1 KÁTIA REGINA DA SILVA DIVERSIDADE CULTURAL EM SALA DE AULA: Representações docentes sobre os saberes e experiências de alunos Dissertação apresentada ao Programa de Pósgraduação Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília, como requisito parcial para a obtenção de título de Mestre em Educação, área de concentração em Ensino e Aprendizagem. Orientadora: Professora Doutora Jacira da Silva Câmara Brasília 2007 2 TERMO DE APROVAÇÃO Dissertação defendida e aprovada como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação do programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação, da Universidade Católica de Brasília, defendida e aprovada em 05/12/2007 pela banca examinadora constituída por: _______________________________________________ Professora Doutora Jacira da Silva Câmara Orientadora _______________________________________________ Prof. Dr. Geraldo Caliman _______________________________________________ Prof Dr. Ivan Rocha Neto Brasília 2007 3 AGRADECIMENTOS À Professora Jacira Câmara, orientadora dedicada e generosa, que ao longo do processo de orientação contribuiu para minha formação acadêmica e pessoal. Ao Profº Dr. Geraldo Caliman, por suas valiosas intervenções no período de qualificação do projeto de pesquisa, e participação na Banca de Defesa. Ao Profº Dr. Ivan Rocha Neto, pela participação e importantes contribuições na Banca de Defesa. À Antonio Disney, pelo apoio fundamental e decisivo, para o ingresso e permanência no programa de mestrado. À Jorge Luís, companheiro de todos os momentos importantes de minha vida. Desde 1989, incentivando, ajudando, ouvindo, somando e dividindo. À minha filha, Jamile, sempre compreensiva e solidária. Aos meus irmãos, que sempre contribuíram em minha formação. Às professoras e professor participantes da pesquisa, pela confiança e disponibilidade em contribuir para a realização deste estudo. 4 A árvore que não dá frutos É xingada de estéril. Quem examina o solo? O galho que quebra É xingado de podre, mas Não havia neve sobre ele? Do rio que tudo arrasta Se diz que é violento, Ninguém diz violentas As margens que o cerceiam Bertold Brecht 5 RESUMO A pesquisa teve como tema a análise das representações dos/as professores/as sobre os saberes e comportamentos de alunos/as provenientes de camadas populares e as implicações destas representações na prática pedagógica. Os dados foram coletados utilizando-se como instrumentos a observação em sala de aula e entrevistas semi-estruturadas com professores/as de duas escolas públicas municipais de ensino fundamental, de um bairro de periferia do município de Marabá – Pará. Os resultados da pesquisa apontaram que a origem sócioeconômica dos/as aluno/as foi associada, pelos/as professores/as, à dificuldade na aprendizagem e ao comportamento considerado inadequado das crianças. A falta de limites no comportamento e o fracasso escolar foram outros aspectos ligados às condições socioeconômicas dos/as alunos/as. Crianças provenientes de famílias ditas “mais organizadas” são consideradas educadas, respeitosas, usam linguajar “adequado” e têm melhores perspectivas de sucesso escolar. As representações dos/as professores/as sugerem uma desvalorização das práticas e conhecimentos de origem popular. Os conhecimentos adquiridos no ambiente sócio cultural das crianças são desvalorizados o que revela uma concepção fundada na teoria da carência cultural, ou seja, a escola e professores/as relacionam o fracasso escolar com a família e o meio social da criança eximindose da responsabilidade com a aprendizagem do/a aluno/a. Palavras-chave: Representações Docentes; Diversidade Cultural; Alunos de Camadas Populares. 6 ABSTRACT The research had as subject the analysis of the representations of the teachers on knowing and behaviors of pupils proceeding from popular layers and the implications of these representations in practice pedagogic. The data had been collected using as instruments the observation in classroom and interviews halfstructuralized with teachers of two municipal public schools of basic education, from the periphery of Marabá city. The results of the research had pointed that teachers associated the partner-economic origin of the pupils to the difficulty of learning and to the inadequate behavior of the children, considered as such. The lack of limits in the behavior and the failure pertaining to school had been other aspects linked to the economic and social conditions of the pupils. Children proceeding from families said "more organized" are considered educated, respectful, use an "adequate" speaking and have better perspectives of pertaining to school success. The representations of the teachers suggest a depreciation of practical and the knowledge of popular origin. The knowledge acquired in the surrounding cultural partner of the children are devaluated what it discloses a conception established in the theory of the cultural lack, or either, the school and professors relate the failure pertaining to school with the family and the social environment of the child, exempting themselves of the responsibility with the learning of the pupil. Key Words: Teaching representations; Cultural Diversity; Pupils of Popular Layers. 7 SUMÁRIO RESUMO INTRUDUÇÃO.......................................................................................................09 CAPÍTULO I - A DIVERSIDADE CULTURAL SOB A ÓTICA DOS/AS PROFESSORES/AS.......................................................................12 1.1 - Objetivos ...........................................................................................14 1.2 - Procedimentos metodológicos ......................................................14 1.2.1 – Abordagem da pesquisa e instrumentos utilizados......................14 1.2.2 – Participantes ...............................................................................15 - Características gerais das escolas e dos/as professores/as .......15 1.2.3 – Coleta dos dados ........................................................................18 CAPÍTULO II - REVISÃO DA LITERATURA .........................................................20 2.1 - Cultura.................................................................................................20 2.2 - Multiculturalismo e Escola...................................................................23 2.3 - Diversidade Cultural e Escola.............................................................28 2.4 - Currículo e Diversidade Cultural.........................................................35 2.5 - Formação do/a Professor/a e Diversidade Cultural............................38 2.6 – Relações na Escola ...........................................................................43 2.7 - Representações Sociais.....................................................................51 CAPÍTULO III – REPRESENTAÇOES DOS/AS PROFESSORES/AS SOBRE ALUNOS/AS PROVENIENTES DE CAMADAS POPULARES .............................54 3.1 – Análise das Observações ..................................................................55 3.1.1 - Aspecto físico e organizacional do ambiente das salas de aula..55 3.1.2 - Características dos/as alunos/as ................................................57 3.1.3 - Relação Aluno/a X Aluno/a .........................................................59 3.1.4 - Relação Professor/a X Alunos/as ...............................................60 3.1.5 - Práticas Pedagógicas 3.1.5.1 - Conteúdos e atividades desenvolvidas .............................62 8 3.1.5.2 - Acompanhamento aos/às alunos/as na realização das atividades ....................................................................68 3.2 – Análise das Entrevistas .....................................................................69 3.2.1- Dados gerais dos/as entrevistados/as..........................................69 3.2.2 - O que pensam os/as professores/as sobre os/as alunos/as provenientes de camadas populares ....................................................71 3.2.2.1 - Caracterização dos/as alunos/as pelos/as professores/as...................................................................71 3.2.2.2 - O comportamento dos/as alunos/as na escola..................77 3.2.2.3 - A linguagem oral dos/as alunos/as....................................83 3.2.2.4 - As relações do/a aluno/a na escola ..................................86 3.2.3 - Percepção do professor sobre sua prática pedagógica .............92 3.2.3.1 - Atividades desenvolvidas pelos professores....................92 3.2.3.2 - Organização do ambiente de sala de aula ......................99 3.2.3.3 - Critérios para a seleção dos conteúdos .........................101 3.2.4 - Fatores que interferem no rendimento dos alunos e a percepção do professor sobre sucesso e fracasso escolar ......................................................................................103 3.2.5 - Percepção dos professores sobre as famílias dos alunos .......111 CAPÍTULO IV - CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................116 REFERÊNCIAS ...................................................................................................127 ANEXOS Anexo A - Roteiro das observações ....................................................................137 Anexo B - Roteiro das entrevistas .......................................................................139 9 INTRODUÇÃO As pesquisas educacionais recentes que têm por foco a investigação das manifestações das diferenças culturais no ambiente escolar indicam que há uma inter-relação entre cultura e educação (CANEN 2001, CANDAU, 2003, SILVA, 2002, SOUZA, 2000, FORQUIN, 1993), ainda porque, não se pode negar que a sociedade é diversa, é multicultural, e a escola está culturalmente situada. Concorrendo com o fato de que a temática cultura e educação é hoje um evidenciado objeto de investigação teórica, as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental (BRASIL, 1998), definem como uma das prioridades nas propostas pedagógicas da escola o reconhecimento e a valorização das diversas culturas existentes no contexto escolar. Nas Diretrizes Curriculares Nacionais (BRASIL, 1998) e Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997), o tema da pluralidade cultural figura como conteúdo a ser trabalhado pelos/as professores/as em sala de aula. Mesmo considerando as críticas ao tema da pluralidade cultural como tema transversal, tal como é exposta nos Parâmetros Curriculares Nacionais1, são importantes as ações propostas que visam a contribuir para a preparação dos/as professores/as e à implementação de iniciativas para tornar a diversidade cultural um tema de reflexão e trabalho, com o objetivo de fazer da escola espaço de convivência e respeito às diferentes culturas presentes em nossa sociedade. Tais preocupações eclodem num instante histórico em que a violência, a intolerância, os choques inter-culturais, a fome, as desigualdades econômicas e as desigualdades sociais têm aumentado a cada dia. Neste contexto cultural e economicamente adverso a prática do/a professor/a não pode se centrar apenas em formas de aquisição de conhecimentos e informação, sustentam as teses mais críticas da pedagogia multicultural. Embora a aprendizagem de conteúdos seja um importante objetivo da educação formal, a prática do/a professor/a precisa voltar-se também à construção de valores como o respeito às diferenças, a valorização dos conhecimentos, experiências e cultura do outro em um embate ativo contra todas as formas de preconceitos e discriminações (CÂMARA, 2001). 1 Para aprofundar mais sobre as críticas à proposta de Pluralidade Cultural como tema transversal, ver: Oliveira, 2004; Canen, 1998; e Moreira, 1996b. 10 As instituições educacionais, tais como Ministério da Educação e Secretarias Estaduais e Municipais de Educação, gradualmente passam a expor estas preocupações em manifestações teóricas e práticas formativas no sentido de garantir aos/as professores/as condições de aprofundar seus conhecimentos e reconstruir suas concepções quanto à diversidade cultural. O objetivo é que os/as docentes insiram em sua prática pedagógica o tema pluralidade cultural para trazer para a sala de aula questões problemáticas como a tolerância, o respeito, o combate às discriminações, o combate ao racismo, o combate ao sexismo, entre outros. É fato recente e positivo que institucionalmente o tema da diversidade cultural começa a ganhar espaço nas mentes dos gestores da educação nos diversos níveis administrativos-educacionais do país. Em um plano internacional esta temática é pauta das reformulações curriculares desde os anos oitenta (a exemplo da França, Estados Unidos da América e Inglaterra). Partindo do pressuposto de que não há diferenças impeditivas de aprendizagem nas capacidades cognitivas, da maioria das crianças ditas normais, busca-se respostas para as diferenças nos desempenhos escolares, principalmente de crianças provenientes de camadas populares as quais têm sido vítimas do fracasso escolar. Vários estudos (CANEN 2001, PERRENOUD 2001, PATTO 1996), indicam que há relação entre as representações docentes e o fracasso ou sucesso escolar. Sendo as representações do/a professor/a elemento orientador de sua ação, pode-se afirmar que tais representações constituem-se em um dos fatores intervenientes no resultado da atuação do/a professore/a em sala de aula, logo, têm efeitos sobre o desempenho escolar dos/as alunos/as. Este é um dos motivos de se investigar as representações que os/as professores/as de duas escolas de periferia da cidade de Marabá – Pará, fazem de seus/as alunos/as provenientes de camadas populares. O presente trabalho, resultado desta pesquisa, está organizado em três capítulos. No Capítulo I é apresentado o problema, os procedimentos metodológicos, e os objetivos da pesquisa. Procede-se, também a uma descrição dos aspectos físicos, da estrutura e da equipe de funcionários das escolas em que os/as professores/as participantes da pesquisa lecionam. 11 O segundo capítulo foi destinado à revisão da literatura. Neste capítulo apresenta-se o marco teórico que fundamenta a pesquisa e as principais categorias trabalhadas no decorrer da investigação. Temas como a convivência e a divergência no universo escolar, questões relacionadas ao multiculturalismo, cultura e diversidade cultural são apresentados e relacionados ao currículo vigente nas escolas brasileiras. As discussões sobre estas temáticas são expostas de maneira a se compreender as mais recentes pesquisas, e provocar uma reflexão sobre a necessidade de se desenvolver um currículo multicultural, dada a sociedade plural em que vivemos. Ainda neste capítulo apresenta-se uma abordagem sobre a formação do/a professor/a e a diversidade cultural, encerrando com uma reflexão sobre a relação entre os/as alunos/as provenientes de camadas populares, a escola e as representações sociais dos/as professores. O capítulo III foi destinado aos resultados, análise e discussão dos dados. São apresentadas as concepções dos/as professores/as sobre alunos/as provenientes de camadas populares a partir da sistematização dos dados coletados, além da discussão dos resultados fundamentados no referencial teórico deste trabalho. O último capítulo é reservado às considerações finais. São apresentadas as principais conclusões da pesquisa, quanto às representações dos/as professores/as participantes da pesquisa, os quais acreditam que a proveniência das crianças de famílias desfavorecidas e a vivência no meio popular interferem de maneira decisiva no desempenho escolar das crianças. 12 CAPÍTULO I A DIVERSIDADE CULTURAL SOB A ÓTICA DOS/AS PROFESSORES/AS A pesquisa educacional vem abrindo caminho para o estudo do multiculturalismo no processo educacional. A crítica mais destacada tem revelado que a própria escola, suas práticas e o currículo, em grande parte, atuam como reprodutores de mecanismos estigmatizantes, excludentes e negadores da diversidade. A escola é uma instituição integrante da sociedade e, em parte, produto de suas interações e conflitos, e desta forma não está imune às “imperfeições” da sociedade moderna. Segundo Bourdieu (2005) a escola tem papel de reprodutora, é a escola “que – sob as aparências da equidade formal – sanciona e consagra as desigualdades reais, a escola contribui para perpetuar as desigualdades, ao mesmo tempo que as legitima” (p. 58). Porém, por seu conteúdo formador, a escola e a atividade docente ainda são espaços de potencialidades transformadoras importantíssimas. Torna-se óbvio que despido de romantismo ou do idealismo dos potenciais transformadores sob a responsabilidade da educação, a relação e interação no ambiente formal de uma sala de aula é complexo, difícil, adverso e conflituoso. Chocam-se incessantemente culturas inter-relacionais entre alunos/as, entre alunos/as e professores e entre a “cultura da escola” (cultura hegemônica) e a cultura popular (dos alunos de camadas pobres da população). A pesquisa nasce da necessidade de evidenciar como os/as professores/as percebem as manifestações culturais dos/as seus alunos/as no cotidiano escolar. O respeito a “diversidade cultural” está formulado nos documentos oficiais da educação, mas quais serão as percepções dos/as professores/as sobre esta temática? E como ele/a manifesta e expressa esta concepção no cotidiano docente? Segundo Silva (1995) a escola tem uma cultura própria, padrão, dominante. Entretanto, muitas crianças provenientes de culturas populares não têm proximidade com a cultura prevalente na escola antes de nela ingressar, o que pode trazer conseqüências no desempenho escolar destas crianças. Em estudos 13 sobre o insucesso escolar autores como Silva (1995), Silva e Moreira (1995), Candau (2002), Sacristan (2001), Canen (1998), Perrenoud (2001), entre outros, apresentam resultados de pesquisas estabelecendo relação entre origem socioeconômica e fracasso escolar. Desta forma, torna-se importante investigar a concepção dos/as professores/as sobre diversidade cultural e como atuam diante a presença desta diversidade na escola. O que é manifesto pelos/as professores/as sobre os “diferentes”, os distantes da cultura escolar? Geralmente alunos/as com resultados positivos na escola são percebidos pelo professor/a de maneira também positiva, ou seja, este/a aluno/a é concebido ou caracterizado como portador de valores aprovados por este professor/a, como obediência, respeito, passividade, assiduidade, humildade, dentre outros. Tais valores também coincidem com o que é tradicionalmente aprovado pelo padrão eleito pelas classes dominantes. Por outro lado, aqueles que fracassam na escola são qualificados de forma negativa: preguiçosos, irrequietos, desobedientes, não virtuosos. Estas afirmações se constituem motivos para investigar a percepção que o/a professor/a tem dos elementos culturais dos seus/as alunos/as. Para o educador Paulo Freire, “ensinar exige respeito aos saberes do educando” (1996, p. 33). Muitos pesquisadores têm-se voltado para a questão do respeito aos saberes do/a educando/a e valorização de sua cultura. Casassus (2000) afirma que crianças provenientes de meio socioeconômico desfavorecido, de uma cultura popular diferente da cultura da escola têm mais risco de fracassar na escola do que crianças provenientes de famílias e grupos sociais favorecidos economicamente. O objeto desta investigação diz respeito à conflituosidade entre universos culturais distintos (cultura popular dos/as alunos/as e cultura hegemônica da escola). Desta forma como indagação central pretendeu-se investigar: quais as representações do/a professor/a sobre os/as alunos/as provenientes de camadas populares, e como estes alunos são tratados na prática pedagógica dos professores? Foram propostas questões de pesquisa, as quais deram direcionamento às observações e entrevistas. As questões de pesquisa foram: Como os/as professores/as percebem os saberes e comportamentos dos alunos? Como o 14 professor/a descreve o/a aluno/a ideal? Este/a aluno/a ideal se parece com seus/as alunos/as reais? Como o/a professor/a reage diante da linguagem do/a aluno/a? As atividades desenvolvidas em sala de aula refletem aspectos das percepções do/a professor/a sobre a diversidade cultural de seus alunos? Como os/as professores/as lidam com os saberes e práticas de alunos/as de diferentes culturas? Estas questões se constituíram base para a elaboração dos objetivos a serem perseguidos pela pesquisa. 1.1 - Objetivos O Objetivo Geral da pesquisa foi analisar as representações dos/as professores/as sobre os saberes e comportamentos de alunos/as provenientes de camadas populares e as implicações na prática pedagógica. Tal objetivo desdobrou-se em três objetivos específicos, quais sejam: investigar as representações dos professores em relação às manifestações dos alunos provenientes de culturas populares; identificar práticas pedagógicas desenvolvidas na sala de aula que atendam aos saberes e comportamentos dos/as alunos/as de culturas populares; e, investigar as relações interpessoais entre professor/a e alunos/as e alunos/as e alunos/as em sala de aula, considerando a diversidade cultural existente. 1.2 - Procedimentos metodológicos 1.2.1 – Abordagem da pesquisa e instrumentos utilizados Seguindo a opção metodológica definida para a pesquisa a abordagem qualitativa mostrou-se a mais apropriada para este estudo, pois os dados poderiam ser coletados no próprio ambiente onde acontece a situação pesquisada, sem a manipulação intencional do pesquisador, fato importante quando se pretende investigar concepções e percepções de professores/as. Não se pretendeu estabelecer verdades fixas sobre os problemas investigados, e sim contribuir para o debate e formulação de novos conhecimentos. A atenção despendida pelo pesquisador teve foco nos significados dados às coisas e à vida pelas pessoas (LÜDKE & ANDRÉ, 1986). Considerou-se este o modelo mais 15 adequado para se estudar os fenômenos humanos e sociais, pois para estudar um problema deve-se considerar a dinamicidade, o movimento dialético que existe na produção do conhecimento. Entende-se que esse tipo de pesquisa contribui para a análise e entendimento das relações sociais no contexto geral, mais especificamente, no educacional. Contrariando uma análise positivista que coloca a necessidade de neutralidade do pesquisador, uma pesquisa qualitativa enseja a melhor compreensão da realidade da educação, pois estando o/a pesquisador/a integrado ao ambiente estudado, será o principal responsável pela coleta e análise final dos resultados obtidos (id.ibid.) Neste estudo de natureza exploratória foi utilizado o método do estudo de caso, que segundo Gil (1994, p. 78) “é caracterizado pelo estudo profundo e exaustivo de um ou poucos objetos, de maneira que permita o seu amplo e detalhado conhecimento”. Para conhecer o objeto, nesta opção metodológica considerou-se o contexto das ações, comportamentos, percepções das pessoas pesquisadas. O estudo de caso não pretende que a realidade seja única e verdadeira, procura representar as diferentes perspectivas presentes na realidade investigada. 1.2.2 – Participantes O universo concreto pesquisado limitou-se a professores/as de duas escolas municipais de Ensino Fundamental de 1ª. a 4ª séries da cidade de Marabá - PA, situadas em bairros de periferia. Estas escolas atendem predominantemente crianças de camadas populares. Especificamente participaram da pesquisa treze professores/as das quatro séries iniciais do Ensino Fundamental. Como critério de escolha das escolas considerou-se: a clientela atendida pelas escolas constituída, em sua maioria, por crianças de camadas populares; os/as professores/as das escolas não morarem no bairro da escola. Além de ambas as escolas terem sido receptivas ao trabalho de investigação. - Características gerais das escolas e dos/as professores/as 16 As escolas onde trabalhavam os/as professores/as participantes da pesquisa situam-se em bairros de periferia de Marabá, em áreas onde a maioria dos aluno/as é proveniente de população de baixa renda. Os dados são do ano letivo de 2006 e referem-se aos aspectos físicos, da organização e funcionamento das escolas. As informações foram fornecidas pelas diretoras e coordenadoras pedagógicas das duas escolas. As escolas “A” e “B” funcionavam, no ano letivo de 2006, com 18 turmas de Ensino Fundamental Regular, em dois turnos, matutino e vespertino. As classes eram distribuídas em 4 turmas de 1º. ano do 1º. ciclo; 4 turmas de 2º. ano do 1º. Ciclo; 5 turmas de 3º. ano do 1º. Ciclo; 2 turmas de 1º. ano do 2º. Ciclo; e, 03 turmas de 2º. ano do 2º. Ciclo. O mínimo de 25 aluno/as por sala é determinado pela Secretaria Municipal de Educação, entretanto, a média de alunos por sala de aula era de 30 alunos/as. Em uma das escolas funcionavam classes de reintegração2, uma classe de alfabetização, e 2 turmas do PETI3 (Programa de Erradicação do Trabalho Infantil) no período diurno, e na outra escola classes de Educação de Jovens e Adultos no período noturno, modalidades de ensino não considerados neste estudo. A escola “A” teve um percentual de 6,97% de evasão e de 4,29% de repetência, e a escola “B”, percentual de 14,4% de evasão e 5,4% de repetência no ano letivo de 2006. Embora pareçam pequenos os percentuais de repetência nas escolas, o sistema de ciclos, adotado pela Secretaria Municipal de Educação de Marabá, não prevê retenção no 1º e 2º ano do 1º. Ciclo, e no 1º. Ano do 2º ciclo. A retenção é considerada quando os/as alunos/as não possuem o conhecimento mínimo necessário para cursar o ciclo seguinte, ocorrendo somente no 3º. ano do 1º. Ciclo e no 2º ano do 2º. Ciclo. Desta forma o percentual de repetência das escolas é calculado sobre o número total de alunos das escolas, mas refere-se somente às classes de 3º do 1º ciclo, e 2º ano do 2º ciclo, ou seja, apenas 06 turmas no total de 18 turmas somadas as duas escolas “A” e “B”. As escolas somavam 14 professores/as no Ensino Fundamental regular. Deste total apenas uma professora não possuía carga horária semanal de 40 2 Classe destinada aos/as alunos/as que ficaram retidos ao final de cada ciclo. O objetivo é ajudar os/as alunos/as a avançar em seus estudos e diminuir a defasagem idade-série. 3 Programa do Governo Federal, não é considerado na estatística da escola e não tem o mesmo caráter das classes regulares do ensino fundamental. 17 horas como professora regente em sala de aula. Somente uma professora não participou da pesquisa porque se afastou do trabalho por motivos de saúde no período da pesquisa, a professora substituta era novata na profissão e não conhecia os/as alunos/as da escola, concluiu-se que ela não teria muitas informações a acrescentar neste estudo. A maioria dos/as professores/as destas escolas utilizam transporte coletivo urbano para chegar à escola. Onze professores/as moram em bairros distantes da escola, um se locomove com uma moto até a escola, outra de bicicleta e os demais de ônibus. Três professores/as moram no bairro, ou nas proximidades da escola e o meio de locomoção usado era ônibus, bicicleta, ou a pé. O quadro de funcionários da escola é montado pela equipe da Secretaria Municipal de Educação. As diretoras informam e solicitam o preenchimento de vagas e a Secretaria de Educação envia o funcionário para fazer parte do quadro de pessoal da escola. Se houver disponibilidade de vagas e algum profissional desejar trocar de local de trabalho a lotação é permitida. A equipe pedagógica da escola não escolhe nem tampouco recusa quaisquer profissionais que são encaminhados ao seu quadro. Em 2006 as escolas liberavam os/as alunos/as de um turno de aula, uma vez por mês, para realizarem as reuniões pedagógicas. O chamado “Horário Pedagógico” (HP), consistia em reuniões dos/as professores/as com a coordenadora pedagógica para planejamento, orientação e acompanhamento do trabalho do/a professor/a. O quadro de professores/as era composto por professores concursados no serviço público municipal, com exceção de uma professora contratada como substituta. O quadro de funcionários das escolas era composto por 01 diretora; 1 coordenadora pedagógica; uma secretária e auxiliares de secretaria; e, agentes de serviços gerais. Todos os funcionários eram concursados. A escola “A” foi construída em 1996 e reformada em 2003. O prédio possui as seguintes dependências: duas salas de aula de madeira, quatro salas de aula de alvenaria, uma sala de leitura, uma sala para os professores, uma cozinha, um depósito, uma secretaria e uma diretoria, três banheiros – um para os professores e dois para os alunos. Uma área externa, pátio grande, arborizado e murado. São 18 dois blocos de sala de aula, dispostos de forma retangular, paralelos, ligados na extremidade pela secretaria e pela diretoria. A Escola “B” é construída em alvenaria, murada, coberta de telhas de barro, todas as dependências são forradas, porém necessitando de manutenção e reforma. De todas as dependências da escola somente uma sala foi recentemente construída, com tamanho adequado, as demais salas eram pequenas e pouco arejadas. Ao todo eram cinco salas de aula, sendo que uma era utilizada como sala dos/as professores/as. A cozinha era muito pequena, a secretaria e diretoria funcionavam em um cômodo muito pequeno e não havia depósito para a merenda escolar. Havia um banheiro feminino e outro masculino, ambos em precárias condições de funcionamento. 1.2.3 – Coleta dos dados A coleta de dados foi realizada com a utilização das técnicas de observação e entrevista semi-estruturada, assinalados como formas importantes de coleta de dados em pesquisas qualitativas por Ludke e André (1986). Do total de treze professores, oito foram observados em sala de aula. As observações antecederam as entrevistas para que as perguntas das entrevistas não influenciassem nas atitudes dos/as professores/as a serem observados/as. As observações das aulas, ministradas pelos/as professores/as, foram orientadas por um roteiro contendo questões visando obter informações que atendessem aos objetivos estabelecidos, e o registro foi feito através de anotações. As entrevistas semi-estruturadas foram realizadas individualmente com todos os/as professores/as participantes da pesquisa. As entrevistas foram realizadas seguindo-se um roteiro previamente elaborado, foram gravadas e transcritas. Com as entrevistas pretendeu-se evidenciar as percepções apresentadas pelos/as professores/as, complementar as informações obtidas por meio das observações, e ter elementos para analisar se as práticas pedagógicas desenvolvidas com os/as alunos/as correspondem com as informações dadas pelos/as professores/as durante as entrevistas. A limitação numérica do grupo participante da pesquisa não comprometeu os resultados porque pretendeu-se estudar as representações deste grupo e não generalizar a todos os/as professores/as da rede de ensino. Embora seja possível 19 utilizar os resultados como parâmetros para reflexão sobre as concepções de outros/as professores/as e as implicações destas concepções na prática pedagógica, não se pretende afirmar que todos/as os/as professores/as possuem as mesmas representações. 20 CAPÍTULO II REVISÃO DA LITERATURA 2.1 – Cultura O debate sobre multiculturalismo, sobre a convivência e a divergência de diversas culturas, nos remete à reflexão sobre cultura. Hall (1997), afirma que há, hoje, uma “centralidade da cultura”. Está-se diante de uma revolução cultural, a cultura penetra na vida cotidiana, algo fundamental que determina a forma e o caráter do movimento da vida cotidiana, tem um lugar central na formação de identidades. Hall (2003) relaciona as identidades culturais aos pertencimentos étnicos, raciais, lingüísticos, religiosos e nacionais. Entretanto, para Hall, as identidades, hoje, já não são fixas e estáveis, elas se interconectam e se fragmentam produzindo novas identidades culturais. Segundo Moreira e Candau (2003), há uma valorização da cultura no mundo atual, tanto que os pós-modernos chegam a considerar tudo como cultural. Candau (2002, p. 72), afirma que a cultura é “um estruturante profundo de todo grupo social”. A autora aduz que cultura é tudo que é produzido pelo ser humano e pode também ser entendida como um sistema de símbolos, como código, como sistema de comunicação. Em Faundez e Freire (1985, p. 34) cultura são todas as manifestações humanas do cotidiano. São nestas manifestações culturais “que se dá o essencial: o descobrimento da diferença”. Como complementa Candau (2002), dentro de uma mesma sociedade coexistem diversos grupos culturais que se hibridizam, interpenetram se diversificam nas diferenças e nas possibilidades de coexistências de diferenças culturais, por isso há a complexidade, heterogeneidade, historicidade e dinamicidade das culturas. A importância da consideração do “meio cultural”, do contexto cultural, no qual se desenvolve o processo educativo é referido nas preocupações de Paulo Freire. Para o autor o homem é sujeito de sua história, e a educação deve realizar-se pautada no conhecimento da realidade vivenciada pelos sujeitos a que 21 se referem e se destinam o processo de ensino e aprendizagem. Considera o educador que, Para ser válida, toda educação, toda ação educativa deve necessariamente estar precedida de uma reflexão sobre o homem e de uma análise do meio de vida concreto a quem queremos educar (ou melhor dito: a quem queremos ajudar a educar-se). Faltando uma tal reflexão sobre o homem, corre-se o risco de adotar métodos educativos e maneiras de atuar que reduzem o homem a condição de objeto. Assim, a vocação do homem é a de ser sujeito e não objeto. Pela ausência de uma análise do meio cultural, corre-se o perigo de realizar uma educação pré-fabricada, portanto, inoperante, que não está adaptada ao homem concreto a que se destina”. (FREIRE, p. 33) Santomé (2002) retoma a reflexão de Paulo Freire pelo fato premente da necessidade dos “conteúdos culturais” precisar serem inseridos numa escola que pretende-se cidadã e democrática. Cumpre, segundo Santomé, dar voz às culturas silenciadas no ensino escolar pela cultura dominante, as chamada “culturas negadas” e rejeitadas pela escola (culturas dos jovens, cultura popular, etnias minoritárias, mundo feminino, o mundo rural e litorâneo, entre outras). Para Mclaren (1997) o conceito de cultura é fundamental para qualquer “entendimento de pedagogia crítica”, embora seja importante frisar que “as pessoas não habitam culturas ou classes sociais”. Porém “vivem relações de classe ou de cultura, algumas das quais podem ser dominantes e outras subordinadas” (MCLAREN, 1997, p. 205). As questões culturais, continua o autor, possibilitam o reconhecimento de quem detém o poder, como este se reproduz e manifesta-se “nas relações sociais que ligam a escolarização à grande ordem social” (ibid idem). Pois, os indivíduos expressam suas culturas segundo relações de poder, dependendo do quanto o seu grupo é capaz de exercer poder na ordem social. Mclaren (1997) define cultura como “um conjunto de práticas, ideologias e valores dos quais diferentes grupos dispõem para darem sentido ao mundo” (em itálico no original). O autor salienta as três categorias conceituais de cultura: cultura dominante (cultura mãe), cultura subordinada e subcultura: Cultura dominante referem-se às práticas e representações sociais que afirmam valores, interesses e preocupações centrais da classe social que controla a riqueza material e simbólica da sociedade. Os grupos que vivem relações sociais em subordinação à cultura dominante fazem parte da cultura subordinada. O grupo da subcultura pode ser descrito como um subconjunto das duas culturas-mães (dominante e subordinada), (em itálico no original). (1997, p. 205) 22 Mclaren analisa o universo escolar estadunidense e desnuda as relações fundantes da desigualdade reproduzida nas escolas. Para tanto o autor utiliza o conceito de capital cultural, popularizado por Bordieu, onde capital cultural referese “à formulação cultural geral, conhecimento, disposição e habilidades que são passadas de geração em geração” (MCLAREN, 1997, p. 223, 224). Neste sentido aduz o autor que os estudantes da classe trabalhadora aprendem códigos lingüísticos restritos enquanto os da classe média usam códigos lingüísticos mais elaborados, sendo estes últimos mais valorizados pela escola. Em resumo a escola premia e privilegia o capital cultural dominante e desconfia, desvaloriza e reprime o capital cultural dos estudantes menos favorecidos. Contudo, as percepções conceituais e conclusivas sobre culturas e sua influência sobre o ensino escolar não se convergem. Alguns autores como Patto (1996) apresentam críticas às teorias e a autores que preconizam que o fracasso escolar de crianças provenientes de classes populares é conseqüência de a escola pública ter currículo elitista, baseado na cultura da classe média. A autora diverge das idéias daqueles que defendem que o professor deseja encontrar em sala de aula um/a aluno/a ideal, por isso não sabe como lidar com o/a aluno/a real, principalmente os/as provenientes de famílias pobres. Discorda também com outros que pressupõem que, por não serem os/as alunos/as parecidos/as com o ideal, os/as professores/as os/as discriminam por desconhecerem seus padrões culturais. Patto sedimenta seus questionamentos com base no grau de conhecimento dos pesquisadores sobre os padrões culturais das camadas populares. Para se afirmar que a escola tem um padrão diverso do padrão das crianças pobres deve-se conhecer profundamente os padrões destas crianças, pois, corre-se o risco de colocar, novamente, a responsabilidade da não aprendizagem na própria criança, como decorrência da cultura trazida pela criança de sua família, de seu meio sócio-econômico, assevera a pesquisadora. Mesmo que o/a professor/a busque conhecer mais o aluno das camadas populares por meio de produções científicas, esta busca não supre este “desconhecimento” porque, segundo afirma Patto, a produção científica também não revela um conhecimento profundo de padrões culturais das crianças provenientes de camadas populares. 23 As críticas apresentadas por Patto são pertinentes. Deve-se ter cuidados na utilização acrítica dos resultados de pesquisas que apontem a distância cultural entre a cultura da escola e a cultura das crianças e o conceito que os/as professores/as fazem destes alunos/as, como os responsáveis pelo fracasso escolar das crianças provenientes de camadas populares. Todavia, tais críticas, mais do que fazer que se deixe de utilizar este referencial teórico, é um alerta: nenhuma teoria é completa ou permite uma apreensão da realidade em toda a sua complexidade. São explicações possíveis e provisórias à espera de novas pesquisas, mais investigações para aprofundamento da discussão e proposição de abordagens teóricas explicativas mais completas. Em que pese as considerações da autora, considera-se que o currículo da escola oculta uma forma de preconceito em relação às culturas diversas à cultura da elite. É importante, pois, estabelecer de forma transparente a relação entre desigualdades no âmbito escolar e desigualdade sócio-econômica. Conforme Mclaren (1997): O capital cultural reflete o capital material e o substitui como uma forma de moeda simbólica que entra no sistema de trocas da escola. O capital cultural simboliza, portanto, uma força produtiva na reprodução de relações sociais sob o capitalismo. Sendo assim, o desempenho acadêmico não representa competência individual ou falta de capacidade dos estudantes desprivilegiados, mas depreciação da escola pelo seu capital cultural. O resultado final é que os credenciais acadêmicos da escola permanecem indissoluvelmente ligados a um sistema injusto de trocas do capital cultural, que é eventualmente transformado em capital econômico, pois estudantes da classe trabalhadora têm menores possibilidades de conseguir emprego com altos salários” (itálico no original) (Maclaren, 1997, p. 224). Portanto, é coerente concordar com as constatações vivenciadas, analisadas e defendias por Mclaren que aponta que o capital cultural parece ser um importante vetor da manifestação e medida do sistema de fracasso e sucesso, aprovação e reprovação, mérito e demérito, predominantes na escola. 2.2 - Multiculturalismo e Escola A globalização ao possibilitar o estabelecimento de contatos de diferentes culturas, ao deslocar fronteiras de mercado em dimensões globais, opera mudanças intensas nos costumes. Novos estilos de consumos são criados, 24 diminui-se a autonomia das tradições locais, a empresa cultural absorve e expropria particularidades étnicas e as massificam no mercado cultural, as inovações estéticas trocam os museus e livros pela mídia eletrônica, pelo entretenimento musical e pela moda (CANCLINI, 2006). Contudo, este implemento de mudanças traz seu reverso contraditório, ao segregar e produzir desigualdades estimula reações as mais diversas, dentre as quais, as reivindicações multiculturais que ganham cada vez mais espaço de debates. É neste contexto que as diferenças e identidades sociais dos grupos se evidenciam. Por exemplo, na evidência de reação de resistência diante da homogeneização, reações por direito à diferença. Semprini (1999, p. 40), identifica na sociedade americana – o que de certa forma é válido para análise destes aspectos da sociedade brasileira - as reivindicações multiculturais ou multiculturalismo como “o indicador de uma mudança social de grande importância” conseqüência da “perda de referenciais por parte de numerosos grupos sociais”. Para o autor, Enquanto aspiração a uma melhor e mais equilibrada consideração das diferenças, o multiculturalismo é a conseqüência de uma mistura social muito maior, do questionamento radical dos limites impostos, das fronteiras e divisões próprias da sociedade americana (1999, p. 40). Pode-se dizer que só recentemente, com as transformações impostas pela globalização, se impôs em pauta dos círculos acadêmicos da pesquisa educacional, de forma definitiva, os embates sobre as diferenças culturais e multiculturalismo na escola. Silva (1995, p. 7), fala em explosão de estudos culturais na produção científico-pedagógica da atualidade, Giroux (2002, p. 85), por outro lado, critica a falta de estudos culturais nas faculdades de educação e na reforma educacional. Para Candau, A perspectiva multicultural na abordagem da dinâmica pedagógica constitui uma preocupação recente a nível internacional. A origem desta corrente pedagógica pode ser situada aproximadamente há 40 anos, nos Estados Unidos, a partir de movimentos de pressão e reivindicação de minorias étnico-culturais, principalmente negras. Também entre nós vem crescendo, principalmente nos anos 80 e 90 uma nova consciência das diferentes culturas presentes no tecido social brasileiro e um forte questionamento do mito da “democracia racial” (2002, p. 09). Lidar com as diferenças implica lidar com relações de poder que se estabelecem na sociedade e se refletem na escola, portanto não prescindem de 25 forma alguma de uma abordagem com propósitos políticos, ou seja, circunscrevem uma escolha, uma opção segundo parâmetros de uma concepção de sociedade desejada. Uma “educação multicultural” não se concebe “separada dos contextos das lutas de grupos culturalmente dominados, que buscam modificar, por meio de suas ações, a lógica pela qual, na sociedade, os significados são atribuídos” (Canen, 2002, p. 21). Para Candau (2002) temas como multiculturalismo, globalização, manifestações culturais, exclusão social, etc., configuram os novos cenários presentes na sociedade contemporânea e, portanto, a educação não pode ignorar tal realidade, posto que os impactos destas mudanças no cotidiano escolar são evidentes. O contexto onde estes impactos se materializam é multicultural, heterogêneo. E cabe também à escola, evidencia Canen, responder a esta realidade cultural diversa, ou seja, contextualizar e “compreender a produção das diferenças” (2001, p. 21). Segundo Candau, considerada a dimensão multicultural da educação, alguns desafios se colocam, quais sejam: ...buscar modalidades de práticas pedagógicas que possibilitem a convergência de dois movimentos em curso e à primeira vista bastante contraditórios (...): de um lado, a afirmação de um processo de globalização, de mundialização tanto em termos econômicos como culturais de maneira cada vez mais irreversível; de outro, as explosões, no plano mundial, de movimentos identitários sejam eles de cunho nacionalista e/ou étnico-culturais. (2002, p. 25) Estas preocupações devem estar presentes se quisermos dar respostas a questões intrigantes, como: que tipo de cidadão a escola pretende formar? Que identidades reforçar e combater? Como lidar no cotidiano docente com a diversidade identitária? Como enfim, trabalhar as diversidades culturais num mundo em que cada vez mais elas se evidenciam e revela faces monoculturais hegemônicas do currículo e suas relações com a cultura e globalização, (CANEN, 2001). Contudo, antes de adentrarmos-nos no tema das diferenças culturais convém retroagirmos um pouco na compreensão do que vem a ser multiculturalismo. Para Santos (2004, p. 20), multiculturalismo passou de um termo que originariamente designava “a coexistência de formas culturais ou de grupos caracterizados por culturas diferentes no seio das sociedades ‘modernas’”, para se tornar “um modo de descrever as diferenças culturais num contexto 26 transnacional global”. No entanto, a definição e uso do conceito não são pacíficos, é um campo de constantes lutas políticas. Segundo Santos (2004, p. 25), o multiculturalismo baseia-se “no reconhecimento da diferença e no direito à diferença e da coexistência ou construção de uma vida em comum para além de diferenças de vários tipos”. O autor toma “multiculturalismo como um projeto” que designa as diferenças culturais, assumindo conteúdo e “direção emancipatória” que reconheça as diferenças e coexistência, assente no reconhecimento e construção da cidadania, na redução das desigualdades sociais e econômicas bem como preconiza a inclusão. Continua Santos, A idéia de movimento, de articulação de diferenças, de emergência de configurações culturais baseadas em contribuições de experiências e de histórias distintas tem levado a explorar as possibilidades emancipatórias do multiculturalismo, alimentando os debates e iniciativas sobre novas definições de direitos, de identidades, de justiça e de cidadania. (SANTOS, 2004, p. 25). Para Semprini (1999), a idéia de diferença, dos direitos das minorias e reconhecimento das identidades, está no cerne do multiculturalismo. Para o autor a diferença “é uma realidade concreta, um processo humano e social, que os homens empregam em suas práticas cotidianas e encontra-se inserida no processo histórico” (SEMPRINI, 1999, p. 11). Analisando os conflitos multiculturais na sociedade americana, o autor informa que o multiculturalismo coloca questões mais fundamentais a toda sociedade contemporânea as quais são frutos da crise da “modernidade”. Diferenças e identidades, igualdade e justiça, relativismo e universalismo, racionalismo e subjetividade, cidadania, ética, direito... estes termos nos são familiares. São as categorias mesmas do projeto moderno em seu conjunto que estão passando por uma crise. Mais que um desafio social e político, mais que um desafio teórico e filosófico, trata-se de um verdadeiro desafio de civilização que nos é lançado pelo multiculturalismo (1999, p. 173). Contudo, convém identificar a ruptura proposta pelo multiculturalismo na concepção aqui visitada. Para um importante segmento de pensadores atuais a compreensão do multiculturalismo implica identificar no legado do modernismo europeu nas ciências e na vida, a crítica da tradição eurocêntrica do conhecimento contemporâneo, ou uma crítica da visão cartesiana e newtoniana do mundo, enfim da ciência clássica ou moderna. 27 Estas visões herdeiras do cartesianismo, ou decorrentes de uma visão fragmentada do pensamento, reducionista, mecânica e linear também estão presentes na educação hodierna em todo o mundo. Para Moraes (1997, p. 22) “Parte da problemática educacional da atualidade decorre da visão de mundo cartesiana, do sistema de valores que lhe está subjacente, de correntes psicológicas que muito influenciam e que continuam influenciando a educação”. Já nos anos oitenta Capra (1981, p. 14), propunha uma visão ecológica do mundo, uma visão “holística da realidade” e uma percepção “sistêmica da vida” como pressuposto da quebra do paradigma clássico. Partindo destas premissas o eurocentrismo passa a ser objeto de profunda revisão e amplas discussões no que se refere às suas conseqüências para a humanidade atual. Daí novos construtos desdobrarem-se nas novas concepções em franca ruptura com os modelos eurocêntricos das ciências e construção de novos paradigmas. O multiculturalismo aqui enfocado presume a noção includente-plural e não binária-excludente que nega e obscurece o outro, só assim pode ser humanamente emancipatório. Nesta perspectiva emancipatória revisitada por Santos o multiculturalismo seria, em síntese, o reconhecimento da “diferença e da coexistência” necessárias a uma nova concepção de cidadania (SANTOS, 2004, p. 25). Para Santos (1999) o ocidentalismo eurocêntrico, numa obstinação pela homogeneização e universalismo de seus pressupostos hegemônicos, tem sufocado várias construções divergentes presentes na pluralidade de culturas humanas, bem como as tem relegado ao esquecimento e amordaçado as diferenças. A acentuação dos processos de globalização tem intensificado a padronização cultural enquanto que estrangula, exclui, coage e cancela manifestações culturais rivais. O multiculturalismo nasce de embates históricos entre grupos colonizadores e colonizados, entre povos culturalmente diferentes (GONÇALVES e SILVA, 2003). A hegemonia ocidentalizante prevalece por séculos de racionalismo iluminista e tem sido a base científica e ideológica de processos de dominação também chamados “civilizadores” do mundo “bárbaro” ou inferiorizado. 28 Esta concepção dualista também herdeira do maniqueísmo colonial, bárbaro/civilizado, tem se sustentado em muitas práticas sociais a despeito da crescente superação e emancipação de povos, etnias, raças, grupos e minorias sócio-política e economicamente excluídas. Há, neste tempo de globalização e mudanças intensas, um acirramento de diferenças imposto pelas trocas interculturais que se intensificam e expandem-se e que em maior ou menor grau denotam e desnudam as desigualdades, por um lado, mas também, propulsionam movimentos de impulsão à realização da igualdade com reconhecimento e respeito às diferenças, por outro. São instantes de tensão, os quais, segundo Santos (2004, p. 19), “estão no centro das lutas de movimentos e iniciativas emancipatórios”. No universo escolar estes problemas são evidentes. Embora o lugar investigado, neste trabalho, seja o âmbito de escalas locais, conflitos acerca de questões envolvendo cultura e classes populares, racismo, sexismo, discriminação, portadores de necessidades especiais, se manifestam e às vezes explodem violentamente. O multiculturalismo numa perspectiva emancipatória, neste universo de atuação escolar conflitivo que pretenda produzir a igualdade, deve atender ao interesse dos menos favorecidos e promover a participatividade, a não discriminação, a inclusão, enfim a emancipação humana. Porém, ainda não se pode considerar que esta perspectiva esteja presente nos currículos das escolas e nas práticas dos programas de formação docente (MOREIRA & CANDAU, 2003). 2.3 - Diversidade Cultural e Escola A universalização do acesso à escola permitiu às camadas sociais mais desfavorecidas econômica e socialmente da população acesso ao ensino fundamental. A partir de meados do século XX a escola básica brasileira começa a enfrentar um processo de aumento da demanda por vagas nas instituições de ensino básico. Para Romanelli (1997), o crescimento populacional acentuado, a partir da década de 30, e a saída da população da zona rural para as zonas urbanas iniciaram o processo de concentração populacional nas zonas urbanas 29 brasileiras. Fatores que contribuíram fortemente para o aumento da demanda por vagas na escola brasileira, que por sua vez, provocou um contínuo aumento da oferta. Ao final da década de 90 o Ensino Fundamental brasileiro é considerado universalizado à população com idade entre 7 e 14 anos (idade prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira 9394/96 como obrigação do Estado em garantir o direito ao ensino gratuito). Entretanto, o crescente aumento da presença da população de camadas populares na escola não foi acompanhado de mudanças na estrutura organizacional, do modelo de ensino e de escola até então vigentes, esta continuou baseada em um modelo de escola para uma minoria, segundo Mello (2004). A universalização do acesso à escola garantiu o direito de acesso à escolarização. Entretanto, a manutenção do currículo elaborado para um grupo homogêneo, de elite, tornou-se fator de desigualdade e de fracasso para os/as alunos/as de camadas populares. A cultura escolar histórica e tradicionalmente preparada para a educação das elites, baseia-se em um currículo hegemônico, que nas palavras de Connell é... historicamente derivado das práticas educacionais de homens europeus de classe alta. Ele tornou-se dominante nos sistemas de educação de massa durante os últimos cento e cinqüenta anos, na medida em que os representantes políticos dos poderosos conseguiram marginalizar outras experiências e outras formas de organizar o conhecimento. (2005, p. 28). Com a universalização do acesso ao ensino, e conseqüente aumento da heterogeneidade dentro das escolas, aliado a manutenção de um currículo elitista, os/as alunos/as provenientes das camadas desfavorecidas da população chegam à escola, entretanto não apresentam o mesmo desempenho escolar que os/as alunos/as provenientes de famílias de elite. Connell (2005), a partir da educação estadunidense, diagnostica que os sistemas educacionais modernos causaram o fracasso escolar das crianças pobres e que mesmo diante do “acesso igualitário” o fracasso persiste em todas as partes do mundo. Para Bourdieu (2005), é necessário evidenciar os fatores causadores do fracasso das crianças provenientes de camadas populares. Para este autor o fracasso escolar destas crianças está associado às estratégias, valores e 30 disposições promovidos principalmente pela família, pelo capital cultural das crianças ao ingressarem na escola. Ao chegar à escola as crianças provenientes de famílias populares enfrenta dificuldades em suas experiências escolares decorrentes de possuírem “maneiras de falar, atuar e socializar-se, assim como práticas de linguagem, valores e estilos de vestuário e comportamento” (MCLAREN, 1997, p. 223) diferentes dos valorizados pela escola. Há um comprometimento da escola em transmitir a cultura aristocrática, uma desvalorização dos conhecimentos e saberes considerados técnicos em favor dos saberes intelectuais. O/a aluno/a proveniente de famílias populares dependem mais da escola para adquirir os conhecimentos por ela valorizados e transmitidos, do que os/as alunos/as vindos de famílias de elite. Segundo Bourdieu (2005, p. 55), A cultura da elite é tão próxima da cultura escolar que as crianças originárias de um meio pequeno burguês (ou, a fortiori, camponês e operários) não podem adquirir, senão penosamente, o que é herdado pelos filhos das classes cultivadas. Desconsiderando as diferenças de capital cultural, tratando todas os/as alunos/as como iguais em direitos e deveres, e dedicando tratamento pedagógico idêntico na transmissão dos conteúdos e na avaliação dos/as alunos/as, a escola mantém as desigualdades iniciais e reforça o discurso do dom. Justifica-se, desta forma, as diferenciações no rendimento escolar entre alunos/as provenientes de meios sociais e culturais diversos. Com efeito, para que sejam favorecidos os mais favorecidos e desfavorecidos os mais desfavorecidos, é necessário e suficiente que a escola ignore, no âmbito dos conteúdos do ensino que transmite, dos métodos e técnicas de transmissão e dos critérios de avaliação, as desigualdades culturais entre as crianças das diferentes classes sociais. Em outras palavras, tratando todos os educandos, por mais desiguais que sejam eles de fato, como iguais em direitos e deveres, o sistema escolar é levado a dar sua sanção às desigualdades iniciais diante da cultura. (BOURDIEU, 2005, p. 53) Considerar a heterogeneidade significa pensar nos hábitos, costumes e saberes diferenciados que os/as alunos/as trazem de sua vivência cotidiana. Significa pensar em como trabalhar com a diferença entre os/as alunos/as, sem torná-la elemento de desigualdade que favorece apenas uma parcela dos/as alunos/as, como na afirmação de Sacristan (2002, p. 14), Todas as desigualdades são diversidades, embora nem toda a diversidade pressuponha desigualdade. Por isso, devemos estar muito atentos para que, em 31 nome da diversificação, não estejamos contribuindo para manter ou provocar a desigualdade. As políticas e as práticas a favor da igualdade podem anular a diversidade; as práticas que estimulam a diversidade talvez consigam em certos casos manter, mascarar e fomentar algumas desigualdades. Diferente da escola do passado que surgiu como a instituição responsável em transmitir “a cultura” produzida pela humanidade, condizente com o ideário moderno que privilegiava uma visão monocultural. Com a crescente heterogeneidade presente na escola, ela passa agora ou deveria passar a ser um local privilegiado de diversos entrelaces, “cruzamentos, conflitos e diálogos de diferentes culturas”, ou seja, lidar com a “pluralidade de culturas”, como argumentam Moreira e Candau (2003, p. 160). Traduzida para a realidade educacional, a diversidade cultural pode ser considerada, em síntese, a diversidade de culturas presentes no universo da escola (MOREIRA & CANDAU, 2003). Dentro do ambiente escolar significa considerar as diversas experiências de vida dos/as educandos/as, como participantes de culturas diferenciadas em sua condição de crianças, pobres, negros, brancos, mestiços, trabalhadores, mulheres, homens. Expoentes da pesquisa educacional tentam explicitar esta diversidade cultural inegável, onde as diferenças reivindicam conflitiva e incessantemente o reconhecimento frente a certos preceitos considerados gerais e universais. Em outras palavras, um dos debates mais instigantes hoje, no universo escolar, refere-se aos embates entre teses universalistas e o relativismo das culturas. Para Forquin (1993), o conteúdo que se transmite na educação formal tem sempre uma contingência cultural, ou “algo da cultura, elementos da cultura, entre os quais não há forçosamente homogeneidade” (1993, p. 15). Em síntese, para o autor, a cultura - quando tratamos de transmissão da cultura pela educação significa “um patrimônio de conhecimentos e competências, de instituições, de valores, de símbolos, constituído ao longo de gerações e característico de uma comunidade humana particular, definida de modo mais ou menos exclusivo” (1993, p. 12). Como bem coletivo, obra coletiva, tal patrimônio, aduz Forquin, é distinto de cultura no sentido subjetivo, ou seja não é “monopólio do ´homem cultivado´” (1993. p. 12). Esta é a denotação universalista da acepção de cultura, ou patrimônio coletivo de conhecimentos, defendida por Forquin. Para ele este “patrimônio” é, 32 produto de um processo perpétuo de mutação e decantação, sendo suporte de memória e obra de memória, e revestido de uma conotação sagrada (objeto por vezes de admiração, sempre de respeito), ele se distingue da cultura no sentido descritivo e científico, do qual, no entanto, permanece inseparável. Mas a cultura assim compreendida, como herança coletiva, patrimônio intelectual e espiritual, pode deixar-se encerrar completamente dentro de fronteiras das nações ou dos limites das comunidades particulares? Ao lado da ênfase pluralista e diferencialista, até mesmo nacionalista da palavra cultura (...) devese conceder um espaço, no vocabulário atual da educação, à noção universalista e unitária de “cultura humana’, isto é, à idéia de que o essencial daquilo que a educação transmite (...) por toda a parte, transcende necessariamente as fronteiras entre grupos humanos e os particularismos mentais e advém de uma memória comum e de um destino comum de toda a humanidade (1993, p. 12). É fato que a compreensão dos processos e práticas educativas não prescinde do reconhecimento de que alunos/as de diferentes meios sociais são portadores de certas características culturais que irão influenciar suas respostas às exigências da escola e que a compreensão das práticas educacionais supõe a consideração também das características culturais dos próprios professores (FORQUIN, 1993). Mas a escola moderna, afirma, é “uma instituição universalista por excelência”, a cultura escolar é dotada de generalidade, portanto cabe a ela “transmitir saberes públicos”, controlados, selecionados de acesso geral a todos, independente de particularismos (FORQUIN, 2000, p. 07). Há, segundo Forquin uma tensão permanente entre cultura escolar (conteúdos universais) e “demandas da vida” (demanda cultural subjetiva). Há na prática pedagógica uma possibilidade de tratarmos algumas disciplinas com conteúdos particulares, locais, porém, esta característica não pode cair no relativismo extremo de negar o universalismo de outros campos de conhecimentos (ciências universais), ou mesmo os conteúdos culturais (relativos) se sobreporem de modo privilegiado sobre conteúdos universais (transcendentais). Não há, para o autor, como educar sem extrair elementos da totalidade da cultura. “Educar, ensinar, é colocar alguém em presença de certos elementos da cultura a fim de que ele deles se nutra, que ele os incorpore à sua substância, que ele construa sua identidade intelectual e pessoal em função” (FORQUIN, 1993, p.168) desses elementos culturais. Para alcançar este objetivo o ensino formal é forçado a selecionar e discriminar preferencialmente conteúdos, uma vez que o ensino não prescinde de “uma concepção seletiva e normativa de cultura”. A 33 educação, lembra Forquin, repousa “sobre um princípio de preferência e discriminação”. Neste sentido o autor critica a tese de que as desigualdades escolares decorrem da “seleção cultural” do conteúdo transmitido pela escola. Uma reflexão de maior alcance sobre os conteúdos e os cursos, conduz, antes, a sublinhar, de um lado, a especificidade relativa da cultura escolar como cultura didatizada, objeto e apoio das aprendizagens sistemáticas com finalidade formadora; de outro lado, a inscrição desta cultura num horizonte de racionalidade e de universalidade que transcende os interesses momentâneos, as tradições específicas e as postulações arbitrárias de grupos sociais (ou nacionais) particulares (FORQUIN, 1993, p. 172). Forquin conclui que sempre há aquisições essenciais da cultura humana que merecem e podem ser comunicadas a todos. Para ele, tanto quanto para Bourdieu (2005), o papel da educação, seja a educação ampla como a restrita ao domínio escolar, é o de transmitir cultura, não de uma única cultura ou de culturas, mas sim elementos de cultura selecionados pela sociedade para serem transmitidos às novas gerações. Pois que a educação tem a responsabilidade de “[...] transmitir e perpetuar a experiência humana considerada como cultura” (FORQUIN,1993, p. 13). Resta saber, inquirirão Silva (2000) e Candau (2000), quem é legitimado a selecionar estes conteúdos. Os elementos de cultura que a educação escolar deve transmitir, de acordo com Forquin (1993), não se restringem a uma reprodução pura e simples da cultura dominante, ou a expressão dos interesses de um grupo que exerça pressão ou maior influência na escola, mesmo afirmando que ela se constitui a partir de “(...) conflitos e em função de dinâmicas sociais claramente identificáveis” (1993, p. 17), a cultura escolar não pode ser tratada como reflexo de uma cultura específica. Antecipando-se as críticas de sua defesa universalista, Forquin (1993) assevera que não há evidências empíricas nem teóricas que provem que a cultura transmitida na escola seja a cultura de um determinado grupo dominante e que os grupos desfavorecidos fracassem na escola por não participarem de uma cultura próxima à transmitida pela escola. Contrários às afirmações de Forquin, autores como Mclaren (1997), Giroux (1997), Silva (2000), Candau (2000), acreditam que o sistema educacional seleciona elementos de uma cultura. Elementos que não correspondem a 34 qualquer cultura, a cultura de qualquer grupo. Corresponde à cultura da classe média alta, branca, ocidental. Não seria, pois, a seleção objetiva e neutra de elementos de uma cultura superior que devessem ser perpetuados para as novas gerações. Para estes autores não há como justificar a superioridade de um conhecimento sobre os outros, de uma cultura sobre as outras. Silva (2000) critica a argumentação de Forquin em favor da cultura considerada universal, com o ensino escolar baseado em saberes universalizantes gerais, organizados e integradores. Silva perquire a possibilidade de se definir o que é imprescindível, e mais, quem definirá o que é fundamental que todos saibam e o que é incontestável em uma cultura? Para Silva, a considerar as prelações de Forquin, ... são universais os valores, os critérios, os saberes daquele que enuncia, daquele que pronuncia o universalismo. É universal aquilo que eu, em posição enunciativa de poder que me permite fazer isso, declaro como universal. Em suma, a questão do universalismo/relativismo não é uma questão epistemológica, mas uma questão política” (SILVA, 2000, p. 05) Sua crítica, em síntese, procura elucidar que o universalismo escamoteia uma relação de poder. Os universais são produtores da diferença e acima de sua posição universalmente válida particularizam (relativizam) o outro. Mesmo que sobre seu patamar de tolerância o universal é sempre superior e generalizante. Ou seja, nas palavras de Silva, o universalista acusa, aponta o outro como relativista (relativo). Candau faz coro às críticas ao universalismo defendido por Forquin. Embora Candau e Silva reconheçam a tentativa de Forquin em entrever complementaridade entre relativismo cultural e universalismo das ciências, para Silva, em Forquin, os conteúdos culturais (relativos) estariam subordinados às universalidades das ciências. Candau inquire quem e quais os critérios de seleção dos saberes universais: “Não será que o que muitas vezes consideramos “universal” constitui a universalização de saberes particulares, construídos a partir de bases etnocêntricas que se consideram portadoras de universalidade?” (2000, p. 02,). Enfim a proposta relativista-cultural de Forquin não responde, para Moreira e Candau, aos desafios da escola moderna. Para Candau é necessário reinventar a escola diante dos desafios da modernidade e enfrentar a tensão dialética posta 35 entre “universalismo e relativismo, igualdade e diferença” numa perspectiva de um universalismo relativizado por ser histórico e dinâmico e de outro lado por um relativismo relativizado por não ser absoluto, por ter conteúdos transculturais, conteúdos estes frutos de construção histórica humana (CANDAU, 2000, p. 03). 2. 4 - Currículo e Diversidade Cultural Atualmente discute-se muito sobre a necessidade da escola desenvolver um currículo multicultural, pois, é através do currículo em ação que as interrelações entre a cultura dos alunos e a cultura da escola acontecem. A concepção de currículo aqui enfocada compreende currículo em acepções de uma pedagogia crítica. Giroux (1993) considera as possibilidades emancipatórias do currículo dentro de um ambiente escolar onde política e cultura têm espaços de confronto nos quais as experiências e subjetividades são produzidas e contestadas. Dar lugar às vivências do/a aluno/a, lembra Moreira (2001, p.12), consiste em situar o currículo como um conjunto de “conhecimentos, métodos, relações sociais e valores” e pressupõe ainda criar “condições, na prática curricular, que propiciem fortalecimento do poder do/a professor/a” com vistas à construção de um “intelectual transformador/a”. Como salienta o autor, compreender o currículo como parte de uma luta mais ampla entre discursos dominantes e subordinados (...) tem implicações práticas para o modo pelo qual os/as professoras/as acolhem as experiências e as vozes dos estudantes. Como destacam Giroux e Simon (apud GIROUX e MCLAREN, 2001, p. 146), a prática pedagógica deve ser um espaço de encontro entre professores/as e alunos/as “para a discussão mútua da diferença” cujas formas “não exijam silenciamento de uma multiplicidade de vozes por um único discurso dominante”. O conceito de currículo, em Sacristan (2001, p. 86, 87), extrapola as declarações de “áreas e temas” para ser “a soma de todo tipo de aprendizagens e de ausências que os alunos obtêm como conseqüência de estarem escolarizados”, ou seja, um currículo que efetivamente dá voz e não silencia os/as educandos/as. 36 O currículo pode ser apresentado como a “cultura real”, isto é, “a cultura da sala de aula” que se desdobra em: processos de ensino, tarefas acadêmicas reais, relações dos grupos, o uso de materiais, a avaliação, tarefas acadêmicas reais, o vínculo da vida interna letiva e os conteúdos com a vida do mundo externo. Todos estes aspectos irão determinar - conforme as transformações ou manutenção - a constituição da realidade, mudando-a ou mantendo-a tal como está (Sacristan, 2001, p. 86). De acordo com Sacristan o “currículo multicultural” situa-se dentro de uma questão mais ampla que é a necessidade de construção de uma “educação multicultural” (2001, p. 82). Eis, segundo o autor, um dos problemas da escola: sua capacidade de “acolher a diversidade” num instante em que os padrões escolares priorizam a homogeneização. Portanto, o “currículo multicultural exige um contexto democrático de decisões sobre conteúdos de ensino” que preserve e garanta os interesses de todos e que sejam efetivamente representados e não, tão somente, compensados pontualmente como figurantes nas intenções didáticas. O “Currículo Multicultural”, conclui Sacristan, “é coerente com os valores de uma sociedade democrática que respeite o pluralismo”. Para ser realmente um currículo que respeite as diversas culturas, todos os procedimentos de sua elaboração devem ser de fato democráticos. Para o autor o “debate curricular na sociedade democrática tem que ser um grande debate sobre opções culturais” (2001, p. 112). Mas, lembra Sacristan, não basta introduzir no currículo ou nos livros didáticos uma “perspectiva multicultural”. O “currículo real” deve buscar, analisar a linguagem dos professores, os exemplos que utilizam, sua atitudes para com as minorias culturais, as relações sociais entre os alunos, as formas de agrupá-los, as práticas de jogo e brinquedo fora da sala de aula, os estereótipos que são transmitidos através dos livros, aquilo que é exigido na avaliação (2001, p. 87). A finalidade do currículo, assinala Santomé (2002), é preparar os/as educandos/as para serem cidadãos/ãs, críticos/as, ativos/as, solidários/as e democráticos/as e para tanto devem ater-se aos “conteúdos culturais” para não olvidar-se das culturas esquecidas ou silenciadas no currículo, as culturas negadas (grupos étnicos tradicionais, culturas infantis, juvenis e da terceira idade, minorias, mundo feminino, gays, pobres e trabalhadores, população rural e 37 litorânea, portadores de necessidades especiais). O autor afirma que os “conteúdos culturais se referem ao conhecimento, destrezas e habilidades que as pessoas usam para construir e interpretar a vida social” para a construção de uma “pedagogia antimarginalização” que leve em conta “as dimensões éticas dos conhecimentos e das relações sociais” para que “palavras como poder, justiça, igualdade, luta, direitos” não redundem em discursos distantes da realidade cotidiana das comunidades (SANTOMÉ, 2002, p. 176). Contudo, a tendência de uniformização da vida, segundo os padrões da cultura dominante, ecoa, se reproduz e se reforça na escola, o que enfraquece as possibilidades de diversificação presente nas “culturas populares”, e inclinam a escola para tendências monoculturais (GRIGNON, 2002, p. 180). Por conseguinte, é “necessária uma pedagogia relativista capaz de admitir e de reconhecer o multiculturalismo, isto é, a existência de culturas diferentes da cultura culta, legítima ou dominante” (GRIGNON, 2002, p. 186). O reconhecimento e legitimação das diversas culturas presentes em nossa sociedade e, portanto, no interior da escola, o convívio e a validação da riqueza proporcionada pela diversidade cultural, o questionamento ao predomínio da cultura dominante no âmbito do currículo escolar, exige o desvelamento do currículo oculto. Segundo Mclaren (1997), o currículo oculto pode ser compreendido como resultados e conseqüências não planejadas, sem intencionalidade definida do processo de escolarização. O autor refere-se a todas as experiências vividas no ambiente escolar que trazem implicações na formação do educando. Os educadores críticos reconhecem que as escolas modelam os estudantes através de situações de aprendizado padronizado, e através de outras agendas, incluindo regras de conduta, organização de sala de aula e procedimentos pedagógicos informais usados por professores com grupos específicos de estudantes. O currículo oculto também inclui estilos de ensino e aprendizado enfatizados na sala de aula, as mensagens transmitidas ao estudante pelo ambiente físico e instrucional como um todo, estruturas de liderança, expectativas do professor e procedimentos de avaliação” (p. 216). A manutenção de um currículo homogeneizador na escola, nem sempre é intencional, planejado. A experiência educacional dos/as alunos/as está repleta de situações que corroboram e contribuem para a manutenção de um currículo elitista e de desvalorização dos saberes e práticas de alunos provenientes de camadas populares, mesmo não intencionais. Os professores/as perpetuam 38 práticas escolares, propostas metodológicas e relação professor/a e alunos/as, sem consciência de quais comportamentos e conhecimentos está-se construindo/defendendo. Afirmações como as de Grignon (2002), apresentadas anteriormente, que a escola tende a reproduzir os padrões da cultura dominante, decorrem em grande medida de situações vivenciadas no ambiente escolar, inconscientes, irrefletidas e, por vezes, contrárias aos objetivos defendidos explicitamente e propugnados pela escola e pelos/as professores. Assumir que o currículo dominante nos sistemas de educação é elitista não significa afirmar que a relação dos sujeitos envolvidos com o processo educacional, professores/as, alunos/as, diretores/as, coordenadores/as pedagógicos, seja passivo. Ao contrário há sinais de resistência e de conflitos vivenciados dentro das instituições escolares (MOREIRA, 2002). Como afirma Paulo Freire, “Esta é uma das significativas vantagens dos seres humanos – a de se terem tornado capazes de ir mais além de seus condicionantes. Isto não significa, porém, que nos seja indiferente ser um educador ‘bancário’ ou um educador ‘problematizador’.” (1998, p. 28) 2. 5 - Formação do/a Professor/a e Diversidade Cultural Para atender às novas demandas da sociedade atual em relação à função da escola e do/a professor/a, Perrenoud (2001, p.11), afirma que o papel do/a professor/a deve necessariamente evoluir “para responder aos desafios sem precedentes das transformações necessárias dos sistemas educacionais”. Para Libâneo (2004), a escola atual continua responsável pelo ensino dos conteúdos escolares, pelo desenvolvimento do sujeito autônomo, crítico, criativo e com sólida formação moral. Porém, hoje, alia-se a essas responsabilidades a formação de um sujeito com maior competência reflexiva, que saiba se posicionar criticamente frente às mídias e multimídias, utilizar os conhecimentos adquiridos na escola e em outros contextos sociais, ter capacidade de diálogo, reconhecer e saber conviver com as diferenças, defender o meio ambiente e ser solidário. Embora o papel do/a professor/a esteja sendo ampliado consideravelmente, a relação entre o desempenho esperado do professor e as condições de formação e trabalho proporcionados a este profissional requer uma 39 profunda reflexão. Nóvoa (1999) aponta uma relação paradoxal entre a responsabilidade e expectativa depositadas no desempenho do professor e a desvalorização social e econômica que a função docente sofre. Por um lado, os professores são olhados com desconfiança, acusados de serem profissionais medíocres e de terem uma formação deficiente; por outro lado, são bombardeados com uma retórica cada vez mais abundante que os considera elementos essenciais para a melhoria da qualidade do ensino e para o progresso social e cultural (NÓVOA, 1999, p. 3). Sob os efeitos deste paradoxo de expectativas em que, ora é classificado como elemento essencial para a transformação do ensino e contribuição para o progresso social, e ora profissional incompetente, desqualificado, situa-se o/a professor/a. sofrendo as análises, estudos e políticas que se dizem voltadas para a melhoria de sua qualificação e preocupadas em restabelecer o respeito social que a profissão de professor teve no passado. Para Nóvoa (1999) tem havido um excesso de discurso em relação à valorização do/a professor/a. Entretanto, o que se presencia é um investimento maciço na realização de programas de formação de professores como mercado, uma fonte de lucros. Um movimento de “deslegitimição” dos saberes dos/as professores/as, ou da possibilidade de virem a ser produtores/as de saberes, em prol da legitimação do saber produzido por pesquisadores/as da área educacional ou áreas afins. Segundo o autor, tem-se acentuado a dependência dos/as professores/as diante de decisões do poder público, de instituições privadas e universitárias. Dificultando o fortalecimento da constituição de um coletivo de professores, onde os professores dividam suas angústias, fracassos, sucessos, idéias, experiências entre seus pares, e constituam uma relação de trabalho pautada na colaboração mútua. Mclaren (1997) ratifica as preocupações apresentadas anteriormente, afirmando que as propostas curriculares elaboradas sem a participação do/a professor/a, subtrai deste sujeito o poder de decisão, limita-o à condição de técnico, executor de metodologias planejadas por especialistas. Para o autor, não é raro que os/as especialistas incumbidos de planejar as propostas curriculares desconheçam a realidade e a variedade cultural daqueles a quem se destina o ensino por eles planejado. 40 É necessário o resgate do valor social da profissão docente aliado a políticas educativas definidas coerentemente. A valorização do/a professor/a passa, necessariamente, pela redescoberta, pelos professores, de “uma identidade colectiva” (NÓVOA, 1999, p. 7) e de investimento na formação. A formação de professores deve “...encontrar processos que valorizem a sistematização dos saberes próprios, a capacidade para transformar a experiência em conhecimento e a formalização de um saber profissional de referência” (NÓVOA, 1999, p. 8). A construção de práticas pedagógicas inovadoras deve ser objeto de reflexão sobre a experiência do/a professor/a partilhada com outros, formando uma cultura de colaboração e cooperação entre os/as professores/as. Como muitos profissionais que pesquisam a formação docente, Mello (2004), defende que a preparação profissional do/a professor/a, seja inicial ou continuada deve ser componente essencial “de uma estratégia mais ampla de profissionalização” (2004, p. 97), e tem papel crucial no desenvolvimento de competências para atuar no novo cenário de aprendizagem da sociedade atual diante da “insuficiência dos modelos tradicionais” (2004, p. 104). Os novos tempos impõem a construção de novas competências ao/à professor/a as quais ressaltam o “caráter reflexivo” de sua atividade, e o aspecto da “pesquisa no ofício docente” (MELLO, 2004, p. 98). Mas, para que isto aconteça é preciso injetar transformações nos sistemas de formação de professores/as. A autora, com base em pesquisas recentes sobre a política de formação de professores na América Latina, ressalta que a deficiência do ensino no continente aponta para a “falta de capacitação e a ausência de incentivos capazes de fortalecer e profissionalizar o ofício docente” (2004, p.100). Mello corrobora as críticas feitas por Nóvoa quanto a formação dos/as professores/as, e sintetiza um diagnóstico da situação da formação inicial e continuada: Além de curtos, inadequados e de má qualidade, os programas de formação, vigentes (...) caracterizam-se por baixo prestígio, o corpo docente mal capacitado e currículo que dá demasiada ênfase a aspectos teóricos, pouca atenção à dimensão da prática pedagógica e ao desenvolvimento de recursos apropriados ao trabalho com alunos desfavorecidos (MELLO, 2004, p. 101). Outros problemas apontados indicam a desconexão dos programas de formação com as exigências escolares da sociedade hodierna, a deterioração do 41 trabalho do/a professor/a, a falta de motivação e de participação na gestão educativa. No entanto, com base em pesquisas descritivas desenvolvidas nos últimos anos sobre formação, Mello (2004), ressalta alguns fatores relevantes para a boa qualidade da formação docente, os quais são: a formação universitária do/a professor/a é necessária, mas não suficiente para garantir qualidade na educação. Há necessidade de articular teoria e prática. O conteúdo prático deve ser relevante para a formação, por isso deve haver uma vinculação entre a instituição formadora e a escola. É necessário articular formação inicial e formação em serviço, e estabelecer coerência entre formação e exercício. É necessária a reconstrução do conceito de “qualidade da educação”. E, é necessário haver associação entre conteúdo, suas didáticas, os fundamentos da educação e a realidade escolar. Enfim, a formação deve preparar o professor para ser “um profissional reflexivo e investigativo, com domínio teórico e preparo suficiente para analisar e tomar decisões no âmbito de sua prática com autonomia e competência” (2004, p. 109). Portanto, para a “construção de um novo paradigma de formação docente” (2004, p. 109), salienta Mello, é preciso implementar novas políticas de formação com base no imenso e qualitativo acervo de pesquisas e conhecimentos acumulados na área. É preciso clareza quanto ao papel da escola e do/a educador/a no mundo atual. As instituições devem sofrer transformações internas que impliquem garantir aos futuros docentes uma sólida formação e a coerência entre metodologias dos cursos de formação com o futuro exercício da profissão. A política formadora deve “conciliar demandas sociais e os vários graus de autonomia acadêmica” (2004, p. 112). Para Mello deve-se, também, superar a dicotomia entre professores/as polivalentes e especialistas. Deve-se favorecer a atuação crítica, inovadora, investigativa, auto-gestora do/a professor/a para que ele seja reflexivo sobre sua prática e “seja protagonista na implementação de políticas educacionais, os programas de formação devem não somente oferecer sólida formação teórica”, mas “estimular uma atitude simultaneamente critica, atuante, inovadora e investigativa em relação à atividade educacional” (2004, p. 112). Indo além dos apontamentos feitos por Mello, o pesquisador Giroux (1997), inspirado em Gramsci, defende que o/a professor/a deve ser um intelectual, a 42 reflexão sobre a prática pedagógica é importante, porém insuficiente, o professor precisa tornar-se um intelectual crítico. Para o autor um professor críticointelectual relaciona-se com os problemas da experiência da vida diária. Deve desenvolver a compreensão das circunstâncias em que ocorre o ensino, como também, junto com o/a aluno/a, desenvolver condições básicas para a realização da crítica e a transformação das práticas sociais que se formam no contexto social no qual a escola está inserida. O intelectual crítico deve ser participativo do esforço para revelar a origem histórica do que se mostra natural e demonstrar esforço para descobrir valores dominantes. Deve preocupar-se com a potencialização de sua prática na busca da transformação de aspectos sociais organizacionais e institucionais do seu meio de atuação. A autonomia como emancipação supõe um processo de descoberta e transformação. Segundo Contreras (2002), o professor autônomo é aquele que continuamente revê sua prática e a transforma a partir da percepção da diferença entre sua prática cotidiana, as aspirações sociais e educacionais. A autonomia pressupõe “um processo contínuo de compreensão dos fatores que dificultam não só a transformação das condições sociais e institucionais do ensino, como também de nossa própria consciência” (2002, p.185). É fundamental que a formação, tanto inicial como continuada, oportunize ao/a professor/a refletir sobre suas representações. Como nas palavras de Casassus: A qualidade da aprendizagem dos alunos é em grande parte influenciada pela qualidade dos processos que ocorrem na sala de aula, e a qualidade dos processos de aula passa pela compreensão que os docentes têm do que lá ocorre (2002, p. 115). Portanto, analisar as representações e expectativas que os/as professores/as fazem de seus alunos/as; refletir sobre as metodologias, quanto à adequação para trabalhar com todos os/as alunos/as; considerar as diferenças individuais e sociais, presentes no espaço escolar, sem tornar a diferenciação elemento de desigualdade; aprender a considerar a vida dos/as alunos/as fora da escola, as experiências trazidas do contexto familiar, ao planejar a prática pedagógica; e, pensar o papel da família e o do/a professor/a no ensino formal 43 dos/as alunos/as, são importantes para o processo pedagógico e devem ser aspectos considerados no processo de formação dos/as professores/as. 2. 6 – Relações na Escola A relação entre os/as alunos/as provenientes de camadas populares e a escola não tem sido uma ralação harmônica. O desempenho, ou melhor, o mau desempenho escolar de crianças de origem social desfavorecida vem ao longo dos últimos anos sendo alvo de estudos e análises. Explicações como aquelas afetas à incapacidade da própria criança em aprender, denominadas teorias do deficit, e as teorias de carência cultural, dentre outras, foram e ainda são apresentadas como respostas explicativas para o desempenho dos/as alunos/as. Patto (1996) em estudo sobre o fracasso escolar revisa as teorias elaboradas sobre as causas e as tentativas de justificar e esclarecer este fenômeno de fracasso escolar de crianças pobres. Os estudos realizados em meados do século passado sobre as causas do fracasso escolar de crianças pobres e/ou pertencentes a minorias étnicas apontavam que estas crianças seriam portadoras de um déficit. Estas crianças chegariam à escola em desvantagens em relação a outras crianças pertencentes aos meios favorecidos. Isto porque o meio familiar empobrecido impossibilitaria o desenvolvimento de habilidades mínimas necessárias para a aprendizagem. As explicações vinculadas ao déficit das crianças carentes conferiam variadas deficiências às crianças. Estas deficiências seriam decorrentes do fato delas participarem de um ambiente desfavorável para o seu desenvolvimento. Problemas como desnutrição e saúde precária, desinteresse dos pais pela educação dos filhos, problemas familiares, enfim, carências afetivas, físicas e culturais de toda natureza, seriam os fatores responsáveis pelas dificuldades de aprendizagem das crianças oriundas de camadas populares. A partir de pesquisas que questionavam a efetividade do déficit da criança como causador do fracasso escolar, surgem novas explicações para as causas do fracasso. No entanto, a mudança restringiu-se à transferência de responsabilidade pelo déficit. Se antes esta causa era creditada à criança, agora passa a apontar o meio familiar, e cultural do/a aluno/a como o locus deficitário. 44 Passou-se à chamada “teoria da carência cultural”. Como esclarece Patto (1996, p. 45), a ausência, nas classes dominadas, de normas, padrões, hábitos e práticas presentes nas classes dominantes, foram tomadas como indicativas de atraso cultural destes grupos, o que os aproximaria do estado primitivo dos grupos étnicos de origem. Passou-se, assim, à afirmação da existência não tanto de raças inferiores ou indivíduos constitucionalmente inferiores, mas de culturas inferiores ou diferentes (...) de grupos familiares patológicos e de ambientes sociais atrasados que produziriam crianças desajustadas e problemáticas. Alguns fatores preponderantes da teoria do déficit como: a desvalorização e descrédito depositados nos/as alunos/as provenientes de camadas populares; o preconceito quanto à incapacidade ou dificuldade de aprendizagem atribuída à origem pobre dos alunos; alunos pertencentes a um grupo social que não favoreceria ambiente próprio para o desenvolvimento cognitivo; e enfim, a descrença na capacidade da família em proporcionar educação adequada às crianças por serem desestruturadas, foram refutadas por pesquisas sobre o fracasso escolar (Patto, 1996, Connell, 2005, Bourdieu, 2005, Moreira, 2002). Entretanto, ainda é perceptível reflexos destas concepções em nossa sociedade atual e, por conseguinte, estas concepções ainda mantêm forte presença nas reapresentações de educadores. Novas explicações apontam que o currículo escolar privilegia uma cultura elitista, sob a justificativa de garantir a todos/as os/as alunos/as acesso aos conteúdos selecionados e definidos como universalmente válidos. O fato de se privilegiar uma cultura elitista exclui as vivências e experiências culturais de alunos provenientes de camadas populares. Este seria um dos fatores apontados como responsáveis pelo fracasso escolar de crianças provenientes de camadas populares. Em estudo realizado por Casassus sobre as desigualdades educacionais evidenciou-se que os professores atribuem as causas para o êxito ou fracasso escolar dos/as alunos/as a sete aspectos, quais sejam: “apoio da família, habilidade dos alunos, auto-estima, clima da escola, recursos da escola, métodos de ensino, e expectativas dos docentes”. (2002, p. 124). Alguns dos fatores mostrados pelo estudo de Casassus vinculam-se diretamente aos propósitos desta pesquisa, portanto, justifica-se evidenciar os mais relevantes. 45 Casassus verificou que uma parte do grupo de professores/as pesquisados/as condicionava o fracasso e êxito escolar às condições familiares. Outros/as professores/as não indicavam as condições familiares como determinantes para o sucesso ou fracasso escolar. Verificando os escores apresentados em avaliação pelos/as alunos/as Casassus (2002) constatou que os resultados de alunos/as daqueles/as professores/as que atribuíam as causas do êxito ou fracasso escolar às condições familiares, apresentavam rendimentos menores em relação àqueles/as alunos/as aos/às quais os/as professores/as não atribuem o desempenho dos/as alunos/as às condições familiares. Em contrapartida, resultados de alunos/as cujos professores/as acreditam na capacidade do/a próprio/a aluno/a ou atribuem aos métodos pedagógicos os resultados dos/as alunos/as, apresentaram melhores resultados. Para Casassus estes fatores indicam que é conveniente provocar uma mudança nas concepções e nas práticas pedagógicas dos docentes. Outros aspectos positivos para os resultados dos/as alunos/as referem-se à heterogeneidade e ao clima emocional dentro da sala de aula. Segundo indica o estudo coordenado por Casassus, alunos agrupados em classes mais homogêneas apresentam resultados menores do que alunos/as agrupados/as em classes heterogêneas. Verificou-se que um clima emocional bom em sala de aula favorece a aprendizagem dos/as alunos/as. No que se refere ao contexto familiar dos/as alunos/as Casassus constata que nas últimas décadas “A configuração familiar mudou e coexistem situações diversas” (2002, p. 127). Com tal modificação não é possível definir a influência do contexto familiar no desempenho dos/as alunos/as, posto que os contextos são diversos e as influências também são diversificadas. Entretanto, pode-se estabelecer relação direta com o nível de escolaridade dos familiares dos/as alunos/as, porquanto, maior o nível de escolaridade dos pais, melhor o rendimento dos/as filhos/as. O interesse da família pelas atividades escolares dos/as filhos/as influi, também, nos resultados, mas não foi apontado como benefício no que tange ao apoio na realização das atividades extra-classe pelos/as filhos/as. Por desconhecerem especificidades da ação pedagógica os pais podem até mesmo 46 prejudicar a aprendizagem dos/as filhos/as ao tentarem ajudá-los/las a realizar suas lições escolares. Autores como Moreira (2002), Candau (2002), Freire (1980), e Bourdieu (2005), acrescentam outros fatores que contribuem para o resultado negativo de alunos/as, principalmente os provenientes de camadas populares. O/a aluno/a não se vê representado nos livros e nos conteúdos escolares, ao contrário, a linguagem corrente na escola e as práticas e experiências referem-se ou aproximam-se de uma cultura distante da vida cotidiana do/a aluno/a de camadas populares. Segundo Bourdieu (2005), a linguagem falada torna-se, durante os primeiros anos de escolaridade, um dos maiores obstáculos para as crianças de famílias populares, porque elas não dominam a língua falada empregada na escola. A linguagem oral privilegiada na escola, para Bourdieu, é a língua materna das crianças oriundas de famílias de elite “cultas” (p. 46), detentoras do poder de transformar sua variante lingüística em língua padrão. Assim o valor atribuído a uma determinada variante lingüística decorre de relações de poder, e não da inferioridade ou superioridade lingüística entre as diversas variantes. A linguagem como os demais conteúdos de ensino recebem na escola tratamento de objeto pronto e acabado, estático e imutável. A linguagem oral de referência na escola é a variante padrão. Segundo Moreira (2002) é a linguagem do grupo dominante ou referendada por este, que é tida como correta, as demais variedades lingüísticas são consideradas erradas, incorretas, e desvalorizadas no contexto escolar. Os/as alunos/as falantes de variantes lingüísticas diversas à variante padrão são discriminados, sua fala recebe tratamento discriminatório. Este/a aluno/a é constantemente repreendido/a e dele/a é exigido que aprenda a “falar corretamente”. Como conseqüência deste tratamento a criança aprende a se calar, a considerar sua origem pobre como inferior, pois seu meio é formado por pessoas incultas. Ao contrário do que acontece, a escola deveria transformar o trabalho com a linguagem oral em situação de análise e reflexão sobre a adequação da fala à situação comunicativa. A escola deve trabalhar a análise de contextos nos quais pode ser inadequado usar a variante lingüística informal e quando é necessário conhecer e utilizar a variante padrão. Os/as alunos/as poderiam aprender que é 47 importante “dominar diferentes códigos e usá-los em diferentes situações” (MOREIRA, 2002, p. 43), ao invés de aprender que sua forma de falar é incorreta, ele aprenderia que há formas adequadas de se comunicar dependendo da situação comunicativa e do objetivo pretendido. Trata-se de acrescentar e não de subtrair a variedade lingüística do/a aluno/a. Acrescentar o domínio, a competência para usar a língua do dominante. Ensinar a língua padrão fora de um contexto comunicativo, fora de uma situação comunicativa real em que se exige uma língua padrão para melhor se comunicar e ser ouvido torna-se uma situação de discriminação, não de educação. A variante lingüística da criança proveniente de meio popular responde às necessidades de comunicação em seu meio social, mesmo que não possa responder à exigências de situações formais de comunicação. Assim, o ensino da linguagem oral deve ser contextualizado para que o/a aluno/a não se sinta desvalorizado/a, e prejudique sua auto-estima. Este é um dos motivos pelos quais Bourdieu (2005) afirma que a participação e a influência da família no desempenho dos/as filhos/as na educação formal não se restringe ao acompanhamento do desempenho escolar, mas, principalmente, pelo capital cultural adquirido pelos/as filhos/as na vivência em seu contexto familiar. O capital cultural, segundo Bourdieu, influi diretamente no sucesso ou fracasso escolar, pois, os/as alunos/as que possuem capital cultural parecido com a cultura valorizada pela escola terão mais chances de alcançar sucesso. De modo diverso, aqueles com capital cultural diferente da cultura da escola terão mais probabilidades de fracassar na escola. É típico do senso comum em nossa sociedade afirmar que famílias formadas por mãe e filhos, ou avós e netos, principalmente de camadas populares, serem consideradas famílias desestruturadas, problemáticas. E entre os/as professores/as, esta opinião se repete, para eles estas famílias são desestruturadas e este fator é responsável pelas conseqüências negativas no desempenho escolar de seus/as filhos/as. Mclaren (1997), referindo-se a pesquisas realizadas em famílias estadunidenses formadas por membros que trabalham nas Forças Policiais ou Forças Armadas, evidencia que há mais casos de divórcios, violência em família e uso de substancias químicas, comparadas a outras famílias. Entretanto, estas famílias de militares não são classificadas como 48 portadoras de disfunções sociais, seus filhos não são apontados como participantes de grupo em situação de risco social, ou como famílias desestruturadas e responsáveis pelo fracasso escolar de seus/as filhos/as. Inegável que a cultura da família, do grupo social a qual o/a aluno/a participa é parte considerável na “formação da visão que o aluno tem de si mesmo e de suas reações com diversas formas de pedagogia e aprendizagem” (MCLAREN, 1995, p. 95). Considerar a cultura de origem dos/as alunos/as consiste em acreditar na capacidade do/a aluno/a, favorecer seu desempenho escolar através da valorização da sua cultura e estabelecer o diálogo com a cultura considerada erudita, transmitida pela escola. Entretanto, Moreira (2002) afirma que há descrença na capacidade de aprendizagem dos/as alunos/as. Para Perrenoud (2001) o fracasso e o sucesso escolar são construções do próprio sistema escolar. Embora esta pesquisa não tenha como objetivo relacionar cultura com fracasso escolar, entende-se que os aspectos relacionados com o fracasso escolar são elementos extremamente importantes para serem observados pelo/a professor/a em sua dinâmica curricular. Perrenoud analisa a forma como a escola “fabrica” o fracasso escolar e aponta três aspectos fundamentais relacionados às origens sociais, ao apoio recebido pelos/as alunos/as na escola, e por último relacionado à avaliação. O primeiro está diretamente vinculado com as origens sociais das crianças. As crianças provenientes de classes populares possuem saberes e experiências diferentes da cultura escolar, que é para este autor, elitista. As opções expressas nos currículos formais das escolas privilegiam alguns conteúdos em detrimento de outros. Alunos que chegam à escola com conhecimentos próximos aos definidos no currículo terão mais possibilidades de sucesso escolar, os que chegam com conhecimentos diferentes e não valorizados na definição do currículo terão mais possibilidades de fracasso escolar. O segundo aspecto trata do apoio recebido pelos/as alunos/as para alcançar os objetivos estabelecidos igualmente para todos/as. Se os/as alunos/as chegam à escola com saberes e experiências diferenciados a escola não deveria dar o mesmo tipo de apoio a todos/as, pois desta forma as diferenças iniciais se 49 mantêm ou mesmo aumentam, portanto a ajuda proporcionada aos/às alunos/as não deve ser padronizada. E por último, a avaliação, a definição do que avaliar, de como e quando também é um aspecto que contribui para a fabricação do fracasso escolar. Considerar as diferenças individuais implica em pensar a atuação do/a professor/a. Vários são os fatores que contribuem para que haja aprendizagem, no entanto uns dos mais importantes envolvem o papel do/a professor/a: o educando precisa sentir-se respeitado como pessoa e ter seus hábitos, sua identidade, sua cultura respeitados, precisa sentir-se valorizado (PERRENOUD, 2001). Na relação do/a professor/a com o/a aluno/a, como em diversas outras interações humanas, existe a dificuldade em lidar com o diferente. O/a professor/a, como a maioria dos seres humanos, tem suas preferências. É mais fácil para o/a professor/a gostar, se aproximar e apoiar aqueles/a alunos/as com comportamentos, hábitos e preferências mais parecidos com o/a dele/a próprio/a e é mais difícil gostar e se aproximar daqueles/a que são desafiadores, que não cumprem as regras da escola, os apáticos, com roupas sujas e sem banho. Isso não significa que o/a professor/a intencionalmente faça “discriminações negativas”4 (PERRENOUD, 2001, p. 23). O autor acredita que só através da autoanálise, a análise da própria prática e de sua cultura, o/a professor/a poderá tornar-se consciente e mudar sua prática de sala de aula e de seu cotidiano. Todos/as os/as alunos/as de expressão cultural popular vivenciam uma cultura em sua família, em seu bairro, seu grupo social, no entanto a cultura valorizada no contexto escolar é a chamada cultura de elite, a cultura da classe dominante. Todo ser humano produz cultura, as diferenças de valor entre as culturas decorrem de relações de poder, pois em uma visão sociológica não é adequado julgar uma cultura como melhor ou pior em relação a outra e sim, tratá-las como culturas diferentes (PERRENOUD, 2001). Para Moreira (2002) as culturas eruditas e as culturas populares possuem igual valor. Demo (2005) complementa afirmando que: “... todas as culturas são incompletas, porque a história é feita de dinâmicas intrinsecamente incompletas, necessitando umas das outras” (2005, p. 22). Por isso, Moreira defende que os/as 4 - Para Perrenoud, discriminações negativas são aquelas que aumentam as desigualdades, porém são comportamentos e reações inconscientes. 50 professores/as devem “tomar a prática vivida pelos/as alunos/as como o ponto inicial do planejamento e da implementação do currículo e do ensino” (2002, p. 39). Para este autor deve-se acreditar no potencial do/a aluno/a proveniente de camadas populares. Deve-se partir da cultura do/a aluno/a, mas também possibilitar que este/a dialogue com a cultura erudita, ou seja, que ele/a tenha acesso e saiba transitar pela cultura tida como erudita, mas sem perder suas referências culturais e tampouco vê-las desvalorizadas. Na relação professor/a – aluno/a baseada na transmissão de conhecimentos pelo professor a alunos considerados receptáculos vazios a serem preenchidos, denominado por Freire (1980) “educação bancária”, o/a aluno/a é passivo/a e o/a professor/a centro do processo de ensino. Nesta concepção de educação desconsidera a condição do/a aluno/a de sujeito na construção do conhecimento. Seus saberes e experiências adquiridas fora do contexto escolar, tornam-se irrelevantes para o processo de ensino e aprendizagem. Na concepção bancária da educação, o conhecimento é um dom concedido por aqueles que se consideram como seus possuidores àqueles que eles consideram que nada sabem. Projetar uma ignorância absoluta sobre os outros é característica de uma ideologia de opressão. É uma negação da educação e do conhecimento como processo de procura. O professor apresenta-se a seus alunos como seu ‘contrário’ necessário: considerando que a ignorância deles é absoluta, justifica sua própria existência. (1980, p. 79). Paulo Freire sugere que é primordial ao educador o conhecimento da realidade vivida pelo educando, ou seja, o oposto ocorrido em uma concepção bancária. O conhecimento da realidade do educando fundamenta e promove o diálogo. O diálogo, na concepção freiriana, contrapõe-se radicalmente a imposição de idéias sobre o outro, o diálogo pressupõe o respeito e a troca entre iguais em sua condição de sujeitos. No âmbito educacional o diálogo requer o conhecimento e respeito à cultura do aluno. O diálogo pressupõe respeito a todos os saberes e conhecimentos do educando, portanto, o ensino decorre da promoção do diálogo entre os saberes, conhecimentos e vivencias do aluno com outras formas de saberes, experiências e valores diferentes dos vividos pelos educandos. Dialogar pressupõe ouvir, conhecer modos de vida e valores diferentes sem colocar os valores e saberes de um grupo social, de uma etnia, em escalas 51 de valores, comparando culturas e hierarquizando-as. Portanto, o diálogo exige uma relação entre iguais. Na afirmação de Paulo Freire (1980, p. 83), O amor é ao mesmo tempo o fundamento do diálogo e o próprio diálogo. Este deve necessariamente unir sujeitos responsáveis e não pode existir numa relação de dominação. A dominação revela um amor patológico: sadismo no dominador, masoquismo no dominado. Porque o amor é um ato de valor, não de medo, ele é compromisso para com os homens. O diálogo na concepção freiriana pressupõe inclusão, pressupõe respeito e igualdade, no âmbito escolar, especificamente, pressupõe considerar todo aluno detentor da capacidade de aprender. Entretanto, há que se considerar que os alunos não apresentam o mesmo ritmo de aprendizagem, não aprendem da mesma forma os mesmos conteúdos. Sendo assim, é função dos educadores que trabalham na escola criar, para todos os alunos, um espaço de construção de conhecimento, considerando a diversidade de competências cognitivas presentes no contexto de sala de aula. É imprescindível planejar o ensino considerando, as diferenças de opiniões, de interesses, de necessidades, de idéias e de escolhas. [...] não cabem as rotulações e categorizações para distinguir um aluno do outro por sua capacidade de aprender. [..] Por mais que tenha sido imposta a idéia de homogeneização das turmas, o que as move é a heterogeneidade, a multiplicidade e a complexidade. Fazer com que todos os alunos pensem como o professor ou reproduzam os conteúdos ministrados em aula é fazer com que 30 ou 40 inteligências sejam subordinadas a uma única inteligência – a do professor. (MACHADO,2006, p. 42). As mudanças apontadas sugerem mudanças nas concepções de ensino e de aprendizagem. Demandam do/a professor/a o repúdio a práticas de ensino transmissivas, baseadas no uso do livro didático como único recurso para trabalhar os conteúdos, e na concepção do/a aluno/a como tabula rasa. Os/as alunos/as devem ser reconhecidos como sujeitos plenos em capacidade de aprendizagem e portadores de inúmeros conhecimentos importantes para a construção dos conhecimentos definidos pelos educadores na proposta curricular da escola independente de sua origem social, sua etnia, sua religião, sua origem social. 2.7 - Representações Sociais Considerando estudos de autores em suas abordagens sobre multiculturalismo e seus desdobramentos na realidade escolar no que se refere à 52 dinâmica curricular e diversidade cultural na escola, torna-se relevante ouvir o sentir, o pensar e o agir dos educadores e investigar suas representações. A teoria das Representações Sociais, mediante seus pressupostos teóricos permitirá partilhar, investigar a filosofia popular (MOSCOVICI, 2005) dos professores, ouvir sobre o seu sentir e seu pensar e dar respostas significantes ao problema pesquisado. As Representações Sociais encontram suporte na teoria homônima (re)criada por Serge Moscovici (2005). Partindo de pressupostos do senso comum ou da “ciência popular”, ou da “filosofia espontânea”, para Moscovici as representações sociais têm as funções de convencionalizar pessoas, objetos e acontecimentos, são prescritivas e se impõem sobre nós. As representações visam “colocar um signo convencional na realidade”, por isso, elas prescrevem através das tradições e das estruturas imemoriais o que se percebe e se imagina tornam-se “criaturas do pensamento” que acabam por se “constituir em um ambiente real, concreto”. Elas têm por finalidade “tornar familiar algo não-familiar”, tornar a comunicação não problemática e “reduzir o vago” através de certo grau de consenso entre seus membros” (ibidem, p. 39, 40, 54, 208). As pessoas e os grupos, afirma Moscovici, pensam por si mesmos, produzem e comunicam incessantemente suas próprias e específicas representações e soluções às questões que eles mesmos colocam. Nas ruas, bares, escritórios, hospitais, laboratórios, etc. as pessoas analisam, comentam, formulam “filosofias” espontâneas, não oficiais, que tem um impacto decisivo nas suas relações sociais, em suas escolhas, na maneira como educam seus filhos, como planejam seu futuro, etc. Os acontecimentos, as ciências e as ideologias apenas lhes fornecem o “alimento para o pensamento” (ibidem, p 45). As representações “devem ser vistas como “atmosfera” em relação ao indivíduo ou ao grupo, elas pairam sobre eles e constitui seu universo simbólico e significativo” e se constituem em “fenômenos específicos que estão relacionados com um modo particular de compreender e de se comunicar – um modo que cria tanto a realidade como o senso comum” (MOSCOVICI, 2005). Nós, afirma Moscovici, “vemos as representações sociais se construindo por assim dizer diante de nossos olhos, na mídia, nos lugares públicos, através deste processo de comunicação que nunca acontece sem alguma transformação“ (MOSCOVICI, p. 205). Outra relevância desta abordagem teórica no estudo proposto é que ela “toma como ponto de partida (...) a diversidade dos indivíduos, atitudes e 53 fenômenos, em toda sua estranheza e imprevisibilidade. Seu objetivo é descobrir como os indivíduos e grupos podem construir um mundo estável, previsível, a partir de tal diversidade” (ibidem, p. 79). Para Jodelet (1989), a teoria das representações sociais tem como objeto o estudo dos sujeitos sociais em movimento, suas idéias e concepções de mundo, representadas nas suas falas. Não necessariamente conscientes, elas são categorias de pensamento, percepções da lembrança, usadas para explicar, justificar, inquirir a realidade em que surgiram, cuja funcionalidade é ditada pelas interações sociais do cotidiano. Uma forma de conhecimento socialmente elaborada e partilhada, ela possui um objetivo prático e serve à construção de uma realidade, ou verdade, comum a um conjunto social. 54 CAPÍTULO III REPRESENTAÇÕES DOS/AS PROFESSORES/AS SOBRE ALUNOS/AS PROVENIENTES DE CAMADAS POPULARES Considerar a escola como um espaço de convivência de pessoas com culturas e saberes diversificados implica pensar um ensino que valorize e respeite as diversas manifestações culturais existentes na sociedade e presentes no interior da escola. Para uma reflexão sobre a convivência de culturas diversas no interior da escola procurou-se compreender o que os/as professores/as pensam sobre os saberes e conhecimentos dos/as alunos/as provenientes de culturas populares através de observações e entrevistas. Nas observações em sala de aula de oito professores/as foram registrados aspectos do espaço físico e organizacional do ambiente das salas, algumas características dos alunos/as, a relação entre alunos/as X alunos/as, relação professores/as X alunos/as, e aspectos da prática pedagógica desses/as professores/as. As entrevistas possibilitaram o levantamento de informações sobre como os professores/as caracterizam seus/uas alunos/as, o que eles/as pensam sobre os saberes e conhecimentos desses/as alunos/as, e quais as implicações pedagógica. das representações Também foram dos/as colhidas professores/as informações em sobre sua como prática os/as professores/as tratam, em sua prática, os diferentes conhecimentos e saberes dos/as alunos/as provenientes de culturas populares. Foram muitos os dados obtidos por meio das observações em sala de aula e entrevistas com professores/as das duas escolas selecionadas para este estudo. As informações coletadas foram organizadas e, posteriormente, elaborada uma análise que será apresentada neste capítulo. Primeiro serão apresentados os resultados e discussão das informações obtidas por meio das observações e, em seguida, os resultados e discussão das entrevistas. É importante esclarecer que os depoimentos dos professores/as são apresentados no texto sem nenhuma correção. 55 Após o levantamento dos dados, seja das observações, seja das entrevistas, foi decidido que a análise destes dados seria feita sem distinção entre as escolas que participaram da pesquisa. 3.1 Análise das observações 3.1.1 Aspecto físico e organizacional do ambiente das salas de aula Foram observadas oito aulas, conforme previsto na metodologia da pesquisa. Deste total, três salas eram amplas e bem ventiladas, com sete janelas grandes e quatro ventiladores. Bem iluminadas tanto com luz natural que entrava pelas janelas, como com lâmpadas fluorescentes. Possuíam quadros de giz grandes, um pequeno armário de madeira perto do quadro e outros dois armários na parte do fundo de cada sala de aula. As carteiras dos alunos/as eram compostas de mesas e cadeiras. Uma mesa e uma cadeira, para cada professor/a, ficavam dispostas na parte frontal da sala, perto do quadro de giz. A situação de outras três salas observadas era bem diferente das três anteriores. As salas de aula eram pequenas, mal ventiladas, com quatro janelas muito altas e apenas dois ventiladores muito barulhentos e que ventilavam pouco. Embora a claridade natural fosse pouca nestas salas, elas eram bem iluminadas com lâmpadas fluorescentes. Possuíam um quadro grande de giz, um armário de aço perto do quadro e uma mesa da professora na parte frontal da sala. As carteiras dos/as alunos/as eram também compostas de mesas e cadeiras. Duas outras salas de aula observadas apresentavam aspectos diferentes das demais. Uma das salas de aula, ampla e construída de madeira, não possuía janelas e sim caibros trançados que deixavam buracos, nos lugares onde deveriam ser as janelas. O mobiliário desta sala era composto de cadeiras e mesas, para os/as alunos/as e para a professora. Havia um armário de madeira onde a professora guardava seu material, um quadro de giz pequeno, quatro ventiladores, sendo que um não funcionava. Cinco pares de lâmpadas fluorescentes iluminavam a sala, cujo piso era de cimento queimado com alguns buracos. 56 A outra sala de aula era grande, porém mal ventilada, com quatro janelas muito altas e apenas dois ventiladores na parte da frente da sala que era bem iluminada com lâmpadas fluorescentes. Um quadro grande de giz, um armário de aço perto do quadro e uma mesa da professora ficavam na frente da sala. Como as demais, as carteiras dos/as alunos/as eram compostas de mesas e cadeiras. Ambas as escolas apresentavam bom aspecto quanto à limpeza das áreas externas às salas de aula. No interior de algumas salas de aula havia sujeira no chão, jogadas pelos/as alunos/as. As paredes e as carteiras apresentavam alguns riscos de caneta, lápis ou pincel. Ressalta-se que o aspecto das escolas era no geral limpo e organizado, não apresentavam pichações ou quaisquer outros sinais de depredação. A organização ambiental das salas de aula observadas era semelhante entre elas. Em uma das escolas todas as carteiras dos/as alunos/as estavam enfileiradas e juntas de duas a duas. Na outra escola quando não estavam em duplas, as mesas e cadeiras eram colocadas todas juntas no centro da sala. A organização em duplas ou em blocos, por si, não favorecia a realização das atividades em parceria ou em grupo, predominando a realização de atividades individuais. E mesmo os alunos sentando muito próximos uns aos outros todos resolveram suas atividades individualmente. (Relatório de Observação Prof. 1). Os alunos sentavam-se em duplas, com exceção de dois alunos que ficaram sentados sozinhos, nas últimas carteiras no fundo da sala. Meninos estavam sentados com meninos e meninas com meninas. (Relatório de Observação Prof. 6) O aluno R. sentiu dificuldade em um problema e o professor o ajudou, mas não incentivou a trabalhar em dupla. Um aluno, sentado na carteira na frente de R., por iniciativa própria, se prontificou a ajudá-lo. (Relatório de Observação Prof. 12) Durante o período de observação a disposição das carteiras nas salas de aula permaneceu inalterada, inclusive em situações como as leituras feitas pelos/as professores/as em que a organização das carteiras em filas não contribuía para a atenção dos/as alunos/as. Analisando a utilização do espaço, no âmbito da sala de aula, pode-se inferir que a concepção de aprendizagem de conteúdos requer crianças sentadas, sempre na mesma posição, recebendo os ensinamentos dos professores, 57 independente de haver trocas interativas entre os/as alunos/as decorrentes da configuração espacial da sala. O uso limitado do espaço da escola também denota concepções não manifestas no currículo formal. Uma das escolas pesquisadas possuía uma área externa ampla e arborizada, entretanto os/as professores/as restringiam suas aulas ao espaço de sala de aula, destinando a área externa somente à recreação. Percebe-se uma distinção entre aprender e brincar, entre conteúdos sérios e espaço destinado a jogos e brincadeiras, consideradas descompromissadas com a aprendizagem. “Recreação”, no conceito desta escola, designa o tempo destinado às atividades físicas no pátio, ou seja, recreação, por si, indica atividades desenvolvidas no pátio da escola. Recrear na definição do dicionário Houaiss significa: “distrair-se com jogos e brincadeiras; folgar, brincar. Aliviar de trabalho, tarefa ou situação difícil, pesada”. Em conclusão recrear é sinônimo de distração, diversão, divertimento, entretenimento. Infere-se do significado dos espaços escolares e do uso destes espaços que há uma dicotomia entre estudar e se divertir. Estudar é atitude formal, séria, contrita, e recrear é atitude lúdica, mais ou menos livre e descomprometida com a aprendizagem. É preciso esclarecer que na recreação o processo educacional não é interrompido, particularmente quando se tem em vista a formação de atitudes, hábitos e valores durante esta atividade. 3.1.2 - Características dos/as alunos/as A maioria absoluta dos/as alunos/as nas salas observadas não usava uniformes, se vestiam com roupas muito simples, em alguns casos rasgadas, e/ou sujas. Os/as alunos/as, em sua maioria, estavam calçados com chinelos de borracha, e alguns de tênis e sandálias. O material escolar dos/as alunos/as era composto de caderno grande do tipo brochura, lápis, caneta e borracha. Alguns cadernos bem cuidados e outros amassados e rasgados. Os/as alunos/as apresentaram um comportamento comum à maioria das crianças e adolescentes na mesma faixa etária. As crianças eram bastante agitadas, andavam muito pela sala e fora dela, falavam muito uns com os/as outros/as, brincavam. Os/as adolescentes e pré-adolescentes também 58 apresentavam um comportamento considerado próprio para suas idades, conversavam muito, faziam brincadeiras uns com os outros, falavam sobre namorados/as. A aparência e os materiais escolares evidenciavam a carência material a que estão submetidas as crianças das escolas pesquisadas. Peles queimadas pelo sol, cabelos mal cuidados, roupas e calçados desgastados, material escolar simples e algumas vezes, insuficiente. O comportamento observado foi considerado comum para crianças. As diferenças existentes relacionam-se às experiências vivenciadas pelas crianças em seu meio social, e ao capital cultural adquirido junto à família. As crianças apresentam características comuns a crianças na mesma faixa etária: gostam de correr, brincar, conversar, e se movimentar bastante. Observadas atentamente apresentavam diferenças no ritmo de aprendizagem, na linguagem, comportamentos, hábitos e valores que dependem de suas idiossincrasias e da origem socioeconômica. Segundo Giné (2002, p. 39) “(...) cada aluno é diferente (...) O desafio está em abordar educativamente e tornar formativas as diferenças”. Quanto à participação dos/as alunos/as nas atividades desenvolvidas em sala de aula, foram observados muitos momentos de grande dispersão, em sete das oito classes observadas. Notadamente, sempre que as atividades se prolongavam, ou a atividade e/ou conteúdo, aparentemente, não lhes interessavam a conversa, a brincadeira e até algumas brigas aconteciam em sala de aula. A dispersão se apresentava através de conversas entre os alunos/as, alunos/as saindo de suas carteiras durante a realização das atividades, brincando, ou solicitando ao/a professor/a saírem da sala para irem ao banheiro repetidas vezes, e até mesmo brigando com os/as colegas. Alguns exemplos destas situações são relatados abaixo: A leitura continuou e a classe cada vez mais dispersa. A professora interrompeu várias vezes a leitura para chamar a atenção dos alunos dispersos. Muitos alunos conversavam, outros faziam outra atividade ou mesmo andavam pela sala de aula. (Relatório de observação Profa. 6) Os alunos ficaram muito dispersos durante toda a leitura. Três meninas escreviam alguma coisa em seus cadernos, outras duas comiam biscoitinhos e foram repreendidas pela professora, outros alunos simplesmente conversavam, ou olhavam para fora da sala. (Relatório de observação Prof. . 5) A atividade se prolongou por 1h:45min, à medida que o tempo passava os alunos ficavam mais dispersos. Muitos alunos não faziam mais a atividade, 59 alguns porque já haviam terminado e outros aproveitavam a agitação daqueles que já haviam concluído a tarefa e não eram repreendidos pela professora. (Relatório de observação Prof. 11) Apenas em uma das classes observadas foram registrados momentos de muito interesse e concentração nas atividades propostas pelo/a professor/a. Os/as alunos/as apresentavam-se calmos e concentrados nas atividades durante todo o período da aula. Este comportamento diferencia em muito das outras classes nas quais os/as alunos/as se concentravam apenas alguns minutos e se dispersavam passando a se interessar por outras atividades alheias aos conteúdos tratados pelo/a professor/a. Os alunos estavam bastante interessados na atividade, conversaram pouco e quando chamados a responderem no quadro a maioria se apresentava espontaneamente. Depois dos alunos resolverem no quadro o professor ia até a lousa e conferia junto com a classe o resultado. (Relatório de observação. Prof. 12) A discrepância entre atividades desenvolvidas em sala de aula e a vivência e conhecimentos dos/as alunos/as podem interferir nos seus interesses pelas atividades desenvolvidas pelos/as professores/as. Isto se revela no distanciamento e oposição entre as atividades prazerosas para a criança aprendidas em seu meio e a rigidez e formalidade expressa nas atividades curriculares que nem sempre são prazerosas para as crianças. Observou-se, em quase totalidade das classes, grande dispersão durante as atividades. Esta dispersão parece se relacionar com a concepção de ensino dos/as professores/as, baseadas em preceitos homogeneizadores: os/as alunos/as devem aprender os mesmos conteúdos, de preferência, simultaneamente. Esta situação reflete uma concepção de currículo centrado na transmissão de conteúdos definidos, muitas vezes, por especialistas ou autoridades educacionais que nem sempre atendem aos interesses e necessidades de aprendizagem dos/as alunos/as. 3.1.3 Relação Aluno/a X Aluno/a Durante as sessões de observação a relação estabelecida entre os/as alunos/as pareceu ser amistosa, foram poucas as demonstrações de agressividade entre os/as alunos/as. Eles/as conversavam muito entre si, 60 brincavam, trocavam informações de seus interesses particulares, dividiam lanches. Em três sessões de observações há registros de alguns alunos/as gritando uns com os outros durante a aula, um caso de agressão física e agressões verbais. Nestas situações, a divergência ou desavença rapidamente foram dissipadas e não tiveram maiores conseqüências. Alguns alunos gritavam uns com os outros e a professora não interveio. (Relatório de Observação prof. 1) Dois alunos brigaram, um agrediu fisicamente o outro, a professora chamou o aluno que agrediu o colega e pediu para ele se desculpar. O aluno pediu desculpas e a professora se afastou. (Relatório de Observação Prof. 7) Em duas classes foi observado alunos/as sentados distantes dos/as outros/as colegas. Nas demais salas de aula não foram observadas distanciamento ou dificuldade de interação entre os/as alunos/as. Dois alunos se recusaram a integrar qualquer um dos grupos formados. A professora conversou com eles, mas não os convenceu a trabalhar em grupo. Eles continuaram afastados dos grupos e não realizaram nenhuma atividade. Um destes ficou sentado em cima da mesa, imóvel olhando os colegas. O outro saiu e permaneceu alguns minutos fora da sala de aula, ao retornar sentou-se em sua carteira afastado de todos. (Relatório de observação Prof. 2) Foram observadas situações em que o/a professor/a teve que intervir para acabar com desavenças entre os/as alunos/as e promover a reconciliação. Nestas situações observadas o/a professor/a usou sempre o recurso do diálogo para convencer os/as alunos/as da inadequação de seus comportamentos, como mostra os relatos de observação abaixo: Em um dos grupos de alunos começou uma discussão. Um dos alunos se afastou do grupo dando sinais de que não participaria mais da atividade. A professora se aproximou do grupo conversou com todos, falou sobre a necessidade do trabalho coletivo, mas, um dos alunos continuou não aceitando trabalhar junto aos demais. (Relatório de observação Prof. 2). Pode-se concluir que os/as alunos/as são agitados, mas nada que evidencie uma situação de intensa agressividade. Não houve fatos relevantes que justificassem uma maior atenção destes comportamentos interativos entre os/as alunos/as. As situações que envolveram reações agressivas foram casos isolados. 3.1.4 - Relação Professor/a X Alunos/as 61 De uma maneira geral pode-se afirmar que o relacionamento observado entre professor/a e alunos/as era amistoso, porém, não desprovido de alguns conflitos. Não foram registradas muitas demonstrações de afeto. Frequentemente a professora chamava a atenção dos alunos, não só sobre a participação nas atividades como também para conter a agitação das crianças. Estas situações podem ser consideradas como umas das maiores fontes de atritos entre professores/as e alunos/as: o/a professor/a tentando conter a agitação dos/as alunos/as, e mantê-los atentos às explicações sobre os conteúdos e realização das atividades, e os/as alunos/as demonstrando interesse por outras questões alheias à aula e às explicações do/a professor/a. A professora voltou a repreender verbalmente duas alunas que estavam fazendo outra atividade e não ouviram atentamente a história. (Relatório de Observação Prof. 6) A leitura foi interrompida várias vezes, pela professora, para repreender os alunos por estarem conversando muito e/ou andando pela sala. (Relatório de Observação Prof. 5) Para a manutenção da ordem na sala de aula e maior envolvimento dos/as alunos/as nas atividades propostas o/a professor/a utilizou-se de repreensões verbais, ameaças de privar os/as alunos/as da participação nas atividades recreativas, de permanecerem na escola após o término da aula para concluir a atividade. Não há registros de momentos de diálogo entre professores/as e alunos/as no período observado nas salas de aula. Como os alunos conversavam demais e faziam barulho, a professora os repreendeu dizendo: "Na hora da saída ficam chorando para sair. Eu quero ver, se não tiver feito...” (Relatório de Observação Prof. 9) A professora ausentou-se da sala por uns minutos, ao retornar, percebendo a “bagunça” dos alunos, falou em tom de ameaça: “Na hora da recreação vou olhar o caderno de todo mundo”. (Relatório de Observação Prof. 11) Algumas atitudes pareceram demonstrar distração ou desinteresse dos/as professores/as em atender aos chamados e perguntas dos/as alunos/as. Não foi possível verificar se os/as professores/as não ouviram os chamados e perguntas dos/as alunos/as ou se não quiseram responder naqueles momentos ou situações. Os alunos foram saindo aos poucos. Uma aluna se despediu duas vezes da professora, ela não respondeu e a aluna foi embora. (Relatório de Observação Prof. 7) 62 Uma aluna perguntou qual o texto deveria ser lido, a professora olhou para a aluna e não respondeu. (Relatório de Observação classe Prof. 1) Um aluno disse à professora que não tinha o texto no caderno para consultar e responder à atividade. A professora respondeu: “Aí já é problema seu, se você não veio à aula a obrigação do aluno é copiar de outro colega”. (Relatório de Observação Prof. 1) Apenas um/a professor/a demonstrou interesse em saber os motivos de alguns/mas alunos/as estarem ausentes da aula. O professor demonstrou interesse em saber os motivos de alguns alunos estarem ausentes. Falou aos alunos sobre os problemas que as faltas podem acarretar. (Relatório de Observação classe prof. 12). Todos sabem e Perrenoud (2001) afirma que um dos fatores essenciais para a aprendizagem refere-se a inter-relação entre professores/as e alunos/as. Cabe ao professor/a dedicar-se a estabelecer uma relação de respeito, valorização e amor com o/a educando/a. Infelizmente observou-se ausência de diálogo e de trocas afetivas entre professor/a e os alunos/as. Foram observadas também poucas demonstrações de afeto e de valorização das experiências e cultura dos/as alunos/as. Embora o tempo de observação não permita afirmar que os/as professores/as não são interessados pelos/as alunos/as, ou tenham relação afetuosa, é importante registrar as poucas manifestações de afetividade observadas. Para Freire o diálogo é parte estruturante da interação entre professores/as e alunos/as. Esclarece Paulo Freire: Não é certo, sobretudo do ponto de vista democrático, que serei tão melhor professor quanto mais severo, mais frio, mais distante e ‘cinzento’ me ponha nas minhas relações com os alunos, no trato dos objetos cognoscíveis que devo ensinar. A afetividade não se acha excluída da cognoscibilidade. O que não posso obviamente permitir é que minha afetividade interfira no cumprimento ético de meu dever de professor no exercício de minha autoridade. (1980, p. 160) O uso de ameaças e punições para obrigar o/a aluno/a a se concentrar nas atividades e realizar seus deveres escolares, prescinde do diálogo e denuncia a dificuldade em relacionar afetividade e autoridade. 3.1.5 - Práticas Pedagógicas 3.1.5.1 - Conteúdos e atividades desenvolvidas 63 Os conteúdos trabalhados em sala de aula durante as sessões de observação se restringiram às disciplinas de Língua Portuguesa, Matemática, Ciências e Geografia. Os trabalhos de Língua Portuguesa se concentraram em interpretação de textos, leitura de textos pelo/a professor/a e em uma das classes por um aluno; escrita de palavras para alunos/as não alfabetizados/as, e produção de textos para alunos/as alfabetizados/as; na disciplina de Matemática as quatro operações e resolução de problemas; em Ciências, higiene corporal e do ambiente (Lixo), e desmatamento e na disciplina de Geografia, hemisférios sul e norte e meridianos. A carga horária diária de aula nas duas escolas observadas é de quatro horas. Durante as sessões de observação registrou-se que os/as professores/as passam quase todo este horário desenvolvendo uma média de três atividades. Em cinco aulas foram registradas apenas duas atividades sendo desenvolvidas, uma antes do intervalo para a merenda e outra atividade depois do intervalo, mudando as disciplinas trabalhadas. Dois professores/as desenvolveram em todo o período de aula três atividades e apenas um/a dos/as professores/as observados/as desenvolveu quatro atividades. Os alunos permaneceram realizando a atividade de desenhar e pintar até a hora do intervalo. (Relatório de Observação Profa. 9). Depois do intervalo a professora distribuiu uma atividade mimeografada com um texto e questões de interpretação para ser realizada individualmente. [...] Até o final da aula os alunos ficaram fazendo esta atividade. Os alunos que concluíam andavam pela sala e conversavam esperando o final do horário da aula. (Relatório de Observação Profa. 2) No período observado as atividades foram escritas pelos/as professores/as no quadro de giz ou reproduzidas e entregues cópias mimeografadas para os/as alunos/as. Nem sempre essas cópias eram acompanhadas de consignas claras e orientadoras e de explicações sobre os objetivos das atividades para os/as alunos/as saberem exatamente o que deveriam fazer e o que poderiam aprender. Da atividade de leitura a professora passou para uma atividade de ortografia (uso do CH), sem nenhuma explicação ou contextualização [...] A professora começou a escrever no quadro e os alunos começaram a copiar sem que a professora falasse nada sobre a atividade. Os alunos conversavam enquanto copiavam, a professora informou que depois de escrever no quadro iria explicar a atividade. (Relatório de Observação Profa. 6) Copiou o texto sobre desmatamento no quadro sem fazer nenhum comentário, nem mesmo se os alunos deveriam copiá-lo. (Relatório de observação Prof. 7). 64 A leitura feita pelos/as professores/as em sala de aula consistia em um texto de algum livro selecionado que apenas o/a professor/a possuía o exemplar. Os/as alunos/as não receberam cópias dos textos para acompanharem a leitura, o que contribuía para a dispersão. Os/as alunos/as não conseguiam ver as ilustrações dos livros e em algumas ocasiões alguns alunos/as tentavam se aproximar do/a professor/a para olhar o livro, mas eram repreendidos/as, e o/a professor/a dizia que iria mostrar as ilustrações. A professora leu uma “história em quadrinhos” (na verdade um texto informativo sobre linhas imaginárias e hemisférios em forma de quadrinhos), sem que os alunos tivessem acesso ou mesmo vissem as ilustrações do texto. Os alunos deveriam acompanhar a história e perceber o diálogo entre as personagens somente pela leitura feita pela professora. Por não estarem com a cópia do texto muitos alunos ficaram dispersos. (Relatório de Observação Prof. 1) Alguns/mas alunos/as andavam atrás da professora para olharem as ilustrações do livro e a professora pedia para eles se sentarem, inclusive interrompeu a leitura para dizer isso aos alunos que estavam atrás dela. (Relatório de Observação Prof. 6). O prazo de término das atividades era prolongado ao máximo. Em todas as classes observadas os/as professores/as aguardavam todos os/as alunos/as concluírem a tarefa para então proceder à correção da atividade e posteriormente escrever no quadro ou entregar cópias de outra atividade. Não havia atividade alternativa para os/as alunos/as, que aguardavam seus/uas colegas concluírem. Com exceção de uma professora que buscou, durante a leitura de uma aluna em voz alta, uns livros e uns jogos para os/as alunos/as que haviam concluído a atividade. Durante a leitura em voz alta por uma dupla de alunos a professora avisou que iria sair da sala “Fica lendo aí que eu já volto.” Saiu da sala e voltou trazendo alguns livros, colocou os livros nas carteiras dos alunos, enquanto a dupla continuava a ler o texto. [...] Terminada a leitura de uma das duplas a professora disse: “Pronto, todo mundo com o livrinho na mão. Nós vamos continuar a leitura, e quem já leu fica lendo o livrinho.”, se referindo ao texto sobre desmatamento. (Relatório de observação Prof. 7) Depois de algum tempo a professora perguntou se poderia corrigir a atividade. Os alunos responderam: não. Mesmo aqueles que já haviam terminado e conversavam. A professora perguntou mais duas vezes se poderia corrigir as questões, todos responderam não. (Relatório de observação. Prof. 11) A dispersão das crianças e a falta de interesse aumentavam à medida que o tempo da realização e de conclusão das atividades era prolongado. A professora voltou a falar do livro, perguntou para os alunos sobre a história lida, os mesmos alunos voltaram a falar sobre o livro. A professora insistiu nos comentários sobre o livro, os alunos ficaram mais dispersos ainda, até serem 65 chamados para a merenda. [...] A atividade de leitura e discussão do livro durou cerca de 1h e 30 min, durante este tempo os alunos permaneceram desatentos. Quando a professora disse que iria passar outra atividade uma aluna exclamou aliviada: “Até qu’enfim, meu Deus!!!”. (Relatório de observação. Prof. 5). A dispersão aumentou na medida em que muitos alunos terminaram a tarefa e não tinham outra atividade para realizar. Passaram a conversar muito, andar pela sala, enquanto alguns ainda terminavam a atividade. [...] A professora então perguntou: “Vocês acham justo que quem terminou atrapalhe os alunos que não terminaram a atividade?” Todos responderam que não e continuaram a conversar. (Relatório de observação Prof. 1) A desatenção manifestada pelos/as alunos/as durante a realização das atividades em sala de aula marcou o período de observação, notadamente, durante as situações de prolongamento do tempo de conclusão destas atividades. A homogeneização das atividades decorre do modelo de currículo vigente que privilegia o trabalho simultâneo com as mesmas atividades e conteúdos. Esta forma de trabalho não atende as diferenças manifestadas em sala de aula. Nas palavras de Sacristan (2002), é um currículo pensado para um grupo mais homogêneo, que desconsidera as experiências e saberes próprios das vivências e culturas dos/as alunos/as de camadas populares. Impensável, mesmo para aqueles com pouco conhecimento em psicologia do desenvolvimento infantil, desejar que crianças com idade entre 7 e 13 anos permaneçam imóveis e em silêncio em uma sala de aula, enquanto aguardam nova atividade. O que pode justificar tal atitude senão o currículo pensado para um grupo homogêneo, com conhecimentos e habilidades semelhantes entre si, e que possibilita ao professor trabalhar os mesmos conteúdos e atividades simultaneamente para todos os alunos? Sem mencionar o fato de que atividades iguais para todos os alunos desconsidera as diferenças individuais e os ritmos de aprendizagem. “Toda situação didática proposta ou imposta uniformemente a um grupo de alunos é inadequada para uma parcela deles”. (PERRENOUD, 2001, p. 26) Nas práticas observadas há o predomínio da concepção denominada por Paulo Freire, de “educação bancária”. Atividades centradas na fala e decisão do/a professor/a, com conteúdos definidos sem o levantamento das necessidades de aprendizagem dos/as alunos/as. Atividades que não estimulavam o interesse e a participação. Abre-se aqui apenas uma exceção de uma classe na qual os/as alunos/as demonstraram interesse nas atividades. 66 Ainda em relação às atividades desenvolvidas em sala de aula foram registradas algumas atitudes dos/as professores/as que podem denotar falta de planejamento. Aconteceram momentos em que os/as professores/as se ausentaram da sala de aula, em uma ocasião para buscar livros que seriam lidos para os/as alunos/as, em outra, buscar materiais necessários para a atividade que seria desenvolvida, ou ficaram procurando um texto em vários livros para escrever no quadro e os/as alunos/as copiarem. A professora perguntou se eles gostariam de ouvir a história “Chapeuzinho Vermelho” e os alunos concordaram. A professora saiu da sala para buscar o livro. (Relatório de observação Prof. 6) Depois de escrever o cabeçalho no quadro a professora foi até seu armário e ficou por alguns minutos procurando um texto em alguns livros. Enquanto a professora procurava o texto os alunos ficaram conversando muito, mesmo aqueles que estavam copiando o cabeçalho. Ao encontrar o texto a professora pediu aos alunos que lessem o cabeçalho e informou que o assunto da aula seria desmatamento. (Relatório de observação prof. 7). Algumas atividades desenvolvidas em sala de aula apresentavam temas facilmente relacionáveis com a vivência dos/as alunos/as. Temas como as conseqüências do desmatamento e das queimadas das florestas da região amazônica. Temas estes vivenciados todos os anos pelos/as alunos/as, os quais vivem nesta região e sofrem os efeitos das queimadas, e alguns/mas até mesmo vendem carvão fruto do desmatamento. Em momento algum foi citado que a região que os alunos vivem faz parte da região amazônica. Não foram discutidas as conseqüências das queimadas para a vida dos próprios alunos, que todos os anos vivenciam os impactos das queimadas nesta região. A discussão sobre o texto se encerrou com alguns comentários sobre queimadas e cortes de árvores. (Relatório de observação. Prof. 7) As operações básicas de somar, subtrair, dividir e multiplicar são utilizadas habilmente pelos/as alunos/as que trabalham e empregam diariamente estas operações em situações cotidianas. Entretanto, ficou evidente a dificuldade de um aluno, que trabalha com compra e vendas e praticamente sustenta sua família, em atividades como resolver problemas envolvendo as quatro operações que no dia-a-dia ele utiliza sempre. O professor relatou durante a aula que um aluno da sala, C., compra castanha de caju, assa, enche saquinhos e vende as castanhas em ônibus e ruas da cidade para ajudar na renda da família, no entanto, os problemas que estavam no quadro não eram de fácil resolução para este aluno que lida no dia-a-dia com 67 operações como adição, multiplicação e divisão. O aluno C. sentiu dificuldade e solicitou a ajuda do professor. (Relatório de Observação prof. 12) Conteúdos sobre higiene que diariamente faz parte da vida de todos/as os/as alunos/as, foram desenvolvidos sem o estabelecimento de relação entre as experiências de vida e os conteúdos trabalhados em sala de aula. Um momento de valorização da iniciativa de alunos/as em tentar resolver os problemas com fórmulas próprias ou de maneiras diferenciadas, foi observado. Dois alunos resolveram um dos problemas de forma distinta, usando operações diferentes. O professor chamou ambos à lousa e pediu que escrevessem as duas formas, e só depois de mostrar que as duas formas poderiam ser utilizadas para se chegar ao mesmo resultado é que o professor apontou a falha na operação realizada por um dos alunos e disse qual o resultado correto. (Relatório de observação prof. 12). Todas as atividades desenvolvidas durante o período de observação apresentaram características de ensino baseado na transmissão de conhecimentos. Os/as professores/as apresentavam os conteúdos verbalmente dando explicações sobre o tema ensinado, em conformidade com os textos dos livros didáticos, especificamente o manual do professor. As orientações para a realização das atividades eram dadas para toda a classe ou junto aos alunos/as que as solicitavam. A maioria das informações sobre os conteúdos foi centrada na fala do professor/a e nos livros didáticos por eles utilizados. Como no registro apresentado a seguir: A professora ficou restrita ao que dizia o texto sobre paralelos e meridianos [..] A professora desenhou no quadro um círculo e fez linhas horizontais e depois verticais, e explicou: “As linhas imaginárias dividem o globo em dois hemisférios. O Trópico de Capricórnio está no hemisfério sul ou norte? Sul. Os meridianos...”. [...] Enquanto a professora explicava o conteúdo a maioria dos alunos acompanhava com atenção suas explicações... (Relatório de Observação prof. 1) Os registros de observação das atividades desenvolvidas pelo professor foram marcados por características próprias de uma concepção “bancária” de educação a qual se explicitou acima. Ou seja, os conteúdos distanciados das vivências, experiências e saberes dos/as alunos/as desconsideradas no ensino dos conteúdos programados, o que resulta na negação da condição de sujeito que a criança deve ter na construção de seu conhecimento. Analisando as estratégias utilizadas pelos/as professores/as percebeu-se que os professores/as não sabem conciliar o ensino dos conteúdos com as 68 necessidades de aprendizagem, e com as experiências e vivências dos/as alunos/as, ou não recebem orientação para fazê-lo. Talvez recebam orientações de quais conteúdos devam ensinar e não de como tornar o ensino parte da vivência das crianças e de vincular a aprendizagem escolar à vida dos/as alunos. “Na concepção bancária da educação, o conhecimento é um dom concedido por aqueles que se consideram como seus possuidores àqueles que eles consideram que nada sabem”. (FREIRE, 1980, p. 79). Neste sentido os saberes e experiências adquiridas fora do contexto escolar, tornam-se irrelevantes para o processo de ensino e aprendizagem. O respeito aos educandos requer considerar as experiências dos alunos/as e relacioná-las com os conteúdos trabalhados em classe. É necessário que o docente estabeleça relação entre o que está sendo ensinado e o que o/a aluno/a vivencia ou pode empregar fora do contexto escolar. É importante deixar claro para os/as alunos/as em que situações e momentos poderão aplicar o conteúdo trabalhado, como este conteúdo relaciona-se com o que ele vive. 3.1.5.2. Acompanhamento aos/às alunos/as na realização das atividades O acompanhamento aos/as alunos/as pelo/a professor/a nas realizações das atividades consistia basicamente em verificar se estavam copiando e se estavam resolvendo. Quando o/a aluno/a não compreendia a atividade ou não sabia resolvê-la eram dadas orientações adicionais. A situação mais comum era o/a professor/a andar por entre as carteiras observando todos os cadernos e quem realizava as tarefas. O professor passou de carteira em carteira olhando e orientando a resolução dos problemas. (Relatório de Observação Prof. 12). De modo geral não havia acompanhamento especial, e nem proposta diferenciada de atividades para as crianças com ou sem dificuldades de aprendizagem. Em uma única situação observada a professora entregou uma folha mimeografada para um aluno que, segundo informou, não sabia copiar do quadro de giz. Mesmo entregando cópia mimeografada da atividade para o referido aluno não houve nenhuma orientação específica de como resolver a 69 tarefa, inclusive o/a aluno/a ficou sentado sozinho e afastado dos/as demais alunos/as e da professora. Um aluno sentado sozinho em uma carteira não realizava a atividade, a professora falou para ele: “Você é o único que não está fazendo a atividade”. Depois de dizer estas palavras, a professora se afastou do aluno e ele continuou sem realizar a atividade. (Relatório de observação prof. 11) Como muitos alunos desta classe ainda não estavam alfabetizados o tempo que levavam para copiar a atividade do quadro era muito grande. (Relatório de Observação Profa. 6). O acompanhamento realizado pelos/as professores/as aos diversos alunos/as em classe merece destaque. Segundo Perrenoud (2001) a escola fabrica o fracasso escolar. Para o autor, seriam três os aspectos responsáveis pela produção do fracasso escolar, um deles refere-se justamente ao apoio dado pelo/a professor/a aos educandos. Se os/as alunos/as são diferentes entre si, possuem ritmos de aprendizagem, apoio familiar, interesses, e experiências diferenciadas, seria coerente que a ajuda proporcionada pelo docente também se diferenciasse. Destinar ensino e apoio igual a todos as crianças é reforçar a diferença inicial. Perrenoud sugere ainda que “para que todos os alunos alcancem o domínio dos saberes e savoir-faire fundamentais, é preciso diferenciar o ensino, individualizar as aprendizagens”. (2001, p. 49). 3.2 - Análise das Entrevistas Nas treze entrevistas realizadas nas duas escolas, os questionamentos feitos aos/às professores/as relacionaram-se a: o que pensam sobre os/as alunos/as provenientes de camadas populares; a relação entre aluno/a X aluno/a e entre professor/a X aluno/a; as práticas pedagógicas desenvolvidas em sala de aula e sobre as famílias dos educandos. 3.2.1 - Dados gerais dos/as entrevistados/as Os/as professores/as entrevistados/as são funcionários/as da Rede Pública Municipal de Ensino Fundamental do Município de Marabá, Pará, lotados/as em duas escolas, ambas localizadas na periferia da cidade. Dos/as 13 (treze) professores/as entrevistados/as, 12 (doze) são do sexo feminino e 01 (um) do 70 sexo masculino. A idade da maioria dos/as entrevistados/as está na faixa etária entre 31 a 40 anos. Assim distribuídos: 02 (dois) na faixa etária de 25 (vinte e cinco) a 30 (trina) anos, 07 (sete) de 31 (trinta e um) a 40 (quarenta) anos, 03 (três) de 41 (quarenta e um) a 50 (cinqüenta) anos e, 01 (um) com idade entre 51 (cinqüenta e um) e 60 (sessenta) anos. Quanto à formação acadêmica, verificou-se que 06 (seis) professores/as possuem apenas formação em Ensino Médio Magistério, e 07 (sete) com nível superior completo, sendo 06 (seis) com graduação em Pedagogia e 01 (um) com graduação em Letras. Nenhum/a dos/as entrevistados/as possui qualquer curso de pós-graduação. Como se vê é relevante o número de professores/as com formação em nível superior. Este dado gera expectativa quanto à prática pedagógica e as percepções apresentadas pelos/as professores/as. Em conseqüência deste fator acreditava-se que haveria respostas mais elaboradas e uma prática pedagógica baseada em pressupostos teórico-metodológicos claros e conscientes. Esperavase que os/as educadores/as graduados/as apresentassem respostas mais consistentes que os/as professores/as com formação em nível médio. Entretanto, não foram percebidas diferenças relevantes entre as percepções dos/as professores/as de nível educacional diferente. O alcance desta pesquisa não permite aprofundar sobre a formação recebida pelos/as professores/as nas instituições que se graduaram, ou de processos de formação continuada, mas é importante fazer este registro e lançá-lo como um questionamento quanto à qualidade da formação que os educadores/as têm recebido. Segundo Mello (2004) e Perrenoud (2001), a formação inicial e continuada não atendem às necessidades dos/as professores/as, dos quais, atualmente, se exige mais em função de uma nova configuração social, de novas exigências feitas ao sistema educacional. Em estudo sobre formação de professores, Bittencourt (2003) ressalta que a proposta de universalização do ensino fundamental não implicou apenas em aumento do número de alunos/as nas escolas, essa mudança trouxe outra conseqüência para o sistema de ensino: aumentou a demanda por profissionais do magistério. Entretanto, segundo Bittencourt (2003), a expansão da 71 escolarização aconteceu sem o aumento de investimentos no sistema de ensino público, o que resultou em “deterioração dos salários e das condições de trabalho dos profissionais da educação” (2003, p. 70). A formação do professor sofreu uma aceleração em algumas instituições privadas financiadas por verbas públicas, muitas vezes, tornando-a inadequada. Quando chegam às escolas estes profissionais passam a acumular carga horária de trabalho, em muitos casos em escolas diferentes, na tentativa de garantir um rendimento razoável, suficiente para seu sustento. 3.2.2 O que pensam os/as professores/as sobre os/as alunos/as provenientes de camadas populares 3.2.2.1 Caracterização dos/as alunos/as pelos/as professores/as Ao serem solicitados a caracterizar seus/uas alunos/as, os/as professores/as fizeram referências ao modo de vida, às famílias, às dificuldades financeiras das famílias, ao acompanhamento dado aos/às alunos/as por suas famílias e ao comportamento das crianças dentro e fora da escola. Somente um/a entrevistado/a fez referência a características individuais dos/as alunos/as, além de falar da carência das famílias, como mostra a transcrição: Assim, em função de famílias carentes. Bem carentes. Eu percebo assim, que eles tem muita coisa pra aprender. Como, por exemplo, comportamento, eles não têm regras, sabe? [...] Eu percebo que... Eles gostam de tudo o que está na televisão, por exemplo: das novelas, das músicas, da atualidade do momento. Coisa de comer é o que os adolescentes, jovens gostam, né, então eu percebo isto assim. (Prof. 8). Os entrevistados foram quase unânimes em afirmar que os/as alunos/as são de origem humilde, de famílias carentes, ou seja, com situação socioeconômica menos favorecida. A origem sócio-econômica das crianças foi associada à dificuldade de aprendizagem dos conteúdos e ao comportamento considerado inadequado. Dez entrevistados/as disseram que os/as alunos/as recebem pouca, e em alguns casos, nenhuma atenção de seus pais, por isso estes/as seriam “carentes de tudo”, de bens materiais e de afeto. A falta de limites no comportamento das crianças e até o fracasso escolar, foram outros aspectos ligados às condições financeiras, como se vê nos relatos colhidos: 72 A maioria de meus alunos, eu vejo assim, que eles não têm a atenção que deveriam ter de seus pais. Né, tanto que às vezes eu vou conversar com aqueles que são mais agressivos, tem mais dificuldades, às vezes não aceitam trabalhar em grupo. (Prof. 1) Eles são bastante carentes, a maioria né? A maioria todos lá da Folha 35 [bairro de Marabá], a gente precisa trabalhar higiene com eles, a união que eles não têm muito, assim, aquela questão de disciplina, eles são muito indisciplinados, falam muitos palavrões. Eles são carentes em geral, de carinho, de atenção, de alimentação, higiene, tudinho eles são carentes. São 39 alunos, né? E desses 80% necessita da gente de estar ajudando eles nessa questão, respeitar um ao outro, de não brigar, de xingar, de subir em cima das coisas, das cadeiras. Qualquer coisinha pra eles, eles vão aos murros, não sabem conversar, dialogar. (Prof. 9) Aqui desta escola os aluno de todas as séries são de famílias bem carentes, de pais que não acompanham as tarefas, o desenvolvimento dos filhos. Pessoas sem esclarecimento de seu papel de pai. Meninos que vêm sem material, acontece muito isso, fica a aula, às vezes, inteira sem realizar as tarefas, porque não trouxe lápis, não tem caderno, porque o pai não pode comprar, às vezes, a gente arruma na secretaria, e às vezes não tem, e aí a gente vai levando. Vai fazer o quê, né? (Prof. 5) Dentre os/as dez entrevistados/as citados anteriormente, um/a afirma que é difícil trabalhar, ao mesmo tempo, com todos os tipos de crianças. Para este/a entrevistado/a a maioria de seus/uas alunos/as passam muito tempo na rua, não recebem orientações adequadas em casa e se comportam na escola de acordo com sua vivência em casa e na rua. Os/as alunos provenientes de famílias consideradas organizadas, com normas e horários estabelecidos, são considerados educados e respeitosos. Segundo este entrevistado/a, precisam ser protegidos dos/as demais: A maioria deles são crianças com deficiências, são crianças que vivem na rua praticamente o dia inteiro, praticamente não têm horário pra entrar em casa. São crianças que ficam o tempo todo descalças. [...] são tão poucos os alunos que você vê banhadinho, arrumadinho, que tem aqueles critérios em casa, que tem horário pra entrar, tomar banho, comer, são poucos esses alunos. E esses, é claro, são os que menos dá trabalho pra gente, são os que se desenvolvem mais rápido, a sua leitura, a sua escrita, são alunos educados, que te respeitam, que respeitam os horários da escola, que respeitam todo mundo, que não ficam naquela correria, naquela bagunça, eles se preservam mais, eu acredito. Porque esses outros são os que avançam, os que batem, os que agridem, que xingam e que têm dificuldade de aprendizagem. A gente tem de preservar as outras crianças, porque esses aprendem muitas coisas na rua e trazem isso pra dentro da escola. E quando chegam em casa, também, tem a agressão do pai e da mãe, que bebem muito, que se drogam, nós temos muitas famílias aqui com essas tendências. [...] Agora, como é que a escola vai mudar isso? É difícil pro professor. Às vezes não comem, reclamam. Tudo isso a gente sabe que é caso social, que é difícil de resolver. Isso repercute na sala de aula, não tem jeito. Fica difícil de trabalhar com todos esses tipos de crianças, com todos esses tipos de dificuldades. (Prof. 13) 73 Em suas declarações, os/as entrevistados/as indicam relação entre a condição social das crianças e determinados comportamentos, que vão desde a dificuldade de aprendizagem, de trabalhar em grupo, até o comportamento agressivo e “inadequado” do/a aluno/a, inclusive o respeito aos/às professores/as, demais funcionários da escola, colegas de aula e aos próprios pais. A questão do respeito para com todas as pessoas, com os colegas, com os funcionários da escola, porque tem muita criança que vem de casa totalmente crua nesta questão do respeito, não respeita ninguém, xinga todo mundo. Acho que isso em casa os pais têm uma responsabilidade muito grande, essa questão já vem de casa, cabe à escola lapidar isso, organizar tudo direitinho. (Prof. 12) Por outro lado, quatro professores/as dentre os dez já mencionados, afirmam que apesar de praticamente a totalidade dos/as alunos/as ser de origem pobre, com pais que não acompanham seus estudos, muitos/as alunos/as têm interesse em estudar e aprender. Afirmam ainda que a maioria alcança os objetivos pré-estabelecidos no plano escolar, como na fala destes/as entrevistados/as: Alguns são bem interessados, sabe, gostam de estudar (Prof. 8) Tem muitos alunos que gostam de estudar, né?! Tem uns que gostam mais de matemática, outros de português. Tem outros que não gosta tanto de estudar, gostam é de brincar, mas a maioria, graças a Deus, gosta de estudar, gosta de ler, às vezes comentam bastante a aula, faz pergunta.(Prof. 2) Apenas três entrevistados/as apontaram mais aspectos positivos do que negativos em relação a seus/uas alunos/as. Disseram que eram bons alunos/as, aprendem bem, bem comportados, amorosos. Apresentam algumas dificuldades e eventualmente envolvem-se em brigas, mas um comportamento normal para crianças, segundo estes/as professores/as. Meus alunos... Eu considero bons alunos, eu considero bons alunos, desenvolvem as atividades. Não têm muitos casos de agressões físicas em sala de aula, poucos momentos, coisas de crianças mesmo. E em relação à aprendizagem, eles estão bem na turma. E o comportamento também é bom. Eu procuro levar da melhor maneira possível, compreendendo a situação deles no momento, eu levo em consideração que eles são crianças e que precisam de acompanhamento para que eles possam ser alguém no futuro e que depende muito do professor. (Prof. 7) São crianças amorosas, né, amorosas e prestativas. E também eu vejo assim que elas têm um pouco de dificuldade. E faltam, tem alguns que faltam às aulas, mas eles são alunos bem prestativos (Prof. 6). 74 A caracterização dos/as alunos/as, pelos/as professores/as, restringiu-se a consideração de suas origens socioeconômicas. Os professores praticamente não fizeram alusões aos gostos e preferências dos alunos. Ao solicitar aos professores/as que caracterizassem os/as alunos/as esperava-se referências às preferências e até mesmo à aparência dos alunos. Comentários alusivos a: gostam de jogar bola, de pintar, de cantar, de freqüentar as aulas, de conversar, assuntos que conversam, quais programas de televisão assistem, que tipo de música apreciam, de quais danças, quais jogos e brincadeiras, e tantas outras características que poderiam ser descritas, eram esperados. No entanto, os comentários restringiram-se a origem familiar e social das crianças, como se isso bastasse para descrever suas características. Sabe-se que é senso comum considerar famílias desfavorecidas como portadoras das mais diversas mazelas e como famílias desestruturadas (MCLAREN 1997, PATTO 1996). Nestes depoimentos, pode-se afirmar que, os professores não estão enxergando seus/as alunos/as e sim as famílias deles. Ou seja, estão olhando para o que eles/as, professores/as, consideram ser a causa das mazelas que as crianças sofrem. Como se afirmassem, e o fazem em respostas a outras questões, o efeito lógico de uma origem pobre e uma família “desestruturada” é o insucesso escolar. O fracasso escolar das crianças é creditado, quase que na generalidade, às mazelas sociais. O/a professor/a que percebe o/a aluno/a como portador/a de carências, e não como criança ou adolescente capaz de aprender, inteligente, dinâmico/a, e participante de uma cultura diferente, dificilmente se relacionará de forma igualitária com esses alunos/as, tampouco investirá e acreditará na capacidade deles/as, se responsabilizando pelo seu desenvolvimento e aprendizagem. Quando se olha para o outro e o enxerga como inferior é difícil estabelecer uma relação de interação, de igualdade e responsabilização pelo outro. “... só entendemos o outro a partir de nossa mente [...], do que facilmente segue a subordinação do outro. Levar a sério o outro, em particular sua diversidade, é um dos desafios maiores da convivência humana”. (DEMO, 2005, p. 10). Pode-se deduzir das afirmações dos/as entrevistados/as as conseqüências das relações estabelecida entre eles/as e os/as alunos/as para a aprendizagem. Como afirma Perrenoud (2001), para que haja aprendizagem o educando precisa 75 sentir-se respeitado como pessoa e ter seus hábitos, sua identidade, sua cultura respeitados, precisa sentir-se valorizado e amado. Ao atribuir as dificuldades de aprendizagem e o comportamento inadequado em sala de aula, à origem socioeconômica dos/as alunos/as, o/a professor/a expressa a concepção de que seus alunos deveriam ser diferentes do que são. Deveriam apresentar comportamentos e ser provenientes de famílias estruturadas, mas o que fazer com alunos/as tão diferentes dos considerados ideais? Comportamento educado neste contexto, sugerido pelo/as professores/as, corresponde ao tom de voz baixo, ao uso de palavras e atitudes consideradas símbolo de boa educação como: “licença”, “por favor”, “obrigada”, e atitudes respeitosas como não gritar, não correr na sala de aula, seguir todas as orientações do/a professor/a. A exceção a esta predominância negativa de representação dos comportamentos dos/as alunos/as partiu de apenas três professores/as, os quais apresentaram aspectos positivos. Porém, restringiram-se a comentar algumas características positivas de seus/suas alunos/as e que as atitudes negativas eram comportamentos próprios de crianças. Perguntados sobre aspectos considerados bons e aspectos ruins em seus/uas alunos/as, os/as entrevistados/as apresentaram opiniões variadas. A vontade de aprender, o interesse nas aulas foi apontado por três professores/as como aspectos positivos. Em uma das respostas há certa admiração em relação a este interesse por parte de alguns/mas alunos/as, considerando suas vidas familiares. A vontade de aprender. É... De bom? Eu acho que é isso, que apesar das dificuldades que eles enfrentam em casa, aqui mesmo na escola, mas assim... Da gente terminar o ano e ver o resultado que eles aprenderam, que conseguiram. (Prof. 5) Outros/as três professores/as admiram o companheirismo que há entre os/a alunos/as, e o tratamento afetuoso entre eles e com o/a professor/a. Acho que... o jeito deles ser, de tratar um com o outro, a professora. Quando a gente ta conversando com eles, eles prestam atenção. (Prof. 6) Acho que é a amizade entre eles, o querer um ao outro assim, entender, às vezes o colega chega com um problema e eles querem estar ajudando, o companheirismo. (Prof. 8). 76 Os demais professores/as apresentaram características diferentes apreciadas nos alunos/as. Em uma das respostas foi enfatizada a perseverança nas atividades quando o tema/conteúdo é apreciado pelos alunos/as, foi destacada também a sinceridade nos sentimentos das crianças, a inteligência e, por último, o respeito demonstrado pelo/a aluno/a ao/a professor/a. com o professor eles têm respeito, todos (Prof. 10) Não sei se pelo padrão de vida que eles levam, mas eu acho que eles são muito sinceros, em tudo o que eles passam pra gente a gente vê sinceridade. (Prof. 12) Inteligência. (Prof. 2) Em relação a aspectos, considerados pelos/as professores/as, ruins nos/as alunos/as foram apresentados a falta de interesse em aprender os conteúdos ensinados em sala de aula, resposta dada por dois/uas entrevistados/as. Em outras duas respostas aparece a falta de interesse em aprender, mas como uma conseqüência da falta de acompanhamento dos pais na educação dos/as filhos/as. De ruim, a falta de vontade de aprender, não sei se é a idade deles, tem uns que não mostram muito interesse em aprender. (Prof. 3) E o interesse, que não é por parte de toda a turma, mas sempre há aquela falta de interesse muito grande por parte de uns 20% da turma, que acho uma coisa ruim para toda a turma. A questão financeira que o pai não tem pra ajudar os filhos, isso atrapalha muito aqui na escola, as crianças virem sem materiais, vir mal trajadas às vezes, vir descalço. Isso atrapalha muito. (Prof. 5) Agressões físicas e/ou verbais foram um dos aspectos citados. Dois/uas entrevistados/as afirmaram que a violência vivenciada por alguns/mas alunos/as é repetida no ambiente escolar. Ruim é só essa violência, né? Que é o que eles vêem! É o que eles presenciam e o que eles fazem. Eles não são violentos comigo, mas com os colegas sim, entre eles, não todos, aqueles que os pais não comparecem. (Prof. 10) O que não é tão bom? Quando acontece caso de agressão física ou verbal. (Prof. 7) Para dois/uas entrevistados/as os/as alunos/as não apresentam aspectos negativos, mas sim a vida que estes/as levam. A dificuldade de trabalhar em equipe, cooperar em trabalhos escolares seria uma característica negativa de alguns/mas dos/as alunos/as de um/a entrevistado/a. A ausência constante de 77 alguns/mas alunos/as, que chegam a faltar um mês de aula, foi um problema focado por um/a professor/a. Apenas um/a entrevistado/a considera que não há aspectos negativos que pudesse citar em relação a seus/uas alunos/as. E de ruim as faltas, de alguns, não todos, porque aqui tem alunos que passa de 30 dias, um mês sem freqüentar, isso é ruim. O pai e a mãe não tem como... Às vezes nem é problema da criança, entendeu? É do pai mesmo que viaja e não vem dar uma comunicação à escola. (Prof. 6) De ruim acho que é o estilo de vida que muitos levam, eu acho que tem muitos que são carentes e a gente vive isso, né. A gente sente que isso influencia, acho que isso é um ponto muito negativo. (Prof. 12) Nas respostas de dez entrevistados/as evidencia-se, mais uma vez, que a representação dos/as docentes sobre os/as alunos/as é intrínseca à concepção que eles/as têm da família do aluno. Eles/as baseiam suas opiniões ao que os/as alunos/as aprendem em família, ao que vivenciam no meio externo à escola. Não se trata aqui de negar as carências materiais das famílias, a falta de acompanhamento ao desempenho escolar dos/as alunos/as pela família, tampouco, que estes fatores podem influir no rendimento escolar destes/as, e na formação da personalidade da criança. Entretanto, não podem ser tomados como únicos, ou, os mais importantes fatores intervenientes no desempenho escolar dos/as alunos/as, sequer reduzi-los à condição de reflexo de sua família. Assim procedendo seria reduzir estas crianças a sujeitos sem história própria, a meros repetidores da história de suas famílias, como se elas fossem unicamente produto do meio e ainda, como se o seu meio se reduzisse a aspectos prejudiciais ao seu desenvolvimento. Desta forma a escola se isentaria de ser parte deste meio social da criança. 3.2.2.2 - O comportamento dos/as alunos/as na escola Os/as entrevistados/as, ao descreverem situações na escola e em sala de aula apontam a agressividade como uma reação constante no comportamento das crianças carentes. Na maioria dos depoimentos a agressividade aparece ao ser mencionado o relacionamento entre os/as alunos/as. No entanto, somente três professores/as falam claramente da agressividade como uma característica própria de seus/uas alunos/as. 78 Os/as três entrevistados/as que citam a agressividade como uma das características de alguns/mas dos/as alunos/as, atribuem à convivência familiar esse tipo de comportamento, destacando casos de agressividade dos pais. Para esses/as entrevistados/as a criança que presencia situações de violência em casa, tende a se comportar de forma agressiva na escola, porque considera normal, já que a agressividade está presente no seu cotidiano. Se ele vê o pai bater na mãe quase todos os dia, chegando embriagado em casa pra ele é normal chegar na escola e bater no colega. Ele acha normal fazer isso. (Prof. 13). Com certeza, tem essas diferenças. Às vezes é o fator social, família né? Porque dependendo do ambiente é a criança, né. Você vê uma criança chegar na sala de aula e ser agressivo, pode ir na família que tem alguma coisa acontecendo por trás disso e eles trazem muito isso de casa para escola, eu percebo assim alunos que na família o comportamento dele é bom, ou seja quando a família não é desestruturada, uma família que tem uma outra estrutura, na sala de aula ele também tem outro comportamento. (Prof. 8) Quatro entrevistados/as declararam outros comportamentos inadequados, como: falar alto em sala de aula, gritar, conversar enquanto o/a professor/a expõe algum conteúdo e brincar durante as aulas. Todos estes comportamentos foram atribuídos às origens sociais das crianças. Eu trabalho com crianças que vem de uma comunidade bastante carente, né, eles costumam falar alto, eles costumam gritar de vez em quando, eles não tem postura assim quando vai conversar, você tem que trabalhar isso com eles, pra que eles possam ter modos, maneiras de respeitar regras: não pode isso, não pode aquilo. [...] Aqui tem de tudo, crianças educadas, impecável, e tem crianças que precisam todo um trabalho para adquirir novos conhecimentos pra poder se reeducar. (Prof. 4) São muito barulhentos, conversam tudo ao mesmo tempo, toda hora tem de estar chamando atenção, tem de estar pedindo para que eles levantem a mão pra falar, escutem os colegas, eles são muito assim, não tem essa de conversar, ouvir. [...] De ruim mesmo é só assim a falta de educação de muitos, que já vem assim, vem lá da família, as regras né, que não é trabalhada na família, os meninos... Espirrar em cima dos outros e às vezes ta dando tapa empurrando, isso aí eu acho ruim. (Prof. 8) Nem todos/as os/as entrevistados/as disseram que as crianças tinham comportamentos inadequados na escola. Para três professores/as os/as alunos/as se comportam bem. Olha essa turma eu peguei tem dois meses, mas eles se comportam bem. Não tem negócio de briga em sala de aula, negócio de ficar saindo da sala de aula. O comportamento deles... São bem comportados. (Prof. 6) 79 O comportamento deles é igual a todos os alunos que eu já tive, normal, entendeu, me respeitam muito bem [...] são excelentes alunos, na parte de comportamento. (Prof. 9) Para outros/as dois entrevistados o comportamento dos/as alunos/as, de uma maneira geral, foi descrito como bom. À exceção de uns dois ou três alunos/as os quais apresentaram atitudes inadequadas, com relação ao horário das aulas, brincar durante as aulas, conversar bastante, andar pela sala. O comportamento deles é bom, tem uns dois meninos só que são meio... Tem um comportamento... Mas não é um comportamento agressivo de bater, é um comportamento normal de criança, de levantar, gritar, às vezes, implica com o colega, coisa normal de criança. (Prof. 3). Diferente dos/as demais entrevistados/as um/a professor/a comentou que as crianças, às vezes, se comportam bem e, às vezes, mau, dependendo da atividade desenvolvida em sala de aula. Se for uma atividade apreciada por elas o comportamento é bom, participam ativamente da aula, mas se a atividade não for do interesse dos/as alunos/as eles não se comportam tão bem. Tem dia que se comporta muito bem, mas tem outros dias que realmente é difícil. Porque tem... Muitas vezes você tem... Quando eles gostam da aula eles se comportam bem. Quando a aula é desenho, produção de texto que eles fazem o desenho, eles se comportam bem. E a matemática... Fazem problemas, inclusive incluindo o nome deles, eles gostam. Tem deles que trabalham vendendo chop [suco, artificial ou natural congelado em saquinhos de plástico, em algumas regiões é conhecido por chup-chup, laranjinha, geladinho, etc], vendendo bolo e a gente fala do trabalho deles. (Prof. 2) Pela primeira vez um entrevistado/a refere-se às atividades desenvolvidas em sala de aula como um dos fatores responsáveis pelo comportamento inadequado dos/as alunos/as. Contudo, a maioria dos/as professores/as volta a se referir à família como responsável pelos comportamentos agressivos e outros considerados inadequados na escola. Outro aspecto importante é o fato de quatro professores/as considerarem inadequados os comportamentos como falar alto, gritar, manter conversa paralela enquanto o/a professor/a explica algo, ou brincar durante a aula. Estes comportamentos foram claramente vinculados às origens sociais das crianças, pelos/as entrevistados/as. Mais uma vez a família e o grupo social ao qual o/a aluno/a pertence é considerado inadequado e responsável pelo conflito entre o que a escola espera de seus/uas alunos/as e o que estes/as alunos/as sabem e 80 vivem. Nota-se o preconceito e depreciação em relação aos comportamentos diferentes em contraposição aos comportamentos valorizados pela escola. Brincar não pode ser sempre considerado inadequado, conversar alto depende da situação. Há situações em que precisa-se falar baixo ou alto. Entretanto dentro do ambiente escolar se considera todas estas atitudes como erradas, inadequadas. Os/as professores/as não ponderam sobre as diferenças e adequações ou inadequações dos comportamentos que os/as alunos/as manifestam. Ao invés disso inapropriadamente tacham de errado tais atitudes e logo querem ensinar à criança a ser igual ao modelo privilegiado pela escola. Seria interessante que os/as professores/as ressaltassem que falar alto em certas situações é inadequado, não é o fato de falar alto por si que é inadequado. Brincar em certas situações pode ser inadequado, mas crianças devem brincar, inclusive na escola, é uma questão de reservar espaço, tempo e organização da atividade escolar. Apenas três professores/as referem-se à inadequação do horário em que as crianças andam, brincam, e conversam, sem dizer que estes comportamentos são resultados da convivência familiar dos/as alunos/as. E apenas dois/uas disseram que os/as alunos/as têm bom comportamento. A questão relevante a se refletir é qual a relação entre fatores como: comportamento em sala de aula, ambiente escolar, a relação entre professor/a e alunos/as, a relação dos/as alunos/as com todo o ambiente escolar, a relação do/a aluno/a com os conteúdos e atividades escolares, a relação entre a cultura do/a aluno/a e a cultura da escola. Considerar o comportamento dos/as alunos/as isoladamente pode-se concluir que eles/as não gostam da escola, ou não vêm para a escola para aprender e sim para brincar, mas pergunta-se: o que a escola tem feito para tornar o ambiente escolar atrativo para eles/as? O que a escola tem feito para a criança se sentir incluída, importante? O que a escola tem feito para ela se sentir valorizada e respeitada em sua condição de criança, pobre, e que de fato muitas vezes sequer recebe o apoio devido pelos pais, pela família? Dizer apenas que os pais, ou as próprias crianças são responsáveis pelo seu comportamento e interesse é eximir a escola em sentido amplo (professores/as, diretores/as, coordenadores/as, e demais funcionários/as da instituição), da responsabilidade 81 de fazer com que estas crianças independentemente de sua origem se sintam parte integrante do espaço “Escola”. Perguntados/as especificamente sobre a que fatores poderiam ser atribuídos às diferenças de comportamento entre os/as alunos/as, nove professores/as fizeram referência à falta de acompanhamento das famílias dos/as alunos/as, à falta de atenção em casa, às famílias desestruturadas, à vivência de situações de violência e agressões em suas famílias e a mães que abandonam seus/as filhos/as. Professores/as que haviam respondido, em outra ocasião que seus/uas alunos/as tinham comportamentos próprios de crianças e não havia muitas diferenças entre o comportamento dos/as alunos/as apresentaram contradições em seus depoimentos. Vai muito da casa deles. Tem alunos que vivem muito na rua e o comportamento deles é totalmente diferente daqueles alunos que têm os pais que se preocupam muito, porque tem uns palavrões, tem deles que... A gente vê que a criação em casa não é tão boa quanto a gente espera. A maioria dos nossos alunos eles tem comportamento razoável, sabe respeitar os colegas, a professora, já tem outros que fala com a gente como quem quer bater, fica humilhando a gente, fica querendo gritar, acho que em casa é daquele jeito com a mãe e quer fazer com a gente do mesmo jeito. (Prof. 2) Mas aí quando a gente busca, a gente nota que tem um pouco a ver com a família. Eu vejo assim... Às vezes tem também uns que o pai é alcoólatra... E traz problema não só no comportamento dele, mas como na pessoa dele por completo, afeta a criança de forma geral. (Prof. 11) É, tem criança na minha sala que ele faz de tudo para chamar atenção porque ele necessita de carinho. Que alguém vai lá converse com ele, faça um carinho. E as crianças que não tem acompanhamento familiar são as que mais dão problemas pra gente, que os pais não dão atenção em casa, que ele presencia atos assustadores, atrapalha o professor porque ele quer tá lá, ele quer falar com o professor, ele não tem segurança, ele quer ajuda de alguma maneira e não tem como. (Prof. 4) Um/a dos/as entrevistados/as salientou que mesmo estes/as alunos/as que não tinham acompanhamento adequado de seus pais, e apresentavam comportamento inadequado na escola, mudaram seu comportamento a partir do momento em que a inter-relação entre professor/a e aluno/a se intensificou, tornando-se mais afetiva. Eu acho que já melhoraram muito, porque eu passei a conversar. Na realidade, eu acho que já me tornei, de alguns amiga, eles chegam contando os problemas que eles têm em casa. As brigas, olha tia hoje aconteceu isso e isso em casa. Eles chegam, eles conversam sobre o que aconteceu em casa, no início quando eu entrei ela era uma turma mais... Essas crianças eram mais agressivas, agora não! Eles melhoraram muito, porque eles passaram a se relacionar comigo, a 82 contar coisas da intimidade deles, conversando com eles, aconselhando, eles melhoraram muito! (Prof.1) Dos/as entrevistados/as que apresentaram opiniões diversas, um/a afirmou não perceber grandes diferenças entre os/as alunos/as. Não tem grande diferença, não. No geral eles são basicamente iguais. Assim de comportamento... Eles conversam, não tem diferença, não. (Prof. 3) Outro/a atribuiu as diferenças de comportamento à faixa etária e ao gênero dos/as alunos/as. Acho que da faixa etária, né, porque eu trabalho aí... Tem de crianças com 9 anos até 21 anos, né, então a faixa etária. E as meninas, do sexo feminino, né, são mais comportadas, as mocinhas entre 14 e 16 anos e os meninos porque está mudando de voz, né, e aqui falo assim “vocês engoliram até um microfone” porque fala, mas mesmo falando baixo, mas o som né, é bem mais acentuado. Então há essa diferença sim, os meninos falam mais alto e as meninas mais delicadas, eu percebo isso. (Prof. 8) Uma outra opinião diversa das anteriores enfatizou diferenças pessoais entre os/as alunos/as como timidez e desinibição. Entretanto, apesar de fazer referências à personalidade dos/as alunos/as este/a entrevistado/a voltou a enfatizar a convivência familiar das crianças. Em alguns. Tem alguns que são bem expressivos, né, são bem comunicativos, e tem outros que são bem tímidos e a gente tem bastante dificuldade de se comunicar com eles, às vezes chega na hora da leitura, às vezes na hora de explicar eles abaixam a cabeça, são bem tímidos, aí eu acho isso difícil. A que atribui estas diferenças? Acho que a convivência deles em casa. (Prof. 6) Outra característica descrita pelos/as entrevistados/as, sobre alguns alunos/as, refere-se à falta de atenção durante as aulas. Ao serem questionados sobre este aspecto responderam que os/as alunos/as não demonstram interesse pela aula, ficam brincando. Dois/uas entrevistados/as esclarecem sua opinião: Eu acho que eles se comportam bem. Tem deles que eu acho que em casa eles não têm oportunidade de brincar e traz isso para escola... (Prof. 1) São muito barulhentos, conversam tudo ao mesmo tempo, toda hora tem de estar chamando atenção, tem de estar pedindo para que eles levantem a mão pra falar, escutem os colegas, eles são muito assim, não tem essa de conversar, ouvir. Eles não sabem ouvir e eu cobro muito isso porque [...] Causa mais problema, transtorno assim na aula, né, mais interrompe é a conversa paralela. (Prof. 8). Os/as professores/as não estabelecem relação entre o desenvolvimento das atividades com a desatenção dos/as alunos/as durante as aulas. Ao contrário, a desatenção é associada ao desinteresse em aprender dos educandos. Em 83 momento algum esta desatenção foi associada ao encaminhamento das atividades, à ausência de orientações adequadas para os/as alunos/as e de explicações referentes à importância e utilidade dos conteúdos trabalhados. 3.2.2.3 - A linguagem oral dos/as alunos/as Segundo os/as entrevistados a linguagem oral usada pelos/as alunos/as é uma das características mais evidentes de crianças oriundas de camadas populares. Quanto a isto os/as professores/as apresentaram percepções diversas. Para alguns a linguagem das crianças é um reflexo do contexto sócio-familiar, outros afirmam que a fala dos/as alunos/as é incorreta e precisa ser corrigida, e há aqueles que afirmam que é uma questão de regionalismo. O uso de palavras consideradas obscenas (denominadas pelos/as professores/as de palavrões), aprendidas no dia-a-dia, através da televisão e em casa junto à família, é também apresentada por oito professores/as entrevistados/as. Para estes/as professores/as, faz parte do papel como educador/a, corrigir os erros da fala e discutir a impropriedade do uso de palavrões. Uma das professoras acredita que se as crianças aprenderem a falar corretamente elas poderão ensinar seus pais a falarem de forma correta. Tem muitas crianças que do jeito que os pais tratam eles, eles usam isso dentro da escola, a gente se depara com situações absurdas em termos de palavrões, não sei se é porque eles presenciam isso em casa, mas eles usam muito isso em sala de aula e a gente se atém muito a isso, trabalha a questão do dicionário pra tá ajudando nessa questão da palavra errada, palavrão. E reajo da maneira mais natural possível, pra que não haja choque pra criança e utilizo muito o dicionário, pra trabalhar a questão ortografa, trabalhando o significado. A idéia é conscientizar mesmo que isso não é certo, não é legal, não está correto e vamos mudando isso aí. (Prof. 12) Tem uns que falam erradamente mesmo, só que a gente vai trabalhando e vai consertando. (Prof. 13) A maneira de falar... Aí você tem que conversar com ele, e falar... Não falar pra ele que ta errado, mas ensinar de uma maneira correta, como é que deve ser, porque ele pode ensinar pra mamãe de uma maneira que a professora ensinou na escola, que é correta. (Prof. 4). Surpreendentemente, embora quase todos/as os/as professores/as tenham formação em nível superior, este fator não significa que estejam mais preparados que os/as professores/as com formação em nível médio ao lidarem com as 84 diferenças culturais e valorização dos conhecimentos dos/as alunos/as dentro da escola. Os/as professores/as demonstraram ter conhecimento sobre a importância de valorizar e respeitar aos saberes dos/as alunos/as. Mesmo expressando concordarem com estes pressupostos se contradizem ao apontarem formas de corrigir a fala dos/as alunos/as. A maioria dos/as professores/as fala sobre valorizar os saberes dos/as alunos/as, em seguida referem-se à linguagem oral destes/as como incorreta e concluem afirmando que à escola caberia o papel de corrigir a linguagem do/a aluno/a através da ação pedagógica do professor/a, pois, aprendendo a falar corretamente os alunos/as poderiam ensinar a seus familiares. Um/a dos/as entrevistados/as defende o modo dos/as alunos/as falarem atribuindo às famílias as supostas inadequações da fala das crianças. O modo dos meus alunos falarem é ótimo. Tem uns alunos que tem umas falas que não é muito legal e que eles não aprendem na escola. [...] São coisas que ele não aprendeu na sala, são falas que eles trazem de casa pra escola, e eu não acho legal, como professora eu não acho legal. Tipo, eles vão falar: nós vamos, eles falam “nóis vai” neste caso eu converso com eles, não é assim é: nós vamos. Eu converso com eles a forma correta deles falarem, não assim repreendendo “isto tá errado!”. Eu tento falar com eles da melhor forma possível pra eles entenderem qual a forma correta pra eles falarem. Não adianta cortar a criança dizendo que isto tá errado, porque eles já vêm com essa fala, às vezes em casa é a forma que elas ouvem. (Prof. 3). Quanto à influência da televisão na linguagem dos alunos/as, foram encontradas divergências entre os/as entrevistados/as. Enquanto uns acreditam ser negativa a influência da televisão, outros afirmam que as crianças falam corretamente porque aprendem muito com a televisão e não com a família. No depoimento abaixo é possível identificar a insegurança de conceitos e concepções do/a entrevistado. Eles não têm muito erro na fala, porque acho que a televisão ensina muito, né? Quase ninguém mais conversa com pai mãe, mais é fora, televisão, vão aprendendo. Eles não conversam usando gíria. Não tem uma conversa vulgar, só palavrão mesmo. (Prof. 10) Já para outro/a professor/a as crianças têm uma linguagem adequada às suas idades. E não apresentam interferência da linguagem utilizada pela família. Eu acho que a linguagem deles tá de acordo com a série que ele se encontra. Geralmente a maioria dos meus alunos fala bem, eles não usam aquela 85 linguagem muito... A linguagem materna, de casa, tá entendendo? Eu acho que eles falam bem meus alunos (Prof. 1). Duas professoras fizeram referência ao regionalismo e às características da linguagem das famílias dos/as alunos/as. Uma destas professoras se referiu à linguagem dos/as alunos/as como reflexo da região em que vivem, a outra fez referência à influência da linguagem usada no bairro e na família dos/as alunos/as. A diferença entre ambas é quanto à intervenção feita pelo/a professor/a. A primeira defende a necessidade de ensinar às crianças a falarem corretamente, e a segunda acredita que as crianças irão aprender outras linguagens mais adequadas ao ambiente escolar ao longo do tempo. Eu acho que a maneira de falar deles... É normal, não considero errada. De jeito nenhum, eles falam normal pra cultura daqui da região, pra realidade de vida que eles vivem, que a gente vê que são crianças de famílias carentes que não são famílias que têm uma linguagem culta, são pessoas que falam mesmo uma linguagem bem regional, e aqui a gente mesmo não usa essa linguagem culta, aqui no bairro ninguém, e eles não têm essa convivência, não têm esse contato, com essa linguagem assim... Eu digo aquela que eles vão tá aprendendo no decorrer da vida dele, sua vida educacional, mais na frente eles vão ver que muita coisa eles vão ter que falar diferente, mas hoje pra idade deles, pro que eles vivem, é normal a maneira de falar. (Prof. 5) Como se pode observar das percepções acima apresentadas, a distância entre a linguagem da criança e da escola perpassa todas as respostas dos/as professores/as. Seja por um ou outro motivo tais representações indicam que as crianças precisam aprender a “falar corretamente”. Seja com maior ou menor tolerância pela forma e pela expressão da fala da criança, as respostas indicam que os/as alunos/as, na visão docente, precisam apropriar-se da linguagem da escola, da linguagem padrão, pois que a linguagem aprendida, principalmente com a família, é inadequada. Esta inserção da linguagem da escola em substituição à linguagem do/a aluno/a inscreve-se como importante missão educativa. Tudo isto confirma que a linguagem é um fator importante dentre os desafios enfrentados pelo processo educativo. Não é por acaso que a questão da linguagem está presente nos mais diversos estudos sobre desenvolvimento escolar de crianças, notadamente nos obstáculos que a linguagem representa às crianças de diferentes estratos e segmentos sociais. 86 Bourdieu (2005) identifica os obstáculos que crianças oriundas de classes populares enfrentam nos primeiros anos escolares por conta dos choques entre variedades lingüísticas. Entre a língua materna da criança e a linguagem formal imposta pelos padrões lingüísticos da escola. 3.2.2.4 - As relações dos/as alunos/as na escola Perguntados/as sobre a relação dos/as alunos/as com a escola os/as entrevistados/as descreveram um quadro de bom relacionamento. Para a maioria os/as alunos/as são freqüentes, pontuais, demonstram ter cuidados com o ambiente físico, mobiliários e equipamentos da escola. Nas escolas pesquisadas não são oferecidas nenhuma atividade extra-classe. Desta forma não há oportunidade para os/as alunos/as freqüentarem a escola fora do horário das aulas. Para cinco professores/as a maioria dos/as alunos/as é assídua, enquanto alguns/mas faltam muito, por diversos fatores. Foram citados casos de trabalho infantil, desinteresse dos pais em verificar se os/as filhos/as freqüentam ou não as aulas, alunos/as que saem de casa para a escola e não comparecem às aulas. Foi citado também que a equipe de direção da escola já solicitou a intervenção do Conselho Tutelar para evitar a continuidade das faltas excessivas destes/as alunos/as. Eles são freqüentes, mas tem uns cinco alunos que faltam demais às aulas, nunca pode se dizer que a turma toda. Esses que faltam demais são justamente aqueles alunos que os pais não se preocupam, ou às vezes saem de casa e diz que vai para escola e no caminho não vai, eu sei de pelo menos um que diz que vai pra escola e não vai. (Prof. 1) São razoavelmente, têm boa freqüência, uns faltaram por motivo de doença, por médico, por dentista e por motivo de doença, outros porque acho que a família não se importam muito, no caso de dois irmãos, um até desistiu e o outro porque acho a família não importa muito com ele. (Prof. 8) Sempre tem uns casos, hoje acho que o problema maior da freqüência é da assiduidade. Há uns poucos casos em que as próprias crianças ajudam as família vendendo produtos, vendendo coisas, e os pais tiraram as crianças no horário da aula pra ta fazendo isso e isso foi que prejudicou, inclusive tem alunos que vão ficar retidos por falta. Durante o ano letivo a gente chamava o pai, a mãe, participava, né, sentava, e alguns pais chegaram a assinar um Termo de Responsabilidade dizendo que não iam mais tirar o filho na hora da aula pra ta fazendo isso, mas permaneceu. O conselho Tutelar foi ativado, mas continuou, então vai ficar alguns alunos retidos por causa disso, né. (Prof. 12) 87 Outros/as quatro professores/as afirmaram simplesmente que seus/uas alunos/as são freqüentes. Meus alunos são freqüentes. (Prof. 7) Os que estão aí até hoje são. (Prof. 3) Apenas um/a professor/a afirmou que seus/uas alunos/as faltam muito. Este problema, segundo este/a entrevistado/a, não se restringe à sua classe, mas um problema enfrentado por todos/as os/as professores/as da escola. Olha aqui, nesta escola não, eles faltam muito, muito mesmo. E não só na minha sala, como todas as salas enfrentam este problema. Até, inclusive a diretora tá sempre chamando o Conselho, notificando pais por causa deste problema, falta de alunos. (Prof. 5) Já a pontualidade parece não ser um problema enfrentado nas duas escolas. Todos os/as entrevistados/as afirmaram que seus alunos/as são pontuais, declarando que os casos de atrasos são, normalmente, justificáveis. Às vezes atrasam quando têm algum motivo, e eu aceito porque a partir do momento que o aluno vem, nem que seja meia hora passar na sala de aula, já é vantagem para ele. (Prof. 2) Parece contraditório afirmar que os/as alunos/as são freqüentes e pontuais às aulas. Se estes/as alunos/as carecem de atenção dos pais, se os pais não são atentos com as obrigações de manter seus/as filhos/as na escola, não se preocupam com a escolarização de seus/as filhos/as, seria conseqüência esperada que os/as filhos/as não fossem assíduos as aulas, tampouco pontuais. Mesmo porque as famílias das crianças foram, em diversas falas, classificadas como desorganizadas. É difícil acreditar que estas crianças tenham autonomia e responsabilidade suficientes para freqüentar as aulas e serem pontuais, sem a autoridade e acompanhamento da família. A não ser que os/as alunos/as gostem tanto da escola que não seja necessário que os familiares exijam sua freqüência. Perguntados se os/as alunos/as eram cuidadosos com o ambiente escolar, foi citado que no início do ano letivo os alunos/as sujavam as paredes da escola, riscavam e estragavam os móveis, entretanto, segundo os respondentes, os/as alunos/as são atualmente muito cuidadosos. Os motivos para a mudança de comportamento foram associados ao trabalho do/a professor/a em sala de aula, e também pela intervenção da equipe de direção da escola. 88 Sim, até mesmo porque aqui é muito trabalhado isso pela direção da escola. É imposto mesmo, e quando acontece algum desvio ela tá sempre cobrando, aí eles têm aquele cuidado em preservar. (Prof. 5) Nesta parte aí eu admiro muito eles, pode observar que a escola é conservada. Mas eles são muito cuidadosos. A postura ética deles dá pra levar tranqüilo, eles conservam, eles têm cuidado, eles não são de extraviar não, você pode olhar as salas, são bem cuidadinhas (Prof. 11) Às vezes, no inicio, quando eu cheguei né, às vezes eles arrancavam pedaços da cadeira, né, das carteiras, pra brincar porque as carteiras estavam descascando, né, tudo fórmica, né, aí eles arrancavam, ai eu fui conversando e parou, não aconteceu mais isso. Fizemos um trabalho, né, e fomos olhar né, o que estava escrito, aí muitos não gostaram porque estava com o nome deles lá, com palavrões, né, e não gostaram, então eu disse: “então vamos parar de fazer isto, né, porque ninguém gosta, né, tá o nome pichado na parede, e nas carteiras também”. Sete entrevistados/as que se referiram à falta de cuidado com o ambiente escolar, afirmaram que só alguns/as alunos/as eram responsáveis pelo descuido com os móveis e o espaço escolar. Estes/as entrevistados/as comentaram que foi necessário um trabalho de esclarecimento e convencimento aos/às alunos/as para cuidarem da escola e manterem-na limpa e preservada. Alguns sim, digamos que a maioria. Mas tem uns que não se preocupam, justamente eu estou trabalhando isso. Porque o aluno que se preocupa com a limpeza da sala vai se preocupar com a limpeza do ambiente a sua volta. (Prof. 1) De acordo com o relato dos/as professores/as os cuidados com o ambiente físico da escola são decorrentes de sua atuação junto aos alunos/as. Entretanto, no que diz respeito a questões como: o rendimento escolar dos/as alunos/as, o comportamento inadequado na escola, o desinteresse pelas aulas e atividades, e, o fracasso escolar, os/as professores entrevistados afirmaram que estas questões são referentes às famílias dos/as alunos/as, conseqüência da falta de apoio e participação da família na vida escolar dos/as filhos/as, independente da atuação do professor. - Relação Alunos/as X Alunos/as Os/as entrevistados/as afirmaram que o relacionamento entre os/as alunos/as, de uma maneira geral, é bom. Do total de entrevistados, seis professores/as disseram que os/as alunos/as têm um bom relacionamento 89 permeados por alguns conflitos, considerados normais na inter-relação entre crianças. A maioria é ótimo, mas tem outros que realmente... Como sempre na sala de aula, tem sempre daqueles que gosta de bater nos outros, e se acha o bonzão da situação, que acha que é melhor. Eu converso que não é assim que tem que tratar as pessoas. Se alguém diz alguma coisa comigo e eu não gosto, não sou obrigado bater nele ou ficar xingando. Se eu não sei conversar com ele é melhor ir falar com a professora e aí é a vez da gente interferir. (Prof. 2) [...] a gente vê que eles são coleguinhas, mas de vez em quando tá tendo atrito um com outro. (Prof. 4) Duas professoras afirmam que os/as alunos/as, de um modo geral, têm um bom relacionamento, porém algumas crianças não se relacionam bem com as demais, chegando a agredir fisicamente os/as colegas/as. Alguns, quer dizer, a maioria tem um bom relacionamento, mas tem uns dois ou três que eles não conseguem se relacionar com os demais. (Prof. 1) Outros/as três professores/as mencionaram apenas o bom relacionamento entre os/as alunos/as, a solidariedade, e o companheirismo que há entre eles. É bom, se dão bem, um ajuda o outro. Não tem essa diferença de desigualdade, Ah! Tu é isso, tu é aquilo, então eu não vou chegar perto de ti, tua família é isso, ou tua cor. Não existe isso na sala de aula. (Prof. 7). Uma única professora afirmou que os/as alunos/as, às vezes, são violentos/as com os/as colegas. Entre eles, às vezes são violentos. Brigam mesmo, é muita tensão, requer muita atenção. (Prof. 11) Ao falar sobre as intervenções feitas pelos/as professores/as para melhorar o relacionamento entre os/as alunos/as, todos/as afirmaram que o diálogo com os/as alunos/as é a intervenção mais adequada e mais eficiente para diminuir e dirimir as desavenças entre eles. Ah! Eu acho. Eu tento ser o mais humana possível, eu converso muito com eles, eu dou atenção pra eles, eu... Todo dia eu faço a roda de conversa pra eles colocarem o final de semana. Eu acredito que eu tenho um bom relacionamento com eles. (Prof. 4) Uma professora acrescentou que se o diálogo em sala não for suficiente para resolver a situação conflituosa entre os/as alunos/as, se justifica encaminhar o/a aluno/as para a supervisora ou a diretora da escola. Sugere que os pais 90 dos/as alunos/as sejam chamados à escola para uma conversa quando o diálogo na escola não for suficiente. Tento levar ao máximo, às vezes quando não dá mesmo pra ter o controle mesmo, total eu chamo a supervisora, chamo a diretora, elas chamam a criança, senta, conversa com o aluno, às vezes a gente dá uma atividade pra eles, outras vezes quando não dá mesmo aí a solução é mandar pra casa e chamar o responsável pra conversar. (Prof. 11) Como registrado durante as observações, os/as professores/as não apontaram nenhum elemento de grande perturbação ou relevância na interação entre os/as alunos/as. Disseram que há alunos/as que reagem agressivamente, mas são exceções, casos isolados. No geral os/as alunos/as se relacionam bem. Da interação entre os/as alunos/as pode-se concluir que brincam muito, e às vezes agridem-se verbalmente, mas nada que evidencie uma situação anormal, ou de intensa agressividade. Provoca uma reflexão o fato de em outras situações os/as professores/as relatarem tantos aspectos negativos em relação ao/a aluno/a e a sua convivência familiar e quando se referem ao convívio entre os/as alunos/as apresentarem um quadro de relacionamento bom, até mesmo harmonioso. Se as crianças convivem em lares tão “desestruturados”, como supõe alguns professores entrevistados, seria de se esperar que as interações entre eles/as também fossem afetadas pelos distúrbios familiares que afetam o rendimento e desempenho escolar do/a aluno/a, como foi citado em vários momentos das entrevistas com os/as professores/as. - Relação Professor/a X Alunos/as Todos/as os/as professores/as entrevistados/as afirmaram ter um bom relacionamento com os/as alunos/as. Ao descreverem seu relacionamento com os/as alunos/as, os/as professores/as relataram que ele é baseado no diálogo, no respeito mútuo, na amizade. eu tô achando muito bom meu relacionamento com eles, bem de amigo. Eles sempre contam os seus problemas, vêm e contam, confiam. Acho que é porque tá bom, tá confiando. (Prof. 8). Acho que é bom, acho que é recíproco, é uma troca, sou muito amigo deles e com isso dá pra levar o trabalho sem mais problemas (Prof. 12). 91 Meu relacionamento é bom, nunca briguei, nunca discuti. Eu acho que eu tenho até muita paciência, eu chamo converso, dificilmente eu mando pra secretaria, procuro resolver lá na sala de aula (Prof. 10). Uma professora afirmou que, embora o relacionamento fosse bom, diante de algum problema não resolvido através do diálogo, ela solicitaria a intervenção da supervisora ou da diretora. É amigável mesmo. Tento levar ao máximo, às vezes quando não dá mesmo pra ter o controle total, eu chamo a supervisora, chamo a diretora, elas chamam a criança, senta, conversa com o aluno. Às vezes a gente dá uma atividade pra eles, outras vezes quando não dá mesmo aí a solução é mandar pra casa e chamar o responsável pra conversar. (Prof. 11) Foram unânimes as respostas que apontam o relacionamento entre os/as professores/as e alunos/as como bom, baseado no diálogo e respeito. Todavia, os registros das observações não confirmam essa representação que os/as professores/as fazem de seus relacionamentos com os/as alunos/as. Foram registrados relacionamentos com pouco dialógico, pouco inspirado no respeito mútuo e mais baseado no poder de autoridade do/a professor/a ou mesmo na ausência da autoridade do/a professor/a, em alguns momentos em que os/as alunos/as literalmente faziam o que queriam em sala de aula, andavam saiam de sala sem autorização, não faziam seus deveres. Os/as professores/as que mais usaram de ameaças e repreensões aos/às alunos/as em sala de aula foram os que menos demonstraram ter um relacionamento afetuoso e baseado no diálogo e foram também os que menos demonstraram autoridade com os alunos/as, por isso lançavam mão do recurso da repressão. Em alguns momentos transpareceu que o/a professor/a, no afã de não ser autoritário, tornava-se sem autoridade com os/as alunos/as e, posteriormente, acabava utilizando-se do recurso da repressão. Situações onde convivem pessoas diferentes, provenientes de meios culturais, ou mesmo familiares diferentes, é comum que aflorem relações conflituosas. Circunscrevendo-se relação conflituosa aqui como divergências de opiniões, de costumes, de modos de agir e não como sinônimo de brigas, confrontos ou desavenças. Conviver com o diferente é difícil e conflituoso. Aceitar o outro em sua inteireza implica em aceitar que não se é portador da verdade, que existem outras verdades possíveis, diferentes das próprias e respeitar o outro e ouvi-lo sem os pré-conceitos da visão de mundo que todos têm. 92 Conviver com o diferente além de ser difícil, gera tensões. É na interrelação entre professor/a e aluno/a que afloram as dificuldades em conviver com o diferente. Assumir os conflitos como parte constituinte da relação estabelecida dentro da escola, não é negar a afetividade existente, não é negar que haja bom relacionamento entre professores/as e alunos/as. Assumir a existência do conflito possibilita evidenciá-lo para que haja o diálogo e a reflexão sobre as concepções divergentes que permeiam o grupo de pessoas heterogêneas que formam o coletivo da escola. O contexto escolar é multicultural, heterogêneo, cabe à escola, conforme afirma Canen (2001), responder a esta realidade cultural diversa, ou seja, contextualizar e “compreender a produção das diferenças” (p. 21). O/a professor/a tem suas preferências, é mais fácil gostar, se aproximar e apoiar aqueles/as alunos/as com comportamentos, hábitos e preferências mais parecidos com os do/a próprio/a professor/as. Entretanto, isso não significa que o professor intencionalmente faça “discriminações negativas” (PERRENOUD, 2001, p. 23). Para Perrenoud é através da auto-análise, a análise da própria prática e de sua cultura, que o/a professor/a poderá tornar-se consciente e mudar sua prática de sala de aula e de seu cotidiano. Trabalhar para eliminar as discriminações que porventura ocorram em sua inter-relação com os/as alunos e contribuir para formar cidadãos que reajam a toda forma de preconceito. 3.2.3 - Percepção do/a Professor/a sobre sua Prática Pedagógica 3.2.3.1 - Atividades desenvolvidas pelos/as professores/as Para os/as entrevistados/as os/as alunos/as apresentam ritmos diferentes de aprendizagem, referindo-se ao tempo necessário para cada aluno aprender os mesmos conteúdos. Nas palavras dos/as professores/as entrevistados/as os ritmos de aprendizagem correspondem a aprender mais rápido ou mais lentamente os conteúdos escolares. Ante a esta percepção perguntou-se: as atividades propostas aos/às alunos/as são as mesmas para toda a classe ou há uma diferenciação de atividades dependendo do ritmo de aprendizagem apresentado pelo/a aluno/a? 93 Nove entrevistados/as afirmaram que propõem atividades diferenciadas para alguns/mas alunos/as, ajustando as atividades ao ritmo de aprendizagem dos/as alunos/as. Depende do nível dos alunos. Eu tento diferenciar o máximo, né, os mais atrasados na leitura e na escrita não dá para acompanharem os meninos que já estão mais avançados. E os meninos que já estão mais avançados têm que continuar a aprender mais em relação ao que eles já sabem, aí tem que diferenciar as atividades. (Prof. 3) Eu trabalho de acordo com a necessidade de meu aluno, não todos os dias, mas um dia sim e um dia não eu separo tarefas. Para que todos possam avançar, porque nenhuma criança é igual à outra uma tem uma aprendizagem rápida, outro tem mais lenta e outro mais lenta ainda, então tem vários tipos de aprendizagem que eu percebo. (Prof. 4) Eu vou mais assim pela dificuldade de cada um porque nem todos são iguais [...] e eu percebi assim que as pessoas são diferentes, que aprendem de maneira diferente, quando é um conteúdo que dá, que é necessário pra todos aí sim, mas logo depois eu chamando de aluno por aluno e vou trabalhando aquela dificuldade. (Prof. 8) Uma entrevistada indica a necessidade de considerar as diferenças individuais de aprendizagem entre os/as alunos/as, entretanto, acredita que alunos/as provenientes de meios socioeconômicos desfavorecidos apresentam mais dificuldade de aprendizagem. Porque eles são diferentes, o aprendizado deles é diferente, tem uns mais adiantados, tem uns mais carentes, aí eu faço bastante atividades diversificadas pra eles. Os alunos mais carentes têm mais dificuldades?(Entrevistadora) Tem. (Prof. 10) Para estes/as entrevistados/as é necessário, também, acompanhar individualmente o progresso de cada aluno/a. Foram descritas algumas formas de acompanhamento individual ao desempenho dos/as alunos/as. Eu acompanho eles assim: eu faço atividade e vou olhando um por um, e vou vendo o que eles já sabem fazer, eu passo atividade pra eles de um em um, né, para ver o que aprendeu e o que não aprendeu. (Prof. 3) Os mais lentos tem que dá mais atenção pra eles, todo dia tem que tirar um tempinho pra conversar com eles. (Prof. 4) Porque tem que ver as dificuldades de cada aluno, e aqueles que eu vejo que tem muita dificuldade naquela disciplina trabalho aquela dificuldade que ele tem individual, aí tem que passar uma atividade diversificada. (Prof. 1) Um/a professor/a afirmou que considera difícil propor atividades diferenciadas para os/as alunos/as, embora exista esta necessidade. Três 94 outros/as respondentes trabalham as mesmas atividades com todos os/as alunos/as, e eventualmente propõem atividades diferenciadas. Sim. Às vezes sim, Às vezes temos necessidade de trabalhar com um certo grupo, mas no geral é isso, né. (Prof. 12) Trabalho, mas aí eu vou acompanhando aqueles que não estão entendendo bem eu vou lá converso com eles e passo uma leitura pra eles. (Prof. 2) Apenas quatro professores afirmaram que trabalham as mesmas atividades para toda a classe, os demais dizem diferenciar as estratégias de ensino considerando as necessidades de aprendizagem dos/as alunos/as. No entanto, as observações não confirmam as descrições de atividades diferenciadas para os/as alunos/as. Embora nove professores afirmem que há a necessidade - e até mesmo realizam atividades diferenciadas para os/as alunos/as dependendo do nível de conhecimentos destes/as e das características individuais e ritmos de aprendizagem - não foi registrado, durante as observações, atividades diferentes ou tratamentos diferenciados. O que foi presenciado foram atividades idênticas para todos os/as alunos/as resolverem ao mesmo tempo. Os/as alunos/as que concluíam primeiro sua atividade ficavam aguardando seus/uas colegas concluírem para então terem outra tarefa para realizar. Esta prática revela a acepção de que todos devem ter o mesmo ensino, devem desenvolver os mesmos conteúdos e o professor/a deverá seguir uma seqüência idêntica de conteúdos para todos/as os/as alunos/as na classe. Mas, porque os professores/as afirmam diferenciar as atividades e os conteúdos considerando a heterogeneidade do grupo? A inferência que se faz é que agem assim, representam e reproduzem este discurso, por terem acesso às elaborações teóricas que apontam que o ensino deve atender às diferenças de saberes e respeitar os ritmos de aprendizagem dos/as alunos/as. Esta conclusão é plausível porque na rede pública municipal de ensino de Marabá, a Secretaria Municipal de Educação implantou os “Ciclos de Aprendizagem” como organizador do sistema de ensino. A justificativa para os ciclos é justamente o respeito aos diversos ritmos de aprendizagem dos alunos. Exige-se dos/as professores/as que ensinem a todos/as os mesmos conteúdos, 95 ao mesmo tempo em que devem respeitar e atender as diversidades entre os discentes. Esta é mais uma situação que evidencia a força do currículo oculto. Os/as professores/as representam uma situação, afirmam que diferenciam o ensino dependendo dos interesses e necessidades de seus/uas alunos/as, e desenvolvem em sala o mesmo conteúdo, com as mesmas estratégias para todos os/as alunos/as. É possível que os/as professores/as não percebam suas contradições, ou não consigam fazer de outra forma. Não consigam alcançar o que é idealizado por pesquisadores da educação, quando estes estudos defendem que o ensino homogeneizado sempre exclui uma parcela dos estudantes, pois, sendo os/as alunos/as heterogêneos, o ensino deveria ser planejado considerando essa heterogeneidade sem transformá-la em diferenciação excludente (PERRENOUD, 2001). Ressalta-se que a diferenciação do ensino pressupõe professores/as qualificados/as, bem orientados/as e com apoio da equipe pedagógica da escola. O/a professor/a não recebendo apoio necessário e com formação inadequada não consegue sozinho/as alcançar estes objetivos. Mesmo tendo convicção de que este é o melhor caminho para alcançar a todos/as os/as alunos/as presentes no espaço escolar. Ainda em relação às atividades desenvolvidas em sala de aula pelos/as professores/as foi perguntado se estas atividades desenvolvidas possibilitariam aos/às alunos/as utilizarem os conhecimentos adquiridos em suas vivências cotidianas. Segundo as afirmações de quatro entrevistados as atividades na área, principalmente de matemática, possibilitam aos/as alunos/as utilizarem seus conhecimentos adquiridos fora do contexto escolar. Foi frisado que muitos/as alunos/as trabalham como engraxates, vendedores de “chop”, frutas e castanhas, recolhem e vendem carvão e, nessa vivência cotidiana, eles/as utilizam as quatro operações fundamentais da matemática: somar, subtrair, dividir e multiplicar. Por este motivo, segundo os respondentes, é possível propor situações em sala de aula que possibilitem a utilização pelos/as alunos/as destes conhecimentos matemáticos. Com certeza, tanto é que na questão, principalmente da matemática, a gente se atém muito nas operações voltadas para situações problemas, envolvendo a 96 própria realidade deles. Por exemplo: nós temos alunos que vendem tucupi, nós temos alunos que vendem frutas, que vão pra feira e lidam com dinheiro e na matemática, principalmente, a gente trabalha essa relação envolvendo isso que é a prática deles. (Prof. 12). Segundo demonstram os/as entrevistados/as, a dificuldade maior é trabalhar com outras áreas do conhecimento, como Língua Portuguesa, Ciências, Geografia e História, porque os/as alunos/as não têm vivência e/ou experiências com conhecimentos específicos destas áreas. Sendo assim o/a professor/a teria dificuldade em propor atividades nas quais os/as alunos/as possam utilizar seus conhecimentos prévios. É citado em uma entrevista o fato de que trabalhar conteúdos ligados à realidade do/a aluno/ pode limitá-lo, a entrevistada justifica que é preciso acrescentar novos conhecimentos a vida do aluno. Alguns textos têm a ver, outros não. Eu acho assim, na roda de conversa que a gente conversa, que a gente conversa muito, a gente coloca a realidade do aluno, quando você trabalha texto, você trabalha baseada no livro, então alguns combina com a vida de alguns, mas outros não combina, aí ele não fica aquele texto assim... Tem a ver mesmo com a realidade do aluno, até porque ele já vive uma realidade e a gente só colocar coisa baseada na realidade dele... Ele tem que conhecer alguma coisa... Tem que ouvir coisa diferente, histórias. (Prof. 4) Outra característica percebida na investigação é que os/as professores/as entrevistados partem do pressuposto que as famílias das crianças são pobres e esta pobreza, não raro, está vinculada a certa “desestruturação familiar”. As famílias não acompanhariam a vida escolar de seus filhos, daí os resultados escolares pouco promissores destas crianças. Representação semelhante foi explicitada em pesquisa do ambiente escolar realizada por Patto (1996). Nas representações apresentadas pelos/as professor/a sobre a cultura do/a aluno/a, o conhecimento e a maneira como ele/a aprende em sua convivência diária, denuncia que há desvalorização do meio social pobre da criança, das práticas e conhecimentos de origem popular. Estes conhecimentos só têm reconhecimento quando são considerados conhecimentos próximos aos transmitidos na escola, os saberes distantes e diferentes dos priorizados no contexto escolar não têm o mesmo valor. Moreira (2002) defende que não deve haver valoração desigual entre culturas eruditas e culturas populares. Diante deste pressuposto é que os/as professores/as devem partir da realidade cotidiana do/as aluno/as para construção do seu planejamento de ensino. O fato de se ter a cultura do aluno 97 como ponto referencial de partida não significa desconsiderar a cultura erudita, pelo contrário, deve-se permitir que o/a aluno/o transite pela cultura erudita, tenha acesso a ela, contudo, sem negar ou desvalorizar suas referências culturais originárias. O diálogo em sala de aula sobre aspectos da realidade do/a aluno/a, sobre o que viram na televisão, sobre questões práticas da vida é apontado por três entrevistados/as como uma forma de possibilitar aos/às alunos/as utilizar seus conhecimentos cotidianos facilitando sua aprendizagem. O que eles aprendem em casa... Também! De que forma? (entrevistadora) Muitas vezes... Coisas que acontece na rua deles, na casa, eles comentam com a gente. Coisas que eles vêm na televisão eles comentam na sala de aula também. (Prof. 2) Eu acho que são. Porque às vezes eu trabalho com eles leitura de texto e nessas leituras eles incluem algumas coisas que eles viram em casa. (Prof. 3) Para quatro professores/as o inverso é o mais importante. O importante não é o conhecimento trazido pelos/as alunos/as, mas sim o conhecimento adquirido na escola e levado pelos alunos/as para serem utilizados em casa, junto às famílias. Eu acho assim, se eu dei uma aula... Digamos de ciências, como no nosso projeto que foi prevenção e combate de doenças, eu acho que ele tendo conhecimento das doenças de como prevenir como tratar facilita para eles em casa, quando aparecer em casa ele vai saber como tratar. (Prof. 1) Convicto/a que os/as alunos/as seriam tabulas rasas, um/a professor/a afirmou que dificilmente as atividades possibilitariam aos/as alunos/as usarem seus conhecimentos, pois alunos/as de primeiro ano de escolaridade, não possuem conhecimentos. Os conteúdos trabalhados neste ano são voltados para o ensino da leitura e da escrita, não permitindo trabalhar muitos outros temas e conteúdos. É um pouco difícil porque a minha turma é o primeiro do primeiro ano, então a minha preocupação maior é fazê-lo escrever, conhecer o alfabeto e ler. É difícil tu pegar uma criança no primeiro ano que não sabe nada como eu peguei. A maioria da turma sem saber copiar do quadro, sem saber, sem saber grafar letra, então a minha preocupação maior este ano todinho foi essa. Eu explorei número, mas também voltado pra escrita e a leitura deles. (Prof. 13) Para dois/uas entrevistados/as mesmo o conteúdo sendo relacionado com a vivencia do/a aluno/a não significa que ele saiba resolver mais facilmente as atividades propostas. 98 Algumas vezes. Porque muitas vezes as crianças, eles trabalham, vendendo “chop”, pastel, engraxam sapato, eles trabalham muito a matemática lá fora e às vezes eles não conseguem responder uma atividade que a gente passa no quadro. Aí eu trabalho oralmente, passo problemas, aí eles respondem. Muitas vezes ele responde oralmente, mas quando passa no quadro ele não consegue responder, principalmente subtração. Eles respondem bem oralmente ou com os materiais didáticos concretos (palito de fósforo, etc).( Prof. 10) Para alguns respondentes, a dificuldade em estabelecer relações entre os saberes dos/as alunos/as com os saberes de áreas do conhecimento, como Língua Portuguesa, Ciências, Geografia, História, devem-se aos/as alunos/as não terem vivência e/ou experiências com conteúdos destas áreas. Não têm domínio suficiente de conhecimentos ou experiências em família, em suas comunidades com conteúdos das áreas de Língua Portuguesa e História, por exemplo. É citado pelos/as professores/as que os/as alunos/as vendem produtos, por isso lidam diariamente com operações matemáticas, entretanto, não é citado que estes alunos/as são falantes da língua portuguesa desde tenra idade. A linguagem aprendida nas relações sociais das crianças é considerada inadequada e errada para alguns dos/as entrevistados/as. Outras áreas do conhecimento sequer são lembradas, como a História. Como afirmar que não é possível aos alunos utilizarem seus conhecimentos, se os/as alunos/as são eles próprios sujeitos de uma história coletiva e individual. Quanto ao ensino da matemática, os/as entrevistados/as afirmam que os/as alunos/as utilizam em seu cotidiano operações de somar, subtrair, dividir e multiplicar, conteúdos explícitos no currículo, previstos nos livros didáticos, e nos planos de curso de todos os/as professores/as. Fica evidente a possibilidade de se trabalhar com os conhecimentos dos/as alunos/as nesta área do conhecimento, propor atividades para que utilizem seus/as conhecimentos porque estes conteúdos são os mesmo já previstos para serem ensinados em todos os livros didáticos. Enfim, quando o que os/as alunos/as já sabem é muito próximo ao conhecimento exigido pela escola os/as professores/as estabelecem relação em sala de aula. Entretanto seria importante que as atividades desenvolvidas na escola refletissem a diversidade cultural de nossa sociedade e os conhecimentos e experiências acumulados historicamente na vida coletiva, familiar e individual das crianças. 99 3.2.3.2 - Organização do ambiente de sala de aula As explicações dos/as professores/as quanto à organização do ambiente de sala de aula situaram-se entre a preferência dos/as alunos/as, as dificuldades de mudar a organização das carteiras considerando o espaço reduzido da sala de aula, e, o planejamento do/a professor/a. Foi justificada por um grupo de quatro entrevistados/as, que a manutenção da organização dos/as alunos/as sentados em duplas atenderia à preferência dos/as alunos/as, e também para facilitar a cooperação entre os/as alunos/as nos momentos de realização das atividades. Em duas destas entrevistas é citada que eventualmente o/a professor faz a seleção dos/as alunos/as para formar a dupla de trabalho. Na maioria das aulas os/as próprios/as alunos/as decidem com quem sentar. De fila fica difícil, tem dia que eu coloco de fila mas eu gosto de agrupar sempre de dois em dois, porque eu acho que um ajuda o outro, às vezes um aluno entende melhor com o outro do que com o próprio professor. Eles mesmos se organizam. Algumas vezes eu vou lá e vou trocando, digo: esses dois alunos não dá certo, porque nenhum dos dois não sabem.( Prof. 10) Organizar os/as alunos/as para se sentarem em dupla em sala de aula foi a resposta de outro grupo, com três entrevistados/as, mas os motivos alegados foram diferentes. Primeiro o espaço da sala de aula é considerado pequeno para organizar as carteiras em círculo que seria a forma preferida de organizá-las, segundo, as carteiras já estavam organizadas desta forma quando começou a trabalhar nesta escola e o/a professor/a percebeu que favorecia o trabalho cooperativo entre os/as alunos/as. eu acho a estrutura pequena, a sala é pequena. Eu gosto de colocar as carteiras em círculo só que aqui não dá pra colocar, aí tem que ser aquele método antigo, uma cadeira, ou as cadeiras uma do lado da outra ou então uma atrás da outra, mas você sente que quando coloca em círculo fica mais aberto pra conversar com o professor e olhar no olho deles também. (Prof. 4) O planejamento e a variedade de atividades como justificativas da organização física da sala são citados por quatro entrevistados/as. Para estes/as a organização do ambiente de sala de aula depende da atividade que se pretende realizar. Em uma das entrevistas ficou mais especificado ainda, dependendo do planejamento da aula e dos níveis de aprendizagem dos alunos é que se organiza o ambiente e os grupos ou duplas de alunos/as. 100 Aí, vai de acordo com o meu planejamento, as atividades né, se é atividade em grupo, se é uma produção de texto em grupo eu ponho de acordo com o nível de cada aluno e se um aluno está com dificuldade de ortografia eu junto todos aqueles que estão com dificuldade aí eu ponho um grupo. (Prof. 8) Um/a entrevistado/a explica que organiza o ambiente de ensino de acordo com a sugestão e preferência dos/as alunos/as: Primeiro eles ficavam juntinho, mas aí eu vi que não dava certo aquelas carteiras uma do lado da outra. Até eles sugeriram: “Professora por que não fazer de fila, fica até melhor pra gente passar, não tem que ficar empurrando a carteira do colega pra passar.” Eu organizo quando eu chego [...] do jeito que eles querem. (Prof. 1) As representações dos/as professores/as sobre a organização do ambiente de sala de aula limitam-se à disposição das carteiras em sala de aula, que ora é apresentada como conseqüência do desejo dos/as alunos/as, ora como fator importante para o desenvolvimento das atividades propostas. O ambiente afetivo propício para uma boa interação entre professores/as e alunos/as, e alunos/as e alunos/as e estimulador para a aprendizagem é citado superficialmente por alguns professores/as ao afirmarem que ao sentarem-se juntos, os/as alunos/as trabalham cooperativamente. Entretanto não há relação clara entre a organização do ambiente e o relacionamento estabelecido entre os participantes do grupo de sala de aula, tampouco que a organização do ambiente pode possibilitar maior envolvimento dos/as alunos/as nas atividades. Embora os/as entrevistados/as afirmem que há alteração na organização das carteiras de acordo com a atividade proposta, foi registrado durante as observações que a disposição física dos/as alunos/as em sala permaneceu quase inalterada. A pouca mobilidade e variabilidade do ambiente individual e coletivo de aprendizagem revelam aspectos importantes da proposta curricular desenvolvida no interior da sala de aula, como discutido anteriormente neste capítulo. O que esta observação demonstra pode ser revelador. Embora os/as professores/as afirmem acreditar na necessidade de mudanças na organização das carteiras e dos grupos em sala de aula, de acordo com a proposta de trabalho, eles/as mantiveram invariável a disposição do mobiliário em sala, assim como a disposição e imobilidade dos/as alunos/as. 101 3.2.3.3 - Critérios para a seleção dos conteúdos A questão da seleção dos conteúdos trabalhados com os/as alunos/as foi apresentada da seguinte maneira: cinco entrevistados/as falaram da existência de um plano elaborado pela coordenadora pedagógica da escola, outro pela equipe da Secretaria Municipal de Educação. De posse de um destes planos os/as professores/as selecionam os conteúdos, baseados nos seguintes critérios: dificuldades apresentadas pelos/as alunos/as, conteúdos considerados mais necessários com relação ao nível de escolaridade, e conteúdos nos quais os/as alunos/as terão mais rendimento. A gente tem o plano de aula e só trabalha através daquele plano... Nem todo o conteúdo eu trabalho... Até porque não dá tempo de trabalhar todo o conteúdo... Eu acho que é aquele que eu tenho mais facilidade para trabalhar com o aluno. (Prof. 9) São decididos assim de forma: de acordo com a dificuldade deles, o aprendizado deles, né. É assim, porque a secretaria da escola passa aqueles conteúdos pra gente, aí eu vou lá e olho e vejo o que é mais necessário eu dar pra eles. (Prof. 6). Geralmente a gente senta com a coordenadora e a gente escolhe baseada na proposta pedagógica (Semed), aí a gente seleciona na proposta pedagógica e daí a gente transforma... Transmite pra maneira que possa atender a necessidade do aluno, mas dentro daquele conteúdo, daquele que a gente selecionou. (Prof. 4) Outro/as dois entrevistados/as relataram que a seleção dos conteúdos é feita pelo/a professora/a, em alguns casos com a participação da coordenador/a pedagógica da escola. Os critérios de seleção são baseados na necessidade de aprendizagem dos/as alunos/as. A seleção do conteúdo é feita por mim e pela Luciana, a Coordenadora. A gente seleciona, senta, né, vejo o que é mais necessário, o que eles estão mais precisando, aí é selecionado os conteúdos. (Prof. 8) Em dois depoimentos os/as professores/as afirmaram que elaboram um plano de curso, baseado na realidade dos/as alunos/as. A cada mês ou bimestre avaliam o desenvolvimento do plano e a necessidade de mudanças nos conteúdos selecionados. Durante o ano nós montamos o plano de ação e o plano de curso, onde nós elencamos o conteúdo voltado mais pra realidade da nossa clientela e mensalmente a gente senta, vai relatando esses conteúdos e realiza nosso planejamento pra desenvolver nossas atividades (...), mas sempre voltado mais pra realidade dos nossos educandos. (Prof. 12). 102 Um entrevistado afirma que os conhecimentos e o rendimento escolar dos/as alunos/as são parâmetros para a seleção dos conteúdos que vai trabalhar. Desta forma haveria uma espécie de avaliação para a seleção dos conteúdos mais adequados, considerando os níveis dos/as alunos/as. Antes eu dou uma verificada e eu vejo quais os adequados pra eles e aí... Aqueles eu vou selecionando pelo rendimento deles. (Prof. 11) Por fim, dois entrevistados/as deram respostas muito vagas e de difícil sistematização. Citaram como desenvolvem algumas atividades em instantes letivos chamadas de “rotina” além de dizer que trabalham duas disciplinas por dia. Porque tem a rotina, né, tem o planejamento. Tem o português, a matemática... Eu trabalho duas disciplinas por dia. Eu escolho o que os textos..., também tem a leitura compartilhada. Tem a produção do texto, a reescrita do texto. E na matemática eu tô trabalhando as quatro operações. (Prof. 2) Das observações e entrevistas sistematizadas a conclusão a que se chega é que em variadas situações os professores seguem o conteúdo dos livros ou aqueles fornecidos e exigidos pela Secretaria de Educação, e em outros momentos não há um critério rigorosamente definido. Ou seja, o/a professor/a define o conteúdo a ser trabalhado sem critérios pré-estabelecidos e sem considerar as necessidades e demandas discentes, embora em suas respostas quase sempre defendam critérios objetivos e subjetivos relacionados aos discentes na escolha dos conteúdos a serem ensinados. Contudo, de uma forma ou de outra, acaba prevalecendo os conteúdos “institucionais”, ou seja, aqueles definidos pelos órgãos institucionais da educação, longe da pluralidade discursiva. Viver num mundo plural, no qual todos devem ser reconhecidos e valorizados, significa assumir que existem mais conhecimentos e valores que precisam ser valorizados e reconhecidos pela escola. Não limitar a ensinar os conteúdos tradicionalmente selecionados para compor os currículos escolares, que são os mesmos transmitidos pela escola ao longo de anos. Cabe, entretanto, à escola e ao/a professor/a fazerem adaptações e acréscimos à proposta curricular de acordo com a região e as necessidades dos alunos. Autores como Mclaren (1997), Giroux (1995), Silva (1995b), Candau (2002), acreditam que o sistema educacional seleciona elementos de uma cultura. Elementos estes que não correspondem a qualquer cultura, de qualquer grupo, 103 corresponde à cultura da classe média alta, branca, ocidental. Não seria, pois a seleção objetiva de elementos de uma cultura superior que devessem ser perpetuados para as novas gerações. Para estes autores não há como justificar a superioridade de um conhecimento sobre os outros, de uma cultura sobre as outras. Diante desta critica vislumbra-se uma margem para uma atitude transformadora desta situação, trata-se da autonomia do/a professor/a para participar da seleção dos conteúdos. Como afirmam Sacristan (2002) e Nóvoa (1995, 1999) o/a professor/a deve assumir seu papel de intelectual. A seleção do que deve ser ensinado deve passar pela decisão do/a professor/a, ele/a precisa fazer parte de todo o processo de elaboração do currículo da escola. Os/as entrevistados/as afirmam que a proposta curricular é elaborada pela Secretaria Municipal de Educação e os conteúdos sugeridos pela coordenadora da escola, cabendo a ele/as a responsabilidade de planejar o trabalho com conteúdos previamente selecionados. Mclaren (1997), Sacristán e Nóvoa reafirmam que as propostas curriculares elaboradas sem a participação do/a professor/a limita-o à condição de técnico, a um executor de metodologias planejadas por especialistas, retirando-lhe o poder de decisão. 3.2.4 - Fatores que interferem no rendimento dos/as alunos/as e a percepção dos/as professores/as sobre sucesso e fracasso escolar Perguntados a respeito dos fatores que interferem na aprendizagem dos/as alunos/as, a maioria dos/as entrevistados/as apontou o acompanhamento da família como fator preponderante. Aqueles/as alunos/as cujos pais participam de reuniões na escola e recebem ajuda na realização de tarefas escolares em casa apresentam melhor desempenho nas atividades escolares. Oito entrevistados/as destacam o hábito de leitura das famílias, o diálogo entre eles e as condições financeiras como fatores que interferem no rendimento do/a aluno/a. Com certeza o acompanhamento dos pais, a situação de vida de cada um, também contribui muito, porque o aluno que tem todos os materiais, tudo que ele precisa ele pode contar ali pra realizar suas atividades, ajuda muito na aprendizagem em relação a muitos que não têm e fica ali na sala sem ter um lápis, um caderno, lápis de cor pra pintar, então atrasa muito e pode vir a causar dificuldade na aprendizagem dele. (Prof. 5) 104 Eu acho que a família influencia muito na aprendizagem, no conhecimento. Por exemplo: se tem uma família que os pais têm o habito de ler, de estar pesquisando, de estar conversando com os filhos, esses filhos são mais desenvolvidos, eles entendem mais. (Prof. 8) Os/as demais entrevistados/as apontaram outros fatores. Na explicação de um/a deles a diferença na aprendizagem entre os/as alunos/as decorre do interesse individual de cada aluno/a. Eu acho que é o interesse mesmo. É o interesse do aluno, o interesse próprio faz com que um se desenvolva mais que o outro. Muitas vezes a gente se esforça tanto, mas se o aluno não tiver o interesse... Eu vejo assim, que não tem o rendimento desejado de forma nenhuma. (Prof. 11) Já para outro/a entrevistado/a não basta o interesse do/a aluno/a pelo ensino, é necessário somar a este interesse a adequação das atividades ao nível do/a aluno/a. Eu acho que vai muito do interesse de cada um, mas não só isso, mas também do professor. Se o professor passar uma atividade que ele já sabe ele não se interessa. O aluno por ele ser interessado e a professora por passar uma atividade muito fácil pra ele, que ele já sabe fazer. (Prof. 9) A facilidade de aprendizagem como uma característica individual e a atenção nas aulas foram os fatores intervenientes, apresentados por outro/a entrevistado/a, no desempenho de alguns/as alunos/as. Tem aluno que tem facilidade de aprender, outros tem dificuldade. Aqueles que tem facilidade, com a explicação da aula ele pega rapidinho. Tem uns que tem mais atenção na aula e outros que não prestam atenção e ficam sem entender. (Prof. 2) Segundo uma entrevistada, o estudo individual em casa seria o fator principal para o/a aluno/a aprender mais. Esta entrevistada mencionou como problema adicional o fato de alguns alunos/as não possuírem o conhecimento mínimo necessário para cursar a série que está regularmente matriculado: tem muitas coisas que influenciam. Geralmente aqueles alunos que pegam o caderno, não só na escola, mas que pegam em casa e revisam aquela matéria, fica mais fácil pra ele aprender novos assuntos [...] E também tem outra coisa que eu acho, tem criança que está na série que não deveria estar. Você pega uma turma de quarta série e você encontra alunos que não foram alfabetizados como deveria, aí, claro que pra aquele aluno assim fica mais difícil para ele aprender aqueles assuntos. (Prof. 1) Um/a entrevistado/a apontou fatores que contribuem para a diferenciação da aprendizagem entre os alunos/as ao referir-se às condições materiais de vida de cada aluno/a. Há alunos/as que já chegam à sala de aula com maior 105 conhecimento do que outros/as, ao acesso a livros fora da escola e até a ajuda e acompanhamento dos pais. Eu acho que tudo tem as suas peculiaridades, muitas vezes um aluno já está mais embasado em determinado assunto. A gente vê isso na própria sala de aula, tem aluno que pega mais rápido do que outros, mas o estilo de vida que eles levam influi também. Tem uns que tem acesso a livros lêem mais, tem outros que não têm a ajuda, cobrança dos pais, isso ajuda também. (Prof. 12) Em algumas respostas registrou-se que os/as professores/as demonstram desconforto quanto às suas inabilidades diante das dificuldades de aprendizagem de alguns/mas alunos/as e a comportamentos considerados agressivos ou muito desafiadores. Os depoimentos registrados sugerem que estes/as professores/as se sentem despreparados e sem condições de oferecer apoio para contribuir na formação destes/as alunos/as. Porque na minha sala a maioria já está escrevendo os números, mas eu tenho uns quatro alunos que não conseguem escrever na seqüência correta. Não sei o que acontece que eles não conseguiram aprender escrever na ordem, e eu não detectei isso agora não. Mas eu não sei o que acontece, não sei qual o problema. Neste caso eu tento ajudar, eu passo atividade pros outros e sento com eles e passo atividade. (Prof. 3). Eu tenho um aluno que não tem nenhuma falta, no entanto, não produz nada, e tem muita dificuldade, fala muito baixo, você conversa com ele... E você pensa que ele tá entendo, mas na verdade ele não tá entendendo nada. Eu não sei te falar qual o problema dele, é complicado. (Prof. 4) A expressão destes professores/as demonstra que eles/as se situam entre o querer e o não saber lidar com a diversidade presente em sala no que diz respeito a aspectos da necessidade e de ritmos de aprendizagem dos/as alunos/as, assim como aos diversos tipos de alunos/as com comportamentos variados. Esta constatação de querer lidar com a diversidade, mas não saber lidar com ela, nos remete a um questionamento: não seria isto um problema com origem na própria formação monocultural do/a professor/a? Ao referirem-se em seus depoimentos sobre a diversidade e a dificuldade imposta por ela, os sujeitos pesquisados mostram que a tradição em que foram formados não os prepararam para a diversidade que convivem e precisam trabalhar dentro das escolas, ou os prepararam de modo inadequado. A formação inicial e continuada, pelos depoimentos destes/as professores/as, não tem atendido às necessidades de aprendizagem dos/as professores/as. 106 Ligados a esses fatores estão os fenômenos do sucesso e fracasso escolar. A percepção dos/as professores/as quanto a esses fenômenos é fundamental para o planejamento de práticas pedagógicas que visam à superação e/ou permanência desses fenômenos. Sucesso escolar, para a maioria dos/as professores/as, é chegar ao final de um período ou ano letivo e verificar que os/as alunos/as aprenderam conteúdos ensinados, alcançaram os objetivos estabelecidos, ou quando os alunos/as adquiriram a maioria dos conhecimentos previstos para a série. Nove professores/as associaram sucesso escolar à superação pelo/a aluno/a de suas dificuldades iniciais de aprendizagem. Como conseqüência de um ensino eficiente de conteúdos importantes para a série em curso. Pra mim sucesso escolar é você chegar ao final do ano e você ter certeza que seus alunos alcançaram aqueles objetivos que você estabeleceu, que você queria, que eles alcançaram aquelas habilidades que você colocou em seu planejamento. (Prof. 1) Na percepção destes/as nove professores/as, existe uma relação entre a ação do/a professor/a e do aluno/a, o resultado positivo é tanto do professor como do/a aluno/a. Algumas falas, entretanto, afirmam que sucesso é decorrente, especificamente, da ação pedagógica do/a professor/a. É importante observar que o fracasso não é associado, pela maioria dos respondentes, à sua ação pedagógica. Sucesso escolar é quando você chega ao final do ano e percebe que o aluno, dentre tudo aquilo que você trabalhou ele, conseguiu uma boa parte, conseguiu se desenvolver na questão da leitura e na escrita. (Prof. 12) Também foi considerado sucesso escolar o aprendizado pelos/as alunos/as de quaisquer conteúdos, o interesse do/a aluno/a pelos estudos e o desempenho futuro, como profissionais ou como estudantes de outros níveis educacionais. Acho que o sucesso escolar é... É... Chegar no final do ano e ver se seu alunos aprenderam alguma coisa em relação aquilo que eles entraram no início do ano, não é eles aprenderem tudo, mas eles não saírem no final do ano como entraram no início do ano. Isso pra mim é o sucesso escolar, eles aprenderem alguma coisa a mais, além do que ele sabia. (Prof. 3) Eu trabalho de 1ª a 4ª série, então é ver o aluno sair da 4ª série e você encontrar o aluno lá na frente ou estudando ou formado, uma pessoa de bem. (Prof. 10) 107 Em síntese, ao conceito de sucesso escolar vincula-se aprendizagem de conteúdos, superação de dificuldades de aprendizagem e desempenho profissional e escolar no futuro dos/as alunos/as. Estas afirmativas denotam uma concepção restrita de educação: educar resumir-se-ia a ensinar conteúdos de Português, Matemática, Ciências, Geografia e História. Aprender a ser solidário, fraterno, defensor de direitos humanos, cidadão responsável pela preservação do planeta, consciente dos efeitos do aquecimento global, não são citados como sucesso escolar. O sucesso refere-se a aprender conteúdos, empregar-se no futuro, fazer curso superior. No ano letivo corrente significa ser aprovado, aprender conteúdos das disciplinas. Não é mencionado aprender a conviver, aprender a respeitar, aprender atitudes de solidariedade, perceber-se integrante do meio ambiente. Ou seja, as respostas confirmam a prevalência da formalidade de conteúdos como valores maiores que a escola elege como foco de aprendizagem. Conteúdos formais suplantam conteúdos de vida e convívio humano. Para Barbosa (1996, p. 30), a escola deveria voltar-se para a formação geral do educando. Os conteúdos trabalhados devem ter como “... objectivo é que os alunos aprendam a funcionar em vários contextos culturais” (p. 30). Sucesso escolar não se resumiria à condição de sair-se bem nas disciplinas escolares, na aprendizagem de conteúdos de Língua Portuguesa, de Matemática, entre outros, mas seria objetivo do ensino preparar o educando para as mais diversas situações interativas e contextos culturais em que eles tenham contato em sua vida. Mas não é o que parece prevalecer nas escolas investigadas a depreender das falas da maioria dos entrevistados/as. O conteúdo das disciplinas ainda é o mais importante objeto da escola e do ensino. O mesmo tipo de raciocínio voltado para a aprendizagem de conteúdos das disciplinas aparece quando os/as respondentes/as falam sobre fracasso escolar. O fracasso escolar não existe para um/a dos/as entrevistados/as, desde que o/a aluno/a aprenda algum conteúdo ele/a não fracassa. Eu acredito, professora, que não tem fracasso escolar, porque desde que o aluno vem pra escola e aprende alguma coisa, ele... E você sabe que ele chegou não sabia nem pegar no lápis, ele consegue fazer o nome dele, consegue ler as letras do nome dele, eu acho que tudo isso é uma vitória. (Prof. 4). 108 Para a maioria dos/as professores/as entrevistados/as, o fracasso escolar seria não alcançar os objetivos previstos para a série cursada. O/a aluno/a chegar ao final do ano letivo e não adquirir os conhecimentos mínimos para cursar a série seguinte, ou não vencer as dificuldades e problemas em sua aprendizagem chegando ao final do ano sem condições de ingressar na série seguinte. o fracasso é quando o aluno não consegue, por mais que a gente tente. (Prof. 2) Fracasso é eu ter trabalhado com esse aluno o ano inteiro e ver que o aluno não avançou nada. (Prof. 13) o fracasso escolar é o aluno entrar e sair do mesmo jeito, e isso acontece. Ele entrou e saiu sem nenhuma contribuição a mais em sua aprendizagem, isso pra mim é fracasso escolar. (Prof. 3) Quanto às causas e elementos deste fracasso escolar três respondentes apresentam diferentes opiniões quanto aos indicadores do fracasso escolar. A evasão dos/as alunos/as, o desinteresse em aprender, e, a continuidade na vida escolar ou ingresso no mercado de trabalho seriam termômetros do sucesso ou fracasso escolar. o fracasso é quando ele desiste, quando não vem mais a escola. (Prof. 9) Quando ele vem ele não gosta de estudar. Porque cada aluno que a gente perde é um fracasso. (Prof. 7) Se ele estiver bem, eu acho que foi um sucesso. Aí quando você encontra ele na rua, sem estudar ou sem nenhuma profissão acho que é um fracasso. (Prof. 10) Ainda quanto às causas que contribuem para o fracasso escolar as repostas voltaram-se prioritariamente para a responsabilização das famílias dos/as alunos/as. Alguns professores/as responsabilizaram exclusivamente a falta de participação efetiva das famílias na vida escolar dos/as filhos/as. Alegaram que os pais não acompanham o desenvolvimento do/a filho/a na escola, não os ajudam com seus deveres escolares, não freqüentam a escola para saber sobre comportamento e o rendimento dos/as filhos/as, e não os incentivam a freqüentar a escola. Estas seriam as principais causas do fracasso escolar para seis dos/as entrevistados/as. O acompanhamento da família é muito importante porque os alunos que a família acompanha a gente vê a diferença e os alunos que a família não tão nem aí, a gente vê que... O perfil... Os alunos levar atividade para casa e volta do mesmo jeito. Que eu sei que tem muitos pais que não sabem ler, mas a partir 109 do momento que a família pergunta: “Tem dever de casa? Tem. Então vai fazer!” (Prof. 2) A participação dos pais também é muito importante porque quando a gente tem dificuldade ali com o aluno até no comportamento. Às vezes dificuldade do aprendizado daquele aluno e o pai é ausente. Quando o pai é presente a gente procura melhorar, o pai dando apoio em casa e a gente aqui na escola. (Prof. 6) Uma das entrevistadas citou o número elevado de alunos em sala de aula como um aspecto dificultador do trabalho do/a professor/a junto ao aluno/a. No entanto, este aspecto não foi considerado um possível causador do fracasso escolar, ficando mesmo restrito ao acompanhamento da família. A causa é o acompanhamento dos pais, aqueles alunos que vive só esperando pela escola. A escola atende uma demanda muito grande de alunos, tá com as salas super lotadas, a gente não tem aquele tempo de ficar tirando as dúvidas deles como eles merecem, como se deve. Na verdade não tem porque a gente atende muito aluno e termina o tempo sendo curto para atender tanto aluno, e os pais têm que trabalhar junto com a escola, junto com o profissional, tá sempre ajudando, orientando, e os pais não acompanhando o aluno tende a não ter sucesso, a contribuir pro fracasso dele na escola. (Prof. 5) Para outros/as cinco entrevistados a família é uma das grandes responsáveis pelo fracasso escolar do/a aluno/a, mas não a única. Foram apontados os/as alunos/as, o/a professor/a, e até mesmo a televisão como possíveis fatores causadores do fracasso escolar. O/a aluno/a não demonstra interesse e a dedicação necessária para sua aprendizagem, além do problema da freqüência às aulas. O/a professor/a contribui para o fracasso porque não acompanha o desenvolvimento individual de cada aluno/a, não atende às necessidades de aprendizagens, e não propõe atividades específicas para o/a aluno/a superar suas dificuldades de aprendizagem. A televisão também influencia de forma negativa os/as alunos/as, particularmente aqueles que passam muito tempo assistindo a programas de televisão porque perdem o interesse pela escola. Às vezes o próprio professor contribui pra isso, até a família, acho que há um conjunto de um monte de coisas. Acho que às vezes é um pouco de falta do professor, da família e, às vezes, até a própria criança não tem interesse em aprender. (Prof. 3). A freqüência realmente, porque o aluno que falta demais fica impossível trabalhar com ele. E também a participação dos pais na escola, que é difícil. Nem todos os pais participam. E às vezes, o próprio professor, porque às vezes você não consegue ver certas dificuldades do aluno e você não se dá conta, quando vai se dar conta já está lá no finalzinho, são três fatores. (Prof. 1) 110 eu percebo também a televisão, aquela criança que tá muito em frente à televisão. Eu considero que é fracassado, porque eu tenho três que é desenhando, desenho de televisão, reproduzindo, e eles não copiam, não fazem nada, não conversam com os outros colegas, então eles só querem saber de televisão, a conversa dele é desenho. (Prof. 8) A pobreza é considerada, por um/a dos/as entrevistados/as, como uma das causas do fracasso escolar. O/a professor/a acredita que o fato dos/as alunos/as vir à escola sem material necessário (caderno, lápis, borracha, etc) prejudica seu desenvolvimento escolar. A questão financeira, que o pai não tem pra ajudar os filhos, isso atrapalha muito aqui na escola, as crianças virem sem materiais, vir mal trajadas às vezes, vir descalço. Isso atrapalha muito. (Prof. 5). Baseados em estudos sobre o papel das escolas e dos professores nos resultados escolares dos alunos, Marchesi e Pérez (2004), apontam que: Os principais fatores responsáveis pela ‘eficácia das escolas’ são a liderança da equipe de direção, o ambiente favorável de aprendizagem, a existência de um projeto compartilhado, a organização eficiente do ensino na sala de aula, a participação dos pais e dos alunos, o acompanhamento do progresso dos alunos e a avaliação da escola (p. 27). Estes fatores convergem para a produção do resultado da ação pedagógica da escola e do professor/a. Seria, pois de se esperar que fossem descritos, ou citados pelos/as professores/as. Para Bourdieu (1998), a associação entre família e fracasso escolar situase no capital cultural “transmitido” aos filhos, e não no acompanhamento dado pela família às atividades escolares dos filhos. As famílias de camadas populares transmitem um capital cultural diverso da cultura da escola. A criança proveniente de meios populares depara-se com uma cultura diversa da sua e encontra maior dificuldade em atender às expectativas da escola. Casassus (2002) apresenta uma questão interessante quanto ao acompanhamento dos pais aos/às filhos/as. Em pesquisa coordenada por este autor os resultados apontam que a ajuda dos pais nos deveres escolares de seus/uas filhos/as pode ser prejudicial ao desempenho deles porque os pais não possuem conhecimentos pedagógicos suficientes e podem atrapalhar o desempenho escolar dos/as filhos/as. Causou estranhamento a ausência, nos relatos, de fatores como: currículo escolar; número de alunos por sala; falta de equipamentos e materiais 111 adequados; dificuldades no relacionamento com os alunos; ambiente escolar; entre outros, como fatores responsáveis pela produção das diferenças nos resultados dos/as alunos/as. Há uma convergência de que tais fatores são comumente apontados pela literatura especializada intervenientes no rendimento escolar (CASASSUS, 2002). educacional como Todavia, quanto aos sujeitos investigados, a maioria dos/as professores/as limitou-se a considerar a família desestruturada (pobre) como responsável pelos índices baixos no desempenho escolar das crianças. Aspectos como a elaboração do currículo sem a participação dos/as docentes, o currículo vivido no âmbito escolar, o ambiente favorável à aprendizagem, a valorização da criança e de sua cultura e a motivação e preparação dos professores para atender educandos provenientes de meios desfavorecidos, não foram citados ou descritos pelos/as professores/as como intervenientes no desempenho intervenientes no desempenho escolar dos/as dos/as alunos/as alunos/as. Os continuam fatores restritos à responsabilização de suas famílias, ao seu meio social desfavorável e suas condições materiais, ou seja, são fatores externos à escola os principais aspectos apontados como responsáveis pelo rendimento escolar das crianças. 3.2.5 - Percepção dos/as Professores/as sobre as Famílias dos/as alunos/as Perguntados sobre o relacionamento estabelecido entre o/a professor/a e família dos/as alunos/as, sobre como poderiam ser descritas as famílias e qual deveria ser o papel das famílias na educação formal dos/as filhos/as, muitas questões levantadas anteriormente foram repetidas. Todos/as os/as entrevistados/as mencionaram a falta de acompanhamento dos familiares ao desempenho e comportamento dos/as alunos/as na escola. Alguns se referiram à carência material, à pobreza e ao trabalho infantil imposto pelos pais aos/às filhos/as para complementar a renda da família. Outros mencionam a carência afetiva entre os membros da família, afirmando que muitos/as alunos/as são provenientes de famílias desestruturadas, ou seja, famílias diferentes da considerada “normal” composta de pai, mãe e 112 filhos. Muitos são educados pelos avós, ou moram com um dos pais. O desinteresse pela vida estudantil dos/as filhos/as, a falta de rigor na educação das crianças em casa, dentre outros aspectos já mencionados pelos/as professores/as, também são problemas creditados à família. São muito carentes, muito pobres mesmo. (Prof. 3) Eu acredito que são humildes, analfabetos, não sabe ler, não sabe escrever. Não tem assim um conhecimento do que é certo, como deve proceder as coisas pra ensinar pros filhos, percebo isso. A maioria dos meus alunos são criados por avós, e daí a avó não tem tempo, não conhece o pai, não conhece a mãe, ou então a mãe não importa com eles. (Prof. 4) Desestruturadas. São pessoas que vivem por viver, se aparecer hoje come, se não aparecer não come. Tem gente que coloca o filho pra trabalhar, não vai ver onde que o filho está. Já tem outros que tem uma estrutura, trabalham, tem um compromisso com o filho, com a família. A maioria não tem compromisso. Acho que já foram criados assim e criam seus filhos assim. (Prof. 10) A família que enfrenta muita dificuldade, coloca o filha pra trabalhar muito cedo, tira os filhos da escola pra levar pra roça, pra vender coisa na rua, pra sustentar a casa, porque apesar de ter todo esse incentivo do governo de Bolsa Família, do PETI, que é um programa de tirar as crianças da rua, de tá trabalhando, mas ainda existe muito, muito mesmo. (Prof. 5) Ainda se referindo às famílias dos/as alunos/as alguns entrevistados/as acrescentaram que os pais são analfabetos, por isso não sabem a importância da escolaridade para a vida de seus/uas filhos/as. Além de analfabetos, têm poucos conhecimentos e por isso os/as filhos/as chegam à escola com carências as mais diversas devido à convivência em casa com uma família de pessoas ignorantes. A realidade aqui é bem preocupante, as famílias são pessoas muito carentes, bem fracas mesmo, eu digo fraca em nível de conhecimento, isso faz com que as crianças não tenha aquele... Aquilo que a gente espera de relacionamento, de aprendizagem, porque já vem da família, né. (Prof. 5) A nossa clientela, a maioria, pelos pais serem analfabetos, eles não têm aquele interesse, os próprios pais não sabem a importância do estudo na vida dos filhos. (Prof. 13) Os pais são considerados ausentes por não incentivarem o/a filho/a a estudar. A ajuda e interesse dos pais nas atividades escolares de seus filhos vêm sendo colocados, nas mais diferentes formas e natureza, como um dos fatores mais importantes no processo de aprendizagem. São muito ausentes, eu acho. Não vêm na escola, a minoria vem conversar, saber do comportamento do aluno. Os outros têm de mandar chamar e a maioria das vezes nem vem na escola. (Prof. 9) 113 Nove entrevistados afirmaram ter um bom relacionamento com as famílias dos/as alunos/as, no entanto, disseram que as famílias pouco vêm às reuniões de pais e mestres e não comparecem espontaneamente à escola. Somente alguns pais freqüentam regularmente as reuniões e vêm à escola sem serem convidados. Em reuniões geralmente só vem mais aqueles que eu já falei, que se preocupam, mas aqueles que a gente mais precisa de conversar com eles não vêm. Mesmo se chamar tem alguns que não vêm. (Prof. 1). Os que comparecem na escola é boa, a gente tem um diálogo aberto, conversa muito, eles me ajudam também. É maravilhoso nosso relacionamento. (Prof. 4). Três professores/as afirmaram que têm pouca relação com os pais porque moram em bairros distantes da escola e não conhecem bem as famílias dos alunos/as. Pra te dizer a verdade eu não poderia te dizer muito, porque eu moro muito longe, não tenho muito contato. Mas tem sempre reunião na escola, eles sempre participam, não é muito boa, mas tem participação. [...] Aqueles que mais precisam de ajuda são os pais que não vêm. (Prof. 7). Os pais que vêm às reuniões são sempre os mesmos e são os pais daqueles alunos/as considerados bons/as, com bom comportamento. Muitos vêem, mas nem todos. Os que mais precisariam vir não vêm. (Prof. 13). Não vêm muitos não, e geralmente vêm os mesmos pais. Os pais que a gente necessita falar com eles nunca comparecem, são chamados, mas não comparecem. (Prof. 2). Nas respostas dos/as professores/as verifica-se que a concepção de reunião de pais e mestres reduz-se a momentos de reclamação e denúncia aos pais sobre as falhas e dificuldades apresentadas pelos/as alunos/as. Como conseqüência deste tipo de raciocínio, alguns entrevistados/as concluem ser dispensável a presença, às reuniões, dos pais cujos filhos não apresentam problemas, pois a função das reuniões de pais e mestres reduz-se a momento de resolver problemas de comportamento e de aprendizagem dos/as alunos/as. As respostas referentes aos questionamentos específicos sobre a família dos/as alunos/as retomam e ratificam o que os/as respondentes afirmaram ao longo das entrevistas. A família pertencente às camadas populares seria a maior responsável pelo fracasso escolar dos/as alunos/as. A maioria delas seria 114 desinteressada pelos/as desempenho escolar dos/as filhos/as, não freqüentariam a escola, colocariam toda a responsabilidade pela educação formal na escola, e seriam desestruturadas. Evidencia-se o predomínio de visões estereotipadas e preconceituosas sobre estas famílias. Em seus estudos, Mclaren (1997), Patto (1996), e Charlot (2005) apresentam conclusões semelhantes. Segundo Mclaren (1997) pode-se afirmar que é senso comum a concepção de que famílias formadas por mãe e filhos, ou avós e netos, principalmente de camadas populares, sejam famílias desestruturadas e problemáticas. Em pesquisa realizada por Patto (1996), durante as entrevistas, os/as professores/as atribuíram às famílias dos/as alunos/as uma somatória de defeitos. Afirmaram que a família seria uma das grandes responsáveis pelo mau desempenho dos/as alunos/as na escola porque são desestruturadas, em muitos casos, violentas, e responsáveis pelas dificuldades de aprendizagem dos/as filhos/as. Em Charlot (2005), uma das explicações dadas pelo/as professores/as para o fracasso escolar referem-se também às famílias dos/as alunos/as, as quais seriam portadoras de baixo nível cultural, moradoras de bairros violentos, e muitas delas desinteressadas pela educação de seus/uas filhos/as. Esta explicação estaria vinculada, segundo Charlot, com uma forma de salvaguardar sua própria imagem de professor/a. Foi marcante o discurso dos/as participantes desta pesquisa, quase único, voltados para a culpabilização da família. Concorda-se com Charlot que esta busca de responsabilização é um mecanismo de defesa do/a professor/a, entretanto, faz-se necessário um processo de reflexão para que a escola, neste estudo limitado a analisar os conceitos dos/as professores/as, não trabalhe, mesmo que implicitamente, para culpar os pobres pela sua condição de indignidade. Cabe à escolar criar ou ativar mecanismos eficientes de inclusão, de respeito à diversidade cultural, e de aproximação da escola com as comunidades. Enfim, os/as alunos/as precisam ser reconhecidos e tratados como diferentes entre si, e iguais em direito a educação de qualidade. Esta reflexão deveria nortear o objetivo primário da construção curricular das escolas e de seu ensino. 115 Mesmo porque o reconhecimento e valorização da diversidade cultural têm ganhado destaque no âmbito educacional. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) sugerem que os/as docentes/as atuem com uma proposta de respeito às diversidades existentes no espaço da sala de aula, diversidades estas compostas de docentes e alunos/as que diferem em suas formas de ver, sentir, pensar, comer, em sua religiosidade, entre outras diferenças. No âmbito educacional a diversidade cultural se coloca como desafio à ação do/a professor/a no sentido de atender a diversidade buscando a igualdade de condições para que todos/as se escolarizarem, respeitando e valorizando sua condição de diferente, de diverso. Como afirma Demo, é preciso “impulsionar modos de convivência mais igualitários e que orquestrem sabiamente igualdades e diferenças” (2005, p. 89). 116 CAPÍTULO IV CONSIDERAÇÕES FINAIS Os resultados da pesquisa possibilitaram formar um quadro das representações sobre as crianças provenientes de camadas populares, e as implicações destas representações na prática pedagógica dos/as professores/as participantes da pesquisa. Contudo, algumas reflexões preliminares à conclusão merecem ser consideradas dada a relevância e implicações de determinados elementos, tais como: as concepções inerentes à organização e disposição do ambiente de ensino reveladoras da concepção de educação adotada pelo/a professor/a concretizando-se na sua prática pedagógica; as representações que os professores fazem da família dos alunos/as; o processo de formação inicial e continuada destinado aos/as professores/as; e, a diversidade cultural sufocada no processo cotidiano de ensino e aprendizagem. Das observações realizadas pode-se afirmar, quanto ao espaço escolar externo às salas (pátio, áreas de recreação), bem como o espaço organizacional do ambiente das salas de aula, que a dinâmica curricular, desenvolvida pelo/a professor/a, revela e deixa transparecer as acepções de ensino e aprendizagem manifestadas pelos/as professores/as. Pode-se concluir, com as ressalvas devidas aos limites e objetivos específicos da pesquisa, que o lugar onde se ensina não é objeto de preocupação no que tange ao cuidado de sua estruturação, da colocação e disposição dos/as alunos/as neste lugar como forma de facilitar a aprendizagem e interrelaçao entre os participantes do processo. Não há cuidado com o ambiente onde se trabalha, no sentido de considerar o espaço da sala e entorno da escola como fatores integrantes do processo de ensino. A função do espaço restringe-se a ser um local onde se reúnem para ensinar aos/as alunos/as. Este espaço não é considerado no planejamento e desenvolvimento da proposta curricular, ou seja, há uma função utilitária do espaço, mas sem vínculo do aproveitamento dele como elemento que contribui para a aprendizagem. A distribuição dos sujeitos no ambiente físico da escola de forma racionalizada e planejada torna-se um elemento facilitador, seja para interação entre os/as alunos/as, seja para o desenvolvimento cognitivo. 117 Se por um lado a atividade docente não vê, ou considera irrelevante, ou é alheia ao lugar onde se ensina – a disposição física das crianças em sala ou no pátio – também a proposta curricular vigente não focaliza o lugar e a cultura vivida pelas crianças, ignorando os valores culturais de seu bairro de periferia construído e formado por famílias pobres. As propostas curriculares das escolas deveriam abranger a história, a cultura local, e as experiências dos/as alunos/as, inclusive como uma forma de melhorar a auto-imagem das crianças. Observou-se que as crianças demonstravam desinteresse pelas atividades ou conteúdos propostos pelo/a professor/a. Questionados sobre esta situação apenas uma professora estabeleceu relação entre a dispersão e agitação dos/as alunos/as e o interesse pelas atividades. A despeito da dispersão e aparente descontrole, as crianças não demonstraram desrespeito ou indisciplina agressiva contra o/a professor/a, embora tenham ocorrido alguns casos de não cumprimento às determinações dos/as professores/as. Porém, é importante evidenciar que no geral há uma boa interação das crianças entre si, assim como também se relacionam bem com os/as professores/as. Enfim, o/a professor/a consegue, de maneira relativamente satisfatória, manter certo respeito e controle em aula, sem que isto signifique que consiga manter o interesse das crianças, ou construir um ambiente de ensino criativo e instigante. Na maior parte das aulas a maioria dos/as alunos/as realiza movimentos e atividades diversas daquelas propostas pelo professor/a, sem que isto o incomode, desde que seja mantido um grau de (in)disciplina, ou um ambiente de tolerável dispersão, mas sem excessos. Nos momentos em que a dispersão alcançava patamares não aceitos pelo/a professor/a a reação comum era a advertência e em alguns casos a ameaça de punição caso não participassem das tarefas escolares e não se acalmassem. Ficou evidente, nas entrevistas e observações, o conjunto de assertivas dos/as professores/as para justificar a diferença no desempenho de alunos/as. A família ganha dimensões fundamentais, basilares e imprescindíveis no sucesso ou insucesso escolar dos/as filhos/as. Com este olhar unívoco, atribui-se, quase unicamente, à família o “rendimento” das crianças. Ou seja, famílias estruturadas nos moldes liberais conservadores produzem crianças mais “educadas”, organizadas, zelosas, atenciosas, ciosas, estudiosas, e consequentemente 118 crianças de maior sucesso escolar, que criam maior empatia com o corpo docente e pedagógico da escola. Famílias cuja mãe (e às vezes o pai ou responsável) estabelece vínculos com a escola por meio de visitas, participação em reuniões e festas escolares, conversas com o corpo docente, são vistos como grupos cujos filhos/as são discentes dotados da maioria de qualificativos positivos nas representações dos docentes. Estas crianças são portadoras não só de maior potencial meritocrático escolar no ano letivo corrente, mas também aquelas cuja vida escolar futura deverá ser mais promissora, segundo revelam, a quase unanimidade, as afirmações colhidas. As representações docentes sistematizadas demonstram concepções influenciadas pelas teorias da carência cultural, segundo a qual as famílias dos/as alunos/as e o meio sócio-cultural seriam portadores de carências e deficiências que impedem os pais de proporcionarem uma educação adequada aos/a filhos/as. Os depoimentos dos/as professores/as remetem à família a origem de todas as características indesejáveis observáveis nos/a alunos/as e reduzem as experiências vividas em diversos momentos da vida da criança, a mero reflexo de sua convivência familiar. A família do/a aluno/a, segundo os depoimentos dos/as professores, não cumpre seu papel ao não acompanhar e não garantir as condições necessárias para o desenvolvimento da criança, envolvendo desde o cuidado pessoal, asseio, bons modos, urbanidade, bons hábitos, recato e vocabulário adequado. Estas falhas da família fugiriam ao controle e intervenção da escola, como se fossem determinações de origem familiar sobre as quais pouco ou nada a escola pudesse interferir. A lógica expressa é: se a criança não recebe o apoio necessário dos pais, não tem os conhecimentos mínimos necessários adquiridos em seu meio sóciocultural para desempenhar seu papel de aluno/a, provavelmente fracassará na escola. Desta forma responsabiliza-se a pobreza material e a família, somados e relacionados à cultura popular considerada deficitária, como elementos do fracasso educacional dessas crianças. Estes estereótipos que se coloca às crianças advindas de camadas prejudiciais a sua auto estima. vulneráveis sócio-economicamente são 119 Assim tanto o/a professor/a quanto o sistema educacional ficam isentos da responsabilidade da aprendizagem do/a aluno/a, transferindo-a para a família e para o meio social em que a criança vive. Ao considerar que o/a aluno/a tem desempenho medíocre por questões familiares e sociais o/a professor/a não se sente impelido a desenvolver uma dinâmica curricular com ações pedagógicas que favoreçam o melhor desempenho do/a aluno/a. Com este tipo de pensamento o/a professor/a não coloca em questão a eficácia da didática que utiliza em sala de aula, nem sua própria função de educador/a. Atender às diferenças individuais dos/as alunos/as sempre foi uma tarefa do/a professor/a comprometido com sua profissão. O preconceito em relação às famílias dos/as alunos/as é também relativo aos/às alunos/as, pois, desqualifica os saberes por eles adquiridos em um universo cultural diverso do considerado adequado pelo/a professor/a. Reduzir o universo cultural da família do/a aluno/a a um conjunto de limitações, falhas, problemas, tem a função de desresponsabilizar o sistema escolar pelo seu papel de ensinar democrática e eficientemente a todos que nele ingressa, com a convicção que a escola é para todos/as. Quando o/a professor/a informa que as famílias dos/as alunos/as não são estruturadas, ou que estas famílias não sabem educar seus filhos por não cultivarem bons hábitos, ele/a também, direta ou indiretamente se refere ao/a aluno/a. Significa que o/a aluno/a não tem bons hábitos, não é suficientemente educado. Entretanto, mesmo fazendo comentários sobre o modo de vida das famílias dos/as alunos/as vale ressaltar que os/as professores/as afirmaram que não conhecem todas as famílias de seus alunos/as porque muitas não comparecem à escola e os/as professores/as, por sua vez, nunca foram às casas de seus/uas alunos/as. Este é mais um elemento que indica que há uma visão estereotipada das famílias de camadas populares, que mesmo sem conhecê-las é comum considerá-las desorganizadas, sem preocupação com a educação de seus/as filhos/as, além de outros comentários preconceituosos. Aprender os conteúdos programáticos definidos no currículo explícito da escola é uma tarefa difícil para todas as crianças, pois que o processo de aprendizagem é complexo. Para as crianças de camadas populares essa dificuldade é agravada por ter que aprender um conjunto de comportamentos e 120 linguagem, muitas vezes diferentes dos aprendidos em família. Candau (2002), Silva (1995a, 199b), Moreira (2002), Mclaren (1997), apontam que este currículo privilegia conteúdos elitistas e, por conseguinte distante da cultura do/a aluno/a; um currículo que trata os saberes do/a educando/a como irrelevantes para o processo de ensino e aprendizagem. Patto (1996), em sua pesquisa sobre “a produção do fracasso escolar” aponta que as representações dos/as professores/as participantes de sua pesquisa apresentam uma visão estereotipada em relação aos/as alunos/as e suas famílias, e conclui que a escola rejeita a criança como ela é. Também nesta pesquisa a fala dos/as professores/as revela expectativas negativas, quanto à aprendizagem do/a aluno/a, como decorrência de sua estrutura familiar. O descrédito do/a professor/a atinge os/as alunos/as provenientes de famílias “desestruturas” e o fracasso real destas crianças pode ser reflexo do descrédito expresso nas representações. Ou seja, estas concepções interferem diretamente nas práticas pedagógicas docentes e parecem confirmar a premissa de que o/a aluno/a fracassa, mesmo porque não se espera muito dele senão o fracasso, dadas as condições de sua origem nada promissoras. Outros fatores intervenientes e provocadores do fenômeno do fracasso escolar, não são citados, ou são mencionados tão inconsistentemente que ao final convergem na opinião da maioria, de que a família é mesmo a maior responsável pelo fracasso. Assim, o fracasso tem gênese familiar, é na família que habita a origem dos problemas e do fracasso das crianças. Esta conclusão é expressa pelos/as depoimentos dos/as entrevistados/as. Como, de acordo com os/as professores/as, os motivos de insucesso são meramente de origem familiar, não fica estabelecida uma relação entre a atuação docente e o fracasso escolar. Elementos como a metodologia utilizada pelos/as professores/as, as atividades desenvolvidas em sala de aula, a representação que se têm dos/as alunos/as e das famílias dos/as alunos/as, para os sujeitos entrevistados, não têm relação com os resultados do desempenho escolar das crianças. Outro aspecto importante e observado é a falta de motivação. Os/as professores/as não dispõem de meios ou de orientações para motivar os/as alunos/as a participarem das atividades. Ou melhor, as atividades não são 121 planejadas para serem motivadoras por si mesmas, por isso os/as professores/as frequentemente recorrem às repreensões e ameaças. Os conteúdos estando desvinculados da vivência do/a aluno/a e desenvolvido por meio de atividades desinteressantes, favorecem o desinteresse e a dispersão dos/as alunos/as. O fato das atividades serem desmotivadoras, desinteressantes, também não é vinculado, pelos/as professores/as, com o mau desempenho escolar do/a aluno/a. Quando responderam sobre as causas do fracasso, e sobre o rendimento dos/as alunos/as os/as professores/as não estabeleceram relação com o pouco material disponível na escola, tampouco com o planejamento das atividades escolares, nem sequer mencionaram a seleção do conteúdo e proposta curricular impostos pela equipe da Secretaria de Educação sem a sua participação. Não se trata de buscar culpados, nem de responsabilizar exclusivamente o professor/a, porque a questão do fracasso escolar é mais ampla e envolve fatores diversos, que vão desde a definição de políticas públicas à organização do espaço escolar. O/a professor/a tem seu papel no desempenho escolar, na aprendizagem dos/as alunos/as, mas ele/a não é o único responsável. Muitas vezes os docentes também não recebem o apoio que precisam. Eles também passaram por uma formação verticalizada e estigmatizante, seu trabalho é desvalorizado e, muitas vezes, desqualificado, há uma patente escassez de recursos e meios de desenvolver atividades de maneira agradável e diversificada. Por outro lado, preparar atividades que atendam à diversificação de saberes e ritmos de aprendizagem dos/as alunos/as em sala de aula demanda tempo, e o tempo dos/as professores/as entrevistados é limitado. Todos trabalham 40 horas semanais em sala de aula, com exceção de um professor, e não há destinação de tempo para planejamento das aulas em sua carga horária de trabalho semanal. Sem tempo para planejar o/a professor/a não tem condição de elaborar atividades que atendam a todas as necessidades de aprendizagem dos/as discentes. Portanto uma série de fatores corroboram e comprovam as condições totalmente desfavoráveis de trabalho do/as professores/as. Se por um lado os/as professores/as são responsáveis pelo aprendizado dos alunos/as, também são penalizados por uma formação precária, por um sistema que não lhes garante uma formação de qualidade e não lhes oferece as condições adequadas para que haja ensino de qualidade. 122 É necessário que os/as educadores/as sejam preparados/as ou chamados/as a refletir sobre as diferenças culturais, a valorização dos conhecimentos dos/as alunos/as dentro da escola, e como trabalhar os conhecimentos dos/as alunos/as no sentido de relacionarem saberes adquiridos com os novos saberes e novos conhecimentos. Os/as professores/as precisam ter oportunidade ou serem solicitados/as a refletir sobre as Igualdades e diferenças dentro da escola. Igualdade no sentido de garantir o direito igual de acesso aos bens culturais e diferença para garantir o direito de todos em ter sua cultura, sua condição étnica e religiosa, valorizadas. Tudo isto não se faz sem um rigoroso trabalho de formação inicial e continuada. A formação docente deve partir das representações que os/as professores/as fazem sobre o que é educar, quem são os/as alunos/as, o que eles/as sabem, e o que precisam saber. A formação deve aproximar-se da realidade social na qual estão inseridos o/a aluno/a e a escola evitando-se o risco de formar professores/as para uma realidade que não existe. O/a professor/a ao chegar à escola se depara com as crianças reais, que são pobres, negras, mestiças, brancas, barulhentas, alegres, agitadas, sujas, limpas, antipáticas, simpáticas, agressivas. Estas crianças muitas vezes não participam atentamente de todas as aulas, não fazem todos os seus deveres, e quanto a seus pais, nem todos comparecem à escola sem convocação. Em síntese, são crianças diferentes uma das outras e exigem atenção de acordo com suas necessidades. São estas crianças que os/as professores/as se depararão em uma escola pública, e para todos. Candau (2003) considera a necessidade da ampliação da formação dos/as professores/as considerando a complexidade moderna: Globalização, multiculturalismo, questões de gênero e raça, novas formas de comunicação, manifestações culturais dos adolescentes e jovens, expressões de diferentes classes sociais, movimentos culturais e religiosos, diversas formas de violência e exclusão social configuram novos e diferenciados cenários sociais, políticos e culturais. (2003, p. 249). Além das diferentes experiências, das diferenças de origem, de grupos sociais e culturais diversos (como focalizado nesta investigação), os/as alunos/as são diferentes também em estilos de aprendizagem, em capacidades cognitivas, em interesses. Portanto, quando se fala em atender a diversidade cultural dentro 123 da escola, trata-se não só de mudanças na proposta curricular, como também e principalmente de mudanças das práticas pedagógicas as quais possibilitam vivências concretas orientadas para atender a esta diversidade. Tal atitude requer o empenho dos vários atores envolvidos no processo educacional no sentido de participarem da formulação ou reformulação da dinâmica curricular da escola. Afirmar que a escola tem uma cultura que é diferente da cultura dos/as alunos/as de camadas populares não explica, por si, o fracasso escolar. Sabe-se, entretanto, que influi no desempenho do/a aluno/a, porque a vivência dele nem sempre é valorizada pela escola. Consequentemente este fato contribui para a exclusão do/a aluno/a, mesmo daqueles que permanecem fisicamente presentes dentro da escola. Os limites da pesquisa não possibilitaram verificar até que ponto a distância entre a vivencia cultural do/a aluno/a e a cultura da escola, ou a cultura valorizada pela escola afetam o rendimento escolar do/a aluno/a provindo de camada popular. Entretanto, possibilitou concluir que o/a professor/a possui uma concepção estereotipada em relação ao/a aluno/a e a sua família. Este fator é relevante aos propósitos investigados, porque revela as conseqüências da metodologia utilizada, das atividades desenvolvidas e da interação do/a professor/a com os/as alunos/as no que diz respeito ao sucesso ou insucesso escolar. Esta relação estabelece a priori, clara ou implicitamente, a empatia ou antipatia do professor/a com estes/as alunos/as. Consoante ao que Perrenoud (2001) e Moreira (2002) afirmam, os conceitos e representações que se tem de uma pessoa ou grupo de pessoas determina ou influi na interação com estas pessoas. De modo geral, aquele/a aluno/a cuja cultura mais se aproxima da cultura valorizada pela escola, que a linguagem é mais próxima àquela aceita pela escola, tem mais facilidade de sobressair-se com sucesso, de estabelecer uma empatia com o/a professor/a, pois é dotado de valores mais parecidos com aqueles valores que a escola defende. Em contrapartida crianças “portadoras” de estereótipos negativos, ou desta interação negativa professor-aluno, faz com que o/a aluno/a tenha mais dificuldade. Mesmo aqueles/as professores/as provenientes de meios socioeconômicos parecidos aos dos/as alunos/as assumem a cultura da escola como sua e cobram 124 das crianças que desempenhem bem o papel de aluno/a dentro do modelo estabelecido pela escola, mesmo que para isso os/as alunos/as tenham que negar sua própria cultura (MOREIRA, 1996). Quando ingressam na escola essas crianças vêem negado seus saberes, sua linguagem é considerada errada, sua família é considerada desestruturada, seus hábitos e costumes considerados inadequados, enfim seus referenciais culturais devem ser mudados. As entrevistas revelam que os/as professores/as vêem a criança como portadora de déficit, com problemas e limitações. O efeito esperado desta predeterminação é de perda de crédito na capacidade da criança em aprender estabelecendo, praticamente uma previsão de fracasso no futuro escolar dos/a alunos/as. Com base nas representações dos/as professores/as entrevistados, observa-se a necessidade de reformulação e mudanças das concepções desses atores com relação às diferenças culturais dos/as alunos/as em sala de aula e consequentemente mudanças nas suas ações pedagógicas. Segundo Rodríguez e Sentis (2002) é quase impossível adequar o ensino às necessidades de aprendizagem de cada aluno/a, considerando as diferenças individuais, com a proposta didática denominada de tradicional, no modelo expositivo, transmissivo de conhecimentos, onde o professor é o centro do processo, ou seja, no modelo de ensino “bancário”. Centrando-se nos aspectos que cabem ao professor modificar, os autores citam três aspectos que possibilitariam uma modificação mínima necessária para atender a diversidade presente no contexto escolar. Seriam eles: considerar as capacidades de cada aluno/a propondo atividades diversificadas, com graus de complexidade diferenciados dependendo da capacidade de cada um, sem exigir do/a professor/a que mude os conteúdos trabalhados com a classe, e compartilhar com os/as alunos/as os objetivos da atividade. A organização da sala de aula deveria ser modificada, adequando o ambiente para um trabalho predominantemente coletivo, cooperativo entre os/as alunos/as. Acrescenta-se ainda a metodologia e os procedimentos avaliativos empregados pelo/a professor/a. A metodologia deve primar pela autonomia dos alunos e “[...] que facilitem o aprender a aprender” (RODRÍGUEZ e SENTÍS, 2002, p.92). 125 Reforçando o que foi dito anteriormente se não houver uma modificação profunda da concepção que se tem de educação e de currículo e das implicações da diversidade cultural no processo de aprendizagem dos/as aluno/as, dificilmente será possível desencadear um processo educacional de qualidade. Câmara (2003) afirma que, a atualização dos conceitos proporciona uma nova postura diante das questões apresentadas contribuindo para o desenvolvimento de ações que se coadunam com a realidade contemporânea. Lopes (2006) sugere que para a escola constituir-se em espaço de inclusão, esta escola deve colocar em prática uma pedagogia multirracial e interétnica, de respeito e valorização da diversidade étnico-racial e voltada para a formação do cidadão. Esta proposta deve combater a discriminação e eliminar os preconceitos e estereótipos, estimulando a auto-imagem e a auto-estima positiva dos/as alunos/as. Para tanto, segundo o autor, é necessário chamar a comunidade escolar e do entorno para a reconstrução do projeto políticopedagógico e da proposta curricular. Em relação aos/as professores/as e alunos/as, Lopes sugere que é preciso por em prática posturas que viabilizem uma vivência democrática, a valorização das diferenças como fator de respeito, aprendizado e crescimento. No plano de atuação individual, Lopes indica que são necessárias práticas pedagógicas que levem em conta a integralidade da pessoa (corpo, mente e emoção) e buscar procedimentos que valorizem o trabalho coletivo e em grupo tendo como base a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade para o trato com a diversidade e a história das culturas diversas. É necessário despertar na criança o interesse e respeito pelas semelhanças e diferenças presentes na classe, na origem, no modo de vestir, no modo de falar, no modo de ser, nos hábitos alimentares, nos costumes e tradições, nas linguagens e enfim “orientar a produção coletiva para socialização dos saberes; organizar o espaço para valorizar a diversidade étnicoracial e cultural existente na sala de aula” (LOPES, 2006, p. 6). O currículo de nossas escolas precisa ser avaliado e pensado sob o prisma do multiculturalismo. A escola precisa valorizar e respeitar as diversas culturas e tratá-las como equivalentes. Definir o que deve ser aprendido, o que precisa ser repensado. Não há conhecimento único e válido em detrimento de outros saberes, é necessário repensar o que deve ser ensinado nas escolas a partir das 126 necessidades e da revalorização das culturas existentes na sociedade como um todo e na sala de aula. Infelizmente o limite desta pesquisa não permite afirmações quanto à formação inicial e continuada dos/as professores/as. Entretanto, segundo os autores estudados o processo de formação pelos quais os/as docentes são preparados para o exercício da docência não os/as preparam para uma atuação coerente com o mundo plural e diverso que a escola se depara. Sequer preparam os/as professores/as para o/a aluno/a real que está nas escolas. Os/as professores/as se ressentem quando se deparam com crianças que representam tudo o que eles/as reprovam em um aluno/a. Seria relevante a realização de um estudo comparativo do nível de formação e as representações de professores/as de escolas periféricas, com clientela predominante de crianças pobres, com o nível de formação de professores/as de escolas de bairros centrais da cidade que atendem crianças provenientes de famílias em condições econômicas mais favorecidas. A heterogeneidade encontrada entre os/as alunos/as, encontra-se também entre os/as professores/as. Um dado empírico relevante de se destacar, é que há uma “tradição” institucional de lotar os “melhores” professores/as nas escolas consideradas melhores. Não se pretende com este estudo responsabilizar, culpar ou inocentar os/as professores/as. Todavia, revelar as concepções e as representações dos/as professores/as em relação aos/as alunos/as de origem popular é uma das muitas tarefas da pesquisa em educação. É importante demonstrar os tipos de preconceitos existentes no contexto escolar e quais as interferências destes preconceitos para a formação dos/as alunos/as. Estes pré-conceitos se constituem elementos, mecanismos e objetos para a reflexão das práticas docentes confirmadoras de concepções de mundo e de educação. 127 REFERÊNCIAS ALARCÃO, Isabel. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. Coleção Questões da nossa época. São Paulo, SP: Cortez Editora, 2003. ALCUDIA, Rosa [et al.]. trad. Daisy Vaz de Moraes. Atenção à Diversidade. Porto Alegre, RS: Artmed, 2002. BARBOSA, João. Currículos para a Diversidade cultural: do debate teórico à prática. In: Educação e diversidade. Inovação: Revista do Instituto de Inovação Educacional, vol. 9, nº 1 e 2, 1996, 21-34. BRASIL. Parâmetros curriculares nacionais: temas transversais, orientação sexual / Secretaria de Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1997. __________. Diretrizes curriculares nacionais para o ensino fundamental. 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C- Relações interpessoais - Dificuldades de relacionamento do/a professor/a com os/as alunos/as. - O/a professor/a é atencioso/a com os/as alunos/as, e os/as alunos/as com o/a professor/a; - Estimula a cooperação entre os/as alunos/as. - Respeita a fala, a participação dos/as alunos/as nas aulas; valoriza o que os/as alunos/as falam; D- Prática pedagógica - Recursos instrucionais e estratégias de aprendizagem utilizadas (com todos os alunos e com alunos que apresentam dificuldade nas atividades escolares). - O/a professor/a tenta envolver todos/as os/as alunos/as nas atividades propostas. - O/a professor/a incentiva os/as alunos/as a estabelecerem relação entre o estudado e os conhecimentos adquiridos pelos alunos fora da escola. 138 - O/a professor/a acompanha de perto a realização das atividades propostas (acompanha igualmente a todos os/as alunos/as) - Os/as alunos/as que apresentam maiores dificuldades têm mais ajuda por parte do/a professor/a? - O/a professor/a justifica para os/as alunos/as a importância e a utilidade dos conteúdos trabalhados. E- Caracterização das famílias dos alunos - Comentários em sala de aula referentes às famílias dos alunos. - Tratamento dado aos familiares dos alunos quando vão à escola (em reuniões de pais, e/ou em visita à escola) 139 ROTEIRO DAS ENTREVISTAS COM OS PROFESSORES A- Dados Pessoais 1- Nome: _________________________________________________________ 2- Gênero M( ) F( ) 3- Faixa etária – De 25 a 30 ( ) de 31 a 40 ( ) de 41 a 50 ( ) de 51 a 60 ( ) 4- Formação acadêmica: ( Pedagogia ( ) Nível médio Magistério ) Graduação em outra licenciatura ( ( ) Graduação em ) Especialização ( ) Mestrado 5- Tempo de docência no magistério: ___________________________________ 6- Tempo de trabalho na escola: _______________________________________ B- Caracterização dos alunos 1- Faça uma descrição das características de seus alunos. (como se vestem, do que gostam, como falam, quais os gostos e preferências em relação a jogos, brincadeiras e músicas). 2- Como se comportam seus alunos? Como você acredita que deveriam se comportar? 3- Você percebe diferenças de comportamento entre seus alunos? A que você atribui estas diferenças? 4 - O que você considera bom nos seus alunos? E o que você considera de ruim neles? C- Relação professor X alunos e alunos X alunos 5- Como é seu relacionamento com os/as alunos/as? (Se tiver alguma dificuldade de relacionamento) Por que estas dificuldades acontecem? 6- Os/as alunos/as têm um bom relacionamento entre eles? O que faz para melhorar o relacionamento entre os/as alunos/as? 7- Qual a sua expectativa com relação ao desempenho escolar de seus alunos? D- Relação do aluno com a escola 8- Os alunos freqüentam regularmente as aulas? 9 - São pontuais? 140 10 - Demonstram ter cuidados com o ambiente físico, mobiliário e equipamentos da escola? 11- Fora do horário de aula a escola oferece oportunidade para os/as alunos/as fazerem alguma atividade cultural, esportiva ou recreativa na escola? E- Prática pedagógica 12- Você trabalha as mesmas atividades com todos os alunos? O que você propõe para os/as alunos/as que apresentam mais dificuldade nas atividades escolares? 13- Como você organiza o ambiente de sala de aula? (Que critérios utiliza para formar grupos de trabalho?). 14- Como são decididos os conteúdos que serão trabalhados com seus alunos? Quais os critérios para a seleção dos conteúdos? 15- Você considera que as atividades desenvolvidas em sala de aula possibilitam que os/as alunos/as utilizem os conhecimentos adquiridos em sua vivência cotidiana? 16 - Que fatores você acredita que contribuem para que uns alunos aprendam mais que outros? 17 - A linguagem oral é conteúdo de ensino? Como você ensina este conteúdo? O que você pensa sobre a forma de falar de seus alunos? 18 - Para você o que é sucesso escolar e o que é fracasso escolar? Quais os fatores que contribuem para que os/as alunos/as fracassem na escola? 19 - O que seus alunos sabem fazer muito bem? O que eles precisam aprender e que você considera que já deveriam ter aprendido em casa? F- Caracterização das famílias dos alunos 20 - Como você descreve as famílias de seus alunos? 21 - Como é sua relação com as famílias de seus alunos? 22 - Para você qual seria o papel das famílias com a educação formal de seus filhos/as? 23 - As famílias participam das reuniões de pais e mestre? 24 - As famílias vão à escola por vontade própria?