Semana Informática > Estratégia > CRM evolui na direcção da Web 2.0 CRM evolui na direcção da Web 2.0 De Fátima Caçador/Casa dos Bits Semana nº 917 de 27 de Feveiro a 5 de Março de 2009 A par da evolução para soluções online, a integração do CRM com as redes sociais começa a ser uma realidade que está a transformar o modelo de negócio tradicional destas aplicações A necessidade de melhorar a relação com os clientes, conhecendo-os melhor e aumentando a taxa de retenção, é uma exigência para as empresas em qualquer ciclo económico, mas passa a ser uma obrigatoriedade em tempo de crise. Na última década as aplicações de CRM (Customer Relationship Management) foram desenhadas com esta função em mente, permitindo um conhecimento profundo de cada cliente e das suas necessidades e antecipando tendências de compra, moldando-se às necessidades de grandes empresas mas também das PME nos departamentos de vendas e marketing. Os modelos tradicionais de aplicações residentes nos sistemas das empresas estão agora a evoluir para soluções online, residentes fora dos servidores da companhia, que começam a aproveitar os desenvolvimentos das redes sociais e da Web 2.0, transferindo para a Internet muitas das tarefas que antes eram reservadas aos centros de contacto ou reuniões comerciais. O resultado é a redução de custos, mas também uma maior eficácia na gestão da informação e fidelização de clientes. A entrada no mercado de soluções como o SugarCRM e o Salesforce.com, disponibilizadas apenas online, que funcionam em modelo de serviço, em que o cliente paga uma mensalidade em vez de uma licença, veio acelerar uma transformação que os fabricantes de software de CRM não podem ignorar e ao mesmo tempo democratizou o acesso a estas aplicações por parte de pequenas empresas, que de outra forma nunca acederiam aos seus benefícios. «É claramente uma tendência a necessidade de oferecer soluções CRM online, tanto pela necessidade de aceder a dados em qualquer momento, como pela realização de diversas transacções em tempo real», reconhece José Cerrato, responsável pelo CRM da Infor para o Sul da Europa, que adianta ainda que as empresas procuram cada vez mais serviços de CRM em hosting, com a instalação e o alojamento das aplicações a residirem em data centers fora da companhia. A tendência é reconhecida pela grande maioria das empresas que disponibilizam soluções de CRM, grande parte das quais já oferece este modelo, de forma única ou a par do sistema tradicional. Ana Calheiros, responsável pelo Microsoft Dynamics na Microsoft Portugal, defende mesmo que entre as ferramentas empresariais, «as soluções de CRM são as que apresentam uma maior tendência para a disponibilização online», apontando como factores críticos a globalização das empresas com forças de vendas que obriga a uma deslocalização e a uma mudança no sentido da mobilidade, para estarem mais perto dos clientes. Mas o «o controle de custos de implementação e disponibilização é também neste momento um factor fortemente impulsionador da escolha por soluções de CRM em ambiente online ou hosting». Identificado com esta visão de crescimento da procura de soluções online, que classifica como CRM OnDemand, António Montez, Oracle principal sales consultant, lembra também que esta vem permitir às empresas de menores recursos – humanos e financeiros – terem acesso a funcionalidades que tipicamente não estariam ao seu alcance, simplificando e acelerando o processo típico de instalar/configurar/manter e usar as aplicações. A Oracle, uma das líderes nesta área, oferece uma solução de CRM OnDemand, em língua portuguesa, funcionalmente extensa e completa, que suporta os processos de negócio na área de vendas, serviço, marketing, e-Billing e analytics. Mas mantém igualmente o modelo tradicional de exploração de aplicações. «Os dois modelos, SaaS e OnPremise (tradicional) continuam a fazer sentido. As empresas têm processos de negócios, necessidades de acesso a informação, normas internas que podem condicionar a utilização do modelo SaaS. Por outro lado, o modelo SaaS oferece características de agilidade de negócio que é bastante interessante para empresas novas, pequenas, com necessidades pontuais departamentais», justifica, garantindo que apesar do crescimento das soluções online este se está a fazer com novos clientes e não à custa da redução do modelo tradicional. O crescimento da Internet como veículo comercial, uma plataforma de vendas essencial para muitas empresas, obriga também à criação de um novo canal de relacionamento com o cliente. «Tal como a Internet, também a gestão dos clientes das empresas se torna fundamental, e é precisamente neste ponto que eles se conjugam», lembra Rui Beirão, director-geral da Logiciel. Os dados são integrados e automatizados, recolhendo-se informação de inquéritos online, promoção e até número de cliques em alguns produtos, que aumentam o conhecimento dos clientes e a adequação das ofertas. Porém, a ideia é que um modelo único não serve a todas as necessidades e que é preciso que as empresas avaliem as duas opções antes de optarem por uma das soluções. Até porque, apesar da atractividade do modelo de SaaS, onde não existe investimento inicial, há sempre custos escondidos e a preocupação da segurança e confidencialidade, como alerta Maria Consuêlo Cascais, business development manager da Netopolis. Flexibilidade em primeiro lugar Em Portugal, a DRI e a Log têm apostado na implementação do SugarCRM, acumulando histórias de sucesso junto de pequenas e médias empresas para quem este modelo se apresenta de forma flexível e economicamente interessante, mas também de médias e grandes empresas do índice PSI-20, normalmente em projectos localizados. Sem necessidade de comprar licenças, de manter uma infra-estrutura e fazer a sua administração, os custos de Total Cost of Ownership (TCO) são imediatamente reduzidos, sublinha José Ruivo, director de sales & marketing da Log. «A solução fica imediatamente disponível e operacional após a sua subscrição. […] É claro que exige sempre um setup inicial de modo a poder servir os requisitos do cliente em termos de CRM. No entanto, temos um processo de implementação incomparavelmente mais rápido», sublinha. O SugarCRM possui a versão Professional e Enterprise, que pode ser usado ondemand mas também localizado nos servidores da empresa (OnPremisses), dois modelos que se conjugam e que fazem variar os custos da mensalidade a aplicar. Para além da questão dos custos, Diogo Rebelo, director-geral da DRI, destaca ainda a flexibilidade que as empresas conseguem com esta solução, não só tem termos económicos, mas em adaptação às necessidades da sua organização. «O facto de ser uma aplicação baseada no modelo de negócio open source permite ao cliente estar independente do fornecedor, chegando mesmo a não necessitar do seu apoio. Ao ter disponível o código da aplicação, o cliente poderá optar pela formação dos seus recursos, de forma a eles próprios poderem no futuro fazer evoluir a solução autonomamente», completa. A Neeaconsulting implementa em Portugal o Salesforce.com e Joana Vilhena, marketing manager da empresa, aponta a escalabilidade total das soluções de CRM online como a grande vantagem de que todas as empresas podem tirar partido, independentemente da dimensão e do modelo de negócio. «O relacionamento com clientes é a única área onde as pequenas e médias empresas podem competir em pé de igualdade com as grandes organizações», defende esta responsável. Para além da simples implementação do Salesforce.com, a Neeaconsulting pode realizar «a composição de soluções completas de CRM que integrem todos os ambientes da empresa e contactem com o consumidor». A empresa efectua «a customização e integração com diversas plataformas que são referências no mercado», refere Joana Vilhena. Evolução obrigatória Tal como noutras áreas aplicacionais, mesmo os fabricantes que começaram por desenvolver soluções OnPremisses estão a evoluir para o modelo de software as a service (SasS), que não podem ignorar sob o risco de ficar fora do mercado. António Montez referiu já o caso da Oracle, que mantém um modelo híbrido, dando ao cliente a possibilidade de começar pela solução OnDemand ou a instalação nos seus servidores do CRM, evoluindo depois de forma rápida para o online, ou fazendo os dois sistemas trabalhar em conjunto. A Infor, com o CRM Epiphany, tem igualmente os dois modelos disponíveis aos clientes, assim como a SAP, com o SAP CRM On-demand, que «inicialmente assentava em processos de gestão de venda e oportunidades (área comercial), mas progressivamente foram adicionados outros processos nomeadamente de marketing e de serviços», como explica Miguel Augusto, field services team leader da SAP Ibéria. Do lado das software houses portuguesas a tendência crescente de disponibilização de CRM online não foi ignorada. No caso da PHC, a solução de CRM online tem registado uma procura elevada por parte dos clientes, especialmente fruto da rapidez de resposta que garante. João Paulo Monteiro, director comercial da PHC Sul, aponta as vantagens que a aplicação apresenta face a soluções como o SugarCRM ou o Salesforce.com, referindo especialmente o grande conhecimento que a empresa detém do mercado nacional e a total integração com o restante software de gestão da PHC. «Se o sistema não for integrado com as outras aplicações da empresa, poderá haver impactos na produtividade e até perdas de informação», avisa. A Primavera Portugal também tem vindo a apostar na webização das soluções. «As empresas utilizadoras do ERP Primavera têm hoje ao seu alcance toda a tecnologia necessária para a desmaterialização e facilitação dos processos negócios. É o caso dos Enterprise Portals que, suportados pela Internet, substituem os modelos tradicionais de negócio», adianta Hernâni Andrés, pre-sales manager da Primavera Portugal. Carlos Nogueira, coordenador de projectos especiais da Quidgest, mostra que a empresa se mantém alinhada com as tendências de evolução para o online. «A Quidgest está a evoluir no sentido de desenvolver plataformas online de CRM. Aliás, recentemente foi desenvolvida uma plataforma online para um projecto com uma empresa espanhola de branding nossa cliente», afirma Carlos Nogueira. Parceiros da Microsoft na implementação do Microsoft Dynamics, a aplicação de CRM, a GFI e a Link têm posições mais cautelosas sobre este tema. Rui Magalhães, business solutions manager da GFI, explica ao Semana que «a estratégia da GFI para o Dynamics é no sentido de disponibilizar a solução no cliente final e não através duma plataforma online». E desvaloriza a adesão a este tipo de modelo, afirmando que, «apesar do sucesso de algumas plataformas, não se prevê que exista um crescimento exponencial». Por seu lado, Sérgio Baptista, partner da Link Management Solutions, lembra que «é preciso não confundir o modelo de distribuição do software com o modelo de licenciamento. Online como modelo de distribuição de software é obrigatório, online como modelo de licenciamento (renda mensal) é decisão do cliente e pode ser influenciada por múltiplos factores, inclusive fiscais». A empresa já tem clientes nos vários modelos de licenciamento, desde os que compram licenças perpétuas aos que pagam o software como um serviço. Redes sociais em benefício do CRM Face ao crescimento das redes sociais e da sua aplicação ao mundo do trabalho, as aplicações de CRM estão a dar passos largos para começar a explorar esta área como um dos factores de dinamização da relação com o cliente. A Gartner acredita que esta é uma força disruptiva no mercado e que em 2010 mais de 60 por cento das maiores empresas vão ter alguma forma de comunidade online que poderá ser aproveitada no seu relacionamento com os clientes. «As aplicações sociais oferecem uma grande oportunidade para os utilizadores de CRM para melhorar a experiência dos clientes e influenciá-los, particularmente numa época de crise económica, quando as empresas se esforçam por manter os clientes e aumentar as receitas que captam», afirma Adam Sarner, director de research da Gartner. Se as empresas não souberem explorar esta oportunidade não conseguirão manter-se a par da evolução, mas também não devem avançar com iniciativas de social-computing sem definirem claramente benefícios para a empresa e os clientes. Em sintonia com esta filosofia, a Oracle já integrou em 2008 aplicações Social CRM, que «permitem aos colaboradores das empresas partilhar, informação, pesquisar, colaborar e trabalhar num formato mais alargado envolvendo não só clientes e colegas mas também amigos, parceiros, comunidades de utilizadores disponíveis na Internet. Utilizando as tecnologias e filosofias do Web 2.0», adianta António Montez, Oracle principal sales consultant. José Ruivo, director de sales & marketing da Log, reconhece a Web 2.0 como uma das tendências inevitáveis no CRM. «Cada vez mais as empresas têm de se abrir à interacção com os seus clientes. Elas necessitam que as relações com os seus clientes se efectuem nos dois sentidos. Têm de se tornar mais transparentes e falar com os seus clientes e pô-los a falar entre eles». A SugarCRM já integrou os cloud connectors e as social feeds que se enquadram precisamente na tal tendência da Web 2.0. Desta forma, a informação proveniente de aplicações online como o Hoover’s e LinkedIn são integradas no CRM, permitindo manter a informação actualizada, mas alargando também as funcionalidades a alertas e status, à semelhança do que é possível encontrar em serviços como o Facebook. Esta evolução define uma nova fase de desenvolvimento do CRM e poderá criar mais oportunidades às empresas, servindo ao mesmo tempo os clientes que ganham em ofertas e contactos mais direccionados, que trazem novo valor acrescentado.