file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm Fórum Entrevista Alfredo Somoza De: Ivan Bursztyn Data: 03/12/2008 Texto: Sejam bem vindos ao Fórum de debates do Instituto Virtual de Turismo. Para fazerem suas perguntas ou deixarem seus comentários basta clicar no ícone ´novo tópico´. De: Eloise Botelho Data: 03/12/2008 Texto: Prezado Somoza, gostaria de parabenizá-lo pela iniciativa, muito importante para se pensar uma nova proposta de turismo. No entanto, tenho alguns questionamentos que me perseguem toda vez que leio/estudo/discuto sobre turismo de base comunitária/ turismo responsável. Até que ponto o turismo responsável é capaz de evitar os impactos sociais, econômicos, e culturais decorrentes da introdução dessa atividade nas comunidades? Entendo o turismo como atividade econômica no contexto do capitalismo... E me pergunto se toda proposta de inovar no turismo não é uma nova roupagem do capitalismo... De: Ricardo de Oliveira rezende Data: 03/12/2008 Texto: Caro Somoza, Creio que o que se chama hoje de ´TURISMO COMUNITÁRIO´ poderia melhor ser definido como ´HOSPITALIDADE COMUNITÁRIA´. E, na verdade, pelo que podemos perceber, as comunidades que recebem turistas não fazem parte da organização deste chamado ´TURISMO RESPONSÁVEL´, apesar de serem bastante autônomas na definição de normas e limites da recepção que fazem. Ademais, a maioria das pessoas destas comunidades não têm acesso ainda ao turismo. Ou seja, elas não viajam, não conhecem outros lugares. Enfim, você acha que o ´TURISMO RESPONSÁVEL´ que poderia se preocupar com este aspecto ético do turismo? Seria possível que os ''turistas responsáveis'' pudessem se preocupar não só com ajudar concretamente com dinheiro as comunidades locais, mas também, numa linha de mão dupla, promoverem o turismo das pessoas das comunidades visitadas? Poderia até mesmo, promover um turismo em que, o turista virasse anfitrião e acolhesse o membro da comunidade, tornado turista, em seu lugar de origem. De: Ricardo de Oliveira rezende Data: 03/12/2008 Texto: Olá Eloise e demais companheiros, Acho que é isso que a Luzia Neide Coriolano, pesquisadora da área, cansa de afirmar em suas apresentações e palestras. Ela afirma que o pessoal que desenvole o ´turismo comunitário´ quer apenas se inserir na grande máquina do turismo. Eles não acham que o turismo comunitário seja algo que vá mudar nada, a não ser suas próprias condições materiais. Mas, a despeito disto, a Luzia Neide ainda acha que este seja um tipo de ´turismo alternativo´, que aponta que há mudanças no mercado turístico. file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm (1 of 4)3/2/2009 13:20:57 file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm De: Robson Pereira de Lima Data: 03/12/2008 Texto: Prezado Somoza, eu sou pesquisador do IVT e, desde já, agradeço pela sua contribuição para o enriquecimento dos nossos trabalhos. Gostaria que o senhor esclarecesse como consolidar a idéia apresentada de um ´turismo responsável´ a partir da interação dos organizadores de viagens, dos viajantes e das comunidades locais, considerando que se trata de agentes com interesses, visões e origens distintas? De: Alfredo Somoza Data: 05/12/2008 Texto: Prezada Eloise, em primeiro lugar agradeço pelas considerações positivas acerca do trabalho que estamos desenvolvendo (na AITR). A pergunta que você faz é central no raciocínio sobre o turismo responsável feito sobre a base comunitária. No inicio começou-se a raciocinar sobre esse tema de forma quase exclusiva, ou seja, que o turismo podia tornar-se uma atividade econômica “por si” para integrar a renda das comunidades locais. Hoje estamos convencidos que o turismo pode ser entendido como fonte de renda complementar mas nunca exclusiva. Uma nova fonte de recursos econômicos (cash flow) que permita fazer investimentos no conjunto das atividades econômicas de uma comunidade (e não apenas autoalimentar o turismo), favorecendo também os processos de integração de setores marginalizados por condição social, por gênero ou etinia. Os impactos são controláveis e positivos se se consegue: i) evitar que o turismo favoreça apenas alguns sujeitos e crie uma nova “classe” privilegiada dentro da comunidade, ii) que as modalidades do que se oferece ao visitante sejam concordadas democraticamente, iii) que os turistas tragam um melhoramento das condições de vida para todos os membros da comunidade de forma direta (criação de novos postos de trabalho, aumento das micros empresas etc.) e indiretamente (maior segurança, obras coletivas, confronto cultural, apoio a projetos comunitários etc.). Sobre o aspecto ligado ao turismo dentro do sistema capitalista o debate poderia ser muito longo, mas De: Alfredo Somoza Data: 05/12/2008 Texto: Sobre o aspecto ligado ao turismo dentro do sistema capitalista o debate poderia ser muito longo, mas é evidente que qualquer atividade que prevê o instrumento do dinheiro e do lucro se inscreve perfeitamente dentro dele. Em nosso caso, o “lucro” se converte de forma controlada e participativa sobre uma comunidade inteira, não favorecendo sujeitos específicos. Uma lógica capitalista? Talvez, mas no sentido desejado, de Porto Alegre para frente, com o Fórum Social Mundial e com a esperança que “um outro mundo seja possível”. De: Ricardo de Oliveira Rezende Data: 05/12/2008 Texto: Prezados Somoza, quais são atualmente os destinos das viagens solidárias de italianos no Brasil? Quais os lugares que vêm sendo trabalhados e qual o método de escolha ou seleção, se é que há? Abraço file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm (2 of 4)3/2/2009 13:20:57 file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm De: Alfredo Somoza Data: 09/12/2008 Texto: Caro de Oliveira, você tocou numa questão importante, a reciprocidade. É verdade que o turismo responsável e de base comunitária é muito mais “hospedagem” do que turismo. Mas se entendemos por turismo todo o conjunto de serviços para o viajante, muitas comunidades na realidade se configuram como gestoras “totais” do turista como hóspede. Tomando um exemplo de seu país, a comunidade de Silves, no Estado do Amazonas, organizada na associação ASPAC, de um lado exerce a tutela ambiental de um ecossistema importante, do outro um verdadeiro “resort” onde os turistas dormem, comem e usufruem também dos serviços de transporte e de guias turísticos ao longo dos itinerários (trilhas, passeios e afins). Tudo inteiramente gerido por sujeitos comunitários que recebem uma retribuição, além de produzir um beneficio para toda a comunidade. Podemos afirmar que este exemplo seja apenas de “hospedagem”? Eu diria que não, mas sim é um serviço turístico completo. De: Alfredo Somoza Data: 09/12/2008 Texto: Sobre o outro ponto, você apontou, como estava dizendo, um problema ainda não resolvido, ou seja, o da reciprocidade. Na Europa o turismo é um direito, e como tal está assegurado também para quem não tem acesso, por meio de instituições do chamado “turismo social” ou, por exemplo, pelas prefeituras. A situação fora da Europa, claramente, é muito diferente e muitas pessoas nem sabem o que significa “turismo”, e nesses casos nem chegamos a falar de direito. A sua idéia de hospedar quem nos hospedou na realidade já acontece em muitos casos que conheci, nos quais lideranças comunitárias foram convidadas por grupos de ex-viajantes na Europa para conhecer e para promover sua destinação. Experiências desse tipo são hoje mais difíceis por causa dos vistos de ingresso na Europa que impedem a entrada de pessoas que não tenha uma renda médio-alta. De: Alfredo Somoza Data: 09/12/2008 Texto: Prezado Pereira De Lima, a “Carta para as viagens sustentáveis” a partir da qual nasceu a Associação Italiana de Turismo Responsável (AITR) define três sujeitos: viajantes, organizadores e, claro, a comunidade. No espírito do turismo responsável todos os três tem o mesmo objetivo, ou seja, tornar o turismo sustentável economicamente e responsável socialmente. Isso na melhor das hipóteses, ou seja, no caso de lidar com um viajante “responsável”, um operador turístico “iluminado” e uma comunidade “autodeterminada”. Faltando essas condições pode-se mesmo assim encontrar um ponto de convergência entre os três sujeitos que pode conter alguns elementos como a “autenticidade” para o turista, a “sustentabilidade no tempo” para o operador e o “desenvolvimento participado” para a comunidade local. Quando um dos três sujeitos acredita que não tem nada em comum com os outros, o turismo torna-se insustentável. O desenvolvimento de um destino turístico no qual não exista um “diálogo” entre as partes envolvidas normalmente acontece às custas de uma delas ou de outros “atores mudos” como, por exemplo, o meio ambiente. file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm (3 of 4)3/2/2009 13:20:57 file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm De: Alfredo Somoza Data: 12/12/2008 Texto: Há no Brasil, atualmente, vários destinos de “turismo responsável”. Eu vou falar brevemente sobre as experiências que conheço. No Estado do Amazonas há a experiência dos ribeirinhos de Silves (Associação ASPAC) de turismo comunitário em prol do meio ambiente. Além desse primeiro caso há uma outra experiência na Reserva dos Sateré Mawé (Barreirinhas), não muito longe, onde eles “reproduziram” o mundo do guaraná para receber turistas fora da Reserva, destacando o significado que esta planta tem na cultura deles. Há outras experiências na região amazônica do Rio Negro que não conheço pessoalmente. No Nordeste existe a experiência de turismo comunitário Tremembé e o projeto “Casa encantada” do MLAL (Bahia), uma associação italiana presente há muito tempo no Brasil. Em Olinda – PE acaba de começar uma outra experiência promovida pela ONG Istituto di Cooperazione Economica Internazionale, na qual sou presidente, junto às autoridades locais; essa experiência visa à valorização do patrimônio cultural da cidade. De: Alfredo Somoza Data: 12/12/2008 Texto: No Sul, no Estado de Santa Catarina, está surgindo uma rede de operadores e de donos de hotéis com padrões éticos e sustentáveis. São muitas outras as experiências das quais tenho vagas notícias no Brasil, um dos primeiros países a vivenciar o nascimento de experiências desse tipo. O critério de decisão é fundamentalmente a vontade da comunidade local de elaborar um projeto de afirmação de sua própria identidade social, utilizando o turismo para ratificar essa autonomia e para difundir a sua experiência. Sendo o Brasil um “país-continente”, há o risco de fragmentação e da impossibilidade de constituir-se em rede (como, por exemplo, no Equador). Por isso, seria importante um apoio maior das autoridades federais e um interesse por parte do mundo acadêmico para atuação de facilitadores desse processo. file:///C|/IVT/Fórum%20Entrevista%20Alfredo%20Somoza.htm (4 of 4)3/2/2009 13:20:57