A QUÍMICA COMO CIÊNCIAS NATURAIS: RELATOS DE UMA EXPERIÊNCIA PEDAGÓGICA. Hébia Tiago de Paula Monteiro1 Resumo Este trabalho trata-se de uma experiência pedagógica desenvolvida na VI Etapa de Estudos Presenciais, turma 2008, na Faculdade Indígena Intercultural - UNEMAT, durante o período de 12 a 16 de julho de 2010. Objetivo desse trabalho é apresentar a metodologia de ensino adotada para o desenvolvimento dos conteúdos de Química e os resultados obtidos durante as atividades teóricas e práticas no curso de Licenciatura para Professores Indígenas. Introdução A VI Etapa de Estudos Presenciais, turma 2008, realizouse no período de 12 a 16 de Julho de 2010. O componente curricular Química foi oferecido a trinta e cinco alunos das etnias: Apiaká, Aweti, Bororo, Kayabi, Mebêngôkre, Paresi, Tapirapé, Terêna, Umutina, Xavante, Zoró. As atividades planejadas para a VI Etapa de Estudos presenciais, parte do pressuposto de que a curiosidade natural do homem o leva a explorar o ambiente que o cerca, observando, analisando, realizando experiências, procurando saber o porquê das coisas e nestas atividades exploradoras e investigativas, o homem adquire novos conhecimentos. Nesse contexto o objetivo da disciplina é propor estudos e discussões direcionados para as práticas docente reflexiva dos cursistas, tendo em vista ampliar conhecimentos relativos à Química para o educador das séries iniciais. Mestre em Ciências Ambientais; Professora da Faculdade Indígena na área de Ciências da Matemática e da Natureza – Universidade do Estado de Mato Grosso/UNEMAT 1 CADERNOS DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA Os conteúdos trabalhados nas aulas foram: A química como ciência: benefícios e riscos; Identificação dos produtos químicos: rótulos e símbolos. Agrotóxicos: classificação, danos a saúde, cuidados e alternativas não tóxicas. Lixo: classificação, problemas ambientais e sociais. Conceitos fundamentais de química. A constituição da matéria: átomo, elementos químicos; estados da matéria; mudanças dos estados da matéria; Propriedades gerais da matéria; propriedades específicas da matéria. Classificação da matéria: substâncias pura; mistura homogêneas e heterogêneas. Separação de misturas heterogêneas. Separação de misturas homogêneas A Prática como instrumento de uma aprendizagem significativa Considerando a teoria da aprendizagem significativa proposta por Ausubel (1982) os conteúdos de química foram desenvolvidos a partir de questionamentos e/ou atividades práticas, levando os alunos a uma aprendizagem por meio de descobertas. Os conhecimentos prévios dos alunos sobre química foram valorizados, como ferramenta para construir estruturas mentais que permitissem descobrir e redescobrir outros conhecimentos, caracterizando, assim, uma aprendizagem prazerosa e eficaz. Entretanto vale ressaltar que para alguns alunos esse foi primeiro contato com conteúdos específicos da química. Com base nessa informação foi necessário contextualizar os conteúdos de química no currículo escolar do ensino fundamental e médio. Como discussão inicial foi solicitado aos alunos que explicassem o processo de preparo da tinta, produzida por muitas etnias para pinturas corporais, utilizando-se de carvão e jenipapo (Genipa americana). Conforme os alunos descreviam o processo de preparação da tinta os elementos utilizados eram elencados na lousa. Assim ao final refletimos como o jenipapo e o carvão se transforma em uma tinta resistente e insolúvel. 40 A QUÍMICA COMO CIÊNCIAS NATURAIS: RELATOS DE ... Através dessa reflexão foi possível entender que a química estuda a composição, a energia e a transformação da matéria. A partir desse consenso passou a atribuir os benefícios que a química proporciona no nosso dia a dia. Ao serem questionados sobre os benefícios da química tivemos como respostas: A química trouxe benefícios dos remédios de farmácia para nossa comunidade (Zezanias – Etnia Pareci). Trouxe benefícios do combustível para o barco a motor, antes era só barco a remo e agora temos motor a óleo (Awajatu – Etnia Aweti). Quanto questionados sobre os riscos proporcionados pelo uso e manipulação de produtos químicos as respostas refletiram a mesma preocupação acerca dos riscos dos alimentos industrializados para a saúde dos povos indígenas. Doenças como diabetes, hipertensão, cárie e especialmente o acumulo do lixo foram mencionadas como os principais problemas encontrados nas comunidades indígenas por conseqüência da utilização de produtos industrializados. Após apresentação dos riscos e benefícios da química foi trabalhado com os alunos a leitura e rótulos e símbolos em embalagens de produtos químicos como em frascos de agrotóxicos, medicamentos, produtos de limpeza, álcool e inseticidas. A discussão proporcionada durante essa atividade surpreendeu alguns alunos quanto à indicação de perigo nos rótulos por meio de faixa coloridas. Os fabricantes utilizamse cores: vermelha, amarela, azul e verde para indicar o grau de toxidade/perigo dos seus produtos. Além das cores os fabricantes utilizam-se de símbolos para indicar propriedades dos produtos. Para os alunos a descoberta de novos símbolos, além da caveira que muitos atribui o significado de “perigo”, favorece a prevenção de acidentes ao manusear e utilizar produtos químicos. Ainda na perspectiva dos ricos proporcionados pela química a compreensão dos tipos de lixo quanto a sua origem e qual a melhor maneira de descartar-los culminou na reflexão na destinação do lixo das aldeias. Ao descreverem a destinação do lixo de suas aldeias os alunos demonstraram bastante 41 CADERNOS DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA preocupados com o surgimento de doenças como: verminose e doenças de pele. A visita ao lixão da cidade de Barra do Bugres-MT, reforçou a preocupação dos alunos quanto à necessidade de cuidar do descarte adequado do lixo produzido em suas comunidades. A presença de catadores de lixo, residindo no lixão, chamou bastante a atenção dos alunos. Muitos se mostraram bastante sensibilizados quanto às condições de trabalho dos catadores e a possibilidade de autocontaminação pelos dejetos. Apesar do impacto causado pela presença de moradores no espaço do lixão, muitos ficaram bastante entusiasmados com a possibilidade de vender resíduos recicláveis para fabricas especializadas. Os alunos não apresentaram dificuldade para entender a definição de matéria, entretanto a constituição dos átomos retratada de maneira teórica é bastante abstrata, então foi necessário demonstrar a presença de energia em todos os tipos de matéria realizando uma atividade prática utilizando canudos de refrigerante e um pedaço de papel higiênico. A prática consiste em tentar fixar um canudinho na parede, sem a ajuda de materiais colantes. Inicialmente o canudinho e a parede possuem a mesma carga elétrica e por conseqüência um repele o outro, e o canudinho não fixa na parede. Entretanto ao friccionar o canudinho com o papel higiênico a energia que compõe os átomos do canudinho se inverte, e por ter carga elétrica diferente da parede agora o canudinho fixa a parede. Essa atividade prática teve por objetivo proporcionar a visualização da energia presente em todos os tipos da matéria. Apreendido o conceito de matéria, átomos e energia passamos ao conteúdo composição da matéria e os elementos químicos. Para facilitar a compreensão desse conteúdo foi realizada atividade prática utilizando embalagens, rótulos de diferentes produtos (creme dental, sabonete, sal, água mineral, biscoito, refrigerante, achocolatado) e a tabela periódica. Inicialmente os alunos fizeram leitura da composição/ ingredientes dos diferentes produtos e identificaram os elementos químicos encontrados em sua composição. Posteriormente buscavam na tabela periódica os elementos encontrados na composição dos produtos. Com a realização dessa atividade prática foi possível trabalhar os elementos 42 A QUÍMICA COMO CIÊNCIAS NATURAIS: RELATOS DE ... químicos, símbolos dos elementos na tabela periódica e a diferença de átomo e molécula. Ainda com a tabela periódica iniciamos a discussão dos tipos de matéria encontrados no ambiente: sólido, liquido e gasoso. O conceito dos estados da matéria foi trabalhado com os acadêmicos durante a IV Etapa Intermediaria 2009/2, contudo o conceito foi revisado através de dinâmicas com o grupo. Partindo do pressuposto que o comportamento dos átomos é o que define os estados da matéria, seis alunos foram convidados a ir à frente da turma e representar o comportamento de átomos em diferentes estados. Quando no estado sólido os alunos permaneciam abraçados e a força de atração entre eles determinava a rigidez e a elasticidade do sólido que estavam representando. Ao diminuir a força do abraço o sólido representado se modificava para um liquido, onde as ligações permanecem ao ponto de mate-los unidos, mas também possibilitava o movimento individual do átomo/ aluno, a possibilidade de permanecer ligados e movimentarse, ao mesmo tempo, caracteriza a fluidez dos líquidos. Quando os alunos se soltam uns dos outros e o abraço, no caso a força de atração, deixa de existir os alunos passam a representar o comportamento dos átomos de um gás. A temperatura é quem determina o comportamento dos átomos de um gás. Para visualizar melhor esse conceito, foi encaixado na boca de garrafa (vidro) de refrigerante um balão e posteriormente a garrafa foi aquecida. À medida que aumenta a temperatura os gases, dentro da garrafa, se movimentam mais rápido e passam da garrafa para o balão. Além de entender melhor a definição dos estados da matéria essa atividades prática possibilitou melhor compreensão do processo de mudanças de um estado para outro. Assim conceitos como ponto de fusão e ebulição foi entendido como o momento em que um estado se transforma em outro. Além das características como rigidez, elasticidade e fluidez conceitos como densidade, volume e massa, foram discutidos a partir da dinâmica do “abraço”. Para comprovar esses novos conceitos foi realizada atividade utilizando uma balança feita pelos alunos a partir de régua e clips. 43 CADERNOS DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA Inicialmente foram pesados, na balança, objetos com tamanho diferentes, mas que tinha o mesmo peso para discutirmos a diferença entre volume e massa. Com a internalização desse conhecimento, passamos a ter condições para discutir o que é densidade. Quando os alunos foram questionados qual a definição de densidade, responderam que o objeto mais denso é o objeto que afunda. Utilizando essa idéia foi usada uma bacia com água e vários objetos como: borracha, caneta, lápis, moeda, papel, ovo, coca cola e coca zero, em grupos os alunos fizeram a prova da densidade do que era mais denso: a água ou o objeto. Ao colocarem as latinhas de refrigerante na bacia com água, a lata de refrigerante diet flutuou já a lata de refrigerante normal afundou. Essa situação levou os alunos a refletir sobre o conceito de densidade, pois as latinhas têm o mesmo volume (tamanho da latinha) e a mesma quantidade em ml. A resposta dessa problemática foi resolvido quando as latinhas foram colocadas na balança, uma vez que o refrigerante normal tem em sua composição açúcar e por isso é mais pesado e afunda. Já no refrigerante diet o açúcar é substituído por adoçante que mais leve e por isso a latinha flutua. Como forma de tirar a prova foi pesada na mesma quantidade, na balança de régua, água e óleo e a prova foi estabelecida, pois o óleo apresentou-se mais leve que a água e por isso ele flutua quando colocado na água. Assim o conceito de densidade foi compreendido como a razão entre massa e volume. Após desenvolvimento dos conteúdos: composição, estados e características da matéria, os alunos passaram a ter fundamentação teórica para compreender que a matéria dificilmente será encontrada na natureza compostos por apenas um único elemento químico. Partindo desse pressuposto iniciamos as discussões sobre quando uma substancia é pura e quando é uma mistura. Utilizando água e vários sólidos como: sal, fubá, açúcar, farinha de trigo e areia preparamos vários tipos de misturas. Ao misturar sal e água obtivemos uma mistura homogênea e as outras misturas do tipo heterogêneas. A idéia e soluto, solvente e solução foram internalizados durante o processo de preparo das diferentes misturas. 44 A QUÍMICA COMO CIÊNCIAS NATURAIS: RELATOS DE ... Considerando as misturas feitas durante atividade em sala de aula, os alunos foram instigados qual seria o processo adequado para separar cada tipo de mistura. Em grupos, de acordo com as etnias, os alunos planejaram e desenvolveram uma aula. Além do conceito teórico de cada processo de separação de misturas (homogênea e heterogênea) os alunos desenvolveram a prática de cada processo. Processos como destilação simples, utilizado para separar sólido e líquido, foi demonstrado através do aquecimento da mistura homogênea composta de água e sal. Nesse processo o liquido entra em ebulição, vaporiza-se e a seguir condensase, separando-se do sólido. Já no processo de separação de mistura heterogênea, composta por sólidos diferentes pode ser feita através da catação onde os fragmentos são catados com a mão. A ventilação é outro processo de separação que foi demonstrada na prática através da utilização de peneira e uma mistura de arroz e fubá a corrente de ar separa o componente mais leve no caso o fubá. Além da ventilação outros processos de separação de sólidos diferentes utilizam peneiras como ferramenta como é o caso do processo levigação e peneiração ao apresentar esses processos utiliza-se a peneira como ferramenta, mas adotaram procedimentos diferentes. No caso da levigação os alunos utilizaram um balde com água para demonstrar o processo. Essa atividade tornou-se bastante interessantes a partir do momento que os alunos foram desafiados a elaborar um plano de aula com todos os requisitos recomendados para o desenvolvimento de aulas de qualidade. Considerações Finais Ao finalizar a programação da semana, proposto para o componente curricular de química, os alunos foram questionados de que forma as aulas de química podem colaborar com o trabalho do professor indígena. As respostas consentiram que o conteúdo de química inicialmente é bastante difícil, mas as atividades práticas contribuíram para o entendimento das teorias. 45 CADERNOS DE EDUCAÇÃO ESCOLAR INDÍGENA A disciplina de química é muito complicado, quando não se tem um domínio sobre os conteúdos, mas com esclarecimento teórico e prático isso se torna mais fácil ou menos difícil. Isso com certeza nos ajuda a ter uma confiança dos alunos e da comunidade, pois o professor só é professor quando tem domínio sobre o que se é ensinado. Assim o trabalho se torna mais prazeroso para o aluno aprender e ao mesmo tempo de se ensinar. (Eziel Borobó – Etnia Bororo) Os conteúdos, os conhecimentos e aulas práticas que são adquiridas no curso são muito importante para o professor indígena, com esses ensinamentos ele se torna capaz de dar aulas interessantes. No seu trabalho, ministrar aulas teóricas e práticas com competência e que seu aluno possa entender melhor o conteúdo. (Juscinei Bokodorekuie – Etnia Bororo). Diante o exposto é possível afirmar que a associação de atividades teórica e prática além de favorecer a aprendizagem dos alunos, disponibiliza novas ferramentas didáticas para os professores indígenas em formação. Considerando a flexibilidade do currículo o processo de avaliação adotado teve caráter qualitativo registrado de modo descritivo de acordo com o desempenho didático durante as atividades desenvolvidas em sala de aula. Os acadêmicos foram avaliados individualmente durante toda a disciplina através da observação quanto ao interesse pelo conteúdo e envolvimento nas atividades teóricas e práticas. As atividades de revisão dos conteúdos realizaram-se em momentos diferentes, isto é, por meio de questionários com perguntas objetivas. A realização dessas atividades contribui com o desenvolvimento da capacidade de leitura e interpretação dos alunos, além de favorecer a identificação individual das dificuldades nos conteúdos trabalhados. Ao analisar o resultado das avaliações observa que os alunos foram surpreendidos com a forma de abordar e trabalhar conteúdos básicos do ensino médio, uma vez que perceberam que ao associar a teoria à prática, facilita a aprendizagem dos alunos. 46 A QUÍMICA COMO CIÊNCIAS NATURAIS: RELATOS DE ... Percebemos que durante as atividades alguns alunos apresentaram dificuldades no decorrer da disciplina por não terem tido uma boa formação inicial no ensino fundamental e médio. Referências bibliográficas BRASIL. Referencial Curricular Nacional para as Escolas Indígenas. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria Educação Fundamental, 2002. DEPARTAMENTO DE QUÍMICA – UFPR. Segurança do trabalho e Ambiente. Acessado em 05.04.04 disponível em: http:// www.quimica.ufpr.br. SAVARIZ, M. C. Manual de Produtos Perigosos - Emergência e Transporte. 2a Edição. Sagra - DC Luzzatto - Porto Alegre RS - 1994. INSTITUTO DE QUÍMICA- USP. Revista Química Nova Escola. Nº.1. 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