MUNDO MENTAL Ênio Resende Machado 2008 – 3ª Edição Autor: Ênio Resende Machado E-mail: [email protected] TODOS OS DIREITOS RESERVADOS, INCLUSIVE AS CARACTERÍSTICAS GRÁFICAS. 2 Para Gabriela, para as irmãs dela, Rafaela, Marcela, Isabela e para a mãe de todas “elas”. 3 INTRODUÇÃO O presente trabalho tem por escopo estender o alcance da experiência pessoal, e ao mesmo tempo colocá-la em xeque; não a experiência, mas sua interpretação, na medida em que é necessário expressá-la em um texto escrito se pretendo torná-la pública. No seu bojo, uso mais a palavra para informar sobre o método que o levará a vivenciar aquela mesma experiência. E é essa possibilidade que me imprime ânimo para a publicação desta obra: - O seu ENCONTRO. Sem ele, esse trabalho será igual a muitos outros, um risco n’água... mas se “os seus ouvidos estiverem prontos”, ouça. 4 Nota explicativa: Esse quadro representa as LINHAS DO TEMPO. Ao se deparar com essa gravura nas entrelinhas, remeta-se às páginas 108/109 para um confronto de informações e um auxílio didático à compreensão do texto. 5 MUNDO MENTAL O tema a ser tratado neste curso é “o nosso mundo mental”. Nele estudaremos a mecânica de funcionamento da mente. Eu não poderia começar sem antes agradecer ao professor Lauro Larrea de Queiroz. O professor é o autor dos livros Fonte da Vida, Pesquisa da Mente, Dinâmica da Mente e A um passo do EU maior, sendo que este último não foi editado. Neles você vai se deparar com muito mais, podendo aproveitar a compreensão desta síntese pessoal como um catalisador da sua busca individual. 6 Professor, Se encaminhar o desorientado, fazer feliz o solitário e agradecido o insatisfeito são razões da sua busca, por mim, sinta-se realizado. O aprendizado através dos seus livros me faz optar diferentemente do que seria se assim eu não houvesse aprendido. Essas escolhas me possibilitam viver momentos cuja intensidade, desde já, me têm prolongado a vida. Os meus sentidos, o meu corpo e todo o meu ser bradam em uníssono um claro e sincero: Muito obrigado! Que a paz esteja contigo. 7 O MARTELO O martelo é a ferramenta símbolo deste curso. Primeiro porque todo conhecimento adquirido é uma ferramenta de transformação. Todo conhecimento, assim como todas as ferramentas, produzirão melhores resultados na medida do uso adequado (ferramenta x ofício) e da adequação ao uso (homem x ferramenta), ou seja, quanto mais se pratica mais se aprende. Quanto mais marteladas, menos erramos o prego, menos acertamos o dedo e mais se constrói. Portanto, ao final, não espere acertar todos os pregos, pois só a partir de hoje é que esta ferramenta está sendo colocada à sua disposição. E lembre-se, o martelo também tem a função de desencravar os pregos mal fincados ou cravados em lugar indevido, o que é possível usando o lado oposto ao malho. Assim também na vida, podemos fazer, errar, corrigir e recomeçar. O momento é AGORA. Então, a finalidade deste curso não é modificar você, ou julgar você, é simplesmente fornecer uma ferramenta, uma técnica, para você encontrar o seu EU verdadeiro e reconhecer que: “Onde há perigo, há também salvamento crescente!” O que é isso? Ao mudar o nosso foco de atenção e, conseqüentemente, a nossa compreensão de determinado acontecimento, o feio pode expressar belezas ocultas, o ruim pode trazer bons resultados e o perigo pode ser transmutado em salvamento. 8 É que toda situação tem dois lados, e é por isso que você é assim, é por isso que você está onde está. Foram suas escolhas entre o feio ou bonito, bom ou ruim, posso ou não posso, que colocaram você aí. Assim, desvencilhar-se do feio ou do difícil pode ter nos desviado em direção ao bonito e fácil que, no entanto, não resultou em construção. Tudo nos faz crer que essas escolhas foram nossas, mas em muitos casos a escolha já estava escrita e o nosso futuro esteve forjado desde a infância. Mas, como? Por quê? Primeiro, nós temos que nos lembrar que a mente é uma só, mas ela se manifesta sob duas formas: A primeira forma é a OBJETIVA É o modo de nos relacionarmos com o mundo externo no nosso dia-a-dia; é quando nos relacionamos com o mundo material lá fora. É através das nossas ações (e até omissões) que nós interagimos com esse mundo exterior. Ele é prático, é palpável, visível. Na medida em que você concentra a sua atenção nesse mundo exterior, você acorda de manhã e já começa a se relacionar com as coisas, com as pessoas, com o seu mundo material aí fora. É sobre esse processo que nós vamos tratar aqui. Sem querer esgotar o rol de forças causais, compreender esse processo pode explicar porque nosso futuro esteve forjado desde a infância, não olvidando, sobretudo, que outras forças, ainda mais sutis, desempenham papel também fundamental. Esse processo de envolvimento e manifestação da mente objetiva com o mundo exterior obedece, na maioria das pessoas, a uma regra já estabelecida, a uma norma de conduta mental. E nós agimos e reagimos obedecendo a impulsos conscientes e inconscientes. 9 Daí porque, neste curso, será apresentada a você uma técnica para se inteirar da mecânica desse processo e se localizar de tal forma, que você possa atuar na sua vida com AUTONOMIA, ou melhor, com SOBERANIA diante das situações que, inexoravelmente, se apresentam, sejam objetivas ou subjetivas. Soberania aqui representa liberdade em relação ao que nos foi impregnado (forjado) na infância, pois somente o exercício deste atributo poderá ensejar a originalidade e a eficiência indispensáveis à ação responsável e inclusiva de que tanto nos afastamos, isto quer dizer educação, desenvolvimento e paz para nós e os demais. A outra forma é a SUBJETIVA Essa forma de manifestação da mente se dá quando vivenciamos o nosso mundo interno; é quando nós passamos por um processo de introspecção; é quando nos relacionamos com o mundo imaterial aqui dentro. Você vivenciando um estado de ser, sutil por natureza. A nossa essência é sutil, subjetiva. Mas vivemos no mundo objetivo, nos envolvemos com o mundo material e estamos apegados às nossas necessidades que têm origem na posse, no sexo, no dinheiro, no poder material, no poder sobre as pessoas, enfim, no DESEJO. Por conta disso, vamos trabalhar primeiro com a forma de processamento mental que é “regra”, que é vista como “normal” na conduta diária da maioria das pessoas ao se relacionarem com o mundo material circundante. 10 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO FASES DO PROCESSO MENTAL As gravuras dispostas no cabeçalho representam os nossos sentidos absorvendo o mundo externo (processo objetivo) e as fases do processo mental que é regra (processo subjetivo). Primeiro nós temos o MUNDO MATERIAL que é a natureza, as pessoas e as coisas, os objetos inventados, produzidos e cultivados pelo homem. Veja que todo esse mundo material está lá fora e nós vamos nos relacionar com ele diuturnamente. É através dos SENTIDOS (visão, audição, tato, olfato e paladar) que nós vamos absorver esse mundo material. Assim que ele é absorvido, é imediatamente incorporado a nossa MEMÓRIA, no nosso banco de dados. Ele é incorporado e arquivado como se fossem chapas fotográficas, trazendo no seu bojo os conceitos e as informações sobre aquelas imagens: feio ou bonito, bom ou ruim, de perigo, de alegria, de tristeza, de ser moral ou imoral, tudo conforme a crença do lugar e das pessoas que lhe informam e conceituam. Então, a toda imagem se relaciona um conceito e/ou uma emoção. 11 Esses elementos conjugados, que se traduzem nesse complexo de informações, ficam arquivados na nossa memória, no nosso banco de dados, que é composto de uma parte consciente e outra inconsciente. O complexo conjugado de mundo material, dos sentidos e da nossa memória, já está disponível, existe aqui e agora. Perceba que esse conjunto é, de certo modo, POTENCIAL. Em seguida, a partir de uma CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA sobre a nossa memória, sobre esse potencial, é que o raciocínio passa a funcionar. O RACIOCÍNIO começa a analisar de acordo com os seus interesses e objetivos, o que é correto e o que não é, o que pode ser feito ou não e, ao finalizar suas conjeturas, ocorre a decisão. Na medida em que você DECIDE, você vai AGIR ou então dar seguimento à sua reflexão e imaginação (PENSAMENTO). Vamos trabalhar essas fases individualmente daqui para frente. 12 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO O MUNDO MATERIAL De início, identificamos o diversificado mundo material que é o mundo exterior, que está lá fora: a natureza, as pessoas e as coisas. Nesse mundo podemos verificar que: Tudo que o homem construiu, nasceu primeiro em sua MENTE, via da sua vontade e da sua inteligência. O resto também foi e está sendo criado via da vontade do CRIADOR, da sua inteligência, a saber: a natureza e nós próprios, conforme disposição dessa Mente Maior. Donde decorre que a origem de tudo é MENTAL. Neste momento, eu quero que você observe tudo que está aí nessa sala onde você estiver, essa cadeira, essa mesa etc. Tudo que você vê nessa sala, primeiro, antes de surgir no mundo, aconteceu e nasceu na mente do seu construtor, e aí, a partir de um processo inteligente e da sua vontade, ele transformou o material disponível na natureza e construiu a sua cadeira, a sua mesa e todas as coisas que existem aí ao seu redor, exceto alguma planta que exista por aí etc. Mas o resto também foi e continua sendo criado via da vontade, da inteligência, vamos dizer assim: do Criador; a saber, a natureza e nós próprios; eis que permanecemos aqui no decorrer da manifestação da Vida, nós e a natureza, ela sempre se transformando e nós também. 13 Entendo que continuamos sendo criados a cada instante, estamos em evolução constante, não estamos prontos enquanto não somos capazes de reconhecer e experimentar o potencial latente em nós. Imagino, assim, que o nosso Sol é uma forma de energia mais próxima do início, mas como vida está mais distante do reencontro, porque está mais próximo da base da existência material e, por isso, mais distante de reconhecer e experimentar o aludido potencial. Explicando: Antes dos dinossauros, o Sol já existia, ele existe mais próximo do início desse universo, porém, ele não sofreu qualquer evolução perceptível ainda que se transforme a cada momento, porque a escala de tempo que experimentamos como seres humanos não é apropriada diante de tamanha grandeza; portanto, para nós, ele existe somente como fonte de energia, desde os primórdios. A energia do Sol, combinada com os elementos naturais na Terra resultou nas espécies já extintas, mais as espécies sobreviventes; estas, sim, se apresentam em escala crescente de evolução, despontando o Homem como o seu apogeu. Ao Homem é dado o reencontro, ao Sol não. Com isso, quero dizer somente que o Sol, que é responsável como um pai pela fecundação da vida nesse planeta, é também o ente próximo mais antigo nesse nosso mundo material e que ele experimenta uma realidade de grandeza diferenciada da nossa, por isso, em nossos estudos, vamos nos limitar à natureza humana. Voltemos à criação mental. Veja, a minha inteligência, a minha vontade e o meu pensamento são impalpáveis (imateriais) e mesmo assim vão dando forma material a este texto que você lê agora, portanto, o imaterial originou o material e está nele (quando você, depois de ler o que escrevi, me compreende e os nossos pensamentos se identificam; quando você vê um exemplar deste livro exposto em qualquer lugar; ou, no caso da construção mental de uma outra pessoa: quando você vê prontas a mesa e a cadeira que se originaram no pensamento do construtor). Da mesma forma, vejo, na criação universal, um ímpeto invisível (uma inteligência, uma vontade ou um pensamento) que nos instiga à evolução (a 14 nós e à natureza), nos direciona e nos conduz à sua compreensão. Essa compreensão se dá na forma de CONSCIÊNCIA; é o corpo denso tomando consciência do corpo sutil instigador e experimentando a sua graça, a sua grandeza, a sua plenitude. Eu diria: o amor imanente. Esse impulso natural nos impõe uma responsabilidade e nos identifica como “construtores coadjuvantes do Universo". Daí, concluir que o nosso estado atual é de vir a ser. O ser humano é um ser animal, é matéria, é denso, é de existência transitória, porém, é capaz de vir a se identificar com o etéreo (imaterial), com a Inteligência e a Vontade Superior que nele habita, que é o estado almejado na Busca. Essa é a nossa Busca. Esse é o encontro que almejamos, e esse desejo está inserido em cada célula do nosso corpo, nos minerais, nas plantas e nas amebas também; mas eles estão lá atrás na evolução (na compreensão, no diálogo com a sua essência, com o amor imanente), por isso a oportunidade é nossa. Nós estamos mais bem capacitados para a essa conquista, mas nos falta equilíbrio, harmonia física e mental. Assim, deduzimos que existe uma Vontade Maior que nos criou e impulsiona o nosso desenvolvimento, dando direção e sentido à nossa vida e, também, à natureza. Portanto, a origem de tudo é mental. Daí a importância do estudo e do desenvolvimento desse processo, dessa análise pormenorizada. Até que experimente, apenas reconheça que acima da nossa existe uma Inteligência, uma Vontade Superior e que esse poder de discernimento, de alguma forma, se incorporou em nós e que, no entanto, o Seu esplendor permanece obstaculizado pela matéria grosseira que nos envolve. 15 Podemos observar que, exceto alguns poucos, a maioria de nós perdeu o contato com essa Vontade Inteligente e Superior, “essa orientação de condutas ecologicamente corretas”. Entendendo isso, vamos considerar: Subtraia o homem da natureza e os rios voltariam a estar limpos, povoados de peixes, se regenerariam; todo o nosso planeta poderia voltar a viver em equilíbrio. Bastaria subtrair o homem da natureza, porque quem está interferindo desordenadamente na natureza é o próprio homem, e a sua interferência repercute e prejudica a si mesmo. Isso é importante dizer por que nós estamos tratando aqui do mundo material lá fora, maltratado, explorado, sugado de forma inconseqüente. O homem não vê que está plantando no próprio quintal a semente da miséria, da fome, da dor, da violência e da destruição da vida. É a miséria, em razão da ganância de alguns, que provoca a fome em milhares e a dor em muitos, que se tornam violentos e provocam a morte de qualquer um. Porque a bala certeira atingiu quem plantou a dor, mas a perdida pode ter matado o inocente que semeou a paz, o amor. Esse é o nosso mundo material lá fora. E nós interferimos nele. Nós somos a causa dessa transformação desordenada, desse desequilíbrio na natureza animal, vegetal e humana. Mas não precisa ser assim. Essa prisão em que vivemos tem grades, mas não tem paredes. Se olharmos na direção correta poderemos experimentar a liberdade. Infelizmente, nos apegamos às grades, assim como o deficiente já convalescido tem medo de soltar as suas muletas porque se acostumou a elas. 16 Nada obstante, podemos reverter esse quadro porque tudo decorre das nossas escolhas. Nós, como indivíduos, somos um “corpo” que é conduzido (consciência individual) e experimenta os resultados decorrentes de nossas ações, de nossas escolhas, e como sociedade (consciência social), também. Vamos em frente? 17 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO OS SENTIDOS Agora nós vamos estudar a participação dos nossos SENTIDOS no processo mental. É através deles que nós vamos apreender esse mundo lá fora. Para exemplificar, minha filha Isabela, de 7 anos, estava aprendendo esta fase do processo mental já na escola... e ela me pediu uma orientação. Naquele momento, eu lhe expliquei como funciona um interruptor de energia e concluí que havia o perigo de choque se estivesse molhado, ou mesmo em razão da “tomada de energia” que normalmente está acoplada ao interruptor. Em seguida, questionei sobre quais os sentidos ela havia feito uso para compreender, apreender o significado, a utilidade e a precaução que se devia ter com o interruptor e com a tomada de energia. Então ela percebeu que o sentido da VISÃO a fez distinguir o que era um interruptor e o que era uma tomada de energia; usando sua AUDIÇÃO ela compreendeu a finalidade daquelas peças; com o sentido do TATO ela poderia reconhecer o que é um choque de 220 volts etc. Revisando em conjunto, nós percebemos que ela tinha incorporado novas imagens (do interruptor e da tomada), novos conhecimentos (a finalidade de cada um), o nome ou rótulo dado a cada uma das peças e, por fim, um con18 ceito de perigo, cuja conseqüência seria levá-la a evitar, pelo receio e atenção, uma sensação de dor: O CHOQUE. Esse medo do choque é emocional e se torna inconsciente ou, no mínimo, autônomo, na maioria dos casos. Principalmente se a pessoa tem a experiência da descarga elétrica dos 220 volts na pele... E é sempre assim, juntamente com as imagens incorporamos conceitos, emoções. Outro exemplo. O Estrangeiro: Nós vamos criar uma situação hipotética de enraizamento do preconceito contra o Estrangeiro. Um estrangeiro qualquer. Essa aversão se denomina xenofobia. Certa vez, uma criança visitava um determinado aeroporto. Ela percebeu que havia muitas pessoas diferentes na aparência física, no vestir e principalmente no falar. Intrigada com sua observação, perguntou ao pai: – Quem são essas pessoas? Respondeu o pai: – Todas essas pessoas são estrangeiras, nasceram e moram em outro país. Você deve evitar se aproximar delas, porque todos os estrangeiros estão aqui no nosso país para nos roubar, roubar as nossas riquezas; eles são pervertidos sexualmente; além de maníacos, eles são loucos. Os estrangeiros são muito perigosos, evite-os. Cuidado! Então, a criança viu lá fora o estrangeiro. Através dos sentidos incorporou suas imagens mais o conceito do pai e, junto, estabeleceu-se uma emoção de receio, de aversão, de perigo, de medo. Retrocedendo, temos a criança antes do conceito paterno, livre para se relacionar e curiosa a respeito daquela miscelânea de raças; e temos a criança após a informação recebida... apreensiva, receosa, com medo. 19 Hoje, adulta, aquela criança, ela está impregnada daquele conceito. Provavelmente tem evitado relacionamentos com os estrangeiros, porque aquela aversão tornou-se inconsciente diante da força e do poder da opinião paterna. Ela assimilou a informação sem questionar porque não tinha capacidade de análise, eis que os pais na nossa infância são o símbolo da sabedoria, do poder e, como conseqüência, do respeito. Assim, suas idéias e conceitos se estabelecem no nosso inconsciente com facilidade. Quanto mais retrocedemos na infância, menos conceito há no nosso consciente e no nosso inconsciente. Ë por isso que uma criancinha acha graça quando nos escondemos atrás de uma fralda e, de repente, aparecemos como num passe de mágica por detrás do pano. Aquela criança é tão pura, tão original, que não percebe a sua presença ali atrás da fralda. No seu banco de dados não existe registro de experiências suficientes para lhe possibilitar compreender aquele mais simples artifício. Uma criança, ainda no berçário, não lhe julga, não lhe ofende, não lhe ameaça. À medida que vai crescendo, essa indiferença vai sumindo e os preconceitos vão surgindo. Aí, aí, se você for um estrangeiro... Mas o que tem a ver isso com os nossos sentidos? É que você não usa mais os seus olhos somente para ver, como fazia aquela criancinha no berçário. Tudo com o que você se depara você analisa, superficial ou profundamente. Você usa sua experiência, as informações recebidas dos seus pais, dos professores, dos livros, dos amigos, da televisão etc., para julgar, ofender, ameaçar, ou valorizar, elogiar, declarar-se. Você analisa por via do raciocínio, que utiliza as informações do seu banco de dados; por exemplo, aquela informação sobre os estrangeiros. Se você não se lembra mais dos dados daquela informação, a simples imagem do estrangeiro evoca do seu inconsciente aquelas emoções: receio e medo. Então você diz: – Não sei por que, mas não consigo me relacionar com pessoas 20 de outros países, eu tenho certo receio, sabe, parece que eu já nasci assim, com essa aversão... Portanto, você está olhando com os olhos da memória e não com os olhos da face, não com o sentido da visão. Em vez de você ver o indivíduo estrangeiro, você vê a sua idéia preconcebida dos estrangeiros e já sente uma emoção específica, mas ela é inconsciente e, mesmo assim, você identifica-se com o resultado daquele processo mental (seja ele consciente ou inconsciente). Assim como a idéia desse mundo circundante e que está sendo feita por você agora, neste momento, ou as lembranças dos momentos próximos passados, todas elas estão impregnadas de emoções; se o momento lembrado foi feliz lhe faz alegre, se não, triste; daí você conclui que essa sua vida é boa ou que essa vida sua é ruim. Estamos assim: Não olhamos mais as coisas na sua originalidade, lá fora. Se não vemos a imagem real, mas sim um conceito, nós não vivemos a imagem real. Nós projetamos um conceito daquela imagem, e aí, tudo já se perdeu... Por isso é que nós dizemos que estamos usando os sentidos para memorizar: você foi lá na sua memória, lá no seu passado e alcançou um conceito – ou talvez tenha pressentido somente o eco de uma emoção inconsciente –, em seguida projetou no momento vivido a sua idéia da coisa ou da pessoa, a idéia pré-estabelecida. Isso nunca foi pensar, isso nunca foi VIVER. Se o seu valor é o do outro que informou aquela idéia, aquele conceito, onde está você? Veja bem, nós já verificamos que usamos os sentidos para aprender, mas só aprendemos quando não temos um conceito já formado ou quando, mediante o desarraigamento de uma velha concepção (consciente), incorporamos uma nova compreensão e conseguimos modificar “racionalmente” aquele conceito preestabelecido, não obstante, invariavelmente, permaneça a emoção original e contraditória a respeito. Nesse sentido, não havendo possibilidade de 21 sublimar os conceitos estabelecidos inconscientemente e suas emoções respectivas, resta-nos a malfadada roda-viva. Atente-se para que nessa situação a modificação isolada do preconceito (sem se aperceber da emoção inerente ao velho hábito) pode redundar numa situação idêntica àquela em que o professor pós-graduado em relacionamento infantil, ao ver uma criança se aproximando, será assolado pelo ímpeto antigo de impingir maus tratos ao menor, o que pode resultar numa ofensa de fato ou não. Normalmente, quando o preconceito já está formado, nós o projetamos no outro. Essa projeção nos impede de ver a realidade oculta sob o manto da ignorância, das emoções e conceitos arraigados em nós e que sustentamos inconscientemente. Aquele adulto não se recorda dos dados informados pelo pai e que o levaram ao preconceito sobre estrangeiros, mas a emoção que se estabeleceu lá na infância e está inconscientizada é o bastante para impedir seus relacionamentos. A emoção é um sentimento, você a sente, não a define. Na verdade, ela é a rota estabelecida pela sua fisiologia nas experiências mais infantis, os primeiros passos de sua fisiologia neural, determinada pelo conceito externo então experimentado, absorvido incontinenti e perpetuado vida afora. Mas ela – a emoção - se estabelece sutilmente, na calada do seu mundo sensorial. Por isso ele – o indivíduo - acha que já nasceu “assim”. O problema é que nós adultos já sabemos, já temos um conhecimento atual e geral, ou seja, para quase tudo nós já temos um rótulo, um conceito formado para todas essas coisas, e de quebra, já gostamos ou não, já queremos ou não, já estamos emocionalmente relacionados. Devido à importância desse tópico, vamos recapitular com exercícios. Esse é o processo mental a que estamos submetidos. A regra. Não se desespere, há uma saída. 22 Um exercício: Para facilitar a compreensão, ao dizer a palavra FUSCA, eu queria que você buscasse no seu passado as imagens que se relacionam com esse nome, esse veículo. Perceba como você se relaciona com essa lembrança do seu passado. É claro, ao trazer à tona essa idéia, você vai se deparar com uma cena; por exemplo, o Fusca do seu amigo. Junto com essa imagem vem uma emoção de tristeza porque aquela lembrança é de um episódio onde vocês capotaram o Fusca e seu amigo perdeu a vida. A minha história com o Fusca, particularmente, é alegre, pois me lembro do Fusca bege, 1500, o Fuscão do meu pai. Aquele momento relembrado foi motivo de alegria para toda a família. Mas esse Fusca, com esta minha história, só eu posso acessá-la, pois existe no meu banco de dados. Faz parte da minha experiência, do meu passado e me expõe às emoções de outrora. O seu Fusca está no seu passado. Ao me recordar eu fico alegre. Você, ao se recordar, fica triste. Mas a palavra é uma só. Ou mesmo um Fusca qualquer que esteja passando pela rua. Mas não importa, o seu Fusca é o seu passado, e o meu, o meu. O que é preciso entender é que ao me recordar eu não deveria me misturar com aquela emoção, muito menos ao ver o Fusca aí na rua... mas não somos assim. O Fusca passa e eu fico alegre, você, triste. 23 Esse é o método normal de observação e compreensão no estado em que nos encontramos. É assim que nós pensamos. Pois bem, um outro exemplo: Olhe para a pessoa que está ao seu lado. Esta pessoa está conversando. Você fecha os olhos e aquela pessoa continua conversando. Provavelmente, você continua a vê-la mesmo de olhos fechados... continua a ver aquela pessoa conversando. Isso acontece porque, ao fechar os olhos, você a vê com os olhos da mente, com a sua idéia da cena. O que não diferencia muito de vê-la com os olhos da face, porque, tanto de olhos abertos como de olhos fechados, você estava “m e m o r i z a n d o”. Olhando com os olhos da memória, da mente. Então, mesmo com os olhos abertos nós continuamos a ver com os olhos da mente, analisando, raciocinando, pré-conceituando a imagem que está lá fora, mas isso não é ver a realidade, é ver a sua idéia da cena. Portanto, você está vendo a sua imagem das coisas e não a coisa em si. Muitas vezes um quadro, a foto de uma pessoa querida quer nos dizer algo, é como se o retratado estivesse nos julgando; se estivermos bem, ele nos admira; se estivermos mal, ele nos critica. Mas quem admira e quem critica somos nós mesmos. Foto é foto. Quadro é quadro. É o meu estado de espírito que projeto no quadro. Se é assim com um quadro, imagine com as pessoas. A infinidade de projeções que alimentamos ser verdade. 24 Veja o trecho de um texto de Herman Hesse: “Impuro e desfigurante é o olhar do desejo...” Impuro porque não vê a originalidade, a pureza, mas distorce com a análise, com o julgamento; desfigurante porque projeta os seus anseios e desejos no que está sendo visto, distorcendo a imagem da coisa... Porque, se eu olho para uma mata que eu quero comprar, eu não vejo a mata, mas o meu interesse por ela, o meu lucro, ... e a realidade, mais uma vez se perdeu. Então, é através dos sentidos que eu apreendo o mundo imagens) e conceituo o mundo (suas (suas emoções). No caso do estrangeiro, eu aprendi que ele foi nascido e é proveniente de outro país (conhecimento); veste-se, fala e têm as feições um pouco diferente (imagem); e representa ameaça, perigo (conceito). Esse é um processo inconsciente de valores, incorporados às imagens e aos conhecimentos adquiridos através dos nossos sentidos. 25 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO A MEMÓRIA Nesse processo, nessa mecânica de funcionamento da mente, a memória é o nosso arquivo, nosso banco de dados. A MEMÓRIA É O REGISTRO DAS NOSSAS EXPERIÊNCIAS. A NOSSA EXPERIÊNCIA É TODO O NOSSO ACERVO DE APRENDIZADO ADQUIRIDO DESDE A CONCEPÇÃO ATÉ O PRESENTE MOMENTO. Nossa experiência é tudo o que incorporamos na memória de modo consciente ou inconsciente, desde a concepção, do dia em que você foi gerado, até agora. Dizem que daquele momento em diante você já passa a absorver as experiências de sua mãe, especialmente as emocionais, durante os nove meses e depois de nascido, até agora. Depois de nascido, as imagens que você presenciou foram impregnadas por conceitos dos pais, professores, amigos, livros, televisão etc.; toda essa experiência de vida é o seu passado e está registrado no seu banco de dados, no seu arquivo de memória. 10% 90% 26 Só que, nesse banco de dados, pelas pesquisas mais recentes, apenas 10% de suas experiências emocionais estão disponíveis, somente 10% delas são conscientes. Estar disponível quer dizer manipulável, aberto a sugestões e que poderá ser modificado. Então, tudo o que você vai aprendendo vai se incorporando ao seu acervo; por exemplo, o conteúdo deste curso, na proporção da sua compreensão; e amanhã você poderá adotar esses conceitos juntamente com os exercícios que serão ministrados, ou não. Por isso dizem: manipulável. No entanto, 90% daquele acervo total é inconsciente, fechado. Interfere de forma oculta nas suas decisões e nos seus conceitos. E esse inconsciente é fantástico por ser inteligente, porém, muitas vezes prejudicial porque domina o processo de raciocínio e de decisão, nos fazendo cegos à razão. E como é fechado, não aceita manipulação. Ali estão registradas fortemente todas as nossas crenças, as experiências traumáticas e, também, os momentos felizes. Os conceitos de terceiros, como os nossos pais, professores, amigos, livros, televisão... as crenças da nossa sociedade. São as pessoas e os fatos passados que influenciam fortemente na nossa formação, porque, quando “crianças” estamos sujeitos às suas idéias e conceitos, em virtude de que o “nosso mundo” e as pessoas são o espelho em que vamos nos identificar. Para eu ser aceito tenho que me igualar ao meu grupo, ao meu mundo. Sorrateiramente, as experiências fortes e traumáticas se estabelecem no mais profundo do inconsciente. Mas estão lá. 27 E é por isso que hoje, aquela criança, já adulta, quando se defronta na rua com um estrangeiro, o ímpeto imediato é de se desviar, de receio, de medo... Ele (o adulto) não entende por quê, até está disposto a se relacionar com aquela pessoa, mas há uma resistência inconsciente e ele não sabe por quê, de onde vem... Claro que ele não sabe, pois está no seu inconsciente. A escolha está predefinida, um caminho já foi desenhado lá na infância e será sempre percorrido diante das situações idênticas ou assemelhadas. O seu corpo será inundado por fluídos que implicarão na rejeição ou aceitação dos fatos, em não querer ou querer. Por isso nós falamos que o inconsciente é fechado, ele não está aberto à compreensão, à manipulação. Porque está oculto, ele não permite questionamentos, embora esteja sempre atuando. Sem ajuda, nós não temos meios de conhecer o seu conteúdo, muito menos como vencê-lo, ou, simplesmente, transcendê-lo. Como primeiro passo, resta-nos compreender as suas implicações no dia-a-dia. Por isso, dizemos que o inconsciente é o esconderijo dos acontecimentos e julgamentos insuportáveis, indesejáveis. Mas este é um processo inteligente que visa a nos proteger, na medida da estrutura que apresentamos no momento dos fatos, da nossa maturidade. Se a criança é brutalmente maltratada aos cinco anos, nessa idade a sua estrutura é tão frágil, que o inconsciente absorve e esconde aquela experiência traumática a fim de manter um mínimo de equilíbrio, embora permaneça nela uma angústia insondável. Assim, o inconsciente se fecha para permitir à criança encarar o mundo com menos desespero, menos indignação, em razão daquele abuso, daquela dor. 28 O inconsciente e sua força O grande problema que aquela angústia insondável nos causa é a chamada “inversão”. Veja: O fumante sabe que 90% dos casos de câncer no pulmão é causado pelo uso do cigarro; o alcoólatra sabe que 70% dos acidentes fatais com automóvel são causados por pessoas que beberam antes de dirigir; o viciado em drogas sabe dos males e do prejuízo de sua dependência. Mas todos eles, ao fumar, beber ou se drogar, se sentem bem. Experimentam um ”prazer”. Qual prazer? O prazer que o alívio daquela angústia lhes causa. Eles não sabem alcançar alívio sozinhos. Precisam das drogas. E o que é aquela angústia? É conseqüência dos traumas, das rejeições, das ofensas, dos acontecimentos e julgamentos insuportáveis que habitam o nosso inconsciente e que emergem nos relacionamentos com esse mundo lá fora... com o Fusca, com o estrangeiro... com o mundo material. Tudo nele traz uma recordação, já infectada de emoção danosa que vai gerar aquela angústia, que vai impedir a nossa realização, de alcançarmos o nosso sonho, e a mediocridade e a violência torna-se a nossa medida. Eis a instabilidade de ouro, no indivíduo, para a armadilha do vício, das drogas e dos comportamentos ilícitos se estabelecerem. A droga camufla a angústia, não a resolve. E como a pessoa não consegue ficar vinte e quatro horas drogada, a angústia sempre volta mais encorpada, pelo desencadeamento das frustrações em não resolvê-la e pelas conseqüências de ter-se drogado... sen29 do estas, na maioria das vezes, prejudiciais. Aí, é a famosa “bola de neve” e o seu fim trágico. Para ele, para sua família, para sociedade. Em situações tais de instabilidade, o peso da angústia multiplicada pode fazer o homicida puxar o gatilho. Qualquer contrariedade pode se tornar a gota d’água para liberar aquela angústia acumulada, e fazer que o homicida num ato de “inversão”, puxe o gatilho e experimente PRAZER. E é um prazer, assim como se drogar. Aqui, prazer é igual a alívio momentâneo. Quando se visita um presídio o consenso geral é de inocência. Prevalece essa presunção de inocência. Por quê? Porque no momento do crime ele age em inversão. Qual a inversão no homicídio? O autor dos fatos fez uma coisa ruim achando que fosse boa porque lhe dava alívio. Mas quando ele acha bom matar o outro? Ao puxar o gatilho ele descarrega toda a angústia acumulada e no momento que a sente dissipada, sente prazer. Mas essa descarga não resolve, apenas alivia a angústia que lhe persegue e vem sendo acumulada. Esse é o efeito e a necessidade de toda ingestão e consumo de drogas, o alívio de uma angústia insondável, inconsciente, seja rejeição ou maus tratos etc. No momento que decidiu puxar o gatilho ele pesou as conseqüências, mas foi maior a esperança (muitas vezes inconsciente) de que com aquele ato estaria dando um fim naquela angústia, estaria matando toda aquela angústia acumulada. 30 Subjacente ao motivo fútil, pode haver angústias profundamente enraizadas. Ele, naquele momento, achou que seria correto, justo, matar. Assim como achamos justo, correto, matar a fome que nos aflige sacrificando a vida de outros seres; ou qualquer outro desejo que nos impele à sua realização. Razões é que não faltam em qualquer dos casos. Vamos entender uma coisa: as razões da legítima defesa transmudam o ato injusto de matar em um ato lícito; as razões e a necessidade do homem se alimentar transmudam o ato injusto de tirar a vida dos animais no consumo e no comércio também lícitos. As razões de quem sofre uma angústia e a dissipa matando ou agredindo outras pessoas, são somente dela. O senso de justiça daquele ato é somente dela. A sociedade acha que aquela pessoa deve resolver suas angústias de outra forma, se tratando, talvez. Por isso, impõe penalidades em cada caso concreto. O que nos parece justo, se não fizéssemos vista grossa à nossa parcela de culpa pelo processo de desenvolvimento e surgimento daquelas angústias. Não é fácil reconhecer essa nossa responsabilidade devido a nossa hipocrisia. Infelizmente, essa é a norma geral. É assim que se processam as decisões que repercutem nos nossos atos diários, na nossa vida, às vezes construtivos, às vezes não. Mas nós queremos é ausência de conflitos, de angústias. Nós queremos é PAZ! Para isso, precisamos de uma educação libertadora. De uma educação que liberte a essência latente em nós, que nos possibilite enxergar o mundo a nossa volta com os olhos da infância outra vez, com uma inocência repleta de sabedoria; que transmude toda nossa experiência em 31 possibilidade de escolhas construtivas para nós e para as outras pessoas, bem como propicie um relacionamento sustentável com a mãe natureza. Outras conseqüências de manifestação oculta do inconsciente são: Falta de persistência: A professora puxa a orelha do aluno e diz a ele: “Você nunca vai conseguir aprender alguma coisa na vida!!”. Daí, quando essa criança, já adulta, é convidada a aprender novos métodos, novas tecnologias, ela desiste antes de começar, e racionaliza, porque para ela, "nunca vai conseguir aprender nada na vida mesmo” . Ela se invalida constantemente... E o que é isso? São aqueles traumas, aqueles julgamentos traumáticos inconscientemente enraizados, mas fortemente atuantes no tempo. Temos conseqüências radicais como o suicídio que, conforme estudo recente, na maioria das vezes trata-se de uma atitude de fuga e não de vontade ou de inteligência, aliás, ao contrário, identifica-se totalmente com a ignorância. O suicida é tomado por uma onda gigante de ignorância, ou melhor, ele se fecha totalmente para a inteligência que, desesperada, diante de impedimentos de toda ordem, não consegue socorrê-lo. Nós sabemos que o suicida não quer morrer, ele quer sair de si, do inferno mental que lhe atormenta. Sua estrutura psicológica não suporta mais suas angústias, ele simplesmente não compreende por quê... Não há compreensão do processo que o levou àquela aflição medonha, não há esperança, ele está num beco sem saída e o seu último recurso é dar um fim a si mesmo. Quando ele reconhece a besteira que fez, já está na altura do terceiro andar... e ele pulou do décimo quinto... O objetivo deste curso é exatamente estabelecer e indicar um canto de onde você possa observar, testemunhar esse processo sem ser atingido por ele, sem se angustiar, se você quiser. Esse local é acessível quando você consegue “desidentificar-se” de suas conclusões a respeito de si, dos outros e das coisas, dos seus interesses, dos seus desejos, tenham eles origem nos valores impregnados pela sociedade ou nos prazeres que os sentidos lhe proporcionam. 32 Um exercício para certificar-se dessa influência: Por se tratar de um curso em livro, eu pediria a você que se lembrasse do momento em que pegou este exemplar e começou a ler, ou as coisas que fez meia hora atrás. Lembrou? Se você me desenhar a imagem relembrada, provavelmente você (a imagem que você faz de si mesmo, das suas feições) vai fazer parte daquela cena revivida, não é? Mas você estava vendo a si mesmo naquele momento de pegar o livro? Há 30 minutos atrás? Não. Ao lembrar você não reviu a cena, você reconstruiu a cena e inseriu a sua pessoa. Já que ela foi recriada, a reprodução é totalmente interna. Sendo interna, está impregnada dos seus valores conscientes e inconscientes, de emoções. Algumas emoções você percebe, outras não. Você vive sob a influência do invisível. Mas, na recordação da cena do Fusca do seu amigo, a emoção que acompanhava a cena certamente era de tristeza. Como nos tornar invulneráveis às recordações, às emoções, aos preconceitos, àquela angústia insondável? Como somos invulneráveis ao leão no zoológico? Ficando do lado de fora da jaula. Não é simples? A técnica a ser explicada também será. Por enquanto, estamos verificando o processo a que estamos submetidos. A jaula está fechada, nós estamos lá dentro e o leão também. 33 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA RACIOCÍNIO DECISÀO PENSAMENTO E AÇÃO. Vamos agora dar início ao estudo do processo de concentração, raciocínio, decisão, pensamento e ação, propriamente dito... e eu gostaria de um pouco mais de atenção. Nesta fase, a atividade se dá com muita rapidez. Eu estou em frente a um computador e, ao segurar o mouse ou digitar as palavras, eu percorro todas essas fases. A cada pressão deliberada do meu dedo no teclado, todo o processo foi percorrido. Tudo o que fazemos, por mínimo que seja, coçar o braço ou balançar o pé, essas ações se submetem ao processo de concentração interiorizada, raciocínio, decisão, ação (ou pensamento). Todo o processo de escrever ou de falar obedece a essas etapas. Por isso, a atenção solicitada. 34 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A concentração é o primeiro impulso que emerge impelido por um desejo constante, por uma necessidade de ser e fazer para ter. A partir da concentração interiorizada nós vamos começar a raciocinar. A concentração se dá sob duas formas também. A primeira forma é a PASSIVA: Ao amanhecer, quando acordamos, os pensamentos se manifestam desordenados, nós não nos sentimos, é como se estivéssemos sentados na frente de uma locomotiva e ela a nos levar, nós não temos o controle... estamos totalmente identificados com o filme que se passa internamente. Não é assim que se estabelecem os pensamentos matutinos? De repente você se assusta e diz: – Nossa! Vou chegar atrasado ao serviço, não vai dar tempo, tenho que fazer isso, aquilo etc. Ao amanhecer os pensamentos vêm e vão e nós somos levados como passageiros sem destino certo, sem qualquer autonomia ou controle. Percebemos que nesse modo de operar o processo de pensamento, nossa vontade estava ausente ou, ao menos, o nosso controle sobre a vontade. Igualmente, de manhã, você fazendo caminhada, quando percebe, já percorreu dez quadras e se surpreende porque não viu passar pelas quadras... 35 você até se assusta. Isso se dá porque você estava pensando passivamente, sem autonomia, sem a sua participação consciente. A outra forma é a ATIVA: É quando tomamos as rédeas dos pensamentos e os direcionamos aos nossos interesses diários... por exemplo: naquela mesma manhã, quando você esteve “voando” em pensamentos, de repente se lembrou das obrigações e, êpa!, tenho que fazer isso, aquilo, e dá início às atividades pré-determinadas... escova os dentes, toma café, sai em direção ao serviço etc. Portanto, você direciona, de forma ativa, o seu pensamento para os seus objetivos de ser e fazer. Nós tomamos as rédeas dos pensamentos e os direcionamos aos nossos interesses diários. Ainda que sob a pressão do seu “Passado”, da sua dualidade intelecto e emoção, do seu consciente e do seu inconsciente. Assim mesmo, caso você tome as rédeas e não esteja completamente identificado com os pensamentos, nas suas decisões vão pesar as razões do inconsciente, suas crenças, seus traumas. Então, ao se deparar com o estrangeiro, você, inconscientemente, se desvia e toma outro caminho, sem perceber a influência daquele preconceito. Mesmo percebendo a sua resistência, aquelas razões poderão pesar mais do que a sua vontade apenas racional e, ao final, fazer você decidir em consonância com a emoção, com o preconceito que, desta forma, mantêm-se no controle. Esse é um exemplo corriqueiro, mas no dia-a-dia estamos sujeitos às forças inconscientes em maior ou menor grau. Você então queria tomar o caminho da direita, mas “resolve” ir pela esquerda e não sabe por quê! 36 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA OS SENTIDOS A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO O RACIOCÍNIO O raciocínio, depois da concentração passiva ou ativa sobre a memória, procura analisar os interesses da pessoa sob o prisma dos seus valores de justiça, lógica e objetividade. BUSCA NO SEU PASSADO, no seu BANCO DE DADOS, as opções com viabilidade de serem exercitadas em forma de pensamento ou ação, a fim de atingir seus objetivos (desejos conscientes e inconscientes). Verificamos que o raciocínio começa a trabalhar a partir da concentração interiorizada, ativa ou passiva. Você vai ao seu passado e analisa as opções, as possibilidades de serem exercitadas conforme seus valores já pré-estabelecidos, decide e faz. Sua vida é o que você faz. Tudo o que você faz tem como suporte um pensamento. Todo pensamento tem como suporte um desejo. Todo desejo tem suporte e está inculcado no seu banco de dados, na sua experiência de vida, nos seus valores, no seu consciente, no seu inconsciente, e todo esse emaranhado vai pesar nas suas decisões de fazer ou deixar de fazer. Um outro exercício: Se sua namorada, for flagrada com outro, o que você faz? 37 A. – Você mata um? Mata os dois? Mata-se? Dá uma surra nos dois? Chora até se esvair em lágrimas? Fica tomado de ira mas vai embora? B. – Fica satisfeito? Depende. Depende das suas crenças. Depende do que lhe foi ensinado, da forma que você alivia suas angústias, da sua experiência de vida. Para nós qualquer das atitudes do item (A) nos parece possível. Na Groenlândia os esquimós oferecem a suas esposas para os visitantes amigos. Lá é esse o costume deles e a atitude do item (B) é comum. Mas os dois fatos são iguais: – Há uma outra pessoa dormindo com sua mulher ou com seu homem. O que mudou? As crenças. Suas crenças são diferentes. O que você pensa do fato é diferente do que pensa o esquimó. OS FATOS SÃO NEUTROS. Todos os fatos são neutros. São os seus conceitos, seus preconceitos, as emoções que emergem em cada caso é que faz diferente a sua reação. Lembra? A sua estrutura sensorial e os seus hábitos de infância é a sua medida e, sob a batuta de um perfil acumulado durante anos, fluídos peculiares são disseminados pelo corpo provocando reações equivalentes, culminando com racionalizações favoráveis ou não aos acontecimentos e o comportamento em si, a exemplo de coragem ou medo, amor ou ódio etc. 38 Então, ao raciocinar, antes de se decidir, LEMBRAR-SE DE QUE TODO FATO É NEUTRO. DA FORÇA DO RACIOCÍNIO Até hoje, o raciocínio foi soberano no nosso processo mental. Perceba que ele converte, imediatamente, as imagens recebidas pelo sentido da visão e lhe dá uma falsa idéia de realidade. Lembre-se do exemplo em que, ao recordar daquele momento em que você “pegou este livro para ler”, ou do seu passado próximo, o raciocínio lhe mostrava outra cena. Esse processo de conversão de imagens é tão rápido que você não usa mais o sentido da visão, porque você “não vê” a pessoa no aeroporto, mas certamente o “estrangeiro” que sua imagem recorda lá da infância, juntamente com as emoções forjadas pelo preconceito paterno, de medo e receio. Eu diria: cuidado! Atenção com o raciocínio. Essa fase do processo tende a lhe tomar as rédeas e vem dirigindo a sua vida há muito tempo, sem você perceber. É ele que lhe dá uma falsa idéia de eu, de mundo. Ele é a fonte do ego, da sua auto-imagem, da sua ilusão, das suas angústias, dos seus apegos, do seu sofrimento. Enfim, todo o processo de análise racional obedece a esses parâmetros, em maior ou menor grau. O que você vai fazer com o que você presenciou é que é a questão. A pessoa pode apenas gozar um prazer, ou evitá-lo por medo de arder no mármore do inferno... Como se diz, “cada cabeça uma sentença”. 39 Desde a utilização da visão para observar e apreciar o mundo lá fora, o raciocínio está inserido, porque como adultos nós já temos um rótulo para todas as coisas, inclusive para o estrangeiro. Você vê um estrangeiro, imediatamente aquele preconceito se estabelece e você já está impregnado pelo receio, em razão daquela informação primitiva que seus pais lhe impuseram já na sua infância. Ato contínuo, você toma outro caminho e evita o relacionamento, pensando que decidiu, que estava vendo, que não é cego no sentido de decisão, e portanto, você não sabe que é escravo, e que não é livre como imaginava ser. No caso, você reage à presença do estrangeiro porque o viu? Não, porque memorizou e substituiu a imagem trazendo o registro préestabelecido, deixando-se influenciar por ele. Você não se identifica com a visão ou com o que vê, mas com o raciocínio decorrente de uma emoção que você não controla, não vê. Você decide e age com base nesse raciocínio e nas emoções que lhe sobrepõem, esteja ele certo ou errado, seja ele verdadeiro ou falso. Oportunidade em que a inversão de valores sobre o meio, coisas e as pessoas pode ocorrer. Você não percebe que projeta no elemento externo o seu rancor, quando a emoção é prejudicial em si mesmo. Porque você teria receio de uma pessoa no seu primeiro contato? Não haveria porque se você estivesse vendo somente com os olhos. Mas essa soberania do raciocínio é que nos faz bicho, menos humanos. Isso não deixa de ser triste, mas é assim. E essa realidade frustra a consecução de muitos projetos de índole construtiva. A importância da compreensão desse processo é porque o raciocínio vai analisar fato após fato, o dia inteiro. A partir dessa compreensão você poderá modificar atitudes indesejáveis e, assim, deixar de ser um joguete nas mãos das suas crenças e preconceitos. 40 Mas trabalhar dentro do raciocínio, sob o seu comando e influência, é muito difícil, confuso, leva mais de uma vida... precisamos sair da jaula, senão o leão... Se você não consegue se relacionar com o estrangeiro, será em virtude de um preconceito; impregnado em função de um fato na infância e talvez não daquele momento atual. Mas aquela rejeição, enquanto inconsciente, não é manipulável. Daí a dificuldade e daí a razão deste curso. Portanto, observe os fatos e decida-se sempre pelo que for construtivo, para você e para os outros. Não deixe a crença dominar suas decisões, os seus atos. Mas, como? “Falar é fácil. Fazer é que são elas!” Então, continuemos. 41 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO A DECISÃO Você decide por aquele pensamento ou ação que você compreende ser mais justo, válido, verdadeiro, lógico, depois de sopesar todas as circunstâncias conscientes, mas, ainda, sob o peso das emoções (valores inconscientes). Embora você não perceba, o seu inconsciente está fortemente inserido na decisão que você “imagina” ser somente sua. Esta é a decisão que a psicologia define, explica e trata. Ela o contextualiza tomando como parâmetro os valores da sociedade em que você se encontra, e lhe instrui de modo a adequar o seu comportamento com o que julgam “normal” ou, pelo menos, “aceitável”. Um desejo lhe impõe a necessidade, que gera o raciocínio, que analisa as possibilidades. Escolhe-se uma delas e o resultado é o que você faz. Antes de qualquer decisão há sempre uma viagem. Uma viagem ao seu passado próximo ou remoto. Então, depois de um processo de raciocínio mais apurado, mais demorado, mais criterioso, ou rápido quando inconseqüente, você chega ao momento de decidir. Não antes de contrabalançar todas as circunstâncias conscientes, ainda que sob o peso do seu inconsciente, dos valores inconscientes, das emoções. 42 Na seqüência, você decide por implementar aquele pensamento ou ação que você concluiu ser o mais justo, mais verdadeiro ou lógico. Você imagina que é você sozinho quem está decidindo aqui, mas não é. Aquele traço inconsciente está influenciando você a decidir. O traço é seu, mas ele não está necessariamente sob seu comando. Pode estar atuando na clandestinidade. Você pensa corretamente, tem objetivos válidos, dentro de uma lógica justa, mas na hora de decidir e agir, o peso do inconsciente é muito forte e sutil, às vezes menos, mas ele está sempre ali. Eu posso deixar de fazer uma viagem, de curtir um passeio que é merecido após anos de trabalho, simplesmente porque no meu inconsciente está inculcada uma mensagem do tipo: “Filho, o homem é trabalho. Trabalhe sem descanso e você alcançará o Céu”. E assim, eu fico só trabalhando e me vejo como um homem valoroso. Quando me perguntam por quê? Eu digo: “Eu gosxto!” Mas observe: a nossa DELIBERAÇÃO não é esporádica, a todo o momento estamos decidindo, porque a todo o momento estamos pensando ou agindo. Se continuo neste momento a falar ou a escrever, aquele processo de decisão e ação está se desenrolando rapidamente, momentaneamente, neste instante exato, neste outro, neste outro... Parar de falar ou escrever é uma opção viável, é possível. Mas a minha convicção em continuar é que me faz perseverar... é o meu desejo sendo realizado, e como resultado do somatório de todas essas decisões tenho a minha VIDA. Muitas vezes estaremos contrapondo o prazer à inteligência, e em muitas dessas ocasiões acredite, o prazer vence a inteligência. Fumar é um exemplo clássico, comer mais que o corpo pede também. 43 Continuando a analisar a fase de decisão: A imagem que você faz do amigo, do irmão, de si mesmo (auto-imagem, ego, personalidade) está a todo o momento sendo modificada, você está sempre decidindo “quem é” e o que eles são. Essas imagens e a sua auto-imagem têm base nos conceitos externos, nos valores externos, crenças, sociedade, na sua experiência de vida. Tudo o que penso de bom ou de ruim dos fatos e das pessoas, necessariamente, provém da minha experiência. Portanto, só penso no CONHECIDO. A cada acontecimento eu substituo o conceito de mim mesmo e dos outros, e essas são conclusões em razão do fato, dos acontecimentos e das minhas crenças. Um fato qualquer é a minha conquista. A crença é o valor que eu e as pessoas damos a essa conquista. O que você faz torna-se valoroso na minha concepção na medida em que os outros a valoram. Aqui (ou em outro lugar), a mulher adúltera, dizem (ou diziam), vai arder no mármore do inferno... Na Groenlândia, ela, aquela que deu boas-vindas à visita, é respeitada porque age de acordo com os costumes locais. Então, a todo o momento, agimos esteados nos fatos passados, nas nossas crenças, na nossa experiência de vida. A todo o momento você está decidindo quem é, quem são, se são gente boa... se são inteligentes, um bom filho, um bom pai... etc. 44 Nesse processo de apreciação individual, nos colocamos como alvo dos valores da sociedade em que estamos estabelecidos; se ela é machista, meus atos machistas me dão um certo status nela... se ela é religiosa, minha atuação junto à igreja me confere um status também, e assim por diante. Daí a minha auto-imagem construtiva e a minha auto-estima. Mas esses valores não são meus. No entanto, como estou inserido naquela sociedade, eu também tenho estes valores para com os outros... se meu amigo não é tão machista, nem muito religioso, eu também vejo-o com preconceito; porque me deixo influenciar pela sociedade e seus valores, e nela quem faz é, quem não faz não é. É assim o nosso sistema social. A todo o momento você está decidindo quem é, quem eles são, o que é válido, o que não é... Mas esses valores não são seus! Vamos entender. Isso acontece por que: NINGUÉM DÁ MAIS DO QUE POSSUI. Vamos exemplificar: Com este curso você pode melhorar o seu poder de decisão, incorporando conhecimentos que vão lhe ajudar a decidir melhor amanhã. Na proporção da compreensão, dos exercícios e práticas recomendadas aqui, o domínio sobre as suas ações aumentará, a sua independência será maior. Sem conhecer o processo você será eternamente um joguete nas mãos do inconsciente e de suas crenças. Daí conclui-se que: sem a informação você não modifica a ação. Você só dá o que possui. Mesma coisa com os sentimentos, se você não se ama, como dar amor? Se você não perdoa ou não se tolera, como viver em paz, como exercer a ne45 cessária tolerância com as pessoas de seu convívio e do resto do mundo, tão diferentes, tão únicas? Sendo assim, todo o acervo inconsciente é que estaria determinando os rumos na sua vida. Por isso acreditam no destino, no carma. Se você não se libertar do jugo do seu passado você continuará sempre o mesmo e o seu destino estará mais ou menos traçado, porque na hora H, você desvia do estrangeiro, não consegue se relacionar. Eu não posso escrever esse texto em inglês porque não sei o idioma. Não posso dar de mim o que não possuo. Conhecimento ou sentimento. Isto é, não posso pensar no que não está assentado na minha memória, no meu banco de dados. Minhas decisões correspondem à minha experiência de vida. Minha experiência me conduz, portanto, eu só penso no conhecido. Então é isso, eu só posso pensar sobre as pessoas, sobre eu mesmo, sobre os fatos e todas as coisas que me rodeiam, somente com base naquilo que eu experimentei, que é o meu passado. Por que só conheço aquilo que vivi. Somente a minha história com o Fusca está disponível no meu banco de dados. Você não pode lembrar daqueles dias que somente eu vivenciei e guardo na minha lembrança; e nem eu dos seus. Vá, lembre-se aí do Fuscão do meu pai! (...) Não há como. Ele faz parte da minha experiência, do meu passado. Mais uma vez: Eu só penso no conhecido. Mas, de certo modo, nas decisões, não. Nas decisões sempre pesam o conhecido e mais algo que não percebo, o consciente e o inconsciente. 46 Eu estou numa reunião e quero sugerir uma idéia, mas não consigo. (Se eu falar, ... se eu errar ... o que vão pensar de mim?) Mas, quem me segura? Quem não me deixa? Pois é, a reunião termina e eu não falo. Minha idéia era construtiva. Mas eu não falei. O problema é que você se coloca como alvo. Veja uma ilustração que exemplifica bem esses comentários: Você se coloca como alvo das críticas das pessoas; das suas intenções, dos seus valores, do que elas acham que você deve ser e fazer... do que é moral ou imoral; do que é certo ou errado. Por quê? Porque você sempre se mediu pelos valores alheios, especialmente das pessoas do seu grupo de relacionamento. Até com aquele estrangeiro que parece ser gente boa você não consegue se relacionar. Cadê você??? Onde é que está você aqui neste mundo? Conforme a representação acima você é um cego, temeroso da opinião alheia, um ser perdido ou preso à sociedade porque amarrado às suas convenções... O que está inconscientizado em si mesmo é você também, mas você não se acha. Aquelas razões não são suas, mas determinam parte de suas decisões. Mas você mesmo, onde está? É esse encontro que almejamos com este curso. É fornecer o caminho, a ferramenta para você experimentar o seu EU verdadeiro... seus próprios valores, que são valores universais e que, infelizmente, estão segregados por muros mentais invisíveis. 47 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA OS SENTIDOS A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO O PENSAMENTO E A AÇÃO Você pensa e age o dia inteiro. Todo o processo interior culmina nas suas ações diárias, que, ao final, é a SUA VIDA. Desde cedo você começa a concentrar-se de forma passiva ou ativa, a raciocinar, a decidir, a pensar e fazer. À tarde você olha para o seu dia e analisa: o que você fez e pensou durante o dia? Sua conclusão é sobre o seu dia, boa ou ruim, foi o seu dia. À tarde de um único dia é o seu dia. Mas à tarde do dia de ontem, mais a soma dos seus dias passados é a sua vida. Então, todo esse processo interno de decisão, de fazer e pensar, vai culminar nas suas ações diárias, que ao final, é sua vida toda até agora. Que é feita de um dia atrás do outro, de um momento atrás do outro, de uma decisão atrás da outra. Então, estamos tratando aqui da coisa mais importante da sua vida que é ela mesma. A SUA VIDA. 48 EXERCÍCIO: Esse é um exercício que eu quero que vocês façam, mesmo estando aí do outro lado, lendo ou ouvindo... Por um momento você vai pensar nas coisas que você possui. Enquanto você pensa quero que você perceba o sentimento que acompanha esses pensamentos; se o pensamento se desenrola na cabeça; o sentimento, temos a impressão de senti-lo no peito; então, eu quero que você se aperceba das emoções que essas imagens lhe proporcionarão. Enquanto você começa a pensar, eu vou sugerindo algumas idéias, por exemplo: pense na sua família, seus filhos, pais, irmãos, amigos; o grau de estudo que possa ter, sua casa, o seu carro, sua bicicleta, sua pernas, seus braços, todos os seus sentidos funcionando, ou os que lhe restam... o ar que você respira. E nesse processo de pensamento tente perceber a emoção que lhe acompanha. Saber observar separadamente o pensamento e a emoção será de grande valia daqui por diante, portanto pense nas coisas que possui e sinta a emoção inerente... (Pausa). ... Agora, pense nas coisas que você queria ter. Da mesma forma, se aperceba da emoção provocada e que lhe envolve... (Pausa). ... A pergunta seguinte é: o que você sentiu em cada um dos exercícios, quais as emoções que acompanharam aqueles pensamentos? ... (Pausa). ... Adiantando, o sentimento de prazer, alegria, agradecimento, no primeiro exercício, e tristeza, angústia, ansiedade no segundo, é a norma, tem sido uma resposta unânime. Esse é um processo simples, matemático, mas é o que acontece conosco o dia todo. Mais ou menos os mesmos fluidos são derramados na nossa corrente sanguínea quando a situação se repete, com as variações inerentes ao perfil de cada um de nós. 49 Normalmente, em toda base de pensamento há um desejo, e todo desejo provém de uma necessidade (útil ou supérflua) daquilo que não temos; por conseguinte, vivemos um dia atrás do outro pensando quase sempre no que não temos, naquilo que gostaríamos de ter, e daí nossa angústia, ansiedade, tristeza, e um dia não muito agradável. Assim como esse processo é simples, infantil é o nosso comportamento em continuarmos agindo assim, e sofrer ao pensar só no que não temos. Contudo, não se preocupem, lembre-se que estamos decifrando, desmantelando o processo mental que é a norma, mas não se trata de uma lei seca, ela não é obrigatória, tanto é assim que este curso tenta disponibilizar uma nova opção. Há uma saída. Veja. Nós nos colocamos no centro desses pensamentos e recebemos todo o seu impacto emocional, na maioria das vezes angustiantes... Nós estamos aqui e agora, sob o impulso de desejos de consumo, de conquista, nos submetendo aos anseios impregnados por nossas crenças e, assim, começamos o dia mal. Pior é quando o medo de situações passadas nos faz prever um futuro temeroso. São as chamadas “expectativas catastróficas”. Com os dados do seu passado você imagina desastres acontecendo lá no seu futuro, mas é naquele agora, naquele momento que você sofre, porque só existe o agora da sua existência. Por isso se você se coloca no passado você sente medo AGORA, se você se coloca no futuro, você sente ansiedade AGORA. 50 Só existe o AGORA, este é o eterno presente. Um minuto atrás, dez minutos, duas horas, dez anos, não existem mais; assim como um minuto à frente, dois minutos, dez anos, não existem. Só existe o AGORA. Todo pensamento traz um sentimento que lhe envolve no AGORA de sua existência. Se o pensamento é alegre, a alegria lhe invade, se de tristeza, a infelicidade se apresenta, portanto: Se as minhas ações diárias estão esteadas no construtivo, minha vida será construtiva. Se não, NÃO! Se, ao trazer o meu passado, e durante o raciocínio eu puder escolher somente o que for construtivo para mim e para os outros, ao final do dia todas as minhas ações serão construtivas e como conseqüência eu tenho um dia construtivo, e assim procedendo, ao final de anos, eu terei uma vida construtiva. Se eu começar hoje a mudar os meus atos, daqui a algum tempo minha vida apresentará um resultado diferente. Isso é matemática. Se não, não. Será a mesma vidinha repetida, repetida... Se suas ações são às vezes construtivas e às vezes anticonstrutivas ou destrutivas, ao final de algum tempo, provavelmente as más ações sublimarão em efeito as boas ações e, conseqüentemente, sua vida será pior do que poderia ser. Toda vez que você direcionou seus pensamentos ou suas ações para o não construtivo, algum prejuízo se desenhou lá no futuro, embora muitas vezes essa opção tenha lhe proporcionado “prazer” (Por exemplo, o uso de drogas ou outro comportamento forjado no seu passado e que se traduziu, efetivamente, em fuga do enfrentamento necessário). Com efeito, aquela sensação de prazer funciona como uma armadilha, na medida em que recrudesce o que há de humano em nós e porque provém do não construtivo, de valores alheios e arraigados em nós, que no futuro próximo ou distante, vão servir de alimento à semente da ira, da ignorância, da violência e da dor, isto é, do prejuízo próprio e alheio. 51 Quem, por força do hábito, da sua experiência, educação, pais, livros etc. planta o BEM, colhe o BEM. QUEM PLANTA, COLHE! Esta é uma lei inexorável do Universo. Não se colhe “figos de abrolhos”. A pessoa pode virar um “santo” hoje, mas se estiver recluso numa penitenciária pagando pelos erros do seu passado, como aquele que puxou o gatilho pelo prazer do alívio da angústia, ou aquele que atropelou e matou porque bebeu, ou aquele que agrediu porque se drogou, mesmo assim, “Vossa Santidade” terá de cumprir o restante da pena. A safra do que você plantou vai além da sua mudança de comportamento. Esse é o perigo da demora em começar a mudar sua visão das coisas. Veja que todos nós somos capazes de praticar atos impensados, basta estarmos no lugar errado, na hora errada, com a pessoa errada e puf... olha aí os seus complexos, fracassos e angústias lhe dando um empurrãozinho na hora de se decidir. QUEM PLANTA, COLHE. 52 NOSSOS PENSAMENTOS Afinal, quais são os tipos de pensamentos que habitam nossa mente no nosso dia-a-dia? Uma radiografia da mente vai possibilitar o reconhecimento de três origens distintas para cada pensamento, vejamos: OS PENSAMENTOS DE TERCEIROS Em razão da sua importância, vou reproduzir a definição do próprio Professor Lauro Larrea: P.T. “São os chegados até nós, gerados na mente dos outros". Esta forma envolve, altamente, o nosso mundo pessoal, sabido que nós somos o fruto do ambiente doméstico e da sociedade. Portanto, o percentual de influência do meio-ambiente é altíssimo no nosso aprendizado terreno, pois, desde tenra idade, já começamos a arquivar em nossas memórias normas convencionais da sociedade. Aí inicia a enorme seqüência dos “rótulos” e dos “significados”. Ora, naquela idade, nada sabemos; somos, apenas, por nada saber, inocentes, ainda não contagiados pelo impiedoso mundo que divide os homens. Então, tudo o que nos transmitem é verdadeiro para nós. Começamos a tomar a cor e o tom do papel que vamos desempenhar no palco do teatro da vida. 53 Nosso futuro será aquilo que nos impuseram, já como vítimas, ou não, das classes sociais divididas ou convencionadas pelo homem. "Quando crianças, depositamos a mais absoluta fé nas pessoas e o sentido de proteção fala ao nosso íntimo muito alto, daí o meio e o ambiente em que fomos criados fazerem, em grande parte, o nosso futuro.” Um exemplo: O pai é médico, adora a profissão, demonstra interesse em que o filho siga os seus passos. O filho ama o pai, mas seu talento é para a música; nada obstante, ainda jovem recebe seu diploma de médico. O pai está super feliz, o filho nem tanto. Aos oitenta anos o filho se liberta, monta uma banda e lança o seu primeiro CD. A música da primeira faixa, EPITÁFIO, faz o maior sucesso. O filho finalmente se realiza e vive até os oitenta e um anos. Outro exemplo: Três jovens de dezoito anos cada, um inglês, um boliviano e um iraquiano... cada um com suas peculiaridades de família e de sua pátria. OS PENSAMENTOS VAGOS Transcrição da definição do Professor Larrea, em “Fonte da Vida”: P.V. “Esses tipos de pensamentos são aqueles que nada constroem". “Neles encontramos o lado mais sórdido, os quais, também, infelizmente, contribuem para deprimir-nos, pois, em razão desses tipos de pensamentos, é que, geralmente, enquadramos, no julgamento que fazemos do nosso semelhante, a miséria que reside em nós. Participam de tais pensamentos vagos (P.V.) as trevas que personificam a nossa insignificância, os nossos complexos e, também, as nossas frustrações. 54 É nessa categoria de pensamentos que se encontram, como fruto da nossa pequenez, aliado aos nossos insucessos, o ódio, a vingança, o ciúme, a inveja e a maledicência, enfim, a síntese do nosso obscuro mundo e, através deles, julgamos e atribuímos ao nosso semelhante toda soma de miséria que reside em nós.” Um exemplo: Você tem um Fusquinha. Passa uma pessoa dirigindo o Vectra dos seus sonhos. Você não conhece o motorista. Quando ele desce, ele fala algumas palavras incompreensíveis com outra pessoa e você percebe que ele é um estrangeiro. Você sorri sarcasticamente. O que se passou? Você sentiu inveja. In-veja quer dizer “não querer ver”. Outra pessoa possuir o carro que você queria ter, faz você reconhecer que você não conseguiu tê-lo e o sentimento de fracasso lhe invade; mas você não quer ver isso, não quer reconhecer sua deficiência, sua frustração ou sua mediocridade. Para contrabalançar o sentimento de inferioridade sentido, internamente você diminuiu o estrangeiro com aquele seu preconceito, com a pecha de maníaco, pervertido... ou outro preconceito, e assim, sorri sarcasticamente... na tentativa de expô-lo ao ridículo ou menosprezo. Ainda que só no seu mundo mental. Há um detalhe. Esse processo é individual e o seu desdém não atinge o estrangeiro, somente você ficou desestabilizado. O equilíbrio momentâneo que o sarcasmo propiciou não suporta o sentimento de frustração. E se você não se der conta desse processo, não colocar uma atenção especial nos fatos e no seu processo interno, pode ser a oportunidade perfeita para um cigarrinho, o primeiro gole, um baseado, uma carreiri55 nha... eis que uma angústia não resolvida cutuca a outra, que desterra outra, que... Entendeu? Isso é o tempo todo, nós desmerecemos o nosso próximo quando ele nos faz perceber os nossos fracassos, nossa frustrações, nossos complexos. Estamos projetando nossas misérias a todo o momento em que nos comparamos com os outros. “Se você a vê bonita porque se enxerga feia, ela é bonita MAS é burra, se você se acha inteligente. “Sou feia mas sou inteligente”. Ser inteligente é ser MAIS que ser só bonita”. Esse jogo lhe oferece um pseudo-equilíbrio. Um equilíbrio frágil e efêmero. Dou-lhe um exemplo simples de projeção: Se uma criança bater no canto da mesa, ela dirá: Mesa feia! Essa é uma projeção no sentido mais simples. A mesa está lá. Ela é que não prestou atenção e topou na mesa. Não quis reconhecer que é desatenciosa, mas sentiu com desagrado essa realidade. Em vez de se conscientizar que precisa ser mais atenciosa, xingou a mesa e pronto. Aliviou. Não resolveu. Há muitas projeções. OS PENSAMENTOS PRÓPRIOS São os pensamentos alinhados com aquela orientação superior que embebe a natureza e permite o seu equilíbrio. Todos são sempre construtivos. Infelizmente são raros, enquanto você não se der conta do seu Eu verdadeiro ou for naturalmente orientado para o construtivo. Daqui para a frente, se você colocar uma atenção especial nos seus atos diários, você vai identificar que 75% deles são de terceiros, têm origem no conceito alheio, nas crenças, nos...; 20% deles são vagos, têm origem nos seus complexos, frustrações, fracassos; e somente 5% são próprios, são aqueles que têm origem no seu livre-arbítrio, na sua essência, que é livre. 56 Nós temos que incrementar as atividades próprias, filtrar os pensamentos de terceiros e exterminar os pensamentos vagos. A compreensão é a chave. NORMA X TÉCNICA Até agora nós vimos somente a regra seguida por nós e que governa o nosso processo de aprender, pensar e vir a ser. Daqui por diante passaremos a informar-lhe a técnica que possibilitará o encontro com o seu Eu verdadeiro na medida em que poderá proporcionar-lhe a experiência, mínima e suficiente, do calor que emana da fagulha. Ainda que efêmera, uma fagulha tem todas as propriedades do fogo. Para conseguir o vislumbre do seu potencial (do fogo), basta experimentar o calor que dela emana (da fagulha). Isso quer dizer que a mera aproximação do Eu verdadeiro possibilita o vislumbre do EU total e o seu atingimento passará a ser a meta, que é se deixar consumir pelo fogo, no nosso caso, a VIDA. Registre-se que a intensidade desse fogo, dessa Vida, se mostra infinitamente crescente, por isso não há limite para a evolução e o preconizado encontro se assemelha mais ao caminhar do que ao porto de chegada. O aprofundamento na experiência é um constante viajar fogo adentro, é a viagem de volta à Vida, à Casa Paterna. Vamos adiante. 57 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO O ENCONTRO Para iniciar voltaremos ao tópico que trata da Decisão. Atenção total, por favor. Você faz uma imagem do José. A Maria faz uma imagem diferente do José. Mas o José é ele mesmo. Não é a sua imagem, nem a imagem que a Maria faz. Matemática. Óbvio. Cada imagem de pessoa, das coisas, de tudo que há no mundo é como uma bolha personalíssima. Cada um com a sua bolha por aí. Nela está inserida, inclusive, a imagem que você faz de si mesmo. Pois bem. Você faz uma imagem de você mesmo. Porém, você não é esta imagem. Ela é só uma imagem. Isso também é óbvio, mas você está agarrado, apegado e INDENTIFICADO com essa imagem. Nós vimos que a todo o momento estamos modificando a imagem que temos de nós mesmos e dos outros, na proporção dos acontecimentos, dos nossos sucessos, insucessos... etc. ... sempre com base na nossa experiência de vida, com base nas nossas crenças, nos preconceitos da sociedade etc. Se você é a pessoa que flagrou a própria mulher ou marido com o outro, lhe dói a pecha de “corno” porque essa é a imagem que você faz de si mesmo, de um “coitado”, conforme definição da sociedade em que se encontra estabe58 lecido. Uma imagem impregnada de preconceitos e machismo. Nada obstante, trata-se simplesmente de uma imagem, de um conceito mental. Se você é o esquimó que ofereceu a esposa ao visitante amigo, a sua imagem é a de uma pessoa cordial. Esta, ao final, também não passa de uma imagem mental e que corresponde a sua identificação pessoal naquele episódio. Então, a imagem que você faz de si mesmo é resultado da sua crença, mas não é você. Essa imagem de hoje pode não ser a de amanhã e, provavelmente, se diferencia daquela de ontem ou de cinco anos atrás. Esse é o seu ego, sua personalidade, que você está construindo a todo o momento. Você a define em razão das crenças e preconceitos da sociedade em que se encontra. Por exemplo, após quinze anos de existência eu olho para o meu passado e concluo que sou uma cara machista... eu chego a essa conclusão com suporte na apreciação do que é ser machista na sociedade em que estou inserido. Isto se dá porque até agora nós nos colocamos como alvo das opiniões alheias, pensamos e agimos conforme aqueles preceitos. Então, a todo o momento estou decidindo quem eu sou, com base nessa imagem que faço de mim mesmo. Mas é só uma idéia. Eu me estimo por ter esse comportamento ou não, na medida em que vou ser acolhido ou excomungado, dependendo da comunidade onde eu estiver vivendo. Por isso ela não é REAL, ela só é adequada ou não, é só uma idéia. Uma ilusão. A imagem que você faz do amigo, do irmão, de si mesmo (auto-imagem, ego, personalidade) está a todo o momento sendo modificada, você está sempre decidindo “quem é” e o que eles são. Essas imagens e a sua auto-imagem têm base nos conceitos externos, nos valores externos, crenças, sociedade, na sua experiência de vida. 59 Tudo o que penso de bom ou de ruim dos fatos e das pessoas, necessariamente, provém da minha experiência. Portanto, só penso no conhecido. Para me expressar não posso usar o vocabulário do meu professor, aquele acervo de palavras faz parte do seu banco de dados. Só posso dizer com as palavras que tenho na minha memória. A minha compreensão do mundo se reduz à minha experiência de vida. Se eu pensar no Desconhecido, eu vou pensar no que não conheço, vou pensar no “nada”, aliás, não vou pensar, não vou conceituar ou analisar! Vou paralisar a mente e me transformo num simples observador do quê sou! Quem sou testemunha o quê sou, não o que penso de mim. Ora, eu só penso no que está registrado no meu banco de dados... Então, por um momento, eu quero que você pense no DESCONHECIDO, no que você não conhece... faça esse exercício, e ao mesmo tempo, perceba a sensação, as emoções que lhe invadem o Ser. Esse exercício vai levá-lo à paralisação da mente e, conseqüentemente, a experimentar uma realidade diferente, um estado de paz lhe invadindo, sua atenção está livre, não há qualquer análise em andamento embora a inteligência, a criatividade e a compreensão permaneçam ativas, porém, o processo de conceituação (análise) da “mente” por um momento pára... Se você só pensa no conhecido, ao pensar no Desconhecido, sua mente tem de parar. Ela é movida pela análise de fatos conhecidos, não os havendo, ela cessa o movimento. Pára. CONHECIDO 60 DESCONHECIDO Perceba que, mesmo com sua mente paralisada, você continua existindo, existindo como testemunha daquele estado de ser imanente. Nesse estado você existe não “pensando em você”, mas “sentindo você”! A VIDA flui através de você. Você é esse próprio FLUIR. Sinta-O, sinta-A. Procure lembrar-se daquele exercício em que pedimos para você pensar nas coisas que possuímos e nas coisas que queremos ter... para recordar que todo pensamento traz junto uma emoção. Nesse exercício de paralisação da mente, você não pensa, por conseguinte nenhuma emoção se manifesta, apenas o sentimento de existir, de estar presente, como ser, como consciência, como testemunha. Daí se conclui que: EU SOU EU, MEUS PENSAMENTOS NÃO. Prosseguindo. A mecânica de funcionamento da mente se desenvolve assim: Todas as imagens colhidas no mundo material lá fora são parte do meu banco de dados, da minha memória. Ao pensar e me identificar com as imagens que presenciei, envolvidas nelas emergem as emoções correspondentes, minhas alegrias, minhas tristezas, conforme minhas crenças e preconceitos já estabelecidos. Até agora, eu sempre dei crédito àquelas imagens, sofrendo toda sorte de impactos, alegres ou tristes. Nesse processo, para eu explicar que só penso no conhecido, eu me coloco no aqui e agora, e vou buscar imagens lá no meu passado mais antigo, quando eu era um rapaz bonitinho.... depois engordei, perdi os cabelos... 61 Ao me recordar de um passado mais próximo, percebo que eu me apresentava muito alegre, um animador de rodadas em bar, um contador de piadas, era um... palhaço. E hoje, neste momento, a idéia que faço de mim é a de um palestrante, de um aluno ensinando a outros, a vocês... mas vejam que eu só pude pensar naquele bonitinho ou naquele palhaço porque a imagem e a história deles estão registradas no meu passado, na minha memória, por isso eu só penso no conhecido. Agora eu vou pensar no Desconhecido. Ao pensar no que não conheço, minha mente pára. Não estou pensando. Mas eu continuo a existir? Sim! Eu continuo a existir. Eu existo como consciência, como um mero observador do que realmente sou. Quem sou, observa o quê sou, não o que penso a meu respeito, não a imagem que faço de mim. Eu tenho consciência de mim mesmo, de estar aqui e agora. Eu sou uma testemunha deste momento. Não estou pensando em nada, só existo. Eu me percebo como sendo a minha própria consciência, consciência do fluir da vida em mim. 62 Essa entidade em mim sou Eu. Essa consciência sou Eu. Este é um estado de ser. O meu estado de consciência e a vida que flui em mim sou Eu. Por isso, essa representação do Eu nas fases do pensamento ainda não havia sido identificada. Aquela presença acima do processo sou Eu. Durante todo o processo de pensamento eu estava presente, imanente, porém acima do processo, como testemunha. Porque aquele sou Eu e não meus pensamentos, sou eu só existindo, só sentindo. Durante toda a minha vida eu estive ali e não percebia o meu existir, porque o raciocínio e os pensamentos sempre impuseram uma imagem, uma conclusão sobre o meu eu, como resultado de uma análise em conjunto com meu passado, com minhas crenças, traumas e conceitos já estabelecidos. Mas aquela forma de me reconhecer é somente um processo de identificação, de individualização, é fazer uma idéia de mim mesmo. É só um conceito. É um processo que inclui a escolha de adjetivos. É uma ilusão. Eu tenho consciência da vida fluindo em mim e embora não seja palpável ela tem substância, essa substância sem um rótulo mental específico é o nada que percebo ao paralisar a mente, ao pensar no desconhecido. O que eu sinto é real, o que eu penso não. Rotular de alegria ou tristeza a vida que flui é fragmentá-la, é dividir a unidade substancial em certo e errado, bonito e feio, adultério e cortesia, dor, prazer, pode, não pode... etc. O processo mental é uma fragmentação complexa do Um. Essa fragmentação gera a multiplicidade em que nos inserimos. No processo de criar é imprescindível o exercício prévio de escolha (o Verbo – faça-se isso ou aquilo) e escolher é, pois, o processo inteligente e criativo inerente ao próprio ato de criar. É como se a laranja num ato de criação escolhesse ser o lado direito de si mesma, pois assim existiria como individualidade. No entanto essa escolha 63 não altera o seu estado de laranja inteira (a não ser na mente da latanja-metade), nem o estado de oceano em relação à gota que se intitulou individual. No caso da gota, ela sempre é água, ainda que se adjetive linda, honesta, assassina, rica etc, por isso, o conceito que fragmenta é irreal, é uma ilusão se confrontada com a sua natureza real de ÁGUA. Substancialmente nós somos VIDA, assim como a gota é água, o resto é uma ilusão, conceitos, criações mentais. Porém, só se vê água a gota que experimentou essa qualidade intrínseca, e no nosso caso, quem percebeu o fluir da vida em si mesmo no momento que alijou os julgamentos mentais e percebeu o que antes era desconhecido: VOCÊ, ou como queira, a VIDA. Assim também, é uma ilusão imaginar o sabor do mel se nunca o experimentamos. Só a experiência é real. E Eu sou o real que há em mim, minha experiência. Minha idéia, NÃO! Minha idéia de mel não tem sabor, a experiência SIM. Ao me encontrar, sentindo-me como realmente sou, regozijo-me em verdadeira liberdade, porque eu me percebo sem julgamentos, sem preconceitos, e também aos outros... e às coisas. Vejo o mundo sem preconceitos. D e s a p e g a d o. Essa é a busca. A busca de quem eu sou realmente, a minha verdade. Então, agora que eu me encontrei, eu sei que eu mesmo sou uma experiência, um estado de ser. Eu sou a testemunha, o observador e vida que flui em mim. O meu pensamento sobre o que eu sou é diferente, obedece a um processo de análise e de identificação com o meu passado, sofro o crivo da crença e valores alheios. Sou bom ou ruim, moral ou imoral. Mas o meu Eu verdadeiro só existe enquanto experiência. No aqui e agora. No momento Presente. Não no passado. Não no futuro. 64 Eu sou a minha consciência e sou esse ser que habita em mim, essa essência. E esse ser é um estado de paz, porque ele não pensa e não tem apegos, é desapegado, um verdadeiro estado de paz. Não é feio nem bonito, está em paz. Não é se sentir alegre, é se sentir em êxtase. A alegria é de fora para dentro, alguma coisa lá fora me alegrou, partiu da periferia. O êxtase é uma experiência íntima e personalíssima. Central. Essa localização, esse encontro e a compreensão dessa realidade, será fundamental para o entendimento e aproveitamento das técnicas que apresentaremos adiante. 65 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO A TÉCNICA DO PENSAMENTO Agora que Eu me encontrei, vamos acompanhar novamente o processo mental, sua mecânica, com um diferencial: Eu sou eu, meus pensamentos não. Repita comigo: Eu não sou eu. Eu não sou aquela imagem que o raciocínio fazia de mim. Eu sou um estado de ser e eu sou a testemunha desse acontecimento. O quê sou eu? A substância imanente. Quem sou eu? A consciência dessa substância. Só as formas estão sob metamorfose, em obediência às leis naturais e imutáveis. O estado absoluto da substância e da consciência são eternamente puras e originais. Veja: OS MEUS PENSAMENTOS ME COLOCAM NO PASSADO; OS MEUS SENTIDOS ME COLOCAM NO PRESENTE, NO AQUI E AGORA. O pensamento me coloca no passado. Qualquer pensamento me joga naquele passado, porque o combustível do pensamento são os fatos, os conceitos, os valores e interesses já estabelecidos desde a infância, adquiridos durante nossa experiência de vida. 66 Ao pensar (memorizar) eu trago o passado ao Presente, e o verdadeiro sofrimento está em me misturar, me deixar influenciar pelo passado e me identificar com ele, mesmo sendo lembranças e emoções agradáveis, pois, ainda assim, essa identificação se convola em obstáculo à manifestação genuína da VIDA. Os meus sentidos me colocam no presente, neste momento estou no aqui e agora. Não há uma maneira de descrever as sensações que envolvem os meus sentidos se não forem estas daqui, do agora. Escrever, falar, estar sentado, em pé, o frio que faz, ou calor, o cheiro que permeia este ambiente etc... Este é o primeiro passo, sem ele não se chega a lugar nenhum. Então, localize-se através dos sentidos. Veja as coisas ao seu redor; ouça os sons do ambiente; sinta o cheiro que impregna o ar que você respira; sinta o seu corpo, os seus movimentos, o ar, o calor; ao se alimentar, perceba e concentre-se no sabor do alimento. ALGUÉM está aí testemunhando, percebendo o mundo material por seus sentidos, ele é uma consciência viva, você é o canal da experiência e é a própria experiência. A partir dessa nova ótica, desse encontro, nosso próximo passo será nos situar diante de cada uma das fases do processo metal para analisar o seu alcance, visando compreender como o processo mental se desenvolverá sob a visão de um mero espectador, de uma simples e formidável testemunha. 67 O MUNDO MATERIAL A MEMÓRIA O RACIOCÍNIO OS SENTIDOS CONCENTRAÇÃO INTERIORIZADA A AÇÃO O PENSAMENTO A DECISÃO 1 – O mundo material Quase todas as coisas existentes no mundo material já são do nosso conhecimento, já temos uma opinião formada (rótulo). O mundo exterior é o que é, não é o que pensamos dele. O que penso dele, de cada uma de suas múltiplas formas, o rótulo que lhe dou, concerne à sua utilidade específica, mas em termos de conceito e opinião trata-se de uma ilusão, assim como aquela idéia que fazemos de nós ao nos individualizarmos (gota, laranja-metade) ou a de nossos amigos. A realidade das coisas e das outras pessoas é aquela inerente à consciência momentânea delas mesmas, assim como a nossa nesse momento nos é peculiar e conhecida. Os nossos sentidos nos colocam no AGORA, em contato com o mundo exterior. No mundo interior é o nosso SENTIR que representa a experiência no momento presente. Com os sentidos eu percebo o mundo exterior, o meu mundo interior eu SINTO. Se, conforme a analogia feita, no mar toda gota ao final se resume em água, no nosso mundo material, exceto a forma que dá o contorno aos elementos básicos na natureza, há também uma substância única que os permeia. 68 Porém, essa realidade não prejudica a utilidade que caracteriza e personifica cada um desses elementos básicos ou os seus ajuntamentos complexos e que resulta nas pessoas, minerais, plantas, outros animais etc. 2 – Os sentidos Eu só existo aqui e AGORA. Olhos para ver, ouvidos para ouvir. Não analise, veja as coisas na sua originalidade. Concentração dos sentidos: Se formos analisar quadro a quadro o uso dos sentidos, sob a ótica antiga (identificação), teríamos a seguinte surpresa: Ao observar o mundo exterior com o sentido da visão: O Fusca está lá fora e eu o vejo lá onde ele se encontra; aquela imagem penetra a minha retina; sensibiliza o meu arquivo de dados; excita minha lembrança, o meu passado; o meu raciocínio começa a analisar e me faz recordar aquelas imagens antigas, e, de imediato, me leva a sentir a emoção daquele momento; e eu, como repositório daquelas cenas e emoções, sofro ou me alegro. Com os outros sentidos o processo é o mesmo, eu ouço um som que está lá fora, ele penetra meus ouvidos, o raciocínio analisa... eu sofro ou me alegro; Eu sinto o contato de um vento frio, analiso, raciocino, me recordo, e sofro ou me alegro; Aquele sabor que experimento me leva a analisar, recordar, raciocinar, ficar alegre ou triste. Eu sinto um cheiro peculiar, analiso, raciocino, recordo, uma emoção me invade, eu sofro ou me alegro. O que fazer? Atenção! Seja em todos os aspectos da vida um observador do mundo exterior: NÃO ANALISE NADA. 69 “Espere sempre que as coisas, os objetos, identifiquem a sua natureza e a razão do seu existir, porquanto, de quase tudo que existe, neste mundo convencional, já possuímos a sua rotulagem, registrado na nossa MEMÓRIA e, como tal, apenas estamos observando um fato presente, do qual já tínhamos tomado conhecimento no PASSADO”. A chave compreende a concentração e utilização correta dos sentidos, e a consciência de que a utilização de todo o aparato mental obedece a uma vontade que é sua, que o controle é seu. Interrompa aquele longo processo de análise e raciocínio no início. Veja o mundo exterior lá onde está e, ao desidentificar-se, antecipe-se e não deixe seus preconceitos agirem ou manifestarem-se sem autorização, sem o seu crivo de identificação construtiva. Agora que você se encontrou, adiante-se ao raciocínio e deixe as coisas, os objetos e as pessoas lá fora. Não é lá que elas estão? Deixe-as lá! “Quando dizemos “vejam” ou “olhem”, não estamos mandando analisar ou comparar. VEJAM: isto é tudo.” Se eu me concentrar nos sentidos, eu experimento o AGORA da minha existência. É o lugar onde estou, o cheiro aqui presente, o sabor do momento, a minha sensação corporal, todos eles me colocam no AGORA. Ao me localizar no momento presente eu tenho consciência da substância que sou eu. Qualquer pensamento me desloca dessa realidade presente e me submete às emoções e imagens afloradas na minha tela mental, e aí eu já estou lá no meu passado. Perdi o meu contato com o presente. Como podemos ver as coisas ou pessoas na sua originalidade? O Fusca é um veículo e o Estrangeiro é uma pessoa ali, neste momento, não a sua idéia sobre fusca ou estrangeiros. Você tem que vê-los onde estão e não fazer uma idéia sobre eles... você deve olhar sem analisar... e só assim poderá, realmente, ver. 70 Mesmo concentrado na substância que você é, os sentidos continuam atuando, pois trata-se de um processo independente de você que tornou-se um mero espectador. Na verdade, antes, também era assim, mas você se identificava com o resultado do processo mental e achava que estava escolhendo e fazendo as coisas que, na verdade, acontecem por si mesmas. Agora, você apenas observa o funcionamento da máquina humana, morada atual da consciência que você é. 3 – A memória É a nossa base de dados, já está formada e é acrescentada a todo o momento, na medida em que vamos vivendo. A memória é experiência, conhecimento em potencial. Desde a concepção ela está sendo impregnada de dados, sensações, visões, sons, cheiros, sabores, emoções... É esse repertório de memórias conjugado às emoções respectivas que atua de modo a perpetuar as experiências agradáveis e a evitar experiências como o “choque”, o “relacionamento com estrangeiros” etc., por meio da sensação de receio, medo etc, que invadem o indivíduo em função da diluição de fluídos específicos na corrente sanguínea. Hoje em especial, com a presente leitura, ela está adquirindo novas informações que podem estar entrando em conflito com as suas crenças já estabelecidas, ou não, portanto poderá haver rejeição do presente texto e interrupção da leitura, ou não. O teste aqui é o seguinte, se você está embebido da mesma orientação deste que vai escrevendo, haverá harmonia na compreensão e uma conseqüente validação do texto porque partimos do mesmo pressuposto, da mesma experiência, caso contrário haverá conflito entre o que escrevo e suas crenças, sejam elas lado esquerdo ou lado direito da laranja, pois qualquer dos lados não vê ou não compreende a laranja como um todo, como unidade. A experiência do Um não admite julgamentos, e por conseguinte, não valida um pensamento sequer, embora os reconheça como rotulações necessárias à comunicação que, ao final, levará a consciência individual (a minha e a 71 sua) ao reconhecimento desta unidade, assim como a substância (etérea) se contrapõe à forma (matéria ou mero contorno) e sem a qual não haveria possibilidade de manifestar-se ou de ver-se reconhecida. 4 – A Concentração O ideal é mantê-la sempre ATIVA. O nosso trabalho começa aqui. Para nos relacionar e viver no mundo manifesto, no mundo das formas, vamos aprender a utilizar a mecânica da mente sem perder o foco na substância que somos nós. Partimos sempre do que é real e nos mantemos apartados, não identificados com os nossos pensamentos, sabendo que eles são apenas instrumentos a nossa disposição, para utilizarmos na construção de dias melhores. A concentração é um estado de alerta, de atenção focada. Esse é o ideal. Mantê-la sempre ativa. Principalmente porque agora que você se encontrou, é possível uma concentração livre, onde a escolha não esteja atrelada a preconceitos ou de outra forma predeterminada, mas em harmonia com a criatividade e inteligência imanente à vida. Encontrar-se é estabelecer-se acima do processo mental, é manter-se concentrado a fim de impedir a identificação com qualquer forma de imagens ou pensamentos, mantendo-os à distância, sabendo que se trata de águas que se foram e corresponde, simplesmente, a um processo mental do qual você detém o comando. Resta-nos o domínio sobre o raciocínio, nosso ex-vilão. Vamos lá! 5 – O raciocínio passa a funcionar, e ao buscar as imagens nós vamos projetá-las para fora, vê-las como ORIGINALMENTE as vimos Lá fora! ... É trazer o Passado ao Presente sabendo que é PASSADO e não se deixar influenciar por ele. É ficar à distância. 72 Quando eu presenciei a cena do Fusca do meu pai, o Fuscão 1500, eu me encontrava na janela da casa onde morava e o fusca estava lá... lá fora. Lembro-me como se fosse hoje. Essa lembrança está armazenada aqui no meu arquivo de dados, na minha memória. Esse fato ocorreu em 1970. Até hoje eu me recordo e sempre me vem uma sensação alegre, como fora antes, naquela data, em 1970. Mas lembrar dessa cena aqui dentro da minha cachola não é lembrar como originalmente eu vi. Quando eu vi pela primeira vez, o Fusca estava lá fora. E agora, o exercício é este: ORIGINALMENTE 1970 EXERCÍCIO COLOCAR AS IMAGENS COMO ORIGINALMENTE CAPTAMOS LÁ FORA! HOJE Colocar a imagem lá fora, como originalmente eu presenciei; então eu projeto a imagem para fora, como se fosse numa tela, mas lá fora. Vocês já perceberam que quando eu elaboro os pensamentos internamente, as emoções e os sentimentos da época também se manifestam e eu fico alegre ou triste, dependendo da recordação. 73 Mas quando eu projeto as imagens para fora, como se elas emanassem do centro de minha testa, as emoções não acompanham, os conceitos e os preconceitos não interferem na minha recordação, no meu pensamento. Aquela força inconsciente que direcionava de forma oculta as minhas decisões, não acompanha a exposição lá fora. Dessa forma, você se desvincula da emoção e o pensamento se apresenta livre das crenças e forças inconscientes, de aceitação ou negação – não há produção ou derramamento de fluidos. É só projetar o pensamento lá fora, como originalmente você viu. Então eu quero que você pratique este exercício: Lembre-se de uma cena comovente de sua vida, de preferência muito triste ou muito angustiante, e perceba o sentimento que lhe invade o ser (...). Depois se lembre da mesma cena, mas como originalmente você a viu, ou seja, acontecendo lá fora... como se estivesse sendo projetada numa tela à sua frente, a um metro ou mais, e perceba que as cenas estando lá fora não evocam as emoções de outrora. Estando lá fora, a cena pode ser a real ou aquela construída, aquela em que você participa de corpo inteiro... lembra? Veja que o sentimento se apartou das imagens e você não sofre com a lembrança ruim, nem tampouco se alegra com a lembrança feliz, se você não quiser. Para complementar, lembre-se do seu último domingo, mas projete as imagens lá fora, como originalmente você viu e presenciou aquelas cenas. Todas elas se desenrolaram fora de você, nenhuma delas poderia se realizar dentro da sua cabeça. 74 Então, ao buscar as imagens no seu passado próximo e projetá-las lá fora, você saberá que é passado, você não mais se mistura com aquelas imagens, nem se deixa influenciar pelas emoções que essas imagens faziam aflorar e esses sentimentos agora não vão mais envolver seus pensamentos ou direcionar suas decisões, enquanto estiverem lá fora. Eis aqui o seu primeiro progresso e que corresponde a se colocar do lado de fora da jaula, estrategicamente inacessível ao leão. Os seus preconceitos e traumas não vão mais influenciar na análise das imagens mentais. Você se coloca fora das suas imposições e influências... ANTES AGORA LÁ FORA!!!!! 6 – Com as imagens lá fora, eu consigo DECIDIR sem o peso do preconceito, eu me desapego e posso perceber o que é construtivo ou não. Sendo CONSTRUTIVO, eu dou CRÉDITO e deixo a imagem rolar; não sendo NÃO DOU CRÉDITO e a imagem SE ESVAI... Se for construtivo continuar aquele curso de informática, eu poderei decidir por continuar sem dar ouvidos àquele eco da voz professoral “Você nunca vai conseguir aprender alguma coisa na vida!!", esse eco em forma de emoção inconsciente que sempre me fazia “optar” por desistir. Lá fora o estrangeiro é só um Estrangeiro, uma pessoa de outro país, diferente, e exatamente nas suas diferenças podem estar suas qualidades. O Fusca é só um veículo antigo... 75 Eu não me envolvo emocionalmente com nenhum deles... nem com aquele que me trazia alegria ou com aquele que me trazia tristeza. Esse desvinculamento é fundamental para você conseguir discernir o que é construtivo do que não é, porque vimos que sob os efeitos da emoção pode-se até justificar o ato de matar alguém numa inversão, e continuarmos a nos ver como inocentes. Mas agora que nos encontramos, nós ocupamos um espaço acima de todo esse processo, vamos ver o processamento mental com controle, de camarote, intactos. Existimos como testemunha desse processo e agora temos o comando sobre os pensamentos, então, na medida em que esses pensamentos, essas imagens emergem eu as coloco lá fora... e sou capaz de reconhecê-lo como construtivo ou não, porque está assentado em um desejo que é identificado e avaliado tomando como parâmetro a substância de que agora sou testemunha... sendo CONSTRUTIVO eu deixo a imagem rolar, o raciocínio, a decisão, o pensamento e a ação. Se não for construtivo eu não dou crédito para aquela imagem e ela se esvai... O que é “não dar crédito”? É não dar força, é tirar a energia, o interesse, não se envolver, desacreditar... e a imagem perde sua força, sua razão de existir, que era a sua própria aceitação e identificação. Sua vontade é que permite, ao final, a sua ação... e fazer será um exercício de liberdade somente se as imagens estiverem lá fora sem influência das emoções, das suas crenças... porque se você cair no raciocínio antigo, se colocando no meio dos pensamentos, você deixa de ser você, a sua consciência, de reconhecer-se como essência e passa a ser o próprio raciocínio... você vai ser o resultado de uma análise... a conclusão que o raciocínio fizer de você na- 76 quele momento, mas lembre-se, nesse caso, suas conclusões estarão impregnadas de valores inconscientes... o machismo, a religião, as crenças. No entanto, com essa técnica de colocar as imagens lá fora, você se localiza e está acima de todo o processo de formação das imagens, observando, controlando, dando energia ou não aos novos pensamentos que se formam... essa deliberação é sua. Esse é o nosso poder. Nossa força. Nossa vontade. Nossa liberdade. O pensamento vem vindo e você se pergunta... ôpa, ôpa! É construtivo para mim e para os outros ou não? Se você estiver atento e concentrado poderá perceber aquela orientação superior que dá equilíbrio na natureza, poderá se intuir daquela compreensão, daquela sabedoria, nesse estado sabemos o que é construtivo, quando isolamos o interesse e estamos desapegados, nós sabemos, nossa consciência livre sabe porque está entremeada à substância, à vida. Se a imagem estiver desvinculada dos preconceitos, das emoções, lá fora (porque lá dentro sou inconsciente, já tenho opinião formada, opinião que não é minha), e se for construtiva eu deixo rolar... se não, não dou crédito, não demonstro interesse e esses pensamentos indesejáveis se desvanecem. Com as crenças atuando não há livre-arbítrio. Livre-se delas e experimentará a liberdade de decisão, de pensar, de fazer, de ser e poderá viver em liberdade. Então : EIS AÍ O PODER! EIS AÍ A SUA LIBERDADE! EIS AÍ O LIVRE ARBÍTRIO! 77 EIS AÍ O PENSAMENTO PRÓPRIO!!!! Agora é você quem escolhe. Antes eram as crenças e os preconceitos que determinavam o seu relacionamento com o Estrangeiro e com as demais pessoas... Antes você era feliz, ou triste, com qualquer lembrança... agora você filtra os pensamentos que você quer recordar ou não... os desejos que você quer ver realizados ou não... Então agora, ao ser perguntado sobre o Estrangeiro, você dirá... não sei! Não tenho um conceito formado, sei apenas que é humano e por isso deve haver uma contraparte minha, do que sou, nele; é do sexo masculino ou feminino; branco ou negro... e somente depois de um relacionamento é que terei uma opinião específica sobre aquela pessoa. É claro, nesse mundo cão, a fé cega não é melhor companhia que o olho desconfiado. Quer dizer, os registros no meu banco de dados podem e devem ser utilizados também como parâmetro, mas não como diretriz irrefutável nas decisões que devo tomar. Há uma grande diferença em utilizar com inteligência os conhecimentos e experiências do meu passado e ser manipulado por aquelas emoções, conceitos e preconceitos. Então agora eu decido. E ao me aproximar do Estrangeiro pode acontecer que ele venha a se tornar o meu melhor amigo e ser o trampolim para minha felicidade, meu sucesso... porque poderemos crescer juntos, construindo um mundo melhor para nós e para os outros. • O que aconteceu? • Eu mudei minha vida. Então, poder escolher o que quero fazer, direcionar minha vida para o construtivo é uma liberdade que eu posso experimentar. Qual a finalidade deste curso? 78 Colocar você em contato com essa consciência, esse estado de ser, essa testemunha que é você mesmo, o seu EU SUPERIOR. E como você se coloca ali, acima do processo de pensamento? Com o exercício do DESCONHECIDO, mantendo as coisas lá fora e projetando a sua frente todas as imagens (concentração externa) você se encontra, você se percebe ali no agora da sua existência. E qual é mesmo a técnica para pensar, trazendo o passado ao presente sem se misturar com ele, se desvinculando dos preconceitos, emoções e traumas? Colocando as imagens lá fora, como originalmente as captamos, ou, sendo percebidas se desenvolvendo numa tela lá fora, como se fossem projetadas a partir do centro da nossa testa. Qual o resultado? Você, do seu canto de paz, dá crédito somente aos pensamentos que forem construtivos para você e para as outras pessoas; você adquire esse poder de escolha e tem domínio sobre a sua vida. Por que isso é possível? Porque eu sou eu, os meus pensamentos não. Eu existo apartado deles, lá no meu canto, acima do processo de pensamento, ocupando o trono que é meu e não do raciocínio. Porque o meu trono me foi restabelecido e agora eu exerço o meu reinado. Eu sou eu, meus pensamentos não! Essa é a parte essencial da técnica que você deve utilizar, aprender, compreender, realizar... 79 7 - Escolhendo somente o que for construtivo para mim e para os outros, eu transformo a minha vida, eu me transformo. Esse é o meu reinado e assumo o trono que é meu. Fazendo o que for construtivo para mim e para os outros o dia inteiro, ao final do dia terei um dia construtivo, ao final dos meus dias, uma vida construtiva. Essa relação também é direta, matemática. Quando me encontro e me coloco acima desse processo de pensamento, eu assumo o meu trono. Por isso, agora sou livre. Agora, e somente agora, eu sou uma realidade nesse processo de existir, de ser e fazer. Antes, eu estava eclipsado pelo raciocínio que vivia fazendo uma imagem de mim com os conceitos dos outros, quando eu mesmo estava ausente nas decisões, mas sofrendo as conseqüências de todos os atos... de todas as lembranças. Agora não, com as imagens lá fora, o pensamento se desenrola sob o meu critério, sob o meu comando, ele é meu escravo, eu sou o senhor. O RACIOCÍNIO PASSA A SER O MEU SUBORDINADO SUA FUNÇÃO: SERVIR . Veja que a técnica acima permite você identificar os fatos na sua originalidade, na sua neutralidade e daí, desencadear um processo de escolha sem as crenças de outrora. TODO FATO É NEUTRO. Lembra? 80 Se aquela pessoa foi flagrada com outro, a colheita dos frutos daquele ato, enquanto traição da confiança, será dela e repercutirá diretamente na vida dela também. Uma conseqüência de experimentar o seu Eu verdadeiro é o amor-próprio. Você reconhece em você uma consciência amorosa. Aquela testemunha é um ser amoroso. É o próprio amor. Ser amado não é mais uma necessidade. Você experimenta o amor em si mesmo. Você se ama. Se aquela pessoa o traiu, ela não merece a sua confiança. Só isso. No mundo há outras pessoas que vão te respeitar e merecer o seu amor. Você se respeita. Esse é o seu prêmio. Ninguém rouba um amor que é seu, que vive em você. Esse é, sem dúvida, fiel. O cigarro não precisa ser fumado, o copo não precisa ser entornado, a droga não precisa ser consumida, o gatilho não precisa ser puxado... todas são opções não construtivas. Antes daquele impulso se converter em ação, já se desvaneceu porque eu não dei crédito. Minha angústia, eu procuro resolver encarando os fatos passados como águas que se foram, modificando a sua compreensão porque eu reconheço em mim a existência de um ser totalmente em paz, amoroso e capaz de perdoar, se for necessário. Agora eu não preciso de uma superestrutura psicológica porque reconheço que todas aquelas lembranças são “passado”, são águas que não voltam mais. Ao me recordar delas colocando as imagens lá fora elas não me levam ao desespero nem me fazem sofrer, eis que a possibilidade de dias venturosos é real e o controle está em minhas mãos. E se agora, ao perceber efetiva participação no contexto da minha própria vida, eu me valorizo, experimento aceitação em mim mesmo e só vou es81 colher o construtivo para mim e para os outros, uma vez que a Vida é uma realidade intrínseca a todos nós. Dessa perspectiva prevejo que o maior ato do ser humano, o estágio mais avançado da evolução humana, o seu ápice, será o exercício contínuo do PERDÃO, a si mesmo e aos outros. Pois é sabedoria também. Quer fazer justiça? Primeiro, perdoe. Depois resolva o que fazer. Só assim seus atos poderão ser inteligentes porque isentos da ira. O que está feito está feito, é passado, você escolhe sofrer com ele ou não... plantar somente o construtivo ou arriscar uma pequena miséria... é nessa encruzilhada que você agora se encontra. A pergunta que se faz é: Para quê então o raciocínio, essa idéia de eu, do ego, minha auto-imagem, a construção dessa personalidade moldada a trancos e barrancos? É para que Eu, o meu Ser verdadeiro, possa fazer uso desse raciocínio e não o contrário, quando me submetia aos seus caprichos, a todos os seus desejos e preconceitos. Agora Eu uso a minha sexualidade, os meus instintos, a minha arte, o meu trabalho, os meus sentimentos, a minha experiência e não sou usado pelos desejos materiais, do corpo ou suas derivações conhecidas como “pecados”. Essas são leis que regem o mundo material e a busca do homem. O nosso trabalho, portanto, é desvencilhar-nos dos efeitos dessas leis usando as superiores contra as inferiores. O princípio de causa e efeito é facilmente compreendido, inclusive seus reflexos no nosso dia-a-dia, cuja notoriedade é cantada em versos e prosa: “quem semeia vento, colhe sempre tempestade”. Contudo, parece-nos difícil respeitar o próximo e a nós mesmos quando não avistamos tempestades no horizonte. Mas ela virá se não houve respeito. É a Lei. E as tempestades al82 cançarão outros, além daqueles que a produziram. Converter, pois, as tempestades que nos alcançam em salvamento é o início de uma transmutação pessoal que nos trará compreensão e abrigo seguro. Preciso, de verdade, é voltar a ser livre, porque a liberdade é o objetivo do homem e o fim buscado pela própria evolução da natureza, ou seja, voltar à liberdade que a tudo deu início. O ego, a personalidade imaginada, terá que ceder lugar a esse novo ser. Ao Rei. Por isso dizemos que o raciocínio passa a ser o meu subordinado. Ele está aí e é muito esperto, é inteligente, ele usa os desejos do corpo, dos instintos, para submeter-nos aos seus caprichos e voltar ao domínio. Cuidado! Ele é muito sutil. Ele que exercia uma autonomia no processo de pensamento, desde a visão dos fatos; ele que era soberano nas conclusões, agora terá que se submeter à minha vontade. Porque agora Eu me encontrei. Eu estive oculto por muito tempo, com uma participação apenas intuitiva, mas agora não, eu exerço o meu domínio. Eu existo, eu me sinto e me experimento como uma realidade, como uma consciência e me estabeleço no eterno presente. AQUI e AGORA. Agora, essas novas ações partem de uma deliberação que é somente minha, permitindo que eu viva uma nova vida, e essa minha nova vida SOU EU. Eu sou eu, sou minha vida, meus pensamentos não. SÃO MINHAS AÇÕES CONSTRUTIVAS QUE PERMITEM MINHA NOVA VIDA, QUE SOU EU, PORQUE AO ESCOLHER EU NÃO SOFRO mais a INFLUÊNCIA DA MINHA EMOÇÃO. Perceba que em razão da rapidez do processamento, com a técnica apresentada, você só não experimenta emoção nenhuma por um breve instan83 te, porque ao decidir pelo construtivo, aí sim, a emoção se justifica e você pode ser feliz. A emoção continua e permanecerá atuante nos seus pensamentos e suas ações, mas somente depois da filtragem que você controla e que você agora domina. Ao exercitar minhas ações, ao permitir que o construtivo se desenvolva no meu dia-a-dia, aí sim, JUSTIFICA-SE A MINHA EMOÇÃO, A MINHA ENERGIA E, ASSIM, posso ser verdadeiramente FELIZ. Por isso, vale a pena fornecer energia minha nesse processo, pois o construtivo começa a trazer frutos proporcionais. E só me farão feliz as ações que forem construtivas para mim e para os outros, senão estarei plantando a semente do medo, da violência, da miséria, da fome e da dor no meu próprio quintal... se eu e todos os demais estivermos bem, tudo estará bem, a felicidade será coletiva também... se não posso mudar o mundo inteiro, mudando o meu mundo, o mundo ao meu redor será melhor... a coletividade mais próxima será contagiada pela minha realização e alegria. “Se queres mudar o mundo, mude você primeiro.” TUDO PARTE DE MIM! O sim e o não partem de mim. Eu permito, ou não. Esse é o meu poder, essa é a minha vontade. Minha vontade é uma comporta de energia, cujo comando está sob o meu domínio. Esse domínio é que permite o meu equilíbrio. 84 Pensamento é energia, nasce de uma vontade, de um desejo. De cima, de onde me encontro agora, eu controlo a comporta que libera a energia que promove e possibilita a formação de pensamentos. Ao primeiro sinal de um desejo, de um pensamento, eu estarei atento (concentrado) para filtrar o que é construtivo do que não é. Se o meu desejo se esteia no construtivo eu dou energia, eu abro as comportas e permito o desenrolar do raciocínio, dos pensamentos; se não, eu não libero a comporta, eu estanco a energia, o meu interesse, não dou crédito e aquele desejo se esvai... Ora, ou eu desejo ou não desejo. Mas o processo de desejar, pensar, raciocinar, é tão rápido que exige uma atenção constante, até nos habituarmos, até sobrepormos esse novo hábito àquele de 20, 30, 40 anos. Antes de se decidir, dedique maior atenção à fase preliminar. Localize e filtre o desejo e o pensamento na sua origem. A VONTADE é uma energia que gera os pensamentos que Eu prendo e solto. Qualquer outro pensamento que não se origina na minha vontade, EU NEGO! O desejo é inerente ao Ser e é energia também. Energia criativa. A vontade é o controle dessa energia. O meu domínio está no exercício da vontade, no controle da energia. Quando o pensamento se inicia, eu imediatamente questiono: – É meu este pensamento, é um pensamento próprio ou de terceiros? Se for próprio, é construtivo. Se for de terceiro, tem razão de ser? É construtivo? 85 Não é um pensamento vago querendo vazar ao meu crivo? Filtrado o pensamento, eu dou energia ou não, aceito ou nego. Preste atenção em que “estar vivo”, é estar alerta, CONCENTRADO. Temos de estar atentos aos nossos pensamentos e sentimentos. Os pensamentos destrutivos estão à nossa volta, pois o impulso para empreendê-los existe na proporção dos acontecimentos mal resolvidos da nossa experiência passada, do nosso passado mais próximo ou mais distante. Temos de interceptá-los antes de se convolarem em ação. Assim que você perceba algum pensamento que lhe impregna de um sentimento indesejável, desvencilhe-se colocando-o lá fora, decifre-o, procure compreender a sua base de existência, suas razões, e daí... primeiro, reconheça que eles são águas passadas, eles não são você, e depois, que eles estão sob o seu comando já que convertê-los em ação é um critério seu, é uma decisão sua, e assim, decida-se pelo CONSTRUTIVO, ou seja, por aquela miséria, por aquela semente de abrolhos, NÃO! Não dê crédito, despreze-o, desenergize-o e... adeus sementinha, adeus plantinha, ADEUS FRUTOS MAUS. DAÍ POR DIANTE EU PASSO A CRIAR MEU DIA-A-DIA, a ter confiança, E A CRIAR O MEU SUCESSO! O meu dia-a-dia agora será 100% (cem por cento) construtivo se eu conseguir me estabelecer naquele espaço de paz, na pedra de canto, naquele estado de consciência, percebendo o fluir incessante da vida em primeiro lugar. Realmente, não é fácil estar ali 24 horas, mas se estabeleça ao menos nos momentos importantes de sua vida, de cada dia. Só vivemos um momento de cada vez. 86 Concentre-se nos momentos das decisões importantes, se você fizer o exercício recomendado e principalmente depois de certa prática, tudo será mais fácil e você vai se estabelecendo com o tempo. Então, paciência! O primeiro passo você já conhece, não precisa se desesperar, há uma saída, por maior que seja o conflito. Quem virá ao seu encontro, em seu auxílio, é você mesmo, o seu EU VERDADEIRO. “Você é aquele a quem você sempre rezou.” Ao exercitar o seu poder, colocando-se acima desse processo de pensamento, você passa a identificar melhor o que quer, que decisões tomar, e passa a criar construtivamente os seus afazeres, passando a ter mais confiança em si mesmo, porque mesmo não alcançando o objetivo naquela ocasião, o passo foi dado, e como foi construtivo, não haverá conseqüência indesejável, e você não se preocupa mais com a opinião alheia, com as crenças da sociedade e seus preconceitos. Você vai procurar sintonizar-se com aquela orientação que a tudo se impregna, que dá equilíbrio à natureza e, sendo você parte dela, também viverá em equilíbrio. É só isso. Por isso, agora você tem sucesso pessoal, experimenta uma paz de espírito e é feliz. Mas para o sucesso material, qual é o primeiro passo? Assim como aquela semente de feijão que foi jogada à terra e logo começará a germinar, os seus atos construtivos também. Lembra? 87 Quem planta, colhe. Veja bem, o sucesso é uma conseqüência dos seus atos. Quanto mais estratégias, mais você tem possibilidades de alcançar seus objetivos e de ter sucesso. Por isso, não despreze suas experiências, renove-as, diversifique-as e utilize-as com a inteligência que é inerente à Vida e peculiar a todos nós. Outrora, muitas vezes as estratégias não puderam ser implementadas na sua vida em razão das suas crenças pré-estabelecidas, das suas emoções inconscientes. Aquele Estrangeiro que lhe causava receio, em razão da emoção que lhe impedia de manter um relacionamento, agora pode ser o trampolim para o seu sucesso. A sua oportunidade. Pois ele poderá ser a pessoa que influenciará uma série de acontecimentos que virão a impulsionar o seu negócio. Mas, antes, as suas emoções eram contraditórias, lhe fez cego, embora de olhos abertos. O coração tinha razões que a mente desconhecia. E agora? Agora, com a sua liberdade de escolha, sem dar ouvidos às razões desconhecidas, você vai poder implementar as estratégias disponíveis e alcançar o sucesso que é seu. 88 QUADRO RESUMO Antes... Dia-a-dia – toda hora... CONCENTRAÇÃO EXTERIOR Projetar lá fora! Como originalmente captamos. Tudo está fora de nós. Lugar reservado. Estado de desapego. DESCONHECIDO Silêncio absoluto. EU IMPESSOAL! SUA CONSCIÊNCIA!!! VOCÊ! Como começamos? Você se coloca no meio. Sofre as influências dos pensamentos, das recordações, da emoções inconscientes... alegria ... tristeza...alegria... tristeza... tristeza... Agora, eu fico acima desse processo e não no meio. 89 Agora, eu filtro os pensamentos na sua origem, porque estou fora do processo, imune às emoções porque coloquei as imagens lá fora. Só deixo vazar a energia geradora de desejos e de pensamentos, que representam a minha vontade, se aquele desejo, que pode desencadear pensamentos e ações, for CONSTRUTIVO. Se não for construtivo eu não dou energia, eu exerço minha vontade bloqueando aquela energia, não me interessando, não dou crédito e o desejo se esvai, o pensamento também. POR ISSO DISSEMOS NO INÍCIO: “Onde há perigo, há também salvamento crescente.” Qualquer que seja o acontecimento ou tragédia, sempre será uma oportunidade de construção, pois se tudo está muito bem, pouco se pode fazer, mais se as coisas vão mal, é grande a possibilidade de o construtivo ser implementado. Toda situação apresenta uma opção construtiva se você não estiver apegado. Sem desejo não há miséria, o que oportuniza o exercício da razão. Você vivia com medo, com ansiedade. Agora você vive em paz, sem alegria, sem tristeza, mas somente até decidir por aquilo que lhe fará feliz... a você e aos outros. Depois, é curtir essa vida material também. Basta você paralisar a mente pensando no Desconhecido, ou ignorando todos os desejos e seus pensamentos correspondentes, que você entra num mundo de paz. Paz é uma experiência interna, é um êxtase. Alegria, felicidade, são conseqüências dos acontecimentos no mundo exterior. Decidindo-se pelo construtivo e realizando o construtivo, você está gerando harmonia e colherá belos frutos no seu quintal. 90 Uma palavrinha sobre a CONCENTRAÇÃO EXTERIOR: Qual é a técnica de concentração correta? Seja em todos os aspectos da vida um observador do mundo exterior. NÃO ANALISE NADA. “Espere sempre que as coisas, os objetos, identifiquem a sua natureza e a razão do seu existir, porquanto, de quase tudo que existe, neste mundo convencional, já possuímos a sua rotulagem, registrado na nossa MEMÓRIA e, como tal, apenas estamos observando um fato presente, do qual já tínhamos tomado conhecimento no PASSADO”. TUDO ESTÁ FORA DE NÓS! Onde você estiver, veja (sinta, ouça...) as coisas ao seu redor na sua originalidade, lá onde estão! Onde você estiver, ao buscar imagens no seu passado projete-as lá fora, não se misture. Cuidado! O que é estar no Agora da sua existência? É não estar no passado, é não estar no futuro. Os sentidos lhe colocam no presente. No agora. O verbo do presente é “SENTIR”, e não “PENSAR”. A compreensão do AGORA é como a experiência do mel, só conhece o sabor quem experimentou. Não analise e esteja concentrado. Paralise a mente. Entre no Desconhecido. Se algo inusitado lhe permeia o Ser, provavelmente é o novo batendo à sua porta. Tudo bem que você é somente uma gota no oceano. Mas estar no agora é experimentar e compreender o que o oceano é, ainda que seu contorno individual (forma) pareça reduzi-lo a uma pequena gota. 91 Isso é muito bonito, mas, e amanhã? O que devo fazer? Primeiro, calma! Concentração e percepção da sua realidade interna é fundamental. Compreenda as exposições, faça os exercícios. Principalmente, coloque uma atenção especial nos seus pensamentos diários, aperceba-se dos sentimentos que o acompanham. Procure identificá-los: P.P.?, P.T.? ou P.V.? e aí, filtre! Não tenha medo. Deparamo-nos a todo o momento com sentimentos mesquinhos, nossos e das outras pessoas. Seu poder é limitado. Mágica não existe. Você pode controlar somente os seus desejos. Mas é o que importa. O mundo é o que você pensa dele. Ser humilde quer dizer ter coragem de reconhecer suas misérias e estupidez. Nos momentos apropriados, concentre-se no Agora, entre no Desconhecido. Bastam as emanações de calor da fagulha do amor, da VIDA. Apenas o seu vislumbre já lhe dá a certeza, a convicção de que o caminho é este, a conquista da alma. Do seu Eu verdadeiro. “De que adianta ganhar o mundo inteiro se vieres a perder a sua alma?” Uma outra técnica para paralisar a mente: Tudo está fora de nós. Qualquer pensamento que vier, construtivo ou não, será colocado lá fora, nós não vamos dar crédito, vem outro e não damos crédito, logo vem outro e nós não damos crédito... até que eles cessam e entramos naquele estado de ser, de consciência, de desapego, estabelecidos ali no momento presente. Agora que você se encontrou e sabe o seu lugar, você é indiferente aos reclames dos desejos desequilibrados e as emoções não lhe atingem, você está em paz. 92 Vivencia um estado superior, no “andar de cima”. Ao se estabelecer ali por um instante só, e agora falo por mim: quando tenho uma experiência de aproximação da fagulha, ou apenas lembro como foi... é só lembrar e volto à situação novamente, não é tão forte mas é suficiente... Ao se estabelecer ali por um instante só, será o bastante para acreditar naquela luz que se vê ao final do túnel (essa luz traduz-se mais em presença do que em claridade)... Ela é o seu Eu verdadeiro. Ainda que caminhe no escuro, agora uma luz tênue lhe indica o caminho, a direção, o seu Norte, e você não vive mais “desnorteado”. Nós estamos tão habituados a ficar no meio, sofrendo o impacto de toda sorte de emoções, que até nos parece agradável aquela situação. Por comodidade, às vezes, as pessoas optam por permanecer em suas misérias, ao invés de se desinstalarem e a buscarem sua liberdade, um estado superior de existência... onde você é alguém realmente, onde você se encontra com a realidade mais fundamental, com a sua essência, com o eterno presente. Porém, mesmo tendo a experiência, muito provavelmente nós não vamos estar estabelecidos ali indefinidamente (ainda que seja o ideal), por isso temos de ir nos moldando por semelhança àquele ser, àquele estado de ser alcançado com a experiência no Desconhecido; então, passamos a atuar no cotidiano por imitação, e nesse caso, a orientação mais prática e objetiva é: Fazer somente o que for construtivo, para nós e para os outros. “Nada é mais simples e nada é mais difícil. Tudo está dentro de você, se você olhar e não tiver medo.” A dificuldade está em que na lógica também há interesse e o interesse mascara a identificação do puramente construtivo. Se eu “quero”, tudo se justifica. 93 Portanto, adentre-se ao estado de desapego: - Não analise o mundo exterior, projete seus pensamentos lá fora, não se envolva e decida-se pelo que você, naquele estado, identificar como construtivo. Mas é preciso persistir na atenção, na concentração, porque continuar onde se está é muito mais fácil. Só não podemos reclamar depois... Outro exercício: Procure um lugar reservado e prolongue o exercício de entrar no Desconhecido. Assim, você estabelece contato com esse ser livre, essa paz, esse ser desapegado e se reabastece de convicções construtivas, eliminando os elementos indesejáveis. Ao pensar no Desconhecido, sua mente paralisa, e o que restou? Resta você! O estado de consciência de um fluir ininterrupto. Ali não se pensa. Experimenta-se a existência em si, como ela é. E ela é a sua vida. Naquele momento, você apenas É. Não há conceito, opiniões alheias, pensamentos de terceiros ou vagos, só há o silêncio absoluto. Um nada substancioso, que apesar de não existir no mundo material, É. E é um estado de paz. Uma consciência de paz. 94 Quando você estava no meio das emoções, sofrendo as descargas dos mais variados tipos de pensamento, a todo o momento você se definia e concluía ser às vezes bom, às vezes ruim, às vezes alegre, às vezes triste. Mas agora você não chega a conclusão nenhuma, você apenas É. A sensação que você experimenta é a de um EU IMPESSOAL. Aquele outro era resultado de uma análise, do raciocínio, com base no seu passado, este agora é o Infundado. O qual não tem conceito ou fundamento, é apenas uma experiência. Um sentir. Mas ele é super, supersubstancioso. Tente, experimente, tente mais uma vez, você consegue. Tendo ouvido sempre, nunca entendi, mas ali você vai sentir e compreender porque todos nós somos irmãos. Aquela é a nossa metade igual, a nossa essência. Ali não sou eu, é uma união com o todo. Deixo de me ver como indivíduo, como gomo daquela metade da laranja, para me perceber laranja inteira, deixo de me ver gota, para me sentir oceano. Eu sou, você é, o todo somos nós. Esse todo é você. A minha metade igual em você sou eu também. É a vida. É a sua vida. A nossa vida. É o momento presente sendo reconhecido, vivenciado. 95 MEDITAÇÃO EU IMPESSOAL DESCONHECIDO Até agora estudamos os métodos de nos relacionarmos com o mundo material, com o mundo objetivo. Nos momentos mais tranqüilos em que estamos a sós, poderemos aprofundar nessa experiência de meditação com os exercícios recomendados. Vamos paralisar a mente e vamos nos estabelecer naquele mundo de paz por um período mais prolongado e colher seus frutos. A compreensão que o referido estado nos proporciona. O exercício é o mesmo do quadro resumo apresentado em linhas volvidas. A oportunidade é que é outra e será mais bem aproveitada porquanto os benefícios serão mais intensos, com um aprofundamento da experiência. Essa é a manifestação subjetiva da mente. É a nossa introspecção no mundo de paz e a nossa experiência do momento presente. 96 É a experiência no mundo imaterial. Mundo autônomo e diverso do material. Um é apegado e tem base no desejo, no raciocínio; o outro é desapegado e tem base na paz, no silêncio. Eu existo naquele estado imaterial e me manifesto nesse material. Viver é ter 50% de presença em cada estado, uma existência mesclada e em perfeita harmonia onde, nada obstante, prevaleçam como orientação os mais altos ideais de construção, inteligência e criatividade. Os dois estados, esse e aquele – imaterial e material, só existem no momento presente, no eterno presente. Meditar é vivenciar esse silêncio absoluto que habita o nosso mais íntimo ser. Mas, vejam bem, no momento de decidir para a ação verifico que aquilo que é construtivo para mim pode não ser para o outro. Assim, o respeito ao próximo ainda continua sendo a máxima indeclinável do ser. Veja que a orientação inerente ao ser e à natureza é o amor e só o amor constrói. Então, sem medo de errar, eu repetiria as palavras do professor Larrea: “A CURA É UM ATO DE AMOR”. Mas,o que é o amor? Amor é o que você experimenta naquele estado de ser, aquela consciência testemunha o ser amoroso que você é, por isso ao ouvi-la, ao se intuir desse sentimento e seguir afinado com ele seus atos serão, sem dúvida, CONSTRUTIVOS, completamente amorosos. Eis aí uma vida dedicada ao amor: VOCÊ! Então, qual o objetivo deste curso? É que você comece a pensar e agir com amor. 97 Que você seja amoroso. Assim como reclamaram todos os santos, em especial o profeta do amor: Jesus. Moral da história: tudo isso nós já sabíamos, exceto a técnica, talvez. É por isso que adotamos o martelo como símbolo da técnica apresentada neste curso. O curso é uma ferramenta para alcançarmos o que já sabemos, visa a revelação do que já está em nós e que pode ser utilizado para a construção de um mundo melhor. O martelo é uma ferramenta de construção, transformação, o nosso curso também. Como se diz: “Você está com o martelo e o prego nas mãos”. E lembrar que, mesmo sendo simples o uso dessa ferramenta, nós teremos que praticar, persistir, para aprender a manuseá-lo. Basta você querer. Então, mexa-se. DESINSTALE-SE! Mais um exercício para firmar o entendimento: EU IMPESSOAL DESCONHECIDO Colocar todas as imagens lá fora, que são o resultado das análises que o raciocínio faz sobre as chapas fotográficas, sobre o seu passado, colocando lá fora. Sendo construtivas ou não, você não dá crédito. 98 Na seqüência de imagens que vão aparecendo, você não dá crédito, não dá crédito, não dá crédito... até que a mente paralisa e você entra no Desconhecido. O que é o Desconhecido? É o estado da mente em que não há pensamentos. Nesse estado sua consciência se expande e se manifesta naquele Eu Testemunha, no Eu impessoal. Essa é uma experiência total e não individual. Você se identifica com um mundo que flui em você e ao seu redor, expande sua consciência de meia laranja à laranja inteira, de gota à oceano, é a consciência do Um. Nesse silêncio absoluto provocado pela ausência de pensamentos, há uma presença. Ele, o seu Eu impessoal. O Infundado. 99 UMA SINOPSE PARA USO DIÁRIO Primeiro, no dia-a-dia deve-se viver concentrado, usando os sentidos e se relacionando com o mundo material na sua originalidade, sem analisar as coisas ao seu redor. Os pensamentos devem ser colocados lá fora, projetados a partir do centro de sua testa, porque só assim vai ser possível você exercer o domínio necessário para que, a todo o momento, esteja escolhendo somente o que for construtivo para você e para as outras pessoas. Este é o uso correto da mente objetiva, o raciocínio não pode interferir na experiência e apreciação do mundo exterior pelos sentidos. Já que agora ele (o raciocínio) é um subordinado, estará sempre ao nosso dispor, nós é que o controlamos, nós é que escolhemos, nós somos livres e, por isso, responsáveis. Segundo, acostume-se à introspecção recomendada, procure infundir-se no “Desconhecido” sempre que possível, em qualquer oportunidade, quando a atenção ou a concentração exterior não esteja sendo solicitada para as atividades profissionais diárias. Ali naquele canto é a nossa morada. Nós somos um corpo anímico vivendo e se experimentando no mundo material, e não, o contrário. Há um detalhe. O nosso dia de 24 horas está dividido em grupos de oito horas, em três grupos. Em um desses nós estaremos dormindo, no outro trabalhando e o último é distribuído de forma irregular durante o dia, são os nossos afazeres matutinos, vespertinos e noturnos, no lar, de lazer etc., e que nos finais de semana se amplia para dezesseis horas, pois se incorporam a este últi100 mo grupo as horas de descanso em razão das horas trabalhadas durante a semana. Perceba que durante as horas de sono nós ainda não temos controle sobre a nossa atividade mental, ficamos submetidos às forças do inconsciente... durante as horas de trabalho estamos fortemente concentrados nas atividades obrigatórias... então, é nos momentos do relacionamento familiar, social, de lazer e das outras atividades intercaladas às horas de trabalho, e nos dias de descanso, que melhor podemos exercitar e experimentar esse novo Ser que agora se apresenta, que começa a exercer o domínio e a ocupar o trono que é seu: o nosso Eu verdadeiro. A meta é expandir o nosso território de ocupação, de domínio, até estarmos 100% estabelecidos, inclusive nas horas de sono. Prevejo, assim, um estado em que a mente esteja em descanso e Eu continue vigilante. Porque, para o meu restabelecimento, basta a paralisação da mente, o estancamento de energia, ou melhor, do seu uso, pois o fluxo de energia é constante e tem o poder de recarregar nossas baterias, ainda que o nosso Eu impessoal esteja ali, concentrado e completamente alerta. Contudo, lembre-se: EU NÃO SOU EU, como resultado de um pensamento, de uma conclusão do raciocino. Eu sou Eu, como resultado de uma experiência no momento presente. Eu sou o infundado porque não tenho fundamento na lógica, mas na experiência. Não no tempo, mas no momento exato, no AQUI e AGORA. O Agora é um resultado, nele não há expectativa. SEM DESEJO NÃO HÁ MISÉRIA. Ë o desejo que nos faz sofrer. “Querer” ou “não querer” são os dois únicos desejos. 101 Nós queremos a liberdade, nós não queremos estar presos ou “vinculados”. O que nos imprime ânimo para a conquista é a busca da liberdade, não a conquista ou a posse em si. A posse é uma ilusão, não liberta. A libertação é permitir que algo maior que nós mesmos se manifeste e que seja feita a sua vontade. O resto será sempre acessório. É muito bom ter as coisas, conforto, dinheiro, poder, o outro etc. Mas é angustiante depender delas. Você tem que se bastar, senão você estará ferrado, mesmo em cima de uma montanha de dinheiro, de... A cada desejo saciado outro se aponta, o saco não tem fundo. Como dominar e resolver essa obsessão? Você tem que encontrar razão em si mesmo, você tem que se amar primeiro, e para isso VOCÊ tem de se localizar, e é por essa razão que você tem de abandonar os desejos que lhe são impostos involuntariamente. Mas não é necessário abandonar as coisas em si. Abandonam-se os desejos, os apegos, os “quero” e os “não quero”. Tudo que não é você, tudo que foi forjado em você pelo julgamento extrínseco de outras pessoas. Você busca saciar um desejo para se ver livre dele, não é? Você quer libertar-se daquele desejo, mas, depois de saciado, outro surge com mais ímpeto, mais força e você se apega ainda mais à sua grade, à sua muleta... você “quer” muito mais ou “não quer” de jeito nenhum, às vezes até prefere morrer. Sendo construtivo, você pode desejar e ter o que quiser, a prisão é o seu apego. Portanto, LOCALIZE-SE, liberte-se primeiro, perdoe e aí, ESCOLHA, sempre alinhado com a intuição imanente que agora lhe é peculiar. Depois, curta a sua vida material, o seu conforto, as suas conquistas, mas não sofra por não ter chegado, aprenda a apreciar a viagem de ida, a viagem de volta... A VIAGEM, o momento. A sua direção é o inusitado. Problemas, todos nós temos, é a forma de encará-los que conta. Se você se prevenir escolhendo só o construtivo, não terá por que chorar, se arrepender. 102 Se a fatalidade lhe assombra e revolta, por maior que seja a tragédia, o construtivo ainda será a melhor opção. Sendo construtiva a opção, o momento também será e, na seqüência, o seu dia será, a sua vida será, a vida dos seus filhos, da sua mulher, da sua família, dos seus amigos... Às vezes, será necessário perdoar. O perdão é uma capacidade humana. O que perdoa está mais próximo do que é eterno porque se liberta. Se você tem restrições em perdoar por medo de que algo se perca, lembre-se de que na eternidade não há perda. Nada se perde. Então, para quê o medo? Evidentemente, o que é Eterno mora no momento presente. Porque só existe ele: - O Aqui e Agora. E onde você se experimenta, onde você se encontra, quando você tem consciência de si mesmo, da sua existência? Não é no Aqui, no Agora, neste momento presente? No Aqui e no Agora não existem DOIS. Só UM. Qual a conclusão? Você é eterno. Não o “você” resultado de um raciocínio, de uma conclusão lógica. Você, o “eu impessoal”. Você, “a experiência”. Você, “a vida”. Você é a vida. A vida é eterna. A busca é de vir a SER você de novo. Na maternidade você era 100% VOCÊ, laranja inteira, consciência oceânica. Recupere-se. Reencontre-se. Veja uma última recapitulação: Basicamente, os exercícios sugeridos neste curso resumem-se a dois, pois me relaciono com o mundo material através dos meus sentidos, especialmente o da VISÃO e, ato contínuo, o processo mental estudado se desenvolve rapidamente, incorporando as imagens, daí concentramo-nos passiva ou ativamente, raciocinamos, decidimos, pensamos ou agimos. 103 Assim, depois de se localizar no momento presente através dos sentidos, procure não se identificar com as sensações que as imagens, cheiros, sabores, sons e contatos lhe impregnam no dia-a-dia, a todo o momento. O Fusca é um carro, não é a emoção que me proporciona. Veja as coisas na sua originalidade. Lá fora. Também não se identifique com os pensamentos. Eles não são você. Projete-os a uma certa distância. Centralizando-os à sua frente não será preciso selecioná-los, a ordem natural é construtiva se você apenas PERMITIR que a VIDA, ao fluir, decida. CONCENTRAÇÃO no Momento PRESENTE VENDO AS COISAS LÁ FORA PROJETANDO-VENDO AS IMAGENS LÁ FORA 180º NA SUA ORIGINALIDADE! COMO ORIGINALMENTE! SEM ANALISAR! Nesse sentido, INSTRUIR-SE ou promover a EDUCAÇÃO é sinônimo de “construtivo”. Por isso, o construtivo, provavelmente, será sempre um desafio. Vencer esses desafios e compartilhar a experiência será o nosso aprendizado. Estes momentos estarão sempre permeados de uma alegria criativa e inteligente, de VIDA, de AMOR. 104 Qual a minha autoridade para tratar desses assuntos? A minha experiência, o meu reencontro. Conhecer esta possibilidade é um direito de todos. O MEU PENSAMENTO EU SEI QUE NÃO SOU. EU NÃO PRECISO SER ALGUÉM, mas posso ser. AO ME RELACIONAR, O RESPEITO AO PRÓXIMO É FUNDAMENTAL. PESSOALMENTE, BASTA ESSA CONSCIÊNCIA DE EXISTIR. SE AQUELE “SER IMPESSOAL” NÃO FOSSE O MEU SER VERDADEIRO, EU SIMPLESMENTE NÃO EXISTIRIA. PORQUE, SEM A VIDA, EU NÃO EXISTO, E ELE É A VIDA. MAS AGORA QUE ME ENCONTREI, VOU SER E FAZER O QUE EU ESCOLHER. ESSA RESPONSABILIDADE É MINHA, É UM PRAZER RECONHECÊLA. JÁ NÃO TENHO MEDO PORQUE O INFUNDADO SE FAZ PRESENTE! 105 Mais uma vez, obrigado, Professor! E obrigado a vocês, também. Quanto mais explico, melhor compreendo. 106 COISAS QUE EU NÃO DISSE, NÃO ESCREVI: - “Isto” é certo. “Isto” é errado. O QUE EU DISSE E ESCREVI, SUGERINDO: Drogas, não! Desenvolva esta técnica. Seja amoroso, CONSTRUTIVO. Você consegue sozinho! 107 LINHAS DO TEMPO Y Z X X Meu Passado distante; Y Meu passado próximo; O momento presente; Z Meu futuro incerto. 108 - Todos os fatos do meu passado (X, Y) estão arquivados na minha memória, no meu PASSADO; eles são a minha experiência de vida; - A minha expectativa para o futuro (Z), é concebida no momento presente ( ); - Um minuto atrás, 20 minutos,10 anos, não existem mais – O PASSADO NÃO EXISTE. São águas que se foram; - Um minuto à frente, 20 minutos, 10 anos, não existem – O FUTURO NÃO EXISTE; - Só existe o momento presente ( - Eu não existo ontem, eu não existo amanhã, eu só existo no momento PRESENTE; - Esse agora é diminuto; quanto menor, mais verdadeiro; - Nós nos localizamos na intersecção das linhas do tempo, que segue rumo ao futuro incerto... não sabemos até onde. - Eu só penso no conhecido, por isso só penso em ( X ) ou ( Y), ou algum outro fato do meu passado; - Todo pensamento evoca uma emoção que pode ser alegre ou triste; ), o AGORA; Essas emoções me atingem no momento presente ( zem feliz ou infeliz; - ), e me fa- - Quando eu crio a expectativa de um futuro, eu vou ao meu passado para buscar imagens que concebo se realizando no futuro incerto; esses pensamentos também evocam emoções que me atingem no momento presente; - O medo é a emoção que acompanha as lembranças do meu passado; a ansiedade é a emoção que acompanha a expectativa de acontecimentos no futuro; - Eu posso me tornar um santo no meu AGORA, mas as conseqüências dos atos no meu passado podem continuar infernizando esse momento; - Antes que isso aconteça, permita somente que o construtivo se desenvolva no seu presente; - Não se misture com o seu passado, com as suas emoções, LIBERTESE. - Para se libertar, primeiro você tem de se localizar. - Para tanto, siga as instruções deste manual, deste curso, deste livro, você consegue e é mais simples do que possa imaginar. 109 METADE IGUAL Como posso fazê-la entender Que uma metade em mim é você E em você existe também Uma parte minha, meu bem? Porque não entendem a paixão Todos vivem uma dupla vida: Uma se expõe clamando razão, A outra impulsiona e vive escondida. E é essa que não se identifica, A vida mais bela, a vida mais rica; É essa que se esconde da visão, A que faz pulsar de verdade o coração. É essa metade igual Somada à outra aparente Que resulta nesse ser brutal Porque uma paixão ardente Se oculta no fundo, afinal. Meu bem, você precisa entender Que uma metade em mim Precisa de você inteirinha Pra outra sobreviver. Ênio R. Machado 110 A 2ª Edição foi corrigida por Aglaia Souza, em 24/5/2006, a quem sou muito grato. A vida é um ovo. O ovo é um mundo. Quem quiser nascer, Terá que destruir esse mundo. H. Hesse 111 112