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ISBN: 978-85-7506-232-6
NOVAS APROPRIAÇÕES DO URBANO E
REDEFINIÇÕES DO CONSUMO NA METRÓPOLE
DE SÃO PAULO
Marina Regitz Montenegro
Universidade de São Paulo
[email protected]
METROPOLIZAÇÃO DA POBREZA E EXPANSÃO DO CONSUMO
Nos últimos anos, a recente expansão do consumo das classes pobres vem
sendo exaltada juntamente com um discurso da queda dos índices de pobreza no país. Ao
partirmos da definição de pobreza mais correntemente adotada no Brasil, que considera
como pobres as famílias com renda per capita inferior ou igual a ½ salário mínimo (ROCHA,
2006; IBGE/PNAD, 2009), verificamos efetivamente uma redução recente da pobreza no país.
Ao longo da última década houve uma redução na porcentagem de pobres entre a
população brasileira, a qual recuou de 38,6% em 2001 para 20,6% em 2011 (IBGE/ PNAD,
2011). O crescimento da renda per capita no país na segunda metade dos anos 2000, a uma
média anual de 3,3%, representou um fator importante para tal transformação da estrutura
social (POCHMANN, 2012). Porém, visto que o valor do salário mínimo representa o principal
indicador para estimativa da pobreza no país, observa-se que esta redução decorreu, em
grande medida, do efeito estatístico do aumento do salário mínimo na última década: o qual
passou de R$ 151,00 em 2001 para R$ 545,00 em 2011. Além disso, apesar do reajuste
ocorrido, o salário mínimo vigente em 2014 – R$ 724,00 – estava ainda a uma enorme
distância do valor do salário mínimo considerado necessário – R$ 2.674,88 – para atender as
necessidades vitais básicas no país nesta data (DIEESE, 2013). Assim, a despeito de certa
recuperação do ganho salarial e da retração dos indicadores de pobreza nos últimos anos,
não se elimina a situação de pobreza e carência no país, sobretudo nas metrópoles, onde o
custo de vida é mais elevado e a produção de necessidades é mais acentuada.
Observa-se, por outro lado, que grande parte das pesquisas e indicadores
recentemente divulgados sobre a redução da pobreza e a expansão de uma suposta classe
média baseiam-se numa distinção da população nas chamadas classes de renda A, B, C, D e
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E1. Além de englobarem faixas de renda muito amplas, estas categorias não são, muitas
vezes, propriamente definidas e tendem a reforçar uma visão mercadológica da população.
Exaltada frequentemente como a “nova classe média” (NERI, 2011), a classe C abarca, por
exemplo, famílias com renda domiciliar ente R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 por mês; ou seja,
inclui famílias cujas rendas per capita não alcançam nem mesmo ½ salário mínimo por mês 2,
as quais estariam, portanto, abaixo da linha de pobreza. Estas classificações alimentam,
assim, a construção de um discurso impreciso que busca difundir a percepção de que a
expansão da chamada classe C abarcaria toda a população pobre e que, por conseguinte, a
pobreza no país deixaria de existir.
Nesta direção, é preciso atentar ao fato de que os domicílios pobres ainda
representam 30% dos lares brasileiros (IBGE/ PNAD, 2011) e que há ainda cerca de 36
milhões de pessoas na miséria no país (DESIDÉRIO et alli, 2008). Em 56% dos domicílios, a
renda per capita não ultrapassa um salário mínimo e 40% dos ocupados no país ganham até
um salário mínimo (IBGE, 2010). A pobreza no Brasil assume ainda grandes proporções, daí
a importância da construção de novos quadros analíticos sobre este fenômeno que persiste
e se transforma, assumindo novas manifestações no país: uma pobreza que se torna cada
vez mais urbana e metropolitana e que, ao mesmo passo, se caracteriza pela expansão do
acesso ao consumo, pela creditização e pela financeirização.
Além de concentrar grande parte da população, as metrópoles brasileiras
polarizam também a riqueza e a parcela política da produção: apenas 15 metrópoles são
responsáveis pela produção de 50,3% do PIB brasileiro (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES,
2011). Em contrapartida, o aumento recente da pobreza concentra-se justamente nas
maiores cidades do país, implicando, consequentemente, a adaptação e segmentação de
sua economia urbana (SANTOS, 1994). A pobreza e a indigência têm se tornado, com efeito,
cada vez mais um fenômeno urbano e metropolitano no Brasil (ROCHA, 2006, 2009).
Enquanto a participação dos indigentes e dos pobres rurais no total destes segmentos vem
se reduzindo, a participação urbana e metropolitana cresceu significativamente no país nas
duas últimas décadas3.
1
Segundo Neri (2011), as classes A e B correspondem às famílias com renda mensal superior a R$ 5.174,00; a classe C
às famílias com renda domiciliar ente R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 por mês; a classe D às famílias cuja renda mensal
está entre R$ 751,00 e R$ 1.200,00; e a classe E aos domicílios cujas rendas mensais são inferiores a R$ 751,00.
2
Já as ditas classes D e E incluem domicílios que poderiam ser considerados como miseráveis, visto que suas rendas
mensais per capita abrangem a faixa de ¼ do valor do salário mínimo vigente.
3
Em 1992, os estratos rural, urbano e metropolitano representavam respectivamente 24%, 44% e 31% da pobreza no
país. Em 2009, estas participações dos estratos rural, urbano e metropolitano eram, respectivamente, 15%, 48% e
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Assim, verifica-se que a despeito do que apontam certos indicadores, a pobreza
está se aprofundando nas metrópoles, visto que entre 1996 e 2007 houve um aumento na
proporção dos domicílios com renda per capita até ½ salário mínimo em todas as Regiões
Metropolitanas do país (TORRES et alli, 2006; IBGE/PNAD, 2007). Este aumento se deu com
maior intensidade justamente em São Paulo, maior e mais populosa metrópole do país,
onde tal proporção cresceu mais de 2,5 vezes no intervalo em questão. Entre 2007 e 2009,
houve uma leve redução da proporção dos domicílios com renda per capita até ½ salário
mínimo nas Regiões Metropolitanas; de todo modo, todos os valores ainda se mostravam
superiores aqueles de meados da década de 1990.
Ao mesmo passo em que ocorre um processo de metropolização da pobreza no
país, observa-se que esta mesma população empobrecida tem participado, cada vez mais,
de um consumo moderno e dos nexos financeiros. Conforma-se, assim, um cenário
paradoxal, no qual o consumo e as finanças reafirmam sua centralidade no período atual,
recriando novas formas de “capilaridade” entre a população pobre no país.
O aumento exponencial das práticas de consumo no Brasil assume atualmente
dimensões cada vez mais abrangentes, envolvendo todas as classes de renda. Esta
expansão recente do consumo no país está, por sua vez, diretamente relacionada ao avanço
da creditização do território e da sociedade (SANTOS e SILVEIRA, 2001). A conformação de
um meio técnico-científico-informacional (SANTOS, 1994), nos últimos anos, tem permitido,
com efeito, o avanço processo de capilarização das finanças (CONTEL, 2011) e de difusão de
padrões de consumismo pelo território.
Entre os estratos inferiores de renda, a expansão recente do consumo no país
está relacionada a um conjunto de fatores de ordens diversas (TORRES et alli, 2006;
MONTENEGRO, 2011). Dentre estes, destacam-se, por exemplo, o papel das políticas
públicas federais de transferência de renda (sobretudo do Programa Bolsa Família), uma
menor variação na estrutura de preços, o reajuste do valor do salário mínimo, a redução do
tamanho da família no país, a crescente participação feminina no mercado de trabalho e a
maior oferta de crédito.
O aumento da oferta de crédito – por parte de instituições financeiras bancárias
e não bancárias – tem exercido um papel fundamental, dentre estes fatores, para o
aumento consumo da parcela de baixa renda no país, em especial para aquela residente nas
36% (ROCHA, 2009).
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metrópoles, onde o acesso aos canais do sistema financeiro é mais amplo. Apenas entre
1997 e 2007, o volume da concessão de crédito pessoal no Brasil passou de R$ 50 bilhões
para mais de R$ 222 bilhões. Entre os anos de 2011, 2012 e 2013, a oferta de crédito à
pessoa física cresceu 15,4%, 10,4% e 8,3% respectivamente (BANCO CENTRAL, 2014),
indicando-nos a intensidade do aumento não apenas da oferta, mas também da demanda
de crédito.
O aumento da quantidade de cartões (crédito, débito e de lojas) no país ao longo
da última década também aparece como um indicador revelador: entre 2000 e 2010, o
número de cartões cresceu mais de 520%, passando de 119 milhões para 628 milhões de
unidades (ABECS, 2010). Em 20102, já havia mais de 704 milhões de cartões no Brasil, dos
quais 179 milhões eram cartões de crédito, 254 milhões cartões de redes e lojas (os
chamados private label) e 271 milhões cartões de débito (ABECS, 2012).
O Estado tem desempenhado um papel ativo neste processo de creditização da
sociedade através de diferentes medidas de estímulo ao consumo – tais como a redução de
impostos sobre certas linhas de produtos – e da expansão da oferta de crédito também por
parte de bancos públicos. Uma série de programas de fortalecimento do sistema financeiro
implantados nos últimos anos4 explicita a forma assumida pelo “nexo Estado-finanças”
(HARVEY, 2011) no país, nexo que se encontra no centro deste movimento de creditização
da população e do território.
A expansão do acesso a certos bens duráveis (telefone, geladeira, máquina de
lavar, televisão, rádio etc) entre a população pobre metropolitana do país nos últimos anos
coincide, assim, com o avanço da creditização da população brasileira. Nas dez Regiões
Metropolitanas5, verifica-se, por exemplo, que, entre as famílias com renda per capita até ½
salário mínimo, o acesso a geladeiras passou de 69% em 1995 para 88% em 2004, já o
acesso a máquinas de lavar cresceu de 8% para 18% neste mesmo intervalo (TORRES et alli,
2006). Considerado o total de domicílios do país, verifica-se que em 2011, 96% dos lares
possuíam geladeiras, 98,5% fogão e 96,8 % televisão (IBGE/ PNAD, 2011). Cabe destacar,
nesta direção, que, dentre os indicadores de atividades do comércio, aqueles referentes aos
artigos eletrodomésticos, eletroeletrônicos e móveis foram os que apresentaram maior
4
“O Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) é considerado pelo Banco Central do Brasil como uma seqüência lógica
das políticas públicas de “fortalecimento do sistema financeiro brasileiro”, cujos principais pilares, na década de
1990, foram o Programa de Incentivo à Redução do Estado na Atividade Bancária (PROES) e o Programa de Estímulo
à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER)” (CONTEL, 2009, p.126).
5
Belém, Recife, Fortaleza, Salvador, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.
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variação positiva mensal e anual desde os anos 2000 (SERASA, 2013).
A maior participação das classes de baixa renda no mercado de consumo no
país se realiza, em grande medida, através da creditização e do endividamento desta parcela
da população. Neste processo, o crédito se reafirma como um passaporte, de alto custo 6,
para a realização de um padrão que engloba não apenas o acesso a bens de consumo
duráveis básicos, mas também a uma ampla gama de bens não-duráveis e serviços que
simbolizam a aquisição de certo status e a importância de determinadas marcas (SENNET,
2006) para a população de menor renda. De acordo com Harvey (2011), esta é uma das
características centrais do capitalismo que se intensifica nos dias de hoje: a busca do
mercado por se estender também aqueles com rendimentos mais baixos, especialmente
através da indústria de cartões de crédito e do endividamento. Tais dinâmicas do
capitalismo atual, ou seja, do “capitalismo de viés financeiro” (CHESNAIS, 1998), se realizam
através de mediações próprias em cada formação socioespacial. Tendo em vista que, no
Brasil, a remuneração de 95% das vagas criadas nos últimos 10 anos foi inferior a 1,5 salário
mínimo (POCHMANN, 2012) e que a expansão recente do consumo se sustenta justamente
na maior oferta de crédito à chamada “classe C”, temos aí algumas das mediações
assumidas por estes capitalismo de financeiro no país.
Grandes empresas altamente capitalizadas do circuito superior da economia
encontram-se, hoje, cada vez mais interessadas no nicho de mercado popular
tradicionalmente pertencente ao circuito inferior da economia, ou seja, aquele mercado
composto pela população que trabalha e consome em pequenas atividades com baixos
graus de capital, tecnologia e organização (SANTOS, 1975). Visando a inserção da população
de baixa renda em seu mercado consumidor, grandes empresas e redes têm participado
ativamente do processo de creditização dessa parcela da população. Por meio de complexas
formas de organização, desenvolvem-se, hoje, diversas associações entre grandes cadeias
comerciais de varejo, bancos e suas respectivas instituições financeiras de crédito pessoal 7,
constituídas, em grande medida, para abarcar os pobres no mercado de consumo (SILVEIRA,
2009; LOPES dos SANTOS, 2007). O aumento explosivo do número de cartões de crédito de
redes e lojas no país nos anos – que passou de 82,4 milhões em 2005 para 254 milhões de
6
As taxas de juros pagas no crédito pessoal podem chegar a 16% ao mês.
7
As principais instituições financeiras de crédito pessoal pertencem a grandes bancos: a Finasa pertence ao Bradesco,
a Losango ao HSBC, a Fininvest ao Unibanco, a Taíi ao Itaú, a BV Financeira ao Banco Votorantim, a Panamericano ao
Grupo Silvio Santos, a Citifinacial ao Citigroup, a Ibi ao COFRA Holding AG e Redevco. Esses grandes grupos
associam-se, por sua vez, a grandes cadeias comerciais como Lojas Pernambucanas, Ponto Frio, Leroy Merlin etc
(LOPES dos SANTOS, 2007).
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unidades em 2012 (ABECS, 2012) – expõe esta crescente associação entre redes comerciais,
industriais e instituições financeiras (ARROYO, 2009). Por outro lado, a inadimplência total
no país também cresceu ao longo da década, atingindo em 2012 o maior patamar da série
calculada desde 2000 (BANCO CENTRAL, 2012).
Deste modo, as grandes empresas do circuito superior beneficiam-se não
apenas da possibilidade de criar a demanda e de incitar o consumismo por diversos canais,
sobretudo através de uma publicidade altamente sofisticada, mas favorecem-se também de
uma estratégia de financeirização e endividamento desses consumidores em potencial. Daí
a proliferação de uma série de artigos e serviços voltados especialmente às parcelas do
mercado de menores rendimentos, às quais são oferecidas, por sua vez, diversas formas de
pagamentos parcelados, nas quais não deixam de estarem embutidos altíssimos juros.
Novos cenários urbanos vêm se desenhando a partir destes processos
atualmente em curso, com diferentes intensidades, nas metrópoles brasileiras, os quais
envolvem não apenas redefinições nas práticas de consumo e a readaptação da economia
pobre, mas também uma intensa reconfiguração do meio construído, com a emergência de
novas apropriações do urbano. Enquanto maior metrópole do país, São Paulo reúne
situações
geográficas
especialmente
reveladoras
deste
avanço
do
processo
de
oligopolização do mercado e do próprio território metropolitano.
TRANSFORMAÇÕES DAS PRÁTICAS DE CONSUMO E RECONFIGURAÇÕES
DO MEIO CONSTRUÍDO EM SÃO PAULO
Além da estratégia de financeirização, as grandes empresas têm adotado
também, nos últimos anos, a estratégia de diversificação de suas topologias nas grandes
cidades para alcançar os consumidores de baixa renda. Em São Paulo, por exemplo, ao
mesmo passo em que as instituições financeiras de crédito pessoal proliferam-se no centro
da cidade, o circuito superior vem buscando inserir-se também em locais até então
considerados relativamente desinteressantes pelas maiores empresas (SILVEIRA, 2009).
Diversos complexos de associações entre grandes redes comerciais e instituições financeiras
– como Finasa e Casas Bahia, Taíi e Lojas Americanas, Fininvest e Sonda, entre outros –
aumentaram não só seu número de vendas, clientes, cartões, serviços, produtos e
empréstimos, mas também sua quantidade de estabelecimentos na cidade de São Paulo
nos últimos anos (SILVEIRA, 2009). Deste modo, instituições financeiras de crédito pessoal e
grandes redes de varejo têm adotado uma estratégia de localização de suas filiais em
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centralidades populares como o Largo Treze de Maio em Santo Amaro, o Largo de Pinheiros
e Itaquera, buscando aproveitar-se da circulação intensa que estas áreas abrigam.
Em São Paulo, contudo, verifica-se hoje também o avanço da instalação de
grandes
equipamentos
de
consumo
–
como
shopping-centers,
supermercados,
hipermercados e lojas e serviços sob sistemas de franquias – para bairros mais periféricos,
onde se concentram um enorme mercado pobre e um estoque de terras. A grande presença
de shopping-centers revela, por exemplo, a capilaridade alcançada pelas grandes redes: São
Paulo possui atualmente 55 shopping-centers espalhados por seu tecido urbano (ABRASCE,
2014). Embora estejam concentrados nas áreas centrais, os shoppings e lojas de grandes
empresas se espraiaram recentemente para áreas mais periféricas da metrópole, como o
Campo Limpo, Itaquera e Taboão da Serra.
Redes como Casas Bahia, Ponto Frio e Marisa possuem cada uma cerca de 50
lojas apenas no Município de São Paulo. A distribuição das lojas das redes Ponto Frio e
Casas Bahia na cidade e nos seus municípios contíguos, ilustrada nos mapas a seguir, revela
a capilaridade alcançada por estas redes atualmente em São Paulo.
Mapa 1. Localização das lojas da Rede Casas Bahia no Município de São Paulo e seu entorno.
Fonte: www.http://institucional.casasbahia.com.br/lojas/.
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Mapa 2. Localização das lojas da Rede Ponto Frio no Município de São Paulo e seu entorno.
Fonte: www.http://institucional.pontofrio.com.br/lojas/.
Enquanto mercados em expansão, os “entornos metropolitanos” assumem, de
tal modo, crescente importância na atual pauta de localização das grandes empresas
(SANCHEZ, 2007). Temos aí novas formas de valorização do tecido urbano que implicam, por
sua vez, a própria expansão territorial das cidades e a difusão de novas práticas e conteúdos
relativos ao urbano (SPOSITO, 2010).
As grandes empresas do circuito superior da economia têm avançado, assim,
sobre as localizações do circuito inferior no tecido urbano, valorizando estas partes da
cidade e desarranjando os conteúdos do espaço que garantem a existência de pequenos
negócios pouco capitalizados. A chegada de grandes redes nestas áreas implica também
uma maior oferta de crédito, especialmente através de cartões de crédito das próprias lojas.
Diversificam-se, por conseguinte, as práticas de consumo entre os pobres (detentores de
crédito), cujas compras tendem, cada vez mais, a se distribuir entre as grandes redes
globais, agora presentes também em certos bairros periféricos, e o pequeno comércio
(DUHAU e GIGLIA, 2007). Multiplicam-se, ao mesmo passo, as formas de serviço e comércios
presentes nas diferentes partes da cidade (PINTAUDI, 2010).
Em pesquisas recentemente realizadas junto à população de baixa renda nos
bairros de Campo Limpo (na periferia da zona sul) e Itaquera (na zona leste) e no Município
de Taboão da Serra, buscamos investigar como estes processos têm se “geografizado” nas
periferias de São Paulo. Os estabelecimentos mais freqüentados por este público para a
realização de compras domésticas são, por exemplo, os supermercados e hipermercados de
grandes redes (Extra e Carrefour principalmente) presentes no próprio bairro ou em suas
proximidades. Nos bairros em questão, há inclusive hipermercados no interior de cada
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shopping center localizados nos mesmos. Artigos de vestuário, calçados e aparelhos
eletrodomésticos também são adquiridos, em sua maioria, nos shoppings destes bairros ou
em lojas de rua de grandes redes, como Casas Bahia. É interessante notar como a instalação
recente de shoppings na periferia da metrópole de São Paulo tem implicado, ao mesmo
passo, uma alteração na natureza e na distância dos deslocamentos envolvidos na
realização de compras, visto que o centro da cidade ou as localidades populares mais
próximas passam a ser, de certo modo, menos requisitadas.
Foto 1. Shopping Metrô Itaquera.
Fonte: http://www.shoppingitaquera.com.br/metro-itaquera/pt_br/o-shopping/o-shopping.htm
Foto 2. Shopping Campo Limpo.
Fonte:http://www.shoppingcampolimpo.com.br/o-shopping/.
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Foto 3. Shopping Taboão.
Fonte: http://www.shoppingtaboao.com.br/shopping.asp.
A posse de cartões de crédito e débito encontra-se, de fato, bastante
generalizada entre a população de baixa renda residente na periferia da metrópole
paulistana. Dentre os entrevistados em Itaquera, Campo Limpo e no Taboão da Serra, mais
de 80% afirmaram possuir um ou mais cartões de crédito na família. A posse de cartões de
loja (os chamados “private label”) encontra-se igualmente difundida, ainda que em menor
escala: 50% dos entrevistados já possuem cartões deste tipo. Os cartões de loja mais
freqüentes são de redes de vestuário, eletrodomésticos e supermercados, tais como:
Marisa, C&A, Casas Bahia, Carrefour e Extra. Cabe assinalar, nesta direção, que os aparelhos
eletrodomésticos compreendem os produtos para os quais a população de baixa renda
costuma recorrer ao crédito e/ou ao pagamento parcelado com maior frequência.
A financeirização da pobreza tem implicado, assim, reconfigurações das práticas
de consumo entre a população de baixa renda tanto nas áreas centrais quanto nas
periferias de grandes metrópoles como São Paulo. Nos bairros periféricos, estes novos
processos têm provocado uma perda relativa de mercados para os pequenos negócios do
circuito inferior que não podem praticar os mesmos preços e tampouco oferecer as mesmas
condições de pagamento que as grandes redes. A publicidade e a importância simbólica da
freqüência a determinados tipos de estabelecimentos também desempenham um papel
central neste avanço progressivo do circuito superior sobre a parcela do mercado
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tradicionalmente pertencente ao circuito inferior.
Com a crescente instalação das grandes redes, reduz-se, ao mesmo passo, a
possibilidade de permanência do dinheiro nos bairros periféricos, uma vez que se
multiplicam os canais de drenagem de poupança popular para o circuito superior da
economia. Estes processos estão relacionados, por sua vez, à crescente “capilarização” dos
serviços financeiros e do crédito pelo território, sobretudo nas grandes cidades. À maior
acessibilidade das populações a estes serviços – graças à crescente distribuição de fixos
como agências, postos de atendimento, caixas eletrônicos e correspondentes bancários pelo
tecido urbano – se acresce à própria ubiquidade alcançada pelas finanças em nosso
cotidiano através de diferentes canais eletrônicos, que também se banalizaram nos últimos
anos (CONTEL, 2011). Na periferia de São Paulo verifica-se, com efeito, uma crescente
capilaridade do sistema bancário e financeiro, sobretudo através da presença de agências
físicas, caixas eletrônicos e casas lotéricas.
OLIGOPOLIZAÇÃO DO TERRITÓRIO E DO MERCADO
A explosão da oferta do crédito e a crescente participação no consumo moderno
têm envolvido intensas transformações no cotidiano da população de baixa renda
metropolitana. No bojo deste processo, encontra-se a emergência de novos usos
corporativos do território que têm ressignificado o tecido urbano e redefinido as relações
entre os circuitos da economia urbana.
Se, por um lado, a expansão do acesso ao crédito tem garantido a crescente
aquisição de bens e serviços entre a população de baixa renda, transformando seu
cotidiano através da “antecipação do proveito das coisas”; por outro lado, o vencimento das
prestações
logo
se
confronta
com
a
realidade
socioeconômica
destas
famílias
(BAUDRILLARD, 2008). Certos efeitos do crescente acesso dos pobres ao consumo através
de mecanismos financeirizados têm residido, justamente, no endividamento excessivo, no
aumento da inadimplência e no comprometimento de uma parcela importante do
orçamento doméstico das famílias de baixa renda com o pagamento de dívidas (SCIRÉ,
2009). No Município de São Paulo, por exemplo, 50,9% das famílias encontram-se
endividadas; dentre as famílias com renda inferior a 10 salários mínimos, este percentual
ultrapassa 55%. Mais de 55% destas famílias endividadas têm entre 11% e 50% da sua renda
mensal comprometida com o pagamento de dívidas. No universo de famílias endividadas
com renda até 10 salários mínimos, o cartão de crédito representa o principal tipo de dívida
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(de mais de 75% das famílias), seguido pelos carnês (motivo de endividamento de 24,9%
destas famílias)8 (FECOMERCIO, 2013). Conforma-se, assim, uma fragilidade financeira
apoiada em uma combinação perigosa: a expansão da oferta e do acesso ao crédito a uma
população, já endividada, que não consegue poupar.
De acordo com Contel (2011), a “hipercapilaridade” do crédito pode ser
entendida, justamente, como causa e conseqüência do aumento do endividamento e da
inadimplência. Esses processos se dão com maior intensidade nas metrópoles, onde o custo
de vida é mais elevado e a criação de necessidades acompanha o ritmo da aceleração
contemporânea.
À oligopolização do mercado – sustentada na formação de grandes
conglomerados híbridos e em seu crescente interesse no nicho de mercado popular –
corresponde uma progressiva oligopolização dos territórios metropolitanos. A diversificação
das topologias das grandes empresas do circuito superior vem implicando, com efeito, a
propagação de usos corporativos do território a frações menos valorizadas do tecido
urbano, redutos até então praticamente cativos do circuito inferior. Ao mesmo passo em
que estas áreas se valorizam, estabelecem-se perturbações na economia pobre, uma vez
que o circuito inferior tem parte de sua demanda subtraída e perde mercados para o
circuito superior, inclusive nas periferias metropolitanas.
Estabelecem-se, assim, novas relações entre a urbanização, a pobreza e as
finanças. A financeirização, as transformações das práticas de consumo entre a população
de baixa renda e a reconfiguração da periferia inserida recentemente na topologia de
grandes redes constituem manifestações atuais destes processos em curso que nos
demandam, por sua vez, novos olhares analíticos para as formas assumidas por estas
relações na contemporaneidade.
PRINCIPAIS SITES CONSULTADOS
Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (ABECS)
(www.abecs.org.br)
Associação Brasileira de Shopping Centers (ABRASCE) (www.abrasce.com.br)
8
Dentre as famílias com renda até 10 salários mínimos, as principais dívidas se concentram no cartão de crédito
(75,2%), carnês (24,9%), crédito pessoal (12,3%), financiamento de carro (12,3%) e cheque especial (5,1%). Para as
famílias com renda superior a 10 salários mínimos, o principal meio de endividamento é o cartão de crédito (65,8%),
crédito pessoal (22,5%), cheque especial e financiamento de carro (15,8%) e financiamento de casa (5,8%)
(FECOMERCIO, 2013).
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Banco Central do Brasil (www.bcb.gov.br)
Departamento
Intersindical
de
Estatística
e
Estudos
Socioeconômicos
(www.dieese.org.br)
Fecomercio Sp (www.fecomercio.com.br)
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (www.ibge.gov.br)
Serasa Experian (www.serasaexperian.com.br)
REFERÊNCIAS
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NOVAS APROPRIAÇÕES DO URBANO E REDEFINIÇÕES DO CONSUMO
NA METRÓPOLE DE SÃO PAULO
EIXO 3 – Desigualdades urbano-regionais: agentes, políticas e perspectivas
RESUMO
No período atual, as finanças, a informação e o consumo consolidam seu papel determinante de
controle da organização da vida social e dos territórios como um todo, e em especial nas grandes
cidades (SANTOS, 1996; CHESNAIS, 1998). No bojo deste processo, estabelecem-se novos nexos
entre a urbanização e o fenômeno financeiro que têm abarcado, hoje, também parcelas
empobrecidas da população e áreas menos valorizadas dos tecidos urbanos. Nos últimos anos,
verifica-se efetivamente o avanço da urbanização e a redução dos índices de pobreza no Brasil.
Contudo, o avanço da urbanização tem sido acompanhado pelo aumento da concentração relativa
da pobreza nas maiores cidades (ROCHA, 2009). Por outro lado, esta mesma população
empobrecida também tem participado, cada vez mais, de um consumo moderno e dos nexos
financeiros. Os dinamismos da economia pobre nas metrópoles brasileiras tornam-se, assim,
crescentemente complexos; haja vista a conformação deste cenário paradoxal. Diante deste
contexto, propomos analisar certas transformações sócio-territoriais relacionadas a estes
processos na metrópole de São Paulo, atentando especificamente ao aumento da oferta de
crédito à população de baixa renda e ao avanço da apropriação de frações menos valorizadas da
cidade por atores altamente capitalizados, como agentes financeiros e grandes redes comerciais
e de serviços. Para além da transformação das práticas de consumo, a reconfiguração recente da
topologia destes agentes tem implicado a emergência de novos conflitos entre atores com
diferentes poderes de uso do território (SANTOS e SILVEIRA, 2001) na disputa pelo controle do
tecido urbano e do mercado popular. As grandes redes têm avançado, hoje, sobre as localizações
de pequenos negócios pouco capitalizados no tecido urbano, valorizando estas partes da cidade
e desarranjando os conteúdos do espaço que permitem sua existência. Sua chegada nestas áreas
implica ainda uma maior oferta de crédito, sobretudo através de cartões de crédito das próprias
lojas. Diversificam-se, por conseguinte, as práticas de consumo entre os pobres, cujas compras
tendem a se distribuir entre as grandes redes, agora presentes em certos bairros periféricos, e o
pequeno comércio (DUHAU e GIGLIA, 2007). Por outro lado, reduzem-se o mercado, as
localizações viáveis e a possibilidade de trabalho para os atores menos capitalizados. Em São
Paulo, processos desta natureza apontam para novas formas de controle exercidas por atores com
maior poder de uso do território. Estas envolvem, para além do domínio econômico e territorial,
aspectos simbólicos e culturais; haja vista a centralidade do consumo no período atual, cujo
reverso compreende, porém, para além do endividamento e da inadimplência, o esvaziamento da
cidadania (CANCLINI, 2010; FEATHERSTONE, 1991). Pretendemos compreender analisar assim
como o território se torna mais “oligopolizado” e a pobreza mais “financeirizada”; processos que
expõe, por sua vez, a capilaridade do controle simbólico e econômico do espaço e do mercado
alcançado pelos atores mais poderosos, como os grandes conglomerados econômicos e
financeiros.
Palavras-chave: pobreza; consumo; finanças.
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Marina Regitz Montenegro