nasceu no dia 09 do mesmo mês e ano, “na época pagava um pouquinho mais, e como meu pai não queria pagar, colocou dia 09”. A pessoa que registrasse nascimento com atraso, teria que pagar uma multa. 2 Bairro Verava: bacias hidrográficas e a rede de estradas. A densidade da rede de estradas entre Caucaia e Verava segue o padrão dos demais municípios localizados na Região Metropolitana. Enquanto que do Verava para a direção oeste, a densidade é menor. O limite da Bacia hidrográfica do Rio Sorocabuçú e Rio Juquiá é a Serra de Paranapiacaba. A estrada do Verava começa na SP-250 e termina no bairro dos Paulos. Pela Estrada do Verava O bairro Verava tem um conjunto de características, que o faz peculiar. Verava está localizado no limite sudeste do município de Ibiúna; tem início após o bairro do Tibúrcio, localizado aproximadamente no quilômetro 13 da Estrada do Verava, e se estende até o final dessa estrada, onde está a Serra de Paranapiacaba, em seu limite sul do estado. Nessa serra estão algumas nascentes do rio Sorocabuçú, “as cabeceiras do sul”. Verava é um bairro de Ibiúna, que faz limite tanto com Juquitiba quanto Caucaia do Alto, este pertencente ao município de Cotia. Nessa micro-região, há uma rede de pequenas estradas de terra, que estabelecem a ligação entre esses municípios. A Serra de Paranapiacaba é um fator importante na composição da paisagem do bairro. A Serra tem maiores altitudes, um relevo mais recortado, com descidas íngremes, vales cavados, 3 voltados para o lado de Juquitiba, enquanto que para a face norte o relevo é formado por morros arredondados, e as áreas de várzea da barra3, por onde corre o rio Sorocabuçú. A Serra, que chega a ter até mais de 1.000 metros de altitude, reserva maiores índices de chuvas, nebulosidade e umidade relativa do ar, em relação a localidades vizinhas, devido ao efeito orográfico. É também essa Serra que estabelece a divisão entre as bacias do Alto e Médio Tietê, e a bacia do rio Juquiá, formando o limite da Área de Proteção Ambiental (APA) de Itupararanga. Pela estrada do Verava, que tem mais de 25 quilômetros, localizam-se diversos bairros, alguns tão antigos quanto o Verava: Domingues, Olinto, Tibúrcio - e outros que são núcleos mais recentes, muitos deles – Portal das Águas, Bela Vista, Vale dos Coqueiros, recebem nomes dos loteamentos, que começaram a ser feitos a partir da década de 70. Verava, assim como grande parte dos bairros rurais de Ibiúna, sofrem com a negligência e despreparo do poder público municipal, bem como escandalosos casos de corrupção 4. Não há atendimento médico adequado, não há manutenção das estradas, o comércio é limitado, o lixo fica espalhado pelas estradas, apesar das caçambas, não há serviço de correio, o policiamento é insuficiente, cultura e lazer, inexistentes. Ainda hoje, os moradores do bairro têm que percorrer uma distância de mais de 30 quilômetros para pagar suas contas, comprar remédios, comprar carne, ir ao correio,... No entroncamento da rodovia Bunjiro Nakao (SP-250) e a estrada do Verava, estão localizadas duas empresas de grande importância para o município: Furnas5 e Nissin6. Os primeiros bairros da estrada do Verava são em grande parte formados por loteamentos. Observa-se a agricultura de hortaliças convencional e intensiva. A população desses bairros é composta por muitos migrantes, e pessoas que permanecem por pouco tempo no bairro. Os núcleos mais próximos à rodovia Bunjiro Nakao (SP-250), são mais adensados e oferecem um maior poder de mobilidade. 3 “Barra” é o local plano, por onde passa o ribeirão da Barra, que nasce no bairro dos Paulos. Como se deve imaginar, o local tinha muito barro. Daí a origem da expressão dos mais antigos. A antiga “barra” está na área de um mercado, próximo a Escola Estadual Bairro Verava e a antiga escola municipal. 4 O prefeito da gestão 2004-2008, Fábio Belo de Oliveira, foi indiciado por participação na Máfia das Sanguessugas, bem como o ex-presidente da Comissão Municipal de Licitação, Edson Luiz Soares. http://noticias.terra.com.br/brasil/interna/0,,OI3772697-EI5030,00.html Acesso feito em 28 de agosto de 2009. 5 Furnas Centrais Elétricas S.A. Em Ibiúna está instalada a Estação Conversora de Energia Elétrica de Ibiúna, que transforma a energia em corrente alternada. 6 Nissin Miojo, empresa multinacional de origem japonesa. A fábrica está instalada em Ibiúna desde 1981, segundo o site http://www.nissin-miojo.com.br/. 4 Atualmente, no bairro dos Domingues 7, localizado próximo ao quilômetro 11, é onde há maior concentração de comércio: cabeleireiro, lojas de materiais de construção, concerto de eletrodomésticos, venda de antenas parabólicas, bares, borracharia. Um núcleo mais novo Rogérios, antes só um “campão”, está localizado pouco antes dos Domingues. Apresenta concentração de lavouras intensivas convencionais, de grande porte, que aumentaram suas áreas no último ano. Nesse ponto da estrada foi construído, também em 2008, um posto da guarda municipal. Todavia, não há efetivo destacado para o local. Até esse ponto da estrada, o asfalto recebe certa manutenção. Observando atentamente os mapas da região, percebemos que o Verava compõe uma rede de bairros rurais, interconectados por estradas de terra: há uma estrada que liga o Verava ao bairro dos Marmelo, Rodrigues, Carmo Messias, Cachoeira e Caucaia. Mais afastado está o bairro dos Grilos. Do Verava pode-se chegar a Laranjeiras, seguindo, ao centro de Juquitiba, e a rodovia Régis Bittencourt. Também há um caminho que liga o Verava a São Lourenço da Serra. Há os bairros que a própria estrada do Verava liga: Olinto, Domingues, Rogérios, Tibúrcio, Sorocamirim, Paulos, e também os bairros que ficam fora da estrada: Boava, Veravinha. Além da conexão com os demais bairros rurais de Ibiúna, e o “sertão”. Sertão em geral, é usado para denominar as áreas mais afastadas, com baixíssima ocupação, e mata: as pessoas que vivem no sertão moram muito afastadas umas das outras. São consideradas sertão, áreas de Serra, entre Verava e Juquitiba, assim como grandes extensões de terra a leste do Verava, no município de Ibiúna. Devido a localização afastada, o bairro parece ter desenvolvido uma importante rede de ligação entre pequenos bairros rurais e o sertão, que servia para o estabelecimento de trocas comerciais, realização das rezas mensais e missas anuais. Quando a colheita era feita, há cinco gerações passadas, os moradores organizavam tropas para comercializar seus produtos no Largo de Pinheiros, e compravam aquilo que não produziam. Hoje, a relação dos bairros com os centros urbanos é muito intensa. A produção de hortaliças, e o turismo de fim de semana são os elementos que se destacam na paisagem, por toda a estrada. 7 Segundo o site da prefeitura, Domingues é o nome da família de portugueses, que chegaram na região entre o fim do século XVI e início do século XVIII. http://www.ibiuna.sp.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=6 acessado em 13 de agosto de 2009. 5 ----------------------------------------------------------------------------------------------------------- Vê o quê? Uverava? VERAVA! A origem do nome do bairro tem por estória mais contada a formação de um V no entroncamento de dois rios, na antiga “barra”, onde hoje está o mercado do Seu João. Mas, alguns entrevistados, inclusive Seu Candinho, o mais velho, disse não saber o porquê do nome Verava. Será que é o nome de uma antiga família, que viveu aqui? Em uma carta do IBGE, com a data de 1981, aparece a seguinte referência a uma casa: “Bairro dos Verava”. Sabe-se que os portugueses, primeiros imigrantes a chegarem ao município, confundem a letra “b” com “v”. Será o nome original do bairro, Uberaba? Há mapas em que o nome do bairro aparece como Uberaba. Esse nome é de origem tupi: o topônimo “Y-berab”, que quer dizer “água clara” ou “rio brilhante”. Sem uma resposta definitiva, repetimos a pergunta... Verava? ------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ Princípio do princípio “nas culturas do índio (sic) está sempre prevista a chegada do outro – e o outro é limite da liberdade de cada indivíduo, nessas culturas em que não há delegação de poder e ninguém dá ordens a ninguém.” 8 Em tempos de aquecimento global, a vida dos índios, nos parece totalmente harmoniosa para a saúde do planeta. No entanto, grande parte dos nossos índios não podem mais viver como são. Há uma incompatibilidade entre o nosso modo de vida e o modo de vida deles, ao menos na questão do meio. Já que a nossa civilização desmata, polui, afugenta os animais; nós impedimos que os índios prossigam vivendo como sabem viver. Os índios foram os primeiros habitantes da região que hoje é o bairro Verava. “A bisavó era bugre, pegada a laço no mato. Então a nossa descendência é de italiano com bugre. É índio que eles falam.” (Dona Marinha) “A bisavó foi pega a laço, e minha avó também era de nação de índio... Minha mãe contava isso, eu não sei.” (Seu Florêncio) Hoje, não há nenhum grupo 8 NOVAES, Washington. “Uma outra visão para a Amazônia” In:“O Estado de São Paulo”, 31 de julho de 2009. 6 indígena no município. Mas, certamente muitos hábitos foram incorporados e disseminados pelo bairro. ∞ A Serra de Paranapiacaba está localizada muito próxima ao litoral. A araucária é uma árvore presente em grande número no alto da serra. Índios podem ter sido habitantes antigos da região. O documentário “O Povo brasileiro”, de Darcy Ribeiro, afirma que os índios que viviam próximos a costa sul e sudeste do Brasil, os tupi-guarani, tinham o hábito de subir a serra para apanhar o pinhão, fruto de inverno. ∞ Tropas podem ter circulado há muitos anos, por essa rede de bairros. Verava está localizado no Alto da Serra. “Vencer a serra” era o principal desafio para aqueles que vinham do litoral de tropa, ou caminhando. É importante destacar que em 1597 a primeira indústria de ferro e aço foi iniciada em Biraçoiaba na Capitania de São Vicente, próximo a atual cidade de Sorocaba (BAER, 1970, p.72). ∞ Dona Marinha relatou que quando criança encontrava “tucurura”, são três pedras ajeitadas em forma de triângulo, que segundo ela eram usadas pelos índios para fazerem suas fogueiras. O avô do avô9 “Tinha meu avô (por parte) da minha mãe, ele era quarteirão. Em 1930, ele tomava conta das estradas, que não tinha estrada, ele roçava e carpia as estradas. Daí ele ficou atrapalhado, foi perdendo a idéia.” Seu Florêncio. Anos antes somente tropas, carros de boi, cavaleiros, animais, e andantes, circulavam pela estrada. As tropas com o tintinlintar dos sinos, cincerros, e o ranger das rodas de madeira, anunciavam sua passagem, mesmo para aqueles que moravam afastados da estrada. Os avôs, das pessoas que hoje têm perto dos setenta anos de idade, iam a São Paulo, mais especificamente ao Largo da Batata, tanto para vender seus produtos, quanto para comprar o que necessitavam. “Tinham os tropeiros que levavam as coisas para trocar lá: batatinha, feijão, essas coisas... levavam, trocavam e voltavam carregados. Mas sempre tinha a burrada deles. Eu lembro um pedacinho. Eu alcancei um pedacinho pequeno, que meus avôs que iam fazer coisas assim, os parentes. Mas eu não cheguei a alcançar não. Cheguei a alcançar esse negócio do tropeiro era baldeando milho da roça”, conta seu Florêncio. 9 As histórias narradas abordam o período entre 188O a 1950, aproximadamente. O avô de Dona Angelina, Gardino Pereira nasceu em 1865, segundo seu Paulino. A avó de Paulino Paulo nasceu em 1884. 7 O avô da Dona Marinha também ia a São Paulo: “... e daí, para o pessoal ir buscar as coisas em São Paulo, em Pinheiros, a cidadezinha de São Paulo era pequena, mas tinha o bairro de Pinheiros. Sabe como eles faziam? Saiam com tropa. Ficavam 15 dias de viagem. Sabe por que o Portão lá de Cotia, chama Portão? Porque lá tinha um portão. Um portão mesmo bem feito. E daí tinha o ranchão dos tropeiros pousarem lá. Lá era a primeira pousada que eles faziam. Levavam as boacas, as cangalhas, eles iam a Pinheiros, faziam as compras de “munição” do armazém. Até o Zé Silva10 ia também. Traziam a munição, as coisas. Só que tinha um problema: para ele trazer as coisas para revender, era tudo nos cavalos, a mula que ia a frente levava os cobertores, já tinham as esteiras no rancho. Sei que eles faziam três pousadas para chegar a Pinheiros. Três ou quatro pousadas, uma coisa assim. Meu Avô ia também. Meu marido não é dessa época, na época do meu marido já é mais fácil, um pouco. Eu não me lembro dessa época, minha mãe quem contava que eles saiam com a tropa, que eles falavam, era a burraiada, saiam com cangalha, com as coisas, com sacaria para trazer munição e coisa. Mesmo com o couro do boi, eles faziam um coiso, um palo assim, uma capa, que eles lotavam com coisas depois cobriam com aquilo lá (ligá), arranchavam e vambora!” “Na minha época já tinha armazém para a gente fazer compras. Mas o armazém que tinha aqui, que todo o mundo ia comprar era só o armazém do Zé Silva. Lá tinha de tudo, querosene, não tinha luz elétrica.” O armazém do Zé Silva se localizava no bairro dos Tibúrcio, por onde passa o rio Sorocamirim. Dona Marinha conta como era a ida ao armazém, com o burro herdado de seu avô, que morava no “sertãozão”, como ela diz: “Sabe como era? A gente punha a cangalha no burrinho e ai tinha a boaca11. Colocava as coisas dentro, se tivesse chovendo, não molhava. Era feito uma tampa, uma bolsona bem grandona, desse tamanho assim. Ponhava saco de farinha dos dois lados, sal, açúcar; farinha a gente fazia também em casa, mas achávamos mais fácil comprar feito, para não atrapalhar o serviço. E a estrada não passava por onde passa não. Passava aqui em frente à escola (estadual), ali onde o seu João tem o supermercado, ali que passava a estrada, mais ou menos. Era um barro preto, era um liseiro, Nossa Senhora! Depois que fizeram a estrada para os caminhões. Era aqui por baixo, mas tinha muito barro, meu avô, todo mundo falava “hoje vamos lá na barra” e montava nos cavalos e vinham.” 10 Zé Silva era o dono do armazém que Dona Marinha ia fazer compras com seu pai, foi uma das primeiras vendas do bairro. 11 Boaca é uma bolsa feita com o couro do boi, costurada com tirinhas bem fininhas e com botão, feitos do próprio couro. 8 Dona Angelina também conta que seu avô e seu pai se organizavam para ir a Pinheiros. “Meu pai mesmo daqui ele ia com dezesseis burros, tudo carregado de coisa, levava, e trazia coisa de lá. Ali em Cotia, você sabe, o bairro do Portão, indo para São Paulo...era lá que meu pai ia dormir! E de lá chegava a São Paulo. Eram três dias de viagem (para ir). Era o tempo que ele era solteiro. Ele ia com o meu avô, meu avô bebia muito. Mas ele ia com o meu pai. Levavam batatinha e traziam açúcar, sal. Levavam toicinho, aqueles “capadão”, preparado para durar a viagem, eles falavam salgar, levavam na boaca, que é uma bolsa de couro.” Dona Maria contou que seu pai levava também ovos, galinhas, todos muito bem ajeitados em cestos feitos por eles mesmo, apropriados para durar a viagem. Hoje a estrada do Verava ainda merece muitas reclamações: muitos buracos, falta de manutenção do asfalto, faltam calçadas, o lixo está todo espalhado. Mas os mais velhos, como seu Florêncio, contam que muitos caminhões tiveram que ser desatolados e puxados por animais. Os entrevistados contam que todos, no passado, andavam muito a pé. Ia do Verava para o centro de Ibiúna a pé, assim como para Carmo Messias e Juquitiba. Caminhava-se muito, inclusive nos casos de doença ou de morte. “Eu fui baldear defunto. Levava defunto no ombro. Daqui em Ibiúna no ombro. Ia de a pé e voltava de a pé.” Seu Paulino Paulo. Dona Marinha explicou que o defunto era enrolado em um pano branco e amarrado em um pedaço de pau, feito uma rede. “Eu não esqueço nunca. Nós saímos quatro horas da madrugada, chegamos lá (em Ibiúna) pertinho do amanhecer. Acho que 07h30minh. De manhãzinha, saímos com uma lamparina de taquara, aqueles canudos cheios de óleo. Quando a lamparina apagou, já estava clareando o dia. Era começo de abril, quando fomos meu primo e minha irmã. Eu tinha dezenove anos. Mas eu ia a pé, sempre andava a pé. Era trilho, tinha ponte para quando passava água.” Dona Angelina, nascida em 1941. Dona Angelina para visitar seu avô Manuel tinha de percorrer “uma légua e meia”, caminhando ou a cavalo. No trajeto não encontravam outras casas, e ela tem a lembrança de ir chupando laranja durante o caminho. Seu avô, de origem portuguesa, morava no sertão. Outro ponto que também salta aos olhos é o fato de que, antigamente o contato com o dinheiro era pouco. Todos afirmam que seus pais e avós tinham roças de milho e feijão para o próprio sustento. Todas as famílias dos entrevistados tinham monjolos para fazer farinha de milho. Mas havia aquelas famílias que não tinham os seus. 9 “Depois veio a lavoura, no começo era planta milho, feijão... Só para o gasto, ninguém vendia nada”, conta Seu Florêncio: “esse tempo que eu tinha meus quinze anos, dezesseis anos, ninguém comprava nada aqui. Só comprava o pó de café, sal e açúcar. Só essas três coisas que comprava. Mas o resto, a turma tinha café, engordava porco, plantava milho, feijão. Ninguém ganhava um do outro. Se eu tinha um serviço para fazer, nunca ninguém pagava em dinheiro. Trabalhava por dia. Hoje eu ia trabalhar para eles, amanhã eles iam ao meu serviço. Hoje, vai procurar: nem arruma camarada! Só querem dinheiro! E naquele tempo não, era barganhado. Tinha meu avô, por parte de pai, ele tinha seu dinheirinho guardado porque ele tinha negócio com criação. Comprava o boi, e vendia criaçãozinha. Depois virou um tempo, veio o carvão, foi fazendo o carvão. Mas nunca a gente gastava. Banha de porco era trocado. O vizinho matava, pegava metade.” Florêncio Dona Ana, esposa de seu Florêncio, completa: “Cada qual plantava o seu. De primeira era mais milho e feijão. Depois que nós começamos a fazer carvão. Daí que começou a aparecer um pouco mais de dinheiro, porque antes... Tinha época que plantávamos batatinha, tinha tomateiro. Meu pai plantava fumo. Daqui a Campo Verde, em Ibiúna não sei se você conhece. Daqui ele ia e trocava por açúcar lá no Campo Verde, com o burro. Daí ele pousava lá em Ibiúna. Até um tempo ele fazia isso. Tudo era mais duro.” Em 1840, a cidade de São Paulo tinha um total aproximado de 20 mil habitantes. Em 1890, esse número aumentou para 65 mil habitantes, graças à chegada de imigrantes (CARRIL, 2006, p.75). A história do bairro Verava, deixa evidente sua dependência econômica da cidade de São Paulo, ao menos desde o período das tropas. Esse aumento populacional permitiu que muitos moradores do bairro Verava comercializassem seus produtos no Largo de Pinheiros, onde se localizava a periferia paulistana. Com o processo de industrialização as mudanças foram mais profundas. Entre 1900 e 1950, a população da região sudeste brasileira quadriplicou (DEAN, 1996, p.254). A industrialização e urbanização foram fenômenos que iniciaram a transformação da cidade em metrópole. Toda a dinâmica de consumo e abastecimento passou por mudanças. É nesse contexto que o ciclo do carvão chega com grande vigor no Verava. 10 Anos 50: caminhão, carvão e o dinheiro Dos entrevistados, quem parece ter trabalhado mais tempo com carvão, foi Seu Paulino Paulo: “O forte daqui era fazer carvão. Eu mesmo acho que comecei, com menos de quinze anos no carvão. Trabalhei até os sessenta anos produzindo carvão. O carvão ia para São Paulo.” Seu Paulino é nascido no ano de 1930, começou a trabalhar com carvão por volta de 1945, quando o carvão era feito em forno de caieira 12. Sua mulher, Dona Maria, filha de imigrantes italianos também trabalhou bastante com carvão: “Quando eu nasci meu pai já trabalhava com carvão. Meu Pai veio vindo, fazendo carvão. Aonde tinha mata ele contratava aquele pedaço de mata, ia indo, ia indo... Ele era calabrês, mas casou com uma italiana.” Seu Paulino trabalhou junto com Zé Felipe (Pereira de Oliveira), morador dos Paulos, que tinha dois caminhões modelo 39. Zé Felipe foi o primeiro a ter caminhão no bairro. Seu Paulino ia entregar o carvão em alguns depósitos de São Paulo com o patrão. A lata de querosene era a medida para o comércio do carvão. Ele se lembra que ia a um depósito na Vila Madalena, que o dono se chamava Antonio Sales. Seu Paulino contou também que também fez entrega de carvão em um depósito em São Caetano do Sul. Como na década de 50, os moradores da cidade de São Paulo dependiam do carvão para cozinhar, os depósitos de carvão se espalhavam pelos diferentes bairros da cidade. “Eu lembro quando compraram os primeiros carros de passeio, foi o tal do Benedito Peroba, que falava, e José Felipe, que comprou os primeiros carros de passeio, os primeiros caminhões. Eu era menina com oito anos, por aí...” Dona Marinha13. “Depois que foi, acho que foi de 1940 para cá, começou a abrir estrada, aparecer caminhão. Tinha um cara aí para baixo, ele comprou um caminhãozinho, acho que um caminhão 51. Dali para cá, que acho que começou... Isso eu lembro mais ou menos. Lembro de arrastar caminhão lá do bairro dos Paulos com boiada, até lá embaixo nos Tibúrcio... Puxava o caminhão cheio de carvão.” Dona Marinha nasceu em 1941, e ela com sua família trabalharam com carvão, de uma maneira intensiva: “Aí eu já estava mocinha. Nós pegávamos a “munição de guerra”. Nós pegávamos coisas para comer e íamos para o “sertãozão”. Aí eu já estava com treze, quatorze anos, que eu já tava até meio namorando, um pouco, sabe? Nós íamos lá ao “sertãozão”, mas me dava um desespero. Eu queria vir embora, o quanto mais logo de lá. Mas enquanto não 12 Caieira é um tipo de forno que as paredes são montadas da própria madeira que é queimada para fazer o carvão. 13 Segundo dona Marinha, os moradores do bairro compraram carros a partir de 1948, 1949. Mas Seu Paulino afirmou que antes dessa data Zé Felipe já tinha seus dois caminhões 39, e levava o carvão para a cidade de São Paulo. 11 passava a semana, não dava para vir embora. Nós ficávamos a semana toda nos barracão de... o sertão, nós chamávamos do sertão de João de Abreu, era um tio que casou com a irmã da minha mãe, que chamava Inês e ele morou nesse sertão lá. Daí nós íamos para lá, ficávamos lá nas casas velhas, nas casas antigas do falecido tio João de Abreu. Fica par do monjolinho (da fazenda) Sama14, você já ouviu falar... Mas pro lado de cá. Era um barracão menina, tinha onça e mais nada. E você pensa que nós parávamos em casa boa? A casa nossa era tudo de sapé, tudo furada. Aquele buracão em cima, não tinha parede não tinha nada. Chegava à noite, o papai apruma sua caminha aqui, minha mãe aprumava e eu aprumava a minha no meio, porque tinha medo da onça vir e de me comer.” Dona Marinha ia com sua irmã, seu pai e sua mãe. “Que nem esta mata da minha irmã (um capoeirão). Então a gente derrubava, fazia aquele baita lenharão de mil alqueires, cortava tudo no tamanho certo de ir para os fornos, enfornava a lenha para fazer o carvão. A gente aproveitava a mesma terra para plantar milho, antes de brotar a cepa. Plantava milho, feijão, tinha o arado que a gente fazia na mão. Tinham os homens, homens não, porque eu cheguei a arrancar cepa. Aqui não, mas lá no Verava15. Fazer o arado para daí plantar batata.” Dona Angelina. Dona Maria, assim como sua irmã mais nova, Angelina, sustentou boa parte da vida de casada com o trabalho com carvão. “Tinha o lenhador, quando derrubava o mato, que nem aquele ali que está em reserva. Antigamente a gente cozinhava só carvão. No começo (no tempo) do meu pai, era só roça, que a gente plantava milho e feijão, e, alguma hortinha que nós fazíamos também. Quando eu casei, cozinhava só carvão. O ano que eu casei foi em 1955. Já comecei a cozinhar carvão só, não fazia mais nada. Acho que era uns 70, para lá. Já tinha acabado o carvão, ficou ruim. Ficou muito ruim, até faltou dinheiro para gente aqui. No comércio que caiu o carvão. Acho que abriu falência tudo, não tinham nem dinheiro para pagar as pessoas, que levavam o carvão... foi muito ruim.” Dona Maria conta que a maioria das pessoas que vinham buscar o carvão era de fora, eles comercializavam o carvão em São Paulo. O carvão abastecia os fogões dos moradores das cidades e também as siderúrgicas. 14 SAMA é uma fazenda de pinus e eucalipto, presente na região desde a década de 70. Comercializa madeira e produtos beneficiados. É proprietária de uma considerável área do bairro. A base da fazenda está localizada em Juquitiba, no pé as Serra. 15 Hoje, Dona Angelina vive aonde os mais velhos chamam “Anselmos”, caminho para Terra Boa. Mas pode ser considerado como pertencente ao Verava. Antes, Dona Angelina vivia perto das cabeceiras, próximo ao bairro dos Paulos. 12 Pelo relato de Dona Maria, o carvão trouxe um período de boas condições financeiras: “Conforme a gente vendia servia, porque a criançada eu não dei leite para nenhuma criança, tudo comprado o leite. Trazia leite para as crianças, o que mais a gente precisava e ainda dava. Mas teve gente que não pagou nem um tostão do dinheiro que nós trabalhamos. E nesse tempo eu tinha essa labirintite, ficava com uma mão encostada no barranco e outra mão chacoalhando o carvão, homem bravo que só vendo, queria que eu fizesse direito. Disse que não era para ficar mole nenhum, bem durinho. Esse homem ficou devendo um milhão de cruzeiros daquele tempo. (o dinheiro) dava quatro caminhões novos de hoje. Naquele tempo não sei se eram réis. Passava apuro nesse tempo, porque a gente cozinhava carvão. Você vê, a gente tirava duzentos e cinqüenta sacos toda semana, cinco fornos, seis fornos. Aquele compadre Biano, trabalha na lavoura agora, também tinha o Roque Luis que morreu de câncer. (Os dois eram camaradas da Dona Maria e Otacílio Paulo, ficavam responsáveis por um ou dois fornos). Eu era muito inclinada, plantava milho, plantava feijão. Porque senão, tinha que comprar tudo. Eles levavam o carvão tudo para a cidade, era só lá que vendia, mas... Eles recebiam lá. Sabe o que eles faziam? Eles ficavam trocando de caminhão, para andar só com os caminhões novos, e não pagavam as pessoas. Porque não é de hoje que tem as pessoas que... (querem se dar bem) à custa dos outros.” Maria também relatou que o carvão afetou bastante a saúde de algumas pessoas: “Agora o carvão era muito ruim. Meu marido mesmo dava febre a cada mês. Ele lidava com carvão, daí que eu acho que começou a dar doença nele, que tanto o marido da Angelina morreu de câncer, quanto meu marido morreu de câncer. O marido dela durou sete meses, e o meu marido durou sete anos, fazendo tratamento em Sorocaba.” Seu Candinho, um dos moradores mais velhos, também foi um dos que trabalhou com carvão: “Trabalhei bastante com carvão, oito anos, mato virgem. Devia dar um metro de largura, as toras. Eu mesmo baldeava lenha com burro. Naquele tempo tinha os caminhõezinhos, de primeira, cinqüentinha. Agora não existe quase mais. Mas tinha dois fregueses meus que baldeavam carvão. Vinham, levavam e pagavam.” A circulação de pessoas de fora, que traziam o dinheiro e mercadorias, foram no decorrer do tempo, alterando o funcionamento da maneira de viver dos “antigos”... O carvão, além das mudanças ligadas ao dinheiro e ao novo modo da vida, trouxe a população local, uma nova maneira de se relacionar com a natureza. Antes a população local vivia com menor interferência no meio: tirava o necessário da natureza, vivia para subsistência, e 13 aproveitava tudo da natureza para compor sua casa, sua comida,... Com a chegada dos caminhões de carvão, o ritmo de trabalho intensificou, e o acesso ao dinheiro desestruturou a forma antiga de se viver. A lógica de superioridade do industrial e urbano começou a se implantar no bairro. O carvão começa a construir uma lógica de sobrevivência, que tornou a população dependente de outras mãos, além das da família. O carvão “abriu alas” para relações comerciais cotidianas. Warren Dean, em seu livro sobre a história da devastação da Mata Atlântica16, afirma que a produção de lenha para abastecer os fornos das siderúrgicas e metalúrgicas foi a causa do maior impacto sobre as reservas de lenha. Segundo o autor, a maior parte da lenha era obtida pelas indústrias de empreiteiros itinerantes, e quase toda a lenha vinha de florestas nativas (p.268). O carvão retirado do bairro Verava era enviado para São Paulo, onde poderia ter diferentes finalidades: abastecer os fornos das siderúrgicas e metalúrgicas, como citado acima, bem como, para fornecer calor aos fogões residenciais (DEAN, 1996, p.288). Quando perguntei a Dona Maria se a lavoura de batatas17 trouxe melhores condições financeiras, ela deu a seguinte resposta: “Também não trouxe. Que o primeiro ano, para você ver, cada quartel de chão ia um saco de adubo... Então, se nós plantávamos um alqueire, teria que colocar duas toneladas de adubo, ficava caro para chuchu. E aí a gente punha agrotóxico, punha na terra para não dar bicho, na batata não dar furada... e o sulfato então era duas, três vezes por semana. Agrotóxico, adubo, sulfato, tudo caro. Quando chegava o tempo da gente colher batata: tudo só empate, era difícil sobrar. Nós chegamos a ficar devendo, precisei cozinhar carvão e tudo para poder pagar as despesas da batata. Nesse tempo era ruim isso, pior do que agora ainda. Agora ta melhor. Com tudo o que tem de ruim, ainda esta melhor. Eu acho assim. Que hoje em dia todo o mundo é rico, porque tem um dinheiro. Sempre um trabalha por dia, sempre tem o seu dinheirinho. Só se não souber levar, se não souber levar, não sobra. A gente comprava, tinha a venda ali do Valdomiro a venda do Nelson Guerra, que nós falávamos, que fica ali onde é a venda do Seu João hoje. A gente tinha que comprar por mês fiado, e pagar as compras do mês anterior. Tinha que comprar sempre por mês, já aquela quantia certa que desse para depois pagar. Não foi fácil não. Daí todas as minhas crianças ajudavam a trabalhar, trabalharam desde os cinco anos. Eu também trabalhei desde os cinco anos.” 16 DEAN, 1996. A lavoura de batatas começou a ser cultivada em fins da década de 60, por algumas famílias, quando o carvão começou a entrar em declínio com a promulgação da lei e aumento da fiscalização. 17 14 Tão perto, tão longe O Verava é um bairro que obedece, usando termos de Milton Santos. O ritmo da produção agrícola é ditado pelos centros urbanos. Em grande parte do bairro, a internet, o celular, o telefone residencial não são disponibilizados à população. Acredito que a exclusão do bairro às novas tecnologias da informação, somadas a uma atuação de políticos corruptos ou pouco preparados, são os fatores que fazem com que o bairro tenha fortes elementos de uma permanência rural. Aqui é importante citar as romarias, quermesses, rezas e missas que são feitas atualmente, demonstrando a força que o catolicismo tem no bairro. Antes da chegada dos caminhões de carvão, todos pareciam viver de uma forma semelhante, com exceção das primeiras famílias que compraram carro e caminhão. Tinha aqueles que viviam da ajuda de outras famílias. Os dias de trabalho eram trocados, as pessoas sobreviviam na base da camaradagem. Muitos no bairro falam com saudades desse tempo. Essas relações foram se desestruturando aos poucos. Hoje, a maioria das famílias vendeu as terras obtidas por seus descendentes por posse. Isso fez com que o bairro e o sertão se transformassem. Há muitas pessoas de outros municípios que moram ou passam o final de semana no bairro. O sertão diminuído, ainda preserva suas áreas isoladas. A obediência do bairro às demandas da cidade de São Paulo, no período das tropas, fazia com que os moradores locais se organizassem em grupos, tanto para o transporte, como para a produção do que era comercializado no Largo de Pinheiros. Os preparativos tinham de ser muito bem feitos: armazenamento dos produtos, os cestos para guardar os ovos, a preparação do animal, distribuição do peso, os sinos e a garrucha18 para a segurança, o cincerro. As chegada e saída das tropas eram notadas por todos no bairro, tanto pelo barulho, como pela grande quantidade de homens que saiam juntos por mais de uma semana. As tropas desapareceram, e junto com elas, a geração que produzia garrafadinhas19, aqueles que sabiam curar doenças, salvar os que foram vítimas de picadas de cobra... Sabedorias que se perderam e tornam os moradores de hoje muitas vezes reféns de seu próprio meio. A partir da chegada dos caminhões de carvão, os moradores do bairro estabeleceram outra relação com o meio natural: podemos considerar que houve uma desvinculação entre homem e natureza. A natureza deixou de ser a provedora do sustento, e passou a ser o meio para a 18 19 Espingarda. As balas eram feitas pelos próprios moradores, com estanho. Remédios caseiros. 15 sobrevivência. Com essa mudança, os habitantes do bairro deixam de seguir os tempos da mata e passam a atender ao ritmo do capital. Muitas matas foram queimadas para virar carvão, incluindo madeiras de lei. Foi também com o carvão que os moradores começaram a ter acesso ao dinheiro e passaram a comprar produtos industrializados, ou já prontos, para diminuir o serviço de casa, ou para aumentar a disposição para o serviço. O dinheiro agora é o elemento essencial para suprir qualquer necessidade. Necessidade, trabalho, infância, sabedoria, tempo, moradia, segurança, são algumas palavras que seus significados se transmutaram com a chegada dos caminhões e do dinheiro. A seguir estão alguns trechos de entrevistas, que acredito levar-nos a captar um pouco da “atmosfera” de antigamente: “Na minha época já tinha armazém para a gente fazer compra. Mas o armazém que tinha aqui, todo o mundo ia comprar era só o armazém do Zé Silva. Lá tinha de tudo, querosene, não tinha luz elétrica. Eu já fui, tive toda a vida alergia de querosene, minha mãe comprava vela. Ai quando não, minha mãe pegava cera, tinha muito antigamente, tinha muita abelha. Pegava a cera das abelhas, o mel a gente chupava, porque era gostoso chupar o mel, fazer remédio por causa de tosse. E a cera, a gente fazia vela de cera. Minha mãe cozinhava cera, e fazia vela de cera para nós usar. Eu e minha irmã nós brincava, pegava caranguejo, porque nessa época tinha muito nesse rio, e nós grudava velinha de cera e soltava nos trilho de noite e as pessoas, e só gente que corria, tinham medo. No escuro, aquele negócio andando, com a vela nas costas, nós éramos muito malandras! Mas o pessoal não sabia! Vinha aquela luz baixinha no chão. Todo o mundo ia rezando o que sabia. Nós éramos malandras, eu e minha irmã, nós fazíamos muita malandragem. O rio era maior. Era um ribeirão menina, era a coisa mais linda. Não sei se por causo... acho que Deus castiga, jogaram muita sujeira nesse rio. Morre criação, jogam no rio. Nós não. Lixo nós levamos lá no lixão, quando é meio pouco nós queimamos. Nós não jogamos lixo no rio, dá dó, porque nós tomávamos dessa água. Era limpa, era uma prata de limpa: tomava, lavava roupa no rio, já trazia a roupa pra torcer. Ensaboava roupa de noite, no outro dia já estava torcendo.” (Dona Marinha) Todos afirmaram que o rio era muito mais caudaloso. O desmatamento, alavancado pelo carvão e pelas lavouras, certamente contribuiu muito para a diminuição da quantidade de água dos rios. As casas ainda lançam seu esgoto no rio: são poucas as casas que possuem fossa séptica. “No tempo que nós fomos crescendo, nós fomos fazendo carvão para tirar dinheiro. Meu pai plantava fumo e fazia aqueles rolos de fumo, ia vender em Juquitiba, em Santo Amaro. Pegava o cargueiro e ia. Isso a cada colheita, a cada ano. Você tinha que ver o estaleiro que fazíamos; pegávamos as taquaras e as púnhamos em fila, uma lado a lado da outra. Pendurávamos as folhas 16 do fumo entre as duas fileiras, para secar. Quando chegava para destalar, reunia toda a família, reunia dez, doze pessoas, mais quatro, cinco, vizinhos. Minha mãe cozinhava batata doce. Ficávamos até meia-noite destalando. Porque era três, quatro estaleiros de fumo que tinha. Antes do carvão, vivíamos do fumo e batata de covinha, sem veneno. E colhia. Agora a gente não colhe.” (Dona Angelina) Dona Angelina tornou-se “balaiera” depois que seu pai e sua sogra morreram. Ela conseguiu resgatar um dos saberes dos “antigos”. Hoje, ela e sua comadre Dona Marinha sofrem de insônia, se preocupam com a violência que ronda o bairro, e já não conhecem mais todos os moradores, como quando eram jovens. Se a vida tornou-se melhor ou pior, depende do ponto de vista que se olha para a questão: “As muié... Minha mãe morreu logo, mas minhas tias... Nossa Senhora! Tinham que fazer farinha de milho, tinha que torrar o café, tinha que fazer sabão no tacho. Tinha que fazer comida, baldear comida na roça, baldear lenha na casa, baldear água do rio na casa. Cinco seis, oito famílias (filhos), a mulher tinha que cuidar tudo.” Paulino. “Quando ia fazer porco, tinha que fritar tudo e guardar no meio da gordura.” (Dona Maria) “Minha tia parteira, amanhecia socando farinha. Torrava farinha à noite. Para torrar farinha era tudo de noite. Torrar na mão. Esse serviço minha avó ensinou. O forno bem quente, você ficava esfregando (a farinha) para fazer aquele biju. Fazia aquele biju, mas era gostoso aquele biju, bem fininho aquela farinha. Daí enrolava e punha açúcar no meio. Hoje, a vida é meio difícil, mas Graças a Deus, “nós temos tudo o que precisamos: de comer você tem, de beber você tem, de vestir você tem.” (Seu Paulino Paulo) “Tendo dinheiro, tem tudo.” “Não, antigamente era mais fácil que o tempo de agora, só que era mais judiado. Que nem as mulheres que tinham que torrar café. Mas era menos cobração de cabeça, pensamento. Não tinha roubo, não tinha ladrão, não tinha nada. Era uma vida tranqüila..” (Seu Florêncio) Mas talvez, a questão não seja classificar a melhor ou pior forma de se viver, e sim, entender como se deu essa rápida transformação do modo de vida da população local, e como a população vem se relacionando com as mudanças. A modernidade vem proporcionando aos moradores do bairro, o acesso a certas comodidades e mercadorias. Porém as preocupações, ou “cobrações de cabeça” aumentaram. A união entre os moradores do bairro, e “o amor ao próximo” diminuíram, como disse Dona Marinha. É importante que os jovens compreendam quais forças atuam no bairro hoje, para conseguirem se posicionar, de forma mais favorável a eles próprios. As transformações trazidas pelo dinheiro, o acesso às tecnologias, se tornaram elementos de necessidade, e também de sonhos de consumo para os moradores do bairro, em especial para os mais jovens. 17 Se os mais jovens não se prepararem, eles continuarão somente obedecendo às demandas externas, mergulhando em curtos e repetitivos sonhos de consumo e, por fim, deixarão a possibilidade de melhorar as condições de vida de seu lugar. O modo de vida do caipira se transformou: há os que dizem que o caipira não existe mais, e aqueles que defendem que há resistência do caipira. Aqui no bairro, o jogo de forças entre a permanência e modernização está em curso. E a água rala que corre pelos ribeirões é testemunha. Bibliografia: BAER, Werner. Siderurgia e Desenvolvimento no Brasil. Editora Zahar, Rio de Janeiro.1970. CARRIL, Lourdes F. B. “Quilombo, favela e periferia: a longa busca da cidadania”. Annablume, São Paulo. 2006. DEAN, Warren. “A ferro e fogo: a história da devastação da Mata Atlântica brasileira”. Tradução de Cid Knipel Moreira. Companhia das letras, São Paulo, 2007. Mapa e Carta: Carta topográfica “Verava”. Escala 1: 50.000. IBGE, São Paulo, vôo realizado em 1981. Mapa do estado de São Paulo. Escala 1:3.000.000. Multimapas, São Paulo, 2007. 18 19