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VOZ DA
Número 0 * Cidade Industrial de BH * Julho de 1986
Política sem educação
Quem comeu a verba
que estava aqui?
Quem está realmente preocupado com
a educação neste país ? Aqui na Região Industrial este grave problema ainda não entrou
na agenda das autoridades "competentes".
Faltam escolas e as crianças ficam soltas pelas ruas. As poucas unidades de ensino existentes funcionam em condições precárias. E
— Professor, houve alguma mudança de
atitude do governo brasileiro em relação à
educação?
— Demagogicamente, apenas. A educação passou a ser prioridade em seus programas políticos que, no entanto, nunca saem do
papel. Acreditam eles que a solução é construir apenas prédios escolares sem a menor
infra-estrutura.
— Trimm... Trimm... Trimm...
— Um momento, caro leitor. É o telefone que está tocando.
— Pronto. Redação da Voz da Luta.
— Alô! Sou morador do bairro Petrolândia e queria que vocês dessem uma notícia aí.
— Perfeitamente.
— A Prefeitura de Contagem inaugurou
somente a parte de fora da Escola Izabel Nascimento de Mattos...
— Como que é?
— E isso mesmo. Na parte interna não
havia nada pronto para o atendimento das
crianças. Nenhum banheiro funciona, não há
água desde o ano passado, as caixas estão descobertas e vasando pelo piso; não existe tampa protetora das caixas de eletricidade, que
são de 250 volts e ficam espalhadas pelas salas de aula; não há um vestiário onde as crianças possam se trocar para as aulas de educação física. A associação do bairro Petrolândia, a APROM, já enviou vários ofícios à Secretaria da Educação, mas até agora nenhuma medida foi tomada. E as crianças continuam tomando água diretamente da torneira do pátio.
— Obrigado, companheiro. Conte com
o jornal agora para ir em cima das autoridades relapsas.
— Bom, professor, pode continuar.
— Sim, eu dizia que as escolas públicas
em geral não possuem papel para as tarefas
diárias, não possuem carbono, estêncil, papel higiênico, livros didáticos complementares; faltam cadeiras, carteiras, lâmpadas...
— Trinun... Trim... Trimm...
— Nos desculpe, leitor. É o telefone de
novo.
— Redação da Voz da Luta, às suas
ordens.
— Boa tarde. Sou morador do bairro Industrial 3a. Secção e quero denunciar uma
atitude anti-democrática das diretoras das escolas municipais aqui do bairro, que muito
está nos prejudicando.
— Sim, à vontade.
— Até o início do ano, as escolas Júlia
Kubitschek e Maria do Amparo funcionavam
ambas com o ensino de 1a. à 8a. séries. Mas
aí, sem consultar a comunidade, dividiram
as séries em duas, ficando a Júlia Kubitschek
com o ensino de 1a. à 4a. e a Maria do Amparo, de 5a. à 8a. Essa divisão prejudicou
principalmente às crianças de 1a. à 4a. que
estão matriculadas no horário de 15 às 19:30
a população está colocando a boca no trombone. Ou melhor, no telefone. Enquanto conversava com o professor Eu ler Vidigal, do
Bairro Maria da Conceição, sobre Educação,
a nossa paciente repórter atendeu mais de
dez telefonemas de reclamações sobre o mesmo assunto. Vejam:
A população da Região Industrial reclama da precariedade das escolas
públicas
horas. Além do mais, o bairro aqui é enorme
e muitas crianças têm que caminhar muito
para chegar na escola.
— Mas vocês estão marcando em cima...
— Claro. A Associação Comunitária do
Bairro Industrial está mobilizando a população para que essa intransigência não vá à
frente.
— Obrigado. Continue, professor Eulér.
— Certo. A má conservação dos prédios
escolares da rede oficial é total. A manutenção e aquisição de equipamentos nas escolas
são conseguidas através de campanhas financeiras promovidas pelas comunidades.
— Trimm... Trimm.
— Sim, é da redação da Voz da Luta. Você também quer falar sobre os problemas da
educação no seu bairro?
— Uai, como você advinhou? Sou da região do Barreiro de Cima e quero dizer que
a comunidade aqui decidiu lutar por um colégio de 2o. grau, assumido pelos governos
municipal e estadual. Você sabe que não existe um só colégio público nessa região superpopulosa? A União das Associações do Barreiro de Cima, junto com o Centro Cultural
da Juventude do Barreiro e a Pastoral da Juventude, está reivindicando que o Colégio
Cristo Redentor, hoje completamente desativado, seja assumido pelo Estado para nos
atender.
— Obrigado. Soubemos que o prefeito
Sérgio Ferrara deu um bolo na comunidade
aí do Barreiro. Eles só nos respeitam se mostrarmos muita força.
— Trimm...
— Puxa, leitor, nem acabamos de por o
telefone no gancho.
— Alô. Sou professora municipal aqui em
Contagem.
— Ah, sim. Boa tarde. Sabemos que ser
educadora significa muita responsabilidade.
Qual é o salário de uma professora municipal aí?
— O salário bruto é de Cz$975,08...
— Realmente, a greve de vocês é muito
legítima. Como está o 2o. grau em
Contagem?
— Em toda a Contagem existem apenas
três escolas do 2o. grau. E nenhuma da rede
municipal. Até a primeira gestão do exprefeito Newton Cardoso existia o Colégio
Municipal com 2o. grau. Ele então transformou o Colégio gratuito em fundação, a Funec, de ensino pago. Além disso, há outra séria distorção na educação aqui, que faz com
que quase 20 mi! alunos em idade escolar estejam sem escola em Contagem.
— E o que é?
— Das 65 escolas da rede oficial apenas
duas possuem cursos noturnos para quem não
teve oportunidade de cursar as quatro primeiras séries à noite. As outras fecham às 19:30
horas. Até o governo do ex-prefeito José Luiz
de Souza mais escolas funcionavam à noife,
mas ele terminou com isso. Queremos a reabertura destas escolas e esperamos que a Câmara Municipal de Contagem mude de posição e passe a apoiar essa reivindicação
popular.
— Obrigado. Bom professor. Nosso espaço acabou. A sua entrevista...
— Tudo bem. O pessoal falou exatamente
o que eu queria dizer.
Ligue-se
nesta luta
Eis aqui um jornal pequeno, modesto, mas decente e de muita utilidade para você. Em suas quatro páginas (por enquanto) você vai encontrar notícias que
dizem respeito aos problemas do seu bairro, do seu trabalho, das lutas e esperanças que movimentam a vida da população da Região Industrial. A VOZ DA LUTA também vai trazer informação sobre
o que ocorre fora de nossa região, porque,
afinal, não somos uma ilha, e os problemas do povo brasileiro só terão uma solução definitiva com a união nacional de
todos os trabalhadores, não é mesmo?
Que jornal da chamada "grande imprensa" está preocupado em publicar os
problemas populares? Nenhum. São dezenas de páginas diariamente gastas para falar de politicagens, negócios econômicos, festinhas. Já se tornou folclore o
fato de que na grande imprensa o povo
só aparece mesmo na página policial.
Na VOZ DA LUTA será diferente.
Aqui, quem faz o jornal é você. Nos mande diretamente a sua notícia ou procure
um companheiro da sua Associação de
Bairro ou do seu sindicato. Tudo o que
afetar a vida do povo da Região Industrial será publicado, doa a quem doer.
Aliás, queremos mesmo que doa nas autoridades do governo e nos patrões, para
que eles tomem providências, cumpram
suas obrigações públicas, num caso, e ofereçam melhores condições de salário e trabalho, no outro. O único compromisso do
jornal é com a melhoria de vida do povo
da Região, e não com as verbas dos anúncios com as quais se vendem os grandes
jornais, as rádios e as TVs.
Um jornal como a VOZ DA LUTA
estava fazendo falta ria região. Agora, os
moradores de um bairro estarão sabendo
da luta do outro; as lutas nas fábricas e
em outros locais de trabalho poderão ser
divulgadas para outras categorias. Este
jornal veio para quebrar o isolamento em
que vivem as pessoas da região, para dar
voz a quem não tem, para espalhar os
exemplos de luta de quem está sempre disposto a brigar por seus direitos e por uma
vida digna.
Este número do jornal é gratuito. Mas
o próximo, você já terá que sustentá-lo.
Acreditamos que, depois de lê-lo, você
concordará que ele vale muito mais que
o Cz$l,00 que custará.
Associação
elege nova
diretoria
O Conjunto Habitacional Renato Hernesto do Nascimento fica
no Vale do Jatobá em Belo Horizonte. Segundo os moradores de lá
a vida está parada há dois anos devido ao não pagamento das absurdas prestações impostas pelo Banco Nacional da Habitação — BNH.
99% dos moradores não pagam as
prestações e com isso perderam o
interesse em se organizar e melhorar o conjunto.
Diz o morador Roberto Alves
de Oliveira que a atual diretoria da
associação teve seu mandato vencido desde dezembro/84 e até hoje
não se preocupou em convocar os
moradores para uma nova eleição.
Assim, os moradores tomaram a
iniciativa de se mobilizarem para
a nova eleição e lançaram a chapa B — "Renovação". A diretoria
antiga lançou uma outra chapa
que fatalmente cairá nos mesmos
erros.
Os moradores que compõem a
chapa B, em regime de mutirão estão pintando e cercando a sede social. Também estão associando a
população do conjunto e com o dinheiro das mensalidades irão fazer
melhoramentos básicos no conjunto. Além disso propõem manter a
conservação do mesmo através de
trabalho junto à prefeitura, incentivo aos moradores a pintarem suas
casas e intensificação de campanhas educativas no sentido de recolhimento e acondicionamento do
lixo evitando, a sujeira das ruas.
Entre outras propostas ainda
se destaca: Criação de cursos profissionalizantes junto ao SENAI,
SESC, SENAC, incentivo à cultura popular, com a divulgação de
peças teatrais, slides, filmes seguidos de debates, jornal do bairro, esportes, festas, folclore etc.
Seja um
repórter do
Voz da Luta!
Não deixe passar em
branco nenhum problema
sério que estiver ocorrendo
no seu bairro ou no seu
emprego!
Pergunte, converse, anote e venha trazer sua denúncia à redação.
Este jornal é a voz que
vai espalhá-la aos quatro
ventos!
Povo melhor informado
é povo melhor organizado!
Expediente
Voz da Luta
Edição: Anita Leandro — reg. prof.
n0 2646
Diagramação: Aloísio (Ligeirinho)
Ilustrações: Berzé
Redação:
Av. David Samoff, 5.510,
2o andar tel. 333-8553
Impressão: Estado de Minas.
Página 2
Quem é quem na poluição
do Novo Riacho
Os moradores do Novo Riacho, através de sua
Associação Comunitária, denunciam o problema
da poluição ambiental causada por oficinas e fábricas ali instaladas. As firmas responsáveis pela
poluição do bairro, onde residem cerca de 40 mil
pessoas, são:
TRANAL TRANSPORTADORA LTDA, situada à rua Paranaguá,, 980. Conserta carrocerias,
básculas e tanques. E causadora de poluição sonora, além de manter amontoados pneus e básculas que se enchem de água, favorecendo a proliferação de insetos:
FÁBRICA DE PNEUS SANTA MARIA, à rua
Rio Elba, 143. Causadora de poluição atmosférica:
OFICINA COCÃO, situada à rua Rio Paranaguá, 935. Polui cotidianamente as ruas do bairro, deixando escorrer detritos químicos da lavagem de caminhões;
REGIGANTE RECUPERADORA DE PNEUS
LTDA, à rua Orenoco, 862. Causa poluição atmosférica, com descarga de fumaça durante a noite.
Os grandes problemas causados à população
pela poluição poderão piorar. Está sendo instalada à rua Paranaguá, 1193, a SKEGA DO BRASIL LTDA, que produzirá pneus. Diante do crescente número de firmas poluidoras instaladas no
bairro e das denúncias feitas pela população, a Associação Comunitária encaminhou ofício à CODEMA (Comissão de Defesa do Meio Ambiente),
órgão municipal, exigindo providências imediatas.
Os moradores do Novo Riacho estão empenhados
na luta pela solução do problema ecológico.
Não dá mais pra respirar a nossa fumaça de cada dia
Saneamento
Transporte
Sol Nascente
A Associação Comunitária Sol
Nascente conseguiu ter de volta o
ponto das linhas 1141-A e 1141-B
para a avenida Amazonas, em frente à CEFET, que havia sido transferido pela METROBEL sem que
os usuários fossem consultados.
Mas seus problemas em relação ao transporte não terminam aí.
A METROBEL não respeitou o itinerário proposto pelos moradores
para a linha 1141-B (Sol Nascente
BH), e isso tem causado transtornos para as pessoas que utilizam o
Ônibus Noturno. Também os horários não são cumpridos, os carros só andam cheios e no bairro todo só existem dois abrigos, um em
cada extremo: Curva de Ibirité e
Igreja do bairro. Quem não toma
ônibus em nenhum deste pontos fica sob sol ou chuva.
Betim
Um dos grandes problemas enfrentados pela população de Betim
tem sido o transporte coletivo.
A região é "servida" pelas
linhas:
1137 - São Caetano - BH.
1123 - PTB -BH.
1153 — Alvorada — BH.
A linha mais utilizada é a
1137. Quando o ônibus passa por
alguns bairros, como é o caso de
Terezópolis, Bemge e Vila Recreio,
já está superlotado, deixando para
trás passageiros, que, geralmente,
perdem o dia de serviço.
As associações de moradores
cobraram individualmente, um
compromisso da METROBEL
frente a esse problema, mas nada
foi solucionado até agora. Por isso
as associações pretendem unificar
as discussões para elaboração de
um projeto que visa a melhoria do
transporte coletivo na região.
Os bairros que serão beneficiados com esse projeto são: Universal, São Caetano, Nova Baden, Pe-
trolándia. Laranjeiras, Santo Dias,
Terezópolis, Bemge, Paulo Camilo, PTB e Imbiruçu. A região já
conta com a infra-estrutura exigida pela METROBEL para implantação de projetos de transporte
coletivo.
O objetivo da união destas associações é o fortalecimento da luta dos moradores por transporte,
educação, saúde e outras questões
mais sentidas pela população.
Industrial - 3a Seção
A luta por transporte eficiente é antiga no bairro Industrial.
Vários abaixo-assinados já foram
feitos pela Associação Comunitária, os moradores já foram em
peso à Metrobel.
O bairro Industrial conta
com um péssimo atendimento de
transporte coletivo, que é explorado pela Transamazonas. A linha 1117 — Industrial Cardoso,
com horários insuficientes, tem
seus carros constantemente
lotados.
O problema mais grave é a
linha 1112 - Industrial - Via
Jardim Industrial/Belo Horizonte, que tem apenas seis carros. Estes não comportam nem os moradores do próprio bairro! Com
a mudança feita em dezembro
pela Metrobel, esta linha passou
a servir também ao bairro Jardim Industrial. Desde então, os
ônibus andam superlotados, causando vários transtornos, como
perda de dia de trabalho, de aula e vários acidentei.
A Associação Comunitária
do Bairro Industrial acredita que
f)ara obter maiores conquistas, a
uta deve ser travada pelo conjunto da população. Por isso a
• maior bandeira pela melhoria do
transporte é a retirada imediata
da METROBEL da Grande-BH.
Petrolândia
Existe rede de esgoto no Petrolândia?
Existe sim, mas jogando dentro do
mesmo bairro a céu aberto. O córrego recebe os detritos de esgoto do Petrolândia e São Caetano, passando
quase dentro das casas. Além disso é
uma área de brejo que impossibilita
a construção de fossas causando um
mal cheiro insuportável aos
moradores.
Neste córrego já foi constatada
a existência do mosquito da dengue
e de caramujos transmissores da xistose. Há casos freqüentes de crianças
caírem dentro desse córrego e faltarem às aulas por motivo de febre e
diarréia.
A Associação Comunitária
(APROM) pretende convidar os soldados da SUGAM para trocar as
águas não só dos vasos de flores dentro das casas, mas, em primeiro lugar, trocar as águas do córrego e
canalizá-lo.
Vilas JK9
Santa Rita e
São José
Na região do bairro Industrial
3 a seção há três grandes vilas onde os moradores vivem sérios problemas, sem que o governo municipal de Contagem tome conhecimento deles.
Nestas vilas — JK, Santa Rita
e São José —, o problema mais grave é o esgoto que corre a céu aberto pelos becos, prejudicando o acesso e causando doenças principalmente nas crianças. Qs dois vereadores eleitos na região, Caio Campos e Osvaldo, não se interessam
pela solução deste problema e não
tomam nenhuma medida que favoreça os moradores.
O movimento de organização
dos moradores das vilas está crescendo, e está sendo formada uma
associação onde eles possam discutir seus problemas mais específicos
e lutar por melhorias. Para isso
contam com todo apoio da Associação Comunitária do Bairro
Industrial.
Cardoso
A Associação dos Moradores
da Comunidade Cardoso, fundada
em 1980 no Barreiro de Cima, foi
uma das primeiras associações
combativas surgidas na região e teve grande atuação no Movimento
de Transporte. Esta associação
vem lutando por melhorias para o
bairro. Ao lado de péssimo transporte coletivo, ruas esburacadas e
sem calçamento, um grande problema enfrentado pelos moradores
é o córrego que atravessa quase todo o bairro, um imenso esgoto a
céu aberto.
Em recente pesquisa realizada
às margens do córrego ficou demonstrado que entre 50 crianças
submetidas a exames de fezes, 47
têm verminose. O quadro ficou
mais alarmante após a morte de
uma criança que foi mordida por
um rato proveniente do córrego.
São várias as doenças que podem se alastrar caso não haja solução para este problema, como a
febre amarela, verminoses em geral, hepatite, gastroenterite, esquistossomose, dengue.
Desde a década passada, políticos prometem resolver o problema. Porém a população viu que
não é solução ficar à espera dos políticos. A Associação dos Moradores está se mobilizando para cobrar
das autoridades ação imediata. Por
outro lado, está fazendo uma campanha para conscientizar os moradores contra o perigo das demagogias eleitorais, de votar em quem
muito promete e nada cumpre.
Voz da Luta
Movimento pró-creche reage
Prefeito Ferrara
tem medo do povo
Seria ótimo se todas as creches fossem assim
Falta de infra-estrutura, de
alimentação, pagamento do
pessoal, sede, desgaste das crecheiras, são alguns dos problemas enfrentados pelas Creches
Comunitárias da Grande BH e
pelo Movimento de Luta Prócreche. Newton Eduardo de
Souza, da diretoria da creche
Lar Frei Toninho, no bairro Independência, em Belo Horizonte, e um dos Coordenadores do
Movimento Pró-Creche, nos relata o difícil dia-a-dia das creches comunitárias e denuncia a
falta de seriedade da política
das prefeituras com as creches.
VOZ DA LUTA: Como
nasceu o Movimento de Luta
Pró-Creche?
EDUARDO: Nasceu em
1978, na sede do Jornal dos
Bairros. Foi fundado com a
participação de três creches:
duas de Contagem e uma de Belo Horizonte. Elas encontravam
diversas dificuldades no pagamento de mão-de-obra, que nenhum órgão público assumia. A
luta foi crescendo e surgiram
novas reivindicações: alimentação, pagamento de pessoal, etc.
Em fevereiro de 84 fizemos um
congresso com a participação
de 18 creches. Depois disso passamos para 30 participantes e
definimos
a
linha
de
reivindicações.
VOZ DA LUTA: Quantas
entidades e creches participam
no Movimento?
EDUARDO: São 50 creches participando e duas entidades de apoio: Associação de
Apoio às Creches Comunitárias
"Casa da Vovó", e Movimento
de Educação Integral Fé e
Alegria.
VOZ DA LUTA: Quais são
Voz da Luta
as principais reivindicações das
creches?
EDUARDO: A primeira
reivindicação é o pagamento
pelas prefeituras das monitorias
e demais funcionários. Batalhamos nas prefeituras de BH, Betim. Contagem, Ibirité e Vespasiano. Por enquanto só surtiu
efeito em BH, e muito pouco.
Em Contagem, a prefeitura elaborou um projeto propagandista de meio salário mínimo "pôr
monitora. Outra luta é para adquirir as "percáptas" (pequeno
pagamento por criança) junto à
FEBEM, LBA, SERVAS e FUNABEM. A FEBEM diz que dá
uma quota de Cz$ 12,46 mensal por criança. Além de ser insuficiente, pois uma criança
custa a uma creche Cz$242,80,
ela não atinge a todas as crianças. A LBA acha que a criança
só precisa de leite até dois anos.
Reivindicamos o direito de toda criança tomar seu leite sem
distinção de idade. Lutamos
também pela participação das
creches nas decisões de programas do governo. As questões da
criança são decididas sem a
participação da população, especialmente as crecheiras. Elas
têm muito a contribuir com a
política do menor.
pessoal das creches para negociar. Outra vitória é o crescimento do Movimento a cada
dia.
O prefeito de Belo Horizonte, Sérgio Ferrara, recebeu de 16
entidades comunitárias e sindicais da região do Barreiro de Cima convite para visitar a região.
Após vários encontros, a visita do
prefeito e seu secretariado foi
marcada para o dia 13 de abril
e confirmada pelo líder do PMDB
na Câmara, Artur Viana, pelo
responsável pela agenda, senhor
Salomão e pelo senhor Dilson,
chefe do cerimonial.
A União das Associações do
Barreiro de Cima organizou-se
para mostrar ao prefeito e sua comitiva os problemas centrais da
região: córregos a céu aberto,
ruas esburacadas e sem calçamento, transporte deficitário, desativação do hospital Júlia Kubitschek,
fechamento do Colégio
de 2o. grau Cristo Redentor, falta de democracia è contratações
irregulares na Administração Regional do Barreiro.
As entidades da região convocaram amplamente a comunidade para entregar suas reivindicações. Porém a visita não ocorreu, pois o deputado estadual e
vice-prefeito Álvaro Antônio, o
secretário de Assuntos Especiais
Mário Teixeira e o vereador José
Dominguos impediram o prefeito de comparecer ao encontro
com as entidades e o povo do Barreiro. Os três senhores, que se julgam donos políticos da região, espalharam calúnias e mentiras, dizendo que a população estava
sendo insuflada a receber com
hostilidade o prefeito.
É hostilidade mostrar o
abandono da região e dizer que
promessa existe para ser cumprida? Mostrar que existe consciência e vontade da população para
que as coisas mudem?
A União das Associações do
Barreiro de Cima denuncia a intromissão do 'coronel' Álvaro
Antônio na vida comunitária,
prática freqüente desse político
que apoiou o regime militar por
vários anos na Arena. Considera
inaceitável a irresponsabilidade
e o descompromisso do prefeito
Sérgio Ferrara, eleito pelo povo,
ao submeter-se ao coronelismo de
seu vice.
Cerca de mil pessoas, reunidas à espera do prefeito, vaiaram
aqueles que têm medo de encarar
o povo de frente e aplaudiram a
união dos trabalhadores interessados em mudar essa situação.
VOZ DA LUTA: Quais são
os principais problemas que o
Movimento enfrenta hoje?
> EDUARDO: O desgaste físico das pessoas. O dinheiro dos
convênios só é liberado três meses após, ou mais. Como pagar
passagem? Os funcionários deixam de ir trabalhar. Duas cre*heiras foram internadas com
esgotamento nervoso. Outro
problema é a falta de seriedade com que os políticos tratam
a questão do menor e quem trabalha com a criança. Ainda temos que enfrentar a propaganda populista dos governantes.
Quando vamos à prefeitura, sai
nos jornais foto do prefeito
apertando a nossa mão e dizendo que repassou dinheiro. A
opinião pública pensa que é
verdade e que o pessoal das creches desviou dinheiro. Isso trás
problemas internos. Os funcionários não recebem porque nas
creches não têm dinheiro, mas
no jornal está escrito que nós recebemos. Para o governo é importante manter essa situação,
pois esta política é fonte de
voto.
VOZ DA LUTA: Quais foram as vitórias que o Movimento teve até hoje?
VOZ DA LUTA: E para
concluir, o que você tem a
dizer?
EDUARDO: Percápta do
pagamento do pessoal de BH
com Hélio Garcia na Prefeitura. Essa quota era de 30% do
salário mínimo. Atualmente
passou para 15% (120,00), contrariando assim a propaganda
do governo. Ferrara foi o primeiro prefeito a não receber o
EDUARDO: a questão da
criança não serã resolvida só
pelo Pró-Creche ou pelas Secretarias, mas sim por toda a comunidade. O movimento está
aberto a todas as pessoas que
queiram participar e que estejam de acordo com os nossos
princípios.
Não confie em promessas. Deixe para você rir por último
Saúde para todos.
Fechar o Júlia, não!
O Hospital Júlia Kubistschek, situado no Barreiro de Cima, funcionava como centro especializado para tratamento de
tuberculosos. Pertencente ao governo federal, o Hospital poderia
ter sofrido transformação para
atender toda a região industrial,
considerando sua estrutura e localização. Entretanto, pouco a
pouco ele foi sendo desativado
devido à falta de verbas. Hoje o
Júlia funciona com apenas 40%
de sua capacidade. Com tantos
hospitais particulares na região,
o interesse dos comerciantes da
saúde na sua desativação é muito grande.
O povo não aceitou isso.
Funcionários do hospital, diretores e a população da região
mobilizaram-se contra o fechamento, reivindicando a reativação total.
, Várias reuniões foram realizadas e um ato público no dia
dois de março reuniu cerca de
600 pessoas. Foram denunciados
o descaso das autoridades e os diretores do INAMPS, que são donos de hospitais particulares e
por isso interessados no fechamento dos hospitais públicos.
Há ainda muito a ser feito.
Para total reativação do hospital
é necessário a contratação de pessoal, o que será dificultado pelo
decreto assinado pelo presidente
Sarney, impedindo contratações
neste período.
O Júlia Kubistschek pode ser
transformado em hospital geral,
com maternidade, pediatria, prénatal, vacinações, clínica médica, etc. E assim, ter condições de
atender toda a região. Para que
isto seja feito é fundamental o envolvimento de todos na luta.Os
moradores, as associações de
bairros, sindicatos e entidades
populares.
Página 3
Luta Internacional
Nicarágua
na luta
contra o
imperialismo
Nicarágua. Você já ouviu
falar do que aconteceu neste
país?
Eram 2,8 milhões de pessoas submetidas há mais de 45
anos à ditadura de uma única
família, chamada Somoza.
Quase toda a riqueza que eles
produziam ia parar nas mãos
dos Somoza, que eram donos da
maior parte das fazendas, das
indústrias e do comércio da Nicarágua. Eles eram pobres e
muito perseguidos pelo regime
do ditador que assassinava centenas de pessoas a cada ano.
Em 1960, um grupo de nicaragüenses criou a Frente Sandinista de Libertação, que passou a organizar o povo para a
luta contra a ditadura que, finalmente, em 19 de Julho de
1979 foi derrubada. Nesses
anos, 50 mil nicaragüenses deram sua vida para a vitória da
Revolução.
Após a tomada revolucionária do poder, o governo Sandinista expropriou todos os bens
da família Somoza e pôs em
prática as primeiras medidas
para melhorar o nível de vida
do povo. Mas nesse momento o
governo dos Estados Unidos,
que estivera durante todos
aqueles anos sustentando a ditadura Somoza, resolveu impedir a qualquer custo o sossego
do povo da Nicarágua. Armou
até os dentes centenas de antigos policiais dos Somoza e
abriu a guerra civil no país, que
já custou até agora quase 10
mil vidas, sem contar os prejuízos à economia.
Esta é uma atitude tipicamente imperialista do governo
dos Estados Unidos. E é aí que
o que acontece na Nicarágua
tem a ver conosco. O governo
dos Estados Unidos zela, como
um capataz, pelos interesses das
empresas e dos bancos norteamericanos implantados em todo o mundo capitalista. E nessa ação ele é seguido pelos governos de outros poderosos países capitalistas como a Inglaterra, o Japão, a Alemanha.
Essa unidade dos governos,
empresas e bancos capitalistas
formam uma corrente que sugam o trabalho de milhões de
operários e camponeses em todo o mundo submetido ao imperialismo. Por isso, cada vez
que um elo dessa corrente é partido, como foi com a revolução
na Nicarágua, isso interessa a
todos os outros povos. E interessa principalmente ao povo brasileiro, cujo trabalho é o mais
explorado em todo o mundo pelo imperialismo.
Página 4
Violência no campo
Para combatê-la. Reforma Agrária
Praticamente todos os dias os
meios de comunicação nos transmitem notícias sobre assassinatos, despejos e outras violências no campo.
A raiz dessa violência se encontra na
injusta distribuição da terra no Brasil. São 416,6 milhões de hectares em
mãos dos latifundiários, sendo que
mais da metade são terras ociosas. Do
outro lado há 12 milhões de trabalhadores sem terra. Todo ano, 4 milhões de trabalhadores são expulsos
do campo e vêem engrossar as favelas das grandes cidades.
Nos últimos anos, a violência no
campo aumentou assustadoramente.
Vivemos numa verdadeira guerra pela terra. Em 1984, a cada cinco dias
um trabalhador rural era assassinado. Em 1985, a cada dois dias o latifúndio matava um trabalhador. Neste
ano de 86, a cada dois dias três trabalhadores são mortos. Este ano, somente em Minas Gerais, 16 trabalhadores e um índio Xakriabá foram assassinados. O que há em comum em
todos esses crimes é a impunidade.
Tanto a policia como a justiça e governos estaduais nada fazem para punir os criminosos. Até figuras do governo federal são cúmplices. É o melhor jeito de incentivar noVos crimes.
Enquanto isso, os latifundiários
continuam tramando novas formas
de sustentar a injusta distribuição da
terra no nosso país. Criaram a UDR
Trabalhadores
ruais
fazem
ocupação na
porta do Incra,
em BH
— Unidade Democrática Ruralista —
e já conseguiram com que o latifundiário Samey desfigurasse completamente o Plano de Reforma Agrária.
A Reforma da Nova República não
passou de propaganda e se está caracterizando como a contra-Reforma
Agrária.
A UDR continua formando mi-
lícias privadas para combaterem a
Reforma Agrária. Cerca de 40% dos
efetivos da PM de Mato Grosso deram baixa e hoje fazem parte do exército de jagunços do latifúndio. O alvo deles são as lideranças sindicais e
populares, e agentes pastorais da igreja. Uma violência seletiva, organizada e planejada. Fala-se até que há
uma lista com os nomes dos próximos
a serem assassinados, entre eles o Pa-
dre Ricardo Resende, coordenador da
Comissão Pastoral da Terra (CPT) na
conflituosa região do Araguaiatocantins. Ele vem denunciando a
operação de desarmamento por parte do governo federal, que tem se concretizado muito mais por recolher facões e armas leves de caça dos posseiros, fazendo vista grossa para o
verdadeiro material bélico em poder
do latifúndio.
Desafios para a Constituinte
Em 15 de novembro próximo
serão eleitos deputados federais e
senadores com o encargo de montar a nova Constituição do Brasil.
Essa Constituição, que será» a lei
maior do país, vai conter os novos
direitos e deveres dos cidadãos
brasileiros.
Por aí já se vê a briga de foice
que vai ser. Pois os cidadãos brasileiros não são iguais. De um lado
estão o povo, os trabalhadores da
cidade e do campo, 90% da população, os que criam toda a riqueza
mas passam uma vida de miséria;
do outro lado, estão os que nos exploram, os donos do poder.
Se o voto correspondesse a essa divisão social teríamos uma
maioria folgada no novo Congresso e poderíamos elaborar uma nova Constituição que assegurasse a
terra para quem nela trabalha, um
salário-mínimo digno, o emprego
e a estabilidade no emprego, direito de greve, acesso sem censura aos
meios de comunicação, fim da exploração do capital estrangeiro,
etc.
Mas aqueles 10% da população esperam novamente se aproveitar da falta de consciência de nosso povo e se transformar de minoria em maioria, fomando um novo Congresso como o atual, onde
o grosso dos parlamentares é composto por fazendeiros, comerciantes, industriais, c advogados, funcionários e políticos tradicionais
vendidos às grandes empresas.
Eis aí o nosso primeiro desafio:
é preciso investigar direitinho os
candidatos que se apresentam, indagar do passado social de cada
um deles, saber se sempre estiveram do nosso lado na luta, ou se
são aproveitadores, saber das suas
práticas concretas. Vamos levar es-
ses candidatos em nossos bairros e
fazer uma sabatina com eles até
termos confiança que não vão nos
decepcionar no novo Congresso.
O outro desafio é fortalecer
ainda mais nossas entidades de luta, nossas associações e sindicatos.
Porque mesmo que tenhamos leis
favoráveis na nova Constituição, isto por si só não é garantia de que
elas serão respeitadas. Só com a
pressão de nossas entidades de luta e nossa mobilização é que essas
leis sairão do papel.
Pesquisa da VOZ DA LUTA
1. Qual o principal problema do seu bairro?
2. E do seu emprego?
Responda e entregue a um(a)
companheiro
(a) de sua Associação do bairro,
do seu sindica-
to, ou entregue
diretamente em
nossa redação
Berzé e o pacote
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