CÂNCER FEMININO: Um desafio para a Saúde Coletiva e para a Mídia
no Brasil 1
Maria Inês Rosselli PUCCIA ª
ª Enfermeira, Especialista em Saúde Pública, Pós-Graduanda em Saúde Pública - Nível
Mestrado pelo Departamento de Saúde Materno Infantil, Faculdade de Saúde Pública,
Universidade de São Paulo. São Paulo (SP).
1. Introdução
Atualmente, o câncer está entre as principais causas de mortalidade na população
geral do Brasil (15%), superado pelas doenças cardiovasculares (32%) e empatado com as
causas externas (15%),
que têm registrado crescimento importante nos últimos anos,
principalmente entre jovens do sexo masculino (MS, 2001).
Entre as mulheres, o câncer representa a segunda causa de morte. Para o ano 2003 são
estimados 58.610 óbitos femininos pela doença (INCA-MS,2003).
A estimativa do Instituto Nacional do Câncer - INCA para 2003, com relação aos principais
tipos de câncer na população brasileira, revela a magnitude do câncer de mama, cujas taxas
brutas de mortalidade e incidência são de 10,40/100.000 e 46,35/100.000 mulheres,
respectivamente. Isto significa 41.610 novos casos de câncer de mama neste ano.
A elevada incidência do câncer de colo do útero ainda representa um grave problema de
saúde pública no nosso país. Estima-se para 2003, 16.480 casos novos da doença entre as
mulheres brasileiras, o que representa uma taxa bruta de incidência de 18,32/100.000,
acompanhada de uma taxa bruta de mortalidade de 4,58/100.000 mulheres (INCA-MS,
2003).
Estudos revelam que houve um aumento de incidência da ordem de 29,8% para o
câncer de mama e de 2,6% para o câncer de colo do útero (Mirra, citado por Prado, 2002).
Há que se considerar que estes dois tipos de câncer assumem parâmetros distintos de
incidência, de mortalidade e de medidas preventivas tendo em vista algumas
particularidades relacionadas à etiologia de cada um deles.
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GT1 – Mídia e Saúde Pública
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O câncer o câncer de colo do útero é passível de prevenção pois mantém estreita
relação com os padrões de comportamento sexual e com a contaminação pelo Papiloma
Vírus Humano - HPV.
Entretanto, o câncer de mama está condicionado a fatores como hereditariedade e à
própria modernidade da
vida das mulheres, para os quais não existem medidas de
prevenção primária. Estudos recentes têm mostrado que a prevenção do tabagismo, do
alcoolismo, da obesidade e do sedentarismo podem diminuir o risco de câncer de mama.
Portanto, o controle da doença e a melhora da sobrevida estão vinculados à medidas de
diagnose e tratamento precoces (INCA,2003).
Nos últimos anos, várias estratégias de ampliação do acesso da população às
medidas preventivas do câncer de colo do útero e do câncer de mama foram
experimentadas, principalmente aquelas de caráter campanhista, que até o presente
momento não se mostraram eficazes.
Faz-se necessário portanto, o incremento das ações de alcance efetivo entre as
populações de maior risco para o câncer feminino, prioritariamente o câncer de mama e o
câncer de colo do útero, capazes de reduzir significativamente as taxas de incidência e de
mortalidade destas doenças.
2. Câncer feminino como um desafio para a Saúde Coletiva
Para compreender os distintos padrões de incidência dos dois tipos de câncer,
partiremos da hipótese levantada por Prado (2002) para a qual, os efeitos das desigualdades
no perfil de saúde e doença de uma dada população, estão associados a diferentes fatores
sociais, culturais e econômicos. Para a autora, a segregação social e econômica condiciona
a distribuição geográfica desigual das pessoas no espaço urbano que repercute em distintas
tendências de mortalidade por câncer da mama e do colo do útero.
Esta expectativa é reforçada pelo INCA, ao analisar a distribuição espacial das
taxas brutas de incidência destes dois tipos de câncer, segundo unidades da federação.
Observa-se que para o câncer de colo do útero esta taxa tende a ser mais significativa nas
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regiões Centro-Oeste e Norte. O câncer de mama, por sua vez, é mais incidente no Sul e
no Sudeste (Figura 1).
Câncer de Colo do Útero
Câncer de Mama
Figura 1 - Representação espacial das taxas brutas de incidência dos principais tipos de
câncer feminino por 100 mil mulheres estimadas para 2002, segundo Unidade da
Federação.
FONTE: INCA, 2002.
Um estudo sobre a mortalidade por câncer no Estado de São Paulo, realizado pela
Fundação Oncocentro da Secretaria de Estado da Saúde entre 1988 e 1998, identificou um
decréscimo significativo da mortalidade por câncer de colo do útero no Estado,
proporcionalmente entre os biênios 1987-1988 e 1997-1998, embora inexpressivo se
comparado aos padrões observados nos países desenvolvidos (Figura 2). Em contraposição,
o mesmo tipo de análise, mostrou um aumento da mortalidade por câncer de mama e a
expansão da doença para cidades do interior do Estado, conforme observa-se na Figura 3.
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1987 a 1988
1997 a 1998
Figura 2 – Distribuição da mortalidade por câncer do colo do útero, segundo direções
regionais de saúde de São Paulo (SP) para os biênios 1987-1988 e 1997-1998.
Fonte: FOSP/SES-SP
1987 a 1988
1997 a 1998
Figura 3 – Distribuição da mortalidade por câncer de mama, segundo direções regionais de
saúde de São Paulo (SP) para os biênios 1987-1988 e 1997-1998.
Fonte: FOSP/SES-SP
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Reforçando a hipótese, os resultados do estudo de Prado (2002), realizado no
município de São Paulo revelaram então, uma preocupante mudança no perfil da doença:

a variabilidade geográfica da distribuição da mortalidade segundo os dois tipos de
câncer;

aumento da mortalidade por câncer de mama entre as mulheres com aproximadamente
40 a 52 anos residentes nos territórios periféricos da cidade, mais deteriorados do
ponto de vista das condições sociais e de saúde - a pauperização da doença;

queda da mortalidade por câncer de colo do útero e estabilidade na taxa de mortalidade
por câncer de mama, no território das elites;

estabilidade das taxas de mortalidade por câncer de colo do útero nos territórios
operários e periféricos;

risco aumentado para câncer de colo do útero entre as mulheres com mais de 67 anos
em 2002, coincidentemente, excluídas da campanha nacional de rastreamento,
realizada neste mesmo ano.
Um estudo realizado por Pinho (2002), acerca dos fatores relacionados à realização do
teste de Papanicolaou entre mulheres em idade reprodutiva no município de São Paulo,
identificou a relação com a oportunidade ou com a chance de realização do exame em
detrimento do conhecimento sobre o risco. Destacaram-se os seguintes motivos para a não
realização do exame: 41,4% acharam-no desnecessário; 32,7% alegaram vergonha ou
desconforto; 11,2% referiram dificuldades de acesso aos serviços de saúde; dentre outros.
Segundo a autora, houve associação positiva para a realização do exame nos últimos três
anos, com a escolaridade - colegial completo ou 12 anos ou mais de estudos. Associação
negativa foi observada frente a episódio de violência sexual no último ano anterior à
entrevista.
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3. Câncer feminino como um desafio para a Mídia
Citeli (1998), realizou um estudo sobre a distribuição de matérias nos quatro
principais jornais brasileiros, segundo categorias temáticas de saúde reprodutiva, a partir
do banco de dados "Olhar sobre a Mídia". Este banco de dados é alimentado através da
coleta diária, codificação e classificação das matérias. Os resultados
apresentados na
Figura 4, mostram que apenas 7,5% das matérias se relacionam ao câncer feminino.
Cultura
Sexual
8%
8%
AIDS/DST
38%
Reprodução
20%
Aborto
26%
Câncer
Figura 4 – Distribuição de Matérias Sobre Saúde Reprodutiva nos 4 Principais Jornais
Brasileiros por Categoria, Julho a Abril 1999.
Fonte: (CITELLI,1998)
Para alguns autores, a sociedade moderna desenvolveu um mito com relação às
tecnologias em saúde. Para Citeli (1998), foi criada uma visão estereotipada de "ciência"
como espelho da realidade. Ganham espaço na mídia justamente aquelas matérias de maior
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impacto sensacionalista, geralmente relacionadas a novos tratamentos e procedimentos
experimentados por cientistas estrangeiros ou de grandes universidades.
A incorporação de uma nova tecnologia ocorre antes de serem ponderados seus
riscos e seus benefícios, pois os cientistas e a própria mídia se descobriram mutuamente, a
partir de um objetivo comum - a captação de recursos (MOTTA,1997).
Segundo Bueno, os modismos no campo da saúde individual, transformam a saúde em um
bem de consumo, e o consumo de tecnologias em saúde como símbolo de status social. São
divulgadas soluções para sérios problemas de saúde, que não repercutem impacto sobre o
coletivo.
É o que temos observado com relação ao câncer feminino, cuja ação preventiva
exige menos tecnologia de ponta e mais vontade política para a reversão dos atuais
indicadores de incidência e de mortalidade - longe de desconsiderar a importância de
recursos diagnósticos e terapêuticos de maior complexidade que devem ser utilizados com
racionalidade. Isto torna o SUS um alvo constante de críticas e ataques por parte da ordem
de poder instituída e também mal explicado pela própria indústria midiática.
Kucinski (2001), acena favoravelmente a atuação do jornalismo na saúde coletiva. Segundo
o autor, este goza de autonomia discursiva na arte de reformular e recriar narrativas para
divulgar os fatos. Entretanto, está sujeito a mecanismos de seleção temática e ideológica,
relacionados à própria corporação e à lógica do poder econômico estabelecida a partir da
indústria farmacêutica e de equipamentos médico-hospitalares. Está vulnerável aos próprios
erros metodológicos dos estudos científicos e a interesses econômicos que tendem a
formular consensos na sociedade – a publicidade.
O autor sugere que sejam exploradas as percepções das ciências humanas e sociais
sobre os problemas de saúde. Esta mescla pode ser favorável ao enfraquecimento das
estruturas hegemônicas produtoras de consenso sobre as questões de saúde e doença na
nossa sociedade.
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4. Conclusões
Dentre as medidas preventivas de impacto para o controle do câncer feminino,
destacam-se ações de alcance em populações de maior risco, como apresentado neste
estudo. É necessário que sejam difundidas informações acerca da doença e de seus risco,
bem como as medidas preventivas e de diagnóstico precoce, que basicamente se relacionam
à incorporação de hábitos de vida, tais como a
realização periódica do teste de
Papanicolaou e o auto-exame mensal das mamas . Estas, representam medidas de baixo
custo e de tecnologia simplificada, como por exemplo educação em saúde.
Os resultados apresentados reforçam a necessidade de orientação sistemática da
população acerca dos benefícios das medidas preventivas, prioritariamente as mulheres
com baixa escolaridade e menos favorecidas do ponto de vista socioeconômico.
Acredita-se que a mídia de uma forma geral, pode contribuir sobremaneira com a
Saúde Coletiva, neste sentido. Há que se resgatar seu papel informativo entre as camadas
populares que não se utilizam da mídia impressa ou digital,
através dos meios de
comunicação por elas mais utilizados, como por exemplo, o radiojornalismo.
Outro recurso valioso pode ser explorado: aprimorar o senso crítico dos jornalistas
interlocutores de matérias sobre saúde e doença, face às lógicas da publicidade e do
marketing, potenciais produtoras de consensos sobre este tema na nossa sociedade.
Acredita-se que estas medidas poderão reproduzir impactos significativos na
reversão dos atuais indicadores de saúde, bem como na democratização do direito à saúde.
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