,Ovl OH VOZ DA Número 0 * Cidade Industrial de BH * Julho de 1986 Política sem educação Quem comeu a verba que estava aqui? Quem está realmente preocupado com a educação neste país ? Aqui na Região Industrial este grave problema ainda não entrou na agenda das autoridades "competentes". Faltam escolas e as crianças ficam soltas pelas ruas. As poucas unidades de ensino existentes funcionam em condições precárias. E — Professor, houve alguma mudança de atitude do governo brasileiro em relação à educação? — Demagogicamente, apenas. A educação passou a ser prioridade em seus programas políticos que, no entanto, nunca saem do papel. Acreditam eles que a solução é construir apenas prédios escolares sem a menor infra-estrutura. — Trimm... Trimm... Trimm... — Um momento, caro leitor. É o telefone que está tocando. — Pronto. Redação da Voz da Luta. — Alô! Sou morador do bairro Petrolândia e queria que vocês dessem uma notícia aí. — Perfeitamente. — A Prefeitura de Contagem inaugurou somente a parte de fora da Escola Izabel Nascimento de Mattos... — Como que é? — E isso mesmo. Na parte interna não havia nada pronto para o atendimento das crianças. Nenhum banheiro funciona, não há água desde o ano passado, as caixas estão descobertas e vasando pelo piso; não existe tampa protetora das caixas de eletricidade, que são de 250 volts e ficam espalhadas pelas salas de aula; não há um vestiário onde as crianças possam se trocar para as aulas de educação física. A associação do bairro Petrolândia, a APROM, já enviou vários ofícios à Secretaria da Educação, mas até agora nenhuma medida foi tomada. E as crianças continuam tomando água diretamente da torneira do pátio. — Obrigado, companheiro. Conte com o jornal agora para ir em cima das autoridades relapsas. — Bom, professor, pode continuar. — Sim, eu dizia que as escolas públicas em geral não possuem papel para as tarefas diárias, não possuem carbono, estêncil, papel higiênico, livros didáticos complementares; faltam cadeiras, carteiras, lâmpadas... — Trinun... Trim... Trimm... — Nos desculpe, leitor. É o telefone de novo. — Redação da Voz da Luta, às suas ordens. — Boa tarde. Sou morador do bairro Industrial 3a. Secção e quero denunciar uma atitude anti-democrática das diretoras das escolas municipais aqui do bairro, que muito está nos prejudicando. — Sim, à vontade. — Até o início do ano, as escolas Júlia Kubitschek e Maria do Amparo funcionavam ambas com o ensino de 1a. à 8a. séries. Mas aí, sem consultar a comunidade, dividiram as séries em duas, ficando a Júlia Kubitschek com o ensino de 1a. à 4a. e a Maria do Amparo, de 5a. à 8a. Essa divisão prejudicou principalmente às crianças de 1a. à 4a. que estão matriculadas no horário de 15 às 19:30 a população está colocando a boca no trombone. Ou melhor, no telefone. Enquanto conversava com o professor Eu ler Vidigal, do Bairro Maria da Conceição, sobre Educação, a nossa paciente repórter atendeu mais de dez telefonemas de reclamações sobre o mesmo assunto. Vejam: A população da Região Industrial reclama da precariedade das escolas públicas horas. Além do mais, o bairro aqui é enorme e muitas crianças têm que caminhar muito para chegar na escola. — Mas vocês estão marcando em cima... — Claro. A Associação Comunitária do Bairro Industrial está mobilizando a população para que essa intransigência não vá à frente. — Obrigado. Continue, professor Eulér. — Certo. A má conservação dos prédios escolares da rede oficial é total. A manutenção e aquisição de equipamentos nas escolas são conseguidas através de campanhas financeiras promovidas pelas comunidades. — Trimm... Trimm. — Sim, é da redação da Voz da Luta. Você também quer falar sobre os problemas da educação no seu bairro? — Uai, como você advinhou? Sou da região do Barreiro de Cima e quero dizer que a comunidade aqui decidiu lutar por um colégio de 2o. grau, assumido pelos governos municipal e estadual. Você sabe que não existe um só colégio público nessa região superpopulosa? A União das Associações do Barreiro de Cima, junto com o Centro Cultural da Juventude do Barreiro e a Pastoral da Juventude, está reivindicando que o Colégio Cristo Redentor, hoje completamente desativado, seja assumido pelo Estado para nos atender. — Obrigado. Soubemos que o prefeito Sérgio Ferrara deu um bolo na comunidade aí do Barreiro. Eles só nos respeitam se mostrarmos muita força. — Trimm... — Puxa, leitor, nem acabamos de por o telefone no gancho. — Alô. Sou professora municipal aqui em Contagem. — Ah, sim. Boa tarde. Sabemos que ser educadora significa muita responsabilidade. Qual é o salário de uma professora municipal aí? — O salário bruto é de Cz$975,08... — Realmente, a greve de vocês é muito legítima. Como está o 2o. grau em Contagem? — Em toda a Contagem existem apenas três escolas do 2o. grau. E nenhuma da rede municipal. Até a primeira gestão do exprefeito Newton Cardoso existia o Colégio Municipal com 2o. grau. Ele então transformou o Colégio gratuito em fundação, a Funec, de ensino pago. Além disso, há outra séria distorção na educação aqui, que faz com que quase 20 mi! alunos em idade escolar estejam sem escola em Contagem. — E o que é? — Das 65 escolas da rede oficial apenas duas possuem cursos noturnos para quem não teve oportunidade de cursar as quatro primeiras séries à noite. As outras fecham às 19:30 horas. Até o governo do ex-prefeito José Luiz de Souza mais escolas funcionavam à noife, mas ele terminou com isso. Queremos a reabertura destas escolas e esperamos que a Câmara Municipal de Contagem mude de posição e passe a apoiar essa reivindicação popular. — Obrigado. Bom professor. Nosso espaço acabou. A sua entrevista... — Tudo bem. O pessoal falou exatamente o que eu queria dizer. Ligue-se nesta luta Eis aqui um jornal pequeno, modesto, mas decente e de muita utilidade para você. Em suas quatro páginas (por enquanto) você vai encontrar notícias que dizem respeito aos problemas do seu bairro, do seu trabalho, das lutas e esperanças que movimentam a vida da população da Região Industrial. A VOZ DA LUTA também vai trazer informação sobre o que ocorre fora de nossa região, porque, afinal, não somos uma ilha, e os problemas do povo brasileiro só terão uma solução definitiva com a união nacional de todos os trabalhadores, não é mesmo? Que jornal da chamada "grande imprensa" está preocupado em publicar os problemas populares? Nenhum. São dezenas de páginas diariamente gastas para falar de politicagens, negócios econômicos, festinhas. Já se tornou folclore o fato de que na grande imprensa o povo só aparece mesmo na página policial. Na VOZ DA LUTA será diferente. Aqui, quem faz o jornal é você. Nos mande diretamente a sua notícia ou procure um companheiro da sua Associação de Bairro ou do seu sindicato. Tudo o que afetar a vida do povo da Região Industrial será publicado, doa a quem doer. Aliás, queremos mesmo que doa nas autoridades do governo e nos patrões, para que eles tomem providências, cumpram suas obrigações públicas, num caso, e ofereçam melhores condições de salário e trabalho, no outro. O único compromisso do jornal é com a melhoria de vida do povo da Região, e não com as verbas dos anúncios com as quais se vendem os grandes jornais, as rádios e as TVs. Um jornal como a VOZ DA LUTA estava fazendo falta ria região. Agora, os moradores de um bairro estarão sabendo da luta do outro; as lutas nas fábricas e em outros locais de trabalho poderão ser divulgadas para outras categorias. Este jornal veio para quebrar o isolamento em que vivem as pessoas da região, para dar voz a quem não tem, para espalhar os exemplos de luta de quem está sempre disposto a brigar por seus direitos e por uma vida digna. Este número do jornal é gratuito. Mas o próximo, você já terá que sustentá-lo. Acreditamos que, depois de lê-lo, você concordará que ele vale muito mais que o Cz$l,00 que custará. Associação elege nova diretoria O Conjunto Habitacional Renato Hernesto do Nascimento fica no Vale do Jatobá em Belo Horizonte. Segundo os moradores de lá a vida está parada há dois anos devido ao não pagamento das absurdas prestações impostas pelo Banco Nacional da Habitação — BNH. 99% dos moradores não pagam as prestações e com isso perderam o interesse em se organizar e melhorar o conjunto. Diz o morador Roberto Alves de Oliveira que a atual diretoria da associação teve seu mandato vencido desde dezembro/84 e até hoje não se preocupou em convocar os moradores para uma nova eleição. Assim, os moradores tomaram a iniciativa de se mobilizarem para a nova eleição e lançaram a chapa B — "Renovação". A diretoria antiga lançou uma outra chapa que fatalmente cairá nos mesmos erros. Os moradores que compõem a chapa B, em regime de mutirão estão pintando e cercando a sede social. Também estão associando a população do conjunto e com o dinheiro das mensalidades irão fazer melhoramentos básicos no conjunto. Além disso propõem manter a conservação do mesmo através de trabalho junto à prefeitura, incentivo aos moradores a pintarem suas casas e intensificação de campanhas educativas no sentido de recolhimento e acondicionamento do lixo evitando, a sujeira das ruas. Entre outras propostas ainda se destaca: Criação de cursos profissionalizantes junto ao SENAI, SESC, SENAC, incentivo à cultura popular, com a divulgação de peças teatrais, slides, filmes seguidos de debates, jornal do bairro, esportes, festas, folclore etc. Seja um repórter do Voz da Luta! Não deixe passar em branco nenhum problema sério que estiver ocorrendo no seu bairro ou no seu emprego! Pergunte, converse, anote e venha trazer sua denúncia à redação. Este jornal é a voz que vai espalhá-la aos quatro ventos! Povo melhor informado é povo melhor organizado! Expediente Voz da Luta Edição: Anita Leandro — reg. prof. n0 2646 Diagramação: Aloísio (Ligeirinho) Ilustrações: Berzé Redação: Av. David Samoff, 5.510, 2o andar tel. 333-8553 Impressão: Estado de Minas. Página 2 Quem é quem na poluição do Novo Riacho Os moradores do Novo Riacho, através de sua Associação Comunitária, denunciam o problema da poluição ambiental causada por oficinas e fábricas ali instaladas. As firmas responsáveis pela poluição do bairro, onde residem cerca de 40 mil pessoas, são: TRANAL TRANSPORTADORA LTDA, situada à rua Paranaguá,, 980. Conserta carrocerias, básculas e tanques. E causadora de poluição sonora, além de manter amontoados pneus e básculas que se enchem de água, favorecendo a proliferação de insetos: FÁBRICA DE PNEUS SANTA MARIA, à rua Rio Elba, 143. Causadora de poluição atmosférica: OFICINA COCÃO, situada à rua Rio Paranaguá, 935. Polui cotidianamente as ruas do bairro, deixando escorrer detritos químicos da lavagem de caminhões; REGIGANTE RECUPERADORA DE PNEUS LTDA, à rua Orenoco, 862. Causa poluição atmosférica, com descarga de fumaça durante a noite. Os grandes problemas causados à população pela poluição poderão piorar. Está sendo instalada à rua Paranaguá, 1193, a SKEGA DO BRASIL LTDA, que produzirá pneus. Diante do crescente número de firmas poluidoras instaladas no bairro e das denúncias feitas pela população, a Associação Comunitária encaminhou ofício à CODEMA (Comissão de Defesa do Meio Ambiente), órgão municipal, exigindo providências imediatas. Os moradores do Novo Riacho estão empenhados na luta pela solução do problema ecológico. Não dá mais pra respirar a nossa fumaça de cada dia Saneamento Transporte Sol Nascente A Associação Comunitária Sol Nascente conseguiu ter de volta o ponto das linhas 1141-A e 1141-B para a avenida Amazonas, em frente à CEFET, que havia sido transferido pela METROBEL sem que os usuários fossem consultados. Mas seus problemas em relação ao transporte não terminam aí. A METROBEL não respeitou o itinerário proposto pelos moradores para a linha 1141-B (Sol Nascente BH), e isso tem causado transtornos para as pessoas que utilizam o Ônibus Noturno. Também os horários não são cumpridos, os carros só andam cheios e no bairro todo só existem dois abrigos, um em cada extremo: Curva de Ibirité e Igreja do bairro. Quem não toma ônibus em nenhum deste pontos fica sob sol ou chuva. Betim Um dos grandes problemas enfrentados pela população de Betim tem sido o transporte coletivo. A região é "servida" pelas linhas: 1137 - São Caetano - BH. 1123 - PTB -BH. 1153 — Alvorada — BH. A linha mais utilizada é a 1137. Quando o ônibus passa por alguns bairros, como é o caso de Terezópolis, Bemge e Vila Recreio, já está superlotado, deixando para trás passageiros, que, geralmente, perdem o dia de serviço. As associações de moradores cobraram individualmente, um compromisso da METROBEL frente a esse problema, mas nada foi solucionado até agora. Por isso as associações pretendem unificar as discussões para elaboração de um projeto que visa a melhoria do transporte coletivo na região. Os bairros que serão beneficiados com esse projeto são: Universal, São Caetano, Nova Baden, Pe- trolándia. Laranjeiras, Santo Dias, Terezópolis, Bemge, Paulo Camilo, PTB e Imbiruçu. A região já conta com a infra-estrutura exigida pela METROBEL para implantação de projetos de transporte coletivo. O objetivo da união destas associações é o fortalecimento da luta dos moradores por transporte, educação, saúde e outras questões mais sentidas pela população. Industrial - 3a Seção A luta por transporte eficiente é antiga no bairro Industrial. Vários abaixo-assinados já foram feitos pela Associação Comunitária, os moradores já foram em peso à Metrobel. O bairro Industrial conta com um péssimo atendimento de transporte coletivo, que é explorado pela Transamazonas. A linha 1117 — Industrial Cardoso, com horários insuficientes, tem seus carros constantemente lotados. O problema mais grave é a linha 1112 - Industrial - Via Jardim Industrial/Belo Horizonte, que tem apenas seis carros. Estes não comportam nem os moradores do próprio bairro! Com a mudança feita em dezembro pela Metrobel, esta linha passou a servir também ao bairro Jardim Industrial. Desde então, os ônibus andam superlotados, causando vários transtornos, como perda de dia de trabalho, de aula e vários acidentei. A Associação Comunitária do Bairro Industrial acredita que f)ara obter maiores conquistas, a uta deve ser travada pelo conjunto da população. Por isso a • maior bandeira pela melhoria do transporte é a retirada imediata da METROBEL da Grande-BH. Petrolândia Existe rede de esgoto no Petrolândia? Existe sim, mas jogando dentro do mesmo bairro a céu aberto. O córrego recebe os detritos de esgoto do Petrolândia e São Caetano, passando quase dentro das casas. Além disso é uma área de brejo que impossibilita a construção de fossas causando um mal cheiro insuportável aos moradores. Neste córrego já foi constatada a existência do mosquito da dengue e de caramujos transmissores da xistose. Há casos freqüentes de crianças caírem dentro desse córrego e faltarem às aulas por motivo de febre e diarréia. A Associação Comunitária (APROM) pretende convidar os soldados da SUGAM para trocar as águas não só dos vasos de flores dentro das casas, mas, em primeiro lugar, trocar as águas do córrego e canalizá-lo. Vilas JK9 Santa Rita e São José Na região do bairro Industrial 3 a seção há três grandes vilas onde os moradores vivem sérios problemas, sem que o governo municipal de Contagem tome conhecimento deles. Nestas vilas — JK, Santa Rita e São José —, o problema mais grave é o esgoto que corre a céu aberto pelos becos, prejudicando o acesso e causando doenças principalmente nas crianças. Qs dois vereadores eleitos na região, Caio Campos e Osvaldo, não se interessam pela solução deste problema e não tomam nenhuma medida que favoreça os moradores. O movimento de organização dos moradores das vilas está crescendo, e está sendo formada uma associação onde eles possam discutir seus problemas mais específicos e lutar por melhorias. Para isso contam com todo apoio da Associação Comunitária do Bairro Industrial. Cardoso A Associação dos Moradores da Comunidade Cardoso, fundada em 1980 no Barreiro de Cima, foi uma das primeiras associações combativas surgidas na região e teve grande atuação no Movimento de Transporte. Esta associação vem lutando por melhorias para o bairro. Ao lado de péssimo transporte coletivo, ruas esburacadas e sem calçamento, um grande problema enfrentado pelos moradores é o córrego que atravessa quase todo o bairro, um imenso esgoto a céu aberto. Em recente pesquisa realizada às margens do córrego ficou demonstrado que entre 50 crianças submetidas a exames de fezes, 47 têm verminose. O quadro ficou mais alarmante após a morte de uma criança que foi mordida por um rato proveniente do córrego. São várias as doenças que podem se alastrar caso não haja solução para este problema, como a febre amarela, verminoses em geral, hepatite, gastroenterite, esquistossomose, dengue. Desde a década passada, políticos prometem resolver o problema. Porém a população viu que não é solução ficar à espera dos políticos. A Associação dos Moradores está se mobilizando para cobrar das autoridades ação imediata. Por outro lado, está fazendo uma campanha para conscientizar os moradores contra o perigo das demagogias eleitorais, de votar em quem muito promete e nada cumpre. Voz da Luta Movimento pró-creche reage Prefeito Ferrara tem medo do povo Seria ótimo se todas as creches fossem assim Falta de infra-estrutura, de alimentação, pagamento do pessoal, sede, desgaste das crecheiras, são alguns dos problemas enfrentados pelas Creches Comunitárias da Grande BH e pelo Movimento de Luta Prócreche. Newton Eduardo de Souza, da diretoria da creche Lar Frei Toninho, no bairro Independência, em Belo Horizonte, e um dos Coordenadores do Movimento Pró-Creche, nos relata o difícil dia-a-dia das creches comunitárias e denuncia a falta de seriedade da política das prefeituras com as creches. VOZ DA LUTA: Como nasceu o Movimento de Luta Pró-Creche? EDUARDO: Nasceu em 1978, na sede do Jornal dos Bairros. Foi fundado com a participação de três creches: duas de Contagem e uma de Belo Horizonte. Elas encontravam diversas dificuldades no pagamento de mão-de-obra, que nenhum órgão público assumia. A luta foi crescendo e surgiram novas reivindicações: alimentação, pagamento de pessoal, etc. Em fevereiro de 84 fizemos um congresso com a participação de 18 creches. Depois disso passamos para 30 participantes e definimos a linha de reivindicações. VOZ DA LUTA: Quantas entidades e creches participam no Movimento? EDUARDO: São 50 creches participando e duas entidades de apoio: Associação de Apoio às Creches Comunitárias "Casa da Vovó", e Movimento de Educação Integral Fé e Alegria. VOZ DA LUTA: Quais são Voz da Luta as principais reivindicações das creches? EDUARDO: A primeira reivindicação é o pagamento pelas prefeituras das monitorias e demais funcionários. Batalhamos nas prefeituras de BH, Betim. Contagem, Ibirité e Vespasiano. Por enquanto só surtiu efeito em BH, e muito pouco. Em Contagem, a prefeitura elaborou um projeto propagandista de meio salário mínimo "pôr monitora. Outra luta é para adquirir as "percáptas" (pequeno pagamento por criança) junto à FEBEM, LBA, SERVAS e FUNABEM. A FEBEM diz que dá uma quota de Cz$ 12,46 mensal por criança. Além de ser insuficiente, pois uma criança custa a uma creche Cz$242,80, ela não atinge a todas as crianças. A LBA acha que a criança só precisa de leite até dois anos. Reivindicamos o direito de toda criança tomar seu leite sem distinção de idade. Lutamos também pela participação das creches nas decisões de programas do governo. As questões da criança são decididas sem a participação da população, especialmente as crecheiras. Elas têm muito a contribuir com a política do menor. pessoal das creches para negociar. Outra vitória é o crescimento do Movimento a cada dia. O prefeito de Belo Horizonte, Sérgio Ferrara, recebeu de 16 entidades comunitárias e sindicais da região do Barreiro de Cima convite para visitar a região. Após vários encontros, a visita do prefeito e seu secretariado foi marcada para o dia 13 de abril e confirmada pelo líder do PMDB na Câmara, Artur Viana, pelo responsável pela agenda, senhor Salomão e pelo senhor Dilson, chefe do cerimonial. A União das Associações do Barreiro de Cima organizou-se para mostrar ao prefeito e sua comitiva os problemas centrais da região: córregos a céu aberto, ruas esburacadas e sem calçamento, transporte deficitário, desativação do hospital Júlia Kubitschek, fechamento do Colégio de 2o. grau Cristo Redentor, falta de democracia è contratações irregulares na Administração Regional do Barreiro. As entidades da região convocaram amplamente a comunidade para entregar suas reivindicações. Porém a visita não ocorreu, pois o deputado estadual e vice-prefeito Álvaro Antônio, o secretário de Assuntos Especiais Mário Teixeira e o vereador José Dominguos impediram o prefeito de comparecer ao encontro com as entidades e o povo do Barreiro. Os três senhores, que se julgam donos políticos da região, espalharam calúnias e mentiras, dizendo que a população estava sendo insuflada a receber com hostilidade o prefeito. É hostilidade mostrar o abandono da região e dizer que promessa existe para ser cumprida? Mostrar que existe consciência e vontade da população para que as coisas mudem? A União das Associações do Barreiro de Cima denuncia a intromissão do 'coronel' Álvaro Antônio na vida comunitária, prática freqüente desse político que apoiou o regime militar por vários anos na Arena. Considera inaceitável a irresponsabilidade e o descompromisso do prefeito Sérgio Ferrara, eleito pelo povo, ao submeter-se ao coronelismo de seu vice. Cerca de mil pessoas, reunidas à espera do prefeito, vaiaram aqueles que têm medo de encarar o povo de frente e aplaudiram a união dos trabalhadores interessados em mudar essa situação. VOZ DA LUTA: Quais são os principais problemas que o Movimento enfrenta hoje? > EDUARDO: O desgaste físico das pessoas. O dinheiro dos convênios só é liberado três meses após, ou mais. Como pagar passagem? Os funcionários deixam de ir trabalhar. Duas cre*heiras foram internadas com esgotamento nervoso. Outro problema é a falta de seriedade com que os políticos tratam a questão do menor e quem trabalha com a criança. Ainda temos que enfrentar a propaganda populista dos governantes. Quando vamos à prefeitura, sai nos jornais foto do prefeito apertando a nossa mão e dizendo que repassou dinheiro. A opinião pública pensa que é verdade e que o pessoal das creches desviou dinheiro. Isso trás problemas internos. Os funcionários não recebem porque nas creches não têm dinheiro, mas no jornal está escrito que nós recebemos. Para o governo é importante manter essa situação, pois esta política é fonte de voto. VOZ DA LUTA: Quais foram as vitórias que o Movimento teve até hoje? VOZ DA LUTA: E para concluir, o que você tem a dizer? EDUARDO: Percápta do pagamento do pessoal de BH com Hélio Garcia na Prefeitura. Essa quota era de 30% do salário mínimo. Atualmente passou para 15% (120,00), contrariando assim a propaganda do governo. Ferrara foi o primeiro prefeito a não receber o EDUARDO: a questão da criança não serã resolvida só pelo Pró-Creche ou pelas Secretarias, mas sim por toda a comunidade. O movimento está aberto a todas as pessoas que queiram participar e que estejam de acordo com os nossos princípios. Não confie em promessas. Deixe para você rir por último Saúde para todos. Fechar o Júlia, não! O Hospital Júlia Kubistschek, situado no Barreiro de Cima, funcionava como centro especializado para tratamento de tuberculosos. Pertencente ao governo federal, o Hospital poderia ter sofrido transformação para atender toda a região industrial, considerando sua estrutura e localização. Entretanto, pouco a pouco ele foi sendo desativado devido à falta de verbas. Hoje o Júlia funciona com apenas 40% de sua capacidade. Com tantos hospitais particulares na região, o interesse dos comerciantes da saúde na sua desativação é muito grande. O povo não aceitou isso. Funcionários do hospital, diretores e a população da região mobilizaram-se contra o fechamento, reivindicando a reativação total. , Várias reuniões foram realizadas e um ato público no dia dois de março reuniu cerca de 600 pessoas. Foram denunciados o descaso das autoridades e os diretores do INAMPS, que são donos de hospitais particulares e por isso interessados no fechamento dos hospitais públicos. Há ainda muito a ser feito. Para total reativação do hospital é necessário a contratação de pessoal, o que será dificultado pelo decreto assinado pelo presidente Sarney, impedindo contratações neste período. O Júlia Kubistschek pode ser transformado em hospital geral, com maternidade, pediatria, prénatal, vacinações, clínica médica, etc. E assim, ter condições de atender toda a região. Para que isto seja feito é fundamental o envolvimento de todos na luta.Os moradores, as associações de bairros, sindicatos e entidades populares. Página 3 Luta Internacional Nicarágua na luta contra o imperialismo Nicarágua. Você já ouviu falar do que aconteceu neste país? Eram 2,8 milhões de pessoas submetidas há mais de 45 anos à ditadura de uma única família, chamada Somoza. Quase toda a riqueza que eles produziam ia parar nas mãos dos Somoza, que eram donos da maior parte das fazendas, das indústrias e do comércio da Nicarágua. Eles eram pobres e muito perseguidos pelo regime do ditador que assassinava centenas de pessoas a cada ano. Em 1960, um grupo de nicaragüenses criou a Frente Sandinista de Libertação, que passou a organizar o povo para a luta contra a ditadura que, finalmente, em 19 de Julho de 1979 foi derrubada. Nesses anos, 50 mil nicaragüenses deram sua vida para a vitória da Revolução. Após a tomada revolucionária do poder, o governo Sandinista expropriou todos os bens da família Somoza e pôs em prática as primeiras medidas para melhorar o nível de vida do povo. Mas nesse momento o governo dos Estados Unidos, que estivera durante todos aqueles anos sustentando a ditadura Somoza, resolveu impedir a qualquer custo o sossego do povo da Nicarágua. Armou até os dentes centenas de antigos policiais dos Somoza e abriu a guerra civil no país, que já custou até agora quase 10 mil vidas, sem contar os prejuízos à economia. Esta é uma atitude tipicamente imperialista do governo dos Estados Unidos. E é aí que o que acontece na Nicarágua tem a ver conosco. O governo dos Estados Unidos zela, como um capataz, pelos interesses das empresas e dos bancos norteamericanos implantados em todo o mundo capitalista. E nessa ação ele é seguido pelos governos de outros poderosos países capitalistas como a Inglaterra, o Japão, a Alemanha. Essa unidade dos governos, empresas e bancos capitalistas formam uma corrente que sugam o trabalho de milhões de operários e camponeses em todo o mundo submetido ao imperialismo. Por isso, cada vez que um elo dessa corrente é partido, como foi com a revolução na Nicarágua, isso interessa a todos os outros povos. E interessa principalmente ao povo brasileiro, cujo trabalho é o mais explorado em todo o mundo pelo imperialismo. Página 4 Violência no campo Para combatê-la. Reforma Agrária Praticamente todos os dias os meios de comunicação nos transmitem notícias sobre assassinatos, despejos e outras violências no campo. A raiz dessa violência se encontra na injusta distribuição da terra no Brasil. São 416,6 milhões de hectares em mãos dos latifundiários, sendo que mais da metade são terras ociosas. Do outro lado há 12 milhões de trabalhadores sem terra. Todo ano, 4 milhões de trabalhadores são expulsos do campo e vêem engrossar as favelas das grandes cidades. Nos últimos anos, a violência no campo aumentou assustadoramente. Vivemos numa verdadeira guerra pela terra. Em 1984, a cada cinco dias um trabalhador rural era assassinado. Em 1985, a cada dois dias o latifúndio matava um trabalhador. Neste ano de 86, a cada dois dias três trabalhadores são mortos. Este ano, somente em Minas Gerais, 16 trabalhadores e um índio Xakriabá foram assassinados. O que há em comum em todos esses crimes é a impunidade. Tanto a policia como a justiça e governos estaduais nada fazem para punir os criminosos. Até figuras do governo federal são cúmplices. É o melhor jeito de incentivar noVos crimes. Enquanto isso, os latifundiários continuam tramando novas formas de sustentar a injusta distribuição da terra no nosso país. Criaram a UDR Trabalhadores ruais fazem ocupação na porta do Incra, em BH — Unidade Democrática Ruralista — e já conseguiram com que o latifundiário Samey desfigurasse completamente o Plano de Reforma Agrária. A Reforma da Nova República não passou de propaganda e se está caracterizando como a contra-Reforma Agrária. A UDR continua formando mi- lícias privadas para combaterem a Reforma Agrária. Cerca de 40% dos efetivos da PM de Mato Grosso deram baixa e hoje fazem parte do exército de jagunços do latifúndio. O alvo deles são as lideranças sindicais e populares, e agentes pastorais da igreja. Uma violência seletiva, organizada e planejada. Fala-se até que há uma lista com os nomes dos próximos a serem assassinados, entre eles o Pa- dre Ricardo Resende, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) na conflituosa região do Araguaiatocantins. Ele vem denunciando a operação de desarmamento por parte do governo federal, que tem se concretizado muito mais por recolher facões e armas leves de caça dos posseiros, fazendo vista grossa para o verdadeiro material bélico em poder do latifúndio. Desafios para a Constituinte Em 15 de novembro próximo serão eleitos deputados federais e senadores com o encargo de montar a nova Constituição do Brasil. Essa Constituição, que será» a lei maior do país, vai conter os novos direitos e deveres dos cidadãos brasileiros. Por aí já se vê a briga de foice que vai ser. Pois os cidadãos brasileiros não são iguais. De um lado estão o povo, os trabalhadores da cidade e do campo, 90% da população, os que criam toda a riqueza mas passam uma vida de miséria; do outro lado, estão os que nos exploram, os donos do poder. Se o voto correspondesse a essa divisão social teríamos uma maioria folgada no novo Congresso e poderíamos elaborar uma nova Constituição que assegurasse a terra para quem nela trabalha, um salário-mínimo digno, o emprego e a estabilidade no emprego, direito de greve, acesso sem censura aos meios de comunicação, fim da exploração do capital estrangeiro, etc. Mas aqueles 10% da população esperam novamente se aproveitar da falta de consciência de nosso povo e se transformar de minoria em maioria, fomando um novo Congresso como o atual, onde o grosso dos parlamentares é composto por fazendeiros, comerciantes, industriais, c advogados, funcionários e políticos tradicionais vendidos às grandes empresas. Eis aí o nosso primeiro desafio: é preciso investigar direitinho os candidatos que se apresentam, indagar do passado social de cada um deles, saber se sempre estiveram do nosso lado na luta, ou se são aproveitadores, saber das suas práticas concretas. Vamos levar es- ses candidatos em nossos bairros e fazer uma sabatina com eles até termos confiança que não vão nos decepcionar no novo Congresso. O outro desafio é fortalecer ainda mais nossas entidades de luta, nossas associações e sindicatos. Porque mesmo que tenhamos leis favoráveis na nova Constituição, isto por si só não é garantia de que elas serão respeitadas. Só com a pressão de nossas entidades de luta e nossa mobilização é que essas leis sairão do papel. Pesquisa da VOZ DA LUTA 1. Qual o principal problema do seu bairro? 2. E do seu emprego? Responda e entregue a um(a) companheiro (a) de sua Associação do bairro, do seu sindica- to, ou entregue diretamente em nossa redação Berzé e o pacote bSTAVAfA „, ôuWhVo dOMPAN-HeiRol w^o pe»*A ^L^ <?oM<aE-' £IA1 ^s>\ Voz da Luta