Observador On-line | v.6, n.05, mai. 2011 | Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Observatório Político Sul-Americano Instituto de Estudos Sociais e Políticos Universidade do Estado do Rio de Janeiro IESP/UERJ http://www.opsa.com.br Política em movimento: uma análise dos blocos partidários chilenos durante o governo Piñera. Observador On-Line (v.6, n.05, mai. 2011) ISSN 1809-7588 Pedro Benetti Josué Medeiros Pesquisadores do Opsa Introdução No dia 11 de março de 2010, Sebastián Piñera assumiu a presidência do Chile para um mandato de cinco anos. Em sua segunda tentativa de chegar ao poder, Piñera derrotou o ex-presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle, do Partido Democrata Cristão (DC). Esta foi a primeira vez desde o processo de redemocratização que o bloco Concertación por la Democracia não conseguiu eleger seu candidato no pleito presidencial. Em outras palavras, pela primeira vez em 20 anos a direita liberalconservadora retornava ao poder no Chile. Nesse período de aproximadamente duas décadas de regime democrático, a política formal chilena esteve estruturada em torno de dois grandes blocos partidários, a saber, Alianza e Concertación. Enquanto o primeiro reúne os dois partidos que ocupam a direita do espectro político chileno, o segundo bloco é formado pelos partidos do centro e da esquerda moderada, somando quadros que se opuseram ao regime ditatorial de Augusto Pinochet (1973-1990). O objetivo deste trabalho é compreender como estes dois blocos vêm se comportando diante de um cenário inédito na recente democracia chilena, qual seja, a chegada da Alianza ao poder. De maneira alguma se reivindica nesse contexto a possibilidade de uma análise política que prescinda dos movimentos da sociedade. Entendemos que os estudos demasiadamente fechados na compreensão dos partidos e instituições são incompletos no esforço de reflexão acerca das 2 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 realidades que pretendem analisar. Particularmente no Chile, o universo da política formal permanece relativamente restrito, alijando importantes forças políticas daquela sociedade. A própria classe trabalhadora organizada encontra pouca representação nos partidos que dominam o parlamento e os postos executivos espalhados pelo país. Esta é apenas uma referência no campo de categorias tradicionais das ciências sociais no ocidente. No caso de sociedades latinoamericanas, seria leviano ignorar outras possibilidades de organização de importantes atores sociais, como os Mapuches ou os Rapa Nui, no caso chileno. No entanto, em função das restrições de tempo e espaço, optamos por concentrar nossa observação neste tópico específico. Desta forma, esperamos contribuir de maneira parcial para um debate que deve necessariamente incluir outro elementos. Compreender os movimentos do principal vetor da política formal nas democracias contemporâneas, os partidos, significa perceber as possibilidades e restrições na operação de iniciativas de transformação dentro do escopo das regras do jogo. Ou seja, somente através deste tipo de conhecimento, se torna possível pensar em horizontes de expectativas possíveis num determinado universo político. Se o Chile é percebido por analistas de mercado como um exemplo de sucesso econômico na América Latina, é também verdade que o país figura dentre os mais desiguais de uma região que se destaca mundialmente pela desigualdade social. Esse dado deve necessariamente nos remeter à política e aos consensos forjados em torno das condições para o processo de acumulação no nível nacional. É nesse quadro maior que tomaremos o nosso objeto particular, percebendo a acomodação das coalizões diante da nova realidade de um governo que se articula pela direita, não só em suas práticas como também em seu discurso. Como resultado deste trabalho, restará uma questão fundamental: as coalizões partidárias que organizaram a vida política chilena desde o processo de redemocratização estão esgotadas? Essa pergunta não deve ser encarada do ponto de vista de quem pretende fazer um prognóstico, mas sim de quem reflete a política a partir da necessidade de diagnósticos. Ao levantar o tema, não é nosso objetivo prever o desmantelamento dos dois blocos, mas sim questionar sua capacidade de apreender a complexidade da política no país, bem como o nível de representação que oferece dos conflitos sociais que naturalmente se processam no Chile. 3 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Breves considerações sobre a recente democracia chilena A democracia chilena teve sua gestação iniciada no decorrer da década de 1980, ainda no contexto de uma arena política controlada pelo regime militar. O esgotamento da Guerra Fria, no plano global, e a queda dos regimes autoritários no cone sul, em nível regional, foram elementos externos que contribuíram para o diagnóstico do regime Pinochet de que a transição para algum tipo de democracia constituía uma etapa inevitável do desenvolvimento político chileno. Por outro lado, no que se refere ao ambiente interno, a década de 1980 foi marcada pela consolidação do modelo econômico neoliberal e da economia de mercado nos termos pretendidos pelo governo ditatorial, em associação com setores intelectuais e políticos do chamado primeiro mundo. A idéia de que o modelo econômico estava consolidado e a oposição política comunista controlada contribuía para a possibilidade de reformas políticas no regime. Longe de afirmar uma disposição democrática por parte de Pinochet e seus aliados, o que se coloca aqui é a entrada em um novo momento da política, em níveis locais, regionais e globais. Assim sendo, uma conjunção de fatores contribuiu para a transição, sem que essa se devesse a um suposto desejo democrático do regime vigente. A percepção de que era melhor uma transição para a democracia controlada pelo regime prevaleceu na conformação das regras que regulariam os processos de disputa pelo poder político. A ausência de um movimento popular forte o suficiente para promover uma ruptura radical com a ditadura determinou os rumos da democracia chilena, na medida em que permitiu uma transição controlada, que atendeu aos interesses dos grupos que já se configuravam como dominantes. A constituição de 1980 estabeleceu um mandato de oito anos para o general Augusto Pinochet, ao final do qual seria realizado um plebiscito para determinar se o próximo mandatário seria o nome escolhido pelos chefes das Forças Armadas ou se seriam realizadas eleições para a presidência da república. Na prática, com a indicação de Pinochet, o plebiscito de 1988 se tornou um momento chave na história chilena, em que se decidia pela continuidade do regime inaugurado em 1973 ou pela transição rumo à democracia. Foi nesse momento que alguns dos tradicionais partidos políticos do período pré-1973 voltaram a se organizar, além de novas agremiações que se formaram para disputar espaço numa nova institucionalidade mais aberta. A mobilização em torno do “Não” deu origem à Concertación de Partidos por el No, embrião da atual Concertación, ao passo que no 4 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 campo da direita diversos movimentos se mobilizaram em favor do “Sim”, dentre eles a União Democrata Independente (UDI) e a Renovação Nacional (RN). Com a vitória do “Não”, restava ao general Pinochet aproximadamente um ano de mandato, período no qual deveriam ser realizadas eleições para o Executivo e para o Legislativo. Uma vez reconhecida oficialmente a derrota do governo, o caminho para a democracia parecia inexorável, ainda que sempre sob a sombra dos militares. Em dezembro de 1989, foram realizadas as primeiras eleições democráticas desde 1970. Enquanto a Concertación por el No se transformou em Concertación por la Democracia, apresentando o democrata-cristão Patricio Aylwin como candidato, os dois principais partidos de direita se juntaram em torno da candidatura de Hernán Büchi, ex-ministro da fazenda de Pinochet. As eleições de 1989 herdaram do plebiscito de 1988 e aprofundaram um padrão de divisão dos partidos políticos chilenos que perduraria no período democrático. Büchi, que representava a defesa do legado do regime militar, concorreu pela coalizão Democracia e Progresso, formada pela UDI e pela RN, os dois partidos que fornecem a base da atual Alianza. Também no campo da Concertación persistem atualmente os mesmos partidos políticos daquele momento. Apesar da tensão constante no processo de transição, o governo Patrício Aylwin foi até o fim sem interrupções. O sucessor de Aylwin foi escolhido nas eleições de 1993, que opuseram os mesmo dois grupos de partidos, sendo a Concertación representada por outro democrata-cristão, Eduardo Frei Ruiz-Tagle; e o bloco da direita, que nesse momento se denominou Unión por el Progreso, foi liderado por Arturo Alessandri Besa. Nesse pleito, Frei repetiu a vitória DC de quatro anos antes e conquistou o mandato presidencial, que duraria seis anos. Entre dezembro de 1999 e janeiro de 2000 foi escolhido o novo presidente chileno, que sucederia Frei. Novamente a divisão estabelecida no plebiscito prevaleceu. A Concertación indicou o socialista Ricardo Lagos, do Partido por la Democracia (PPD) enquanto a oposição, agora denominada a Alianza por Chile, escolheu o político UDI Joaquin Lavin como candidato. A eleição de Lagos foi a primeira de um candidato identificado com a esquerda desde a abertura política e seu mandato foi fundamental para a remoção dos chamados entraves autoritários da constituição chilena. As avaliações positivas do governo Lagos contribuíram para a eleição de Michelle Bachelet, candidata socialista da Concertación. Nesse pleito, no entanto, UDI e RN apresentaram candidatos distintos pela primeira vez. Enquanto Joaquin Lavin foi eliminado no primeiro turno, em dezembro de 2005, Sebastian Piñera, pela RN, passou ao segundo turno, em janeiro de 2006. De qualquer maneira, este 5 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 evento não representou propriamente uma ruptura com o padrão desenvolvido a partir da segunda metade da década de 1980, uma vez que a Alianza discutiu a necessidade de realizar primárias e, diante do diagnóstico de que inevitavelmente haveria segundo turno, optou por levar os dois candidatos às urnas, apoiando aquele que fosse escolhido para enfrentar Bachelet em janeiro. No ano de 2010, apesar da elevada popularidade de Michelle Bachelet, a Concertación não conseguiu eleger seu escolhido para a sucessão, o ex-presidente Eduardo Frei Ruiz-Tagle. Ele foi derrotado pelo candidato da Alianza, Sebastian Piñera, que também concorria pela segunda vez. Embora tenha representado uma ruptura em relação à seqüência de governos concertacionistas iniciada com Aylwin em 1990, a eleição de Piñera não foi atípica do ponto de vista da distribuição dos partidos políticos. Nesse momento, assim como vinha ocorrendo desde 1988, as principais forças da política formal no país estiveram dividas entre aqueles que de alguma maneira carregavam a tradição política e econômica do regime autoritário e os que reivindicam a necessidade de continuar e aprofundar o processo de democratização do Chile. Ainda que a questão da democracia propriamente dita não seja objeto de debate, o eixo central desta divisão política se constitui em torno daqueles que percebem ou não a existência de um legado a se preservar quando se observa a experiência da ditadura de Pinochet. Esse legado se refere especialmente à ordem econômica, mas não só a ela, passando também pela preservação do sistema político, organizado a partir da constituição de 1980. Este sistema político, apesar de não ter evitado as vitórias da Concertación nas eleições majoritárias para a presidência da república, garantiu significativa participação parlamentar da oposição conservadora desde a redemocratização. O modelo de escolha dos congressistas e as regras para a ocupação de cadeiras no Senado garantiram ao longo desse período uma significativa sobre-representação da direita no poder legislativo. O sistema binominal1 chileno divide o país em diversos distritos e circunscrições eleitorais, onde os blocos ou partidos apresentam listas com dois nomes. Em cada uma destas unidades (distritos e circunscrições), são escolhidos dois representantes para o poder legislativo. No entanto, um bloco partidário só leva as duas cadeiras em disputa se obtiver mais do que o dobro do número de votos da segunda lista. Isso fez com que, na maioria dos casos, 1 Para mais detalhes acerca do sistema binominal chileno, ver Flávio Pinheiro (2007) e Carlos Huneeus (2001). 6 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 candidatos da Alianza fossem eleitos tendo recebido votação menor do que os dois nomes apresentados pela Concertación. O modelo binominal chileno foi concebido no contexto de formulação da constituição autoritária de 1980, sob forte influência de Jaime Gúzman, idealizador da UDI. Desta maneira, ele foi pensado de modo a dificultar a representação de pequenos partidos e sobre-representar os partidos médios. Na realidade, este é um sistema que tende à bi-polarização, seja ela partidária ou em coalizões. Partidos de menor expressão, como o caso do Partido Comunista, muito dificilmente conseguem penetrar na política formal, ao passo que partidos como a UDI, com um perfil menos popular, evitam a diminuição de sua expressividade política nas eleições congressuais, garantido relevância no cenário político nacional. Além do próprio sistema eleitoral, há outras características do modelo político chileno que mantiveram o quadro já constatado de sobre-representação da direita no congresso na maior parte do período democrático. Dentre elas, destaca-se a existência de senadores escolhidos por nomeação, ao invés da via eleitoral. Além dos 38 senadores eleitos pelo voto popular, segundo o sistema binominal descrito acima, a constituição de 1980 previa a nomeação de quatro senadores pelo Conselho de Segurança Nacional (composto pelos chefes das Forças Armadas), três pela Corte Suprema e dois pelo presidente da república (um ex-reitor de universidade e um ex-ministro de Estado). Os ex-presidentes que tivessem completado mandato também teriam direito a ocuparem cadeiras no Senado, sendo estas vitalícias. Naturalmente, essa estrutura implica numa redução significativa do conteúdo democrático e representativo do Senado, pensado, em 1980, como um corpo parlamentar a ser protegido dos “excessos” do sufrágio universal. Esse panorama, que aponta para um sistema político de baixa representatividade e com pouca capacidade de absorver, reproduzir e solucionar conflitos sociais começou a ser modificado com as reformas promovidas pelo governo de Ricardo Lagos (2000-2006). A constituição de 1980 recebeu 58 emendas que tratam de variados aspectos desta engenharia institucional. O Conselho de Segurança Nacional passou a responder diretamente ao presidente da República, perdendo muitas de suas atribuições originais. O cargo de senador vitalício foi extinto, removendo-se também a possibilidade de nomeação de senadores. Ademais, a reforma retirou do texto constitucional o sistema binominal, ampliando as possibilidades de mudança mediante discussão. Por mais que a Concertación se 7 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 posicione de maneira favorável ao sistema proporcional, as últimas eleições chilenas foram organizadas ainda de acordo com o modelo binominal. Apesar dos esforços para a remoção dos chamados “entraves autoritários”2 da vida política chilena, especialmente no governo de Lagos, não se pode afirmar que a organização da política formal no Chile não passe mais pelos termos estabelecidos no contexto da transição negociada para a democracia. O processo pactuado de abertura, controlado durante a década de 1980 pelos agentes do regime militar, conformou os limites dentro dos quais se debateriam as mudanças na política do país. Naturalmente, esses limites foram tensionados e, de uma maneira geral, as décadas de 1990 e 2000 constituíram momentos de avanços na democratização das instituições chilenas, independentemente do ritmo destes avanços. Iniciada uma nova década, uma coalizão conservadora volta a governar o Chile. Se o decênio iniciado em 1990 foi o período da moderação democrata-cristã e a década de 2000 foi um momento de relativo avanço socialista na democratização do país, os anos 2010 começam com a marca de uma nova direita – pelo menos do ponto de vista discursivo. A seguir, discutiremos até que ponto essa direita é nova e até que ponto representa uma linha de continuidade com os grupos dominantes do período militar. Ou seja, em que medida o bloco oficialista continua, ainda que nem sempre tenha sido, como uma estrutura uniforme, coesa e organizada. Ademais, buscaremos compreender as mudanças e continuidades nas duas coalizões partidárias que seguem como atores estruturantes da política formal no Chile, assim como fizeram nas duas décadas anteriores. A Alianza O atual bloco oficialista é formado por dois partidos políticos, a Renovación Nacional (RN) e a Unión Democrata Independiente (UDI). Ao contrário da Concertación, que é formada por um misto de partidos que trazem a continuidade em relação ao período pré-1973 e agremiações formadas no contexto da redemocratização, a coalizão conservadora não apresenta continuidade, pelo menos do ponto de vista formal, com os partidos políticos que representavam o campo da direita antes do golpe militar. Pelo contrário, a Alianza soma forças que se organizaram no contexto do processo de relativa abertura do regime de Pinochet na década de 1980. A coalizão que conhecemos atualmente como Alianza já teve diferentes nomes desde o processo de transição para a democracia, mas sempre reuniu os mesmos atores 2 Para os entraves autoritários da constituição chilena, ver Siavelis. 8 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 políticos e sempre esteve empenhada na defesa dos mesmos interesses e princípios. A variação na nomenclatura esteve mais condicionada por questões de estratégia eleitoral imediata do que por mudanças substantivas no seu conteúdo político. Apesar de constituírem, em conjunto, o núcleo duro do conservadorismo chileno, UDI e RN têm origens e processos formativos diferentes. Essas diferenças se expressam, por exemplo, no tipo de relação que construíram com o regime militar. Ainda que ambos reivindiquem o legado do neoliberalismo como uma herança positiva do período Pinochet, a participação que tiveram na política do regime, pelo menos como coletividade, foi diferente. A UDI é um partido que carrega uma forte marca pessoal de seu idealizador, Jaime Gúzman, assassinado em abril de 1991. Gúzman desempenhou papel central na organização do gremialismo, movimento de estudantes que se opôs ao governo socialista de Salvador Allende (1970-1973). Com o golpe de 1973, a liderança de Gúzman se fortaleceu, na medida em que o gremialismo, fundado em 1965 na Universidade Católica, representou um dos mais importantes suportes civis do regime militar de Pinochet. O diagnóstico de que os partidos tradicionais de direita tinham fracassado na contenção da esquerda, o que teria trazido a necessidade do golpe, levava o gremialismo a pretender uma nova forma de organização do seu campo político. A UDI não reivindica o legado dos partidos Liberal e Conservador, até 1966, e Nacional, entre 1966 e 1973. Fundada em 1983, a UDI se valeu dos estreitos laços construídos entre seus dirigentes, com destaque para Gúzman, e o regime militar. Isso permitiu que os seus quadros ocupassem importantes postos de poder, além de atribuir maior capilaridade ao partido, presente em todo o país. O envolvimento da UDI com o governo militar foi extenso. A maioria de seus líderes ocupou altos postos na hierarquia do regime de Pinochet. Após a redemocratização, todos os senadores que o partido elegeu nas três primeiras eleições tinham participado ativamente da vida política no regime anterior. Por essa razão é possível afirmar que a UDI nasceu no contexto do regime militar, mas não apenas de um ponto de vista temporal. Naquele período, Gúzman projetava um eventual retorno do poder aos civis e, nesse momento, seu partido deveria estar preparado para assumir a condução da sociedade como a única força política da direita chilena. Durante o regime autoritário, o movimento gremialista buscou se consolidar suas bases sociais, especialmente na juventude chilena. Valendo-se de 9 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 sua posição privilegiada como interlocutor civil do governo militar, o gremialismo e, posteriormente a UDI, se fortaleceu junto ao empresariado no país. Esse fator garantiu à UDI farto financiamento político em tempos de democracia, impulsionando o partido à condição de principal força de direita no decorrer da década de 1990. Embora o período tenha sido marcado pela hegemonia da Concertación, poderia ser uma surpresa a sobrevivência de um partido com tamanha identificação com o regime anterior. Não apenas sua sobrevivência como a manutenção de sua centralidade nos principais debates políticos do período. Atualmente, a UDI é o partido com maior representação parlamentar no Chile, ocupando 39 cadeiras na Câmara dos deputados e 8 no Senado. A Democracia Cristã, segundo partido na Câmara, tem 18 deputados, um número significativamente menor. Naturalmente, o relativo sucesso eleitoral do partido nas últimas votações para o Legislativo não se deve apenas às facilidades para a obtenção de financiamento. Devem ser levados em consideração outros fatores fundamentais, como o desgaste da Concertación após quatro mandatos presidenciais e a moderação no discurso político das lideranças conservadoras. Se a defesa do modelo econômico permanece forte, no plano político a UDI se empenha para diminuir sua vinculação com o regime militar. A própria construção da autoimagem do partido evidencia esse desejo. Ao tratar de sua história, a UDI não menciona em nenhum momento os laços com os militares, abandonando as suas origens. A narrativa institucional é a de um coletivo que sempre lutou pela democracia. No entanto, apesar dos esforços, é difícil dissociar a imagem da UDI do regime de Pinochet, pelo menos enquanto suas principais lideranças forem aquelas que participaram ativamente do governo militar, ocupando postos-chave. Talvez o processo lento de renovação de lideranças possa permitir um fortalecimento dessa nova auto-imagem, mais democrática. Certamente, essa proximidade em relação ao regime ditatorial constituí um dos obstáculos ao desejo gremialista de ocupar a Presidência. Esse obstáculo não se apresentou à Renovación Nacional, que levou Sebastián Piñera ao cargo máximo da política chilena nas últimas eleições. Por mais que tenha uma representação parlamentar menor do que seu aliado, a RN teve em Piñera um candidato com expressiva votação em duas ocasiões, numa delas derrotando o candidato UDI Joaquin Lavin em primeiro turno. Em um primeiro momento, a RN teve um caráter de frente política, congregando diferentes forças da direita em 10 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 torno de um objetivo comum: a organização de uma atuação política no contexto de transição. Criada em 1987, a RN reuniu essencialmente militantes de três tipos: (1) indivíduos identificados com a direita que percebiam exageros no governo militar; (2) integrantes da direita histórica chilena, especialmente herdeiros do Partido Nacional; e (3) atores que ocupavam postos secundários no regime militar3. Sob a liderança de Andres Allamand, atual ministro da Defesa no governo Piñera, diversos grupos de direita se uniram na formação do partido. Dentre eles a UDI, de Jaime Gúzman, e a Frente Nacional do Trabalho, dirigida por Sergio Jarpa. A UDI, no entanto, permaneceu pouco tempo no interior desta grande frente conservadora. Já no ano de 1988, Jaime Gúzman deixou a diretiva RN e, acompanhado de seus militantes, refundou a UDI. No plebiscito realizado no mesmo ano, a maioria de seus quadros principais votou pelo “sim”, que assegurava a permanência de Pinochet no poder, embora houvesse dissidências que optaram pelo “não”, dentre as quais a mais famosa é a de Sebastian Piñera. Inquestionavelmente, o grau de associação do partido com o regime militar é menor do que o da UDI. Embora alguns de seus quadros tenham servido aos governos militares do período 1973-1990, seria um erro afirmar que a RN representa o núcleo político do regime anterior. Certamente, este papel é ocupado pela UDI, cujo protagonismo no período foi expresso. Até certo ponto, pode-se afirmar que a RN faz uma opção por retomar alguns dos caminhos da direita histórica no Chile. Por outro lado, quando nos referimos ao bloco direitista, é o partido que busca um posicionamento mais aberto na democracia contemporânea. Essa combinação de uma posição conservadora com a dissociação da imagem do regime militar garantiu à RN uma expressiva votação nas primeiras eleições parlamentares, em 1989. Nessa ocasião, o partido se colocou como a principal força de oposição, à frente da UDI, e a segunda força política representada em nível nacional, atrás apenas do Partido Democrata Cristão (DC). Naturalmente, na comparação entre as coalizões, a Concertación levou vantagem significativa no seu percentual de votos. Em 1989, o bloco de centro-esquerda obteve aproximadamente 64% dos votos, contra 34% do bloco direitista no Senado e 51% contra 34% na Câmara. Se a RN emergiu do regime autoritário como principal força da direita na política parlamentar, ao longo da década de 1990, esse cenário se modificou, pendendo em 3 Ver Inés Verdejo (ano)em Partidos Políticos de América Latina... 11 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 favor da UDI. Por outro lado, no que tange às candidaturas presidenciais do bloco, a tendência da RN foi de fortalecimento. Esse quadro se consolidou com as duas candidaturas de Sebastián Piñera à presidência, nas quais obteve mais votos do que os candidatos apresentados pela UDI em pleitos anteriores. A afirmação de que a RN perdeu espaço na política parlamentar pode ser analisada no contexto de suas votações desde o processo de redemocratização do Chile. Nas eleições de 1989, a legenda elegeu aproximadamente 18% dos deputados e 27% dos senadores, contra 9% e 4% da UDI respectivamente. No pleito de 1993, a diferença entre as duas forças da direita diminuiuA RN elegeu 16% dos deputados e 23% dos senadores e a UDI aumentou proporcionalmente sua representação para 12% da Câmara e 6% do Senado. Na consulta seguinte, realizada em 1997, a UDI se aproximou ainda mais, com aproximadamente 14% da Câmara e 10% do Senado, contra 16% dos deputados e 14% dos senadores da RN. O ano de 2001 marcou a virada gremialista como principal força da direita na política formal chilena. Nessa ocasião, a UDI conquistou 25% dos deputados e 22% dos senadores eleitos, contra apenas 13% dos deputados e 14% dos senadores tendo sido eleitos pela RN. A partir desse momento, a UDI se consolidou como uma das mais importantes forças parlamentares do país. Essa vitória ocorreu no contexto de uma expressiva votação de seu candidato á presidência, Joaquin Lavin, dois anos antes. Lavin, uma figura altamente envolvida no regime militar, polarizara a disputa com o socialista Ricardo Lagos em 1999. A seqüência de eventos parecia apontar para a construção de uma hegemonia da UDI no campo da direita chilena. Esse cenário se confirmou no campo da política parlamentar, mas a ascensão de Piñera como liderança conservadora garantiu o protagonismo da RN na política nacional. Em 2005, a diferença no Senado reduziu-se quando UDI e RN elegeram 23% e 21% dos senadores, respectivamente. Na Câmara de Deputados, a UDI registrou uma queda em sua representação, de 25% para 22% dos postos, enquanto a RN manteve-se estável, passando de 13% para 14% dos parlamentares eleitos para essa casa. Por fim, nas eleições que levaram a RN à presidência, o partido elegeu 17% dos deputados e 21% dos senadores, mesmo percentual da UDI no Senado. Apesar do mesmo índice no Senado, na Câmara a UDI manteve sua liderança, com aproximadamente 23% dos deputados eleitos. Na legislatura em curso, a Alianza detém 16 dos 38 senadores, o que corresponde a aproximadamente 42% do Senado. Na Câmara, o bloco oficialista tem 56 deputados, o que garante 46% da casa. O detalhe é que, na Câmara, a 12 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Concertación tem duas cadeiras a menos do que a Alianza, o que torna o voto dos independentes essencial. Já no Senado, a Concertación leva uma vantagem um pouco mais confortável, com três senadores a mais do que o bloco conservador. Entretanto, o levantamento de dados eleitorais, apesar de útil, não revela um ponto fundamental da atual configuração partidária chilena. No que tange ao atual bloco oficialista, não há uma divergência programática efetiva. E, por mais que possa parecer contraditório, esse é um dos elementos que causa instabilidade no interior da aliança. A falta de relações sólidas com os movimentos sociais, torna os partidos suscetíveis a disputas de caráter personalista, em torno de lideranças específicas. Nesse contexto, as rusgas dentro do bloco oficialista se agravaram com a chegada ao poder. Desde o primeiro dia do governo Piñera, grande parte da discussão política conduzida por UDI e RN se resume à identificação de presidenciáveis, de candidatos viáveis para a sucessão do governo em curso. Ideologicamente, a RN busca se colocar um pouco mais ao centro do que a UDI. No entanto, ambos os partidos compartilham valores conservadores, partindo da defesa do liberalismo para a construção de suas agendas. Ambos têm no indivíduo o núcleo da organização da sociedade e da política. Em suas concepções, articulam um discurso caro ao conservadorismo, de proteção de direitos supostamente naturais. Em seguida, ambos defendem a família como unidade secundária da organização social, ainda que recentemente essa concepção de família venha sendo alargada por alguns parlamentares do bloco, com a defesa da união entre pessoas do mesmo sexo. Tomando as declarações de princípios dos dois partidos, impressiona o grau de semelhança encontrado. Enquanto a UDI começa da seguinte forma: “ 1. Persona, familia, sociedad y Estado “Existe un orden moral objetivo, que está inscrito en la naturaleza humana. A ese orden moral, fundamento de la civilización occidental y cristiana, debe ajustarse la organización de la sociedad y debe subordinarse todo su desarrollo cultural, institucional y económico. De la dignidad espiritual y trascendente del ser humano emanan derechos inherentes a su naturaleza, anteriores y superiores al Estado. El ejercicio de la libertad individual está vinculado al cumplimiento de deberes personales y sociales, sin lo cual la convivencia social deriva en anarquía. El sentido espiritual de la vida, contrario a toda forma de materialismo doctrinario o práctico, es una exigencia que le impone al hombre su propia dignidad. La familia, núcleo básico de la sociedad, debe ser respetada y fortalecida. Las personas tienen derecho a formar agrupaciones intermedias entre la familia y el Estado, con autonomía para propender a sus fines específicos. El Estado tiene por finalidad promover el bien común general entendido como el conjunto de 13 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 condiciones sociales que permita a cada miembro de la comunidad nacional su más plena realización espiritual y material posible. “4 A declaração de princípios RN se inicia com os dizeres: “1.Persona, Familia, Sociedad Y Estado “Existe un orden moral objetivo, fundamento de la civilización cristiana occidental, al cual debe ajustarse la organización de la sociedad. De la dignidad espiritual y trascendente del ser humano emanan derechos inherentes a su naturaleza, anteriores y superiores al Estado. El ejercicio de la libertad individual está vinculado al cumplimiento de deberes personales y sociales. La familia, núcleo básico de la sociedad, debe ser respetada y fortalecida. Las personas tienen derecho a formar agrupaciones intermedias autónomas, para propender a sus fines específicos. El Estado tiene por finalidad promover el bien común, entendido como el conjunto de condiciones sociales que permita a cada persona su realización espiritual y material.”5 A seqüência das declarações de princípios contém uma série de outras coincidências que revelam a identidade ideológica entre as duas agremiações. No entanto, apesar de sua proximidade em termos programáticos, UDI e RN se encontram cada vez mais distantes no que tange à sua posição dentro do governo Piñera. Em pouco mais de um ano de gestão, a Alianza sofre com as constantes críticas internas. Mais do que divergências acerca do conteúdo das políticas levadas adiante pela administração, as contestações se dirigem à forma de condução dos projetos mais importantes. Nesse sentido, destacam-se as críticas ao ministro do Interior, Rodrigo Hizpenter, que, em teoria, não inclui os partidos na dinâmica de tomada de decisão. Hizpenter é considerado o homem forte do governo e um potencial candidato RN à sucessão de Piñera. Assim sendo, a contestação ao seu trabalho consiste também num esforço para evitar o crescimento de um nome incontestável no interior do bloco. Em diversas ocasiões, José Antonio Coloma, presidente da UDI, manifestou o descontentamento do partido com a falta de diálogo entre governo e sua base parlamentar. Os movimentos dentro da administração Piñera se focam na construção do discurso e da imagem, mais do que na própria articulação dos partidos em torno de um projeto. A defesa da tecnocracia como modelo de gestão dificulta a construção de pontes entre a equipe do Palácio La Moneda e os parlamentares da base aliada ao governo. É como se houvesse, por parte de Piñera, um homem do mundo empresarial, uma espécie de preconceito contra a 4 5 Retirado de http://www.udi.cl/website/contenido.php?S=7&SC=6&C=6 Retirado de http://www.rn.cl/v1/declaracion-de-principios 14 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 política. A idéia de “impureza” da política é um dos legados do neoliberalismo que se faz presente na atual gestão. Essa preocupação com a construção do discurso levou o ministro Hizpenter a pleitear a tese da emergência de uma “nova direita” no país. A idéia de Hizpenter, encampada por Piñera, ressalta a existência de uma alternativa aos moldes tradicionais da política chilena. Nessa alternativa, encontrar-se-iam contemplados temas da direita tradicional, como a liberdade individual e a empresa capitalista, mas em associação com conquistas tipicamente associadas à esquerda, como o combate à miséria e a defesa de bandeiras ambientais. Na realidade, o discurso que se articulou incorpora à defesa de liberdades civis (tema clássico da direita liberal) uma série de direitos de caráter mais social. A pretensão é que essa incorporação possa se dar sem um questionamento frontal do sistema econômico de mercado e sem o prejuízo do núcleo constitutivo da direita tradicional. A compreensão deste movimento só pode ser feita a partir da análise histórica do desenvolvimento político chileno. O que se pretende com a idéia de nova direita é dissociar o atual governo da tradição pinochetista, ligada ao regime autoritário de 1973. No entanto, a nova tese não pode passar de um discurso, de uma ideologia sem correspondência em termos de políticas públicas e de enfrentamento da realidade material. Isso porque a base de apoio do governo, tanto no plano parlamentar quanto do ponto de vista das organizações formais que o sustentam, os partidos, são indissociáveis da tradição política do regime militar. No caso da UDI, especialmente, sua identidade se forja como parte desse contexto. O que a idéia de uma “nova direita” supõe é uma transformação na própria essência das forças políticas que deveriam implementá-la. Nesse sentido, deve ser entendida mais como estratégia de aproximação do eleitorado do que projeto de transformação com vistas a um diálogo com a cidadania. Não é surpreendente constatar que a UDI rechaçou de maneira contundente a tese da “nova direita”, em congresso realizado no mês de novembro de 2010. Na ocasião, Coloma relembrou o conteúdo de inovação presente na própria fundação da UDI, ressaltando que as idéias de Hizpenter pressupunham o abandono de temas essenciais da direita. Sem respaldo no interior de seu próprio bloco político, o governo busca articular esse novo discurso para “fora”, como se reconhecesse que a associação com o regime militar constitui um entrave eleitoral a ser superado. A figura de Piñera possibilitou essa superação por seu posicionamento na ocasião do plebiscito. No entanto, cabe questionar se num cenário diferente do de 15 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 2010, onde a Concertación apresentava claros sinais de desgaste, as chances de vitória teriam sido as mesmas. As iniciativas de membros do governo no campo do discurso não foram suficientes para sustentar a popularidade de Piñera, que cai a cada pesquisa realizada pelo Instituto Adminark. Com aproximadamente 15 meses de governo transcorridos, apenas no momento de resgate dos mineiros de Copiapó, Piñera registrou níveis elevados de aprovação. No mais, sua imagem se desgasta progressivamente, acompanhando um desgaste da própria política formal no país. As pesquisas realizadas mensalmente apontam para uma crise da representação no país, na medida em que ambos os blocos partidários são avaliados de maneira negativa. Diferentemente de afirmar que não representem ninguém, o ponto é que são insuficientes. Naturalmente, nesse ponto caberia uma reflexão mais geral, que buscasse entender o papel dos partidos dentro da democracia. A análise de sua capacidade de representação política deve ser questionada em um âmbito mais geral do que o nível nacional. No entanto, é difícil ignorar a combinação entre a insatisfação em relação ao sistema partidário e as severas restrições à entrada de novos atores no sistema político chileno. Em janeiro de 2010, as pressões políticas dentro da Alianza garantiram a primeira reforma do gabinete ministerial. Se num primeiro momento a idéia de Piñera era levar um gabinete técnico até o fim de seu mandato, já no primeiro ano de governo ficou evidente a necessidade de contemplar minimamente seus aliados políticos na formação do governo. Foi com esse objetivo que o presidente incluiu figuras tradicionais da direita chilena em sua equipe, como Andrés Allamand e Evelyn Matthei nas pastas da Defesa e Trabalho, respectivamente. A idéia, nesse movimento, foi conferir um caráter mais político ao ministério, fortalecendo o diálogo com a base aliada. Essa iniciativa deveria ser acompanhada pelo estreitamento dos laços entre Hizpenter e Coloma, presidente da UDI, e Carlos Larrain, presidente da RN. Na perspectiva das lideranças políticas do bloco, o império da tecnocracia não é problemático apenas do ponto de vista da formulação das políticas públicas, mas principalmente da perspectiva do enfrentamento das sucessivas crises políticas que assolam o atual governo. Após o sucesso no resgate dos mineiros, diversos foram os momentos nos quais o governo se viu acuado diante de acusações de corrupção (como nos casos da interferência nas eleições da Associação Nacional de Futebol, em novembro de 2010, ou das denúncias no Ministério da Habitação, envolvendo a 16 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 empresa Kodama, em março de 2011) ou de crises iniciadas por suas próprias iniciativas (como quando da elevação dos preços do gás na região de Magallanes em janeiro de 2011 ou no recente caso da aprovação das centrais hidroelétricas de Aysén). Nestes casos, a imagem do governo ficou abalada e a base aliada se sentiu alijada do processo político, argumentando que poderia ter sido envolvida no enfrentamento destas crises. Assim, após atingir 63% de popularidade em outubro de 2010, Piñera caiu mês a mês, registrando apenas 36% em maio de 2011, sua pior marca desde o inicio do mandato. Por outro lado, sua rejeição escalou de apenas 18% no começo do mandato para 56% nesta última pesquisa6. Mas, além destes dados relativos ao próprio presidente, há outros elementos nas pesquisas mensais de popularidade que permitem algumas conclusões acerca do quadro mais geral da política chilena. A desaprovação da Concertación, atualmente na marca de 65%, e da Alianza, por volta de 57%, contribuem para a construção desse argumento mais geral de que há um desgaste nas formas atuais de organização da política formal chilena. Seja como for, a análise deste pouco mais de um ano de governo direitista no Chile permite a formulação de conclusões conjunturais e estruturais. No nível conjuntural, é possível diagnosticar um momento de tensão interna no bloco oficialista, originado na disputa por espaços dentro do gabinete e no próprio processo de formulação do projeto de governo. Ainda que tenham poucas diferenças fundamentais no plano ideológico, RN e UDI tendem a disputar o governo de maneira agressiva, uma tendência que deve se agravar com a proximidade de eleições municipais em 2012 e presidenciais e parlamentares em 2013. O primeiro dos dois anos que deveriam ser os mais tranqüilos para o governo Piñera se provou, na realidade, muito conturbado. De um ponto de vista estrutural, como apontará a conclusão deste trabalho, o atual governo reforça a idéia de uma crise no modelo tradicional de organização da política formal chilena no pós-regime autoritário. Na medida em que a democracia se consolida, faz-se necessário aprofundar o conteúdo democrático da política formal e da estrutura partidária, fugindo do modelo imposto pela lógica do plebiscito de 1988. As lideranças de UDI e RN parecem reconhecer que não há espaço na política chilena para a atuação de duas grandes forças de direita de maneira independente. 6 Ver http://papeldigital.info/lt/?2011060301# 17 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Em outras palavras, é evidente que o fim da Alianza e a disputa entre os dois partidos poderia acarretar em perdas para ambos. Nesse sentido, tudo aponta para a continuidade de um alinhamento político-eleitoral entre as duas siglas. No entanto, a existência de diversos núcleos de poder dentro dos partidos torna o equilíbrio entre as partes particularmente tênue. Diferentemente das forças de esquerda mais tradicionais no mundo ocidental, os partidos da direita liberal não têm se envolvido diretamente na mobilização de atores sociais coletivos. Assim sendo, esses partidos não têm uma base orgânica que sustente diferentes projetos, que possam ser discutidos e conciliados. A compreensão da política como um jogo de busca pelo poder exige a ocupação de espaços por parte de determinadas lideranças. Nesse quadro de caciques sem índios, existe uma forte tendência de divisão interna, especialmente quando não se ocupa o lugar da oposição. Quando há um governo de centro-esquerda, a convergência programática ajuda a manter a coesão dentro do bloco – algo que não se percebe na Concertación quando esta ocupa a posição de contestação ao governo. Contudo, uma vez no controle da máquina pública, os diferentes ramos dentro bloco exigem espaços onde possam projetar seus interesses e fortalecer a viabilidade eleitoral de suas lideranças. A Concertacion O bloco partidário de centro-esquerda que governou o Chile por quatro mandatos consecutivos, e que a partir de 2010 foi para a oposição é composto por quatro agremiações. São eles o Partido Demócrata Cristiano (DC), Partido por La Democracia (PPD), Partido Radical Social Demócrata (PRSD) e Partido Socialista (PS). As duas primeiras organizações compõem o quadro da Concertacion pelo centro, defendendo com firmeza os preceitos liberais na economia, enquanto as duas últimas constituem-se como a esquerda da coalizão, pleiteando uma maior ação estatal na economia, sendo que o PRSD dialoga mais com o “centro” do que o PS. Como já foi dito, esta coalizão de partidos políticos de centro-esquerda se formou quando do plebiscito que decidiu pelo fim do regime ditatorial comandado pelo general Augusto Pinochet, e, em seguida, governou o país por quatro mandatos consecutivos, com dois presidentes oriundos do DC, um advindo do PPD e outro proveniente do PS. Em que pese o inegável saldo positivo que os governos da Concertacion deixaram no que tangem temas como crescimento econômico e consolidação democrática, algumas marcas negativas ficaram desta experiência administrativa. Como exemplos negativos tem-se a manutenção de boa parte do 18 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 ordenamento legal elaborado por Pinochet e um aumento recente da pobreza e da desigualdade. Não cabe aqui fazer uma reconstrução minuciosa destes partidos que compõe a Concertacion, posto que representam forças políticas com uma atuação que atravessou a história chilena do século XX, juntamente com os comunistas, cujo partido segue fora da coalizão. Ainda assim, alguma retrospectiva será necessária, pois, como já afirmamos, alguns partidos que compõe a Concertacion apresentam continuidade com agremiações que agiam politicamente no Chile antes do golpe militar de 1973. Começando pelo Partido Socialista, agremiação fundada em 1933, defensora dos princípios marxistas e com grande tradição em formar coligações de partidos. A primeira dessas coligações formada foi a chamada Frente Popular, em 1937, frente política típica do marxismo, e que também foi posta em prática na França e na Espanha. Composta por setores ligados aos trabalhadores e por membros do radicalismo burgûes, a Frente Popular ganhou as eleições presidências em 1938, com Pedro Aguirre Cerda. Seu governo teve como marca fundamental o investimento na educação e em infra-estrutura, sem qualquer pauta de transformação radical do capitalismo. Apesar desta hegemonia burguesa, foi apoiado firmemente pelos socialistas. O PS seguiu com esta politica “concertacionista” nas eleições de 1942, quando participou de Alianza Democrática, que elegeu presidente, novamente, um militante do radicalismo burguês, Juan Antonio Rios, que levou adiante a política da Frente Popular. Essa visão foi majoritária entre os socialistas até a década de 1950. É nesse momento que os socialistas alteram sua política, excluindo do seu leque de alianças os partidos burgueses. Em 1951 os socialistas formam a Frente Del Pueblo, que durou até e 1955 e foi composta também pelo Partido Comunista del Chile, que na época estava na ilegalidade. Esta coalizão sustentou a primeira candidatura de Salvador Allende à presidência do Chile. Esta mesma configuração se reproduziu em 1956, sob a alcunha de Frente Nacional del Pueblo. Durante todo esse período os socialistas tiveram uma concepção política radicalizada, o que iria se refletir em crises durante seu primeiro mandato presidencial na década de 1970. Foi a partir da Frente de Acción Popular, lançada em 1956, que o PS integrou uma primeira frente ampla entre partidos de esquerda e centro-esquerda no Chile. Essa nova coligação lançou a candidatura de Salvador Allende para presidente entre os 19 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 anos de 1958 e 1964. O mais interessante é que a ampliação da coalizão para partidos de centro-esquerda, ou partidos burgueses segundo o léxico marxista, fora proposta do PCC combatida pelo PS. Essa frente acabou em 1969, sendo sucedida pela Unidad Popular, coalizão também formada por partidos de esquerda e centroesquerda que acabou por levar o socialista Salvador Allende à presidência em 1970. Esta coalizão tentou construir uma “via chilena ao socialismo” e viveu em constante crise e tensão por conta das exigências programáticas dos comunistas e dos setores mais radicais do PS. Ao longo de toda a sua história os socialistas oscilaram bastante em sua presença institucional. Enquanto esteve em coalizões amplas o PS conseguiu uma relevante presença parlamentar com 11,2% das cadeiras em 1937, e 16,8% em 1941. O partido ficou restrito a menos de 10% das vagas parlamentares entre 1945 (7,2%, um queda expressiva) e 1957 (4,4%), passando pela conquista de apenas 3,4% do parlamento em 1949, e 5,4% em 1953. Na década de 1960, os socialistas voltaram a obter o patamar de mais de 10% do Congresso chileno. Nessa faixa, o PS permanece até os dias de hoje, atingindo o seu ápice em 1973, ano do golpe militar de Pinochet, elegendo 18,38% dos congressistas. A estabilidade da presença parlamentar do PS impressiona no período da redemocratização, estando em 11,93% na primeira eleição, em 1993, caindo para 11,05% em 1997 e mantendo-se na casa dos 10% nos últimos três pleitos. Nem mesmo a presença de uma militante socialista no Palácio La Moneda entre 2005 e 2009 alterou essa situação. De todo modo, a transformação política no PS é clara. Ainda que não tenha aberto mão do marxismo como forma de ver o mundo, os socialistas chilenos se declaram, desde o fim da ditadura, como partidários da democracia. O socialismo e a transformação do sistema capitalista só podem vir, segundo a declaração de princípios do PS, se for apoiada por ampla maioria nacional. Como isso não acontece hoje, o que se pode fazer é seguir governando democraticamente o país rumo ao desenvolvimento nacional e à erradicação das injustiças sociais. Esta última frase sintetiza o programa da Concertacion. E é com base nesses princípios que outros partidos seguem nesta coligação. É o caso da Democrácia Cristã (DC). A DC foi fundada em 1957 como resultado da fusão de diversos grupos que reivindicavam a tradição do cristianismo democrático. É um partido burguês, que, 20 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 em sua história anterior ao golpe de 1973, sempre se colocou em conflito com a esquerda, sendo fortemente crítico ao governo Allende. Apesar disso, em sua primeira gestão na presidência da republica, entre 1965 e 1970, sob a liderança de Eduardo Frei Montalva, elaborou uma proposta de reforma agrária e defendeu a nacionalização do cobre, medida completada no governo Allende. Embora não tenha tido uma posição única diante do governo do general Pinochet, aliando-se eventualmente a setores que flertaram com o apoio ao golpe, a DC sempre foi identificada com a luta democrática, e, portanto, sua adesão à Concertacion não foi difícil. Além disso, trata-se de um partido com forte presença parlamentar, número que começou com 15,4% em sua primeira eleição, em 1961, atingindo impressionantes 42,3% em 1965, mesmo ano em que conquistou a presidência, e caindo seguidamente desde então, sendo 29,8% em 1969, e 28,7% em 1973. Após a queda de Pinochet, os democratas cristãos conquistaram 25,99% das cadeiras em 1989, subindo para 27,12% em 1993, quando então começaram a cair. Foram apenas a 22,98% em 1997; 18,92% em 2001; 20,78% em 2005, e meros 14,24% em 2009, seu patamar mais baixo e que o aproxima do PS em número de deputados. Já os outros dois partidos que fazem parte da Concertacion têm história recente. O PPD, criado em 1989 por Ricardo Lagos, presidente da República chilena entre 2000 e 2005, se declara parte da tradição mundial da social-democracia, ainda que muitos de seus dirigentes afirmem preferir uma ideologia próxima do socialliberalismo. Sua presença parlamentar é de crescimento quase constante. Assim, se em 1989 o PPD conquistou 11,45% das cadeiras do Congresso, em 1993 atingiu a marca de 11,84% das vagas, passando a barreira dos 12% em 1997, com 12,55% dos parlamentares, repetindo o feito em 2001, com 12, 73% dos deputados. Em 2005 o partido atinge sua maior vitória, obtendo 15,42% dos congressistas, voltando à marca dos 12,65% em 2009, o que demonstra o forte equilíbrio entre as forças da Concertacion. Por fim, o PRSD criado em 1994 e que reivindica a tradição radical burguesa, que já havia elegido quatro presidentes chilenos, sendo dois deles em coligações com forças de esquerda, como os socialistas e os comunistas. É o menor partido do bloco de centro-esquerda, não passando de 5% dos parlamentares em nenhuma 21 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 eleição. Seus números são: 3,32% em 1997; 4,98% em 2001; 5,81% em 2005 e 4,9% em 2009. O que é preciso demarcar aqui é que a opção por formar uma coligação de partidos políticos localizados ao centro e à esquerda do espectro político marcou definitivamente a vida da esquerda chilena. Trata-se de uma tradição que remonta ao primeiro quartel do século XX. A esquerda chilena tem a prática e a cultura política de forma alianças e obteve importantes vitórias eleitorais a partir deste tipo de estratégia. Mesmo sendo possível identificar essa continuidade, é fato que a Concertacion marca um novo momento desta duradoura tradição da esquerda chilena. Pela primeira vez é possível dizer que os partidos que compõe a esquerda do Chile tomaram uma decisão definitiva pela via institucional, optando por atuar politicamente por dentro do Estado, abandonando as teses clássicas do marxismo que defendem processos de tomada de poder por meio de insurreições mais ou menos violentas. Não restam dúvidas de que o desfecho trágico do governo Allende foi decisivo para esta tomada de posição da esquerda chilena contra as insurreições revolucionárias. Em que pesem as análises de que o golpe tenha sido motivado pelo desapego dos militares e da burguesia com relação aos valores democráticos, a esquerda também fez um profundo balanço de como contribuiu para desestabilizar o governo Allende devido ao radicalismo de suas posições, inviabilizando desta maneira a via chilena para o socialismo. Aqui não importa investigar se este balanço da esquerda está correto não, mas sim identificar as consequências desta decisão pela recusa da teoria revolucionária a favor do caminho reformista pacifico. Essa mudança é chamada por Lahera (2005) de “consenso a priori”, forjado a partir do reconhecimento de que a democracia e o capitalismo são os marcos para qualquer ação política. Uma vez decidido o caminho pela via pacifica e institucional, a esquerda chilena passou a apresentar novas configurações, com novas polêmicas e novos desafios. Por isso, ainda que seja possível identificar que nos primeiros anos da vida democrática chilena, o principal partido da coligação de centro esquerda era a DC, posição esta que foi sendo conquistada pelo PS, pouco se pode inferir sobre as dinâmicas políticas que pautam a Concertação. Segundo Garretón (2005) três diferentes posições políticas transpassam os partidos que compõe a Concertacion. A primeira é classificada pelo autor como de direita 22 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 democrática. Esses se distinguem da direita liberal-conservadora organizada na Alianza pela condenação clara do regime de Pinochet. Apesar disso, a direita da Concertacion partilha, quase que plenamente, com a direita aliancista as teses econômicas do modelo neoliberal, tais como redução do Estado através de privatizações, diminuição dos impostos, ajuste fiscal, entre outros. Essa direita batalha ainda pelo fortalecimento do vinculo internacional chileno com os Estados Unidos, em especial, e também com a Europa, tendo na Espanha a sua porta de entrada. Mais do que isso, a semelhança desta direita com aquela que se encontra na UDI ou na RN é também social, posto que sua principal estratégia de atuação “militante” se dá pelo vinculo orgânico com os poderes econômicos e midiáticos. Ademais, essa posição funciona como contra-peso ideológico à idéias dos setores mais progressistas (Ibid., p. 6). A segunda posição é denominada pelo autor de pragmática e se caracteriza por priorizar e se especializar na gestão governamental, optando por solucionar os conflitos sociais de forma pontual, com negociações de curto prazo, exclusivamente pelos caminhos institucionais. Esse seria um setor que rejeitaria planejamentos de médio ou longo prazo, bem como a elaboração de projetos estratégicos ou qualquer espécie de debate ideológico e programático (Ibid.,p. 7). A posição progressista ou de esquerda é a ultima que falta ser descrita a partir dos apontamentos de Garretón. Ela é marcada pela defesa da intervenção estatal na economia e pela defesa de que um governo de esquerda deve priorizar os mais pobres e necessitados em suas ações. Para além da igualdade ser uma das suas prioridades, esta esquerda luta para que os crimes cometidos ao longo do regime militar sejam investigados e punidos. Por fim faz parte de suas posições estratégicas a defesa por uma reorientação da política externa chilena no sentido de aprofundar a integração com os países da América do Sul e Central (Ibid.,p. 7). Diante dos embates que se colocam na Concertacion, este terceiro setor, por vezes, se vê isolado diante de uma aliança entre os dois primeiros. Como resultado, a esquerda da Concertacion padece de uma enorme dificuldade em transformar suas idéias em políticas públicas efetivas, enquanto que a direita concertacionista funciona como orientador ideológico do campo pragmático. Algumas questões surgem a partir da formatação de tal quadro de disputas e dilemas que atingem todos os partidos da Concertacion. A primeira delas está relacionada com a vinculação histórica que a esquerda chilena tem com alguns setores específicos, como por exemplo, 23 os trabalhadores organizados no Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 movimento sindical, a classe média urbana, os pequenos camponeses e os povos indígenas. A primeira aparição pública de importantes membros da Concertacion já na oposição, em um ato do movimento sindical, constitui, sem dúvida, parte dessa resposta. Como foi amplamente noticiado nos jornais chilenos, em 1º de maio de 2010, dirigentes e deputados concertacionista foram vaiados e agredidos durante o ato pela comemoração do Dia do Trabalhador, organizado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Chile. Os gritos de traidores soaram alto nos ouvidos das principais lideranças de centro-esquerda chilena, tanto que a Concertacion iniciou um debate sobre como melhorar sua relação com o movimento sindical. No entanto, até aqui os debates foram infrutíferos. Mesmo levando em conta que sindicalistas e concertacionistas têm uma pauta comum, qual seja, o combate à agenda de reforma trabalhista de Piñera – ainda que a mesma não tenha se configurado como um projeto claro -, os vinte anos de uma prática governamental pragmática, inserida no modelo neoliberal e voltada prioritariamente para um crescimento econômico sem igualdade e pela inserção positiva do Chile no mercado mundial podem ter separado definitivamente a esquerda institucional da esquerda sindical. Não é objetivo deste trabalho realizar uma análise profunda sobre as configurações do movimento sindical chileno no que tange sua representatividade, sua relação com o Estado, com os partidos, com outras forças sociais. Apesar disso, a partir de uma leitura cotidiana dos jornais chilenos é possível constatar essa cisão. Nenhum deputado concertacionista é oriundo do movimento sindical. Os enfrentamentos entre a Concertacion e a CUT não são exclusividade deste momento atual, mas foram a tônica dos diversos governos de centro-esquerda no país. O caso dos mineiros soterrados após um acidente é exemplar. Na mina em questão já haviam ocorridos quatro acidentes durante os dois últimos governos da Concertacion, justamente aqueles liderados por presidentes socialistas, que poderiam ser mais identificados com pautas da esquerda. Com isso, devido à pressão econômica dos setores mineradores e às divisas que a mineração gera para o Estado chileno, fundamentais para a manutenção dos bons indicadores econômicos, tanto Ricardo Lagos quanto Michele Bachelet mantiveram a mina funcionando, sem aprofundar a fiscalização ou melhorar as condições de 24 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 trabalho, como era demandado pelos sindicalistas e como comprovam a reincidência de acidentes. É também com o risco de não aprofundar o tema a contento que vamos analisar a relação da Concertacion com as classes médias urbanas. É impossível operar aqui sem generalizações e simplificações. As classes médias urbanas são compostas por muitos setores, com demandas diferentes como profissionais liberais, funcionários públicos e estudantes, por exemplo. É por esses últimos que faremos nossa análise com relação ás classes médias urbanas. A chamada “revolta dos pinguins”, em referência ao uniforme branco e azul usado pelos secundaristas chilenos, foi o grande acontecimento do primeiro ano de governo da presidente Michele Bachelet. A onda de protestos foi a maior mobilização estudantil desde 1972. No dia 31 de maio de 2006 cerca de 600 mil estudantes fizeram protestos reivindicando passe livre para os estudantes secundaristas nos transportes públicos e a gratuidade na prova universitária, o correspondente chileno ao nosso vestibular. O que era um protesto pacifica se radicalizou a partir da repressão estatal contra os estudantes. As manifestações aumentaram, os universitários aderiram, o mesmo ocorrendo com os familiares dos secundaristas e demais setores da sociedade civil, e o debate dos estudantes se ampliou. A partir da crítica a Lei Orgânica Constitucional de Ensino (Loce) aprovada por Pinochet e mantida ao longo dos governos da Concertacion, que fragilizou o ensino público aumentando a desigualdade entre os mais ricos e os mais pobres, a juventude chilena fez uma profunda crítica ao regime democrático chileno, apontando o deslocamento institucional com relação aos diferentes setores sociais, demonstrando como a política do Chile é engessada em uma institucionalidade autoritária e neoliberal que só atende aos interesses das elites, questionando por fim se o Chile logrou sucesso na tarefa de forma uma sociedade nacional coesa e orgânica. O governo Bachelet e a Concertacion não foram capazes de enfrentar de forma definitiva essas questões. Muito porque os partidos de centro-esquerda eram também responsáveis pela crise. Em meio à queda de popularidade, mudanças ministeriais, formação de um conselho com as lideranças do movimento estudantil que não gerou resultados o que se pode extrair é, uma vez mais, um grave distanciamento da coalizão de centro-esquerda de setores sociais que historicamente são a base política da esquerda. A própria divisão que a Concertacion viveu nas últimas eleições presidenciais, em 2009, com o lançamento da candidatura independente Marco Enríquez Ominami, que rompeu com o Partido 25 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Socialista por não concordar com a forma escolhida pela Conertacion para a definição do candidato a presidente, é um sinal deste distanciamento. O jovem político chileno conquistou a maior parte dos seus votos justamente nesta classe média urbana intelectualizada a partir de um discurso de renovação, o mesmo que Piñera levou a cabo em suas campanhas presidenciais. Por fim, os pequenos camponeses e povos indígenas. No Chile, assim como na maioria dos países andinos, estas duas categorias se confundem. Contudo, diferente do que ocorre no Peru, na Bolívia e no Equador as organizações políticas de esquerda não conseguem (e talvez nem queiram) no Chile realizar alianças estratégicas com este setor historicamente oprimido pela colonização e pelos processos de modernização que tiveram curso no sub-continente. Novamente baseando nossa análise no acompanhamento diário dos grandes jornais chilenos, é possível constatar que o problema dos povos indígenas no Chile, representado pela luta dos Mapuche, que ganhou seu capítulo mais dramático com a greve de fome que dezenas de indígenas levaram a cabo por quase cem dias no primeiro ano do governo Piñera, pouco se alterou com os 20 anos de governo de centro-esquerda. Pelo menos desde 2001 os conflitos entre os Mapuche e o estado chileno vêm se agravando, resultando inclusive em denúncias contra o país na Corte Inter-Americana de Direitos Humanos da OEA, e na Comissão de Direitos Humanos da ONU. Uma segunda questão relevante a ser analisada neste estudo sobre a Concertacion diz respeito a um dos objetivos declarado pelos dirigentes da coligação de centroesquerda por diversas vezes nos periódicos do Chile: o de promover um desenvolvimento econômico progressista, com igualdade e justiça social. É em Florencia Antía (2008) que buscaremos o subsídio para tentar responder a esta questão. A autora faz uma análise profunda sobre o desenvolvimento econômico chileno, partindo do fato de que o modelo neoliberal se estrutura com força durante o regime militar de Pinochet (Ibid., p.43) e identificando que os dois últimos governos da Concertacion, em especial, procuraram alterar este quadro, elaborando e promovendo políticas públicas que combinam mais com um modelo de desenvolvimento progressista, como o reforço da ação do Estado na economia, ampliação de direitos sociais como a Saúde, adoção de programas sociais focalizados na distribuição de renda para os mais pobres e outras medidas. (Ibid., p. 97). 26 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Contudo, como a própria autora destaca, as mudanças foram moderadas no Chile no que tangem às alterações no arcabouço institucional autoritário e no regime econômico neoliberal. Antía descreve uma estratégia por parte da Concertacion voltada exclusivamente para a formulação das políticas públicas e a resoluções dos conflitos que decorrem de qualquer ação estatal por dentro da institucionalidade existente. Mesmo a criação de conselhos específicos para certos temas, com participação da sociedade civil, algo bastante recorrente no governo Bachelet, se inserem dentro da estrutura estatal existente. Por isso, concordando com Antía, as propostas de políticas públicas que saíam do governo concertacionista com uma configuração mais radical no sentido de enfrentar o modelo neoliberal acabavam por adquirir uma formatação final moderada após o processo de conflito político exclusivo no parlamento e nas esferas estatais, nos quais as forças conservadoras possuem maior força e mais capacidade de influenciar. (Ibid., p.98-99). Em nossa opinião não resta dúvida que esta moderação do projeto de desenvolvimento da centro-esquerda chilena é o melhor resultado possível para uma coalizão de partidos apartada de setores sociais que poderiam formar uma base política coesa o suficiente para sustentar mudanças mais significativas. Neste sentido, surge então a terceira questão: Como a Concertacion conseguiu ganhar quatro eleições presidenciais seguidas, o mesmo valendo para as eleições municipais, e para as constantes maiorias parlamentares obtidas pela centroesquerda? A resposta reside na figura do general Augusto Pinochet. A cisão fundamental que dividiu a sociedade chilena nos quatro primeiros pleitos eleitorais se refere à visão sobre o governo ditatorial que se instalou no Chile a partir de 1973. Por parte da direita conservadora isso ocorreu pela renuncia operada por este setor dos valores democráticos. A elite empresarial, os setores urbanos ligados à Igreja Católica e os grandes latifundiários, todos apoiaram o golpe contra Allende e, por conseguinte, se beneficiaram do Estado construído a partir disso. Já pelo lado da esquerda é justamente a adesão aos valores democráticos que reforça o fato de a visão sobre a ditadura chilena ser o principal marco divisório do processo político no Chile. Quando adota o “consenso a priori” capitalista, a esquerda chilena abre mão de promover um debate sobre modelo econômico, sobre papel do Estado na economia, sobre crescimento econômico com igualdade social em prol da luta pela consolidação de democracia política. Esta cisão mobilizou o 27 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 conjunto dos setores sociais que apontamos aqui como separados da Concertacion a votar na centro-esquerda de forma coesa, mesmo que seus interesses econômicos e sociais não fossem de imediato atendidos. Ocorre que, com o avanço do processo político e com a consolidação democrática, a ameaça de um retrocesso autoritário vai perdendo a força mobilizadora junto a setores ansiosos por se aproveitar dos resultados de um crescimento econômico excludente, e também formatar o novo Estado em consonância com seus valores e ideologias. Com isso a cisão entre uma política partidária cristalizada na institucionalidade e forças sociais, que só conseguem se movimentar por fora dessa mesma institucionalidade excludente, foi sendo cada vez mais evidente e explosiva. Ao mesmo tempo em que esse abismo se ampliava entre esquerda e a sua base social, a direita se renovava, como já vimos. Os vínculos com o regime ditatorial foram se apagando tanto nos partidos quanto nos organismos da sociedade civil que outrora apoiaram o golpe. A defesa da democracia se universalizou, deixando de ser patrimônio da centro-esquerda. A direita começou a agir justamente no vácuo político deixado pela centro-esquerda junto a setores médios urbanos e aos trabalhadores. A vitória de Piñera coroou este processo. Conclusão: Há futuro para as atuais coligações partidárias chilenas? Para responder a esta pergunta no caso da Concertacion faz nessessária uma comparação com a Espanha. Analisando a ação do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) no governo espanhol, o cientista social inglês Patrick Camiller afirma que “a maior parte do que ele realizou poderia ter sido feito por qualquer governo de direita esclarecido, num país capitalista com nível médio de desenvolvimento” (Id., 1994). E, dez anos após, Albert Recio e Jordi Roca caminham no mesmo sentido, quando analisam a gestão Gonzalez na Espanha para concluir que não “há mais diferença entre esquerda e direita” no caso espanhol. (2004). O que o PSOE realizou no governo espanhol em doze anos de mandato comandados por Felipe González foi, segundo Camiller uma combinação de ortodoxia econômica neoliberal com a construção de um Estado de bem-estar social. O autor afirma que ainda que existam diferenças entre o PSOE e a direita espanhola, e o posicionamento internacional com relação aos Estados Unidos e a defesa de valores liberais como a união civil homossexual são dois bons exemplos. Mas nada que 28 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 negue a conclusão de que as realizações governamentais da social-democracia espanhola poderiam ter sido efetivadas sob uma gestão conservadora. A comparação que pretendemos fazer entre o Chile e Espanha reside justamente na avaliação se também no caso chileno temos uma situação em que o balanço das gestões da esquerda nos levaria à conclusão de que tudo o que foi feito pela Concertacion poderia ter sido concretizado por um governo liderado por partidos de direita. Pelo que vimos até aqui nossa resposta se aproximará daquela formulada pelo marxista europeu. As propostas defendidas por Piñera em sua gestão como parte do processo de fundação de uma “nova direita” se caracterizam justamente por aproximar teses típicas da direita com bandeiras da esquerda. Não foi à toa que o atual presidente chileno lançou em 2010 um plano para erradicar a miséria do Chile e que seu governo vem discutindo abertamente o apoio a união civil homossexual. Propostas facilmente apoiadas pela esquerda. São muitos os fatores que levam os partidos da Concertacion a operar desta maneira, qual seja, governando de maneira muito parecida com o que seria uma direita esclarecida, com ações de ampliação e universalização dos direitos sociais em paralelo a uma política econômica neoliberal ortodoxa. O passado aliancista dessa esquerda, sua experiência institucional duradoura, só interrompida em 1973, o diagnóstico sobre o golpe e as derrotas que a democracia chilena sofreu com o general Pinochet no comando do país, assim como o balanço dos erros da esquerda mais radical durante o governo Allende, são alguns dos fatores históricos que levaram a Concertacion a governar de maneira parecida com o que seria uma direita esclarecida. Mais recentemente, com a redemocratização, podemos citar o afastamento que os partidos tiveram com relação às suas bases históricas e à institucionalidade neoliberal herdada do período ditatorial, bem como a situação adversa das relações internacionais para as forças de esquerda, como fatores que explicam esta “radical” moderação da esquerda concertacionista. Essas causas, contudo, não escondem que o sistema político chileno vive uma verdadeira crise de representação. A maioria da população se sente alijada do processo político, não vê diferença entre as duas frentes partidárias, não se identifica com as idéias defendidas pelos políticos chilenos. Os partidos de direita reagem de maneira diferente a essa crise, mas reagem. Enquanto a UDI nega-se a dialogar com uma nova perspectiva, mantendo um padrão conservador de ação coletiva, baseado mesmo no afastamento entre as instituições e as pessoas, a RN procura fundar uma nova direita que seja capaz de 29 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 mobilizar este descontentamento. As constantes quedas de popularidade do presidente Piñera indicam que ele não vem tendo êxito nessa empreitada, posto que não ataca a raiz do problema, que é justamente o sistema político excludente do Chile. O mero fato de assumir bandeiras oriundas da esquerda como nada mais indica do que um agravamento da crise, que tem na pouca distinção entre os partidos uma das suas causas mais profundas. Já a esquerda permanece em posição inercial nesse processo. Seus principais líderes parecem acreditar que a cadeira de presidente voltará para a Concertacion naturalmente, apenas pelo fracasso da gestão da Alianza. Essa aposta tem bastante probabilidade de dar certo. Mas ao agir dessa maneira os partidos concertacionista perdem a oportunidade de, uma vez fora do poder, discutir profundamente sobre a crise do sistema representativo do Chile, bem como se mostram incapazes de buscar soluções que avancem no processo de democratização política e social do país, iniciado em 1989 e estagnado desde a vitória do Não contra Pinochet. As últimas eleições presidenciais, mostraram que, definitivamente, a clivagem que organizou a política chilena, isto é, os defensores da democracia contra os partidário de Pinochet, não tem mais capacidade de levar a Concertacion à vitórias presidenciais. O racha dos concertacionista e a vitória de Piñera são sinais mais do que claros desse fenômeno. Ou a esquerda chilena se organiza e realiza um debate profundo sobre como (re)fundar um sociedade nacional democrática e participativa, com inclusão política e social, seguindo os passos da direita que tenta se renovar; ou o Chile ficará de fora do processo político virtuoso que está em curso na América do Sul e que abarca diversos países como Brasil, Bolívia, Uruguai, Paraguai, Equador, Venezuela e, mais recentemente, Peru. 30 Observador On-line | v.6, n. 05 | mai. 2011 Referências Bibliográficas Antía, Florencia. Gobiernos de izquierda y reforma social enChile y Uruguay a inicios del Siglo XXI. (Dissertação de Mestrado). Facultad de Ciencias Sociales. Universidad de la Republica. Montevidéu. 2008 Camiller, Patrick. “Espanha: sobrevivência do socialismo?”. In: Anderson, Perry e Camiller, Patrick. Um Mapa da Esquerda na Europa Ocidental. Rio de Janeiro, Contraponto, 1996. Garreton, Manuel António. “Reflexiones chilena(s) y el proyecto de país”. 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