Relatório Final Mapa do associativismo em Porto Alegre Marcelo Kunrath Silva (Departamento de Sociologia/PPG Sociologia – UFRGS) [email protected] Porto Alegre, novembro de 2007 SUMÁRIO Introdução. Associativismo e democracia: o caso de Porto Alegre .................... 3 Referências bibliográficas ........................................................................... 7 Base de Dados I. Pesquisa com 167 entidades comunitárias/2003 ...................... 9 Apresentação ............................................................................................... Relação das entidades entrevistadas ........................................................... Caracterização do universo de entidades pesquisadas ................................ Caracterização da estrutura das entidades comunitárias pesquisadas ......... Caracterização da organização e funcionamento interno das entidades comunitárias pesquisadas ............................................................................ Caracterização da atuação das entidades comunitárias pesquisadas ........... Considerações finais ................................................................................... Bibliografia citada ....................................................................................... 10 12 15 21 30 40 63 65 Base de Dados II. Pesquisa com 116 entidades participantes do Orçamento Participativo (1999) ................................................................................................. 67 Apresentação ............................................................................................... Relação das 116 entidades pesquisadas ...................................................... Caracterização das entidades pesquisadas .................................................. Participação no Orçamento Participativo .................................................... Efeitos do Orçamento Participativo sobre as organizações sociais ............ Avaliação do OP ......................................................................................... Considerações Finais .................................................................................. Bibliografia citada ....................................................................................... 68 69 72 82 94 102 106 107 2 Introdução. Associativismo e democracia: o caso de Porto Alegre Diversos enfoques de análise da construção democrática enfatizam uma relação positiva entre formas de organização societária e processos de democratização. Esta perspectiva, por exemplo, encontra-se em autores clássicos do pensamento político, como Rousseau e John Stuart Mill, analisados pelo trabalho de Pateman (1992). Segundo a autora, estes autores fornecem fundamentos para uma teoria da democracia participativa, que rejeita os argumentos da incapacidade de participação do cidadão comum e da ameaça que tal participação traria para a estabilidade democrática, argumentos estes constituintes do chamado “elitismo democrático”. Nas palavras da autora, A existência de instituições representativas a nível nacional não basta para a democracia; pois o máximo de participação de todas as pessoas, a socialização ou ‘treinamento social’, precisa ocorrer em outras esferas, de modo que as atitudes e qualidades psicológicas possam se desenvolver. Esse desenvolvimento ocorre por meio do próprio processo de participação. A principal função da participação na teoria da democracia participativa é, portanto, educativa; educativa no mais amplo sentido da palavra, tanto no aspecto psicológico quanto no de aquisição de prática de habilidades e procedimentos democráticos. Por isso, não há nenhum problema quanto à estabilidade de um sistema participativo; ele se auto-sustenta por meio do impacto educativo do processo participativo. A participação promove e desenvolve as próprias qualidades que lhe são necessárias; quanto mais os indivíduos participam, melhor capacitados se tornam para fazêlo.(PATEMAN, 2002:60-61) Esta articulação entre práticas associativas, participação sócio-política e democracia é defendida também pelo trabalho de Alexis de Tocqueville sobre “A democracia na América”. Nesta obra clássica, o autor ancora sua explicação dos avanços da sociedade norte-americana, em termos de igualdade e liberdade, na existência de uma sólida base associativa entre a população. É esta vida associativa intensa que constitui o contraponto às tendências de individualização excessiva e, como a outra face desta individualização, de ameaça de despotismo por parte de um Estado que concentra poder e não encontra mais os limites impostos pelos poderes particulares das sociedades aristocráticas. Através da vida associativa, então, indivíduos comuns aprenderiam a desenvolver práticas coletivas e a importância destas para si e para a vida em sociedade. Como salienta Tocqueville (2000:143), os homens, nas associações, 3 aprendem a submeter sua vontade à de todos os outros e a subordinar seus esforços particulares à ação comum, coisas que não é menos necessário saber nas associações civis do que nas associações políticas. (...) Portanto, as associações políticas podem ser consideradas como grandes escolas gratuitas, em que todos os cidadãos vão aprender a teoria geral das associações. (...) Quando os deixam [os indivíduos] associar-se livremente em todas as coisas, acabam vendo, na associação, o meio universal e, por assim dizer, único, que os homens podem utilizar para atingir os diversos fins que se propõem. Cada nova necessidade desperta imediatamente a idéia de se associar. Aqui, novamente, encontra-se a noção de que a participação social e política constitui uma verdadeira “escola” de associativismo, ensinando as habilidades necessárias ao agir coletivo e, ao mesmo tempo, forjando uma predisposição a tal agir, em contraposição às tendências individualizantes da sociedade moderna. A teoria habermasiana também salienta esta conexão entre associativismo e democracia. Na medida em que a existência de uma efetiva democracia depende da articulação entre a esfera político-institucional e a esfera societária, através da mediação da esfera pública, na qual as demandas, interesses e problemas sociais consigam expressar-se e, de alguma forma, orientar a atuação dos agentes e instituições políticoadministrativas, torna-se imprescindível a existência de atores sociais capazes de organização e atuação autônoma. Como destaca Costa (1994:44), A sociedade civil, com seu conjunto de associações voluntárias, independentes do sistema econômico e político-administrativo, absorve, condensa e conduz de maneira amplificada para a esfera pública os problemas emergentes nas esferas privadas, no mundo da vida. Ou seja, são as formas de associativismo civil, na medida em que tiverem capacidade e autonomia, que irão garantir que o fluxo de influências se oriente da sociedade para as instituições políticas, garantindo o controle e a abertura destas para os interesses societários, e não ao contrário, com a subordinação da sociedade e seus atores aos interesses e à racionalidade da esfera político-administrativa. Por fim, outra fonte teórica que tem destacado a relação positiva entre associativismo e democracia encontra-se nos trabalhos de autores que adotam a abordagem do “capital social”. Colocando os agentes em relação, estabelecendo processos de comunicação entre eles, forjando identidades coletivamente compartilhadas, criando compromissos e responsabilidades com o coletivo, as organizações e as redes que compõem o tecido associativo tendem a gerar relações de confiança. Tal confiança, por sua vez, é fundamental no desenvolvimento de processos 4 associativos, na medida em que é a partir dela que se podem estabelecer objetivos comuns e, mais do que isso, haver um engajamento dos agentes na realização destes objetivos em função de uma expectativa de que todos (ou pelo menos uma parcela significativa) irão igualmente engajar-se. Como salienta Putnan (1996:180), A confiança promove a cooperação. Quanto mais elevado o nível de confiança numa comunidade, maior a probabilidade de haver cooperação. E a própria cooperação gera confiança. Assim, as práticas associativas contribuem para a constituição daquilo que alguns autores têm conceituado como “capital social”, ou seja, confiança, normas e sistemas, que contribuam para aumentar a eficiência da sociedade, facilitando as ações coordenadas (PUTNAN, 1996:177). Este “capital social” tende a ser produzido e acumulado através da ação e cooperação coletiva, forjando articulações e relações de confiança que facilitam a geração de práticas coletivas em outros campos, não necessariamente relacionados com aquele das relações originais. Para Putnan, este “capital social” acumulado, este estoque de confiança e cooperação, é um fator central na explicação do bom desempenho das instituições políticas democráticas, condicionando as mesmas. Nas suas palavras, o contexto social e a história condicionam profundamente o desempenho das instituições. Quando o solo regional é fértil, as regiões sustentam-se das tradições regionais, mas quando o solo é ruim, as novas instituições definham. A existência de instituições eficazes e responsáveis depende, no jargão do humanismo cívico, das virtudes e práticas republicanas. Tocqueville tinha razão: diante de uma sociedade civil vigorosa, o governo democrático se fortalece em vez de enfraquecer.(1996:191 – destaque no original) O ponto em comum entre as diversas abordagens esboçadas acima é, apesar de suas importantes diferenças (e, no limite, divergências) teóricas, o destaque à importância dos processos organizativos e da atuação dos atores sociais para a implantação, sustentação e/ou aprofundamento da democracia. Sejam funcionando como “escolas” de cidadania, sejam possibilitando a expressão pública de representações e interesses sociais, sejam controlando e orientando a ação estatal, sejam desenvolvendo relações de confiança e envolvimento coletivo, entre outras potencialidades, as organizações sociais desempenhariam um papel fundamental para a efetivação da democracia, ao mesmo tempo que são fortalecidas pela própria experiência da participação democrática. 5 Esta relação entre associativismo e democracia, tal qual enunciada pelos autores referidos acima, se coloca como uma das vertentes centrais da já significativa literatura de análise das experiências de organização e participação social que marcam a trajetória recente de Porto Alegre (Abers, 2000; Araújo, 1999; Avritzer e Navarro, 2003; Baiocchi, 2005; Fedozzi, 2000; Santos, 2002; Silva, 1997; Silva, 2001). Esta literatura tem enfatizado, de um lado, a importância da trajetória e da configuração do associativismo municipal, especialmente dos segmentos populares, para a instituição e efetivação de experiências participativas como o Orçamento Participativo e os Conselhos de Políticas Sociais. Ou seja, o êxito dos fóruns participativos implantados no município, no sentido da sua constituição como canais de efetiva participação social, estaria, em grande medida, relacionado à existência de uma sociedade civil formada por organizações sociais com relativa autonomia, capacidade de mobilização, enraizamento e reconhecimento sociais. Por outro lado, esta mesma literatura enfatiza que as próprias experiências de participação, pela forma como se constituíram em Porto Alegre, criaram condições e estímulos que fomentam os processos organizativos da sociedade civil, contribuindo, assim para o seu fortalecimento e vitalidade. Neste sentido, então, Porto Alegre seria um caso exemplar de uma “relação virtuosa” entre as dinâmicas associativas e os processos de ampliação da democracia através da participação social: estes processos encontram uma de suas principais bases naquelas dinâmicas, que, por sua vez, são alimentadas pela participação social. Tal “relação virtuosa” seria um dos fatores que fizeram com que Porto Alegre se destacasse internacionalmente, trazendo para a cidade um grande número de pesquisadores, gestores públicos, representantes de organismos internacionais, militantes políticos, entre outros. No entanto, apesar da significativa literatura já existente sobre o tema, parece haver uma certa fragilidade em termos da base empírica sobre a qual se fundam grande parte das análises que abordam o associativismo porto-alegrense e sua relação com a democratização no âmbito da gestão municipal. Na verdade, a idéia da existência de uma sociedade civil “forte, autônoma e participativa” acabou se transformando em um “dado”, em um pressuposto de grande parte dos estudos. Neste sentido, cabe retomar a afirmação de Bachelard (1996:18): Diante do real, aquilo que cremos saber com clareza ofusca o que deveríamos saber. Ou seja, a presença de uma certa reificação e idealização da sociedade civil porto-alegrense 6 acabou se colocando como um entrave para um conhecimento mais adequado de um tecido associativo dinâmico e complexo, particularmente no que se refere às suas significativas diferenças regionais e às mudanças pelas quais passa este associativismo, nas últimas duas décadas, em função das alterações mais ou menos profundas nos padrões de relacionamento entre a sociedade civil e a esfera municipal do Estado. O presente estudo visa, exatamente, buscar, através da reunião e sistematização de duas bases de dados sobre a sociedade civil e a participação social em Porto Alegre, cobrir tal lacuna e oferecer informações e análises que possibilitem uma compreensão mais qualificada tanto das implicações da configuração do associativismo local sobre os processos de participação quanto os impactos destes processos sobre as práticas associativas. Além disto, a partir deste trabalho são identificados diversas lacunas em termos do conhecimento do tecido associativo de Porto Alegre, abrindo novas frentes de trabalho para futuras investigações tanto no âmbito do Observatório Social de Porto Alegre quanto nas instituições acadêmicas. Referências bibliográficas ABERS, Rebecca. Do clientelismo à cooperação: governos locais, políticas participativas e organização da sociedade civil em Porto Alegre. Cadernos da CIDADE, n°7, volume 5, maio/2000. ARATO, Andrew; COHEN, Jean. Sociedade civil e teoria social. In: AVRITZER, Leonardo (coord.). Sociedade civil e democratização. Belo Horizonte: Del Rey, 1994. ARAUJO, Margarete Panerai. Orçamento Participativo e a formação para a cidadania. Porto Alegre: PUC/RS, 1999. (Dissertação de Mestrado apresentada no Curso de Pós-Graduação em Serviço Social). AVRITZER, Leonardo (coord.). Sociedade civil e democratização. Belo Horizonte: Del Rey, 1994. AVRITZER, Leonardo. A moralidade da democracia: ensaios em teoria habermasiana e teoria democrática. São Paulo: Perspectiva; Belo Horizonte: Editora da UFMG, 1996. AVRITZER, Leonardo; NAVARRO, Zander (orgs.). A inovação democrática no Brasil: o Orçamento Participativo. São Paulo: Cortez, 2003. BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. BAIOCCHI, Gianpaolo. Militants and citizens: the politics of participatory democracy in Porto Alegre. Stanford: Stanford University Press, 2005. COSTA, Sérgio. Esfera pública, redescoberta da sociedade civil e movimentos sociais no Brasil – uma abordagem tentativa. Novos Estudos, São Paulo, nº 38,1994. FEDOZZI, Luciano. O poder da aldeia: gênese e história do Orçamento Participativo de Porto Alegre. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000. 7 PATEMAN, Carole. Participação e teoria democrática. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992. PUTNAN, Robert D.. Comunidade e democracia: a experiência da Itália moderna. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1996. SANTOS, Boaventura de Souza (org.). Democratizar a democracia: os caminhos da democracia participativa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002. SILVA, Deise Nepomuceno da. A ação comunicativa no processo do Orçamento Participativo em Porto Alegre – Região Centro. Porto Alegre: PUC/RS, 1997. (Dissertação de Mestrado em Serviço Social, Curso de Pós-Graduação em Serviço Social). SILVA, Marcelo Kunrath. Construção da “participação popular”: análise comparativa de processos de participação social na discussão pública do orçamento em municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS. Porto Alegre: UFRGS, 2001 (Tese de Doutorado em Sociologia, Curso de Pós-Gradução em Sociologia) TOCQUEVILLE, Alexis de. A democracia na América: sentimentos e opiniões. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 8 Base de Dados I Pesquisa com 167 entidades comunitárias/2003 9 Apresentação A presente seção traz informações e análises produzidas a partir do banco de dados da pesquisa realizada com 167 entidades comunitárias da cidade de Porto Alegre, no ano de 2003. A pesquisa foi realizada pelos pesquisadores Gianpaolo Baiocchi (Universidade de Pittsburgh - EUA) e Marcelo Kunrath Silva (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), sendo os seus dados inéditos no Brasil. Esta pesquisa, inicialmente, foi planejada para abranger a totalidade das entidades comunitárias de três regiões da cidade: Norte, Nordeste e Partenon. A partir de diversas bases de informações sobre as entidades comunitárias destas três regiões, foi constituída uma listagem de entidades a serem entrevistadas. Durante a pesquisa de campo, no entanto, observou-se que diversas entidades preliminarmente identificadas não existiam ou não se encontravam em funcionamento no período da pesquisa. Ademais, ao serem consultados, os entrevistados passaram a indicar lacunas na listagem prévia de entidades, informando sobre a existência de algumas entidades que não constavam daquela relação. Neste sentido, a lista inicial foi sendo corrigida e complementada através das indicações dos próprios entrevistados, seguindo o método denominado de “bola de neve”.1 Na medida em que o número estimado de entidades nas três regiões previamente definidas se mostrou significativamente menor do que inicialmente previsto, abriu-se a possibilidade de estender o trabalho de pesquisa para entidades de outras regiões da cidade. Neste sentido, foram selecionadas aleatoriamente entidades a partir do cadastro constituído no início da pesquisa. No entanto, assim como ocorreu nas três regiões, muitas das entidades selecionadas não existiam ou não estavam em atividades, levando à necessidade de repetidas seleções de novas entidades para o fechamento do número preestabelecido de entrevistas. Um aspecto que chama a atenção na relação final das entidades entrevistadas é sua distribuição muito desigual em termos regionais. Excluídas as três regiões totalmente cobertas pela pesquisa, observa-se uma significativa variação no número de entidades entrevistadas em cada uma das regiões. Tal variação, certamente, não reflete as diferenças no associativismo realmente existente nestas regiões, mas sim a 1 Este método consiste na utilização das indicações obtidas nas próprias entrevistas para a definição do universo de entrevistados. Este método é particularmente adequado em situações, como a desta pesquisa, nas quais não é possível delimitar de forma segura o universo da pesquisa a partir das informações previamente disponíveis. 10 desigualdade de registro das entidades no cadastro disponível e as diferenças em termos do conhecimento/habilidade dos aplicadores dos questionários2. Este aspecto indica a necessidade de um investimento na elaboração de um mapeamento detalhado do tecido associativo da cidade, que, esperamos, começa a ser desenvolvido a partir desta primeira pesquisa. Em função desta desigualdade nas distribuições regionais, os dados devem ser vistos como oferecendo uma caracterização geral do associativismo comunitário da cidade, o qual pode apresentar significativas diferenças regionais. Tais diferenças, por sua vez, podem ser apreendidas através da comparação entre os dados das três regiões cujas entidades foram apreendidas na totalidade. Apesar destas limitações, o material produzido apresenta a possibilidade ímpar de esboçar uma caracterização qualificada do associativismo “comunitário”, que marca de maneira particular o município de Porto Alegre, constituindo-se em elemento importante de sua configuração sócio-política. Na medida em que o cadastro de entidades utilizado como base, no início da pesquisa, indicava a existência de 541 entidades “comunitárias”, uma pesquisa que atinge 167 entidades (ou seja, mais de 30% do que seria o total de entidades) possibilita a construção de análises e avaliações com alto grau de confiabilidade. Além disto, no decorrer do trabalho de pesquisa, observouse que este cadastro tende a super-estimar o número de entidades realmente ativas, o que pode ser exemplificado pelo fato de que a primeira relação de entidades a serem entrevistadas apresentou o percentual de praticamente 25% de entidades desativadas ou inexistentes. Generalizando esta proporção para o universo das entidades contidas no cadastro, pode-se inferir a existência de algo em torno de 400 entidades em funcionamento no período da pesquisa, o que faz com que a amostra de 167 entidades passe a representar aproximadamente 40% daquele universo, aumentando a sua significância e confiabilidade. Feitas estas considerações introdutórias, passa-se à apresentação do material constante deste relatório: 1. Relação das 167 entidades entrevistadas; 2. Informações e análises das principais variáveis do Banco de Dados. 2 A aplicação dos questionários foi realizada pelo coordenador da pesquisa, Prof. Marcelo Kunrath Silva, e por auxiliares de pesquisa contratados. Entre estes últimos havia estudantes do curso de graduação de ciências sociais da UFRGS e militantes “comunitários”. Estes militantes, por seu maior conhecimento do universo da pesquisa, tiveram muito mais êxito em localizar e desenvolver suas entrevistas do que os estudantes. Em vista disso, as regiões nas quais os militantes realizaram a pesquisa, como na Leste, acabaram tendo um número maior de entrevistas. 11 Uma observação importante a ser feita, refere-se ao fato de que foi excluído do banco de dados as informações existentes de identificação das entidades e dos entrevistados. Este procedimento visa garantir o total anonimato das informações, tanto no que se refere àqueles que as forneceram quanto em termos das entidades pesquisadas. Cumpre-se, assim, com o princípio ético que deve orientar as relações de confiança estabelecidas entre pesquisadores e pesquisados. Relação das entidades entrevistadas Artesanato Marista Santa Isabel Associação 10 de Junho Associação Alto da Embratel-Primeiro de Maio Associação Amigos da Vila Nossa Senhora de Fátima Associação Amigos do Jardim Sabará Associação Comunitária Almirante Tamandaré Associação Comunitária Amigos do Bairro Sarandi Associação Comunitária Barro Vermelho Associação Comunitária Condor Associação Comunitária da Extrema Associação Comunitária da Vila Planalto Associação Comunitária da Vila Santíssima Trindade Associação Comunitária da Vila São José Associação Comunitária da Vila São Miguel Associação Comunitária do Bairro Costa e Silva Associação Comunitária do Bairro Farrapos Associação Comunitária do Bairro Petrópolis Associação Comunitária do Bairro Teresópolis - ACBT Associação Comunitária do Campo da Tuca Associação Comunitária do Jardim Bento Gonçalves Associação Comunitária do Jardim Cascata Associação Comunitária do Lami Associação Comunitária do Loteamento Wenceslau Fontoura Associação Comunitária do Passo d'Areia Associação Comunitária dos Moradores da Ilha das Flores Associação Comunitária dos Moradores da Rua 6 de Novembro Associação Comunitária dos Moradores do Bairro Anchieta Associação Comunitária dos Moradores do Jardim Brasília Associação Comunitária e Beneficiente Restinga Velha Associação Comunitária Intercap Associação Comunitária Jardim dos Coqueiros Associação Comunitária Jardim Geraldo Santana e Ana Carvalho Associação Comunitária Jardim Protásio Alves Associação Comunitária Morro da Cruz Associação Comunitária Nossa Senhora Aparecida da Vila Vargas Associação Comunitária Padre Mascarenhas 12 Associação Comunitária São Guilherme Associação Comunitária Setor Leste da Vila União (União Leste) Associação Comunitária Unidos da Paineira Associação Comunitária Vovó Nair Associação Cristovão Colombo Associação da Vila dos Sargentos Associação da Vila Graciliano Associação de Moradores 5ª Unidade da Restinga Associação de Moradores Cosme e Galvão Associação de Moradores da Estrada dos Alpes Associação de Moradores da Estrada dos Batillanos Associação de Moradores da Grande Santa Rosa (Nova Santa Rosa) Associação de Moradores da Linha de Tiro Federal Associação de Moradores da Mariano de Matos Associação de Moradores da Nova Gleba Associação de Moradores da Padre Cacique Associação de Moradores da Rua Santa Clara Associação de Moradores da Safira Velha Associação de Moradores da Santa Helena Associação de Moradores da Vila 14 de Novembro Associação de Moradores da Vila Asa Branca Associação de Moradores da Vila Batista Flores Associação de Moradores da Vila Camaquã Associação de Moradores da Vila Castelo Associação de Moradores da Vila Clarel Associação de Moradores da Vila Dois Irmãos Associação de Moradores da Vila Dona Teodora Associação de Moradores da Vila Esperança-Cordeiro Associação de Moradores da Vila Fraternidade Associação de Moradores da Vila Grécia - AMOVIG Associação de Moradores da Vila João Goulart Associação de Moradores da Vila Mato Grosso Associação de Moradores da Vila Minuano Associação de Moradores da Vila Nazaré Associação de Moradores da Vila Nossa Senhora Aparecida Associação de Moradores da Vila nossa Senhora de Lourdes Associação de Moradores da Vila Nova Brasília Associação de Moradores da Vila Nova Esperança Associação de Moradores da Vila Operária do Passo das Pedras Associação de Moradores da Vila Páscoa Associação de Moradores da Vila Protásio Alves Associação de Moradores da Vila Restinga - AMOVIR Associação de Moradores da Vila Santana II - Quadra 166 Associação de Moradores da Vila São Borja Associação de Moradores da Vila São Francisco Associação de Moradores da Vila Silva Paes Associação de Moradores da Vila Sossego Associação de Moradores da Vila Teresina Associação de Moradores da Vila Tronco 1 - Postão Associação de Moradores da Vila Vicente Monteggia Associação de Moradores da Vila Viçosa 13 Associação de Moradores das Vilas Elizabeth-Parque Associação de Moradores David Canabarro Associação de Moradores Divina Providência Associação de Moradores do Bairro Humaitá Associação de Moradores do Bairro Jardim do Salso Associação de Moradores do Bairro Jardim Itu - AMBAJAÍ Associação de Moradores do Bairro Ponta Grossa Associação de Moradores do Bairro Santo Antônio Associação de Moradores do Conjunto Residencial Protásio Alves Associação de Moradores do Jardim Alvorada (Vila Chimarrão e Nossa Senhora Aparecida) Associação de Moradores do Jardim da FAPA Associação de Moradores do Jardim das Paineiras Associação de Moradores do Jardim das Paineiras Associação de Moradores do Jardim Floresta Associação de Moradores do Jardim Ipiranga Associação de Moradores do Jardim Vitória da Conquista Associação de Moradores do Jardim Zona Sul Associação de Moradores do Morro Alto Associação de Moradores do Núcleo Residencial CEFER II Associação de Moradores do Parque 20 de Maio Associação de Moradores do Parque dos Maias II Associação de Moradores do Residencial Guapuruvu Associação de Moradores do Vale dos Canudos Associação de Moradores Dutra Jardim Associação de Moradores e Amigos da Nova Chácara da Fumaça Associação de Moradores e Amigos da Vila Chico Mendes Associação de Moradores e Amigos da Vila Planalto Associação de Moradores e Amigos da Vila Safira Nova Associação de Moradores Jardim das Colinas - Timbaúva III Associação de Moradores Jardim Guanabara Associação de Moradores Jardim Pôr do Sol Associação de Moradores Parque das Orquídeas Associação de Moradores Quinta do Portal Associação de Moradores Recanto do Sabiá Associação de Moradores Recreativa Beneficiente União Associação de Moradores São Judas Tadeu Associação de Reciclagem Ecológica Rubem Berta Associação do Bairro Três Figueiras Associação do Condomínio Residencial machado Associação do Conjunto Residencial Parque Alto Petrópolis - Vila Tijuca Associação dos Amigos da Avenida Ganzo Associação dos Moradores da Chácara Sperb Associação dos Moradores da Ilha do Pavão Associação dos Moradores da Vila dos Eucaliptos Associação dos Moradores da Vila Esperança - AMOVIESP Associação dos Moradores da Vila Floresta Associação dos Moradores da Vila Maria da Conceição Associação dos Moradores da Vila Mimo de Vênus Associação dos Moradores da Vila Paris Associação dos Moradores da Vila União II Associação dos Moradores do Bairro Menino Deus 14 Associação dos Moradores do Loteamento Timbaúva Associação dos Moradores do Rubem Berta Associação Reivindicativa e Esportiva Santo Agostinho Centro Comunitário Alto Erexim Centro Comunitário da Vila Orfanatrófio I Centro Comunitário da Vila Pinto Centro Comunitário de Desenvolvimento da Tristeza, Assunção e Conceição Centro Comunitário do Morro da Cruz Centro Comunitário São José Operário Centro dos Moradores do Bairro Rio Branco Clube de Mães Bárbara Maix Clube de Mães Novo Mundo Clube de Mães Raio de Sol Comissão da Travessa José Bonifácio e Deodoro Comitê de Desenvolvimento da Região Medianeira-Tronco Comitê de Desenvolvimento do Campo da Tuca Conselho Comunitário do Bairro Cavalhada Cooperativa Habitacional de Ação Comunitária Ipê-São Borja Cooperativa Habitacional Vida Nova - Vila Athemis Creche Turminha do Barulho Nova Cooperativa Comunitária e Habitacional dos Moradores da Vila São Borja ONG NACIPAZ - Natureza, Cidadania e Paz Sociedade Amigos da Vila Leão Sociedade Amigos do Jardim Itu Sociedade Comunitária Heróphilo de Azambuja Sociedade Comunitária Jardim Medianeira Sociedade dos Moradores da Vila da Fonte Sociedade dos Moradores da Vila São Pedro União das Associações dos Bairros Navegantes, Farrapos, Humaitá e Arquipélago Caracterização do universo de entidades pesquisadas A pesquisa foi realizada no ano de 2003, através de entrevistas com membros das diretorias ou pessoas identificadas como ocupantes de posições importantes nas entidades selecionadas. A vinculação dos respondentes com as entidades se expressa no Quadro abaixo: Quadro 1. Vinculação institucional dos entrevistados, de acordo com o cargo ocupado nas entidades – Porto Alegre/2003 Freqüência % % cumulativo Presidente 117 70,1 70,1 Vice-Presidente 11 6,6 76,6 Secretário 10 6,0 82,6 Tesoureiro 4 2,4 85,0 Outros cargos 20 12,0 97,0 Não ocupa cargo 3 1,8 98,8 NS/NR 2 1,2 100,0 Total 167 100,0 15 Conforme os números do Quadro, observa-se que a grande maioria dos entrevistados (85%) ocupava cargos na diretoria das entidades, sendo pouco expressivo o número de respondentes sem qualquer vinculação formal com as mesmas. Em relação à divisão de gênero dos entrevistados, as informações são as seguintes: Quadro 2. Divisão dos entrevistados por gênero – Porto Alegre/2003 Freqüência % % cumulativo Feminino 70 41,9 41,9 Masculino 97 58,1 100,0 Total 167 100,0 As informações do Quadro 2 indicam uma relativa assimetria de gênero entre os entrevistados. Na medida em que um número significativo destes entrevistados integra a diretoria das entidades, sendo 70% ocupando o cargo de presidente, esta assimetria pode ser um indicador da existência de uma desigualdade de gênero no âmbito das associações comunitárias e/ou nos locais onde estas se constituem. Outra informação para a caracterização inicial do universo pesquisado é a divisão regional das entidades entrevistadas, apresentada no Quadro abaixo: Quadro 3. Distribuição das entidades entrevistadas por Região do Orçamento Participativo – Porto Alegre/2003 Freqüência % % cumulativo Norte 31 18,6 18,6 Nordeste 28 16,8 35,4 Partenon 26 15,6 51 Leste 16 9,6 60,6 Glória 9 5,4 66 Noroeste 9 5,4 71,4 Eixo-Baltazar 8 4,8 76,2 Sul 8 4,8 81 Restinga 6 3,6 84,6 Humaitá-Navegantes/Ilhas 6 3,6 88,2 Centro-Sul 5 3 91,2 Cruzeiro 5 3 94,2 Centro 4 2,4 96,6 Lomba do Pinheiro 3 1,8 98,4 Extremo-Sul 2 1,2 99,6 Cristal 1 0,6 100,0 Total 167 100,0 Os números mostram uma distribuição bastante desigual das entidades entrevistadas nas dezesseis regiões da cidade. Esta desigualdade, conforme salientado na apresentação desta seção, se deve, em parte, à metodologia da pesquisa. Assim, foi a opção metodológica de apreender todas as entidades comunitárias atuantes em três regiões que explica o fato das regiões Nordeste, Norte e Partenon apresentarem os 16 maiores números de entidades entrevistadas (juntas, elas respondem por mais de 50% das entidades entrevistadas). De outra parte, limitações de informações e diferenças no conhecimento dos auxiliares de pesquisa sobre o associativismo comunitário3 explicam as significativas variações observadas entre o número de entidades entrevistadas nas outras treze regiões, que pode ser melhor visualizada no Gráfico abaixo: Gráfico 1. Distribuição das entidades entrevistadas por Região do Orçamento Participativo – Porto Alegre/2003 30 20 31 28 26 10 16 9 6 4 5 9 8 8 6 5 3 2 1 0 Norte Leste Nordeste Restinga Partenon Centro-Sul Centro Cruzeiro Extremo Sul Eixo Baltazar Glória Noroeste Humaitá-... Cristal Lomba do... Sul Apesar disto, tendo por base os números encontrados nas três regiões cujas entidades foram pesquisadas na totalidade, pode-se inferir que as regiões tendem a apresentar entre 25 e 30 entidades comunitárias, com uma disseminação relativamente equilibrada deste padrão organizativo. Em relação ao tempo de existência das entidades pesquisadas, as informações coletadas foram as seguintes: 3 Ver nota 2, acima. 17 Quadro 4. Ano de Fundação da Entidade, por ano de fundação – Porto Alegre/2003 Freqüência % % cumulativo 1947 1 ,6 ,6 1954 1 ,6 1,2 1957 2 1,2 2,4 1960 2 1,2 3,6 1962 2 1,2 4,8 1963 1 ,6 5,4 1965 1 ,6 6,0 1968 1 ,6 6,6 1969 1 ,6 7,2 1970 3 1,8 9,0 1972 6 3,6 12,6 1973 1 ,6 13,2 1975 6 3,6 16,8 1976 2 1,2 18,0 1978 6 3,6 21,6 1979 5 3,0 24,6 1980 2 1,2 25,7 1981 13 7,8 33,5 1982 9 5,4 38,9 1983 6 3,6 42,5 1984 3 1,8 44,3 1985 5 3,0 47,3 1986 8 4,8 52,1 1987 9 5,4 57,5 1988 12 7,2 64,7 1989 1 ,6 65,3 1990 6 3,6 68,9 1991 2 1,2 70,1 1992 8 4,8 74,9 1993 2 1,2 76,0 1994 3 1,8 77,8 1995 2 1,2 79,0 1996 5 3,0 82,0 1997 6 3,6 85,6 1998 6 3,6 89,2 1999 3 1,8 91,0 2000 3 1,8 92,8 2001 2 1,2 94,0 2002 4 2,4 96,4 2003 1 ,6 97,0 NR 5 3,0 100,0 Total 167 100,0 Organizando estas informações por período, obtém-se o seguinte Gráfico: 18 Gráfico 2. Ano de fundação da entidade, por períodos – Porto Alegre/2003 Ano de fundação da entidade 6 3,59% 5 3 2,99% 1,8% 27 16,17% Até 1960 1961-1964 1965-1978 1979-1988 Após 1989 NS/NR 54 32,34% 72 43,11% Estes números permitem identificar alguns aspectos importantes da dinâmica do associativismo comunitário em Porto Alegre. Em primeiro lugar, observa-se a existência de um associativismo com relativa antiguidade e permanência na história da cidade, que se reflete no fato de mais de 20% das entidades pesquisadas terem, no período da pesquisa (2003), 25 anos ou mais de existência. Tendo presente a instabilidade que caracteriza não apenas as organizações sociais, mas as próprias instituições brasileiras, esta longevidade parece expressar uma significativa consolidação destas práticas associativas. Por outro lado, os números do Gráfico dão sustentação às conclusões apresentadas por outras pesquisas (Boschi, 1987) sobre a ocorrência de um “surto associativo” no período de redemocratização brasileiro. Isto se reflete, no caso do associativismo comunitário de Porto Alegre, no fato de que mais de 40% das entidades pesquisadas foram constituídas no período entre 1979-1988. Este momento histórico foi, sem dúvida, um marco em termos da ampliação dos processos de organização popular no Brasil (e, mais especificamente, em Porto Alegre), permitindo a “entrada em cena” de novos atores sociais (Sader, 1988) até então excluídos ou inseridos de forma totalmente subordinada no jogo político das elites.4 Por fim, as informações acima também apontam para algo que, em certa medida, contesta algumas avaliações sobre a dinâmica associativa no Brasil dos anos 90. Ao 4 Em que medida este “surto associativo” se deveu à conjuntura da redemocratização e/ou à indução de determinadas iniciativas governamentais (como o Programa do Ticket do Leite, do Governo José Sarney – 1985-1989), é algo a ser analisado em futuras investigações. 19 contrário do que foi afirmado por alguns estudos desde o final dos anos 80, quando autores passaram a apontar para o declínio do “surto associativo” do período da redemocratização, os números apresentados mostram a manutenção de uma dinâmica de constituição de novas entidades comunitárias, na medida em que praticamente um terço das entidades pesquisadas foram criadas a partir do ano de 1989. Ou seja, pelo menos no município de Porto Alegre, não é correto falar de um estancamento e, muito menos, refluxo no processo organizativo nos anos 90. Esta manutenção da dinâmica de organização social parece estar associada, conforme apontado por alguns autores (Abers, 2000; Silva, 2001 e 2002), às experiências participativas implantadas na cidade, especialmente a partir do início das gestões da “Frente Popular” em 19895, quando é ampliado o sistema de participação social existente no âmbito municipal, com destaque para o Orçamento Participativo (OP). Esta dinâmica de constituição de entidades comunitárias apresenta, no entanto, variações importantes em termos regionais, as quais tem impactos significativos para o entendimento das especificidades do associativismo comunitário nas diferentes regiões da cidade. Tais variações podem ser claramente observadas quando se observa período de fundação das entidades nas três regiões para as quais os dados estão completos: Quadro 5. Ano de fundação da entidade, por região (Nordeste, Norte e Partenon) – Porto Alegre/2003 Norte Nordeste Partenon Até 1960 Freqüência 2 1 3 % na Região 6,5% 3,6% 1961-1964 Freqüência 2 2 % na Região 6,5% 1965-1978 Freqüência 2 3 5 % na Região 6,5% 11,5% 1979-1988 Freqüência 14 6 11 31 % na Região 45,2% 21,4% 42,3% Após 1989 Freqüência 10 20 11 41 % na Região 32,3% 71,4% 42,3% NS/NR Freqüência 1 1 1 3 % na Região 3,2% 3,6% 3,8% Total Freqüência 31 28 26 85 % na Região 100,0% 100,0% 100,0% Os números do Quadro mostram três temporalidades distintas na dinâmica de criação de entidades em cada uma das regiões: a Região Norte apresenta um processo mais antigo e que, apesar de manter-se, tem seu ápice no período da redemocratização 5 Coligação eleitoral vitoriosa nas eleições municipais de 1988, formada inicialmente pelo Partido dos Trabalhadores (PT) e Partido Comunista do Brasil (PCB), se manteve à frente da Prefeitura de Porto Alegre até o ano de 2004. 20 (1979-1988); a Região Partenon, por sua vez, apresenta um processo associativo mais concentrado, dividindo-se basicamente entre o período da redemocratização e o período pós-89; por fim, a Região Nordeste apresente uma expressiva concentração da criação de suas entidades no período pós-89. Tais diferenças estão, em grande medida, relacionadas à própria temporalidade diferenciada do processo de ocupação destas três regiões: a Região Norte é uma região de ocupação mais antiga; a Região Partenon apresenta uma intensificação na sua ocupação em período um pouco mais recente; a Região Nordeste, apesar de alguns núcleos habitacionais bastante antigos (como mostram os dados, nela se localiza uma das entidades com maior longevidade), é incorporada à malha urbana da cidade entre os anos 80 e 90. Estas informações sobre as diferenças regionais, que, como veremos não se resumem ao tempo de criação das entidades, indicam a importância de novas investigações que permitam qualificar a presente análise, explorando as especificidades do associativismo comunitário nas dezesseis regiões de Porto Alegre. Por fim, para finalizar esta caracterização geral das entidades entrevistadas, o Quadro abaixo apresenta a situação de registro formal das 167 entidades: Quadro 6. Situação de registro legal da entidade – Porto Alegre/2003 Freqüência % % cumulativo Entidade com registro legal 157 94,0 94,0 Entidade sem registro legal 9 5,4 99,4 NSA/NR 1 ,6 100,0 Total 167 100,0 O Quadro indica que as entidades comunitárias de Porto Alegre apresentam um grau bastante elevado de formalização, sendo quase insignificante o número de entidades que não possuem registro legal. Esta “institucionalização” é uma característica marcante das entidades comunitárias, que tendem, imediatamente após sua constituição, proceder ao registro legal que as dota de personalidade jurídica. Com base nestas primeiras informações, pode-se identificar a existência, em Porto Alegre, de um associativismo comunitário disseminado em praticamente todo território do município, com um histórico relativamente longo de atuação, ao mesmo tempo em que mantém uma dinâmica de constituição de novas entidades, e marcado por um alto grau de “institucionalização”. Caracterização da estrutura das entidades comunitárias pesquisadas 21 Conforme salientado anteriormente, uma das dificuldades da investigação do associativismo comunitário se refere à instabilidade no funcionamento das entidades, as quais, por não contarem, muitas vezes, com fontes de recursos estáveis e com pessoal profissionalizado, tendem a uma atuação cíclica, alternando períodos de maior ativismo e períodos de baixa atuação (chegando, no limite, à desativação da entidade). Esta realidade se expressa no Quadro abaixo: Quadro 7. Ocorrência de paralisação nas atividades da entidade – Porto Alegre/2003 Freqüência % % cumulativo Sim 42 25,1 25,1 Não 123 73,7 98,8 NSA/NR 2 1,2 100,0 Total 167 100,0 De acordo com os números do Quadro, um quarto das entidades pesquisadas já apresentou períodos de paralisação das suas atividades. O tempo de duração destas paralisações é difícil de ser apreendido através do instrumento de pesquisa utilizado, mas, como ilustração, aponta-se para o fato de que, de acordo com os entrevistados, 29 entidades ficaram paralisadas por dois anos ou mais. Uma relação que pode ser feita é entre o ano de fundação da entidade e a ocorrência ou não de paralisação da mesma. Os números encontram-se no seguinte Quadro: Quadro 8. Ocorrência de paralisação nas atividades da entidade, por ano de fundação das entidades – Porto Alegre/2003 Sua entidade já esteve paralisada? Sim Ano de fundação da entidade Até 1960 Freqüência % ano de fundação 1961-1964 Freqüência % ano de fundação 1965-1978 Freqüência % ano de fundação 1979-1988 Freqüência % ano de fundação Após 1989 Freqüência % ano de fundação NS/NR Freqüência % ano de fundação Total Freqüência % ano de fundação 1 Não 5 NSA/NR 0 Total 16,7% 83,3% ,0% 3 0 0 100,0% ,0% ,0% 10 16 1 27 37,0% 59,3% 3,7% 100,0% 6 100,0% 3 100,0% 18 53 1 72 25,0% 73,6% 1,4% 100,0% 8 46 0 54 14,8% 85,2% ,0% 100,0% 2 3 0 40,0% 60,0% ,0% 5 100,0% 42 123 2 167 25,1% 73,7% 1,2% 100,0% 22 De acordo com o Quadro, observa-se a tendência esperada de que as entidades mais antigas tenham, proporcionalmente, maior número de paralisações. Por outro lado, no entanto, também se observa que entre as entidades mais “novas”, criadas a partir de 1989, há um número expressivo (praticamente 15%) de paralisações. Mas como funcionam estas entidades? Uma primeira aproximação à resposta a esta pergunta pode ser extraída das informações sobre a estrutura existente nas mesmas, conforme expressas no Quadro abaixo: Quadro 9. Estrutura existente nas entidades comunitárias – Porto Alegre/2003 Possui Estrutura Sede Própria Jornal Boletim Sim Não NS/NR Total Freqüência % Freqüência % Freqüência % 115 51 1 167 68,9 30,5 ,6 100,0 97 69 1 167 58,1 41,3 ,6 100,0 33 133 1 167 19,8 79,6 ,6 100,0 De acordo com os dados do Quadro, observa-se que as entidades comunitárias de Porto Alegre tendem a possuir algum tipo de estrutura que contribui para a continuidade das suas atividades ao longo do tempo. Isto se expressa no fato de quase 70% dos entrevistados responderem que sua entidade tinha algum tipo de estrutura permanente. Uma informação que se destaca do Quadro é o fato de praticamente 60% das entidades possuírem sede própria. Na medida em que se tratam de entidades, conforme será visto na seqüência deste relatório, que possuem escassas fontes de renda, esta presença de um alto número de entidades com sede própria pode representar uma expressiva capacidade de acesso a recursos públicos (principalmente na forma da concessão de áreas públicas para a instalação das sedes e de materiais de construção para sua edificação) ou uma significativa capacidade de mobilização dos moradores para a obtenção de recursos e mão-de-obra que viabilizem a construção da sede. De uma forma ou de outra, a existência de uma sede própria constitui um aspecto importante para a autonomia das entidades, na medida em que esta deixa de estar vinculada a um morador (em geral, o Presidente) que cede as dependências de sua residência particular para as atividades cotidianas da entidade, como tradicionalmente ocorre nos casos em que não há sede própria. Além disto, a sede própria confere a muitas entidades uma fonte permanente de renda, através do seu aluguel para a realização de atividades particulares dos associados e/ou dos moradores da comunidade. Por fim, a presença da sede própria é um elemento que tende a contribuir na reprodução das entidades, ao materializar uma organização que pode ser vista, identificada e 23 buscada pelos moradores quando estes se confrontam com determinados problemas sociais. Em relação à existência de algum tipo mais formal de comunicação entre as entidades e os moradores, através da elaboração de jornais ou boletins permanentes, observa-se um número relativamente baixo de entidades (menos de 20%) que desenvolve esta prática. Além do custo significativo, tanto de recursos financeiros quanto humanos, para manter uma publicação permanente, a baixa presença de jornais ou boletins parece indicar que a comunicação entre membros das entidades e os moradores tende a ocorrer muito mais pelas conversas cotidianas, seja nas atividades da própria entidade seja nos encontros informais nas redes de vizinhança, parentesco e/ou amizade. Outro aspecto para a caracterização das entidades é a forma como se estruturam as relações entre as entidades e os moradores. Uma informação que permite uma primeira aproximação a este aspecto refere-se à existência ou não de quadro formal de associados na entidade: Gráfico 3. Existência de associação formal na entidade – Porto Alegre/2003 Sua entidade possui associados? Sim Não 71 42,51% 96 57,49% Segundo o gráfico, quase 60% das entidades comunitárias possuem alguma forma de registro de seus associados, tendendo à constituição de uma relação mais formalizada com aqueles (sócios) que ela pretende representar. Por outro lado, é significativo o número de entidades (mais de 40%) que não possuem nenhum tipo de associação formal, apresentando-se como pretensas representantes do conjunto dos moradores das suas áreas de abrangência. 24 A contribuição dos associados para a manutenção financeira da entidade se expressa no gráfico abaixo: Gráfico 4. Pagamento de mensalidade pelos associados da entidade – Porto Alegre/2003 Em caso de possuir associados, eles pagam mensalidade? 1 1,04% 42 43,75% Sim Não NSA/NR 53 55,21% Entre as 96 entidades que declararam ter associados, em pouco mais da metade delas existe o pagamento de mensalidade por parte destes associados. Em muitos casos, esta mensalidade possibilita ao associado usufruir dos serviços prestados pela entidade e/ou da estrutura física da mesma (acesso a atividades esportivas e festas, uso do espaço físico da entidade para eventos particulares etc.). Assim, observa-se que é um número relativamente pequeno de entidades que encontra nas contribuições financeiras de seus associados uma fonte de recursos permanente para a sua atuação. Este aspecto, além de implicar numa significativa carência e/ou instabilidade na arrecadação de recursos por parte destas entidades, também traz o risco da subordinação das mesmas aos interesses daqueles agentes externos que podem viabilizar o acesso aos recursos dos quais necessitam para manutenção de suas atividades. Aprofundando um pouco mais este aspecto do financiamento das entidades comunitárias, o gráfico abaixo traz informações sobre a existência ou não de fontes de recursos para a manutenção das entidades: 25 Gráfico 5. Existência de fonte de renda para manutenção da entidade – Porto Alegre/2003 A entidade possui fonte de renda Sim Não 41 24,55% 126 75,45% Conforme o gráfico, três quartos das entidades possuem alguma forma de arrecadação de fundos para o financiamento de suas atividades. Por outro lado, um quarto das entidades pesquisadas respondeu que não possui nenhuma fonte de recurso. Este dado indica que uma parcela significativa das entidades comunitárias de Porto Alegre (uma em cada quatro entidades) atua basicamente a partir de recursos disponibilizados pelos próprios membros da entidade, o quê pode implicar num constrangimento importante na capacidade de atuação destas organizações na medida em que as mesmas dispõem de recursos muito limitados para arcar com os custos implicados na intervenção social e/ou institucional. Além da contribuição dos associados, já abordada acima, as outras fontes significativas de recursos destas 126 entidades que declararam possuir alguma forma de arrecadação financeira encontram-se nos gráficos abaixo: 26 Gráfico 6. A entidade realiza festas e rifas para arrecadação de recursos – Porto Alegre/2003 Festas e Rifas Sim Não 49 38,89% 77 61,11% Gráfico 7. A entidade possui alguma tipo de convênio para arrecadação de recursos – Porto Alegre/2003 Convênios Sim Não 49 38,89% 77 61,11% 27 Gráfico 8. A entidade recebe recursos através de doações – Porto Alegre/2003 Doações Sim Não 38 30,16% 88 69,84% Gráfico 9. A entidade arrecada recursos através de aluguel da sede – Porto Alegre/2003 Aluguel de sala Sim Não 37 29,37% 89 70,63% De acordo com os dados dos gráficos, a forma mais utilizada pelas entidades para buscar recursos é a realização de atividades eventuais de arrecadação de fundos (festas e rifas), que estão presentes em mais de 60% das 126 entidades que declararam ter alguma fonte de renda. Este tipo de atividade, no entanto, se caracteriza pela eventualidade, não oferecendo, em geral, uma fonte permanente e estável de recursos. Neste sentido, a significativa presença desta forma de arrecadação de recursos indica uma tendência de instabilidade na fonte de renda das entidades. 28 A segunda forma mais comum de obtenção de recursos pelas entidades é o estabelecimento de convênios, especialmente com os órgãos públicos municipais.6 Quase 40% das 126 entidades comunitárias que declaram ter fonte de renda indicaram a existência de algum tipo de convênio no financiamento das suas atividades. Esta presença expressiva de convênios tende a oferecer às entidades uma fonte mais estável de recursos, propiciando, assim, uma maior estabilidade na sua atuação. No entanto, conforme será retomado na seqüência deste relatório, a dependência destes recursos externos, especialmente quando provenientes do governo, pode ser um obstáculo importante para a manutenção da autonomia das entidades comunitárias. Em terceiro lugar nas formas mais destacadas de arrecadação de recursos das entidades comunitárias colocam-se as doações: estas foram indicadas por 30% das 126 entidades com alguma fonte de renda. Este aspecto indica a existência de importantes fluxos de recursos (não necessariamente financeiros) que circulam por fora dos canais institucionais do Estado e do mercado, contribuindo para viabilizar a atuação das entidades pesquisadas. As doações, no entanto, tendem a apresentar as mesmas limitações das atividades eventuais de arrecadação (festas e rifas), vistas acima, na medida em que tendem a não representar um fluxo permanente e estável de recursos. Além disto, na medida em que tendem a depender de forma direta da disponibilidade e interesse dos doadores, as doações apresentam um forte risco de descontinuidade. Por fim, a quarta forma de arrecadação de recursos que obteve maior número de referências foi o aluguel do espaço da entidade para a realização de atividades particulares. Praticamente 30% das 126 entidades comunitárias utilizam este tipo de prática, corroborando uma afirmação feita anteriormente sobre a importância da existência de uma sede própria para, entre outros aspectos, a manutenção financeira da entidade. 6 Observe-se a existência de uma diferença entre o número/percentual de entidades que fazem referência à existência de convênios como fonte de renda para a entidade e o número/percentual de entidades que fazem referência à existência de convênio para a execução de serviços de interesse público, abordado na seqüência deste relatório. Tal diferença se deve, entre outros aspectos, ao fato de que alguns convênios para a prestação de serviços não oferecem recursos que podem ser utilizados para o financiamento de outras atividades da entidade, não sendo contabilizados pelos entrevistados como uma verdadeira fonte de recursos para a entidade. Além disto, muitas vezes as entidades comunitárias constituem entidades específicas para a realização de convênios (como uma creche comunitária, por exemplo), com personalidade jurídica própria, o que faz com que o recurso do convênio fique nesta outra entidade, sem chegar a ser diretamente utilizado no financiamento das outras atividades desenvolvidas pelas entidades comunitárias. 29 Caracterização da organização e funcionamento interno das entidades comunitárias pesquisadas As entidades comunitárias de Porto Alegre tendem a apresentar um padrão muito semelhante de organização, na medida em que, na sua grande maioria, seguem um modelo comum de estatuto para a composição das suas diretorias, o qual reproduz a forma presidencialista e vertical de organização encontrada na estrutura sindical brasileira oficial7. As diretorias, comumente, compõem-se dos seguintes cargos: Presidente, Vice-Presidente, Secretário(s) e Tesoureiro(s). Além disto, em geral, há também a escolha de um Conselho Fiscal para compor a diretoria da entidade. O número de pessoas que participam das diretorias das entidades pesquisadas encontra-se no gráfico abaixo: Gráfico 10. Número de participantes na diretoria da entidade – Porto Alegre/2003 Quantas pessoas participam da diretoria da entidade? 6 3,59% 1 0,6% 43 25,75% Até 5 pessoas 6 a 10 pessoas Mais de 10 pessoas NS/NR 117 70,06% Os dados do gráfico mostram que a tendência, expressa por 70% das entidades, é de diretorias que envolvam mais dez pessoas. Em um quarto das entidades, a diretoria apresenta entre seis e dez membros, sendo que menos de 4% das entidades possuem até cinco membros nas suas diretorias. No entanto, estes dados podem apresentar uma certa distorção, na medida em que os respondentes tiveram duas possibilidades de interpretação: por um lado, podem 7 O padrão organizativo das entidades comunitárias, de fato, reproduz modelo similar da estrutura sindical brasileira, com organizações de base (Associações de Moradores, Sociedades Amigos de Bairro, Conselhos Comunitários etc.), Uniões Municipais (no caso de Porto Alegre, a União das Associações de Moradores de Porto Alegre – UAMPA), Federações Estaduais (no caso do Rio Grande do Sul, a Federação Riograndense de Associações Comunitárias e de Amigos de Bairros - FRACAB) e Confederação Nacional (Confederação Nacional das Associações de Moradores – CONAM). 30 ter informado o número de membros que formalmente compõem a diretoria; por outro, podem ter informado o número de membros que efetivamente compõem a diretoria. No primeiro caso, teríamos uma distorção pela super-estimativa dos participantes nas diretorias das entidades comunitárias, uma vez que muitos dos componentes das chapas que assumem estas diretorias tendem a não apresentar uma participação efetiva ao longo da gestão. Quantas pessoas efetivamente participam nas diretorias das entidades comunitárias ainda é uma questão que exige uma investigação mais aprofundada. O processo de escolha das diretorias também apresenta um padrão bastante claro, conforme o gráfico abaixo: Gráfico 11. Forma de escolha da direção da entidade – Porto Alegre/2003 8 4,79% 1 0,6% De que forma é escolhida a diretoria da entidade? Eleição Indicação da diretoria anterior Outra forma 158 94,61% Em quase 95% das entidades a escolha das diretorias se dá através de um processo eleitoral. Mesmo entre os entrevistados que indicaram outras alternativas, observa-se que estas se deveram a algum fator conjuntural (vacância da diretoria, ausência de candidaturas etc.), sendo a eleição, no entanto, o mecanismo prescrito pelos estatutos para a escolha das diretorias. Freqüência com que são realizadas as eleições pode ser visualizada no seguinte gráfico: 31 Gráfico 12. Periodicidade das eleições para escolha da diretoria da entidade – Porto Alegre/2003 Periodicidade das eleições 1 0,6% 11 6,59% 9 5,39% 10 5,99% 24 14,37% Anual A cada dois anos A cada três anos Mais de três anos Não faz eleições NS/NR 112 67,07% Mais de 80% das entidades pesquisadas apresentam diretorias com mandatos relativamente curtos, realizando eleições anualmente ou, principalmente, a cada dois anos. O número de entidades que apresentam diretorias com mandatos mais longos é baixo, com pouco mais de 12% das entidades realizando eleições a cada três anos ou mais. O quanto esta periodicidade curta dos mandatos e esta freqüência de eleições induzem uma tendência de renovação nas diretorias das entidades ou, ao contrário, o quanto estas entidades se caracterizam pela presença de diretorias que, apesar das eleições constantes, se reproduzem por longo tempo com a mesma composição é algo que também mereceria novas pesquisas. Para qualificar um pouco mais o processo de escolha das diretorias das entidades comunitárias é necessário analisar que são os eleitores que participam deste processo. Isto pode ser visto no gráfico: 32 Gráfico 13. Detentores do direito de voto nas eleições da diretoria da entidade – Porto Alegre/2003 Direito de voto nas eleições 1 0,6% Todos os moradores Associados Não faz eleições NS/NR 9 5,39% 53 31,74% 104 62,28% Conforme o gráfico, a prática mais comum, presente em mais de 60% das entidades, é que todos os moradores tenham direito de participar da eleição da diretoria. Somente em pouco mais de 30% das entidades, a participação na eleição fica restrita àqueles formalmente associados na entidade. Uma vez identificada esta tendência de ampla oportunidade de participação nas eleições das diretorias das entidades, coloca-se a questão de quantas pessoas efetivamente participam das eleições. Este é um dado de difícil apreensão através do instrumento utilizado nesta pesquisa (questionário), mas as respostas obtidas encontramse no gráfico abaixo: 33 Gráfico 14. Numero de votantes na última eleição da diretoria da entidade – Porto Alegre/2003 Quantas pessoas votaram última eleição da entidade? 24 14,37% 40 23,95% 9 5,39% 1 0,6% 21 12,57% 27 16,17% 13 7,78% 17 10,18% 15 8,98% Até 50 pessoas 51 a 100 pessoas 101 a 150 pessoas 151 a 200 pessoas 201 a 300 pessoas Mais de 300 pessoas Não houve eleição Não faz eleição NS/NR Praticamente metade das entidades pesquisas (49%) respondeu que o número de votantes nas últimas eleições realizadas chegou, no máximo, a 150 pessoas. Em quase um quarto das entidades, o número de votantes foi de até 50 pessoas. Por sua vez, em 30% das entidades foi ultrapassado o número de 150 eleitores, sendo que em 21 entidades este número ficou acima de 300 eleitores. Estes dados tendem a indicar que a maior parte das diretorias das entidades comunitárias é eleita por um número relativamente pequeno dos moradores das comunidades nas quais se situam. Esta baixa mobilização eleitoral pode ser, em parte, explicada pelas informações apresentadas o gráfico abaixo: Gráfico 15. Número de chapas concorrentes na última eleição da diretoria da entidade – Porto Alegre/2003 1 0,6% 5 1 9 2,99% 0,6% 5,39% Quantas chapas concorreram na última eleição da entidade? 7 4,19% 1 2 3 mais de 3 NSA/NR Não houve eleição Não faz eleição 35 20,96% 109 65,27% 34 De acordo com este gráfico, observa-se que em praticamente dois terços das entidades comunitárias as eleições tiveram apenas uma chapa concorrendo. Ou seja, a grande maioria das eleições não teve uma real disputa, o que pode fazer com que não tenha se colocado uma efetiva necessidade ou capacidade de mobilizar um maior número de eleitores para participar. Esta relação entre o número de chapas participantes da eleição e o número de eleitores participantes fica clara no seguinte quadro: Quadro 10. Número de chapas concorrentes pelo número de votantes na última eleição da entidade – Porto Alegre/2003 Quantas pessoas votaram última eleição da entidade? Total Até 50 pessoas Quantas chapas concorreram na última eleição da entidade? Não mais NSA/ houve Não faz de 3 NR eleição 1 2 3 eleição 39 1 0 0 0 0 0 51 a 100 pessoas 22 5 0 0 0 0 0 27 101 a 150 pessoas 10 4 0 1 0 0 0 15 151 a 200 pessoas 12 5 0 0 0 0 0 17 201 a 300 pessoas 7 5 1 0 0 0 0 13 Mais de 300 pessoas 6 9 6 0 0 0 0 21 Não houve eleição 0 0 0 0 0 1 0 1 Não faz eleição 0 0 0 0 0 0 9 9 NS/NR 13 6 0 0 5 0 0 24 109 35 7 1 5 1 9 167 Total 40 O quadro mostra uma tendência de correlação direta entre o número de votantes na eleição com o número de chapas concorrentes: quanto maior o número de chapas concorrentes maior a tendência de ter um número elevado de eleitores. Assim, a maior parte das entidades que tiveram um baixo número de eleitores também apresentaram apenas uma chapa concorrendo. Por outro lado, as entidades que tiveram duas e, especialmente, três chapas concorrendo nas eleições tenderam a apresentar maior participação dos eleitores. Neste sentido, em seis dos sete casos nos quais houve três chapas concorrendo, o número de eleitores ficou acima de 300. Além da participação eleitoral, a pesquisa também buscou apreender outras formas ou momentos de participação dos moradores na vida das entidades comunitárias. Uma destas formas seria através da realização de reuniões ou assembléias da entidade com os moradores, cujos dados encontram-se no gráfico: 35 Gráfico 16. Realização de reuniões ou assembléias com a comunidade e/ou associados – Porto Alegre/2003 A sua entidade realiza reuniões ou assembléias com a comunidade e/ou os associados? 7 4,19% Sim Não 160 95,81% Conforme se observa neste gráfico, a quase totalidade das entidades pesquisadas (mais de 95%) realizam reuniões ou assembléias com os moradores ou associados. Ou seja, além das reuniões da diretoria da entidade, também existe uma prática disseminada de reuniões diretamente com aqueles que, pretensamente, são representados pela entidade. A freqüência com que se realizam estas reuniões ou assembléias encontra-se no gráfico que segue: Gráfico 17. Freqüência de realização de reuniões ou assembléias com a comunidade e/ou associados – Porto Alegre/2003 13 7,78% 7 4,19% 14 8,38% 22 13,17% 35 20,96% Neste ano, quantas reuniões ou assembléias foram realizadas? 35 20,96% 1 2a3 4a6 7 a 10 Mais de 10 Não faz assembléia NS/NR 41 24,55% A freqüência destas reuniões ou assembléias é bastante variável: quase 30% das entidades informaram que realizaram entre uma e três reuniões no período de um ano; 36 por volta de 45% das mesmas indicaram que, neste período, realizaram entre quatro e dez reuniões; por fim, 13% responderam que fizeram mais de dez reuniões em um ano. Assim, percebe-se que existe um número significativo de entidades comunitárias que busca manter uma interlocução com os moradores das comunidades que pretendem representar. O quanto estes moradores respondem a esta iniciativa das entidades pode ser aferido pelos seguintes dados: Gráfico 18. Número de presentes nas reuniões ou assembléias com a comunidade e/ou associados – Porto Alegre/2003 Quantas pessoas compareceram, em média, nestas reuniões ou assembléias? 9 5,39% 7 4,19% 31 18,56% 7 4,19% 14 8,38% 36 21,56% 24 14,37% Até 20 pessoas 21 a 40 pessoas 41 a 70 pessoas 71 a 100 pessoas 101 a 150 pessoas Mais de 150 pessoas Não faz assembléia NS/NR 39 23,35% Estes números indicam que a grande maioria das reuniões ou assembléias feitas pelas entidades com suas bases (ou seja, praticamente, dois terços delas) reuniu até 70 pessoas (sendo que 40% reuniram até 40 pessoas). Além disto, um número expressivo de entidades (pouco mais de 25% delas) informou que reuniu, em média, mais de 70 pessoas em suas reuniões e assembléias. Estas informações, mesmo podendo estar marcadas por uma super-estimativa o número de participantes, tendem a indicar a existência de um expressivo enraizamento das entidades comunitárias entre a população dos locais onde atuam, o qual se expressa na capacidade de reunir parcelas expressivas desta população nas atividades que realizam. Além destas reuniões e assembléias, outro espaço de participação da comunidade nas atividades da entidade poderia se dar através de comissões constituídas pela entidade para tratar de temas específicos. A presença ou não de comissões é apreendida no gráfico que segue: 37 Gráfico 19. Existência de comissão em funcionamento na entidade – Porto Alegre/2003 Sua entidade possui alguma comissão ativa? Sim Não NSA/NR 1 0,6% 88 52,69% 78 46,71% Um pouco menos da metade das entidades pesquisadas apresentava, no período da pesquisa, algum tipo de comissão em funcionamento. Isto indica que este não é um formato organizativo que abranja a maior parte destas entidades. Nestas, ao contrário, tende a predominar a concentração das ações entre os membros das diretorias eleitas (especialmente, na figura do presidente). Desdobrando esta informação para identificar os tipos de comissão mais freqüentes, chega-se aos seguintes números: 38 Quadro 11. Freqüência das comissões em funcionamento nas entidades – Porto Alegre/2003 Comissão Freqüência Habitação/Urbanização/Regularização Fundiária 15 Saúde 14 Obras Transporte/Trânsito 9 Cultura 7 Esporte e Lazer Comissão de Rua/de Moradores Delegados/OP 6 Plano Diretor/Planejamento/Desenvolvimento Eventos/Promoções Temas Específicos 4 Social 3 Assistência Social Praças/Parques 2 DMAE/Água Meio Ambiente Mulheres Visitas Lixo Trabalho 1 Arrecadação de Fundos Áreas de Risco Reivindicações Jovens Segurança Os dados do Quadro mostram que os principais temas em torno dos quais são formadas comissões específicas nas entidades comunitárias são Habitação/Urbanização/Regularização Fundiária, Saúde e Obras. O primeiro tema indica um foco importante da atuação das entidades comunitárias de Porto Alegre (particularmente aquelas constituídas nas vilas populares marcada pela irregularidade na posse da terra), que se refere às iniciativas para a legalização e urbanização das áreas de habitação popular. Além do problema objetivo da ameaça de perda da moradia vivido em diversas vilas, esta questão da Habitação/Urbanização/Regularização Fundiária também foi objeto de intensa atuação de lideranças comunitárias e ONGs da cidade, que viam nesta questão um tema que, além de problematizar a propriedade privada do solo urbano, teria um grande potencial de mobilização popular (Silva, 2004). O segundo tema que se destaca é a Saúde, indicando, por um lado, uma certa tradição de envolvimento de entidades comunitárias de algumas regiões da cidade com esta temática (Réos, 2003). Este envolvimento, além da existência de Comissões de Saúde nas entidades, vai se expressar na participação de representantes destas entidades nas instâncias de participação do SUS (Comissões de Postos de Saúde, Conselhos 39 Locais de Saúde e Conselho Municipal de Saúde). Por outro lado, observa-se que a constituição de um setor específico para lidar com o tema da Saúde nas entidades se deve, também, à indução de programas governamentais, como o Programa de Saúde da Família (PSF). Na medida em que membros das entidades passam a atuar como agentes comunitários nas equipes do PSF ou junto aos Postos de Saúde, existe uma certa tendência de que a temática da saúde passa a fazer parte do cotidiano das entidades. Por fim, o terceiro tema que mais gera a constituição de comissões nas entidades é Obras. Ou seja, as entidades formam um grupo específico de representantes para acompanhar, fiscalizar e avaliar a execução de obras públicas nas suas áreas de atuação. Em geral, estas comissões de obras fazem o acompanhamento daquelas obras definidas pela população através do OP. Observando aqueles temas que geraram um menor número de comissões é possível perceber alguns aspectos importantes. Entre estes temas encontram-se alguns dos temas que, nos últimos anos, têm uma presença central na agenda do debate público na cidade: meio ambiente, trabalho e, sobretudo, segurança. No entanto, os números mostram que, apesar da relevância dos temas, eles parecem não ter a mesma centralidade na atuação das entidades. Particularmente no caso da segurança, é evidente a discrepância entre o grau de interesse social neste tema e o grau em que este tema é objeto de uma intervenção das entidades. Tal discrepância indica que, por diversos fatores a serem investigados, um determinado problema social não se converte, automaticamente, em um problema a ser enfrentado pelas entidades comunitárias. Na verdade, estas “filtram”, no universo de temas passíveis de serem objeto de sua ação, alguns nos quais se detém, enquanto outros acabam sendo secundarizados ou, até mesmo, desconsiderados. Caracterização da atuação das entidades comunitárias pesquisadas Caracterizada a estrutura existente nas entidades comunitárias e sua organização e funcionamento interno, torna-se importante enfocar como estas atuam. Esta caracterização pode ser realizada, inicialmente, a partir das informações sobre a distribuição das ações das entidades em quatro tipos de atividades: recreativas, educativas, reivindicativas e atuação institucional. 40 9 Atividades recreativas – Gráfico 20. Realização de festa ou churrasco nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou festa ou churrasco Sim Não NS/NR 1 0,6% 68 40,72% 98 58,68% Gráfico 21. Realização de atividades para crianças nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou atividades para crianças Sim Não NS/NR 1 0,6% 55 32,93% 111 66,47% De acordo com estes dados, observa-se que uma parcela significativa das entidades comunitárias tende a desenvolver atividades de recreação e confraternização entre os moradores: quase 60% delas realizam festas e dois terços fazem atividades para as crianças (geralmente em datas comemorativas, como Dia das Crianças, Natal, Páscoa, São João etc.). Isto permite avaliar que estas entidades podem apresentar, em muitos casos, um papel significativo na constituição de vínculos entre os moradores, na medida em que propiciam um espaço para o encontro dos mesmos. Estes vínculos, por sua vez, podem ser um recurso importante tanto para a disseminação de informações no âmbito da comunidade quanto para a viabilização de iniciativas de organização e 41 mobilização dos moradores em determinadas conjunturas. O quanto estas atividades recreativas conseguem de fato forjar este “capital social”, no entanto, é algo que exigiria uma investigação qualitativa, especialmente através da observação direta deste tipo de atividade. 9 Atividades educativas – Gráfico 22. Realização de atividade educativa nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou Atividade Educativa Sim Não NS/NR 1 0,6% 79 47,31% 87 52,1% Gráfico 23. Realização de debates nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou debates Sim Não NS/NR 1 0,6% 71 42,51% 95 56,89% Além do papel recreativo e agregador, observa-se que uma parcela significativa das entidades comunitárias (um pouco menos da metade delas) tende a desenvolver atividades educativas nas vilas e bairros onde atuam. Estas atividades podem ser de prestação de serviços de educação (seja infantil, através das creches comunitárias, seja 42 educação para jovens e adultos, através da manutenção de turmas do MOVA8) ou atividades (in)formativas através da realização de encontros, seminários e debates sobre temas de interesse comunitário. Através destas atividades, constitui-se uma rede importante de transmissão de informações, opiniões e conhecimentos, que, na medida em que se ancora e se articula com as redes de sociabilidade existente no âmbito das comunidades, pode ter um papel importante na conformação de uma esfera pública que reflita, discuta e opine sobre temas e problemas locais, regionais e/ou municipais. 9 Atividades reivindicativas – Gráfico 24. Realização de abaixo-assinado nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou abaixoassinado Sim Não NS/NR 1 0,6% 53 31,74% 113 67,66% 8 O Movimento de Alfabetização (MOVA), foi implantado pela Prefeitura de Porto Alegre no ano de 1997. Os alfabetizadores do MOVA são indicados por entidades sociais e contratados pela Prefeitura através de convênio. As turmas do MOVA funcionam nas próprias entidades ou em Igrejas, sindicatos e residências de moradores. Para maiores informações sobre este Programa ver o sítio: http://www2.portoalegre.rs.gov.br/smed/default.php?p_secao=72 43 Gráfico 25. Realização de protesto ou reivindicação nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou protesto ou reivindicação Sim Não NS/NR 1 0,6% 63 37,72% 103 61,68% Gráfico 26. Realização de denúncia para imprensa nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou denúncia para imprensa 1 0,6% 28 16,77% Sim Não NS/NR 138 82,63% Um papel tradicional desenvolvido pelas entidades comunitárias é a identificação, formulação e expressão pública de demandas dos moradores. Conforme diversas pesquisas já demonstraram (Baierle, 1992; Fedozzi, 2000; Ferretti, 1984; Guareschi, 1980; Silva, 2001 e 2002), Porto Alegre possui um importante histórico de associativismo reivindicativo, o qual teve uma intervenção marcante nas mobilizações e protestos que marcaram a redemocratização do país, a partir do final dos anos 70. Os dados apresentados acima indicam que, em certa medida, ainda se mantém uma tradição de mobilização reivindicativa entre as entidades comunitárias de Porto 44 Alegre: quase 40% delas fizeram algum tipo de protesto ou reivindicação pública no período pesquisado. Ou seja, apesar da existência de canais institucionais com uma significativa capacidade de absorção das reivindicações sociais (especialmente o Orçamento Participativo), observa-se ainda a presença de ações reivindicativas por fora destes canais. Por outro lado, os dados acima indicam um significativo declínio de uma das práticas mais tradicionais das entidades comunitárias: a realização de abaixo-assinados. Embora pouco mais de 30% das entidades ainda lancem mão deste tipo de instrumento de reivindicação, é significativo que quase 70% delas tenham deixado de utilizá-lo como forma de construção e encaminhamento de suas demandas. Este declínio do uso do abaixo-assinado pode indicar a institucionalização e publicização dos canais e procedimentos de encaminhamento das demandas sociais, através da rede de participação social constituída na cidade, com a conseqüente perda de eficácia e, assim, de prestígio das formas mais particularistas de acesso aos bens e serviços públicos. Por fim, os dados dos gráficos acima indicam uma utilização pouco significativa de um dos canais de expressão mais poderosos na sociedade contemporânea, que é a mídia. Ou seja, menos de 20% das entidades utiliza a mídia como instrumento de expressão pública de suas reivindicações, indicando um distanciamento entre os meios de comunicação da cidade e a rede associativa formada pelas entidades comunitárias. Em que medida este distanciamento expressa um fechamento da mídia às reivindicações sociais (especialmente aquelas das camadas populares), uma rejeição das lideranças comunitárias em manterem contato com a imprensa ou, ainda, um desconhecimento recíproco, é algo a ser avaliado com estudos mais aprofundados. Parece possível levantar a hipótese, no entanto, de que há uma rede formada pelo associativismo comunitário de Porto Alegre, pela qual circula um volume significativo de informações, que conforma uma esfera pública com relativa autonomia em relação à atuação da mídia. 9 Atuação institucional – 45 Gráfico 27. Realização de reuniões com Secretarias nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou reunião com Secretarias Sim Não NS/NR 1 0,6% 51 30,54% 115 68,86% Gráfico 28. Realização de reunião com Prefeito ou Vice-Prefeito nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou reunião com Prefeito ou Vice 1 0,6% 34 20,36% Sim Não NS/NR 132 79,04% 46 Gráfico 29. Realização de reunião com Vereador ou Deputado nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou reunião com Vereador ou Deputado 1 0,6% 39 23,35% Sim Não NS/NR 127 76,05% Gráfico 30. Realização de reunião com órgãos policiais nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Realizou reunião com Polícia Sim Não NS/NR 1 0,6% 67 40,12% 99 59,28% 47 Gráfico 31. Participação no Orçamento Participativo nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Participação no Orçamento Participativo? Sim Não 8 4,79% 159 95,21% Gráfico 32. Prestação de serviço de interesse público nos últimos doze meses – Porto Alegre/2003 Desenvolve serviço de interesse público Sim Não 83 49,7% 84 50,3% Apesar da atuação reivindicativa por fora dos canais institucionais ainda manter uma certa presença entre as entidades comunitárias de Porto Alegre, observa-se claramente, desde o final dos anos 80, uma crescente “institucionalização” da atuação destas entidades. Por um lado, esta “institucionalização” expressa o aprofundamento de uma relação mais ou menos próxima (que não significa harmônica) que tradicionalmente existe entre o associativismo comunitário e as instituições governamentais, na medida em que a quase totalidade destas entidades apresenta como objetivo central da sua atuação a busca do atendimento de suas demandas pelos 48 governos. Por outro lado, no entanto, observa-se que a “institucionalização” dos anos 90 e do início do século XXI se caracteriza por uma nova relação entre as organizações sociais e as instituições governamentais, na qual as primeiras passam, crescentemente, a ocupar um lugar permanente no processo de tomada de decisão e/ou na execução de serviços de interesse público. Observando os dados dos gráficos acima, identifica-se uma significativa interação direta entre as entidades comunitárias e diversos representantes das instituições governamentais. Em primeiro lugar, em termos de maior volume de relacionamento, quase 70% das entidades realizaram, no período de um ano, reuniões com secretarias do governo municipal. Este alto percentual indica a existência de uma relação bastante intensa entre aquelas entidades e os órgãos que são os responsáveis diretos pela execução das políticas e ações governamentais. Em segundo lugar, encontram-se as atividades reunindo entidades comunitárias e representantes dos aparatos policiais, que foram realizadas por 40% das entidades. Este número significativo de reuniões com representantes da polícia pode ser tomado como um indicador do aumento da preocupação com crescimento da criminalidade violenta na cidade, que tem afetado diretamente a atuação das entidades e lideranças comunitárias de Porto Alegre (Fonseca, 1993; Silva, 2003). Em terceiro lugar, pouco menos de um quarto das entidades realizaram reuniões com representantes do Legislativo, seja estadual (deputados) seja municipal (vereadores). Apesar de ser um número significativo, quando comparado ao percentual de entidades que mantiveram reuniões com secretarias (quase 70%) identifica-se uma presença bem menos expressiva dos parlamentares como interlocutores das entidades comunitárias. Esta posição pode ser expressão de uma perda de importância dos parlamentares como mediadores no acesso aos bens e serviços públicos, em virtude da consolidação de mecanismos institucionalizados de participação, conforme tem sido abordado pela literatura sobre a dinâmica política de Porto Alegre (Dias, 2002). Tal hipótese, no entanto, exigiria análises mais aprofundadas. Por fim, mais de um quinto das entidades mantiveram reuniões com o Prefeito e/ou Vice-Prefeito. Apesar de ser a relação com menor valor percentual, é significativo que 20% das entidades comunitárias pesquisadas tenham tido pelo menos um contato direto, no período de um ano, com os dirigentes máximos do governo municipal. Esta freqüência de contato indica uma abertura das forças políticas à frente do governo 49 municipal na época da pesquisa (2003) para uma interlocução direta com setores da rede associativa comunitária. Além desta interação direta com representantes governamentais, os gráficos acima informam sobre duas outras formas de atuação institucional que adquiriram grande centralidade para as entidades comunitárias de Porto Alegre. Conforme os dados do gráfico 31 percebe-se que o Orçamento Participativo se constituiu em um espaço de atuação para praticamente toda a rede de entidades comunitárias: mais de 95% das entidades entrevistadas indicaram que participaram ou participam do OP. A distribuição do tempo de participação entre as entidades pesquisadas encontra-se no seguinte gráfico: Gráfico 33. Período de ingresso das entidades no Orçamento Participativo – Porto Alegre/2003 Período em que ingressou no OP 8 4,79% Desde o início Durante a Gestão Olívio (1990-1992) Durante a Gestão Tarso (1993-1996) Durante a Gestão Pont (1997-2000) Durante a Gestão Tarso/Verle (2001-2003) Não participou do OP NS/NR 8 4,79% 16 9,58% 48 28,74% 44 26,35% 15 8,98% 28 16,77% Estes dados mostram que a participação no OP encontra-se relativamente consolidada entre as entidades comunitárias, na medida em que praticamente 55% destas apresentavam sete anos ou mais de participação no período da pesquisa (sendo que quase 30% informaram que participavam do OP desde 1990, ou seja, vinham participando por quatorze anos). Assim, a participação no OP se tornou a atividade mais disseminada entre as entidades comunitárias, se consolidando como o espaço privilegiado de encaminhamento das demandas destas entidades. Esta consolidação do OP, por sua vez, parece estar diretamente relacionada à capacidade de obter, através da participação, respostas para aquelas demandas. Esta “eficácia” da participação se expressa no seguinte gráfico: 50 Gráfico 34. Obtenção de obra ou benefício com a participação no Orçamento Participativo – Porto Alegre/2003 8 4,79% 3 1,8% Sua entidade obteve alguma obra ou benefício com esta participação no OP? Sim Não NSA/NR Não participou 23 13,77% 133 79,64% Praticamente 80% das entidades pesquisadas informaram que já haviam obtido alguma obra ou serviço através do OP, o que demonstra que este canal de participação efetivamente responde, mesmo que parcialmente, às demandas da população que dele participa. Tal aspecto, sem dúvida, foi um dos fatores fundamentais tanto para a legitimação do OP quanto para sua constituição como espaço privilegiado de intervenção das entidades comunitárias (Abers, 2000; Silva, 2001). Na medida em que o OP criou uma dinâmica (o “ciclo do OP”) que se estende ao longo de todo ano, presume-se que ele tenha passado a pautar de forma importante a dinâmica e a forma de atuação das entidades. Neste sentido, um dos aspectos que podem ser destacados é que, ao criar momentos e espaços de encontro, convivência, articulação, negociação, disputas e discussão entre um amplo leque de organizações sociais que nele intervêm (Plenárias Regionais, Fóruns de delegados, Conselho do OP), o OP parece ter se constituído como instrumento importante na constituição e reprodução dos vínculos que tecem a rede associativa de Porto Alegre. Isto pode ser apreendido através da seguinte informação: 51 Gráfico 35. Ocorrência de votação conjunta com outras entidades no Orçamento Participativo – Porto Alegre/2003 A sua AMs votou junto com alguma outra AMs no OP do ano passado? 6 11 3,59% 6,59% SIM Não Não participou NSA/NR 37 22,16% 113 67,66% Os dados do gráfico indicam que o OP propicia um espaço importante de articulação entre as entidades que dele participam: quase 70% das entidades pesquisadas informaram que se articulavam com outras entidades para votarem juntas nas deliberações do OP. Ou seja, ao contrário de ser um mero espaço de disputa entre grupos movidos por interesses particularistas (que, obviamente, sempre estão presentes), o OP de Porto Alegre também se constituiu em um fórum marcado por um intenso processo de negociação, de construção de acordos, de alianças táticas e de articulações diversas, no qual determinadas demandas passam a ser defendidas por outros segmentos que não aqueles diretamente interessadas nas mesmas. Mesmo que, no curto prazo, isto signifique que alguns participantes precisam abrir mão de suas demandas em prol do atendimento das de outros participantes, no longo prazo tende há ocorrer uma ampliação da possibilidade de atendimento das mesmas na medida que se passa a contar com apoios que vão além do círculo estreito daqueles que compartilham tais demandas. Em termos hipotéticos, pode-se afirmar que a possibilidade desta dinâmica “inclusiva” está relacionada pelo menos a três aspectos: a efetividade do processo, que cria um horizonte de expectativas de que, pelo menos no longo prazo, as demandas podem ser satisfeitas; a continuidade do processo, que permite a postergação do atendimento das demandas em função de uma expectativa de atendimento futuro; a atuação de lideranças movidas por determinados princípios político-ideológicos, as quais incorporam aos processos de tomada de decisão outros elementos além da mera busca imediata de bens e serviços públicos. 52 Em virtude desta disseminação e consolidação, pode-se observar que, em determinadas regiões, as instâncias do OP tenderam, ao longo do tempo, a substituir e/ou se fundir com as instâncias de auto-organização social (especialmente os Conselhos Populares e Uniões de Vilas), gerando uma certa indeterminação entre os espaços de organização da sociedade civil e os espaços de participação institucional. O mapeamento de como este processo se expressa nas distintas regiões da cidade e suas implicações em termos da conformação da rede associativa municipal e suas relações com as instituições e atores estatais, é algo que deverá ser objeto de maior investigação. Além da participação no OP, o Gráfico 32 indica que um outro tipo de atividade apresenta um peso importante nas práticas desenvolvidas pelas entidades comunitárias de Porto Alegre: a prestação de serviços de interesse público. Praticamente metade das organizações entrevistadas prestava, em 2003, algum tipo de serviço de interesse público. Entre os principais serviços prestados, destacam-se: Gráfico 36. Prestação de serviço de interesse público pela entidade: creche comunitária – Porto Alegre/2003 Creche Comunitária 26 15,57% Sim Não Não presta serviço 83 49,7% 58 34,73% 53 Gráfico 37. Prestação de serviço de interesse público pela entidade: MOVA – Porto Alegre/2003 MOVA Sim Não Não presta serviço 46 27,54% 83 49,7% 38 22,75% Gráfico 38. Prestação de serviço de interesse público pela entidade: atividades assistenciais – Porto Alegre/2003 Atividades assistenciais Sim Não Não presta serviço 12 7,19% 83 49,7% 72 43,11% Conforme os dados apresentados nos gráficos acima, observa-se que predomina a prestação de serviços de interesse público vinculados a determinados programas ou políticas governamentais: as creches comunitárias estavam presentes em mais de 15% das entidades pesquisadas e o MOVA, que foi o tipo de serviço mais referido pelos entrevistados, estava presente em quase 30% das entidades. Por outro lado, as atividades assistenciais (distribuição de alimentos, auxílio a necessitados etc.), que foi o terceiro tipo de atividade mais referida, limitavam-se a pouco mais de 7% das entidades comunitárias. Mesmo com o possível viés causado pela tendência de destacar mais os 54 serviços que envolvem maior formalização e institucionalização (como as Creches e o MOVA), em detrimento das atividades voluntárias informais (como são muitas das atividades assistenciais), é significativa a importância adquirida por estes serviços na atuação cotidiana de muitas entidades comunitárias pesquisadas. Os dados obtidos na pesquisa permitem identificar que este envolvimento das entidades na prestação de serviços de interesse público é algo que vem crescendo de forma significativa no período mais recente. Tal fato é ilustrado pelas informações do gráfico abaixo: Gráfico 39. Tempo de prestação de serviço de interesse público pela entidade – Porto Alegre/2003 Quanto tempo desenvolve este serviço 5 5,95% 19 22,62% Até 2 anos 3 a 5 anos 6 a 10 anos Mais de 10 anos NS/NR 28 33,33% 19 22,62% 13 15,48% Os dados do gráfico indicam que apenas um terço das 84 entidades que desenvolvem serviços de interesse público prestam estes serviços por uma década ou mais. A maior parte das entidades (mais de 60%) passou a prestar tais serviços na última década (ou seja, a partir do início dos anos 90), sendo que quase 45% das 84 entidades apresentavam, na época da pesquisa (2003), menos de cinco anos de prestação destes serviços. Assim, pode-se identificar um crescente envolvimento das entidades comunitárias de Porto Alegre na provisão de serviços de interesse público na cidade, fazendo com que, em algumas áreas como a educação infantil, estas entidades se constituam em agentes importantes na garantia do acesso de parcelas significativas da população a tais serviços. A forma como se dá o financiamento destes serviços pode ser observada no gráfico abaixo: 55 Gráfico 40. Existência de convênio para o financiamento da prestação de serviço de interesse público pela entidade – Porto Alegre/2003 1 1,19% 17 20,24% Sua entidade possui algum convênio para a realização desta(s) atividade(s)? Sim Não NSA/NR 66 78,57% Segundo este gráfico, quase 80% das entidades que prestam serviços de interesse público (ou seja, 66 das 84 entidades que prestam estes serviços) possuem algum tipo de convênio para a sustentação destas atividades. Isto indica que tais atividades tendem a se sustentar, na sua grande maioria, em fontes de recursos externos às comunidades e que apresentam alguma permanência ao longo do tempo. São poucos os casos (em torno de 20%) nos quais as fontes de recursos não são formalizadas através de convênios ou projetos, mas sim ocorrem através de colaborações voluntárias de membros das próprias comunidades e/ou de doações externas. Na medida em que os convênios sustentam a quase totalidades dos serviços de interesse público prestado pelas entidades comunitárias, resta saber com quem são celebrados tais convênios. Tal informação encontra-se no seguinte gráfico: 56 Gráfico 41. Instituições com quem a entidade tem convênio para a prestação de serviço de interesse público – Porto Alegre/2003 Com quem tem convênio 1 1,52% 1 1,52% 1 1,52% Prefeitura Municipal Órgãos Governamentais Empresas Privadas Organizações Religiosas 63 95,45% O gráfico mostra que a quase totalidade dos convênios existentes (mais de 95%) são realizados entre as entidades comunitárias e a Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Surpreendentemente, na medida em que se observa uma crescente presença na mídia do tema da “responsabilidade social”, é quase nula a existência de convênios com instituições públicas não vinculadas ao governo municipal, empresas privadas e organizações religiosas. Esta significativa presença das entidades comunitárias na prestação serviços de interesse público, ao mesmo tempo em que a manutenção de tais serviços depende quase que exclusivamente da obtenção de recursos junto ao governo municipal, traz à discussão o tema da autonomia das organizações sociais perante o Estado. Na medida em que a prestação de serviços vem se tornando um foco central de atuação das entidades comunitárias (sendo, em muitos casos, sua atividade principal) e a viabilização de tais serviços implica no acesso a recursos públicos municipais, não haveria um risco crescente de que as entidades tenham que evitar relações mais conflitivas com o governo de forma a não verem ameaçados os recursos dos quais dependem? Na medida em que as entidades passam a ser fiscalizadas pelos órgãos governamentais responsáveis pelos convênios, devendo se adequar à legislação vigente para poderem desenvolver os serviços e receber os recursos, não existiria uma ameaça de ingerência e controle do poder público sobre a dinâmica de atuação das entidades? Estas são questões bastante pertinentes em virtude de um longo histórico de repressão e controle do Estado sobre as organizações sociais no Brasil, devendo ser objeto de 57 futuras análises para ver quais as implicações que a expansão da prestação de serviços de interesse público pelas entidades sociais tem gerado para a autonomia destas entidades. Para finalizar esta caracterização da atuação das entidades pesquisadas, um último aspecto a ser abordado se refere às formas de articulação entre as mesmas, as quais configuram isto que foi denominado de rede associativa comunitária de Porto Alegre. Além da informação já apresentada anteriormente sobre as articulações entre as entidades para intervenção no OP, a qual mostra uma significativa ocorrência de alianças entre as entidades para as votações no OP, outra informação que permite visualizar algumas características desta rede associativa é presença de relações pessoais entre as lideranças das entidades, conforme o gráfico abaixo: Gráfico 42. Existência de vínculos pessoais entre membros de diretorias de distintas entidades comunitárias – Porto Alegre/2003 3 12 1,8% 7,19% Você tem conhecidos em diretorias de outras AMs da região? Sim Não NSA/NR 152 91,02% Mais de 90% dos entrevistados declararam que possuem algum tipo de vínculo pessoal com indivíduos que participam das diretorias de outras entidades da região na qual se inserem. Este aspecto ficou evidente no trabalho de campo, quando muitos entrevistados se mostraram uma fonte fundamental para obter contato com participantes de outras entidades que deveriam ser entrevistadas. O contato entre as lideranças comunitárias de diversas vilas e bairros é, em grande medida, propiciado pela participação destas lideranças nos diversos fóruns institucionais (Fóruns de Delegados do OP, Conselho do OP, Conselhos de Políticas Públicas, Comitês Gestores de Programas Governamentais etc.) e sociais (Conselhos 58 Populares, Uniões de Vilas, Fóruns de Entidades etc.). A freqüência desta participação encontra-se no seguinte gráfico: Gráfico 43. Participação da entidade em fóruns institucionais ou sociais – Porto Alegre/2003 A entidade participa de algum fórum institucional ou social Sim Não 24 14,37% 143 85,63% Mais de 85% das entidades pesquisadas participam de algum fórum institucional e/ou social, indicando um alto grau de inserção destas entidades em fóruns que permitem o contato com outras entidades, o acesso a informações diversas, a construção de vínculos pessoais e/ou institucionais etc. Esta informação pode ser qualificada a partir da diferenciação entre os dois tipos de fóruns (institucional e social) e alguns sub-tipos que os integram. Começando pelos fóruns institucionais, os gráficos abaixo distinguem entre a participação em instâncias do OP e a participação em outros fóruns institucionais: 59 Gráfico 44. Participação da entidade nas instâncias do Orçamento Participativo – Porto Alegre/2003 Participa nas instâncias do OP Sim Não NSA 24 14,37% 85 50,9% 58 34,73% Gráfico 45. Participação da entidade em fóruns institucionais (exceto OP) – Porto Alegre/2003 Participa de fóruns institucionais (exceto o OP) Sim Não NSA 24 14,37% 73 43,71% 70 41,92% Os gráficos mostram que os fóruns institucionais tendem a ocupar uma posição importante como espaços de intervenção das entidades comunitárias. Praticamente a metade delas informou que tinha representante, no período da pesquisa, em alguma das instâncias do OP (especialmente nos Fóruns de Delegados)9. Além disto, quase 45% informaram que participavam de algum outro fórum institucional de âmbito 9 Na verdade, a participação das entidades comunitárias nas instâncias do OP parece estar subestimada nos dados apresentados. Tal avaliação se deve não apenas ao fato de um número muito maior de entidades (mais de 95%) participar do OP, mas, especialmente, pelo fato de que 82% das entidades declararam terem eleito delegados no OP de 2002. 60 local/regional (CLIS, CRAS, Comissão de Praça etc.) ou municipal (CMS, CMAS, COMATHAB etc.). Em termos dos fóruns sociais, as informações disponíveis são as seguintes: Gráfico 46. Participação da entidade em articulação regional ou fóruns de entidades – Porto Alegre/2003 Participa de articulação regional ou fórum de entidades Sim Não NSA 24 14,37% 67 40,12% 76 45,51% Gráfico 47. Participação da entidade na União das Associações de Moradores de Porto Alegre – Porto Alegre/2003 Participa da UAMPA 24 14,37% 33 19,76% Sim Não NSA 110 65,87% De acordo com os dados dos gráficos, observa-se que 40% das entidades estão inseridas em alguma articulação regional de entidades ou em algum fórum de entidades relacionado a uma determinada áreas de política pública (assistência social, criança e adolescente etc.). É significativo que, apesar do número relativamente elevado de 61 entidades inseridas em fóruns sociais, o percentual desta inserção fique abaixo daquele observado em relação aos fóruns institucionais. Esta é mais uma informação que corrobora à hipótese, já apontada anteriormente, sobre uma significativa “institucionalização” das entidades comunitárias. Outra informação significativa é o número relativamente baixo da inserção das entidades comunitárias naquela que seria sua entidade de representação coletiva: apenas 20% das entidades declararam participar da UAMPA. Comparando este dado com o da inserção das entidades em outros fóruns sociais, identifica-se a manutenção de uma tendência, já apontada em outras análises (Baierle, 1992; Silva, 2001), de perda de importância da UAMPA no associativismo comunitário, ao mesmo tempo em que cresce a importância de outros fóruns sociais e institucionais de inserção e intervenção das entidades. Além dos contatos pessoais e da participação em diferentes fóruns sociais e institucionais, outro indicador da rede formada pelo associativismo comunitário em Porto Alegre se expressa no desenvolvimento de atividades conjuntas entre as entidades. Esta informação encontra-se no gráfico abaixo: Gráfico 48. Realização de trabalho ou atividade com outra entidade – Porto Alegre/2003 Realizou trabalho ou atividade com outra entidade 1 0,6% Sim Não NS/NR 42 25,15% 124 74,25% De acordo com este gráfico, identifica-se uma expressiva tendência de desenvolvimento de atividades conjuntas entre as entidades comunitárias da cidade: praticamente três quartos das mesmas informaram que já haviam realizado algum tipo de ação conjuntamente com outra(s) entidade(s). 62 Considerações finais Para concluir o presente relatório, esta seção busca sintetizar alguns aspectos destacados na caracterização do associativismo comunitário de Porto Alegre, de forma a identificar algumas continuidades e mudanças neste tipo de prática organizativa que caracteriza de forma marcante a sociedade civil porto-alegrense. Em primeiro lugar, os dados apresentados indicam que o associativismo comunitário, baseado em associações de moradores e entidades similares, mantém-se como um modelo de organização importante, especialmente entre os moradores dos bairros e vilas populares da cidade. Neste sentido, observa-se a manutenção da dinâmica de criação de novas entidades comunitárias ao longo dos anos 90 e nos primeiros anos do século XXI. Tal crescimento quantitativo das entidades comunitárias corrobora a interpretação de que a configuração política da cidade neste período, marcada por mudanças significativas na forma de relação entre as organizações sociais e o poder público municipal, tendeu a estimular as práticas associativas. Ou seja, as organizações sociais de Porto Alegre (entre elas, as organizações comunitárias) tenderam a assumir um papel importante na mediação entre as demandas e propostas da sociedade civil da cidade e os novos espaços de participação política (direta ou por representação) constituídos a partir da segunda metade dos anos 80 (Conselhos, OP, Comitês Gestores etc.), estimulando, assim, a constituição de novas organizações e o conseqüente adensamento do tecido associativo da cidade. Esta dinâmica de crescimento quantitativo, que poderia levar a um diagnóstico apressado de fortalecimento da sociedade civil, precisa ser articulada a uma análise que apreenda as mudanças qualitativas do associativismo porto-alegrense, para que se chegue a uma interpretação mais qualificada de sua configuração recente. Os dados apresentados mostram uma mudança expressiva que pode ser sintetizada na hipótese de uma crescente “institucionalização” dos atores sociais de Porto Alegre nos últimos anos. Retomando a história do associativismo comunitário de Porto Alegre, pode-se identificar dois padrões de relação com as instituições e os atores políticos: de um lado, a tendência, presente tanto na tradição populista-clientelista quanto na tradição autoritária-clientelista, de uma inserção subordinada das entidades comunitárias no jogo político, através da barganha de apoio eleitoral em troca do acesso a determinados bens e serviços públicos; de outro, a tendência mais recente, forjada no processo de 63 redemocratização do país, de uma ação de confrontação das entidades comunitárias com os atores e/ou instituições políticos, buscando o acesso a bens e serviços públicos através da pressão por fora dos canais institucionais (protestos, mobilizações de rua etc.). Os dados apresentados no relatório mostram que, ao lado destas duas formas mais tradicionais de relacionamento sociedade civil-Estado (que, em maior ou menor grau, ainda mantém-se), houve a introdução de novas formas de relacionamento: a atuação em canais institucionais, através dos quais ocorre a reivindicação de bens, serviços e políticas públicas; a formalização da prestação de serviços de interesse público por parte das entidades sociais, que passam a receber recursos públicos para tal atividade. Estas novas formas de relacionamento entre os atores sociais e o Estado implicam numa significativa institucionalização da atuação dos atores e, especialmente no caso da prestação de serviços, na sujeição das entidades a um conjunto de regras e controles exercidos por instâncias governamentais. A questão que se coloca em função destas mudanças se refere à capacidade de manutenção da autonomia das organizações comunitárias frente a este processo de institucionalização. Ou seja, na medida em que estas organizações enfrentam dificuldades constantes do ponto de vista da sua manutenção financeira, ao mesmo tempo que são atores fortemente marcados pelas disputas político-partidárias e as decisões governamentais, há um risco significativo de que a institucionalização tenda a se desdobrar em perda de autonomia. Tal perda de autonomia não significa, necessariamente, a subordinação da entidade aos interesses de agentes políticos e/ou governamentais, mas sim uma dificuldade de definição autônoma da agenda (no sentido de temas e de dinâmicas de intervenção) da entidade. Em outras palavras, haveria uma tendência crescente de que a atuação das entidades seja pautada pelas ações e propostas dos agentes políticos e/ou governamentais, frente às quais as entidades atuariam mais de forma reativa do que de forma protagonista. No entanto, se este processo de institucionalização pode apresentar este risco de perda de autonomia, por outro lado os dados apresentados indicam que esta mesma institucionalização tem contribuído para um adensamento e fortalecimento dos vínculos entre as entidades que conformam a rede associativa da cidade. Ao contrário de períodos anteriores, quando a atuação tendia a ser mais fragmentada, formou-se na cidade um conjunto de lideranças comunitárias cujo raio de ação transcende os âmbitos mais restritos dos bairros/vilas e regiões, intervindo de fato no âmbito municipal. Esta 64 ampliação do grau de articulação de entidades pode propiciar recursos de diferentes tipos (informação, conhecimento, apoio político, pessoal, material etc.), que são fundamentais para viabilizar uma atuação autônoma das organizações comunitárias, contrabalançando, assim, a tendência de subordinação identificação acima. Frente a este quadro complexo, no qual apresentam-se tendências que indicam um fortalecimento do associativismo comunitário (fundação de novas entidades, maior articulação entre as mesmas, entre outros aspectos) e, ao mesmo tempo, uma maior dependência governamental (dependência de recursos de convênios, concentração da intervenção nos espaços institucionais, entre outros aspectos), conclui-se este relatório com um alerta contra as análises simplistas que enfatizam determinados elementos em detrimento de outros, perdendo, assim, a riqueza que caracteriza a rede associativa de Porto Alegre e suas relações com as instituições e atores políticos. Apreender esta complexidade é um elemento fundamental para o aprofundamento da democracia, na medida em que auxilia os atores sociais e políticos refletirem de forma mais adequada sobre as possibilidades e limites colocados para suas intervenções. Contribuir para esta reflexão e, assim, para a construção democrática é o objetivo central deste relatório e, de forma mais ampla, do próprio Observatório Social de Porto Alegre. Bibliografia citada ABERS, Rebecca. Do clientelismo à cooperação: governos locais, políticas participativas e organização da sociedade civil em Porto Alegre. Cadernos da CIDADE, n°7, volume 5, maio/2000. BAIERLE, Sérgio Gregório. Um novo princípio ético-político: prática social e sujeito nos movimentos populares urbanos em Porto Alegre nos anos 80. Campinas: Unicamp, 1992. Dissertação (Mestrado em Ciência Política), Universidade de Campinas, 1992. BOSCHI, Renato Raul. A arte da associação: política de base e democracia no Brasil. São Paulo: Vértice; Rio de Janeiro: IUPERJ, 1987. DIAS, Márcia Ribeiro. Sob o signo da vontade popular. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2002. FEDOZZI, Luciano. O poder da aldeia: gênese e história do Orçamento Participativo de Porto Alegre. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000. FERRETTI, Rosemary Brum. Uma casa nas costas: análise do movimento social urbano em Porto Alegre (1975-1982). Porto Alegre: UFRGS, 1984. Dissertação (Mestrado em Sociologia), Curso de Pós-Graduação em Antropologia, Sociologia e Política/Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1984. FONSECA, Claudia Lee Williams. Bandidos e mocinhos : antropologia da violência no cotidiano. Humanas, Porto Alegre Vol. 16, n. 2, p. 67-89, jul./dez. 1993. 65 GUARESCHI, Pedrinho. Urban social movements in brazilian squatter settlements. Madison: University of Wisconsin-Madison, 1980. Tese (Doutorado em Sociologia), Univesity of Wisconsin-Madison, 1980. RÉOS, Janete. Participação em saúde na gerência distrital 5 de Porto Alegre Glória/Cruzeiro/Cristal (1980-2000). Porto Alegre: UFRGS, 2003. (Dissertação de Mestrado em Sociologia) SADER, Eder. Quando novos personagens entraram em cena. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988. SILVA, Marcelo Kunrath. O problema habitacional e a democratização da gestão municipal em Porto Alegre. In: DIAZ ORUETA, Fernando; LOURES SEOANE, Maria Luisa (orgs.). Desigualdad social y vivienda. Alicante: Editorial Club Universitário, 2004. SILVA, Marcelo Kunrath. Criminalidade, violência e movimentos sociais: novos obstáculos à organização popular. Trabalho apresentado no II Seminário Internacional de Educação Intercultural, Gênero e Movimentos Sociais, Florianópolis, abril de 2003. SILVA, Marcelo Kunrath. Cidadania e exclusão: os movimentos sociais urbanos e a experiência de participação na gestão municipal em Porto Alegre. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. SILVA, Marcelo Kunrath. Construção da “participação popular”: análise comparativa de processos de participação social na discussão pública do orçamento em municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS. Porto Alegre: UFRGS, 2001. (Tese de Doutorado em Sociologia). 66 Base de Dados II Pesquisa com 116 entidades participantes do Orçamento Participativo (1999). 67 Apresentação O presente relatório traz informações e análises produzidas a partir de um questionário aplicado, em 1999, a 116 entidades de Porto Alegre que tiveram intervenção no OP no ano de 1998. O trabalho de aplicação do questionário foi realizado pelo autor do presente relatório, sendo que este levantamento de dados se inseria na pesquisa “Sociedade Civil, Espaço Público e Poder Local: uma análise do Orçamento Participativo em Belo Horizonte e Porto Alegre”, desenvolvida pelo Prof. Leonardo Avritzer, da Universidade Federal de Minas Gerais, a quem agradeço a disponibilização dos dados da pesquisa. A construção da amostra de entidades a serem pesquisadas foi feita com base nos registros dos participantes das plenárias regionais e temáticas do OP de 1998. A partir dos dados constantes destes registros, foi elaborada uma lista de entidades que tiveram membros presentes nas plenárias, chegando-se a uma relação de 1102 entidades. Baseado nesta relação de entidades, foi selecionada uma amostra de 120 entidades a serem entrevistadas. Esta amostra foi estratificada de acordo com a seguinte tipologia de entidades e suas respectivas proporções naquele universo de 1102 entidades: Tabela 1. Distribuição percentual das entidades da amostra, segundo tipo de entidade. Entidades Comunitárias Grupos/entidades religiosos Associações Profissionais Entidades educacionais Entidades ligadas à saúde Entidades sindicais Associações esportivas/recreativas Associações de amparo/caridade Associações culturais Cooperativas Total Freqüência 88 2 3 8 3 2 5 2 3 4 120 % 73,2 1,7 2,5 6,7 2,5 1,7 4,2 1,7 2,5 3,3 100 Selecionadas as entidades, um problema que se colocou para o desenvolvimento da pesquisa foi o fato de que, com exceção principalmente das entidades comunitárias, muitas das entidades sorteadas não se mostraram capazes de responder o questionário, na medida em que não tinham tido uma participação coletiva/institucional no OP. Ao contrário, a participação foi de membros da entidade, mas que não se constituíram em representantes da mesma. Assim, a amostra inicialmente desenhada ficou prejudicada e 68 novas entidades foram incorporadas na amostra, distorcendo, em certa medida, a proporcionalidade entre os tipos de entidades. Feitas estas considerações introdutórias, passa-se à apresentação do material constante deste relatório: 1. A relação das 116 entidades entrevistadas; 2. Informações e análises das principais variáveis do Banco de Dados. Uma observação importante a ser feita, refere-se ao fato de que foi excluído do banco de dados as informações existentes de identificação das entidades e dos entrevistados. Este procedimento visa garantir o total anonimato das informações, tanto no que se refere àqueles que as forneceram quanto em termos das entidades pesquisadas. Cumpre-se, assim, com o princípio ético que deve orientar as relações de confiança estabelecidas entre pesquisadores e pesquisados. Relação das 116 entidades pesquisadas Afro-Sul ODOMODE Associação Comunitária Alto Embratel / Primeiro de Maio Associação Comunitária Amigos do Bairro Sarandi Associação Comunitária Bairro Vermelho Associação Comunitária Beneficiente da Vila Cristal (Sanga da Morte) Associação Comunitária Campos Velho Associação Comunitária Colina Verde Associação Comunitária da Extrema Associação Comunitária da Vila dos Sargentos Associação Comunitária da Vila Graciliano Ramos Associação Comunitária da Vila Monte Cristo Associação Comunitária do Bairro Teresópolis Associação Comunitária do Lami Associação Comunitária do Morro da Cruz Associação Comunitária do Parque Araribóia Associação Comunitária do Parque Tamandaré Associação Comunitária dos Moradores da Vila Hipódromo-Taquari Associação Comunitária dos Moradores da Vila Nossa Senhora de Fátima Associação Comunitária dos Moradores da Vila Vargas Associação Comunitária dos Moradores do Jardim Camaquã Associação Comunitária dos Moradores do Parque dos Maias Associação Comunitária Jardim Bento Gonçalves Associação Comunitária Jardim das Oliveiras 69 Associação Comunitária Nova Gleba Associação Comunitária Residencial Machado Associação Comunitária Sargento Raimundo Corrêa da Silva Associação da Vila Dois Irmãos Associação das Federações Esportivas do RGS Associação de Amigos e Moradores Nossa Senhora dos Navegantes Associação de Desenvolvimento Comunitário da Vila Farrapos Associação de Moradores Chácara de Banco Associação de Moradores da Nova São Carlos Associação de Moradores da Santa Helena Associação de Moradores da Via Tarso Dutra Associação de Moradores da Vila Agrovet Associação de Moradores da Vila Asa Branca Associação de Moradores da Vila Mapa Associação de Moradores da Vila Nossa Sra. da Esperança Associação de Moradores da Vila Pinto Associação de Moradores da Vila Rio Branco Associação de Moradores da Vila Safira Nova Associação de Moradores da Vila São Francisco do Boqueirão Associação de Moradores Divina Providência Associação de Moradores do Bairro Ipanema Associação de Moradores do Beco Adelar Associação de Moradores do Serra Verde Associação de Moradores Dona Teodora Associação de Moradores e Amigos do Bairro Três Figueiras Associação de Moradores Geraldo Santana e Ana Carvalho Associação de Moradores Maria da Conceição Associação de Moradores São Francisco de Assis Associação de Moradores Soldado João Alfredo Associação de Moradores Triângulo Esmeralda Associação de Moradores Vila Grécia-Jardim Carvalho. Associação de Moradores Vila Pedreira Bairro Cristal Associação dos Amigos da Vila Jardim Associação dos Moradores Amigos da Nova Chácara do Fumaça Associação dos Moradores da Estrada dos Alpes Associação dos Moradores da Quinta do Portal Associação dos Moradores da Vila Batista Flores Associação dos Moradores da Vila Colina do Prado Associação dos Moradores da Vila do IAPI Associação dos Moradores da Vila Figueira Associação dos Moradores da Vila Icaraí II Associação dos Moradores da Vila Jardim Alvorada Associação dos Moradores da Vila Orfanotrófio II Associação dos Moradores da Vila Parque Belém 70 Associação dos Moradores da Vila Renascença II Associação dos Moradores Di Primo Beck II Associação dos Moradores do Bairro Anchieta Associação dos Moradores do Bairro Guarujá Associação dos Moradores do Bairro Parque Humaitá Associação dos Moradores do Chapéu do Sol Associação dos Moradores do Conjunto Habitacional Alto Petropólis/Vila Tijuca Associação dos Moradores do Núcleo Residencial Cefer 2 Associação dos Moradores e Amigos do Passo das Pedras. Associação dos Moradores Jardim das Acácias Associação dos Moradores Parque das Orquídeas Associação dos Moradores Vila Parque Belém Associação dos Moradores Vila São Vicente Martir Associação dos Pescadores Artesanais do RS Associação Evangélica Luterana de Caridade Associação Jardim Leopoldina Associação Moradores Vila Boa Vista Associação Recreativa Carnavalesca União da Vila do IAPI Associação Santo Agostinho Centro comunitário da Vila do IAPI Centro Comunitário São José Operário Centro de desenvolvimento comunitário do Jardim Residencial Alto Petropólis Clube de Mães da Vila União Clube de Mães Lar das Laranjeiras Clube de Mães Rubem Berta II Conselho da Entidades da Vila Mapa Conselho Popular da Grande Glória Conselho Popular da Zona Norte Conselho Popular Santa Tereza Cooperativa Cre-Ser (Educação para portadores de deficiência) Cooperativa Habitacional Diretor Pestana LTDA. Cooperativa Habitacional Vale das Pedras Creche Arco-Íris Encantado Fraternidade Cristã de Doentes e Deficientes - FCD GAPA-RS Instituto Popular Arte e Educação Liga de Amparo aos Necessitados Movimento Educacional Especial Núcleo Esperança Sindicato dos Metroviários Sindicato dos Municipários de Porto Alegre Sindicato dos Taxistas de POA. Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados no Estado do Rio Grande do Sul 71 Sociedade Beneficiente e Recreativa Mocidade Independente da Lomba do Pinheiro Sociedade Beneficiente, Recreativa e Cultural Afro-Tchê Sociedade Comunitária Herophilo Azambuja Sociedade Comunitária Jardim Medianeira Sociedade dos Amigos da Vila Safira Sociedade Literária e Caritativa Santo Agostinho / Creche Madre Tereza União Sul-Brasileira de Educação e Ensino Caracterização das entidades pesquisadas Conforme salientado na Introdução desta seção do relatório, o objetivo inicial da pesquisa era constituir uma amostra que reproduzisse, com relativo grau de fidelidade, a distribuição proporcional dos tipos de entidades que constituíam o universo de 1102 identificadas nos registros do OP de 1998. No entanto, dificuldades surgidas no trabalho de aplicação do questionário e, em alguns casos, na própria forma de classificação das entidades, levaram a uma certa discrepância entre a proporção dos tipos de entidades no universo e na amostra pesquisada. A distribuição presente nesta última encontra-se no gráfico abaixo: Gráfico 1. Distribuição das entidades entrevistadas, de acordo com o tipo de entidade – Pesquisa Entidades OP/1999. 1 0,86% Tipo de entidade Associações Profissionais Entidades ligadas à saúde 1 0,86% Grupos/entidades religiosas 1 0,86% 3 2,59% Cooperativas Associações culturais 3 2,59% Entidades Educacionais 3 2,59% Associações de amparo/caridade 3 2,59% 4 3,45% Entidades Sindicais Associações esportivas/recreativas 5 4,31% 92 79,31% Entidades Comunitárias 0 20 40 60 80 100 72 Comparando os dados do gráfico com as proporções inicialmente identificadas no universo, observa-se um pequeno aumento da proporção de entidades comunitárias (de 73,2% no universo para 79,3% na amostra), de entidades sindicais (de 1,7% para 3,45%) e de associações de amparo/caridade (de 1,7% para 3,45%) entre as entidades pesquisadas. Por outro lado, há uma pequena queda na proporção de grupos/entidades religiosos (de 1,7% para 0,86%), de associações profissionais (de 2,5% para 0,86%), de entidades educacionais (de 6,7% para 2,59%), de entidades ligadas à saúde (de 2,5% para 0,86%) e de cooperativas (de 3,3% para 2,59%). Mantiveram-se praticamente com os mesmos valores as associações esportivas/recreativas e as associações culturais. Apesar destas pequenas variações, observa-se que a amostra reflete um aspecto bastante significativo do universo de entidades que é o claro predomínio do associativismo comunitário em termos da participação das organizações sociais no OP de Porto Alegre. Em torno de três quartos das entidades participantes situam-se neste tipo de prática associativa, o que corrobora os resultados de pesquisas feitas por outros pesquisadores. Tal predomínio indica a manutenção uma tendência que marca o OP desde o seu processo de implantação, no ano de 1989: um processo de participação que repousa, em grande medida, sobre a rede associativa comunitária existente em Porto Alegre. A introdução das Plenárias Temáticas, no ano de 1994, que tinha como um de seus objetivos trazer novos participantes para o OP, incluindo outros tipos de entidades constitutivas da sociedade civil porto-alegrense, parece ter se revelado pouco eficaz no sentido de alterar a centralidade das entidades comunitárias no OP. Analisando as informações sobre o ano de constituição destas entidades, conforme o gráfico abaixo, percebe-se que a maior parte dos casos (em torno de 80%) se concentra a partir de 1976, ou seja, no processo da redemocratização e no período posterior. Assim, apesar da presença de um associativismo mais antigo, pode-se concluir que a retomada da democracia abriu oportunidades para a constituição e atuação das organizações sociais em Porto Alegre, contribuindo para uma significativa ampliação do tecido associativo da cidade. Outra informação que chama a atenção neste gráfico é o significativo número de entidades constituídas a partir de 1989: praticamente um terço do tecido associativo participante do OP em 1998 havia se estruturado a partir de 1989. Esta informação nos permite inferir que a dinâmica política local, a partir de 1989, ampliou ainda mais as oportunidades políticas para a criação de entidades sociais (no caso, especialmente para 73 as entidades comunitárias), corroborando conclusões de outras pesquisas realizadas em Porto Alegre (ABERS, 2000; FEDOZZI, 2000; SILVA, 2001). Uma questão que se coloca para futuras investigações é se este crescimento associativo é um processo generalizado entre diferentes tipos de entidades. Os dados desta pesquisa, em virtude do forte peso das entidades comunitárias e do pequeno número de casos de outras entidades não possibilita responder tal questão. Gráfico 2. Distribuição das entidades, de acordo com o ano de fundação das entidades - Pesquisa Entidades OP/1999. 3 2,59% NS/NR 38 32,76% A partir de 1989 20 17,24% 1986-1988 33 28,45% 1976-1985 14 12,07% 1964-1975 7 6,03% 1946-1963 1 0,86% 1924-1945 0 10 20 30 40 Uma característica muito expressiva deste associativismo participante do OP é sua alta institucionalização, conforme demonstra o gráfico abaixo: 74 Gráfico 3. Distribuição das entidades segundo o tipo organização formal ou informal - Pesquisa Entidades OP/1999. Tipo de Organização? 1 0,86% Formal Informal NR 8 6,9% 107 92,24% De acordo com as informações do gráfico, mais de 90% das entidades pesquisadas possuíam registro formal, o quê lhes conferia uma personalidade jurídica e, assim, um conjunto de prerrogativas em termos, por exemplo, do estabelecimento de convênios e parcerias com órgãos públicos ou empresas privadas. Os poucos casos de entidades sem registro formal se limitavam a fóruns de articulação de entidades ou a entidades que, por seu caráter recente ou por problemas de funcionamento, ainda não haviam obtido tal registro. Passando para a análise da dinâmica de funcionamento das entidades pesquisadas, uma primeira informação refere-se à periodicidade de reuniões das diretorias/coordenações das entidades, conforme o gráfico abaixo: 75 Gráfico 4. Freqüência das reuniões da diretoria da entidade, nos últimos 12 meses Pesquisa Entidades OP/1999. 5 4,31% Não faz reunião 2 1,72% NR 10 8,62% Outro 4 3,45% Trimensalmente 55 47,41% Mensalmente 21 18,1% Quinzenalmente 19 16,38% Semanalmente 0 10 20 30 40 50 60 De acordo com as informações deste gráfico, observa-se que a grande maioria das entidades (mais de 80%) realiza ao menos uma reunião por mês com os membros de suas diretorias/coordenações. Entre estas entidades, em torno de 15% realizam reuniões semanais de diretoria/coordenação e quase 20% realizam reuniões quinzenais. Tal periodicidade indica uma relativa vitalidade no funcionamento destas entidades. O gráfico mostra, também, um pequeno número de entidades (cinco) que informaram não realizarem reuniões de suas diretorias/coordenações no período da pesquisa, em função de um processo de desmobilização. Apesar do número relativamente pequeno, que representa pouco mais de 4% da amostra, a presença destas entidades indica uma relativa instabilidade na trajetória de algumas organizações sociais (em especial, daquelas que, devido à baixa institucionalização e/ou à carência de recursos, dependem fundamentalmente da manutenção da capacidade de mobilização de suas bases ao longo do tempo). Em que medida e de que forma a presença de canais institucionais de participação como o OP, que estabelecem uma agenda permanente para a atuação da sociedade civil, contribui para a manutenção de um funcionamento regular das entidades (e, mais especificamente, seu impacto sobre diferentes tipos de entidades) é outra questão importante para futuros estudos. 76 A quantidade de membros das diretorias/coordenações que comparecem às reuniões encontra-se no seguinte gráfico: Gráfico 5. Número de participantes nas reuniões de diretoria/coordenação das entidades - Pesquisa Entidades OP/1999. NS/NR 4 3,45% 5 4,31% Não faz reunião 11 9,48% mais de 20 8 6,9% 16 a 20 30 25,86% 11 a 15 44 37,93% 6 a 10 14 12,07% 1a 5 0 10 20 30 40 50 De acordo com o gráfico, identifica-se o predomínio de reuniões com participação de até dez integrantes de diretorias/coordenações, as quais representam 50% das entidades pesquisadas. Além disto, 25% das entidades reúnem entre onze e quinze membros de suas diretorias/coordenações. Chama a atenção, ainda, a informação de que quase 17% das entidades realizam reuniões de diretoria/coordenação com mais de dezesseis participantes, o que pode ser considerado um número alto de participantes (especialmente para as entidades comunitárias). Mesmo com o possível viés de uma avaliação superestimada por parte dos entrevistados, estas informações indicariam que, além de se reunirem com freqüência, as entidades pesquisadas tendem a apresentar um número significativo de participantes que acompanham a dinâmica cotidiana da organização. Além das reuniões de diretoria/coordenação, grande parte das entidades realiza reuniões com suas “bases”, sendo que somente duas entidades informaram não realizar tais reuniões. A freqüência com que estas reuniões são realizadas encontra-se no gráfico abaixo: 77 Gráfico 6. Freqüência das reuniões com a comunidade/base representada pela entidade - Pesquisa Entidades OP/1999. 5 4,31% NS/NR Não faz reunião 2 1,72% Bimestralmente 7 6,03% 33 28,45% Outro 11 9,48% Anualmente 21 18,1% Semestralmente 13 11,21% Trimestralmente 24 20,69% Mensalmente 0 10 20 30 40 De acordo com o gráfico, observa-se uma significativa diversidade entre as entidades em termos da freqüência de reuniões com suas “bases”, destacando-se aquelas que realizam reuniões mensais (20,69%), semestrais (18,1%) e trimestrais (11,21%). Uma informação significativa é que entre as entidades enquadradas na categoria “outras periodicidades”, dezoito informaram a inexistência de uma periodicidade fixa, realizando reuniões/assembléias com suas “bases” quando necessário. Em relação ao número de participantes nestas reuniões, as informações estão no gráfico abaixo: 78 Gráfico 7. Número de participantes nas reuniões com a comunidade/base representada pela entidade - Pesquisa Entidades OP/1999. 15 12,93% NS/NR 2 1,72% Não faz reunião 19 16,38% mais de 100 8 6,9% 81 a 100 9 7,76% 61 a 80 23 19,83% 41 a 60 33 28,45% 21 a 40 7 6,03% 1 a 20 0 10 20 30 40 Segundo o gráfico, em torno de 50% das entidades realizam reuniões com um público que varia de 21 a 60 participantes. Destaca-se a informação de que quase 20% das entidades teriam mais de 100 participantes nas suas reuniões, expressando uma significativa capacidade de mobilização. Uma pesquisa em profundidade seria necessária para qualificar estas informações, identificando e analisando os fatores que viabilizam tal mobilização por parte das organizações sociais. Um dado que pode auxiliar na compreensão deste aspecto refere-se aos temas que mais mobilizam as “bases” das organizações pesquisadas, presente na seguinte tabela: Tabela 2. Temas que mais mobilizam as comunidades/bases das entidades Pesquisa Entidades OP/1999. Freqüência % Regularização Fundiária 30 20,7 Infra-estrutura urbana 27 18,2 Saúde 21 14,5 Segurança Pública 15 10,3 Assistência Social 10 6,9 Educação 10 6,9 79 Transporte 8 5,6 Orçamento Participativo 4 2,8 Cultura 3 2,2 Outros 12 8,3 Nenhum 3 2,2 NS/NR 2 1,4 145 100,0 Total Obs: O total excede o número de entidades (116), pois algumas indicaram mais de um tema. Os dados da tabela mostram que os temas que mais mobilizam as bases das entidades pesquisadas referem-se, em grande medida, a determinados “problemas sociais” que são objetos de políticas públicas do governo municipal. Neste sentido, o público mobilizado por estas entidades tende a ser aquelas populações sujeitas a determinadas carências em termos de acesso a bens e/ou serviços públicos ou, ainda, que dependem destes bens e serviços para sua reprodução social. Este predomínio de entidades demandantes de bens e serviços públicos é, em parte, resultado da própria conformação do OP, que pode ser caracterizado como um processo público de deliberação sobre a distribuição de bens e serviços públicos na cidade através da decisão sobre a alocação dos investimentos do governo municipal. Ou seja, este espaço participativo tende a mobilizar e atrair aqueles segmentos da população e do tecido associativo de Porto Alegre que buscam ou querem manter o acesso àqueles bens e serviços públicos. Neste sentido, pode-se inferir que o OP cria um ambiente político que estimula um determinado tipo de associativismo reivindicativo, com forte enraizamento nos bairros e vilas populares da cidade, ao instituir um canal de participação que se funda na mobilização social em torno da construção e expressão pública de reivindicações coletivas. Em momentos anteriores deste relatório foram feitas referências à “rede associativa” e ao “tecido associativo” constituído por estas entidades que participam do OP de Porto Alegre, indicando a existência de relações entre as mesmas. Tais relações podem ser inferidas das informações do gráfico abaixo: 80 Gráfico 8. Distribuição das entidades segundo a existência de relações regulares com outras organizações sociais - Pesquisa Entidades OP/1999. Sua entidade se relaciona regularmente com outras organizações? Sim Não NS/NR 8 6,9% 1 0,86% 107 92,24% Os dados do gráfico mostram que praticamente todas as entidades pesquisadas possuíam relações regulares com outras entidades e/ou organizações, sendo incomum a presença de entidades (apenas um caso) que responderam realizar suas atividades de forma totalmente isolada, sem constituir vinculações com outras entidades ou organizações seja de sua área temática de atuação seja do seu espaço geográfico de intervenção. Como seria esperado, em função da composição da amostra da pesquisa (que, por sua vez, é decorrência da composição do universo associativo atraído pelo OP), as principais entidades que atuam na construção dos vínculos que tecem a rede associativa analisada são as entidades comunitárias. De acordo com a tabela abaixo, mais de 80% das entidades comunitárias possuem relações com outras entidades comunitárias, indicando a existência de uma significativa articulação entre estas organizações. Esta articulação, por sua vez, conforma uma rede vínculos internamente às Regiões e, também, no âmbito municipal, através da qual, provavelmente, fluem informações, influências, propostas e recursos diversos. Além dos vínculos com as outras entidades comunitárias, observa-se também que as associações comunitárias apresentam vínculos significativos com outros tipos de entidades, entre as quais se destacam as organizações religiosas (com as quais se relacionam quase 25% das entidades comunitárias) e as ONGs (com as quais se 81 relacionam 12% das entidades comunitárias). Além disto, praticamente em todos os outros tipos de entidades pesquisadas, à exceção dos sindicatos, foram coletadas informações sobre a existência de relações com as entidades comunitárias. Uma informação que se destaca na tabela é o forte “internismo” das relações dos sindicatos. Ou seja, estes tendem a ter seu círculo de relações inter-organizacionais restrito ao próprio campo sindical, observando-se poucas referências a relações entre sindicatos e outros tipos de organizações sociais.10 Tabela 3. Relações das entidades pesquisadas com outras organizações sociais, segundo o tipo de entidade - Pesquisa Entidades OP/1999. Associações Comunitárias Grupos religiosos/igrejas Sindicatos ONGs 75 (81,5%) 22 (23,9%) 1 (1,1%) 11 (12%) 1 (100%) 1 (100%) 0 1 (100%) 1 (100%) 0 0 0 2 (66,7%) 1 (33,3%) 0 0 1 (100%) 0 1 (100%) 1 (100%) Associações Sindicais (4) 0 0 4 (100%) 0 Associações esportivas/recreativas (5) Associações de amparo/caridade (3) 2 (40%) 2 (40%) 0 0 1 (33,3%) 1 (33,3%) 0 0 Associações culturais (3) 1 (33,3%) 0 1 (33,3%) 0 Cooperativas (3) 1 (33,3%) 0 0 0 Associações Comunitárias (92) Grupos/entidades religiosos (1) Associações Profissionais (1) Entidades Educacionais (3) Entidades ligadas à saúde (1) Participação no Orçamento Participativo Na medida em que as entidades pesquisadas foram selecionadas entre o universo de entidades participantes no OP, não há surpresa no fato de todos os entrevistados responderem que participaram/participam deste processo. No entanto, observa-se uma significativa variação em termos de tempo de participação entre as entidades, conforme os dados do gráfico abaixo: 10 No entanto, os dados sobre os sindicatos, assim como sobre os outros tipos de organizações sociais, à exceção das entidades comunitárias, não possibilitam nenhuma interpretação mais conclusiva em função do número muito limitado de casos. Apenas permitem inferências a serem aprofundadas em futuras investigações. 82 Gráfico 9. Distribuição das entidades segundo o tempo participação no Orçamento Participativo - Pesquisa Entidades OP/1999. 58 50,0% Todos os anos 6 5,17% Nove a dez anos 11 9,48% Sete a oito anos 10 8,62% Cinco a seis anos 16 13,79% Três a quatro anos 15 12,93% Um a dois anos 0 10 20 30 40 50 60 De acordo com os dados do gráfico, entre as 116 entidades pesquisadas, exatamente a metade delas (58 entidades) respondeu ter participado de todas as onze edições do OP realizadas até o ano da pesquisa (1999). Somando todas as entidades que tiveram cinco ou mais anos de participação, ou seja, que participaram em pelo menos metade das edições do OP, chega-se a praticamente três quartos das entidades (73,3%). Ou seja, observa-se um alto grau de continuidade da participação entre as entidades pesquisadas, demonstrando que o OP apresentava, no período pesquisado, um forte potencial de mobilização e de manutenção da adesão das entidades participantes. Este potencial se expressa, também, pelo fato de que, ao longo dos anos, a participação das entidades no OP sempre mostrou uma tendência de crescimento, conforme os dados do seguinte gráfico: 83 Gráfico 10. Evolução do número de entidades participantes no OP, no período de 1989 a 1999 – Pesquisa Entidades OP/1999. 120 100 80 60 40 20 0 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 2000 De acordo com o gráfico, observa-se que o número de entidades participantes praticamente dobrou ao longo das onze edições do OP abordadas nesta pesquisa: enquanto 61 das entidades pesquisadas informaram terem participado no OP/199011, no OP/2000 esta participação envolveu 110 das entidades pesquisadas. Tal crescimento da participação deveu-se a duas dinâmicas que se combinam: de um lado, a crescente incorporação ao OP das entidades já constituídas na cidade; de outro lado, a entrada no processo das novas entidades que foram sendo criadas ao longo da década de 90. Nestes dois casos, destaca-se, mais uma vez, a forte atração exercida pelo OP de Porto Alegre sobre as organizações sociais da cidade (e, em especial, sobre o associativismo comunitário), tornando-se, assim, um espaço privilegiado de atuação destas organizações. Esta constatação fundamenta a avaliação sobre uma crescente institucionalização da sociedade civil porto-alegrense ao longo das últimas décadas, sendo ainda necessário analisar de forma mais aprofundada os efeitos de tal processo sobre o tecido associativo da cidade. Quando perguntados sobre os motivos do seu ingresso no OP, os entrevistados daquelas entidades que não participaram nos primeiros anos apresentaram as seguintes respostas: 11 Como o orçamento público é elaborado durante um ano para ser aplicado no ano seguinte, as edições do OP utilizam como referência o ano de aplicação do orçamento. Assim, o OP/1990 refere-se ao processo de elaboração do orçamento ocorrido no ano de 1989. 84 Tabela 4. Fatores que levaram ao ingresso no Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. Fatores que levaram ao ingresso no OP Conhecimento do OP pela mídia Informação por outra organização social Informação por agentes da Prefeitura Municipal Posse de nova diretoria Credibilidade no OP Única alternativa para o atendimento de demandas Casos 6 15 13 11 13 17 Os dados da tabela mostram, por um lado, que o ingresso no OP está relacionado com o acesso a informações sobre o processo, a partir de distintas fontes disponíveis aos membros das entidades: os meios de comunicação e, especialmente, outras organizações sociais e os representantes do governo municipal. Esta constatação traz apoio à afirmação feita anteriormente sobre a importância da rede associativa para o fluxo de informações na cidade e, neste caso, à mobilização para o OP. Por outro lado, a tabela mostra que a composição das direções das entidades é um fator que afeta a participação ou não no OP. Neste sentido, onze entrevistados declararam que sua entidade passou a participar do OP em função da eleição de uma nova diretoria marcada por uma avaliação positiva do OP ou, pelo menos, pela ausência de oposição em relação a este processo. Tratando-se de uma experiência fortemente marcada pelas disputas político-partidárias, não surpreende que a participação e a não participação estejam diretamente relacionadas aos alinhamentos político-ideológicos das diretorias das entidades. Por fim, destacam-se dois aspectos em relação às motivações para a participação. Em primeiro lugar, treze entrevistados declararam que suas entidades passaram a participar a partir da construção de uma imagem de credibilidade do OP. Em segundo lugar, dezessete entrevistados responderam que o OP se constituiu no único canal disponível para o encaminhamento de demandas ao governo municipal. Esta última resposta possibilita uma dupla interpretação: a participação no OP se coloca como única alternativa na falta de outras possibilidades; a participação no OP se tornou o único canal eficaz de reivindicação junto à Prefeitura de Porto Alegre. Ou seja, os entrevistados podem estar indicando uma crítica ao fechamento dos espaços de encaminhamento de demandas ou, ao contrário, podem indicar que o OP se tornou atrativo por ser um canal eficaz de reivindicação. Em relação aos poucos casos de entidades que deixaram de participar do OP, são três as razões apontadas pelos entrevistados para tal ação: o não atendimento das 85 demandas da entidade (dois casos); o atendimento de tais demandas (um caso); a mudança de diretoria (três casos). Ou seja, tanto o atendimento como o não atendimento podem ser motivos para sair do OP. No entanto, o escasso número de casos em que se observa a saída do processo indica que as entidades que não conquistam suas demandas tendem a retornar ao processo no ano seguinte para tentar novamente e, por seu turno, as entidades que obtém suas demandas tendem a produzir novas demandas, mantendo sua presença no OP. No que se refere às saídas pela mudança de diretoria, retoma-se o mesmo argumento apresentado acima sobre a mudança de diretoria como motivo para entrada no OP: os alinhamentos político-partidários e/ou ideológicos das diretorias das organizações afeta a participação em um processo que objeto de profundas disputas políticas na cidade. Quando é feito o cruzamento entre o tempo de participação e os tipos de entidades participantes, observa-se, conforme a tabela abaixo, que as entidades comunitárias são as mais importantes em termos da manutenção de uma participação continuada no OP de Porto Alegre. Ou seja, a dinâmica de participação está, em grande medida, assentada na mobilização e atuação da rede associativa comunitária identificada anteriormente. 86 Tabela 5. Distribuição das entidades de acordo com o tempo de participação no Orçamento Participativo, segundo o tipo de entidade – Pesquisa Entidades OP/1999. Tempo de participação no OP Um a dois Três a Cinco a anos quatro anos seis anos Tipo de Associações entidade Comunitárias 8 % Tempo no OP 53,3% 10 62,5% 5 50,0% Sete a oito Nove a anos dez anos 9 81,8% 6 100,0% Grupos/entidades religiosos Todos os anos 54 93,1% 1 1,7% % Tempo no OP Associações Profissionais 1 % Tempo no OP 3 18,8% % Tempo no OP 2,6% 1 % Tempo no OP Associações Sindicais 1 6,7% ,9% 1 % Tempo no OP Associações esportivas/recreativas % Tempo no OP 3 6,7% 3 20,0% 4 30,0% 1 3,4% 1 6,3% Associações de amparo/caridade 5 9,1% 4,3% 1 2 % Tempo no OP 2 10,0% % Tempo no OP Associações culturais 3,4% 1 13,3% Cooperativas 2,6% 15 % Tempo no OP 1 12,5% % Tempo no OP 100,0% 16 100,0% 1,7% 10 100,0% 3 2,6% 3 10,0% 2 Total 1 ,9% ,9% 3 Entidades ligadas à saúde 92 79,3% 1 9,1% Entidades Educacionais Total 11 100,0% 6 100,0% 58 100,0% 3 2,6% 116 100,0% Estes dados mostram que as associações comunitárias respondem pela quase totalidade dos casos de maior tempo de participação: 100% das entidades com participação entre nove e dez anos; 93% das entidades que participaram em todas as onze edições do OP realizadas até 1999 (sendo que praticamente 60% das 92 associações comunitárias pesquisadas participaram de todas as edições do OP). No caso dos outros tipos de entidades, apesar de algumas apresentarem uma longa trajetória de inserção no OP, observa-se uma concentração nas três faixas de menor tempo de participação. Este dado indica que o OP, ao longo do tempo, tem incorporado outros tipos de organizações sociais, além daquelas que constituem a rede associativa comunitária, sem, no entanto, romper com o predomínio deste tipo de associativismo. A longevidade da participação das organizações sociais no OP e o número inexpressivo de entidades que deixam o processo estão, em grande medida, relacionados ao fato de que o OP se constituiu em um canal relativamente eficaz de processamento 87 das demandas dos seus participantes. Esta interpretação é sustentada pelo grande número de pesquisados (mais de 85%) que respondeu já haver obtido o atendimento de suas solicitações de bens e serviços públicos via OP, conforme o gráfico abaixo: Gráfico 11. Distribuição das entidades segundo a obtenção de ganhos (bens e/ou serviços públicos) com a participação no Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. 15 12,93% 2 1,72% A população representada pela entidade já obteve ganhos com a participação no OP? Sim Não NR 99 85,34% Assim, de acordo com os números do gráfico, conclui-se que, mesmo com limitações evidentes (que foram identificadas pelos entrevistados e serão analisadas mais adiante), o poder de atração do OP está diretamente relacionado à sua capacidade de oferecer respostas às demandas da população que participa do processo. Como outras experiências de OP já demonstraram, a ausência ou perda desta capacidade, seja por limitações de recursos seja por mudanças na orientação política do governo municipal, tende a deslegitimar o OP e, assim, diminuir a participação social (SILVA, 2001). Um aspecto importante observado na pesquisa de campo refere-se à existência de padrões diferenciados de participação no OP entre os distintos tipos de entidades. Por um lado, entre as entidades comunitárias observa-se o predomínio de uma intervenção coletiva no processo do OP, a partir de um processo de mobilização que envolve não apenas os membros da diretoria da entidade, mas também segmentos de moradores das “comunidades” que, em grande medida, não participam da entidade. Por outro lado, entre entidades como sindicatos e entidades ligadas à educação, por exemplo, observouse a tendência a uma participação individualizada no OP, a partir do interesse e 88 disponibilidade de algum(ns) membro(s) da entidade. Neste caso, em geral, não há um processo de mobilização coletiva. Este aspecto é claramente apreendido na resposta de um entrevistado, representante de uma entidade sindical, para quem “Há uma forte visão de que os sindicatos só devem atuar na questão salarial/profissional. Os sindicatos não possuem assembléias de base para formar propostas. As demandas acabam sendo de alguns militantes que atuam no processo”. Esta diferença nos padrões de participação no OP gerou, inclusive, problemas metodológicos para a realização da pesquisa, uma vez que algumas entidades selecionadas não puderam ser incluídas na amostra, pois, quando procuradas, informaram que, de fato, não houve uma participação da entidade enquanto ator coletivo, mas sim de um ou mais membros (sendo que, em alguns casos, estes já não estavam mais na entidade). Em outros casos, foram entrevistados indivíduos que participavam do OP, mas enquanto iniciativa pessoal e não institucional. Estas diferenças de tipos de participação trazem um aspecto importante a ser aprofundado por futuras investigações, pois, em geral, as análises sobre a participação da sociedade civil do OP têm tomado esta participação como algo homogêneo, como se houvesse apenas diferenciações em termos quantitativos. Os dados desta pesquisa, ao contrário, identificam uma significativa heterogeneidade qualitativa na participação de distintos tipos de entidades no OP. Assim, identificar os diferentes padrões de participação e suas implicações é um tema significativo para novos estudos. Em relação à distribuição das entidades pesquisadas em termos do âmbito de sua participação no OP (regional ou temático), os dados encontram-se no gráfico abaixo: 89 Gráfico 12. Distribuição das entidades segundo o principal âmbito de atuação (regional ou temático) no Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. Participa regional ou temática Regional Temática NS/NR 3 7 2,59% 6,03% 106 91,38% De acordo com os dados do gráfico, observa-se uma grande concentração da participação das entidades nas 16 regiões do OP: mais de 90% dos entrevistados (106) declararam que este era o âmbito principal de intervenção da entidade no OP. Somente sete entidades entrevistadas identificaram as temáticas como o espaço privilegiado de participação. Cruzando esta informação com o tipo de entidade, tem-se a seguinte Tabela: Tabela 6. Distribuição das entidades segundo o principal âmbito de atuação (regional ou temático) no Orçamento Participativo, por tipo de entidade – Pesquisa Entidades OP/1999. Participa regional ou temática Regional Tipo de entidade Temática Total NS/NR 92 0 0 92 Grupos/entidades religiosos 0 1 0 1 Associações Profissionais 1 0 0 1 Entidades Educacionais 2 0 1 3 Entidades ligadas à saúde 1 0 0 1 Associações Sindicais 1 2 1 4 Associações Comunitárias 90 Associações esportivas/recreativas 5 0 0 5 Associações de amparo/caridade 1 2 0 3 Associações culturais 1 1 1 3 Cooperativas 2 1 0 3 106 7 3 116 Total As informações da tabela mostram que, conforme seria esperado, as entidades comunitárias têm no âmbito regional seu principal campo de atuação no OP. Este é o espaço priorizado pela totalidade das entidades deste tipo entrevistadas. Outros tipos de entidades (como as esportivas/recreativas e as educacionais) também tendem a privilegiar a atuação regional, contrariando uma expectativa de que as mesmas dirigissem sua participação para as temáticas. As poucas entidades que priorizam a intervenção nas temáticas (apenas sete) são, na quase totalidade, entidades maiores e com uma atuação em todo município (e, algumas vezes, até fora dele). Assim, pode-se concluir que espaço de intervenção das entidades (regional ou temático) não se encontra associado apenas ao tipo de entidade, mas também à conformação e à forma de atuação destas entidades. Esta informação sobre os espaços privilegiados de intervenção das entidades não significa, no entanto, que as mesmas restrinjam sua participação a estes espaços. Ao contrário, estudos têm identificado uma tendência das entidades buscarem diversificar suas intervenções, incidindo tanto nas suas regiões como nas temáticas, como forma de ampliar as possibilidades de encaminhamento e obtenção de demandas. Buscando aprofundar a análise da dinâmica de atuação das entidades pesquisadas no OP, é importante observar como as mesmas definem as suas posições em relação a determinados aspectos do processo. Na presente pesquisa, foram feitas perguntas sobre duas escolhas centrais no OP: a escolha das prioridades e a escolha dos representantes (delegados e conselheiros). No que se refere à escolha das prioridades apresentadas pela entidade no OP, observa-se, de acordo com o gráfico abaixo, que praticamente três quartos das entidades respondeu possuir algum mecanismo através do qual os membros da entidade podem discutir e definir coletivamente suas demandas e propostas para o OP. 91 Gráfico 13. Distribuição das entidades segundo o mecanismo de escolha das prioridades para o Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. 2 1,72% NR 8 6,9% outro 86 74,14% a asembléia/reunião de moradores a diretoria 16 13,79% o presidente 4 3,45% 0 20 40 60 80 100 Por outro lado, destaca-se o fato de quase 20% das entidades pesquisadas informarem que a tomada de decisão sobre as demandas é realizada pelo Presidente e, especialmente, pelas Diretorias das entidades. Tal fato indica uma significativa centralização e, no limite, personalismo nas relações internas de uma parcela significativa das entidades pesquisas. A mesma conclusão resulta das informações sobre o processo de escolha dos representantes das organizações sociais no OP: apesar do significativo predomínio das entidades que possuem mecanismos participativos de escolha, observa-se a presença de um número expressivo de entidades nas quais esta escolha é concentrada na Diretoria e/ou Presidência. 92 Gráfico 14. Distribuição das entidades segundo o mecanismo de escolha dos representantes no Orçamento Participativo (delegados e conselheiros) – Pesquisa Entidades OP/1999. 3 2,59% NR 7 6,03% outro 82 70,69% a assembléia 19 16,38% a diretoria 5 4,31% o presidente 0 20 40 60 80 100 Conforme analisado anteriormente, o OP se constituiu num canal relativamente eficaz de encaminhamento das demandas sociais relativas a bens e serviços públicos municipais. Além do fato de mais de 85% das entidades pesquisadas afirmaram já terem obtido ganhos no OP, esta eficácia também pode ser avaliada a partir das informações sobre o processo de implementação das prioridades definidas no processo, conforme a seguinte tabela: Tabela 7. Avaliação dos entrevistados sobre a realização das obras aprovadas no Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. Foi necessário intervir de alguma forma para garantir o bom andamento das obras aprovadas no OP? Freqüência % Sim 35 30,2 Não 59 50,9 NR 22 19,0 Total 116 100,0 Entre os entrevistados, 50,9% afirmaram não ter sido necessário nenhum tipo de intervenção para garantir o bom andamento das obras e serviços aprovados no OP. Por outro lado, quase um terço declarou que a efetivação da conquista no OP exigiu uma intervenção das entidades e/ou da população demandante, indicando que a 93 implementação das decisões do OP não se dão, necessariamente, de forma automática e tranqüila. Ao contrário, esta implementação pode tornar-se, em determinados casos, um longo e conflitivo processo. Em que medida tais demoras e dificuldades se devem à Administração Municipal ou a outros atores ou instituições, no entanto, é algo a ser analisado. Da mesma forma, parece existir variações importantes entre diferentes tipos de ações, em virtude de diferenças de complexidade e/ou conflitualidade (por exemplo, processos de regularização fundiária tende a se estender por muito mais tempo que as pavimentações de ruas). Quando questionados sobre quais os procedimentos adotados para garantir a implementação das decisões do OP, 25 dos 35 entrevistados que declararam ter sido necessário algum tipo de ação responderam que foi preciso realizar alguma forma de negociação ou pressão diretamente com os setores da prefeitura responsáveis pelas obras e/ou serviços. Quatorze entrevistados, por sua vez, informaram que tiveram de recorrer aos Centros Administrativos Regionais e/ou a algum outro órgão do governo municipal. No entanto, nenhum entrevistado respondeu ter recorrido aos vereadores municipais para resolver problemas no encaminhamento de suas demandas. Estas respostas indicam que, no período estudado, houve um claro predomínio do recurso a uma interlocução direta com o Executivo municipal em detrimento do recurso à intermediação dos membros do Legislativo municipal. Mesmo reconhecendo uma provável tendência de subestimação do recurso aos vereadores, esta informação pode sinalizar para uma importante mudança nos mecanismos de relacionamento entre Poder Público Municipal e sociedade civil de Porto Alegre, com uma perda de importância da mediação dos vereadores. Tal mudança pode ser um dos fatores explicativos para o tradicional conflito estabelecido entre vereadores oposicionistas e OP (DIAS, 2002). Efeitos do Orçamento Participativo sobre as organizações sociais Além dos ganhos de obras e serviços públicos, a experiência de participação no OP apresenta um conjunto de efeitos sobre as entidades participantes que, em geral, não tem sido analisado com profundidade nas pesquisas realizadas. Mesmo reconhecendo os limites da metodologia empregada para apreender estes efeitos, este foi um dos 94 objetivos desta pesquisa, tendo sido perguntado aos entrevistados sobre a ocorrência ou não de um conjunto de mudanças em função da participação das entidades no OP. Em primeiro lugar, os entrevistados foram questionados sobre os efeitos do OP na credibilidade da entidade junto ao segmento por ela representado. As respostas foram as seguintes: Gráfico 15. Efeito da participação no Orçamento Participativo sobre a credibilidade da entidade – Pesquisa Entidades OP/1999. A entidade se fortaleceu e ganhou mais credibilidade junto à comunidade? Sim Não NR 3 2,59% 33 28,45% 80 68,97% Segundo a grande maioria dos entrevistados (quase 70%), o OP teve um efeito de ampliação da credibilidade da entidade, fortalecendo sua presença junto às bases. Na medida em que a grande maioria das entidades atraídas pelo OP são entidades voltadas à construção e expressão de demandas por bens e serviços públicos, torna-se compreensível que um processo que tenha possibilitado a que estas entidades tivessem ao menos parte daquelas demandas atendidas contribua para o fortalecimento das mesmas. Em outras palavras, a relativa eficácia do OP, indicada anteriormente e identificada pelos entrevistados, tende a contribuir para a ampliação da credibilidade daquelas lideranças de organizações sociais que dirigem sua atuação para a intervenção neste processo. Um segundo efeito do OP sobre as organizações participantes refere-se a mudanças nas suas relações com outras organizações sociais, constantes na tabela abaixo: 95 Tabela 8. Efeitos da participação no Orçamento Participativo nas relações entre as organizações sociais – Pesquisa Entidades OP/1999. Sim Aprenderam negociar/reivindicar seus interesses com outros grupos Criou união entre associações vizinhas que não se conheciam/relacionavam antes do OP Passaram a atuar junto com outras associações/entidades, fora das atividades dos OP Freq % 108 93,1% 94 81% 76 65,5% As informações desta tabela indicam que o OP se constituiu num processo importante no sentido de colocar as organizações em contato e, mais do que isto, estabelecer uma dinâmica que propiciou a formação de vínculos e articulações entre as mesmas. Na medida em que o êxito no OP (no sentido estrito do atendimento de demandas) depende não apenas da capacidade de mobilização individual de cada entidade, mas também da capacidade de construir alianças com outros participantes, cria-se uma relação de interdependência que tende a “recompensar” aquelas entidades mais hábeis na constituição e manutenção de tais articulações. Esta dinâmica, ao longo do tempo, gerou não apenas vínculos importantes para a própria participação no OP, mas também para a atuação das entidades em outros contextos de ação. Além desta dimensão pragmática, a dinâmica de contatos freqüentes entre pessoas e entidades compartilhando problemas, demandas, propostas, ideologias e/ou posições político-partidárias comuns criou novas oportunidades de identificação e atuação conjunta para tais pessoas e entidades, estimulando a ação coletiva.12 Estas informações indicam que o OP teve um efeito de ampliar as relações entre as organizações sociais de Porto Alegre, contribuindo para um significativo adensamento da rede associativa do município. Neste sentido, por exemplo, muitas entidades comunitárias que tinham uma atuação localizada, restrita a um determinado bairro ou vila, passaram a atuar intensamente em âmbito regional e, mesmo, municipal. Um terceiro efeito do OP se refere à ampliação de conhecimentos dos participantes: 12 Isto não implica em negar a existência de diversas divisões e conflitos entre os participantes do OP. Ao contrário, estes conflitos estão presentes e, por vezes, estimulam a construção de articulações entre os atores envolvidos nas disputas que compartilham determinadas posições contra os eventuais adversários comuns. 96 Tabela 9. Efeitos da participação no Orçamento Participativo nos estoques de conhecimento das organizações sociais – Pesquisa Entidades OP/1999. Sim Passaram a compreender melhor como funciona o governo e qual a função dos órgãos públicos Conheceram pessoas/associações com idéias e práticas diferentes Freq % 105 90,5% 99 85,3% As informações da tabela indicam que o OP se constituiu, por um lado, num espaço importante de obtenção de informações sobre a organização e o funcionamento do governo municipal, possibilitando a socialização de um conhecimento fundamental tanto para a participação quanto para o exercício do controle social. Mesmo que esta ampliação das informações dos participantes não elimine a assimetria na distribuição do conhecimento técnico, ela possibilitou que muitos participantes estabelecessem relações mais igualitárias nas discussões e, especialmente, disputas com técnicos e quadros políticos do governo municipal. Por outro lado, ao ampliar os espaços de circulação e atuação dos participantes, o OP também contribuiu para que estes entrassem em contato com novos ambientes, instituições e pessoas, oportunizando o acesso a distintas realidades e visões de mundo. Em um contexto social no qual a reprodução da desigualdade tem como um de seus mecanismos a segregação sócio-espacial e relacional (CALDEIRA, 2000; MARQUES et all., 2007), tal oportunidade gerada pelo OP adquire particular relevância política. Outro tipo de mudança abordada pela pesquisa refere-se ao funcionamento das entidades participantes do OP: 71 entrevistados (61,2% da amostra) declararam que a participação no OP provocou alterações na dinâmica das entidades. As informações sobre as alterações identificadas encontram-se na tabela abaixo: Tabela 10. Efeitos da participação no Orçamento Participativo no funcionamento das organizações sociais – Pesquisa Entidades OP/1999. Aumentou Alterou a periodicidade das reuniões da entidade Alterou o número de participantes nas reuniões da entidade Aumentou apenas durante o OP Diminuiu Freq % Freq % Freq % 43 37,1% 6 5,2% 4 3,4% 46 39,7% 7 6% 3 2,6% Estes dados mostram que o OP teve, para um número significativo de entidades, um efeito de dinamização, ampliando tanto a freqüência de reuniões quanto o número de participantes nestas reuniões. Mesmo que tal dinamização esteja vinculada 97 basicamente ao processo do OP (o quê seria algo a ser analisado), ela tende a criar novas oportunidades de recrutamento de membros para as entidades, contribuindo para o surgimento e a renovação das lideranças sociais. Como seria esperado, o OP também provocou mudanças na forma como as entidades buscam do atendimento de suas demandas, na medida em que criou um espaço institucional para tal fim. Quando perguntados sobre os mecanismos utilizados antes do OP, os entrevistados apresentaram as seguintes respostas: Tabela 11. Mecanismos utilizados para o encaminhamento das demandas das organizações sociais, anteriormente ao Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999.13 Freqüência % Mobilização/Pressão 20 26,7 Negociação com políticos 17 22,7 Negociação e mobilização 13 17,3 Não Conseguia 10 13,3 Outra 13 17,3 NR 2 2,7 Total 75 100,0 Segundo os dados da tabela, o principal mecanismo que as entidades utilizavam para o encaminhamento de suas demandas antes do OP era a mobilização e a pressão coletiva junto às autoridades do Executivo Municipal. A significativa presença deste tipo de atuação, indicada por mais de um quarto das entidades pesquisadas, sustenta os resultados de outros estudos, que identificam a constituição de um expressivo associativismo popular reivindicativo em Porto Alegre, na década de 80 (SILVA, 2001). No entanto, juntamente com este tipo de prática mais conflitiva, destaca-se também o recurso a diversas formas de negociação e barganha com atores políticos do Legislativo e/ou do Executivo municipais. Seja em combinação com as mobilizações (17,3% dos casos) seja, especialmente, como alternativa àquelas (22,7% dos casos), observa-se que as formas de intermediação particularistas de demandas sociais, muitas delas a partir de uma relação clientelista, constituíram um canal fundamental para que as reivindicações de parcela significativa da sociedade civil local fossem reconhecidas e obtivessem uma resposta do Poder Público Municipal. Além destes mecanismos orientados para reivindicações junto ao Governo Municipal, identificou-se que uma parcela significativa das entidades pesquisadas 13 Dados referentes às 75 entidades cuja fundação é anterior ao surgimento do OP, em 1989. 98 (17,3%) se valia de outros meios para obter a realização de seus interesses: formas de auto-ajuda, recurso à caridade privada, vínculos com instituições religiosas etc. Estes mecanismos, que configuram a denominada “Sociedade Providência”, possuíam importância considerável para aqueles segmentos incapazes de acessar os bens e serviços públicos (seja pela ação coletiva seja pelos canais particularistas). Por fim, deve-se destacar, ainda, um contingente significativo (13,3%) de entidades que declarou não ter obtido bens e serviços públicos anteriormente à implantação do OP. Mesmo que haja algum viés nesta resposta, ela se coloca como mais um indicador da legitimidade adquirida pelo OP enquanto canal de relativa eficácia na distribuição de bens e serviços públicos aos seus participantes. Outra informação que reforça este argumento encontra-se no Gráfico abaixo: Gráfico 16. Distribuição das entidades segundo acesso a bens e serviços públicos fora do Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. Em anos recentes, sua entidade conseguiu alguma conquista fora do OP? Sim Não NS/NR 6 5,17% 53 45,69% 57 49,14% De acordo com as informações dos entrevistados, nos últimos anos, praticamente 50% das entidades pesquisadas tiveram no OP o único espaço eficaz para o encaminhamento de demandas. Além disto, quando analisados os ganhos das 53 entidades que declararam ter obtido conquistas fora do OP, observa-se que a quase totalidade destas conquistas se divide entre o acesso a determinados serviços públicos municipais que não implicam investimentos e o acesso a bens/serviços públicos fornecidos por outros níveis de governo (especialmente o governo estadual). Ou seja, não há referência à obtenção de bens públicos do mesmo tipo daqueles que são objeto 99 de deliberação no OP (ou seja, resultados de investimentos municipais). Esta informação indica a existência, no período estudado, de uma consolidação do OP como espaço de distribuição de determinados investimentos públicos, com o fechamento de “canais alternativos” de acesso a tais recursos. O último aspecto a ser analisado em termos das mudanças provocadas pelo OP nas entidades participantes refere-se às formas de relação com os atores políticos (tanto do Legislativo quanto do Executivo municipal). Conforme analisado anteriormente, o contato direto e particularista com os atores políticos foi um mecanismo usual e importante para o encaminhamento das demandas da sociedade civil porto-alegrense. Quando perguntados sobre a existência de mudanças nesta relação em função do OP, os entrevistados apresentaram as seguintes respostas: Gráfico 17. Efeitos da participação no Orçamento Participativo na relação das organizações sociais com os atores políticos – Pesquisa Entidades OP/1999. A existência do OP mudou a relação da entidade com os políticos? Sim Não NS/NR 10 8,62% 26 22,41% 80 68,97% Praticamente 70% dos entrevistados identificam que o OP provocou uma mudança na relação entre atores sociais e atores políticos, alterando de forma significativa os padrões tradicionais de intermediação e representação de interesses na cidade. Tal mudança foi apreendida em outras pesquisas (BAIOCCHI, 2005) como a construção de um novo regime Estado-Sociedade, deslocando o regime anterior fortemente marcado pelas relações de clientelismo. Apesar do número expressivo de entrevistados que identificam tais mudanças, deve-se destacar a existência de um contingente importante de entrevistados (22,4%) 100 que não percebem mudanças significativas, apontando para uma relativa continuidade nos padrões de relações políticas. As principais mudanças identificadas pelos entrevistados foram: Gráfico 18. Mudanças nas relações entre organizações sociais e atores políticos em função do Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. 14 12,07% NS/NR 26 22,41% NSA 3 2,59% Outras 3 2,59% Menor autonomia 21 18,1% Maior proximidade 49 42,24% Maior autonomia 0 10 20 30 40 50 A principal mudança destacada nas entrevistas (42,24%) refere-se ao enfraquecimento dos atores políticos que atuavam como intermediários das demandas sociais (especialmente os vereadores), com o conseqüente aumento da autonomia e do protagonismo das organizações sociais. Ou seja, para um número significativo de entrevistados, o OP instituiu uma dinâmica de relação entre sociedade e Estado que desvalorizou significativamente o papel de intermediação historicamente desempenhado por atores políticos, possibilitando às organizações sociais atuarem diretamente no processo de deliberação sobre a distribuição dos recursos públicos da cidade. Esta relação direta e permanente entre organizações sociais e agentes do Executivo municipal, instituída pelo OP, trouxe uma segunda mudança importante que é a aproximação entre Poder Público e população. Esta mudança foi identificada por 18,1% dos entrevistados, que destacaram a existência de um acesso mais fácil aos agentes e setores governamentais. Por fim, um número praticamente inexpressivo de entidades informou que o OP teve um efeito negativo em relação à sociedade civil da cidade, uma vez que levou a 101 uma perda de autonomia das organizações sociais e a submissão destas aos interesses e dinâmicas do Poder Públicos municipal. Avaliação do Orçamento Participativo Para apreender a avaliação dos entrevistados sobre o Orçamento Participativo foi solicitado, primeiramente, que o entrevistados manifestassem sua concordância ou discordância com alguns problemas destacados por outros estudos ou pelo próprio debate público sobre o OP. Os resultados foram os seguintes: Tabela 12. Distribuição dos entrevistados de acordo com a concordância com avaliações sobre os problemas do Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. Sim Não NS/NR Freq % Freq % Freq % Demora na execução das obras 22 19% 93 80,2% 1 0,9% Pouco recurso financeiro 44 37,9% 71 61,2% 1 0,9% Não aprovar obras caras 7 6% 108 93,5 1 0,9% Dificuldade de entendimento do processo/falta de informação 21 18,1% 94 81% 1 0,9% Segundo as informações da tabela, o principal problema identificado pelos entrevistados (obtendo quase 40% de respostas afirmativas), entre as opções oferecidas, foi a limitação dos recursos financeiros do Poder Público Municipal para o atendimento das demandas sociais expressas no OP. Ou seja, apesar de reconhecerem a eficácia relativa deste processo, os entrevistados também identificam limitações estruturais do governo municipal para responder de forma efetiva ao grande número de reivindicações da sociedade civil porto-alegrense. Observa-se, assim, que o processo do OP encontrase em uma posição de relativa fragilidade, uma vez que sua legitimidade repousa, pelo menos em parte, na sua eficácia e esta, por sua vez, depende da disponibilidade de recursos – limitados – do governo municipal. Em relação às outras alternativas, identifica-se que, apesar de atingirem índices significativos de respostas afirmativas, são problemas destacados por um número bem menor de entrevistados. Assim, 19% destes salientaram que existem problemas na execução das obras aprovadas no OP, levando a atrasos em relação aos cronogramas definidos no momento de planejamento das obras (confirmando a informação anteriormente analisada sobre a necessidade de intervenção dos atores para garantir a 102 execução de uma parte das obras aprovadas no OP). 18,1% dos entrevistados, por sua vez, salientam que as dificuldades de entendimento do funcionamento do OP e a falta de informações são problemas significativos, prejudicando a participação e o controle social sobre a implementação das decisões. Por fim, apenas 6% identificaram a existência de limitações no valor das obras como um problema do OP. Isto tanto pode ser um sinal de que não há um limitador na definição das obras, quanto do fato de que a grande maioria das demandas sociais são ações de custo relativamente baixo. Apesar das avaliações acima permitirem identificar aspectos importantes, a oferta de opções para as respostas dos entrevistados tende a reduzir a riqueza de tais respostas. Neste sentido, quando formulada de maneira aberta, a pergunta sobre os problemas e dificuldades do OP possibilita a emergência de um quadro muito mais diversificado e complexo, conforme se expressa no conjunto de respostas dos entrevistados listado abaixo: 1) Interesses políticos não permitem que sejam aprovadas certas demandas. 2) Muito controle do PT. 3) Loteamentos irregulares não conseguem o atendimento de suas demandas 4) Como processo o OP é trabalhoso. Ocorrem problemas conjunturais no andamento das obras que não dependem só da prefeitura. 5) Discussão muito marcada pelas demanda imediatas 6) Muita disputa interna - algumas associações têm muito mais força e acabam ganhando. 7) Os critérios técnicos, que inviabilizam o acesso das vilas irregulares às obras. 8) Grande trabalho das lideranças, mas sem reconhecimento da comunidade. 9) Poucas verbas para educação e saúde. 10) Muita reunião e pouco sentido concreto. 11) Intervenção de Política partidária no processo, criando muita disputa. 12) O empreguismo, a partir do mandato de Raul Pont (1997-2001). 13) Ação de pessoas de outros partidos, que atuam só para denegrir o processo. 14) Um pouco burocratizado, muita reunião 15) Não regulamentação que permite as manipulações políticas. Controle dos investimentos pelos "espertos" do OP. 16) Informalidade do processo, que não segue regras. O controle da prefeitura e não das entidades comunitárias. Uso político eleitoral do processo, enfraquecendo e cooptando as entidades comunitárias. 17) Dificuldade de negociar. Intimidação que alguns usam para negociar. 18) Dificuldade de manter a participação da comunidade, pois querem sonhos imediatos. 19) Não aprovar obras que impliquem custeio, como escolas. 20) Falta transparência e disputa entre as regiões. Muita presença do PT no processo, impedindo manifestação de pessoas de outros partidos. 21) Falta de argumentação 22) Necessidade de discutir as políticas de serviço/custeio e de pessoal da PMPA. 23) Que o principal critério para ter demanda atendida seja o número de pessoas que vão nas reuniões. 103 24) Leis e critérios técnicos ultrapassados. 25) Necessidade de maior presença dos órgãos da prefeitura e vereadores para verem a luta do povo - estão muito distantes. 26) Tirar o poder do presidente de associação. 27) Conseguir aprovar as obras. Comunidades que dão inchaço. 28) Perigo da legalização, querem tirar o poder das comunidades. 29) População cobra das entidades e não do governo. Disputa entre as entidades por poucos recursos. 30) Às vezes as secretarias não comparecem às reuniões. 31) Dificuldade de divulgação e de mobilização. Critérios técnicos. 32) Dificuldade de contato mais direto com os representantes do Executivo, como havia no início da administração popular. 33) Não realização de tudo o que é definido. 34) A forma como se dá o processamento no Conselho, que altera as prioridades definidas pela população. Interesses muito particulares dos que participam, que só querem saber de suas demandas. 35) Os conselheiros deveriam ficar mais tempo, pois quando estão aprendendo precisam sair. Falta preparação/qualificação. 36) Muitos não vêem necessidade de participar (ainda querem conseguir as coisas indo “pedir” individualmente aos órgãos públicos). 37) Infiltração de políticos. Não precisa ter tanta gente convocada - esvazia a participação. Presidente da associação deveria ter maior autonomia. 38) Problema do voto que às vezes não é democrático. 39) Ainda é muito burocrático. Interesses muitos pessoais. 40) Faltam informações mais detalhadas sobre a peça orçamentária. A Prefeitura deve dispor de informações mais atualizadas. 41) Engessamento da comunidade: o governo coloca as prioridades; o processo é manipulado. 42)Processo lento; demandas são encaminhadas, mas não é possível saber com rapidez o que realmente será feito. 43) Falta mais atenção das Secretarias; que os responsáveis viessem para a comunidade. 44) Excesso de democracia. 45) Há uma forte visão de que os sindicatos só devem atuar na questão salarial/profissional. Os sindicatos não possuem assembléias de base para formar propostas. As demandas acabam sendo de alguns militantes que atuam no processo. Excesso de controle governamental. 46) Inchaço nas reuniões. 47) Muito fechado, esvaziando o processo. 48) Existência de pessoas (grupos) que tentam controlar e manipular o processo só para defender seus interesses. 49) Determinadas questões (como educação) não deveriam ser via Orçamento Participativo. 50) Certas questões que deveriam ser prioridade (atendimento à criança), mas têm que disputar com outros temas. Excesso de reuniões/atividades. 51) Critérios técnicos dentro do Orçamento Participativo. 52) Limite do município para enfrentar o crescimento da demanda. 53) Muita interferência governamental (controle). 54) Determinadas demandas deveriam ter mais prioridade (saneamento básico). 55) Discussão limitada a apenas uma parte do orçamento - o poder de decisão é relativo. 56) Excesso de reuniões. 104 Estas respostas oferecem uma caracterização bastante rica dos problemas identificados pelos participantes. Estes vão desde as limitações na autonomia do processo de discussão e deliberação, até as críticas às dificuldades de mobilização das bases das organizações para a participação, passando por problemas de funcionamento e de limitações de recursos. Apesar destas críticas, o OP é avaliado positivamente pela quase totalidade dos entrevistados. Os motivos destacados por eles para esta avaliação se encontram sintetizados no gráfico abaixo: Gráfico 19. Resultados positivos da introdução do Orçamento Participativo – Pesquisa Entidades OP/1999. 5 4,31% NS/NR 3 2,59% Nenhum 5 4,31% Outro Desenvolvimento da cidadania 11 9,48% Melhoria na relação entre governo e população 11 9,48% 16 13,79% Maior união/mobilização social 42 36,21% Maior participação/transparência nas decisões 23 19,83% Conquista de obras 0 10 20 30 40 50 De acordo com 36,21% entrevistados, o principal ponto positivo do OP é a abertura de um espaço público, institucional, que possibilita a participação social no processo de tomada de decisões sobre os investimentos do governo municipal. Esta abertura, além de possibilitar a incorporação das demandas sociais, também possibilitou um maior controle social tanto sobre as decisões quanto sobre a execução orçamentária. Em segundo lugar, 19,83% entrevistados destacaram a eficácia do OP no sentido de propiciar o acesso dos participantes à obtenção dos bens e/ou serviços públicos demandados. Mesmo que não seja um processo fácil e isento de problemas (como indicam claramente as críticas identificadas anteriormente), ele viabilizou para setores 105 significativos da população de Porto Alegre, especialmente os moradores das vilas e bairros populares, o acesso a investimentos públicos até então inexistentes. Para 13,79% dos entrevistados, o OP adquire positividade na medida em que estimula o processo de organização, mobilização e articulação das populações e organizações sociais participantes. Ou seja, o OP teria um efeito de dinamização da sociedade civil da cidade, instituindo uma dinâmica que contribuiria para o fortalecimento do tecido associativo local. O quarto aspecto positivo, destacado por 9,48% dos entrevistados refere-se à melhoria das relações entre a população/organizações sociais e o Poder Público Municipal. Para estes entrevistados, o OP aproximou o Executivo municipal da população, facilitando tanto o acesso da população aos membros do governo quanto a obtenção de informações sobre a estrutura e dinâmica de funcionamento do governo. Por fim, 9,48% dos entrevistados responderam que o OP funciona como um instrumento de desenvolvimento da cidadania, na medida em que, por um lado, gera uma consciência de direitos em substituição à lógica do favorecimento clientelista e, por outro, cria espaços nos quais os cidadãos têm a possibilidade de exercer tais direitos de uma forma efetiva. Considerações Finais Buscando sintetizar alguns resultados da pesquisa realizada, observa-se, primeiramente, que o contexto político dos anos 90, em Porto Alegre, ofereceu condições favoráveis ao crescimento e adensamento do tecido associativo da cidade. Sendo o OP um dos elementos centrais na configuração deste contexto político, pode-se inferir que tais crescimento e adensamento foram, pelo menos em parte, estimulados pela introdução e desenvolvimento da experiência do OP durante o período abordado na pesquisa. Identifica-se, no entanto, que esta sociedade civil foi marcada, em anos recentes, por um significativo processo de institucionalização das suas formas de organização e ação. Assim, de um lado, encontramos um associativismo legalmente constituído e enquadrado nas normas estabelecidas pelo registro civil. De outro lado, observa-se a crescente centralidade dos espaços institucionais (no caso, principalmente o OP) como campos privilegiado da atuação das organizações sociais. 106 Tal institucionalização pode ser interpretada como um resultado “natural” do processo de democratização brasileiro, na medida em que os atores da sociedade civil reivindicaram intensamente o direito de participar diretamente dos processos de discussão, formulação, decisão, implantação e/ou controle das políticas governamentais. Neste sentido, a conquista de espaços institucionais de participação tendeu a produzir uma canalização da intervenção dos atores para tais espaços. Um aspecto importante de ser analisado, no entanto, são as implicações desta institucionalização para a conformação da sociedade civil e a configuração de suas relações com os atores e instituições do campo político-institucional. Temas como a autonomia das organizações sociais e as relações de poder com o Estado, por exemplo, devem ser objeto de estudos aprofundados. Os dados sobre o caso de Porto Alegre mostram que esta institucionalização possibilitou às organizações sociais alterarem de forma significativa sua relação com os atores políticos do Executivo e, especialmente, do Legislativo municipal. A possibilidade de acesso direto ao governo municipal rompeu, em grande parte, os mecanismos de intermediação de interesses sociais a partir dos quais se constituíam as relações entre mediadores políticos e organizações sociais. O OP, oportunizando um canal eficaz de encaminhamento as demandas da sociedade civil, foi um dos instrumentos fundamentais para estas mudanças. Sob este ponto de vista, pode-se identificar que esta institucionalização contribuiu para uma relativa ampliação da autonomia das organizações sociais. Se, por outro lado, novas formas de dependência foram construídas neste mesmo processo, é algo que novos estudos sobre o associativismo de Porto Alegre deverão investigar. Bibliografia citada ABERS, Rebecca. Do clientelismo à cooperação: governos locais, políticas participativas e organização da sociedade civil em Porto Alegre. Cadernos da CIDADE, n°7, volume 5, maio/2000. BAIOCCHI, Gianpaolo. Militants and citizens: the politics of participatory democracy in Porto Alegre. Stanford: Stanford University Press, 2005. CALDEIRA, Teresa Pires do Rio. Cidade de muros: crime, segregação e cidadania em São Paulo. São Paulo: Ed. da USP, 2000. DIAS, Márcia Ribeiro. Sob o signo da vontade popular. Belo Horizonte: Editora UFMG; Rio de Janeiro: IUPERJ, 2002. FEDOZZI, Luciano. O poder da aldeia: gênese e história do Orçamento Participativo de Porto Alegre. Porto Alegre: Tomo Editorial, 2000. 107 MARQUES, Eduardo et all.. Redes pessoais e pobreza: considerações preliminares para as políticas públicas. Caxambu: XXXI Encontro Anual da ANPOCS, 2007. SILVA, Marcelo Kunrath. Construção da “participação popular”: análise comparativa de processos de participação social na discussão pública do orçamento em municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre/RS. Porto Alegre: UFRGS, 2001. (Tese de Doutorado em Sociologia). 108