Trabalho apresentado na 1.a Conferência Internacional da Rede de Estudos de Ação Afirmativa Rio de Janeiro, 3 a 7 de janeiro de 2005 Universidade Candido Mendes, Ipanema Ação Afirmativa, Fronteiras Raciais e Identidades Acadêmicas: Uma Etnografia das Cotas Para Negros na UERJ Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto, Doutor em Antropologia pela Boston University, Professor do PPGACP/UFF, Pesquisador Associado SEDH/NUPESP/ISP 1. INTRODUÇÃO Na última década, o Estado brasileiro incorporou a noção de “ação afirmativa” como um dos princípios organizadores de algumas de suas políticas sociais (Zoninsein 2004: 108-107). Assim, a discussão sobre direitos, cidadania e políticas de inclusão social no Brasil passou a envolver o debate público sobre a implementação de ações afirmativas como uma das formas que promoveriam o acesso a bens, recursos e canais de inserção e mobilidade social para indivíduos e grupos “potencialmente excluídos”. Embora as chamadas “políticas de ação afirmativa” envolvam uma série de medidas que visam neutralizar e compensar os efeitos negativos da discriminação racial, as cotas raciais (para pretos, pardos e índios) no vestibular de ingresso para as universidades públicas tomou o centro da discussão. A implementação da política de cotas para o ingresso nas universidades estaduais do Rio de Janeiro – a UENF também adotou um sistema de cotas no seu vestibular de ingresso1 - gerou uma intensa polêmica na imprensa, sendo o jornal O Globo simultaneamente o principal forum e ator midiático do debate, e em certos círculos acadêmicos sobre os possíveis benefícios e prejuízos acadêmicos e sociais que tal medida poderia trazer. Apesar da grande presença de acadêmicos nesse debate, em particular aqueles que pesquisam relações raciais no Brasil, ele foi, e ainda é, marcado por forte caráter moral e ideológico. Categorias como “racismo”, “exclusão/inclusão”, “igualdade”, “mérito” ou “universidade” têm sido utilizadas por boa parte do participantes desse debate como sendo 1 Em 2003 e 2004 outras universidades, como a UNB e a Universidade Estadual da Bahia, adotaram cotas raciais nos seus vestibulares de ingresso. 1 unívocas e referentes a realidades absolutas e descontextualizadas para “defender” ou “atacar” as cotas raciais como política de ação afirmativa na universidade. Recentemente, a ênfase da polêmica parece ter se deslocado do caráter legal ou moral das cotas, para a possibilidade ou não da generalização de tais políticas para o conjunto das instituições públicas de ensino superior (Grin 2004). Uma característica marcante do debate sobre as cotas foi a manipulação ideológica de teorias das ciências sociais, em particular da antropologia, sobre a fluidez das classificações raciais no Brasil como sendo representantes de uma visão de mundo “branca” e “negadora da existência do racismo”, e de dados estatísticos sobre as desigualdades economico-sociais entre brancos e negros como a “prova” irrefutável da existência de uma sociedade racialmente bipolar com linhas de clivagem racial nítidas entre brancos e negros. Assim, Gilberto Freyre apareceu no debate como “representante” da antropologia e um mero ideólogo da noção de “democracia racial” – a qual, diga-se de passagem, nunca foi consenso entre antropólogos e sociólogos – tendo sido conveninentemente ignorada a sua reflexão sobre a complexa relação entre afetividade, violência e hierarquia na constituição das relações raciais nos espaços público e privado no Brasil, assim como a sua posição no contexto intelectual dos anos 302. A contribuição teórica de autores como Oracy Nogueira (1985), que mostrou como a flexibilidade classificatória das categorias raciais no Brasil se articula com áreas de “estabilidade classificatória” e com um sistema discriminatório que é percebido como difuso pelos brancos e omnipresente pelos negros, também foi ignorada pelos participantes no debate. Por outro lado, os dados estatísticos costumam ser apresentados como mera expressão da “realidade” social, deixando-se de lado toda a reflexão epistemológica sobre o impacto dos instrumentos de “mensuração social” na construção de grupos sociais através da reificação de suas categorias definidoras3. A lista pré-determinada de categorias 2 Sem dúvida, a obra de Gilberto Freyre, assim como a de Mario de Andrade ou de Monteiro Lobato, contribui para a criação de um imaginário nacional marcado pela idéia de mestiçagem como mecanismo de inclusão e mediação de conflitos e desigualdades sociais. Porém, considerar as obras desses autores como uma mera “cobertura ideológica” de um processo de dominação racial é um reducionismo que oculta mais que revela sobre a construção da “comunidade imaginária” (Anderson 1991) definida pelo nacionalismo brasileiro a partir dos anos 30. 3 O papel do censo e das estatísticas na consolidação de rígidas linhas de clivagem social e simbólica na constituição das castas indianas e das “nacionalidades” da antiga União Soviética já foi bastante analisado (Eickelman 2002: 46; Van der Veer 1994: 12-24) 2 identitárias baseadas em “tipos raciais” utilizada pelo IBGE, sem dúvida exige que os agentes simplifiquem as suas identidades e trajetórias para poderem escolher uma das opções dadas4. Não se trata de questionar a validade dos dados estatísticos, mas apenas apontar para o fato que a análise desses dados ganharia em qualidade se fosse combinada com o conhecimento produzido por uma longa tradição de estudos antropológicos e sociológicos sobre relações raciais no Brasil. Meu propósito neste artigo não consiste em tomar uma posição política ou moral quanto à necessidade ou não das cotas na universidade, mas sim em abordar a implementação das cotas raciais na UERJ5 como objeto etnográfico a partir do qual seria possível pesquisar questões como o impacto de políticas públicas em processos de construção de identidades sociais, como as identidades raciais, ou nas relações de poder e mecanismos de inclusão/exclusão que se estruturam no cotidiano das práticas acadêmicas. Assim, não abordarei a política de cotas como um mero “reconhecimento político” de identidades pré-existentes e essencializadas, ou como tendo uma “lógica exógena” à dinâmica das relações raciais no Brasil. Para mim as cotas não devem ser pensadas “em relação” às identidades raciais, mas como parte dos múltiplos processos culturais e sociais envolvidos na sua construção e manutenção. A formalização de identidades sociais como sujeitos de direito reconhecidos pelo Estado, permitindo que aqueles que as reivindiquem tenham um acesso diferenciado a recursos, bens e serviços, tem efeitos profundos na dinâmica social das mesmas. O impacto de políticas estatais e da competição por recursos econômicos na dinâmica dos processos identitários é um tema que já foi bastante explorado nos estudos sobre etnicidade em diversas sociedades - tais como o Sudão, a ex-Iugoslávia e a ilha Maurício (Bringa 1995; Eriksen 1993: 72-73; Haaland 1969). A noção de “fronteira étnica” elaborada por Fredrik Barth como o elemento definidor dos grupos étnicos (1969: 15-16), pode ser interessantemente aplicada para a compreensão do impacto da política de cotas na dinâmica das identidades raciais, pois uma vez que as identidades raciais são reconhecidas 4 Para uma reflexão sobre o uso de pesquisas “objetivas” ver Bourdieu (1990: 221-228). Ver também as críticas epistemológicas ao uso de entrevistas e estatísticas como forma de produção de dados “objetivos” nos textos de E. Katz, F. Simiand, L. Schatzman e A. Strauss, J. Goldthorpe e D. Lockwood selecionados, reunidos e apresentados por Pierre Bourdieu, Jean-Claude Chamboredon e Jean-Claude Passeron (1983 [1968]: 210-240). 5 Essa pesquisa é financiada pela Secretaria de Estado de Direitos Humanos do Rio de Janeiro. 3 como sujeitos das políticas estatais, há a necessidade de se objetificar e estabilizar as fronteiras e normatizar os critérios de pertencimento dos grupos que elas definem. Assim, a política de cotas constitui um campo político e simbólico onde diferentes agentes disputam o poder de definição das fronteiras e das identidades raciais. Obviamente não estou propondo aqui que identidade racial seja o exato equivalente de identidade étnica, uma vez que a primeira elege como sinais diacríticos diferenças fenotípicas ou genealógicas e a segunda diferenças culturais. A ênfase nas características biológicas que a noção de raça traz em sí e a ênfase nos traços culturais que a noção de etnia propõe garantem, sem dúvida, importantes diferenças na dinâmica social das identidades delas resultantes. No entanto, tanto raça quanto etnicidade são formas de organização social de diferenças - fenotípicas e genealógicas no caso da primeira e culturais no caso da segunda - o que faz com que tenham muitos pontos de convergência também6. Em termos empíricos, a diferença entre as duas noções é mais de grau que de substância, pois ambas são categorias culturais cujos critérios de definição não são nem sistematicamente aplicados, nem completamente integrados e coerentes. Assim, ser “negro” ou “preto” não se resume às características fenotípicas do indivíduo, pois tanto negros quanto brancos frequentemente se referem à “cultura negra” ou à exclusão social para definir esta identidade “racial”. Da mesma forma, durante meu trabalho de campo na Síria, de 1999 a 2001, era comum que meus informantes curdos se distinguissem dos árabes através de critérios raciais, como a sua “ascendência indoeuropéia” que era “comprovada” pelos olhos verdes, pele clara e cabelos arruivados que muitos, mas não todos ou, mesmo, a grande maioria, dos curdos apresentavam. Pode-se ainda mencionar o processo de “racialização” de grupos imigrantes nos Estados Unidos e no Brasil7, como os italianos, os irlandeses, os judeus e os árabes, que abandonaram, em diferentes graus, as suas respectivas identidades étnicas em prol da sua inclusão social como “brancos”. Por isso, acredito que um diálogo teórico com os estudos antropológicos sobre etnicidade poderá trazer interessantes questões para a análise do impacto das cotas nas representações e nas identidades raciais. 6 Max Weber já havia apontado para convergências entre os processos de construção de identidades raciais e de etnicidade (1978: 385-393). 7 Oracy Nogueira (1985) foi um dos poucos estudiosos das relações raciais que apontou para esse fenômeno de “racialização” dos imigrantes em detrimento de suas identidades étnicas. 4 A política de cotas também deve ser pensada dentro do contexto empírico das instituições universitárias nas quais ela está sendo implementada. Uma das características do debate sobre as cotas é o uso abstrato e idealizado da noção de “universidade”, que seria uma instuição exclusivamente meritocrática cuja excelência estaria sendo ameaçada – segundo os opositores às cotas – ou uma instuição excludente que estaria se furtando à sua obrigação social de suprir as desigualdades sociais – segundo os defensores das cotas. O sistema meritocrático que estrutura o ensino universitário é atravessado por relações de poder e mecanismos de exclusão/inclusão baseados em redes de relações pessoais, as quais sem dúvida incluem critérios identitários na sua organização, porém é bastante duvidoso que tais mecanismos sejam sistematicamente aplicados em termos meramente raciais ou racistas. Por outro lado, a capacidade das universidades públicas em socializarem seus alunos em um sistema de pensamento inscrito em saberes formais e socialmente valorizados têm sido cada vez mais reduzida devido às dificuldades financeiras, aos limitados de recursos humanos, à falta de bens culturais fundamentais - como livros ou material de pesquisa – e ao estado de abandono das instâncias mediadoras do acesso a estes, como as bibliotecas e laboratórios (Pinto 1999). A compreensão do significado social das cotas depende de sua contextualização nas diversas estruturas institucionais, relações de poder, sistemas de pensamento, mecanismos disciplinares, identidades (sociais, acadêmicas e profissionais) e interações sociais que compõem o universo institucional e simbólico da “universidade”. A universidade não é uma mera coleção de disciplinas, mas um campo de saberes - que demarcam possíveis trajetórias profissionais e sociais - que são estruturados hierarquicamente em termos de prestígio e poder. Essas hierarquias sociais e acadêmicas se refletem no grau de competição que existe pelas vagas de cada curso no vestibular e, logo, afetam diferentemente o impacto e a eficácia da política de cotas. Também se deve levar em consideração as relações entre as cotas e as relações de poder e mecanismos de exclusão/inclusão que se estruturam a partir formas de transmissão e consagração do saber na universidade organizadas em torno das práticas acadêmicas que constituem relação professor-aluno. A informalidade e a pessoalidade que marcam as relações pedagógicas nas universidades brasileiras (Kant de Lima 1999) faz com que a inserção do aluno cotista no universo acadêmico não possa ser abordada somente ou, 5 melhor dizendo, principalmente a partir da reforma das técnicas pedagógicas e dos conteúdos curriculares. A combinação contextual de valores, emoções, sistemas simbólicos, representações culturais e interesses calculados nas disposições que organizam as práticas acadêmicas faz com que as estruturas coletivas e trajetórias individuais que elas sustentam e possibilitam escapem aos propósitos explícitos das ideologias pedagógicas. Na etnografia que realizei entre 1995 e 1997 dos cursos de Medicina e Música da UFRJ e de História e Ciências Sociais da UFF, pude demonstrar como relações de poder se estruturavam nas práticas acadêmicas dessas universidades a partir do controle hierárquico dos critérios de validação da verdade que mediavam a “intertextualidade interpretativa” entre os saberes transmitidos oralmente pelo professor e aqueles objetivados em textos escritos (Pinto 1999: 143-216; Pinto 2000: 43-47). Em cada curso essas relações de poder eram atravessadas por complexos e, por vezes, contraditórios, sistemas de valores e representações que definiam as identidades acadêmicas e profissionais dos cursos em questão (Pinto 1999: 35-54). Por exemplo, enquanto os cursos de História e de Ciências Sociais definem o mérito a partir da exibição performática de capacidades especulativas e críticas, de preferência aliada a uma aguda consciência de responsabilidade política e social; no curso de Medicina o mérito é visto como uma performance de habilidade técnicas aliada a um saber enciclopédico, podendo ser representado como uma expressão tanto do esforço e da disciplina, quanto da genialidade individual (Pinto 1999: 41-52; Pinto 2000: 48). Assim, a trajetória de um aluno na universidade e, posteriormente, sua inserção inicial no campo profissional dependem tanto de sua capacidade em se inserir em redes de relações pessoais, quanto de manipular de forma eficaz as técnicas de “apresentação do eu” (Goffman 1959: 1-16) de modo a controlar positivamente as impressões que provoca em cada contexto de performance individual ou coletiva. Essas questões são centrais para a discussão e avaliação da política de cotas na educação superior, pois a eficácia social desta não pode ser medida apenas em termos da entrada de um certo número de pessoas “negras” ou “carentes” na universidade, mas também nas possibilidades criadas para que essas pessoas possam se manter na universidade e criar trajetórias acadêmicas e profissionais de sucesso. Assim, a implantação da reserva de vagas para negros, indígenas e alunos da rede pública na Universidade Estadual do Rio de Janeiro se apresenta como um universo 6 empírico privilegiado para se estudar a importância e avaliar o impacto de tais medidas na construção de identidades raciais e profissionais, bem como nas relações acadêmicas8. Esta etnografia das práticas acadêmicas nos cursos de Medicina, Ciências Sociais e Pedagogia pesquisa, desde o primeiro semestre de 2004, as trajetórias dos estudantes e analisa os efeitos da implementação das cotas sobre a construção de identidades raciais, sobre as representações de mérito individual e sobre as identidades e representações acadêmicas entre alunos e professores da Universidade. 2 - O Contexto Acadêmico: A UERJ Observada A UERJ possui cerca de 25.000 alunos, distribuídos por 45 cursos nos municípios do Rio de Janeiro, Duque de Caxias, São Gonçalo, Resende e Nova Friburgo. O acesso ao universo etnográfico tem sido construído através do contato com centros e diretórios acadêmicos, mobilização de relações pessoais, contatos estabelecidos através da prématrícula, etc, de forma a possibilitar um acesso a um amplo espectro de estudantes e professores em diferentes cursos. Os cursos de Medicina, Direito, Odontologia, Pedagogia e Ciências Sociais foram selecionados para serem o universo empírico da pesquisa segundo os seguintes critérios: a) Cursos de “prestígio social elevado” (Medicina, Odontologia e Direito) e “baixo” (Ciências Sociais e Pedagogia) Verificamos através da análise dos dados do Manual de informações Sócio-Culturais as informações sobre relação candidato/vaga, nota mínima de ingresso, renda dos pais, grau de instrução dos pais, entre outros, para selecionar aqueles cursos mais representativos de cada posição. 8 A reserva de vagas (ou sistema de cotas) entrou pela primeira vez em vigor no Vestibular de 2003. Embora a lei 3.524, que reservava 50% das vagas para alunos oriundos de escolas públicas tenha tenha sido promulgada em 2000, e a lei 3.708, que reservava 40% das vagas para alunos que se auto-declararem “negros” ou “pardos” tenha sido promulgada em 2001. Para o Vestibular de 2004 a lei foi reformulada, estabelecendo reserva de 20% para alunos oruindos da rede pública, 20% para alunos que se declararem “negros” – adotando as categorias oficiais do IBGE, que define “negros” como a soma de “pretos” e “pardos” e 5% para alunos deficientes ou indígenas, ao mesmo tempo que obrigava a comprovação de carência sócioeconômica como condição para concorrer às cotas. 7 b) Cursos com maior número de pretos e pardos antes da reserva de vagas (Pedagogia e Ciências Sociais) e menor número de pretos e pardos (Medicina, Direito, Odontologia)9. Na etnografia dos cursos de Medicina, Ciências Sociais e Pedagogia, eu e meu auxiliar de pesquisa, Paulo Eugênio Clemente Junior, participamos de atividades pedagógicas - como aulas, seminários e provas - além de outras atividades acadêmicas, como a matrícula e a inscrição em disciplinas. Também frequentamos espaços de sociabilidade dos estudantes, como corredores, pátios, bares e reuniões de centros acadêmicos. Acompanhamos de perto a pré-matrícula dos candidatos que optaram pelo sistema de cotas e realizamos também entrevistas semi-estruturadas com professores e alunos dos cursos de Pedagogia (nos campi Duque de Caxias e Maracanã), Engenharia Civil, Ciências Sociais, Direito, História e Medicina. Também foram entrevistados e ouvidos em conversas informais os alunos de cotas para escola pública e alunos nãocotistas. Para além do cotidiano da universidade, também participamos de debates públicos, reuniões em ONG’s e pré-vestibulares comunitários, e realizamos levantamento de notícias veiculadas na imprensa, no intuito de catalogar, apreender e mapear categorias e discursos envolvendo o sistema de cotas. Participamos também de debates sobre políticas de ação afirmativa, manifestações organizadas pelos movimentos negros em favor das cotas na UERJ, eventos de pré-vestibulares comunitários, conversas informais com líderes e integrantes dos movimentos negros. Além da observação direta e do registro de declarações espontâneas em conversas informais, utilizamo-nos de entrevistas semi-estruturadas em profundidade, possibilitando o confronto entre o discurso dos atores em uma situação formal de entrevista com seus próprios discursos e práticas dentro do contexto em que eles interagiam.Também foram estudados cursos oferecidos em campi diferentes, como Pedagogia no campus maracanã e Pedagogia no campus Duque de Caxias, como uma possível via de realçar diferenças e perceber regularidades neste processo. 9 Auto-classificados a partir do preenchimento do item de um questionário do Manual do Candidato, no momento da inscrição. 8 Antes da implantação das cotas, os cursos poderiam ser classificados numa hierarquia de prestígio a partir da origem social dos candidatos aprovados e da seletividade implícita na relação candidato/vaga. Assim, podemos situar o curso de Medicina e o de Antes das Cotas (2002) Medicina Direito Nº de vagas/ano (2002) Ciências Pedagogia Pedagogia Sociais I Rio I Caxias 92 300 100 270 120 33,7 13,71 10,56 7,33 7,03 % de alunos cujo pai tem nível superior (2002) 86,79% 72,22% 65,28% 28,57% 16,67% % de alunos com renda familiar maior que 20 salários (2002) 56,60% 54,17% 34,72% 13,09% 1,98% % de alunos pretos e pardos (2002) 5,66% 6,51% 25,00% 32,40% 52,94% 0% 1,86% 5,56% 6,94% 9,80% Relação Candidato/vaga (2002) % de alunos pretos (2002) Pedagogia-Campus Baixada Fluminense praticamente em extremos opostos: Fonte: DATAUERJ, 2002 Dessa forma, não só os impactos das políticas de cotas devem ser diferentes segundo o curso, mas mesmo as questões apontadas na literatura – importância da construção do mérito como ideologia, assunção de valores individualistas e competitivos versus igualitários e compensatórios, construção de identidades raciais, – ganham contornos variáveis conforme o contexto de aplicação das medidas, o que tem sido negligenciado pela literatura. 3. A Idéia de Ação Afirmativa no Brasil Embora não seja objetivo deste trabalho traçar uma sóciogênese do conceito de ação afirmativa, é interessante observar algumas das características de sua utilização no Brasil e de seus pressupostos. Muitas definições do conceito de ação afirmativa podem ser encontradas na literatura especializada brasileira, dentre outros: 9 “Preferência especial em relação a membros de um grupo definido por raça, cor, religião, língua ou sexo, com o propósito de assegurar acesso a poder, prestígio, riqueza” (CONTINS & SANT’ANA apud MOEHLECKE, 2002: 199) ou então “Promover privilégios de acesso a meios fundamentais –educação e emprego, principalmente– a minorias étnicas, raciais ou sexuais que, de outro modo, estariam dele excluídas” (GUIMARÃES, 1997 in SOUZA, 1997:223) ou ainda “Um conjunto de políticas públicas e privadas de caráter compulsório, facultativo ou voluntário, concebidas com vistas ao combate à discirminação racial, de gênero, por deficiência física e origem nacional, bem como para corrigir ou mitigar os efeitos presentes da discriminação praticada no passado.” (GOMES, 2003 in SANTOS & LOBATO, 2003:27) Nesse sentido, políticas de ação afirmativa podem ser encontradas não só nos Estados Unidos, onde o termo foi criado, entre as décadas de 50 e 60, e transformado em política pública e item obrigatório das agendas de movimentos sociais, mas também na Índia, México, África do Sul, Nigéria, Argentina, Austrália, Canadá, e mesmo no Brasil (Cf. SILVA, 2001) em alguns países da Europa Ocidental, com o rótulo de discriminação positiva, ação compensatória, etc. Apenas para citar um exemplo, o Decreto Lei 5.452 de 1943, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) previa, no seu artigo 354, cota de dois terços de brasileiros para empregados de empresas individuais ou coletivas. Podemos encontrar outras propostas e discussões sobre ação afirmativa no Brasil desde a década de 60, destacando-se o papel do ex-senador Abdias do Nascimento como fomentador e formulador, mas é a partir de meados da década de 90 que a discussão se generaliza acadêmica e politicamente, tendo como marcos a criação do Grupo de Trabalho Interministerial Para a Valorização e Promoção da População Negra, em 1995, e o Programa Nacional de Direitos Humanos, em 1996. Ainda em 1996, o Ministério da Justiça promove o seminário “Multiculturalismo e Racismo”, convidando acadêmicos brasileiros e estrangeiros para discutir a defesa dos direitos das minorias a partir de alternativas aos “princípios universalizadores do Estado” (Cf. SOUZA, 1997). A partir de então, uma série 10 de ações pontuais em todos os níveis e políticas públicas mais permanentes são implementadas, e um intenso debate político e acadêmico é detonado. Nesse debate, algumas das características mais marcantes são a redução do escopo das ações afirmativas a apenas uma de suas aplicações possíveis –a política de cotas– e a limitação dos possíveis beneficiários a grupos raciais, e ao mesmo tempo uma quase que exclusiva dicotomização de posições, reduzindo o debate a defensores e opositores às cotas raciais, especialmente aquelas destinadas aos negros. Mesmo na produção acadêmica, os argumentos são agrupados nessas duas categorias pró e contra, assumindo o autor sempre um dos lados, mais ou menos apaixonadamente (Cf. GUIMARÃES, 1999). Apesar da produção acadêmica brasileira registrar definições generalistas do conceito de ação afirmativa, e de apontar, quase sempre de passagem, a abrangência espacial da aplicação de tais medidas em vários contextos nacionais, permanece presa a um referencial exclusivamente Norte-Americano. Presa não só à discussão de experiências específicas de aplicação dessas políticas, discutindo contendas jurídicas, dados empíricos e argumentos extraídos diretamente da produção Norte-Americana, como também presa à uma lógica conceptual que vincula e restringe tais políticas a pressupostos denominados ‘multiculturalistas’, definindo seus beneficiários basicamente em termos adscritícios –raça, sexo–, naturalizando concepções identitárias conformadas a partir de relações sociais vigentes em outro contexto. Devemos questionar, na discussão sobre a implementação da política de cotas no Brasil o que Bourdieu (1974) chama de “automatismos verbais e os hábitos de pesamento (...) [que] também podem (...) dispensar-nos de pensar.”, universalizando “particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais.” (BOURDIEU, 2002). O debate nacional sobre ação afirmativa tem se estruturado a partir do uso de categorias como raça e sexo como se essas fossem apenas signos “descritivos” de uma “verdade” inscrita na natureza. Da mesma forma, podemos observar duas espécies de “mitos de origem” na literatura acerca da legislação que implantou a reserva de vagas nas Universidades do Rio de Janeiro. Um deles concebe a política de cotas como resultado da longa, progressiva e contínua mobilização das “lutas anti-racistas, especialmente as dos movimentos negros, [que] vinham pressionando os governos brasileiros a implementarem políticas de ação afirmativa para as vítimas do racismo brasileiro” (SANTOS, Sales, 11 2003: 95; Cf para o mesmo argumento SISS, 2003). O outro concebe a política de cotas como fruto do arbítrio e do populismo governamental, implantada repentinamente, como um raio em céu azul, tal como expresso por Peter Fry e Yvonne Maggie: Evidentemente, a repentina adoção de cotas como política de Estado nos surpreendeu, e muito. (...) Não imaginávamos que as cotas seriam virtualmente decretadas, e mesmo se tivéssemos imaginado que isso pudesse acontecer, provavelmente não teríamos antecipado o extraordinário poder das decisões de ‘cima para baixo’ nesse país que quereríamos imaginar democrático” (FRY & MAGGIE, 2002:3) Outra característica da literatura acadêmica é a relativa ausência de pesquisas empíricas sobre políticas de ação afirmativa. Embora várias pesquisas de opinião sobre a adoção de cotas tenham sido realizadas (Cf. SANTOS, Sales, 2003; MACHADO & BARCELOS, 2001; TELLES & BAILEY, 2002; FARAH, 2003; ), a implantação das cotas no Estado do Rio de Janeiro provocou situações intensas de acomodação e convívio, competição e conflito, que demandam pesquisas mais detalhadas, confrontando discursos, representações e práticas, do que fotografias momentâneas de opinião, resumidas em pró ou contra. 4. Igualdade: Formal ou Substantiva? Num debate fortemente polarizado, a disputa não se resume aos conteúdos dos argumentos, mas também encontra espaço na definição dos termos e na luta pelas classificações legítimas que antecedem a discussão. Todos os dois pólos em disputa argumentam em favor da Igualdade como um valor, e dessa forma, o debate é apresentado pelos opositores às cotas como uma disputa entre “Universalismo versus Particularismo” ou “Igualdade versus Privilégio”, e pelos seus defensores como “Meritocracia versus Igualdade de Oportunidades”. Os primeiros baseiam-se na Igualdade formal, abstrata ou processual, a igualdade de todos perante a lei, acusando os defensores das cotas de criarem mais privilégios numa sociedade ainda fortemente patrimonialista e hierárquica. Os segundos argumentam em favor da Igualdade substantiva, ou de resultados, que prima pela 12 Igualdade como resultado final, fruto de ações estatais dirigidas para tal fim, acusando seus opositores de manter o status quo, manter a desigualdade através de uma falsa igualdade formal que se revela impotente em mudar os efeitos estruturais das desigualdades sociais. Tais argumentos devem ser entendidos e analisados dentro do universo de práticas empíricas do Estado brasileiro, pois como mostrou Roberto Kant de Lima (1983), as práticas jurídicas e as políticas públicas no Brasil tomam os sujeitos como inerentemente desiguais e não como indivíduos política e socialmente equivalentes, tal como ocorre nos EUA. Esta lógica hierarquizante e – no seu ideal de justiça – compensatória, é homóloga à que rege o sistema jurídico no Brasil (Kant de Lima, 1983, 1995, 2003), perpassando a polêmica suscitada pelas políticas particularistas, como as de ação afirmativa. Além disso, no Brasil a lógica compensatória da igualdade substantiva tende a ser ancorada em uma base moral, e não política ou social, como na França, o que permite que ela se articule com uma ordem social hierárquica e excludente (Barbosa 1992). Os principais argumentos apresentados contra a política de cotas para negros são: a) Uma vez que a igualdade de todos perante a lei é um princípio estruturante da democracia, o sistema de cotas introduz a desigualdade num sistema que deve ser igualitário. b) O mérito individual deve ser a única via de acesso a bens culturais escassos, como o acesso à Universidade pública. c) Existe grande dificuldade de demarcar exatamente os “negros”, “pretos” e “pardos” no Brasil, devido à miscigenação. Como exemplo, FRY e MAGGIE (2002) sustentam que “Não há antropólogo que possa discordar (...): as raças de fato não existem naturalmente, e um sistema de cotas implica logicamente a criação de duas categorias raciais (...) O sistema de cotas representa a vitória de uma taxonomia bipolar” (FRY & MAGGIE, 2002: 5). d) Outro argumento é que a desigualdade no Brasil não se fundamenta na “raça” ou na cor, mas na pobreza e na exclusão econômica, merecendo soluções universalistas, e não particularistas. Para Eunice Durham: 13 “Uma das deficiências da proposta é que ela incide sobre uma das consequências da discriminação racial e da desigualdade educacional sem que estas, em si mesmas, sejam corrigidas.” (DURHAM, 2003:1) Entre aqueles que são favoráveis às cotas, os argumentos são: a) Reparar uma herança de sofrimento e exclusão que remonta à escravidão, e deve indenizar os herdeiros e vítimas da escravidão e da discriminação. b) Tratar desigualmente os desiguais, visto que os negros não são tratados igualmente como os brancos, o que justificaria ações compensatórias. c) Promover uma elite negra, uma vez que todos os membros da elite (intelectual, econômica, etc.) são brancos, como por exemplo: “A Universidade é o divisor de águas numa sociedade racialmente dividida onde o critério para a incorporação às classes profissionais também é o critério da exclusão social. Até existir uma classe média negra profissional, com o domínio dos mesmos códigos e competências da elite, não haverá combate efetivo à discriminação racial” (SILVA, 2001:59) d) Não cabe falar em mérito para ingresso no ensino universitário quando os pontos de partidas são desiguais. O esforço pessoal, a superação individual de obstáculos pessoais, e a discriminação também podem ser qualificados como “mérito”. Como afirma Antônio Sérgio Guimarães, Questiona-se, sim, que o mérito e os dotes intelectuais estejam sendo empanados por desigualdades raciais e de classe, que podem ser corrigidos por políticas compensatórias (...) Existe um resíduo nas explicações sobre as desigualdades de renda, educação e habitação, saúde, etc. que deve ser atribuído a diferenças raciais” (GUIMARÃES, 1999:186-7) 5. Passagens e Portões: Políticas Públicas e Fronteiras Raciais Um dos pressupostos da adoção da política de cotas na universidade é a possibilidade de definir aqueles que têm ou não direito de ser beneficiado por tal política. 14 No caso de grupos raciais, significa definir e demarcar clara e inequivocamente as fronteiras que definem as identidades raciais. Entretanto, as identidades raciais não são univocamente dadas, nem biológica, nem socialmente. Mesmo critérios “objetivos”, tais como carência sócio-econômica, são mediados pela capacidade dos agentes em manipularem performaticamente as percepções sociais de sua persona pública (Goffman 1959). Assim, a implementação das cotas raciais na UERJ permitiu a estruturação de processos de objetivação das fronteiras raciais entre “negros” – noção que, ela própria, modifica os traçado das fronteiras raciais ao unir duas categorias raciais até então distintas, com base nas características sócio-econômicas dos grupos cujo pertencimento elas definem – e “brancos”. Esses processos visam a explicitação e sistematização dos critérios classificatórios e dos “sinais diacríticos” (Barth 1969) que constituem as fronteiras e identidades raciais, que antes eram produzidas contextualmente nas interações sociais segundo entre os agentes. Logo, as cotas constituem um campo de disputas simbólicas e políticas onde indivíduos e grupos disputam o poder de determinar as classificações legítimas e os critérios de distinção que terão poder normativo sobre o reconhecimento e a definição social das identidades raciais em questão10. Embora essa disputa tenha como objetivo a construção de critérios normativos universalizáveis para a definição das fronteiras raciais, os alunos cotistas ouvidos em entrevistas e conversas durante o trabalho de campo expressavam situações identitárias diferenciadas contextualmente. Alguns informantes, geralmente aqueles com história pessoal de militância em movimentos negros, definiam a sua identidade racial como “preto” ou “negro” sem vislumbrarem possibilidades contextuais de passagem ou de diluição da fronteira racial. Já outros, apresentavam uma maior fluidez na aplicação das categorias raciais, muitas vezes apontando para as contradições entre o sistema de classificação que informava a sua auto-identificação e os sistemas classificatórios oficiais. Um informante relatou que 10 Cabe lembrar que a UERJ adotou o critério de auto-classificação racial por parte do candidato no momento da inscrição, a partir das cinco categorias utilizadas pelo IBGE (branco, pardo, preto, amarelo, indígena). Outras universidades, como a UnB e a UEMS adotaram além da auto-classificação, uma comissão avaliadora das fotos dos candidatos às cotas raciais, avaliando por terceiros a partir do “fenótipo”. 15 “–Eu fiz o alistamento militar e puseram branco (...). Eu me considero pardo, porque... meu avô é meio moreno, então, misturou é pardo. Se você não é... especificamente ariano, misturou uma vez é pardo, foi isso o que eu aprendi, isso que os professores passam para a gente. Mas no alistamento colocaram branco.” (Estudante de Medicina, cota para escola pública, 18 anos, 2º ano) Outros informantes apontaram para a possibilidade da relativização das categorias raciais a partir da manipulação performática dos traços fenotípicos. Por exemplo, durante uma conversa informal, um aluno do curso de Medicina apontou para uma colega e disse: Ele –“Entrevista ela [apontando], ela é cotista, e agora que voltou da praia, está mais cotista ainda...” Ela –“Mas eu acho que sou parda, pô.” Ele –“Mas você também tem os olhos meio puxados, se fosse agora podia entrar para a cota de indígenas” (Diálogo entre uma aluna do curso de Medicina, cota de negros, 2º ano e um veterano do mesmo curso). Além disso, o trabalho de campo revelou processos diferenciados e, às vezes contraditórios, em cada curso quanto à manipulação e legitimação de identidade pelos alunos beneficiados, pressionados a assumir ou desmentir, adotar ou se desvencilhar das identidades de “negro” ou de “carente”. Isto ocorre porque a produção e afirmação das identidades raciais no contexto das cotas serem perpassadas pelos valores e representações que constituem as identidades acadêmicas e profissionais ligadas a cada curso. No curso de Medicina, por exemplo, o mérito individual é extremamente valorizado como elemento definidor do ethos da profissão e as cotas são vistas, pela maioria dos informantes, como um privilégio pouco justificável. Alguns professores do curso de Medicina expressaram receios que as cotas baixassem a qualidade do curso. Tal posição aparece também na fala de muitos alunos, mesmo aqueles que foram beneficiados pelas cotas raciais para ingressar na UERJ. Essa condenação das cotas pelos próprios cotistas não constitui uma contradição em si, mas sim a adoção da identidade acadêmica dominante no curso de Medicina por estes. Na verdade estes alunos estão manifestando um grande desconforto com mecanismos de 16 seleção acadêmica que não “revelassem” a sua excelência intelectual e acadêmica. Um aluno, respondendo a uma pergunta sobre as cotas disse: “Eu não concordo, mas eu entendo, acho que é por uma boa causa, mas entre ter e não ter, acho que não deveria ter.” (Estudante de Medicina, cota para escola pública, 18 anos, 2º ano) Outro, afirmou: – “Eu sou contra todo tipo de cotas” (Estudante de Medicina, cota para negros, 19 anos, 2º ano) Já os estudantes de Pedagogia e Ciências Sociais, pertencentes a estratos populares e sujeitos a maiores dificuldades em sua trajetória escolar, tendem a relativizar o mérito individual na forma pela qual ele comparece nos discursos dos alunos de Medicina, por exemplo, um mérito abstrato e formal, e valorizam mais o “mérito pessoal”, subjetivo, que leva em conta não apenas os resultados obtidos, mas as dificuldades no percurso. Dessa forma, o mérito subjetivo não leva em conta apenas a pontuação numa prova, mas as dificuldades enfrentadas num percurso entremeado por dificuldades financeiras e baixa qualidade de ensino, superadas pelo esforço pessoal. Para eles, as cotas também aparecem como instrumentos socialmente legítimos e moralmente justos: “Os cotistas não são diferentes dos outros, a gente pode passar nas matérias e provar que a gente tem direito de estar onde está”. (Estudante de Pedagogia, baixada, cota para negros, 29 anos, 3º período) Existem também diferenças importantes nas percepções e valorações da política de cotas. Os estudantes cotistas de Pedagogia e de Ciências Sociais tendem a ver as cotas como uma “conquista política” e como possuidoras de um “caráter moral” por serem a reparação de séculos de exclusão e opressão dos negros no Brasil. Já os estudantes cotistas de Medicina tendem a ter uma relação pragmática com as cotas, vendo-as como um instrumento de acesso a bens simbólicos e materiais necessários a uma trajetória social de sucesso. Assim, uma aluna declarou que: 17 “Eu tinha que entrar de qualquer jeito, se precisasse entraria na cota de negros, de índios, qualquer uma” (Estudante de Medicina, cota de negros, 2º ano) Embora alguns alunos condenem esse uso estratégico das cotas, muitos cotistas, mesmo aqueles que se declaram contrários às cotas, admitem e defendem abertamente o terem adotado como um recurso legítimo no contexto competitivo do vestibular: P “–O que você acha das cotas?”. R “–Eu sou contra todo tipo de cotas”. P “–Mas por que você se candidatou por uma cota?”. R “–Porque eu sabia que se eu não fizesse alguém ia fazer, e alguém que tirou uma nota mais baixa do que eu ia entrar, e no vestibular, querendo ou não, você acaba pensando em você em primeiro lugar. Você está numa disputa com 50 pessoas por uma vaga (...). Eu vi na cota um jeito mais fácil de entrar, e não me arrependo”. (Estudante de Medicina, cota para negros, 19 anos, 2º ano) Outros informantes do curso de Medicina, apesar de expressarem um desconforto com a contradição entre o “benefício” das cotas e as noções de mérito individual que informa a identidade dos alunos de Medicina, admitiram que cogitariam o uso estratégico de cotas raciais em contextos competitivos. Assim, a entrevista de um aluno de Medicina que se definiu como pardo e crítico das cotas raciais no vestibular: P- “Se você tivesse que concorrer a algum outro concurso e tivesse uma cota para pardos, você pensaria em usar? R- “Acho que pensaria (...) Sempre bate aquelas neuroses de que você foi beneficiado, eu tenho uma pulga atrás da orelha até hoje em relação a isso, não sei o que eu faria, sinceramente ... É interessante notar que enquanto o uso das cotas como estratégia competitiva aparece no discurso dos estudantes cotistas de Medicina como uma opção prática com 18 diversos níveis de legitimidade contextualmente negociados, ele é praticamente ausente do discurso dos estudantes cotistas de Ciências Sociais e Pedagogia. Isso se deve em parte pelo fato dessa atitude pragmática e estratégica em relação às estruturas e práticas acadêmicas encontrar legitimidade nas identidades acadêmicas dos estudantes de Medicina, onde ela é associada a uma exibição performática de inteligência pelos alunos definidos como “espertos” ou “safos” (Pinto 2000: 48). Já entre os alunos cotistas de Ciências Sociais não há a mesma margem de legitimação do uso estratégico das cotas, embora sem dúvida existam muitos dentre eles que o façam, uma fez que tal pragmatismo é oposto aos valores morais e posições políticas que informam as identidades acadêmicas dominantes nestes cursos. Entretanto, se o uso pragmático da política de cotas encontra uma certa legitimidade entre os alunos cotistas do curso de Medicina, a manipulação estratégica da identidade racial é condenada como fraude por alguns alunos, principalmente aqueles ligados a movimentos sociais identitários – como as diversas vertentes dos movimentos negros – em todos os cursos estudados. No caso do curso de Medicina, as representações acadêmicas do mérito individual são mobilizadas na condenação dos possíveis “fraudadores raciais”, uma vez que eles não apenas “burlam” identidades raciais, mas “burlam” mecanismos socialmente aceitos como definidores do ethos da profissão. Nesse caso os “fraudadores” são considerados “tão brancos quanto os outros”, como disse um aluno cotista, mas que não conseguiram se valer apenas da sua capacidade intelectual para conseguir passar no Vestibular. Conforme a declaração de um aluno veterano de Medicina, no ato da matrícula: “Tem muita gente aí que diz que é negro só para passar para Medicina” (Estudante de Medicina, veterano, “branco”, não-cotista) Outro aluno, cotista, membro de uma ONG que coordena “pré-vestibulares para afro-descendentes”, presente à matrícula da UERJ, afirmou que “Tem muito branco enrustido por aqui, tem branco se dizendo negro só para passar no Vestibular”. Para ele, o problema é que: “–Muita gente se disse negra e não era, esse é o problema da auto-declaração. Tinha que ter uma comissão para só deixar entrar os negros mesmo”. 19 Enquanto na universidade esse discurso de construção dos “fraudadores raciais” como os principais “inimigos” das cotas e “responsáveis” pelos seus eventuais insucessos é geralmente limitado aos alunos ligados a movimentos identitários, ele está no centro do debate que acadêmicos, jornalistas, militantes negros e agentes políticos travam na imprensa, em particular no jornal O Globo. Para aqueles que rejeitam o sistema de cotas raciais os “fraudadores” são o exemplo vivo da impossibilidade em se implementar critérios objetivos de identificação daqueles que deveriam ser os beneficiários das mesmas11. Para os “defensores” das cotas, os “fraudadores” mostram a necessidade da criação de “mecanismos de controle” – que costumam ser definidos como “comissões de avaliação” que julgaria a veracidade da identidade racial do aluno a partir da análise de fotografias ou entrevistas - sobre as identidades raciais dos alunos que optam pelas cotas de modo a impedir que os “fraudadores” se beneficiem delas. É interessante notar que os agentes desse debate não apresentam nenhuma reflexão sobre a relação entre a política de cotas e a re-significação das diversas passagens identitárias possíveis, que não eram significativamente problemáticas do ponto de vista político até a implementação das políticas de cotas, em “fraude racial”. Tal fato reflete as representações dominantes no mesmo, em particular entre os “defensores” das cotas, que tendem a essencializar as identidades raciais como algo cultural e, mesmo, biologicamente fixo e unívoco. Isso é bem exemplificado pelo jargão retórico freqüentemente repetido por diversos agentes em debates públicos sobre as cotas: “Para se saber quem é negro no Brasil, basta fazer uma comissão de avaliação composta por porteiros e policiais”. Dentro dessa lógica a UNB criou uma comissão avaliadora da identidade racial dos candidatos às cotas raciais a partir de fotografias que revelassem os traços fenotípicos dos mesmos, ao que se somou posteriormente uma entrevista. Para além da problemática avaliação da “eficácia” dessa medida, ou da relação entre os recursos mobilizados e a dimensão do problema, cabe lembrar aqui sérias questões éticas que ela suscita. Os nomes dos “fraudadores raciais” são divulgados pela universidade, expondo-os a repreensões ou retaliações públicas, mas os nomes dos membros da comissão são mantidos em segredo, em 11 Em alguns casos tal posição resvala em uma militância combativa, como no caso do professor da UERJ que propôs em um artigo em O Globo que todos os alunos se declarassem negros. 20 um reconhecimento implícito do caráter problemático de tal julgamento. Além disso, os critérios de “identificação racial” e o conteúdo das entrevistas também são mantidos em segredo, o que levanta a questão da sua possível arbitrariedade. A questão dos “fraudadores raciais” divide o espaço com a do “desempenho acadêmico” dos alunos cotistas na polêmica sobre as cotas. De uma maneira geral, os “opositores” às cotas dizem que o desempenho acadêmico dos alunos cotistas é pior que o dos não-cotistas, diminuindo o nível de excelência da universidade, já os seus “defensores” declaram que os alunos cotistas têm um desempenho acadêmico igual ou superior ao dos não-cotistas. Tais posições se tornam irreconciliáveis por se basearem em duas pesquisas feitas e parcialmente divulgadas pela UERJ. A primeira pesquisa “demonstrou” que os cotistas tinham desempenho acadêmico igual ou superior aos demais, e a segunda “demonstrou” o oposto. É preciso ressaltar que os critérios metodológicos de construção, seleção e análise dos dados nunca foram divulgados pela UERJ, o que faz com que eu considere essas pesquisas como parte da polêmica e das disputas políticas que envolvem as cotas e não como fonte de conhecimento sobre as mesmas. Entre os professores entrevistados nesta etnografia, alguns declararam que a adoção das cotas levou a um declínio no desempenho acadêmico dos alunos, já outros relativizaram a comparação com o desempenho dos alunos em outros anos apontando para o declínio estrutural da universidade como um todo, que padece de bibliotecas desatualizadas e inoperantes, greves periódicas, número insuficiente de professores, etc.. Uma professora do da disciplina de Biologia Celular do curso de Medicina da UERJ criticou em sala de aula o nível da turma, que ela associou ao desempenho dos alunos cotistas. No entanto, um dos monitores dessa disciplina discordava da avaliação da professora, dizendo que a diferença de desempenho foi muito pequena. Na sua maioria, os professores se mostravam relutantes em fazer uma avaliação categórica do desempenho dos cotistas, pois na situação pedagógica da sala de aula eles não sabem quem é ou não cotista, pela impossibilidade de dissociar os efeitos das cotas de outros fatores estruturais que estão afetando a universidade, e pelo alto teor polêmico e político do assunto. Os alunos cotistas costumam seguir o mesmo padrão anteriormente descrito, com aqueles ligados a movimentos identitários bastante mobilizados a respeito, geralmente rejeitando emocionalmente qualquer possibilidade de um desempenho acadêmico inferior 21 por parte dos cotistas, enquanto os outros adotam uma postura mais distanciada, geralmente apontando para os fatores estruturais das dificuldades cotidianas enfrentadas na sua trajetória acadêmica. Por exemplo, após a divulgação da segunda pesquisa, uma aluna cotista de Geografia falou em um ato em defesa das cotas na UERJ: “A reitoria exige que a gente prove tudo: renda, onde a gente mora, o que tem, tudo. Nós queremos que eles provem tudo também.(...) Queremos provar que não somos incompetentes” Uma vez que O Globo tem sido o principal fórum midiático para a questão, “teorias conspiratórias” são rotineiramente mobilizadas para “explicar” as pesquisas. Uma aluna de Ciências Sociais disse: “Eu não sei até que ponto a Globo está sendo preconceituosa e manipuladora desses dados. O que vem da Globo a gente tem que ter o pé atrás” (23 anos, 3o período, cota para negros) Porém, os alunos que não são ligados a movimentos sociais e políticos, e em particular os que entraram através das cotas para escola pública, tendem a ponderar que o desempenho acadêmico dos cotistas pode ser realmente inferior aos demais alunos e a conectar isso à trajetória pedagógica dos mesmos. Como disse uma aluna de Ciências Sociais: “Eu acredito que a pesquisa [da UERJ] seja verdadeira e que os cotistas estejam tendo realmente um desempenho inferior aos não cotistas, porque a base deles é realmente pior, inferior, então muita gente chega aqui em situação de ter menos conhecimento, de ter uma base inferior (...) acontece muitas vezes de o aluno não ter aula de História ou de Geografia, e chega aqui com uma base pior do que os outros, o que acaba prejudicando o desempenho sim (...), mas não vejo nada de gritante, pelo menos no meu curso , eu não vejo essa diferença não.” (18 anos, cota para escola pública) Apesar de muitos alunos terem se dedicado a refutar ou ponderar os resultados das pesquisas da UERJ, boa parte dos alunos cotistas usou este tema para apontar para as 22 dificuldades encontradas no ensino universitário, ressaltando o papel das dificuldades de acesso a bens culturais – como livros, textos, material de pesquisa, ou instrumentos profissionais – em inviabilizar uma boa performance ou, mesmo, a própria trajetória acadêmica. Os alunos cotistas mostraram uma consciência aguda da desvantagem acadêmica criada pela penúria e pelo funcionamento excludente das instâncias de armazenamento e repartição de bens culturais na universidade – como as bibliotecas, os laboratórios e os locais de aprendizado prático. Assim, uma aluna de Pedagogia do campus do Maracanã expressou seu descontentamento com a polêmica sobre o desempenho dos cotistas dizendo: “Passar não é tão impossível, difícil é se manter aqui. (...) Como é que a gente vai ter um desempenho melhor se a gente não tem acesso aos livros, não tem biblioteca funcionando aqui dentro, se não tem dinheiro pra passagem? Pro xerox? Mas será que o nosso desempenho é tão ruim assim mesmo ou é só mais baixo? (...) Só por que a gente é cotista é que o desempenho caiu? As pessoas estão levantando uma bandeira, colando cartazes, notícias de jornal nos corredores... (...) O desempenho foi menor, e aí? As pessoas vão ajudar a gente por causa disso? Não? Se você não vai ajudar, vai ficar jogando merda no ventilador? Então deixa quieto. Será que nós somos o cocô da Universidade? Só a gente que não presta?” (20 anos, cota para negros) Já um veterano não-cotista de Medicina ressaltou o problema do custo dos cursos na área de saúde como o principal fator problemático para os cotistas: “(...) pobre de verdade quase não entra aqui [no curso de Medicina]. Se entrar não consegue se manter. Na Odonto é ainda pior, porque lá o cara tem que comprar o material, que é caríssimo, logo no terceiro período. Então, se entrar não fica.” Assim, podemos ver como as falas acima apontam para questões que são fundamentais para o sucesso da política de cotas no contexto real das universidades 23 brasileiras, mas que têm sido ignoradas pelos agentes que se opõem na polêmica pública a respeito destas. 6- Além dos Matizes da Cor: Disciplinando a Identidade Racial Um aspecto recorrente nas falas dos informantes durante o trabalho de campo foi a utilização de uma “retórica do sofrimento” como instância unificadora das representações, emoções e práticas que definiriam ontologicamente a identidade, racial negra. Tal retórica visa articular as diversas instâncias experienciais dos indivíduos de modo a constituir uma experiência racial (baseada na discriminação) que funcione como mecanismo disciplinar (Asad, 1993: 125) para criar uma fronteira racial estável que defina uma “identidade negra” pública. A experiência do sofrimento seria uma das marcas que definiriam a fronteira que separa os brancos dos negros, e que permite mobilizar os possíveis beneficiários e distinguir os portadores de identidades legítimas. Nesse sentido, o discurso de alguns informantes apontou para a constituição de uma “experiência da discriminação” como elemento central de um mecanismo disciplinar que pretende regular, conformar e construir identidades raciais a partir do investimento de discursos e práticas na (re)significação do corpo como arena de vivência social da “verdade racial”. Um aluno cotista ligado ao movimento pró-negro definiu a identidade negra dizendo que: “Negro é quem sofre discriminação, é quem é parado pela polícia”. Por vezes a “experiência racial” é ligada a formas de consciência cultural, como adoção de uma estética “afro”, valorização de heróis – como Zumbi -, adoção religiosa ou cultural dos cultos afro-brasileiros, etc; e de consciência política, como a militância nos movimentos pró-negro. Como disse um aluno cotista de Pedagogia: “Ser negro é uma questão política” 24 Essas representações sobre a identidade negra ganham presença como força organizadora das interações sociais através de dispositivos que visam a inscrição da identidade racial no corpo e na consciência dos agentes, articulando a incorporação no universo emocional e corpóreo individual de uma experiência coletiva com uma forma particular de consciência cultural e política, aparecem na fala de um aluno: “Ser negro é valorizar a cultura afro-brasileira, é não se deixar sofrer preconceito, é maior que uma questão biológica de mais melanina ou menos melanina” (Pedagogia – Maracanã, cota para negros, 20 anos) Diversos agentes e agências disputam o poder de impor suas definições normativas da identidade negra como dominantes no universo das cotas, o que ganha uma relevância enorme se lembrarmos a pressão para a criação de “critérios objetivos” que orientem “comissões de avaliação” das identidades raciais dos cotistas. Essa disputa é feita através da promoção de dispositivos disciplinares das experiências e formas de consciência entre os alunos cotistas. Várias organizações tentam criar mecanismos disciplinares que inculquem conteúdos compartilhados e homogêneos para as identidades negras, criando formas de identificação e solidariedade que suplantem a diversidade de trajetórias e experiências que informam as identidades dos alunos cotistas da UERJ. A principal organização é a Espaços Afirmados (ESAF) que foi criada a partir do projeto “Políticas da Cor”, financiado pela Fundação Ford. O ESAF é um dos ramos do projeto, tendo sido criado para dar apoio aos alunos cotistas com cursos de curta duração, acesso a computadores, apoio de monitores, seminários, etc. O ESAF divide o campo com outras organizações, como o Coletivo de Estudantes Negros que promove cursos e debates sobre a questão do negro. Essas organizações, embora disputem as posições dominantes do campo, se articulam em diversos níveis, como parcerias em cursos, grupos de pesquisa, ou relações pessoais entre seus coordenadores e membros, criando uma rede que amplia a capacidade normativa dos mecanismos disciplinares inscritos nas suas atividades, uma vez que há uma grande circulação dos indivíduos no seu interior. O caráter normalizador dos cursos e atividades dessas organizações em relação às identidades raciais dos agentes fica evidente na grande recorrência no discurso dos alunos ligados a elas de frases como: 25 “Me descobri negro(a) há X anos/meses” ou “Só me dei conta que era negra(o) há X anos/meses” A fala de uma aluna cotista de Pedagogia do campus Maracanã resume bem o caráter disciplinar dessas organizações: “Eu estou aprendendo o ser negra” É importante notar que essas redes de organizações identitárias na universidade se articulam com organizações que promovem pré-vestibulares para negros e carentes, como a EDUCAFRO e o PVNC. Essa articulação permite que os egressos desses pré-vestibulares redimensionem as suas identidades escolares dentro da categoria mais ampla de “cotista”, que as articula com as identidades dos alunos cotistas que não são egressos desses prévestibulares, homogeneizando-as em uma identidade “negra” disciplinada a partir de representações e valores compartilhados por esse campo simbólico. Isso faz com que essas redes de organizações identitárias para cotistas criem espaços de socialização de quadros dos pré-vestibulares comunitários e dos movimentos identitários. Assim, a identidade de “cotista” é incorporada como uma identidade acadêmica, demarcando uma trajetória diferenciada profissional e politicamente para parte dos seus portadores e mantenedores. Essas redes de manutenção da identidade de cotista articulada a uma identidade negra objetivada pelos mecanismos disciplinares nelas presentes existem exclusivamente nos cursos da área de ciências humanas e pedagogia, sendo totalmente ausentes do curso de Medicina. As próprias organizações elaboram seus discursos e práticas para essa área, não havendo nenhum esforço em integrar os alunos cotistas do curso médico. Em parte o isolamento físico do curso de Medicina, cuja maioria das aulas ocorre em um prédio anexo ao Hospital Pedro Ernesto, contribui para isso. Porém, a própria ênfase na identidade cotista e em uma trajetória dedicada ao ensino faz com que essas organizações tenham uma pelo limitado aos alunos cotistas da Medicina, pois ela está em contradição com as identidades acadêmicas que eles incorporam na sua trajetória no curso e, mesmo antes, com a sua auto- 26 representação12. Assim, vemos que os efeitos das cotas raciais nas trajetórias e nas identidades dos alunos universitários variam de acordo com o universo simbólico e prático de cada curso e com as suas identidades acadêmicas. 7 - Conclusão A discussão sobre ação afirmativa no Brasil tem sido caracterizada pela polarização e pelo forte componente moral dos argumentos utilizados, ressentindo-se da relativa ausência de estudos empíricos. Nossa etnografia examina o impacto da implantação das cotas na objetificação das fronteiras entre os grupos e na produção de identidades raciais a partir da disputa pelas classificações legítimas e pela definição dos critérios de pertencimento identitário. Uma vez que “pardos”, “pretos” e “negros”, etc. são construções coletivas de identidades raciais baseadas em elementos arbitrários (fenotípicos e/ou culturais e/ou organizacionais e/ou históricos, etc.), vários atores sociais disputam pela definição e pelo controle dos mecanismos que englobam as identidades individuais, envolvendo instâncias unificadoras, como a experiência do sofrimento e a ideologia do mérito. Desse modo, ao mesmo tempo que os “empresários étnico/raciais” procuram controlar os mecanismos de estabilização da fronteira racial no processo de acesso à universidade, eles procuram criar universos simbólicos que unifiquem as diversas experiências individuais em relação a uma definição normatizada de “ser negro”. Nos cursos de “prestígio social”, como Medicina, onde se concentram os alunos oriundos dos estratos sociais mais elevados, onde ocorre maior concorrência para o ingresso na carreira, as representações acerca do mérito individual exercem forte pressão sobre os agentes na definição de suas identidades sociais e academicas. Isso faz com que a identidade de cotista, e mesmo de “preto” ou “pardo” em alguns casos, seja ignorada em prol da adoção de um individualismo meritocrático. Já nos cursos de menor “prestígio 12 Sem dúvida as identidades dos cotistas dos cursos de áreas humanas também se articula de forma diferenciada com a relação que as diversas identidades acadêmicas destes mantém com a prática pedagógica e com certas posições políticas – como era o caso das identidades de “professor” e “pesquisador” que identifiquei na minha etnografia do curso de História da UFF (Pinto 1999: 4247). 27 social”, como Pedagogia, a implementação das cotas levou à incorporação da identidade de “cotista” e seus pares simbólicos, “negro” e “carente” como parte do universo de classificação acadêmica. Isso permitiu a constituição de redes de solidariedade e de distribuição de recursos acadêmicos e profissionais que permitem trajetórias sociais diferenciadas. Assim, podemos dizer que as políticas de ação afirmativa, tais como foram concretizadas na criação de cotas na universidade, se constituem, simultaneamente, em canais de acesso a bens culturais e econômicos, como o ensino universitário, para grupos socialmente desfavorecidos e em uma arena de debates, reflexão e ação sobre as próprias categorias raciais que demarcam a sua inserção e posição na sociedade brasileira. BIBLIOGRAFIA ANDERSON, Benedict. Imagined Communities: Reflections on the Origins and Spread of Nationalism. London: Verso, 1991. ASAD, Talal Genealogies of Religion: Discipline and Reasons of power in Islam and Christianity. Baltimore: John Hopkins University Press, 1993. BARBOSA, Lívia. O Jeitinho Brasileiro: A Arte de Ser Mais Igual Que os Outros. Rio de Janeiro: Campus, 1992. BARTH, Fredrik. “ Introduction” In Ethnic groups and boundaries. Fredrik Barth (ed.), Bergen, Oslo: Universitetsforlaget, 1969. BOURDIEU, Pierre A Economia das trocas simbólicas. 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