REPRESENTAÇÕES DO SUJEITO - ALUNO DE PORTUGUÊS INSTRUMENTAL NA GRADUAÇÃO DE CIÊNCIAS CONTÁBEIS Juliana de Oliveira Mendonça Ribeiro UFMS/CPTL RESUMO: Este artigo destina-se a analisar a representação que o sujeito aluno do 3º ano de Ciências Contábeis da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) da cidade de Três Lagoas apresenta de si enquanto aluno da disciplina de português instrumental. Para isso, o estudo orienta-se pelos conceitos advindos da Análise do Discurso de Linha Francesa, abordando como principal arcabouço teórico: discurso, sujeito e interdiscurso de Pêcheux (1988) e a representação/identidade definida por Coracini (2003). Enquanto procedimentos metodológicos foram recortados e analisados três recortes de alunos que estudaram a disciplina no segundo semestre do primeiro ano da graduação. Por meio das análises observa-se os interdiscursos que perpassam o sujeito aluno e a representação “negativa” que o mesmo atribui ao sujeito professor diante da aprendizagem da língua materna. PALAVRAS-CHAVE: representação/identidade; interdiscurso, sujeito aluno; sujeito professor; língua materna ABSTRACT: This article to analyze the representation that the third grade student of the Accountability Graduation course at UFMS in Três Lagoas city realizes of himself as a student of the Portuguese Language. This study is based on the conceptions of the French Discourse Analysis, approaching as a main theoretical framework Pecheux’s discourse, subject and interdiscourse (1988) and the representation/identity defined by Coracini (2003). As methodological procedures, three corpus of students who attended this subject in the second semester of the first year of their Accountability Graduation course were used. Through the analysis it is observed the interdiscourses between the student and negative representation that the student makes of the professor concerning the learning of the mother language. KEY-WORDS: representation/identity; interdiscourse; subject student; subject professor; mother language Introdução O curso de Ciências Contábeis da UFMS iniciou-se em 1991, com a portaria 788, no ano de 1995. No plano de ensino da disciplina de Português Instrumental da UFMS, do ano de 2009, o item III refere-se aos objetivos, este estabelece que a disciplina deve fornecer subsídios para que o aluno seja capaz de produzir e ler textos de diferentes modalidades e em diferentes linguagens; revelar domínio dos princípios de concordância, regência, colocação, ortografia, pontuação, coesão e coerência nos textos produzidos; aplicar à teoria aprendida à leitura, à produção e à reescrita de textos verbais. A questão a refletir seria como esses “subsídios” são apresentados e trabalhos dentro da graduação. Cabe ressaltar também que a resolução CNE/CES 10, de 16 de dezembro de 2004, que institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Graduação em Ciências Contábeis não explicita como os conteúdos das disciplinas de Ciências Contábeis devem ser trabalhados pelos professores do curso. Quanto aos procedimentos metodológicos, foi elaborado um questionário para sessenta alunos do 3º. ano de Ciências Contábeis que cursaram a disciplina de Português Instrumental no segundo semestre do 1º. ano da graduação, contendo duas perguntas abertas. Das sessenta respostas, foram recortados três enunciados para a constituição do córpus. O primeiro enunciado nomeado como (E1) refere-se a seguinte pergunta: O que vem a ser a língua materna para você? Por que a estudamos?, o segundo enunciado (E2) e o terceiro (E3) referem-se a questão: Como você viu o professor da disciplina de Português Instrumental. A partir dos dados, o estudo apresenta como objetivo analisar a representação/identidade do sujeito aluno diante de si, do sujeito - professor e da língua materna, acreditando na hipótese que o sujeito – aluno transfere para a sua graduação a “insatisfação” da aprendizagem da língua, decorrente dos anos escolares anteriores. Segundo Brandão (1998, p.35) “a noção de representação é entendida como uma operação por meio da qual o sujeito se apropria do objeto, de algo que lhe é heterogêneo e, convertendo em idéia, torna-o homogêneo a consciência”. Além de apontar o conceito de representação/identidade abordado principalmente pelo estudo de Coracini (2003b), emergiu neste trabalho a necessidade de apresentar vários conceitos teóricos: discurso, sujeito e interdiscurso de Pêcheux (1988). A leitura de outros autores conceituados como Foucault (1985), Orlandi (1999), Gregolin (2001) também contribuiu para esclarecer as práticas discursivas ligadas à representação que o sujeito aluno apresenta de si, do sujeito professor e da língua materna. Pressupostos teóricos A Análise do Discurso de Linha Francesa surgiu na intelectualidade francesa na década de 60, marcada pela conjunção entre filosofia e prática política, já como um campo transdisciplinar. O marco inicial da Análise do Discurso foi em 1969, com a publicação da Análise Automática do Discurso (AAD) de Michel Pêcheux (1988) e com a publicação da revista “Langages”. A partir dessas publicações, a AD reage contra o estruturalismo, em busca do nascimento do sujeito. Ao postular o discurso, Maingueneau (1998, p.13-14), afirma que “a análise do discurso como disciplina que em vez de proceder a uma análise lingüística do texto em si ou a uma análise sociológica e psicológica de seu contexto, visa a articular sua enunciação sobre certo lugar social”. A análise do discurso como seu próprio nome indica, não trata da língua, não trata da gramática embora todas essas coisas lhe interesse. Ela trata do discurso. E a palavra etimologicamente tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr, de movimento. O discurso é assim prática em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando. (ORLANDI, 1999, p.15) A Análise do Discurso reflete o percurso histórico, social, econômico e cultural do sujeito, revelando a composição dos seus sentidos, diante da materialização da sua linguagem e demonstrando para o outro quais discursos que perpassam a sua identidade. A identidade, por sua vez, não é inata ao ser humano e nem “concreta”, pois ela é sempre conduzida por um processo continuo, já que a sua formação decorre de várias formações discursivas. A identidade se forma ao longo do tempo através de processos inconscientes, ela não poderia ser vista como algo inato, existente na consciência no momento do nascimento ... apesar da ilusão que se instala no sujeito, a identidade permanece sempre incompleta, sempre em processo, sempre em formação.(CORACINI, 2003c, p.239). O processo de identidade é constituído ao decorrer da vida do sujeito e orientada por vários interdiscursos que se revelam por meio da produção discursiva. A relação de intra e inter discurso traz para a Análise do Discurso o encontro da teoria de Saussure, Freud e Marx, constituindo a formação discursiva de Foucault, que foi reinterpretada por Pêcheux Esse empréstimo reorganiza a teoria pechetiana, inaugurando o que Pêcheux chama de uma segunda época da AD, na qual a investigação volta-se para análise das relações paradoxais que se estabelecem entre os processos discursivos e o exterior, desenvolvendo a noção de interdiscurso. (GREGOLIN, 2001, p.13) O funcionamento da ideologia em geral como interpelação dos indivíduos em sujeito (e, especificamente em sujeitos de seu discurso) se realiza através do complexo das formações ideológicas (e, especificamente através do interdiscurso intrincado nesse complexo) e fornece a cada sujeito sua realidade, enquanto sistema de evidências e de significações percebidas – aceitas – experimentadas. (PECHEUX, 1988, p.162). Por meio do interdiscurso pode – se observar a “representação” que o sujeito realiza do outro, Foucault salienta que os saberes que constituem o sujeito podem ser retomados: Na esteira de Foucault o fio intradiscursivo, disponibilizado pelo interdiscurso designa a reconfiguração incessante de saberes antagônicos que podem ser retomados, repetidos ou modificados em função de transformações na conjuntura histórica, em relação à tomada de poder – saber o que leva o sujeito – professor freqüentado pelo discurso do outro. (HOFF, 2003ª, p.276). Ao abordar a representação que o sujeito apresenta de si e do outro, Pêcheux (1990, p.82), tece o comentário “o que funciona nos processos discursivos é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que o destinador e o destinatário se atribuem cada um a si e ao outro, a imagem que eles fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro”. Em suma, pode-se afirmar que os sujeitos constroem a sua identidade por meio das representações que realizam de si e do outro. No que concerne à representação do sujeito – professor: A importância do intradiscurso e do interdiscurso “acreditamos que um caminho que possibilita abordar a questão da subjetividade e da identificação do sujeito professor na perspectiva da pós modernidade – é considerar os dois níveis, interdependentes, a saber: o intradiscurso e o interdiscurso. È o fio discursivo (intradiscurso) que nos permite buscar os discursos outros pela memória discursiva (interdiscurso), pois consideramos que tanto o intradiscurso como o interdiscurso fazem parte de uma cena discursiva sócio-histórico-ideológica. (HOFF, 2003a, 275) Análise de Dados Abaixo apresenta-se a análise dos recortes dos alunos do 3º. Ano de Ciências Contábeis: Enunciado (E1): E1: Não sei como vejo a língua materna, porque de mãe ela não tem nada. Só me lembro dos cadernos de caligrafias e de repetir várias vezes as mesmas palavras, entendo que a estudamos porque precisamos escrever bem e isso faz com que sejamos bons profissionais porque é preciso se comunicar, escrever corretamente e falar certo. No enunciado um, o sujeito - aluno retoma sua memória discursiva para definir a língua materna. Observa-se que o aluno não identifica a língua materna como “mãe”, já que a imagem da mãe é associada a um discurso cristalizado daquela que consola e abriga o seu filho. Segundo Hoff (2003b, p. 287), “o dizer do sujeito não é jamais visível em desvio, mas sempre tomado em redes de memória, dando lugar a filiações identificadoras”. Ao afirmar “de mãe ela não tem nada”, a locução adverbial de negação “não” e o pronome indefinido “nada” intensificam a desapropriação do conceito de mãe associado a língua materna. Ao relembrar os anos escolares, o sujeito - aluno afirma “só me lembro dos cadernos de caligrafia e de repetir várias vezes as mesmas palavras”, verifica-se nesse trecho um interdiscurso do ensino tradicional, em que se copiava, decorava e repetia, conforme Pêcheux (1988), o interdiscurso é capaz de fornecer ao sujeito evidências da sua realidade e estabelecer as significações que essas realidades apresentam. Observa-se que as lembranças do sujeito aluno não são boas em relação a língua materna já que o item lexical “só”, restringe a aprendizagem ao caderno de caligrafia e a repetição de palavras. Para Ghiraldeto (2003, p.68), “a dificuldade em se aprender a LP é atribuída ao número excessivo de regras e, especialmente, às exceções às regras. Note-se que associada a essa representação de “língua difícil”, está a de língua como sinônimo de gramática...” Nota-se que o sujeito aluno repete duas vezes o verbo precisar, no presente do indicativo “preciso e precisamos”, ao proferir esses verbos, a identidade do aluno é perpassada pelo discurso didático tradicional, que afirma que o “escrever bem, falar certo e escrever corretamente” são garantias de uma boa comunicação e de êxito profissional. Enunciado (E2): E2: Milagre, milagre ninguém faz, é que nós somos ruins mesmo. Isso é culpa nossa, do estado, dos nossos pais, então não posso dizer muito da professora, ela até tentou nos dar ferramentas para entendermos a língua portuguesa, mas é difícil recuperar o tempo pedido. Verifica-se no enunciado dois, que ao retratar o ensino da língua, o sujeito aluno refere-se ao discurso religioso “milagre, milagre, ninguém faz”. Observa-se que para ele, é impossível aprender a língua sem recorrer a uma ajuda superior e sem recuperar os conteúdos dos anos escolares anteriores. O pronome indefinido “ninguém”, afirma a impossibilidade de qualquer professor ensinar a língua. No trecho “tempo perdido”, o sujeito aluno esclarece que o tempo que passou na escola não contribuiu para a aprendizagem da língua. Ao afirmar “é que somos ruins mesmo”, o sujeito aluno mostra a representação que tem de si, o pronome “mesmo” enfatiza a sua afirmação, entende-se que qualquer professora que lecionasse a disciplina de língua portuguesa não conseguiria estabelecer critérios para a condução da aprendizagem. O pronome pessoal “nós” submete o sujeito aluno e todos os outros discentes da graduação de Ciências Contábeis na mesma condição de aprendizagem e o adjetivo “ruins” tem o propósito de desqualificá-los. Segundo Coracini (2003c, p.243), “convém lembrar toda identificação com algo ou alguém ocorre na medida em que essa voz encontra eco, de modo positivo ou negativo no interior do sujeito”. Na seqüência do enunciado, o sujeito aluno apresenta-se como um sujeito assujeitado as outras instituições, pois atribui à culpa de não ter aprendido a língua portuguesa não só a ele, mas ao estado e aos seus pais. Segundo Althusser (2003, p.8), “esse mecanismo ideológico básico – a sujeição – não está presente somente nas idéias, mas existe num conjunto de práticas, de rituais situados num conjunto de instituições concretas. Embora distintas, essas instituições concretas possuem a unidade do efeito de sujeição sobre agentes sociais a seu alcance”. Ainda ao abordar essas “instituições” pode-se afirmar que o sujeito aluno é interpelado por discursos cristalizados em torno do ensino da língua materna, esses discursos sempre atribuem aos pais e ao estado a culpa pela ineficácia da educação. Esta interpelação do sujeito é definida por Pêcheux (1988, p.163), “a interpelação do individuo em seu discurso se efetua pela identificação (do sujeito) com a formação discursiva que o domina (isto é, na qual ele é constituído como sujeito): essa identificação fundadora da unidade (imaginária) do sujeito apóia-se no fato de que os elementos do interdiscurso... que constituem no discurso do sujeito os traços daquilo que o determina, são re – inscritos no discurso do próprio sujeito”. Ao representar a professora, o sujeito aluno ressalta “até que tentou nos dar ferramenta”, a preposição “até”, mostra uma tentativa frustrada de ensina a língua, pois apesar de “dar ferramentas”, o “tempo perdido”, que remete aos anos escolares não foi recuperado, a conjunção “mas” marca este fato, enquanto argumento mais forte. O item lexical ferramenta (substantivo) refere-se à linguagem da contabilidade e da informática. Entende-se que mesmo afirmando “não posso dizer muito”, o sujeito aluno acaba se contradizendo e profere uma opinião da professora, pelo seu discurso entendese que ela não conseguiu ensinar a língua. Por fim, abaixo apresenta-se o terceiro e último enunciado. Enunciado (E3): E3: A professora até que era boa, mas o problema não era ela, era a gente, nós não queríamos estudar a matéria pq a gente veio fazer contábeis e não português, por mais que ela falasse que a disciplina nos favorecia era complicado gostar das aulas, pq como eu já disse nós escolhemos contabilidade exatamente para correr desse tal de português. No enunciado três, logo no início observa-se a representação que o sujeito faz da professora “até que era boa”, a preposição “até” e o adjetivo “boa” referem-se às outras professoras desse sujeito nos anos escolares anteriores a graduação, indicando que essa professora comparada às outras conseguiu ser melhor, mas não boa o suficiente. Na seqüência, ele afirma “mas o problema não era ela, era a gente”, nota-se que o aluno transfere para si e para os seus colegas de classe a falta de vontade de estudar a língua materna. Segundo Coracini (2003c, p. 249), as representações identitárias dos alunos e dos professores se constituem mutuamente “o imaginário de todo sujeito se constrói através do outro (afinal, o sujeito constitui-se no e pelo olhar do outro) e de que os sujeitos professor e aluno se constituem mutuamante” No trecho “nós não queríamos estudar a matéria, pq a gente veio fazer contábeis e não português”, verifica-se o distanciamento do sujeito da língua. Entende-se que ele escolheu a graduação em contábeis para “fugir” da disciplina de português. O pronome pessoal “nós” e o substantivo “gente” acrescenta voz não só ao sujeito aluno, mas a todos os seus colegas de classe, fica claro que a resistência à disciplina é estabelecida por toda a sala de aula. Pode-se dizer que ao estudar a língua portuguesa, o aluno acredita que a graduação de Ciências Contábeis pode ser despersonificada. Segundo Coracini (2003a, p.149), “o medo pode em circunstâncias particulares bloquear a aprendizagem, impondo uma barreira ao encontro com o outro, dificultando e, por vezes, impedindo uma aprendizagem eficaz e prazeirosa”. Ao afirmar “que por mais que ela falasse que a disciplina nos favorecia era complicado gostar das aulas”, nota-se uma insistência da professora em mostrar a importância da disciplina, afirmados pelos itens lexicais “por mais”. Observa-se que o sujeito aluno reluta contra as imposições da professora ao afirmar “era complicado gostar das aulas”. Segundo Foucault (1985, p.241) “a partir do momento que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. Jamais somos aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua dominação em condições determinadas e segundo uma estratégia precisa”. No trecho “eu já disse”, o sujeito aluno enfatiza novamente que não tem nenhuma vontade de estudar a língua materna. Na concepção do sujeito aluno, a escolha da graduação de Ciências Contábeis traria a liberdade de não ter que estudar a língua materna, na verdade ele deixaria para trás o ensino didático tradicional dos seus anos escolares. Os pronomes pessoais “eu e nós” também apresentam-se como indicadores de subjetividade, segundo Benveniste (1995, p.258), “ de um lado o “eu” se amplifica por meio do “nós” numa pessoa mais maciça, mais solene e menos definida; é o “nós” de majestade. De outro lado, o emprego do “nós” atenua a afirmação muito marcada do “eu” numa expressão mais ampla e difusa: é o “nós” de autor ou de orador. O sujeito aluno ainda mostra o seu distanciamento da língua ao ressaltar que ele quer “correr desse tal português”, o verbo “correr” e a preposição “tal” marcam esse distanciamento. Considerações Finais Nota-se, mesmo informalmente, no discurso dos alunos de Ciências Contábeis que há um distanciamento sobre o estudo da língua materna, eles enfatizam que escolheram a graduação de Ciências Contábeis pelo fato de não se identificarem com a área de humanas, quanto à disciplina de português instrumental afirmam que ela não é relevante para o curso, já que não pertence a área de exatas. Isso seria um equivoco dos alunos de contabilidade, pois a graduação de Ciências Contábeis, apesar de contar com algumas disciplinas que abordem cálculos, pertence a ciências sociais. Este trabalho, como já foi dito justifica-se por discutir a representação/identidade que o aluno da graduação de Ciências Contábeis da UFMS de Três lagoas apresenta de si, do professor da disciplina de português instrumental e da língua materna. Cabe lembrar que a imagem do sujeito - aluno foi construída e cristalizada durante o decorrer dos seus anos escolares, pelo ensino tradicional apresentado pelo sujeito - professor que restringia o ensino da língua ao ensino da gramática. Vale ressaltar que apesar do discurso da educação tradicionalista abranger o discurso do aluno, outras formações discursivas perpassam a sua identidade, segundo Coracini (2003b, p.198), “a identidade é um processo complexo e heterogêneo, do qual podemos capturar momentos de identificação”. Conclui-se que os alunos do 3º Ano de Ciências Contábeis da UFMS proferem um discurso negativo sobre si, do sujeito - professor e da língua materna. Observa-se que toda a desqualificação presentes no discurso do sujeito - aluno talvez seja em razão do ensino tradicional presente na sua formação educacional. Nota-se em todos os enunciados, que o sujeito - aluno sempre recorre à memória para explicar as dificuldades de aprendizagem da língua materna. Dessa forma, identifica-se um discurso cristalizado que impede o desenvolvimento da aprendizagem. O sujeito - professor da disciplina de português instrumental, por sua vez, é comparado aos outros professores de língua portuguesa que lecionaram para o sujeito - aluno antes da escolha da sua graduação. Pode-se dizer que há uma resistência apresentada pelo sujeito - aluno na participação das aulas de português instrumental, pois a imagem que ele emite da língua materna e do sujeito professor é negativa. A sua formação identitária diante do sujeito -professor e da língua materna é estabelecida por um discurso que preserva a homogenidade do sujeito e afirma-se por uma prática repressora de aprendizagem que desencadeia “angústia e insatisfação” diante dos conteúdos apresentados na sala de aula. Por fim, observa-se que o professor da disciplina de português instrumental não conseguiu criar condições de aprendizagem que mudasse o conceito negativo que o sujeito aluno apresenta da língua materna. Referências Bibliográficas ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos do estado (AIE). Trad. Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Graal, 2003. BENVENISTE, Émile. Problemas de lingüística geral I. Campinas: Pontes, 1995. BRANDÃO, Helena. N. Subjetividade, representação e sentido. In: BRANDÃO, H. N. Subjetividade, argumentação e polifonia. A propaganda da Petrobras. São Paulo: UNESP, 1998. CORACINI, Maria José Rodrigues Faria. Língua estrangeira e língua materna: uma questão de sujeito e identidade. In: _______ (org.). Identidade e discurso: (des) construindo subjetividades. Campinas: UNICAMP, 2003a. p.139-160. _________. A celebração do outro. In: CORACINI, Maria José Rodrigues Farias (org.). Identidade e discurso: (des) construindo subjetividades. 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