Duração do desemprego e transições para a inatividade e para
o emprego: uma análise das características da busca por
trabalho.
Mauricio Reis
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
Av. Presidente Antonio Carlos, 51 (1409)
Rio de Janeiro, RJ, Brazil – 20020-010
Tel.: (21) 3515-8586
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Marina Aguas
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada
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Rio de Janeiro, RJ, Brazil – 20020-010
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Resumo
Fatores relacionados ao processo de busca por trabalho podem ser importantes para determinar a
probabilidade de um indivíduo desempregado conseguir emprego. Usando dados da PME
(Pesquisa Mensal de Emprego) para o período entre 2003 e 2008, estimamos modelos de
duração que consideram transições do desemprego para o emprego ou a inatividade. Os
resultados mostram que o tipo de providência usada pelo desempregado para conseguir
emprego está associado com a probabilidade de que ele deixe esse estado e que os
mesmos fatores que aumentam a probabilidade de saída do desemprego para o emprego
também contribuem para reduzir a probabilidade de transição do desemprego para a
inatividade.
Abstract
Characteristics of the job search may be important to determine the probability of an
unemployed get jobs. Using data from the PME (Monthly Employment Survey)
covering the period between 2003 and 2008, we estimate duration models that consider
transitions from unemployment to employment or inactivity. The results show that
characteristics of the job search are associated with the likelihood that the unemployed
leave this state. In addition, the same factors that increase the probability of exit from
unemployment to employment also contribute to reduce the likelihood of transition
from unemployment to inactivity.
Palavras-chave: Duração do desemprego, busca por emprego, emprego, inatividade.
Keywords: Unemployment duration, job search, employment, inactivity.
JEL: J60, J64.
1
Duração do desemprego e transições para a inatividade e para
o emprego: uma análise das características da busca por
trabalho.
1 – Introdução
Uma parcela elevada dos desempregados no Brasil encontra-se afastada do
mercado de trabalho há muito tempo. Dados da PME (Pesquisa Mensal de Emprego)
mostram que aproximadamente 25% dos desempregados nas regiões metropolitanas
estão nessa situação há pelo menos um ano1. Para cerca de 13% dos desempregados, a
duração é maior ou igual a 2 anos. Os dados indicam ainda que, em média, os
indivíduos nesse último grupo estão sem trabalhar há mais de 4 anos. Uma
conseqüência direta do desemprego é a incapacidade do indivíduo auferir renda durante
o período de não emprego e, portanto, de contribuir para a renda domiciliar. O
afastamento do mercado de trabalho por muito tempo, no entanto, pode ter ainda outras
implicações negativas para o bem-estar dos trabalhadores. Longos períodos de
desemprego podem reduzir as oportunidades futuras da pessoa no mercado de trabalho
e, com isso, influenciar de forma prejudicial a sua auto-estima e a sua motivação na
procura por emprego. Uma questão importante, portanto, é entender o que determina a
duração do desemprego no Brasil, e o papel desempenhado por características
relacionadas ao processo de busca por trabalho.
Diversos artigos na literatura econômica internacional procuram analisar quais
os fatores que determinam a saída do indivíduo da condição de desempregado,
destacando questões como a dependência da duração e o efeito do seguro-desemprego
(Kiefer, 1988; Van der Berg, 1990; Meyer, 1990, McCall, 1996; Van der Berg e Van
Ours, 1996, 1998, entre outros). Para o Brasil, também podem ser encontrados vários
estudos sobre essa questão. Menezes-Filho e Pichetti (2000) investigam os
determinantes da duração do desemprego na região metropolitana de São Paulo, e os
resultados mostram que indivíduos mais velhos e com mais educação tendem a
apresentar maior duração do desemprego. Esses autores mostram também que a
probabilidade de saída do desemprego para o emprego diminui com a duração do
desemprego a partir de seis meses. Machado e Penido (2002), ampliando a análise para
as 6 regiões metropolitanas brasileiras que fazem parte da PME, encontram que
indivíduos com o primeiro grau completo apresentam menor probabilidade de transição
do desemprego para o emprego. Já Abras e De Felício (2005) mostram que a duração do
desemprego reduz a probabilidade de saída dessa condição, o que é atribuído à
heterogeneidade dos trabalhadores.
Um indivíduo pode deixar a condição de desempregado tanto por ter conseguido
um emprego quanto por ter tomado a decisão de deixar a força de trabalho e se tornar
inativo. Flinn e Heckman (1983) mostram que os fatores que determinam as transições
para o emprego e a inatividade são bastante diferentes. Além disso, a duração do
desemprego pode levar a uma redução na produtividade do trabalhador devido à
depreciação do seu capital humano, principalmente no caso em que não há investimento
1
Para indivíduos com idade entre 21 e 65 anos durante o período de 2003 até 2008. As seis regiões
metropolitanas investigadas pela PME são: Belo Horizonte, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro,
Salvador e São Paulo.
2
em educação e treinamento, fazendo com que as suas oportunidades no mercado de
trabalho se tornam cada vez menores à medida que não consegue encontrar emprego.
Nesse caso, o desestímulo para continuar a busca por emprego deve levar os
trabalhadores desempregados há muito tempo a se retirarem da força de trabalho por
desalento.
O objetivo desse artigo é analisar os determinantes da duração do desemprego,
enfatizando a importância de fatores relacionados às características da busca por
emprego. Na análise empírica, são utilizados dados longitudinais da PME (Pesquisa
Mensal de Emprego), que permitem acompanhar o mesmo indivíduo no mercado de
trabalho ao longo do tempo. A abordagem econométrica consiste em estimar modelos
de duração que consideram transições do desemprego para a inatividade e para o
emprego.
De acordo com os resultados encontrados, o tipo de providência tomada pelo
desempregado para conseguir emprego está associado com a probabilidade de que ele
deixe esse estado. Os mesmos fatores que aumentam a probabilidade de saída do
desemprego para o emprego também contribuem para reduzir a probabilidade de
transição do desemprego para a inatividade. Além disso, desempregados dispostos a
trabalhar mais horas apresentam maiores chances de conseguir emprego, e menores
probabilidades de sair da força de trabalho. Os resultados mostram ainda, que longos
períodos de desemprego reduzem a probabilidade de conseguir emprego, mas não
parecem ter efeito sobre a probabilidade de saída da força de trabalho por desalento.
Esse artigo é composto por cinco seções, além dessa introdução. A seção 2
descreve os dados da PME, enquanto a seção 3 apresenta uma análise descritiva dos
dados, procurando relacionar a duração do desemprego com transições no mercado de
trabalho e demais características dos indivíduos. O método empírico utilizado é descrito
na seção 4 e os resultados obtidos são mostrados na seção 5. Por último, são comentadas
as principais conclusões do artigo.
2 – Os dados
A análise empírica adotada nesse artigo utiliza os dados da PME (Pesquisa
Mensal de Emprego), calculada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística) no período de janeiro de 2003 até dezembro de 2008. Essa pesquisa é
representativa das 6 principais regiões metropolitanas brasileiras e contém várias
informações sobre características individuais e do mercado de trabalho de pessoas com
10 anos de idade ou mais. Pela estrutura longitudinal da PME, é possível acompanhar o
mesmo indivíduo por um período de até 16 meses. Cada domicílio que entra na pesquisa
é entrevistado por quatro meses seguidos, depois permanece 8 meses fora da pesquisa,
retornando, então, para mais uma seqüência de quatro entrevistas. A cada mês, em torno
de 1/8 dos domicílios entrevistados estão participando da pesquisa pela primeira vez.
A partir dos dados da PME, é possível obter a condição no mercado de trabalho
de cada indivíduo, ou seja, se está desempregado, inativo ou empregado. Além disso, a
pesquisa oferece informação referente ao período de tempo que a pessoa vinha
procurando emprego sem interrupção por mais de duas semanas seguidas, assim como o
tempo sem emprego do indivíduo. Essas duas informações são a base para a construção
da variável de duração do desemprego, definida como o tempo que uma pessoa sem
emprego passou buscando trabalho.
Também são disponibilizadas na pesquisa informações individuais sobre: anos
completos de educação, idade, gênero, região metropolitana de residência, raça, número
total de pessoas que moram no domicílio e o número de crianças com menos de 10
3
anos. Pode-se, ainda, obter a educação média dos adultos (definidos como pessoas com
21 anos ou mais de idade) no domicílio, uma variável indicando se existem outros
adultos no domicílio que trabalham e um indicador para os indivíduos que nunca
trabalharam. Para os indivíduos que declararam ter tomado alguma providência para
obter emprego no período, a PME também oferece informações sobre qual foi a
principal providência que o desempregado tomou. A pesquisa também pergunta sobre o
número de horas que o indivíduo estaria disposto a trabalhar caso conseguisse emprego.
A amostra utilizada neste artigo é composta por pessoas entre 21 e 65 anos de
idade, que no período da primeira entrevista da PME se encontravam desempregadas na
semana de referência, estando nesta situação há pelo menos 7 dias. Ao todo,
considerando entradas na pesquisa durante o período de janeiro de 2003 até dezembro
de 2008, a amostra contém 26.303 indivíduos com dados para as 2 primeiras entrevistas.
A amostra diminui para 25.029 observações com informações para as 3 primeiras
entrevistas e para 23.781 considerando os que permaneceram da primeira entrevista até
a quarta.
3 – Análise descritiva
A tabela 1 apresenta as estatísticas descritivas da amostra, para diferentes grupos
de trabalhadores definidos de acordo com a duração do seu desemprego. A primeira
coluna mostra os resultados para as pessoas desocupadas há menos de 6 meses,
enquanto a coluna seguinte reporta os resultados para o grupo com desemprego de 6
meses até menos de 1 ano. Na coluna (3), são mostradas as evidências para os
desempregados com duração de um ano até menos de 2 anos e a coluna (4) apresenta
dados para os desempregados há 2 anos ou mais.
Nota-se que quase 60% dos desempregados se encontram nesta condição há
menos de 6 meses. A participação do grupo de desempregados de 6 meses a menos de 1
ano é de 15%. Já os indivíduos na amostra que reportaram uma duração do desemprego
de 1 ano até menos de 2 anos, apresentam praticamente a mesma participação daqueles
com 2 anos ou mais de duração, ou seja, cerca de 13%.
A tabela 1 também reporta a proporção de trabalhadores que transitaram para a
inatividade no período de 3 meses em cada grupo de duração do desemprego. Esse tipo
de transição aumenta com a duração do desemprego. Entre os desempregados há menos
de 6 meses, a proporção que saiu da força de trabalho é de 24%. Já entre os
desempregados há 2 anos ou mais, 31% se moverem do desemprego para a inatividade
3 meses depois. Com relação às transições do desemprego para o emprego nos 3 meses
seguintes, cabe destacar que a proporção de trabalhadores que experimentaram esse tipo
de mobilidade se reduz com a duração do desemprego. Dos indivíduos há menos tempo
desocupados, 29% conseguiram emprego 3 meses depois, enquanto entre os
desempregados há 2 anos ou mais essa proporção diminui para 16%.
As estatísticas descritivas reportadas indicam ainda que as médias de tempo sem
emprego e de tempo procurando emprego são maiores para os grupos com duração mais
alta do desemprego2. Além disso, a primeira dessas variáveis possui valores bem mais
elevados do que as demais. Na última coluna, por exemplo, a duração média do
desemprego é de 33 meses, enquanto o tempo médio sem emprego é de 51 meses.
Quanto às características dos indivíduos em cada um dos grupos, as médias do
nível de escolaridade e da idade são bastante parecidas entre as colunas. Também notase que as proporções de mulheres e de indivíduos que nunca trabalharam aumentam
2
Para os indivíduos que nunca trabalharam o tempo sem emprego é definido a partir do momento em que
eles começaram a procurar emprego.
4
com a duração do desemprego. Já em relação às características dos domicílios, os dados
mostram que embora a média do número de pessoas no domicílio seja mais alta para os
desempregados há mais tempo, as diferenças são muito pequenas entre as colunas.
Também são encontrados valores semelhantes entre os grupos de duração do
desemprego para o número de crianças com menos de 10 anos e para a média
educacional dos adultos do domicílio.
Tabela 1: Estatísticas descritivas
Des emprego =>Inatividade (%)
Des emprego => Emprego (%)
Dur ação do desemprego (em meses)
Tempo procurando emprego (em mes es)
Tempo sem empr ego (em meses)
Anos de escolar idade
Idade
Mulher (% )
Branco (% )
Nunca trabalhou (%)
No. de pes soas no domicílio
No. de crianças no domicílio
Educação média dos adultos
No. de hor as que estaria disposto a tr abalhar
Duração do desemprego
A té 6 meses De 6 meses até
De 1 ano até
2 anos ou mais
menos de 1 ano menos de 2 anos
24.44
24.94
28. 23
30. 61
29. 1
22.96
18. 13
16. 21
2.09
2.84
15.51
7.22
7.63
22.36
13. 53
14. 02
28. 45
33. 09
33. 33
51. 44
8.86
32.73
55.51
48.46
6.24
3.99
3.37
8.08
42.27
9.06
33.16
60.12
50.27
8.06
3.99
3.40
8.22
42.06
9.26
32. 57
60. 82
47. 45
13. 86
4.02
3.45
8.31
41. 80
8. 80
34. 95
62. 21
46. 08
14. 89
4. 07
3. 50
7. 98
42. 08
69.06
0.87
0.7
9.42
1.04
3.84
13.48
0.59
68.09
0.88
0.54
10.21
0.98
4.97
12.59
0.61
64. 85
0.91
1.13
11. 32
0.74
5.31
13. 01
0.51
62. 34
1. 57
0. 88
10. 18
1. 24
4. 44
17. 84
0. 02
1.01
1.14
2.23
1. 5
59.39
14,123
14.57
3,465
12. 71
3,023
13. 33
3,170
Pri ncipal providência adotada para c onseguir
emprego ( %):
Consultou empregadores
Fez concurso
Ins creveu-se em concurso
Consultou agênc ia ou s indicato
Consultou o SINE
Colocou ou respondeu anúncio
Consultou parente,amigo ou colega
Procurou iniciar empreendimento
como conta própria ou empregador
Outra prov idência
Par ticipaç ão (%)
Observaç ões
Fonte: PME 2002-2008
A amostra incluí apenas trabalhadores desempregados no período de referênc ia t.
Transições para a inativ idade e o emprego s ão referentes ao intervalo de 1 mês.
Todos os valores são c alculados considerando o peso de cada observ ação na amos tra.
São consideradas crianças aquelas c om menos de 10 anos e são class ificados como adultos os indivíduos
com 21 anos ou mais.
A tabela 1 mostra que o número médio de horas que o indivíduo estaria disposto
a trabalhar, caso conseguisse emprego, não varia com a duração do desemprego. Com
relação a providência tomada para conseguir emprego, nota-se que proporção dos que
consultaram empregadores diminui de 69% entre os desempregados há menos de 6
meses para 62% entre os desempregados há 2 anos ou mais. Consultas a agências,
sindicatos ou ao SINE não apresentam uma tendência definida, assim como a procura
5
por emprego através de anúncios. Consultas a parentes, amigos ou colegas possuem
uma representatividade maior entre os desempregados há 2 anos ou mais.
A análise descritiva mostra, portanto, que a proporção de trabalhadores que
transitam do desemprego para a inatividade é maior entre os que estão desempregados
há mais tempo. Deve-se ressaltar também que a proporção de trabalhadores que
conseguem emprego diminui bastante com o tempo de desocupação. As características
individuais dos trabalhadores, no entanto, são em média parecidas entre os grupos de
duração do desemprego.
4 – Abordagem empírica
A função hazard oferece a probabilidade instantânea de o indivíduo deixar o
desemprego em um dado período t, dado que permaneceu desempregado até t. Seguindo
a descrição de Cameron e Trivedi (2005) e Addison e Portugal (2001), a função hazard
pode ser representada como:
(1) h(t ) = lim ∆t →0
P(t ≤ T < t + ∆t / T ≥ t )
f (t )
f (t )
=
=
∆t
1 − F (t ) S (t )
Onde F(t) é a função distribuição acumulada de T, e f(t) é a função densidade de
probabilidade, onde f (t ) = dF (t ) dt . A função sobrevivência, representada por S(t),
fornece a probabilidade de que a duração do desemprego seja maior ou igual a t, onde
S(t)=1-F(t).
t
A função hazard integrada, representada por Λ (t ) = ∫ h(s )ds , está relacionada da
0
seguinte maneira com a função sobrevivência:
(2) S (t ) = e − Λ (t )
Dois destinos de saída do desemprego são considerados neste artigo: a
inatividade e o emprego. Dessa forma, a função hazard para o destino j pode ser
definida como:
(3) h j (t ) = lim ∆t →0
P(t ≤ T < t + ∆t / T ≥ t e J = j )
, j=1,2.
∆t
A partir da equação (3) pode ser definida a seguinte função hazard agregada:
2
(4) h(t ) = ∑ h j (t )
j =1
E a seguinte função sobrevivência:
2
(5) S (t ) = ∏ S (t ) , onde S (t ) = e
j =1
j
j
− Λ j (t )
t
, e Λ (t ) = ∫ h j (s )ds .
j
0
6
O modelo supõe, portanto, que os riscos de saída para cada um dos destinos
considerados são independentes com duração contínua.
A forma funcional utilizada neste artigo para representar a função hazard é a
Weibull, que pode ser descrita, incluindo as covariadas x, por:
(6) h(t ) = αλαi t α −1 , onde λi = e xi′β
O parâmetro α representa a dependência da duração. Quando α>1, a função é
crescente, indicando uma dependência positiva da duração, enquanto para α<1 a
dependência da duração é negativa. Quando α=1 a duração do desemprego não
influencia a probabilidade de saída desse estado. Os resultados estimados para a
probabilidade de saída do desemprego usando os dados da PME são apresentados e
comentados na seção seguinte.
5- Resultados
Na tabela 2, são apresentados os resultados estimados para a duração do
desemprego a partir de uma função hazard representada por uma distribuição Weibull.
São consideradas transições para a inatividade e para o emprego em um intervalo de 3
meses3. Os resultados mostram que a probabilidade de saída do desemprego tem
relação com as características do processo de busca por emprego, e que diferentes
providências para conseguir emprego estão associadas a diferentes transições no futuro.
As colunas (1) e (2) mostram os resultados sem considerar heterogeneidades nãoobservadas, enquanto as colunas (3) e (4) apresentam os resultados que consideram
heterogeneidades não-observadas entre as pessoas4.
Indivíduos que consultaram empregadores apresentam menor probabilidade de
sair do desemprego para a inatividade e maior probabilidade de conseguir emprego nos
três meses seguintes em relação a outras maneiras de busca não consideradas na tabela
2, que é o grupo omitido. Resultados semelhantes são obtidos para consultas a agências,
sindicatos e ao SINE, procura através de anúncios, assim como para consultas a
parentes, amigos ou colegas. Essas formas de procurar emprego parecem indicar um
comprometimento maior do desempregado, aumentando as chances se empregar nos
três meses seguintes e reduzindo a probabilidade de que venha a desistir de continuar
procurando emprego e sair da força de trabalho. Providências para iniciar um
empreendimento como conta-própria ou empregador aumentam tanto a probabilidade de
transição para a inatividade quanto para o emprego nas colunas (1) e (2). Já
considerando as heterogeneidades não-observadas, nas colunas (3) e (4), os resultados
mostram que essa providência aumenta a probabilidade de transição para o emprego,
mas não é significativa para mudanças para a inatividade.
A tabela 2 também mostra que pessoas dispostas a trabalhar mais horas têm
maior probabilidade de obter emprego nos 3 meses seguintes e uma probabilidade mais
baixa de transitar para a inatividade. Portanto, embora o número de horas que a pessoa
3
Os resultados são robustos a diferentes critérios utilizados para definir a transição do desemprego para a
inatividade. As regressões são estimadas considerando a mobilidade do desempregado do mês t para o
mês t+1, transições nos meses t+1 e t+2, assim como para a definição que considera a transição do
desempregado no mês t para um determinado estado no mês t+1 e a sua permanência nessa condição nos
meses t+2 e t+3.
4
A heterogeneidade não-observada é representada por um termo multiplicativo associado a cada função
hazard: h(t ) = αλαi t α −1υ j . Supõe-se que esse termo tem distribuição gama.
7
declara pretender trabalhar, caso venha a conseguir emprego, seja bastante subjetiva, os
resultados indicam que essa variável está significativamente associada com as
probabilidades de transição. Isso pode ser devido ao comprometimento da pessoa
quanto a conseguir emprego ou ao fato de pessoas dispostas a trabalhar apenas em
tempo parcial não terem as mesmas oportunidades no mercado de trabalho.
Ta bela 2: Modelo de duração do desem prego
Função haza rd represe ntada por uma distribuição Wei bull
Modelo sem heterogeneidade Modelo com heterogeneidade
Consultou empregadores
Consultou agênc ia, sindicato
ou o SINE
Colocou ou respondeu anúncio
Consultou parente,amigo ou colega
Procurou iniciar empreendimento
como conta própria ou empregador
ln(horas que des ejaria trabalhar)
Esc olaridade
Idade
Idade ao quadrado
Mulher
Branco
Nunca trabalhou
Total de pessoas no domicílio
Total de c rianças
Educação média dos adultos
Dummy indicando que existem outros
adultos no domic ílio que trabalham
8
Observaç ões
Log-veros similhança
Transiç ão do desemprego:
Transição do desemprego:
Para a inatividade Para o emprego
Para a inatividade Para o emprego
(1)
-0.306
(0.082)***
-0.456
(0.090)***
-0.307
(0.101)***
-0.365
(0.089)***
0.402
(0.193)***
-0.404
(0.083)***
-0.024
(0.006)***
-0.05
(0.009)***
0.001
(0.000)***
0.342
(0.029)***
-0.02
(0.030)
-0.102
(0.043)**
-0.024
(0.009)*
0.036
(0.018)**
0.017
(0.007)
0.077
(0.031)
(2)
0.375
(0. 116)***
0.269
(0. 121)**
0.295
(0. 135)**
0.297
(0. 122)**
1.164
(0. 205)***
0.341
(0. 105)***
-0.013
(0. 006)**
0.035
(0.01)***
-0.001
(0.00)***
-0.491
(0. 028)***
-0.038
(0.031)
-0.653
(0. 057)***
-0.022
(0.01)**
0.049
(0. 018)***
0.005
(0.007)
-0.117
(0.031)
(3)
-0. 447
(0.115)***
-0.64
(0.125)***
-0. 432
(0.137)***
-0. 501
(0.123)***
0.387
(0.239)
-0. 481
(0.107)***
-0. 031
(0.008)***
-0. 059
(0.011)***
0.001
(0.00)***
0.417
(0.037)***
-0.03
(0.038)
-0. 136
(0.056)**
-0. 028
(0.012)**
0.042
(0.023)*
0.018
(0.009)**
0.093
(0.04)**
(4)
0.543
(0.239)*
0.46
(0.248)*
0.52
(0.267)*
0.583
(0.249)**
1.783
(0.339)***
0.577
(0.177)***
-0.029
(0.011)***
0.066
(0.017)***
-0.001
(0.000)***
-0.836
(0.051)***
-0.027
(0.054)
-1.164
(0.112)***
-0.028
(0.017)**
0.049
(0.032)**
0.01
(0.013)
-0.249
(0.054)***
0.839
(0.006)***
23,523
-18567.45
0.774
(0. 006)***
23,523
-19104.92
0.9911
(0.025)
23, 523
-18523.70
1.3409
(0.045)***
23,523
-18779.13
Nota: os erros-padrão r obustos são apresentados entre parênteses. Para o parâmetr o 8 a hipótes e nula 8 =1.
Todas as regres sões incluem dummies para as regiões metropolitanas.
* Significativo para o nív el de 10%, ** signific ativo para o nível de 5%, *** signif icativo para o nível de 1%.
8
As colunas (1) e (2) mostram que transições para a inatividade e para o
emprego apresentam dependência negativa da duração. Ou seja, quanto maior o tempo
de desemprego, menor a probabilidade de permanecer nesse estado. Porém,
considerando as heterogeneidades não-observadas, os resultados se tornam bem
diferentes. De acordo com as colunas (3) e (4), a duração do desemprego não influencia
a probabilidade de saída para a inatividade, enquanto indivíduos desempregados há mais
tempo apresentam menor probabilidade de saída para o emprego.
Nota-se ainda na tabela 2 que pessoas com nível mais elevado de escolaridade
têm menor probabilidade de transição para a inatividade e para o emprego. O
coeficiente da idade é negativo para transições para a inatividade e positivo para o
emprego, enquanto o coeficiente da idade ao quadrado é positivo para mudanças para a
inatividade e negativo quando se considera transições para o emprego. Mulheres
apresentam maior probabilidade de trocarem o desemprego pela inatividade, e menor
probabilidade de transição para o emprego. Indivíduos que nunca trabalharam e aqueles
com muitas pessoas no domicílio têm menor probabilidade de saída do desemprego. O
número de crianças aumenta a probabilidade de saída do desemprego tanto para a
inatividade quanto para o emprego. Nota-se, finalmente, que a presença de outros
adultos no domicílio que trabalham aumenta a probabilidade de transição para a
inatividade e reduz a probabilidade de transição para o emprego.
No apêndice, são mostrados os resultados utilizando um modelo Cox ao invés da
função Weibull5. Os resultados encontrados são bastante semelhantes aos reportados na
tabela 2. Também são estimados, usando a distribuição Weibull, modelos para a
duração do tempo de procura por emprego e do tempo sem emprego. De forma geral, os
resultados são similares aos obtidos para a duração do desemprego. Uma diferença que
pode ser notada, no entanto, se refere a dependência da duração para saídas para a
inatividade. Os resultados no apêndice mostram que aumentos no tempo sem emprego e
no tempo de busca por emprego aumentam a probabilidade de transição do desemprego
para a inatividade.
6 – Conclusões
A probabilidade de um indivíduo desempregado conseguir emprego deve
depender, entre outros fatores, das providências tomadas no processo de busca por
trabalho. Da mesma maneira, algumas medidas para conseguir emprego podem indicar
pouco empenho, sendo um indicador de que o indivíduo está propenso a sair da força de
trabalho por desalento. Investigamos nesse artigo de que maneira o processo de busca
por emprego influencia as probabilidades de transição do indivíduo da condição de
desempregado para as condições de empregado ou de inativo. Nessa análise, são usados
microdados da PME para o período de janeiro de 2003 até dezembro de 2008, já que a
PME permite que seja observada a condição de um mesmo indivíduo no mercado de
trabalho em diferentes períodos de tempo, e com isso, identificar transições do
desemprego para outros estados.
De acordo com os resultados estimados, o tipo de providência usada pelo
desempregado para conseguir emprego está associado à probabilidade de que ele venha
a sair desse estado, o que pode acontecer através da obtenção de um emprego ou pela
decisão de deixar de fazer parte da força de trabalho. Fatores que aumentam a
probabilidade de saída do desemprego para o emprego também parecem contribuir para
5
Nesse caso, a hazard é representada: h(t ) = γ 0 (t )e xi′γ
9
diminuir a probabilidade de que o trabalhador transite do desemprego para a
inatividade. Consultas a empregadores, a agências, sindicatos ou ao SINE, assim como
buscas através de anúncios e consultas a parentes, amigos ou colegas estão relacionadas
a maiores probabilidades de transição do desemprego para o emprego em comparação
com outras formas de busca. Essas mesmas providências também estão associadas a
probabilidades mais baixas de saída do desemprego para a inatividade. Os resultados
também mostram que desempregados dispostos a trabalhar mais horas apresentam
maiores chances de conseguir emprego, assim como possuem uma probabilidade menor
de saída para a inatividade nos três meses seguintes. Também são encontradas
evidências sugerindo que longos períodos de desemprego reduzem as oportunidades
futuras dos indivíduos, diminuindo a probabilidade de conseguir emprego. Os
resultados, porém, não indicam que o desemprego de longo prazo aumenta a
probabilidade saída da força de trabalho por desalento.
10
Referências
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ausência de dependência na duração para as regiões metropolitanas no Brasil (19842000)”. Mimeo.
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risks”. IZA working paper No. 350.
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Work”. Econometrica, vol. 64(3).
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metropolitano”. CEDEPLAR/UFMG: Texto para Discussão n. 83.
Van der Berg, G. (1990).” Nonstationarity in job search theoty”. Review of Economics
Studies, vol. 57(2).
Van der Berg, G. and J. Van Ours, 1998.“On the detection of state dependence using
aggregate outflow data: comments on previous studies”. The Economic Journal, vol.
108.
Van der Berg, G. e J. Van Ours (1996).“Unemployment dynamics and duration
dependence”. Journal of Labor Economics, vol. 14(1).
11
Apêndice
Ta bela A.1: Model o de duração do desemprego
Função haza rd represe ntada por um m odelo Cox
Trans ição do desemprego:
Consultou empregadores
Consultou agênc ia, sindicato
ou o SINE
Colocou ou respondeu anúncio
Consultou parente,amigo ou colega
Procurou iniciar empreendimento
como conta própria ou empregador
ln(horas que des ejaria trabalhar)
Esc olaridade
Idade
Idade ao quadrado
Mulher
Branco
Nunca trabalhou
Total de pessoas no domicílio
Total de c rianças
Educação média dos adultos
Dummy indicando que existem outros
adultos no domic ílio que trabalham
Observaç ões
Log-veros similhança
Para a inatividade
Para o emprego
(1)
-0. 334
(0.077)***
-0. 465
(0.085)***
-0. 314
(0.095)***
-0. 381
(0.084)***
0. 266
(0. 184)
-0. 385
(0.078)***
-0. 023
(0.006)***
-0. 044
(0.008)***
0. 001
(0.000)***
0.35
(0.027)***
-0. 016
(0. 029)
-0. 043
(0. 041)
-0. 021
(0.009)**
0. 034
(0.017)**
0. 015
(0.007)**
0.08
(0.029)***
(2)
0.324
(0.112)***
0.24
(0. 117)**
0.271
(0. 129)**
0.27
(0. 118)**
1.017
(0.194)***
0.337
(0.098)***
-0.013
(0. 006)**
0.042
(0.009)***
-0.001
(0.000)***
-0.479
(0.026)***
-0.027
(0.029)
-0.554
(0.054)***
-0.017
(0.009)*
0.04
(0. 017)**
0.003
(0.007)
-0.119
(0.029)***
23,523
-56771.86
23,523
-57031.457
Nota: os erros-padrão r obustos são apresentados entre parênteses.
Todas as regres sões incluem dummies para as regiões metropolitanas.
* Significativo para o nív el de 10%, ** signific ativo para o nível de 5%, *** signif icativo para o nível de 1%.
12
Ta bela A.2: Model o de duração do tem po procura ndo emprego
Função haza rd represe ntada por uma distribuição Wei bull
Modelo sem heterogeneidade Modelo com heterogeneidade
Consultou empregadores
Consultou agênc ia, sindicato
ou o SINE
Colocou ou respondeu anúncio
Consultou parente,amigo ou colega
Procurou iniciar empreendimento
como conta própria ou empregador
ln(horas disp. p/ trabalhar)
8
Observaç ões
Log-veros similhança
Transiç ão do desemprego:
Transição do desemprego:
Para a inatividade Para o emprego
Para a inatividade Para o emprego
(1)
-0.305
(0.082)***
-0.445
(0.089)***
-0.327
(0.100)***
-0.382
(0.088)***
0.462
(0.192)**
-0.423
(0.082)***
(2)
0.387
(0. 115)***
0.286
(0. 120)**
0.283
(0. 133)**
0.282
(0. 121)**
1.255
(0. 202)***
0.277
(0. 103)***
(3)
-0. 396
(0.104)***
-0. 567
(0.114)***
-0. 401
(0.126)***
-0. 477
(0.112)***
0.471
(0.223)**
-0. 511
(0.101)***
(4)
0.566
(0.201)***
0.483
(0.210)**
0.498
(0.228)**
0.506
(0.210)**
1.831
(0.298)***
0.446
(0.157)***
0.844
(0.007)***
23,523
-18569.46
0.788
(0. 006)***
23,523
-18969.23
0.952
(0.020)**
23, 523
-18542.68
1.185
(0.032)***
23,523
-18742.28
Nota: os erros-padrão r obustos são apresentados entre parênteses. Para o parâmetr o 8 a hipótes e nula 8 =1.
Todas as regres sões incluem dummies para as regiões metropolitanas, escolaridade, idade, idade ao quadrado,
mulher, br anco, uma dummy para o indivíduo que nunca tr abalhou, o total de pessoas no domicílio, o total de
crianças, a educ ação média e uma dummy indicando que outro adulto no domic ílio trabalha.
* Significativo para o nív el de 10%, ** signific ativo para o nível de 5%, *** signif icativo para o nível de 1%.
13
Ta bela A.3: Model o de duração do tem po se m em prego
Função haza rd represe ntada por uma distribuição Wei bull
Modelo sem heterogeneidade Modelo com heterogeneidade
Consultou empregadores
Consultou agênc ia, sindicato
ou o SINE
Colocou ou respondeu anúncio
Consultou parente,amigo ou colega
Procurou iniciar empreendimento
como conta própria ou empregador
ln(horas disp. p/ trabalhar)
8
Observaç ões
Log-veros similhança
Transiç ão do desemprego:
Transição do desemprego:
Para a inatividade Para o emprego
Para a inatividade Para o emprego
(1)
-0.198
(0.075)***
-0.291
(0.084)***
-0.16
(0.096)*
-0.257
(0.082)***
0.117
(0.180)
-0.028
(0.086)
(2)
0.473
(0. 115)***
0.411
(0. 121)***
0.434
(0. 134)***
0.396
(0. 122)***
0.963
(0. 205)***
0.646
(0. 105)***
(3)
-0. 194
(0.083)**
-0.30
(0.092)***
-0. 141
(0.105)
-0. 259
(0.090)***
0.149
(0.209)
-0. 022
(0.094)
(4)
0.769
(0.190)***
0.664
(0.199)***
0.765
(0.217)***
0.783
(0.203)***
1.904
(0.377)***
0.948
(0.171)***
0.893
(0.008)***
23,523
-17765.05
0.718
(0. 006)***
23,523
-19767.52
0.951
(0.013)**
23, 523
-17751.71
1.103
(0.031)***
23,523
-19521.70
Nota: os erros-padrão r obustos são apresentados entre parênteses. Para o parâmetr o 8 a hipótes e nula 8 =1.
Todas as regres sões incluem dummies para as regiões metropolitanas, escolaridade, idade, idade ao quadrado,
mulher, br anco, uma dummy para o indivíduo que nunca tr abalhou, o total de pessoas no domicílio, o total de
crianças, a educ ação média e uma dummy indicando que outro adulto no domic ílio trabalha.
* Significativo para o nív el de 10%, ** signific ativo para o nível de 5%, *** signif icativo para o nível de 1%.
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Duração do desemprego e transições para a inatividade e