O FUTURO DA TACARUNA
Desde que a primeira edição deste livro foi lançada até os dias de hoje, onze anos
contados do terceiro milênio, como diz a linguagem popular, “muita água passou sob a
ponte”. Passaram governantes, executivos, atos oficiais, projetos, negociações.
Passaram ideias. Desativada em 1992, encerrando – sem esperança de retorno – os seus
trabalhos, a fábrica Tacaruna, pertencente à Tecelagem Parahyba (hoje, Coopertextil),
da família Severo Gomes1, foi entregue ao Banco Econômico, como pagamento de
vultosas dívidas.
Ao lado da constatação da imensa lacuna que se fazia no âmbito econômico de
Pernambuco, havia a preocupação com o aspecto cultural: tão expressivo exemplar da
arquitetura oitocentista não poderia ficar sob a responsabilidade de uma instituição
financeira, sem que tivesse um destino digno da sua história. Como uma pálida garantia
de que essa preservação seria feita, já estava em vigor, há 12 anos, o Decreto nº11.687,
de 10 de setembro de 1980, do prefeito Gustavo Krause, que aqui reproduzimos:
O Prefeito da Cidade do Recife, no uso das atribuições que lhe confere o Artigo
4º da Lei nº de 13.957, de 10 de outubro de 1979,
DECRETA:
Art. 1º Fica instituída a Zona de Preservação do Sítio Histórico da Fábrica da
Tacaruna, classificado pelo Plano de Preservação dos Sítios Históricos – PPSH, na
categoria de “Edifícios Isolados”, constituída em uma única Zona de Preservação
Ambiental – ZPA.
Art. 2º A Zona de Preservação Ambiental – ZPA que constitui o referido sítio,
contém para o Município do Recife, um único setor limitado pela Área de Proteção do
Perímetro Tombado de Olinda e delimitado pela planta 29/31 do PPSH, integrante
deste Decreto, e pela descrição do seu perímetro.
Parágrafo Único – Constitui o Setor “I” da Zona de Preservação Ambiental –
ZPA do Sítio Histórico da Fábrica da Tacaruna, a área delimitada, indicada na planta
29/31, pelo mapa escala 1:2.000, cujo perímetro estende-se a partir do ponto nº 1,
cruzamento do eixo da pista marginal esquerda da Av. Agamenon Magalhães com o
prolongamento do eixo da Rua Governador Dix Sept Rosado; daí segue o eixo desta
1
Severo Fagundes Gomes, empresário e político paulista, foi ministro da Agricultura (Governo Castelo
Branco) e da Indústria e do Comércio (Governo Geisel) e senador por São Paulo, de 1983 a 1991. Morreu
em acidente aéreo, junto com sua esposa, Anna Maria Marsiaj, e o deputado Ulysses Guimarães e a
mulher deste, dona Mora, em 12 de outubro de 1992.
rua até atingir o ponto nº 3, no cruzamento com o eixo da Rua Hermílio Gomes; deflete
à esquerda, seguindo o eixo desta até atingir o ponto nº 4, no cruzamento com o eixo da
Rua Prof. Francisco Trindade; deflete à direita, até atingir o ponto nº 5, no cruzamento
com o eixo da Rua Guianazes; deflete à esquerda, seguindo o eixo até atingir o ponto nº
6, no cruzamento com o eixo da pista marginal esquerda da Av. Agamenon Magalhães;
deflete à esquerda, seguindo o eixo desta até atingir o ponto nº 1, fechando assim a
poligonal que define o perímetro da área em apreço.
Art. 3º No Setor “I” da Zona de Preservação Ambiental – ZPA, os projetos
deverão atender as seguintes condições:
I – Respeitar as Leis 7.427/61 e 14.117/80 no que se refere a taxas de ocupação,
recuos, parcelamento do solo, usos e condições internas dos compartimentos;
II – Ter gabarito máximo de 02 (dois) pavimentos com altura máxima de 7,00m
(sete metros) medidos da soleira do pavimento térreo até o ponto mais alto da
platibanda;
Art. 4º Este Decreto entrará em vigor na data de sua publicação.
Art. 5º Revogam-se as disposições em contrário.
Recife, 10 de setembro de 1980
GUSTAVO KRAUSE2
Prefeito
O imóvel da Avenida Agamenon Magalhães, entregue ao Banco Econômico
(mas sob controle do Banco Central, após liquidação daquela instituição financeira) foi
alvo, desde então, de várias especulações a respeito do seu destino. Cogitou-se,
inclusive, que ali seria construído um shopping center3. Enquanto não eram encetadas
negociações sobre a aquisição do imóvel para algum empreendimento, travou-se
acirrada discussão entre a Fundação do Patrimônio Histórico e Artístico de Pernambuco
– FUNDARPE e o Econômico Agro-Pastoril e Comercial S.A. em torno da proposta de
tombamento da antiga fábrica, apresentada pelo presidente do órgão cultural, Rubem de
Souza Valença Filho, ao então secretário de Educação, Cultura e Esportes, professor
Roberto Pereira, e por este deferida, em 21 de outubro de 1993. Enquanto Valença
2
Portal de Busca da Legislação Municipal do Recife – www.legiscidade.com.br
O centro comercial foi, realmente, erguido na área, mas no outro lado da avenida. É o Shopping
Tacaruna, inaugurado em 1997.
3
defendia que o edifício encontrava-se “em bom estado de conservação, praticamente
sem descaracterização”4, os dirigentes da instituição bancária rebatiam:
(..) com o desmonte das instalações elétricas e dos equipamentos, o imóvel perdeu
completamente sua caracterização funcional, passando a ser um simples imóvel urbano
sem valor cultural, igual a qualquer outro que faz parte da paisagem urbana da cidade,
sem o principal elemento que caracterizava o imóvel, o mesmo deixou de ter valor seja
cultural ou histórico, acarretando a não necessidade da medida que, por si só, é
inócua, pois sem as máquinas e equipamentos, a ex-fábrica transformou-se em um
imóvel sem vida.(...)
(...) O conjunto em si não possui valor cultural, da mesma forma que não há de se
falar em valor histórico, visto que nas suas instalações não ocorreu qualquer fato que
de alguma forma pudesse resgatar o momento histórico da vida política ou social da
Cidade do Recife, não merecendo, portanto, que a proposta de tombamento seja
efetivada.”5
Os proprietários alegavam, ainda, que o tombamento do imóvel acarretaria
inúmeros prejuízos econômicos para os seus proprietários.
O tombamento provisório foi impugnado pelo Econômico, ficando a decisão final
a ser estabelecida a partir de sustentação da proposta pela FUNDARPE, a qual, “em
decorrência de sugestões advindas de órgão culturais, de parte da comunidade
intelectual pernambucana e dos próprios técnicos em preservação do Patrimônio
Cultural”6, apresentou, entre outros argumentos:
(...) toda a arquitetura da velha fábrica, elemento marcante implantado entre o
Recife e Olinda, permanece íntegra, com sua fantástica chaminé, sua modenatura de
inegável bom gosto, seu tratamento de fachadas.
(...) a preservação legal e técnica do Conjunto Fabril da Tacaruna constitui fator
de dignificação, reconhecimento e valia, continuando suas edificações sob pleno
domínio de seus proprietários, que poderão implantar nelas amplas soluções de
utilização”.7
4
OF/GP/nº 875/93, de 13/10/1993.
Documento apenso ao Processo FUNDARPE 2374/93.
6
Relatório encaminhado pelo presidente Rubem Valença ao secretário Roberto Pereira, em 26/4/1994.
7
Idem.
5
Conselho Estadual de Cultura discutiu o assunto, o qual, subordinado a parecer
do conselheiro Marcus Prado, cujo relatório foi aprovado em sessão daquela entidade,
gerando a Resolução nº 06/94, de 16/11/19948, assinada pelo presidente do CEC,
professor Fernando Antônio Gonçalves, e remetida ao governador do Estado. Em 17 de
dezembro de 1994, vê-se publicado no Diário Oficial do Estado:
DECRETO Nº 18.229
EMENTA: Homologa a Resolução de nº 06/94 do
Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, decla
ratória do tombamento do bem que indica.
O GOVERNADOR DO ESTADO, no uso das atribuições que lhe são conferidas
pelo art. 37, inciso IV, da Constituição do Estado, tendo em vista o disposto no art. 2º,
parágrafo primeiro, da Lei nº 6.239, de 11 de janeiro de 1980,
DECRETA:
Art. 1º Fica homologada a Resolução nº 06/94, do Conselho Estadual de Cultura,
de 16 de novembro de 1994, declaratória do tombamento do edifício da antiga refinaria
que deu origem ao “Conjunto Fabril da Tacaruna”, situado à Avenida Agamenon
Magalhães, nº 5.091, nesta cidade do Recife.
Art.2º Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 3º Revogam-se as disposições em contrário.
Palácio do Campo das Princesas, em 16 de dezembro de 1994
JOAQUIM FRANCISCO DE FREITAS CAVALCANTI
Governador do Estado
Roberto José Marques Pereira
Levy Leite9
O parecer do conselheiro Marcus Prado baseou-se na análise física realizada no
Conjunto pela historiadora Virginia Pernambucano de Mello e pelas arquitetas Neide
Fernandes de Sousa e Rosa Virgínia de Sá Bonfim. Em longo relatório, as técnicas
fizeram um resumo histórico da trajetória da antiga usina, descreveram as características
arquitetônicas do edifício, expuseram as condições em que se encontravam as
instalações, dentre outras observações.
8
9
Documentação consultada na FUNDARPE.
Diário Oficial, Recife, 17/12/1994, pág. 16.
No item referente à história da Tacaruna, as autoras utilizaram como fonte a
primeira edição deste livro, ressaltando:
Este minucioso trabalho, publicado em 1991, aborda de forma detalhada todas as
etapas da vida da antiga Usina Beltrão, desde as primeiras negociações para instalar o
pioneiro empreendimento açucareiro, passando pelas sucessivas crises do setor,
revelando a mudança da atividade industrial da empresa para o setor têxtil, chegando,
finalmente, à dissolução do empreendimento fabril. Grande quantidade de
documentação inédita e ainda bibliográfica sobre o tema foi reunida para fundamentar
a publicação.10
No seu parecer conclusivo, as pesquisadoras registraram:
A Fábrica Tacaruna está, inquestionavelmente, incluída entre os principais
marcos do patrimônio ambiental construído das cidades do Recife e de Olinda.
O reconhecimento da importância desse referencial histórico-arquitetônico para
ambas as cidades tem sido permanentemente expresso através das respectivas
legislações de uso do solo e de proteção do patrimônio cultural dessas localidades.
(...) Além de suas características excepcionais, essa antiga fábrica apresenta
outro valor, o da “adaptabilidade”, ou seja, a possibilidade de ajustar-se aos mais
variados usos e funções. A própria história da Fábrica confirma essa hipótese: a
primitiva refinaria foi transformada com êxito em indústria têxtil que funcionou durante
longo tempo.11
No final do documento, vieram as recomendações:
Considerando os minuciosos estudos e a cuidadosa avaliação realizada no Exame
Técnico, a FUNDARPE posiciona-se favoravelmente ao Tombamento do Conjunto
Fabril Tacaruna, o qual deverá ser inscrito no Livro de Tombo II, de Edifícios e
Monumentos Isolados, constituindo-se o objeto de Tombamento apenas o Edifício
Original da antiga refinaria que deu origem ao complexo industrial.
10
11
Tombamento do Conjunto Fabril da Tacaruna – Exame Técnico e Parecer Conclusivo, 03/11/1994.
Idem.
Fica estabelecida como área de proteção para o tombamento os limites
correspondentes aos muros da fábrica, com área de 51465,79m² (cinquenta e um mil e
quatrocentos e sessenta e cinco metros e setenta e nove centímetros quadrados).12
Dois anos após o tombamento, foram estabelecidas, pela lei municipal nº
16.176/96, normas referentes às obras de infraestrutura, urbanização, reurbanização,
construção, reconstrução, reforma e ampliação. Assinou, então, o prefeito Jarbas
Vasconcelos o referido documento, em que se insere a Fábrica da Tacaruna nas
chamadas Zonas Especiais de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural – ZEPH,
num conjunto no qual aparecem, entre outros sítios, o Matadouro de Peixinhos, a Casa
de Brennand, a Faculdade de Direito, o Hospital Dom Pedro II, o Palácio da Soledade, o
Mercado de Casa Amarela, a Casa da Cultura e Estação Central, os bairros do Recife,
Apipucos, Benfica, Capunga, Várzea.13
Entretanto, relegado ao esquecimento, o velho edifício passou a sofrer os efeitos
deteriorantes do tempo e da ação humana. Dentre muitos prejuízos, teve a paralisação
do funcionamento do relógio, ponto marcante da antiga fábrica de tecidos.
Com a ascensão de Miguel Arraes de Alencar ao Governo do Estado (sua terceira
gestão, 1995-1998), assumiu a Secretaria de Educação e Esportes a professora Silke
Weber, a qual, motivada a resolver, de uma vez por todas, o “caso Tacaruna”,
engendrou esforços para que o Estado finalizasse o processo de desapropriação do
imóvel. Naquela ocasião, disse a secretária, em entrevista: “Iremos descobrir fontes de
financiamentos. Inicialmente, vamos procurar o Ministério da Cultura e a Unesco. A
Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco (Fiepe) também será contatada, até
pelo que significa o Conjunto Fabril Tacaruna para a história da indústria em
Pernambuco”.14
Mas foi só em 2000, na gestão de Jarbas Vasconcelos, que o Governo do Estado
definiu o que poderiam ser os rumos definitivos da Tacaruna. Por R$ 14,3 milhões em
títulos do Fundo de Compensação das Variações Salariais - FCVS, da sua cartela
imobiliária, o Executivo adquiriu, junto ao Banco Econômico, o histórico edifício,
pondo fim a uma querela que se estendia por quase dez anos. A escritura pública de
12
Idem.
Diário Oficial da Cidade do Recife, pag. 12 e 13/4/96, pág. 15.
14
Diário Oficial do Estado de Pernambuco, 13/6/1996, pág.20.
13
aquisição do imóvel pelo governo foi assinada na penúltima semana daquele ano, pelo
vice-governador Mendonça Filho.
De imediato, anunciou-se o que se pretendia ser, segundo o governo, a “maior
investida na área cultural em Pernambuco: a criação e instalação do Espaço Cultural
Tacaruna”.15 Propagou-se, então, que o governo pretendia fazer com que pelo menos
quatro grandes coleções de arte moderna e contemporânea fossem vendidas e
permanecessem definitivamente no estado em um local apropriado para exposição, a ser
criado nos 14.000m² de área construída da antiga fábrica.
Esse projeto, idealizado pelo economista Roberto Cavalcanti, segundo informa a
matéria citada, de autoria do repórter Paulo Sérgio Scarpa, teria, ainda, locais para
dança, teatro, cinema, auditórios para palestras e apresentações musicais, centro
gastronômico regional e livrarias especializadas em arte. Um dos destaques do novo
espaço, seria a secção destinada ao acervo de mais de mil peças de arte contemporânea
brasileira e internacional do galerista pernambucano Marcantonio Vilaça.
Reformas eram necessárias para que o magnífico edifício atendesse às
necessidades dos seus novos objetivos. Assim, entre 2003 e 2005, foram realizadas
obras, nas quais se incluíram a recuperação do sistema de cobertura do prédio central e a
restauração da fachada frontal, totalizando um investimento de R$ 1,3 milhão. A
segunda etapa das obras começou em junho de 2006, compreendendo a pavimentação
da via local que dá acesso do pátio do estacionamento e de toda a área externa,
auxiliando na manutenção e na drenagem do complexo.16
Ao longo desses últimos anos, muitos projetos foram idealizados tendo a
Tacaruna como foco. Em 2009, cogitou-se que ela se transformaria numa Estação
Central da Cultura Pernambucana, “um local de formação cultural voltado para os
alunos da escola pública”.17 O espaço abrigaria, então, três cinemas, três teatros, um
museu virtual, um estúdio de gravação e edição de música, cinema e vídeo em formato
digital, uma escola integral e um centro de cidadania.
Enquanto discutia-se “o que fazer” com tão precioso monumento, o sonho do Dr.
Arruda Beltrão era relegado ao descaso. O belo edifício ficou ao leu. Largado, solto,
sem destino, virou palco de espetáculos de todas as espécies, até de prévias
carnavalescas e outros eventos com megaestrutura. Experiência que chegou a um termo,
15
http//www2.uol.com.br/JC/_2000/1202/cc1202a.htm
www.dpnet.com.br
17
http://www.old.diariodepernambuco.com.br
16
quando o Ministério Público de Pernambuco – MPPE obteve na Justiça uma liminar
determinando a não realização de shows de grande porte nas instalações da antiga
fábrica.
Em 2009, o imóvel passou para a Secretaria da Criança e da Juventude, ganhando
o nome de Centro de Cidadania Padre Henrique18. Neste ano de 2012, está prevista a
reforma e a readequação da estrutura física do prédio principal para o desenvolvimento
de atividades técnicas, artísticas, culturais e de socialização, tendo como público-alvo os
jovens de baixa renda, alunos de escolas públicas ou em situação de vulnerabilidade.
Que a Tacaruna tenha um destino digno da sua importância história. É o que
esperamos.
18
Padre Antônio Henrique Pereira da Silva Neto era auxiliar do arcebispo de Olinda e Recife, Dom
Helder Câmara, atuando junto à Pastoral dos Jovens. Perseguido durante o regime militar, foi assassinado,
barbaramente, em março de 1969, na Cidade Universitária, no Recife. Tinha, então, 29 anos.
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