Em
defesa
da
Em defesa da engenharia
Engenharia
Os grandes desafios da profissão
no Brasil do século XXI
EDEMAR DE SOUZA AMORIM
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Em
defesa
da
Engenharia
Os grandes desafios da profissão
no Brasil do século XXI
Ficha catalográfica
Copyright – 2009 Instituto de Engenharia
Edição: Assessoria de Comunicação do Instituto de Engenharia e Carlos Mello
Revisão: Carlos Mello
Em
defesa
da
Engenharia
Os grandes desafios da profissão
no Brasil do século XXI
Projeto Gráfico: Via Papel Estúdio
Fotos e Criação da capa: André Siqueira
Ficha de Catalogação
Bibliotecário: Maria Aparecida Poli – 8/2334
_________________________________________________________________________
A524 Amorim, Edemar de Souza
Em Defesa da Engenharia: os grandes desafios da profissão no Brasil Do
Século XXI/Edemar de Souza Amorim. São Paulo: Instituto de Engenharia,
2009.
ISBN 978-85-60570-01-0
1. Engenharia – Brasil 2. Engenharia – Brasil - Profissão I. Título
CDD-620.0023
_________________________________________________________________________
Índices para catálogo sistemático
1. Engenharia : Brasil : Profissão 620.0023
2. Brasil : Engenharia : Profissão 620.0023
Direitos reservados ao Instituto de Engenharia.
EDEMAR DE SOUZA AMORIM
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Presidente
Edemar de Souza Amorim
Introdução
Vice-presidente de Administração e Finanças
Camil Eid
Vice-presidente de Atividades Técnicas
Paulo Ferreira
Vice-presidente de Relações Externas
Ozires Silva
Vice-presidente de Assuntos Internos e Associativos
Dario Rais Lopes
Vice-presidente de Administração da Sede de Campo
Permínio Alves Maia de Amorim Neto
Diretores:
Diretora Secretária
Miriana Pereira Marques
Diretor Secretário Substituto
Marcos Moliterno
Diretor Financeiro
Odécio Braga de Louredo Filho
Diretor de Educação
Marco Antonio Domingues
Diretor de Relações Externas
Francisco Armando Noschang Christovam
Diretor de Relações Internacionais
Miracyr Assis Marcato
INSTITUTO DE ENGENHARIA
Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 - Vila Mariana
04012-180 - São Paulo/SP
+ 55 11 3466-9200
[email protected]
iengenharia.org.br
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Prefácio
Engº Paulo Egydio Martins
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Tema 1
Em defesa dos engenheiros e da Engenharia
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Tema 2
Os desafios da representatividade
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Tema 3
Planejamento urbano e infra-estrutura
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Tema 4
Políticas públicas e gestão
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Tema 5
Problemas das licitações
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Apêndice
Discursos
85
Índice
Expediente
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Introdução
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9
Em 1962, discursando na Universidade Rice em Houston,
John F. Kennedy inaugurou a era espacial da seguinte forma:
“Nós escolhemos ir para a lua. Nós escolhemos ir para
a lua e fazer outras coisas, não porque são fáceis, mas
porque são difíceis, porque esta meta servirá para organizar e medir o melhor de nossas energias e habilidades,
porque este desafio é um que estamos dispostos a aceitar, um desafio que não queremos adiar e um desafio que
pretendemos vencer, e os outros, também”
Ao assumir, em abril de 2007, a presidência do Instituto de
Engenharia, tinha em mãos uma missão bem definida e construída ao longo de uma carreira de quase 50 anos no período mais
fértil da engenharia brasileira. A visão de que uma instituição
como o Instituto de Engenharia tinha um papel maior a cumprir,
devendo assumir uma liderança na unificação do discurso em
defesa da engenharia, era cada vez mais clara e urgente.
Mas como atuar numa sociedade fragmentada por centenas de pequenas associações, federações, clubes e sociedades?
Cada uma com suas demandas particulares e específicas, bem
como necessidades comuns que poderiam e deveriam ser defendidas em conjunto?
Alguns pontos fundamentais foram escolhidos e seriam, ao
longo dos dois anos de mandato, abordados em eventos, palestras, discursos, artigos e principalmente editoriais, cuja única
orientação seria não se acovardar, ou ceder a interesses estranhos à engenharia.
A defesa da profissão de engenheiro, com ações para a melhoria dos cursos de graduação e pós-graduação, combatendo
cargas horárias insuficientes e incentivando o compartilhamento de conhecimento de todas as formas possíveis, de cursos
presenciais a ambientes na internet e etc.
A união do discurso na representação da engenharia, dei-
xando de lado antigas desavenças pessoais, compartilhando
espaços e créditos pelo trabalho em conjunto, abrindo espaços
para o diálogo e dando o exemplo ao dar o primeiro passo.
Na gestão pública, emergindo das sombras dos relatórios técnicos, assumindo um papel ativo e, principalmente crítico das falhas dos gestores públicos, nos programas governamentais eleitoreiros, no desperdício de recursos e nos riscos desnecessários
aos quais os cidadãos brasileiros são expostos diariamente.
Agradeço então à brilhante equipe de vice-presidentes e
diretores, de alta qualidade e comprometimento que, acreditando nesta visão, não poupou esforços na condução das atividades diárias, pedra fundamental para a construção do novo
Instituto de Engenharia
Agradeço também ao excelente grupo de funcionários dedicados, motivados, eficientes e eficazes que, mesmo enfrentando as restrições naturais de uma entidade como o Instituto
de Engenharia, sempre apresentou um trabalho de alto nível e
profissionalismo.
Agradeço o apoio de minha família, sempre presente e disposta a colaborar e prestigiar o Instituto de Engenharia. Especialmente à minha esposa Denise, cujo apoio nas inúmeras atividades administrativas diárias permitiu-me uma liberdade maior
para lidar com assuntos estratégicos e ao meu filho Antonio Carlos que conseguia traduzir para o papel minhas idéias de forma a
sensibilizar e mobilizar as pessoas em prol da engenharia.
A essas pessoas que, por sua grandeza de espírito, escolheram ir para a lua, tomando o caminho mais difícil que não
podia mais ser adiado, dispostas a seguir e vencer este desafio,
marcando o início de uma nova era no Instituto de Engenharia
e na sociedade brasileira, agradeço, dedicando esta coletânea,
em reconhecimento pelo seu esforço e trabalho.
Edemar de Souza Amorim
08 de fevereiro de 2009
Existem pessoas destinadas a se diferenciar por varias formas e maneiras no decorrer da vida, Edemar de Souza Amorim é uma delas.
Isto se evidencia e merece o reconhecimento daqueles que têm o
privilégio de ter com eles convivido. Tive a oportunidade de conhecê-lo
há muitos anos e nos tornamos amigos.
É com grande prazer que aqui falo um pouco de sua brilhante trajetória e deste livro que trata de algo tão caro para mim, a engenharia
brasileira.
Formado em 1960 em Engenharia Civil e Engenharia Eletricista, no
Mackenzie, logo se tornou professor de Resistência dos Materiais, tornado-se titular da cadeira, além de ter sido também Diretor de Estruturas
da mesma Universidade.
Foi diretor ou principal executivo de empresas do porte da Sobrenco,
quando participou da construção da rodovia Castello Branco e da ponte
Rio-Niterói, grandes obras da engenharia nacional.
Também emprestou sua capacidade invulgar para grandes Empresas
de engenharia como Mendes Junior, Sade, Enterpa e Queiroz Galvão.
Sua atuação durante os últimos 40 anos na engenharia, correndo
este Brasil todo, e assim tomando contato direto com nossos problemas,
o habilitou a atuar como consultor para os grandes projetos nacionais.
Faz parte da FEBRAE, Federação Brasileira de Associações de Engenheiros, é membro de Conselhos da FIESP, alem de ter participado das
Diretorias da APEOP e ABEMI.
Atua no nosso Instituto de Engenharia desde o período de professor. Em 2003 foi eleito membro do Conselho Deliberativo, ascendendo
a diversas funções, desde então, sendo eleito em 2007 para a honrosa
posição de Presidente do nosso Instituto.
A brilhante carreira de Edemar nos atesta que ninguém melhor do
que ele para falar sobre engenharia e engenheiros, os artigos e discursos
que serão lidos neste livro se mesclam nos revelando os engenheiros e
tecendo um panorama da engenharia brasileira.
Estes textos nos dão a certeza de que já temos algumas respostas
para os grandes desafios da profissão no Brasil do século XXI.
Paulo Egydio Martins
Prefácio
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Foto: PhotoDisc
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Tema 1
Em defesa
dos engenheiros
e da engenharia
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Tema 1 – Em defesa dos engenheiros e da engenharia
Comprometendo o futuro
Editorial publicado em setembro de 2007 no Jornal do Instituto de Engenharia
Não é segredo que a engenharia brasileira vive seu
pior momento. O mais grave, no entanto, é saber
que se medidas extremas não forem implementadas
não é possível ser otimista em relação a uma eventual melhora desta situação.
Vivemos um problema conjuntural. Perdemos
uma geração de engenheiros para o mercado financeiro, graças aos 25 anos de crise estrutural e
à falta de investimentos do governo. Agora, estamos perdendo outra leva de profissionais para
a aposentadoria. Mas nada poderia ser pior do
que perder uma terceira geração pela má-formação universitária.
É claro que existem no Brasil grandes universidades, com cursos de excelência comprovada.
Mas, como resultado da política de reconhecimento de cursos do Ministério da Educação (MEC) e da inércia de conselhos e
associações, cursos de engenharia com menos de quatro mil horas de aulas estão se
tornando mais comuns do que a prudência e as boas práticas recomendam.
Também não se pode ignorar a enormidade de especializações reconhecidas pelos
CREAs. Formam-se engenheiros de telecomunicações, minas, automotivos entre uma
centena de derivações dos cursos de Engenharia Civil, Mecânica, Elétrica, Química,
Arquitetura e Agronomia. As matérias tornaram-se cursos completos para cobrir nichos de mercado.
O Brasil, nas últimas décadas, perdeu muitas oportunidades de desenvolvimento
por falta de coragem ou visão de seus líderes. Assistiu passivo ao despertar de nações
que investiram na formação de seus cidadãos, enquanto modelos e investimentos
passados eram abandonados por pura divergência política.
Hoje, com a velocidade propiciada pela tecnologia, as mudanças acontecem quase instantaneamente. Corremos o sério risco de perder mais esta chance de crescer de
forma sustentável por falta de profissionais qualificados, passando de produtores de
conhecimento e tecnologia a meros importadores de serviços técnicos.
Para alterar esse cenário, é preciso intervir no sistema de formação dos engenheiros, criando, como faz a OAB, um processo de classificação e seleção dos cursos e dos
Em defesa da engenharia
profissionais formados. É necessário usar as leis de mercado para impedir a proliferação de escolas e faculdades inferiores, promovendo aquelas com grau de excelência
reconhecido.
É preciso conscientizar empresas e contratantes que o custo de um mau engenheiro não se resume ao montante pago em salários ou por serviços realizados. Um
projeto ruim pode custar vidas, requerer manutenção ou readequação, o que compromete todo o investimento realizado. O desempenho do piloto Rubens Barrichello
com o carro da equipe Honda é um excelente exemplo de mau projeto.
É preciso retardar a aposentadoria de engenheiros experientes e impedir a “juniorização” dos departamentos e das empresas de engenharia por questões de custos. Paralelamente, é fundamental exigir a atualização contínua dos profissionais por
meio de cursos, estágios, visitas técnicas e intercâmbios.
É preciso ainda incentivar o compartilhamento do conhecimento técnico entre
profissionais e empresas, criando uma malha que facilite a pesquisa, desenvolvimento e distribuição desse conhecimento da universidade para os profissionais e
canteiros de obras,escritórios de projeto e fábricas para os estudantes e professores.
Enfim é hora da engenharia ser retomada e reconstruída pelos engenheiros, pois as
autoridades estão empenhadas em nos levar de volta ao Brasil agrícola do passado,
priorizando seu novo ciclo da cana-de-açúcar.
Os erros do
passado
Artigo publicado em de 2007 na Revista Empreiteiro
As ruínas romanas espalhadas pela Europa
e pelo norte da África são elementos presentes
em qualquer álbum de recordação. Remetem
os viajantes a um passado distante e mostram as realizações do homem e a grandeza
das civilizações. Mas qualquer engenheiro
com um mínimo de interesse por história
percebe uma grande diferença na quantidade de ruínas romanas em comparação
com as construções da baixa Idade Média,
período seguinte à queda de Roma.
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Tema 1 – Em defesa dos engenheiros e da engenharia
A explicação é simples: a queda de Roma levou consigo um valioso conhecimento sobre construção e o segredo da durabilidade de suas edificações: a
argamassa. As invasões bárbaras perderam a argamassa e voltaram a construir
com tecnologias mais atrasadas, ineficientes e caras. Construíram mal, viveram
mal e muito pouco restou em pé para as gerações futuras. É como se não tivessem existido.
Hoje, a engenharia brasileira corre risco semelhante, pois, com o passar
dos anos, a última geração de grandes engenheiros, responsáveis pelas grandes obras do milagre brasileiro, está encolhendo – num processo natural de
envelhecimento e aposentadoria –, sem que haja no horizonte a esperança de
reposição desses profissionais.
Com o Brasil paralisado há 20 anos, toda uma geração de novos engenheiros formou-se para atuar na administração de empresas, no mercado financeiro
ou para “virar suco” em empreendimentos próprios. Hoje, é patente a “juniorização” dos canteiros de obras e escritórios de projetos, com a dispensa de profissionais com mais de 50 anos de idade por questões de controle de custos.
É claro que prédios e casas ainda são e serão construídas, novas industrias instaladas, projetos elaborados, mas a queda em sua qualidade é visível. As patologias
das construções são problemas cada vez mais comuns, o desrespeito às normas e
metodologias crescentes e a redução nos investimentos com sondagens e inspeções
uma constante.
O maior desafio da engenharia brasileira será reverter este quadro dramático, aproveitando a disposição governamental de realizar os necessários investimentos em infra-estrutura represados há 20 anos, lutando para reinserir no
mercado de trabalho os engenheiros experientes, desenvolvendo metodologias
de atualização em novas tecnologias para os mais velhos e de capacitação
técnica para os mais jovens. Pois a preservação e a aquisição de conhecimento
técnico são imperativas para o país.
Esse desafio não é um esforço concentrado de uma entidade ou uma autarquia. É um processo com um objetivo comum e terá de envolver toda sociedade brasileira, seus profissionais, empresas, escolas e universidades, governos e
cidadãos, sem espaço para vaidades e disputas de poder político.
O Brasil está perdendo valioso conhecimento técnico acumulado durante
seu crescimento. Esse conhecimento nos permitiu criar empresas de engenharia de padrão internacional, que nos diferencia de países vizinhos. Foi ele que
nos colocou entre as grandes nações do mundo. Estamos, por decisão própria,
desistindo de ser romanos para virarmos um bando de bárbaros.
Em defesa da engenharia
Discernindo
entre as leis e
a legislação
Editorial publicado em outubro de 2008
na Revista Engenharia
O Brasil é um país atípico. Está mergulhado numa cultura semi-anárquica e
questionadora, onde é comum, chegando
às raias do aceitável, que o cidadão não
somente questione o trabalho de seus legisladores como também não cumpra as
leis. Para isso, conta com a complacência
das autoridades em certas ocasiões.
A crença popular da existência de uma suposta indústria de multas (amplamente
incentivada por candidatos irresponsáveis a cada eleição), mantida para engordar os
cofres públicos é outra evidência do ridículo comportamento infrator brasileiro.
Não fosse por casos onde a regra é de uma estupidez clara (como os famosos
kits de primeiros-socorros nos automóveis) ou de fiscalização frouxa (uso irregular de
imóveis ou infrações menores de trânsito), o brasileiro talvez pudesse ter um comportamento mais civilizado, como tem sido amplamente divulgado pela grande mídia no
caso da chamada “Lei Seca”.
Mas o problema tem início quando administradores públicos, gestores de empresas de engenharia, engenheiros de obras e empreiteiros começam a aplicar essa cultura anárquica ao dia-a-dia de suas empresas, desafiando, além das regras definidas
pelos homens, também as leis da natureza, acreditando que seus advogados, armados
apenas de recursos e liminares, podem lidar contra a física, a química e até a lógica.
Limites de velocidade e infrações são perdoados por legisladores e magistrados
lenientes a custo de milhares de vidas por ano. O caos urbano, derivado da ocupação
inadequada do solo e das áreas de mananciais, as mortes nos últimos acidentes como
os desabamentos em obras de terra ou de prédios em diversas cidades são alguns
exemplos dos desastrosos resultados da arrogância e presunção dos adeptos do valetudo brasileiro.
Não podemos fingir que a lei da gravidade é relativa ou passível de adaptações
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Tema 1 – Em defesa dos engenheiros e da engenharia
Em defesa da engenharia
à burocracia estatal. Não podemos assumir que dois corpos podem ocupar o mesmo
espaço físico ao mesmo tempo, só porque o filhinho de algum senador gosta de brincar de piloto de corridas, depois de uma cervejada com seus amigos. Não podemos
imaginar que materiais de qualidade inferior são capazes de produzir o mesmo edifício
que os profissionais de marketing anunciam.
Não podemos mais fingir que a “otimização” de recursos ensinada nas escolas de
administração pode ser aplicada impunemente, reduzindo coeficientes de segurança,
economizando em fiscalizações, acelerando processos construtivos ou “juniorizando”
equipes técnicas nos canteiros, escritórios de projetos ou órgãos e autarquias públicas.
É preciso que as lideranças políticas e empresariais passem a respeitar não somente
as leis da natureza, mas também as leis do homem e a capacidade da engenharia
brasileira em vencer os desafios que lhe são apresentados.
Pois obras como Itaipu, a ponte Rio-Niterói, a CSN e até mesmo o Metrô paulistano
são provas da durabilidade, da eficiência e da capacidade técnica de nossos profissionais. Esses e outros trabalhos do mesmo porte comprovam que o Brasil é capaz de
grandes realizações.
A alternativa ao cumprimento das leis é o alto custo em vidas e dinheiro público
gasto em reconstruções, indenizações ou atendimento de emergência nos hospitais.
A escolha certamente não poderia ser tão difícil.
Pilantragem não
é engenharia
Editorial publicado em junho de 2007
no Jornal do Instituto de Engenharia
Ainda sob os holofotes da Operação Navalha é necessário e urgente que algumas
considerações sejam feitas antes que seja
escolhido o bode expiatório da vez.
O fato de o escândalo girar em torno
de uma empreiteira e de obras públicas,
nada tem a ver com a engenharia nacional. A engenharia é a técnica, é a solução de um problema, são os materiais
empregados. Enfim, é a ciência que permite um trem transportar passageiros
trinta metros abaixo do solo, uma ponte ser construída com altura superior a
de um prédio de 100 andares ou uma barragem armazenar bilhões de metros
cúbicos de água, gerando energia, empregos e desenvolvimento.
Corrupção, desvios de verbas públicas, pagamento de propinas, licitações dirigidas e obras fantasmas ou desnecessárias são casos de polícia, crimes, problemas de
falta de caráter, mas não estão associados à engenharia.
Mas, no Brasil de hoje, os valores foram invertidos. Vemos a indignação e
a presteza dos especialistas de plantão quando ocorre um acidente com um
projeto de alto risco como um túnel. Vemos a agilidade de alguns integrantes
do Ministério Público ao denunciar “crimes de desabamento” antes mesmo do
resgate das vítimas. Porém, quando o assunto envolve políticos, juízes e seus
advogados, a indignação – tardia, diga-se de passagem – se volta contra a
polícia e seus métodos truculentos de investigar e prender, como se o grampo
telefônico fosse a causa do crime.
Ora, o detalhe da Gautama ser uma construtora não pode ensejar manchetes
denunciando uma pretensa “República das Empreiteiras”, pois seria o mesmo que
imaginar um “Império dos Bancos” capitaneado pelos famosos Marka e FonteCindan, denegrindo instituições sérias e representativas. As grandes empreiteiras
brasileiras são empresas transnacionais, sua atuação no exterior chega a superar
as operações no Brasil, apresentando alto desempenho em projetos de enorme
complexidade técnica. Simplesmente não podem ser comparadas a empresas aventureiras cujo objeto é sangrar os cofres públicos, sem nenhuma obra de destaque
em seus poucos anos de existência.
O maior problema deste país é submeter a engenharia à má gestão pública.
Licitações públicas são iniciadas sem projetos completos e detalhados, incentivando
processos de contratação que premiam o serviço de baixa qualidade, permitindo a
empresas desqualificadas participar de processos licitatórios.
O Tribunal de Contas da União (TCU) também é responsável, pois empresas
contestadas pelo TCU por irregularidades não são impedidas de assinar novos contratos que trarão novos problemas, ficando na ativa por anos a fio, cometendo toda
sorte de crimes contra a sociedade e contra o país.
Agora, na pressa de responder à sociedade e salvar a própria pele, os membros do Congresso Nacional, como sempre fazem, apresentarão toda a sorte de
projetos anticorrupção. Vão defender rotinas mais duras e burocráticas – como
se construir uma ponte desnecessária por um preço baixo atenuasse a irrelevância da obra. Esquecem assim que, ao Brasil, não faltam leis. Faltam pessoas
dispostas a cumprir e fazer com que essas leis sejam cumpridas.
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Tema 1 – Em defesa dos engenheiros e da engenharia
Em defesa da engenharia
Alternativa
de alto custo
Editorial publicado em novembro de 2007
no Jornal do Instituto de Engenharia
Mais uma vez, o Brasil assiste a uma seqüência de cenas trágicas e tristes em lugar
de comemorações. E, mais uma vez, a engenharia ocupa espaço na mídia ao lado de
fotos de ambulâncias, carros do Corpo de
Bombeiros e estatísticas fúnebres.
Começa, então, o procedimento padrão para momentos desse tipo: autoridades indignadas, promessas de apurações
de responsabilidades e dedos apontados em todas as direções. O resultado, porém, é conhecido pela população: muito falatório, muitas
desculpas esfarrapadas, famílias lutando por indenizações que não vêm e tudo
continua na mesma. A burocracia estatal parece ter sido criada e aperfeiçoada
com o objetivo único de acobertar seus próprios erros.
Porém, a verdade é que não é preciso ir muito longe para identificar os responsáveis pela morte dos sete torcedores do Bahia, ou dos 199 passageiros do
vôo 3054. São aquelas mesmas pessoas cujos esforços em se isentar de culpa
são transmitidos em rede nacional entre uma novela e outra.
O Estádio da Fonte Nova ruiu por falta de manutenção, por descaso das
autoridades baianas e da CBF diante dos avisos recebidos, pela ineficiência da
Justiça brasileira em atender aos pedidos de interdição feitos pelo Ministério
Público e pela falta de interesse da imprensa. Ao torcedor, cujo nome é sempre
invocado nas manobras contra qualquer tentativa de interdição, fica a alternativa de correr risco de vida sempre que quiser prestigiar seu time no estádio.
O poder público tem repetidamente ignorado os avisos dados pelas autoridades técnicas sobre a infra-estrutura brasileira. Associações de engenheiros
e de engenharia têm realizado estudos, debates, simpósios e outros tantos
eventos apresentando às autoridades competentes um retrato fiel do estado
precário das obras públicas brasileiras, mas nenhuma medida efetiva de proteção à população é tomada até que seja tarde demais.
Hoje, o gestor público brasileiro assume seu cargo com uma mentalidade de
curto prazo, seu horizonte resume-se à próxima eleição e seus projetos duram
entre dois e quatro anos, priorizados pelo potencial de geração de votos. Os
interesses e as necessidades dos cidadãos que se adaptem a isso — ou se lixem.
O que importa é manter a máquina eleitoral em funcionamento. A manutenção
das obras de gestões anteriores elege, no máximo, o síndico do condomínio.
É preciso desenvolver na sociedade brasileira a cultura da manutenção e da
preservação do patrimônio público. Isso se faz pressionando candidatos e partidos a incluir programas de manutenção nas propostas eleitorais. Outras ações
fundamentais: informar os meios de comunicação sobre os riscos oferecidos
pelas obras malconservadas e colaborar com a Justiça para acelerar os processos de interdição e recuperação de estruturas comprometidas. Enfim, será
necessário tomar as rédeas do combate ao descaso e lutar pela conservação
dos investimentos feitos no passado, sob pena de comprometer o futuro. Sem
isso, só resta a alternativa baseada na perda de vidas e obras de reconstrução,
sempre mais cara e moralmente condenável.
Equação meio
resolvida
Editorial publicado em julho de 2007
no Jornal do Instituto de Engenharia
O efeito mais nefasto de décadas de
crises intermitentes e dos esforços para
recomposição das contas públicas foi a
transformação do Brasil em uma nação
de pensamento tacanho e monocromático. Vivemos em um país voltado exclusivamente para a produção de resultados financeiros e superávits primários
para saldar seus compromissos.
O foco (ou melhor, a sanha) na arrecadação de
recursos tornou-se a única competência pública brasileira levada à excelência. Nosso
país constrói, hoje, verdadeiras máquinas de criação, instituição e cobrança de taxas,
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Tema 1 – Em defesa dos engenheiros e da engenharia
tarifas, empréstimos compulsórios, contribuições e impostos com eficiência inversamente proporcional à sua capacidade de gestão do dinheiro arrecadado.
O governo brasileiro, preocupado exclusivamente com os impostos não
recolhidos pelos produtos que atravessam a Ponte da Amizade, em Foz do
Iguaçu, legaliza o contrabando, organizando um mecanismo de apuração e
cobrança eletrônica de impostos, digna de países de Primeiro Mundo. Por outro lado, ignora o consumidor, atravessa a legislação, abandona suas normas
e padrões de produção e segurança, entregando à sociedade a tarefa de se
proteger do risco oferecido pelos produtos de qualidade “alternativa”, agora
legalizada.
Essa situação absurda repete-se na engenharia, expondo a sociedade a um
risco ainda maior. Pois a fiscalização do recolhimento de tributos parece ter se
tornado a maior função das autarquias, em detrimento da segurança dos cidadãos, que se vêem à mercê de situações como a não-observação de normas
técnicas, a prática ilegal da profissão ou a má-formação profissional.
Um engenheiro trava hoje uma batalha quase perdida em seu exercício profissional. Enfrenta custos crescentes para sua atualização constante, honorários ou
salários decrescentes pela concorrência predatória e a falta de representação institucional pela fragmentação das associações e sindicatos. Em resumo, vale a pena
frisar, o profissional ganha pouco, gasta muito e não recebe sequer a contrapartida
devida em serviços públicos.
Há pouco foi anunciado o subsídio dado pelo CREA à ABNT, como uma
iniciativa para reduzir o custo atual de aquisição do mais fundamental instrumento de trabalho do engenheiro: a Norma Técnica. Como é possível um país
aventar a possibilidade de desenvolvimento econômico, se a aplicação de normas técnicas depende da capacidade de investimento pessoal do profissional
ou da empresa?
O financiamento da ABNT pela venda de Normas Técnicas é mais uma aberração brasileira. Seu subsídio (esmola, na verdade) pelo CREA é uma afronta à
sociedade e aos engenheiros e arquitetos, cujo acesso gratuito e permanente
às Normas Técnicas deveria ser custeado integralmente pelo Estado – e não se
tornar um objeto de pirataria e comércio ilegal na internet.
É preciso voltar a enxergar a engenharia brasileira com a seriedade que
merece, como ferramenta para o desenvolvimento econômico, como ciência
produtora de conhecimento, como motor da inovação tecnológica. Ela não
pode mais ser vista como uma vaca leiteira sustentando um Estado gordo,
pesado e ineficiente.
Em defesa da engenharia
Forjando uma
geração
Artigo publicado em outubro de 2007
na Revista Mackenzie
Os mais de 20 anos de crises econômicas
impuseram um grave custo à engenharia brasileira. Uma geração de profissionais, por não
encontrar espaço no mercado de trabalho,
abandonou a profissão de escolha e fez carreira em outros setores econômicos. Criouse, assim, um vácuo entre os engenheiros do
milagre brasileiro e aqueles que se formam
no novo século.
A economia brasileira amadureceu, as crises passaram e agora, para retomar o caminho do crescimento, o Brasil precisa investir
em sua infra-estrutura, abandonada à própria sorte há duas décadas. Mas
como um país pode sonhar em flertar com o discurso desenvolvimentista se
não conta com profissionais qualificados para suprir a demanda dos novos
projetos? No Brasil das taxas de desemprego de dois dígitos, sobram vagas
para bons engenheiros e, pior, multiplicam-se os acidentes resultantes da
baixa qualidade técnica dos contratados.
Enganam-se aqueles que imaginam ser do governo, ou do mercado, a responsabilidade por solucionar essa situação. Há muito tempo, os governos brasileiros demonstram, sem exceção, estar tão comprometidos no acerto das finanças públicas que abandonaram a gestão do país. Os mercados, como sempre,
tomarão o caminho mais fácil e barato, importando os técnicos necessários e
exportando os serviços de projetos e gerenciamento de empreendimentos.
Assim, depois do milagre brasileiro da Ponte Rio-Niterói e da Rodovia dos
Imigrantes, de Itaipu e as grandes barragens, da Embraer e de tantos outros
projetos que colocaram o Brasil na vanguarda da engenharia internacional, voltamos ao século XIX, onde máquinas, pontes e até estações ferroviárias eram
importadas da Europa para serem montadas aqui.
Sabendo que a mudança deverá vir da sociedade e disposto a reverter esse
quadro dramático, o Instituto de Engenharia, entidade com 90 anos dedica-
23
Tema 1
Em defesa dos engenheiros e da engenharia
dos à defesa da engenharia brasileira, decidiu aproximar os mais experientes
engenheiros brasileiros das universidades, abrindo suas portas aos estudantes
e recém-formados. O Instituto de Engenharia criou uma nova categoria de
associação, permitindo aos estudantes usar sua infra-estrutura, além de acompanhar palestras, eventos e debates sem pagamento de anuidade.
Outra iniciativa aberta aos estudantes e à Escola de Engenharia Mackenzie
é o projeto pioneiro de criação de um grande ambiente colaborativo de conhecimento na internet, a Rede da Engenharia no PEABIRUS. Nesse espaço, alunos
e professores poderão, além de expandir suas atividades acadêmicas, manter
contato com o mercado e os profissionais mais experientes, acelerando o processo de transmissão do conhecimento prático.
Dessa forma, provendo informação, conhecimento e, principalmente, conexões, o Instituto de Engenharia pretende acelerar o desenvolvimento das novas
gerações de engenheiros, criando as condições para atenuar os efeitos das décadas perdidas, suprir a demanda do mercado, elevar a qualidade dos projetos
e, acima de tudo, contribuir para o desenvolvimento do país e da sociedade.
Foto: PhotoDisc
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Em defesa da engenharia
Edemar de Souza Amorim
Tema 2
Como evitar o vazio
da representatividade
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Tema 2 – Os desafios da representatividade
União na representação
da engenharia (1)
Publicado em maio de 2007 na Revista Engenharia
Entre todas as dificuldades que a engenharia nacional enfrenta, a falta de representatividade é, sem dúvida alguma,
a pior delas.
Fragmentada em centenas de associações de pequeno porte, a representação de engenheiros e arquitetos e a
defesa da engenharia como ciência,
profissão ou formação não está nas
mãos de ninguém. Pior, está nas mãos
daqueles que não tem legitimidade
para fazê-lo.
O CREA, para o espanto de todos, não tem como missão defender
a classe dos engenheiros como faz a
OAB em relação aos advogados. O
CREA foi criado para proteger os cidadãos, para
fiscalizar o trabalho de engenheiros e arquitetos, credenciando e controlando esses profissionais para evitar que suas obras tragam prejuízos à
sociedade e às pessoas.
Durante o milagre brasileiro, os grandes investimentos em infra-estrutura
colocaram a engenharia brasileira no mais alto nível de qualidade. O fim do
modelo de desenvolvimento financiado pelo Estado destruiu os esforços da
década de 70.
A engenharia virou sinônimo de desemprego. A procura por cursos diminuiu, escolas fecharam suas turmas, uma geração de profissionais deixou de ser formada e nenhuma voz foi forte o suficiente para mostrar isso
à sociedade.
Hoje, à luz trazida por acidentes com vítimas, debate-se a qualidade da
engenharia nacional na OAB, promotores de justiça apresentam-se para apu-
Em defesa da engenharia
rar responsabilidades desses desastres enquanto os engenheiros, únicos
com competência para tal, se calam.
É necessária e urgente a mobilização das academias, associações, clubes, grupos, institutos e sociedades de engenharia espalhados pelo Brasil.
Uma mobilização em torno de idéias, propostas, projetos e não de nomes
ou atributos de um líder carismático. Precisamos inaugurar um movimento
inovador e condizente como os tempos em que vivemos. Um movimento
com capacidade para se manter no longo prazo, independente dos homens que o criaram, permitindo que a tocha possa ser passada de mão
em mão, ao longo de vários mandatos, presidentes, superintendentes ou
representantes.
Felizmente, temos a rara oportunidade de fazer história. Em março, foi
dado um importante passo em direção da unidade do discurso e lançada
a pedra fundamental do movimento de mobilização. Pela primeira vez no
Brasil algumas das mais importantes e representativas associações de engenharia do país organizaram, em conjunto, o debate Momento Atual da
Engenharia, mostrando que é inevitável essa mudança.
Temos também na tecnologia um forte aliado, com ferramentas que
permitem a divulgação, o armazenamento e a reprodução dos arquivos dos
encontros e debates. Tais recursos possibilitam levar a todo o país, antes,
durante e após os encontros, o conhecimento e as idéias expostos nos
encontros realizados. Isso contribui para tornar perenes eventos que, na
maioria das vezes, eram pontuais e rapidamente esquecidos.
O Instituto de Engenharia tem condições de assumir um papel de articulador desta representação. Sua origem independente, sua tradição na
defesa da engenharia e sua representatividade junto ao poder público o
credenciam para participar ativamente dessa iniciativa.
Sua atuação pioneira no uso da internet e da tecnologia da informação, divulgando, transmitindo e disponibilizando por longos períodos os
debates realizados em sua sede tem sido replicada por outras associações.
A atuação por meio da Rede da Engenharia tem conquistado novos participantes todos os dias, mostrando uma capacidade de mobilização há muito
desconhecida.
A atual gestão não poupará esforços nesse caminho, esperando que
todos se engajem nessa missão, levando a engenharia para seu merecido
lugar de destaque na construção deste país.
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Tema 2 – Os desafios da representatividade
Em defesa da engenharia
União na
representação
da engenharia
(2)
Editorial publicado em dezembro de 2007
na Revista Engenharia
Pela primeira vez na história da engenharia, algumas das mais importantes e representativas associações de
engenheiros do Brasil encontraramse nas dependências do Instituto de
Engenharia para discutir a atual situação do país no seminário
“Reconstruindo a Engenharia Brasileira”. A unânime percepção de que o
país vive uma grave crise de talentos e não possui capacidade de formar
profissionais a tempo de suprir suas necessidades mais imediatas não foi o
ponto alto do evento.
Na verdade, o simples fato de associações como o Clube de Engenharia, a Sociedade Mineira de Engenheiros, o Instituto de Engenharia do Paraná, a Associação
Catarinense de Engenheiros, a Sociedade de Engenharia do Rio Grande do Sul, o
Clube de Engenharia de Brasília, a Academia Nacional de Engenharia, o Instituto
dos Arquitetos do Brasil e o Instituto de Engenharia reunirem-se para realizar essa
discussão é um acontecimento histórico.
A caótica situação que a engenharia nacional se encontra não é fruto de
uma política específica. É resultado de um conjunto de fatores que levou
o Brasil à escassez de profissionais, tornando o país despreparado para dar
continuidade aos projetos necessários para seu desenvolvimento.
Vários motivos podem ser identificados na raiz desse problema. Na lista
de culpados, há inúmeros itens como políticas educacionais erráticas, a
submissão do MEC aos grandes grupos privados de ensino, as crises econômicas e a falta de investimentos em infra-estrutura. Mas a verdade é
que a fragmentação das discussões, resultante da falta de união dos representantes dos engenheiros na luta pelos interesses do país, enfraqueceu o
debate, relegou a engenharia a segundo plano e submeteu a técnica e a
ciência à política.
Os engenheiros, separados em pequenos grupos regionais, perderam a
força e a voz para influenciar os destinos da nação. Foram substituídos por
nomeações partidárias sem qualificação técnica e vêem, impotentes, o país
perder oportunidades preciosas de desenvolvimento.
Não é hora de esquecer o passado, enterrar divergências ou projetos
particulares, porque nada disso existe. A unanimidade do discurso, que
para muitos pareceu surpreendente, é fruto da análise técnica e criteriosa
da situação, da realização de estudos e debates sérios, do estudo e discussão de soluções e planos criteriosos e detalhados. Exatamente como nos foi
ensinado no curso de engenharia.
É hora de unir as vozes e as entidades e, juntos, mudar não só os rumos
do país, mas a mentalidade de exaltação à mediocridade que tomou os gabinetes e os palácios. É hora de, juntos, lutarmos para que técnicos qualificados
ocupem os cargos públicos que exigem técnicos qualificados, acabando com
o loteamento político que se alastrou em todas as esferas do poder público.
É hora de, juntos, exigirmos critérios rigorosos na aprovação de cursos e instituições de ensino, encerrando um ciclo de despreparo quantitativo de nossos
jovens e iniciando a formação qualitativa das novas gerações.
É hora daqueles que detêm a qualificação, a representatividade e a vontade de defender a engenharia olharem para seus pares e cerrarem fileiras
numa batalha pelo futuro do país.
Juntando os
pedaços
Editorial publicado em setembro de 2007
na Revista Engenharia
Um dos grandes males que aflige a
engenharia brasileira é a descaracterização de sua representação. A tríade,
CREA, sindicatos e associações, que
formaria o sistema de proteção da sociedade, defesa da engenharia nacio-
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Tema 2 – Os desafios da representatividade
nal e garantiria os direitos dos engenheiros e arquitetos, transformou-se
numa constelação de pequenos grupos locais gravitando em torno dos
conselhos regionais.
A especialização das carreiras só piorou esse quadro, segmentando ainda mais as associações, que se viram reduzidas a pequenos grupos com
pouco poder político ou capacidade de prestar serviços de qualidade a
seus associados.
Com o tempo, a luta pela sobrevivência tornou todo o sistema dependente das contribuições do sistema CREA/CONFEA, sem qualquer possibilidade de representação efetiva dos engenheiros e arquitetos.
Com o enfraquecimento político de suas associações, o movimento natural em busca de proteção deu-se na direção dos conselhos regionais.
Mas, impedidos pela legislação, eles nada podem fazer senão aumentar a
insatisfação dos profissionais.
Qual o resultado em números dessa fragmentação? Segundo pesquisa
do CONFEA, 90% dos engenheiros e arquitetos não pertencem a nenhum
tipo de agremiação profissional.
As perspectivas para o futuro são ainda piores, com a crescente descrença no sistema. As associações de arquitetos e de escritórios de arquitetura não têm poupado esforços para acentuar a atual fragmentação, lutando arduamente para criar seus próprios conselhos regionais e nacional.
Replicam, em menor escala, um modelo deficiente, incapaz de corrigir as
atuais falhas e de atenuar a insatisfação dos profissionais.
A engenharia e a arquitetura brasileiras já enfrentam uma situação dramática juntas. Separadas, o que era difícil ficará pior, pois a duplicação
da burocracia aumentará os custos para executar exatamente os mesmos
serviços prestados até agora.
A solução é mais rápida e fácil do que o proposto até o momento e sua
aplicação depende muito mais de uma mudança cultural das atuais lideranças do que de regimentos institucionais. O problema é enterrar anos de
mágoas e ressentimentos acumulados por ambos os lados.
É preciso que engenheiros e arquitetos entendam que o poder político
que sustentará sua representatividade perante a sociedade é diretamente
proporcional ao número de profissionais articulados ou mobilizados por
suas associações. Se juntos a situação beira o colapso, separados não é
possível imaginar resultado diferente.
O Instituto de Arquitetos do Brasil, como o Instituto de Engenharia,
tem de exercer seu papel de articulador das associações de profissionais,
Em defesa da engenharia
consolidando as reivindicações, harmonizando os discursos e fortalecendo
as lideranças locais, pois as demandas de ambas as instituições, analisadas
com atenção, são muito semelhantes.
Enxergar o sistema CREA como inimigo, também não ajuda. Associações e conselhos são complementares e assim devem trabalhar, colaborando entre si a fim de atingir seus objetivos próprios.
Por isso, o Instituto de Engenharia, com o apoio do CONFEA, realizará
em novembro, o seminário “Reconstruindo a Engenharia Brasileira”, com
o propósito de discutir a formação e exercício profissional dos engenheiros
e a representação da engenharia.
É chegada a hora de reduzir os discursos, arregaçar as mangas e aumentar as ações efetivas.
Sobre interesses
particulares e
públicos
Editorial publicado em janeiro de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
Como sempre ocorre no Congresso
Nacional, ao apagar das luzes, enquanto
se esfriam os debates à espera das festas de fim de ano, projetos de extrema
relevância, mas com fins pouco elogiáveis, são apresentados na esperança de
passarem despercebidos pela imprensa
e tramitarem longe dos interesses dos cidadãos.
Pois, nem bem terminado o ano em que as mais representativas associações de engenheiros defendiam a união da classe em defesa da engenharia nacional, encerrando assim um ciclo de fragmentação que prejudica o país e a população, um senador, legítimo representante da política
coronelista, retrógrada e totalitária, propõe a separação dos engenheiros,
num passo para inaugurar o primeiro exemplo de “apartheid” profissional
da história.
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Tema 2 – Os desafios da representatividade
O senador César Borges quer criar uma excrescência denominada OBENC
(Ordem Brasileira de Engenheiros Civis) para regulamentar a engenharia civil
uma vez que o modelo de regulamentação de 1933 mostra-se atrasado para
as necessidades atuais.
Não é segredo que o modelo é inadequado. Também não é segredo que
todos os associados do sistema CONFEA/CREA estão insatisfeitos. O primeiro
passo para alterar essa situação seria dado com a criação do conselho dos arquitetos e urbanistas, o segundo deveria focar o desmembramento dos agrônomos e todas as outras categorias, deixando assim o conselho só para a
engenharia.
Mas não. Frutos do autoritarismo do Brasil não caem longe da árvore. O
projeto que inicia seu trâmite no Senado já nasce cheio de vícios, com o propósito único de fornecer ao senador seu curralzinho eleitoral. Pois não prevê
eleição direta democrática para seus gestores, instituindo assim um sistema
de eleições indiretas, digna dos grandes clubes de futebol, cujos dirigentes se
perpetuam no poder e nas manchetes policiais.
Alegando demandas em encontros inexpressivos ocorridos há mais de seis
anos, o senador completa as justificativas do projeto apontando que todas as
profissões na área de humanas têm seus conselhos exclusivos e a profissão
regulamentada por lei.
Os problemas que a engenharia brasileira enfrenta não são segredo. Nem
é segredo que o CREA hoje reúne uma gama muito diversa de profissionais,
não podendo assim representar ou regulamentar com eficiência todos esses
grupos. Como também não é segredo que a solução passa pela unificação da
engenharia e o desmembramento do CREA em conselhos específicos para os
técnicos, geógrafos, meteorologistas e assim por diante.
Mas é muito estranho que um parlamentar que se diz defensor da engenharia, proponha seu desmembramento, criando um intrincado sistema eleitoral onde os votos não têm o mesmo valor e a representatividade dá-se pelo
número de entidades e não de associados.
Enfim, o Instituto de Engenharia vem a público manifestar sua posição contrária ao projeto de criação da OBENC e tudo o que ele representa: atraso, custos desnecessários, ineficiência e autoritarismo. Esses adjetivos não constam
na prática de um engenheiro de verdade.
Em defesa da engenharia
A democracia
não permite
o descaso
Editorial publicado em abril de 2008
na Revista Engenharia
A poucos meses das eleições para
presidências dos CREAs, do CONFEA e
da MÚTUA, uma pergunta deve ser feita aos engenheiros, arquitetos, agrônomos, geólogos e a todos os profissionais
cujas profissões são regulamentadas pelas citadas entidades. Por que você não vota?
Desapontados com o nível de representação e serviços oferecidos por seus
conselhos, os profissionais assumem uma postura de descaso e falta de interesse no processo eleitoral, que se amplia em relação aos candidatos, às propostas
e ao seu papel de profissional competente registrado.
Ora, não é razoável para um técnico contrariar sua natureza de solucionar
problemas, assumindo uma cômoda postura de insatisfação, limitando-se a reclamar da falta de representatividade profissional, da dificuldade do exercício da
profissão, do desrespeito pela tabela de honorários e muitas outras queixas relevantes. Mas é assim que a esmagadora maioria de profissionais se comporta.
O Brasil é uma democracia jovem e como tal carrega o fardo dessa pouca
idade, sendo cercada por políticos populistas e paternalistas, eleitores imaturos
e dependentes, cidadãos desatentos e desrespeitados. Muito se condena o voto
obrigatório, mas, sob uma análise fria, conclui-se que a situação só não é pior
por sua causa.
Em relação aos profissionais associados ao CONFEA/CREA, gente teoricamente mais esclarecida que o brasileiro médio, cujo exercício profissional depende diretamente das decisões dos conselhos regionais e nacional, cuja faculdade do voto não deveria fazer a menor diferença no comparecimento às urnas,
a história é triste, para não dizer coisa pior. Pois, tanto a presidência, quanto o
conselho são eleitos com, no máximo, 8% de comparecimento.
Isso significa que as constantes queixas deveriam, na verdade, ser dirigidas
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Tema 2 – Os desafios da representatividade
Em defesa da engenharia
aos próprios queixosos, culpados por sua omissão eleitoral. Deixar de votar,
acompanhar as decisões do conselho ou mesmo de se candidatar, não é o resultado de um sistema defeituoso e injusto. É a sua causa.
Nos últimos anos, assistimos a várias tentativas de cisão no sistema CONFEA/
CREA, algumas justas e fundamentadas como a vetada iniciativa dos arquitetos,
outras apenas fruto de delírios oportunistas de gente mal-intencionada, como é
o caso da OBENC que tramita no Senado. Independente de opiniões particulares, é fácil perceber que todas estão fadadas ao fracasso, pois já nascem com a
doença genética da falta de interesse dos associados.
Participar de processos políticos e entidades de representação de classe é
parte importante, para não dizer essencial, da vida profissional de qualquer um.
O voto, mais que uma obrigação desagradável, é um direito a ser exercido.
É preciso que os engenheiros, arquitetos, agrônomos e geólogos entendam que
abdicar desse direito, relegando o processo a outros por puro comodismo, é prejudicial a todos, profissionais, entidades e à sociedade brasileira. Somente uma mudança de postura mudará as entidades. O inverso, no entanto, não é verdadeiro.
Portanto, que fique bem claro que a prioridade para queixas por abandono deve
ser dada aos conselhos e às entidades de classe e não aos profissionais omissos.
O recadastramento e a falência
da representatividade
Editorial publicado em julho de 2007
na Revista Engenharia
Os dois maiores conselhos de engenharia
do país realizam, em 2007, um amplo recadastramento para atualizar suas bases de
dados e a lista de associados. Uma iniciativa
louvável destas instituições cujas atuais gestões dão sinais de profissionalismo e competências ímpares, se comparadas ao padrão
brasileiro de administração pública. Porém,
o que parece ser um sinal de boa gestão
é na verdade a evidência física da falência
do sistema de representatividade dos en-
genheiros e da engenharia no Brasil. Pois o CREA reconhece no recadastramento
desconhecer os profissionais do setor, a ponto de precisar convocá-los à sua sede e
representações para reinseri-los em suas bases de dados.
Aos engenheiros fica, mais uma vez, a impressão de estarem relegados a uma
instituição surda, voltada para seus problemas internos, distante da realidade dos
profissionais e incapaz de representá-los perante a sociedade.
Na verdade, essa visão está apenas parcialmente correta. É verdade que tanto o
CREA quanto o CONFEA são incapazes de representar a engenharia e os engenheiros. Não por deficiência de suas lideranças ou por incompetência de seus funcionários. Mas por não terem sido idealizados ou criados para esse fim. Sua missão é
defender a sociedade e os cidadãos, reduzindo o risco causado pela prática profissional indevida ou inadequada.
Para a defesa da engenharia, engenheiros, projetistas, indústrias, construtoras
ou empreiteiras existem os sindicatos e as associações, num sistema de representatividade descentralizado e fragmentado, que ao longo dos anos enfraquece a
engenharia, abandona os profissionais, prejudica as empresas e atrasa o país.
A figura de uma associação forte, representativa e atuante como a OAB, não é
impossível, mas quase. Pois, para isso, deveriam ser feitas reformas profundas nos
conselhos, na cultura do setor e, sobretudo, na legislação brasileira. Mais simples
e lógico seria a criação de uma campanha de esclarecimento sobre as funções de
cada entidade, suas formas de financiamento e áreas de atuação. Onde a defesa
da engenharia nacional está nas mãos das associações, a sociedade sob a responsabilidade do CREA e os direitos trabalhistas dos engenheiros sob os olhos dos
sindicatos. Esse tipo de divulgação poderia especificar com clareza as funções das
entidades: a defesa da engenharia nacional cabe às associações, a sociedade está
representada no CREA e os direitos trabalhistas dos engenheiros está sob responsabilidade dos sindicatos.
As associações, hoje fragmentadas e espalhadas por todo território nacional,
têm como tarefa a articulação em torno de um debate comum e a missão de levar
esse trabalho aos representantes do poder público nas esferas municipais, estaduais
e nacional. Elas também têm como dever lutar pelo exercício profissional da engenharia, arquitetura e agronomia, criar mecanismos de capacitação dos profissionais,
elaborar um código de esclarecimento para a contratação de serviços de engenharia e arquitetura, exercer pressão para a fiscalização de obras e defender um código
de ética profissional para a organização do setor.
Enfim, a engenharia brasileira precisa de organização, de papéis definidos e,
principalmente, de entidades que se aproximem dos engenheiros e de suas
demandas.
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Foto: PhotoDisc
Em defesa da engenharia
Tema 3
Planejamento urbano
e infra-estrutura
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
Em defesa da engenharia
A reurbanização
de áreas urbanas
deterioradas
Artigo publicado em março de 2006
no Jornal do Instituto de Engenharia
Tenho observado ao longo dos anos um fenômeno paradoxal no desenvolvimento da urbanização de São Paulo. Áreas que receberam
grandes investimentos públicos – e que logicamente deveriam ter tido um desenvolvimento
urbano rápido e de qualidade – apresentam
uma estagnação e mesmo uma grande deterioração,
acompanhada da desvalorização imobiliária.
O exemplo mais gritante observa-se ao longo da Linha Norte-Sul do Metrô,
inaugurada em 1974. Era de se esper ar que o mercado imobiliário tivesse sido estimulado em função das melhorias no sistema viário, com a abertura de uma grande avenida somada à disponibilidade de uma linha do metrô de alta qualidade.
No entanto, após 32 anos, ainda existem enormes áreas com construções antigas, deterioradas, mal aproveitadas, não atraindo investidores. Parece-me que
os proprietários da faixa lindeira acreditaram (e alguns ainda acreditam) que ganharam na loteria e que suas propriedades estariam valendo uma fortuna e assim
tornaram inviável qualquer empreendimento imobiliário.
Os investimentos com a linha do metrô foram muito grandes, o sacrifício de
todos foi imensurável restando áreas não aproveitadas em especulação imobiliária, quando poderiam ser utilizadas para ordenar o desenvolvimento urbano e ao
mesmo tempo dar retorno aos investimentos públicos, permitindo a expansão das
linhas do metrô a outros bairros.
É um contra-senso não se utilizar áreas junto às melhores instalações de infraestrutura viária da cidade e forçar a expansão da malha urbana para bem longe
do centro, onde existe carência de tudo. Com isso, grande parte da população
desperdiça diariamente preciosas horas no seu deslocamento.
Tive oportunidade de ver em cidades chinesas o governo desapropriar áreas enormes com construções antigas e deterioradas, ao longo de ruas estreitas,
abrindo novas avenidas com grandes melhoramentos urbanos. Os lotes remanescentes são repassados a investidores, edifícios residenciais de até dez pavimentos
são substituídos por novos edifícios de até 60 pavimentos, com melhor aproveitamento da área, abrigando mais moradores, com melhores condições de vida.
Isso não só pode como deve ser feito em São Paulo para minorar grandes problemas. Deve-se primeiro aumentar a concentração da população junto às áreas
onde são feitos os investimentos urbanos; segundo modernizar as edificações com
melhor aproveitando dos terrenos; terceiro evitar a expansão da malha urbana em
direção aos mananciais; e, finalmente, obter retorno dos investimentos mediante
a venda dos remanescentes das áreas desapropriadas por um valor superior, devido às melhorias introduzidas.
Uma solução semelhante está sendo proposta pelo subprefeito da Sé, que
pretende desapropriar áreas degradadas na “Cracolândia” para oferecê-las a investidores e assim melhorar a região. Existem áreas imensas em regiões dotadas
de benfeitorias urbanas, praticamente desabitadas, com construções antigas, sem
valor histórico, em péssimo estado de conservação, que poderiam ser aproveitadas para um programa de reurbanização de vulto.
Estou sugerindo a desapropriação de quadras inteiras, num programa de operações urbanas, acompanhado das alterações necessárias na legislação, permitindo edifícios de grande altura e estimulando a construção residencial para classe
média, mescladas a habitações populares, comércio e serviços. Como exemplo de
áreas adequadas a essas operações cito as regiões ao longo do metrô, do Minhocão e da Avenida Santo Amaro.
Um mundo
melhor
Editorial publicado em maio de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
Há alguns anos, surgiu de um anúncio de bebidas o conceito do “efeito
Orloff”. A referência devia-se ao consumidor daquela específica marca de vodca se deparar com sua imagem no dia
seguinte sem aparentar os devastadores
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
efeitos do consumo alcoólico de baixa qualidade dizendo a si mesmo: “Eu
sou você amanhã.”
O “efeito Orloff”, aplicado pelos papos de botequim e pelo jornalismo
econômico aos países em desenvolvimento, mostrava que a crise de uma
nação seria a da outra no futuro. Tal aplicação foi sucesso de crítica nos
anos 80 e 90 e volta à cena quando o assunto é trânsito.
São Paulo enfrenta hoje gravíssimos problemas de tráfego de veículos,
numa situação considerada surrealista por cidadãos de outras metrópoles
brasileiras. Mas eles ainda não se conscientizaram sobre a aplicação do
“efeito Orloff”, à medida que suas frotas de veículos crescem em ritmo
igual ou superior ao paulistano.
Na mídia, florescem soluções radicais, milagrosas ou estapafúrdias para
o trânsito caótico com um único ponto em comum. Elas tem a vocação
para o fracasso se tomadas isoladamente, pois ignoram um princípio simples da humanidade: a relação custo-benefício, acreditando na proibição
pura e simples, uma máxima da educação infantil arcaica.
Ora, num país em que sua população já deixou claro que a legislação
sem sentido é ignorada, que as autoridades não têm força moral ou operacional para aplicar a legislação existente e os governos se preocupam mais
com o resultado das urnas do que com a segurança e o bem-estar dos cidadãos, é de se esperar que o futuro seja um grande engarrafamento.
A solução do trânsito paulistano, e conseqüentemente brasileiro, não
será simples, mas seu princípio é claro: o transporte individual com um
automóvel tem de custar caro o suficiente para que as pessoas optem pelo
transporte público.
Devemos, então, tomar um conjunto de medidas que, juntas, produzirão essa mudança cultural. A lista de ações inclui priorizar a qualidade
e a quantidade do transporte público; proibir o estacionamento no leito
carroçável de ruas praças e avenidas; exigir de edifícios e estabelecimentos
comerciais áreas disponíveis para caçambas de entulho; levar a Zonal Azul
do leito carroçável para terrenos especialmente criados para estacionamento; proibir o tráfego de veículos de carga no horário de rush; restringir
operações de descarga ao período noturno; extinguir o rodízio e criar o pedágio urbano; implementar a inspeção veicular anual completa (segurança
e ambiental); retirar de circulação em caráter permanente carros velhos e
sem condições mínimas de segurança e fiscalizar com rigor o pagamento
de tributos, licenças e multas, apreendendo os veículos irregulares.
Para completar, o governo federal deve deixar a política eleitoreira fora
Em defesa da engenharia
dos corredores da Petrobras e aumentar o preço da gasolina, pois o maior
inibidor dos deslocamentos supérfluos é custo do quilômetro rodado.
A Lei Cidade Limpa do prefeito Gilberto Kassab mostrou que a população pode até reclamar na implantação de medidas duras. Mas é madura o
suficiente para perceber, reconhecer e agradecer as melhorias geradas.
Enfim, aos motoristas brasileiros que insistirem em usar o carro, fica o
recado da Daslu: “Existe sim um mundo melhor, porém é caríssimo.”
As pontes e
os discursos
Editorial publicado em agosto de 2007
no Jornal do Instituto de Engenharia
Numa segunda-feira fria de agosto, vimos imagens impensáveis na televisão.
Num país desenvolvido, o maior do Primeiro Mundo, uma ponte ruiu na hora do
rush, jogando carros, ônibus e caminhões
nas águas do Rio Mississipi, ferindo dezenas de pessoas e matando outro tanto.
Impensável para os desinformados,
pois a American Society of Civil Engineers
(ASCE) em seu Infrastructure Report Card, um rigoroso e meticuloso trabalho de
avaliação das condições das obras e serviços públicos dos EUA, avisava que 27%
das pontes do país eram estruturalmente obsoletas e se encontravam em péssimo
estado de conservação.
As conclusões do estudo da ASCE eram duras e pragmáticas. O trabalho defendia que os governos federal e estaduais parassem com novas construções e voltassem seus orçamentos para a manutenção das estruturas existentes. Infelizmente,
para alguns cidadãos de Minneapolis, o conselho não foi seguido.
No Brasil, apesar dos discursos ufanistas de nossos políticos e suas promessas
mirabolantes de campanha, a história não é diferente. Na verdade, é pior. Muito
pior. A cultura da manutenção é inexistente na administração pública, pois manter
uma ponte, um viaduto, uma estrada ou qualquer outra construção rende menor
número de votos do que inaugurar uma obra nova.
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
Por isso, escolas novas são construídas, enquanto crianças são condenadas a assistir aulas em desconfortáveis contêineres. Hospitais novos são anunciados, enquanto
pacientes definham e morrem nas filas do SUS. Investimentos se afastam enquanto
apagões são negados.
Em São Paulo, levantamento feito pelo Sinaenco indica que, em 58 pontes, passarelas e viadutos vistoriados pelos engenheiros, 100% apresentavam problemas graves, alguns com possibilidade de colapso da estrutura e riscos à população.
Somente a intervenção do Ministério Público, sob a assessoria técnica do Instituto de
Engenharia, trabalhando em conjunto com a primeira gestão municipal, cujo foco na manutenção e recuperação do patrimônio público supera a sanha eleitoreira e deveria ser um
exemplo na política brasileira, trouxe alguma esperança de segurança aos paulistanos.
É passada a hora do poder executivo deixar de lado as grandes festas, as inaugurações espetaculares e a permanente campanha eleitoral e cumprir seu papel de gestor
da infra-estrutura do país.
É passada a hora dos cidadãos deixarem de se queixar das promessas eleitorais
vazias e cobrarem a conservação das poucas promessas cumpridas no passado.
É passada a hora dos engenheiros e suas associações de classe mobilizarem-se
para mostrar o atual estado de degradação que o Brasil construído no milagre econômico dos anos 70 se encontra agora.
Por isso, o Instituto de Engenharia, cumprindo seu papel de alertar a sociedade, lança
este mês, na internet, uma ferramenta destinada a divulgar o atual estado de conservação do patrimônio público brasileiro. Temos esperança que o Mapa da Gestão Pública
Brasileira, construído de forma dinâmica e colaborativa por engenheiros de todo país,
seja um marco na árdua batalha de levar um pouco de juízo aos gabinetes públicos.
A exclusão urbana
Editorial publicado em julho de 2008 na Revista Engenharia
Um dos problemas mais urgentes das cidades brasileiras e, conseqüentemente, maior
alvo da falácia eleitoral e da incompetência da
gestão pública, é a moradia para cidadãos de
baixa renda.
Nossos gestores públicos estão convictos que
o Estado deve tomar para si toda a responsabilidade do processo, monopolizando as desapro-
Em defesa da engenharia
priações, o projeto, a construção e a distribuição das moradias populares. Tudo para,
depois, deixar o cidadão desamparado.
Estruturas burocráticas inúteis são criadas com a promessa de solução para os
problemas. Mas, com o passar do tempo, elas são convertidas em cabides de empregos para técnicos sem imaginação e “urbanistas” excludentes. A maior façanha
desses grupos é produzir medonhos e inóspitos conjuntos habitacionais, exilando
a população de baixa renda dos centros urbanos em locais como Parelheiros ou
Cidade Tiradentes, condenando seus habitantes a uma vida de desconforto no deslocamento casa-trabalho e privações dos direitos básicos de um cidadão.
A cidade de São Paulo é o maior exemplo da incompetência de todos os governos estaduais e municipais dos últimos 50 anos. Numa inversão absurda de valores,
a população carente é jogada na periferia, sem acesso a saneamento, transporte
público, postos de saúde, delegacias ou escolas públicas. Enquanto as classes média e a alta, apesar do acesso fácil à infra-estrutura pública, deslocam-se em automóveis, freqüentam escolas particulares, consultam médicos conveniados, muitas
vezes protegidos por seguranças particulares.
Para alterar essa situação é necessária muita coragem, determinação, inovação
— e uma boa dose de audição seletiva. Coragem para desmantelar órgãos como
a COHAB e o CDHU e para reunir a iniciativa privada, capitaneada por associações
como o IAB, o SECOVI, o Instituto de Engenharia entre outras, para construir um
plano consistente.
Determinação para não aceitar as pressões do mercado e desapropriar grandes
áreas ao longo das linhas do Metrô, no centro da cidade e em bairros dotados de
infra-estrutura necessária para a construção dos novos conjuntos.
Inovação para fugir dos modelos construídos e partir para soluções mais arrojadas, com prédios mais altos, áreas verdes e de lazer. Para definir um processo de
leilão onde empresas, imobiliárias, construtores e incorporadores competissem em
igualdade de condições, apresentando propostas de apartamentos de metragem
aceitável, onde o vencedor seria o projeto de menor preço à população.
A inovação é fundamental para ignorar as manifestações contrárias daqueles
que não conseguem propor soluções diferentes do atual modelo. Essas são pessoas
tão desconectadas da realidade da cidade que são capazes de propor a construção
de uma caixa de concreto para esconder um viaduto, consideram aceitável a regularização de favelas em áreas de manancial ou sugerem o tombamento de um galpão
velho em uma zona nobre da cidade.
Infelizmente, quando o assunto é moradia popular, os preciosos ensinamentos
das faculdades de arquitetura e urbanismo, sustentadas com dinheiro público, não
estão disponíveis.
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
Em defesa da engenharia
A manutenção da
infra-estrutura
viária
Artigo publicado em janeiro de 2006
na Revista Engenharia
Muito se tem falado sobre as deficiências da manutenção do patrimônio
público. Poderíamos analisar a situação
de uma forma generalizada; as escolas,
hospitais, praças públicas, a sinalização
urbana, os edifícios e uma infinidade de
investimentos se deteriorando de uma forma absurda. Hoje,
porém, vamos focar nas rodovias.
Em 2005, aconteceu um acidente muito grave. Será que foi mesmo acidente? De acordo com o Dicionário Houaiss, acidente “é um fato imprevisível”. Mas o que ocorreu era perfeitamente previsível, pois os engenheiros,
motoristas, policiais rodoviários e todo o tipo de usuários da Rodovia Régis
Bittencourt alardearam suficientemente a eminente queda de uma ponte
em uma das pistas no trecho paranaense da estrada.
De acordo com a imprensa na ocasião, existia um degrau de quase 20 centímetros na cabeceira da ponte, vários dias antes do “acidente”, que lamentavelmente provocou vítimas. Para agravar a situação, já se passaram mais de seis
meses desde a ocorrência do problema e a reconstrução da ponte ainda não foi
concluída. O tráfego de veículos continua sendo desviado para a outra pista.
Será que não temos tecnologia suficiente para reconstruir em seis meses apenas 100 metros de uma ponte em pista simples? É evidente que o
problema não é de tecnologia, mas, sim, de gestão. Na verdade, de “má
gestão” ou “não-gestão” da coisa pública.
Viajar nas rodovias federais no Brasil tornou-se um gesto arriscado, de
insanidade, quase mesmo uma tentativa de suicídio, tal o estado de abandono em que se encontram essas vias. O governo vem anunciando “obras
emergenciais” de “tapa buracos”, como se os buracos houvessem surgido de
repente, nos últimos dias. Só assim se justificariam tais obras, sem licitações.
Nosso problema com manutenção é cultural, é educacional. Nunca se faz
manutenção preventiva no Brasil, apenas a corretiva e jamais a preditiva. Não é
de nossa cultura trocar qualquer peça antes da sua quebra, nem mesmo quando
apresenta desgastes visíveis. Espera-se até que quebre. A indústria automotiva,
que se instalou no Brasil em 1956, tem lutado para mudar essa maneira de pensar, introduzindo o manual de manutenção preventiva, mas a quase totalidade
dos usuários de veículos julga desnecessário seu uso.
Como os governos são formados por representantes do povo, pode-se entender claramente por que os governantes se comportam dessa maneira. Pensam: “Quando quebrar, consertaremos ou reformaremos, fazendo as alterações necessárias”.
É urgente a necessidade de mudarmos a cultura da não-manutenção,
apenas para economizar um pouco agora e, num futuro próximo, depois
que os “acidentes” tenham acontecido, gastar muito mais.
O jornal O Estado de S.Paulo publicou, em 6 de fevereiro de 2006, na
página A10, uma extensa reportagem sobre o estado das rodovias na Venezuela. Incluiu declarações do presidente da Sociedade Civil de Engenheiros
daquele país, informando que mais de 70 obras de arte estão com problemas graves, sendo que a interdição do Viaduto1 da Rodovia Caracas–La
Guaira é a ponta de um iceberg, pois das 70 obras com problemas, 30 já
foram interditadas e outras 20 poderão ser fechadas a qualquer momento.
A rodovia Caracas–La Guaira é uma das principais estradas da Venezuela,
pois liga a capital às principais portas de entrada e saída do país, como o
porto de La Guaira e o Aeroporto Internacional Simon Bolívar. Como analisamos, não é um acidente, pois o viaduto, construído em 1954, apresentava
problemas desde a década de 80 e não foram tomadas quaisquer providências. Parodiando um anúncio de TV de alguns anos atrás que dizia “eu
sou você amanhã”, o estado deplorável das rodovias venezuelanas, me faz
pensar: elas serão as rodovias federais brasileiras amanhã?
No Brasil, vivenciamos uma verdadeira revolução na manutenção das rodovias
após a contratação das concessionárias, com cerca de 10 mil quilômetros sob
concessão. O gasto médio com investimentos pelas concessionárias foi nesses
últimos oito anos muito superior a 100 mil reais por quilometro/ano, chegando,
em alguns casos a mais de 300 mil reais. Em qualquer trecho dessas rodovias,
observa-se sempre algum tipo de manutenção, como pavimentação, pintura
de sinalização, conservação do canteiro central e acostamentos, limpeza ou até
mesmo coleta de lixo, ao contrário das abandonadas estradas federais.
Caso o governo federal tivesse vontade política e competência para rea-
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
Em defesa da engenharia
lizar manutenção similar, deveria gastar algo em torno de 100 mil reais por
quilômetro; e se considerarmos 50 mil quilômetros, daria uma verba de 5
bilhões de reais por ano, valor muito inferior à arrecadação anual da CIDE.
Em certa ocasião ouvi de um “hermano” latino-americano a expressão
“perro del hortelano”, nome de uma peça de teatro escrita em 1610, e que
é popularmente utilizada para definir a atitude dos que não cumprem o dever e não permitem que outros o façam. Ou seja, o cachorro do chacareiro
não só não come como também não permite que os outros comam.
Assim é o governo federal, não faz a manutenção das estradas e não permite
que os estados e municípios o façam. Há poucos dias o governo do Estado do Rio
de Janeiro foi impedido pela Polícia Rodoviária Federal de reparar buracos existentes na BR 101, pois essa estrada não está sob sua jurisdição.
Tenho certeza de que as três piores estradas do Estado de São Paulo
estariam tão boas quanto as demais, caso o governo federal permitisse ou
delegasse ao governo paulista a sua manutenção. São elas: a Fernão Dias
(BR-381), a Régis Bittencourt (BR-116) e a BR-153, que liga Ourinhos a Icem.
Por que não delegar para a ARTESP a administração das futuras concessões
das estradas federais em São Paulo?
Concluindo, insisto: é muito importante mudarmos a “cultura da não-manutenção”. Temos exemplos em toda indústria privada, onde a manutenção é considerada uma preservação do patrimônio, do capital investido e da operacionalidade,
e não uma despesa supérflua e adiável. Um exemplo de manutenção de uma obra
pública é o Metrô de São Paulo, implantado com a cultura germânica de prioridade
na manutenção, garantindo a operacionalidade e atendimento ao usuário.
As rodovias
paulistas
Artigo publicado em junho de 2006
no Jornal do Instituto de Engenharia
Encontra-se em nossa biblioteca
o “Balanço Anual dos Transportes –
2005”, editado pela Secretaria dos
Transportes do Governo do Estado de
São Paulo. Trata-se de uma análise do
planejamento, dos sistemas de transportes, da qualidade ambiental, da segurança rodoviária e aeroportuária, da modernização da gestão rodoviária e também de temas relacionados a segurança e tráfego.
Chamou nossa atenção a malha rodoviária do Estado de São Paulo, com
um total de 198.455 km, onde 21.592 são estaduais, 1.055 federais e 175.807
municipais. Dos 33.000 km pavimentados, 1.055 são federais, 20.362 estaduais
e 11.665 municipais. Desses 33.000 km pavimentados temos 4.485 em pista
dupla, incluídas a Via Dutra, a Fernão Dias e a Régis Bittencourt.
Todos os municípios paulistas têm acesso à malha rodoviária principal e aos
mais importantes eixos rodoviários por meio de vias pavimentadas, que totalizam 132 km para cada 1.000 km2 de superfície, índice muito superior aos dos
demais estados brasileiros. O Paraná, com 13.400 km pavimentados, atinge o
índice de 67 km para cada 1.000 km2 de superfície. Minas Gerais, com 19.350
km, chega a 32 km para cada 1.000 km2.
Nesta época, quando se discute a péssima qualidade das estradas no país,
vemos que nosso estado é uma exceção. As estradas paulistas são bem administradas, apresentam poucos problemas se comparadas às demais. Em pesquisas
sobre qualidade, 18 entre as 20 melhores rodovias brasileiras estão em São Paulo. As rodovias com piores avaliações são justamente as federais.
É fundamental e urgente uma alteração de responsabilidade na manutenção
das rodovias federais. Elas deveriam passar para a administração dos estados,
com um sistema de direcionamento da arrecadação da CIDE para essa finalidade, mudando o ineficiente sistema atual, responsável pelo abandono das
rodovias federais.
Em São Paulo, com apenas 1.055km, 1,82% do total de rodovias federais
pavimentadas, temos problemas gravíssimos na Régis Bittencourt e na Fernão
Dias. Esses entraves certamente estariam resolvidos se essas estradas estivessem
sob a responsabilidade da Secretaria dos Transportes.
Em Minas Gerais, com 10.059km, 17,39% do total de federais pavimentadas, a situação é calamitosa, pois essas representam 52% das rodovias pavimentadas do estado.
Cumprimentamos todos os responsáveis pela elaboração do excelente Balanço Anual - 2005, na pessoa do Secretário dos Transportes, o engenheiro Dario
Rais Lopes, do Coordenador Geral do Relatório, engenheiro Antonio Galvão Álvares de Abreu, ambos membros de nosso Conselho Deliberativo e do consultor
e engenheiro Adriano Murgel Branco, nosso associado.
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
Em defesa da engenharia
Os verdadeiros
culpados
Carta publicada na Revista Veja em agosto de 2007
sobre o acidente com o vôo 3054
no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo
Ainda sob o impacto da destruição
dos planos e sonhos de 200 famílias, começam as discussões sobre quem será
escolhido o bode expiatório da vez, em
mais uma operação de salvamento dos
verdadeiros culpados da tragédia do
vôo 3054.
Antes de mais nada, deve-se reconhecer que a execução das ranhuras no pavimento
(grooving) na pista do Aeroporto de Congonhas,
que se dá 45 dias após o término do pavimento,
está rigorosamente dentro do prazo, sendo necessária apenas em tempo chuvoso.
A decisão de manter a pista aberta para pousos e decolagens após dois dias de chuvas em
São Paulo, não é da engenharia, tampouco das
companhias aéreas. É da Infraero, da Aeronáutica, do Ministro da Defesa, do
presidente da República — enfim, dos responsáveis pela aviação brasileira.
É por isso que o acidente com o vôo 3054 é uma conseqüência gravíssima da
má gestão pública, pois a pista não reunia condições de pouso, porque os investimentos em infra-estrutura são insuficientes, os gestores não reúnem competência
mínima para realizar as obras necessárias e a corrupção impede que o pouco
dinheiro disponível seja utilizado da melhor forma.
Mas que o cidadão comum não se engane ao acreditar que essa é uma situação
excepcional. É apenas mais uma tragédia diária que marca a vida dos brasileiros. Sua
notoriedade dá-se pela concentração de vidas envolvidas em um só episódio. Pois,
nada é dito ou feito diante dos 56 mil brasileiros (o equivalente a 280 acidentes como
o de terça-feira) mortos anualmente nas estradas ou das 1.336 pessoas (6,5 vezes mais
que o vôo 3054) mortas a tiros na cidade do Rio de Janeiro nos últimos seis meses.
É hora de se encarar os fatos e aceitar a verdade nua e crua. O culpado é o
poder público e todos aqueles eleitos e escolhidos para cuidar do patrimônio
público e dos serviços aos cidadãos, que não conseguem cumprir com suas
obrigações, não atendem às necessidades de uma nação de 200 milhões de
habitantes ou sequer honram seus mandatos conquistados à custa do mais
puro populismo.
Porém, enquanto os gabinetes dedicam seus dias discutindo as vaias recebidas
nas solenidades, o cidadão comum arrisca a sua vida num país que cai aos pedaços
porque seu dinheiro é gasto em atitudes eleitoreiras e irresponsáveis.
Cultivando
Tâmaras
Editorial publicado em setembro de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
Uma tradição do Oriente Médio recomenda aos ocidentais focados em sua cultura imediatista, muito cuidado em negociações com povos que cultivam tâmaras.
Fruto de uma palmeira que, apesar de
atingir a maturidade em poucos anos pode
passar décadas antes de frutificar, cujo
plantio comercial é um empreendimento
planejado para gerar resultados somente
em gerações futuras, a tâmara é o exemplo do pensamento de longo prazo,
desesperadamente necessário num país incapaz de enxergar o futuro além da
próxima eleição.
O Instituto de Engenharia, imprimindo a lógica dos cultivadores de tâmaras
ao “Ano Internacional do Saneamento”, realizou cinco eventos em conjunto
com entidades do porte desse setor (AESABESP, ABES, SINAENCO-APECS e
SINDESAN) para expor à opinião pública a falácia eleitoreira de curto prazo que
vem destruindo os cartões postais das maiores cidades brasileiras.
Apesar de, a cada dois anos, no início de agosto, o eleitor ser brindado
com estatísticas sobre a eficiência de seu sistema de saneamento básico e os
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
progressos nas ações de despoluição de um determinado rio, lago ou praia, a
realidade, no entanto, é bem diferente.
Tomando a cidade de São Paulo como um dos exemplos mais gritantes
e próximos, descobre-se, camuflada sob estatísticas comemorando 90% de
distribuição e coleta de esgotos residenciais, a verdadeira tortura aplicada
aos números para encobrir dois terços do esgoto coletado despejado “in
natura” nos rios e córregos da Região Metropolitana, num crime ambiental
sem precedentes.
Encobrem também fatos graves como a necessidade de triplicar a capacidade atual do sistema de tratamento, apenas para atender à atual geração
de esgoto. Ou a ociosidade de coletores e estações de tratamento. A verdade nua e crua é que a tão sonhada e alardeada despoluição do Rio Tietê
é uma fantasia que deveria ser alvo de processos por propaganda eleitoral
enganosa.
É preciso que a sociedade encare o problema do saneamento básico com
a seriedade de quem planta uma tamareira, mudando o foco das próximas
eleições para as próximas gerações. É preciso parar de fingir que despejar a
sujeira no município vizinho é uma destinação aceitável para o esgoto de uma
cidade, contaminando fontes limpas de água e encarecendo seu tratamento
para consumo.
É preciso construir dezenas de novas estações de tratamento espalhadas
pela Região Metropolitana de São Paulo e outras tantas pelo país até que
100% dos esgotos coletados sejam tratados. É preciso deixar as divergências
metodológicas e o radicalismo ideológico de lado e buscar toda a ajuda necessária junto às empresas privadas, grupos internacionais, equipamentos e
tecnologias de vários portes e fontes.
Enfim, é preciso muita coragem para desafiar os paradigmas do marketing
eleitoreiro, os dogmas do estadismo xiita, as picuinhas acadêmicas e entregar
aos cidadãos os serviços públicos mínimos para um país como o nosso. Pois
é simplesmente inadmissível, para não dizer ridículo e criminoso, continuar
condenando os cidadãos a uma vida no meio da sujeira porque obras de saneamento não aparecem, nem geram votos.
Em defesa da engenharia
A energia nuclear
e a dependência
energética
Texto produzido para o Simpósio de Energia Nuclear,
realizado em junho de 2007
Definir um tema para debates é sempre uma tarefa difícil. Escolher entre tantos desafios o de maior necessidade de
exposição e discussão, nos deixa sempre
com uma dúvida. Será que este assunto
é realmente o mais urgente?
Pois, nesta terça-feira, lendo no Estado de S.Paulo sobre a retomada das obras de Angra 3, tive a certeza de que, mais uma vez,
o Instituto de Engenharia toma a direção certa, sempre atento às necessidades do Brasil e sempre pronto a participar ativamente na definição do
destino da nação.
Essa simples decisão, muito mais importante do que retomar um projeto antigo, comprado, pago e parado por falta de vergonha na cara há 20
anos, recoloca o Brasil no caminho da independência energética, livrandonos de toda sorte de aventureiros políticos que costumam tomar o poder
nas fontes de hidrocarbonetos.
O coordenador deste evento, o engenheiro Miracyr Marcato, defende
que o Brasil não pode abandonar o uso da energia nuclear, mas, em 1967,
ao assinar junto com 186 países o Tratado de Não-Proliferação de Armas
Atômicas, deixou claro que jamais nos tornaremos uma Coréia do Norte,
restringindo assim a forma mais perversa de uso dessa tecnologia.
Como ignorar as reservas brasileiras de urânio, equivalentes a 21% do
estoque de energéticos não-renováveis e a 4% das reservas mundiais, num
cenário que aponta para uma demanda crescente por energia e para o esgotamento do petróleo no mundo?
É urgente a necessidade de diversificação da matriz energética brasileira. Mais urgente ainda é a necessidade da redução de emissão de dióxido
de carbono na atmosfera. As duas únicas alternativas viáveis a curto e mé-
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Tema 3 – Planejamento urbano e infra-estrutura
dio prazos são a hidrelétrica, já em avançado estado de aproveitamento no
Brasil, e a nuclear, quase inexplorada.
Hoje, com anos de experiência e pesquisa, é possível otimizar o aproveitamento do combustível atômico, reduzindo o volume dos resíduos das usinas. Novos equipamentos, mais eficientes e mais seguros entram em operação e não temos notícias de acidentes, como os de décadas passadas.
Porém, é preciso lutar. Lutar contra a opção pelo atraso que impera
nos corredores de Brasília, num falso discurso ambientalista, onde o preconceito de pessoas despreparadas para governar o país emperra todos os
projetos de infra-estrutura. Lutar contra a mentalidade que considera uma
hidrelétrica mais prejudicial que uma caldeira a óleo combustível.
O Instituto de Engenharia apresenta agora uma visão realista do potencial que a energia nuclear representa para o país, como fonte limpa,
eficiente e necessária de energia. Não como uma solução única, mas como
parte de um conjunto de fontes, reduzindo riscos, dependências e maximizando recursos.
Que os nossos governantes façam bom uso dessas opiniões.
Foto: PhotoDisc
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Em defesa da engenharia
Tema 4
Políticas públicas
e gestão
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
Em defesa da engenharia
Tolerância Zero
Ponto Dois
Editorial publicado em julho de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
Assistimos, no fim de junho, a um verdadeiro show de responsabilidade das
autoridades brasileiras como há muito
tempo não se presenciava. Pela primeira
vez, ao enfrentar um assunto em que
a atitude normal vinha sendo marcada
pela total irresponsabilidade e leniência,
o Estado decidiu agir com rigor quase
absoluto contra a condução de veículos
por pessoas sob influência de álcool. A atual legislação coloca o
Brasil ao lado do mundo civilizado, nada deixando a desejar a países como o Japão,
os Estados Unidos e a Suécia, nações que já contabilizaram os custos econômicos e
sociais da permissividade nos casos de embriaguez ao volante e tomaram as medidas necessárias para combater esse problema.
É claro que, mesmo na falta de tolerância, o Brasil sempre precisa de uma válvula
de escape. Apesar das recomendações de Tolerância Zero, enviadas pelo Instituto
de Engenharia na consulta pública sobre as alterações do Código de Trânsito Brasileiro, feita pelo Ministério da Justiça, estipulou-se um limite de dois decigramas de
álcool por litro de sangue.
Os resultados esperados são animadores, pois além da metade das 50 mil mortes
anuais causadas por acidentes automobilísticos envolverem o consumo de bebidas
alcoólicas, as administrações municipais, concessionárias de rodovias, departamentos de engenharia de trânsito, Polícia Rodoviária e hospitais poderão utilizar melhor
seus recursos hoje destinados a socorrer motoristas irresponsáveis.
É óbvio que somente promulgar a lei não será suficiente, como não foi nos
países citados anteriormente. A fiscalização não pode, em hipótese alguma,
seguir os cronogramas do horário eleitoral, sofrer as conhecidas interrupções
do serviço público ou ser objeto das criativas investidas comerciais dos departamentos de trânsito.
Também é necessário que as punições não sejam passíveis de revisões legislativas
eleitoreiras ou alvo de decisões “sociais” do Judiciário, ficando claro aos infratores
que essa medida vai ser implantada por bem ou por mal.
Fica a sugestão dos métodos da polícia e do Poder Judiciário norte-americano,
em especial do estado da Califórnia (EUA), onde, numa das cidades com maior
concentração de celebridades por habitante, é comum a divulgação de notícias
da prisão e posterior encarceramento de infratores hollywoodianos. As companhias de seguros também fazem a sua parte, atrelando seus preços à responsabilidade do motorista.
No Brasil, apesar de todos os motivos para comemoração, o caminho até bons
resultados da medida ainda é longo. É preciso conscientizar os motoristas das punições à embriaguez ao volante. É preciso planejar, fundear e executar a fiscalização
em todos os municípios e estradas. É preciso envolver destilarias, cervejarias, vinícolas, bares, restaurantes e taxistas numa campanha pelo consumo responsável.
Mas, principalmente, é preciso que as autoridades saibam exatamente o que
fazer quando um ator global, jogador de futebol ou filho de nobres excelências de
algum dos Três Poderes declarar frente ao bafômetro acusador: “Você sabe com
quem está falando?”
Bem-vindos à
Terra do Nunca
Editorial publicado em maio de 2008
na Revista Engenharia
Nada mais perfeito para descrever o
Brasil de hoje que o mundo criado por
J.M. Barry e imortalizado por Walt Disney.
Em nossa triste adaptação desse clássico,
autoridades, parlamentares, promotores,
magistrados e até jornalistas comportam-se como verdadeiros Peter Pans,
fugindo do amadurecimento e do comportamento responsável. Tudo para viver
na terra do faça-o-que-quiser.
Não bastasse a total incapacidade de realizar qualquer investimento em infraestrutura, desperdiçando preciosas oportunidades de melhorar a qualidade de vida
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
dos cidadãos e oferecer condições estruturais favoráveis às empresas e à otimização
dos recursos públicos, nossos governos passaram a desmontar sistematicamente o
pouco que funcionava no país.
Esse sucateamento das estruturas técnicas de autarquias, estatais, secretarias e
ministérios, fruto da idiocracia sindicalista, tem produzido além de acidentes, decisões desastradas de investimentos e planejamento, bem como a paralisação dos
investimentos públicos e privados no Brasil.
Na Terra do Nunca tupiniquim, o papel do capitão Gancho foi reservado aos “adultos” de plantão: militares, engenheiros, empresários e todos aqueles que procuram
por meio de argumentos técnicos — colocados acima da emoção —, tomar as rédeas
da responsabilidade, criticando e impedindo sandices com o patrimônio público.
Hoje, reservas indígenas são demarcadas para reparar erros de 400 anos herdados de uma cultura de colonização ultrapassada. Cotas raciais tentam atenuar
o abandono da educação pública. Barragens são projetadas de acordo com o ciclo
reprodutivo dos peixes, desconsiderando-se tanto o potencial quanto as necessidades energéticas da região. Privatizações são anunciadas com dinheiro público e participação majoritária de estatais. Investimentos em transportes e trânsito privilegiam
automóveis e motoristas irresponsáveis.
O governo brasileiro desenvolveu duas competências únicas, enquanto abandonava tudo o que foi construído ao longo no milagre econômico dos anos 70.
Em primeiro lugar, especializou-se em criar e arrecadar impostos. Depois, passou
a distribuir esse dinheiro por meio de cartões eletrônicos à população desprovida
de serviços públicos. Resolveu — como até Peter Pan teria sugerido — pagar uma
mesada para que tudo ficasse bem.
Mas, apesar das declarações ufanistas dos palanques, das promessas de campanha, das teorias conspiratórias sobre aqueles que discordam do otimismo eleitoral,
os problemas estão chegando. O famoso PAC já dá sinais de ser mais uma campanha de marketing bem-sucedida do que um programa responsável, bem planejado
e exeqüível. Seu formato, concentrando a responsabilidade do projeto nos municípios, fortalecendo o partido do governo para as próximas eleições, falhou ao
encontrar governos e prefeituras despreparados, desestruturados e sem pessoal.
A prevenção do apagão elétrico está agora nas mãos dos pajés, pois os engenheiros não fizeram valer seus argumentos técnicos e a única esperança que nos
resta é o excesso de chuva.
Enquanto o mérito acadêmico é desprezado pelo político, fica claro que o atual
plano de vôo do Brasil depende muito mais de pós mágicos e bons pensamentos do
que de uma iniciativa séria e tecnicamente competente. Tudo se assemelha a algo
muito próximo à bizarra e trágica aventura aérea do padre Adelir de Carli.
Em defesa da engenharia
O papel e o
papelão
Editorial publicado em agosto de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
A excelência na produção de papel é
mais um motivo de orgulho para os brasileiros. Da pesquisa, desenvolvimento e
plantio de florestas ao parque industrial,
nada se deve ao resto do mundo em termos de quantidade e qualidade.
Porém, deve-se reconhecer que o
valor do papel na história da humanidade, do fino papel de arroz chinês ou
o delicado papiro egípcio, à versátil folha de celulose, não
é só fruto de seu processo de fabricação, mas de seu uso pelo homem. Isso inclui
o registro e a preservação de sua história, a construção, o acúmulo e a transmissão
do conhecimento através de gerações e a elaboração de planos e projetos para
construção do futuro.
Mas, infelizmente, o papel não faz juízo de valor de seu conteúdo, aceitando
tudo que for impresso em sua superfície, de belas histórias e idéias que atraem bilhões de fiéis a seus templos pelo mundo, das teorias e planos que criaram as mais
terríveis armas de guerra, às plantas de obras fadadas ao fracasso como o Edifício
Palace II.
Já no Brasil, o governo federal, animado com o domínio do processo de produção, parece acreditar nos poderes mágicos das brilhantes folhas coloridas impressas
pelas agências de publicidade. Seduzidos pelas belas imagens digitais de prédios,
estradas ou pontes, pelas infindáveis listas de obras e orçamentos de bilhões de reais, nossos políticos esquecem que papel e tinta não são suficientes para que tudo
aconteça. É preciso muito mais.
Assim, ignorando a deficiência de profissionais capacitados nas prefeituras, nos
estados e na União, alardeando recursos que não são liberados, os gestores públicos seguem tentando transformar um apanhado de iniciativas que incluem desde
obras não iniciadas e projetos abandonados por governos passados até investimentos de infra-estrutura necessários e urgentes, num plano de governo destinado a
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
Em defesa da engenharia
resolver os gargalos estruturais que travam o país.
A verdade, muito diferente dos constantes discursos eleitoreiros, cartazes, cartilhas, filmes e anúncios é que o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) só
não naufraga por jamais ter saído do porto. Não reúne as condições mínimas para
deixar de ser mais do que uma carta de boas intenções, onde a responsabilidade
é delegada aos estados, municípios e empresas e os louros para os candidatos da
base aliada.
Graças aos esforços de parte dos envolvidos, alguns projetos conseguem vingar
e o país avança aos trancos e barrancos. É hora da competência técnica, da responsabilidade, do planejamento sério deixarem de ser valores endêmicos e pontuais na
gestão pública brasileira e se tornarem práticas sistemáticas amplamente disseminadas em todos os níveis de governo.
É hora de exigirmos uma qualidade única nos planos governamentais antes de
sua divulgação. Algo que impeça o estelionato eleitoral que há décadas é responsável pelas oportunidades perdidas. É hora de exigirmos exeqüibilidade.
Se os planos produzidos em Brasília não forem minimamente exeqüíveis e seus
responsáveis cobrados pela sociedade e pela Justiça eleitoral, seremos sempre um
celeiro de esperanças vazias, cuja impressão, para ser condizente com a qualidade
dos projetos, deveria ser feita em pequenos rolos de folha dupla perfumada com
trinta metros de comprimento.
Lemes não remam
Editorial publicado em dezembro de 2008
na Revista Engenharia
Ao ler o jornal pela manhã, qualquer cidadão minimamente inteligente percebe a absurda
falta de consistência na qualidade dos serviços
prestados pelos governos municipais, estaduais
e federal nas mais diversas áreas de atuação.
É realmente difícil entender como um governo que consegue erradicar a poliomielite
por meio de campanhas de vacinação eficientes e abrangentes, mobilizando milhares de
voluntários em todo território nacional, tam-
bém é capaz de abandonar seus cidadãos à própria sorte em hospitais superlotados,
sem aparelhados, aos cuidados de pessoal mal remunerado e em quantidade insuficiente para atender à demanda.
Na grave situação de Santa Catarina, temos o mais recente exemplo onde as duas
faces dessa moeda se apresentam da maneira trágica. A eficiência recolhe milhões
em dinheiro, alimentos, água e roupas enquanto a incompetência permite a realização de construções em áreas de risco, não realiza as obras de contenção e saneamento necessárias.
O problema dessa “esquizofrenia” política vem do fato da palavra governar, que
segundo qualquer dicionário significa dirigir, pilotar, conduzir, dar direção, e da palavra
executar, sinônimo de realizar, efetuar, fazer, tornar concreta, realizada, efetiva, cumprir.
Um governo deve dirigir os esforços para o cumprimento de seus objetivos, liderar
seus cidadãos, orientar empresas e instituições, estabelecer a direção em que o país
deve seguir, investindo seus recursos de forma planejada e cobrando os resultados.
Recolher donativos ou vacinar pessoas, onde os atores são mobilizados de forma temporária e pontual é o ponto máximo até onde a capacidade de execução do poder
público pode chegar.
Processos de longo prazo, que demandam rotinas administrativas, cumprimento
de prazos, controle contínuo de orçamentos, compras repetidas de suprimentos e
equipes treinadas, motivadas e profissionais, não resistem à burocracia, à estabilidade
de trabalho, a nomeações e interesses políticos e, principalmente, à falta de iniciativa
e busca por produtividade e excelência do setor privado.
Em 2005, escrevi e a Revista Engenharia publicou o artigo “Contratação pelo
menor preço: um exemplo de má gestão de recursos públicos”, narrando o caso
dos viadutos do km 205 da Rodovia Castello Branco. Eles aguardaram por 36 anos o
governo estadual terminar um serviço malfeito que, não fosse pela iniciativa de uma
concessionária privada, ainda estariam abandonados.
A privatização, atacada e condenada na eleição de 2006, deve ser encarada de
forma prática e despida de ideais políticos, como a solução para os problemas de
manutenção de obras de infra-estrutura e programas de longo prazo. A iniciativa
privada tem condições de atuar com mais agilidade, eficiência e eficácia do que o
poder público.
Os governos devem assumir seu papel de leme do barco chamado Brasil estabelecendo a direção, as métricas e os objetivos corretos. Mas deve deixar que seus
cidadãos e suas empresas tomem os remos, imprimindo a velocidade que tanto o país
e seus habitantes precisam para crescer. Enquanto nossos gestores públicos insistirem
em remar e pilotar, mesmo que o país consiga se pôr em movimento, não chegará a
lugar nenhum.
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
Em defesa da engenharia
A guerra dos
vencidos
Editorial publicado em fevereiro de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
Por 90 meses, na mais longa guerra disputada pelos EUA em sua história, 58 mil soldados
perderam suas vidas. Ainda hoje, mais de trinta
anos depois de encerrados os combates, o país
ainda sente os efeitos do conflito que mudou
a sociedade americana.
Nosso país perde, numa eficiência aterradora, uma guerra do Vietnã a cada doze meses, matando indistintamente seus cidadãos enquanto se dirigem para o trabalho,
férias, escolas ou para um passeio de final de semana. O trânsito brasileiro, que somente em acidentes custa 26 bilhões de reais por ano, é o mais perfeito exemplo dos
efeitos da irresponsabilidade e da incompetência das autoridades ao tratar de forma
pessoal um problema técnico.
O problema, iniciado ao se entregar a gestão do trânsito das cidades às autoridades policiais, é agravado pela incapacidade de nossos legisladores e gestores públicos
de distinguir sua responsabilidade perante o cidadão e seu comportamento como
motoristas. Com isso, se produz uma legislação de padrão europeu, criando, porém,
barreiras para sua aplicação que são dignas de caricaturas hollywoodianas de autoridades africanas.
A crença brasileira na existência de uma indústria de multas, voltada unicamente
para esfolar o cidadão e engordar os cofres públicos é uma das principais barreiras
culturais a solução dos problemas e acidentes de trânsito. É tão forte que políticos e
autoridades parecem disputar uma competição de remendos legislativos e administrativos para suavizar o rigor da lei e impedir a aplicação das penalidades, num exemplo escancarado de desrespeito à lógica, ao bom senso e à inteligência.
O cidadão, assumindo a infantil posição de negar o óbvio, acreditando em sua
suposta excelência atrás de um volante, comporta-se como se as leis fossem criadas
apenas para atrapalhá-lo em seus afazeres diários. Vê nas multas impostos disfarçados, sendo seu dever evitá-las a qualquer custo sem cumprir a lei.
Some-se a isso uma estrutura corrupta e ineficiente, derivada da entrega às autoridades policiais do que deveria ser da alçada administrativa (concessão de licenças
de condução de veículos e registros de propriedade) e técnica (engenharia de tráfego
e fiscalização veicular) e chegamos ao massacre diário que se tornou o exercício do
direito de ir e vir do cidadão.
É hora de tratarmos o trânsito de forma séria e técnica. Precisamos analisar as
séries históricas de acidentes e identificar as estradas, os veículos, os motoristas, as
viagens, as condições meteorológicas, todas as variáveis envolvidas desde um simples
deslocamento para a padaria até uma viagem interestadual que terminam de forma
trágica. É necessário ainda encontrar os pontos comuns e, de forma séria, desenvolver, comunicar, incentivar, fiscalizar, a partir de uma legislação adequada e rigorosa,
punindo exemplarmente os motoristas infratores.
É preciso também tratar as causas físicas dos acidentes: a sinalização inadequada,
a conservação inadequada das pistas, a manutenção deficiente dos automóveis. O estado de Minas Gerais, campeão em número de acidentes, é símbolo do nefasto efeito
de estradas construídas e conservadas precariamente, além de malconservadas. Viajar
por Minas Gerais, coberto pela maior malha de rodovias federais, é muito mais arriscado do que nas movimentadíssimas estradas paulistas, privatizadas e mantidas sob
um padrão internacional.
Enfim, é hora de iniciarmos a verdadeira engenharia de transportes no Brasil.
Substituir delegados por engenheiros seria um bom começo.
Estátuas de sal
Editorial publicado em outubro de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
“E a mulher de Ló olhou para trás e ficou
convertida numa estátua de sal” (Gênesis 19:26)
A grande vantagem do regime democrático é
obrigar o cidadão a parar para pensar sobre seu
destino regularmente. A despeito das mais absurdas e paternalistas opiniões veiculadas na mídia, a
decisão das urnas sempre reflete a cabeça do eleitor. Aos descontentes só resta aceitar o fato de não
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
estarem alinhados com o pensamento de seus pares e trabalhar para mudar isso.
A jovem democracia brasileira vem enfrentando desafios regulares a cada dois
anos e, num processo evolutivo constante, tem demonstrado uma capacidade impressionante de se livrar de certos vícios. Claro que esse processo ocorre numa
velocidade inferior à desejada, porém, segue cada dia mais estável e confiável.
Mas a grande mudança exigida pela sociedade não se dará nos gabinetes, plenários, tribunais ou quartéis espalhados pelo país. A grande mudança acontecerá
nas casas, apartamentos, vilas e barracos, refletindo-se nas urnas, para daí, num
movimento iniciado nos municípios, chegar aos corredores do Planalto Central.
O mundo moderno da sociedade do conhecimento vem desconstruindo valores numa velocidade espantosa. Novos modelos, frutos do ambiente criado pela
tecnologia, são inventados diariamente Negócios gratuitos, produção colaborativa,
compartilhamento de informações, mobilidade e conectividade são realidades impensáveis há dez anos.
É impossível que uma nação sequer sonhe em participar deste novo mundo sem
alguma mudança cultural e sem abandonar velhos modelos da sociedade industrial
comprovadamente ineficaz nos tempos atuais. É impossível que gerações de gestores públicos adotem sempre os mesmos métodos arcaicos e ineficazes enquanto
prometem o novo.
Já surgem no horizonte alguns sinais de esperança, dados por políticos com
pensamento de longo prazo. Verdadeiros administradores públicos que conseguem
enxergar além de seus mandatos ou picuinhas políticas e passam a construir carreiras lineares e coerentes, sem sobressaltos a cada dois anos.
Pela primeira vez, em anos, num debate eleitoral, um candidato teve a coragem de reconhecer os méritos de programas de seus antecessores e adversários,
preocupando-se mais com investimentos já realizados, serviços prestados ao cidadão do que com mudar a embalagem e a assunção da paternidade de determinado projeto.
Quem sabe assim o Brasil possa voltar a planejar obras de longo prazo como
usinas hidrelétricas e nucleares, ferrovias, fontes de energia renováveis, tratamento
de esgotos e resíduos sólidos, criando condições reais de desenvolvimento econômico e social baseado na geração de empregos e novas empresas, não pela simples
distribuição sistemática de esmola eletrônica, via cartão magnético.
É hora de cobrar dos gestores públicos brasileiros uma mudança cultural. Que
deixem de agir como a mulher que não foi capaz de abandonar o que sabia ser errado, cedendo à tentação de um último olhar saudoso para os vícios do passado.
Enfim, é hora da engenharia brasileira, por meio das associações de engenheiros, dos sindicatos, das universidades e dos próprios engenheiros, se fazer ouvir. É
Em defesa da engenharia
crucial alertar a sociedade sobre a realidade dos programas eleitoreiros, ajudando
o fortalecimento da democracia brasileira, escolhendo candidatos capazes de fazer
o novo de um jeito novo.
Carta às associações
de engenharia e aos
profissionais do
setor sobre
a cobrança da CPMF
Artigo de setembro de 2007
Há anos a sociedade assiste calada ao aumento
constante da carga tributária brasileira sem qualquer
melhoria nos serviços públicos, investimentos em
infra-estrutura ou ações efetivas de incentivo à iniciativa privada. Vivemos há 12 anos na ditadura do
gasto social sem resultado, enquanto o Brasil recua
em todos os indicadores de desenvolvimento.
É chegada a hora de a sociedade dar um basta a
essa política nefasta de descontrole dos gastos públicos e iniciar uma
reforma fiscal efetiva, encerrando o ciclo de aumento da arrecadação como forma de
produção de superávits.
A CPMF, contribuição provisória criada como paliativo emergencial para reverter
o quadro de caos nos serviços de saúde, sofreu em 11 anos de vigência várias prorrogações e quatro elevações de alíquotas, resultando num aumento de arrecadação de
500%, passando de 0,7% a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. De sua
finalidade inicial, sobrou somente a intenção.
Os serviços de saúde, cuja melhora deveria ter sido sensível com os quase 185
bilhões de reais arrecadados, continuam em situação calamitosa e seu abandono é
noticiado diariamente em horário nobre.
A CPMF, agora considerada como receita da União para a geração de superávit
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
Em defesa da engenharia
primário, redução do déficit da previdência ou pagamento da folha de salários, não
cumpre as condições mínimas de um imposto com o caráter permanente. Ela é desigual, cumulativa, onera a cadeia produtiva, aumenta as taxas de juros e os custos
financeiros, inibe investimentos, incentiva a informalidade e é um instrumento de
quebra de sigilo bancário por parte da Receita Federal.
O Instituto de Engenharia, signatário desde a sua criação da “Campanha Sou
Contra a CPMF”, convida todas as associações, confederações, clubes, institutos,
sindicatos e profissionais a participar desse movimento, mostrando a nossos representantes no Congresso Nacional que a sociedade não mais suportará os abusos
autoritários de governos incompetentes.
Para participar dessa iniciativa, visite o site do movimento www.contraacpmf.com.
br e preencha o formulário do manifesto contra a CPMF. Participe, pois é chegada
a hora de a sociedade forçar o governo federal a aprender a gerir seu orçamento,
controlar seus gastos e deixar o Brasil crescer.
Limites do Poder
Editorial publicado em fevereiro
de 2009 na Revista Engenharia
Officium... imperare, nom regium.
Comandar não significa dominar,
mas cumprir um dever.
Sêneca, (4 a.C.- 65 d.C.)
Em pouco menos de 30 dias a sociedade brasileira terá completado 45 anos sob o
fantasma do totalitarismo e a tentação de
conduzir o país pela força. O atual governo
parece esquecer conceitos fundamentais da
gestão pública, confundindo os papéis de
executor, legislador ou fiscal, como se um
pudesse cumprir as responsabilidades do
outro apenas pela força da lei.
A má interpretação das condições que produziram o milagre bra-
sileiro, aliada à total falta de autocrítica e à submissão aos marqueteiros políticos
em sua busca pela antecipação da campanha eleitoral, criou a aberração sob cuja
bandeira tudo se permite mesmo que impossível.
Montado sem qualquer critério além da eleição de 2010, o famigerado PAC vem
fazendo água desde seu lançamento, passando de solução milagrosa a fantasia
eleitoreira onde a maior parte de seu orçamento não é cumprida e os projetos ficam
confinados ao papel ou na cabeça dos políticos.
Somam-se ao problema de má concepção, o desconhecimento das reais condições dos recursos necessários, a corrupção desenfreada e consentida, bem como a
interferência de toda sorte de instância do poder público disposta a tomar para si
parte dos créditos junto à opinião pública.
Ambientalistas, promotores públicos, tribunais de contas tem à sua disposição
toda sorte de dispositivos legais para paralisar as obras, atrasar a concessão de
licenças e subjugar empreiteiras e concessionárias. Num pesadelo jurídico que tem
conseguido a proeza de convencer as construtoras a abandonar contratos e recusar
obras, algo nunca visto no Brasil.
Os gestores públicos, acuados, deixando em segundo plano a capacidade técnica dos órgãos do governo e a disciplina e organização militar, recorrem à força,
como se a mão pesada fosse o grande segredo dos generais na década de 70.
Ataques e ameaças públicas às empresas, legislação emergencial e mudanças na lei
de licitações são algumas das técnicas que podem ser observadas diariamente nos
jornais que, como o suposto “plano” que defendem, não tem efeito prático algum
além de dar às massas a impressão de que tudo está bem.
A reconstrução do Brasil não depende só da vontade política, ou da criatividade
dos publicitários. Terá de seguir a mesma fórmula dos momentos em que o país
conseguiu dar seu salto qualitativo, na industrialização e construção de Brasília na
segunda metade da década de 50 e o milagre do governo Médici. Disponibilidade
de capital, planejamento de longo prazo, empreiteiras tecnicamente competentes
e capacidade gerencial e fiscalizadora.
Após anos de crise econômica, de estagnação, é duro ver que todas as condições para que o país voltasse a trilhar o caminho do desenvolvimento estiveram até
pouco tempo reunidas, só faltando ao governo fazer sua parte.
Mas a falta de visão além da próxima eleição, o desmonte contínuo dos departamentos técnicos, a falta de engenheiros nos cargos de primeiro escalão e o total
desrespeito a leis de mercado fizeram com que o país perdesse a maior oportunidade desde a segunda guerra mundial.
Querer alegar autoridade e resolver tudo na bordoada é só mais um sinal de
quão perdidos todos estão.
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Tema 4 – Políticas públicas e gestão
Em defesa da engenharia
A lei da atração
Editorial publicado em fevereiro de 2009
no Jornal do Instituto de Engenharia
“Boi preto cheira boi preto!”
Antigo provérbio caipira
Nas aulas de Física, especificamente no
estudo do eletromagnetismo, um dos primeiros conceitos ensinados é o da atração dos pólos opostos que, numa atitude
romântica, é tomado como princípio da
vida, onde pessoas diferentes se completam e, portanto se atraem.
Este fenômeno na verdade, como
qualquer fábula urbana, se estudado seriamente revelaria que, desconsideradas
as preferências pessoais e outros fatores irrelevantes ao propósito do relacionamento, são os pontos em comum que atraem
as pessoas e formam os grupos.
Sob essa ótica, é possível então entender a dicotomia entre o pedaço do
Brasil sob a gestão do Palácio dos Bandeirantes e todo o resto que ainda padece sob os desmandos do Palácio do Planalto. A verdade é que, a despeito do
discurso do ressentimento, ao não aceitar a dependência do Governo Federal,
os paulistas criaram um ambiente propício para a atração de investimentos
e empresas, graças a gerações de políticos executores. Conseguiram assim
construir uma infra-estrutura digna da grandeza do estado, estabelecendo um
círculo virtuoso de atração de negócios, geração de receita, superávit fiscal e
novos investimentos em infra-estrutura.
O discurso do Presidente Barack Obama é outro exemplo. Para combater a
crise gerada pela irresponsabilidade dos mercados financeiros, a Casa Branca
enviou um plano de recuperação focado na geração de empregos por meio de
investimentos em infra-estrutura, educação e energia renovável, criando um
ambiente de inovação e crescimento para atrair empresas e capitais em busca de oportunidades reais, ao invés de produtos especulativos dos mercados
financeiros.
No Brasilzão real, onde Brasília impera, a história é outra. Investimentos em
infra-estrutura, cargos executivos, políticas sociais e tudo mais são distribuídos
por critérios políticos, pois os técnicos não geram votos. Os poderes judiciários
e legislativos também passaram a disputar a opinião pública cada um ocupando
os vácuos deixados pelos outros poderes da República. Num samba do crioulo
doido onde o executivo legisla por medidas provisórias, o legislativo julga em
CPIs espetaculares, o judiciário executa por meio de liminares e sentenças cada
vez mais invasivas.
Num país que combate crises apenas defendendo os empregos e benefícios
já existentes, que os investimentos sociais resumem-se à pura distribuição de
dinheiro, onde políticos denunciam as falcatruas de seus próprios partidos,
não é de se estranhar que empresas sérias, tecnicamente competentes e competitivas passem a se afastar gradualmente do relacionamento comercial com
o governo.
As grandes empreiteiras do milagre brasileiro, que construíram a ponte Rio
- Niterói, Itaipu, Rodovias Castelo Branco e Bandeirantes entre tantas obras
são um grande exemplo. Deixaram para trás a dependência das verbas públicas brasileiras, fazendo do mundo seu quintal. Investiram na indústria, na
prestação de serviços, no mercado imobiliário, na produção de energia etc.
Tornaram o governo brasileiro, seu grande cliente de outrora, num negócio
menor, dando-se ao luxo de recusar contratos deficitários e ignorar a pressão
dos políticos, magistrados e promotores de justiça, pois o mundo está cheio
de grandes obras a espera de empreiteiras, com contratantes sérios e pagamentos em dia.
Ao Brasil, resta atrair seus pares, gente muito qualificada que oferece preços inexeqüíveis, obras inacabadas e notícias aterradoras publicadas nos periódicos nacionais.
Enfim, como dizia um velho engenheiro, veterano de anos de contratos
públicos: “Cada órgão tem o empreiteiro que merece”
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Foto: PhotoDisc
Em defesa da engenharia
Tema 5
O frágil sistema
de licitações e suas
conseqüências
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Tema 5 – Problemas das licitações
Em defesa da engenharia
Os espetáculos
da engenharia
Editorial publicado em fevereiro de 2008
na Revista Engenharia
Qualquer brasileiro com acesso à TV a
cabo pode perceber, em uma tarde, que a
indústria do entretenimento descobriu o
potencial da engenharia para a geração
de audiência. Documentários diversos de
grandes obras, grandes acidentes, projetos ou infra-estrutura urbana tornaramse a principal atração de canais como
Discovery Channel, Nat Geo e History
Channel.
No Brasil, entretanto, o espetáculo é um pouco diferente.
Ocupam a mídia acidentes em túneis, prédios desabando, barragens e estradas
arrastadas pelas chuvas. Na Terra de Santa Cruz, onde obras como a ponte RioNiterói, a usina de Itaipu ou a nova pista da Rodovia dos Imigrantes engrandeceram a engenharia nacional, graças à falta de investimentos e manutenção,
os acidentes começam a se tornar a regra, não a exceção.
As perspectivas futuras são ainda mais desanimadoras, pois se tornaram
comuns as histórias de contratos a preços cada vez mais baixos e serviços malfeitos ou abandonados, oriundos da má contratação.
É claro que nem tudo é fruto da idiocracia inaugurada pela república sindicalista ou da sempre cadente qualidade do ensino da engenharia. Ainda temos
no mercado bons profissionais, capazes e experientes. Temos empresas sérias e
tecnicamente competentes e responsáveis.
O que falta ao Brasil é a responsabilidade na contratação. A tacanha mentalidade Casas Bahia (tudo pelo menor preço) está levando o país a brincar
perigosamente com a vida de seus cidadãos.
A “otimização” dos recursos financeiros, ensinada nas escolas de negócios
e economia, tem levado os administradores públicos e privados a desconsiderar
os riscos da não-observância de critérios técnicos. O termo “economizar” nas
novas práticas da gestão brasileira significa hoje reduzir as sondagens do terre-
no, entregar projetos complexos a engenheiros inexperientes ou, simplesmente, escolher empresas de idoneidade discutível. O resultado é farto material
para imprensa sedenta por más notícias.
Porém, se observarmos a conduta pessoal desses mesmos contratantes, vemos que, em caso de problema de saúde, não se furtam a fazer exames de toda
sorte, ressonâncias, tomografias, cintilografias exigidos por médicos cada vez
mais especialistas e caros, mesmo que para uma simples indigestão.
Só resta concluir que bom senso, comportamento prudente e responsável e
o cuidado na contratação de serviços profissionais, são qualidades de uso pessoal, impossíveis de aplicar no campo profissional, pois nada justificaria uma
obra ser contratada por critérios diferentes (para não dizer inferiores) ao de um
médico particular.
Na verdade a diferença reside, como tudo no Brasil, nas conseqüências
da má contratação. Pois, enquanto vítimas de acidente forem condenadas a
aguardar por décadas as indenizações, os contratantes ficarem impunes pelas decisões técnicas incompetentes e as empresas irresponsáveis participarem
de licitações, continuaremos a assistir a espetáculos dantescos nos noticiários
noturnos. À população, desavisada e desprotegida, resta torcer para que as
seguradoras passem a cumprir o papel das autoridades.
Risco à sociedade
Editorial publicado em maio de 2007
pelo Instituto de Engenharia
Estamos assistindo a mais um duro golpe na engenharia nacional, patrocinado
pela incompetência do poder público,
avalizado pela ignorância da imprensa e
aprovado pela inércia da sociedade. Tudo
isso comprometendo ainda mais o crescimento do país e a boa gestão dos recursos do Estado.
A contratação de serviços de engenharia na modalidade de pregão eletrônico, tão alardeada como solução para
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Tema 5 – Problemas das licitações
todos os problemas, institucionaliza a mediocridade como critério de contratação,
trazendo sérias preocupações sobre a qualidade das novas obras públicas e para a
segurança dos cidadãos.
A falácia do preço como critério de contratação transforma serviços personalizados e especiais em commodities. Lançam, no mesmo saco, projetos de
engenharia de altíssima complexidade e vitais para a infra-estrutura brasileira e
o feijão da merenda escolar, como se fossem ambos passíveis dos critérios semelhantes de compra.
É óbvio que, à luz dos escândalos revelados diariamente pela imprensa, medidas
de controle dos gastos públicos deveriam ser tomadas imediatamente. O sistema
de compras governamentais está podre e corrompido e, para garantir sua lisura,
era necessária instalação e difusão do uso do pregão eletrônico. Esse é o único
sistema capaz de reduzir o alarmante número de fraudes e de superfaturamento
de pedidos.
Mas o pregão eletrônico não é um elixir milagroso que cura da unha encravada
à queda de cabelo. Existem produtos e serviços que podem ser comprados com
sucesso por meio desse sistema. Eles representam a grande maioria das aquisições.
É preciso, porém, aceitar o fato de haver exceções a todas as regras e admitir que
existem serviços que não podem ser padronizados a ponto de ir a leilão.
Não admitir a existência de exceções é tentar ignorar princípios básicos de economia, como as relações custo-benefício e preço-qualidade. A contratação por
meio do pregão eletrônico institucionaliza a mentalidade do preço mínimo, da qualidade mínima, do tapa-buraco. Esse sistema recompensará o material inferior, o
profissional inexperiente, o serviço malfeito, o planejamento mínimo, as empresas
em dificuldades.
As autoridades brasileiras devem eliminar os esqueletos, as obras inacabadas ou
mal-acabadas. É hora de projetos e serviços de engenharia serem contratados pelos
resultados financeiros futuros, pelo impacto na economia, na geração de empregos, no escoamento da produção, no crescimento da indústria e do comércio, na
vida dos cidadãos ou na administração pública. Nunca pela economia gerada no
processo de contratação.
É hora das entidades que representam a engenharia brasileira, em uníssono,
levantarem-se contra essa barbárie, alertando a sociedade e as autoridades competentes a respeito dos riscos dessa legislação equivocada. Pois projetos de engenharia, diferentemente de um saco de batatas, devem ser escolhidos pela relevância
técnica, pela experiência de seus executores, pela segurança da sociedade, pela
durabilidade da obra, pelo retorno do investimento. Batatas só precisam estar aptas
para o consumo.
Em defesa da engenharia
Repúdio ao
pregão eletrônico
para os serviços
de engenharia
Artigo publicado em novembro de 2007
na Revista Painel
A sistematização das compras públicas,
permitida pelo desenvolvimento da tecnologia da informação, foi um grande avanço no
combate à má gestão pública e à corrupção, permitindo também uma maior igualdade nas oportunidades de fornecimento de bens e serviços aos governos. A introdução
do Pregão Eletrônico foi um grande avanço para o Brasil e seu uso deve ser difundido
e incentivado.
Mas se engana quem considera o Pregão Eletrônico um elixir mágico, capaz
de solucionar todos os problemas envolvendo as contratações do poder público.
Como também se enganam aqueles que consideram o menor preço o item mais
importante, senão o único fator de seleção de prestadores de serviços de engenharia e arquitetura.
O projeto em tramitação na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado é fruto
do desconhecimento dos resultados das licitações em todas as esferas no país e também da necessidade eleitoreira de responder à opinião pública, face aos escândalos
revelados diariamente na mídia.
Enquanto os holofotes apontam para obras superfaturadas e desvios de recursos
públicos, ficam às sombras, longe das manchetes, milhares de esqueletos inacabados
por falta de capacidade financeira da empresa contratada, acidentes fatais por falta
de qualificação técnica dos profissionais empregados e os custos financeiros e sociais
que resultam da seleção equivocada de prestadores de serviços.
A inversão do processo licitatório, priorizando o preço sobre a qualidade técnica, é
uma aberração. Sua defesa só é possível por parte daqueles que ignoram a complexidade de um projeto de engenharia, que desrespeitam a formação acadêmica dos profissionais e técnicos e, acima de tudo, não têm consciência do quanto desconhecem do
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Tema 5 – Problemas das licitações
Em defesa da engenharia
histórico dos processos licitatórios brasileiros e das obras de infra-estrutura do país.
O jornal O Estado de S.Paulo, em seu editorial de 10 de outubro, defende a adoção do pregão eletrônico e a mudança nas regras licitatórias usando argumentos, no
mínimo, infantis. Imaginar que a competição permitirá a manutenção da qualidade
enquanto são reduzidos os preços é o mesmo que defender o fim do controle alfandegário na Ponte da Amizade, imaginando que assim conterá os preços da indústria.
Pior ainda é querer acelerar os processos de licitação, como se fossem esses os responsáveis pelos atrasos nas entregas das obras públicas.
Não é segredo que as políticas erráticas e temerárias de gestão de pessoal de todas as esferas dos mais diversos governos brasileiros afastaram os profissionais mais
qualificados e que a falta de investimentos desmantelou os departamentos técnicos. A
proliferação de cargos políticos quase eliminou a pouca eficiência do serviço público.
Por isso, defender um sistema licitatório que elimine o julgamento técnico prévio,
assumindo ser constante e homogênea a qualidade entre todas as empresas, onde
o poder público brasileiro paga rigorosamente em dia todas suas contas e as fraudes
acontecem na contratação dos serviços, não nas medições e alterações posteriores
de projetos, é imaginar que o Brasil é a nova ilha da fantasia, bem diferente dos fatos
noticiados diariamente pela imprensa.
A aprovação desse projeto é uma atitude eleitoreira de alto risco para a sociedade
brasileira. Os senhores senadores têm o dever de defender os brasileiros de aventuras
populistas na contratação de serviços de engenharia. Pois, se os custos relativos à
infra-estrutura já começam a travar o desenvolvimento brasileiro, acrescentar o risco
aos cidadãos a esse custo é, no mínimo, irresponsável.
Rio Madeira: uma
solução precária
Editorial publicado em abril de 2008
no Jornal do Instituto de Engenharia
A recente licitação para privatização da
Usina Hidroelétrica de Santo Antônio, no
Rio Madeira, coloca em evidência o processo bastante danoso de mediocrização
que assola o país, cuja tendência é se
agravar no futuro. Por pressão dos movimentos sociais e organizações ambientais fundamentalistas, o potencial energético desse rio e de outros rios da
Amazônia tem sido desperdiçado por critérios supostamente preservacionistas, cujos benefícios, se avaliados de forma realista, não se sustentam.
Toda a vez que se constrói um aproveitamento hidroelétrico cria-se um reservatório cujas dimensões definirão o benefício energético que se quer retirar
do local. Assim, tanto a barragem quanto o reservatório têm algumas funções
que são variáveis de projeto: a altura de queda que afeta diretamente a potência do aproveitamento, o volume útil do reservatório, cuja função é regularizar
a vazão efluente que promove o aumento da energia firme do local e dos demais aproveitamentos à jusante, além de 0, armazenar água para distribuí-la
pelos diversos fins em períodos desfavoráveis.
Em geral, os grandes reservatórios são projetados nos trechos iniciais dos
rios, pois eles nascem em regiões montanhosas e não causam inundações
muito extensas. Dessa forma, o benefício da regularização se estenderá por
todo o desenvolvimento do rio, havendo um ganho de energia em seu aproveitamento total. Esse parâmetro tem que ser confrontado com os demais
critérios e usos que se possa fazer no local, como navegação, controle de
cheias, irrigação, aspectos ambientais, ocupação e organização da área, terras
indígenas, unidades de conservação, áreas prioritárias, ecossistemas aquáticos
e terrestres, base econômica e etc.
No caso do Rio Madeira, o fanatismo conservacionista utópico, provocou o
abandono da solução mais conveniente. E o projeto que previa a construção
de reservatório com área inundada de 1.550 km2, foi abandonado pela construção de duas usinas de baixa queda, UHE Santo Antônio e UHE Jirau, com
243 km2, praticamente a fio d’água.
Na fantasiosa mente dos ambientalistas brasileiros, as funções de reservatório e regularização foram substituídas por um maior número de turbinas,
que ficarão paradas nas épocas de baixa vazão, turbinando-se apenas o volume de água da vazão natural.
Em termos práticos, graças à estupidez reinante nos gabinetes de Brasília,
a energia correspondente a uma usina do porte de Ilha Solteira, fundamental
para um país que tem vivido os últimos anos à beira de racionamentos por
falta de planejamento e gestão adequada de seus recursos naturais, será desperdiçada em nome da floresta.
Ao que parece, para essa pequena parcela de iluminados, o fato dessa
energia perdida ter de ser produzida por fontes bem mais caras e poluentes,
como nucleares ou térmicas a carvão ou gás importado é irrelevante. Também
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Tema 5 – Problemas das licitações
Em defesa da engenharia
é irrelevante o impacto na economia brasileira, ao distorcer nossa matriz e
encarecer bens, serviços e produtos exportáveis.
Quanto aos risíveis argumentos ambientalistas, de que a redução de área
inundada será compensada com preservação de floresta, manutenção de reserva indígena, ou atividades exploratórias reguladas, já se sabe o fim: serão perdidos na realidade do desmatamento e na ocupação descontrolada
da floresta, que tem levado à destruição pura e simples de grandes áreas da
Amazônia, agora complementadas pela perda definitiva de parte do potencial
hidroelétrico brasileiro.
A contratação pelo
menor preço: um
exemplo de má
gestão de recursos
públicos.
Artigo publicado em março de 2005
na Revista Engenharia
A contratação de uma obra ou um serviço não é trabalho para amadores. São
tantas as variáveis a serem consideradas
que só mesmo com a soma de grande experiência, amplos conhecimentos, técnicos, econômicos, financeiros, jurídicos sociais e de mercado
além de muita informação, será possível reduzir ao mínimo os riscos da má
contratação.
Para se adquirir qualquer coisa, serviço ou obra, são necessárias várias
especificações rigorosamente precisas do que se quer comprar e de que
forma deve ser entregue. Na medida em que os produtos e serviços a serem
comprados se tornam mais complexos, mais sofisticada será a operação.
Muitas vezes na compra de alguma coisa não nos damos conta de que
fazemos mentalmente uma especificação detalhada do objeto que dese-
jamos. Por exemplo, ao adquirir um pacote de 500 folhas de papel para
uma impressora, não notamos que mentalmente especificamos: cor branca, 75g/m 2, tamanho A4. Evidente que, para realizar a melhor aquisição,
procuramos entre vários fornecedores idôneos as melhores condições de
preço, pagamento e entrega.
Também, ao se contratar uma obra ou serviço, deveríamos obrigatoriamente fazer uma perfeita especificação técnica e uma seleção de fornecedores. É igualmente necessária uma análise minuciosa dos prazos de
entrega, condições de pagamento e comparação de preços. Qualquer falha
na especificação técnica e/ou na seleção de fornecedores resultará numa
contratação de alto risco.
A redação de regulamentos e leis ao longo do tempo, com base nas
experiências bem ou malsucedidas, é uma das maneiras de se aplicar os
conhecimentos adquiridos no aperfeiçoamento dos processos de compras
e contratações. Dessa forma, as entidades públicas e as empresas privadas
foram consolidando suas leis e/ou regulamentos para minimizar os problemas decorrentes de falhas nas contratações.
No setor público em nosso país, as escolhas de fornecedores, obras,
serviços e bens são regidas pela famosa Lei 8.666. Desde sua entrada em
vigor, essa legislação está provocando um desmoronamento do sistema de
contratações de obras e serviços, afetando as empresas e o mercado, de
tal monta que cada licitação se tornou um problema mais jurídico do que
técnico, atrasando enormemente os programas governamentais e, conseqüentemente, resulta na contratação, na maioria das vezes, de empresas
sem condições de fazer a obra com a qualidade e prazo desejados.
As leis são feitas com base nas experiências sofridas e vividas. Devem
ser, portanto, passíveis de modificações para seu aperfeiçoamento, mas
isso não está ocorrendo com a nossa 8.666. Entre muitas de suas falhas,
destacamos alguns itens a nosso ver prioritários para correções.
As obras estão sendo colocadas em licitação sem projeto completo e
detalhado, prejudicando totalmente a comparação das propostas.
Não estão sendo analisados devidamente os preços apresentados, faltando elementos para se decidir sobre a exeqüibilidade ou não dos valores
apresentados. Não é possível simplesmente se contratar apenas pelo preço
mais baixo.
É preciso melhorar a sistemática de seleção de fornecedores. Ela mudou
de uma legislação muito restritiva para outra completamente aberta. Não
leva em consideração a necessária experiência do fornecedor.
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Tema 5 – Problemas das licitações
Foto 1 – Vista dos viadutos na Serra de Botucatu, Rodovia Castello Branco,
km 205. Vê-se à direita um viaduto, cuja construção foi interrompida antes
de completar os pilares, devido à insolvência da empresa construtora. Obra
contratada por preço mais baixo em 1970, e abandonada há quase 35 anos,
um “Monumento ao Preço Inexeqüível”.
Outro ponto fundamental, senão o mais importante, é a ausência de
responsabilização das empresas e dos profissionais de seu corpo diretivo
pela proposição de preços inexeqüíveis, que resultam em alterações no
objeto do contrato ou no insucesso econômico, provocando piora na qualidade ou paralisação das obras.
Medidas simples, como proibição de participar de outras licitações por
um longo período, ou a eliminação do registro cadastral, reduziriam certamente grande parte dos problemas.
Muitas vezes, falta ao administrador público tomar decisões drásticas
que certamente não são políticas. Num primeiro momento, aparentemente, essas medidas atrasariam seu programa de obras, mas evitariam o incalculável prejuízo de uma obra parada.
Em defesa da engenharia
Foto 10 – Viaduto concluído, porém nunca utilizado, pois o acesso depende
da conclusão do outro viaduto cujas obras pararam há mais de 30 anos. Um
“Monumento à má gestão”.
Bastaria, por exemplo, toda vez que uma empresa apresentasse uma
proposta 10% abaixo da proposta em segundo lugar, ou 20% abaixo da
média das propostas, que fosse exigido para a assinatura do contrato um
seguro-garantia no valor total da proposta. Caberia à seguradora exigir da
empresa garantias de tal monta, que, se fosse o caso, desistiria do contrato, evitando assim o prejuízo ao órgão contratante.
Existe uma tendência natural do responsável pelo setor público em contratar pelo preço mais baixo, numa atitude de autopreservação, para evitar
acusações de favorecimento. Mas não se levam em conta as conseqüências
futuras dessa prática se a obra não for completada ou quando o contratante for obrigado a fazer concessões para não levar a empresa à insolvência
ou paralisar a obra.
No início de minha carreira profissional, tive a oportunidade de trabalhar
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Tema 5 – Problemas das licitações
em uma empresa que construiu dois trechos da Rodovia Castello Branco,
um em Boituva e outro em Itatinga, o que gerou uma especial predileção
pela rodovia e pelo seu entorno, culminando com a compra de uma propriedade rural no município de Itaí, que vim a conhecer durante a construção, pois dele vinham as “pedras brancas” que originalmente revestiam os
acostamentos da estrada.
Tenho viajado pela Castello de São Paulo a Avaré desde a sua inauguração, em 1971, no mínimo uma vez por mês em 34 anos. Poderia dizer que
conheço cada curva, cada obra de arte e até hoje me lembro dos trechos
de cada empreiteira durante as obras. É para mim motivo de orgulho ter
participado da construção dessa rodovia que reputo ser uma das melhores,
senão a melhor do Brasil.
Cada vez que passo pelo trecho da serra de Botucatu, na altura do km
205, vejo uma enorme cicatriz naquela maravilha, um trecho com quase
dois quilômetros sem a pista direita. Ali, não foram concluídas as obras de
um viaduto.
Lembro-me de ter passado pelo local durante a construção da estrada,
pelos caminhos de serviço, pois não existiam ainda as pistas, e visitado as
obras de dois viadutos em construção na pista esquerda. O maior deles,
com aproximadamente 540 metros de comprimento, estava sendo construído dentro dos melhores padrões da época e tinha um canteiro de prémoldados na parte mais elevada, muito bem organizado e eficiente, o que
permitiu à empresa entregar a obra em tempo para a inauguração no início
de 1971.
Nessa ocasião, foi aberta uma licitação para a construção do viaduto da
pista direita, semelhante ao outro. O órgão contratante impôs um orçamento básico muito baixo e só aceitaria propostas com preços entre 90%
e 110% do orçamento. Apresentaram-se apenas três empresas. A companhia que estava terminando o viaduto da pista esquerda, com o canteiro
montado e em operação, a empresa em que eu trabalhava, com canteiro a
10 km do local, e uma terceira empresa que sabidamente não tinha condições técnicas e econômicas para uma obra de tal porte.
Quando as propostas foram abertas, o resultado foi surpreendente para
alguns. A última empresa citada trazia proposta de 90% do orçamento
do órgão e as outras duas propostas com preços em torno de 130% do
orçamento. A proposta da empresa para a qual eu trabalhava, que era especializada em obras de arte, talvez a mais importante do país na época,
ficou em terceiro lugar. A empresa com canteiro já instalado e operando no
Em defesa da engenharia
local ficou em segundo lugar com uma pequena diferença (menos de 3%).
A empresa com o menor preço assinou o contrato, iniciou as obras e, após
alguns meses, ficou insolvente. Resultado: a companhia teve sua falência
decretada, paralisando a obra.
O que vimos foi uma sucessão de erros: a imposição de preços inexeqüíveis pelo órgão contratante, a seleção pelo preço mais baixo, a nãoaceitação das outras propostas que sinalizavam claramente que alguma
coisa estaria errada na licitação.
O sentimento de autopreservação (ou despreparo?) faz com que o administrador público erradamente aceite o preço mais baixo, mesmo com
graves evidências de erros. Caso o administrador público na época tivesse
anulado a licitação devido à grande discrepância entre os preços, a obra teria atrasado uns seis meses e não 35 anos. Certamente, o prejuízo causado
ao contribuinte seria infinitamente menor do que estamos pagando pelo
capital empregado e não utilizado. Posso afirmar que se a obra tivesse sido
contratada pelo segundo preço, o custo-benefício teria sido melhor e não
teríamos esta vergonhosa cicatriz há 35 anos.
Para agravar as conseqüências da decisão de contratar a obra pelo menor preço, sem maiores análises, encontramos na altura do km 206 um
outro viaduto escondido pelo mato. Para a sua utilização, ele necessita da
conclusão do viaduto citado. Lembro bem de sua construção, que acabou
sendo inútil, não tendo sido utilizado até hoje (mais de 30 anos). Mais um
desperdício de verba pública aplicada e não utilizada devido a um erro administrativo em uma licitação.
Para completar a má gestão da coisa pública, essas obras atravessaram
mais de 30 anos sem que nenhuma providência tenha sido tomada para
a solução do problema. Em 1998, durante as licitações para seleção de
concessionárias para a operação e manutenção das rodovias paulistas, o
governo perdeu uma grande oportunidade de incluir estas obras no escopo
de serviços da concessionária do trecho.
Como não se deve perder a esperança de um dia haver alguma lucidez
na administração pública, quem sabe ainda decidam negociar com a concessionária do trecho a conclusão dessas obras pelo seu contrato, sem pagamento extra, apenas estendendo o prazo de concessão por algum tempo
a ser definido em função dos custos da obra.
Esses são tristes exemplos das conseqüências da escolha pelo menor
preço e da má gestão dos recursos públicos.
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Tema 5 – Problemas das licitações
Em defesa da engenharia
Os desafios das licitações
de obras públicas
Artigo de janeiro de 2006
Muito se tem discutido sobre os imensos obstáculos que devem ser superados para a contratação de uma obra pública e sua conclusão a contento.
É possível enumerar uma enorme lista de dificuldades, apontar algumas
causas prováveis e mesmo apresentar algumas sugestões para minimizar os
grandes prejuízos que todo esse complexo emaranhado de problemas causam
à administração pública, à sociedade e às empresas de engenharia.
Durante o 2º Encontro Nacional de Obras Públicas – Gestão de Políticas
Públicas (ENOP), realizado no Instituto de Engenharia, enfatizou-se que a Lei
8.666 não é a única responsável pelos problemas nas licitações e que as falhas
estão no não-cumprimento da legislação e na impunidade. Podemos acrescentar também mais um problema: a elasticidade dos conceitos éticos.
Editais que não são preparados rigorosamente nos termos da lei, falhas nas
especificações e exigências descabidas para a qualificação das licitantes provocam os usuais processos judiciais que embargam a contratação das obras.
A necessidade de um projeto completo está prevista na lei, mas não
é cumprida. A falta de um projeto completo da obra, as deficiências nas
especificações técnicas e nos termos do edital provocam a disparidade de
preços na licitação, alterações do valor do contrato e a baixa qualidade
técnica da obra.
Tornou-se muito comum a utilização indevida dos meios judiciais. A facilidade com que se obtém uma liminar para a suspensão de um processo de
licitação é tão grande que essa prática se transformou numa maneira de pressionar o órgão licitante e os outros concorrentes tendo em vista a obtenção
de vantagens econômicas. O Poder Judiciário, com sua habitual morosidade,
contribui bastante para a deterioração do processo.
Foi enfatizado também no 2º ENOP que as ações judiciais embargando licitações estão paralisando o Estado, que não consegue aplicar os recursos existentes, deixando a sociedade sem as obras necessárias e os fundos disponíveis
parados, enquanto as empresas e entidades ligadas à construção criticam a
falta de investimentos.
Uma forma de se diminuir a quantidade de mandados de segurança seria
impedir o licitante que estiver retardando qualquer licitação com recurso judicial, de participar de outras licitações para a mesma entidade enquanto a
Justiça não liberar o prosseguimento da licitação embargada.
Outro problema: os preços propostos “manifestamente inexeqüíveis”.
Como provar a “inexeqüibilidade”? É uma situação muito delicada e uma
discussão difícil. Mencionou-se no 2º ENOP a possibilidade de se exigir um
seguro dos licitantes para cobrir as grandes diferenças de preços.
Propomos uma solução bem mais prática que certamente contribuirá para
a diminuição das propostas excessivamente baixas. Quando um licitante apresentar preços abaixo do orçamento básico da entidade, ou preços inferiores
ao limite de 10% abaixo da média dos preços propostos por todos licitantes,
a entidade contratante deve exigir, para assinatura do contrato, um seguro de
performance (performance bond) no valor total do contrato da obra.
Como essa exigência estará no edital de licitação será um alerta às seguradoras de que os preços propostos pela empresa estão com alto nível de risco,
o que poderá gerar questionamentos e até a negativa de cobertura, corrigindo
as imperfeições do sistema e preservando a entidade contratante e a sociedade das obras inacabadas e mal executadas.
Com respeito aos preços baixos, que certamente resultarão em trabalhos
de má qualidade ou inconclusos — e, na maioria das vezes, em alterações de
escopo do contrato para cobrir as deficiências nos preços propostos —, seria
muito importante o estudo de solução que envolva a responsabilização dos
profissionais que elaboraram os orçamentos e a punição rigorosa das empresas envolvidas.
Quanto ao orçamento preparado pela entidade contratante, deveria também ser criada uma forma de responsabilizar os técnicos que elaboraram o
orçamento e o administrador público que, por um gesto político ou por falta de conhecimento técnico, impõe preços absolutamente inexeqüíveis ou
incompletos. Chegamos ao absurdo de encontrar casos de BDI (coeficiente
aplicado aos custos diretos para cobrir os custos indiretos e a remuneração
da empresa) com valores abaixo de 30% e chegando até a zero em algumas
entidades públicas.
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Foto: André Siqueira
Em defesa da engenharia
Edemar de Souza Amorim
Apêndice
Discursos
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Apêndice – Discursos
Em defesa da engenharia
pecial, minha mulher Denise por estar ao meu lado ao longo desses anos
todos, sempre presente e pronta para qualquer desafio, com a mesma
confiança e disposição do dia em que decidiu seguir a vida comigo. Aliás,
o doutor Vasconcelos foi nosso padrinho de casamento.
A todos os outros, meu muito obrigado.
Discurso de posse no
Instituto de Engenharia
10 de abril de 2007
Senhoras e Senhores,
Enquanto pensava no que dizer nesta oportunidade, iniciei uma lista
com o nome das pessoas a quem gostaria de agradecer pelo apoio nesses
mais de 40 anos de caminhada. Tarefa essa que logo se mostrou inviável, primeiro pelo efeito desses mesmos 40 anos em minha memória e,
segundo, por ter, logo de início, estabelecido um limite de apenas dez
minutos de fala. Optei, então, por concentrar meus agradecimentos em
torno de duas pessoas. Ambas representam todos os outros que, como
elas, têm seu lugar assegurado na minha lista pessoal de gratidão.
Ao engenheiro Augusto Carlos de Vasconcelos, meu professor e primeiro empregador, o primeiro de uma lista de engenheiros que acreditaram no meu trabalho e abriram as portas de suas empresas para que eu
pudesse seguir meu caminho até aqui. Agradeço também, de forma es-
Na verdade a idéia da minha candidatura à presidência do Instituto de Engenharia nasceu há pouco mais de um ano. Ao analisar os resultados obtidos
durante a gestão do engenheiro Lafraia, e avaliando o que ainda havia por fazer vi
que o Instituto de Engenharia precisava de alguém que garantisse a continuidade
das importantes mudanças que vinham sendo feitas.
Ao fato de ter participado ativamente dessas reformas e à minha educação presbiteriana, que jamais me deixaria fugir do dever com a comunidade, somou-se o grande desafio de pôr em prática algumas idéias
nada despretensiosas numa época de transição para a engenharia. E não
será uma tarefa fácil, pois o mundo mudou, e mudou muito.
A missão que os conselheiros, a diretoria, o Camil, o Dario, o Ozíres, o
Paulo, o Permínio e eu temos pela frente será tão difícil que este discurso
de posse deveria se autodestruir cinco segundos após sua leitura.
Senhoras e senhores, trago boas e perturbadoras novas: os cientistas
da idade média tinham razão, o mundo é plano. As fronteiras físicas
estão se erodindo em velocidade exponencialmente superior aos muros
físicos levantados nas mais diversas áreas de risco e conflito, levando
consigo todos os paradigmas que conhecíamos e convivíamos.
Quando a maioria daqueles que hoje tomam posse recebeu seu diploma e iniciou sua carreira profissional, era preciso agendar uma chamada
telefônica interurbana com muita antecedência. Caso a família não fosse
abonada o bastante para que a casa tivesse acesso a uma linha telefônica, a alternativa era o correio. Hoje, com um computador conectado à
internet fala-se com o mundo inteiro, instantaneamente, por no máximo
5 centavos o minuto.
A maioria dos participantes ativos dos eventos do Instituto de Engenharia não se dá ao trabalho de vir a este auditório. Conecta-se ao website
do Instituto de Engenharia confortavelmente de suas casas, escritórios ou de
uma cafeteria comum num país qualquer, e participam ativamente, fazendo
perguntas e sendo respondidos pelo palestrante.
Hoje, em qualquer TV a cabo, a engenharia virou entretenimento.
Pontes, viadutos, megaedifícios ou grandes desastres concorrem com co-
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Apêndice – Discursos
médias, filmes e shows em pé de igualdade. Os reality shows saíram do
confinamento do Big Brother na Globo e passaram a construir carros,
contratar executivos, reformar casas, apartamentos e até pessoas.
Na corrida por notícias, as grandes redes perdem espaço para uma
legião de indivíduos munidos de celulares e conexões de banda larga, os
seus blogs, flogs, podcasts, YouTubes e wikis são mais ágeis, mais abrangentes, mais profundos, mais precisos e, principalmente, totalmente incontroláveis. Garantem, assim, cobertura jornalística local de qualidade
e profundidade, impossíveis num horário nobre ou numa publicação de
alcance nacional.
A informação que conhecíamos não é mais a mesma, perdeu o direito
autoral, o controle e a forma. Ganhou, porém, velocidade, abrangência e
vida. A informação retida viu seu valor virar pó e o conhecimento, hoje,
precisa ser compartilhado para continuar valendo alguma coisa.
A música compartilhada na rede faz a gravadora perder dinheiro, mas
lota os shows do artista, vendendo mais ingressos e mais produtos de
licenciamento. A internet ganhou vida, uma segunda vida, onde literalmente se navega, onde os websites viraram imóveis e sua página tem
formato de um prédio.
Loucura? Ficção? Brincadeira? Para a grande maioria aqui presente,
talvez. Mas o Second Life, um ambiente virtual com 5 milhões de participantes, movimentando algumas centenas de milhões de dólares por mês,
já atrai grandes corporações como Nokia, General Motors, Petrobras e
muitas outras estão a caminho.
O mundo real também não é fácil. No Brasil, completamos 22 anos
sem grandes obras. O país entra em 2007 com a mesma infra-estrutura
de 1985. Pior: parece querer seguir com ela, desafiando a lógica e buscando o crescimento a qualquer custo, sem sequer preparar-se para ele.
O atual governo anuncia seu grande plano de investimentos, onde o
maior problema não é a disponibilidade financeira. Pois a dura verdade, no
entanto é não haver profissionais capacitados para gerenciar os projetos
pretendidos.
Chegamos à absurda situação onde um engenheiro tem mais perspectivas de trabalho nas mesas de operações de um grande banco do que
nos canteiros de obras, escritórios de projetos ou fábricas espalhadas
pelo país. Esperemos que, num futuro próximo, a carteira do CREA não
precise ser validada no Banco Central ou na BM&F.
Resumindo, temos a grata tarefa de reerguer a engenharia brasileira,
Em defesa da engenharia
trabalhando em conjunto com associações, clubes de engenharia, federações, grupos, institutos, sindicatos entre outros num esforço nunca
antes necessário no Brasil. Esta gestão terá de trabalhar na capitalização
da popularidade do Discovery Channel, transformando os jovens telespectadores impressionados em matrículas nos cursos de engenharia das
universidades brasileiras.
Teremos de lutar contra a mediocridade da maioria dos cursos de
engenharia, contra a banalização da contratação de serviços e projetos,
para o estabelecimento de critérios de qualidade e intensificação da fiscalização. Teremos de trabalhar para nos adaptar a um mundo formado
por redes, onde não há a distinção entre o consumidor e o produtor, pois
a empresa que vende seus produtos pela internet também por meio dela
compra seus insumos e suprimentos. Onde o profissional que oferece um
curso a distância, participa de um treinamento de sua empresa.
Enfim, é chegada a hora de repensar o papel de instituições como a
nossa, passando de representante de categoria à articuladora de debates, de depósito de informações à construtora de conhecimento, de entidade isolada à líder do movimento de criação de um país melhor.
Portanto, senhoras e senhores, com a sólida fundação deixada pelo
engenheiro Lafraia, é hora de pôr a mão na massa, é hora de construir
um novo Instituto de Engenharia. Precisamos erguer uma nova instituição, moderna, atualizada, abrangente, inclusiva e atuante.
Obrigado
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Apêndice – Discursos
Em defesa da engenharia
Título de Eminente
Engenheiro do Ano 2007,
concedido ao engenheiro
Gilberto Kassab
11 de dezembro de 2007
Em 1893, na fundação da Escola Politécnica de São Paulo, Antonio
Francisco de Paula Souza – provavelmente inspirado pelo desenho na fachada da Politécnica de Zurique – introduziu a imagem da deusa romana
Minerva como símbolo da escola.
Em 1916, Paula Souza usou a mesma simbologia para o recém-fundado
Instituto de Engenharia. Desde então, a figura de Minerva, ou Atena na
mitologia grega, filha de Júpiter, deusa da sabedoria, da guerra, das ciências e das artes é usada para representar qualidades como o poder mental,
a prudência e a sabedoria, além da habilidade para soluções práticas, a
capacidade de reflexão e o amor à beleza e perfeição.
O busto de Minerva, feito por Caetano Fracaroli na fundição do IPT,
em 1945, que se encontra na sala da diretoria da Politécnica, foi reproduzido para simbolizar e reconhecer a excelência e o destaque do homenageado de hoje.
Escolher alguém para receber o título de Eminente Engenheiro do Ano
parece uma tarefa fácil, mas, felizmente, é exatamente o oposto.
Escolher um homenageado não se trata apenas de premiar a celebridade do momento, oferecer reconhecimento a alguma ilustre personalidade
ao final de uma carreira brilhante ou trocar favores políticos com algum
partido ou associação.
Por 91 anos, o Instituto de Engenharia não vem poupando esforços
em prol da engenharia brasileira, na busca pelo conhecimento técnico, na formação acadêmica e prática dos jovens, na defesa do exercício
profissional. Enfim, tem lutado diariamente para tornar o Brasil um país
melhor.
Esta, senhoras e senhores, é uma instituição que olha para o passado
apenas para moldar o futuro. Uma instituição que pensa no futuro do
Brasil como o Instituto de Engenharia não pode se dar ao luxo de conceder um título olhando para trás, apenas como forma de reconhecimento
das contribuições feitas pelo homenageado em sua vida profissional ou
pessoal. O passado pertence aos livros de história e, num país carente de
exemplos como o Brasil, é preciso muito mais.
Por isso, senhoras e senhores, o título de Eminente Engenheiro do Ano
é uma das mais importantes formas de forjarmos as novas gerações de engenheiros, aquelas que deverão carregar a tocha, dando continuidade ao
trabalho iniciado há mais de 500 anos quando os primeiros portugueses
desembarcaram em nossas praias.
Hoje, ao conceder o título neste Auditório Ibirapuera, especialmente
escolhido, numa justa homenagem ao 100º aniversário de Oscar Niemeyer,
o maior arquiteto brasileiro, estamos apresentando aos jovens brasileiros
o significado de ser um grande engenheiro, seja atuando como executivo,
empresário, acadêmico, profissional liberal ou gestor público.
Estamos também contrariando a cultura da mediocridade que assola
esta nação, acrescentando mais um exemplo numa galeria de ilustres brasileiros, cujas vidas devem servir de inspiração, de modelo, de guia, de
objetivo nas escolhas profissionais das próximas gerações.
E, por ser este um reconhecimento eterno, cujo prazo não vence em 12 meses,
nomeio os Eminentes Engenheiros presentes para incluí-los nesta homenagem:
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92
Apêndice – Discursos
1977
1980
1984
1987
1999
2001
2004
2005
2006
- Antonio Hélio Guerra Vieira
- Ozires Silva
- Theodósio Pereira da Silva
- Wagner Freire de Oliveira e Silva
- João Carlos de Souza Meirelles
- Mário Franco
– Vahan Agopyan
– Dario Rais Lopes
– Rubens Ometto Silveira Mello
É chegada a hora de perguntar: O que significa ser reconhecido como
Eminente Engenheiro na gestão pública?
Segundo o Dicionário Houaiss, a engenharia é aplicação de métodos
científicos ou empíricos à utilização dos recursos da natureza em benefício
do ser humano. No campo da gestão pública, terreno onde a política e
os interesses partidários e eleitorais imperam sobre as necessidades dos
cidadãos, destacam-se os engenheiros que não se curvam ante a opinião
pública. Engenheiros que ousam desafiar a ordem natural dos gabinetes
e estratégias eleitorais, cumprindo a missão maior de no curto período de
um mandato entregar uma cidade melhor a seu sucessor.
Um Eminente Engenheiro deixa as marcas de sua gestão na história
da cidade e na vida dos cidadãos, tomando para si a responsabilidade
por projetos tão ousados quanto necessários. Um Eminente Engenheiro
enfrenta forças corporativistas pelo bem maior, resiste às críticas e aos
protestos dos que temem o novo. Tudo isso para, no futuro, ser imitado
sem o devido reconhecimento.
Como aconteceu com o planejamento de Prestes Maia, responsável por
obras como as avenidas Nove de Julho e 23 de Maio. O Metrô iniciado por
Faria Lima e impulsionado por Figueiredo Ferraz. A organização administrativa e a informatização das receitas municipais de Olavo Egydio Setúbal.
Os corredores de ônibus de Mário Covas e os túneis, viadutos e avenidas
de Paulo Maluf e Reynaldo de Barros.
Senhoras e senhores, sob o risco de ser considerado corporativista, protecionista ou arrogante, ouso dizer que a engenharia deveria ser a qualificação
mínima para um candidato pretender assumir a gestão de uma cidade.
Ao contrário de outros cargos do poder executivo, a gestão municipal
Em defesa da engenharia
é muito mais um trabalho técnico do que político, exigindo de seu ocupante, além de um contato próximo com a população e seus problemas, a
visão voltada para sua solução e a confiança nos resultados.
A gestão municipal, nas palavras do homenageado de hoje, em nosso
jornal, é uma rotina de construir, recuperar e manter as obras.
Um prefeito não define políticas industriais, fornece água, energia e
vias de acesso e transporte público para a indústria. Um prefeito não define a política de saúde, constrói e mantém hospitais, postos de saúde e
contrata médicos. Um prefeito não define o currículo escolar, constrói e
mantém a escola, contrata e qualifica o professor, distribui merenda, uniforme e condução para os alunos.
O Engenheiro Gilberto Kassab, hoje prefeito de São Paulo, recebe este
prêmio pela demonstração diária do espírito da engenharia no exercício de
seu cargo e na administração da cidade de São Paulo.
Assumindo um mandato por uma circunstância política, foi, desde o
primeiro momento, rotulado por seus adversários e pela mídia como o
prefeito que o paulistano não elegeu.
Porém, em apenas um ano, provou não ser o prefeito que o cidadão
paulistano queria, mas o prefeito que o cidadão paulistano precisava. Pois
arregaçou as mangas, ignorou a opinião pública e fez o que se esperava
dele e de alguns de seus antecessores.
Iniciou um extenso programa de manutenção de obras na cidade, prédios
públicos, escolas, postos de saúde, ruas, pontes, piscinões entre outras.
Assumiu projetos de gestões anteriores parados ou em lenta progressão
por diversos motivos, entregando o Expresso Tiradentes e a ponte estaiada
Octávio Frias.
Enfrentou os movimentos sociais e vem desocupando as áreas de mananciais invadidas em torno das represas Billings e Guarapiranga, abandonando a posição letárgica e paternalista do Estado brasileiro.
Aumentou a contribuição da prefeitura na construção do Metrô de São
Paulo e do Rodoanel, deixando de assistir passivamente aos esforços do
governo do estado, pois a redução dos congestionamentos da cidade é
mais importante do que o crédito pela obra.
Aprovou, aplicou e tem fiscalizado o cumprimento da mais importante
legislação de combate à poluição visual, que vinha escondendo a beleza
da arquitetura da cidade de São Paulo sob cartazes, outdoors, luminosos,
letreiros, fachadas e sinais. Restaurou o amor próprio do paulistano mostrando até onde vai o poder de um prefeito determinado.
93
94
Apêndice – Discursos
Em defesa da engenharia
Portanto, por ter enfrentado de frente os problemas de São Paulo, por
não submeter a técnica a pressões políticas, por ter mostrado que para
administrar é preciso muito maios do que discursos e promessas, tenho
a honra de entregar ao engenheiro e prefeito Gilberto Kassab o título de
Eminente Engenheiro do Ano.
Obrigado
Título de Eminente
Engenheiro do Ano 2008,
concedido ao engenheiro
Adriano Murgel Branco
11 de dezembro de 2008
Hoje, pela segunda vez, uma cópia do busto da deusa romana Minerva de autoria de Caetano Fracaroli, feito na fundição do IPT em 1945, será utilizada para
simbolizar e reconhecer a excelência e o destaque da contribuição de um grande
engenheiro para este país e seus cidadãos.
Muitos aqui podem estar curiosos a respeito de como o Instituto de Engenharia
selecionou o merecedor do título de Eminente Engenheiro do Ano de 2008. Quais
critérios imperaram na indicação dos candidatos? Quem participou da escolha do
homenageado? Por que este determinado candidato foi escolhido? Afinal, o que se
pretende com tal premiação?
Uma instituição quase centenária como o Instituto de Engenharia nunca poupou
esforços na defesa da engenharia brasileira, investe constantemente seus recursos
na busca do conhecimento e na discussão de soluções para os problemas da sociedade, incentiva a formação acadêmica e a prática dos jovens, além da atualização
daqueles já formados há mais tempo. Defende também o exercício profissional, a
engenharia e o engenheiro e luta diariamente por um Brasil melhor.
Senhoras e senhores, uma instituição como essa não pode se dar ao luxo de
premiar uma celebridade instantânea, reconhecer o ocaso de uma carreira brilhante de alguma ilustre personalidade, trocar favores políticos com algum partido ou,
simplesmente, atuar somente para melhorar o fluxo de caixa.
Num país carente de exemplos como o Brasil é preciso muito mais. Uma instituição que pensa no futuro do país como o Instituto de Engenharia não pode se
apequenar concedendo um título olhando para trás, apenas como forma de reconhecimento das contribuições feitas pelo homenageado em sua vida profissional
ou pessoal.
Senhoras e senhores, o passado pertence aos livros de história. A ele devemos recorrer para nos tornarmos melhores, mais desenvolvidos, mais sábios. Mas temos de
deixar as memórias de tempos mais fáceis e confortáveis para as fotos de família.
O título de eminente engenheiro do ano é uma das mais importantes formas
de forjarmos uma nova geração de engenheiros. Elas são as pessoas para quem
passaremos a tocha, dando continuidade ao trabalho iniciado por Martim Afonso
de Souza ao fundar a primeira vila brasileira no litoral de São Paulo.
O título de eminente engenheiro do ano contraria a cultura da mediocridade
que assola esta nação, ao acrescentar mais um exemplo numa galeria de ilustres
brasileiros, cujas vidas devem servir de inspiração nas escolhas profissionais das próximas gerações. Sempre observo que este é um reconhecimento eterno, com prazo
de validade não vence em doze meses.
O dia 11 dezembro foi escolhido como o Dia do Engenheiro e, por todo o país,
associações, federações, clubes, institutos, sociedades, sindicatos e tantas outras
instituições encontram sua maneira de prestar uma justa homenagem aos profissionais tão necessitados quanto esquecidos num Brasil atormentado por anos de
crises internas e externas. Este é um país que enfrenta as conseqüências de governos ruins ou medíocres, responsáveis pela perda de uma geração de profissionais
atraídos pelas mais diversas e financeiramente mais compensadoras carreiras.
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96
Apêndice – Discursos
Poucos sabem, porém, que o dia 11 de dezembro tem um significado muito
maior, pois há exatos 75 anos o Decreto Federal 23.569, de 11 de dezembro 1933,
regulamentava a profissão do engenheiro, do arquiteto e do agrônomo, criando
também o sistema CONFEA/CREA.
Pois, nesse dia 11 de dezembro, dia do engenheiro, aniversário do CONFEA/
CREA, na homenagem a um engenheiro com destacada atuação na gestão pública,
fazemos um alerta e uma convocação.
O Brasil está perigosamente excluindo os engenheiros da gestão pública. Flertando com o atraso e o perigo. Pois entrega setores estratégicos nas mãos de administradores, economistas, médicos, advogados e até delegados de polícia, pondo
em risco vidas humanas, apenas para acomodar seus acordos políticos.
Prefeituras, secretarias, ministérios, autarquias, estatais em todas as esferas do
serviço público têm de reorganizar imediatamente seus departamentos técnicos,
com administradores, prefeitos, secretários, ministros de áreas como habitação,
saneamento, transporte, energia, mineração, gestão municipal, cujos cargos deveriam ser restritos a engenheiros.
Que fique claro que não pregamos uma absurda reserva de mercado profissional, pois não defendemos cartórios e feudos trabalhistas, mas quando vemos uma
obra do Metrô desabar, quando assistimos a malha rodoviária se desintegrando por
falta de manutenção, quando assistimos a um dos estados mais desenvolvidos do
país submergir mais uma vez na lama do descaso, quando aceitamos a fé em Deus
e o regime pluviométrico nacional como política energética de longo prazo, chegamos à conclusão que providências sérias e urgentes devem ser tomadas.
É hora do CONFEA/CREA estabelecer a necessidade, para não dizer a obrigatoriedade, da contratação de engenheiros para departamentos técnicos e de fiscalização. É hora
dos cargos executivos do mais alto escalão de setores de infra-estrutura serem preenchidos por engenheiros experientes, nomeados por critérios técnicos e não políticos.
É hora do CONFEA/CREA exigir do setor público os mesmos critérios do setor
privado: planejamento, metas e resultados quantitativos e qualitativos. É hora de
parar de fingir que os governos podem ignorar o técnico em favor do político. É
hora de parar com as contratações de serviços especializados de engenharia por
pregões. Trabalho intelectual não é mercadoria. É hora de enterrar a cultura do preço inexeqüível, das obras paralisadas, dos objetivos eleitorais e eleitoreiros que nos
condenam a políticas de longo prazo, que duram até a próxima eleição.
O título de Eminente Engenheiro de 2008 é também um chamado urgente. Um alerta para a perda contínua de profissionais que construíram o Brasil moderno, elevando-o
de pais subdesenvolvido a líder emergente, cada vez mais próximo do primeiro mundo.
O título de Eminente Engenheiro de 2008 apresenta o perfil de excelência que a
Em defesa da engenharia
sociedade espera e deve começar a exigir dos gestores públicos nomeados por seus
representantes eleitos. Enfim, o Título de Eminente Engenheiro de 2008 é o marco
da luta do Instituto de Engenharia pela valorização da engenharia e do engenheiro.
Portanto, por uma carreira brilhante a serviço da engenharia, do estado e da
cidade de São Paulo, por destacar-se na gestão publica nas secretarias da habitação
e transportes, pela produção técnica, acadêmica e literária, pelo exemplo a ser seguido, tenho a honra de entregar ao engenheiro Adriano Murgel Branco, o título
de Eminente Engenheiro do Ano.
Obrigado
Discurso na comemoração
dos 92 anos do Instituto de
Engenharia
13 de outubro de 2008
Hoje é dia de comemoração, de alegria, de reconhecimento de méritos.
É, portanto, uma oportunidade para prestar uma homenagem a vitoriosos
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Apêndice – Discursos
profissionais, grandes homens que dedicaram sua vida à profissão de engenheiro, cujas carreiras servem de exemplo às novas gerações.
Em 1894, 1895 e 1896 foram criadas três grandes escolas de engenharia, que prepararam e ainda preparam para a vida jovens que contribuíram
e contribuirão para o desenvolvimento do país.
A Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Escola de Engenharia da Universidade Federal de Pernambuco e a Escola de Engenharia
Mackenzie onde, respectivamente, João Del Nero, João Galvão e Carlos
Rosa completaram seus estudos.
Escolhemos três exemplos de sucesso, com origens tão diferentes, formados nas mais tradicionais faculdades de engenharia do Brasil e que chegaram ao topo da carreira, graças à dedicação, competência, liderança,
humildade, rígida formação ética e muito, mas, muito trabalho.
Del Nero escolheu a área de projetos, tendo participado de centenas
deles, em todas as fases de elaboração e galgado postos nas empresas que
trabalhou chegando ao cargo maior: presidente de uma das mais importantes empresas de engenharia de projetos do Brasil, com forte atuação
internacional.
Carlos Rosa escolheu a área de construção, tendo atuado em dezenas
de obras chegando à presidência de uma das mais importantes empresas
de construção brasileira e com forte atuação no exterior.
João Queiroz Galvão, juntamente com seus irmãos contribuiu decisivamente para o desenvolvimento das empresas do grupo e atualmente com
seu irmão Antonio, comanda um dos maiores conglomerados que se originou na construção e hoje atua em diversas áreas como a construção pesada, a construção civil, imóveis, perfuração de poços de petróleo e gás, a
construção e operação de plataformas marítimas, agropecuária, alimentos
e concessões, também com atuação em todo o Brasil e em diversos países.
O grupo, com aproximadamente 30 mil funcionários, é um dos maiores
empregadores de engenheiros do país.
É, para mim, uma imensa honra estar aqui hoje participando desta merecida homenagem. Gostaria que meus colegas e amigos João Galvão,
Carlos Rosa e Del Nero aceitassem essa homenagem em nome de todos
aqueles que participaram do Instituto de Engenharia nestes 92 anos de
árduas batalhas e daqueles que participarão das que se aproximam.
Obrigado
Em defesa da engenharia
Homenagem ao Instituto de
Engenharia pelos seus 91 anos
17 de outubro de 2007,
na sessão da Câmara Municipal de São Paulo
O ano é 1916, a Primeira Guerra Mundial traz uma ressaca ao entusiasmo civilizatório do progresso e da técnica que varreu o mundo nas últimas
décadas. No Brasil, que sentia os primeiros efeitos da modernidade trazida
pela iluminação pública, abastecimento de água, saneamento, transporte
público, ferrovias, urbanização das principais cidades e a novíssima telefonia que vinha substituir o telégrafo, uma grande inquietação nascia.
Como atender à necessidade de um projeto de desenvolvimento para o
Brasil e, ao mesmo tempo, deixar a dependência da tecnologia estrangeira,
criando as condições para o crescimento da engenharia nacional?
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Apêndice – Discursos
Em 1 de julho, um pequeno grupo de 12 grandes homens, acreditando
ser a hora de fundar uma instituição que criasse as condições necessárias
para o florescimento da engenharia brasileira, formou uma “comissão encarregada de fundar uma associação com dois fins principais: a cooperação
profissional e a defesa dos interesses da classe dos engenheiros”. - subscreveram então uma circular aos amigos e colegas. Eram eles:
Augusto C. da Silva Telles, Fonseca Rodrigues, Rodolpho Baptista de San
Thiago, Alfredo Braga Victor da Silva Freire, Rodrigo Claudio da Silva, Paulo
Cavalheiro, Carlos Américo Barbosa de Oliveira, Nestor Marques Ayrosa,
Hippolyto Gustavo Pujol Junior, Augusto de Toledo e Guilherme Winter.
A primeira adesão a ser registrada, com o número 0001 foi do engenheiro Sylvio de Aguiar Maya, que datou (7 de julho de 1916) e assinou,
colocando também o seu endereço. Em 13 de outubro, já com 286 membros, nascia o Instituto de Engenharia. Sua missão era “defender os direitos
da categoria e os interesses de classe, a regulamentação da profissão e o
posicionamento frente a questões nacionais”.
Foi formada uma diretoria provisória composta por quatro engenheiros:
Antonio Francisco de Paula Souza, Rodolpho Baptista de San Thiago, João
Pedro da Veiga Miranda, Francisco Pereira Macambira. Em 15 de fevereiro
de 1917, já com a saúde bastante debilitada, Antonio Francisco de Paula
Souza foi eleito o primeiro presidente e foi aprovado o primeiro estatuto.
Desde então, por meio de publicações periódicas, debates, palestras,
arquivos de projetos entre tantas ações, o Instituto de Engenharia vem participando ativamente em todos os grandes eventos da nação, o que inclui
os planos para infra-estrutura e o crescimento das cidades, a participação
ativa na Revolução Constitucionalista e na construção do país.
A atual estrutura de representação da engenharia e dos engenheiros,
com a organização do sistema CREA/CONFEA e os sindicatos, também é
responsabilidade do Instituto de Engenharia que acreditava ser necessária
a divisão de responsabilidades na defesa da sociedade, dos profissionais e
da engenharia, pois uma única entidade não seria capaz de conciliar todos
os interesses envolvidos.
Passaram pela presidência do Instituto de Engenharia 38 ilustres profissionais. Vale a pena listá-los:
Em defesa da engenharia
Francisco de Paula Ramos de Azevedo
Francisco Paes Leme de Monlevade
Alexandre de Albuquerque
Francisco de Salles Vicente de Azevedo
Alberto de Oliveira Coutinho
Luiz Ignácio R. de Anhaia Mello (arquiteto)
Francisco Emygdio da Fonseca Telles
Ranulpho Pinheiro Lima
Roberto Cochrane Simonsen
Alexandre Albuquerque
Antônio Prudente de Moraes Neto
José Maria Toledo Malta
Annibal Mendes Gonçalves
Cícero da Costa Vidigal
Heitor Portugal
Argemiro Couto de Barros
Álvaro Pereira de Souza Lima
Amador Cintra do Prado (arquiteto)
Henrique Pegado
Plínio de Queiroz
João Soares do Amaral Neto
Augusto Lindenberg
Frederico Abranches Brotero
Helio Martins de Oliveira
Henry Maksoud
Eduardo Celestino Rodrigues
Flávio de Sá Bierrenbach
Jan Arpad Mihalik
Bernardino Pimentel Mendes
Luiz Alfredo Falcão Bauer
Lauro Rios Rodrigues
Plínio Oswaldo Assmann
José Roberto Bernasconi
Maçahico Tisaka
Alfredo Mário Savelli
Cláudio Amaury Dall’Acqua
Antonio Helio Guerra Vieira e
Eduardo Ferreira Lafraia a quem tenho a honra de suceder.
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Apêndice – Discursos
Mas o fardo, apesar de prazeroso, é pesado, pois os desafios crescem na velocidade da nova tecnologia. E modernizar uma instituição centenária não é tarefa
para um homem só. Pois é chegada a hora de repensar o papel de instituições
como a nossa, passando de representante de categoria à articuladora de debates,
de depósito de informações à construtora de conhecimento, de entidade isolada à
líder do movimento de criação de um país melhor.
Porém, é nestes momentos de grandes desafios, onde o comprometimento e a
dedicação diferenciam os homens, que surgem figuras como o ilustre e incansável
vereador Toninho Paiva, que não mede esforços para prestigiar o trabalho do Instituto de Engenharia.
Meu caro Toninho, mais uma vez tenho a oportunidade de demonstrar aqui em
público toda a gratidão e o apreço do Instituto de Engenharia pela sua pessoa e o
profundo respeito por sua atuação nesta casa e pelas inestimáveis contribuições à
nossa cidade e seus cidadãos.
Nossos agradecimentos também à Câmara dos Vereadores de São Paulo, importante parceira em nossa missão, casa de portas permanentemente abertas para
debater as idéias, projetos e sugestões do Instituto de Engenharia. É um conforto
poder contar com esse apoio.
Meus caros amigos Abrahão Yazigi Neto, Alexandre Serpa Albuquerque, Alyr
Doria, Archimedes de Barros Pimentel, Conrado de Carvalho Alves, Gabriel Oliva Feitosa, Olyntho Muniz Dantas, Oswaldo José Stecca, Paulo Alcides Andrade,
Socrate Mattoli aceitem essa homenagem em nome de todos aqueles que participaram destes 91 anos de árduas batalhas e daqueles que participarão das que se
aproximam.
Obrigado
Em defesa da engenharia
Discurso de agradecimento
ao receber o título de
Cidadão Paulistano
23 de agosto de 2007
Num domingo, em julho de 1950, enquanto caminhava ao lado de meu pai,
voltando do estádio do Pacaembu, onde assistimos o infelizmente futuro campeão
mundial de futebol bater de virada o time da Suécia, começou minha caminhada
até o dia de hoje. Naquele dia, então com 14 anos, deslumbrado com o movimento,
as luzes e a vida de São Paulo, foi plantada a semente da decisão de morar aqui.
Alguns anos mais tarde, estudante de engenharia, morando com meu irmão,
numa esquina do bairro do Bexiga, ouvi, com inveja na antiga Radio Pan Americana, hoje, Jovem Pan, o discurso do presidente Juscelino Kubitschek ao receber o
título de Cidadão Paulistano. Eu já havia adotado esta cidade fantástica e comecei
a sonhar com o dia em que ela me adotaria.
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Apêndice – Discursos
Pois esse sonho se concretizou nas mãos do vereador Toninho Paiva, alguém
com quem me identifiquei logo no primeiro momento. Ele, como eu, começou
de baixo e, pelo trabalho, venceu na cidade de São Paulo. Foi esportista amador, é apaixonado pelo seu clube de futebol e incansável em sua dedicação à
cidade. Meu caro Toninho, mesmo considerando uma pequena discordância
nas cores de nossos times de coração, Deus não poderia ter enviado um mensageiro melhor para uma notícia tanto esperada. Obrigado mais uma vez.
Senhores – posso, neste dia, dizer que aceito este título com muito orgulho,
garantindo-lhes tê-lo merecido por ações e decisões que comprovam meu amor por
São Paulo. Decisões como no dia em que troquei a matrícula no Instituto Tecnológico de Aeronáutica em São José dos Campos, com casa e comida incluídos, pela
Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, onde teria de, além de estudar
muito para não perder a bolsa de estudos, trabalhar para pagar as contas de casa.
Ou na ocasião onde deixei um excelente emprego na construção da Ponte RioNiterói, para não ter de me mudar com minha família para o Rio de Janeiro.
Ações como a participação em diversas obras de infra-estrutura da
cidade, pontes, viadutos, canalização de córregos, escolas e tantas outras
que, apesar de me orgulhar em nomeá-las, não farei, evitando algumas comparações com o horário eleitoral. Mas, a vida não é um campeonato esportivo,
onde o título conquistado encerra um ciclo, termina uma jornada e remete
imediatamente todo o trabalho realizado para o passado, exigindo um novo
começo da estaca zero.
Agora é preciso fazer mais, justificando assim a homenagem recebida.
Guardando os louros da vitória, manterei as mangas arregaçadas e o propósito
firme de trabalhar diariamente por esta cidade e seus habitantes. Esta tem sido
minha missão desde que assumi a presidência do Instituto de Engenharia em
março deste ano.
Não é possível ignorar os graves problemas de São Paulo e sua desesperadora necessidade de cuidados. Obras públicas abandonadas, sem qualquer
manutenção, oferecendo riscos graves a seus usuários. Problemas que precisam ser debatidos para uma solução adequada. Políticas de gestão que devem
ser desenvolvidas, implantadas, acompanhadas e melhoradas para atender às
necessidades dos cidadãos.
Enfim, não há descanso quando ainda resta tanto a fazer e, como forma de
honrar e agradecer por esta homenagem, só posso prometer fazer mais do mesmo,
dedicando todo meu tempo, meu conhecimento e minha disposição para minha
cidade e servindo como exemplo do que é ser um verdadeiro cidadão paulistano.
Obrigado
Em defesa da engenharia
Discurso para recém-formados
em engenharia do Centro
Universitário Nove de Julho
23 de fevereiro de 2008
Prezadas formandas e formandos da Turma de 2007, dos cursos de Engenharia Civil e de Produção Mecânica, do Centro Universitário Nove de Julho.
Ser escolhido patrono de duas turmas de engenharia é uma honra, mas também uma grande responsabilidade. Pois, se por um lado temos a felicidade e a
oportunidade de participar num dos mais significativos momentos na vida de
suas famílias, não posso fugir à responsabilidade de compartilhar, mesmo que
por um breve momento, um pouco dos quase 50 anos de experiência profissional, preparando-os para enfrentar os desafios que essa nova carreira representa.
Portanto, em primeiro lugar, quero congratular-me com todos envolvidos
nesta formidável conquista: formandos, familiares, amigos e professores, este
pode ser o primeiro, mas é um grande passo em suas vidas e deve ser própria e
regiamente parabenizado e comemorado. Aproveitemos esta ocasião para mais
uma merecida salva de palmas para todos.
Por outro lado, não há melhor ocasião para compartilhar um pouco do conhecimento e da experiência acumulados numa jornada muito semelhante
àquela que vocês começam hoje.
Antes de tudo, que fique claro que nem todos vocês seguirão uma carreira
voltada para engenharia. Alguns, com espírito mais empreendedor escolherão
o penoso, porém gratificante caminho do negócio próprio. Outros se tornarão
administradores, analistas, consultores, corretores, dentre muitas profissões tão
importantes, necessárias quanto gratificantes. Parabéns, os conhecimentos e a
filosofia que o curso de engenharia deu a todos vocês os colocam na dianteira
de uma corrida cada vez mais difícil e competitiva, porém isso não acaba aqui e
o resto deste discurso também diz respeito a vocês.
Para aqueles que escolheram a engenharia, cuja certeza desta escolha vai
mantê-los no caminho de obras ou indústrias, trabalhando em projetos cada vez
mais complexos e desafiadores, parabéns pela escolha, não há nada comparável
à satisfação de um projeto completo.
Porém, apesar da desesperadora necessidade brasileira por bons engenheiros,
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Apêndice – Discursos
há uma grande distância entre graduar-se em engenharia e se tornar engenheiro. Hoje, vocês reúnem uma vasta gama de conhecimentos básicos, generalistas
e indispensáveis, que os habilitam a diminuir esta distância, mas que fique claro,
ser engenheiro é uma decisão que precisa ser mantida e renovada diariamente.
Ser engenheiro é desenvolver a capacidade de superar desafios, encarar, entender e solucionar um problema pela técnica científica com os recursos tecnológicos, materiais e humanos disponíveis, tornando melhor a vida das pessoas
envolvidas no projeto.
Ser engenheiro é um estado de constante atualização e especialização contínua, num processo interminável de formação. A velocidade dos avanços tecnológicos e das mudanças que atingimos por um lado assusta e evidencia a
necessidade de estudo constante, mas também abre oportunidades únicas que
facilitarão e agilizarão em muito essa tarefa.
Portanto, meus jovens aprendizes, minha mensagem é a seguinte: para se
tornarem um velho aprendiz como este seu patrono aqui, engenheiro, empresário, executivo, líder comunitário, pai, cidadão brasileiro e conselheiro amador,
preparem-se para trabalhar muito e estudar ainda mais.
E assim chegamos ao meu conselho, a única contribuição que ousarei
dar para orientar suas carreiras. Apaguem de suas mentes palavras como
terminar, encerrar, acabar, parar, ou qualquer outro substantivo, verbo ou
adjetivo que signifiquem que sua formação está completa. A partir de
amanhã, começa sua busca por novos cursos, novas informações, novos
conhecimentos. Amanhã pela manhã, nem bem completado o primeiro
passo de sua formação, a graduação, deve ser iniciado o segundo: a especialização; e o terceiro: a experiência. É a caminhada, não os títulos, que os
tornará engenheiros responsáveis, úteis e, principalmente, respeitados.
Caminhem com sabedoria, diligência, planejamento, disciplina, vontade, alegria e determinação. Pois não há nada mais gratificante do que, depois de uma
jornada como essa, ter a oportunidade de subir aqui e poder dar estes conselhos
a jovens como vocês, com os olhos brilhando de esperança, ansiedade e disposição para encarar uma vida dura e cheia de trabalho, mas igualmente repleta
de recompensas.
Mais uma vez, parabéns a todos e obrigado aos formandos pelo convite, pois
é uma indescritível satisfação descobrir que chegamos num ponto em nossa vida
que podemos servir de exemplo para a nova geração que assumirá a tarefa de
fazer do Brasil um país melhor.
Em defesa da engenharia
Discurso de saudação na
cerimônia de homenagem aos
100 primeiros engenheiros
“nikkeis” de São Paulo
18 de outubro de 2008
Num dia de inverno há 100 anos, vencendo a resistência de lideranças retrógradas racistas, terminava no Porto de Santos a primeira viagem do navio que se tornaria símbolo de um dos mais importantes momentos da criação do Brasil moderno.
As 165 famílias, num total de 781 pessoas, que desceram do Kasato Maru
naquela tarde, esperançosas para reconstruir suas vidas em uma terra estranha, não sabiam da dimensão histórica de sua viagem, nem da importância e
relevância de seus descendentes na construção da nação à qual chegavam.
Nos anos seguintes, ainda desafiando as duras condições de trabalho, as
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Apêndice – Discursos
diferenças culturais, comportamentais e de idioma, milhares de famílias seguiram o caminho do Kasato Maru e se espalharam pelo Brasil.
A comemoração do centenário da viagem que marcou o início da imigração
japonesa no Brasil não é só um momento de festa e alegria para aqueles que
depositaram sua confiança, seu trabalho e suas esperanças num país distante,
mas também um momento de reconhecimento e agradecimento de um país
pela contribuição inestimável daquelas pessoas e seus descendentes.
O reconhecimento, nesta ocasião, dos 100 primeiros engenheiros e engenheira Nikkeis, formados nas escolas de engenharia de São Paulo, não é
somente uma justa homenagem a estes profissionais, mas também um agradecimento aos seus familiares por acreditarem no Brasil e por investirem na
construção de uma sociedade plural e civilizada.
A engenharia brasileira nesses 100 anos de história pode contar com inúmeros casos de sucesso oriundos da colônia japonesa que merecem destaque.
Exemplos como o do arquiteto e urbanista Ruy Otake grande nome da arquitetura moderna, dos engenheiros Maçahico Tisaka e Tunehiro Uono, presidente
e vice do Instituto de Engenharia, do professor Kokei Uehara e também do
engenheiro Yojiro Takaoka, que tiveram participação ativa na construção das
mais importantes obras de infra-estrutura no Brasil.
Hoje, infelizmente, o fluxo foi invertido, o Japão superou seus problemas
estruturais de 100 anos atrás, tornando-se uma das maiores economias mundiais e, após décadas em que famílias inteiras desembarcavam nos portos brasileiros, seus descendentes tomam o caminho de volta, fugindo das constantes
crises brasileiras e em busca de um futuro melhor, levando em sua bagagem
um pouco do Brasil para Japão, contribuindo para aproximar ainda mais os
dois países.
A imigração japonesa é um marco na história brasileira pelo desenvolvimento econômico e social, pelas contribuições à sociedade e ao país, pela
beleza de sua arquitetura, cultura e gastronomia, pelos valores familiares e
pessoais disseminados e adotados pelos brasileiros.
Para a sorte dos brasileiros, os habitantes da Terra do Sol Nascente, estão entre
os principais responsáveis pelo alvorecer de uma nova nação, diferenciada, aberta,
tolerante, acolhedora, batalhadora e com um grande futuro pela frente.
Em defesa da engenharia
Participação na abertura
do simpósio “Aquecimento
Global e a Comercialização de
Créditos de Carbono”
16 de outubro de 2007
As mudanças climáticas globais representam um dos maiores desafios
da humanidade. Além de ser um problema sem fronteiras, seu enfrentamento torna necessária a tomada de consciência de sua importância e exige
mudanças de hábitos de consumo e do comportamento das pessoas em
termos mundiais.
As crescentes emissões de Dióxido de Carbono (CO2) e outros gases como
o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O) na atmosfera têm causado sérios
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Apêndice – Discursos
problemas, sendo que o efeito estufa é o mais notório. Importante ressaltar
que, as emissões de hoje têm efeitos de longa duração, podendo resultar em
impactos no regime climático ao longo dos séculos.
Evidências científicas apontam que, caso as concentrações de CO2 continuem crescendo, a temperatura média da terra vai aumentar, provocando
a elevação no nível dos mares, além de efeitos climáticos extremos (enchentes, tempestades, furacões e secas), alterações na variabilidade de eventos
hidrológicos (mudanças no regime das chuvas, avanço do mar sobre os rios,
escassez de água potável). Tudo isso, evidentemente, coloca em risco a vida
na terra (ameaça a biodiversidade, a agricultura, a saúde e o bem-estar das
pessoas).
Tais indicações já podem ser percebidas com as alterações que a meteorologia vem sofrendo: ciclones no Sul do Brasil, um verão atípico na Região
Sudeste, ondas de calor na Europa, além da diminuição da neve no inverno
chileno e de alterações no período de esqui.
Historicamente, os países industrializados têm sido responsáveis pela
maior parte das emissões de gases de efeito estufa. Contudo, na atualidade,
várias nações em desenvolvimento, entre elas China, Índia e Brasil, também
se encontram entre os grandes emissores.
Assim, os mais de 160 participantes da Conferencia das Nações Unidas
sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (ECO 92), que ocorreu em junho
de 1992 no Rio de Janeiro, se comprometeram a ratificar uma convenção
para criar mecanismos que diminuíssem as emissões dos gases causadores do
efeito estufa. Definiram, por exemplo, alternativas para absorção de CO2,
através dos projetos de seqüestro de carbono.
Desta forma, os países desenvolvidos e as indústrias criaram uma nova
utilidade e um novo mercado para o carbono, que consiste no carbono capturado e mantido pela vegetação. O interesse e o investimento no seqüestro
de carbono e a comercialização de créditos de carbono são as formas por
meio das quais essas indústrias e os países industrializados podem equilibrar
suas emissões e mantê-las a níveis seguros.
Essas providências foram sistematizadas no chamado Protocolo de Kyoto,
firmado por 59 países em 1997, por ocasião da terceira Conferencia da Partes (países signatários da Convenção Quadro), que trata de incentivos para a
redução na emissão de gases de efeito estufa.
Para que o Protocolo de Kyoto entrasse em vigor era necessária a ratificação, aceitação, aprovação ou adesão, de pelo menos 55 governos Partes
da CQNUMC (Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climá-
Em defesa da engenharia
ticas) e por Partes incluídas no Anexo I, que contabilizem juntas pelo menos
55% da quantidade total de dióxido de carbono equivalente emitida por
essas partes em 1990. Assim, a ratificação da Rússia era essencial para que o
protocolo fosse aplicado, já que os EUA retiraram-se do plano em 2001.
Em 16 de fevereiro de 2005, 90 dias após a Rússia formalizar sua adesão,
o Protocolo de Kyoto entrou em vigor, já que foi alcançado o número mínimo
de países signatários.
O Protocolo representa a aprovação mundial para implantação de medidas que objetivem a redução de gases do efeito estufa; a exemplo, implantação de projetos de Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL).
O MDL é um mecanismo financeiro que possibilita aos países desenvolvidos, cumprir seus compromissos quantificados de limitação e redução de
emissões de gases de efeito estufa (GEE) assumidos com a assinatura do Protocolo, financiando projetos de redução e/ou de seqüestro de emissões em
seu território ou nos países em desenvolvimento.
Portanto, com ou sem os EUA - que travou um jogo de interesses em
nome do prejuízo econômico que seria causado pela adoção de tais medidas,
protelando os interesses mundiais - o Protocolo de Kyoto se tornou realidade,
bem como o mercado emergente de commodities ambientais. Dada a importância desses temas, o Instituto de Engenharia promove o
simpósio “Aquecimento Global e a Comercialização de Créditos de Carbono”, cumprindo com seu dever de transmitir conhecimentos e informações,
debatendo temas de interesse da sociedade.
Encontram-se, aqui, especialistas que nos dão a honra e imensa satisfação
em recebê-los e gostaria de manifestar nosso profundo agradecimento pela
colaboração voluntária, por nos concederem o privilégio de compartilhar seus
conhecimentos e experiências.
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Tema 5
Discursos
Em defesa da engenharia
Participação no simpósio
“Etanol e Biomassa”
15 de agosto de 2007
Alavancado pelos preços do petróleo e pelas ameaças do aquecimento global, o etanol
começou a atrair a atenção dos governos e
dos investidores de todo o mundo e começa
a despontar como uma commodity de âmbito global e presença permanente na matriz
energética de muitas nações.
No Brasil a indústria do açúcar e do álcool a partir da cana, como fonte de riqueza e reserva de valor, remonta ao período
colonial, como menciona o Padre Vieira em
suas cartas ao Reino. E ao longo do tempo
acumulou uma seqüência de altos e baixos nos campos econômico e social que
ajudaram a cimentar a experiência e maturidade de que o setor desfruta hoje
em dia.
Não sei se todos sabem, mas o Instituto de Engenharia teve papel muito
importante no estabelecimento do álcool como combustível. Alguns associados
nossos, já nas décadas de 30 e 40, realizaram extensos trabalhos sobre sua utilização em veículos automotores, vislumbrando assim seu uso intensivo como
substituto de derivados de petróleo, tal como está implantado hoje.
Refiro-me especificamente aos associados: engenheiros Eduardo Sabino
de Oliveira e Lauro de Barros Siciliano. São eles os verdadeiros pioneiros do
Pró-álcool.
Quero aproveitar a oportunidade para cumprimentar o filho de Lauro de
Barros Siciliano, o senhor Lauro Penteado Siciliano, aqui presente.
O sucesso atual do etanol, além da progressiva “tecnificação” do processo
produtivo, especialmente em São Paulo, deriva de uma série de fatores favoráveis internos e externos: preços, aumento da produtividade e das fronteiras
agrícolas, pesquisa industrial (flex fuel), apoio governamental (percentual de
adição à gasolina).
Apontado por alguns, como panacéia de todos os males ambientais e energéticos, e criticado por outros por seu caráter de monocultura capaz de provocar a exaustão dos solos, devastação das florestas e o comprometimento das
reservas alimentares da humanidade, o etanol merece uma reflexão técnica e
ponderada de seus limites e vantagens para o Brasil. É isso que o Instituto de
Engenharia pretende fazer neste simpósio.
Em princípio, a abordagem, feita por especialistas na matéria, estará centrada em alguns temas relevantes: situação atual e perspectivas futuras do etanol; inovações tecnológicas e co-geração de energia, agroindústria, segurança
alimentar e meio ambiente, buscando as opiniões e soluções que permitam otimizar a eficiência energética, ambiental e econômica do etanol, sem comprometer o crescimento sustentado do país e a sobrevivência de sua população.
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Apêndice – Discursos
Av. Dr. Dante Pazzanese, 120 – 04012-180 – São Paulo – SP
+ 55 11 3466 9200 – [email protected] – iengenharia.org.br
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Em defesa - Academia Panamericana de Ingeniería