http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 NOVAS APROPRIAÇÕES DO URBANO E REDEFINIÇÕES DO CONSUMO NA METRÓPOLE DE SÃO PAULO Marina Regitz Montenegro Universidade de São Paulo [email protected] METROPOLIZAÇÃO DA POBREZA E EXPANSÃO DO CONSUMO Nos últimos anos, a recente expansão do consumo das classes pobres vem sendo exaltada juntamente com um discurso da queda dos índices de pobreza no país. Ao partirmos da definição de pobreza mais correntemente adotada no Brasil, que considera como pobres as famílias com renda per capita inferior ou igual a ½ salário mínimo (ROCHA, 2006; IBGE/PNAD, 2009), verificamos efetivamente uma redução recente da pobreza no país. Ao longo da última década houve uma redução na porcentagem de pobres entre a população brasileira, a qual recuou de 38,6% em 2001 para 20,6% em 2011 (IBGE/ PNAD, 2011). O crescimento da renda per capita no país na segunda metade dos anos 2000, a uma média anual de 3,3%, representou um fator importante para tal transformação da estrutura social (POCHMANN, 2012). Porém, visto que o valor do salário mínimo representa o principal indicador para estimativa da pobreza no país, observa-se que esta redução decorreu, em grande medida, do efeito estatístico do aumento do salário mínimo na última década: o qual passou de R$ 151,00 em 2001 para R$ 545,00 em 2011. Além disso, apesar do reajuste ocorrido, o salário mínimo vigente em 2014 – R$ 724,00 – estava ainda a uma enorme distância do valor do salário mínimo considerado necessário – R$ 2.674,88 – para atender as necessidades vitais básicas no país nesta data (DIEESE, 2013). Assim, a despeito de certa recuperação do ganho salarial e da retração dos indicadores de pobreza nos últimos anos, não se elimina a situação de pobreza e carência no país, sobretudo nas metrópoles, onde o custo de vida é mais elevado e a produção de necessidades é mais acentuada. Observa-se, por outro lado, que grande parte das pesquisas e indicadores recentemente divulgados sobre a redução da pobreza e a expansão de uma suposta classe média baseiam-se numa distinção da população nas chamadas classes de renda A, B, C, D e 700 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 E1. Além de englobarem faixas de renda muito amplas, estas categorias não são, muitas vezes, propriamente definidas e tendem a reforçar uma visão mercadológica da população. Exaltada frequentemente como a “nova classe média” (NERI, 2011), a classe C abarca, por exemplo, famílias com renda domiciliar ente R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 por mês; ou seja, inclui famílias cujas rendas per capita não alcançam nem mesmo ½ salário mínimo por mês 2, as quais estariam, portanto, abaixo da linha de pobreza. Estas classificações alimentam, assim, a construção de um discurso impreciso que busca difundir a percepção de que a expansão da chamada classe C abarcaria toda a população pobre e que, por conseguinte, a pobreza no país deixaria de existir. Nesta direção, é preciso atentar ao fato de que os domicílios pobres ainda representam 30% dos lares brasileiros (IBGE/ PNAD, 2011) e que há ainda cerca de 36 milhões de pessoas na miséria no país (DESIDÉRIO et alli, 2008). Em 56% dos domicílios, a renda per capita não ultrapassa um salário mínimo e 40% dos ocupados no país ganham até um salário mínimo (IBGE, 2010). A pobreza no Brasil assume ainda grandes proporções, daí a importância da construção de novos quadros analíticos sobre este fenômeno que persiste e se transforma, assumindo novas manifestações no país: uma pobreza que se torna cada vez mais urbana e metropolitana e que, ao mesmo passo, se caracteriza pela expansão do acesso ao consumo, pela creditização e pela financeirização. Além de concentrar grande parte da população, as metrópoles brasileiras polarizam também a riqueza e a parcela política da produção: apenas 15 metrópoles são responsáveis pela produção de 50,3% do PIB brasileiro (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2011). Em contrapartida, o aumento recente da pobreza concentra-se justamente nas maiores cidades do país, implicando, consequentemente, a adaptação e segmentação de sua economia urbana (SANTOS, 1994). A pobreza e a indigência têm se tornado, com efeito, cada vez mais um fenômeno urbano e metropolitano no Brasil (ROCHA, 2006, 2009). Enquanto a participação dos indigentes e dos pobres rurais no total destes segmentos vem se reduzindo, a participação urbana e metropolitana cresceu significativamente no país nas duas últimas décadas3. 1 Segundo Neri (2011), as classes A e B correspondem às famílias com renda mensal superior a R$ 5.174,00; a classe C às famílias com renda domiciliar ente R$ 1.200,00 e R$ 5.174,00 por mês; a classe D às famílias cuja renda mensal está entre R$ 751,00 e R$ 1.200,00; e a classe E aos domicílios cujas rendas mensais são inferiores a R$ 751,00. 2 Já as ditas classes D e E incluem domicílios que poderiam ser considerados como miseráveis, visto que suas rendas mensais per capita abrangem a faixa de ¼ do valor do salário mínimo vigente. 3 Em 1992, os estratos rural, urbano e metropolitano representavam respectivamente 24%, 44% e 31% da pobreza no país. Em 2009, estas participações dos estratos rural, urbano e metropolitano eram, respectivamente, 15%, 48% e 701 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 Assim, verifica-se que a despeito do que apontam certos indicadores, a pobreza está se aprofundando nas metrópoles, visto que entre 1996 e 2007 houve um aumento na proporção dos domicílios com renda per capita até ½ salário mínimo em todas as Regiões Metropolitanas do país (TORRES et alli, 2006; IBGE/PNAD, 2007). Este aumento se deu com maior intensidade justamente em São Paulo, maior e mais populosa metrópole do país, onde tal proporção cresceu mais de 2,5 vezes no intervalo em questão. Entre 2007 e 2009, houve uma leve redução da proporção dos domicílios com renda per capita até ½ salário mínimo nas Regiões Metropolitanas; de todo modo, todos os valores ainda se mostravam superiores aqueles de meados da década de 1990. Ao mesmo passo em que ocorre um processo de metropolização da pobreza no país, observa-se que esta mesma população empobrecida tem participado, cada vez mais, de um consumo moderno e dos nexos financeiros. Conforma-se, assim, um cenário paradoxal, no qual o consumo e as finanças reafirmam sua centralidade no período atual, recriando novas formas de “capilaridade” entre a população pobre no país. O aumento exponencial das práticas de consumo no Brasil assume atualmente dimensões cada vez mais abrangentes, envolvendo todas as classes de renda. Esta expansão recente do consumo no país está, por sua vez, diretamente relacionada ao avanço da creditização do território e da sociedade (SANTOS e SILVEIRA, 2001). A conformação de um meio técnico-científico-informacional (SANTOS, 1994), nos últimos anos, tem permitido, com efeito, o avanço processo de capilarização das finanças (CONTEL, 2011) e de difusão de padrões de consumismo pelo território. Entre os estratos inferiores de renda, a expansão recente do consumo no país está relacionada a um conjunto de fatores de ordens diversas (TORRES et alli, 2006; MONTENEGRO, 2011). Dentre estes, destacam-se, por exemplo, o papel das políticas públicas federais de transferência de renda (sobretudo do Programa Bolsa Família), uma menor variação na estrutura de preços, o reajuste do valor do salário mínimo, a redução do tamanho da família no país, a crescente participação feminina no mercado de trabalho e a maior oferta de crédito. O aumento da oferta de crédito – por parte de instituições financeiras bancárias e não bancárias – tem exercido um papel fundamental, dentre estes fatores, para o aumento consumo da parcela de baixa renda no país, em especial para aquela residente nas 36% (ROCHA, 2009). 702 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 metrópoles, onde o acesso aos canais do sistema financeiro é mais amplo. Apenas entre 1997 e 2007, o volume da concessão de crédito pessoal no Brasil passou de R$ 50 bilhões para mais de R$ 222 bilhões. Entre os anos de 2011, 2012 e 2013, a oferta de crédito à pessoa física cresceu 15,4%, 10,4% e 8,3% respectivamente (BANCO CENTRAL, 2014), indicando-nos a intensidade do aumento não apenas da oferta, mas também da demanda de crédito. O aumento da quantidade de cartões (crédito, débito e de lojas) no país ao longo da última década também aparece como um indicador revelador: entre 2000 e 2010, o número de cartões cresceu mais de 520%, passando de 119 milhões para 628 milhões de unidades (ABECS, 2010). Em 20102, já havia mais de 704 milhões de cartões no Brasil, dos quais 179 milhões eram cartões de crédito, 254 milhões cartões de redes e lojas (os chamados private label) e 271 milhões cartões de débito (ABECS, 2012). O Estado tem desempenhado um papel ativo neste processo de creditização da sociedade através de diferentes medidas de estímulo ao consumo – tais como a redução de impostos sobre certas linhas de produtos – e da expansão da oferta de crédito também por parte de bancos públicos. Uma série de programas de fortalecimento do sistema financeiro implantados nos últimos anos4 explicita a forma assumida pelo “nexo Estado-finanças” (HARVEY, 2011) no país, nexo que se encontra no centro deste movimento de creditização da população e do território. A expansão do acesso a certos bens duráveis (telefone, geladeira, máquina de lavar, televisão, rádio etc) entre a população pobre metropolitana do país nos últimos anos coincide, assim, com o avanço da creditização da população brasileira. Nas dez Regiões Metropolitanas5, verifica-se, por exemplo, que, entre as famílias com renda per capita até ½ salário mínimo, o acesso a geladeiras passou de 69% em 1995 para 88% em 2004, já o acesso a máquinas de lavar cresceu de 8% para 18% neste mesmo intervalo (TORRES et alli, 2006). Considerado o total de domicílios do país, verifica-se que em 2011, 96% dos lares possuíam geladeiras, 98,5% fogão e 96,8 % televisão (IBGE/ PNAD, 2011). Cabe destacar, nesta direção, que, dentre os indicadores de atividades do comércio, aqueles referentes aos artigos eletrodomésticos, eletroeletrônicos e móveis foram os que apresentaram maior 4 “O Sistema de Pagamentos Brasileiro (SPB) é considerado pelo Banco Central do Brasil como uma seqüência lógica das políticas públicas de “fortalecimento do sistema financeiro brasileiro”, cujos principais pilares, na década de 1990, foram o Programa de Incentivo à Redução do Estado na Atividade Bancária (PROES) e o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional (PROER)” (CONTEL, 2009, p.126). 5 Belém, Recife, Fortaleza, Salvador, São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre. 703 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 variação positiva mensal e anual desde os anos 2000 (SERASA, 2013). A maior participação das classes de baixa renda no mercado de consumo no país se realiza, em grande medida, através da creditização e do endividamento desta parcela da população. Neste processo, o crédito se reafirma como um passaporte, de alto custo 6, para a realização de um padrão que engloba não apenas o acesso a bens de consumo duráveis básicos, mas também a uma ampla gama de bens não-duráveis e serviços que simbolizam a aquisição de certo status e a importância de determinadas marcas (SENNET, 2006) para a população de menor renda. De acordo com Harvey (2011), esta é uma das características centrais do capitalismo que se intensifica nos dias de hoje: a busca do mercado por se estender também aqueles com rendimentos mais baixos, especialmente através da indústria de cartões de crédito e do endividamento. Tais dinâmicas do capitalismo atual, ou seja, do “capitalismo de viés financeiro” (CHESNAIS, 1998), se realizam através de mediações próprias em cada formação socioespacial. Tendo em vista que, no Brasil, a remuneração de 95% das vagas criadas nos últimos 10 anos foi inferior a 1,5 salário mínimo (POCHMANN, 2012) e que a expansão recente do consumo se sustenta justamente na maior oferta de crédito à chamada “classe C”, temos aí algumas das mediações assumidas por estes capitalismo de financeiro no país. Grandes empresas altamente capitalizadas do circuito superior da economia encontram-se, hoje, cada vez mais interessadas no nicho de mercado popular tradicionalmente pertencente ao circuito inferior da economia, ou seja, aquele mercado composto pela população que trabalha e consome em pequenas atividades com baixos graus de capital, tecnologia e organização (SANTOS, 1975). Visando a inserção da população de baixa renda em seu mercado consumidor, grandes empresas e redes têm participado ativamente do processo de creditização dessa parcela da população. Por meio de complexas formas de organização, desenvolvem-se, hoje, diversas associações entre grandes cadeias comerciais de varejo, bancos e suas respectivas instituições financeiras de crédito pessoal 7, constituídas, em grande medida, para abarcar os pobres no mercado de consumo (SILVEIRA, 2009; LOPES dos SANTOS, 2007). O aumento explosivo do número de cartões de crédito de redes e lojas no país nos anos – que passou de 82,4 milhões em 2005 para 254 milhões de 6 As taxas de juros pagas no crédito pessoal podem chegar a 16% ao mês. 7 As principais instituições financeiras de crédito pessoal pertencem a grandes bancos: a Finasa pertence ao Bradesco, a Losango ao HSBC, a Fininvest ao Unibanco, a Taíi ao Itaú, a BV Financeira ao Banco Votorantim, a Panamericano ao Grupo Silvio Santos, a Citifinacial ao Citigroup, a Ibi ao COFRA Holding AG e Redevco. Esses grandes grupos associam-se, por sua vez, a grandes cadeias comerciais como Lojas Pernambucanas, Ponto Frio, Leroy Merlin etc (LOPES dos SANTOS, 2007). 704 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 unidades em 2012 (ABECS, 2012) – expõe esta crescente associação entre redes comerciais, industriais e instituições financeiras (ARROYO, 2009). Por outro lado, a inadimplência total no país também cresceu ao longo da década, atingindo em 2012 o maior patamar da série calculada desde 2000 (BANCO CENTRAL, 2012). Deste modo, as grandes empresas do circuito superior beneficiam-se não apenas da possibilidade de criar a demanda e de incitar o consumismo por diversos canais, sobretudo através de uma publicidade altamente sofisticada, mas favorecem-se também de uma estratégia de financeirização e endividamento desses consumidores em potencial. Daí a proliferação de uma série de artigos e serviços voltados especialmente às parcelas do mercado de menores rendimentos, às quais são oferecidas, por sua vez, diversas formas de pagamentos parcelados, nas quais não deixam de estarem embutidos altíssimos juros. Novos cenários urbanos vêm se desenhando a partir destes processos atualmente em curso, com diferentes intensidades, nas metrópoles brasileiras, os quais envolvem não apenas redefinições nas práticas de consumo e a readaptação da economia pobre, mas também uma intensa reconfiguração do meio construído, com a emergência de novas apropriações do urbano. Enquanto maior metrópole do país, São Paulo reúne situações geográficas especialmente reveladoras deste avanço do processo de oligopolização do mercado e do próprio território metropolitano. TRANSFORMAÇÕES DAS PRÁTICAS DE CONSUMO E RECONFIGURAÇÕES DO MEIO CONSTRUÍDO EM SÃO PAULO Além da estratégia de financeirização, as grandes empresas têm adotado também, nos últimos anos, a estratégia de diversificação de suas topologias nas grandes cidades para alcançar os consumidores de baixa renda. Em São Paulo, por exemplo, ao mesmo passo em que as instituições financeiras de crédito pessoal proliferam-se no centro da cidade, o circuito superior vem buscando inserir-se também em locais até então considerados relativamente desinteressantes pelas maiores empresas (SILVEIRA, 2009). Diversos complexos de associações entre grandes redes comerciais e instituições financeiras – como Finasa e Casas Bahia, Taíi e Lojas Americanas, Fininvest e Sonda, entre outros – aumentaram não só seu número de vendas, clientes, cartões, serviços, produtos e empréstimos, mas também sua quantidade de estabelecimentos na cidade de São Paulo nos últimos anos (SILVEIRA, 2009). Deste modo, instituições financeiras de crédito pessoal e grandes redes de varejo têm adotado uma estratégia de localização de suas filiais em 705 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 centralidades populares como o Largo Treze de Maio em Santo Amaro, o Largo de Pinheiros e Itaquera, buscando aproveitar-se da circulação intensa que estas áreas abrigam. Em São Paulo, contudo, verifica-se hoje também o avanço da instalação de grandes equipamentos de consumo – como shopping-centers, supermercados, hipermercados e lojas e serviços sob sistemas de franquias – para bairros mais periféricos, onde se concentram um enorme mercado pobre e um estoque de terras. A grande presença de shopping-centers revela, por exemplo, a capilaridade alcançada pelas grandes redes: São Paulo possui atualmente 55 shopping-centers espalhados por seu tecido urbano (ABRASCE, 2014). Embora estejam concentrados nas áreas centrais, os shoppings e lojas de grandes empresas se espraiaram recentemente para áreas mais periféricas da metrópole, como o Campo Limpo, Itaquera e Taboão da Serra. Redes como Casas Bahia, Ponto Frio e Marisa possuem cada uma cerca de 50 lojas apenas no Município de São Paulo. A distribuição das lojas das redes Ponto Frio e Casas Bahia na cidade e nos seus municípios contíguos, ilustrada nos mapas a seguir, revela a capilaridade alcançada por estas redes atualmente em São Paulo. Mapa 1. Localização das lojas da Rede Casas Bahia no Município de São Paulo e seu entorno. Fonte: www.http://institucional.casasbahia.com.br/lojas/. 706 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 Mapa 2. Localização das lojas da Rede Ponto Frio no Município de São Paulo e seu entorno. Fonte: www.http://institucional.pontofrio.com.br/lojas/. Enquanto mercados em expansão, os “entornos metropolitanos” assumem, de tal modo, crescente importância na atual pauta de localização das grandes empresas (SANCHEZ, 2007). Temos aí novas formas de valorização do tecido urbano que implicam, por sua vez, a própria expansão territorial das cidades e a difusão de novas práticas e conteúdos relativos ao urbano (SPOSITO, 2010). As grandes empresas do circuito superior da economia têm avançado, assim, sobre as localizações do circuito inferior no tecido urbano, valorizando estas partes da cidade e desarranjando os conteúdos do espaço que garantem a existência de pequenos negócios pouco capitalizados. A chegada de grandes redes nestas áreas implica também uma maior oferta de crédito, especialmente através de cartões de crédito das próprias lojas. Diversificam-se, por conseguinte, as práticas de consumo entre os pobres (detentores de crédito), cujas compras tendem, cada vez mais, a se distribuir entre as grandes redes globais, agora presentes também em certos bairros periféricos, e o pequeno comércio (DUHAU e GIGLIA, 2007). Multiplicam-se, ao mesmo passo, as formas de serviço e comércios presentes nas diferentes partes da cidade (PINTAUDI, 2010). Em pesquisas recentemente realizadas junto à população de baixa renda nos bairros de Campo Limpo (na periferia da zona sul) e Itaquera (na zona leste) e no Município de Taboão da Serra, buscamos investigar como estes processos têm se “geografizado” nas periferias de São Paulo. Os estabelecimentos mais freqüentados por este público para a realização de compras domésticas são, por exemplo, os supermercados e hipermercados de grandes redes (Extra e Carrefour principalmente) presentes no próprio bairro ou em suas proximidades. Nos bairros em questão, há inclusive hipermercados no interior de cada 707 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 shopping center localizados nos mesmos. Artigos de vestuário, calçados e aparelhos eletrodomésticos também são adquiridos, em sua maioria, nos shoppings destes bairros ou em lojas de rua de grandes redes, como Casas Bahia. É interessante notar como a instalação recente de shoppings na periferia da metrópole de São Paulo tem implicado, ao mesmo passo, uma alteração na natureza e na distância dos deslocamentos envolvidos na realização de compras, visto que o centro da cidade ou as localidades populares mais próximas passam a ser, de certo modo, menos requisitadas. Foto 1. Shopping Metrô Itaquera. Fonte: http://www.shoppingitaquera.com.br/metro-itaquera/pt_br/o-shopping/o-shopping.htm Foto 2. Shopping Campo Limpo. Fonte:http://www.shoppingcampolimpo.com.br/o-shopping/. 708 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 Foto 3. Shopping Taboão. Fonte: http://www.shoppingtaboao.com.br/shopping.asp. A posse de cartões de crédito e débito encontra-se, de fato, bastante generalizada entre a população de baixa renda residente na periferia da metrópole paulistana. Dentre os entrevistados em Itaquera, Campo Limpo e no Taboão da Serra, mais de 80% afirmaram possuir um ou mais cartões de crédito na família. A posse de cartões de loja (os chamados “private label”) encontra-se igualmente difundida, ainda que em menor escala: 50% dos entrevistados já possuem cartões deste tipo. Os cartões de loja mais freqüentes são de redes de vestuário, eletrodomésticos e supermercados, tais como: Marisa, C&A, Casas Bahia, Carrefour e Extra. Cabe assinalar, nesta direção, que os aparelhos eletrodomésticos compreendem os produtos para os quais a população de baixa renda costuma recorrer ao crédito e/ou ao pagamento parcelado com maior frequência. A financeirização da pobreza tem implicado, assim, reconfigurações das práticas de consumo entre a população de baixa renda tanto nas áreas centrais quanto nas periferias de grandes metrópoles como São Paulo. Nos bairros periféricos, estes novos processos têm provocado uma perda relativa de mercados para os pequenos negócios do circuito inferior que não podem praticar os mesmos preços e tampouco oferecer as mesmas condições de pagamento que as grandes redes. A publicidade e a importância simbólica da freqüência a determinados tipos de estabelecimentos também desempenham um papel central neste avanço progressivo do circuito superior sobre a parcela do mercado 709 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 tradicionalmente pertencente ao circuito inferior. Com a crescente instalação das grandes redes, reduz-se, ao mesmo passo, a possibilidade de permanência do dinheiro nos bairros periféricos, uma vez que se multiplicam os canais de drenagem de poupança popular para o circuito superior da economia. Estes processos estão relacionados, por sua vez, à crescente “capilarização” dos serviços financeiros e do crédito pelo território, sobretudo nas grandes cidades. À maior acessibilidade das populações a estes serviços – graças à crescente distribuição de fixos como agências, postos de atendimento, caixas eletrônicos e correspondentes bancários pelo tecido urbano – se acresce à própria ubiquidade alcançada pelas finanças em nosso cotidiano através de diferentes canais eletrônicos, que também se banalizaram nos últimos anos (CONTEL, 2011). Na periferia de São Paulo verifica-se, com efeito, uma crescente capilaridade do sistema bancário e financeiro, sobretudo através da presença de agências físicas, caixas eletrônicos e casas lotéricas. OLIGOPOLIZAÇÃO DO TERRITÓRIO E DO MERCADO A explosão da oferta do crédito e a crescente participação no consumo moderno têm envolvido intensas transformações no cotidiano da população de baixa renda metropolitana. No bojo deste processo, encontra-se a emergência de novos usos corporativos do território que têm ressignificado o tecido urbano e redefinido as relações entre os circuitos da economia urbana. Se, por um lado, a expansão do acesso ao crédito tem garantido a crescente aquisição de bens e serviços entre a população de baixa renda, transformando seu cotidiano através da “antecipação do proveito das coisas”; por outro lado, o vencimento das prestações logo se confronta com a realidade socioeconômica destas famílias (BAUDRILLARD, 2008). Certos efeitos do crescente acesso dos pobres ao consumo através de mecanismos financeirizados têm residido, justamente, no endividamento excessivo, no aumento da inadimplência e no comprometimento de uma parcela importante do orçamento doméstico das famílias de baixa renda com o pagamento de dívidas (SCIRÉ, 2009). No Município de São Paulo, por exemplo, 50,9% das famílias encontram-se endividadas; dentre as famílias com renda inferior a 10 salários mínimos, este percentual ultrapassa 55%. Mais de 55% destas famílias endividadas têm entre 11% e 50% da sua renda mensal comprometida com o pagamento de dívidas. No universo de famílias endividadas com renda até 10 salários mínimos, o cartão de crédito representa o principal tipo de dívida 710 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 (de mais de 75% das famílias), seguido pelos carnês (motivo de endividamento de 24,9% destas famílias)8 (FECOMERCIO, 2013). Conforma-se, assim, uma fragilidade financeira apoiada em uma combinação perigosa: a expansão da oferta e do acesso ao crédito a uma população, já endividada, que não consegue poupar. De acordo com Contel (2011), a “hipercapilaridade” do crédito pode ser entendida, justamente, como causa e conseqüência do aumento do endividamento e da inadimplência. Esses processos se dão com maior intensidade nas metrópoles, onde o custo de vida é mais elevado e a criação de necessidades acompanha o ritmo da aceleração contemporânea. À oligopolização do mercado – sustentada na formação de grandes conglomerados híbridos e em seu crescente interesse no nicho de mercado popular – corresponde uma progressiva oligopolização dos territórios metropolitanos. A diversificação das topologias das grandes empresas do circuito superior vem implicando, com efeito, a propagação de usos corporativos do território a frações menos valorizadas do tecido urbano, redutos até então praticamente cativos do circuito inferior. Ao mesmo passo em que estas áreas se valorizam, estabelecem-se perturbações na economia pobre, uma vez que o circuito inferior tem parte de sua demanda subtraída e perde mercados para o circuito superior, inclusive nas periferias metropolitanas. Estabelecem-se, assim, novas relações entre a urbanização, a pobreza e as finanças. A financeirização, as transformações das práticas de consumo entre a população de baixa renda e a reconfiguração da periferia inserida recentemente na topologia de grandes redes constituem manifestações atuais destes processos em curso que nos demandam, por sua vez, novos olhares analíticos para as formas assumidas por estas relações na contemporaneidade. PRINCIPAIS SITES CONSULTADOS Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (ABECS) (www.abecs.org.br) Associação Brasileira de Shopping Centers (ABRASCE) (www.abrasce.com.br) 8 Dentre as famílias com renda até 10 salários mínimos, as principais dívidas se concentram no cartão de crédito (75,2%), carnês (24,9%), crédito pessoal (12,3%), financiamento de carro (12,3%) e cheque especial (5,1%). Para as famílias com renda superior a 10 salários mínimos, o principal meio de endividamento é o cartão de crédito (65,8%), crédito pessoal (22,5%), cheque especial e financiamento de carro (15,8%) e financiamento de casa (5,8%) (FECOMERCIO, 2013). 711 http://6cieta.org São Paulo, 8 a 12 de setembro de 2014. ISBN: 978-85-7506-232-6 Banco Central do Brasil (www.bcb.gov.br) Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (www.dieese.org.br) Fecomercio Sp (www.fecomercio.com.br) Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (www.ibge.gov.br) Serasa Experian (www.serasaexperian.com.br) REFERÊNCIAS ARROYO, Mónica. A vulnerabilidade dos territórios nacionais latinoamericanos: o papel das finanças. In LEMOS, Amália Ines Geraires de et alli (orgs.). Questões territoriais na América Latina. São Paulo/Buenos Aires: CLACSO. 2006. pp. 177-190. LOPES dos SANTOS, Kauê. Uma financeirização da pobreza? O sistema financeiro e sua capilaridade no circuito inferior da economia urbana na cidade de São Paulo. Trabalho de Graduação individual. Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007. BAUDRILLARD, Jean. O sistema de objetos. São Paulo: Perspectiva, 2008, 5ª edição. NERI, Marcelo. A Nova Classe Média. 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Contudo, o avanço da urbanização tem sido acompanhado pelo aumento da concentração relativa da pobreza nas maiores cidades (ROCHA, 2009). Por outro lado, esta mesma população empobrecida também tem participado, cada vez mais, de um consumo moderno e dos nexos financeiros. Os dinamismos da economia pobre nas metrópoles brasileiras tornam-se, assim, crescentemente complexos; haja vista a conformação deste cenário paradoxal. Diante deste contexto, propomos analisar certas transformações sócio-territoriais relacionadas a estes processos na metrópole de São Paulo, atentando especificamente ao aumento da oferta de crédito à população de baixa renda e ao avanço da apropriação de frações menos valorizadas da cidade por atores altamente capitalizados, como agentes financeiros e grandes redes comerciais e de serviços. Para além da transformação das práticas de consumo, a reconfiguração recente da topologia destes agentes tem implicado a emergência de novos conflitos entre atores com diferentes poderes de uso do território (SANTOS e SILVEIRA, 2001) na disputa pelo controle do tecido urbano e do mercado popular. As grandes redes têm avançado, hoje, sobre as localizações de pequenos negócios pouco capitalizados no tecido urbano, valorizando estas partes da cidade e desarranjando os conteúdos do espaço que permitem sua existência. Sua chegada nestas áreas implica ainda uma maior oferta de crédito, sobretudo através de cartões de crédito das próprias lojas. Diversificam-se, por conseguinte, as práticas de consumo entre os pobres, cujas compras tendem a se distribuir entre as grandes redes, agora presentes em certos bairros periféricos, e o pequeno comércio (DUHAU e GIGLIA, 2007). Por outro lado, reduzem-se o mercado, as localizações viáveis e a possibilidade de trabalho para os atores menos capitalizados. Em São Paulo, processos desta natureza apontam para novas formas de controle exercidas por atores com maior poder de uso do território. Estas envolvem, para além do domínio econômico e territorial, aspectos simbólicos e culturais; haja vista a centralidade do consumo no período atual, cujo reverso compreende, porém, para além do endividamento e da inadimplência, o esvaziamento da cidadania (CANCLINI, 2010; FEATHERSTONE, 1991). Pretendemos compreender analisar assim como o território se torna mais “oligopolizado” e a pobreza mais “financeirizada”; processos que expõe, por sua vez, a capilaridade do controle simbólico e econômico do espaço e do mercado alcançado pelos atores mais poderosos, como os grandes conglomerados econômicos e financeiros. Palavras-chave: pobreza; consumo; finanças. 714