A DIVERSIDADE DA GEOGRAFIA BRASILEIRA: ESCALAS E DIMENSÕES DA ANÁLISE E DA AÇÃO
DE 9 A 12 DE OUTUBRO
POETIZANDO A EXPERIÊNCIA GEOGRÁFICA: CONSTELAÇÃO DE
SIGNIFICADOS CONSTRUÍDOS POR CRIANÇAS SOBRE A
NATUREZA
LEANDRO VIEIRA1
Resumo: No presente artigo, buscamos compreender como a natureza está situada na experiência
espacial das crianças. Partindo do pressuposto de Dardel (2011), de que a geograficidade é primeira
posição efetivamente humana de geografia; da proposição de De Certau (2013), de que o espaço é
um lugar praticado, e da ideia de Bachelard (1972), de que o espaço é instrumento de análise para a
alma humana, observamos, através das práticas escritas, as imaginações poéticas dos sujeitos e a
produção de significados simbólicos, construídos em relação ao mundo natural. Desenvolvemos
oficinas com crianças de 10 a 13 anos, para compreender as relações entre a imaginação,
experiência, espaço urbano e natureza por meio suas produções textuais. Através desse roteiro,
observamos, na construção simbólica dos sujeitos, que a natureza não é apenas um acessório em
suas vidas. Ela é um elemento central, da qual sua vida depende concretamente.
Palavras-chave: natureza; geograficidade; imaginação; crianças
Abstract: In this article, we seek to understand how nature is situated in the spatial experience of
children. Starting from the assumption Dardel (2011), that the geographicity is effectively first human
geography position; the De Certau proposition (2013), that space is a practiced place, and the idea of
Bachelard (1972), that space is an analytical tool for the human soul, we see through the written
practices, poetic imaginations of the subjects and the production of symbolic meanings, built in the
natural world. We develop workshops with children 10-13 years to understand the relationship
between imagination, experience, urban space and nature through their textual productions. Through
this script, we observe, in the symbolic construction of subjects, that nature is not only a fixture in their
lives. It is a central element of which his life depends concretely.
.
Key-words:nature; geographicity; imagination; childrens.
1. Introdução
“(...) A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”
No poema “O menino que carregava água na peneira”, o poeta Manoel de
Barros evoca uma criança entusiasmada com suas irrealizações. Essas irrealizações
ocorrem no sentido atribuído ao termo por Sartre (1996), no qual a consciência
imaginante recria os objetos e aquilo que é observado materialmente se manifesta
no imaginário, na criação de símbolos Nesse contexto, é possível observar o
1
- Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Bahia. E-mail de
contato: [email protected]
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imaginado pela criança e sua capacidade inventiva e criativa através da sua escrita,
carregada de despropósito, como avisa sua mãe.
Afinal, qual a utilidade de um poema? Existe uma função específica para esse
gênero textual? Seria o despropósito? A experiência poética resulta de uma
experiência do criador da poesia e de quem está fruindo daquele texto. E essas
experiências conectam a racionalidade e a sensibilidade, o pensar e o sentir (TUAN,
2013) o exterior e o interior, numa espécie de hibridismo que liberta de uma
objetividade unívoca.
Pensamos a poesia estreitamente vinculada com o domínio do lúdico. É uma
atividade desempenhada no espontâneo, com possibilidade de gerar significados,
existentes ou ainda inexistentes. Para Maturana e Verden-Zoller (2011), uma
atividade vivida sem objetivos e sem nenhum propósito que lhe seja exterior, é o
brincar. O despropósito da criança de Manoel de Barros é a sua poesia, sua
brincadeira.
Assim, partindo do pressuposto de Dardel (2011), de que a geograficidade é a
primeira posição efetivamente humana de geografia; da proposição de De Certau
(2013), de que o espaço é um lugar praticado; e da ideia de Bachelard (1972), de
que o espaço é instrumento de análise para a alma humana; nesta pesquisa,
observamos esses despropósitos, através das práticas escritas, as imaginações
poéticas das crianças e a produção de significados, materiais e simbólicos,
construídos em relação ao mundo natural.
2. O ser-no-mundo enquanto criança
Para Dardel (2011), a geograficidade é a experiência espacial interior do ser,
aquela que precede a ciência objetiva. Ela é vivida por qualquer sujeito, e não
apenas pelo geógrafo acadêmico. Ela se dá por meio de uma relação concreta que
liga o homem à Terra. Essa relação é estabelecida por uma inquietude, pelo ímpeto
de conhecer o desconhecido, ou seja, pelo movimento do ser e de sua conexão com
o mundo. A geograficidade é o ser-no-mundo. Com essa proposta, Dardel atribui
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centralidade à dimensão existencial “do homem interessado no mundo circundante
(2011, p.2)”.
De Certeau (2013), por sua vez, afirma que a prática do espaço acontece
quando um ser se reconhece um, mas só o é quando há uma imagem de si com a
qual se identifica tal como na observação de um reflexo no espelho, pois “praticar o
espaço é [...] repetir a experiência jubilatória e silenciosa da infância. É no lugar, ser
outro, passar ao outro (p.177, grifos do autor).”
Já Bachelard (1972, p.19), afirma que a “a casa é um instrumento de análise
para alma humana”. A casa à qual se refere Bachelard é o nosso espaço interior,
representado na morada construída, com objetivo de nos acolher e proteger do que
há em sua exterioridade. Conectaremos essa noção de Bachelard com a
geograficidade, adjetivada de original por Dardel (2011), pois, para este último, a
Terra deve ser considerada como lugar, base e meio da realização humana. Assim,
o instrumento de análise proposto por Bachelard será ressignificado ao
considerarmos a Terra como a morada compartilhada por nós, constituindo nosso
espaço interior acolhedor.
A relação construída entre esses autores permite-nos estabelecer uma via
para o entendimento da construção de um conjunto simbólico, entre o ser e o
mundo, edificado desde a infância. A fenomenologia existencial, com bases em
Heidegger e/ou Merleau-Ponty, atravessa as abordagens desses autores e, quando
unificada, permite a possibilidade de compreensão da relação entre a vida humana,
enquanto criança, e sua construção de significados sobre o mundo natural.
Mas, afinal, o que são infâncias? O que significa ser-no-mundo na condição
de criança? Segundo Ariés (1981), a ideia de infância não pode ser naturalizada,
tampouco universalizada, pois se trata de uma construção histórica da sociedade.
Para conceber a infância, devemos compreender que a origem do que é e de como
a entendemoa foi construída, ao longo do tempo, em várias culturas. Assim, o
entendimento de infância é algo particular, pois, em algumas sociedades, a noção
de infância pode não existir, ou ser pensada de outra maneira. Sendo assim, a
concepção de infância estará intimamente relacionada com o espaço de sua
reprodução. Para Lopes e Vasconcelos (2006) é possível afirmar que a infância é o
lugar que cada grupo social reserva para suas crianças.
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2.1 Ouvindo as crianças
O termo infância vem do latim infans, que significa o que não fala. A
etimologia evidencia uma prática comum ao longo da história: a de não ouvi-las.
Superando essa marca, questionamos: Como ouvi-las? Como respeitar essa voz e
compreender suas significâncias?
A antropóloga Cohn (2013) contribui para o entendimento de alguns
equívocos epistemológicos e metodológicos em pesquisas com crianças. Ensina-nos
Cohn que, ao estudar crianças, muitos pesquisadores estabelecem uma cisão entre
a vida adulta e a vida da criança referindo-se esta última como seres incompletos
que treinam para a vida adulta, supondo que a fase seria a maturidade plena que um
indivíduo pode adquirir.
Ainda, de acordo com autora, deve ser desviada a noção de que as crianças
são seres inconscientes de sua realidade e que apenas reproduzem o que lhes é
passado. Essa proposta pretende ir além da ideia de que as crianças são
depositários de papéis funcionais. Por isso, rejeita-se conceber a infância a partir de
um ponto de vista adulto. Essa concepção advém de uma nova forma de se pensar
os indivíduos e sua vida em sociedade, não somente as crianças. Nesse
pensamento
ao invés de receptáculos de papéis e funções, os indivíduos passam a ser
vistos como atores sociais. Se antes eles eram atores no sentido de atuar
em um papel, agora eles o são no sentido de atuar na sociedade recriandoa a todo momento. São atores não por serem intérpretes de um papel que
não criaram, mas por criarem seus papéis enquanto vivem em sociedade
(COHN, 2013, p. 20-21)
Diante disso, devemos compreender a criança como um sujeito social. Não
acreditar que elas são apenas produzidas pelas culturas, pois elas são, também,
produtoras de culturas. Elas criam sentidos e significados em suas experiências de
ser-no-mundo, sentidos e significados esses que fazem parte de um sistema
simbólico compartilhado com os adultos.
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3. Os caminhos da experiência geográfica do mundo natural
“Há fronteiras no jardim da razão”, nos indicou o poeta Chico Science.
Acrescentaríamos que a razão e a emoção são “transfronteiriços”, pois uma
atravessa a outra. A experiência é constituída de sentimento e pensamento, de
afetividades e de imaginações. Pensar a geograficidade, tal como propõe Dardel, é
pensar a experiência espacial, sua ressonância e repercussão no sujeito. É
importante destacar que a experiência não apenas conhece a realidade, ela também
a cria. (TUAN, 2013)
Cosgrove (2013), ao referenciar a obra As metamorfoses de Ovídio,
reconhece a centralidade da imaginação na construção de significados para o
mundo. E a imaginação não se separa da geografia, pois
a linguagem do geógrafo sem esforço transforma-se na do poeta.
Linguagem direta, transparente que “fala” sem dificuldade à imaginação,
bem melhor, sem dúvida que o discurso objetivo do erudito, porque ela
transcreve fielmente o „texto‟ traçado sobre o solo (DARDEL, 2011, p.3),
Por essa condição, buscamos compreender, através da escrita das crianças,
seus símbolos em relação ao mundo natural, para entender como elas concebem e
julgam a natureza no seu cotidiano. Naranjo (2013) afirma que há uma proximidade
maior da criança com a experiência contemplativa e poética, pois o cotidiano
carregado de propósitos e utilitarista do adulto dificulta observar com calma e
atenção o que lhe rodeia.
Para
compreender a
experiência
espacial
e,
consequentemente, a
experiência de natureza, buscamos princípios epistêmicos fundamentais da
fenomenologia. Sartre (2005, p.16), discute a ideia de fenômeno, rejeitando o
dualismo da essência e da aparência na manifestação do fenômeno, pois, para ele,
“a aparência não esconde a essência, mas a revela: ela é a essência”. Ao se referir
a Goethe, Hadot (2006) afirma que o poeta alemão critica os cientistas
experimentais por tentar descobrir o que está por trás da natureza, desvelando-a.
Goethe cita o mito de Ísis para afirmar que a natureza se mostra sem véus e que
não é necessário entendê-la ao não ser por ela mesma. Assim, a natureza se revela
pela sua aparência.
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“Nature is a language, can’t you read?”. Com essa questão, o compositor
Morissey nos estimulou a pensar como a essência da natureza se revela por meio
de sua aparência, que é a sua linguagem. Desde a Antiguidade, o poeta era
considerado que o ser capaz de interpretar a natureza, de decodificar seus
segredos, ao mesmo tempo em que esta natureza se configurava como um poeta e
a sua produção, um poema (HADOT, 2006). Nesse pensamento, os poemas da
natureza são suas múltiplas formas. Resgataremos neste trabalho essa concepção
do poeta interpretar o poema que é produzido pela natureza.
Para estimular essa interpretação poética da natureza, preparamos um roteiro
metodológico que consistiu na realização de uma oficina com oito crianças, de 10 a
13 anos, na Escola Municipal Governador Roberto Santos, localizada no bairro do
Cabula, na cidade de Salvador. Tomamos, como base para referenciar a oficina, a
ideia de corporificação da consciência de Merleau-Ponty (2006).
Perguntamos aos sujeitos qual era, para eles, o sabor, o cheiro, a cor, o som
e a textura da natureza. Procuramos privilegiar a forma em que os sentidos afetam a
consciência. Nesses questionamentos, buscamos abarcar a dimensão sensorial de
cada sujeito. Solicitamos que cada pergunta feita fosse respondida com uma palavra
apenas. Após essa etapa, solicitamos que os sujeitos escrevessem um texto, com
gênero textual livre, apresentando a natureza para os outros sujeitos participantes
da oficina. A única regra para a produção do texto era utilizar as cinco palavras que
resultaram das respostas do momento anterior. No final, cada integrante da oficina
leu, em voz alta, a apresentação da natureza de outro participante.
Dos oito textos elaborados na última etapa da oficina, foram selecionados,
devido as suas convergências e divergências na abordagem da natureza, seis para
integrar este artigo. Por razões éticas, a identidade dos sujeitos foi preservada,
sendo a sua identificação feita a partir das iniciais do seu nome e sobrenome.
Os textos elaborados pelos sujeitos violam os limites entre a poesia e a prosa.
Na forma de prosas, narradas ou não, ou mesmo de poesias, o poético surgiu e
percebemos as construções simbólicas das crianças, consonantes ou dissonantes
acerca do mundo natural.
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4. Os poetas da natureza e a natureza nos poetas
“Natureza, suas folhas secas caindo ao chão mostra que você tem vida”, esse
é um fragmento do “Poema sobre a natureza”, escrito por B.F., uma menina de dez
anos. O símbolo da queda das folhas, representado nesse trecho, permite interpretar
alguns significados de natureza para B.F.. A queda de todas as folhas de uma
árvore remete a um estado de dormência da planta que pode ser eterno ou sazonal.
Eterno, pois sem as folhas por um longo período, o vegetal não poderá mais
tragar e traduzir a luz solar em alimento. Nesse caso, está presente o antagonismo e
complementaridade do par vida/morte. Morre apenas o que está vivo.
Sazonal como nos umbuzeiros2 que perdem suas folhas no período mais seco
para economizar água, não permitindo que ela saia de seu domínio durante o
processo de transpiração. Nesse sentido, o templo cíclico, aquele que se repete,
ganha significado amparado na imagem da renovação.
Ao opor o espaço geométrico e o espaço geográfico, Dardel (2011) afirma
que o primeiro é neutro, uniforme e homogêneo. Já o segundo é diferenciado pela
singularidade atribuída pelo ser-no-mundo a cada aspecto desse espaço.
Continuando sua escrita sobre essa diferença, brinda-nos afirmando que
A geografia é, segundo a etimologia, a „descrição da Terra‟; mais
rigorosamente, o termo grego sugere que a Terra é um texto a decifrar, que
o desenho da costa, os recortes da montanha, as sinuosidades dos rios,
formam os signos desse texto. O conhecimento geográfico tem por objetivo
esclarecer esses signos, isso que a Terra revela ao homem sobre sua
condição humana e seu destino. (p.2, grifos do autor)
A experiência espacial de natureza de B.F, expressada nesse trecho
evidencia a inseparabilidade entre espaço-tempo linear e o cíclico. O espaço-tempo
linear é o da manifestação do início, meio e fim, e a vida segue esse padrão. Já o
espaço-tempo cíclico é o da aparição sazonal de alguns elementos representados,
como os da renovação. Contudo, toda renovação necessita de uma linearidade para
sua ocorrência. Início, meio e fim é a linha, e o início, já em outra etapa, marca
novamente a ciclicidade espaço-temporal.
2
Árvore frutífera, típica de áreas de caatinga
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Para diferenciar os símbolos consonantes dos dissonantes encontrados nas
escritas dos sujeitos, nos apropriamos da ideia de Hadot (2006) de que há na
experiência humana do mundo natural, três modos de relação do ser com a
natureza, regido por percepções ou conhecimentos. O primeiro modo é utilitarista,
baseado na percepção cotidiana, regida pelos hábitos e por nossos interesses. O
segundo modo advém do conhecimento científico, que para o autor não muda a
experiência vivida. E o último modo é o da percepção estética. Esta para Hadot
(2006), é o mesmo que
Ver as coisas pela primeira vez é desembaraçar a vista de tudo que vela a
nudez da natureza, e livres de todas as representações utilitárias com que
recobrimos percebê-la de um modo ingênuo e desinteressado, atitude que
está longe de ser simples, tanto é preciso arrancar aos nossos hábitos e ao
nosso egoísmo (p.235).
Interpretamos que os símbolos consonantes se aproximam da percepção
estética indicada por Hadot (2006). Os símbolos que se manifestaram em mais de
um texto, observados nas escritas dos sujeitos foram: a liberdade, a paz e o canto
dos pássaros.
A metáfora da natureza como fonte de liberdade é bastante difundida entre
pensadores, poetas e filósofos. O poeta Manoel de Barros “ já nos alertava liberdade
e poesia a gente aprende com as crianças”. Nas escritas dos sujeitos essa metáfora
surge em contextos semelhantes de associação da liberdade com a natureza e
dessa com a vida. “a natureza é um lugar que a gente se sente livre [...] e amo essa
sensação de se sentir livre” escreveu M.E., uma menina de onze anos. Já B.F. relata
que, “Minha sensação no ar livre me faz ter vontade de viver”. É possível associar a
liberdade na criança, tomando como base os trechos descritos, a uma manifestação
dialética do interior/exterior. M.E. ama a sensação de liberdade e é a natureza, que
na sua fala é um lugar exterior a ela, que proporciona esse sentir. Para B.F. a
sensação “no ar livre”, ou seja, na atmosfera, “invisível, e sempre presente” nos
dizeres de Dardel (2011, p.23) é a constituição de uma certeza interior, a vontade de
viver, através de uma evidência do exterior que é o ar livre.
Outra manifestação intersubjetiva observada entre as crianças surgiu no
questionamento sobre o som da natureza. Muitos fizeram referência ao canto dos
pássaros. E, nos seus textos, assim escreveram: ao se referir a sonoridade da
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natureza N.B., menina de treze anos, afirma que “O seu som é o do canto de seus
inúmeros pássaros”; I.S., menino de onze anos, escreveu no seu texto “silêncio,
não! Aqui quem canta são os pássaros”; B.F. diz : “Natureza, seus sons de pássaros
são profundos”; M.E. relata que “a natureza é um lugar agradável, é bastante
colorida e o som dos pássaros cantando”. Revisitando a noção já citada sobre
natureza ser um poema, parece que quem possui exclusividade para recitá-lo são as
aves. As mesmas aves cuja fala as crianças gostam de imitar, ao assobiar, e, com
isso, se apropriam da linguagem da ave, e decodificam o poema produzido pela
natureza para nos contar.
A vinculação da natureza com a paz foi outra noção abordada em alguns
textos. “Na natureza tenho uma sensação de paz”, segundo R.S., menina de treze
anos, enquanto para I.S. “a natureza é uma paz”. Os dois associam a natureza com
a paz, contudo, na sequência de seus textos, além dessa semelhança, foi possível
observar algumas diferenças em suas abordagens. R.S. inicia sua escrita relatando
um momento: “um dia eu fui com a minha tia para a floresta e lá eu via só verde. As
árvores eram mais verdes do que na cidade”. Uma ideia muito difundida em vários
discursos é a da cidade como representação da negação da natureza. Em R.S.,
essa ideia não é totalmente apropriada, porém, para ela, a natureza, representada
na imagem da árvore, existe na cidade e na floresta, mas são diferentes em cada
espaço. Em consonância com R.S., N.B afirma que quando está na natureza “ é a
mesma sensação de estar em um lugar familiar”, ou seja, apesar de “frequentar”, a
natureza não é um espaço em que ela está a todo instante.
Já na descrição de I.S. apesar de “ser” uma paz, há, na natureza problemas
que precisam de solução urgente:
Meu Deus como eu queria ter uma cidade sem poluição nos lagos, nos
mares, nem o ar eu queria ver poluído. Tudo isso as pessoas têm de
preservar. Nossa cidade chama por socorro, não poluam o ar e parem de
cortar árvores (I.S. criança de 11 anos).
Na visão de I.S., a natureza é um elemento determinante na cidade e sua
degradação no espaço citadino acontece devido a um motivo: as agressões
humanas. Sua visão de natureza é expressada por um valor afetivo ao clamar por
uma regulação das ações humanas sobre a natureza. Importante destacar que o
texto de I.S. foi o único a ressaltar a importância de um cuidado efetivo na relação
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que a sociedade estabelece com a natureza. Nesse contexto, possuir uma ação
ética contribui para que a haja uma ação utilitária, na qual o bem da primeira ação
permitiria a manutenção não apenas de sua vida, mas das pessoas que habitam a
cidade.
Na apresentação dos trechos dos textos escritos pelos sujeitos, observamos
os dois elementos da noção de geograficidade de Dardel (2011): a de que todo ser é
um geógrafo e o da ligação deste ser com a Terra. No contexto da primeira questão,
Claval (2010) afirma:
Desde a origem dos tempos, todo homem é geógrafo. Ele segue sendo
ainda hoje. A geografia não faz nascer curiosidades, nem ensina atitudes,
habilidades ou conhecimentos que teriam ficado desconhecidos até a sua
aparição. É normal: o universo científico não é aquele da revelação: para
explicar as coisas do mundo e da vida, a verdade não cai de paraquedas de
um certo além. Ela é resultante das experiências renovadas e de
procedimentos imaginados há muito pelos homens para responder aos
imperativos de sua vida cotidiana, dar sentido às suas existências e
compreender o que acontece para além dos horizontes que eles frequentam
costumeiramente (p.11)
A geografia é cotidiana no ser, assim como é sua geograficidade. Essa noção
não fica restrita aos espaços naturais (aéreo, aquático e telúrico, para Dardel), pois
os espaços materiais construídos também fazem parte da Terra. Por isso, a
geograficidade
Refere-se às várias maneiras pelas quais sentimos e conhecemos
ambientes em todas as suas formas, e refere-se ao relacionamento com os
espaços e paisagens, construídas e naturais, que são „as bases e recursos
da habilidade do homem‟ e para as quais há uma „fixação existencial‟
(RELPH, 1979, p. 18)
Possivelmente, por essas condições de fixação existencial do ser, o termo
único surge diversas vezes no texto de N.B.. Para ela, “A natureza é um lugar único.
O seu céu é único, onde pela noite é possível ter a visão única de um amontoado de
estrelas”. O espaço aéreo, do qual o céu faz parte e é a “fronteira do visível e
invisível (DARDEL, p.8)”, se abre diante dela, e o infinito, que mesmo por sua
condição inumerável, se torna único. Um dos significados para o termo único é a sua
condição excepcional de superioridade em relação aos outros. Mas superioridade da
natureza em relação a quem ou a o quê? Para J.L, menina de 13 anos,“ sem a
natureza nós não somos ninguém”, ou seja há uma dependência profunda do ser
com a natureza.
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5. A constelação de significados sobre a natureza não se encerra
O exercício empreendido para compreender a construção de signos e sua
correspondência com os significados, ou seja, a representação de natureza, a partir
do roteiro escolhido para este trabalho foi necessário nos aproximarmos de uma
redução fenomenológica.
Segundo Hadot (2006, p.237), para Goethe “o mais misterioso, o mais
secreto, é justamente o que está bem exposto, o visível, mais exatamente o
movimento pelo qual a natureza se torna visível”. Por isso, desviamos da pobreza do
pensamento de que tudo já é conhecido e mergulhamos no domínio do brincar, mas
a do brincar com as palavras transmutadas em formas com conteúdos: a poesia.
Acreditamos que, durante a infância, o poético, o onírico, a imaginação fluem com
muita facilidade e, com o passar dos anos isso, nos é furtado, como num golpe,
sobretudo ao nos aproximarmos da vida adulta. Por isso, extrair dessa brincadeira,
que a insensibilidade pode enxergar como algo vazio, ingenuidade em detrimento ao
que é sério, permitiu o regresso ao nosso universo infantil.
Nas escritas dos sujeitos, observamos que a relação com a natureza é
regulada por reações afetivas. Termos como “alegria”, “amor”, “paz” surgem com
uma facilidade e denotam que a emotividade é um traço comum em suas relações
com o mundo natural. A natureza é um elemento central, da qual sua vida depende
concretamente, desde suas ações cotidianas básicas, como alimentar-se e habitar,
como também através de metáforas que dão sentido a sua existência.
Propomos, assim como Bachelard (1972), “que se considere a imaginação
como um poder maior da natureza humana (p.17)”, pois, a imaginação captura
dados sensoriais através de sua capacidade metafórica de criar significados.
Sabemos que a poesia une a função do real e a do irreal, mas concordamos com
Waly Salomão: “O real é oco, coxo, capenga. O real chapa. A imaginação voa”.
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