Rosa Maria D’Urso Hebling
PROFT em Revista
ISBN 978-85-65097-00-0
A TRADUÇÃO LITERÁRIA: ALGUMAS
OBSERVAÇÕES
Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2010
Vol. 1, Nº 1 Outubro de 2011
RESUMO
Rosa Maria D’Urso Hebling
Pós-graduada no curso de Formação de
Tradutores de Inglês do Centro
Universitário Claretiano
Desde que se tem notícia a respeito de teorias sobre tradução,
existe a polêmica com relação ao papel do tradutor, sua atitude
diante da obra original e do produto final, a fidelidade ou
infidelidade ao autor ou texto primitivo, a literalidade ou
desobediência à fonte, a criatividade na elaboração do texto final
- e muitos assuntos correlatos. Nosso trabalho consiste numa
viagem através do tempo, dentro desse cenário em que fomos
colhendo ideias de alguns dos mais importantes teóricos sobre
esse tema, bem como demarcando alguns dos pontos mais
representativos da história desse trajeto.
Não temos a pretensão de julgar esgotado o assunto com este
trabalho, mesmo porque uma das unanimidades entre os autores que
dele tratam é justamente o fato de que a tradução não é
“domesticável”, resistindo “a qualquer tentativa de sistematização
em qualquer postura teórica ou histórica”. Apenas apresentamos
algumas considerações sobre o pensamento de notáveis estudiosos
com a esperança de conduzir a uma reflexão enriquecedora sobre
tema tão apaixonante.
Palavras-Chave: estudos de tradução, história da tradução,
tradução literária, tradução literal, fidelidade.
ABSTRACT
Rosa Maria D’Urso Hebling
Contato:
[email protected]
Since the earliest ever recorded notice about translation theories,
there is controversy regarding the role of the translator, his
attitude toward the original work and the final product, fidelity
or infidelity to the author or original text, the literal translation
or disobedience to the source-text, creativity in preparing the
final text - and many related subjects.
Our work is a journey through time, within this scenario where
we gathered some ideas from important theorists about that
matter, as well as we marked some of the most representative
points from the history of this path.
It is not our pretension to consider exhausted the matter in this
paper, even because it is a unanimity among the translation
scholars the fact that translation cannot be "domesticated”,
resisting "to any attempt of systematization in any theoretical or
historical posture". We barely present some considerations
about the thought of noteworthy scholars expecting to lead to
fruitful reflections about so fascinating subject.
Keywords: translation studies, translation history, literary
translation, literal translation, fidelity.
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Anais do Simpósio Profissão Tradutor 2010
A Tradução Literária: algumas observações
A Tradução Literária: Algumas Observações
Já no Renascimento encontramos as bases dos estudos modernos de tradução, sendo
que, dentre as reflexões mais representativas desse período, não se pode deixar de
citar as de Lutero, além de Leonardo Bruni, Luis Vives, Étienne Dolet, Fausto da Longiano e George Chapman, conforme relata Furlan (2004, p. 11-21), muito embora a intenção primeira de Lutero, como religioso, fosse justificar sua tradução do Novo Testamento e não propriamente elaborar teorias sobre o ato de traduzir.
Desde então, inúmeros foram os teóricos que se entregaram ao trabalho de análise
dessa prática e hoje encontramos muitos intelectuais cujas ideias enriquecem nossa
percepção e nosso próprio exercício de traduzir, oferecendo uma fonte riquíssima de
informações, análises, reflexões, que certamente nos fornecerão sólido embasamento
para a tarefa que nos propomos realizar. Alguns desses teóricos merecem nossa atenção no presente trabalho. Nesse levantamento, não pudemos nos esquivar de assinalar alguns fatos históricos relacionados à tradução.
Étienne Dolet por Mauri Furlan
Étienne Dolet (1509-1546) publicou em 1540 o clássico texto La manière de bien
traduire d’une langue en autre, tido como “o único programa formal de teoria da
tradução na França renascentista” (NORTON, 1984: 103, apud FURLAN, 2008). Mauri
Furlan analisa essa obra num trabalho publicado em 2008.
Dolet é visto como “o epônimo e patriarca da tradução francesa” (VEGA 1994: 722,
apud FURLAN, 2008), marcando início da reflexão teórica sobre tradução na França.
Segundo Delisle- Woodsworth (1995: 277) apud Furlan (2008), foi ele que introduziu na
língua francesa as palavras “tradução” e “tradutor”.
A obra aqui analisada por Furlan (2008) é a primeira parte de um grande projeto de
Dolet, Orateur françoys, com previsão de nove partes, das quais apenas três foram
publicadas. Grande defensor do latim, com essa obra Dolet passa a manifestar
reconhecimento e valorização de sua língua materna, o francês, mostrando estreita
conexão com a mutante realidade histórico-política de seu tempo. É digno de nota,
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lembra Furlan (2008), que, no século XVI, na França, na Itália e em outras regiões,
amplia-se muito o “universo leitor”, que passa a desejar textos em língua materna.
Furlan (2008) relata que Dolet estabeleceu o projeto que difundia o francês como
idioma dotado dos mesmos valores das línguas clássicas ou outras modernas como
o italiano. Com esse projeto, propunha a unificação da língua vulgar. Assim, a
tradução passa a ter status de coformadora da cultura nacional.
“O latim e o
grego continuavam sendo o principal parâmetro de avaliação das novas línguas
vulgares, tanto no concernente a sua cultura linguística como literária, e a tradução
era um meio de apropriação destes valores” (FURLAN, 2008). Segundo Furlan (2008),
a boa tradução seria mediadora cultural, participando mesmo na construção da língua
vernácula. “A tradução tornou-se, pois, uma causa nacional” (CHAVY, 1981: 291, apud
FURLAN, 2008), sendo que a má tradução chegaria a colocar em perigo o bom
desenvolvimento da língua de chegada.
Objetivo e sintético, Dolet expõe, conforme relata Furlan (2008), sua concepção
teórico-prática de tradução em cinco pontos. Em resumo, segundo ele, a tradução
começa com uma análise profunda sobre o objeto a traduzir, ou seja, compreensão
do sentido, do autor e conhecimento da matéria; o tradutor deve ter conhecimento de
ambas as línguas com que trabalha, o que o impele a um tipo de tradução de
tendência livre, em que deve privilegiar a língua de chegada, com preservação de
suas propriedades; o tradutor-autor, usando os recursos retóricos oferecidos pela
língua de chegada, reconstrói “criativamente” no produto final os elementos
anteriormente desconstruídos pela compreensão do sentido.
Eis as cinco regras citadas por Dolet (2006: 198) apud Furlan (2008):
1. Compreender o sentido e o tema do autor que é traduzido.
2. Conhecer perfeitamente a língua do autor que é traduzido e a língua em que é
traduzido.
3. Traduzir ad sententiam.
4. Utilizar a língua comum.
5. Observar a harmonia do discurso.
Observa-se que
Dolet foi extremamente objetivo, sucinto e didático. Seus preceitos partem do
objeto a traduzir e seus requisitos (conhecimento do autor, obra, tema e
línguas), passam pelos meios a empregar e o tipo de tradução mais
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A Tradução Literária: algumas observações
recomendável (tradução ad sententiam e o uso da língua comum) e chegam
ao produto final com seus valores retórico-literários (harmonia do discurso)
(FURLAN, 2008: 71).
Furlan (2008) se surpreende com a semelhança desses cinco pontos de Dolet com
o pensamento de outros pensadores sobre tradução, como Martinho Lutero e Juan
Luis Vives.
Não sabemos se Dolet teria lido Sendbrief vom Dolmetschen, de Lutero, 1530,
ou Versiones sur interpretationes, de Vives, 1533, mas certamente conhecia e
bem o texto de Bruni, De recta interpretatione, 1420, pois, em sua
exposição, retoma e reescreve a reflexão do Aretino, segundo nossa leitura
das cinco regras, que confirmamos nas palavras de E. Mattioli (1982: 46): „ In
sostanza Doleto riprendi a Bruni’ [Em essência, Dolet retoma Bruni]. Ou seja,
as ideias fundamentais de Dolet não são criação sua, mas aparecem por
primeira vez sintetizadas no Renascimento europeu no texto bruniano,
especialmente a concepção de tradução literária, artística (Furlan, 2008: 7273).
Segundo Furlan (2008) a compreensão do sentido, para Dolet, é o requisito básico
para uma versão fiel e segura. “O tradutor que consiga essa compreensão nunca
será obscuro em sua tradução”(DOLET 2006: 198).
López Carrillo (1998), apud Furlan (2008: 75) sintetiza a teoria de Dolet no
trinômio Objeto-Processo-Produto, sendo que “o Objeto, correspondendo à primeira
regra [...], equivale aos elementos implicados no conteúdo da obra a traduzir; o
Processo fundiria a segunda, a terceira e a quarta regras (conhecimento das línguas,
tradução ad sententiam, e uso de palavras comuns), equivalendo ao processo
mediador entre o Objeto e o Produto; e o Produto, fundamentado na quinta regra (a
harmonia do discurso), referir-se-ia ao texto final da tradução”.
Para Dolet (apud Furlan 2008: 76), o conhecimento das línguas é o instrumento de
trabalho do tradutor. O domínio da língua de partida permite ao tradutor “desconstruir”
o objeto e o domínio da língua de chegada permite “reconstruí-lo”, reproduzindo-o no
produto final. Além disso, segundo ele, o tradutor não deve violar nem diminuir a
grandiosidade de nenhuma das línguas.
Furlan (2008: 76-77) explica que a cuidadosa conservação das propriedades das
duas línguas envolvidas é o objetivo da terceira regra, a da tradução ad sententiam.
Segundo ele, Dolet advoga em favor da liberdade da tradução e do tradutor,
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propondo o mesmo princípio para a tradução em prosa e em verso.
Segundo essa regra, o tradutor não deve ater-se à tradução de palavra por
palavra, mas sim deter-se às sentenças de modo a expressar a intenção do autor,
preservando as propriedades de ambas as línguas (trad. de GOLDSTEIN & BONATTI,
in DOLET 2006: 201 apud FURLAN 2008).
Para Dolet, “a submissão às palavras do texto original revela ignorância, pobreza,
falta de engenho e ausência dos requisitos necessários ao bom tradutor” (Furlan
2008). Sem dúvida, como considera Furlan (2008), essa é a regra mais importante
das três que constituem o processo de tradução, pois, é a que determina o “tipo” de
tradução. A “tradução ad sententiam doletiana", como chama Furlan (2008) “tenta
recriar com liberdade a intenção do autor e o sentido do texto, e expressar a graça e
a perfeição de ambas as línguas”.
Na quarta regra, Furlan (2008) explica que Dolet defende o emprego da “língua
comum”, princípio que nos recorda Lutero e Vives, entendendo-se por isso o uso de
palavras e expressões já presentes e em uso na língua de domínio público. Furlan
acredita que Dolet, com essa recomendação, pensa nos “destinatários” da tradução,
que não são eruditos nem dominam línguas estrangeiras, o que também representa
uma defesa da língua francesa „nacional‟, diferenciando-se definitivamente da língua
latina.
A última regra de Dolet, segundo Furlan, (2008) diz respeito à “harmonia do
discurso”, sendo de grande importância por ser a que transforma o texto em
literatura. Sem ela, Dolet (2006: 203) considera que toda composição fica pesada e
desagradável.
Furlan (2008) explica que, para Dolet, esta última regra efetiva e conclui a
tradução correta, chegando ao extremo de afirmar que “sem ela um autor não é
nada”. A tradução não pode ser literal, mas „livre‟, „criativa‟ e profunda. “Não se trata
somente de traduzir o sentido do texto de partida, ou de reconstruí-lo de qualquer
maneira, mas de harmonizar o conjunto para que cada parte ocupe o lugar que lhe
corresponde, „recriar‟ o texto de partida com correção e eloquência” (Dolet 2006: 202,
204 apud Furlan 2008).
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A Tradução Literária: algumas observações
De Schleiermacher a Venuti por Luana Ferreira de Freitas
Ainda no século XIX, Schleiermacher lançou um modelo de tradução que foi
apropriado por Venuti para redefinir o prestígio do tradutor buscando a sua visibilidade,
o que é analisado por Freitas (2008) em seu trabalho “Tradução e autoria: de
Schleiermacher a Venuti”. Freitas (2008) examina ambas as argumentações de
intervenção consciente no exercício da tradução.
Freitas (2008) reporta que, desde as primeiras traduções de que se tem notícia – do
grego para o latim – já surgiram os debates sobre tradução, envolvendo os textos, as
línguas e os autores. Os estudiosos da tradução já tratavam, em seus discursos, de
binarismos como texto de partida / texto de chegada e conteúdo / forma.
Freitas (2008) toma a Cícero como exemplo dessa época, para quem o tradutor
deveria cuidar da retórica e da eloquência (“Instruir é uma obrigação, deleitar, uma
honra, comover, indispensável.”). Ainda Cícero apud Freitas (2008), falando de sua
própria tradução de Ésquines e Demóstenes, afirma:
Traduzi (...) com os mesmos pensamentos e suas formas bem como com
suas figuras, com palavras adequadas ao nosso costume. Para tanto não tive
necessidade de traduzir palavra por palavra, mas mantive o gênero das
palavras e sua força.
Durante todo o Renascimento, nota-se sempre a mesma preocupação com a
produção literária e o efeito estético na língua de chegada, segundo palavras de
Freitas (2008), o que permite deduzir que o tradutor desfrutava do “estatuto de
autor”, produzindo um texto que se distinguia pelo seu “efeito na cultura de chegada”
e assim interferindo mais no texto produzido.
Apesar disso, Bruni, apud Freitas (2008), mostrava que alguma limitação se impunha
ao tradutor:
na tradução o ótimo tradutor se transforma com toda a mente, alma e
determinação no autor do primeiro escrito e assim transformará a forma,
postura e textura do discurso, tentando expressar a cor e os diversos matizes.
(...) o bom tradutor deverá se adaptar ao estilo de cada um.
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Portanto, Freitas (2008) conclui, a inserção do tradutor na produção de seu texto
fica limitada ao gênio do autor e essa subserviência se radicaliza a partir do século
XIX, com os ideais românticos. O texto de partida é tomado como “reflexo de uma
visão própria de mundo, única, e por isso mesmo não passível de reprodução”,
segundo Freitas (2008), sendo então redefinido o papel da tradução. Ela continua
citando que a fidelidade, a equivalência à intenção e ao estilo transformam-se em
“balizas” para tradutores, leitores e editoras.
Mounin apud Freitas (2008) comenta o estatuto do tradutor no século XIX:
E o tradutor (a menos que ele próprio seja um escritor, estimado em sua língua
materna), torna-se então o „pobre tradutor‟, o empreiteiro obscuro mal pago,
sempre negligenciado, privado de qualquer direito sobre a mercadoria que
produz quando a vende, cujo nome pode ou não aparecer na capa, de acordo
com o capricho da editora (ou até mesmo pela distração do editor ou impressor)
e de quem os críticos quase nunca falam, a não ser para dele zombar,
concedendo-lhe apenas uma linha e meia ao final de sua crônica, por um erro
de estilo ou linguagem que descobriram, ou pensaram ter descoberto em sua
tradução (1965, p. 206 – citação em italiano - tradução nossa).
Assim, segundo Freitas (2008), os teóricos defendiam uma busca incansável da
fidelidade ao original, sendo a tradução uma “atividade mecânica de reprodução” e o
tradutor um mero copista de textos.
Freitas (2008) relata, porém, que essa postura foi finalmente redimensionada,
sendo que, a partir dos anos sessenta, “muitos paradigmas foram repensados”. Um
movimento contestatório passou mostrar a “preocupação de incorporar socialmente
valores e discursos reprimidos”. Nesse cenário, a teoria da tradução reconsiderou o
estatuto da tradução e do tradutor. Os discursos acadêmicos passaram a discutir o
papel social do tradutor e dicotomias como autor / tradutor, texto original / tradução,
tradução fiel / tradução livre.
Lawrence Venuti é citado por Freitas (2008) como um dos estudiosos da tradução
que se dedica “à questão da autoria do tradutor aliada a um posicionamento mais
crítico diante dos discursos hegemônicos da cultura de língua inglesa”. Segundo ele, a
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A Tradução Literária: algumas observações
invisibilidade do tradutor se deve justamente à concepção de autoria na cultura
angloamericana.
Freitas (2008) cita que Venuti, baseado na teoria marxista, considera que a
interpretação e o discurso são condicionados por “fatores alheios ao produtor textual” e
balizados pelas “conjunturas históricas e ideológicas da cultura na qual o discurso é
produzido”. Assim, “os significados ativados em um texto por um escritor são
construtos determinados política e socialmente e balizados pelas práticas sociais” [...]
e “a viabilidade da tradução é estabelecida por sua relação com as condições
culturais e sociais nas quais é produzida e lida”). (Venuti apud Freitas 2008).
Segundo Venuti, apud Freitas, 2008, “se a produção literária é limitada por um
contexto preestabelecido e se o significado é coletivo e construído culturalmente,
então conceitos como criatividade e neutralidade autorais inexistem”. Venuti, apud
Freitas 2008, questiona a superioridade da obra do autor em detrimento da do tradutor
examinando as relações de produção sob a luz do marxismo, lançando mão do
conceito de consumibilidade, segundo a qual “quanto maior for o acesso e a
legibilidade da tradução, maior será seu prestígio enquanto mercadoria e menor será a
visibilidade do tradutor”.
Freitas (2008) cita as palavras de Venuti a esse respeito:
Uma estratégia fluente pretende apagar a intervenção fundamental do tradutor
no texto estrangeiro: ele ou ela ativamente o reescreve em um idioma diferente
para circular em uma cultura diferente, mas esse processo resulta muito em
uma autoaniquilação, em última análise contribuindo para a marginalidade
cultural e a exploração econômica que os tradutores sofrem hoje.
Assim, explica Venuti, apud Freitas 2008, a fluência leva a traduções legíveis e
consumíveis no mercado do livro, “auxiliando na sua mercantilização e contribuindo
para a hegemonia cultural e econômica das editoras da língua alvo.”
Freitas (2008) relata que, partindo daí, Venuti aponta como estratégia de tradução a
“visibilidade”
do
tradutor,
através
da
“subversão
dos
modelos
discursivos
hegemônicos”, inspirando-se nessa busca pelo reconhecimento autoral do tradutor em
princípios lançados
por
Friedrich
Schleiermacher
em
1813, que via duas
possibilidades para o tradutor: "ou o tradutor deixa o autor em paz, tanto quanto
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possível, e move o leitor em direção a ele. Ou ele deixa o leitor em paz, tanto quanto
possível, e move o autor em relação a ele" (citação também lembrada por Ortega y
Gasset, 1992: 108, apud López 2008). Freitas (2008) cita que Schleiermacher
claramente opta pela primeira como estratégia política de fortalecimento da língua e
cultura alemãs.
Freitas (2008) lembra as palavras de Berman (1984) sobre a “abertura ao
estrangeiro” proposta por Schleiermacher e do “bilinguismo cultural alemão”:
E Schleiermacher mostra que este tipo de tradução está ligado, pelo menos na
Alemanha, a uma situação cultural em que o idioma nacional ainda não foi
autoafirmado, em que não se podem acomodar outros idiomas com suas
diferenças, nem se posicionar como uma língua "cultivada"; situação em que os
membros da comunidade linguística podem ser tentados a falar em outras
línguas mais "educadas". (...) Assim, bilinguismo cultural alemão bloqueará num
momento, e por um longo tempo, a ascensão literária da língua materna e das
traduções. Porque esse bilingüismo não significa uma abertura para o
estrangeiro, mas o faz antes ser dominado por este último (BERMAN, 1984, pp.
236-7).
Freitas (2008) explica que, para Schleiermacher, o tradutor “estrangeirizador” segue
literalmente o original para dar ao leitor a sensação do estrangeiro, porém, segundo a
autora, tal estratégia pode passar a impressão de tradução mal feita.
Venuti parte desse conceito binário de Schleiermacher, segundo Freitas (2008),
para propor sua “estratégia de visibilidade do tradutor”. Ele adota os conceitos de:
a) tradução domesticadora: neutraliza o discurso do autor, deslocando-o em direção ao
leitor; b) tradução estrangeirizadora: dificulta a legibilidade do texto como estratégia de
visibilidade, deslocando o leitor em direção ao autor.
Venuti
escolhe,
como
Schleiermacher,
a
segunda
opção
–
a
tradução
estrangeirizadora, segundo Freitas (2008), e a estratégia sugerida por ele aconteceria
pela “subversão do cânone local”, o que promoveria a visibilidade do tradutor pela
“introdução de gêneros estrangeiros ou dando voz a grupos socialmente excluídos.”
Venuti, diferentemente de Schleiermacher, fundamenta sua opção estrangeirizadora,
como relata Freitas (2008), num posicionamento democrático, contra as “práticas
hegemônicas naturalizadoras recorrentes na cultura angloamericana”.
Freitas (2008) afirma que a postura de Venuti frente ao papel social do tradutor nos
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A Tradução Literária: algumas observações
conduz à análise do posicionamento de Eagleton (1996) em relação ao pensamento
pós-moderno: “apesar de toda a sua alardeada abertura para o Outro, o pósmodernismo pode se mostrar quase tão exclusivo e crítico quanto as ortodoxias a que
ele se opõe”.
Freitas (2008) lembra, então, ser preciso analisar a inserção da prática da escrita
subversiva de Venuti no mercado, e sobre isso cita as palavras de Eagleton (1996): “o
que funciona no nível da ideologia nem sempre funciona no nível de mercado.”
A fluência e a inteligibilidade do texto são exigência do mercado, como lembra Freitas
(2008), porém, também são expectativa do leitor. A autora julga um paradoxo Venuti
procurar elevar o prestígio social do tradutor dificultando, ao mesmo tempo, o acesso do
leitor ao texto. Tal dificuldade provocará desinteresse, sendo que o acesso ao texto
estrangeirizador ficará limitado a uma elite intelectual, o que entra em choque com o
posicionamento subversivo e democrático de Venuti.
Reforçando essa análise, Freitas (2008) cita as palavras de Bakhtin (1986), para
quem “a palavra é uma espécie de ponte lançada entre mim e os outros. Se ela se
apoia sobre mim numa extremidade, na outra apoia-se sobre o meu interlocutor. A
palavra é o território comum do locutor e do interlocutor.” (p.113). P a r a F r e i t a s
( 2 0 0 8 ) , n o caso da tradução estrangeirizadora, “ a palavra não mais é território
comum do leitor, é a subversão pela subversão, não há ponte porque uma das
extremidades inexiste, uma vez que a opção de Schleiermacher e Venuti é
excludente de leitura.”
Freitas (2008) volta a citar Schleiermacher, para quem:
o leitor da tradução será igual ao melhor leitor do original apenas quando ele é
capaz de adquirir primeiro uma impressão do espírito particular do autor, bem
como a do idioma do trabalho, e desenvolver uma compreensão definitiva do
mesmo mais tarde.
A autora recorre a essa citação não apenas para evidenciar a necessidade da
existência de um superleitor como também para expor a disparidade de propósitos de
Schleiermacher e Venuti: enquanto o primeiro exalta o autor, lançando mão da
estrangeirização para dar ao leitor o prazer igual ao que sentiu mostrando o “o espírito
da língua do autor, e ver seu próprio e peculiar modo de pensar e de sentir”, Venuti
parte da tentativa de desacreditar o autor para atingir o mesmo objetivo.
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Freitas (2008) cita o próprio Venuti para lembrar que o discurso coerente e
aceitável nada mais é que uma “ contingência ideológica situada em um determinado
momento histórico e que o objeto literário deve ser entendido dessa maneira.”
Nas palavras de Freitas (2008),
Venuti defende estratégias de leitura e escrita subversivas, mas contesta a
originalidade e a autoria. Parece-me contraditório que Venuti tenha a
resposta para a questão da autoria na tradução, se ele também está inserido
em um determinado contexto histórico limitador de visões de mundo. A
pertinência da exposição de Venuti concernente ao papel determinante do
contexto histórico nas manifestações discursivas está precisamente no fato de
que não há como escapar de tais contingências.
Concluindo, Freitas (2008) julga ser preciso um estudo detalhado dessas
contingências, bem como das propostas de “intervenção consciente” apresentadas
por Schleiermacher e Venuti, levando em conta as diferenças de perspectiva e
finalidade. Ainda, tendo como ponto de partida a “busca pela autoria”, examinar a
aplicabilidade das propostas desses autores.
Ortega y Gasset por Pilar Ordóñez López
Já em seu trabalho “Ugly Translations: Ortega y Gasset’s Ideas on Translation
within Contemporary Translation Theories”, López (2008) dá uma visão global da
concepção de Ortega y Gasset sobre tradução e faz ainda uma avaliação de sua
contribuição aos estudos contemporâneos da tradução no ocidente.
O ensaio “Miséria e Esplendor da Tradução” traz as ideias de Ortega sobre
tradução, que parecem estar em evidência nas teorias modernas, apesar da recente
tendência para os métodos empíricos e técnicos nos estudos de tradução. Tal fato
pode ser considerado surpreendente considerando-se a data de sua formulação –
1937 - e revela o caráter antecipativo das ideias de Ortega.
O que também é extraordinário considerar é que Jose Ortega y Gasset (Madrid,
1883-1955) é considerado uma das figuras mais destacadas e influentes na filosofia
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A Tradução Literária: algumas observações
espanhola do século XX, sendo fortemente associada à filosofia e à política. Porém,
um grande número de referências e reflexões sobre linguagem se dispersa por todo
seu trabalho, constituindo o que poderia ser definido como „a teoria de linguagem‟ de
Ortega.
A tradução ocupa uma posição significativa na teoria da linguagem, e Ortega
dedicou um ensaio para desenvolver suas ideias sobre tradução. Em 1937, ele
escreveu “Miséria e Esplendor da Tradução”, um ensaio que, como anteriormente
declarado por López (2006), atingiu o status de um “clássico” da teoria da tradução.
Entretanto, seria interessante descobrir se as ideias de Ortega desempenham um
papel operante e ativo nos estudos contemporâneos de tradução.
Esse ensaio foi primeiramente publicado no jornal argentino La Nación, numa série
de cinco artigos semanais, entre 13 de junho e 11 de julho de 1937. Levando em conta
a data de sua publicação, “Miséria e Esplendor da Tradução” pode ser incluído entre
as primeiras teorias sobre tradução do século XX. Porém, considerando a abordagem
e o tom do ensaio, poderíamos indubitavelmente classifica-lo com um claro exemplo do
Romantismo Alemão do século XIX. Neste sentido, a abordagem da tradução de
Ortega poderia ser considerada mera continuação dos paradigmas do Romantismo
Alemão. Todavia, é essencial reconhecer o caráter inovador do ensaio no contexto
espanhol. Ortega tinha o firme propósito, como expressou em várias ocasiões, de
“europeizar” a Espanha e a transferência de ideias do Romantismo Alemão para o
contexto espanhol pode ser encarada como uma forma de influenciar o país com as
teorias europeias.
Apesar da tendência atual, mais orientada para o empírico e o prático, o estudo da
história da tradução é de vital importância a fim de suprir a disciplina com uma
dimensão humanística que, atualmente, é fundamental, dada a crescente orientação
para abordagens técnicas nos estudos de tradução.
O ensaio é estruturado como um diálogo fictício entre acadêmicos e estudantes do
Collège de France, em Paris. É dividido em cinco capítulos. Ortega cobre considerável
número de assuntos de um ponto de vista filosófico baseado em figuras do
Romantismo Alemão, como Goethe, Humboldt e Schleiermacher.
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Ortega começa a discussão explicando as “misérias” da tradução, admitindo que
estas constituam o necessário primeiro passo para atingir o possível esplendor da
tradução. No caminho para o esplendor, Ortega trata de vários aspectos da linguagem
que ele concebe como origem e fonte do conhecimento e que toma uma forma
diferente conforme a interpretação da realidade de cada povo.
Ortega começa definindo a tradução como uma atividade utópica – “não é o ato de
traduzir uma tarefa necessariamente utópica?” (ORTEGA Y GASSET, 1992:93, apud
LÓPEZ, 2008). Essa dimensão utópica é inerente, sob a visão de Ortega, a todo
esforço humano. No caso da tradução, a utopia é devida à covardia do tradutor que,
segundo o filósofo espanhol, se sentiria incapaz de rebelar-se contra o uso
estabelecido da linguagem, traindo inevitavelmente o escritor original.
Segundo ele, escrever bem representa fazer contínuas incursões na gramática, no
uso estabelecido e nas normas aceitas da linguística. Considera um ato de rebelião
permanente contra o ambiente social, uma subversão. “Escrever bem é empregar certa
coragem radical”. Mas, pondera ele, o escritor usualmente tem um caráter tímido. Ele
se vê diante de um enorme aparato controlador, feito de gramática e hábitos. O que
fará com o texto rebelde? Não é demais perguntar se ele se rebela por ser o texto de
outra pessoa? Ele será regulado pela covardia; ele se trairá. Traduttore, traditore.
(ORTEGA y GASSET, 1992: 94, apud LÓPEZ, 2008)
A utopia na visão que Ortega tem de tradução baseia-se principalmente no estilo do
escritor, formado pelos desvios pessoais de cada autor do uso habitual, bem como do
que Humboldt, apud López, 2006, chama de “forma interna” de cada língua, o que
torna impossível a completa correspondência de significados entre duas línguas.
Ortega acha utópico acreditar que duas palavras de diferentes línguas, que o
dicionário cita como tradução uma da outra, se refiram exatamente às mesmas coisas.
Sendo as línguas criadas em diferentes paisagens, por meio de diferentes
experiências, a incoerência entre elas é natural. É falso, por exemplo, supor que aquilo
que os espanhóis chamam de “bosque” e o que os alemães chamam de “Wald” sejam
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A Tradução Literária: algumas observações
a mesma coisa, embora o dicionário cite como sinônimos – há uma enorme diferença
entre as duas realidades. (ORTEGA y GASSET, 1992: 96, apud LÓPEZ, 2008)
Nessa linha de pensamento, Ortega também considera diferentes graus de
dificuldade na possibilidade / impossibilidade de tradução de diferentes tipos de textos;
isto ele atribui – especialmente no caso da matemática e das ciências naturais – ao
uso de terminologia específica, considerada por ele como uma “pseudolinguagem”.
A linguagem é um sistema de sinais verbais através dos quais as pessoas podem
se entender sem prévio acordo, enquanto a terminologia só é compreensível se a
pessoa que está escrevendo ou falando e a que está lendo ou ouvindo tenham
chegado a um acordo sobre o significado dos sinais. É por isso que estes livros são
mais fáceis de traduzir. Ortega considera que “Atualmente, em cada país, esses livros
são escritos quase que inteiramente na mesma língua”. (ORTEGA y GASSET, 1992:
95, apud LÓPEZ, 2008).
Ortega diz que é muito importante enfatizar as misérias da tradução; especialmente
importante é definir sua dificuldade, sua improbabilidade, mas não apenas isso. Ao
contrário, isso é importante por funcionar como um disparo a nos impulsionar para o
possível esplendor da tradução. (ORTEGA y GASSET, 1992: 97, apud LÓPEZ, 2008).
Nos três capítulos centrais do ensaio, Ortega lida com vários aspectos relacionados ao
fenômeno da linguagem, começando por distinguir duas utopias, personalizadas como
boa e má:
Ambas, a boa e a má utopia, consideram desejável corrigir a realidade natural
que coloca os homens dentro do confinamento de línguas diversas e impede a
comunicação entre eles. A má utopia acha que, por ser desejável, é possível.
[...] A boa utopia, por outro lado, pensa que, por ser desejável libertar o homem
da divisão imposta pelas línguas, há uma pequena probabilidade de que isso
seja alcançado; portanto, isso só pode ser conseguido numa medida
aproximada. Mas essa aproximação pode ser maior ou menor, num infinito
grau, e os esforços para tanto são ilimitados, por isso sempre existe a
possibilidade de melhorar, refinar, aperfeiçoar: “progredir”, em suma. (ORTEGA
y GASSET, 1992: 98-99, apud LÓPEZ, 2008).
Como sugerido em citação prévia, “falar” também é uma ação utópica, já que a
linguagem constitui um “obstáculo intransponível” (ORTEGA y GASSET, 1992: 101,
apud LÓPEZ, 2008) à expressão de nossos pensamentos, que, além disso, são já “em
grande medida atribuídos à língua” (ORTEGA y GASSET, 1992: 102, apud LÓPEZ,
2008). Portanto, somos duplamente limitados por nossa própria língua.
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Ortega considera que, quando falamos ou escrevemos, nós nos privamos
constantemente de dizer muitas coisas porque a língua não permite que sejam ditas. A
realidade do discurso não mente simplesmente na fala, em fazer afirmações, mas, ao
mesmo tempo e necessariamente, numa renúncia do discurso, o permanecer calado,
permanecer silente. (ORTEGA y GASSET, 1992: 103, apud LÓPEZ, 2008).
O silêncio é um elemento essencial na concepção de linguagem de Ortega,
participando ativamente do ato de traduzir. O silêncio consiste de dois diferentes níveis
(ORDOÑES-LÓPEZ, 2006: 70-71), e é considerado um componente inerente e crucial
de toda língua. O silêncio modela cada língua de forma diferente, assim, “cada língua é
uma equação diferente de afirmações e silêncios” (ORTEGA y GASSET, 1992: 104,
apud LÓPEZ, 2008). É precisamente aqui que está a principal dificuldade da tradução.
Não obstante, na visão dupla do filósofo sobre tradução, o silêncio também conduz ao
possível esplendor da tradução que, na visão humanística de Ortega, consiste em
“uma revelação de segredos mútuos que as pessoas e as épocas mantêm para si
próprios e que contribuem para sua separação e hostilidade; em resumo – uma
audaciosa integração de humanidade” (ORTEGA y GASSET, 1992: 104, apud LÓPEZ,
2008).
Além disso, Ortega considera ser a língua a origem e o elemento embrionário de
todo conhecimento. Este „primeiro conhecimento‟ (ORTEGA y GASSET, 1992: 107,
apud LÓPEZ, 2008) refletiu originalmente a verdade sobre o mundo e as
diferenciações estabelecidas ao „continuum ilimitado de diversidade da realidade‟ por
diferentes povos (ORTEGA y GASSET, 1992: 106, apud LÓPEZ, 2008).
A atitude de considerar a língua e o silencio como obstáculos cruciais à tradução é
o único caminho para conseguir atingir um possível esplendor da tradução.
Ortega conclui o seu ensaio com uma discussão sobre o „esplendor‟ da tradução.
Descreve o que entende por tradução e como os tradutores deveriam proceder.
Reconhece que o que existe de essencial sobre tradução foi dito mais de um século
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A Tradução Literária: algumas observações
atrás pelo teólogo Schleiermacher no seu trabalho Über die verschiedenen Methoden
des Übersetzens (1813). Ortega contempla os dois possíveis métodos de tradução lá
propostos: “ou o tradutor deixa o escritor em paz tanto quanto possível e movimenta o
leitor para o escritor, ou deixa o leitor em paz tanto quanto possível e movimenta o
escritor para o leitor” (ORTEGA y GASSET, 1992: 108, apud LÓPEZ, 2008).
Mas a posição de Ortega é categórica: somente quando afastamos o leitor das
convenções de sua língua nativa e o forçamos a jogar-se na mente do autor original
podemos falar de „tradução propriamente dita‟ (ORTEGA y GASSET, 1992: 108, apud
LÓPEZ, 2008). Esse é o procedimento a ser seguido pelo tradutor “tímido”.
Ortega estabelece alguns princípios que deveriam governar “a nova aventura da
tradução” (ORTEGA y GASSET, 1992: 108, apud LÓPEZ, 2008) e define o que uma
tradução deveria ser:
-a tradução não é uma duplicata do original;
-a tradução nem mesmo pertence ao mesmo gênero literário do texto que foi traduzido;
-a tradução é um gênero literário à parte com suas próprias normas e finalidades;
-a tradução não é o trabalho, mas o caminho para o trabalho;
Para conseguir essa forma de tradução, Ortega acreditava ser necessário fazer
diferentes traduções do mesmo trabalho (ORTEGA y GASSET, 1992: 111, apud
LÓPEZ, 2008), pois não seria possível aproximar todos os fatos do texto original ao
mesmo tempo.
Após apresentar sua concepção de tradução, Ortega mostra a necessidade de
restaurar o prestígio desta atividade e propõe que ela deveria ser aperfeiçoada pela
recomendação de sua prática pelos escritores.
Considera que nenhum escritor deveria denegrir a ocupação de tradutor, e que
deveria complementar o seu trabalho com alguma versão de textos clássicos,
medievais ou contemporâneos. Acha necessário restaurar o prestígio desse trabalho e
valorizá-lo como um trabalho intelectual de primeira ordem. Assim converteria a
tradução numa disciplina sui generis que, cultivada com continuidade, criaria suas
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próprias técnicas e aumentaria consideravelmente a rede de abordagens intelectuais.
(ORTEGA y GASSET, 1992: 111-112, apud LÓPEZ, 2008).
Essa é uma perspectiva positiva para a tradução, mas ela só pode ser alcançada se
“na tradução tentarmos sair de nossa língua para ir à outra” (ORTEGA y GASSET,
1992: 112 apud LÓPEZ, 2008), que é o que foi feito na tradução de seus trabalhos
para o alemão.
Os estudos modernos de tradução se beneficiam do desenvolvimento de outros,
relacionados a disciplinas como psicolinguística e outras ciências cognitivas, que têm
permitido uma análise mais profunda do processo de tradução. Como resultado disso,
o papel do tradutor tem se tornado consideravelmente mais ativo.
Não obstante, a visão de Ortega sobre tradução ainda é relevante nos modernos
estudos de tradução, não apenas porque alguns dos aspectos discutidos por ele foram
posteriormente desenvolvidos, mas também porque é necessário entender a dimensão
histórica da disciplina. Embora as propostas de Ortega em favor da “estrangeirização”
e “traduções feias” não tenham sido adotadas nas modernas teorias, a sua abordagem
carrega considerável semelhança com algumas dos mais representativos nomes na
tradução literária.
Este estudo revela um quadro ímpar em termos da influência da visão de Ortega
sobre as diferentes abordagens da tradução, sendo evidente que “Miséria e Esplendor
da Tradução” tem dado, dentre outros trabalhos clássicos, notável contribuição à
criação de uma sólida fundamentação para o subsequente desenvolvimento dos
estudos de tradução.
A tradução literária por Alba Olmi
Vejamos o que diz Alba Olmi (2002) sobre o que considera uma boa tradução:
“A tradução “feliz” é aquela que, embora mantendo inevitáveis diferenças com o
original, preserva a energia do seu imaginário, ativando-a num contexto histórico específico, vencendo o tempo, a distância ideológica, epistêmica e cultural,
produzindo aquela emoção que deriva do diálogo tornado possível entre indivíduos diversos, línguas, culturas, épocas e povos.”
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A Tradução Literária: algumas observações
A autora afirma que, nos modernos estudos de tradução, tem se acentuado a tendência de dar maior peso ao enfoque do texto-alvo (TA), ficando num relativo segundo
plano a obra original. Reforça sua assertiva citando Toury (1980, 1981, 1982, 1984) e
Lefevere (1970, 1971, 1982, 1983, 1992, 1993), que se justificam com base na “teoria
da recepção”, pois, a obra traduzida coloca-se no contexto da língua e da cultura-alvo.
Para as teorias tradicionais, o texto-fonte (TF) tem o principal enfoque, sendo tomado
como ponto de partida, o que, para os modernos teóricos, parece inadequado por ter
como centro o autor e a obra originais, considerando somente o valor inerente do TF,
em prejuízo da tradução com todos os seus recursos literários e de sua contribuição na
evolução da literatura.
Olmi (2002), entretanto, defende que, apesar dessa nova postura, ainda existe lugar
para a análise estilística do TF, a qual, não negando o valor das teorias que colocam o
TA em primeiro plano, permite analisar muitos pontos relacionados à tradução, colocando por terra a depreciação em que hoje é tida essa abordagem.
Segundo a autora (OLMI, 2002), a estilística comparada, com base na teoria e na
crítica da tradução, não só proporciona uma análise eficiente da tradução literária como também oferece “propostas alternativas” para revelar alguns mecanismos de tradução, o que conduz, sem dúvida, ao aperfeiçoamento desse processo.
Desprezadas por muitos estudiosos, a literalidade e a fidelidade ao TF não podem
ser descartadas sistematicamente, segundo Olmi (2002), podendo representar um caminho interessante, dependendo do objetivo e observando certa metodologia.
Como não existe um “modelo definitivo” e “operacional” para a tradução literária,
Olmi (2002) sugere uma abordagem “linguisticamente orientada”, na qual o TF, com
sua estrutura e significado, seja tido como o mais importante, sendo inclusive “fator
constitutivo da tradução”. Tal abordagem foi bastante criticada por muitos estudiosos
(HOUSE, 1997: 16-24, apud OLMI, 2002), por considerarem que, através dela, só se
focaliza uma faceta da tradução, ou seja, o aspecto semântico. Entretanto, Olmi (2002)
julga inegável que a abordagem linguístico-textual seja competente para envolver não
só o aspecto semântico, mas também o pragmático; não só o sociocomunicativo, mas
também o discursivo.
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Para Olmi (2002), os “pressupostos pragmáticos e sociolinguísticos parecem importantes”, por estabelecerem “relação entre forma e função dentro de um contexto”. Portanto, os dois aspectos – semântico e pragmático – estão “imbricados entre si”, o que
permite melhor compreensão dos “significados explícitos e dos implícitos do enunciado” (DUCROT, 1977, apud OLMI, 2002), bem como ajuda na “avaliação de sua equivalência tradutória”.
Olmi (2002) cita Blum-Kulka (1981: 89-95), que, para o estudo da tradução, propõe
seja aplicada a “teoria dos atos da fala”, pois considera que o ato de tradução pode ser
“uma tentativa de alcançar um desempenho satisfatório dos atos de fala, para que haja
equivalência de significado”.
A autora alonga-se em análise profunda sobre “equivalência funcional e tipologias
textuais”, citando a posição de diferentes linguistas, bem como sobre “a tarefa da teoria
e da crítica da tradução” em nível que transcende o propósito de nosso modesto trabalho.
A Tradução Literal por Francis Aubert
Aubert (2008), por sua vez, considera que os estudos de Tradução, ou
Tradutologia, segundo Vasquez-Ayora, 1977 e Mattos, 1981 apud Aubert (2008),
embora já conte com ampla bibliografia, ainda constitui uma “disciplina algo
desordenada”, com metodologias e objetivos mal definidos.
Dentre estudos que variam dos mais prosaicos aos mais brilhantes, dos mais
superficiais aos mais profundos, Aubert (2008) destaca como um dos raros pontos em
comum a negação da “possibilidade e adequação” da tradução literal. Tradutores,
professores, pesquisadores em geral são unânimes em aconselhar que se evite tentar
praticar a tradução literal, desde que a análise científica das línguas demonstra a
inexistência de estruturas linguísticas idênticas entre elas, como afirma Aubert (2008).
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A Tradução Literária: algumas observações
Alguns teóricos acreditam na existência de “universais linguísticos”, mas, sobre
estes, há muita controvérsia e – se comprovados, Aubert (2008) julga que devam estar
“a níveis mais profundos e abstratos da análise linguística”. Em âmbito superficial, isto
é, na fala ou no texto, tais ocorrências são raras, mesmo quando as línguas pareçam
próximas.
Cada povo tem sua maneira particular de “ver” o mundo e a passagem de uma
língua para outra inevitavelmente envolve uma “mudança de perspectiva”, uma vez que
o leitor pertence a um povo que vê esse mundo de outra maneira (Mounin, 1975, apud
Aubert, 2008) o que torna discutível a própria possibilidade de tradução, descartandose a literalidade de forma ou conteúdo.
Aubert (2008) cita Jakobson (1969) e Catford (1980), para os quais a tradução é um
ato possível, porém, consideram-na “em termos do estabelecimento de uma
equivalência”, o que difere muito de uma “relação de identidade”. A equivalência, para
esses autores, representa uma "sinonímia interlingual transitória" que pode existir para
determinado texto em certo contexto, não podendo ser generalizada para todos os
textos e contextos.
Aubert (2008) afirma que, para atingir um trabalho inteligível, o tradutor precisa
“libertar-se das amarras formais do texto original”, lembrando que já o próprio São
Jerônimo dizia: “traduz-se não a palavra a partir da palavra e sim o sentido a partir do
sentido”, isto é, traduz-se não a forma, mas a mensagem. Assim, a fidelidade ao
original se exprime pela lealdade à mensagem, mesmo que seja necessário empregar
“formas linguísticas e organizações textuais mais ou menos divergentes do original”. E
Aubert (2008) chega ao extremo de considerar que tais divergências são necessárias,
constituindo mesmo “a essência do traduzir”. E continua:
Traduzir é desviar; sem desvio não há tradução, mas tão somente cópia, mais
ou menos imperfeita. A fidelidade à mensagem exige, portanto, uma
infidelidade à forma, que será tanto maior quanto mais sensíveis as
divergências léxico-gramaticais, sociolinguísticas e antropoculturais entre os
universos textuais de partida e de chegada do ato tradutório.
Neste ponto, Aubert (2008) se detém na conceituação de tradução literal:
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1. A tradução literal pode ser entendida como a “tradução ao pé da letra”: o texto
traduzido é praticamente idêntico ao original – palavras de mesmo sentido, mesma
ordem sintática; ex.: [ing.] I wrote a letter – [port.] eu escrevi uma carta.
2. A tradução literal pode ser entendida como a que mantém fidelidade semântica,
adequando, porém, a morfossintaxe às regras gramaticais da língua de chegada. Ex.:
[ing.] it is a known fact – [port.] é fato conhecido.
3. A tradução literal ainda pode ser entendida como a que observa a fidelidade
semântico-contextual, adequando a morfossintaxe e o estilo às regras gramaticais e
uso da língua de chegada. Ex.: [ing.] Yours truly – [port.] Atenciosamente.
Catford (1980) apud Aubert (2008) e outros chamam o processo (1) de “tradução
palavra por palavra” e o (2) de “tradução literal” propriamente dita. Vinay e Darbelnet
(1958) apud Aubert (2008) e outros consideram (1) “tradução literal”, (2) “transposição”
e (3) “modulação” - processo bem mais elaborado.
Detemo-nos nesses conceitos porque, segundo Aubert, é preciso saber a que
acepção de literalidade se faz referência quando se considera a ideia de “evitar a
tradução literal”. Considerando uma escala com essas três acepções como pontos,
podemos afirmar que, quanto mais próximo de (3), menor a aplicabilidade dessa
máxima; quanto mais próximo de (1), maior a oportunidade de “validação dessa regra
do bem traduzir”.
Aubert (2008) aponta ser necessário levar em conta o tipo de texto e de tradução
empreendida. Obviamente, uma certidão de nascimento ou o manual de uso de um
aparelho ou uma tradução juramentada tolhem totalmente a liberdade e a criatividade
do tradutor, ao passo que, por exemplo, um texto de publicidade suscitará até mesmo
uma recriação, levando o tradutor a “ultrapassar os limites da tradução”.
O autor lembra ainda ser preciso considerar a função da tradução e a
intencionalidade do tradutor. Pode ocorrer, por exemplo, que a tradução tenha a
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A Tradução Literária: algumas observações
intenção de ser um guia de leitura do original e Aubert (2008) traz como exemplo disso
uma antologia poética de Neruda, citada por Campos (1983).
Há casos em que, simplesmente, a literalidade pode ser buscada por mera
necessidade de diagramação.
Enfim, o autor reconhece que “a literalidade não constitui algo de todo inviável, nem
se confunde necessariamente com inadequação, erro ou compreensão falha da
essência do ato de traduzir”. Existem “fatores variáveis que permitem configurar
situações que favorecem uma literalidade mais ou menos abrangente”.
A literalidade, pois, representa um dos maiores desafios no ato de tradução e,
segundo Aubert (2008), “medida bastante confiável do grau de êxito na busca da
fidelidade” tanto ao texto de partida como ao de chegada.
A Fidelidade e Suas Controvérsias por Geocinara de Faria Avila
Vejamos, ainda, o que dizem outros autores sobre fidelidade. Avila (2008), da
Universidade de Campinas, desenvolve um trabalho em que, fazendo um paralelo
entre a visão logocêntrica e a desconstrutivista, procura em suas bases teóricas a
resposta para uma pergunta relacionada à fidelidade na tradução: “O que é ser fiel?”.
Nessa busca, encontra controvérsias entre essas abordagens teóricas.
Avila (2008) esclarece que o tema “fidelidade” é polêmico há séculos, sendo que, a
esse respeito, a tradução merece o foco de interesse em seu trabalho.
Como ponto de partida, Avila (2008) se reporta à definição de fidelidade encontrada
no dicionário Luft, segundo o qual “ser fiel é cumprir o que prometeu”. Então, Avila
(2008) se pergunta: “o que o tradutor considerado infiel prometeu e não cumpriu?”
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Segundo Arrojo (1986: 42) apud Avila (2008), “Se pensamos a tradução como um
processo de recriação ou transformação, como podemos falar em fidelidade? Como
poderemos avaliar a qualidade de uma tradução?”
Avila (2008) começa seu estudo analisando a visão logocêntrica da abordagem
estruturalista, em que se evidenciam as dicotomias entre sujeito/objeto, teoria/prática e
forma/conteúdo. Segundo tal visão, o tradutor é um “transpositor de significados” (Avila
2008), sendo a leitura, neste contexto, considerada única. A tradução, pois, é vista
como “transporte, sem contaminação na passagem de um texto de uma língua para
outra, pois caso contrário haveria perda e traição” (Avila 2008).
Os adeptos desta ideia buscam sempre uma “sistematização teórica” como uma
chave para resolver o problema da fidelidade. Entretanto, “a tradução não é
domesticável em si, ela resiste a qualquer tentativa de sistematização em qualquer
postura teórica ou histórica” nas palavras de Ottoni (2005c: 49) apud Avila (2008).
Avila (2008) compara a tentativa de sistematização à ideia de usar um mesmo
remédio para vários doentes, que responderiam de forma diferenciada ao tratamento.
Os “doentes” seriam autor, editor, revisor e tradutor, sendo que estes últimos (revisor e
tradutor), como produtores de significados, responderiam de maneiras diversas às
tensões do processo, criando textos diferentes.
Nesse ponto, Avila (2008) evoca o pensamento desconstrutivista para conduzir a
uma reflexão sobre a abordagem estruturalista.
Avila (2008) retoma as palavras de Ottoni (2005c: 52) para registrar que: “na
dimensão desconstrutivista as questões da fidelidade e da correlação privilegiada
entre as línguas não são mais pertinentes para tratar do transbordamento e do jogo
da multiplicidade de línguas envolvidas na tradução”.
Derrida (1982: 134) apud Avila (2008) tem uma postura diferente da estrutural e
pós-estruturalista, destacando o jogo de significação entre as línguas presente em
qualquer tradução, ou seja, aquilo que ele chamou de “desconstrução”.
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A Tradução Literária: algumas observações
Como diz Avila (2008),
o tradutor participa desse jogo de significação produzindo significados e outras
„ impurezas‟ na língua de chegada, ocorrendo assim o transbordamento de
significados de uma língua para outra, e é nessa dimensão que Ottoni (2005)
enfatiza que a questão da fidelidade já não é pertinente, pois se há impurezas,
há contaminação, sendo as línguas neste caso, encaradas como polos
complementares, elas não se distinguem.
Ottoni (2005a: 73) apud Avila (2008) explica que, tradicionalmente, a tradução
baseia-se numa concepção de linguagem que diferencia radicalmente as duas línguas,
procurando manter intactos e opostos esses “polos”, sem levar em conta o fato de que
podem se complementar.
Avila (2008) ilustra o fato de que os tradutores são “produtores de significados”
expondo exemplos de traduções extremamente diferentes de um só texto feitas por
alguns profissionais de tradução, da obra de Jonhathan Swift, As Viagens de Gulliver,
num levantamento publicado por Gabriel Perissé na Revista Língua Portuguesa (nov2006, pp. 58-61).
Temos a acrescentar, contudo, que, embora a ideia da “desconstrução” defendida
por Derrida possa nos levar a imaginar que ele julgue a impossibilidade de uma postura
“fiel” do tradutor no seu trabalho, ele defende justamente o contrário quando diz que “a
tradução deve se esforçar para ser o mais fiel possível, não pela preocupação de
exatidão calculável, mas porque ela nos lembra a lei do outro texto, a sua assinatura,
esse outro acontecimento que já teve lugar antes de nós, e ao qual nós devemos
responder como herdeiros” (DERRIDA, na tradução de OTTONI - “Fidelidade a Mais de
Um” 2005b: 195, apud AVILA, 2008).
Portanto, não se pode dizer que Derrida seja contrário à fidelidade do tradutor, mas
que tem, isto sim, uma visão própria dessa postura.
Avila (2008) reflete, afinal, sobre a impropriedade de simplesmente descartar a
abordagem estrutural e formal de base linguística e considerar tudo o que é feito hoje
partindo da visão pós-estruturalista da linguagem na esperança de assim encontrar
soluções para as questões da tradução. A linguística estrutural e formal não é capaz de
sistematizar e teorizar sobre a tradução, mas, por outro lado, na abordagem pósestruturalista, a tradução é vista como uma “questão ideológica e filosófica” (Avila
2008). Assim, Avila (2008) julga importante levar em conta ambas as abordagens como
suporte ao tradutor nas questões que possivelmente surgirão no seu exercício
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profissional. A autora finaliza lembrando Benjamin (2001), para quem a tradução tem
outras preocupações que não somente a “reprodução de sentido” – “além do quê, como
visto, o conceito de fidelidade é contraditório e parece não contar com uma solução
apropriada.”
A Tradução Literária por Brunello De Cusatis
Muitos outros teóricos trataram dos desafios do ofício da tradução. Passemos a De
Cusatis (2009), que, antes de qualquer coisa, faz referência à dificuldade do trabalho a
que se propõe, considerando-o “complexo” e “ambicioso” pela distinção entre tradução
de prosa e tradução de poesia, as quais apresentam entre si mais divergências que
convergências, desde que não se trate de “prosa alta” ou poética. Feita a observação,
define sua intenção de tratar das maiores dificuldades que a tarefa de tradução (de
prosa ou poesia) apresenta em sua prática.
Preliminarmente, porém, De Cusatis (2009) esclarece a diferença entre “texto
fechado” e “texto aberto”, categorias criadas por Umberto Eco em 1962, na obra
“Opera Aperta”, sendo aprofundadas pelo mesmo autor em 1979, em “Lector in
Fabula”.
De Cusatis (2009) explica que “texto fechado” não é um texto literário, não
oferecendo “multiplicidade de interpretações”. Os exemplos que ele cita são bem
ilustrativos: lista telefônica, horário de trens ou ônibus, etc. Não exige do autor uma
estratégia narrativa, além do que basicamente se espera de um texto assim: uma
reunião de informações precisas que se destinam a um “leitor modelo”, também
preciso e passivo.
Osimo (1998) apud De Cusatis (2009) completa a informação a esse respeito,
dizendo que o “leitor modelo”, no exemplo citado, já conhece o sistema de
apresentação das informações da lista telefônica e, com certeza, saberá procurar e
encontrar o que necessita.
Já o “texto aberto”, segundo De Cusatis (2009), é o texto literário, oferecendo ao
leitor inúmeras possibilidades de interpretação, deixando este de ser um “fruidor
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A Tradução Literária: algumas observações
passivo” para se tornar um leitor ativo cuja competência e capacidade de estabelecer
inferências determinarão a amplitude maior ou menor dessa compreensão.
De Cusatis (2009) acha ainda importante “desmontar” certos clichês a respeito do
texto aberto. O primeiro deles é a negação total da possibilidade de tradução, embora
o autor já o considere quase completamente ultrapassado. O segundo é a visão do
tradutor como, unicamente, um profissional, dotado, portanto, de “técnica pura”.
Considerando vantajoso para o leitor que sejam produzidas diferentes versões de
uma obra literária, De Cusatis (2009) levanta algumas questões sobre tradução:
1. é correto deixar de traduzir certos trechos em prosa do texto de partida no de
chegada?
2. em que se baseia o tradutor para tomar tal decisão?
De Cusatis (2009) recorre a Peeter Torop (A Tradução Total, 1995: 22-23), um
estônio que ele considera um dos maiores teóricos da tradução e para quem “a
tradução absoluta ou ideal não existe”, para afirmar que, a partir de um original, é
possível criar várias traduções igualmente válidas. O autor infere daí que, no processo
de tradução, especialmente na literária, não se pode deixar de referir a “inter-relações
entre elementos traduzíveis, desprezíveis, alteráveis e adicionáveis” (PEETER
TOROP, 1995:23 apud DE CUSATISis 2009). Tal processo envolve riscos, como:
a) a incompetência linguística ou cultural ou linguístico-cultural do tradutor para
analisar o texto, originando erros na interpretação do original e, consequentemente, na
tradução;
b) a interferência do tradutor, que conduz à demonstração de tese própria na versão
traduzida.
De Cusatis (2009) considera válida a tradução em que tais riscos não se
apresentem. Lembra ainda que as várias versões traduzidas de um mesmo texto
diferem entre si pelo conteúdo, tanto no aspecto conotativo quanto no estilístico, sendo
que, em favor da comunicabilidade, esse conteúdo é sacrificado pelo tradutor.
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Peeter Torop, 23, 1995 apud De Cusatis 2009, considera que “cada tradução
representa a visão do tradutor, parcial, diferente, expressa na língua de chegada,
uma visão que também subjetivamente muda com o tempo”. Assim, mesmo que o
tradutor tente manter-se na maior transparência, colocando-se como simples mediador
entre a obra e o leitor, sua “intervenção de mediação” condicionará inapelavelmente
seu trabalho de tradução. Tal mediação pode ser geográfica, histórica, cultural ou
psicológica – em maior ou menor em grau.
Por isso, Buffoni (2005: 10) apud De Cusatis (2009) afirma que a tradução literária
não pode ser vista como mera reprodução de um texto (o que seria válido para um
texto técnico). Para ele, deve-se considerar “a tradução literária como um processo,
que vê movimentar-se no tempo e – possivelmente – florescer e reflorescer, não
„original‟ e „cópia‟, mas dois textos providos ambos de dignidade artística”.
De Cusatis (2009) cita Bruno Osimo (1998: 27), para quem o tradutor de um texto
literário tem duplo papel: o de “receptor” (leitor) e o de “emitente” (autor). Em suas
palavras, “o tradutor é fim e início de duas correntes de comunicação diferentes, mas
interligadas”: autor – texto – receptor = tradutor – texto – receptor.
Portanto, o tradutor tem o papel de um leitor especial, que tem a responsabilidade de
interpretar o texto de partida, num ato crítico, e que soma a essa a responsabilidade de
autor, pois é sua de sua autoria o texto de chegada. Por isso, De Cusatis (2009) considera
que a “arte da tradução” tem “missão ética”, pois, “lança pontes entre culturas
estrangeiras, diferentes e distantes, entre os próprios povos”. A esse respeito,
Wolfenstein (2005: 465) apud Cusatis (2009), faz uma importante declaração: “a obra
poética e, mais em geral, a obra literária são a expressão autêntica de um povo,
nunca reprimível nem no decorrer de períodos turbulentos”.
Quando o tradutor assume o papel de autor ao transpor o texto da língua de
partida para a de chegada, deve satisfazer certos requisitos no entender de Osimo
(1998: 28) apud De Cusatis (2009):
1. conhecer bem a história e a cultura do país onde foi criado o texto;
2. ótimo domínio da língua de partida;
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3. conhecer e escrever bem na língua de chegada;
4. dominar técnicas de escrita, reconhecer os registros linguísticos da língua de
partida e saber reproduzi-los na língua de chegada.
De Cusatis (2009) evidencia a importância da tradução, afirmando que ela cria
influências, com suas interpretações certas ou erradas em maior ou menor grau, “tanto no
leitor quanto, em certos casos, na própria produção literária do país em que é
comercializada”.
A tecnologia tem facilitado a aproximação entre países. Entretanto, continua sendo
necessária a intervenção da tradução nesse processo – e ela será tão mais necessária
quanto maior for a diferença entre as culturas. Assim, De Cusatis (2009) considera que a
tradução ocupa um lugar de destaque nas relações interculturais.
A parte final do trabalho de De Cusatis (2009) é dedicada a um estudo detalhado da
tradução de poesia, com todas as suas dificuldades e estratégias de solução, o que não
será, no momento, objeto de nossa análise.
Tradução e Interpretação por Marta Steinberg
Finalizando, Marta Steinberg (2008) nos apresenta um interessante trabalho sobre
“Tradução e Interpretação” em que evidencia a necessidade do conhecimento da
cultura dos protagonistas envolvidos no processo de comunicação – o emissor e o
receptor. Aponta essa necessidade como de importância mais acentuada no caso do
ofício de intérprete.
Tratando-se de mensagem escrita, o tradutor transpõe o texto para outro código,
permitindo sua compreensão pelos membros de “outra comunidade linguística”, como
diz a autora. No caso da comunicação oral, a pessoa intermediária entre o emissor e o
receptor é o intérprete, que tem como tarefa “ajuizar a intenção, o sentido” daquilo que
o falante quis exprimir, o que não representa exatamente a mesma operação de
transpor de uma língua à outra como na tradução.
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Steinberg (2008) considera que o intérprete precisa não apenas dominar as
técnicas necessárias ao tradutor como também “captar algo mais além da fala”. Esse
“algo mais” inclui todas as demais manifestações que se expressam por diferentes
meios que não o aparelho fonador e que permitem “melhor ajuizar a intenção do
falante”. Tais manifestações, “visíveis, audíveis, sensíveis”, não se encontram no texto.
Assim, Steinberg (2008) afirma ser importante que o intérprete conheça, “além do
código linguístico, os outros elementos que acompanham a fala e cujas manifestações
variam de cultura para cultura”.
A autora cita que esses elementos constituem a paralinguagem, a proxêmica, a
tacêsica, a cinésica e o silêncio, que são diferentes linguagens ou formas de
expressão.
a) Paralinguagem: envolve sons e ruídos do aparelho fonador que acompanham a fala,
mas não representam o idioma. Pode acontecer de um mesmo som ter significados
totalmente diferentes em duas línguas distintas. O desconhecimento de algo assim
pode ser grave.
b) Proxêmica: distância mantida entre os interlocutores, variável de cultura a cultura.
Por exemplo, a maior proximidade é normal para latinos e árabes, mas, para anglosaxões, pode representar invasão ou ameaça.
c) Tacêsica: comunicação tátil. Pode conduzir a enganos fatais. Em algumas culturas,
o toque durante uma conversa é normal; para outras, representa um ultraje.
d) Cinésica: todos os movimentos do corpo, “desde a postura, os gestos manuais, até
expressões faciais, olhares, sorrisos”, que “são responsáveis por grande parte da
comunicação não contida nas palavras e que precisamos ajuizar”. Podem mesmo
substituir as palavras. E, lembra Steinberg (2008), um mesmo gesto pode ter
significados totalmente diferentes em duas culturas diversas. Como interpretá-los sem
conhecer a linguagem da Cinésica? – pergunta a autora.
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e) Silêncio: a falta de palavras; o silencio pode transmitir “uma variedade de intenções
e significados”, sendo por vezes “mais eloquente que a palavra”, como bem exprime
Steinberg (2008). Ao intérprete cabe a delicada tarefa de conseguir “ler” o silêncio e
expressá-lo ao receptor.
Steinberg (2008) explica que, se o aparelho fonador é capaz de elaborar a fala pela
passagem da corrente de ar, o corpo como um todo, seja em postura estática ou em
quaisquer tipos de movimentos ou articulações, está constantemente emitindo
mensagens. O intérprete tem a difícil tarefa de entender o que representam em cada
cultura para “decodificar” a mensagem corretamente.
Hall (1962) apud Steinberg (2008) dá o nome de “ocultos” da linguagem a esses
elementos que acompanham a fala, julgando de “primordial importância” que o
intérprete os conheça no seu trabalho de “ajuizar a intenção do emissor da mensagem
a fim de transmiti-la corretamente ao receptor”. Essa tarefa é relativamente fácil
quando envolve culturas semelhantes, mas pode ser árdua quando se trata de culturas
muito distintas.
Steinberg (2008) expressa muito bem a dificuldade de captação desses “ocultos”:
O problema que se coloca para aprender os chamados "ocultos" é que ales se
aprendem mas não se ensinam. O motivo é que a linguagem está estruturada
sintaticamente. Já os "ocultos" fazem parte de outros códigos que, se possuem
uma estrutura, esta ainda não foi determinada.
Fernando Poyatos, que Steinberg (2008) cita como grande estudioso da
comunicação não verbal, afirma com muita propriedade que, “para nos comunicarmos
com membros de outra sociedade linguística, não basta termos fluência linguística, é
preciso também termos fluência cultural”.
Buyssens (1967) apud Steinberg (2008) dá o nome de:
- “código digital” à “linguagem digital”, isto é, à linguagem estruturada, que possui
sintaxe, como um idioma; e
- “código analógico” à “linguagem analógica”, ou seja, a qualquer comunicação feita por
outros meios que não os linguísticos – vocálicos ou não.
Steinberg (2008) conclui o seu trabalho afirmando que “cultura é comportamento
também, e comportamento linguístico”, e sugere que estudos de comunicação
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analógica sejam introduzidos nos cursos de Tradução / Interpretação.
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