I Encontro de História do CAHL
Centro de Artes, Humanidades e Letras, Quarteirão Leite Alves, Cachoeira-BA
18 a 21 de outubro de 2010
A construção social do individuo negro no âmbito escolar
Eryson de Souza Moreira1
Resumo:
Este artigo tem o objetivo de mostrar de forma direta e prática, como as relações
étnico-raciais no âmbito escolar interferem na construção social do individuo
negro, sobretudo enfatizando questões como religião, condição econômica e
social e alguns aspectos culturais que são fundamentais para percebermos o
quanto e como o processo dialético que é por excelência palco de contradições
circunstanciais caracterizados pela desigualdade e mediado pela diferença
poderá se tornar benéfico ou traumático para o ser em pleno exercício de
formação enquanto indivíduo existente.
Palavras - chave: Relações sociais, preconceito étnico-racial, igualdade
desigualdade e diferença, identidade e escola.
Introdução:
A construção social dos indivíduos no âmbito escolar tem em sua matriz
uma ampla discussão que toma corpo e abrange uma série de outras temáticas
que estão entrelaçadas dentro de várias perspectivas teóricas, mas, que de
alguma forma, convergem para pontos em comum, ou seja, dialogam com certa
cumplicidade ou que também indiretamente circulam de diversas formas as
causas pertinentes ao debate.
Contudo, a priori partirei de uma discussão teórica de conceitos como
igualdade, desigualdade e diferença que serão de extrema importância para
entender as relações sociais que serão expostas para levarem a cabo a
diferenciação étnico - racial que está imbricado dentro do bojo das relações
estabelecidas dentro da escola, sobretudo por que, a escola é uma
reconfiguração das relações que são de certa forma criadas fora dos muros das
instituições de ensino, porém, a diversidade social, econômica e cultural abarcada
pela escola acaba por si só gerando uma série de conflitos que podem ser
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Graduando do 5º semestre do curso de Licenciatura em História da
Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.
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construtivas ou destrutivas, ou melhor, benéficas ou traumáticas para o individuo
que neste caso se materializa na figura de um jovem negro em formação social.
Num segundo momento farei um confronto entre algumas propostas
teóricas e os resultados obtidos numa pesquisa de campo feita a partir de
entrevistas efetivadas no espaço escolar com estudantes de escola pública, como
também professores dos mesmos na tentativa de extrair de fato, as vicissitudes
que se estabelecem. Todavia por que, uma abordagem como essa, visa discutir
caminhos para desenvolver e refletir sobre estratégias para combater o racismo,
que neste caso, se manifesta como arma ideológica para legitimar a partir da
diferença e promover a desigualdade.
Com toda certeza, podemos afirmar que somos frutos de uma educação
eurocêntrica e que de uma forma ou de outra reproduzimos consciente ou
inconscientemente os preconceitos que permeiam nossa sociedade. Partindo
deste pressuposto, entende-se que ainda há uma dificuldade por parte de
professores para lidar com a diversidade que se estende em seu horizonte
profissional, haja vista que, é justamente no lócus profissional que surgem os
confrontos racistas, não obstante, reforçando a falta de preparo e tampando as
lentes das câmeras com o “mito da democracia racial”.
Se observarmos, poderemos ver que muito mais instrumentos além de
nossas mentes estão imbuídos de preconceitos, a exemplos de materiais
didáticos como livros, aparatos visuais e áudio – visuais carregados de
preconceitos e conteúdos depreciativos em relação aos povos pertencentes às
culturas não ocidentais, haja vista que, esses preconceitos permeiam as relações
sociais cotidianas dos alunos entre si e de alunos com professores; contudo, este
último lançando mão de seu despreparo não consegue promover como atividade
pedagógica que solapem esses preconceitos e concomitantemente fazer entender
a importância das contribuições legadas por africanos e indígenas para a
formação da identidade nacional.
Tendo uma preparação apropriada, o professor poderá mostrar de forma
clara, que a diferença e a diversidade, não são fatores de superioridade ou
inferioridade, mas sim, um complemento para enriquecer o processo de
construção individual e coletivo e dando principalmente, ao aluno negro a
oportunidade de absorver com dignidade sua essência cultural, que foi usurpada
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na tentativa de introjetar aspectos europeus e promovendo um verdadeiro
“estupro cultural” transformando o afro-brasileiro em filhotes da Europa.
Relações sociais:
O meio social pode ser entendido como um construtor que, de certa forma,
molda o individuo que nela é inserido, sobretudo por que, o processo de
socialização será uma essência onde esse individuo, que neste caso se configura
numa criança de 0 a 10 anos, carregará como base de sua identidade. Partindo
deste pressuposto, entendo que a gênese das relações sociais de um indivíduo
está primeiramente imbricada na família, ou seja, socialização primária. Contudo,
ao ser inserido na escola, num cotidiano onde existem relações, valores, opiniões
e costumes bem definidos, porém diversos, a criança de fato, passa a absorver
todos esses padrões sociais através da interação com outras crianças e adultos
que a rodeia.
As relações sociais permitem que a criança tenha experiências que a faça
discernir elementos que são fundamentais para a construção social de todo
individuo que de uma forma ou de outra passa a ser inserida numa determinada
sociedade como lembra Eliane Cavalleiro:
(...) A socialização torna possível à criança a compreensão
do mundo por meio das experiências vividas, ocorrendo
paulatinamente à necessária interiorização das regras
afirmadas pela sociedade. Neste início de vida a família e a
escola
serão
os
mediadores
primordiais,
apresentando/significando o mundo social (...) 2.
Porém, podemos dizer que, de todo o caso os indivíduos em processo de
construção social podem procurar outros referenciais comportamentais, todavia
também não podemos descartar o papel dos mediadores, mas, de certa forma
poderá ocorrer desvios no que se refere às atitudes, sobretudo por que as
relações entre os pares poderão ser interiorizadas e recriadas, haja vista que, há
neste caso, uma gama de informações que serão absorvidas por esses indivíduos
2
CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo,
preconceito e discriminação na educação infantil / Eliane dos Santos
Cavalleiro 5. ed. – São Paulo: Contexto, 2006. p,16
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de forma a acoplarem dentro de um mesmo bojo as essências familiares, os
colegas de escola, professores e entre outras referencias como a TV e Internet.
A experiência escolar aumenta, mas também intensifica o enriquecimento
da construção da identidade social do individuo negro, pois, tem-se na escola um
palco de contradições sociais, ou seja, de contrastes que se evidenciam de forma
clara que pode ser positivo, mas também negativo. Contudo, o negativo no
processo de construção pode ser encarado como algo benéfico, sobretudo por
que
o
processo
no
qual
eu
defino
como
socialização
complementar,
especialmente a escola, se apresenta como uma recriação das diferenças que por
ventura esse individuo irá entrar em contato posteriormente em outras etapas
sociais da vida produtiva, diferenças essas que são religiosas, de gênero,
econômica, cultural e étnico-racial.
Como citei acima, as questões das benesses em relação ao processo
dialético que se manifesta na escola podem ser entendidas no sentido da
ampliação na forma de o indivíduo entender o mundo ao seu redor. Haja vista
que, o mundo neste momento não se limita ao seu núcleo familiar, ou seja,
existem outros referenciais sociais a serem absorvidos, confrontados e recriados,
porém, esse processo pode ser traumático, mas o negativo neste caso o prepara
para outras relações futuras como já havia falado anteriormente, todavia também
poderá fazer com que esse indivíduo a depender do contexto se esconda ou
negue o que estaria sendo construído que é sua identidade.
As instituições educacionais formalizam um processo que se iniciou com a
família, portanto, terá esses referenciais extrema importância ao longo da vida do
individuo. A diversidade faz parte do cotidiano escolar, apesar dessa diversidade
se apresentar em outras instituições e em outros contextos.
Dentro do processo escolar, a criança ou o jovem são tratados como se
não houvesse uma história antes da inserção desses indivíduos num meio social
que por si só já se manifesta conflitante que é a escola, sobretudo por que maioria
das vezes não há uma compatibilidade com os aprendizados, os valores e
costumes sociais arraigados pela criança no seu núcleo familiar, ou seja, não há
uma valorização desses aprendizados por parte da escola, via de regra esse
individuo será submetido a padrões totalmente diversos que muitas vezes irá
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suprimir
seus
valores
culturais
e
concomitantemente
será
“estuprado
culturalmente”.
O domínio das relações, dos valores, costumes, do seu “eu” são questões
que permeiam a construção da identidade e está imbricada dentro do processo de
socialização, tendo em vista, que, no final do processo podemos perceber que foi
um procedimento dinâmico que gradativamente montou uma personalidade
social, que, de todo o caso, se identifica com o biológico e a percepção social do
outro em relação ao “eu”, ou seja, essa percepção se dá muito mais a partir do
reconhecimento da sociedade em relação ao indivíduo.
Todos os referenciais sociais citados acima darão ao indivíduo a
possibilidade de entender de que forma se comportar, exprimir, sentir e se
estabelecer, porém, numa sociedade como a brasileira na qual há um predomínio
de uma visão negativa, estereotipada e preconceituosa historicamente construída
do negro e uma visão positiva historicamente imposta do branco, o processo terá
uma gama muito ampla de referenciais negativos sobre o negro e um deficitário
acervo positivo sobre este último, portanto, será um processo construído de forma
a desvalorizar essas diferenças a ponto de inconscientemente ou consciente
passarem a reproduzir esses conteúdos estereotipados, preconceituosos por
entenderem que a escola é a detentora do saber e da ordem social, haja vista que
os valores anteriores a escola foram de alguma forma suprimidos para daí
configurar um novo ser, um ser ideal “não negro”, ou seja, um padrão social, um
“ser branco”.
Preconceito étnico racial:
O preconceito contra o negro é uma questão complexa, tendo em vista que
tal discussão está relacionada a partir de um processo social histórico que teve
início na escravidão moderna imposta aos africanos e implantada na América.
Com isso, as relações estabelecidas entre os sujeitos, neste caso, europeus e
africanos, se caracterizaram de forma desigual, todavia a desigualdade foi
atribuída à diferença, diferença essa que construiu o colonizador ou dominador e
o colonizado ou o dominado uma relação de poder extremamente hierarquizada,
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relação criada para legitimar a supremacia cultural e biológica européia sobre o
Continente africano.
Portanto, entendo que o preconceito étnico racial é usado como arma
ideológica para legitimar o poder sobre pessoas ditas pertencentes às classes
subalternizadas, portanto, o racismo é uma questão muito complexa e merece um
olhar diferente e direcionado. Como lembra Henrique Cunha Jr. (1992) o racismo
é uma prática que reproduz na consciência social coletiva, um amplo conjunto de
falsos valores e de falsas verdades e torna os resultados da própria ação como
comprovação dessas verdades falseadas.
Partindo deste prisma, o racismo é uma ideologia que pressupõe o domínio
sobre um grupo, sobretudo o negro que neste caso tem em si uma carga social
negativa que foi construída historicamente e atribuída a este último como
essência de sua identidade. Com isso, o racismo atribui um título de inferioridade
a uma raça e, portanto criando uma relação de poder legitimada pelas classes
dominantes tanto no plano simbólico como no plano real, neste processo,
identifica-se a imposição de valores, costumes, formas de sentir, de pensar,
religião e entre outras manifestações sociais sobre as classes que se pretende
dominar.
Ademais, o racismo pode ser identificado na escola a partir da imposição
do currículo, haja vista que, a escolha dos conteúdos está pautada na ideologia
européia e branca, sobretudo por que, nesta ocasião está se renegando as raízes
constituintes da identidade nacional, multi-étnica, ou seja, nega a existência das
diversas raças/etnias presentes em nossa sociedade.
Segundo Jones (1973), há três tipos de racismo: o racismo individual, o
institucional e o cultural. O racismo individual é muito parecido com o preconceito
racial. Dentro dele, existem dois tipos de racistas: o dominador e o aversivo. O
dominador representa os indivíduos portadores de preconceito e o manifesta com
atitudes negativas, demonstrando o seu ódio e/ ou aversão aos negros. O
aversivo é aquele que não exprime explicitamente o seu preconceito, mas que
pode referir-se ao negro pela sua capacidade intelectual como uma exceção à
raça, ou então não deseja manter relações com negros, embora não exprima
esse sentimento com muita freqüência.
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Já o racismo institucional define-se como as leis, práticas e costumes
estabelecidos que refletem e provocam desigualdades raciais numa sociedade.
O racismo cultural está ligado ao etnocentrismo, haja vista que se
apresenta de forma peculiar: Segundo Jones (1973), a capacidade para controlar,
pelo exercício do poder, a vida e os destinos do povo negro, se torna racismo
cultural quando tais destinos estão direcionados aos padrões etnocêntricos
brancos.
Esse tipo de racismo também se manifesta a partir da comparação e
inferiorização das culturas sobrepostas a uma construção de supremacia cultural.
Entretanto, atribui-se o dever de as pessoas pertencentes às culturas subalternas
a missão de alcançar os padrões das ditas culturas superiores, pois, só então os
subalternos poderão adentrar na vida social e econômica do país.
Preconceito e Discriminação:
Podemos entender preconceito como uma series de idéias negativas,
depreciativas preconcebidas sobre uma pessoa ou grupos específicos, mesmo
quando os fatos dizem o contrario e o racismo como principal fonte do preconceito
se manifestando como doutrina da superioridade das raças. Portanto,
preconceito, exige uma relação entre pessoas e grupos humanos, contudo, o
preconceito também pode partir de uma pessoa sobre si mesmo. As idéias e
atitudes racistas e preconceituosas passam a ser incorporada já na faze inicial da
vida, ou seja, no ser enquanto criança, sobretudo quando esta última é colocada
em contato com o mundo adulto, isso permite pensar no processo de socialização
que inicia na família, escola entre outros. Então, posso enfatizar que os primeiros
julgamentos raciais de uma criança são frutos do contato com o mundo adulto. As
atitudes racistas vão se solidificando na medida em que se mantém
constantemente contato com idéias estereotipadas do negro, mulheres, índios
entre outros.
No caso específico dos negros, as crianças convivem na escola com uma
idéia distorcida desse grupo social, haja vista que para eles o negro já vivia na
condição de escravo antes de ser aprisionado pelos traficantes negreiros, antes
de vir para o Brasil. Tendo como forma linear o nosso raciocínio podemos
perceber que a identidade do negro também é negada pelo fato também de haver
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poucos referenciais negros em cargos de expressão no país, não obstante, as
referencias são sempre de pobreza, miséria e somando-se a isso os estereótipos
aprendidos na família, com os colegas e reforçado pela escola e pelos meios de
comunicação.
No tocante a discriminação, podemos deferir como a prática do racismo e
do preconceito, ou seja, constitui-se a prática, o ato. Todavia, identifica-se na
valorização de determinado grupo social ou pessoa em detrimento de outros ou
outra em qualquer instância social, seja na política, na economia, na educação ou
na cultura.
Igualdade, desigualdade e diferença:
Para chegarmos ao ponto central da discussão é necessário compreender
a importância que tem determinados conceitos na sociedade, como se interrelacionam e como são empregados em situações que de todo caso provocam
conflitos sociais de diversas proporções, sobretudo aqueles que de alguma forma
se materializa causando problemas de ordem social, haja vista que, numa
sociedade como a brasileira, diversa na sua essência, ou seja, se fazem presente
várias matrizes biológicas sociais que construíram a identidade nacional.
Entretanto, partirei da idéia que todos os seres humanos são iguais na sua
essência, tanto negros como brancos, perante a Constituição Federal Brasileira
todos os homens são iguais e tem os mesmos direitos, porém, desigualdade
pode-se deferir que é um conceito que visa prevalecer, beneficiar e desfavorecer.
Mas nesse caso, desfavorecer quem? Negro ou branco? Eis a questão. Entendo
que neste caso a Diferença é um conceito que entra no bojo dessas relações e
inter-relaciona-se, sobretudo por que na maioria das vezes a diferença é usada
como pressuposto para impor a desigualdade.
Podemos entender a desigualdade a partir de vários prismas a depender
do recorte epistemológico, via de regra a economia, política, cultura, religião entre
outros. Contudo, não podemos deixar de postar que a desigualdade também é
fruto de um processo histórico. Por exemplo, para ser mais específico o negro e
seu processo de construção identitária na sociedade brasileira, onde nos
primórdios da colonização tinha na sua base de sustentação a monocultura o
latifúndio e a escravidão como fonte de sustentação econômica social.
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Então, neste caso se construiu uma imagem negativa do negro na qual se
perpetuou de forma maciça no consciente e no inconsciente coletivo da sociedade
sobre a diferença do negro e sua cultura em relação ao padrão social branco
europeu. Partindo deste pressuposto temos uma inter-relação dos conceitos de
diferença e desigualdade, no entanto, posso usar de uma metáfora como lembra
Barros (2009), o vermelho é diferente do azul, mas um pintor pode dispensar um
tratamento desigual ao uso dessas duas cores em uma pintura conforme enfatize
mais uma do que a outra.
Mas voltando a questão das conjunturas históricas do negro, tendo em
vista que a condição que o sujeito negro assume no Brasil colônia permite as
classes dominantes criar uma “identidade” e impor como se essa fosse de fato a
mesma assumida em África pelos cativos na colônia portuguesa.
O conceito de diferença diferencia-se no sentido do “ser”, sobretudo por
que um homem não pode ser uma mulher, tão pouco um cachorro, é um processo
irreversível, não obstante, a Desigualdade pode ser entendida no plano do “estar”,
ou seja, se faz circunstancial, assim, pode ser revertido, pois um homem rico
pode vir a ficar pobre, um indivíduo bem quisto na sociedade pode ser execrado
desta, também posso usar adjetivos como forte e fraco instruído e analfabeto,
então este último podemos entender a partir de uma ótica relativista.
Outra
questão
interessante
pode
ser
enfatizada
no
tocante
as
classificações e comparação, haja vista que, a classificação social leva a perceber
a desigualdade que reside neste conceito na prática, tendo em mente que uma
pessoa pode ser pobre em relação à outra e rica em relação a um terceiro. Outro
ponto importante são as contradições trazidas por José D`Assunção de Barros:
(...) as desigualdades, reforçaremos esta idéia, presidem em
todos os casos possíveis a relações contraditórias, e não a
meras oposições por contrariedade. (...) As contradições,
este é o núcleo da questão, são sempre circunstanciais,
enquanto os contrários se opõem no nível das modalidades
de ser. Vale dizer, as contradições são geradas no interior de
um processo, aparecem ou se explicitam em um
determinado momento ou situação, e, de resto, pode-se
dizer
que
os
pares
contraditórios
interagem-se
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dialeticamente dentro dos processos que os fazem surgir
(...)3.
De todo o caso, os contrários não se misturam como lembra Barros (2009),
(amor e ódio, verdade e mentira, igual e diferente), e desta forma fixam
claramente o abismo de sua contrariedade.
Ademais é preciso enfatizar que a diferença é inerente ao mundo dos seres
humanos, sobretudo por que essa questão está atrelada a própria diversidade
existente no mundo humano e suas relações, pessoais, sexuais, religiosas e que
também pode permear questões como nacionalidade ou pertencimento a essa ou
aquela localidade/região.
A superestrutura social e política não atenta para certos conflitos ligados a
diferença na sociedade brasileira, porém, projetos políticos ligados a supressão
étnica sempre houve, em alguns momentos mais explícitos e outros mais
implícitos. Aliás, no Brasil, não obstante, nunca existiu de fato uma sociedade
rigidamente birracial, e sim multi-racial haja vista que, mesmo antes da abolição já
havia homens de cor livres, alforriados, no entanto, se fazia presente um sistema
de classificação social a depender das características fenotípicas.
Mulato claro, escuro eram características essenciais criadas pelos
observadores, todavia, tonalidade do cabelo assim como a textura do mesmo era
somada para se obter um padrão aceitável na sociedade brasileira. Ademais, o
padrão a ser alcançado, o europeu, só se concretizaria com os projetos de
Eugenia, ou branqueamento.
Alguns indícios podem explicar a tentativa de implantar o projeto de
eugenização. Tudo indica que após a abolição a taxa de natalidade entre negros,
brancos e mulatos foram desiguais, haja vista que a taxa entre os negros eram
baixas, algo que entre os brancos e mulatos se mantia elevadas, porém, em
comparação com os Estados Unidos, a escravidão no Brasil teve um caráter
nacional, enquanto nos Estados Unidos foi essencialmente regional de alguma
forma isso possibilitou a inter-relação entre negros, brancos e mulatos e
concomitantemente reforçando o caráter multi-étnico da sociedade brasileira, até
3
BARROS, José D`Assunção A construção social da cor : diferença
desigualdade na formação da sociedade brasileira . Petrópolis, Rj
Vozes, 2009. p, 20-21
e
:
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por que as elites entendiam que com a interação biológica entre negros e brancos
o elemento negro com certeza desapareceria com o passar do tempo.
Portanto, a diversidade que por sua vez identifica-se na diferença que
vista pela sociedade como forma de categorização social gerou e tem gerado
conflitos no qual criou a desigualdade e conseqüentemente a discriminação e
principalmente a racial, essa sim, a superestrutura não abre mão da não
interferência.
Refletir sobre a diferença é pensar na diversidade humana, já a
desigualdade versa sobre a multiplicidade de contextos no qual poderá ser
avaliada. Pode-se pensar a desigualdade a partir de várias óticas e adotando
diversos critérios: política, economia, cultura, renda, riqueza e acesso a serviços
como saúde, educação entre outros, sobretudo pelo fato de estar situado dentro
de um processo histórico no qual também habitará um espaço de reflexão que
definirá os critérios de análise social, político, econômico da conjuntura.
Identidade e escola:
Discutir a identidade enfatizando o papel da escola na construção do aluno
negro é extremamente salutar, haja vista que, é justamente nos processos de
socialização que o individuo se forma num ser social, pertencente a um meio, ou
grupo específico na sociedade. No entanto, na escola se manifestam diversas
relações que de certa forma poderão trazer prejuízos na construção de uma
personalidade social na qual as individualidades voltadas para a afirmação étnica
poderão ser negadas. Mas como?
Entendo a questão proposta como lembra Cavalleiro (2006), na escola
pública de primeiro grau é possível verificar a existência de um ritual pedagógico
que,
para
Luiz
Alberto
Gonçalves,
vem
reproduzindo
a
exclusão
e,
conseqüentemente, a marginalização de crianças e jovens. Para ele, o “ritual
pedagógico do silêncio” exclui dos currículos escolares a história de luta dos
negros na sociedade brasileira, e “impõe nas crianças negras o ideal de ego
branco”.
Partindo desta ótica entendo que o silêncio em relação às atitudes, a
ausência de referenciais negros no livro didático e a forma e o grau com que os
conteúdos relacionados com o negro são trabalhados indicam com certa
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relatividade o peso das ações no processo de construção social dos indivíduos
inseridos no processo.
Usando de uma metodologia de pesquisa etnográfica para tentar confrontar
as discussões teóricas presentes no artigo me inseri como observador das
relações sociais entre os alunos e entre estes e professores juntamente com os
materiais que são usados no âmbito escolar. Neste processo, observei duas
escolas municipais na cidade de Cachoeira, no Recôncavo baiano.
Ao observar alunos de 0 a 8 anos de idade e percebi que naquele espaço
há vários tipos de discriminação que passa despercebido pelo corpo docente da
instituição, brincadeiras que reforçam as referências negativas como apelidar uns
aos outros com pseudos do tipo, “nego do leite, Zé de búia, nego do ebó, entre
outros, que neste caso se amparam no silêncio imposto pelos gestores escolar.
Num segundo momento atentei para os materiais didáticos envolvidos no
processo de ensino-aprendizagem e notei que há uma ausência de conteúdos e
gravuras que coloque o ser negro em evidência, porém, no momento em que se
apresenta a figura do negro, ela se resume a colocá-lo como subalterno,
empregado doméstico, escravos etc.
Seguindo com o processo de observação me propus a indagar aos
professores e diretores de que forma a lei 10.639/03 é trabalhada na escola. As
respostas tiveram certa semelhança, de maneira que minhas expectativas foram
contempladas no sentido de que só se trabalha com essa temática de forma
esporádica, ou seja, nas datas comemorativas como festa da “Boa Morte” em
Cachoeira, 13 de maio e 20 de novembro. Isso me levou a crer que para essas
instituições e professores, dos 365 dias do ano, só são reservados para o povo
negro três datas. Portanto, os outros dias são dias de branco?
Outro questionamento foi colocado para os professores no sentido de
perceber como eles abordam a Lei 10.639/03 mesmo que esporadicamente, mas
de que forma era trabalhada essa questão? Então, neste momento entendi que
elementos como “acarajé, caruru, vatapá, capoeira, bumba meu boi, samba de
roda são mostradas, além de encenações relacionadas com a escravidão.
Analisando este processo, entendo que de todo caso, não é impossível
perceber o porquê os estudantes negros muitas vezes negam seus pressupostos
étnicos perante essa sociedade brasileira multi-étinica racista de padrões
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europeus, pois, quem quer nesta vida se identificar com alguém que só vende
acarajé ou acorrentados feito animal no cativeiro? Ninguém.
A negação da luta dos negros no Brasil, suas contribuições para construir a
sociedade brasileira, sobretudo nomes de intelectuais como Tranquilino Bastos,
fundador da Sociedade Oféica Lítero Musical Lira Ceciliana, principalmente
também na medicina com a inserção das ervas medicinais, na agricultura, e na
própria dieta tiveram um peso enorme no que se refere à construção da
Identidade Nacional Brasileira. Com isso, posso afirmar que o silêncio presente
nas escolas relacionado ao debate sobre questões como preconceito,
discriminação e racismo afetará no processo de construção social, no
desenvolvimento cognitivo das crianças e jovens negros, como também estará
contribuindo para a formação de crianças e jovens brancos com um sentimento
de superioridade.
Conclusão:
Ademais, acima de tudo, entendo que a implantação da Lei 10.639/03 foi
uma tentativa de impor uma possível “igualdade racial”, porém contraditória,
sobretudo por que, subtende-se nesse projeto político social algo que foi a tônica
das discussões raciais no Brasil no século XIX, o processo de eugenização, que
de certa forma está subjacente nas ações individuais, coletivas e institucionais,
mesmo que inconsciente passam a serem reproduzidos os padrões sociais
europeus.
A falta de fiscalização na implantação na implantação da Lei, a falta de
capacitação do corpo docente, baixos salários, má qualidade no ambiente de
trabalho dos professores, incompatibilidade entre tradições familiares e a escola,
todos esses pressupostos são brechas deixadas pelo Estado na tentativa mesmo
que implícita, de exterminar com as resistências da cultura africana e afrodescendente no Brasil e concomitantemente promover a imposição de uma
cultura branca e européia.
Portanto, vejo a escola como uma instituição muito mais traumática do que
benéfica no processo de construção social do individuo negro na sociedade
brasileira. Ademais, partindo das análises das vicissitudes encontradas nas
relações sociais estabelecidas no ambiente escolar, pressuponho que se devem
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implantar de fato novos espaços pedagógicos que propiciem a valorização das
múltiplas identidades que integram a identidade do povo brasileiro por meio de um
currículo que leve o aluno a conhecer suas origens e a se reconhecer como
brasileiro.
Aportando-me do conceito de “Democracia”, a educação deve levar em
conta o caráter diverso do mundo e das relações humanas, sobretudo por que há
diversas matrizes culturais formadoras de nossa identidade nacional. Com isso,
faz-se com que desative as possibilidades de emergir as cargas e estereótipos
negativos sobre grupos sociais com base em suas origens étnicas, crenças
religiosas ou práticas culturais.
A política do silêncio não adianta em nada, essa prática só reforça o
preconceito, não obstante, também entendo que o uso de eufemismos só
mascara o que é tão presente na sociedade, o racismo, ou “mito da democracia
racial”, pois, ao dizer que há um homem negro ou branco parado na esquina de
uma rua não se constitui em atitude racista, mais sim realista, então, não é
necessário o uso de classificações como “cabo verde, caboclo, mulato, moreno
claro ou escuro entre outros, haja vista que, de certa forma, estaremos
contribuindo para o processo de eugenização tanto biológico quanto sóciocultural, ou seja, “ideologia de branqueamento”.
Por fim, não podemos mascarar o que está presente em nossa sociedade,
via de regra, é necessário se criar estratégias de combate ao racismo, ao
preconceito e a discriminação, sobretudo eliminar a desigualdade social que como
já foi enfatizado em momento anterior, é fruto de um processo sócio histórico,
porém, entendido como uma circunstancialidade. Então, parto do princípio que a
educação é pedra basilar de uma sociedade, deste modo, a desigualdade a priori
nesse ambiente deve ser abolida sobre pena de rever o conceito de
“Democracia”, ou então poderemos reduzir este conceito e restringi-lo a um grupo
específico.
REFERÊNCIAS
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na formação da sociedade brasileira. Petrópolis, Rj: Vozes, 2009.
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I Encontro de História do CAHL
Centro de Artes, Humanidades e Letras, Quarteirão Leite Alves, Cachoeira-BA
18 a 21 de outubro de 2010
CAVALLEIRO, Eliane dos Santos. Do silêncio do lar ao silêncio escolar: racismo,
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2006.
CUNHA JR, Henrique. Textos para o movimento negro. São Paulo: Edicon, 1992.
FAZZI, Rita de Cássia O drama racial de crianças brasileiras: socialização entre
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SKIDMORE, Thomas E. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento
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A construção social do individuo negro no âmbito escolar