CERTIFICANDO IDENTIDADES DOCENTES Álvaro Moreira Hypolito Faculdade de Educação, UFPel Resumo Este trabalho debate as políticas da Secretaria de Educação Infantil e Fundamental – SEIF – sobre certificação docente, apresentadas no programa “Toda Criança Aprendendo”. O texto apresenta as principais idéias do programa, avaliando-o a partir de considerações históricas dos processos de avaliação docente e caracteriza as políticas do programa como meritocráticas e consoantes com lógicas gerenciais de tipo neoliberal. Por fim, critica o modelo de certificação apresentado a partir de discussões que há muito vinham se desenvolvendo no campo educacional sobre o assunto, considerando-o um modelador de identidades docentes não desejáveis. Palavras-chave: Trabalho Docente; Identidade; Certificação Desde o último quarto de século até os dias de hoje temos vivido uma experiência de reestruturação da sociedade, caracterizada por alinhamentos neoliberais em todos os campos da vida, cujo discurso tem como centralidade o mercado e a fabricação de consumidores. Esta reestruturação resulta dos processos atuais de globalização e os expande ainda mais. Isso já tem sido bastante debatido, principalmente em termos de reestruturação educativa e o papel que a educação deve desempenhar na formação de mentalidades consoantes com os preceitos mercadológicos. Como parte desse processo, como já foi amplamente discutido, muitos procedimentos da organização de empresas e dos processos de trabalho foram transpostos para as escolas como modelos eficientes, principalmente os modelos neofordistas implementados nos últimos anos (VIEIRA, no prelo; LAWN, 2002). Como parte da construção desse discurso a fim de justificar a “coisa pública” como coisa ruim, ineficiente, perdulária, incompetente etc., foi necessária uma dura crítica à educação nos moldes como fora desenvolvida até então. Uma das principais causas apontadas como responsável pela crise educacional tem sido o magistério, considerado pelo discurso oficial um corpo despreparado e incapaz de solucionar os problemas da educação. Nunca são devidamente levadas em consideração por esse discurso as políticas educacionais, as políticas de financiamento da educação, as políticas de formação do magistério e as políticas salariais das décadas recentes. Não só o magistério é considerado culpado, os seus sindicatos que lutam para defender tão somente os “interesses corporativos” da categoria e não se preocupam com os “interesses mais amplos” da sociedade também o são. Todos sabemos que a luta dos sindicatos docentes pela qualidade da escola pública tem sido fundamental para manter o que pouco resta de qualidade e de público na escola pública. A culpabilização do magistério e da sua formação tem sido fundamental para o estabelecimento de políticas de controle sobre o trabalho docente. Dentre essas, uma política que tem sido há muito debatida é a que estabelece formas de avaliação docente como parte de processos avaliativos da eficiência escolar. Esses procedimentos avaliativos têm sido desenvolvidos desde uma perspectiva “técnica” e “científica”, a partir de “centros de pesquisa” cada vez mais especializados em medir e quantificar o trabalho dos outros sem levar em conta as condições objetivas e as condições subjetivas de produção desse trabalho. A sociedade brasileira depositou muitas expectativas de mudanças no novo governo, contando que a partir de 2003 muitas políticas seriam reorientadas nos seus fundamentos teórico-práticos. Especialmente na área de educação em que há considerável massa crítica, produção teórica madura e experiências acumuladas, tanto de inovação educacional quanto de administração da educação em vários municípios brasileiros, a expectativa era tamanha. Contudo, desde que as primeiras políticas começaram a ser introduzidas essas expectativas começaram a ser questionadas. Mesmo admitindo-se que ainda é cedo para críticas, pois estaríamos vivendo um momento de transição e a herança social e econômica foi por demais pesada, o que poderia talvez ser válido para algumas áreas, penso que na área da educação o que foi anunciado já nos permite uma análise mais cuidadosa. A Secretaria de Educação Fundamental 1 (SEF) lançou, no início do mês de junho de 2003, em Brasília, o documento “Toda Criança Aprendendo”, o qual foi apresentado e debatido com um pequeno grupo de profissionais da educação convocado para a reunião. O documento faz um rápido diagnóstico da situação do ensino fundamental no Brasil e estabelece uma série de políticas, organizadas em quatro eixos básicos: i) Política Nacional de Valorização e Formação de Professores; ii) Ampliação do Atendimento Escolar; iii) Apoio à Construção de Sistemas Estaduais de Avaliação da Educação Básica; e iv) Programas de Apoio ao Letramento. 2 Este trabalho pretende debater essas políticas, especialmente aqueles aspectos relacionados com profissionalização, avaliação e formação docente. Em particular, pretende dedicar mais atenção às políticas de valorização e formação docente e aos processos de avaliação da educação. Para tanto, na próxima seção será apresentado o conteúdo do próprio documento, indicando suas diretrizes gerais, e nas seções seguintes serão debatidos aspectos do profissionalismo e da profissionalização, para uma análise das propostas em relação ao trabalho docente e, por fim, pretende-se uma avaliação dessas políticas. 1. “Toda criança aprendendo” e avaliação docente A seguir apresento os principais elementos do programa proposto pela SEF e pela portaria ministerial que regulamenta parte importante do programa referente à certificação docente. 2 Após uma breve introdução com informações sobre o desempenho de crianças e do ensino fundamental, a partir de dados do SAEB, indicando que 59% das crianças que freqüentam a 4a. série do ensino fundamental apresentam desempenho crítico na leitura, o programa passa a ser apresentado como alternativa para “inaugurar, por meio de um pacto nacional que reúna o conjunto de entes da Federação, uma década de elevação acelerada da qualidade do ensino. O objetivo imediato, a se verificar no programa nacional de avaliação da educação de 2005, é reduzir à metade, em todo o Brasil, os atuais índices de desempenho crítico entre as crianças que concluem os quatro anos iniciais do ensino fundamental.” (BRASIL, 2003, p.5) O programa está assentado em quatro eixos políticos, a saber: a) política nacional de valorização e formação de professores; b) política de ampliação do atendimento escolar; c) política de apoio à construção de sistemas estaduais de avaliação da educação pública; e d) política de programa de apoio ao letramento infantil. Cada um desses eixos desdobra-se em políticas mais específicas. A “Política Nacional de Valorização e Formação de Professores” é constituída por quatro políticas específicas: a) Piso salarial e Carreira do Professor – prevê que a instituição de um piso salarial e a regulação da carreira docente são componentes essenciais para um pacto nacional pela educação. Indica que para isso medidas legislativas serão necessárias e deverão ser antecedidas de ampla negociação com os envolvidos 3 (entes federados e associações docentes) a fim de garantir recursos necessários para a elevação da remuneração docente. b) O Exame Nacional de Certificação de Professores – o exame destina-se a todos os profissionais habilitados, nas diferentes áreas, e a todos os concluintes das licenciaturas. No caso das licenciaturas, os exames, além da certificação, constituir-se-ão parte integrante dos programas de avaliação das licenciaturas. Deverão ser realizados todos os anos, com validade por cinco anos, embora não seja obrigatório para o exercício da docência. Os exames poderão ser utilizados pelos gestores das redes de ensino para fins de processos seletivos, acompanhamento e avaliação de políticas de formação docente, promoção na carreira e concessões de benefícios a docentes em exercício; c) A Bolsa Federal de Incentivo à Formação Continuada e a contrapartida dos Entes Federados – cada docente certificado pelo exame nacional e em efetivo exercício da docência fará jus a uma bolsa federal de incentivo, por cinco anos, renovável mediante nova certificação. O MEC encaminhará projeto de lei de criação da bolsa. O valor será estabelecido anualmente dependendo de disponibilidades orçamentárias. Os estados e municípios deverão, como contrapartida, ampliar os investimentos em formação continuada. O valor da bolsa, segundo informações oficiosas, deverá ser de cem reais por mês. d) A Rede Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação – a rede terá por objetivo o aumento da oferta de meios para a formação docente e o MEC apoiará pesquisa educacional aplicada, produção de materiais didáticos e cursos à distância de formação inicial e continuada. A política de “Ampliação do Atendimento Escolar” prevê a ampliação da duração do ensino fundamental obrigatório para nove anos, incluindo as crianças de seis anos de idade, com incentivo do MEC para uma progressiva ampliação da jornada escolar e aumento das escolas de tempo integral. O terceiro eixo refere-se ao “Apoio à Construção de Sistemas Estaduais de Avaliação da Educação Básica”. A idéia é ampliar o sistema de avaliação hoje representado pelo SAEB, por meio da implementação de programas estaduais de avaliação do rendimento e da qualidade escolar. Visa, em última análise, a articulação de um sistema nacional de avaliação, envolvendo o MEC, os sistemas estaduais de educação e as universidades, a fim de garantir: associação com instituições universitárias de pesquisa, com o objetivo de criar competência nacional 4 na área; participação dos centros de pesquisa educacional, instituições de formação de professores e do associativismo docente na definição das matrizes de referência e dos instrumentos; incorporação das unidades escolares no processo; e garantir a diversidade regional, sem prejuízo do caráter nacional da avaliação. Por fim, propõe “Programas de Apoio ao Letramento” que envolvem, por um lado, programas de aceleração de aprendizado, a fim de regularizar o fluxo escolar e a distorção idade-série, por meio de projetos especiais de aceleração, de caráter emergencial, incluindo formação docente e aquisição de materiais didáticos, e, por outro lado, uma Gratificação de Incentivo ao Letramento, calculada com base no desempenho dos alunos das séries ou ciclos iniciais. Os recursos serão concedidos às escolas, podendo ser usados para remunerar docentes e servidores. A gratificação será instituída pelo MEC e a fórmula de cálculo resultará de negociação entre os entes federados e associações docentes. A Portaria no. 1403, do MEC, já instituiu o “Sistema Nacional de Certificação e Formação Continuada de Professores da Educação Básica”. 3 O exame nacional, definido a partir desta portaria, passa a ser o exame nacional dos cursos de licenciatura (equivalente ao provão, embora este esteja sendo repensado). A participação dos concluintes dos cursos de licenciatura é obrigatória e a dos profissionais em exercício é voluntária. O texto define as áreas de certificação e também trata da rede nacional de centros de pesquisa, definindo como as instituições serão selecionadas, como poderão ser apoiadas pelo MEC, sendo que este apoiará dois centros em cada área de certificação. A portaria estatui que, por meio de Projeto de Lei, o ministério proporá a bolsa de incentivo aos docentes, mencionada em “Toda criança aprendendo”. 2. Avaliação e formas de controle sobre o trabalho docente Nesta seção pretende-se debater alguns aspectos de como os processos de avaliação e controle vieram sendo construídos ao longo da constituição do magistério como profissão de ensinar. A seguinte passagem de Apple (1999) descreve um acontecimento que está registrado no antigo diário de uma professora. O diário “conta a história de uma jovem professora que estava sendo avaliada por um diretor que entrou em sua classe para observar se ela seguia ‘a única forma certa’ de ensinar. Depois de pedir a 5 um aluno que lesse em voz alta para ele, o diretor não ficou satisfeito com o desempenho nem da professora nem de seus alunos, e deixou claro seu descontentamento. Aqui estão as palavras da professora. ‘A maneira correta de ler nas escolas pública de Boston, em 1899, era dizer ‘página 35, capítulo 4’ e, com o livro na mão direita, os pés formando um ângulo de 45o, a cabeça reta e erguida, o olhar dirigido diretamente para a frente. O aluno levantava a voz e fazia um grande esforço num tom alto e artificial. Ora, eu tinha prestado atenção na posição dos pés, no braço direito e no nariz, mas esquecera de enfatizar a menção da página e do capítulo. (FRASER, 1989, p.128)’ A professora estava temerosa com razão. Estava arriscada a perder o emprego.” (APPLE, 1999, p. 69-70) Esta passagem mostra que o professorado possui razões históricas para desconfiar dos processos de avaliação docente. Não só porque são formas de controle sobre o seu trabalho, mas fundamentalmente porque a forma como esses processos de avaliação têm sido propostos são ineficazes para apreender as complexidades do trabalho pedagógico e porque desconsideram as condições de produção do trabalho escolar. Como afirma Apple (...) mesmo quando se reconhece a complexidade dos tipos de conhecimento, das habilidades e dos valores docentes porque, hoje, não existe concordância universal sobre ‘o que faz um bom professor’ em todas as situações e como isso deveria ser adequadamente avaliado, boa parte do foco da avaliação está sobre uma gama limitada de ‘habilidades técnicas’ genéricas ou sobre uma lista atomizada de ‘competências’ relativamente fáceis de medir (mas incertas quanto a seu sucesso real). (APPLE, 1999, p. 72) A experiência da avaliação institucional é também nossa conhecida de longa data. Desde o Império existe a função do inspetor escolar, que era o profissional responsável pelo controle da execução das orientações político-administrativopedagógicas nas escolas e nos distritos escolares (FARIA FILHO, 2002). Após o advento dos grupos escolares, nos primeiros anos do século XX, implantados como parte de reformas do ensino – dependendo dos estados –, a função dos inspetores escolares passou a ser fortalecida, pois passava a desempenhar papel decisivo no direcionamento político-administrativo dos grupos escolares, que eram desde então escolas com estruturas bem mais complexas do que as pequenas escolas ou classes isoladas. O controle burocrático sobre o trabalho escolar e docente era vital 6 para o bom desempenho das escolas e, para isso, era crucial a criação de uma linha de transmissão que funcionasse [Estado Inspeção Escolar Direção Docência] (ARROYO, 1985). Dentre as funções atribuídas aos inspetores pode-se encontrar a verificação da “disciplina, ordem e regularidade dos trabalhos escolares”, “se o programa de ensino primário está bem e fielmente praticado”, orientação das “necessárias instruções” caso não tenha sido “bem compreendido o espírito do programa”, e, inclusive, caberia aos inspetores “assistir ao funcionamento das aulas, indicando ao professor tudo quanto repute necessário modificar no método por ele seguido”. 4 Nesse contexto a inspeção era considerada a “alma do ensino” (FARIA FILHO, 2002, p.103). Como sabemos essas formas de controle sobre o trabalho docente foram desenvolvidas pari passu com os processos de feminização do magistério. Mesmo que o magistério estivesse se transformando numa profissão de mulheres e feminilizada (TAMBARA, 2002), o que valia sem sombra de dúvidas para a docência, não era bem verdade para as funções burocráticas e de poder, como era o caso dos inspetores escolares – função quase que exclusivamente constituída por homens (FARIA FILHO, 2002). Mesmo hoje quando o percentual de docentes mulheres no ensino fundamental é em torno de 97,4%, o número de homens em funções administrativas e de poder na educação em relação ao número de homens docentes é relativa e significativamente maior (CARVALHO, 2000, p.145). Essas formas de controle sobre o trabalho docente evoluíram para modelos bastante complexos, acompanhando a complexidade da própria organização escolar que evoluiu para modelos cada vez mais baseados na administração científica do trabalho, desenvolvida no século XX para melhor gerenciar a organização da produção e do trabalho (Lourenço Filho, 1963). Assim, essas formas de controle, inicialmente exercidas desde fora da unidade escolar, passaram a ser exercida também internamente. Após o advento dos grupos escolares, a organização escolar passou a ser mais complexa, aprofundando a burocracia escolar, aumentando a divisão de tarefas e funções docentes e separando as atividades administrativas das pedagógicas. O resultado foi o surgimento e ampliação de novas funções de supervisão, orientação, coordenação e inspeção escolar, combinando formas internas e externas de controle sobre o trabalho docente, aumentando as exigências burocráticas e os processos de intensificação do trabalho docente (APPLE, 1989). 7 Após os anos 50 essa tendência foi aprofundada com domínio do tecnicismo, que transbordou a educação em termos pedagógicos e organizacionais. Evidentemente, tudo isso ocorreu num contexto de ampliação da rede escolar provocada pelo demanda crescente das classes populares por escola. Mais recentemente, no último quartel do século XX, vários processos de reestruturação social e educativa se desenvolveram. Pelo menos três grandes eixos podem ser destacados para caracterizar esse período que ainda estamos vivendo: a) o avanço tecnológico que revolucionou as formas de produção e de organização do trabalho (informatização, meios de comunicação, processos de automação, novas formas organizacionais e gerenciais do trabalho, etc.); b) a mistificação de o mercado ser a solução para a crise fiscal do estado, com a implementação de políticas econômicas conservadoras e neoliberais (noções de estado mínimo, privatizações, cortes de orçamento para áreas sociais, etc.); e c) estado politicamente centralizado e forte, definindo políticas de controle sobre a sociedade (avaliação – provão, SAEB; currículo nacional – PCNs; livros didáticos, etc.). No contexto da globalização e da expansão do mercado para todos os recantos, a reestruturação da sociedade em moldes neoliberais foi estruturante e a reestruturação educativa essencial para o sucesso do modelo (GANDIN; HYPOLITO, 2003). Especificamente dois desses aspectos interessam mais para o que se está aqui abordando: as novas formas de organização do trabalho e as políticas centralizadas de controle e avaliação. Embora muitos possam achar que essencialmente a escola tenha mudado pouco desde o advento dos grupos escolares, uma coisa é certa: as professoras não recebem mais a visita de diretores e inspetores para testar a aprendizagem de suas crianças e verificar seus métodos e resultados obtidos. Não, as formas de controle e avaliação do trabalho são mais sofisticadas e sutis. Na verdade, mais indiretas do que sutis. Boa parte dessas sutilezas, complexidades e sofisticações estão presentes nas novas formas de organização do trabalho escolar, as quais se pode denominar modelo pós-fordista de organização (ROBERTSON, 1996; 2002; MENTER et al., 1997). Em resposta às lutas por autonomia escolar e gestão democrática, muitos estados e municípios desenvolveram políticas de gestão escolar aparentemente descentralizadoras, participativas e mais democráticas. Essas políticas traduziramse em criação de conselhos escolares, eleição para cargos dirigentes, gestão 8 financeira das escolas, municipalização de merenda escolar, participação da comunidade, e assim por diante. Contudo, muitas dessas experiências não passaram de formas de flexibilização do trabalho e de modelos pós-fordistas de gerência. Os modelos baseados na qualidade total foram, num certo período, os mais comuns e conhecidos, chegando a virar modismo nas redes particulares de ensino e em muitas secretarias de educação, mas sempre alcançaram resultados duvidosos, formando muito mais novas subjetividades e identidades docentes, a partir de formas de controle e avaliação, do que autonomia e profissionalismo (VIEIRA, prelo). Essas políticas combinam discursos de autonomia e descentralização com formas fortes e centralizadoras de controle. Estas últimas podem ser identificadas pelas políticas de currículo nacional – os chamados PCNs –, agora também com a versão dos parâmetros em ação; pelos exames nacionais (provão, Enem, etc.) 5; os sistemas nacionais de avaliação (SAEB e outros sistemas regionais de avaliação) e os sistemas internacionais de avaliação (PISA). 6 Na verdade, todas essas políticas seguem um padrão internacional, muito embora sempre sejam apresentadas como políticas locais, criadas para resolverem nossos problemas, etc. (GANDIN; HYPOLITO, 2003). Enfim, tudo isso parece constituir razões históricas suficientes para que os professores e as professoras desconfiem dos discursos oficiais sobre profissionalização e das formas burocráticas de avaliação docente. Tudo parece indicar que quanto mais o discurso oficial da profissionalização interpela as/os docentes mais lhes é imputada a culpa pela falta de profissionalismo. Assim, cabe ao estado avaliar e a cada docente a responsabilidade pela sua própria formação de competências. A profissionalização é menos um sonho e mais uma miragem (HYPOLITO, 1999). 4. Avaliação da avaliação Como já disse antes, os programas de avaliação docente são parte constitutiva das políticas educacionais conservadoras das últimas décadas. Para que a eficiência das políticas administrativo-pedagógicas de flexibilização e descentralização seja acompanhada, para que a padronização de resultados seja alcançada, para que os parâmetros curriculares nacionais sejam uma realidade e para que a formação docente esteja voltada aos preceitos dessa reestruturação 9 educativa, programas de avaliação são imprescindíveis para um controle de “qualidade”. Tudo devidamente orientado para competências do mercado. Não que processos de avaliação sejam prescindíveis. O problema está em quem avalia, o que é avaliado, como é avaliado e qual a finalidade da avaliação. O Brasil é um dos poucos países fora da comunidade européia que participa do PISA, que tem como finalidade testar os conhecimentos de estudantes em vários países a fim de verificar se estão preparados para enfrentar os desafios do novo século. Processos de avaliação similares fizeram parte das políticas conservadoras em vários países, tais como Austrália, Nova Zelândia e Inglaterra (SMYTH; SHACKLOCK, 1998; MENTER et al., 1997). O SAEB tem cumprido este papel de avaliar a educação para subsidiar as políticas educativas governamentais, a partir de parâmetros discutíveis do ponto de vista da qualidade social. A meu ver, este modelo de avaliação parte de pressupostos e procedimentos equivocados, pois embora considere aspectos físico-materiais das escolas e colete informações sobre formação e funções docentes, não consegue analisar as condições de produção da docência e do ensino que pretende analisar. Essa contradição fica clara quando esses resultados são confrontados com dados de pesquisas realizadas pela CNTE 7, por exemplo. Para ilustrar melhor os argumentos aqui colocados, utilizo-me de uma passagem que sintetiza aspectos do estudo Retratos da Escola II. “A pesquisa mostra a importância da leitura, pelo professor, de livros, revistas e jornais de informação geral e de atualidades, e de romances e revistas em quadrinhos, que permitem acesso a opiniões mais amplas, a outras dimensões do conhecimento humano e ao mundo discente. O tipo de leitura mais importante para melhorar a proficiência de 4ª série e a qualificação dos professores, em qualquer etapa de ensino, não se limita aos aspectos técnicos da profissão, mas à sua própria amplitude e complexidade. A política educacional oficial, entretanto, secundariza esse aspecto da qualificação profissional, preferindo atuar na capacitação em serviço, voltada principalmente para os aspectos técnicos e metodológicos do trabalho. Não discute a política, sua concepção e formulação. Apenas as melhores formas de sua implementação na escola. Tal postura limita os espaços de formação continuada, reduzidos ao “aprender a fazer”. Exemplo explícito tem sido a execução do Programa Parâmetros em Ação. (ABICALIL, 2002, p.261) 10 Esta passagem é parte de um texto escrito antes da atual gestão do ministério, portanto analisa as políticas que estavam sendo desenvolvidas até 2002. Todavia, tudo indica que essas políticas de formação e avaliação docente não estejam sendo alteradas substancialmente, inclusive naqueles aspectos relacionados com o SAEB e suas finalidades. Esquematicamente, as avaliações do ensino fundamental têm se centrado na proficiência dos estudantes, cuja performance, como não poderia deixar de ser, é bastante precária e a culpa, mesmo que indiretamente, vem sendo atribuída à incompetência ou despreparo docente. A conseqüência natural é a necessidade de melhorar a competência docente através de programas de formação, cuja tônica tem sido o aligeiramento da formação inicial, estímulo à educação à distância, programas de capacitação em serviço, dentre outras modalidades (FREITAS, 2002). Contudo, A relação entre formação profissional e proficiência dos alunos não se limita à escolaridade do professor, que na maioria dos estados e dos municípios, em qualquer das redes de ensino, é maior do que a exigida por lei. Interferem outros fatores como tempo em que trabalha como professor e tempo em que trabalha na escola. A experiência acumulada, tecida nos desafios diários enfrentados pelos professores, tenderá a ser mais valorizada para a qualificação profissional, à medida que for refletida e sistematizada na relação teoria versus prática, superando o estágio de conhecimento do exercício profissional, para o estágio de apropriação e pleno controle desse exercício por meio da reflexão/ação/reflexão. As políticas vigentes não contribuem para isso, seja pela natureza da formação em serviço, como vimos anteriormente, seja pelas condições objetivas de tempo dos professores, presos a múltiplas jornadas de trabalho, via de regra em mais de uma escola ou rede de ensino, a dezenas de turmas e centenas de alunos. O acúmulo de tarefas burocráticas decorrente desse quadro gera sobrecarga de trabalho e prejudica o aperfeiçoamento e a qualificação dos professores e a sua relação pedagógica com a escola e com os estudantes. (ABICALIL, 2002, p. 261) Penso que aqui é possível relacionar outro aspecto do Programa Toda Criança Aprendendo. A rede de pesquisa e formação que o programa quer estabelecer com as universidades é principalmente voltada para a pesquisa ‘aplicada’ e formação de professores. Fica muito claro que a intenção é de que as agências de formação fiquem amarradas à produção de material didático e outros 11 meios para reforçar um certo “aprender a fazer” centrado nas competências já definidas e ratificadas. 8 É um esquema bem fechado, como indico abaixo: PESQUISA APLICADA COMPETÊNCIAS BOLSA FEDERAL CERTIFICAÇÃO FORMAÇÃO NÃO CERTIFICAÇÃO Busca de mais formação A inversão que ocorre a partir dessa política é que a ênfase fica colocada na individualização das deslocamento de responsabilidades responsabilidades: pela formação profissional. o que deveria ser Há um assumido como responsabilidade do estado passa a ser atribuído aos próprios docentes que, além de buscar maior competência, ainda têm que competir com seus pares por bolsas e gratificações, baseadas no desempenho e na proficiência do alunado, o que poderá criar disparidades internas nas carreiras (FREITAS, 2002). A perversidade do modelo está na meritocracia: aqueles que sofrem das piores condições objetivas e subjetivas para realizarem o seu trabalho – salários, condições materiais de trabalho, crianças vivendo em ambientes desfavoráveis à educação escolar, etc. –, tendem a obter resultados menos favoráveis em testes e exames bastante distantes de suas realidades, não serão contemplados com bolsas (no caso da certificação) ou mais recursos financeiros (no caso do Apoio ao Letramento). Os fundamentos deste modelo já estavam previstos na Resolução No 03 do CNE, a qual reduz a valorização do magistério “(...) à avaliação periódica de conhecimentos do profissional e ao grau de proficiência de seus alunos, com impactos progressivos ou regressivos na carreira e na remuneração. Um desvio desta magnitude pareceria justificar que menos aprendizagem justificaria menos salário – e vice-versa –, numa dinâmica de legitimação da falta de qualidade e da promoção da desigualdade como próprios da natureza do processo escolar. O modismo dos prêmios de produtividade aplicado por grandes redes públicas de ensino representa um choque ético, portanto. (ABICALIL, 2002, p.266) 12 Alguns estados já vêm articulando sistemas de avaliação e de compensação que seguem na mesma linha. O próprio programa Toda Criança Aprendendo apresenta como diretriz que sejam criados sistemas estaduais de avaliação. Isso fica mais claro na seguinte passagem, comentada por Freitas (2002) “(...) em Fortaleza (CE), no ano de 2000, houve um processo de avaliação de aproximadamente 50 mil crianças com 14 e 15 anos que estavam “defasadas” na 4ª série do ensino fundamental. Os resultados da avaliação dos alunos permitiram que cada professor pudesse receber um valor adicional de R$ 40 por aluno que tivesse obtido nota 7 em cada uma das disciplinas. Isso significou uma gratificação para os professores de até R$ 4 mil por conta da forma de avaliação e da vinculação do desempenho/remuneração dos professores ao desempenho de seus alunos. Estas iniciativas vão dando pistas, indicações de que os próximos passos a serem implementados pelos sistemas estaduais de ensino vão na direção de estabelecer sistemas de avaliação de seus professores estreitamente vinculados aos resultados da avaliação nacional realizada pelo SAEB e pelos sistemas estaduais, como o SARESP. (p.159-60) O interessante de ser notado é que esses comentários se referem a políticas desenvolvidas no final dos anos 90. A lógica é exatamente a mesma baseada na meritocracia, o que fica bastante claro com a “Gratificação de apoio ao letramento”. Dependendo do sucesso dos estudantes haverá uma gratificação de incentivo repassada às escolas e poderão ser utilizadas para pagamento de pessoal. As divisões e disparidades internas que isso pode provocar são previsíveis e indesejáveis. Da mesma forma, a bolsa federal a que farão jus todos/as que forem aprovados no exame e obtiverem a competência requisitada. Se há recursos para conceder uma bolsa para quem obtiver certificação, por que não incluir o valor da bolsa para aumentar o piso salarial? O que menos tem sido debatido, embora anunciado no programa, são as políticas de valorização e de formação do magistério, o que significa, sem tergiversações, melhores salários e carreira digna, programas de educação continuada sólidos e consistentes, e uma formação inicial em universidades sem separação do ensino e pesquisa. Sem dúvida, mais discussões e debates serão necessários para reverter essa tendência que se impõe como política de controle do trabalho docente e da gestão educacional. Do meu ponto de vista, essas políticas não só afastam o magistério da 13 profissionalização, como são excludentes das culturas não incluídas no currículo nacional e pouco acrescentam em termos de participação da sociedade nos rumos da educação escolar. A superação das formas tradicionais de autonomia docente, muitas vezes corporativa e restrita, não é a pura e simples heteronomia, mas formas coletivas de gestão escolar e pedagógica que concebam autonomia desde uma perspectiva política de participação social. Referências ABICALIL, Carlos A. Sistema Nacional de Educação Básica: Nó da avaliação? Educação & Sociedade, Campinas, v. 23, n. 80, p. 253-274, setembro/2002. APPLE, Michael W. Educação e Poder. Artes Médicas : Porto Alegre, 1989. ________. Se avaliar o professor é a resposta, qual é a pergunta? In: Veiga, I. P. A. e Cunha, M. I. (org.) Desmistificando a profissionalização do magistério. Campinas, SP : Papirus, 1999, p.67-79. ARROYO, Miguel. Mestre, professor, trabalhador. 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Outras informações no site http://www.mec.gov.br/sef/fundamental/default.shtm, acessado em 21/7/2003, bem como no texto da portaria ministerial n.1403, de 09 de junho de 2003, do MEC. 3 Por variadas manifestações de entidades sindicais e científicas que revindicaram mais debates sobre o assunto e algumas chegaram a se manifestar frontalmente contra o exame de certificação, o exame está adiado. 4 Essas atribuições foram destacadas por Faria Filho (2002) a partir do Regulamento da Instrução Primária e Normal do Estado de Minas Gerais, de 1906. 5 Ver Gomes (2002). 6 PISA é um programa de avaliação internacional de estudantes em vários países, principalmente daqueles países membros da OCDE – Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Poucos países que não são membros têm participado dessa avaliação. O Brasil é um dos poucos. 7 Pesquisas que resultaram nos relatórios Retratos da Escola (I e II) e pesquisa sobre trabalho docente publicada no livro Educação: Carinho e Trabalho (CODO, 1998). 8 As competências já estavam firmadas no documento apresentado pela SEIF para o debate das reuniões que ocorreram nos estados. As competências foram aprovadas sem muita discussão na reunião de Brasília. Ver detalhes em Freitas (2003). 2 16