SIDA y desarollo: interfaces y políticas públicas AIDS e desenvolvimento/AIDS and development/SIDA y desarollo AIDS and development: interconnections and public policies AIDS e desenvolvimento: interfaces e políticas públicas ENGLISH VERSION VERSIÓN EN ESPAÑOL Carlos André Passarelli Richard Parker Cristina Pimenta Veriano Terto Jr. ORGANIZADORES/EDITORS apoio/support/apoyo ABIA Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS ABIA AIDS e desenvolvimento: interfaces e políticas públicas AIDS and development: interconnections and public policies SIDA y desarollo: interfaces y políticas públicas ABIA Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS Rio de Janeiro 2003 2003@copyright by Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS ABIA Diretor-presidente/President/Presidente: Richard Parker Diretora vice-presidente/Vice-president/Vice-presidente: Maria Regina Barbosa Secretária-geral/Secretary/Secretaría-general: Miriam Ventura Tesoureiro/Treasure/Tesorería: José Loureiro Coordenadora-geral/General Coordinator/Coordinadora-general: Cristina Pimenta Coordenador do projeto Aprimorando o debate: respostas sociais frente à AIDS/Project coordinator Improving the Debate: the Brazilian response to HIV/ AIDS/Coordinador del proyecto Perfeccionando el debate: respuestas sociales al SIDA: Carlos André Passarelli Conselho Consultivo do Projeto/Project Advisory Board/Consejo Consultivo del Proyecto: Alexandre Böer, Arthur Kalichman, Cássia Buchala, Cristina Pimenta, Daniela Knauth, Draurio Barreira, Elizabeth Moreira, Fernando Seffner, Francisco Inácio Bastos, Francisco Pedrosa, Jorge Beloqui, José Araújo, José Ricardo Ayres, Kenneth R. de Camargo Jr., Lígia Keer Pontes, Maria Regina Barbosa, Richard Parker, Rogério Gondim, Sonia Corrêa, Telma Martins, Vera Paiva Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS Rua da Candelária, 79/10º andar Centro CEP 20091-020 Rio de Janeiro/RJ Brasil Tel.: (21) 2223-1040 Fax: (21) 2253-8495 E-mail: [email protected] www.abiaids.org.br Apoio/Support/Apoyo: Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), Evangelischer Entwicklungsdient e V. (EED), Fundação Ford, Escritório das Nações Unidas contra a Droga e o Crime (UNODC) e Coordenação Nacional de DST e AIDS Coordenação editorial/Coordinating editor/Coordinación de edición: Jacinto Corrêa Projeto gráfico/Graphic design/Proyecto gráfico: Conexão Gravatá Ltda. Fotos/Photos: Mariano Coelho Tiragem/Number of copies/Impresión: 2.000 A288 AIDS e desenvolvimento : interfaces e políticas públicas / [organizado por] Carlos André Passarelli... [ et al. ] - Rio de Janeiro : ABIA, 2003. 304 pág.; 15,5 X 23cm Inclui bibliografia. ISBN 85-88684-11-X 1. AIDS (Doença) I. Passarelli, Carlos André. II. Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS. CDD 616.978 sumário summary sumario Programa do seminário/Program/ Programa del seminario .......................... 5 Apresentação/Presentation/Introducción........................................................... 9 1 - AIDS e desenvolvimento: compartilhando agendas/AIDS and development: sharing agendas/SIDA y desarollo: compartiendo agendas 16 O UNAIDS e as políticas de desenvolvimento sustentável/UNAIDS and polices of sustainable development/ONUSIDA y las políticas sostenible de desarollo Rosemary Barber-Madden........................................................................................... 18 AIDS: uma questão de desenvolvimento? /AIDS: a question of development?/SIDA: una question de desarollo? Solange Rocha ............................................................................................................... 34 A AIDS nos terrenos de disputa do desenvolvimento/ AIDS: in the sphere of dispute over development/El SIDA en los terrenos de disputa del desarollo Sonia Corrêa .................................................................................................................. 58 2 - AIDS e pobreza/ AIDS and poverty/SIDA y pobreza 86 A epidemia acompanhando a evolução da pobreza em um bairro de Porto Alegre/The AIDS epidemic and poverty in a low-income neighborhood in Porto Alegre, Brazil/La epidemia siguiendo la evolución de la pobreza en un barrio de Porto Alegre, Brasil Maria Regina Varnieri Brito ........................................................................................ 88 A experiência do Centro de Promoção da Saúde nas comunidades populares do Rio de Janeiro/Experience with the Center for Health Promotion in low-income communities in Rio de Janeiro/ La experiencia del Centro de Promoción de Salud en las comunidades populares de Rio de Janeiro Kátia Edmundo ............................................................................................................. 116 ? O Projeto Kuhluvuka Corredor da Esperança, em Moçambique/The Kuhluvuka Project: a Corridor for Hope in Mozambique/El Proyecto Kuhluvuka Corredor de la Esperanza en Mozambique Paula Monjane e E. Cipriano .......................................................................................... 148 3 - Propriedade intelectual/Intellectual property/ Propiedad intelectual 182 Panorama internacional contemporâneo do acesso a anti-retrovirais/The current international scenario of access to antiretrovirals/Panorama internacional contemporáneo del acceso a anti-retrovirales Michel Lotrowska ............................................................................................................. 184 O impacto das patentes na produção industrial e tecnológica dos países em desenvolvimento/The impact of patents on the industrial and technological production of developing countries/ El impacto de las patentes en la produción industrial y tecnológica de los países en desarollo Cícero Gontijo ................................................................................................................... 232 4 - Financiamento das ações de controle de DST/AIDS/Financing STD/AIDS control activities/Financiamiento de las acciones de control de EST/SIDA 256 Políticas de financiamento das ações de controle da AIDS e desenvolvimento social/Policies for funding AIDS control and social development/Políticas de financiamiento de las acciones de control del SIDA y del desarollo social Alexandre Grangeiro ...................................................................................................... 258 Rede Brasil: pensando o programa de AIDS e os acordos de empréstimo com o Banco Mundial/The Brazil Network: a review of the Brazilian National STD/AIDS Programme and loan agreements with the World Bank/ Red Brasil: pensando en el programa de SIDA y en los acuerdos de empréstito con el Banco Mundial Aurélio Vianna Júnior ...................................................................................................... 284 Aprimorando o Debate: Respostas Frente à AIDS no Brasil 5º SEMINÁRIO: HIV/AIDS E DESENVOLVIMENTO PROGRAMA 13 DE NOVEMBRO DE 2002 Abertura Veriano Terto Júnior e Cristina Pimenta (Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS ABIA) Mesa 1: AIDS e desenvolvimento: compartilhando agendas Coordenadora: Elizabeth Moreira dos Santos (Fundação Oswaldo Cruz FIOCRUZ) Expositores: Osvaldo Fernandez (Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS/BA) Rosemary Barber-Madden (Fundo da População das Nações Unidas e GT/Programa de AIDS das Nações Unidas UNAIDS) Solange Rocha (SOS Corpo) Debatedora: Sonia Corrêa (ABIA/Rede Dawn) Mesa 2: AIDS e pobreza Coordenador: Fernando Seffner (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) Expositores: Henriette Ahrens (Coordenação Nacional de DST e AIDS, do Ministério da Saúde - CN-DST/AIDS) Kátia Edmundo (Centro de Promoção da Saúde) Maria Regina Varnieri Brito (Prefeitura de Porto Alegre/RS) Paula Monjane (Fundação de Desenvolvimento da Comunidade/Moçambique) Debatedor: Sarah Escorel (Escola Nacional de Saúde Pública ENSP/FIOCRUZ) 14 DE NOVEMBRO DE 2002 Mesa 3: Propriedade intelectual Coordenador: Carlos André Passarelli (ABIA) Expositores: Adriano Campolina (Action Aid) Cícero Gontijo (Fundação Getúlio Vargas) Eloan Pinheiro (Far-Manguinhos/FIOCRUZ) Debatedor: Michel Lotrowska (Médicos Sem Fronteiras) Mesa 4: Financiamento das ações de controle de DST/AIDS Coordenadora: Telva Barros (UNAIDS, Brasil) Expositores: Alexandre Grangeiro (CN-DST/AIDS) Ruben Mattos (Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro) Zezé Weiss (Banco Mundial) Debatedor: Aurélio Vianna Júnior (Rede Brasil) Improving the Debate: the Brazilian Response to HIV/AIDS 5TH SEMINAR: HIV/AIDS AND DEVELOPMENT PROGRAM N OVEMBER, 13T H, 2002 Opening: Veriano Terto Júnior and Cristina Pimenta (Brazilian Interdisciplinary AIDS Association - ABIA) Round Table: AIDS and Development: sharing agendas Moderator: Elizabeth Moreira dos Santos (National School of Public Health - ENSP/ FIOCRUZ) Speakers: Osvaldo Fernandez (AIDS Prevention Support Group of Bahia - GAPA/BA) Rosemary Barber-Madden (United Nations Fund for Population Activities UNFPA and UNAIDS Thematic Group) Solange Rocha (SOS Corpo: Gender and Citizenship) Discussant: Sonia Corrêa (ABIA and DAWN Network) Round Table: AIDS and Poverty Moderator: Fernando Seffner (Federal University of Rio Grande do Sul) Speakers: Henriette Ahrens (STD/AIDS National Office from Ministry of Health - CNDST/AIDS) Kátia Edmundo (Center for Health Promotion - CEDAPS) Maria Regina Varnieri Brito (Porto Alegre Municipal Health Department/RS) Paula Monjane (Foundation for Community Development/Mozambique) Discussant: Sarah Escorel (National School of Public Health - ENSP/FIOCRUZ) N OVEMBER, 14T H, 2002 Round Table: Intellectual Property Moderator: Carlos André Passarelli (ABIA) Speakers: Adriano Campolina (Action Aid, Brazil) Cícero Gontijo (Getúlio Vargas Foundation) Eloan Pinheiro (Far-Manguinhos/FIOCRUZ) Discussant: Michel Lotrowska (Doctors Without Boarders, Brazil) Round Table: Financing STD/AIDS Control Activities Moderator: Telva Barros (UNAIDS, Brazil) Speakers: Alexandre Grangeiro (CN-DST/AIDS) Ruben Mattos (Institute of Social Medicine of State University from Rio de Janeiro) Zezé Weiss (World Bank, Brazil) Discussant: Aurélio Vianna Júnior (Brazil Network on Multilateral Financial Institutions) Perfeccionando el Debate: Respuestas Frente al SIDA en Brasil 5º SEMINARIO: VIH/SIDA Y DESARROLLO PROGRAMA 13 DE NOVIEMBRE DEL 2002 Aper tura Veriano Terto Júnior y Cristina Pimenta (Asociación Brasileña Interdisciplinaria de SIDA ABIA) Mesa 1: SIDA y desarrollo: compartiendo agendas Coordinadora: Elizabeth Moreira dos Santos (Fundación Oswaldo Cruz - FIOCRUZ) Expositores: Osvaldo Fernandez (Grupo de Apoyo de Prevención al SIDA/BA) Rosemary Barber-Madden (Fundo da Población de las Naciones Unidas y GT/ Programa de SIDA de las Naciones Unidas -ONUSIDA) Solange Rocha (SOS Corpo) Debate: Sonia Corrêa (ABIA y Rede Dawn) Mesa 2: SIDA y pobreza Coordinador: Fernando Seffner (Universidad Federal de Río Grande del Sur) Expositores: Henriette Ahrens (Coordinación Nacional de ETS y SIDA del Ministerio de Salud - CN-ETS/SIDA) Kátia Edmundo (Centro de Promoción de la Salud) Maria Regina Varnieri Brito (Prefectura de Porto Alegre/RS) Paula Monjane (Fundación de Desarrollo de la Comunidad/Mozambique) Debate: Sarah Escorel (Escuela Nacional de Salud Pública - ENSP/FIOCRUZ) 14 DE NOVIEMBRE DEL 2002 Mesa 3: Propiedad intelectual Coordinador: Carlos André Passarelli (ABIA) Expositores: Adriano Campolina (Action Aid) Cícero Gontijo (Fundación Getúlio Vargas) Eloan Pinheiro (Far-Manguinhos/FIOCRUZ) Debate: Michel Lotrowska (Médicos Sin Fronteras) Mesa 4: Financiamiento de las acciones de control de ETS/SIDA Coordinadora: Telva Barros (ONUSIDA, Brasil) Expositores: Alexandre Grangeiro (CN-ETS/SIDA) Ruben Mattos (Instituto de Medicina Social de la Universidad del Estado de Río de Janeiro) Zezé Weiss (Banco Mundial) Debate: Aurélio Vianna Júnior (Rede Brasil) apresentação presentation introducción A Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS (ABIA) está realizando, desde meados de 2001, em diversas capitais brasileiras, uma série de seminários que procura aprimorar o debate inter-setorial sobre a epidemia de HIV/AIDS no Brasil, envolvendo organizações governamentais, organizações não-governamentais, entidades públicas e do setor privado, universidades e instituições de pesquisa. Ao longo dos últimos 20 anos, muito foi feito em termos práticos para responder à epidemia de HIV/AIDS no Brasil, em diversos campos de atuação, o que acabou por originar, reformular ou compartilhar diversas agendas e pautas de discussão. O objetivo central desses seminários é avaliar, de forma mais sistemática, os resultados e frutos dessas agendas, para que seja possível identificar os passos para o planejamento das ações, consolidando e reforçando a agenda nacional de enfrentamento ao HIV/AIDS. Já foram realizados, até o momento, cinco seminários, que trataram de temas relativos à pesquisa, prevenção, direitos humanos, assistência e desenvolvimento social. As principais discussões de todos os seminários estão sistematizadas em publicações técnicas e estratégicas, de modo a possibilitar a extensão do diálogo para além dos participantes dos eventos. A presente publicação busca trazer um panorama do seminário HIV/AIDS e Desenvolvimento, ocorrido em Brasília, nos dias 13 e 14 de novembro de 2002, no qual discutiu-se sobre a articulação das questões relacionadas à epidemia de AIDS com aquelas relativas às políticas de desenvolvimento social. As formas como a AIDS vêm afetando as mais variadas nações em todo o mundo têm tornado explícitas as disparidades existentes entre os países mais ricos e a imensa maioria dos países em desenvolvimento. Essa talvez seja a demonstração cabal do legado de Jonathan Mann, que nos auxilia na identificação dos verdadeiros determinantes da vulnerabilidade coletiva frente ao HIV/AIDS. Entre esses, estão, sem sombra de dúvida, as precárias condições de vida a que está submetida grande parte da população mundial, condições devidas a políticas equivocadas no campo do desenvolvimento econômico, político e social dos países em desenvolvimento. AIDS E DESENVOLVIMENTO 9 O Brasil não foge a essa regra. No entanto, as suas políticas públicas de saúde, principalmente aquelas dirigidas ao enfrentamento da AIDS, têm alçado o país a uma posição de destaque no cenário internacional. Nesse sentido, discutir a forma como vem sendo possível construir respostas efetivas à epidemia, em um contexto social e econômico extremamente adverso, talvez indique caminhos para pensar a sustentabilidade e as perspectivas futuras do enfrentamento à AIDS a partir de estratégias que também promovam o desenvolvimento social e político das populações mais vulneráveis e do país como um todo. O seminário realizado pela ABIA levantou a discussão sobre as questões cruciais na abordagem da epidemia como um problema de desenvolvimento, no sentido amplo. Entre elas, identificamos a própria definição do que se entende por desenvolvimento e como a epidemia de AIDS se insere nessa agenda. Os textos de Rosemary Barber-Madden, Solange Rocha e de Sonia Corrêa trazem os principais pontos que alimentaram o debate que pretendeu revelar as interfaces entre AIDS e desenvolvimento. No entanto, devemos cuidar para que não fiquemos presos a uma discussão teórica, apesar de reconhecermos a importância de analisar as conjunturas que moldam o debate sobre a AIDS e as políticas de desenvolvimento. Assim, lançar um olhar mais cuidadoso sobre a relação entre AIDS e pobreza foi o objeto da segunda mesa-redonda do seminário. Dessa, salientamos três reflexões interessantes sobre o binômio AIDS e pobreza, apresentadas na pesquisa de caráter epidemiológico e antropológico realizada em um bairro de Porto Alegre, por Maria Regina Varnieri Brito, na atuação de agentes de saúde em comunidades carentes do Rio de Janeiro, por Kátia Edmundo, e nas intervenções estruturais em Moçambique, por Paula Monjane e E. Cipriano. Um outro aspecto exemplar das desigualdades geradas por políticas de desenvolvimento científico e tecnológico situa-se nos embates políticos relacionados à produção nacional de medicamentos anti-retrovirais, à lei brasileira de patentes e às prerrogativas internacionais sobre comércio exterior e propriedade intelectual. Esse foi o objeto da terceira mesa-redonda do seminário, aqui representada pelos textos de Cícero Gontijo e Michel Lotrowska. Por fim, um outro aspecto, intimamente relacionado à forma como os obstáculos ao desenvolvimento social dos países e das comunidades influenciam 10 AIDS E DESENVOLVIMENTO na determinação de uma maior vulnerabilidade frente à AIDS, diz respeito às políticas de financiamento adotadas para o controle da epidemia. Dessa forma, os textos de Alexandre Grangeiro e de Aurélio Vianna Júnior buscam refletir sobre as perspectivas relacionadas ao financiamento das ações em DST/AIDS, preocupação central que orientou a quarta mesa-redonda do seminário. Cumpre esclarecer que os textos que compõem esta coletânea não representam na totalidade a riqueza das discussões realizadas durante o seminário. Eles apenas refletem alguns aspectos de um debate maior, e que são devedores das contribuições trazidas pelos outros participantes do evento. O seminário contou com a participação de pesquisadores, ativistas, profissionais de saúde e técnicos de programas governamentais, e foi realizado pela ABIA, em conjunto com representantes de diversas instituições públicas, acadêmicas e não-governamentais, que compõem o Conselho Consultivo do projeto Aprimorando o Debate: Respostas Frente à AIDS no Brasil, apoiado pela Coordenação Nacional de DST e AIDS, do Ministério da Saúde, e pela Fundação Ford. Assim, manifestamos nosso agradecimento a esses financiadores e também a todos os nossos parceiros, que tornaram possível esse projeto: Fórum de ONGs/ AIDS do Estado do Rio de Janeiro, Fundação Oswaldo Cruz/RJ, Grupo de Apoio à Prevenção à AIDS/CE, Grupo de Apoio à Prevenção da AIDS/RS, Grupo de Incentivo à Vida/SP, Grupo de Resistência Asa Branca/CE, Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Núcleo de Estudos e Prevenção de AIDS da Universidade de São Paulo, Programa Estadual de DST e AIDS de São Paulo, Programa Estadual de DST e AIDS do Ceará, Programa Municipal de DST e AIDS de Porto Alegre, Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Universidade Federal do Ceará. Carlos André Passarelli Assessor de projetos da ABIA Richard Parker Diretor-presidente da ABIA Cristina Pimenta e Veriano Terto Jr. Coordenadores-gerais da ABIA AIDS E DESENVOLVIMENTO 11 presentation apresentação introducción Since the middle of 2001, the Brazilian Interdisciplinary AIDS Association (ABIA) has been holding a series of seminars in several state capitals in an endeavor to refine the inter-sectoral debate on the HIV/AIDS epidemic in Brazil. This debate involves non-governmental and governmental organizations, public and private entities, universities and research institutes. Over the last 20 years, much has been done in practical terms in various fields of activity to confront the HIV/AIDS epidemic in Brazil, and as a result this has allowed to create, reformulate or share different agendas and programs for discussion. The core objective of these seminars is to assess in the most systematic manner possible the results and fruits of these agendas in order to identify the steps to be taken in planning actions to consolidate and strengthen the national agenda in the struggle against HIV/AIDS. So far, five seminars have been held, dealing with themes related to research, prevention, human rights, treatment and care, assistance and social development. The main discussions from the seminars are systematized in technical and strategic publications so that the dialogue can be continued by those not able to attend the events. The purpose of this publication is to present an overview of the seminar on HIV/ AIDS and Development held in Brasília on the 13th-14th of November 2002, which concerned articulating the questions related to the AIDS epidemic with those involving social-development policies. The ways in which AIDS has affected a great variety of nations throughout the world has shown quite explicitly the disparities that exist between the richest countries and the vast majority of the devel12 oping countries. Perhaps this is the clearest demonstration of the legacy left by Jonathan Mann, which helps us to identify the real determinant factors of collective vulnerability to HIV/AIDS. These undeniably include the precarious living conditions of most of the world population, conditions caused by mistaken policies in respect to the economic, political and social development of the developing countries. Brazil is no exception to the rule. Nonetheless, its public health policies, especially those directed at the fight against AIDS, have raised the country to a high-ranking position in the international scenario. In this sense, discussing the way that it has become possible to build effective answers to the epidemic within an extremely adverse socio-economic context may perhaps point to ways of thinking about sustainability and the future outlook for the struggle against AIDS based on strategies that also further the socio-political development of the more vulnerable public segments and the country as a whole. The seminar sponsored by ABIA raised the discussion on crucial issues in approaching the epidemic as a problem of development in the broadest sense. These issues include the very definition of what is meant by development and how the AIDS epidemic fits into this agenda. The texts written by Rosemary Barber-Madden, Solange Rocha and Sonia Corrêa present the main points that sustained the debate aimed at identifying the interconnections between AIDS and development. However, we should be carefull not to become too attached to theoretical discussion, although we do recognize the importance of analyzing the situations that shape the debate on AIDS and development policies. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT Accordingly, the object of the second roundtable of the seminar was to look more closely at the relationship between AIDS and poverty. Three interesting reflections on the AIDS poverty connection that are worth special mention were presented in the epidemiological-anthropological research carried out on a neighborhood of Porto Alegre by Maria Regina Varnieri Brito, on the action of health agents in poor communities in Rio de Janeiro (by Kátia Edmundo) and on the structural interventions in Mozambique (by Paula Monjane and E. Cipriano). Another aspect that exemplifies the inequality caused by science-and-technology development policies involves the political conflict concerning the national production of antiretroviral medication, the Brazilian patents law and international prerogatives on foreign trade and intellectual property. This was the subject of the third round-table at the seminar, represented here by the texts written by Cícero Gontijo and Michel Lotrowska. Finally, another aspect that is closely connected to the way that the obstacles to the social development of countries and communities aggravate vulnerability to AIDS involves the financing of policies adopted to control the epidemic. The texts submitted by Alexandre Grangeiro and Aurélio Vianna Júnior reflect the perspectives on financing actions in the area of STD/AIDS, which was the core topic of the fourth round-table of the seminar. It should be made quite clear that the texts included in this collection do not represent the entire richness of the discussions carried out during the seminar. They merely reflect some aspects of a broader debate which benefited from the contributions of participants in the seminar. AIDS COMPARTILHANDO AND DEVELOPMENT AGENDAS The seminar, which enjoyed the participation of researchers, activists, health professionals, social cientists and governmental program officials was organized by ABIA in conjunction with representatives of various public, academic and non-governmental institutions that comprise the Consultative Board of the Refining the Debate: Answers to AIDS in Brazil project, which is supported by the National STD/AIDS Programme of the Ministry of Health and the Ford Foundation. We would like to express our thanks to these sponsors and also to all our partners who made this project possible: the Forum of AIDS NGOs of the State of Rio de Janeiro, the Oswaldo Cruz Foundation, the Support Group for Prevention of AIDS/Ceará, the Support Group for Prevention of AIDS/Rio Grande do Sul, the Group for Life Incentive/São Paulo, the Asa Branca Resistance Group/Ceará, the Institute of Social Medicine of the Rio de Janeiro State University, the AIDS Prevention Studies Center of the University of São Paulo, the São Paulo STD and AIDS State Program, the Ceará STD and AIDS State Program, the Porto Alegre STD and AIDS Municipal Program, the Federal University of Rio Grande do Sul, and the Federal University of Ceará. Carlos André Passarelli ABIA Projects Advisor Richard Parker President of ABIA Cristina Pimenta Veriano Terto Jr. General Coordinators of ABIA 13 13 introducción presentation apresentação La Asociación Brasileña Interdisciplinaria de SIDA (ABIA) está realizando desde mediados del 2001, en diversas capitales brasileñas, una serie de seminarios que procuran perfeccionar el debate intersectorial sobre la epidemia de VIH/SIDA en Brasil, involucrando organizaciones gubernamentales, organizaciones no gubernamentales entidades públicas y del sector privado, universidades e institutos de investigación. A lo largo de los últimos 20 años, mucho fue hecho en términos prácticos para responder a la epidemia de VIH/SIDA en Brasil, en diversos campos de actuación, lo que acabó por originar, reformular o compartir diversas agendas y pautas de discusión. El objetivo central de esos seminarios es evaluar, de forma más sistemática, los resultados y frutos de esas agendas, para que sea posible identificar los pasos para la planificación de las acciones, consolidando y reforzando la agenda nacional de enfrentamiento al VIH/SIDA. Ya fueron realizados, hasta el momento, cinco seminarios, que trataron de temas relativos a la investigación, prevención, derechos humanos, asistencia y desarrollo social. Las principales discusiones de todos los seminarios están sistematizadas en publicaciones técnicas y estratégicas, de modo que posibilite la extensión del diálogo además de los participantes a los eventos. La presente publicación busca traer un panorama del seminario VIH/SIDA y Desarrollo, ocurrido en Brasilia durante los días 13 y 14 de noviembre del 2002, en el cual se discutió sobre la articulación de las cuestiones relacionadas a la epidemia de SIDA con aquellas relativas a las políticas de desarrollo social. Las formas como el SIDA viene afectando las más variadas naciones en todo el mundo han tor14 nado explícitas las disparidades existentes entre los países más ricos y la inmensa mayoría de los países en desarrollo. Tal vez esa sea la demostración cabal del legado de Jonathan Mann, que nos auxilia en la identificación de los verdaderos determinantes de la vulnerabilidad colectiva frente al VIH/SIDA. Entre esos están, sin sombra de duda, las precarias condiciones de vida a la que está sometida gran parte de la población mundial, condiciones debidas a políticas equivocadas en el campo del desarrollo económico, político y social de los países en desarrollo. Brasil no huye a esa regla. No obstante, sus políticas públicas de salud, principalmente aquellas dirigidas al enfrentamiento del SIDA, han alzado al país a una posición de destaque en el escenario internacional. En ese sentido, discutir la forma como viene siendo posible construir respuestas efectivas a la epidemia, en un contexto social y económico extremadamente adverso, tal vez indique caminos para pensar en el sustento y las perspectivas futuras del enfrentamiento al SIDA a partir de estrategias que también promuevan el desarrollo social y político de las poblaciones más vulnerables y del país como un todo. El seminario realizado por la ABIA levantó la discusión sobre las cuestiones cruciales en el abordaje de la epidemia como un problema de desarrollo, en sentido amplio. Entre ellas, identificamos la propia definición de lo que se entiende por desarrollo y como la epidemia de SIDA se insiere en esa agenda. Los textos de Rosemary Barber-Madden, Solange Rocha y de Sonia Corrêa traen los principales puntos que alimentaron el debate, que pretendió revelar la interrelación entre SIDA y desarrollo. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO No obstante, debemos cuidar no quedarnos presos a una discusión teórica, a pesar de reconocer la importancia de analizar las coyunturas que moldean el debate sobre el SIDA y las políticas de desarrollo. Así, lanzar una mirada más cuidadosa sobre la relación entre SIDA y pobreza fue el objeto de la segunda mesa redonda del seminario. De esa, destacamos tres reflexiones interesantes sobre el binomio SIDA y pobreza, presentadas en la investigación de carácter epidemiológico y antropológico realizada en un barrio de Porto Alegre, por Maria Regina Varnieri Brito, en la actuación de agentes de salud en comunidades carentes de Río de Janeiro, por Kátia Edmundo, y en las intervenciones estructurales en Mozambique, por Paula Monjane y E. Cipriano. Otro aspecto ejemplar de las desigualdades generadas por políticas de desarrollo científico y tecnológico se sitúa en los embates políticos relacionados a la producción nacional de medicamentos anti-retrovirales, a la ley brasileña de patentes y a las prerrogativas internacionales sobre comercio exterior y propiedad intelectual. Ese fue el objeto de la tercera mesa redonda del seminario, aquí representada por los textos de Cícero Gontijo y Michel Lotrowska. Por fin, otro aspecto, íntimamente relacionado a la forma como los obstáculos al desarrollo social de los países y de las comunidades influencian en la determinación de una mayor vulnerabilidad frente al SIDA, habla respecto a las políticas de financiamiento adoptadas para el control de la epidemia. De esa forma, los textos de Alexandre Grangeiro y de Aurélio Vianna Júnior buscan reflexionar sobre las perspectivas relacionadas al financiamiento de las acciones en ETS / SIDA, preocupación central que orientó la cuarta mesa redonda del seminario. Vale esclarecer que los textos que componen esa colección no representan en su totalidad la riqueza de las discusiones realizadas durante el seminario. Ellos apenas reflejan algunos aspectos de un debate mayor, SIDA COMPARTILHANDO Y DESAROLLO AGENDAS y que son deudores de las contribuciones traídas por los otros participantes al evento. El seminario contó con la participación de investigadores, activistas, profesionales de salud y técnicos de programas gubernamentales, y fue realizado por la ABIA, en conjunto con representantes de diversas instituciones públicas, académicas y no gubernamentales, que componen el Consejo Consultivo del proyecto Perfeccionando el Debate: Respuestas Frente al SIDA en Brasil, apoyado por la Coordinación Nacional de ETS y SIDA del Ministerio de Salud y por la Fundación Ford. Manifestamos así, nuestro agradecimiento a esos financiadores y también a todos nuestros compañeros, los que hicieron posible ese proyecto: Foro de ONGs /SIDA del Estado de Río de Janeiro, Fundación Oswaldo Cruz/RJ, Grupo de Apoyo a la Prevención del SIDA/CE, Grupo de Apoyo a la Prevención del SIDA/RS, Grupo de Incentivo a la Vida/SP, Grupo de Resistencia Asa Branca/ CE, Instituto de Medicina Social da Universidad del Estado de Río de Janeiro, Núcleo de Estudios y Prevención de SIDA de la Universidad de São Paulo, Programa Estadual de ETS y SIDA de São Paulo, Programa Estadual de ETS y SIDA de Ceará, Programa Municipal de ETS y SIDA de Porto Alegre, Universidad Federal de Río Grande do Sul y Universidad Federal del Ceará. Carlos André Passarelli Asesor de proyectos de la ABIA Richard Parker Director-presidente de la ABIA Cristina Pimenta Veriano Terto Jr. Coordinadores-generales de la ABIA 15 15 1 16 AIDS E DESENVOLVIMENTO AIDS e desenvolvimento: compartilhando agendas AIDS and development: sharing agendas SIDA y desarrollo: compartiendo agendas COMPARTILHANDO AGENDAS 17 O UNAIDS e as políticas de desenvolvimento sustentável Rosemary Barber-Madden Representante do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e presidente do Grupo Temático do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS UNAIDS no Brasil. ([email protected]) 18 AIDS E DESENVOLVIMENTO N a recente Cúpula Mundial para o Desenvolvimento (Rio+ 10), realizada em Johanesburgo (26 de agosto a 4 de setembro de 2002), Peter Piot, diretorexecutivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDSUNAIDS, fez uma alerta muito importante na apresentação do relatório HIV/AIDS, Human se continuarmos a permitir que a AIDS nos prive de recursos humanos, o desenvolvimento sustentável será impossível. Resources and Sustainable Development. Ele afirmou que, E foi enfático: se uma nação não sobrevive, ela não pode se desenvolver. Trata-se de uma equação extremamente simples de ser demonstrada. Nessa mesma linha de reflexão, a revista The Economist, no final de outubro de 2002, trouxe uma reportagem interessante, que tinha por título AIDS: a próxima onda. O artigo destaca a relação entre a epidemia de HIV/AIDS e o desenvolvimento, bem como alerta para a ameaça de crescimento da epidemia em alguns grandes países, como, China, Índia, Rússia, Nigéria e Etiópia. Trata-se de países muito populosos, mas que ainda não apresentam índices alarmantes de infecção de AIDS, se comparados com outras nações da África Sub-Saariana. O texto apresenta um estudo do Conselho Nacional de Inteligência dos Estados Unidos (National Intelligence Council - NIC) que aponta que, em oito anos, esses países da próxima onda da epidemia terão entre 50 e 75 milhões de casos de AIDS, comparados com os 30-35 milhões estimados para o centro e o sul da África. O artigo também chama a atenção à falta de compromisso financeiro com o Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária- GFATM. Ainda que existam U$ 2,1 bilhões empenhados para os próximos cinco anos, apenas para 2004 estima-se que são necessários outros U$ 2 bilhões para financiar as propostas já aprovadas. Podemos nos perguntar se existe mesmo a preocupação com a epidemia de HIV/AIDS por parte de instituições direcionadas para o desenvolvimento e o crescimento econômico. COMPARTILHANDO AGENDAS 19 Integração e equilíbrio Com o desenvolvimento sustentável, buscamos a integração e o equilíbrio entre prioridades sociais, econômicas e ambientais, a melhoria da qualidade de vida e a garantia dos direitos humanos. Ou seja, falar em desenvolvimento é falar em gente, é falar no futuro, é falar nos seus direitos. E os recursos humanos são o motor do desenvolvimento sustentável. Em alguns países muito afetados pela epidemia, ocorre um processo de desdesenvolvimento (ou un-development), que não deve ser entendido como subdesenvolvimento, mas que quer dizer desenvolver ao contrário, isto é, mais do que parar em um ponto do desenvolvimento, esses países estão caminhando para trás. Esse foi o conceito apresentado, também por Peter Piot, na Rio+ 10. Ainda no relatório mencionado, o UNAIDS adverte para o risco de retrocesso e faz um alerta sobre as ameaças às próprias Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDMs), que a comunidade internacional prometeu atingir até 2015. Para atingir essas metas, será necessário aprofundar melhor os processos de planejamento para desenvolvimento social, econômico e ambiental, mas que tenha um caráter de longo prazo. As MDMs são: 1) Erradicar a extrema pobreza e a forme; 2) Atingir o ensino básico universal; 3) Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; 4) Reduzir a mortalidade infantil; 5) Melhorar a saúde materna; 6) Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7) Garantir a sustentabilidade ambiental; 8) Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento. Se analisarmos essas oito metas, veremos logo que cada uma delas estabelece algum tipo de relação direta com a questão da AIDS como um problema de desenvolvimento, como: 1) Indivíduos com maior nível de educação são menos vulneráveis; 2) A pobreza é um fator primordial de vulnerabilidade; 3) Enquanto não for reconhecida a igualdade de gêneros, aumentará o número de mulheres infectadas; 20 AIDS E DESENVOLVIMENTO 4) A transmissão materno-infantil do HIV é uma preocupação global; 5) A prevenção da infecção entre os jovens é uma alta prioridade no Sistema ONU; 6) Mulheres HIV+ ou com AIDS têm maior morbidade ou risco de morte materna; 7) Enquanto o mundo focaliza o combate à AIDS, freqüentemente de maneira inadequada, atenção insuficiente vem sendo dada à tuberculose e à malária, ambas doenças de grande incidência no Brasil; 8) Sustentabilidade ambiental não pode ser alcançada se nos planos de desenvolvimento a AIDS e os novos desafios inter-relacionados não forem considerados. AIDS e aumento da pobreza O aumento da prevalência do HIV/AIDS aumenta a pobreza, e a comunidade internacional e Estados nacionais têm que prestar pode paralisar a produção agrícola em diversos países, agravando o problema da fome. mais atenção a essa doença que A Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas (FAO), por exemplo, estima que, desde o início da epidemia, já morreram 7 milhões de trabalhadores rurais em função da AIDS. Outros 16 milhões podem morrer nos próximos 20 anos devido à epidemia. Ainda nas Metas do Milênio, há uma necessidade de atentarmos para o impacto da epidemia junto às unidades familiares, pois muitas retiram suas crianças das escolas, e também muitas escolas já perderam professores para a epidemia. As MDMs ainda enfatizam que especial atenção deve ser dada aos órfãos e crianças infectados, e que o planejamento e o desenvolvimento para essa população vulnerável também têm que ser de longo prazo. Não adianta garantirmos a escola para essa criança se não há a garantia de ela estudar até o nível superior. Não adianta pensar que ganhando o primeiro emprego o trabalho está feito, temos que pensar qual será a longevidade dessa população de jovens que vem aumentando muito rapidamente, em especial nos países onde o crescimento populacional é maior. As Metas incluem a questão das mulheres, COMPARTILHANDO AGENDAS 21 que sofrem mais os efeitos da epidemia e que são as mais vulneráveis, enfatizado a promoção da igualdade entre os sexos e da autonomia das mulheres. Os esforços para o empowerment das mulheres, tanto econômica quanto socialmente, devem ser realizados levando-se em conta de que mulheres estamos falando: mulheres grávidas, mulheres viúvas, mulheres que têm responsabilidade total pelo bemestar das suas famílias, responsabilidade total para com as crianças, para a economia da família, quando os familiares têm HIV/AIDS, e mulheres que estão envelhecendo. Essa é uma pequena lista de questões que temos que levar em conta quando pensamos em igualdade de gênero. Há um grande número de considerações relativas aos direitos humanos e a AIDS, e que afetam o desenvolvimento. Eu gostaria de chamar a atenção para duas notas da Folha de São Paulo. A primeira diz que a ONU chama prefeitos para pôr laços vermelhos em pontos turísticos de suas cidades, para marcar o Dia Mundial de Luta contra a AIDS. Uma outra nota diz Alguns prefeitos de certo partido não irão pôr laços vermelhos, por acreditarem que o vermelho é uma cor que está associada ao partido oponente. A questão é que esse partido que não vai colocar o laço vermelho também trabalha na prevenção, no tratamento e em todas as questões da AIDS. Será que vamos ficar divididos por causa de uma cor de laço, por causa de partidarismo, ou vamos avançar porque acreditamos que temos um ideal em comum, apesar de nossas diferenças políticas, econômicas, sociais e culturais? Ainda em relação às MDMs, chamamos a atenção para a questão do combate ao HIV/AIDS, malária e tuberculose, que é o objetivo do Fundo Global e do UNAIDS. Todos os Estados membros assinaram o acordo, o que significa que todo mundo diz que está de acordo, o Banco Mundial está envolvido, governos do Norte e do Sul. Mas ainda falta o dinheiro. Então, temos que questionar que compromisso é esse. Apagando décadas de progresso Analisando a AIDS e seu impacto na expectativa de vida, podemos observar que, em muitos países, a epidemia 22 AIDS E DESENVOLVIMENTO está apagando décadas de progresso. Por exemplo: a média de expectativa de vida na África do Sul é, hoje, de 47 anos, quando poderia ser de 62 anos. A expectativa de vida em Botswana caiu a níveis nunca vistos desde antes dos anos 1950. Antes de ser transferida para o Brasil pela ONU, em 2001, trabalhei durante três anos como representante do Fundo de População das Nações Unidas em Angola, durante a guerra. O que tentávamos era fazer com que o governo entendesse a dinâmica populacional levando em conta estimativas de prevalência da AIDS e como eventualmente o país iria proceder quando chegasse a paz. Em 2002, a paz chegou, mas a esperança de vida não vai crescer porque a migração de volta para as terras de origem, a migração de soldados de regiões dentro e fora do país, representa o aumento do risco da transmissão do HIV, criando uma ameaça enorme para a população e para qualquer plano de desenvolvimento. Vejamos a migração na África Austral: além das guerras e dos desastres naturais, há uma verdadeira negação dessa epidemia. Temos a obrigação de pensar, não somente na África, mas na Rússia, na China e em outros países de epidemias emergentes, bem como no Brasil e também nas regiões que ainda não foram atingidas. Muitos dos países mais afetados pela epidemia são democracias recentes, ou seja, os governos precisam de esforço para conseguir a confiança dos seus cidadãos. Problemas econômicos e sociais graves trazidos pela epidemia de AIDS podem ameaçar a própria democracia. Temos que fazer essas reflexões quando pensamos em ações aqui no Brasil e também para orientar as ações de cooperação técnica horizontal. São evidentes as ameaças da epidemia a qualquer Estado membro da ONU. Aqui, listamos apenas algumas: a questão dos sistemas de saúde que perdem os profissionais devido à epidemia, o aumento do número de pessoas doentes que pressionam a estrutura dos serviços de saúde, as empresas que perdem trabalhadores com AIDS, que podem ser perdas significativas, isto é, a capacidade de transmitir conhecimentos para outros trabalhadores ou outras gerações. COMPARTILHANDO AGENDAS 23 Mobilização de lideranças políticas Para criar uma parceria mundial para o desenvolvimento, será necessário mobilizar diversas lideranças políticas (stakeholders) para que planos e programas nacionais de desenvolvimento incluam em suas promessas o comprometimento com a prevenção e o tratamento da AIDS. Essa parceria mundial deve envolver, além da cooperação com países em desenvolvimento, os países desenvolvidos, a indústria farmacêutica, o setor privado e a sociedade civil. Não é mais possível pensar que basta convidar líderes dos mercados financeiros, como as bolsas de valores do Japão, de Cingapura, de Nova Iorque, de Londres, de Paris e de Frankfurt, ou governantes de qualquer partido, doadores e outras lideranças políticas para uma conferência sobre AIDS para promover o conhecimento entre os líderes e trazê-los a um ponto de incluir o enfrentamento à epidemia como uma de suas prioridades. Muitos desses indivíduos negam a realidade, mas nós temos a responsabilidade de fazer isso, porque nós entendemos essa questão. Não existe um consenso quanto ao fato de que a Determinados grupos e países não entendem que as questões epidemiológicas e demográficas realmente vão impactar, não acreditam que todos têm direitos humanos e não analisam o fato de que a sua discriminação terá um efeito negativo no próprio desenvolvimento global. AIDS é uma ameaça ao desenvolvimento. São essas as pessoas a serem mobilizadas. Mas quem são essas pessoas num mundo globalizado? A globalização tem uma característica principal que é a integração, na qual ameaças e oportunidades estão crescentemente interconectadas por um sistema de comunicações que abrange todo o planeta, que permite a ricos e pobres comunicarem-se entre si de todos os cantos do mundo, desde que tenham acesso à Internet. Em seu texto, Friedman (2000) descreve a importância de se entendersuperpotências, superpotencializados 24 AIDS E DESENVOLVIMENTO e supermercados globais de forma a afetar a mudança. De acordo com essa análise, um indivíduo superpotencializado pode ter um impacto nas superpotências por meio do uso criativo das comunicações, como no caso do ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1997, Jody Williams. De fato, o movimento da AIDS teve um progresso similar no mundo todo na questão de advocacy. Não estamos incluindo essas pessoas (superpotencializados) em nossos esforços. São as pessoas que investem nas bolsas de valores globalmente, que investem nos laboratórios que fazem os remédios, que fazem marketing dos remédios, que influenciam os custos de prevenção e tratamento, quer dizer, essas pessoas têm que entender o que estão levando ao mundo. Temos a obrigação de fazer isso. Não podemos dizer Eu sou epidemiologista, eu fiz a minha parte. Ou Eu represento a ONU e eu fiz a minha parte. Esse não é o caminho. É necessário planejar a médio e longo prazos quais estratégias de advocacy vamos usar. A AIDS não é a doença do mês. Estamos falando de uma ameaça ao desenvolvimento mundial. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AIDS The next wave. The Economist, 17 de outubro de 2002. FREIDMAN, T. L. The lexus and the olive tree. New York: Anchor Books, 2000 Declaração de Compromisso sobre o VIH/SIDA, 2001: http://www.unAIDS.org/ UNGASS/index.html Discurso de Peter Piot na Cúpula Mundial para o Desenvolvimento, Johanesburgo, 30/8/2002:http://www.unAIDS.org/whatsnew/speeches/eng/2002/ piot300802WSSD.html Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária: http:// www.globalfundatm.org/ HIV/AIDS, Human Resources and Sustainable Development, 2002: http:// www.unAIDS.org/whatsnew/conferences/wssd/WSSD2002UNAIDS_en.pdf Metas de Desenvolvimento do Milênio: http://www.undp.org.br Report on the global HIV/AIDS Epidemic, 2002: http://www.unAIDS.org barcelona/presskit/report.html COMPARTILHANDO AGENDAS 25 UNAIDS AND POLICIES OF SUSTAINABLE DEVELOPMENT Rosemary Barber-Madden Representative of the United Nations Fund for Population Activities (UNFPA) and president of the Thematic Group of the Joint United Nations Program on HIV/AIDS - UNAIDS in Brazil.([email protected]) At the recent World Summit on Development (Rio+10) held in Johannesburg (26 August to 4 September 2002), Peter Piot, executive director of the Joint United Nations Program on HIV/AIDSUNAIDS, gave out a very important alert in his presentation of the report on HIV/AIDS, Human Resources and Sustainable Development. He asserted that if we go on allowing AIDS to deprive us of human resources, sustainable development will be impossible. And he stated emphatically that if a nation does not survive, it cannot develop. This is a very simple equation to demonstrate. Following this same line of reflection, in late October 2002 The Economist carried an interesting report under the heading AIDS: the next wave. The article shows the relation between the HIV/AIDS epidemic and development, and also alerts the public to the threat of the epidemic spreading in some large countries like China, India, Russia, Nigeria and Ethiopia. The large populations of these countries have not presented alarming rates of AIDS infection when compared with other nations in Sub-Saharan Africa. The text presents a study of the National Intelligence Council of the United States (NIC), which points out that in a period of eight years these countries of the next wave of the epidemic will register between 50 and 75 million cases of AIDS, compared with the 30-35 million estimated for central and southern Africa. The article also draws attention to the lack of any financial commitment with the Global Fund for AIDS, Tuberculosis and Malaria (GFATM). Although U$ 2,1 billion has been earmarked for the next five years, for 2004 alone it is estimated that a further U$ 2 billion 26 26 will be necessary in order to finance projects already approved. We may wonder whether there is any real concern about the HIV/AIDS epidemic on the part of institutions directed towards development and economic growth. Integration and equilibrium With sustainable development we seek integration and equilibrium among social, economic and environmental priorities, improving the quality of life and guaranteeing human rights. That is to say, to talk about development is to talk about people, their future, their rights. And human resources are the driving force behind sustainable development. In some countries badly hit by the epidemic there occurs a process o f undevelopment, not to be understood as underdevelopment but rather developing in the opposite direction, in other words, rather than stopping at a point in development, these countries are moving backwards. This was the notion presented also by Peter Piot at Rio+10. Also in the report mentioned above, UNAIDS gives out a warning about the risk of regression and alerts us about the threats to the Development Goals of the Millennium that the international community pledged to put into effect by 2015. In order to meet these goals, it will be necessary to intensify the processes for planning long-term social, economic and environmental development. The Goals are: 1) to eradicate extreme poverty and hunger; 2) to assure universal basic education; 3) to further equality between the sexes and womens autonomy; AIDSEAND DEVELOPMENT AIDS DESENVOLVIMENTO 4) to reduce child mortality; 5) to improve maternal health; 6) to combat HIV/AIDS, malaria and other diseases; 7) to guarantee environmental sustainability; 8) to establish a World Partnership for Development. If we analyze these eight goals, we see that each one of them establishes some sort of direct relation with the question of AIDS as a problem of development, such as: 1) Individuals with a higher level of education are less vulnerable; 2) Poverty is a primordial factor of vulnerability; 3) Until gender equality is acknowledged, the number of infected women will increase; 4) Maternal-infantile transmission of HIV is a global concern; 5) Preventing infection among the young is a high priority of the United Nations System; 6) There is a higher rate of morbidity and risk of maternal death among HIV+ women and those with AIDS; 7) While the world often focuses improperly on the struggle against AIDS, not enough attention is being paid to tuberculosis and malaria, both very common diseases in Brazil; 8) Environmental sustainability cannot be achieved if development plans do not include AIDS and the new interrelated challenges. AIDS and increased poverty The spread of HIV/AIDS increases poverty and the international community and national states must pay more attention to this disease that can paralyze agricultural production in various countries and aggravate the problem of hunger. The Food and Agricultural Organization of the United Nations (FAO), for example, reckons that since the outbreak of the epidemic, 7 million rural workers have SHARING AGENDAS AGENDAS COMPARTILHANDO already died of AIDS. Another 16 million may die in the next 20 years due to the epidemic. The Goals of the Millennium also include the need for us to become attentive to the impact of the epidemic on family units, because many people take their children out of school, just as many schools have already lost teachers to the epidemic. The Goals for the Millennium likewise emphasize that special attention should be paid to infected orphans and children and that the planning and development for this vulnerable segment of the population must also be on a long-term basis. It is not enough to guarantee school for these children if there is no assurance that they will be able to study as far as university level. It is no good thinking that getting the first job means the work is done, we have to think about the longevity of this fast-growing young population, especially in countries where demographic growth is highest. The Goals also include the question of women, who suffer hardest the effects of the epidemic and are the most vulnerable, by emphatically fostering equality between the sexes and womens autonomy. Efforts towards empowering women both economically and socially should be carried out by taking into account what women we are talking about: pregnant women, widows, women who bear the full responsibility for the welfare of their families, total responsibility for the children, and for the financial upkeep of the family when family members have HIV/AIDS, as well as women who are growing old. This is just a short list of questions that we have to bear in mind when we think about gender equality. A great number of considerations relating to human rights and AIDS that affect development. I would like to draw your attention to two extracts from the Folha de São Paulo newspaper. The first says that the United Nations calls on town mayors to tie up red ribbons at tourist spots in their cities to commemorate the World Day of the Struggle Against AIDS. Another note says that some 27 mayors of a certain political party refused to put up red ribbons because they believe that the color red is associated with the opposite party. The question is that this party that refuses to exhibit red ribbons also works with prevention, treatment and all matters concerning AIDS. Are we going to remain divided on account of the color of a ribbon, because of a party issue, or are we going to move ahead because we believe that we have an ideal in common despite all our political, economic, social and cultural differences? Still in respect to the Development Goals of the Millennium, we call your attention to the question of the fight against HIV/AIDS, malaria and tuberculosis, which is the objective of the Global Fund and UNAIDS. All the member states signed the agreement, which means that everyone says they are in agreement, the World Bank is involved, as are governments in both the North and the South. But the money is still lacking, so we have to question what kind of pledge this is. Wiping out decades of progress Analyzing AIDS and its impact on life expectancy, we note that in many countries the epidemic is wiping out decades of progress. For example, the average life expectancy in South Africa today is 47 years, when it could be 62. Life expectancy in Botswana has dropped to levels never seen since the 50s. Before being transferred to Brazil by the United Nations in 2001, I worked for three years as representative of the United Nations Fund for Population Activities in Angola during the war. We were trying to make the government understand the population dynamic by taking into consideration estimates of AIDS prevalence and how the country would eventually proceed when peace arrived. Peace did arrive in 2002, but life expectancy is not going to increase because the migration of the soldiers from regions inside and outside the country back to their places of origin represents the increased risk of transmitting HIV, thereby creating an 22 88 enormous threat menace to the population and to any development plan. Look at migration in Southern Africa: besides wars and natural disasters, there is actually a denial of this epidemic. We have the obligation to think not only of Africa but also of Russia, China and other countries where epidemics are emerging, as well as in Brazil and regions that have not yet been stricken. Many of the countries hardest hit by the epidemic are recent democracies, that is, countries whose governments need to strive hard to win the trust of the citizens. Serious economic and social problems brought by the AIDS epidemic can endanger democracy itself. We must consider all these factors when we think of actions here in Brazil and also in order to orient actions of horizontal technical cooperation. The threats of the epidemic to any member state of the United Nations are evident. Here we shall list only a few: the question of health systems that lose professionals due to the epidemic, the rising number of sick people to pressurize the structure of health services, and the companies that lose employees who suffer from AIDS. These can be significant losses because of the capacity to transmit knowledge to other workers or other generations. Mobilizing stakeholders To set up a world par tnership for development, it will be necessary to mobilize different stakeholders so that national development plans and programs include in their promise the commitment to AIDS prevention and treatment. This world partnership should include the cooperation not only of developing countries but also the developed countries, the pharmaceutical industry, the private sector and civil society. It is no longer possible to think that it suffices to invite leaders of the financial markets such as the stock exchanges of Japan, Singapore, New York, London, Paris and Frankfurt, or governors of any party, donors and AIDS DEVELOPMENT AIDS E AND DESENVOLVIMENTO other political leaders to a conference on AIDS in order to promote knowledge among the leaders and persuade them to face the epidemic as one of their priorities. Many of these individuals deny the reality, but we have the responsibility to do this because we understand this issue. There is no consensus as to the fact that that AIDS is a threat to development. Certain groups and countries fail to understand that epidemiological and demographic questions are really going to impact, they refuse to believe that everyone has human rights and to analyze the fact that their discrimination will have a negative effect on global development itself. These are the people that need to be mobilized. But who are these people in a globalized world? The chief characteristic of globalization is integration, where threats and opportunities are increasingly interconnected by a communications system that embraces the whole planet, enables rich and poor to communicate from every corner of the world as long as they have access to the Internet. In his text, Friedman (2000) describes the importance of understanding global superpowers, the superpotentialized and supermarkets so that changes can be made. According to this analysis, a superpotentialized individual can have an impact on the superpowers b y using communications creatively, as in the case of the winner of the Nobel Peace Prize in 1997, Jody Williams. Indeed, the AIDS movement has witnessed similar progress all over the world as far as advocacy is concerned. We are not including these people (the superpotentialized) in our efforts. These are the people who invest in the stock markets globally, who invest in the laboratories that SHARING AGENDAS AGENDAS COMPARTILHANDO make the medicine, who do the marketing for the medicine, who influence the costs of prevention and treatment, that is, these people must be made to understand what they are offering the world. We have the obligation to do this. We cannot say Im an epidemiologist, Ive done my part. Or else I represent the United Nations and Ive done my part. That is not the way. It is necessary to make medium- and long-term plans for the advocacy strategies we should use. AIDS is not the disease of the month. We are talking about a threat to world development. BIBLIOGRAPHICAL REFERENCES AIDS The next wave. The Economist, 17 October 2002. FREIDMAN, T. L.. The lexus and the olive tree. New York: Anchor Books, 2000 Declaration of Commitment on HIV/AIDS, 2001: http://www.unAIDS.org/UNGASS/index.html Speech by Peter Piot at the World Summit for Develop ment, Johannesburg, 30/8/2002: http:// www.unAIDS.org/whatsnew/speeches/eng/ 2002/piot300802WSSD.html Global Fund for the Fight against AIDS, Tuberculosis and Malaria: http://www.globalfundatm.org/ HIV/AIDS, Human Resources and Sustainable Devel opment, 2002: http://www.unAIDS.org/ whatsnew/conferences/wssd/ WSSD2002UNAIDS_en.pdf Development Goals of the Millennium: http://www.undp.org.br Report on the Global HIV/AIDS Epidemic, 2002: http://www.unAIDS.org/barcelona/presskit/ report.html 29 ONUSIDA Y LAS POLÍTICAS DE DESARROLLO SOSTENIBLE Rosemary Barber-Madden Representante del fondo de Población de las Naciones Unidas (UNFPA) y presidente del Grupo Temático del Programa Conjunto de las Naciones Unidas sobre VIH/ SIDA ONUSIDA en Brasil ([email protected]) En la reciente Cúpula Mundial para el Desarrollo (Río+10), realizada en Johannesburgo (del 26 de agosto al 4 de setiembre del 2002), Peter Piot, director ejecutivo del Programa Conjunto de las Naciones Unidas sobre VIH/ SIDA, en la presentación del informe VIH/ SIDA, Human Resources and Sustainable Development, aler tó sobre algo muy importante al afirmar que, si continuamos permitiendo que el SIDA nos prive de recursos humanos el desarrollo sostenible será imposible y enfatizó: si una nación no sobrevive, no podrá desarrollarse. Se trata de una ecuación que puede ser demostrada de una forma extremadamente simple. Siguiendo esa misma línea de reflexión, la revista The Economist, a finales del 2002, publicó una reportaje muy interesante con el título SIDA: la próxima onda. El artículo destaca la relación entre la epidemia de SIDA y el desarrollo, así también alerta para la amenaza del crecimiento de la epidemia en algunos grandes países como China, India, Rusia, Nigeria y Etiopia. Se trata de países densamente poblados pero que aún no presentan índices alarmantes de infección por VIH, si los comparamos con otras naciones de África Subsahariana. El texto presenta un estudio del Consejo Nacional de Inteligencia de los Estados Unidos (Nacional Intelligence Council NIC) destacando que en ocho años, esos países de la próxima onda de la epidemia tendrán entre 50 y 75 millones de casos de SIDA, si lo comparamos con los 30 a 35 millones estimados para el centro y el sur de África. El artículo también llama la atención para la falta de compromiso financiero con el Fondo Global de Combate al SIDA, la Tubercu30 losis y al Malaria GFATM. A pesar de que existen 2,1 mil millones de dólares para los próximos cinco años, se estima que solo en el 2003 serán necesarios 2 mil millones para financiar los proyectos ya aprobados. Entonces, podemos preguntar si existe realmente una preocupación con la epidemia de VIH/SIDA por parte de las instituciones dirigidas para el desarrollo y el crecimiento económico. Integración y equilibrio Con el desarrollo sostenible, buscamos la integración y el equilibrio entre las prioridades sociales, económicas y ambientales, en la mejora de la calidad de vida y la garantía de los derechos humanos, o sea, hablar de desarrollo es hablar de personas, es pensar en el futuro y hablar de sus derechos, siendo que los recursos humanos son el motor del desarrollo sostenible. En algunos países, muy afectados por la epidemia, ocurre un proceso de des-desarrollo (o un-development), que no se debe entender como subdesarrollo, sino como desarrollar al contrario, es decir, no existe un estancamiento en el desarrollo sino que esos países están caminando hacia atrás. También, ese fue el concepto presentado por Peter Piot en el Rio+ 10. Además, en el informe mencionado, ONUSIDA advierte para el riesgo de retroceder y alerta sobre las amenazas a las propias Metas de Desarrollo del Milenio (MDMs), que la comunidad internacional prometió alcanzar hasta el 2015. Pero lograr esas metas será necesario profundizar mejor en los procesos de planificación para el desarrollo social, económico y ambiental, pero SIDA Y DESAROLLO AIDS E DESENVOLVIMENTO con un carácter a largo plazo. Las MDMs son: 1.erradicar la extrema pobreza y el hambre; 2. alcanzar la enseñaza básica universal; 3.promover la igualdad entre los sexos y la autonomía de las mujeres; 4. reducir la mortalidad infantil; 5. mejorar la salud materna; 6. combatir el VIH/SIDA, la malaria y otras enfermedades; 7. garantizar la sustentabilidad ambiental; 8. establecer una Colaboración Mundial para el Desarrollo Si analizamos esas ocho metas, veremos que cada una de ellas establecen algún tipo de relación directa con la cuestión del SIDA como un problema de desarrollo, como: 1. individuos con mayor nivel de educación son menos vulnerables; 2. la pobreza es un factor primordial de vulnerabilidad; 3. mientras no sea reconocida la igualdad de géneros, aumentará el número de mujeres infectadas 4. la transmisión materno-infantil del VIH es una preocupación global; 5. la prevención de la infección entre los jóvenes es una alta prioridad en el Sistema ONU; 6. las mujeres que son VIH+ o con SIDA, tienen más probabilidad o riesgo de muerte materna; 7. mientras el mundo se centra en el combate al SIDA, frecuentemente de una forma inadecuada, una atención insuficiente está siendo dada a la tuberculosis y a la malaria que tienen gran incidencia en Brasil; 8. la sustentabilidad ambiental no puede alcanzarse si los planos de desarrollo de combate al SIDA y nuevos desafíos interrelacionados no sean considerados. COMPARTIENDO AGENDAS COMPARTILHANDO AGENDAS El SIDA y el aumento de la pobreza El aumento de la prevalencia del VIH/ SIDA aumenta la pobreza, por lo que la comunidad internacional y los estados nacionales tienen que prestar más atención a esa enfermedad que puede paralizar la producción agrícola en diversos países, agravando el problema del hambre. Por ejemplo, la Organización para Alimentación y Agricultura de las Naciones Unidas (FAO) estima que desde el inicio de la epidemia han muerto alrededor de 7 millones de trabajadores rurales (campesinos) y otros 16 millones pueden morir en los próximos 20 años como consecuencia del SIDA. Dentro de las Metas del Milenio, se plantea la necesidad de prestar atención para el impacto de la epidemia dentro del seno familiar porque muchas familias han retirado sus hijos de las escuelas y también, muchas escuelas han perdido profesores por causa de la epidemia. Las MDMs también enfatizan sobre la especial atención que debe ser dada a los huérfanos y niños infectados, y que la planificación y el desarrollo para esa población vulnerable también deben ser a largo plazo. De nada vale garantizar educación (escuela) para esos niños si no existe la garantía de que van a estudiar y llegar al nivel superior. Tampoco vale pensar que ganando el primer empleo todo está resuelto, hay que pensar sobre cuál será la longevidad de esa población joven que está aumentando rápidamente, especialmente en los países donde el crecimiento poblacional es mayor. Las Metas incluyen la cuestión de las mujeres, que más sufren lo efectos de la epidemia y son las más vulnerables, enfatizando la promoción de la desigualdad entre los sexos y de la autonomía de las mujeres. Los esfuerzos para el empowerment de las mujeres, tanto económica como socialmente, deven ser realizados teniendo en cuenta sobre qué mujeres estamos hablando: mujeres grávidas, viudas, mujeres que tienen total responsabilidad por el bienestar de sus familias, responsabilidad total con los hijos, por 31 31 la economía de la familia cuando los familiares tienen VIH/SIDA y de las mujeres que están envejeciendo. Esa es una pequeña lista de cuestiones que debemos tener presente cuando pensamos en igualdad de género. Existe un gran número de consideraciones relativas a los derechos humanos y el VIH/SIDA y que afectan el desarrollo. Me gustaría llamar la atención sobre dos notas publicadas en la Folha de São Paulo. La primera dice que la ONU llama a prefectos para poner lazos rojos en puntos turísticos de sus ciudades, para marcar el Día Mundial de Lucha contra el SIDA. La segunda coloca que Algunos prefectos de determinados partidos no se pondrán los lazos rojos, porque creen que el rojo es un color que está asociado al partido de oposición. La cuestión es que ese partido que no va a colocarse el lazo rojo también trabaja en la prevención, en el tratamiento y en todas las cuestiones del SIDA ¿Es posible que nos dividamos por causa del color del lazo, por causas partidistas o vamos a avanzar porque creemos que tenemos un ideal común a pesar de las diferencias políticas, económicas, sociales y culturales? Refiriéndome todavía a las MDMs, quiero llamar la atención para la cuestión del combate al VIH/SIDA, la malaria y la tuberculosis, que es el objetivo del Fondo Global y de ONUSIDA. Todos los estados miembros de la ONU firmaron el acuerdo, lo que significa que todo el mundo dice que está de acuerdo, el Banco Mundial está envuelto, así como los gobiernos del Norte y del Sur. Pero todavía falta dinero por lo que debemos cuestionar qué tipo de compromiso es ese. Apagando décadas de progreso Analizando el SIDA y su impacto sobre la expectativa de vida, podemos observar que en muchos países la epidemia está apagando décadas de progreso. Por ejemplo: la expectativa de vida media en África es en la actualidad de 47 años, cuando podría ser de 62 años. La expectativa de vida en Botswana cayó a niveles nunca visto desde antes 1950. 32 Antes de ser transferida en el 2001 por la ONU para Brasil, trabajé en Angola durante la guerra por tres años como representante del Fondo de Población de las Naciones Unidas. Lo que tratábamos de hacer, era que el gobierno entendiese la dinámica poblacional teniendo en cuenta las estimativas de prevalencia de SIDA y cómo procedería eventualmente el país cuando llegase la paz. La paz fue alcanzada en el 2002, pero la esperanza de vida no va a crecer porque el retorno hacia las tierras de origen y la emigración de los soldados para regiones dentro y fuera del país, hace con que aumente el riesgo de transmisión del VIH, creándose una inmensa amenaza para la población y para cualquier plan de desarrollo. Veamos la emigración en África Austral: además de las guerras y los desastres naturales, existe una verdadera negación de la epidemia de SIDA. Tenemos la obligación de pensar, no sólo en África, sino también en Rusia, China y en otros países considerados con epidemias emergentes, así como en Brasil y también en las regiones que aún no fueron alcanzadas. Muchos de los países más afectados por la epidemia son democracias recientes, o sea, los gobiernos necesitan de esfuerzos para alcanzar la confianza de sus ciudadanos. Graves problemas económicos y sociales colocados por la epidemia de SIDA pueden amenazar a la propia democracia. Tenemos que hacer esas reflexiones cuando pensamos en acciones aquí en Brasil y también, para orientar las acciones de cooperación técnica horizontal. Son evidentes las amenazas de la epidemia en cualquier estado miembro de la ONU. Aquí sólo listamos algunas: la cuestión de los sistemas de salud que pierden a los profesionales debido a la epidemia, el aumento del número de personas enfermas que presionan la estructura de los servicios de salud, las empresas que pierden a sus trabajadores por causa del SIDA que se traducen en pérdidas significativas, es decir, la pérdida de transmitir conocimientos para otros trabajadores o a otras regiones. SIDA Y DESAROLLO AIDS E DESENVOLVIMENTO Movilización de liderazgos políticos Para crear una colaboración mundial para el desarrollo, será necesario movilizar diversos liderazgos políticos (stakeholders) para que los planes y programas nacionales de desarrollo incluyan en sus promesas el compromiso con la prevención y el tratamiento del SIDA. Esa colaboración mundial debe involucrar, además de la cooperación con los países desarrollados, también a los países en vía de desarrollo, a la industria farmacéutica y a la sociedad civil. No es posible que continuemos pensando que es suficiente convidar a los líderes de los mercados financieros como son los de las bolsas de valores de Japón, de Singapur, de Nueva York, de Paris y de Frankfurt o a los gobernantes de cualquier partido, donantes y liderazgos políticos, para una conferencia sobre SIDA con la intención de promover el conocimiento entre los líderes y estimular a que incluyan en sus agendas el enfrentamiento de la epidemia del SIDA como una de sus prioridades. Muchas de esas personas niegan la realidad, pero nosotros tenemos la responsabilidad de hacer eso porque entendemos de la cuestión. No existe un consenso a lo que se refiere ver al SIDA como una amenaza al desarrollo. Determinados grupos y países no entienden que las cuestiones epidemiológicas y demográficas realmente van a impactar, no creen que todos tienen derechos humanos y no analizan el hecho de que su discriminación tendrá un efecto negativo en el desarrollo global. Esas son las personas que necesitan ser movilizadas. Pero, ¿quiénes son esas personas en el mundo globalizado? La globalización tiene como principal característica la integración, en la cual, amenazas y oportunidades están interconectadas de forma creciente por un sistema de comunicación que abarca todo el planeta, desde que se tenga acceso a la Internet. Freidman (2000), describe en su texto la impor tancia de entenderse las superCOMPARTIENDO AGENDAS COMPARTILHANDO AGENDAS potencias, los superpotencializados y los supermercados globales con la idea de afectar al cambio. De acuerdo con ese análisis, un individuo superpotencializado puede producir impacto en las superpotencias por medio del uso creativo de las comunicaciones, como fue el caso del ganador del Premio Nóbel de la Paz de 1997, Jody Williams. De hecho, el movimiento de SIDA tuvo un progreso similar en todo el mundo referente a advocacy. No estamos incluyendo a esas personas superpotencializadas en nuestro esfuerzo. Queremos influenciar a las personas que invierten en las bolsas de valores a nivel global, que invierten en los laboratorios que fabrican los medicamentos, que hacen marketing de los medicamentos, que influencian los costos de prevención y tratamiento, es decir, esas personas tienen que entender lo que ellos están llevando para el mundo. Tenemos la obligación de hacer eso. No podemos decir yo soy epidemiólogo e hice mi parte o yo represento a la ONU e hice mi parte. Ese no es el camino. Es necesario planificar, a mediano y largo plazo, las estrategias de advocacy que vamos a utilizar. El SIDA no es la enfermedad del mes. Estamos hablando de una amenaza al desarrollo mundial. REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS AIDS The next wave. The Economist, 17 de outubro de 2002 FREIDMAN,T. L. The lexus and the olive tree. New York: Anchor Books, 2000 Declaração de Compromisso sobre o VIH/SIDA, 2001: http://www.unAIDS.org/UNGASS/index.html Discurso de Peter Piot na Cúpula Mundial para o Desenvolvimento, Johanesburgo, 30/8/2002: http://www.unAIDS.org/whatsnew/speeches/ eng/2002/piot300802WSSD.html Fundo Global de Luta contra a AIDS, Tuberculose e Malária: http://www.globalfundatm.org/ HIV/AIDS, Human Resources and Sustainable Devel opment, 2002: http://www.unAIDS.org/ whatsnew/conferences/wssd/ WSSD2002UNAIDS_en.pdf Metas de Desenvolvimento do Milênio: http:// www.undp.org.br Report on the global HIV/AIDS Epidemic, 2002: http:// www.unAIDS.org/barcelona/presskit/report.html 33 33 AIDS: uma questão de desenvolvimento? Solange Rocha Jornalista, educadora e coordenadora de programas do SOS Corpo, Gênero e Cidadania ([email protected]) 34 AIDS E DESENVOLVIMENTO A epidemia de AIDS traz fortes reflexões para as páginas da história, que tem registrado os sobressaltos a cada surpreendente percepção de que a epidemia está fora de controle e de que a cronificação da doença sonhada por Betinho no vídeo O Dia da Cura (1), seis anos antes do anúncio do coquetel, quase se torna uma realidade. E esse quase está relacionado, primeiramente, ao tanto que os homens e as mulheres soropositivas suportam ao tomar tantos medicamentos, e o quanto a qualidade de vida está associada às condições de bem-estar social oferecidas à população do planeta. Olhando a questão por esse enfoque, as possibilidades para o enfrentamento da epidemia de AIDS passam a ter que ser repensadas cotidianamente a partir dos questionamentos sobre qual é o projeto de desenvolvimento que queremos para a humanidade e que garantias temos para usufruto dos direitos humanos. O debate sobre as causas estruturais do crescimento da epidemia de AIDS é uma agenda que, de fato, nunca foi abandonada pelos movimentos sociais que lutam contra ela. Por outro lado, tampouco foi apropriada pelos diversos segmentos desse campo. No entanto, é um debate que tem sido constantemente revisado por alguns atores sociais na busca de respostas para entender e para apontar caminhos de controle para uma epidemia que afeta tantas pessoas no mundo. Nos últimos 60 anos, o conceito do que é desenvolvimento mudou, foi ampliado, revisado e fortemente disputado pelos governos, pelas instituições multilaterais, pela academia e pelos movimentos sociais. Na última década, a ONU, nesse cenário de disputa, liderou o chamado Ciclo de Conferências das Nações Unidas, colocando em pactuação a agenda social do planeta na busca da consolidação e da efetivação de direitos e dos compromissos de chefes de Estado com políticas públicas mais eficazes. quais são os caminhos para um projeto de desenvolvimento que garanta o usufruto dos direitos humanos, diminuindo assim as vulnerabilidades para a AIDS? Quem são os atores dessa história? E, No entanto, ainda perguntamos: COMPARTILHANDO AGENDAS 35 ainda nessa direção, qual é a atual agenda do movimento social? Este texto procura lançar luzes para esse debate, e, como é um debate em construção, é um texto que não tem pretensões de responder questões, mas procura colaborar na busca dessas respostas. Ressaltando alguns dados Diariamente, cerca de 14 mil pessoas são infectadas pelo HIV no mundo. Desde o início da epidemia, 20 milhões de pessoas faleceram e estima-se que, atualmente, 40 milhões estejam vivendo com HIV/AIDS. Até julho de 2002, 13 milhões e 400 mil crianças ficaram órfãs em decorrência da AIDS, e até 2010 a doença terá deixado na orfandade 25 milhões de crianças. Trinta e sete milhões de soropositivos/as estão à espera de atenção médica adequada nos países pobres. Trinta milhões estão na África Sub-Saariana e, desses, apenas um em cada mil recebe tratamento. Estima-se que na Ásia 5 milhões e 600 mil pessoas estejam infectadas pelo HIV; Rússia e China estão em franca imersão na epidemia. A China já reporta 7 milhões e 100 mil casos, e há indícios que apontam a disseminação na Rússia como a mais alta do mundo: em menos de três anos, duplicou-se o número de infectados/as. No território da ex-União Soviética, pelo menos um milhão de pessoas estão soropositivas. Segundo projeção da Organização Mundial da Saúde, 70 milhões de vidas estarão afetadas nos próximos 20 anos, caso não seja implementada uma ação eficaz em nível mundial para deter sua propagação (2). Duas décadas após a notificação dos primeiros casos de AIDS no Brasil, e apesar de todos os esforços no campo das políticas públicas, o que estamos vivenciando é o crescimento da epidemia nas populações pobres e, dentre elas, são as mulheres negras as mais atingidas, tanto para a incidência de HIV, quanto no que se refere à morbidade e mortalidade por AIDS. Entendemos que a vulnerabilidade feminina para a epidemia de AIDS tem aspectos biológicos, todavia são fortemente influenciados por aspectos sociais, políticos e econômicos decorrentes de um modelo de desenvolvimento que aumenta as desigualdades de gênero e ameaça cotidianamente o usufruto de direitos. 36 AIDS E DESENVOLVIMENTO Dados emitidos pelo Ministério da Saúde no ano de 2002 apontam um processo de desaceleração da epidemia, indicando uma menor incidência da doença entre homens e mulheres. Contudo, para as mulheres, a redução só é real no Sudeste. Nas demais regiões, a epidemia continua crescendo. Entre 1995 e 1998, a mortalidade também apresentou queda, diminuindo cerca de 6,55% em todo o Brasil. Porém, cresceu em 0,72% entre mulheres no Nordeste; 2,78%, no Norte. Esse crescimento tem diferente justificativa. No entanto, em algumas localidades é significativo o impacto da desigualdade e da falta de acesso a políticas sociais, como ocorre no Norte e no Nordeste. (3) O Governo brasileiro vem desenvolvendo políticas que visam a diminuição da incidência do HIV decorrente da transmissão vertical. Apesar disso, a desaceleração da disseminação do vírus, por essa via, ainda não atingiu o resultado desejado. Em 2001, apenas cerca de 30% das mulheres gestantes soropositivas fizeram uso do tratamento com AZT, que possibilita diminuir a transmissão do HIV da mãe para o filho. É baixa a captação da gestante no primeiro trimestre da gravidez, pela ausência de pré-natal durante esse período e do aconselhamento adequado para o diagnóstico precoce. (4) Contudo, o Brasil é exemplo no mundo por ter um programa que está dando boas respostas. O caso brasileiro virou modelo exportação. Ativistas brasileiros/as afirmam que o Brasil tem um bom programa, comprometido com os direitos humanos e com o bom diálogo com a sociedade civil organizada. Porém, é um programa realizado num contexto de reforma neoliberal do Estado, no qual instituições governamentais foram privatizadas e, em especial, a saúde teve investimentos cortados, sucateando os serviços. Esse é um contexto que deixa muitas dúvidas sobre sua sustentabilidade futura e sobre até que ponto o Brasil tem controle sobre uma epidemia que cresce invisivelmente no seu interior pobre. Um indicador importante é o acesso universal aos medicamentos, que, diante da desigualdade social e econômica, enfrenta problemas em relação à adesão, pois apesar do tratamento ser ofertado gratuitamente, em muitas regiões o fato de as pessoas não terem o que comer deixaas impossibilitadas de darem uma boa resposta à terapêutica. COMPARTILHANDO AGENDAS 37 O que estamos disputando? Na década de 90, o conceito de vulnerabilidade, na perspectiva dos direitos humanos trabalhado por Jonathan Mann (5), tira dos indivíduos a responsabilidade pela infecção e põe as diretrizes para o enfrentamento da epidemia da AIDS numa relação mais complexa que visibiliza desigualdades e clama por construção de cidadania. Tanto o conceito de Mann, quanto os conceitos de direitos reprodutivos e direitos sexuais, desenvolvidos pelo movimento feminista, mudam os paradigmas do debate sobre saúde pública, deslocando a discussão de um campo biologizado e medicalizado para o campo político e do direito. Essa é uma inflexão importante que reconstrói o discurso sobre as questões da saúde, politizando e ampliando esse conceito, dando oportunidade para buscar entendimento sobre as causas estruturais de processos de doença, destacando para tanto as questões sociais e desvelando as desigualdades em que vive a maioria da população do planeta. No que diz respeito à epidemia de AIDS, essa é uma perspectiva que amplia a percepção dos impactos da doença para além da vida cotidiana das pessoas. A epidemia de AIDS é um dos problemas mais contundentes que afetam o desenvolvimento dos países, impactando fortemente a produção e a economia, estagnando o crescimento das populações, revelando a não efetivação dos direitos humanos. Problema esse que foi agravado com a publicação do último balanço feito pelo Programa de AIDS das Nações Unidas (UNAIDS) (6). Esse relatório foi bastante pessimista, afirmando que a epidemia de AIDS está, sim, fugindo ao controle. Essas afirmações não chegam a ser uma grande novidade para quem vive o cotidiano da epidemia, mas muda de patamar quando ela é falada coletivamente em espaços políticos e, sobretudo, quando é ratificada por um programa das Nações Unidas, especificamente direcionado para o acompanhamento da questão. Os problemas sociais que ora estamos apontando, são originados de projetos políticos históricos que constróem desigualdades em todo o mundo. O conceito de desenvolvimento é parte dessa disputa, na qual cada sujeito fala a partir de uma perspectiva e de um lócus particular de interesses que nem sempre são 38 AIDS E DESENVOLVIMENTO públicos , e de como está situando determinado problema no mundo e no tempo. Quando se fala de desenvolvimento e AIDS, fala-se de quê? A busca é a construção de um mundo possível de viver, com as pessoas felizes, podendo usufruir de direitos, vivendo plenamente sua sexualidade, tendo acesso à informação, fazendo prevenção, vivendo com HIV ou AIDS com dignidade e a idéia de desenvolvimento é a possibilidade de poder viver com direitos e bem-estar. qualidade de vida. Então, O conceito de desenvolvimento (7) no pós-guerra, nos anos 40, foi elaborado para o resgate da economia e reconstrução da Europa. Naquela época, foram criadas, com a liderança dos Estados Unidos, as instituições financeiras multilaterais Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial , com o objetivo de financiar o desenvolvimento econômico. O desenvolvimento começa, a partir de então, a ser entendido como econômico, trazendo consigo a lógica e as regras do mercado. Duas décadas depois, diante dos impactos no mundo do que significou o desenvolvimento, nessa perspectiva econômica, inicia-se uma busca para uma alternativa de desenvolvimento que pudesse lidar com os problemas sociais que impeliam por soluções. O desenvolvimento econômico trouxe a emergência da concentração de riqueza de uma economia capitalista, e conseqüentemente foi responsável por uma concentração de poder, acarretando a produção de desigualdades e de anseios dos países mais pobres em chegarem a ser desenvolvidos, ou seja, ricos. Diante da percepção de que essa ascensão não é possível, ou pelo menos não é fácil, com um modelo tão desigual, inicia-se a busca de outras respostas para os males sociais. Entretanto, a lógica econômica não é abandonada, e busca-se construir alternativas para uma outra dimensão dos problemas da vida cotidiana. Começa-se a falar em desenvolvimento social. Nos anos 80, o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD) elabora o conceito de desenvolvimento humano, no qual todas as pessoas são sujeitos e beneficiadas pelo desenvolvimento. Essa perspectiva engloba desde necessidade básicas até direito a uma vida saudável e segura. O conceito de desenvolvimento sustentável aparece na década seguinte, trazendo a demanda dos ambientalistas por um mundo onde a natureza possa COMPARTILHANDO AGENDAS 39 ser preservada, cultivando assim o futuro das próximas gerações. Inicialmente, esse conceito esteve bastante focado nos recursos ambientais, nos quais os demais movimentos sociais não se sentiam contemplados, ideologicamente. Essa disputa levou a um alargamento do conceito passando-se a entender desenvolvimento como um sistema de produção no qual se garanta o equilíbrio de recursos naturais e no qual as pessoas possam trabalhar dignamente sem exploração, possibilitando uma sustentabilidade das intervenções, sendo essa justa, participativa e democrática, promovendo mudança dos direitos humanos. O conceito de desenvolvimento sustentável, que poderíamos tomar como possibilidade de um mundo mais justo, não se consolida como uma possibilidade para a maioria das pessoas do mundo, e um dos motivos são as conseqüências da adoção das políticas de ajuste, bastante óbvias: manutenção da concentração de renda (o Brasil é um dos países que mais concentra renda no mundo), aumento da pobreza, diminuição da ação do Estado, redução drástica de recursos aplicados em políticas sociais. Contudo, não podemos esquecer que as políticas de desenvolvimento de cada país não são definidas apenas internamente; o processo mundial de globalização torna essa relação dependente e articulada com os processos mundiais. Todavia, tais processos não são igualitários, as inserções e o peso de cada país são diferentes e desiguais . (8) Nessa disputa, o conceito de desenvolvimento que pode propiciar a tal igualdade e felicidade, alimenta e constrói uma sociedade civil organizada aguerrida, com movimentos sociais fortes e também globalizados, nos quais, nesse sentido, a globalização fortaleceu os atores desse campo, circulando informações, lutas e dando agilidade nessa disputa. Caminhos possíveis Na década de 90, a Organização das Nações Unidas realizou o chamado Ciclo de Conferências abordando as prementes questões sociais, como estratégia de equilibrar, de neutralizar e de buscar caminhos para manutenção e conquista de direitos. Destacamos especialmente as conferências sobre População e Desenvolvimento (Conferência do Cairo) e a da Mulher, em Beijing. Tanto as 40 AIDS E DESENVOLVIMENTO Plataformas de Ação de Cairo quanto a de Beijing colocam a questão da epidemia de AIDS como sendo importante e que deve ser enfrentada, merecendo atenção especial dos governos e da sociedade civil organizada. Nessa década, cresce, ainda, o movimento mundial da luta contra a epidemia de AIDS, construindo também sua plataforma de luta nas várias conferências temáticas internacionais. No entanto, foi a Sessão Especial sobre AIDS na ONU, a UNGASS, em junho de 2001, que a plataforma internacional passa a ter relevância e compromisso junto aos Estados nacionais signatários das Nações Unidas. Essa é uma agenda que marca um novo momento na luta contra a epidemia A plataforma da UNGASS, negociada por uma centena de países, é histórica. É um chamado para que a comunidade internacional e seus mecanismos de apoio e controle se posicionem e trabalhem para que milhões de pessoas não morram em razão da AIDS. de AIDS e rompe os limites da busca de respostas só no campo da saúde. É nesse contexto que governantes afirmaram na 14ª Conferência Internacional de AIDS/ 2002, realizada em Barcelona, que o Fundo Global para HIV/AIDS, Malária e Tuberculose (9), fruto dos acor dos de UNGASS, é um bem público internacional, enquanto ativistas de todo o mundo perguntam: onde estão os prometidos US$ 10 bilhões que o G8 precisa alocar no fundo para os projetos de países pobres onde a Qual o real compromisso dos países de renda alta e média com o desenvolvimento sustentável desses países pobres quando conti nuam executando políticas neoliberais e os ajustes que privatizam o bem público e se rendem a um mercado globalizado, pauperizando ainda mais as populações que já estão fora do acesso a uma vida com dignidade e q u a l i d a d e ? Como os países vão se enfrentar com os preços dos epidemia está exterminando populações? COMPARTILHANDO AGENDAS 41 medicamentos que não têm lógica de mercado diante da necessidade e sim do poder de negociação? Nessa conferência, chefes de Estado afirmavam que a epidemia de AIDS, por ser universal, é de responsabilidade internacional, e que também nenhuma ação para combatê-la pode passar ao largo da convenção dos direitos humanos. Porém, o que se escuta nessas várias conferências e cúpulas não passa de um exercício de retórica sem que haja nenhuma mudança real. Hoje, a única ação efetiva internacional que envolve todos os atores que lutam contra a epidemia de AIDS é o Fundo Global. Porém, para além da captação dos recursos desse fundo, que realiza uma política compensatória, não vimos ainda acontecer um pacto internacional de acabar com a fome e a miséria do mundo só assim poderíamos entender que esse fundo é, de fato, uma ajuda humanitária. No campo internacional, a epidemia de AIDS assume especial relevância nos processos do sistema ONU, nas relações com as instituições financeiras multilaterais e com a Organização Mundial do Comércio (OMC). Nos últimos anos, a OMC tem tido um peso muito importante nessa discussão, conseqüência não apenas da influência das relações comerciais nos processos de desenvolvimento, como também dos contornos que a epidemia de AIDS tem assumido, nos quais a questão dos medicamentos passa a ser central na implantação de políticas públicas nesse campo. E, assim, o debate internacional sobre desenvolvimento tecnológico e propriedade intelectual busca brechas no Acordo TRIPS (Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights), através da possibilidade de se quebrar patentes, sempre que houver emergência de saúde pública. Essa situação revela a face perversa das concepções que restringem a noção de desenvolvimento a crescimento econômico, pois se até então a AIDS era assunto exclusivo dos ministérios da Saúde, com a discussão das patentes passa a ser debatida no campo econômico, onde a maior preocupação é o lucro que se pode obter desse comércio injusto em O debate sobre as patentes abre espaço para se discutir muitos dos acordos comerciais internacionais e também o próprio detrimento da vida das populações. 42 AIDS E DESENVOLVIMENTO sentido da OMC como uma instância que define de modo pouco democrático os rumos do desenvol vimento mundial. (10) Agendas do movimento Para as mulheres, o chamado é para que a comunidade internacional priorize a agenda que visibilize as reivindicações do movimento, centradas no respeito aos seus direitos reprodutivos e sexuais, e na exigência de que sejam feitas pesquisas que apontem as diferenças de respostas orgânicas aos medicamentos anti-retrovirais entre homens e mulheres, no caso da AIDS. No que se refere à prevenção, a camisinha feminina é reconhecida como a melhor e mais eficaz forma de proteção. No entanto, o acesso ainda é restrito, e é baixo o grau de informação para as usuárias. Para o ativismo na luta contra a AIDS, a agenda política passa a ter grandes desafios no atual contexto nacional e internacional. Estamos vivendo uma grande mudança. Nos últimos dois anos, têm ocorrido importantes acontecimentos no mundo, protagonizados pelo Brasil . O primeiro deles, é o Fórum Social Mundial, espaço político que tem se revelado como um importante revitalizador do movimento social, que pensa estratégias de enfrentamento para as mais diversas causas dos problemas que atingem o planeta. É um espaço importante, ainda, para o reconhecimento das diversas faces da sociedade civil organizada, questionando o que é que está sendo feito e o que se está disputando com outros atores, e também dentro do próprio movimento. Esse é um importante espaço de conflito e de enfrentamentos. No âmbito do Fórum Social Mundial, o tema AIDS foi inexistente, em seus dois primeiros anos; em 2003, o movimento se organizou e essa questão passou a ter mais visibilidade. Acreditamos que um novo mundo é possível, mas também acreditamos que, para isso, há urgência de que se incluam respostas para o controle da epidemia de AIDS. A segunda grande mudança foi a eleição do Lula, que trouxe um impacto grande nas nossas vidas e no mundo, mudou a agenda, mudou o olhar antes COMPARTILHANDO AGENDAS 43 prioritariamente focado no desenvolvimento econômico para um olhar sobre os problemas sociais que esse país enfrenta. E nesse sentido, quando o sociólogo Chico de Oliveira escreve um artigo para a Folha de São Paulo (outubro de 2002) dizendo que a vitória do Lula é uma espécie de refundação do Brasil, um marco comparável apenas a outros três momentos históricos: a Abolição, a Proclamação da República e a Revolução de 30, alimenta o desejo de continuar na luta ativista, olhando para nossas causas, para a epidemia de AIDS, para a ausência de direitos, a permanência da discriminação e de preconceitos, temas muitas vezes duros, densos, por vezes complicados. E esse é um olhar que busca sinergias, clama por saídas e constrói um sentimento de fortalecimento dos movimentos sociais. É um momento importante e que exige muito trabalho e fortalecimento das instituições da sociedade civil organizada. É um momento de reafirmação de identidade e construção de novos pactos diante dos compromissos com a antiga e, muitas vezes, reformulada agenda política. É acreditar que é possível um projeto de desenvolvimento de um mundo mais justo. 44 AIDS E DESENVOLVIMENTO NOTAS (1) Vídeo baseado no artigo O Dia da Cura, de Herbert de Souza (Betinho), 1994. (2) ROCHA, Solange; GUIMARÃES, Kátia; NILO, Alessandra: LINDNER, Liandro. Um mundo uma luta. www.aids2003.net / III FSM 2002 (3) Boletim epidemiológico CN DST e AIDS - Ministério da Saúde, outubro de 2002 (4) ROCHA, Solange. Mulher e AIDS (folder) - Rede Feminista de Saúde, 1/12/2002 (5) Autor dos livros AIDS no mundo I (1992) e AIDS no mundo II (1996). (6) Relatório apresentado na 14ª Conferência Internacional de AIDS, Barcelona, junho de 2002 (7) CAMURÇA, Silvia. Qual desenvolvimento queremos? (texto de apoio). Projeto Pólos de Observação do Desenvolvimento na Zona da Mata de Pernambuco, 2002. (8) GOUVEIA, Taciana; ROCHA, Solange. A AIDS no contexto do desenvolvimento socioeconômico do Brasil (mimeo), 2002. www.aids2003.net/ III FSM 2003 (9) Esse fundo foi anunciado na sessão especial da ONU sobre AIDS UNGASS (julho de 2001), e se propõe a arrecadar U$ 10 bilhões com países doadores, Banco Mundial, Fundação Gates e outras instituições internacionais para serem repassados através de aprovação de projetos para países fortemente afetados pela epidemia. O Brasil compõe o grupo de trabalho do fundo e se posiciona como doador de tecnologia. (10) GOUVEIA, Taciana. ROCHA, Solange. A AIDS no contexto do desenvolvimento socioeconômico do Brasil (mimeo), 2002.. www.aids2003.net/ III FSM 2003 COMPARTILHANDO AGENDAS 45 AIDS: A QUESTION OF DEVELOPMENT? Solange Rocha Journalist, educator and program coordinator at SOS Corpo, Gênero e Cidadania ([email protected]) The AIDS epidemic has made a strong mark on the pages of history, which register the shock felt at each and every surprising realization that the epidemic has gotten out of control and that the time-framing of the disease as dreamed by Betinho in the video The Day of the Cure (1), six years before the cocktail was announced, has almost become a reality. And this almost is primarily related both to what seropositive men and women suffer on taking so much medication and to the quality of life associated with the conditions of social welfare that are available to people all over the world. Examining the question from this perspective, the possibilities of facing the AIDS epidemic need to be reconsidered every day based on the development project we choose for humanity and on the assurance that human rights will be respected. The debate on the structural causes of the growth of the AIDS epidemic is an agenda that has never really been abandoned by the social movements that combat it. On the other hand, neither has it been adopted by the various segments of this field. It is nonetheless a debate that has constantly been revised by some social actors in the quest for answers in order to understand and point to ways to control an epidemic that affects so many throughout the world. Over the last 60 years the concept of development has changed, been broadened and revised and fiercely disputed by governments, multilateral institutions, academia and social movements. Over the last decade the United Nations led the socalled Conferences Cycle that voted on the 46 46 social agenda of the planet in the pursuit of consolidation and materialization of rights and the pledges made by heads of state with regard to more effective public policies. And yet, we still wonder what paths can lead to a development project that guarantees that human rights are respected, thereby diminishing vulnerability to AIDS? Who are the actors in this story? And also, what is the current agenda of the social movement? This paper sets out to shed some light on this debate. Since this is an ongoing debate, the text has no pretensions to answer questions but tries rather to collaborate in the search for these answers. Some essential data Every day, about 14 ,000 people are infected by HIV worldwide. Ever since the epidemic broke out, 20 million people have died and 40 million are estimated to be living with HIV/AIDS. Up to July 2002, 13,400,000 children had been orphaned as a result of AIDS, and by 2010 the disease will have left 25 million children without parents. In the poor countries, 37 million seropositive men and women await proper medical care. Thirty million of these are in Sub-Saharan Africa, where only one in every thousand receives treatment. It is reckoned that 5,600,000 are infected by HIV in Asia, while both Russia and China are clearly being immersed by the epidemic. China has already reported 7,100,000 cases and there are signs that the epidemic is spreading in Russia faster than anywhere else in the world: the number of people infected has doubled in less than three years. In the territory of the former Soviet Union, at least one million AIDS AIDS E DESENVOLVIMENTO AND DEVELOPMENT people are seropositive. According to projections made by the World Health Organization, 70 million lives will be affected over the next 20 years, if efficacious action is not implemented on world scale to curb the spread of the epidemic (2). Two decades after the first cases of AIDS were reported in Brazil, and in spite of all the efforts in the field of public policies, what we are now witnessing is the growth of the epidemic among the poorer segments of the population, with black women being the most affected both in terms of incidence of HIV and with regard to morbidity and mortality on account of AIDS. Our understanding is that feminine vulnerability to the AIDS epidemic has biological aspects that are heavily influenced by social, political and economic aspects as a result of a model of development that aggravates gender inequality and poses a daily threat to human rights. Data issued by the Ministry of Health in 2002 point to a deceleration process of the epidemic, indicating a lower incidence of the disease among men and women. Nevertheless, for women this reduction only holds true for the Southeast of the country. In the other regions the epidemic is still growing. Between 1995 and 1998, mortality also presented a decrease of about 6,55% throughout the country. But it grew 0,72% among women in the Northeast and 2,78% in the North. There is a different justification for this growth. However, in places like the North and Northeast there is a significant impact of inequality and lack of access to social policies. (3) The Brazilian government has been developing policies aimed at lowering the incidence of HIV as a result of vertical transmission. Despite this, the deceleration of the spread of the virus by this means has not yet achieved the desired result. In 2001, only about 30% of seropositive pregnant women used the treatment with AZT, which can reduce the transmission of HIV from mother to child. The number of women reached in the first trimester of pregnancy is SHARING COMPARTILHANDO AGENDAS AGENDAS low, because of the absence of prenatal care during this period and proper counseling for early diagnosis. (4) Yet Brazil is admired by the rest of the world for having a program that is yielding fine results. The Brazilian case has become a model for export. Brazilian activists claim that Brazil has a good program that is committed to human rights and a rich dialogue with organized civil society. However, this is a program carried out in a context of neoliberal reform of the State, after privatizing governmental institutions and where the health area in particular suffered cuts in investments that led to services being scrapped. This is a context that leaves many doubts as to its future sustainability and as to how far Brazil has control over an epidemic that grows invisibly in its impoverished interior. One important indicator is universal access to medications; in the light of social and economic inequality, this universal access faces problems with regard to adhesion because despite the treatment being free of charge, in many regions the fact that the people have nothing to eat makes it impossible for them to respond well to the therapy. What are we disputing? In the 90s the concept of vulnerability, from the perspective of human rights envisaged by Jonathan Mann (5), exonerated individuals from the responsibility for the infection and presented the guidelines for facing the AIDS epidemic within a more complex context that exposes different forms of inequality and demands respect for the rights of the citizen. Both the concept proposed by Mann and those of reproductive and sexual rights developed by the feminist movement altered the paradigms of the debate on public health, switching the discussion from the area of biology and medicine to the sphere of policy and rights. This important inflection has reconstructed the discourse on health issues 47 47 by politicizing and amplifying this concept and allowing an opportunity to seek an understanding of the structural causes of disease processes. Accordingly, social questions are stressed, and emphasis is laid on the inequality in which most of the worlds population lives. As regards the AIDS epidemic, this is a perspective that conveys the perception of the impacts of the disease beyond peoples daily lives. The AIDS epidemic is one of the most devastating problems to affect the development of nations, with its powerful influence on production and the economy, stagnating the growth of the population as it does and showing how human rights are disrespected. This problem was aggravated by the last report published by the United Nations AIDS Program (UNAIDS) (6), which is quite pessimistic in its assertion that the AIDS epidemic is definitely getting out of control. Such statements come as nothing new for those who experience the epidemic on a daily basis, but this changes considerably when spoken of openly in political spaces, and especially when ratified by a United Nations program that is specifically designed to accompany the matter. The social problems that we are referring to originate in past political projects that helped to shape inequality all over the world. The concept of development is part of this dispute, with subjects talking from a particular perspective and locus of interests (not always public) about how they define a given problem in the world and in time. When one speaks of development and AIDS, what exactly is the relationship? The aim is to build a possible world where people are happy and able to enjoy their rights, exercising their sexuality to the fullest, having access to information, practicing prevention, living with HIV or AIDS with dignity and a decent quality of life. So the idea of development is the possibility of being able to live with rights and welfare. The concept of development (7) in the post-war period of the 40s was devised to 4488 recover the economy and reconstruct Europe. At that time, under the leadership of the United States, the multilateral financial institutions of the International Monetary Fund and the World Bank were founded for the purpose of financing economic development. As of then, development began to be understood in economic terms, with all the logic and rules of the market . Two decades later, in the face of how development in this economic perspective impacted the whole world, efforts are being made to find an alternative form of development that can deal with the social problems crying out for solutions. Economic development brought with it the concentration of wealth that characterizes capitalist economy, and consequently was responsible for a concentration of power that led to different forms of inequality and the hopes of poor countries one day to achieve development that is, become rich. With the realization that this social ascent is not possible, or at least is not easy, with such an unequal model, other answers are sought to these social ills. However, the economic logic is not discarded, and attempts are made to build alternatives to another dimension of the problems of daily life. Social development becomes the new topic. In the 80s the United Nations Development Program (UNDP) elaborated the concept of human development, where all people are subjects and beneficiaries of development. This perspective embraces a gamut that ranges from basic necessities to the right to a healthy and safe life. The concept of sustainable development appears in the following decade, containing the demand of the environmentalists for a world where nature can be preserved, thereby cultivating the future of the generations to come. At first this concept focused primarily on environmental resources, where ideologically speaking the other social movements felt excluded. This dispute led to an amplification of the concept to consider AIDS AIDSEAND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT development as a system of production that guarantees the equilibrium of natural resources and where people can work with dignity and without exploitation. This would be a fair, participative and democratic way to foster changes in human rights and make sustainable interventions possible. The concept of sustainable development which we could see as the chance for a more equitable world is not a consolidated possibility for most of the people in the world. One of the reasons for this is the consequence of adopting adjustment policies that are fairly obvious: maintenance of concentration of income (Brazil ranks high in the list of countries that concentrate income), increased poverty, reduced State action, and drastic cuts in resources applied to social policies. Nevertheless, it should not be forgotten that each countrys development policies are not only internally defined; the world process of globalization makes this relation dependent on and articulated with world processes. Nonetheless, such processes are not equalitarian, for the insertions and weight of each country are different and unequal. (8) In this dispute the concept of development that could produce such equality and happiness nourishes and constructs an assertive organized civil society, with strong and globalized - social movements. In this sense, globalization has strengthened the actors in this field by circulating information and making this dispute all the more agile. Possible paths In the 90s the United Nations organized the so-called Conferences Cycle to deal with major social questions as a strategy towards balance and neutralization and to find paths to maintain and conquer rights. Special mention should be made of the Conferences on Population and Development (the Conference of Cairo) and Women (in Beijing). Both the Cairo and Beijing Platforms for Action rank the matter of the AIDS epidemic SHARING AGENDAS AGENDAS COMPARTILHANDO as being important and deserving special attention from governments and organized civil society. This decade also saw the growth of the world movement against the AIDS epidemic, with the preparation of a platform for this struggle in the various international thematic conferences. It was at the Special Session on AIDS at the United Nations UNGASS in June 2001, that the international platform gained relevance and the commitment of the national signatory states of the United Nations. This agenda marked a new movement in the struggle against the AIDS epidemic and put an end to limiting the search for answers to the field of health. The UNGASS platform, negotiated by a hundred countries, is truly historical. It represents an appeal for the international community and their mechanisms of control and support to position themselves and work so that millions of people do not die as a result of AIDS. It was in this context that world leaders affirmed at the 14 th International AI DS Conference held in Barcelona in 2002 that the Global Fund for H IV/AIDS, Malaria and Tuberculosis (9) - the result of the UNGASS agreements - is an international public good, whereas activists all over the world wonder whatever happened to the promise of US$ 10 billion that the G8 has to allocate in the fund for the projects of the poor countries where the epidemic is exterminating entire populations. What is the true commitment of the high and medium income countries towards the sustainable development of these poor countries when they go on practicing neoliberal policies and adjustments that privatize the public good and give in to a globalized market that only aggravates the poverty of the populations that are already excluded from access to a life of dignity and quality? How are countries going to face the prices of drugs that are stipulated by the logic of the market rather than by the need to provide everyone with access to free or inexpensive treatment? 49 49 At this conference, Heads of State declared that the AIDS epidemic, being universal, is an international responsibility and, furthermore, that no action to combat the epidemic can ignore the Human Rights Convention. However, what is heard at these various conferences and summit meetings is no more than an exercise in rhetoric that produces no real change. Today the only effective international action that involves all the actors who struggle against the AIDS epidemic is the Global Fund. Nonetheless, in addition to raising resources for this fund (which adopts a policy of compensation), we have yet to see an international pact to put an end to hunger and misery in the world, which is the only way we could understand this fund to be indeed dedicated to humanitarian aid. In the international field the AIDS epidemic takes on special relevance in the processes of the United Nations system, the relations with multilateral financial institutions and with the World Trade Organization (WTO). In the last few years the WTO has played a very important role in this discussion, as a result not only of the influence of trade relations in processes of development but also of the contours that the AIDS epidemic has assumed, with medication becoming a central issue in the implantation of public policies in this area. And so the international debate on technological development and intellectual property looks for breaches in the TRIPS Agreement (Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights), through the possibility of breaking patents whenever there is a public health emergency. This situation reveals the perverse side of the conceptions that restrict the notion of development to economic growth, because if AIDS was formerly the exclusive responsibility of the various Ministries of Health, the discussion of patents now makes it a motion for debate in the economic sphere, where the major concern is the profit to be obtained from this unfair trade to the 50 50 detriment of the lives of the poor segments of the population. The debate on patents opens the door to discussing many of the international trade agreements as well as the true sense of the WTO as an instance that dictates the direction of world development in a very non-democratic manner. (10) Agendas of the movement As far as women are concerned, the call is for the international community to prioritize an agenda that shows the demands of the movement, focused on respect for their reproductive and sexual rights and on the demand that research be carried out to reveal the difference in mens and womens organic responses to anti-retroviral medicine, in the case of AIDS. With regard to prevention, the female condom is recognized to be the best and most efficacious form of protection. Nevertheless, access is still limited and there is very little information available for users. For activists in the struggle against AIDS, the political agenda faces great challenges in the present national and international context. We are going through great changes. Over the last two years, important happenings have been witnessed, with Brazil playing the role of protagonist. The first is the World Social Forum, a political space which has proved to to be important in revitalizing the social movement in search of strategies to confront the many causes of the problems that afflict our planet. This is also an important forum for recognizing the various facets of organized civil society, questioning what is being done and what is being disputed with other actors, as well as within the movement itself. This is an important space for conflict and confrontation. Within the sphere of the World Social Forum, the AIDS theme was non-existent for the first two years, and then in 2003 the movement became organized and this question gained more visibility. We believe that a new world is possible, but we likewise believe that for this to happen, answers are urgently called for to control the AIDS epidemic. AIDS AIDSEAND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT The second significant change was the election of Lula, bringing a great impact on our lives and throughout the world, changing the agenda, changing the previous focus primarily on economic development to the social problems afflicting the country. And in this sense, when sociologist Chico de Oliveira writes in the newspaper Folha de São Paulo (October 2002) that Lulas victory is a kind of refounding of Brazil, a mark that is comparable only to three other historical moments: the abolition of slavery, the proclamation of the Republic and the Revolution of 1930, he is nurturing the desire to carry on the activist struggle, looking at our causes, at the AIDS epidemic, at the absence of rights, the permanence of discrimination and prejudices, themes that are often hard and dense and sometimes complicated. And this looking seeks synergies, demands solutions and constructs a feeling of strength in social movements. This is an important moment, one that requires a great deal o f work and a strengthening of the institutions of organizes civil society. A moment of reaffirmation of identity and construction of new pacts concerning commitments to the old and often reformulated political agenda. A moment of trust that a development project for a more just world is possible. NOTES (1) Video based on the article O Dia da Cura (The Day of the Cure), by Herbert de Souza ( Betinho) 1994. (2) ROCHA, Solange; GUIMARÃES, Kátia; NILO, Alessandra: LINDNER, Liandro. Um mundo, uma luta (One world, one struggle). www.aids2003.net / III FSM 2002. (3) Boletim epidemiológico (Epidemiological Bulletin) CN DST e AIDS - Ministry of Health, October 2002. (4) ROCHA, Solange. Mulher e AIDS (Women and AIDS) - folder - Rede Feminista de Saúde, 1/12/2002. (5) Author of the books AIDS no mundo I (AIDS in the world I) (1992) and AIDS no mundo II (AIDS in the world II) (1996). (6) Report presented at the 14th International AIDS Conference, Barcelona, June 2002. (7) CAMURÇA, Silvia. Qual desenvolvimento queremos? (What development do we want?) support text). Projeto Pólos de Observação do Desenvolvimento na Zona da Mata de Pernambuco (The Project on Poles of Development in the Forest Zone of Pernambuco), 2002. (8) GOUVEIA, Taciana; ROCHA, Solange. A AIDS no contexto do desenvolvimento socioeconômico do Brasil (AIDS in the context of socio-economic development in Brazil) mimeo), 2002. www.aids2003.net/ III FSM 2003. ( 9) This fund, announced at the special session of the United Nations on AIDS UNGASS (July 2001), proposes to raise U$ 10 billion from donor countries, the World Bank, the Gates Foundation and other international institutions to be transferred to approved projects in countries badly hit by the epidemic. Brazil is a member of the Funds working group and participates as a donor of technology. (10) GOUVEIA, Taciana; ROCHA, Solange. A AIDS no contexto do desenvolvimento socioeconômico do Brasil (mimeo), 2002. www.aids2003.net/ III FSM 2003. COMPARTILHANDO SHARING AGENDAS AGENDAS 51 51 ? SIDA: UNA QUESTION DE DESAROLLO? Solange Rocha Periodista, educadora y coordinadora de programas del SOS Corpo, Gênero e Cidadania ([email protected]) La epidemia del SIDA trajo fuertes reflexiones para las páginas de la historia, que han registrado los sobresaltos a cada sorprendente percepción de que la epidemia está fuera de control y de que la cronificación de la enfermedad soñada por Betinho en el vídeo El Día de la Cura (1), seis años antes del anuncio del cóctel, casi se torna realidad. Y ese casi está relacionado, primeramente, a lo que hombres y mujeres seropositivas soportan al tomar tantos medicamentos, y cuanto la calidad de vida, está asociada a las condiciones de bienestar social ofrecidas a la población del planeta. por la academia y por los movimientos sociales. En la última década, la ONU, en ese escenario de disputa, lideró el llamado Ciclo de Conferencias de las Naciones Unidas, colocando en pacto la agenda social del planeta en la búsqueda de la consolidación y puesta en efecto de derechos y compromisos de jefes de estado con políticas públicas más eficaces. No obstante, todavía nos preguntamos: ¿Cuáles son los caminos para un proyecto de desarrollo que garantice el usufructo de los derechos humanos, disminuyendo así las vulnerabilidades para el SIDA? ¿Quiénes son los actores de esa historia? Y, aún en esa Mirando la cuestión desde ese enfoque, las posibilidades para el enfrentamiento de la epidemia de SIDA pasan a tener que ser repensadas cotidianamente a partir de los cuestionamientos sobre cual es el proyecto de desarrollo que queremos para la humanidad y que garantías tenemos para usufructo de los derechos humanos. El debate sobre las causas estructurales del crecimiento de la epidemia de SIDA es una agenda que, de hecho, nunca fue abandonada por los movimientos sociales que luchan contra ella. Por otro lado, tampoco fue apropiada por los diversos segmentos de ese campo. No en tanto, es un debate que ha sido constantemente revisado por algunos actores sociales en la búsqueda de respuestas para entender y para apuntar caminos de control a una epidemia que afecta a tantas personas en el mundo. En los últimos 60 años, el concepto de lo que es desarrollo cambió, fue ampliado, revisado y fuertemente disputado por los gobiernos, por las instituciones multilaterales, dirección, ¿cuál es la actual agenda del movimiento social? Este texto busca lanzar luces para ese debate, y como es un debate en construcción, es un texto que no tiene pretensiones de responder cuestiones, pero procura colaborar en la búsqueda de esas respuestas. 52 Resaltando algunos datos Diariamente, cerca de 14 mil personas son infectadas por el VIH en el mundo. Desde el inicio de la epidemia, 20 millones de personas fallecieron y se estima que, actualmente, 40 millones estén viviendo con VIH / SIDA. Hasta julio del 2002, 13 millones y 400 mil niños quedaron huérfanos como consecuencia del SIDA, y hasta el 2010 la enfermedad habrá dejado en la orfandad a 25 millones de niños. Treinta y siete millones de seropositivos/as están a la espera de atención médica adecuada en los países pobres. Treinta millones están en África SubSahariana y, de esos, apenas uno de cada mil recibe AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO tratamiento. Se estima que en Asia 5 millones 600 mil personas estén infectadas por el VIH; Rusia y China están en franca inmersión en la epidemia. Ésta última ya reporta 7 millones 100 mil casos, y hay indicios que apuntan la diseminación en Rusia como la más alta del mundo: en menos de tres años, se duplicó el número de infectados(as) En el territorio de la ex-Unión Soviética, por lo menos un millón de personas son seropositivas. Según proyección de la Organización Mundial de la Salud, 70 millones de vidas serán afectadas en los próximos 20 años, en caso de que no sea implementada una acción eficaz a nivel mundial para detener su propagación (2) Dos décadas después de la notificación de los primeros casos de SIDA en Brasil, y a pesar de todos los esfuerzos en el campo de las políticas públicas, lo que estamos viviendo es el crecimiento de la epidemia en las poblaciones pobres y dentro de ellas, son las mujeres negras las más afectadas, tanto por la incidencia del VIH, como en lo que se refiere a la enfermedad y mortalidad por SIDA. Entendemos que la vulnerabilidad femenina para la epidemia del SIDA tiene aspectos biológicos, todavía son fuer temente influenciados por aspec tos sociales, políticos y económicos resultantes de un modelo de desarrollo que aumenta las desigualdades de género y amenaza cotidianamente el usufructo de derechos. Datos emitidos por el Ministerio de Salud en el año 2002 apuntan hacia un proceso de desaceleración de la epidemia, indicando una menor incidencia de la enfermedad entre hombres y mujeres. Sin embargo, para las mujeres, la reducción sólo es real en el Sudeste. En las demás regiones, la epidemia continúa creciendo. Entre 1995 y 1998, la mortalidad también presentó una caída, disminuyendo cerca de 6,55% en todo Brasil. No obstante, creció en un 0,72% entre mujeres en el Nordeste; 2,78%, en el Norte. Ese crecimiento tiene diferente justificación. No en tanto, en algunas localidades es significativo el impacto de la desigualdad COMPARTILHANDO AGENDAS COMPARTIENDO AGENDAS y de la falta de acceso a políticas sociales, como ocurre en el Norte y en el Nordeste. (3) El Gobierno brasileño viene desarrollando políticas que visan la disminución de la incidencia del VIH resultado de la transmisión vertical. A pesar de eso, la desaceleración de la diseminación del virus, por esa vía, todavía no alcanzó el resultado deseado. En el 2001, apenas cerca de 30% de las mujeres gestantes seropositivas hicieron uso del tratamiento con AZT, que posibilita disminuir la transmisión del VIH de la madre para el hijo. Es baja la captación de la gestante en el primer trimestre de la gravidez, por la ausencia de prenatal durante ese período y del consejo adecuado para el diagnóstico precoz.(4) Con todo eso, Brasil es ejemplo en el mundo por tener un programa que está dando buenas respuestas. El caso brasileño se convirtió en modelo de exportación Activistas brasileños/as afirman que Brasil tiene un buen programa, comprometido con los derechos humanos y con el buen diálogo con la sociedad civil organizada. Sin embargo, es un programa realizado en un contexto de reforma neoliberal del Estado, en el cual instituciones gubernamentales fueron privatizadas y en especial, la salud tuvo inversiones cortadas, desechando los servicios. Ese es un contexto que deja muchas dudas sobre su sustento futuro y sobre hasta que punto Brasil tiene control sobre una epidemia que crece invisiblemente en su interior pobre. Un indicador importante es el acceso universal a los medicamentos, que, delante de la desigualdad social y económica, enfrenta problemas en relación con la adhesión, pues a pesar del tratamiento ser ofertado gratuitamente, en muchas regiones el hecho de las personas no tener que comer las deja imposibilitadas de dar una buena respuesta a la terapia. ¿Qué estamos disputando? En la década del 90, el concepto de vulnerabilidad, en la perspec tiva de los derechos humanos trabajado por Jonathan Mann (5), le quita a los individuos la 53 53 responsabilidad por la infección y pone las directrices para el enfrentamiento de la epidemia del SIDA en una relación más compleja que visibiliza desigualdades y clama por la construcción de ciudadanía. Tanto el concepto de Mann, como los conceptos de derechos reproductivos y derechos sexuales, desarrollados por el movimiento feminista, mudan los paradigmas del debate sobre salud pública, dislocando la discusión de un campo biologizado y medicalizado hacia el campo político y del derecho. Esa es una inflexión importante que reconstruye el discurso sobre las cuestiones de la salud, politizando y ampliando ese concepto, dando oportunidad para buscar entendimiento sobre las causas estructurales de procesos de enfermedad, destacando por tanto las cuestiones sociales y desvelando las desigualdades en que vive la mayoría de la población del planeta. En lo que se dice respecto a la epidemia del SIDA, esa es una perspectiva que amplia la percepción de los impactos de la enfermedad más allá de la vida cotidiana. La epidemia del SIDA es uno de los problemas más contundentes que afectan el desarrollo de los países, impactando fuertemente la producción y la economía, estancando el crecimiento de las poblaciones, revelando la no puesta en efecto de los derechos humanos. Problema ese que fue agravado con la publicación del último balance realizado por el Programa de SIDA de las Naciones Unidas (ONUSIDA) (6) Ese informe fue bastante pesimista, afirmando que la epidemia del SIDA está, huyendo al control. Esas afirmaciones no llegan a ser una gran novedad para quien vive el cotidiano de la epidemia, pero cambia de sitio cuando es tratada colectivamente en espacios políticos y sobretodo, cuando es ratificada por un programa de las Naciones Unidas, específicamente dirigido al seguimiento de la cuestión. Los problemas sociales que ahora estamos señalando, son originados de proyectos políticos históricos que construyen 54 54 desigualdades en todo el mundo. El concepto de desarrollo es parte de esa disputa, donde cada sujeto habla a partir de una perspectiva y de un lócus particular de intereses que no siempre son públicos, y de como está situado determinado problema en el mundo y en el tiempo. Cuándo se habla de desarrollo y SIDA, ¿qué se dice? La búsqueda es la construcción de un mundo posible donde vivir, con las personas felices, pudiendo usufructuar derechos, viviendo plenamente su sexualidad, teniendo acceso a la información, haciendo prevención, viviendo con VIH o con SIDA con dignidad y calidad de vida. Entonces, la idea de desarrollo es la posibilidad de poder vivir con derechos y bienestar. El concepto de desarrollo (7) de la posguerra, en los años 40, fue elaborado para el rescate de la economía y reconstrucción de Europa. En aquella época, fueron creadas, con el liderazgo de los Estados Unidos, las instituciones financieras multilaterales Fondo Monetario Internacional y Banco Mundial-, con el objetivo de financiar el desarrollo económico. El desarrollo comienza, a partir de entonces, a ser entendido como económico, trayendo consigo la lógica y las reglas del mercado. Dos décadas después, delante de los impactos en el mundo de lo que significó el desarrollo, en esa perspectiva económica, se inicia una búsqueda de alternativa de desarrollo que pudiese lidiar con los problemas sociales que inducían a soluciones. El desarr ollo económico trajo la emergencia de la concentración de riqueza de una economía capitalista, y consecuentemente fue responsable por una concentración de poder, acarreando la producción de desigualdades y de ansias de los países más pobres llegar a ser desarrollados, o sea, ricos. Delante de la percepción de que esa ascensión no es posible, o por lo menos no es fácil, con un modelo tan desigual, se inicia la búsqueda de otras respuestas para los males sociales. Entretanto, la lógica económica no es abandonada, y se busca construir alternativas para otra AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO dimensión de los problemas de la vida cotidiana. Se comienza a hablar de desarrollo social. En los años 80, el Programa de desarrollo de las Naciones Unidas (PNUD) elabora el concepto de desarrollo humano, en el cual todas las personas son sujeto, y beneficiados por el desarrollo. Esa perspectiva engloba desde necesidades básicas hasta el derecho a una vida saludable y segura. El concepto de desarrollo sostenible aparece en la década siguiente trayendo la demanda de los ambientalistas por un mundo donde la naturaleza pueda ser preservada, cultivando así el futuro de las próximas generaciones Inicialmente, este concepto estuvo bastante enfocado en los recursos ambientales, donde los demás movimientos sociales no se sentían contemplados, ideológicamente. Esa disputa llevó a un alargamiento del concepto pasándose a entender el desarrollo como un sistema de producción donde se garantiza el equilibrio de los recursos naturales y donde las personas puedan trabajar dignamente sin explotación, posibilitando el sustento de las intervenciones, siendo esta justa, participativa y democrática, promoviendo cambios en los derechos humanos. El concepto de desarrollo sostenible, que podríamos tomar como posibilidad de un mundo más justo, no se consolida como una posibilidad para la mayoría de las personas del mundo, y uno de los motivos son las consecuencias de la adopción de las políticas de ajuste, bastante obvias: manutención de la concentración de renta (Brasil es uno de los países que más concentra renta en el mundo), aumento de la pobreza, disminución de la acción del Estado, reducción drástica de recursos aplicados en políticas sociales. No obstante, no podemos olvidar que las políticas de desarrollo de cada país no son definidas apenas internamente; el proceso mundial de globalización torna esa relación dependiente y articulada con los procesos mundiales. Todavía, tales procesos no son COMPARTILHANDO AGENDAS COMPARTIENDO AGENDAS igualitarios, las inserciones y el peso de cada país son diferentes y desiguales. (8) En esa disputa, el concepto de desarrollo que puede propiciar la tal igualdad y felicidad, alimenta y construye una sociedad civil organizada aguerrida, con movimientos sociales fuertes y también globalizados, donde, en ese sentido, la globalización fortaleció a los actores de ese campo, circulando informaciones, luchas, y dando agilidad en esa disputa. Caminos posibles En la década del 90, la Organización de las Naciones Unidas realizó el llamado Ciclo de Conferencias abordando cuestiones sociales importantes, como estrategia de equilibrar, de neutralizar y de buscar caminos para manutención y conquista de derechos. Destacamos especialmente las conferencias sobre población y desarrollo (Conferencia del Cairo) y la de la Mujer, en Beijing. Tanto las Plataformas de Acción del Cairo como la de Beijing colocan la cuestión de la epidemia del SI DA como importante y que debe ser enfrentada, mereciendo atención especial de los gobiernos y de la sociedad civil organizada. En esa década, crece, todavía, el movimiento mundial de lucha contra la epidemia del SIDA, construyendo también su plataforma de lucha en las varias conferencias temáticas internacionales. En él fue la Sesión Especial sobre SIDA en la ONU, la UNGASS, en junio de 2001, que la plataforma internacional pasa a tener relevancia y compromiso junto a los estados nacionales miembros de las Naciones Unidas. Esa es una agenda que marca un nuevo momento en la lucha contra la epidemia de SIDA y rompe los limites de la búsqueda de respuestas sólo en el campo de la salud. La plataforma de la UNGASS, negociada por una centena de países, es histórica. Es un llamado para que la comunidad internacional y sus mecanismos de apoyo y control se posicionen y trabajen para que millones de personas no mueran en razón del SIDA. 55 55 En ese contexto es que gobernantes afirmaron en la 14ª Conferencia Internacional de SIDA/ 2002, realizada en Barcelona, que el Fondo Global para VIH/SIDA, Malaria y Tuberculosis (9), fruto de los acuerdos de UNGASS, es un bien público internacional, mientras activistas de todo mundo preguntan: ¿Dónde están los prometidos US $ 10 billones que el G8 necesita colocar en el fondo para los proyectos de países pobres donde la epidemia está exterminando poblaciones? ¿Cuál es el real compromiso de los países de renta alta y media con el desarrollo sostenible de esos países pobres cuando continúan ejecutando políticas neoliberales y los ajustes que privatizan el bien público y se rinden a un mercado globalizado, empobreciendo aún más a las poblaciones que ya están fuera del acceso a una vida con dignidad y calidad? ¿Cómo los países van a enfrentarse con los precios de los medicamentos que no tienen lógica de mercado delante de la necesidad y sin el poder de negociación? En esa conferencia, los jefes de Estado afirmaban que la epidemia del SIDA, por ser universal, es de responsabilidad internacional, y que también ninguna acción para combatirla puede pasar de largo en la convención de los Derechos Humanos. Sin embargo, lo que se escucha en esas conferencias y cumbres, no pasa de un ejercicio de retórica sin que haya ningún cambio real. Hoy, la única acción efectiva internacional que involucra a todos los factores que luchan contra la epidemia del SIDA es el Fondo Global. No obstante más allá de la captación de los recursos de ese fondo, que realiza una política compensatoria, no vimos aún suceder un pacto internacional para acabar con el hambre y la miseria del mundo -sólo así podríamos entender que ese fondo es de hecho una ayuda humanitaria. En el campo internacional, la epidemia del SIDA asume especial relevancia en los procesos del sistema ONU, en las relaciones con las instituciones financieras multilaterales y con la Organización Mundial del Comercio (OMC) En los últimos años, la OMC ha tenido 56 un peso muy importante en esa discusión, consecuencia no sólo de la influencia de las relaciones comerciales en los procesos de desarrollo, como también de los contornos que la epidemia del SIDA ha asumido, donde la cuestión de los medicamentos pasa a ser central en la implantación de políticas públicas en ese campo. Y, así, el debate internacional sobre desarrollo tecnológico y propiedad intelectual busca brechas en el Acuerdo ADPIC (Aspectos de Derechos de Propiedad Intelectual relacionados con el Comercio), através de la posibilidad de quebrarse patentes, siempre que hubiera emergencia de salud pública. Esa situación revela la faz perversa de las concepciones que restringen la noción de desarrollo al crecimiento económico, pues si hasta entonces el SIDA era asunto exclusivo de los Ministerios de Salud, con la discusión de las patentes pasa a ser debatida en el campo económico, donde la mayor preocupación es el lucro que se puede obtener ese comercio injusto en detrimento de la vida de las poblaciones. El debate sobre las patentes abre espacio para discutir muchos de los acuerdos comerciales internacionales y también el propio sentido de la OMC como una instancia que define de modo poco democrático los rumbos del desarrollo mundial. (10) Agendas del movimiento Referido a las mujeres, el llamado es para que la comunidad internacional priorice la agenda que visibilice las reivindicaciones del movimiento, centradas en el respeto a sus derechos reproductivos y sexuales, y en la exigencia de que sean hechas investigaciones que apunten las diferentes respuestas orgánicas a los medicamentos antirretrovirales entre hombres y mujeres, en el caso del SIDA. En lo que se refiere a la prevención, el preservativo femenino es reconocido como la mejor y más eficaz forma de protección. Aunque entre tanto, el acceso aún es restringido, y es bajo el grado de información de las usuarias. SIDA Y DESAROLLO AIDS E DESENVOLVIMENTO Para el activismo en la lucha contra el SIDA, la agenda política pasa a tener grandes desafíos en el actual contexto nacional e internacional. Estamos viviendo un gran cambio. En los últimos dos años, han ocurrido importantes acontecimientos en el mundo, protagonizados por Brasil. El primero de ellos, es el Foro Social Mundial, espacio político que se ha revelado como un importante revitalizador del movimiento social, que piensa estrategias de enfrentamiento para las más diversas causas de los problemas que atañen al planeta. Es un espacio importante también para el reconocimiento de las diversas fases de la sociedad civil organizada, cuestionando lo que es que está siendo hecho y lo que se está disputando con otros actores, y también dentro del propio movimiento. Ese es un importante espacio de conflicto y de enfrentamientos. En el ámbito del Foro Social Mundial, el tema SIDA fue inexistente, en sus dos primeros años; en el 2003, el movimiento se organizó y esa cuestión pasó a tener más visibilidad. Creemos que un nuevo mundo es posible, pero también creemos que para eso hay urgencia de que se incluyan respuestas para el control de la epidemia del SIDA. El segundo gran cambio fue la elección de Lula, que trajo un impac to grande en nuestras vidas y en el mundo, cambió la agenda, cambió la mirada antes prioritariamente enfocada hacia el desarrollo económico, para ahora, una mirada sobre los problemas sociales que este país enfrenta y en ese sentido, cuando el sociólogo Chico de Oliveira escribió un artículo para el periódico Folha de São Paulo octubre de 2002 diciendo que la victoria de Lula era una especie de refundación de Brasil, un marco comparable apenas a otros tres momentos históricos: la Abolición de la esclavitud, la Proclamación de la República y la Revolución del 30, alimenta el deseo de continuar en la lucha activista, mirando hacia nuestras causas, hacia la epidemia del SIDA, hacia la ausencia de derechos, la permanencia de la discriminación y de prejuicios, temas COMPARTIENDO AGENDAS COMPARTILHANDO AGENDAS muchas veces duros, densos; a veces complicados y ese es un mirar que busca sinergias, clama por salidas y construye un sentimiento de fortalecimiento de los movimientos sociales. Es un momento importante y que exige mucho trabajo y fortalecimiento de las instituciones de la sociedad civil organizada. Es un momento de reafirmación de identidad y construcción de nuevos pactos ante los compromisos con la vieja y muchas veces reformulada agenda política. Es creer que es posible un proyecto de desarrollo de un mundo más justo. NOTAS (1) Vídeo basado en el artículo el Día de la Cura de Herbert de Souza (Betinho) 1994. (2) ROCHA, Solange; GUIMARÃES, Kátia; NILO, Alessandra: LINDNER, Liandro. un mundo una lucha. www.SIDA2003.net / III FSM 2002. (3) Boletín epidemiológico CN DST y SIDA - Ministerio de la Salud, octubre del 2002. (4) ROCHA, Solange. Mujer y SIDA (folder) - Red Feminista de Salud, 1/12/2002. (5) Autor de los libros SIDA en el mundo I (1992) y SIDA en el mundo II (1996) (6) Informe presentado en la 14ª Conferencia Internacional de SIDA, Barcelona, junio de 2002. (7) CAMURZA, Silvia. ¿Cuál desarrollo queremos? (texto de apoyo) Proyecto Polos de Observación del desarrollo en la Zona de la Mata de Pernambuco, 2002. (8) GOUVEIA, Taciana; ROCHA, Solange. El SIDA en el contexto del desarrollo socioeconómico de Brasil (mimeo), 2002. www.SIDA2003.net/ III FSM 2003. (9) Ese fondo fue anunciado en la sesión especial de la ONU sobre SIDA UNGASS (julio de 2001), y se propone recaudar U$ 10 billones -con países donantes, Banco Mundial, Fundación Gates y otras instituciones internacionales - para ser repasado a través de aprobación de proyectos para países fuertemente afectados por la epidemia. Brasil compone el grupo de trabajo del fondo y se posiciona como donante de tecnología. (10) GOUVEIA, Taciana. ROCHA, Solange. el SIDA en el contexto del desarrollo socioeconómico de Brasil (mimeo), 2002.. www.SIDA2003.net/ III FSM 2003. 57 A AIDS nos terrenos de disputa do desenvolvimento Sonia Corrêa Coordenadora de pesquisa e análise em saúde e direitos sexuais e reprodutivos da Rede Development Alternatives with Women for New Era (DAWN) e coordenadora do Grupo Internacional sobre Sexualidade e Política Social ([email protected]) 58 AIDS E DESENVOLVIMENTO E ste debate constitui uma oportunidade ímpar. Ele se dá numa conjuntura que, de um lado, implica a transição política no Brasil , a qual se conjuga, porém, com condições globais muito adversas do ponto de vista econômico, mas também do ponto de vista geopolítico, as quais têm impactos inevitáveis sobre as questões de que trata este debate. Minha intervenção traz para a discussão algumas idéias desenvolvidas antes do painel, e ao final comenta de maneira breve alguns dos temas que foram postos sobre a mesma e que evocam alguns dilemas de natureza política e conceitual. Muito embora cada um e cada uma dos participantes do painel tenha feito a sua tarefa sem um diálogo prévio com os/as demais, ainda que a partir de enfoques diferentes as intervenções que me precederam enfatizaram o tema dos conceitos em disputa. Foi dito, por exemplo, que tanto a AIDS quanto o desenvolvimento são nomes, termos em disputa, sujeitos a diferentes interpretações. Não vou me estender quanto às diferentes interpretações da AIDS, mas me parece interessante sublinhar que, para além do debate entre uma perspectiva patológica, biomédica, epidemiológica e as perspectivas que interpretam a AIDS como fato social, não desapareceu do cenário a perspectiva moral sobre a epidemia. Inclusive ela é muito relevante no contexto atual. Essa perspectiva é um elemento central do cenário global adverso que mencionei anteriormente, já que a atual política norte-americana global para AIDS, como bem sabemos, enfatiza e prioriza a abstinência como estratégia de prevenção. Contudo, meu foco principal será o conceito de desenvolvimento e as disputas acerca dele. Mas quero voltar, ou seja, revisitar o tema a partir da perspectiva da longa duração, pois considero este seminário, e particularmente esta sessão, como uma oportunidade para retomar o tema de desenvolvimento na sua complexidade e profundidade histórica. Nesse sentido, é importante lembrar que, no Ocidente, a noção de desenvolvimento foi precedida pela concepCOMPARTILHANDO AGENDAS 59 ção de progresso humano do Iluminismo. Segue-se Marx, quem foi, de fato, o inventor do desenvolvimento na sua acepção moderna, isto é, o desenvolvimento das forças produtivas como determinante econômico daquilo que tanto Marx quanto antes dele os iluministas haviam idealizado como progresso humano. Segundo Marx, o desenvolvimento das forças produtivas por um lado libera a criatividade humana, por outro resulta em acumulação de riquezas, alienação e exploração. Hoje, assim como no século 19, o debate sobre desenvolvimento envolve disputas acirradas que dizem respeito a interesses concretos, materiais. Por essa razão, estou convencida parafraseando Derrida que essa conversação não pode eludir os espectros de Marx. Por outro lado, é também muito significativo que, a partir do final da década de 1940, tomando como ponto de partida a criação das Nações Unidas e do chamado sistema de Bretton Woods, prevaleceu no debate global (e nacional) uma interpretação economicista do desenvolvimento. Num certo sentido, é como que se ao longo da segunda metade do século 20 o debate tivesse sido impregnado pelas idéias de Marx, mas um Marx despojado das premissas filosóficas do Iluminismo. Crescimento e modernização Fundamentalmente, entre o final dos anos 1940 e o início da década de 1990, o desenvolvimento foi pensado como crescimento e modernização. Isso se deu tanto no caso da perspectiva socialista, quando nas vertentes keynesianas. Mesmo nos dias atuais, especialmente no contexto brasileiro, o debate continua sendo economicista, tendo como ponto de referência o princípio inegociável da teoria econômica, o reconhecimento de que os recursos são escassos. Mas é também importante lembrar que mesmo no interior desse paradigma economicista, desde sempre, e mais especialmente nos anos 1960, havia divergências importantes quanto às causas do chamado subdesenvolvimento e quanto às estratégias mais adequadas para promover o desenvolvimento. São exemplos as teorias da dependência e os debates sobre periferia. Nesse mesmo marco, persistiu, sem solução, a tensão entre socialismo e keynesianismo. 60 AIDS E DESENVOLVIMENTO Em seguida, seríamos atirados nas mãos invisíveis do Consenso de Washington, onde continuamos situados. Mas, tampouco nessas novas e difíceis ao longo dos anos 1990 assistimos a emergência e visibilidade de novas perspectivas de desenvolvimento. A mais conhecida e debatida é, sem dúvida, a proposição de desenvolvimento humano, que adiciona à medida clássica do crescimento econômico premissas e medidas de bem-estar: saúde, educação, direitos, empoderamento e sustentabilidade ambiental. circunstâncias, o debate foi silenciado. Muito significativamente, Exercícios no sentido de articular AIDS e desenvolvimento exigem que nos posicionemos, de alguma maneira, frente às várias definições e interpretações acerca desses dois termos. Para ilustrar: é possível conceber a AIDS como uma patologia - ou um problema de comportamento individual desregrado - que pode ser resolvida pelo avanço tecnológico, acesso a serviços e estratégias moralistas Os resultados serão radicalmente diferentes se pensarmos a AIDS como um fato social e epidemiológico complexo que tem efeitos deletérios sobre os indicadores de desenvolvimento humano. Nesse caso, vamos conceber políticas que equilibrem a ação do de prevenção. Isso se desdobrará num tipo de política. Estado e do mercado, sejam orientadas para a superação da desigualdade nas suas várias manifestações (entre países, entre grupos sociais, entre raças e etnia, entre homens e mulheres) e adotem uma perspectiva de empoderamento e direitos humanos. Quando fazemos essa segunda escolha, estamos nos situando no terreno da disputa quanto aos significados de desenvolvimento. Exatamente por isso, é fundamental conhecer, debater e desconstruir os outros argumentos e interpretações que estão em jogo nessa arena. Além disso, é importante sublinhar que nem sempre esses outros argumentos se apresentam de maneira tão nítida. No mundo real em que se dão essas disputas, as fronteiras entre posições são COMPARTILHANDO AGENDAS 61 mais borradas e incomparavelmente mais complicadas. Para ilustrar, basta recuperar o percurso tortuoso que, no plano global, ao longo da última década, fez da AIDS um tema do desenvolvimento. E vale a pena resgatar, ainda que de maneira breve , essa trajetória. Sem dúvida, as perspectivas de desenvolvimento keynesiana ou socialista, que haviam prevalecido entre os anos 1960 e 1980, incluíam prioridade para investimentos em saúde e educação. No debate global sobre desenvolvimento, isso seria traduzido pelo enfoque das necessidades básicas (basic needs) que, em grande medida, orientou investimento do Banco Mundial em vários países asiáticos. Muito embora o tema das necessidades básicas tivesse sido retirado da agenda pelo Consenso de Washington, no começo da década de 1990, em resposta às críticas acerca dos impactos sociais negativos dos programas de ajuste estrutural, o Banco Mundial reorienta sua políticas no sentido de preconizar investimentos em saúde e educação. O marco dessa inflexão foi o Relatório Anual de Desenvolvimento de 1993 (Investindo em Saúde), que continua balizando as políticas do banco e de outras agências internacionais até hoje. Mas, ao fazer essa viragem, o Banco Mundial não tomou como parâmetro premissas gerais de desenvolvimento humano e direitos, mas construiu medidas econômicas sofisticadas para avaliar o impacto da educação e, mais especialmente, da carga das doenças (burden of disease) que são até hoje os parâmetros utilizados para definir prioridades de investimentos e orientar a alocação dos recursos. Em grande medida, foram essas análises econométricas (economicis- Ao fazer suas contas precisas, o Banco Mundial descobriu que algumas doenças e fenômenos sociais como a AIDS e a violência - tinham enorme impacto sobre a produtividade. tas) que inauguraram a discussão sobre AIDS e desenvolvimento. Retomando a idéia central de conceitos em disputa, como nos posicionamos frente a essarealidade? De um lado, foi fundamental que esses cálculos tenham se desdobrado na priorização de investimentos públicos (e privados) para a AIDS se isso não tivesse acontecido, o programa nacional de AIDS tal como o conhecemos não existiria. Mas, por outro lado, na minha avaliação, era e continua sendo fustigar a lógica economicista que está subjacente a essa reorientação 62 AIDS E DESENVOLVIMENTO das políticas do Banco Mundial, que, inclusive, neste momento, também permeia as definições da Organização Mundial da Saúde. A partir dessa perspectiva, cabe dialogar com as intervenções anteriores. AIDS e pobreza: uma articulação técnica Dito de outro modo, a disputa pelos significados não está encerrada. Entre outras razões, porque na seqüência da viragem feita pelo Banco Mundial, em 1993, iríamos nos deparar com a articulação técnica entre AIDS e pobreza. E vale a pena revisitar os passos que levaram a essa nova formulação. O primeiro deles foi a retomada da questão da pobreza no contexto das grandes conferências da ONU, que se tornaram conhecidas como Ciclo Social e que se consolida da Cúpula do Milênio em 2000, desdobrando-se posteriormente nas chamadas Metas de Desenvolvimento do Milênio (MDMs). Nesse percurso, foi muito relevante a crise asiática de 1997 e 1998, pois, de fato, foi a partir daí que outros atores que não apenas as Nações Unidas passariam a falar de desenvolvimento e pobreza. Sem dúvida, nessa lista está o Banco Mundial, mas desde 1999 não só o banco chama a atenção para a pobreza, mas também o Fundo Monetário Internacional e a própria Organização Mundial do Comércio (OMC). Num certo sentido, é essa nova inflexão que termina por situar a África no centro do debate. Aí, uma vez mais estamos frente a uma situação paradoxal: por um lado, é importante que a pobreza tenha voltado para o centro do debate de desenvolvimento, assim como é fundamental que a África, que havia sido abandonada pelas instituições internacionais, retorne à pauta global. Mas as concepções dominantes sobre a redução da pobreza focalizam o problema estritamente como insuficiência de renda, e a partir de parâmetros arbitrários, como um dólar dia. De modo geral, o debate global sobre pobreza não tem enfatizado a questão das desigualdades. Há, sem dúvida, um debate sobre desigualdade global , mas ele tem menos visibilidade e apelo que a questão da pobreza. Além disso, embora reduzir a pobreza tenha, de fato, se tornado uma realidade no plano dos discursos sobre política pública, são inúmeras e COMPARTILHANDO AGENDAS 63 contraditórias as proposições acerca de como isso deve ser feito. Se nesse campo a perspectiva do desenvolvimento humano é ainda muito relevante, amplia-se a legitimidade de propostas que preconizam mais reformas econômicas na mesma direção e também maior abertura comercial, isto é, uma vez mais estamos num terreno de acirradas disputas. Para retornar à articulação entre AIDS, desenvolvimento e pobreza, sabemos que é impossível enfrentar a epidemia excluindo da equação desigualdade racial, de gêneros, entre grupos sociais e entre países. Se olharmos com essa lente para contextos específicos, podemos firmar interpretações que não vão na direção dos discursos dominantes. Vários atores têm chamado a atenção para o fato de que o abandono da África, tanto na agenda do desenvolvimento quanto nas medidas tomadas para contenção da AIDS, foi como uma resignificação do racismo colonialista. Entretanto, nada indica que a crise da AIDS na África possa ser solucionada a partir de políticas que priorizam exclusivamente os investimentos de mercado o New Economic Partnership for African Development (NEPAD) , combinadas com prevenção pela via da abstinência. Se no outro extremo examinarmos o que se passa na China, não é difícil verificar que as elevadas taxas de crescimento econômico (9% ao ano, ao longo da última década) e o grande investimento em educação e infra-estrutura tampouco têm contido a expansão da epidemia. Excluindo a questão da sexualidade Essas ilustrações permitem complexificar o debate, já que tanto à direita as discussões sobre AIDS, desenvolvimento e pobreza tendem a obscurecer o entendimento da epidemia como fato social e epidemiológico complexo e, sobretudo, excluem sistematicamente a questão da quanto à esquerda 64 AIDS E DESENVOLVIMENTO sexualidade. De um lado, o presidente norte-americano George Bush preconiza como solução uma combinação de mais mercado, serviços sociais básicos oferecidos preferencialmente por organizações religiosas e abstinência. No campo das forças antiglobalização, a tendência tem sido focalizar a luta pelas patentes porque essa é, de fato, uma questão econômica e, portanto, de desenvolvimento , desconhecendo-se, inteiramente, a relevância da sexualidade dos sistemas sexo/gênero como fatores que explicam a extensão e a profundidade da epidemia. Essa cena dicotômica precisa ser desconstruída, pois a AIDS é como uma janela que nos permite articular melhor, e de maneira mais criativa, sexualidade, desenvolvimento, pobreza e macroeconomia. Entretanto, há outras questões de fundo que a mesa evoca. Uma delas é o tema do ciclo curto e do ciclo longo da epidemia. Quando pensamos em AIDS e desenvolvimento, também estamos desafiados(as) a reconhecer que a produção de políticas de transformação social não se restringem à conjuntura imediata, mas também devem ser pensadas na perspectiva do ciclo longo ou da longa duração. (1) Isso abre, necessariamente, uma interrogação: como formular análises, estratégias e propostas para conjuntura imediata sem perder de vista o ciclo longo, quer seja do desenvolvimento, quer seja da AIDS? Para ilustrar melhor o que isso significa, eu diria que o que fizermos de imediato para conter o unilateralismo e o posicionamento norte-americanos em relação à epidemia tem um significado conjuntural crucial. Mas não deveria fazer com que perdêssemos de vista o significado da epidemia e do desenvolvimento no ciclo longo. É preciso fazer as duas coisas, ainda que não sejam feitas pelos mesmos atores e atrizes. Já em relação à falta de controle da epidemia, eu me vejo tentada a trazer para a discussão referências conceituais, como Giddens, Baumman e Beck, que têm feito formulações sobre sociedade de risco, sociedade da incerteza. Essas proposições são fundamentais para enriquecer o debate, porque as teorias progressistas de desenvolvimento, tal como as conhecemos entre os anos 1940 e 1990, estão presas a um paradigma que supõe razoável estabilidade - o que se aplica tanto ao socialismo, quanto às versões keynesianas. O que esses autores trazem para nossa reflexão é a interrogação quanto a como pensar desenvolvimento e AIDS em tempos de risco e incerteza. COMPARTILHANDO AGENDAS 65 Mas, sobretudo, quero discordar da afirmação de que a globalização é um modelo de desenvolvimento que só produziu desigualdade de gênero. Um dos maiores desafios enfrentados pelas pesquisadoras e teóricas feministas é exatamente dar conta de uma cena incomparavelmente mais paradoxal. A globalização, por um lado, produziu maior inclusão de uma parcela de mulheres no mercado de trabalho. Por outro lado, produziu exclusão de uma outra parcela de mulheres (em geral as menos educadas), manteve ou mesmo ampliou diferenciais salariais entre homens e mulheres, mas também em vários contextos fez aumentar a desigualdade entre mulheres ao mesmo tempo em que se reduzia a desigualdade entre homens e mulheres o Brasil é um bom exemplo. Estou para avançar no debate sobre AIDS, gênero e desenvolvimento, é preciso ir além da retórica de que as mulheres são vítima da globalização, reconhecendo a complexidade e os paradoxos das realidades em que nos movemos. convencida que Estado e mercado Um outro tema presente em todas as intervenções diz respeito ao papel do Estado, ou para ser mais precisa, à necessidade de equilíbrio entre medidas de Estado e medidas de mercado. É preciso ressaltar que essa é, sem dúvida, a questão central do debate atual sobre desenvolvimento econômico e crescimento, e não é possível esgotá-lo aqui. Mas é importante dizer que, tampouco nesse caso, estamos começando do zero. Esse é um debate que está na rua, e se quisermos avançar na articulação conceitual entre AIDS e desenvolvimento é preciso que comecemos a dialogar seriamente com os atores e atrizes que estão envolvidos(as) nessa conversação macroeconômica: Joe Stiglitz, Dani Rodrik, Paul Krugman e a própria Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL). Sobretudo com Jeffrey Sachs, na sua versão progressista, pois hoje ele é o responsável oficial pela elaboração de indicadores para as Metas de Desenvolvimento do Milênio. 66 AIDS E DESENVOLVIMENTO Um tema relacionado que também esteve presente na mesa diz respeito ao sistema de governança global econômica e política. A abordagem foi, sobretudo, a da crítica aos programas de ajuste, da crítica ao Banco Mundial, da crítica ao Fundo Monetário Internacional, da crítica à OMC. Embora essa crítica seja necessária, estou convencida que, nesse estágio, é preciso ir além dela e, de fato, tomar nas mãos a agenda da reconstrução do sistema de governança global, que não deveria excluir as Nações Unidas como o pólo da governança política. No campo da sociedade civil, estamos a léguas de distância dessa compreensão. Essa é, sem dúvida, uma tarefa de ciclo longo, mas precisa ser iniciada. E há inúmeras proposições nesse sentido. Ainda que não possam ser implementadas nas atuais condições geopolíticas, é preciso conhecê-las. (2) Outro grande tema da mesa foi o monitoramento. As Metas de Desenvolvimento do Milênio me parecem fundamentais. Mas talvez seja importante esclarecer o que são as MDMs: indicadores que tentam traduzir as proposições das conferências do ciclo social da década de 1990 em uma pauta mensurável, ou seja, em instrumento que permita às Nações Unidas e aos países medir a implementação. Hoje, as MDMs são o carro chefe das Nações Unidas e, como se disse antes, quem está responsável pela parte técnica dessa tarefa é o professor Jeffrey Sachs. Embora a iniciativa das MDMs seja louvável, há vários problemas que precisam ser nomeados. Para nossa agenda de trabalho, o problema mais grave é que os indicadores foram definidos em 2001 e, sob pressão do governo americano, foram excluídas as metas específicas de saúde sexual e reprodutiva do Cairo e de Pequim. Serão medidas apenas infecção pelo HIV/AIDS e mortalidade materna. Não há como recuperar a agenda no plano global, pois as metas e indicadores estão cristalizados. Mas, a meu ver, os países não deveriam se pautar exclusivamente pelas definições globais, as quais devem ser vistas como pisos, objetivos mínimos. COMPARTILHANDO AGENDAS 67 Monitoramento sob nova luz Ainda no que diz respeito ao monitoramento, tenho a impressão de que no curto prazo um desafio se anuncia em razão da transição política no plano federal. Isso porque vamos passar a fazer monitoramento de políticas públicas em condições políticas novas. São muitas e não pouco triviais as implicações da nova conjuntura em relação ao monitoramento de políticas públicas, em razão de novo alinhamentos e, mais especialmente, porque é possível prever a captura das organizações da sociedade civil pela agenda governamental. Quem já viveu situações equivalentes nos níveis municipais e estaduais sabe bem como se dão e o que significam essas reconfigurações. Na perspectiva de longo prazo, uma questão crucial continua sendo a que diz respeito à base de dados estatísticos e de indicadores. No caso específico da AIDS, embora no Brasil esse seja um dos melhores sistemas de informações, há deficiências que precisam ser enfrentadas. Tive a oportunidade de colaborar com a área técnica de saúde da mulher, do Ministério da Saúde, na avaliação de seus quatro anos de gestão e, nesse exercício, enfrentamos a questão do perfil das mulheres, quem são as mulheres infectadas pelo HIV. Tudo indica que não conhecemos, de fato, esse perfil. O discurso corrente é que as mulheres mais afetadas são as casadas, outros nos dizem que as mais afetadas são as negras. Não é possível definir uma estratégia consistente de prevenção e tratamento sem maior clareza quanto a esse perfil. Também cabe fazer alguns comentários sobre a diversidade ou o Quer seja no terreno da AIDS ou no das políticas de gênero, é preciso pautar análise e políticas que tenham em conta as heterogeneidades, as situações que definem vulnerabilidades, discursos, significados, traduções, entendimentos. Isso tem enormes implicações em relação às bases multiculturalismo. de dados, pois, em geral, as unidades de análise com que os sistemas de informação operam (o indivíduo, o domicílio, o município, o país etc.) tendem a esvaziar essa heterogeneidade, assim como não propõem caráter contextual das relações. 68 AIDS E DESENVOLVIMENTO Mas, para além dos problemas que a diversidade coloca para os indicadores, é preciso ainda estarmos atentos(as) à maneira pela qual o multiculturalismo se articula e se confunde com relativismo cultural. Vale dizer, inclusive, que as enormes dificuldades que enfrentamos sistematicamente nos debates da ONU para firmar uma agenda de igualdade de gênero, saúde e direitos sexuais e reprodutivos se devem, entre outras coisas, ao argumento do relativismo cultural. Isso me leva à necessidade do diálogo para além das nossas fronteiras, de que precisamos abrir esse debate com outros atores, instituições e empresas, inclusive. Democracia é o exercício do diálogo e da alteridade. Mas não me parece adequado entrar nesse diálogo de forma idealista. Neste momento, essa é a perspectiva que orienta a ação das Nações Unidas, conforme ouvimos muitas vezes nos discursos de Kofi Annan: é importante manter todos os atores na sala. Entretanto, nem sempre é possível que todos fiquem a bordo, quando os temas Na minha experiência, sempre que temas difíceis entram na pauta de negociação gênero, sexualidade, acesso a medicamentos ou mesmo temas econômicos alguém vai sair da sala. Não se trata de eliminar os temas são controversos. difíceis para assegurar consensos mínimos, mas reconhecer os conflitos e tentar equacioná-los sem que a substância do acordo seja comprometida. Diferenciais do poder Tampouco devemos perder de vista os diferenciais de poder que caracterizam esses diálogos. Não tenho nada contra a proposta de que nos sentemos com as multinacionais, mas uma vez mais isso não deve ser idealizado. Hoje, uma parcela importante das multinacionais tem faturamentos que são três, quatro, cinco, dez vezes maiores do que os orçamentos nacionais dos estados, do que dos PIBs dos estados nacionais. Isso não significa apenas diversidade, implica diferenciais brutais de poder. Num diálogo dessa natureza é sempre estratégico resgatar os espectros de Marx e não distanciar a questão do conflito de interesses. Nesse contexto de análise, cabe retomar a questão do sistema de governança global, mas a partir de um outro enfoque: o enfraquecimento das Nações Unidas frente ao Sistema de Bretton Woods, à OMC, às transnacionais e, mais COMPARTILHANDO AGENDAS 69 especialmente, ao unilateralismo americano. De onde olho o debate, percebo como um movimento arriscado, para não dizer equivocado, a tendência dos setores progressistas da sociedade civil no sentido de desacreditar o sistema das Nações Unidas como arena do multilateralismo político. Ao meu ver, isso apenas adiciona água ao moinho daqueles que querem ver o sistema multilateral a tarefa de reconstrução e relegitimação da ONU é talvez, hoje, a mais importante na pauta mais ampla de reconstrução dos sistemas de governança global. reduzido a pó. Assim, E o Brasil, enquanto sociedade e Estado, está muito bem posicionado para pautar essa tarefa e contribuir na sua implementação. (3) 70 AIDS E DESENVOLVIMENTO NOTAS (1) Um exemplo da diferenciação entre o ciclo curto e o ciclo longo é oferecido pelo cientista político Immanuel Wallerstein, para quem as condições geopolíticas que experimentamos hoje são resultado do declínio do império americano, cujos primeiros sintomas já se faziam visíveis na década de 1970. Num certo sentido, o que Wallerstein sugere é que nossas surpresas frente à realidade do milênio decorrem de que as estamos analisando na perspectiva conjuntural, ou seja, do ciclo curto. (2) Há, por exemplo, idéias que vão muito além do Fundo Global de AIDS, Tuberculose e Malária. No processo da Conferência para Financiamento do Desenvolvimento, que se finalizou, em Monterrey, em março de 2002, George Soros propôs que esse financiamento fosse assegurado lançando-se mão dos chamados Direitos Especiais de Saque (DESs), do Fundo Monetário Internacional. Os DESs são um fundo de reserva dos países ricos, criado para ser eventualmente utilizado numa crise sistêmica que os afetasse diretamente. Nunca foram usados, exceto uma pequena parcela retirada durante a crise asiática de 1997/1998. A proposta de Soros é que fossem sacados US$ 100 bilhões dos DESs para investir em programas de desenvolvimento humano, sendo que a AIDS seria uma das prioridades. Ou seja, nesse campo também há uma debate estrutural em curso com o qual nos deveríamos engajar. (3) Esses comentários foram elaborados em novembro de 2002, quatro meses antes da falência dos esforços realizados pelo Conselho de Segurança para conter a invasão anglo-americana do Iraque. Considero, porém, que a agenda de longo prazo de reconstrução do sistema ONU é mais importante hoje do que naquele momento. COMPARTILHANDO AGENDAS 71 AIDS: IN THE SPHERE OF DISPUTE OVER DEVELOPMENT Sonia Corrêa Coordinator of research and analysis of health and sexual and reproductive rights of the Network Development Alternatives with Women for New Era (DAWN) and coordinator of the Grupo Internacional sobre Sexualidade e Política Social (International Group on Sexuality and Social Policy) ([email protected]). This debate offers a unique opportunity. It takes place in a set of circumstances that involves the political transition in Brazil, in very adverse global conditions, not only from the economic but also the geopolitical point of view, which bear inevitable impacts on the questions discussed in the debate. My intervention proposes some ideas developed prior to the panel and concludes with succinct comments on some of the themes set forth that evoke certain dilemmas of a political and conceptual nature. Despite the fact that each member of the panel fulfilled his/her task without outlook, for I see this seminar, and in particular this session, as an opportunity to return to the theme of development in all its complexity and historical depth. In this sense it is important to recall that in the Western world the notion of development was preceded by the conception of human progress espoused by the Enlightenment. Then along came Marx, who was really the inventor of development in its modern use, that is, development of the productive forces as the economic determinant that both Marx and the Illuminists before him idealized as human progress. According to Marx, development of the productive forces on previously dialoguing with the other members, the differently-focused preceding interventions emphasized the theme of concepts under dispute. It was said, for example, that both AIDS and development are names, terms that are subject to different interpretations. I am not going to dwell on the different interpretations of AIDS, but it does seem interesting to underscore that over and above the debate between a pathological, biomedical and epidemiological perspective and the notion of AIDS as a social fact, the moral perspective of the epidemic has not disappeared from the scenario. In fact, it is very relevant in the present context. This perspective is a core element of the global scenario that I mentioned above, seeing that the current global North American policy for AIDS, as we well know, places emphasis on and prioritizes abstinence as a prevention strategy. Nonetheless, my main focus will be the concept of development and the disputes on the issue. But I would like to go back, that is, revisit the theme based on the long-term the one hand frees up human creativity while on the other hand it leads to accumulation of wealth, alienation and exploitation. Today, just as in the 19th century, the debate on development involves heated disputes concerning concrete, material interests. That is why I am convinced that to paraphrase Derrida this conversation cannot deceive Marxs ghosts. On the other hand it is also very significant that as of the late 40s taking as a starting point the founding of the United Nations and the so-called Bretton Woods system the global and national debate has been predominated by an economicist interpretation of development. In a certain sense it is as if throughout the second half of the 20th century the debate had been impregnated by the ideas of a Marx stripped of the philosophical premises of the Enlightenment. 72 Growth and modernization Between the late 40s and the early 90s, development was fundamentally viewed as growth and modernization. This happened AIDS DESENVOLVIMENTO AIDSE AND DEVELOPMENT both in the case of the socialist perspective and among the followers of the Keynesian creed. Even in our days, and especially in the Brazilian context, the debate continues to be of an economicist nature, the point of reference being the non-negotiatable principle of economic theory, the recognition that resources are scarce. But it is also important to remember that even within this economicist paradigm since the very beginning and especially in the 60s there were important divergences as to the causes of so-called under-development and the most appropriate strategies to promote development. Examples of this are the theories of dependency and the debates on the periphery. In this same framework, the tension between socialism and Keynesianism persisted without a solution being reached. Then we were tossed into the invisible hands of the Washington Consensus, where we still remain under siege. But even in these new and strenuous circumstances the debate was not silenced. It is highly significant that all during the 90s we witnessed the emergence and visibility of new perspectives of development. The best known and most discussed is unquestionably the proposition of human development, which adds welfare premises and measures to the classical measure of economic growth: health, education, rights, empowerment and environmental sustainability. Exercises in the sense of articulating AIDS together with development require that we somehow position ourselves before the various definitions and interpretations of these two terms. By way of illustration, it is possible to conceive AIDS as a pathology or a problem of reckless individual behavior that can be solved by technological advance, access to services and moralist strategies of prevention. This will develop into a sort of policy. The results will be radically different if we see AIDS as a complex social and epidemiological fact that has deleterious effects on the indicators of human development. In this case we will conceive policies COMPARTILHANDO SHARING AGENDAS AGENDAS to balance the action of the State and market, designed to overcome inequality in its various forms (among countries, social groups, races and ethnic groups, men and women) and to adopt a perspective of empowerment and human rights. When we make the second choice, we are positioning ourselves in the sphere of the dispute concerning the meanings of development. It is precisely for this reason that it is fundamental to know, debate and deconstruct the other arguments and interpretations at play in this arena. Besides this, it is crucial to stress that these other arguments are not always presented very clearly. In the real world in which these disputes are held, the borderlines between positions are more blurred and infinitely more complicated. To illustrate this point, it suffices to recover the tortuous path that over the last decade has made AIDS a theme of development on the global scale. And it is worthwhile to return to this trajectory, no matter how briefly. Without any question of doubt, the socialist or Keynesian perspectives of development that prevailed between 1960 and 1980 granted priority status to investments in health and education. In the global debate on development, this was translated by the focus on basic needs, which to a great extent was to orient the investments made by the World Bank in many Asiatic countries. Although the theme of basic needs was suppressed from the agenda by the Washington Consensus in the early 90s in answer to the criticism with regard to the negative social impacts of the programs of structural adjustment, the World Bank changed its policies to advocate investing in health and education. The mark of this inflection was the 1993 Annual Development Report (Investing in Health), which today is still the basis of the policies of the World Bank and other international agencies. But when the World Bank made this turnaround, it did not adopt the parameter of general premises of human development and rights but rather set up sophisticated economic measures to assess the impact of education, 73 73 and more importantly of the burden of disease, which are still the parameters used to define investment priorities and to earmark resources. In large measure it was these econometric (economicist) analyses that opened the discussion on AIDS and development. On making its precise accounts, the World Bank discovered that some diseases and social phenomena, such as AIDS and violence, bore a enormous impact on productivity. Returning to the main idea of concepts under dispute, how do we position ourselves vis-à-vis this reality? On the one hand, it was fundamental that these calculations led to public (and private) investments for AIDS receiving priority status. If that had not happened, the national AIDS program as we know it would not exist. But on the other hand, in my mind it was and is a criticism of the economistic logic that underlies this change in World Bank policy, and which at the moment also permeates the definitions of the World Health Organization. Based on this perspective, it is appropriate to hold a dialogue with the preceding interventions. AIDS and poverty: a technical articulation In other words, the dispute over meanings is not a closed issue, among other reasons because in the wake of the change made in World Bank policies in 1993 we were faced with the technical articulation between AIDS and poverty. And it worthwhile revisiting the steps that led to this new formulation. The first was the resumption of the question of poverty in the context of the large United Nations conferences known as the Social Cycle and consolidated in the Millennium Summit in 2000 (and which later developed into the socalled Development Goals of the Millennium). Of great relevance in this trajectory was the Asiatic crisis of 1997 and 1998, because it was really from that point onward that actors other than the United Nations started to talk of development and poverty. This list certainly 74 74 included the World Bank, but since 1999 not only the bank has drawn attention to poverty, but also the International Monetary Fund and the World Trade Organization itself (WTO). In a certain sense it is this new inflection that eventually places Africa in the center of the debate. So once again we are faced with a paradoxical situation: on the one hand it is important that poverty has returned to the core of the debate on development, just as it is fundamental that Africa, after being abandoned by the international institutions, should be re-inserted into the global agenda. But the dominant conceptions of poverty see the problem strictly as insufficiency of income: based on arbitrary parameters, such as one dollar a day. Generally speaking, the global debate on poverty has failed to place emphasis on inequality. There is indubitably a debate on global inequality but this enjoys less visibility and appeal than the question of poverty. In addition, although reducing poverty has in fact become a reality in the sphere of the discourse on public policy, there are endless and contradictory propositions as to how this should be done. If the perspective of human development is still very relevant in this field, there is enhanced legitimacy in the proposals that advocate more economic reforms in the same direction, as well as greater trade opening, that is to say, once more we find ourselves in a terrain of heated disputes. To return to the connection between AIDS, development and poverty, we are aware that it is impossible to face the epidemic by excluding from the equation forms of inequality determined by race, gender, social group and country. If we examine specific contexts through this lens, we find interpretations that are not in keeping with the predominant discourses. Many actors have drawn attention to the fact that abandoning Africa, both in the development agenda and with regard to the measures taken to curb AIDS, was like giving a new meaning to AIDS E DESENVOLVIMENTO AIDS AND DEVELOPMENT colonialist racism. Nevertheless, nothing indicates that the AIDS crisis in Africa can be solved by means of policies that prioritize exclusively market investments the New Economic Partnership for African Development (N EPAD) combined with prevention by abstinence. If on the other hand we examine what is going on in China, it is easy to verify that neither the high rates of economic growth (9% per year over the last decade) nor large investments in education and infrastructure have stopped the spread of the epidemic. Excluding the question of sexuality These illustrations enable us to render the debate complex, since on both the Right and the Left the discussions on AIDS, development and poverty tend to obscure the understanding of the epidemic as a complex social and epidemiological fact and above all systematically exclude the question of sexuality. On the one hand, United States President George Bush defends the solution of a combination of more market, basic social services preferentially offered by religious organizations and abstinence. In the field of the anti-globalization forces, the tendency has been to focus on the struggle for patents - this being indeed an economic question, and consequently a development matter and to ignore entirely the relevance of sexuality in the sex/gender systems as factors that explain the scope and depth of the epidemic. This dichotomic scenario must be deconstructed, because AIDS is like a window that allows us to articulate better and in a more creative manner questions of sexuality, development, poverty and macro-economy. But other basic matters have been raised by the table. One of them is the theme of the short- and long-term course of the epidemic. When we think of AIDS and development, we are also being defied to admit that the production of policies of social transformation are not limited to the immediate set of COMPARTILHANDO SHARING AGENDAS AGENDAS circumstances but should also be considered in terms of the long-run outlook. (1) This necessarily leads to the question of how to formulate analyses, strategies and proposals for the immediate situation without losing sight of the long term, be it of development or AIDS. To illustrate better what this means, I would say that whatever we do immediately to curb United States unilateralism and its stance in respect to the epidemic has a crucial conjunctural significance. But this should not make us lose sight of the significance of the epidemic and development in the long run. Both things must be done, though not necessarily by the same actors. As regards the lack of control over the epidemic, I am tempted to introduce to the discussion conceptual references such as Giddens, Baumman and Beck, who have presented formulations on risk society and uncertainty society. These propositions are fundamental to enrich the debate, because the progressist theories of development such as we knew between 1940 and 1990 stick to a paradigm that presupposes a reasonable degree of stability (which applies both to socialism and to the Keynesian versions). What these authors offer for our reflection is the question of how to think about AIDS and development in times of risk and uncertainty. But above all I would like to express my disagreement with the statement that globalization is a model of development that has only produced gender inequality. One of the biggest challenges facing feminist researchers and theorists is precisely to deal with an incomparably more paradoxical scenario. Globalization has on the one hand allowed for inclusion of a larger portion of women in the work market. On the other hand it has led to exclusion of another portion of women (generally the less educated) and maintained or even widened wage differences between men and women, but in many contexts has also increased the inequality among women at the same time it has reduced inequality between men and women. 75 75 Brazil is a good example of this. I am convinced that in order to advance in the debate on AIDS, gender and development, it is necessary to go beyond the rhetoric that women are the victims of globalization by recognizing the complexity and the paradoxes of the different realities in which we live. State and market Another theme present in all the interventions has to do with the role of the State, or more precisely the need for a balance between State actions and market actions. It is important to stress here that this is undoubtedly the core question of the current debate on economic development and growth and that here it is not possible to deal in any depth with the matter. But it should also be asserted that in this case too, we are not starting out from scratch. This is a debate that is already a public concern, and if we want to make any progress in the conceptual articulation between AIDS and development, we must start to dialogue seriously with the ac tors who are involved in this macroeconomic conversation: Joe Stiglitz, Dani Rodrik, Paul Krugman and the Economic Commission for Latin America and the Caribbean (CEPAL). And especially with Jeffrey Sachs, in his progressist version, since now he is officially responsible for preparing indicators for the Development Goals of the Millennium. A related theme that should also be featured in the panel has to do with the system of economic and political global governance. The approach has mostly been to criticize the adjustment programs, the World Bank, the International Monetary Fund, and the WTO. Although this criticism is necessary, I am convinced that at this stage it is necessary to go further ahead and actually take hold of the agenda to reconstruct the system of global governance, which should not exclude the United Nations as the pole of political governance. In the field of civil society, we are miles away from understanding this. This is 76 certainly a task for the long term, but it has to be started. And there are numerous propositions in this direction. Even though they cannot be implemented in the current geo-political situation, they must be examined. (2) Another major theme at the panel was monitoring. The Development Goals of the Millennium strike me as fundamental. But perhaps it should be made clear what these Goals are: indicators that try to translate the propositions of the conferences of the social cycle of the 90s into one measurable agenda, that is, an instrument that enables the United Nations and countries to measure implementation. Today the Goals are the flagship of the United Nations and, as said above, the person in charge of the technical part of this task is Professor Jeffrey Sachs. Although the initiative of the Goals is worthy of praise, many problems still have to be settled. The most serious problem for our work agenda is that the indicators were defined in 2001 and, under pressure from the United States government, the specific goals concerning sexual and reproductive health set forth in Cairo and Beijing were excluded. Only infection by HIV/AIDS and maternal mortality are to be measured. There is no way of recovering the agenda on the global level, since the goals and indicators are crystallized. But as I see it, countries should not exclusively follow global definitions, which should be seen as platforms or minimum objectives. Monitoring in a new light Still with regard to monitoring , the impression I have is that in the short run a challenge will appear on account of the political transition on the federal level. This is so because we are going to start monitoring public policies under new political conditions. There are many significant implications of the new situation with regard to monitoring public policies as a result of new alignments, and more especially because it is possible to predict that the organizations of civil society will be taken AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT over by the governmental agenda. Whoever has experienced similar situations on the municipal and state level is well aware of how these reconfigurations take place and what they mean. In the long-term perspective, one remaining crucial question concerns the statistical database and indicators. In the specific case of AIDS, despite the fact that in Brazil this has one of the best information systems, some deficiencies need to be faced. I had the opportunity to collaborate with the Ministry of Healths technical team on womens health. During the exercise of assessing the four years of their administration, we faced the question of the profile of women infected by HIV. Everything indicates that we do not in fact know this profile. The current discourse is that married women are the most affected, while others claim that black women are the most affected. It is not possible to define a consistent strategy for prevention and treatment without a clearer profile being made available. It is also appropriate to make some remarks at this juncture concerning diversity or multiculturalism. Whether in the area of AIDS or gender policies, there is a definite need to foster analysis and policies that deal with heterogeneities, situations that define vulnerabilities, discourses, meanings, translations, understandings. This bears enormous implications in respect to databases, because as a rule the units of analysis with which information systems operate (individual, domicile, municipality, country, etc.) tend to upset this heterogeneity, as well as failing to provide relations with a contextual character. However, beyond the problems that diversity poses for indicators, we also have to be on the alert as regards the way that multiculturalism is articulated and confused with cultural relativism. This also means that the enormous difficulties that we systematically face in the United Nations debates to fix an agenda of equality of gender, health and reproductive and sexual rights are due, among SHARING COMPARTILHANDO AGENDAS AGENDAS other things, to the argument of cultural relativism. This brings me to the need for the dialogue to reach beyond our borders, since we must open this debate to other actors, institutions and even companies. With this I agree. Democracy is the exercise of dialogue and alterity. But it does seem proper to join this dialogue with an idealistic attitude. At the present moment this is the perspective that guides the actions of the United Nations, as we have often heard in Kofi Annans speeches: it is important that all the actors are kept in the room. And yet it is not always possible for all to stay on board when the themes are controversial. In my experience, whenever difficult themes appear on the negotiations agenda gender, sexuality, access to medicine or even difficult economic themes somebody has to leave the room. It is not a question of eliminating the difficult themes in order to ensure minimum consensuses, but rather of recognizing the conflicts and trying to solve them without jeopardizing the essence of the agreement. Power differentials Nor must we lose sight of the power differentials that characterize these dialogues. I have nothing against the proposal that we should sit down with the multinationals, but I repeat that this should not be idealized. Nowadays a significant portion of the multinationals have billings three, four, five, ten times higher than the national budgets - the GNPs - of national states. This does not mean just diversity, it also implies brutal power differentials. In a dialogue of this nature, it is always strategic to rescue Marxs ghosts and not to ignore the question of conflict of interests. In this context of analysis, it is appropriate to return to the question of the system of global governance, but from another angle: the weakening of the United Nations visà-vis the Bretton Woods system, the WTO, transnational corporations, and especially 77 77 United States unilateralism. From where I see the debate, I perceive as a risky - not to say mistaken movement the tendency of progressist sectors of civil society to discredit the United Nations system as an arena of political multilateralism. As I see it, this only helps the argument of those who would like to see the multilateral system reduced to dust. So, reconstructing and re-legitimizing the United Nations is perhaps the most important task in todays broader agenda of reconstructing the systems of global governance. And Brazil, as society and State, is very well positioned to help in this task and contribute towards seeing it implemented. (3) NOTES (1) One example of the differentiation between the short and long cycle is offered by political scientist Immanuel Wallerstein, for whom the geo-political conditions prevailing today are the result of the decline of the American empire, the first symptoms of which were already visible in the 70s. In a certain sense, what Wallerstein suggests is that oursurprises in the face of the reality of the millennium spring from the fact that our analysis is being made from the short-term perspective. (2) There are, for example, ideas that go far beyond the Global Fund for AIDS, Tuberculosis and Malaria. In the process of the Conference for Financing Development held in Monterrey in March 2002, George Soros proposed that this financing be assured by relinquishing the socalled Special Drawing Rights (SDRs) of the International Monetary Fund. The SDRs are a reserve fund of the rich countries, set up to be used whenever a systemic crisis affects them directly. They have never been used, except for a small portion withdrawn during the Asiatic crisis of 1997-1998. Soross proposal is for US$ 100 billion to be withdrawn from the SDRs and invested in human-development programs, AIDS being one of the priorities. In other words, in this field too there is a structural debate underway in which we should become involved. (3) These comments were written in November 2002, four months before the failure of the efforts made by the Security Council to deter the Anglo-American invasion of Iraq. I feel, however, that the long-term agenda to reconstruct the United Nations system is more important today than at that moment in the recent past. 78 AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT EL SIDA EN LOS TERRENOS DE DISPUTA DEL DESARROLLO Sonia Corrêa Coordinadora de investigación y análisis en salud y derechos sexuales y reproductivos de la Red Development Alternatives with Women for New Era (DAWN) y coordinadora del Grupo Internacional sobre Sexualidad y Política Social (scorrea@abiaids .org.br) Este debate constituye una oportunidad impar. Él se da en una coyuntura que, de un lado, implica la transición política en Brasil, la cual se conjuga, sin embargo, con condiciones globales muy adversas desde el punto de vista económico, pero también desde el punto de vista geopolítico, las cuales tienen impactos inevitables sobre las cuestiones que trata este debate. Mi intervención trae a discusión algunas ideas desarrolladas antes del panel, y al final comenta de manera breve algunos de los temas que fueron puestos sobre la misma y que evocan algunos dilemas de naturaleza política y conceptual. No obstante cada un y una de los (as) participantes del panel haber hecho su tarea sin un diálogo previo con los/ as demás, aunque a partir de enfoques diferentes, las intervenciones que me precedieron enfatizaron el tema de los conceptos en disputa. Fue dicho, por ejemplo, que tanto el SIDA como el desarrollo son nombres, términos en disputa, sujetos a diferentes interpretaciones. No voy a extenderme en cuanto a las diferentes interpretaciones del SIDA, pero me parece interesante subrayar que, para más allá del debate entre una perspectiva patológica, biomédica, epidemiológica y las perspectivas que interpretan el SIDA como hecho social, no desapareció del escenario la perspectiva moral sobre la epidemia. Inclusive ella es muy relevante en el contexto actual. Esa perspectiva es un elemento central del escenario global adverso que mencioné anteriormente, ya que la actual política norteamericana global para SIDA, como bien sabemos, enfatiza y prioriza la abstinencia como estrategia de prevención. COMPARTIENDO COMPARTILHANDO AGENDAS AGENDAS Sin embargo, mi foco principal será el concepto de desarrollo y las disputas acerca de él. Pero quiero volver atrás, o sea, revisar el tema a partir de la perspectiva de la larga duración, pues considero este seminario, y particularmente esta sesión, como una oportunidad para retomar el tema de desarrollo en su complejidad y profundidad histórica. En ese sentido, es importante recordar que, en Occidente, la noción de desarrollo fue precedida por la concepción de progreso humano del iluminismo. Si sigue a Marx, quien fue, de hecho, el inventor del desarrollo en su acepción moderna, esto es el desarrollo de las fuerzas productivas como determinante económico de aquello que tanto Marx, como antes de él, los iluministas lo habían pensado como el progreso humano. Según Marx, el desarrollo de las fuerzas productivas por un lado libera la creatividad humana, por otro resulta como acumulación de riquezas, alienación y explotación. Hoy, así como en el siglo XIX, el debate sobre desarrollo implica disputas intransigentes que dicen respecto a intereses concretos, materiales. Por esa razón, estoy convencida parafraseando a Derrida que esa conversación no puede eludir los espectros de Marx. Por otro lado, es también muy significativo que, a partir del final de la década del 1940, tomando como punto de partida la creación de las Naciones Unidas y del llamado sistema de Bretton Woods, prevaleció en el debate global -y nacional- una interpretación economista del desarrollo. En un cierto sentido, es como que si a lo largo de la segunda mitad del siglo XX el debate hubiese sido impregnado por las ideas de Marx, pero un Marx despojado de las premisas filosóficas del Iluminismo. 79 79 Crecimiento y modernización Fundamentalmente, entre el final de los años 1940 y el inicio de la década de 1990, el desarrollo fue pensado como crecimiento y modernización. Eso se dio tanto en el caso de la perspectiva socialista, como en las vertientes keynesianas. Incluso en los días actuales, especialmente en el contexto brasileño, el debate continúa siendo economista, teniendo como punto de referencia el principio innegociable de la teoría económica, el reconocimiento de que los recursos son escasos. Pero es también importante recordar que inclusive en el interior de ese paradigma economista, desde siempre, y más especialmente en los años 1960, había divergencias importantes en cuanto a las causas del llamado subdesarrollo y en cuanto a las estrategias más adecuadas para promover el desarrollo. Son ejemplos las teorías de la dependencia y los debates sobre periferia. En ese mismo marco, persistió, sin solución, la tensión entre socialismo y keynesianismo. Enseguida, seríamos lanzados en las manos invisibles del Consenso de Washington, donde continuamos situados. Pero tampoco en esas nuevas y difíciles circunstancias, el debate fue silenciado. Muy significativamente, a lo largo de los años 1990 vimos la emergencia y visibilidad de nuevas perspectivas de desarrollo la más conocida y debatida es, sin duda, la proposición de desarrollo humano, que adiciona a la medida clásica del crecimiento económico premisas y medidas de bienestar: salud, educación, derechos, apoderamiento y sustentabilidad ambiental. Ejercicios en el sentido de articular SIDA y desarrollo exigen que nos posicionemos, de alguna manera, frente a las variadas definiciones e interpretaciones acerca de esos dos términos. Para ilustrar: es posible concebir el SIDA como una patología -o un problema de comportamiento individual desarreglado- que puede ser resuelto por el avance tecnológico, acceso a servicios y estrategias moralistas de prevención. Eso se desdoblará en un tipo de política. Los resultados serán radicalmente 80 diferentes si pensamos el SIDA como un hecho social y epidemiológico complejo que tiene efectos perjudiciales sobre los indicadores de desarrollo humano. En ese caso, vamos a concebir políticas que equilibren la acción del Estado y del mercado, que sean orientadas hacia la superación de la desigualdad en sus variadas manifestaciones (entre países, entre grupos sociales, entre razas y etnias, entre hombres y mujeres) y adopten una perspectiva de apoderamiento y derechos humanos. Cuando hacemos esa segunda selección, nos estamos situando en el terreno de la disputa en cuanto a los significados de desarrollo. Exactamente por eso, es fundamental conocer, debatir y desconstruir los otros argumentos e interpretaciones que están en juego en esa arena. Además de eso, es importante subrayar que no siempre esos otros argumentos se presentan de manera tan nítida. En el mundo real en que se dan esas disputas, las fronteras entre posiciones son más borradas e incomparablemente más complicadas. Para ilustrar eso basta recuperar el recorrido tortuoso que, en el plano global, a lo largo de la última década, hizo del SIDA un tema del desarrollo y vale la pena rescatar, todavía de manera breve, esa trayectoria. Sin duda, las perspectivas de desarrollo keynesiano o socialista, que habían prevalecido entre los años 1960 y 1980, incluían prioridad para inversiones en salud y educación. En el debate global sobre desarrollo, eso sería traducido por el enfoque de las necesidades básicas (basic needs) que, en gran medida, orientó la inversión del Banco Mundial en varios países asiáticos. Muy sin embargo el tema de las necesidades básicas hubiera sido retirado de la agenda por el Consenso de Washington, a comienzos de la década del 1990, en respuesta a las críticas acerca de los impactos sociales negativos de los programas de ajuste estructural, el Banco Mundial reorienta sus políticas en el sentido de preconizar inversiones en salud y educación. El marco de esa inflexión fue el Informe Anual de desarrollo del 1993 (Invirtiendo en Salud), que continua marcando SIDA Y DESAROLLO AIDS E DESENVOLVIMENTO las políticas del banco y de otras agencias internacionales hasta hoy. Pero al hacer ese viraje, el Banco Mundial no tomó como parámetro premisas generales de desarrollo humano y derechos, pero construyó medidas económicas sofisticadas para evaluar el impacto de la educación y, más especialmente, de la carga de las enfermedades (burden of disease) que son hasta hoy los parámetros utilizados para definir prioridades de inversiones y orientar la ubicación de los recursos. En gran medida fueron estos análisis econométricos (economistas) los que inauguraron la discusión sobre SIDA y desarrollo. Al hacer sus cuentas precisas, el Banco Mundial descubrió que algunas enfermedades y fenómenos sociales como el SIDA y la violencia- tenían enorme impacto sobre la productividad. Retomando la idea central de los conceptos en disputa, ¿como nos posicionamos frente a esa realidad? De un lado, fue fundamental que esos cálculos se hayan desdoblado en la priorización de inversiones públicas -y privadas- para el SIDA. Si eso no hubiese pasado, el programa nacional de SIDA -tal como lo conocemos- no existiría. Pero por otro lado, en mi evaluación, era y continua siendo fustigar la lógica economista que está subyacente a esa reorientación de las políticas del Banco Mundial, que, inclusive, en este momento, también permea las definiciones de la Organización Mundial de la Salud. A partir de esa perspectiva, cabe dialogar con las intervenciones anteriores. SIDA y pobreza: una articulación técnica Dicho de otro modo, la disputa por los significados no está concluida. Entre otras razones por que en la secuencia del viraje hecho por el Banco Mundial, en 1993, nos depararíamos con la articulación técnica entre SIDA y pobreza. Y vale la pena revisar los pasos que llevaron a esa nueva formulación. El primero de ellos fue la retomada de la cuestión de la pobreza en el contexto de las grandes COMPARTIENDO AGENDAS COMPARTILHANDO AGENDAS conferencias de la ONU, que se tornaron conocidas como Ciclo Social y que se consolida en la Cúpula del Milenio en el 2000, desdoblándose posteriormente en las llamadas Metas de Desarrollo del Milenio (MDMs). En ese recorrido, fue muy relevante la crisis asiática de 1997 y 1998, pues, de hecho, fue a partir de ahí que otros actores no tan sólo las Naciones Unidas pasarían a hablar de desarrollo y pobreza. Sin dudas, en esa lista está el Banco Mundial, pero desde 1999 no sólo el banco llama la atención hacia la pobreza, también el Fondo Monetario Internacional y la propia Organización Mundial del Comercio (OMC). En cierto sentido, es esa nueva inflexión que termina por situar a África en el centro del debate. Ahí, una vez más estamos frente a una situación paradoxal: por un lado, es importante que la pobreza haya vuelto para el centro del debate de desarrollo, así como es fundamental que África, que había sido abandonada por las instituciones internacionales, retorne a la pauta global. Pero las concepciones dominantes sobre la reducción de la pobreza centralizan el problema estrictamente como insuficiencia de renta, y a partir de parámetros arbitrarios, como un dólar al día. De modo general, el debate global sobre pobreza no ha enfatizado en la cuestión de las desigualdades. Hay, sin dudas, un debate sobre desigualdad global, pero tiene menos visibilidad y apelo que la cuestión de la pobreza. Además de eso, aunque reducir la pobreza se haya convertido de hecho en una realidad en el plano de los discursos sobre política pública, son innumerables y contradictorias las proposiciones acerca de como eso debe ser realizado. Si en ese campo la perspectiva del desarrollo humano es todavía muy relevante, se amplía la legitimidad de propuestas que preconizan más reformas económicas en la misma dirección y también mayor aper tura comercial; una vez más estamos en un terreno de incitantes disputas. Para retornar a la articulación entre SIDA, desarrollo y pobreza, sabemos que es 81 imposible enfrentar la epidemia excluyendo la ecuación desigualdad racial, de géneros, entre grupos sociales y entre países. Si miramos con ese lente hacia contextos específicos, podemos firmar interpretaciones que no van en la dirección de los discursos dominantes. Varios actores han llamado la atención hacia el hecho de que el abandono de África, tanto en la agenda del desarrollo como en las medidas tomadas para la contención del SIDA, fue como una resignificación del racismo colonialista. Entretanto, nada indica que la crisis del SIDA en África pueda ser solucionada a partir de políticas que prioricen exclusivamente las inversiones de mercado el New Economic Partnership for African Development (NEPAD) , combinadas con prevención por la vía de la abstinencia. Si en el otro extremo, examináramos lo que pasa en China no es difícil verificar que las elevadas tasas de crecimiento económico (9% al año, a lo largo de la última década) y la gran inversión en educación e infraestructura tampoco han contenido la expansión de la epidemia. Excluyendo la cuestión de la sexualidad Esas ilustraciones permiten diversificar el debate, ya que tanto a la derecha como a la izquierda las discusiones sobre SIDA, desarrollo y pobreza tienden a oscurecer el entendimiento de la epidemia como hecho social y epidemiológico complejo y sobre todo, excluyen sistemáticamente la cuestión de la sexualidad. De un lado, el presidente norteamericano George Bush preconiza como solución una combinación de más mercado, servicios sociales básicos ofrecidos preferentemente por organizaciones religiosas-y abstinencia. En el campo de las fuerzas antiglobalización, la tendencia ha sido focalizar la lucha por las patentes porque esa es, de hecho, una cuestión económica y por tanto, de desarrollo, desconociéndose, completamente, la relevancia de la sexualidad, de los sistemas sexo-género como factores que explican la 82 extensión y la profundidad de la epidemia. Esa escena dicotómica precisa ser desconstruída, pues el SIDA es como una ventana que nos permite articular mejor, y de manera más creativa, sexualidad, desarrollo, pobreza y macroeconomía. Entretanto, hay otras cuestiones de fondo que la mesa evoca. Una de ellas es el tema del ciclo corto y del ciclo largo de la epidemia. Cuando pensamos en SI DA y desarrollo, también estamos desafiados(as) a reconocer que la producción de políticas de transformación social no se restringen a una coyuntura inmediata, pero también deben ser pensadas en la perspectiva del ciclo largo o de larga duración. (1) Eso abre, necesariamente, una interrogante: ¿Cómo formular análisis, estrategias y propuestas para una coyuntura inmediata sin perder de vista el ciclo largo, ya sea del desarrollo, o ya sea del SIDA? Para ilustrar mejor lo que eso significa, yo diría que lo que hagamos de inmediato para contener el unilateralismo y el posicionamiento norteamericanos en relación con la epidemia tiene un significado coyuntural crucial. Pero no debería hacer que perdiésemos de vista el significado de la epidemia y del desarrollo en ciclo largo. Es preciso hacer las dos cosas, todavía que no sean hechas por los mismos actores y actrices. Ya con relación a la falta de control de la epidemia, yo me veo tentada a traer para la discusión referencias conceptuales, como Giddens, Baumman y Beck, que han hecho formulaciones sobre sociedad de riesgo, sociedad de la incertidumbre. Esas proposiciones son fundamentales para enriquecer el debate, porque las teorías progresistas de desarrollo, tal como las conocimos entre los años 1940 y 1990, están presas a un paradigma que supone razonable estabilidad -lo que se aplica tanto al socialismo, como a las versiones keynesianas. Lo que esos autores nos traen a nuestra reflexión es la interrogante de como pensar en desarrollo y SIDA en tiempos de riesgo e inseguridad. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO Pero, sobretodo, quiero discordar de la afirmación de que la globalización es un modelo de desarrollo que sólo produjo desigualdad de género. Uno de los mayores desafíos enfrentados por las investigadoras y teóricas feministas es exactamente dar cuenta de una escena incomparablemente más paradoxal. La globalización, por un lado, produjo mayor inclusión de una porción de mujeres en el mercado de trabajo. Por otro lado, produjo exclusión de otra porción de mujeres (en general las menos educadas), mantuvo o inclusive amplió los diferenciales salariales entre hombres y mujeres, pero también en varios contextos hizo aumentar la desigualdad entre mujeres, al mismo tiempo que se reducía la desigualdad entre hombres y mujeres - Brasil es un buen ejemplo. Estoy convencida de que para avanzar en el debate sobre SIDA, género y desarrollo es preciso ir más allá de la retórica de que las mujeres son víctima de la globalización, reconociendo la complejidad y las paradojas de las realidades en que nos movemos. Estado y mercado Otro tema presente en todas las intervenciones nos habla respecto al papel del Estado, o para ser más precisa, a la necesidad de equilibrio entre medidas de Estado y medidas de mercado. Es importante resaltar que esa es, sin dudas, la cuestión central del debate actual sobre desarrollo económico y crecimiento y no es posible agotarlo aquí. Pero es importante decir que, tampoco en ese caso, estamos comenzando de cero. Ese es un debate que está en la calle, y si quisiéramos avanzar en la articulación conceptual entre SIDA y desarrollo es preciso que comencemos a dialogar seriamente con los actores que están involucrados en esa conversación macroeconómica: Joe Stiglitz, Dani Rodrik, Paul Krugman y la propia Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL) Sobretodo con Jeffrey Sachs, en su versión progresista, pues hoy él es el responsable oficial de la elaboración de indicadores para las Metas de Desarrollo del Milenio. COMPARTILHANDO AGENDAS COMPARTIENDO AGENDAS Un tema relacionado que también estuvo presente en la mesa, nos habla respecto al sistema de gobernación global económica y política. El abordaje fue, sobretodo, el de la crítica a los programas de ajuste, de la crítica al Banco Mundial, de la crítica al Fondo Monetario Internacional, de la crítica a la OMC. Aunque esa crítica sea necesaria, estoy convencida de que, en ese asunto, es preciso ir más allá de ella y de hecho, tomar en las manos la agenda de la reconstrucción del sistema de gobierno global, que no debería excluir a las Naciones Unidas como polo de la gobernación política. En el campo de la sociedad civil, estamos a leguas de distancia de esa comprensión. Esa es, sin duda, una tarea de ciclo largo, pero precisa ser iniciada. Y hay innumerables proposiciones en ese sentido. Aunque no puedan ser implementadas en las actuales condiciones geopolíticas, es preciso conocerlas. (2) Otro gran tema de la mesa fue el monitoreo. Las Metas de Desarrollo del Milenio me parecen fundamentales. Pero tal vez sea importante esclarecer lo que son las MDMs: Indicadores que intentan traducir las proposiciones de las conferencias del ciclo social de la década de 1990 en una pauta mensurable, o sea, en instrumento que permita a las Naciones Unidas y a los países medir la implementación. Hoy, las MDMs son el carro jefe de las Naciones Unidas y como ya se dijo antes, quien está de responsable por la parte técnica de esa tarea es el profesor Jeffrey Sachs. Aunque la iniciativa de las MDMs sea loable, hay varios problemas que precisan ser nombrados. Para nuestra agenda de trabajo, el problema más grave es que los indicadores fueron definidos en 2001 y bajo presión del gobierno americano, fueron excluidas las metas específicas de salud sexual y reproductiva del Cairo y de Pekín. Serán medidas apenas la infección por el HIV/SIDA y la mortalidad materna. No hay como recuperar la agenda en el plano global, pues las metas e indicadores están cristalizados. Pero a mi modo de ver, los países no deberían 83 guiarse exclusivamente por las definiciones globales, las cuales deben ser vistas como pisos, objetivos mínimos. Monitoreo bajo nueva luz Todavía en lo que se dice respecto al monitoreo, tengo la impresión de que en un corto plazo un desafío se anuncia en razón de la transición política en el plano federal. Eso porque vamos a pasar a hacer monitoreo de políticas públicas en condiciones políticas nuevas. Son muchas y no poco triviales las implicaciones de la nueva coyuntura con relación al monitoreo de políticas públicas, en razón de nuevo alineamiento y más especialmente, porque es posible prever la captura de las organizaciones de la sociedad civil por la agenda gubernamental. Quien ya vivió situaciones equivalentes en los niveles municipales y estaduales sabe bien como se dan y lo que significan esas reconfiguraciones. En la perspectiva de largo plazo, una cuestión crucial continúa siendo la que habla respecto a la base de datos estadísticos y de indicadores. En el caso específico del SIDA, aunque en Brasil ese sea uno de los mejores sistemas de información, hay deficiencias que precisan ser enfrentadas. Tuve la oportunidad de colaborar con el área técnica de salud de la mujer, del Ministerio de Salud, en la evaluación de sus cuatro años de gestión y en ese ejercicio, enfrentamos la cuestión del perfil de las mujeres: ¿quienes son las mujeres infectadas por el VIH? Todo indica que no conocemos, de hecho, ese perfil. El discurso corriente es que las mujeres más afectadas son las casadas, otros nos dicen que las más afectadas son las negras. No es posible definir una estrategia consistente de prevención y tratamiento sin mayor claridad cuanto a ese perfil. También cabe hacer algunos comentarios sobre la diversidad o el multiculturalismo. Que ya sea en el terreno del SIDA o en el de las políticas de género, sin dudas, es preciso pautar análisis y políticas que tengan en cuenta las heterogeneidades, las situaciones que definen vulnerabilidades, discursos, 84 significados, traducciones y entendimientos. Eso tiene enormes implicaciones con relación a las bases de datos, pues en general las unidades de análisis con que los sistemas de información operan (el individuo, el domicilio, el municipio, el país, etc.) tienden a vaciar esa heterogeneidad, así como no proponen el carácter contextual de las relaciones. Pero, más allá de los problemas que la diversidad le coloca a los indicadores, es preciso aún, estar atentos(as) a la manera por la cual el multiculturalismo se articula y se confunde con el relativismo cultural. Vale decir, además, que las enormes dificultades que enfrentamos sistemáticamente en los debates de la ONU para firmar una agenda de igualdad de género, salud y derechos sexuales y reproductivos se deben, entre otras cosas, al argumento del relativismo cultural. Eso me lleva a la necesidad del diálogo más allá de nuestras fronteras, de que precisamos abrir ese debate con otros actores, instituciones y empresas, inclusive. Yo estoy de acuerdo. Democracia es el ejercicio del diálogo y de la alteridad. Pero no me parece adecuado entrar en ese diálogo de forma idealista. En este momento, esa es la perspectiva que orienta la acción de las Naciones Unidas, conforme oímos muchas veces en los discursos de Kofi Annan: Es importante mantener todos los actores en la sala. Entretanto, no siempre es posible que todos se queden a bordo, cuando los temas son controversiales. En mi experiencia, siempre que temas difíciles entran en el marco de negociación género, sexualidad, acceso a medicamentos o los propios temas económicos alguien va a salir de la sala. No se trata de eliminar los temas difíciles para asegurar consensos mínimos, pero sí de reconocer los conflictos y tratar de ecuacionarlos sin que la sustancia del acuerdo sea comprometida. Diferenciales del poder Tampoco debemos perder de vista los diferenciales del poder que caracterizan esos diálogos. No tengo nada contra la propuesta de que nos sentemos con las multinacionales, AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO pero una vez más eso no debe ser idealizado. Hoy, una parte importante de las multinacionales tienen facturaciones que son tres, cuatro, cinco, diez veces mayores que los presupuestos nacionales de los estados, que los PIBs de los estados nacionales. Eso no significa apenas diversidad, implica diferenciales brutales de poder. En un diálogo de esa naturaleza es siempre estratégico rescatar los espectros de Marx y no distanciar la cuestión del conflicto de intereses. En ese contexto de análisis, cabe retomar la cuestión del sistema de gobernación global; pero a partir de otro enfoque: el debilitamiento de las Naciones Unidas frente al Sistema de Bretton Woods, a la OMC, transnacionales y más especialmente, a la unilateralidad americana. Desde donde miro el debate, percibo como un movimiento arriesgado, para no decir equivocado, la tendencia de los sectores progresistas de la sociedad civil en el sentido de desacreditar el sistema de las Naciones Unidas como arena del multilateralismo político. A mi modo de ver, eso tan sólo adiciona agua al molino de aquellos que quieren ver el sistema multilateral reducido a polvo. Así, la tarea de reconstrucción y relegitimación de la ONU es tal vez, hoy, la más importante en la pauta más amplia de reconstrucción de los sistemas de gobernación global y Brasil, en cuanto a sociedad y Estado, está muy bien posicionado para pautar esa tarea y contribuir en su implementación. (3) COMPARTIENDO AGENDAS COMPARTILHANDO AGENDAS NOTAS (1) Un ejemplo de la diferenciación entre el ciclo corto y el ciclo largo es ofrecido por el científico político Immanuel Wallersten, para quien las condiciones geopolíticas que experimentamos hoy son resultado de la declinación del imperio americano, cuyos primeros síntomas ya se hacían visibles en la década de 1970. En cierto sentido, lo que Wallersten sugiere es que nuestras sorpresas frente a la realidad del milenio, transcurren, desde que las estamos analizando en la perspectiva coyuntural, o sea, en ciclo corto. (2) Hay, por ejemplo, ideas que van mucho más allá del Fondo Global de SIDA, Tuberculosis y Malaria. En el proceso de la Conferencia para Financiamiento del Desarrollo, que se finalizó, en Monterrey, en Marzo del 2002, George Soros propuso que ese financiamiento fuese asegurado teniendo en cuenta los llamados Derechos Especiales de Saque (DES), del Fondo Monetario Internacional. Los DES son un fondo de reserva de los países ricos, creado para ser eventualmente utilizado en una crisis sistémica que los afectase directamente. Nunca fueron usados, excepto una pequeña parte retirada durante la crisis asiática de 1997/ 1998. La propuesta de Soros es que fuesen sacados US $ 100 mil millones de los DES para invertir en programas de desarrollo humano, teniendo que el SIDA seria una de las prioridades. O sea, en ese campo también hay un debate estructural en curso con el cual lo deberíamos encajar. (3) Esos comentarios fueron elaborados en noviembre del 2002, cuatro meses antes de la falencia de los esfuerzos realizados por el Consejo de Seguridad para contener la invasión anglo-americana de Irak. Considero, no obstante, que la agenda de largo plazo de reconstrucción del sistema ONU es más importante hoy de lo que en aquel momento. 85 85 2 86 AIDS E DESENVOLVIMENTO AIDS e pobreza AIDS and poverty SIDA y pobreza AIDS E POBREZA 87 A epidemia acompanhando a evolução da pobreza em um bairro de Porto Alegre Maria Regina Varnieri Brito Médica, sanitarista, epidemiologista e chefe da equipe de controle epidemiológico da Coordenadoria-Geral de Vigilância em Saúde, da Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre ([email protected]). 88 AIDS E DESENVOLVIMENTO O estudo intitulado: AIDS e pobreza: práticas sexuais, representações da doença e concepções de risco em um bairro de Porto Alegre (1) contou com a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Pósgraduação em Antropologia Social Núcleo de Pesquisa em Antropologia do Corpo e da Saúde (NUPACS); Faculdade de Medicina (UFRGS); e, dentro da Prefeitura de Porto Alegre, com a Assessoria de Planejamento com a Política Municipal de DST/AIDS e a Coordenadoria de Vigilância em Saúde. (2) O estudo foi idealizado a partir de uma demanda da Prefeitura de Porto Alegre, por meio da realização de uma série de seminários em 1997 (AIDS QUO VADIS). Para nós, era difícil reunir informações sobre AIDS e pobreza. Nesse meio tempo, começamos a trabalhar com os dados de mortalidade por bairro da cidade. Além disso, iniciava-se o programa de redução de danos, em 1996/1997, e era necessário escolher o local em que se implantariam as atividades desse programa. Com base nos dados de mortalidade, selecionou-se o bairro Partenon como o local em que mais morriam pessoas de AIDS no município (as informações sobre morbidade por bairro eram muito limitadas). E foi nesse bairro que começou o programa de redução de danos da Secretaria Municipal de Saúde. Além disso, o NUPACS já tinha realizado outro trabalho de campo naquela área e já possuía os contatos necessários na comunidade. O objetivo dessa pesquisa era compreender os fatores que acentuavam a vulnerabilidade da população de baixa renda ao HIV. Era possível ver na distribuição da mortalidade que nos bairros mais pobres morriam mais pessoas de AIDS. Essa pesquisa englobou: Representações sobre formas de infecção pelo HIV e o impacto da alta incidência nessas representações; Práticas sexuais correntes, como estão percebidas, com quem estão associadas; Percepção de risco; AIDS E POBREZA 89 Perfil das pessoas que buscam teste sorológico existe um Centro de Testagem e Aconselhamento (Centro de Orientação e Aconselhamento Sorológicos COAS) localizado na área da pesquisa; Rede de relações de trocas de parceiros sexuais e seringas; Fontes de informação sobre saúde e doença, linguagem e veículos preferidos. Etapas A metodologia da pesquisa compreendeu as seguintes etapas: 1) Estudo sobre as práticas sexuais das populações estudadas e suas representações sobre AIDS. Aqui, foi realizado todo o trabalho de campo, as histórias de vida, tendo sido tudo gravado e transcrito. Foi realizada a análise de discurso de como as pessoas estavam vendo a transmissão da AIDS e o que estavam recebendo de informação de todo o trabalho de divulgação de anos sobre a AIDS realizado pela secretaria e serviços de saúde. 2) Estudo das redes de relações das pessoas infectadas pelo HIV. Essa etapa não foi executada devido à insuficiência de recursos para estagiários envolvidos com o trabalho de campo da primeira etapa. Ficou também muito complicado trabalhar com as relações das pessoas HIV positivas, seus parceiros/contatos sexuais. Não é simples mapear essa rede toda de relações em uma comunidade pequena. As pessoas sabiam o que estávamos fazendo, e ainda havia todo um trabalho de redução de danos andando em paralelo, organizado pela prefeitura. Simplesmente ficou inviável do ponto de visto ético seguir o mapeamento da rede de relações sexuais das pessoas infectadas pelo HIV. 3) Estudo dos usuários do COAS. Dentro da área geográfica da pesquisa, já existia um COAS funcionando há mais tempo. Essa etapa também ficou fora por falta de recursos, que foram gastos com o trabalho de campo da primeira etapa. 4) Análise das notificações de AIDS. Essa foi a etapa do estudo sobre a qual se centra este artigo. Ela contém, além da análise das notificações de AIDS, a qualificação do banco de dados de AIDS disponível no nível estadual, buscando trabalhar com o 90 AIDS E DESENVOLVIMENTO detalhamento da informação para uso do nível municipal, para a cidade de Porto Alegre. Naquela época, foram recolhidos os endereços de todos os casos de AIDS de Porto Alegre da série histórica compreendida pelos anos de 1983 a 1998, para mapear os casos por endereço (rua e número de cada domicílio) em um mapa digitalizado da cidade, com o objetivo de conhecer o perfil da região em que estávamos trabalhando o bairro Partenon e arredores. Essa tarefa foi muito trabalhosa, pois quem conhece um mapa digitalizado sabe que temos que trabalhar na entrada de dados com endereços padronizados. Imaginem mais de dez anos com pessoas diferentes entrando com endereços de maneiras diferentes no banco de dados. Foi necessário verificar registro por registro. Questionamentos Alguns questionamentos surgiram a partir do trabalho de campo: As campanhas de informação não estavam conseguindo atingir esse segmento da população? A pesquisa identificou que a população sabia muito bem como era transmitida a AIDS. Elas tinham o discurso todo na ponta da língua. O problema era a prática do conhecimento, o uso da camisinha. O discurso estava adequado a todo o conteúdo educativo de prevenção. A população de baixa renda torna-se mais exposta ao HIV por dificuldades econômicas de viabilização da prevenção? Segundo o estudo, isso não apareceu de forma evidente, não pareceu ser verdadeiro. Práticas sexuais diferenciadas podem predispor à infecção? Também não apareceu nada sobre isso na análise dos dados do trabalho de campo. AIDS E POBREZA 91 Uma das conclusões mais inquietantes da análise foi que a familiaridade com a doença no grupo social leva à sua banalização e à não adoção de práticas preventivas, como veremos a seguir. Em 1993/1994, o NUPACS desenvolveu trabalhos nas Vilas Dique e Valão, na Zona Norte de Porto Alegre. Temos que nos situar bem no tempo eram os anos de 1993 e 1994 , e a incidência da AIDS era baixa nessas comunidades pobres. No Valão, a incidência era considerada média, começando a subir. O tráfico e o uso de drogas na Vila Dique eram baixos: o local era ainda somente uma invasão de famílias. O Valão já estava começando com o tráfico de drogas mais intenso. Em 1997/1998, observou-se alta incidência da AIDS no Partenon e tráfico de drogas intenso. O trabalho realizado nas Vilas Dique e Valão, em 1993/ 94, já havia tentado conhecer o perfil do portador do HIV. Na Vila Dique, quando os moradores eram perguntados sobre se conheciam alguém com AIDS, respondiam que viam na televisão artistas que eram doentes. Eram pessoas distantes de sua realidade. Ninguém conhecia em sua comunidade um doente de AIDS. Já na Vila Valão, em que começava a aumentar a ocorrência da doença, já havia tráfico e um uso maior de drogas, os moradores diziam: São aqueles lá, os drogados, são os que têm AIDS. Eles diferenciavam dentro da comunidade os drogados e os não drogados. Dentro do grupo dos drogados é que havia pessoas com AIDS, e esses sempre residiam fisicamente longe das famílias, que se consideravam de não drogados. 92 AIDS E DESENVOLVIMENTO Na Vila Dique, as atitudes em relação aos portadores do HIV e aos doentes de AIDS eram de distanciamento total. Porque os moradores não conheciam ninguém doente. Já na Vila Valão, a atitude era de um distanciamento parcial, pois o doente de AIDS era sempre quem morava longe (do outro lado da vila): Eu não me dou com esses usuários de drogas. Quando o mesmo levantamento foi realizado no Partenon (nos anos de 1997 e 1998), quando a incidência de AIDS já era alta, identificamos que esse outro (o doente de AIDS ou portador do HIV) passou a ser uma pessoa muito próxima, era o vizinho do lado, o amigo, o parente. Então, em 1998, a AIDS já havia entrado na rotina dessa população, já fazia parte do dia-a-dia, gerando uma atitude de solidariedade, isto é, as pessoas se ajudando umas às outras. Só que ao mesmo tempo, ocorria uma banalização da doença, como se o pensamento fosse: Já que todo mundo tem AIDS, eu vou ter também. E, por esse motivo, as pessoas não usavam preservativo nas relações sexuais, não se preveniam, ou então, contavam histórias fantasiosas, como A fulana era virgem, nunca usou drogas. Foi ajudar o pai, se cortou e está com AIDS ou Não adianta a gente se prevenir. À medida que a AIDS é percebida como um destino fatídico dessa comunidade, as pessoas se perguntavam: Para que se cuidar?. Fica nas mãos do destino e não do indivíduo o contágio pelo HIV. Chegamos, então, a um ponto onde a solidariedade entrou em conflito com a prevenção. As pessoas não tinham o cuidado de se prevenir porque pensavam que ter AIDS era um destino certo, comum, freqüente: Todo mundo lá tem AIDS. AIDS E POBREZA 93 O resultado da componente antropológica desse estudo sobre AIDS e pobreza foi que, se a AIDS estava relacionada à pobreza dessa região da cidade, o problema maior era a banalização da doença na comunidade. A AIDS tornou-se um problema de todos e, muitas vezes, ligado a histórias de infecção mesmo com uso de proteção, sem relações sexuais ou sem o uso compartilhado de drogas injetáveis. O discurso era que a infecção pelo HIV era algo inevitável. Perfil epidemiológico Um fato interessante dessa pesquisa é que o trabalho de campo acontecia paralelamente à análise de dados epidemiológicos, ou seja, não havia uma comunicação direta entre a vertente epidemiológica do estudo e a parte antropológica. O bairro do Partenon fica ao sul de Porto Alegre. Junto à região central, configura uma das maiores incidências de AIDS no município. No Rio Grande do Sul, em 1998, a incidência acumulada de AIDS era de 101,49 casos por 100 mil habitantes. Na região metropolitana era de 233 por 100 mil. Para Porto Alegre, devíamos estar com incidências de 250 ou 260 por 100 mil. Porto Alegre fica um pouco acima da região metropolitana em incidência de AIDS. Somente o distrito sanitário de número 6, que é a regional do bairro Partenon, estava com índices de 390 por 100 mil: quatro vezes maior que a média para o estado isso em 1998. Depois, vinha a região das Ilhas (do Rio/Lago Guaíba) com 296/100 mil essa é uma região de Porto Alegre pouco povoada, mas com uma população bastante pobre. No bairro Partenon, há uma infinidade de serviços de saúde, não havendo, portanto, população descoberta de assistência médica. Todos os serviços de saúde têm seu território demarcado, com a população vinculada a pelo menos um serviço de saúde. Até 1998, eram 265 casos de AIDS naquela comunidade localizada na área do trabalho de campo. Geograficamente, a distribuição dos casos é uniforme, ou seja, aquele discurso que apareceu no estudo antropológico, de que 94 AIDS E DESENVOLVIMENTO a AIDS era um evento comum na comunidade, confirma-se com os dados epidemiológicos. Não há casos isolados, a distribuição dos casos é difusa. Toda quadra tem pelo menos um caso. É por isso que cada morador tem um parente ou um amigo com AIDS. No que diz respeito ao número de casos de AIDS em usuários de drogas injetáveis (UDIs) por distrito sanitário em Porto Alegre, no ano de 1998, novamente, o distrito 6 (do bairro Partenon) apresentava os valores mais elevados (140 casos) e só perdia para uma outra área da cidade que apresentava 164 casos. No entanto, há que se considerar que essa região é bem maior em tamanho, quando comparada ao Partenon. Portanto, quando fazemos o cálculo da incidência de AIDS por 100 mil habitantes, a região do Partenon vai para uma incidência acumulada de 134 casos de AIDS em usuários de drogas/100 mil habitantes, que é a maior da cidade. O distrito vizinho é o segundo maior em incidência, com 78 casos em UDIs/100 mil habitantes. Foi acertada a escolha desse local para implantar o programa de redução de danos, mesmo antes dos dados dessa pesquisa estarem disponíveis. Realmente, no Partenon e arredores, encontramos os locais onde havia maior risco de transmissão da AIDS entre usuários de drogas, por meio do compartilhamento de seringas. Confirmação de dados No trabalho de campo da pesquisa, acabamos por observar cifras semelhantes aos dados epidemiológicos das fichas de notificação. Os casos de AIDS estavam espalhados por toda a comunidade. Foram 103 casos em usuários de drogas, de um total de 265 casos na área geográfica do trabalho de campo, perfazendo 38,87 % de usuários de drogas em relação ao conjunto dos casos de AIDS. É importante notar que, segundo os achados do trabalho de campo, foram identificados altos índices para o uso de álcool e maconha, além do uso de drogas injetáveis. Assim, em 1998: 8,4% das mães de crianças infectadas por meio de transmissão vertical do HIV eram usuárias de drogas injetáveis e 14,6% eram parceiras de homens UDIs. Vinte e cinco por cento das mulheres com AIDS admitiram que eram parceiras de homens usuários de drogas injetáveis, 30,7% AIDS E POBREZA 95 dos homens com AIDS relatavam o uso de drogas injetáveis e 17,95% das mulheres com AIDS relatavam o uso de drogas injetáveis. Na média, 26,1% dos pacientes de AIDS relatavam o uso de drogas injetáveis. Essas eram as informações relatadas, e deve-se levar em consideração que algumas pessoas omitem o uso de drogas injetáveis durante o preenchimento da ficha de investigação epidemiológica. Por isso, esses percentuais são aproximados, pois, certamente, deve existir um número ainda maior de usuários de drogas. As procentagens referem-se somente às pessoas que admitem o uso de drogas injetáveis. Alguns dados mais recentes sobre a epidemia de AIDS em Porto Alegre confirmam essas tendências epidemiológicas. Em 2001, temos 35% dos homens com AIDS que relatam o uso de drogas injetáveis e 13,8% das mulheres com AIDS também relatam o uso de drogas injetáveis. Nota-se que o percentual para as mulheres teve uma redução expressiva quando comparado com o ano de 1998. No entanto, não se sabe se é devido ao fato de as mulheres estarem usando menos drogas, ou se há uma subnotificação em função da omissão da informação sobre o uso de drogas, ou, ainda, porque o número absoluto de mulheres com AIDS aumentou. De qualquer modo, o uso de drogas injetáveis ainda é um fator importante na transmissão da AIDS na população feminina. As gestantes HIV positivas, que relatam uso de drogas injetáveis, correspondem a 14,38% dos casos. No conjunto da cidade de Porto Alegre, o uso de drogas injetáveis segue sendo uma via muito importante da transmissão da epidemia do HIV. Para o estudo feito no bairro Partenon, em 1998, só foram mapeados os endereços que puderam ser localizados a partir da notificação. Havia um problema sério de perdas no registro dos endereços dos pacientes. No início da epidemia de AIDS, em 1983, a ficha de investigação epidemiológica não tinha nem o nome nem o endereço do paciente. E mesmo quando essa informação passou a ser colhida, verificamos que ela não era registrada, sendo que o campo referente ao 96 AIDS E DESENVOLVIMENTO endereço ficava em branco. Entre os pacientes cujos endereços foram mapeados, 28,2% eram usuários de drogas injetáveis, sendo que hoje temos uma proporção de 26,98%. Mas nem tudo é sombrio no campo da AIDS. Atualmente, vivemos uma situação em que a epidemia encontra-se estabilizada. Isso não quer dizer que os Houve uma redução na velocidade da epidemia e nós temos um crescimento estável das taxas para pessoas com domicílio em Porto Alegre, que varia em torno de 1.000 pacientes novos por ano. Existe também uma queda da mortalidade, observada desde casos não aconteçam e que as pessoas não estejam se infectando. 1996, e que está relacionada com a disponibilização dos tratamentos. Ou seja, inserem-se, na comunidade, cerca de mil casos novos por ano, com uma mortalidade menor e, conseqüentemente, temos um volume total de pacientes crescendo. Mas a taxa de incidência não vem aumentando, ela está aparentemente estável. Com relação à AIDS pediátrica (menores de 13 anos), chegamos a ter um pico de 78 crianças diagnosticadas em 1996. Quando passou-se a aprimorar o trabalho durante o pré-natal, com a prevenção da transmissão vertical, esse número caiu e deve estabilizar-se em cerca de 30 casos/ano para Porto Alegre. A mortalidade por AIDS pediátrica reduz-se substancialmente com o acompanhamento e o tratamento dos pacientes. De uma forma geral, não há uma alteração significativa no perfil epidemiológico no município de Porto Alegre no últimos anos. Em 2001 e 2002, o bairro com o maior número de casos de AIDS continua sendo o Partenon, acompanhado de perto pelos bairros Rubem Berta e Restinga, que também são zonas pobres da cidade. Mas o bairro Partenon ainda mantém o triste título de campeão dos casos de AIDS, mesmo agora depois do trabalho educativo realizado, continuamente, ao longo dos últimos anos, e que consistia em ações de redução de danos e oferta de assistência médica. No ano de 2001, foi oficialmente transferida ao município a responsabilidade pela vigilância epidemiológica da AIDS. Assim, começou a ser realizado um trabalho AIDS E POBREZA 97 com as gestantes HIV positivas, com a implantação dos testes rápidos nos hospitais (maternidades) de Porto Alegre. Se em 2000, tínhamos somente quatro gestantes notificadas, esse número cresce para 166 já em 2001, e até outubro de 2002, foram notificadas 400 gestantes/puérperas, que estão em Apesar desse grande crescimento, a boa notícia é que as gestantes estão tendo acesso ao diagnóstico da infecção pelo HIV (em alguns casos, de AIDS) durante o pré-natal, o que permite a utilização de tratamento durante a gestação e no momento do parto, acompanhamento. reduzindo as chances de transmissão vertical. Para aquelas que não são diagnosticadas no pré-natal, há a oferta do teste rápido nas maternidades, para ser realizado antes do parto. Das crianças nascidas em 2001, 133 já estão encerrando seu acompanhamento e nenhuma transmissão vertical foi detectada. Ainda há que se esperar até que essas crianças completem 2 anos de idade, para termos certeza do sucesso dessa intervenção junto às gestantes. É importante frisar que todas as crianças estão acompanhadas pelos serviços de saúde, com todos os exames necessários. Até o presente momento, a transmissão vertical dessas mulheres que vêm sendo acompanhadas no prénatal ou no momento do parto tende a zero. Panorama atual Os dados epidemiológicos recentes mostram que a epidemia de AIDS acompanha a evolução da pobreza no município. Além do Partenon, os bairros Santa Tereza e Cristal são áreas de maior risco para uso de drogas injetáveis, com indicadores socioeconômicos bem desfavoráveis. No mapa dos casos de AIDS, começam a ter uma participação mais preocupante a Zona Norte (bairros Sarandi e Rubem Berta) e a Zona Sul da cidade (Restinga). Na verdade, a região, onde se localizam os bairros Partenon, Agronomia e São José, está se tornando paulatinamente uma zona de classe média, sendo que a população mais pobre está migrando para outros locais (como, por exemplo, Lomba do Pinheiro), onde 98 AIDS E DESENVOLVIMENTO vêm surgindo muitas vilas novas e áreas de invasão nestes últimos três ou quatro anos. Junto com as pessoas, a AIDS também chega nessas localidades. E não só a AIDS, mas outras doenças apresentam esse comportamento. A região onde se situam os bairros Lomba do Pinheiro e Restinga apresenta altos níveis de crescimento urbano. No que compete a uma secretaria de saúde, há uma infinidade de ações sendo realizadas, mas que não dão conta de solucionar o vínculo entre AIDS e pobreza. O bairro Partenon, por exemplo, já tinha em 1998, e continua tendo, vários serviços de saúde: há programa de redução de danos (trocas de seringas), que está funcionando bem; toda a população está coberta por serviços de atenção primária; existe hospital na região que pode ser acessado a pé (sem gasto com transporte), há hospital geral, hospital-dia, ambulatório de AIDS, medicação disponível e contínua; existem educação formal (escolas) e assistência pré-natal; não faltam movimentos e associações comunitárias; a população conta com acesso a laboratório clínico, transporte público gratuito há vários anos (para os pacientes de AIDS): se o paciente desejar sair dali e ir se tratar em outro local é só O que a Secretaria de Saúde pode oferecer, dentro de uma cidade, está disponível no Partenon. No entanto, a AIDS (e outras doenças) continua, mesmo que com velocidade reduzida, atingindo mais pessoas, o que é indicado pelo alto número de gestantes HIV positivas. pegar um ônibus de graça. Chegamos, então, ao ponto em que a miséria esbarra com as políticas públicas, tanto no âmbito da Secretaria de Saúde, como na de Educação. Há um limite físico e operacional dessas instâncias, que torna difícil a resolução de problemas como o desemprego, a fome, a miséria, as péssimas condições de habitação, entre outras mazelas sociais. A educação e a saúde chegaram ao seu limite no que diz respeito à prevenção. E isso não é verdadeiro somente para a AIDS. Outros indicadores epidemiológicos e outras doenças também sentem o impacto dos determinantes estruturais da pobreza. Pois é nesses locais mais pobres que a mortalidade infantil volta a crescer, assim como a mortalidade geral. Também é aí que a violência aumenta. AIDS E POBREZA 99 As condições de vida das pessoas são impressionantes, onde encontramos meninas adolescentes, de 12 ou 13 anos, cuidando da casa e na segunda série do ensino fundamental. Enfim, existe o acesso à escola, mas os pais têm que trabalhar, e alguém tem que fazer o trabalho doméstico. Também encontramos adolescentes de 19 anos já com cinco filhos. A condição de vida, marcada pela carência extrema, é um fator que impede melhores resultados no âmbito da prevenção e da educação. O trabalho educativo e as informações tornam-se inúteis diante da ausência de perspectivas, que coloca a AIDS como a fatalidade da qual não se pode escapar. Além disso, há que se considerar as dificuldades inerentes ao tratamento da AIDS. Hoje, as emergências, que haviam esvaziado, estão voltando a ficar lotadas de pacientes com AIDS. É necessário ter comida para seguir no acompanhamento médico. É necessário um mínimo de disciplina e ordem na vida. As condições sócio-econômicas a que está submetida grande parte da população tornam difícil seguir as prescrições médicas e as exigências alimentares que estão associadas ao tratamento anti-retroviral. Esse é um problema que a gente já observava, por exemplo, no tratamento da tuberculose. Diante da exclusão social, um dos grandes determinantes da miséria e da pobreza, não basta investir na implantação de postos de saúde e hospitais. Oferecer assistência, tratamento, educação e prevenção é de fato importante, mas tais ações devem estar embasadas num projeto maior, que vise a diminuição da pobreza e a melhoria das condições de vida da população. 100 AIDS E DESENVOLVIMENTO REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ACOSTA, L. M.; RIGATTI, M. F .B.; TORRES, S. R.; ROSA, C. M.; RIBEIRO, T. V. Vigilância epidemiológica da gestante HIV positiva e da criança exposta em Porto Alegre. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. Porto Alegre, novembro de 2002, número 17, p. 7. BRITO, M. R. V. Categorias de transmissão referidas nas fichas de investigação epidemiológica dos casos de AIDS com domicílio em Porto Alegre (1983 a 1996 parcial julho). Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico, Centro de Vigilância em Saúde, Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Porto Alegre, fevereiro de 1997. Ano I, número 4, p.3. ______________. Perfil epidemiológico dos casos de AIDS com domicílio em Porto Alegre (1983 a 1996). Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico, Centro de Vigilância em Saúde, Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Porto Alegre, outubro de 1996. Ano I, número 3, p. 4-5. __________________ AIDS em Porto Alegre: perfil e números. Caderno de textos da 1ª Conferência. Política Municipal de Controle de DST/AIDS, Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Abril,1998, p. 21-23. ___________________ Os números da epidemia de AIDS no Rio Grande do Sul em 1998. Relatório Azul 1998/1999. Comissão de Direitos Humanos, Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1999, p. 217-234. KNAUTH, D.R.; VÍCTORA, C.; LEAL, O. F. A banalização da AIDS. Horizontes antropológicos. Ano IV, número 9, 1998, p. 171-202. RIGATTI, M.F.B. Vigilância epidemiológica da AIDS em Porto Alegre. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. Porto Alegre, fevereiro de 2002, número 14, p. 4. _______________ Vigilância epidemiológica da gestante HIV positiva e da criança exposta. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. Porto Alegre, fevereiro de 2002, número 14, p. 5. STELLA, I. M. Vigilância epidemiológica da AIDS. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. Porto Alegre, dezembro de 2001, número 13, p. 4. VÍCTORA, C.; KNAUTH, D. R.; BRITO, M. R. V. Relatório final da pesquisa AIDS e Pobreza: Práticas Sexuais, Representações da Doença e Concepções de Risco em um Bairro de Porto Alegre, 1999, impresso (não publicado). NOTAS (1) Pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS), de janeiro de 1997 a dezembro de 1999, coordenada pelo NUPACS/UFRGS. (2) Autoras do relatório final: Ceres Víctora, Daniela Riva Knauth e Maria Regina Varnieri Brito. AIDS E POBREZA 101 THE AIDS EPIDEMIC AND POVERTY IN A LOW-INCOME NEIGHBORHOOD IN PORTO ALEGRE, BRAZIL Maria Regina Varnieri Brito Physician, Federal University in Rio Grande do Sul, public health physician, epidemiologist, and head of the epidemiological control team of the Coordinating Body for Health Surveillance of the Porto Alegre Municipal Health Department ([email protected]) The study titled AIDS and poverty: sexual practices, representations of the disease, and risk concepts in a neighborhood in Porto Alegre, Brazil (1) involved collaboration between the Federal University in Rio Grande do Sul (UFRGS) through the Center for Research on Anthropology of the Body and Health (NUPACS) (under the Department of Graduate Studies in Social Anthropology), the UFRGS School of Medicine, and STD/AIDS Policy Planning Advisory Division and the Health Surveillance Department of the Porto Alegre Municipal Government (2). The study was designed at the request of the Porto Alegre Municipal Government, through a series of seminars in 1997 (AIDS Quo Vadis). There were a number of obstacles to gathering data on AIDS and poverty at the time. We began by working with the citys mortality data, broken down by neighborhood. We were also launching a harm reduction program in 1996-1997, and needed to select the location for the programs activities. Based on the mortality data, we identified the Partenon neighborhood as that with the most AIDS-related deaths in the city (morbidity data by neighborhood were limited). The Municipal Health Secretariat thus began its harm reduction program in Partenon. NUPACS had also conducted another field project in that area and already had the necessary contacts in the community. The research focused on factors aggravating vulnerability to HIV in the low-income 102 102 population. The mortality distribution showed that proportionally more poor people were dying of AIDS. The studys specific targets included: Representations of HIV transmission routes and the impact of high HIV incidence on these representations; Perceptions of prevailing sexual practices and groups with whom they were associated; Risk perception; A profile of individuals who appeared for HIV testing (there is a testing and counseling center in the survey area, called the Center for Serological Orientation and Counseling, or COAS); The network of relations involving sexual contacts and sharing injecting equipment; Sources of information on health and disease, and preferred language and communications media. Stages The following stages were planned in the research methodology: 1) A survey of sexual practices in the target groups and their representations of AIDS. This involved the field work and life histories, all tape-recorded and transcribed. Discourse analysis focused on how individuals viewed HIV transmission and the information they had been receiving through years of AIDS work by the health department and services. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT 2) A study on relational networks of individuals with HIV. This stage ended up not being carried out due to the lack of funds for interns involved in the field work in the first stage. It also proved too complicated to study the relations of HIV-positive individuals and their sex partners and contacts. It is not a simple task to map this relational network in a small community. Local residents were aware of our activities, and there was harm reduction work going on simultaneously, organized by the city government. It simply proved ethically unfeasible to continue mapping the relational networks of individuals with HIV. 3) A study on users of the HIV testing and counseling center (COAS). Within the surveys geographic catchment area, a testing and counseling center had already been operating for some time. This phase of the research also had to be left out due to lack of funds, which were spent on the field research in the first stage. 4) Analysis of AIDS case reporting. This was the stage of the study on which this article focuses. In addition to AIDS case notification, it includes a description of the Statelevel AIDS database, attempting to analyze the information in detail for use at the municipal level, that is, for the city of Porto Alegre. Addresses were tabulated for all reported AIDS cases from the city of Porto Alegre (1983-1998) in order to display them (by household street name and number) on a digital map of the city. The goal was to define the profile of our target area, the Partenon neighborhood and surrounding area. This task was extremely time-consuming, since digital maps require entering data with standardized addresses. Over the course of ten years, addresses had been keyed into the database in various ways by different computer staff members, and the data had to be verified record-by-record. Questions The field work raised several questions: AIDS AIDSAND E POBREZA POVERTY Were information campaigns failing to reach this segment of the population? According to the survey, the population knew very well how HIV was transmitted. They had the discourse down cold. The problem was transforming knowledge into practice, that is, to use condoms. Peoples discourse was entirely appropriate to the educational content of the prevention campaigns and materials. Is the low-income population more exposed to HIV because of economic obstacles to prevention? The study provided no evidence that economic factors increased the exposure of low-income individuals. Can differentiated sexual practices predispose to HIV infection? There was no evidence of the above, based on analysis of the field data. One of the most alarming conclusions from the data analysis was that the social groups familiarity with the disease led both to its being taken for granted and to the nonadoption of preventive practices, as we shall see below. In 1993-1994, NUPACS worked in the Vila Dique and Vila Valão areas in the Northern Zone of Porto Alegre. At the time, AIDS incidence was low in these two poor communities. The rate was considered moderate in Vila Valão and was just beginning to increase. The drug traffic and drug abuse were limited in Vila Dique, which was still just a squatting area occupied by poor families. The drug traffic was beginning to take over in Vila Valão. In 1997-1998 there was a high incidence of both AIDS and drug trafficking in Partenon. The work in Vila Dique and Vila Valão in 1993-1994 had already attempted to identify the profile of HIV carriers. In Vila Dique, when residents were asked if they knew somebody with AIDS, they answered that they had seen actors on TV who had the disease. Such public figures were distant from the local reality. Nobody from Vila Dique knew anyone with AIDS in the community itself. 103 103 Meanwhile, in Vila Valão, where the number of AIDS cases was already on the rise, and there was already more drug trafficking and drug abuse, residents said: Its those addicts. Theyre the ones with AIDS. They made a distinction between addicts and non-addicts in the community. Among addicts as a group there were people with AIDS, and the latter always lived physically apart from the families, who considered themselves nonaddicts. In Vila Dique, the attitudes towards people with HIV and AIDS patients were total estrangement, because residents did not know anyone with the disease. Meanwhile, in Vila Valão, the attitude was one of partial estrangement, since people with AIDS always lived far away (on the other side of the neighborhood). The discourse was, I dont associate with those drugheads. The same survey was conducted in Partenon (in 1997 and 1998), when AIDS incidence was already high, and we discovered that this other (the AIDS patient or person with HIV) had become someone much closer, like a next-door neighbor, friend, or relative. By 1998, AIDS had become part of this populations routine, part of their daily lives, generating an attitude of solidarity. That is, people were already helping each other. But meanwhile, the disease was being taken for granted, as if to say, Since everybody has AIDS, Im going to get it, too. Therefore, people were not using condoms in their sexual relations, were not practicing safe sex, or they would tell fantastic stories like, So-and-so was a virgin, he never used drugs. He was helping his father with some work, managed to cut himself, and now hes got AIDS, or Prevention is useless. To the extent that AIDS was perceived as a fatality in this community, people were asking themselves, Why prevent? In other words, HIV transmission was in fates hands and not those of the individual. We thus reach a point where solidarity takes a crash course with prevention. People failed to worry about prevention, be104 104 cause they thought that getting AIDS was a fatality, something commonplace: Everybody here has AIDS. The result of the anthropological component of this study was that while AIDS was in fact associated with poverty in this area of the city, the greatest problem was that the disease was being taken for granted in the community. AIDS had become everybodys problem, and people often associated HIV infection with stories about people who were using protection or were neither having sexual relations nor sharing injected drugs. The discourse was that HIV infection was inevitable. Epidemiological profile Interestingly in this research, the field work was done in parallel with the epidemiological data analysis, that is, there was no direct communication between the studys epidemiological and anthropological components. Partenon is located to the south of Porto Alegre. The central area has one of the highest AIDS incidence rates in the municipality. In the State of Rio Grande do Sul as a whole, in 1998, the accumulated AIDS incidence was 101.49 cases per 100 thousand inhabitants. In the Greater Porto Alegre Metropolitan Area it was 233 per 100 thousand. For the city of Porto Alegre itself the incidence was some 250 to 260 per 100 thousand. The incidence in Porto Alegre was somewhat higher than that of the Greater Metropolitan Area as a whole. In Health District 6 (corresponding to Partenon), the rate was 390 per 100 thousand, or four times that of the State in 1998. The next highest rate was on the Ilhas or islands on the Guaíba River and Lagoon, with 296 per 100 thousand. This area of Porto Alegre has a sparse but destitute population. There is a wide range of health services in Partenon, so the population does not lack medical care. All the health care services have their catchment areas demarcated, with the population linked to at least one health care facility. As of 1998 there were 265 reported AIDS cases in the area covered by the field AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT research. The geographic distribution of cases was uniform, in other words, the discourse appearing in the anthropological study, that AIDS was a commonplace event in the community, was confirmed by the epidemiological data. There were no isolated cases; rather case distribution was diffuse. Every block had at least one case, so that every resident had a relative or friend with AIDS. In relation to the number of AIDS cases in injecting drug users (IDUs) per health district in Porto Alegre, once again in the year 1998, Health District 6 (Partenon) showed the highest figures (140 cases), second only to another area of the city with 164 cases. However, the other area has a larger population than Partenon. Therefore, when we calculate the AIDS incidence per 100 thousand inhabitants, Partenon had an accumulated incidence of 134 cases in injecting drug users per 100 thousand inhabitants, the highest rate in the city. The adjoining health district had the second highest incidence, with 78 cases in IDUs per 100 thousand inhabitants. Partenon was selected to implement the harm reduction program even before the data from this survey were available. In fact, Partenon and the surrounding area were already known to include the places with the highest risk of HIV transmission among drug users by way of sharing injecting equipment. Data confirmation During the field research we observed a similar situation with the epidemiological data from the case reporting forms. AIDS cases were spread throughout the community. There were 103 cases among IDUs out of a total of 265 cases in the field work target area; in other words, IDUs constituted 38.87% of all AIDS cases in the area. According to the field research, alcohol and marijuana consumption rates were also high, in addition to injected drugs. Thus, in 1998, 8.4% of mothers of vertically infected HIV-infected children were IDUs, and 14.6% were partners of men who AIDS POVERTY AIDSAND E POBREZA were IDUs. Twenty-five percent of women with AIDS reported that their male partners were IDUs, 30.7% of men with AIDS reported injecting drug use, and 17.95% of women with AIDS reported injecting drug use. Some 26.1% of AIDS patients reported using injected drugs. The above figures were based on selfreported information; some individuals may omit information on injected drug use when answering the epidemiological notification form. These percentages are thus approximate, and the number of drug users is probably higher. The percentages reflect only the individuals who admitted to using injected drugs. Some of the most recent data on the AIDS epidemic in Porto Alegre confirm these epidemiological trends. In 2001, 35% of men with AIDS reported using injected drugs, as compared to 13.8% of women with AIDS. The percentage of women had decreased considerably since 1998. However, it is not known whether women are engaging less in injected drug use, whether there is underreporting due to omission of information on drug use, or because the total number of women with AIDS has increased. At any rate, injecting drugs is still an important HIV transmission route in the female population. HIV-positive pregnant women who report injecting drug use constitute 14.38% of the cases. In the city of Porto Alegre as a whole, injecting drug use is still a major transmission route in the HIV epidemic. In the 1998 Partenon study, only addresses that could be identified from the casereporting forms were mapped. There was a serious problem with loss of recording of patients addresses. At the beginning of the AIDS epidemic in 1983, the epidemiological investigation forms did not include either the patients name or address. Even after the space for this information was added to the forms, it was not filled in (that is, addresses were left blank on the forms). Among cases whose addresses were mapped, 28.2% were injecting drug users, and the proportion is now 26.98%. 105 105 Even so, not everything is reason for pessimism with AIDS. The epidemic is currently stabilized. This does not mean that cases are not happening or that that people are not getting infected. Rather, there has been a reduction in the epidemics velocity, with a stable increase in the rates for individuals residing in Porto Alegre, varying around 1,000 new patients a year. Mortality has also decreased since 1996, due to treatment availability. Thus, some one thousand new cases a year join the community, with a lower mortality rate, and consequently the number of patients is growing. But the incidence rate is apparently stable, not increasing. In relation to pediatric AIDS cases (under 13), we reached a peak of 78 children diagnosed in 1996. When prenatal care improved with the prevention of vertical transmission, this figure dropped and is expected to stabilize around 30 new cases a year in Porto Alegre. Pediatric AIDS mortality is dropping substantially with follow-up and treatment of patients. There has been no significant change in the overall AIDS epidemiological profile in Porto Alegre in recent years. In 2001 and 2002, the neighborhood with the most AIDS cases has still been Partenon, followed closely by the Rubem Berta and Restinga neighborhoods, which are also poor areas of the city. Yet Partenon still boasts the sad title of AIDS champion, even now after educational work has been conducted continuously for several years, including harm reduction measures and available medical care. Responsibility for AIDS epidemiological surveillance was officially transferred to the Municipality in 2001. Work thus began with HIV-positive pregnant women, implementing rapid testing in the maternity hospitals in Porto Alegre. In 2000 only four HIV-positive pregnant women were reported, but this figure increased to 166 in 2001, and by October 2002 there were 400 cases of pregnant and postpartum women reported, all of whom were in follow-up. Despite this major in106 crease, the good news is that the pregnant women now have access to diagnosis of HIV infection (or in some cases AIDS) during prenatal care, which allows for treatment during pregnancy and childbirth, thereby reducing the chances of mother-to-child transmission. Those not diagnosed during prenatal care are offered the rapid test at the maternity hospital, before delivery. Of the children born in 2001, 133 are already concluding their treatment, and no case of vertical transmission was detected. We still need to wait until these children reach two years of age to be certain that this intervention with pregnant women has been successful. All these children are monitored by the health services with the necessary tests. Thus far, vertical transmission from these women who have been followed through prenatal care and during childbirth tends towards zero. Current scenario According to recent epidemiological data, the AIDS epidemic accompanies the poverty trend in the city of Porto Alegre. In addition to Partenon, the Santa Tereza and Cristal neighborhoods are also at increased risk for injecting drug use and have more unfavorable socioeconomic indices. On the AIDS map, the Sarandi and Rubem Berta neighborhoods in the Northern Zone and Restinga in the Southern Zone have witnessed a worrisome increase in cases. In reality, Partenon, Agronomia, and São José are located in what is gradually becoming a middle-class area, with the poorer population migrating elsewhere (for example, to Lomba do Pinheiro), where a number of slums and squatting areas have sprung up in the last three or four years. AIDS has also reached these areas together with the migrating population. And not only AIDS; other diseases show this pattern as well. Lomba do Pinheiro and Restinga are undergoing high urban growth rates. Health departments have countless responsibilities, but they cannot solve the link between AIDS and poverty. For example, the AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT Partenon neighborhood already had several health services in 1998 and still does: there is a harm reduction (needle exchange) program that is functioning efficiently; the entire population is covered by primary health care services; there is a hospital in the area that can be accessed by foot (without having to spend on public transportation), plus a general hospital, day hospital, AIDS outpatient clinic, and an available and continuous supply of medicines; there is formal education (schools) and prenatal care; there is no lack of community movements and associations; the population has had access to clinical laboratory tests and free public transportation for several years (for AIDS patients): if the patients wish to leave the neighborhood and seek treatment elsewhere, all they have to do is catch a bus free of cost. Whatever a municipal health department can offer is available in Partenon. However, AIDS (and other diseases) persist, although at lower rates, continuing to affect people, as reflected by the high number of pregnant women with HIV. We thus reach the point where poverty and public policies clash, both in health and education. There are physical and operational limits to these municipal government agencies that hinder solutions to such problems as unemployment, hunger, poverty, sub-standard housing conditions, and other social ills. Education and health have reached their limit in relation to prevention. And this is true not only for AIDS. Other epidemiological indicators and other diseases also reflect the impact of structural determinants of poverty, with both infant mortality and overall mortality on the rise again. Furthermore, violence is increasing in the same context. AIDS AIDSAND E POBREZA POVERTY Peoples living conditions are alarming, with young girls, 12 or 13 years old, tending the house and enrolled in the second grade of primary school. In short, the schools are there, but the parents have to work, and somebody has to do the household chores. We also find 19year-old girls who already have five children. Living conditions, marked by utter destitution, are an obstacle to better results in the field of prevention and education. Educational work and information become useless in the face of this lack of prospects, making AIDS a fatality from which it appears impossible to escape. There are also the inherent difficulties in AIDS treatment. Today, the emergency wards, which were star ting get empty, are filled again, but now with AIDS patients. One has to eat in order to comply with medical prescriptions. One needs a minimum of discipline and order in life. The socioeconomic conditions of a major portion of the population make it difficult to follow medical prescriptions and the eating requirements associated with antiretroviral treatment. This same compliance problem occurs with tuberculosis treatment. In the face of social exclusion, one of the main determinants of poverty, investment in health clinics and hospitals is not enough. Medical care, treatment, education, and prevention are indeed important, but such measures must be part of a larger project, aimed at alleviating poverty and improving the populations living conditions. 107 107 BIBLIOGRAPHICAL REFERENCES ACOSTA, L. M.; RIGATTI, M. F .B.; TORRES, S. R.; ROSA, C. M.; Ribeiro, T. V.; Vigilância epidemiológica da gestante HIV positiva e da criança exposta em Porto Alegre [Epidemiological surveillance of HIVpositive pregnant women and exposed children in Porto Alegre]. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. Porto Alegre, Nov. 2002, no. 17, p. 7. BRITO, M. 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AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT LA EPIDEMIA SIGUIENDO LA EVOLUCIÓN DE LA POBREZA EN UN BARRIO DE PORTO ALEGRE, BRASIL Maria Regina Varnieri Brito Médica, sanitaria, epidemióloga y jefe del equipo de Control epidemiológico de la Coordinadora General de Vigilancia en Salud, de la Secretaria Municipal de Salud de Porto Alegre ([email protected]) El estudio titulado: SIDA y pobreza: prácticas sexuales, representaciones de la enfermedad y concepciones de riesgo en un barrio de Porto Alegre (1), contó con la participación de la Universidad Federal de Río Grande do Sul (UFRGS) Pos-graduación en Antropología Social Núcleo de Investigación de Antropología del Cuerpo y de la Salud (NUPACS); Facultad de Medicina (UFRGS); y dentro de la Prefectura de Porto Alegre, con la Asesoría de Planificación de la Política Municipal de ETS /SIDA y la Coordinación de Vigilancia de Salud. (2) El estudio fue ideado a partir de una demanda de la Prefectura de Porto Alegre, por medio de la realización de una serie de seminarios en 1997 (SIDA QUO VADIS) Para nosotros era difícil reunir informaciones sobre SIDA y pobreza. En ese medio tiempo, comenzamos a trabajar con los datos de mortalidad por barrio, de la ciudad. Además de eso, se iniciaba el programa de reducción de daños, en 1996/1997, y era necesario escoger el lugar en que se implantarían las actividades de ese programa con base en los datos de mortalidad, se seleccionó el barrio Partenón como el lugar en que más personas morían de SIDA en el municipio (las informaciones sobre la enfermedad por barrio eran muy limitadas) y fue en ese barrio donde comenzó el programa de reducción de daños de la Secretaria Municipal de Salud. Aparte de eso, el NUPACS ya había realizado otro trabajo de campo en aquella área y poseía los contactos necesarios en la comunidad. El objetivo de esa investigación era comprender los factores que acentuaban la SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA vulnerabilidad de la población de baja renta al VIH. Era posible ver en la distribución de la mortalidad que en los barrios más pobres, morían más personas de SIDA. Esa investigación abarcó: Representaciones sobre formas de infección por el VIH y el impacto de la alta incidencia en esas representaciones; Prácticas sexuales corrientes, como están percibidas, con quién están asociadas; Percepción de riesgo; Perfil de las personas que buscan examen serológico existe un Centro de Examen y Consejería (Centro de Orientación y Consejería Serológicos COAS) localizado en el área de la investigación; Red de relaciones de cambios de parejas sexuales y jeringas; Fuentes de información sobre Salud y enfermedad, lenguaje y vehículos preferidos. Etapas La metodología de la investigación comprendió las siguientes etapas: 1) Estudio sobre las prácticas sexuales de las poblaciones estudiadas y sus representaciones sobre SIDA. Aquí fue realizado todo el trabajo de campo, las historias de vida, ha sido todo grabado y trascrito. Fue realizado el análisis de discurso de como las personas estaban viendo la transmisión del SIDA y lo que estaban recibiendo de información de todo el trabajo de divulgación de años sobre el SIDA realizado por la secretaría y servicios de Salud. 2) Estudio de las redes de relaciones de las personas infectadas por el VIH . Esa etapa 109 109 no fue executada debido a la insuficiencia de recursos para los practicantes involucrados con el trabajo de campo de la primera etapa. Se complicó mucho también el hecho de trabajar con las relaciones de las personas VIH positivas, sus parejos/contactos sexuales. No es simple mapear toda esa red de relaciones en una comunidad pequeña. Las personas sabían lo que estábamos haciendo, y todavía había todo un trabajo de reducción de daños andando en paralelo, organizado por la prefectura. Simplemente se hizo inviáble desde el punto de vista ético seguir el mapeamiento de la red de relaciones sexuales de las personas infectadas por el VIH. 3) Estudio de los usuários del COAS. Dentro del área geográfica de la investigación, ya existia un COAS funcionando desde hace más tiempo. Esa etapa también quedó fuera por falta de recursos, que fueron gastos con el trabajo de campo de la primera etapa. 4) Análisis de las notificaciones de SIDA. Esa fue la etapa del estudio sobre la cual se centra este artículo. Ella contiene, además del análisis de las notificaciones de SIDA, la calificación del banco de datos de SIDA disponible a nivel estatal, buscando trabajar con el detallamiento de la información para uso del nivel municipal, para la ciudad de Porto Alegre. En aquella época, fueron recogidas las direcciones de todos los casos de SIDA de Porto Alegre, de la serie histórica comprendida por los años 1983 a 1998, para mapear los casos por dirección (calle y número de cada domicilio) en un mapa digitalizado de la ciudade, con el objetivo de conocer el perfil de la región en que estábamos trabajando el barrio Partenón y sus alrrededores. Esa tarea fue muy trabajosa, pues quien conoce un mapa digitalizado sabe que tenemos que trabajar en la entrada de datos con direcciones patronizadas. Imaginen más de diez años con personas diferentes entrando con direcciones de maneiras diferentes en el banco de datos. Fue necesario verificar registro por registro. Cuestionamientos Algunos cuestionamientos surgieron a partir del trabajo de campo: ¿Las campañas de información no 110 110 estaban consiguiendo alcanzar a ese segmento de la población? La investigación identificó que la población sabia muy bien como era transmitido el SIDA. Ellos tenían todo el discurso en la punta de la lengua. El problema era la prática del conocimento, el uso del preservativo. El discurso estaba adecuado a todo el contenido educativo de prevención. ¿La población de baja renta se hace más expuesta al VIH por dificultades económicas de viabilidad de la prevención? Según el estudio, eso no apareció de forma evidente, no pareció ser verdadero. ¿Las prácticas sexuales diferenciadas pueden predisponer a la infección? Tampoco apareció nada sobre eso en el análisis de los datos del trabajo de campo. Una de las conclusiones más inquietantes del análisis fue que la familiaridad con la enfermedad en el grupo social lleva a su banalización y a la no adopción de práticas preventivas, como veremos a seguir. En el período1993/1994, el N UPACS desarrolló trabajos en las Villas Dique y Valão, en la zona norte de Porto Alegre. Tenemos que situarnos bien en el tiempo -eran los años 1993 y 1994 -, y la incidencia del SIDA era baja en las comunidades pobres. En Valão, la incidencia era considerada media, comenzando a subir. El tráfico y el uso de drogas en la Vila Dique era bajo: El lugar era todavía solamente una invasiónn de famílias. El Valão ya estaba comenzando con el tráfico de drogas más intenso. En 1997/1998, se observó alta incidencia del SIDA en Partenón y un tráfico de drogas intenso. El trabajo realizado en las Vilas Dique y Valão, en 1993/94 , ya había intentado conocer el perfil del portador de VIH. En la Vila Dique, cuando a los vecinos eran interrogados sobre si conocían a alguien con SIDA, respondían que veían en la televisión a artistas que estaban enfermos. Eran personas distantes de su realidad. Nadie conocía en su comunidad un enfermo de SIDA. Ya en la Vila Valão, donde comenzaba a aumentar la incidencia de la enfermedad, ya que había tráfico y un uso maior de drogas, los vecinos decían: Son aquellos allí, los AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO dr ogados, son los que tienen SIDA. Ellos diferenciaban dentro de la comunidad a los drogados y los no drogados. Dentro del grupo de los drogados era que había personas con SIDA, y esos siempre residían físicamente lejos de las familias, que se consideraban de no drogados. En la Vila Dique, las actitudes con relación a los portadores del VIH y a los enfermos de SIDA, eran de distanciamento total; porque los vecinos no conocían a ningún enfermo. Ya en la Vila Valão, la actitud era de un distanciamento parcial, pues el enfermo de SIDA era siempre quién vivía lejos (del otro lado de la Vila): Yo no me trato con esos usuarios de drogas. Cuando el mismo levantamiento fue realizado en el Partenón (en los años 1997 y 1998), cuando la incidencia de SIDA ya era alta, identificamos que ese otro (el enfermo de SIDA o portador del VIH) pasó a ser una persona muy próxima, era el vecino del lado, el amigo, el pariente. Entonces, en 1998, el SIDA ya había entrado en la rutina de esa población , ya hacía parte del día a día, generando una actitud de solidaridad, osea las personas ayudándose unas a las otras. Sólo que al mismo tiempo, ocurría una banalización de la enfermedad, como si el pensamiento fuese: Ya que todo mundo tiene SIDA, yo voy a tener también. y por ese motivo, las personas no usaban preservativo en las relaciones sexuales, no se prevenían, o entonces, contaban historias fantasiosas, tales como La fulana era virgen, nunca usó drogas. Fue a ayudar al padre, se cortó y está con SIDA o No sirve de nada prevenirse. En la medida en que el SIDA es percibida como un destino fatídico de esa comunidad, las personas se preguntaban: ¿Para qué cuidarse? Queda en las manos del destino y en la del individuo el contagio por el VIH. Llegamos, entonces, a un punto donde la solidaridad entró en conflicto con la prevención. Las personas no tenían el cuidado de prevenirse porque pensaban que tener SIDA era un destino seguro, común, frecuente: Todo el mundo allá tiene SIDA. El resultado de la componente antropológica de ese estudio sobre SIDA y pobreza fue que, si el SIDA estaba relacionado SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA a la pobreza de esa región de la ciudad, el problema mayor era la banalización de la enfermedad en la comunidad. El SIDA se convirtió en un problema de todos y muchas veces, ligado a historias de infección incluso con uso de protección, sin relaciones sexuales o sin el uso compartido de drogas inyectables. El discurso era que la infección por el VIH era algo inevitable. Perfil epidemiológico Un hecho interesante de esa investigación es que el trabajo de campo ocurría paralelamente al análisis de datos epidemiológicos, o sea, no había una comunicación directa entre la vertiente epidemiológica del estudio y la parte antropológica. El barrio del Partenón queda al sur de Porto Alegre. Junto a la región central, configura una de las mayores incidencias de SIDA en el municipio. En Rio Grande do Sul, en 1998, la incidencia acumulada de SIDA era de 101,49 casos por 100 mil habitantes. En la región metropolitana era de 233 por 100 mil. Para Porto Alegre, debíamos estar con incidencias de 250 o 260 por 100 mil. Porto Alegre queda un poco encima de la región metropolitana en incidencia de SIDA. Solamente el distrito sanitario de número 6, que es la región del barrio Partenon, estaba con índices de 390 por 100 mil: cuatro veces mayor que la media para el estado eso en 1998. Después, venía la región de las Islas (del Rio/Lago Guaíba) con 296/100 mil esa es una región de Porto Alegre poco poblada, y además, con una población, bastante pobre. En el barrio Partenón, hay infinidad de servicios de Salud, no habiendo, por tanto, población desprovista de asistencia médica. Todos los servicios de Salud tienen su territorio enmarcado, con la población vinculada a por lo menos un servicio de Salud. Hasta 1998, eran 265 casos de SIDA en aquella comunidad localizada en el área del trabajo de campo. Geograficamente, la distribución de los casos es uniforme, o sea, aquella alegación que apareció en el estudio antropológico, de que el SIDA era un evento comun en la comunidad , se confirma con los datos epidemiológicos. No hay casos aislados, la distribuición de los casos es difusa. Toda cuadra tiene por lo 111 111 menos un caso. Es por eso que cada habitante tiene un pariente o un amigo que tiene SIDA. En lo que se dice respecto al número de casos de SIDA en usuarios de drogas inyectables (UDIs) por distrito sanitario en Porto Alegre, en el año 1998, nuevamente, el distrito 6 (del barrio Partenón) presentaba los valores más elevados (140 casos) y sólo perdía otra área de la ciudad que presentaba 164 casos. No obstante, hay que considerar que esa región es mucho mayor comparada al Partenón. Por tanto, cuando hacemos el cálculo de la incidencia de SIDA por cada 100 mil habitantes, la región del Partenón va hacia una incidencia acumulada de 134 casos de SIDA en usuarios de drogas /100 mil habitantes, que es la mayor de la ciudad. El distrito vecino es el segundo mayor en incidencia, con 78 casos en UDIs/100 mil habitantes. Fue acertada la selección de ese lugar para implantar el programa de reducción de daños, incluso antes de que los datos de la investigación estuvieran disponibles. Realmente, en el Partenón y sus alrededores, encontramos los lugares donde había mayor riesgo de transmisión del SIDA entre usuarios de drogas, por medio del uso colectivo de jeringas. Confirmación de datos En el trabajo de campo de la investigación, acabamos por ver cifras semejantes a los datos epidemiológicos de las fichas de notificación. Los casos de SIDA estaban esparcidos por toda la comunidad. Fueron 103 casos en usuarios de drogas, de un total de 265 casos en el área geográfica del trabajo de campo, haciendo un 38,87 % de usuarios de drogas en relación al conjunto de los casos de SIDA. Es importante hacer notar que, según los datos por el trabajo de campo, fueron identificados altos índices de uso de álcool y marihuana, aparte del uso de drogas inyectables. Así, en 1998: un 8,4% de las madres de niños infectadas por medio de transmisión vertical del VIH eran usuarias de drogas inyectables y un 14,6% eran parejas de hombres UDIs. Un 25% de las mujeres con SIDA admitieron que eran parejas de hombres usuarios de drogas inyectables, un 30,7% de 112 112 los hombres con SIDA relataron el uso de drogas inyectables y un 17,95% de las mujeres con SIDA relataron el uso de drogas inyectables. En la media, un 26,1% de los pacientes de SIDA relataron el uso de drogas inyectables. Esas fueron las informaciones relatadas, y debe tenerse en consideración que algunas personas omiten el uso de drogas inyectables durante el llenado de la ficha de investigación epidemiológica. Por eso, esos porcentajes son aproximados, pues, seguramente, debe existir un número todavía mayor de usuarios de drogas. Los porcentajes se refieren solamente a las personas que admiten el uso de drogas inyectables. Algunos datos más recientes sobre la epidemia de SIDA en Porto Alegre confirman esas tendencias epidemiológicas. En 2001, teníamos un 35% de los hombres con SIDA que informaron el uso de drogas inyectables y un 13,8% de las mujeres con SIDA también informaron el uso de drogas inyectables. Es notable que el porcentaje para las mujeres tuvo una reducción expresiva si lo comparamos con el del año 1998. Aunque no se sabe si es debido al hecho de que las mujeres estén usando menos drogas, si hay una subnotificación en función de la omisión de la información sobre el uso de drogas, o, porque el número absoluto de mujeres con SIDA aumentó. De cualquier modo, el uso de drogas inyectables es todavía un factor importante na transmisión del SIDA na población femenina. Las gestantes VIH positivas, que informaron el uso de drogas inyectables, corresponden al 14,38% de los casos. En su conjunto, en la ciudad de Porto Alegre, el uso de drogas inyectables sigue siendo una vía muy importante para la transmisión de la epidemia del VIH. Para el estudio realizado en el barrio Partenón, en 1998, sólo fueron mapeadas las direcciones que pudieron ser localizadas a partir de la notificación. Había un problema serio de perdidas en el registro de direcciones de los pacientes. Al inicio de la epidemia del SIDA, en 1983, en la ficha de investigación epidemiológica no aparecía ni el nombre, ni la dirección del paciente e incluso cuando esa información pasó a ser recogida, verificamos AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO que ella no fuera registrada, de ese modo el campo referente a la dirección quedaba en blanco. Entre los pacientes cuyas direcciones fueron mapeadas, el 28,2% eran usuarios de drogas inyectables, hoy tenemos una proporción de 26,98%. Pero no todo es sombrío en el campo del SIDA. Actualmente, vivimos una situación en que la epidemia se encuentra estabilizada. Eso no quiere decir que los casos no surjan y que las personas no se estén infectando. Hubo una reducción en la velocidad de la epidemia y nosotros tenemos un crecimiento estable de las tasas de personas con domicilio en Porto Alegre, que varía en torno de 1.000 pacientes nuevos por año. Existe también una caída de la mortalidad, observada desde 1996, y que está relacionada con la disponibilidad de los tratamientos. O sea, se insertan, en la comunidad, cerca de mil casos nuevos por año, con una mortalidad menor y consecuentemente, tenemos un volumen total de pacientes creciendo. Pero la tasa de incidencia no va en aumento, está aparentemente estable. Con relación al SIDA pediátrico (menores de 13 años), llegamos a tener un pico de 78 niños diagnosticados en 1996. Cuando se pasó a perfeccionar el trabajo durante el período prenatal, con la prevención de la transmisión vertical, ese número cayó y debe estabilizarse en cerca de 30 casos por año en Porto Alegre. La mortalidad por SIDA pediátrico se reduce sustancialmente con el seguimiento de los pacientes. De forma general, no hay una alteración significativa en el perfil epidemiológico del município de Porto Alegre en los últimos años. En el 2001 y el 2002, el barrio con mayor número de casos de SIDA continua siendo el Partenón, seguido de cerca por los barrios Rubem Berta y Restinga, que también son zonas pobres de la ciudad. Pero el barrio Partenón todavía mantiene el triste título de campeón en casos de SIDA, ahora inclusive después del trabajo educativo realizado, continuamente, a lo largo de los últimos años, que consistía en acciones de reducción de daños y oferta de asistencia médica. En el año 2001, fue oficialmente transferida al municipio la responsabilidad por la vigilancia epidemiológica del SIDA. Así, SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA comenzó a ser realizado un trabajo con las gestantes VIH positivas, con la implantación de los testes rápidos en los hospitales maternos de Porto Alegre. Si en el 2000, teníamos solamente cuatro gestantes notificadas este número creció hasta 166 ya en 2001, y hasta octubre de 2002, fueron notificadas 400 gestantes/puérperas, que están en seguimiento. A pesar de ese gran crecimiento, la buena noticia es que las gestantes están teniendo acceso al diagnóstico de la infección por el VIH (en algunos casos, de SIDA) durante el período prenatal, el que permite la utilización de tratamiento durante la gestación y en el momento del parto, reduciendo los chances de transmisión vertical. Para aquellas que no son diagnosticadas en el período prenatal, existe la oferta del teste rápido en las maternidades, para ser realizado antes del parto. De los niños nacidos en el 2001, 133 ya están concluyendo su seguimiento y no fue detectada ninguna transmisión vertical. Todavía hay que esperar hasta que esos niños cumplan los dos años de nacidos, para tener seguridad del éxito de esa intervención junto a las gestantes. Es importante precisar que todos los niños estén acompañados por los servicios de Salud, con todos los exámenes necesarios. Hasta el presente momento, la transmisión vertical de esas mujeres que vienen siendo seguidas durante el período prenatal o en el momento del parto tiende a cero. Panorama actual Los datos epidemiológicos recientes muestran que la epidemia del SIDA sigue la evolución de la pobreza en el municipio. Además del Partenón, los barrios Santa Tereza y Cristal también son áreas de mayor riesgo por el uso de drogas inyectables, con indicadores socioeconómicos muy desfavorables. En el mapa de los casos de SIDA, comienzan a tener una participación más preocupante la zona norte (barrios Sarandi y Rubem Berta) y la zona sur de la ciudad (Restinga) En realidad, la región, donde se localizan los barrios Partenón, Agronomía y San José, está convirtiéndose paulatinamente en una zona de clase media, ya que la 113 113 población más pobre está migrando para otros lugares como, por ejemplo, Lomba del Pinheiro, donde vienen surgiendo muchas villas nuevas y áreas de invasión en estos últimos tres o cuatro años. Junto con las personas, el SIDA también llega a esas localidades. Y no sólo el SIDA, otras enfermedades también presentan ese comportamiento. La región donde se sitúan los barrios Lomba del Pinheiro y Restinga presenta altos niveles de crecimiento urbano. En lo que compete a una secretaría de salud, existe una infinidad de acciones siendo realizadas, pero que no dan cuenta de solucionar el vínculo entre SIDA y pobreza. El barrio Partenón, por ejemplo, ya tenía en 1998 y continua teniendo, varios servicios de Salud: Existe un programa de reducción de daños (cambios de jeringuillas), que está funcionando bien; toda la población está cubierta por servicios de atención primaria; existe un hospital en la región al que se puede tener acceso a pié (sin gasto en transporte), hay un hospital general, un hospital de día, ambulatorio de SIDA, medicamento disponible y continuo; existe educación formal (escuelas) y asistencia prenatal; no faltan movimientos y asociaciones comunitarias; la población cuenta con acceso a laboratorio clínico, transporte público gratuito hace varios años (para los pacientes de SIDA): Si el paciente deseara salir de ahí e irse a tratar a otro lugar es sólo tomar un ómnibus gratis. Lo que la Secretaria de Salud puede ofrecer, dentro de una ciudad, está disponible en el Partenón. No obstante el SI DA ( y otras enfermedades) continua, aunque con menos velocidad, atacando a más personas, lo que es demostrado por el alto número de gestantes VIH positivas. Llegamos, entonces, al punto en que la miseria tropieza con las políticas públicas, tanto en el ámbito de la Secretaría de Salud, como en la de Educación. Existe un límite físico y operacional de esas instancias, que hace difícil la resolución de problemas como el desempleo, el hambre, la miseria, las pésimas condiciones de hábitat, entre otros males sociales. La educación y la Salud llegaron a su límite en lo que respecta a la prevención y eso no es verdadero solamente para el SIDA. Otros indicadores epidemiológicos y otras enfermedades también sienten el impacto de los determinantes estructurales de la pobreza. 114 Pues es en esos lugares más pobres que la mortalidad infantil vuelve a crecer, así como la mortalidad general. También es ahí que la violencia aumenta. Las condiciones de vida de las personas son impresionantes, donde encontramos niñas adolescentes, de 12 ó 13 años, cuidando de la casa y en la segunda serie de la enseñanza fundamental. En fin, existe el acceso a la escuela, pero los padres tienen que trabajar y alguien tiene que hacer el trabajo doméstico. También encontramos adolescentes de 19 años ya con cinco hijos. La condición de vida, marcada por la carencia extrema, es un factor que impide mejores resultados en el ámbito de la prevención y de la educación. El trabajo educativo y las informaciones se vuelven inútiles delante de la ausencia de perspectivas, que coloca al SIDA como la fatalidad de la cual no se puede escapar. Además de eso, hay que considerar las dificultades inherentes al tratamiento del SIDA. Hoy, las emergencias, que se habían vaciado, están volviendo a quedar llenas de pacientes con SIDA. Es necesario tener comida para seguir el tratamiento médico. Es necesario un mínimo de disciplina y orden en la vida. Las condiciones socioeconómicas a que está sometida gran parte de la población hacen difícil seguir las prescripciones médicas y las exigencias alimenticias que están asociadas al tratamiento antirretroviral. Ese es un problema que la gente ya observaba, por ejemplo, en el tratamiento de la tuberculosis. Delante de la exclusión social, uno de los grandes determinantes de la miseria y la pobreza, no basta invertir en la implantación de puestos de salud y hospitales. Ofrecer asistencia, tratamiento, educación y prevención es, de hecho, importante pero tales acciones deben estar incluidas en un proyecto mayor, que vise la disminución de la pobreza y la mejoría de las condiciones de vida de la población. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS KNAUTH, D.R.; VÍCTORA, C.; LEAL, O. F. A banalização da AIDS [AIDS Taken for Granted]. Horizontes ACOSTA, L. M.; RIGATTI, M. F .B.; TORRES, S. R.; ROSA, C. M.; Ribeiro, T. V.; Vigilância epidemiológica da gestante HIV positiva e da criança exposta em Porto Alegre [Epidemiological surveillance of HIVpositive pregnant women and exposed children in Porto Alegre]. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. Porto Alegre, Nov. 2002, no. 17, p. 7. BRITO, M. R. V. Categorias de transmissão referidas nas fichas de investigação epidemiológica dos casos de AIDS com domicílio em Porto Alegre (1983 a 1996 - parcial julho) [Transmission categories reported on epidemiological investigation forms of AIDS cases in Porto Alegre residents 1983-1996, partial results to July]. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico, Centro de Vigilância em Saúde, Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Porto Alegre, Feb. 1997. Vol. I, no. 4, p.3. ______________. Perfil epidemiológico dos casos de AIDS com domicílio em Porto Alegre (1983 a 1996) [Epidemiological profile of AIDS cases in Porto Alegre residents]. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico, Centro de Vigilância em Saúde, Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. Porto Alegre, Oct. 1996. Vol. I, no. 3, p. 4-5. __________________ AIDS em Porto Alegre: perfil e números [AIDS in Porto Alegre: profile and statistics], Caderno de textos da 1ª Conferência. Política Municipal de Controle de DST/AIDS,Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre. April 1998, p. 21-23. ___________________ Os números da epidemia de AIDS no Rio Grande do Sul em 1998 [Statistics from the AIDS Epidemic in Rio Grande do Sul State in 1998]. Relatório Azul 1998/1999. Comissão de Direitos Humanos, Assembléia Legislativa do Rio antropológicos. Vol. IV, no. 9, 1998, p. 171-202. RIGATTI, M.F.B. Vigilância epidemiológica da AIDS em Porto Alegre [Epidemiological Surveillance of AIDS in Porto Alegre]. Boletim Epidemiológico, Controle Epidemiológico da CGVS/SMS/POA. 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NOTAS (1) Investigación financiada por el Consejo Nacional de Desarrollo Científico yTecnológico (CNPq) y la Fundación de Amparo a la investigación del Estado del Río Grande del Sur (FAPERGS), de enero de 1997 a diciembre de 1999, coordinada por e l NUPACS /UFRGS. (2) Autoras del informativo final: Ceres Víctora, Daniela Riva Knauth y Maria Regina Varnieri Brito. Grande do Sul. Porto Alegre, 1999, p. 217-234. SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA 115 115 A experiência do Centro de Promoção da Saúde nas comunidades populares do Rio de Janeiro Kátia Edmundo Psicóloga, membro da equipe de Coordenação-Geral do Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS). Este texto conta com a colaboração de todos os membros da Equipe do CEDAPS e, em especial, da jornalista Danielle Bittencourt ([email protected]). 116 AIDS E DESENVOLVIMENTO O São 200, são 300 as favelas cariocas? O tempo em contálas é o tempo de outras surgirem... (...) Que fazer com tanta gente brotando do chão, formigas de um formigueiro infinito? (Carlos Drummond de Andrade in Valla &Stotz, 1996) Centro de Promoção da Saúde (CEDAPS) (1) é uma organização não-governamental que trabalha com o conceito ampliado de saúde, compreendida a partir da idéia de acesso eqüitativo a todos os bens sociais, preconizando a participação da população oriunda das camadas populares na construção do seu próprio processo de desenvolvimento. Em se tratando do campo da AIDS, fomentamos a criação e assessoramos (2) um espaço de articulação entre associações comunitárias que trabalham pela prevenção da epidemia no Rio de Janeiro, que recebeu o nome de Rede de Comunidades na Luta contra a AIDS. Atualmente, a rede conta com a participação de 51 entidades em rápida ampliação, e nosso trabalho tem sido o de contribuir para a qualificação da prática comunitária que se consolida no interior das favelas e bairros de periferia da cidade. O cenário demanda e o envolvimento com a causa da AIDS vem se configurando como ponto de partida para o fortalecimento do processo de participação, mobilização e organização das associações comunitárias. Este texto pretende comunicar a experiência que implementamos desde 1996 junto às associações comunitárias e ressaltar questões surgidas do enfrentamento desejável da crescente associação entre AIDS e pobreza, conscientes de que a realidade social brasileira e a vulnerabilidade (3) ao HIV/ AIDS com que nos defrontamos nos apresentam a cada dia novos desafios. Permitimo-nos discorrer mais livremente neste relato, considerando que é do reconhecimento da existência e da leitura do movimento social no interior das comunidades que surgirão novas considerações e debates sobre o que estamos efetivamente construindo em relação à prevenção em contextos de violência e pobreza. O texto busca refletir sobre uma proposta fundada na atenção aosaber da prática de técnicos e comunitários dedicados a construir cotidianamente o que temos chamado AIDS E POBREZA 117 de resposta das comunidades à causa da AIDS, a ser agregada à chamada resposta brasileira à epidemia protagonizada por um movimento social cuja trajetória vem sendo fonte de inspiração para as comunidades. A comunidade no âmbito do trabalho com AIDS A comunidade é base fundamental para o exercício da vida cotidiana. É na comunidade que as relações primárias se estabelecem, é no espaço geográfico e/ou psicossocial que se criam e recriam novas possibilidades para melhorias das condições de vida e enfrentamento concreto das desigualdades. A mudança social é, portanto, peça chave para o movimento comunitário. O termocomunitáriovem sendo resignificado a todo o momento no campo da AIDS, submetido à percepção e ao ponto de vista do lugar de quem o utiliza. Em geral, demarca lados de um movimento. Em complementação, negociação e/ou contraposição aos eventos científicos e/ou governamentais, estão presentes os eventos e movimentos comunitários. São independentes, não sujeitos às leis e normas da ciência e/ou do governo, encontram-se no âmbito da sociedade. Em se tratando do trabalho e da organização nas favelas cariocas, desde há muito o termo comunitário vem sendo fortemente associado ao popular, ao que se refere ao povo, às populações em situação de pobreza, ao conjunto de práticas desenvolvidas nas favelas e bairros de periferia pela melhoria de suas condições de vida. Estamos nos referindo, portanto, a um trabalho em AIDS voltado para a comunidade, ou seja, para o lugar da convivência familiar, o local de moradia das camadas populares que são as favelas, conjuntos habitacionais e bairros de periferia do Rio de Janeiro. Propomos a utilização do termo comunidades populares para expressar a idéia de que estamos nos referindo às camadas populares da sociedade brasileira e, dessa forma, incluirmos no termo categorias como gênero, raça e classe social, conscientes de sua dimensão relacional. Compreendidas como um território delimitado geográfica e culturalmente, as comunidades congregam modos de vida e organização próprios evidenciados por suas histórias, pelas relações que estabelecem e pela forma como enfrentam a desigualdade socioeconômica presente na sociedade em suas infinitas correlações e, em grande parte, promotoras do sofrimento e do adoecimento humanos. 118 AIDS E DESENVOLVIMENTO Identificadas com o local onde moram, as lideranças comunitárias trabalham pelo bem coletivo de suas comunidades e estabelecem um relacionamento político e afetivo que é potencialmente gerador de desenvolvimento e saúde. A abordagem, as estratégias, enfim, a metodologia de trabalho voltado para a comunidade constitui campo próprio e deve contemplar a noção de organismo vivo e relacional. Na comunidade, convivem diferentes segmentos sociais, anterior e recentemente atingidos pela epidemia de HIV/AIDS. Ações dirigidas a um determinado segmento da população são fundamentalmente importantes, visto que aprofundam o diálogo e conferem diversidade à causa. O que se coloca, no entanto, é a necessidade de integração de ações e abordagens quando dirigidas a um mesmo território, contemplando a dimensão multicausal da AIDS. Consideramos que ações em uma comunidade devem fazer parte de um planejamento articulado e conjugado por atores que observam, registram e atuam sobre o universo comunitário. Ações isoladas produzem resultados isolados, passíveis de serem conjugados posteriormente, mas que já poderiam nascer sob a ótica da ação integrada, como assim preconiza uma metodologia e abordagem compreendidas como comunitárias. Associações comunitárias e AIDS Em sua maioria, as associações de moradores são presididas por homens e operacionalizadas no cotidiano por mulheres. Essas, por sua vez, manifestaram nos últimos tempos interesse e necessidade por conquistar um espaço mais apropriado e mais feminino no universo das comunidades. Nascem, desse modo, as associações de mulheres com pautas mais próximas ao cuidado e ao universo familiar, como as crianças, os jovens, os idosos e, em especial, os problemas referentes à educação e à saúde. Atualmente, no Estado do Rio de Janeiro existem cerca de 150 (4) associações de mulheres, além de um número expressivo de associações de moradores e comitês de defesa da cidadania, liderados e/ou operacionalizados por mulheres, que também vêm se sensibilizando pela temática de HIV/AIDS. Considerando AIDS E POBREZA 119 que a AIDS vem aumentando substancialmente nos segmentos femininos de baixa escolaridade e com relações conjugais heterossexuais e estáveis, essa sensibilização tem importância fundamental no âmbito do controle da epidemia. Na década de 1990, a pauperização da AIDS acarretou uma mudança no perfil de projetos e iniciativas no Brasil. O segmento população em situação de pobreza passa a demandar por parte do Ministério da Saúde uma maior atenção no que se refere às ações preventivas baseadas em estratégias de educação para a saúde. A idéia de que a prevenção feita por pares (5) no que se refere aos grupos específicos como, por exemplo, homossexuais desenvolvendo atividades de prevenção para homossexuais, profissionais do sexo para profissionais do sexo etc. - apresenta-se como um modelo de intervenção de sucesso e passível de replicação em cenários semelhantes. Atividades de prevenção em comunidades populares, portanto, devem ser implementadas por moradores qualificados para essa ação. Surgem os agentes comunitários de prevenção. A esse modelo - prevenção por pares - associa-se ainda o modelo já vigente nos sistemas públicos de saúde no Brasil, que são os agentes comunitários de saúde. Lideranças comunitárias são, desse modo, qualificadas tecnicamente para atuarem como agentes de prevenção e aderirem à luta contra a AIDS. Esse trabalho exige capacitação, acompanhamento e assessoria, visto que se espera implementar nas comunidades uma ação comunitária qualificada de prevenção ao HIV/AIDS. as mulheres se notabilizam no engajamento à causa da AIDS. Tomam para si a responsabilidade e o compromisso em alcançar estratos comunitários mais distanciados do acesso aos bens sociais, dispõem-se a serem procuradas em suas casas para Como já ressaltamos, 120 AIDS E DESENVOLVIMENTO distribuição do preservativo, cuidarem e acolherem pessoas vivendo com AIDS nas comunidades. A formação dessas mulheres como agentes de prevenção é fruto de um processo em permanente construção: aderem à luta contra a AIDS e esforçam-se por profissionalizar suas ações; investem seu tempo, sua determinação e seus poucos recursos financeiros para participarem de oficinas e seminários de capacitação. Desde a formação básica em DST/AIDS e o uso do preservativo, passando pelo aprendizado de técnicas participativas, até o desenvolvimento de suas próprias estratégias de prevenção, as lideranças comunitárias passam por um processo de crescimento pessoal e profissional que pode ser verificado na ação coletiva. Segundo as próprias lideranças: É no tom que a gente dá o retorno. Dependendo da pessoa porque tem pessoa que é séria aí a gente faz uma gracinha, conversa... Na verdade, a gente aprende com cada um que chega lá. Porque depende do que você me pergunta para eu falar. Porque tem gente que já chega querendo pegar o preservativo e não quer saber de mais nada. Então, depende de cada um (...). Aí está o trabalho do agente: falar e na hora certa. A cada dia a gente vai descobrindo que existem fórmulas de fazer as pessoas pensarem mais sobre o assunto. Não sabemos tudo, mas estamos descobrindo. Conhecemos alguns caminhos que podem fazer algumas pessoas se aproximarem mais. A gente já consegue driblar elas para participarem mais. A gente tem aquelejeitinho de dizer. (LIDERANÇA DA REDE DE COMUNIDADES) A conquista de direitos sociais nas favelas cariocas está diretamente relacionada à capacidade de organização e enfrentamento por parte das lideranças. Em se tratando da AIDS, essa situação se complexifica e a ação cotidiana se mostra fundamental e necessária. A prática cotidiana, no AIDS E POBREZA 121 entanto, é fluida e se perde no universo de iniciativas que o movimento social em AIDS já pôde criar no Brasil. Por isso, o CEDAPS também se dedica ao registro (6) de algumas estratégias que nascem no interior da dinâmica comunitária, no processo de adaptação, inspiração, criação ou recriação que as lideranças experimentam nas comunidades. As estratégias comunitárias aqui incluídas as estratégias de sobrevivência - ampliam o campo da prevenção da AIDS, superam a dimensão educativa e alcançam a possibilidade de construção de uma comunidade saudável, tendo como eixo central o desenvolvimento integrado e sustentável (7). É uma comunidade que pensa e planeja estratégias que enfrentem diretamente seus problemas sociais e não considera a AIDS e nenhuma outra patologia ou problema social como unicausal, que exercita no cotidiano a possibilidade de construção de uma ação coletiva de enfrentamento, compartilha problemas e busca suas soluções coletivas e cooperativas. As lideranças comunitárias compreendem na prática as múltiplas interferências e interfaces presentes no cenário da comunidade, especialmente em se tratando de HIV/AIDS, e desenvolvem uma visão mais integradora que deve ser potencializada por ações técnicas dirigidas a populações em situação de pobreza. Construção compartilhada de soluções em saúde O CEDAPS implementa no Brasil uma metodologia internacional (8), atuante em 24 países, voltada à capacitação para elaboração simplificada de projetos sociais. Cada participante identifica um problema de sua prática nós críticos em uma dada comunidade, e a partir de estratégias metodológicas sistematiza a construção de uma quadra de esportes pela Associação de Mulheres do Morro do Urubu, e garantir espaços para convivência saudável de jovens e crianças, é tão preventivo quanto qualquer atividade de educação uma solução. Assim, 122 AIDS E DESENVOLVIMENTO que para esse espaço for planejado, o espaço do encontro entre as pessoas. Encontro de casais casados voltados ao passeio e o simples aprender a conversar podem ser um bom começo para uma futura negociação sobre sexo seguro no Mendanha, no bairro de Campo Grande. Associar a distribuição de preservativos às proximidades de uma baiana do acarajé no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, é uma forma de se introduzir ludicamente o erotismo no uso do preservativo, associando-o ao prazer. A atuação da liderança alcança novas concepções por vezes anteriores à idéia de que a informação e o autocuidado sejam aspectos preponderantes para adoção de sexo seguro. Elementos como convívio social, diálogo, prazer devem ser agregados para que a incorporação da prática preventiva se consolide e torne o sujeito morador de uma comunidade popular capaz de adotar uma visão mais ampla e crítica sobre si mesmo e suas condições de vida. Faz girar a roda da vida, como afirma uma liderança comunitária, cuja expressão popular muito se assemelha ao que Paulo Freire chama de manha do povo ao se referir à diversidade de estratégias que as classes populares lançam mão para garantia de sua sobrevivência. Ressaltamos que a prática das ações implementadas pelo CEDAPS junto às comunidades se inspira e ilumina pelas idéias expressas pelo referido autor e encontra interlocução no âmbito das discussões travadas no interior da rede de educação popular e saúde (VASCONCELOS, 2001). Rede de Comunidades na Luta contra a AIDS Cinqüenta e um complexos de comunidades compõem a Rede de Comunidades na Luta contra a AIDS. Cada comunidade organiza o seu próprio plano de prevenção das DST/AIDS, desenvolve suas ações em permanente diálogo com o interesse e o envolvimento dos moradores. Algumas estruturam seus núcleos comunitários - espaço na comunidade em que são disponibilizados materiais educativos e preservativos à população (9). Atuam em escolas, igrejas, pontos de transporte, festas, eventos, ruas e vielas: onde houver moradores da comunidade, lá estão, com o seu Camelô Educativo (10). AIDS E POBREZA 123 A organização em rede lhes permite uma troca de experiências que complementa as aprendizagens técnicas obtidas, impulsiona a aquisição de novos conhecimentos e fomenta relações inter-institucionais que representam um avanço no cenário de segregação imposto pelo tráfico de drogas e seus diferentes comandos no Rio de Janeiro. As normas que determinam as relações entre as comunidades no interior da rede são a cooperação e a construção de um bem social público. Essa vivência, no entanto, não é simples e linear, colecionadora de sucessos. Os confrontos e conflitos estão presentes a todo o momento como parte da dinâmica criada. Do acompanhamento dessa experiência, nos deparamos com questionamentos de diferentes ordens, relatos constantes de sofrimento de pessoas e famílias inteiras, histórias de vida marcadas pela dor, pela violência e pela opressão. Uma realidade substancialmente relacionada a uma ordem social injusta, geradora de tristezas e desesperanças que certamente estão na base do que podemos chamar de vulnerabilidade ao HIV/AIDS. É difícil descrever o que vivenciamos junto às lideranças comunitárias. As conquistas, no entanto, têm sido muitas e impulsionam outras. Os retrocessos também estão presentes no interior da rede: a expressão de preconceitos, valores arraigados, visões distorcidas da sociedade. Submetidas às forças tradicionalmente opressoras, as lideranças se vêem às voltas com pressões eleitoreiras de políticos à procura de votos ou pressão da comunidade por pequenos benefícios, por vezes precisam submeter-se ao jogo de forças local para dar continuidade às suas lutas sociais. Enfrentam, avançam, retrocedem, negociam muitas vezes inspiradas pela forma com que são negociados cargos e poderes no mundo dos partidos e políticos brasileiros. Exercitam o jogo político que conhecem. Algumas lideranças se aproximam e outras se distanciam do chamado poder local no que se refere à totalidade de suas ações comunitárias. Trata-se de um movimento heterogêneo e que sob nenhuma hipótese deve ser generalizado em relação às influências e interferências que sofrem as associações comunitárias para o desenvolvimento de seus projetos. Reconhecem, no entanto, que jovens envolvidos com o tráfico de drogas e em situações de violência nas comunidades fazem parte dessas e assim devem ser fortemente contemplados nas ações comunitárias de prevenção. 124 AIDS E DESENVOLVIMENTO O exercício do diálogo e da troca de experiências entre as lideranças comunitárias no âmbito da rede fortalece a ação política local e promove a aprendizagem de uma nova forma de atuar que congrega valores mais democráticos, como o debate, a diferença de opiniões, a valorização da relação com a comunidade, as diferenças de estilo e de atuação de cada liderança, as visões de mundo, a necessidade e importância do crescimento e da formação pessoal como forma de conferir autonomia às ações comunitárias. Em síntese, promovem o amadurecimento político. O CEDAPS reconhece a soberania da liderança comunitária na condução das negociações no interior das comunidades. Atuamos em co-gestão dos projetos e tomamos como termômetro para o tamanho, a freqüência e a intensidade de ações externas, a análise de risco feita pela própria liderança que se encarrega uma ação externa, por melhor planejada e coordenada que seja, não deve se sobrepor a uma ação interna protagonizada pela liderança comunitária. As forças políticas devem ser respeitadas em das negociações locais. Consideramos, acima de tudo, que nome da continuidade e da sustentabilidade das ações comunitárias. É preciso que reconheçamos que toda essa rede é voluntária e conta com pouquíssimas ações financiadas e, mesmo assim, o movimento não pára de crescer. A organização das comunidades apresenta essa tendência em diferentes outros setores da luta social que travam pela melhoria das comunidades onde vivem. Uma luta voluntária e crescente. Em diferentes décadas, a luta pela água, pela luz, pelo saneamento, pela escola pública, pelo posto de saúde, pela creche, enfim, cada direito social conquistado em uma favela carioca foi marcado por algum tipo de negociação entre a organização comunitária e o Estado. Muitas dessas lutas nasceram em uma comunidade e foram se estendendo a outras em um ritmo crescente que demanda do poder público uma atenção e uma formulação de política pública capaz de minorar a insatisfação. AIDS E POBREZA 125 A omissão do Estado é visível nas favelas cariocas. Os equipamentos comunitários, em geral, são reduzidos na ordem direta da distância geográfica das comunidades do centro urbano e do poder de pressão política de sua população. Segundo Pedro Jacobi (1993), os movimentos populares se constituem a partir de dois elementos fundamentais: a carência e o trabalho desenvolvido pela organização dos moradores. Estamos, portanto, em um momento fértil para formulação de uma política pública que seja efetiva para o controle de HIV/AIDS junto aos segmentos mais empobrecidos da população que integre as conquistas já adquiridas, mas que garanta a sustentabilidade e continuidade das ações em contextos, como dissemos, essencialmente produtores de vulnerabilidades. AIDS e pobreza: apontamentos de uma experiência trabalhar com AIDS vem sendo mobilizador e funcionando como a ponta de um novelo para o desenvolvimento de lideranças, associações comunitárias e comunidades no Rio de Janeiro; Da prática cotidiana, algumas observações: i) ii) a AIDS foi incluída como um item da agenda de lutas de um grande número de comunidades; iii) essas comunidades circulam em número crescente no âmbito das organizações governamentais e não-governamentais que trabalham com AIDS em busca de apoio, recurso ou parceria - dialogam com a sociedade; iv) as lideranças reconhecem sua própria militância e são reconhecidas em sua comunidade pelo trabalho que desenvolvem superam a rejeição inicial e alcançam o respeito e o apoio na comunidade onde vivem; v) vêm se estruturando e já se apresentam como apoio fundamental a quem vive com AIDS nas comunidades um grande desafio em meio à fome e à violência nas favelas cariocas; vi) participam, ainda que inicialmente, do Fórum de ONGs/AIDS do Estado do Rio de Janeiro e se organizam em rede no espelhamento do movimento social em AIDS no Brasil, cuja trajetória histórica aponta para um futuro promissor. Somos sabedores do quanto o HIV/AIDS se dirige às camadas populares, em especial às mulheres e jovens. No entanto, se colocarmos uma lente de aumento para a focalização direta das comunidades, outros apontamentos certamente concorrem para o aumento dessa vulnerabilidade e exigem olhares atentos. A 126 AIDS E DESENVOLVIMENTO AIDS passa a ser uma preocupação(11) a mais para as comunidades, acrescentando-se à fome, ao risco, ao desemprego, e essa preocupação impulsiona o enfrentamento. Nas comunidades do Rio de Janeiro, em sua maioria localizadas em maciços geográficos montanhosos, as moradias foram sendo paulatinamente construídas contrariando todas as normas de habitabilidade. No interior desses morros, diferentes níveis e estratos vão se formando: separações históricas e políticas, bolsões de pobreza e áreas onde o acesso aos bens e serviços sociais é ainda mais difícil, mesmo para quem é morador. É possível observar que, em algumas localidades, os moradores percebem a AIDS como uma doença que entra na comunidade a partir do tráfico de drogas e alternam percepções individuais e coletivas de maior ou menor vulnerabilidade ao HIV, referenciados, dentre outros fatores, por essa percepção. Por um lado, se reconhecem vulneráveis ebuscam espontaneamente o preservativo, por outro, se diferenciam e não se reconhecem grupos-objetivos do trabalho de prevenção. Esse é um exemplo de que precisamos conhecer cada comunidade, seus modos de vida, suas percepções, seus significados, como vivenciam a socialização sexual, o processo de formação de novas famílias, como se dão as relações de gênero, o adoecimento, as relações com o chamado poder local, enfim a cultura da comunidade. Cultura que é peculiar e deve ser conhecida e interpretada para fins de formulação de um plano local que supere a idéia de intervenção educativa e promova a construção de uma resposta comunitária participativa, que tenha como ponto de partida o reconhecimento de que somos todos parte de uma dada realidade e que a luta contra a AIDS é uma causa de todos nós. A dimensão da pesquisa nas comunidades que trabalham com AIDS tem papel preponderante, uma pesquisa de base qualitativa que envolva os diferentes atores no processo de conhecimento de si e da comunidade a que pertencem. Estamos realizando uma experiência no Rio de Janeiro através de um projeto de pesquisa que objetiva investigar, a partir do enfoque antropológico, dois núcleos AIDS E POBREZA 127 comunitários de prevenção um na Zona Norte, outro na Zona Oeste da cidade apoiados pelo CEDAPS. A antropologia desponta como um campo teórico-metodológico capaz de abarcar a diversidade da realidade vivida na prática comunitária. Essa pesquisa traz, ainda, o encontro desejável e possível entre uma ONG e a academia através do papel atuante do programa EICOS/UFRJ em sua coordenação (12). Em síntese, estudar a cultura local torna-se indispensável no processo de formulação de ações que busquem reduzir a epidemia do HIV/AIDS em determinada comunidade. Diagnosticar (13) vulnerabilidades e potencialidades promotoras de saúde transforma a ação e nos distancia da replicação simplificada de modelos baseados em conceitos e metodologias pré-concebidas e testadas, por mais bem-sucedidas que sejam. Acompanhar a luta contra a AIDS, desenvolvida no interior das favelas cariocas através das lideranças participantes da Rede de Comunidades na Luta contra a AIDS, a partir das ações de prevenção que implementam e da relação que estabelecem com quem vive com AIDS nas comunidades, é uma possibilidade de desvelarmos caminhos percorridos pela população para a construção do que Valla (2002) chama deapoio social, visto tratar-se de um processo recíproco que gera efeitos positivos para quem apóia e/ou é apoiado. A prevenção está baseada no apoio mútuo, a comunidade se responsabilizaria pela construção de sua própria concepção de ser saudável, de algo que se aproxima do que Paulo Freire denomina de autonomia (14) dos grupos populares. Superando, de acordo com Paiva (2000), a instauração de um projeto de prevenção baseado na educação bancária que se estabeleceu como hegemônica no Brasil, indo ao encontro da idéia de uma educação libertadora, que estimula a organização coletiva e acredita nas respostas produzidas por quem está diretamente afetado e vivendo no contexto vulnerável. (pág. 38) Parker (1994) chama a atenção para a idéia de que se torna necessária e urgente a construção de uma política da solidariedade como única resposta possível à epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo. O enfrentamento solidário à causa da AIDS pode mobilizar e só assim deve ser compreendido, elemento real favorecedor da transformação social e do desenvolvimento: 128 AIDS E DESENVOLVIMENTO Se as estruturas da desigualdade social continuarem existindo, a disseminação da infecção pelo HIV e AIDS continuará e continuará seguindo as fissuras e falhas criadas pela opressão, preconceito e discriminação social e econômica. A luta contra a AIDS surge necessariamente dentro da luta mais ampla contra a injustiça contra a pobreza e a miséria, contra o racismo (...). Depende, acima de tudo, da nossa capacidade de construir uma política de solidariedade dentro de uma sociedade democrática (PARKER,1994:20). A Rede de Comunidades na Luta contra a AIDS é, hoje, um espaço concreto de aprendizagem e exercício de movimento coletivo de enfrentamento solidário possível da AIDS e da pobreza. Torna-se essencial acompanhá-la, visto que há ainda muito o que se fazer nessa caminhada e que essa é uma causa de todos/ as nós. AIDS E POBREZA 129 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTOS, Francisco Inácio & SZWARCWALD, Célia Landmann. Boletim ABIA. AIDS e pauperização: principais conceitos e evidências empíricas. Rio de Janeiro: ABIA, 2001. FREIRE, Paulo. A pedagogia do oprimido, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. JACOBI, Pedro. Movimentos populares e políticas públicas. São Paulo: Cortez, 1993. PAIVA, Vera. Fazendo arte com a camisinha. Sexualidades jovens em tempos de AIDS. São Paulo: Summus, 2000. PARKER, Richard. A construção da solidariedade: AIDS, sexualidade e política no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: ABIA-IMS, UERJ, 1994. ___________, e TERTO, JR., Veriano (org). Aprimorando o debate: respostas sociais frente à AIDS. Anais do seminário Prevenção à AIDS: Limites e Possibilidades na Terceira Década. Rio de Janeiro: ABIA, 2000. VALLA, Victor Vincent. (org.). Saúde e educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2000 ________________, & STOTZ, Eduardo (org.). Educação, saúde e cidadania. Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. VASCONCELOS, Eymard Mourão (org.). A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da Rede Educação Popular e Saúde. São Paulo: Hucitec, 2001. NOTAS (1) Fundado em 1993, tem como diretor-presidente o pediatra, mestre em Saúde Pública, Daniel Becker. (2) O programa de AIDS do CEDAPS foi formulado pela autora e por dois outros membros da equipe de Coordenação-Geral: Wanda Lúcia Guimarães e Maria do Socorro Lima, e conta com uma equipe de profissionais e estagiários coordenados no campo pela assistente social Ana Paula Baptista. (3) Utilizaremos o conceito vulnerabilidade nos termos apontados por Jonathan Mann e que vêm sendo operados por diferentes estudiosos e autores no Brasil. (4) Esse número é fornecido pela Federação das Associações de Mulheres do Município do Rio de Janeiro (FAMURJ). A origem e a evolução das Associações de Mulheres no Rio de Janeiro são campos que necessitam maior sistematização e registro. (5) Modelo de prevenção realizado por segmentos grupais específicos aos seus pares, recomendado pelo Programa de AIDS das Nações Unidas (UNAIDS) como demonstrando sinais de sucesso no alcance a grupos vulneráveis (ver em especial: Report on the Global HIV/AIDS Epidemic, editado pela UNAIDS, 2002) (6) Catálogo de Estratégias Comunitárias de Prevenção das DST/AIDS. Foi realizada uma pesquisa pela psicóloga Vanessa Fonseca, entre 2001 e 2002, que resultou na organização 130 AIDS E DESENVOLVIMENTO de uma publicação contemplando a diversidade e amplitude da ação educativa protagonizada pelas lideranças. (7) Estamos nos referindo ao campo de atuação denominado Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável com foco na Promoção da Saúde, no qual o CEDAPS desenvolve uma experiência na região de Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, e que vem compartilhando resultados e aprendizagens junto a uma rede que cresce no Brasil tendo o campo cidade/comunidade saudável como eixo. (8) Problem Solving for Better Health/Construção Compartilhada de Soluções em Saúde, registrada por Dreyfus Health Foundation. (9) Guardam semelhanças com os bancos de preservativos originalmente criados por Médicos Sem Fronteiras, geridos na atualidade por agentes e gestores comunitários. Importante ressaltar que a disponibilização do preservativo no interior da comunidade é estratégia prioritária para facilitar o acesso da população ao insumo e popularizar o seu uso. (10) Estratégia itinerante nascida no Morro do Estado/Niterói/RJ em 1996, rapidamente se estendendo a outras comunidades em que os agentes percorrem o morro com uma banca contendo materiais educativos e preservativos para apresentação e discussão com os moradores, alcançando seus diferentes estratos. (11) Preocupar-se, segundo o dicionário Aurélio, quer dizer inquietar-se, impressionar-se; algo que prende ou desperta a atenção, como assim o faz a AIDS nas comunidades. (12) Pesquisa apoiada pela grupo matricial da Coordenação Nacional de DST e AIDS: Estudo Etnográfico em Núcleos Comunitários de Prevenção e Promoção da Saúde, sob coordenação de Cecília de Mello e Souza PHd em Antropologia Social, coordenadora do programa EICOS (Estudos Interdisciplinares de Comunidades e Ecologia Social ), ligado ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Conta, ainda, com a assistência de Maria Luiza de Carvalho, doutoranda em Psicossociologia de Comunidades, e de grupo de pesquisadores. (13) O CEDAPS desenvolveu no programa Iniciativa de Vila Paciência um processo de Diagnóstico Comunitário Participativo, com vistas à formulação de um plano integrado de desenvolvimento que conta efetivamente com a participação dos moradores em sua elaboração. (14) Ver o livro Pedagogia da autonomia, clássico da obra de Paulo Freire e base de uma educação libertadora. AIDS E POBREZA 131 EXPERIENCE WITH THE CENTER FOR HEALTH PROMOTION IN LOW-INCOME COMMUNITIES IN RIO DE JANEIRO Kátia Edmundo Psychologist, member of the General Coordination team of Center for Health Promotion (CEDAPS). This article included collaboration by all members of the CEDAPS team, in particular that of journalist Danielle Bittencourt ([email protected]). Are there 200 or 300 slums in Rio de Janeiro? In the time it takes to count, that many more will have sprung up... (...) What is to be done with so many people streaming out of the ground like ants from an endless anthill? (Carlos Drummond de Andrade, in Valla & Stotz, 1996) The Center for Health Promotion (CEDAPS) (1) is a nongovernmental organization that works with the expanded concept of health, based on the idea of equitable access to all social goods, and recommends participation by low-income communities in establishing their own development process. In the field of AIDS, we help create (as well as advise) (2) a space for networking among community associations working with AIDS prevention in Rio de Janeiro, known as the Network of Communities in the Fight Against AIDS. The Network currently includes participation by 51 rapidly expanding organizations, and our task has been to help upgrade the community practice these organizations have consolidated in the citys favelas (hillside slums) and outlying low-income neighborhoods. The scenario has demanded that involvement in the fight against AIDS become the point of departure for strengthening overall participation, mobilization, and organization in the community associations. This article describes our experience with these community associations since 1996 and highlights the emerging issues in the 132 increasing correlation between AIDS and poverty, in the awareness that Brazilian social reality and vulnerability to HIV/AIDS (3) constantly raise new challenges. We take the liberty of adopting a descriptive approach in this report, since we realize that the existence and interpretation of the social movement in the communities will lead to new analyses and debates concerning prevention work within contexts of violence and poverty. The article reflects on a proposal to foster knowledge through practice (or learning by doing) on the part of professionals and community members in the daily construction of what we refer to as the communities response to AIDS, added to what has been called the Brazilian response to the epidemic, led by a social movement whose experience has served as a source of inspiration for the communities. Community AIDS work The community is the cornerstone for daily life. Basic relations are established at the community level. In this geographic and psychosocial space, possibilities for improving living conditions and dealing with inequalities are created and recreated. Social change is thus the key component in the community movement. The term community (or communitybased) has been continuously redefined in the field of AIDS, subject to the perceptions and perspectives of those who employ it. The term generally demarcates sides in a movement. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT Community events and movements appear as a complement to, negotiation with, or counterpoint to scientific and/or governmental events. Community events are independent, not subject to the laws and norms of science and/or government; rather, they occur in the societal sphere. In relation to work and organization in Rios slums, for some time now the term community has been heavily associated with the term popular (in the sense of pertaining to the people), with populations living in poverty, with the struggle to improve living conditions in the favelas and outlying low-income neighborhoods. We are thus referring to AIDS work focused on the community, that is, on the place of family living, the dwelling place of lowincome groups in the slums, housing projects, and other marginalized neighborhoods. We propose the use of the term popular communities (comunidades populares in Portuguese) to express the idea that we are referring to the grassroots segments of Brazilian society, and we thus include in the term such categories as gender, race, and social class, since we are aware of the concepts relational dimension. Seen as a geographically and culturally demarcated territory, the community congregates its own ways of life and organization as evidenced by its history, the relations it establishes, and the way it deals with the countless crosscutting issues in prevailing socioeconomic inequality, a major factor for human suffering and illness. Identified with their place of residence, community leaders work for the common good of their communities and establish a political and affective relationship that can potentially foster development and health. A community-based approach, strategies, and work methodology comprise a field in itself and should encompass the notion of a living and relational body. Different social segments coexist in the community, affected by the HIV/AI DS epidemic both historically and more recently. Measures targeting a given segment of the AIDS AIDSAND E POBREZA POVERTY population are crucially important because they deepen the dialogue and provide diversity to the cause. However, the key issue is the need to integrate actions and approaches that are directed towards the same territory, addressing the multiples causes of AIDS. We contend that actions in a community should be part of joint planning by stakeholders that observe, record, and act in the community world. Isolated action produces isolated results, which may subsequently be networked, but which could have been launched from the onset within an integrated perspective, as recommended under what could be defined as a community-based methodology and approach. Community associations and AIDS Most neighborhood associations are headed by men, yet operationalized in the daily lives of women. Women have increasingly expressed the interest and need to gain a more appropriate and more female space in the community world. This trend has given rise to womens associations with agendas more attuned to family care and the household, involving children, youth, the elderly, and especially problems related to health and education. There are currently some 150 womens associations in the State of Rio de Janeiro (4), in addition to a significant number of neighborhood associations and citizens defense committees that are led and/or operationalized by women, and which have also been sensitized to the HIV/AIDS issue. Considering that AIDS has undergone a substantial increase among women with limited schooling and in stable heterosexual relationships, this awareness is crucially important for controlling the epidemic. In the 1990s, the so-called pauperization of AIDS led to a change in the profile of projects and initiatives in Brazil. As a social segment, the poor population began to receive greater attention from the Ministry of Health, with preventive actions based on health edu133 133 cation strategies. Peer prevention (5) among specific groups for example, gays conducting prevention with gays, sex workers with sex workers, etc. was a successful intervention model that was potentially replicable in analogous contexts. Thus, the idea was for AIDS prevention activities in low-income communities to be implemented by community members qualified for such action. This gave rise to community prevention agents. This peer prevention model corresponds to the prevailing community-based health agent model in public health systems in Brazil. Community leaders thus receive technical qualification to act as prevention agents and join the fight against AIDS. This work requires training, follow-up, and supervision, since the expectation is to implement qualified community HIV/AIDS preventive action in the communities. As highlighted above, women play an outstanding role in the fight against AIDS. They assume the responsibility and commitment to reach segments of the community with more difficult access to social goods. They are willing to have people come to their homes to receive condoms, and they provide care and shelter for people living with AIDS in the community. The training of these women as prevention agents is the result of a permanent building process: they join the fight against AIDS and strive to perform professional work; they invest their time, their determination, and their limited resources to participate in training workshops and seminars. Ranging from basic training in STD/ AIDS prevention and condom use, participatory techniques, and the development of their own prevention strategies, women community leaders undergo a process of personal and professional growth that can be observed in collective action. According to the leaders themselves: Its in the tone that we give the feedback. Depending on the person because some people are serious thats where we crack a joke, strike 134 up a conversation... In fact, we learn from every single person that comes in. Because what I say depends on what you ask me. Some people just stop by wanting to pick up the condoms and dont feel like asking anything. So it depends on the case (...). Thats where our work is important: to speak at the right moment. Every day we discover that there are ways to make people reflect more on the issue. We dont know everything, but were trying to learn. I know some ways to get people to come closer. Weve already developed little tricks to get them to participate more. We have that knack for talking. (COMMUNITY NETWORK LEADER) Conquering social rights in the Rio de Janeiro slums is directly related to the leaders organizational and confrontational capacity. In relation to AIDS, this situation is even more complex, and daily action is crucial. However, daily practice is fluid and gets lost in the world of initiatives that the AIDS social movement has already managed to create in Brazil. Thus, CEDAPS also works to record (6) some strategies that emerge from within the community dynamics, in the process of adaptation, inspiration, creation, or re-creation that leaders test in the communities. Community strategies including survival strategies expand the field of AIDS prevention, transcend the educational dimension, and allow the construction of a healthy community, the central thrust of which is integrated and sustainable development (7). A healthy community is one that conceives and plans strategies that deal directly with its social problems and does not consider AIDS or any other disease or social problem as having a single cause. It is a community whose daily practice is to exercise the possibility of constructing collective action to share and deal with problems and seek collective and cooperative solutions. Community leaders have a practical understanding of the multiple interferences and interfaces present in the community con- AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT text, especially in relation to HIV/AIDS. Community leaders develop a more integrated vision that can be further empowered by technical actions targeted at groups living in poverty. Development of shared solutions in health CEDAPS is implementing an international methodology in Brazil (8) that has been adopted in 24 countries, focused on training in the simplified elaboration of social projects. Each participant identifies a problem in his or her practice critical knots in a given community and systematizes a solution based on methodological strategies. Thus, building a multi-purpose sports court by the Morro do Urubu Neighborhood Womens Association to ensure an area for healthy recreation by kids and young people is as much prevention as any educational activity that could be planned for this space, a space for the meeting of people. A meeting of married couples focusing on a walk together and simply learning how to talk can be a good beginning for future negotiation of safe sex in Mendanha, in the Campo Grande neighborhood. Situating a condom distribution stand next to the baiana do acarajé (a Bahian woman selling traditional snacks from a street stand) in the Morro dos Prazeres community in Santa Teresa is a way to playfully combine condom use with eroticism, associating prevention with pleasure. Work by women leaders unveils concepts that sometimes precede the notion that information and self-care are preponderant aspects in the adoption of safe sex. Elements like social contact, dialogue, and pleasure should be combined in order to help consolidate the incorporation of preventive practices and make the subjects (residents of low-income communities) capable of adopting a broader and more critical view of themselves and their living conditions. The challenge is to make the wheel of life turn, as a community leader put it, an expression similar to what Paulo Freire refers to as the peoples AIDS AIDS AND E POBREZA POVERTY streetwise approach, or the diversity of strategies that grassroots communities use to guarantee their survival. CEDAPS work in the communities is inspired and illuminated by Freires ideas and engages in an ongoing dialogue with Brazils popular education and health network (VASCONCELOS, 2001). Network of Communities in the Fight Against AIDS Fifty-one groups of communities constitute the Network of Communities in the Fight against AIDS in Rio de Janeiro. Each community organizes its own STD/AIDS prevention plan and develops its action in permanent dialogue with the interests and involvement of community members. Some have organized community centers (or nuclei) community spaces for distributing educational materials and condoms to the population (9). They operate in schools and churches, at bus stops, parties, and events, or on the streets and alleyways: wherever there are community members, there they are, with their educational vending stand (10). The network format allows an exchange of experiences which complements the technical learning process, fosters acquisition of new knowledge, and spawns interinstitutional relations that are a step forward in overcoming the segregation imposed by the drug traffic and its various commandos in Rio de Janeiro. The norms that determine relations between communities in the network are cooperation and the construction of a public social good. However, this experience is not simple or linear; it is not constantly crowned with success. Confrontation and conflict are present as an inherent part of the dynamic. While accompanying this experience, we encountered various challenges and issues, constant reports of suffering among individuals and entire families, life histories marked by pain, violence, and oppression: a reality substantially related to an unjust social order, leading to sadness and despair, at 135 135 the root of so-called vulnerability to HIV/ AIDS. It is difficult to describe what we experience with the community leaders. However, there have been many gains, feeding further progress. There have also been setbacks in the network: expressions of prejudice, deeply ingrained values, and distorted views of society. Subject to traditionally oppressive forces, women leaders must deal with electoral pressure by politicians in search of votes and squeezing the community in exchange for pork-barrel type benefits; sometimes the women are forced to engage in the local play of give-and-take in order to sustain their social struggles. Taking two steps forward, sometimes one step back, they often negotiate according to the world of Brazilian political parties and politicians. They play the political game with which they are familiar. Some leaders approach (while others distances themselves from) the so-called local powers-that-be in relation to their community work as a whole. The movement is heterogeneous, and no generalizations should be made about the influence or interference affecting community associations in their projects. However, they do recognize that young people involved with the drug traffic and in situations of violence are subject to such influence and interference and should be specifically considered in community prevention work. Dialogue and exchange of experiences among community leaders within the network strengthens local political action and fosters learning a new way of acting that incorporates more democratic values such as debate, difference of opinions, appreciation of community relations, different leadership styles and action, world views, and the need and importance of personal growth and training as a way of ensuring autonomy in community action: in short, political maturity. CEDAPS recognizes the sovereignty of community leadership in conducting negotiations within the communities. We act in the co-management of projects and become a barometer for the size, frequency, and inten136 sity of outside action and the risk analysis conducted by the local leader in charge of local negotiations. Above all, we feel that external action, no matter how well planned and coordinated, should never take precedence over internal action headed by community leadership. The political forces should be respected in the name of continuity and sustainability of community action. We should recognize that although this is an entirely volunteer network and that very few of its activities are funded, the movement never stops growing. The organization of communities shows this trend in various other areas in the social struggles for community betterment. The struggle is both voluntary and growing. In recent decades, the struggle by Rio de Janeiro slum-dwellers for social rights (running water, electricity, sewerage, trash collection, public schools, health clinics, and daycare centers) has been marked by various levels of negotiation between community associations and the government. Many of these struggles emerged within one community and increasingly spread to others, demanding attention by the public sector, with public policies capable of meeting the demands. Government negligence is visible in the slums of Rio de Janeiro. Generally, the coverage and quality of community infrastructure is inversely proportional to the communities geographic distance from the city center and directly proportional to the political pressure exerted by population. According to Pedro Jacobi (1993), grassroots movements are founded on two basic elements: their felt needs, and the work carried out through neighborhood organization. We are thus at a potentially fertile moment for effective HIV/AIDScontrol policy-making with the more impoverished sectors of the population, incorporating the gains already made, but guaranteeing the works sustainability and continuity in contexts which essentially produce various types of vulnerabilities, as discussed above. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT AIDS and poverty: notes from an experience Some observations from daily practice: i) working with AIDS has a mobilizing effect and acts as the point of departure for developing leadership, community associations, and communities in Rio de Janeiro; ii) many communities have incorporated AIDS into their agenda; iii) a growing number of these communities circulate in the sphere of governmental and nongovernmental organizations working with AIDS, in search of support, resources, or partnerships, that is, engaging in dialogue with society as a whole; iv) the leaders acknowledge their own activism and are recognized by the community for the work they do, thus overcoming the initial rejection and achieving respect and support from the communities in which they live; v) they have been acquiring a structural basis and already constitute a fundamental source of support for people living with AIDS in the communities, thus dealing with a major challenge in the midst of hunger and violence in Rios slum; and vi) they are beginning to participate in the Rio de Janeiro State Forum of AIDS NGOs and are organizing a network that mirrors the AIDS social movement in Brazil, the history of which suggests a promising future. We are aware of how HIV/AIDS affects low-income groups, especially women and youth. However, if we focus a magnifying glass directly on communities, other factors are certain to appear which further increase this vulnerability and require close attention. AIDS becomes one more concern for the communities (11), in addition to hunger, risk, and unemployment, and this concern drives the struggle. In the poor communities in Rio de Janeiro, most of which are located on rocky hillsides, homes have been built bit-by-bit, disregarding all decent housing standards. Different levels and strata have developed within these hillside communities: historical and political divides, pockets of poverty, and areas where access to social goods and services is still extremely difficult even for local residents. AIDS AIDSAND E POBREZA POVERTY In some areas, residents view AIDS as a disease that has entered the community through the drug traffic, and individual and collective perceptions thus vary in terms of greater or lesser vulnerability to HIV. On the one hand, residents may see themselves as vulnerable and spontaneously come for condoms; on the other, they may set themselves apart and not see themselves as target groups for prevention work. This illustrates how we need to know each community, its ways of life, its perceptions, its meanings, how it experiences sexual socialization, the formation of new families, the experience with gender relations, illness, relations with the so-called local powersthat-be, in short, the communitys culture. This culture is peculiar and should be known and interpreted in order to draft a local plan that transcends the notion of educational intervention and promotes the construction of a participatory community response, the point of departure of which is the recognition that we are all part of a given reality and that the fight against AIDS is everyones cause. Research in communities working with AIDS has a key role, with a qualitative base involving the various players in getting to know themselves and the community to which they belong. We are conducting an experiment in Rio de Janeiro through a research project that take an anthropological approach to investigate two community prevention centers supported by CEDAPS, one in the Northern Zone and the other in the Western Zone of Rio. Anthropology as a technical and methodological field is capable of grasping the diverse reality experienced in community practice. The research also involves a desirable and possible interface between an NGO and academia through the active coordinating role of the EICOS/UFRJ program (12). In short, to study the local culture becomes indispensable for formulating actions that seek to reduce the HIV/AIDS epidemic in a given community. To diagnose (13) vulnerabilities and healthy potentialities transforms action and avoids the 137 137 simplified replication of models based on preconceived and pre-tested concepts and methodologies, no matter how successful they have been elsewhere. To accompany the fight against AIDS in Rios favelas through the leaders participating in the Network of Communities in the Fight against AIDS, based on the preventive actions they implement and the relationship they establish with people living with AIDS in the communities, involves the possibility of unveiling the paths traveled by the population to build what Valla (2002) refers to as social support, since this is a reciprocal process that generates positive effects for both those who provide and those who receive support. Prevention is based on mutual support, with the community defining its own concept of being healthy, something akin to what Paulo Freire called the autonomy of grassroots groups (14). According to Paiva (2000), this means overcoming the implementation of a prevention project based on the notion of education as a bank account (depositing and withdrawing knowledge, currently the hegemonic approach to education in Brazil), rather pursuing the idea of a liberating education, which stimulates collective organization and trusts in the response produced by those who are directly affected by and are living within the vulnerable context. (p. 38) Parker (1994) highlights the need and urgency of building a policy of solidarity as the only possible response to the HIV/AIDS epidemic in Brazil and the world as a whole. Embracing the AIDS cause through solidarity can mobilize, and this is the only way to grasp the struggle, as the real element favoring social change and development: If the structures of social inequality continue to exist, HIV infection and AIDS will continue to spread and will continue to follow the fault lines created by oppression, prejudice, and social and economic discrimination (...). Above all, the struggle depends on our capacity to build a policy of solidarity within a democratic society (PARKER, 1994:20). 138 The Network of Communities in the Fight against AIDS is now a concrete space for learning and exercising the collective movement of dealing with AIDS and poverty through solidarity. It is essential to accompany this Network, since much remains to be done in this journey, and the cause belongs to us all. BIBLIOGRAPHICAL REFERENCES BASTOS, Francisco Inácio & SZWARCWALD, Célia Landmann. Boletim ABIA. AIDS e pauperização: principais conceitos e evidências empíricas [AIDS and pauperization: principal concepts and empiri cal evidence]. Rio de Janeiro: ABIA, 2001. FREIRE, Paulo. A pedagogia do oprimido [Pedagogy of the Oppressed] Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. JACOBI, Pedro. Movimentos populares e políticas públicas [Popular Movements and Public Policies] São Paulo: Cortez, 1993. PAIVA, Vera. Fazendo arte com a camisinha: Sexualidades jovens em tempos de AIDS [Art with the Condom: Young Sexualities in Times of AIDS] São Paulo: Summus, 2000. PARKER, Richard. A construção da solidariedade: AIDS, sexualidade e política no Brasil [Building Solidarity: AIDS, Sexuality, and Politics in Brazil] Rio de Janeiro: Relume-Dumará: ABIA-IMS, UERJ, 1994. ___________, and TERTO, JR., Veriano (org). Aprimorando o debate: respostas sociais frente à AIDS [Enhancing the Debate: social responses to AIDS]. Anais do seminário Prevenção à AIDS: Limites e Possibilidades naTerceira Década [Proceed ings of the AIDS Prevention Seminar: Limits and Possibilities in the Third Decade] Rio de Janeiro: ABIA, 2000. VALLA, Victor Vincent. (org.). Saúde e educação [Health and Education] Rio de Janeiro: DP&A, 2000 ________________, & STOTZ, Eduardo (org.). Educação, saúde e cidadania [Education, Health, and Citizenship] Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. VASCONCELOS, Eymard Mourão (org.). A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da Rede Educação Popular e Saúde [Health in Words and Gestures: Reflections on the Network for Popular Education and Health] São Paulo: Hucitec, 2001. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT NOTES (1) Founded in 1993, with Daniel Becker (pediatrician and Master in Public Health) as its Chairman. (2) The AIDS program at CEDAPS was drafted by the author, together with two other members of the General Coordination team: Wanda Lúcia Guimarães and Maria do Socorro Lima, and includes a team of professionals and interns coordinated in the field by social worker Ana Paula Baptista. (3) We use the concept of vulnerability as proposed by Joanathan Mann and employed by different scholars and authors in Brazil. (4) This figure was provided by the Rio de Janeiro Municipal Federation of Womens Associations (FAMURJ). The origin and evolution of womens associations in Rio de Janeiro are areas that require further documentation and systematization. (5) A prevention model implemented by specific groups with their peers, recommended by the United Nations AIDS Program (UNAIDS) as having demonstrated signs of success in reaching vulnerable groups (see in particular: Report on the Global HIV/AIDS Epidemic, edited by UNAIDS, 2002) (6) Catálogo de Estratégias Comunitárias de Prevenção das DST/AIDS [Catalogue of Community-Based STD/AIDS Prevention Strategies]. A study was conducted by psychologist Vanessa Fonseca in 2001 and 2002 which resulted in a publication on the diversity and breadth of educational work headed by the leaders. (7) We are referring to the field of activity called Local Integrated and Sustainable Development with a focus on Health Promotion, in which CEDAPS is developing an experience in the Santa Cruz area in the Western Zone of Rio de Janeiro, and which has been sharing results and learning processes with a network that is growing in Brazil around the field of healthy cities and healthy communities. (9) Similar to thecondom banksoriginally created by Médicins sans Frontières, and currently managed by community health agents and leaders. Availability of condoms inside the community is a strategic priority for facilitating access to this input and popularizing their use. (10) A roving strategy that started in the Morro do Estado community in Niterói, across Guanabara Bay from the city of Rio de Janeiro, in 1996, and quickly spread to other communities, whereby the community prevention agents canvassed the hillside community with a portable stand containing educational materials and condoms to show and discuss with residents, thus reaching the various neighborhood strata. (11)To be concerned [preocupar-se in Portuguese] means to be disquieted or impressed, to take interest, and to become involved or engaged; a concern is something that attracts or awakens attention, like AIDS in the communities. (12) Research supported by the interdisciplinary group of the National Coordinating Body for STD/AIDS: An Ethnographic Study of Community Prevention and Health Promotion Centers, coordinated by Cecília de Mello e Souza, PhD in Social Anthropology, coordinator of the EICOS program (Interdisciplinary Studies on Communities and Social Ecology), affiliated with the Institute of Psychology, Federal University in Rio de Janeiro, assisted by Maria Luiza de Carvalho, PhD student in the Psychosociology of Communities and a group of researchers. (13) Under the Vila Paciência Initiative, CEDAPS developed a participatory community diagnosis aimed at preparing an integrated development plan with actual participation by local residents in the drafting process. (14) See Pedagogia da autonomia (The Pedagogy of Autonomy), a classical study by Paulo Freire and the basis for a liberating education. (8) Problem-Solving for Better Health, Dreyfus Health Foundation. AIDS AIDSAND E POBREZA POVERTY 139 139 LA EXPERIENCIA DEL CENTRO DE PROMOCIÓN DE SALUD EN LAS COMUNIDADES POPULARES DE RIO DE JANEIRO Kátia Edmundo Psicóloga, miembro del equipo de la Coordinación General del Centro de Promoción de Salud (CEDAPS). Este texto cuenta con la colaboración de todos los miembros del equipo del CEDAPS y en especial, de la periodista Danielle Bittencourt ([email protected]). Son 200, son 300 las favelas cariocas? El tiempo en contarlas es el tiempo para otras surgir ( ) ¿Qué hacer con tanta gente brotando del piso, hormigas de un hormiguero infinito? (Carlos Drummond de Andrade in Valla & Stotz, 1996) El Centro de Promoción de Salud (CEDAPS) (1) es una organización no-gubernamental que trabaja con el concepto ampliado de salud, que se define a partir de la idea de acceso equitativo a todos los bienes sociales, preconizando la participación de la población más pobre en la construcción de su proceso de desarrollo. Aplicando el concepto al campo del SIDA, fomentamos la creación y el asesoramiento (2), un espacio de articulación entre las asociaciones comunitarias que trabajan en Río de Janeiro en la prevención de la epidemia, recibiendo el nombre de Red Comunidades en la Lucha contra el SIDA. Actualmente, la red cuenta con la participación de 51 entidades y continúa ampliándose. Nuestro trabajo se ha desarrollado en base a contribuir en la calificación de la práctica comunitaria que se consolida en el interior de las favelas y en barrios periféricos de la ciudad. El escenario actual demanda, y el envolvimiento con la causa del SIDA está configurándose como el punto de partida para el fortalecimiento del proceso de participación, movilización y organización de las asociaciones comunitarias. Este texto pretende relatar la experiencia que estamos implementando desde 1996 con asociaciones comunitarias y 140 también, resaltar cuestiones surgidas del deseado enfrentamiento a la creciente asociación entre SIDA y pobreza, conscientes de que la realidad social brasileña y la vulnerabilidad (3) al VIH/SIDA con que nos enfrentamos nos coloca nuevos desafíos a cada día. Nos permitimos escribir más libremente en este texto, considerando que es del reconocimiento y de la lectura del movimiento social en el interior de las comunidades que surgirán nuevas consideraciones y debates sobre lo que estamos efectivamente construyendo con relación a la prevención dentro del contexto de violencia y pobreza. Además, el texto es una invitación a la reflexión sobre una propuesta basada en la atención del saber de la práctica de técnicos y comunitarios dedicados a construir cotidianamente lo que hemos llamado de respuesta de las comunidades a la causa del SIDA, para ser agregada a la llamada respuesta brasileña a la epidemia, protagonizada por un movimiento social cuya trayectoria sirve como fuente de inspiración para las comunidades. La comunidad en el ámbito del trabajo con SIDA La comunidad es la base fundamental para el ejercicio de la vida cotidiana. Es en la comunidad donde las relaciones primarias se establecen, es en el espacio geográfico y/o sico-social donde se crean y recrean nuevas posibilidades para mejorar las condiciones de vida y formas concretas de enfrentar las desigualdades. Por tanto, el cambio social es la principal llave para el movimiento comunitario. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO El término comunitario está siendo redefinido constantemente en el campo del SIDA, sometido a la percepción y al punto de vista del lugar de quien lo utiliza. Por lo general, delimita lados de un movimiento. Como complementación, negociación y/o contraposición a los eventos científicos y/o gubernamentales, están los eventos y movimientos comunitarios que son independientes, no sujetos a las leyes y normas de la ciencia y/o del gobierno y se encuentran en el ámbito de la sociedad. Tratándose del trabajo y de la organización en las favelas cariocas, desde hace mucho el término comunitario está siendo asociado fuertemente a lo popular, lo que se refiere al pueblo, a las poblaciones en situación de pobreza, al conjunto de prácticas desarrolladas en las favelas y en barrios de la periferia con la intención de mejorar sus condiciones de vida. Por tanto, estamos refiriéndonos a un trabajo en SIDA dirigido a la comunidad, o sea, para el lugar de convivencia familiar, el local de morada de las capas populares que son las favelas y conjuntos habitacionales y barrios de la periferia de Río de Janeiro. Proponemos la utilización del término comunidades populares para expresar la idea de que estamos refiriéndonos a las capas populares de la sociedad brasileña y de esa forma, incluimos en el término categorías como género, raza y clase social, conscientes de su dimensión relacional. Comprendidas como un territorio delimitado geográfica y culturalmente, las comunidades congregan modos de vidas y organización propias, evidenciados por su historia, por las relaciones que establecen y por la forma como enfrentan la desigualdad socio-económica presente en la sociedad en sus infinitas correlaciones y, en gran parte, promotoras del sufrimiento y de la enfermad humana. Identificados con el local donde viven, los líderes comunitarios trabajan por el bienestar colectivo de sus comunidades y establecen una relación política y afectiva que es potencialmente generador de desarrollo de salud. El abordaje, las estrategias, en fin, la metodología de trabajo dirigida para la AIDSYEPOBREZA POBREZA SIDA comunidad, constituye un campo propio y debe contemplar la noción de organismo vivo e relacional. En la comunidad conviven diferentes segmentos sociales, anterior y reciente mente alcanzados por la epidemia de VIH/ SIDA. Las acciones dirigidas a un deter minado segmento de la población son fundamentalmente importantes ya que permiten profundizar en el diálogo y le da diversidad a la causa. Sin embargo, lo que se manifiesta es la necesidad de integración de las acciones y de abordaje cuando son dirigidas en un mismo territorio, contemplando la dimensión multicausal del SIDA. Consideramos que las acciones en una comunidad deben formar parte de una planificación articulada y conjugada por actores que adsorban, registren y actúen sobre el universo comunitario. Las acciones aisladas producen resultados aislados, con posibilidad de ser conjugadas posteriormente pero que desde ya pudieran nacer bajo la óptica de la acción integrada, preconizando una metodología y abordaje que se comprenden como comunitarias. Asociaciones comunitarias y SIDA En su mayoría, las asociaciones de moradores son presididas por los hombres y operacionalizadas por las mujeres que por su vez, en los últimos tiempos, han manifestado su interés y necesidad de conquistar un espacio más apropiado y más femenino en el universo de las comunidades. Nacen, entonces, las asociaciones de mujeres con pautas más próximas al cuidado y al universo familiar, como los niños, los jóvenes, los ancianos y en especial, lo problemas ligados a la educación e a la salud. Actualmente existen, en el Estado de Río de Janeiro, alrededor de 150 (4) asociaciones de mujeres, además de un expresivo número de asociaciones de moradores y comités de defensa de la ciudadanía, dirigidos o presididos por mujeres, que por su vez están sensibilizándose con la temática del VIH/ SIDA. Considerando que el SIDA está aumentando substancialmente en los segmentos 141 141 femeninos de baja escolaridad y con relaciones conyugales heterosexuales estables, esa sensibilización es de vital importancia en el ámbito del control de la epidemia. En la década de los 90, la pauperización del SIDA condujo a un cambio en el perfil de los proyectos e iniciativas en Brasil. El segmento de la población en situación de pobreza pasa a demandar por parte de Ministerio de Salud una mayor atención en lo referente a las acciones de prevención con base en las estrategias de educación para la salud. La idea de que la prevención realizada por pares (5) en lo que se refiere a los grupos específicos como por ejemplo, homosexuales desarrollando actividades de prevención para homosexuales, profesionales del sexo para profesionales del sexo, etc., se presenta como un modelo de intervención de suceso y de posible replicación en escenarios semejantes. Las actividades de prevención en comunidades populares, por tanto, deben ser implementadas por moradores calificados para esa acción. Entonces, surgen los agentes comunitarios de prevención. A ese modelo de prevención por pares, se le adiciona el modelo vigente en los sistemas públicos de salud que son, los agentes comunitarios de salud. De ese modo, los líderes comunitarios son técnicamente calificados para actuar como agentes de prevención y adherirse a la lucha contra el SIDA. Ese trabajo exige capacitación, acompañamiento y asesoramiento debido a que se espera que se implemente en las comunidades una acción comunitaria de prevención al VIH/SIDA calificada. Como fue resaltado, las mujeres son aliadas destacadas en la causa del SIDA. Toman para sí la responsabilidad y el compromiso de alcanzar estratos comunitarios más distanciados del acceso a los bienes sociales, disponiéndose a ser procuradas en sus casas para distribuir preservativos, cuidando y acogiendo personas viviendo con SIDA en las comunidades. La formación de esas mujeres como agentes de prevención es fruto de un proceso en permanente construcción: se adhieren a la lucha contra el SIDA y se esfuerzan por 142 profesionalizar sus acciones, invirtiendo su tiempo, su determinación y sus pocos recursos financieros para participar de oficinas y seminarios de capacitación. Desde la formación básica en ITS/SIDA y el uso del preservativo, pasando por el aprendizaje de técnicas participativas, hasta el desarrollo de sus propias estrategias de prevención, los líderes comunitarios pasan por un proceso de crecimiento personal y profesional que puede ser verificado en la acción colectiva. Según los propios líderes: Es en el tono que la gente da el retorno. Dependiendo de la persona, porque hay personas que son serias, ahí hacemos una gracia, conversamos en verdad, la gente aprende con cada uno que llega. Porque depende de lo que me pregunten para yo hablar. Porque hay gente que llega queriendo coger el preservativo y no quiere saber de más nada. Entonces, depende de cada uno, ( ). Ahí está el trabajo del agente: hablar en la hora cierta. Cada día vamos descubriendo que existen fórmulas para hacer pensar a las personas sobre el asunto. No sabemos todo, pero lo estamos descubriendo. Conocemos algunos caminos que pueden hacer con que algunas personas se aproximen más. Ya conseguimos driblarlas para que participen más. Tenemos una forma de decir. (LÍDERES DE LA RED DE COMUNIDADES) La conquista en las favelas cariocas de derechos sociales está relacionada directamente a la capacidad de organización y enfrentamiento por parte de los liderazgos. Tratándose del SIDA, esa situación es más compleja y la acción cotidiana se muestra fundamentalmente necesaria. Sin embargo, la práctica cotidiana es fluida pero se pierde en el universo de las iniciativas creadas por el movimiento social del SIDA en Brasil. Por eso, el CEDAPS también se dedica al registro (6) de la dinámica comunitaria en el proceso de adaptación, inspiración, creación o recreación que los liderazgos experimentan en las comunidades. Las estrategias comunitarias, incluidas aquí las estrategias de sobrevivencia, amplían el campo de la prevención del SIDA, superan AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO la dimensión educativa y alcanzan la posibilidad de construir una comunidad saludable, teniendo como eje central el desarrollo integrado y sostenible (7). Es una comunidad que piensa y planifica estrategias que enfrenten directamente sus problemas sociales y no considera al SIDA, así como ninguna otra patología o problema social con una única causa, ejerciendo en lo cotidiano la posibilidad de construir una acción de enfrentamiento colectiva, compartiendo problemas y buscando soluciones colectivas y cooperativas. Los liderazgos comunitarios comprenden en la práctica las diversas interferencias e interfaces presentes en el escenario de la comunidad en especial cuando se trata del VIH/SIDA, y desarrollando una visión más integradora que debe ser potenciada por acciones dirigidas a la población que están en situación de pobreza. Construcción compartida de soluciones en salud En Brasil, el CEDAPS implementa una metodología internacional (8), actuada en 24 países, dirigida a la capacitación para la elaboración simplificada de proyectos sociales. Cada participante identifica un problema en su práctica (autocrítica) en una determinada comunidad y a partir de estrategias metodológicas, sistematiza una solución. Así, la construcción de una cuadra de deporte por la Asociación del Morro do Urubu y la garantía de un espacio para la convivencia saludable de jóvenes y niños, tienen un carácter preventivo tanto cuanto como cualquier otra actividad de educación que para ese espacio sea planificado, el espacio del encuentro entre las personas. El encuentro de parejas con el objetivo de pasear o simplemente para aprender a conversar, puede ser un buen inicio para una futura negociación sobre sexo más seguro en el Mendanha, en el barrio de Campo Grande. Asociar la distribución de preservativos a las proximidades de una baiana do acarajé en el Morro dos Prazeres, en santa Teresa, es una forma de introducirse lúdicamente, el erotismo en el uso del preservativo, asociándolo al placer. SIDA AIDS YE POBREZA POBREZA La actuación del liderazgo alcanza nuevas concepciones, algunas veces anteriores a la idea de que la información y el autocuidado sean aspectos preponderantes para la adopción del sexo más seguro. Elementos como la convivencia social, el diálogo y el placer deben ser agregados para que se consolide la adopción de la práctica preventiva y haga el sujeto, moderador de una comunidad popular, capaz de tener una visión más amplia y crítica sobre sí mismo y sobre sus condiciones de vida. Haz girar la rueda de la vida, como afirma una líder comunitaria, cuya expresión popular, muy parecida a lo que Paulo Freire llama de maña del pueblo al referirse a la diversidad de estrategias que las clases populares hacen suyas para garantizar su sobrevivencia. Resaltamos, que las prácticas de las acciones implementadas por el CEDAPS junto a las comunidades, se inspiran e iluminan através de las ideas expresadas por el referido autor y ínter-dialoga en el ámbito de las discusiones realizadas en el interior de la red de educación popular y salud (VASCONCELOS, 2001). Red de Comunidades en la Lucha contra el SIDA Componen la Red de Comunidades en la Lucha contra el SIDA un total de 51 complejos de comunidades. Cada comunidad organiza su propio plan de prevención de las ITS/SIDA, desarrolla sus acciones en permanente diálogo con los intereses y grado de compromiso de los moradores. Algunas comunidades, estructuran sus núcleos comunitarios, o sea, espacios en la comunidad donde se ponen a disposición de la población, materiales educativos y preservativos (9). Actúan en las escuelas, en las iglesias, en los puntos de transporte, en las fiestas, eventos y en las calles: donde existan moradores de la comunidad, ahí están, con su Barraca Educativa. (10) La organización en red, les permite un intercambio de experiencias que complementan lo ya aprendido sobre técnicas, impulsando la adquisición de nuevos 143 143 conocimientos y fomentando relaciones interinstitucionales, lo que representa un avance en el escenario de segregación impuesto por el tráfico de drogas y sus diferentes comandos en Río de Janeiro. Las normas que determinan las relaciones entre las comunidades en el interior de la red son: la cooperación y la construcción de un bien social público. Sin embargo, esa vivencia no es simple, linear y coleccionadora de sucesos. Los enfrentamientos y conflictos están presentes en todo momento como parte de la dinámica creada. A partir del acompañamiento de esas experiencias, nos deparamos con cuestiones de diferentes ordenes, relatos de sufrimiento constante de personas y de familias completas, historias de vidas marcadas por el dolor, por la violencia y por la opresión, o sea, una realidad relacionada, substancialmente, a un orden social injusto, que genera tristeza y desesperanza que con seguridad están en la base de lo que podemos llamar de vulnerabilidad al VIH/SIDA. Es difícil describir lo que vivenciamos junto a los liderazgos comunitarios. Sin embargo, las conquistas son muchas y ellas impulsan a otras. Los retrocesos también están presentes en el interior de la red: las expresiones prejuiciosas, valores arraigados, visiones distorsionadas de la sociedad. Las redes encuentran a su alrededor, sometidas por las fuerzas tradicionalmente opresoras, presiones electorales de políticos procurando votos o la presión de la comunidad por pequeños beneficios, teniéndose que someter, algunas veces, al juego de la fuerza local para dar continuidad a sus luchas sociales. Se enfrentan, avanzan, retroceden y negocian, inspiradas muchas veces en la forma en que son negociados cargos y poderes en el mundo de los partidos y de los políticos brasileños. Ejercitan el juego político que conocen, Algunos liderazgos se aproximan y otros se distancian del llamado poder local en lo referente a la totalidad de sus acciones comunitarias. Se trata de un movimiento heterogéneo y que bajo ninguna hipótesis debe ser generalizado en relación con las influencias e interferencias que sufren las 144 asociaciones comunitarias para el desarrollo de sus proyectos. Sin embargo, reconocen que los jóvenes relacionados con el tráfico de drogas y en situaciones de violencia en las comunidades, forman parte de esa y por eso deben ser ampliamente contemplados en las acciones de prevención comunitaria. El ejercicio del diálogo y el intercambio de experiencia entre los liderazgos comunitarios en el ámbito de la red, fortalece la acción política local y promueve el aprendizaje de una nueva forma de actuar que congrega valores más democráticos como son, el debate, la diferencia de opiniones, la valorización de la relación con la comunidad, las diferencias de estilos y de actuación de cada líder, las visiones del mundo, la necesidad e importancia del crecimiento y de la formación personal como forma de conferir autonomía a las acciones comunitarias. Sintetizando, promueven la maduración política. El CEDAPS reconoce la soberanía del liderazgo comunitario en la conducción de las negociaciones en el interior de las comunidades. Actuamos como co-gestores de los proyectos y tomamos como termómetro para saber el tamaño, la frecuencia y la intensidad de las acciones externas, el análisis de riesgo realizada por el propio líder que se encarga de las negociaciones locales. Consideramos, por encima de todo, que una acción externa, por más planificada que sea, no debe sobreponerse a una acción interna protagonizada por el liderazgo comunitario. Las fuerzas políticas deben ser respetadas en nombre de la continuidad y de la sustentabilidad de las acciones comunitarias. Es necesario que reconozcamos que toda esa red es voluntaria y que cuenta con poquísimas acciones financiadas y que aún así, el movimiento no para de crecer. La organización de las comunidades presenta esa tendencia en diferentes sectores de la lucha social que luchan por la mejoría de las comunidades donde viven. Una lucha voluntaria y creciente. En diferentes décadas la lucha por el agua, la luz, el saneamiento, por la educación AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO pública, por el puesto de salud, por el círculo infantil, en fin, cada derecho social conquistado en una favela carioca, fue marcado por algún tipo de negociación entre la organización comunitaria y el Estado. Muchas de esas luchas, nacieron en una comunidad y fueron extendiéndose a otras comunidades a un ritmo creciente que demanda, del poder público, una atención y una formulación de política pública capaz de minimizar la insatisfacción. En las favelas cariocas, la omisión del Estado es visible. Los equipamientos comunitarios, por lo general, son reducidos en la orden directa de la distancia geográfica de las comunidades del centro urbano y del poder de presión política de su población. Según Pedro Jacobi (1993), los movimientos populares se construyen a partir de dos elementos fundamentales: la carencia y el trabajo desarrollado por la organización de los moradores. Por lo tanto, estamos en un momento fértil para la formulación de una política pública que sea efectiva para el control del VIH/SIDA junto a los segmentos más empobrecidos de la población, que integre las conquistas ya adquiridas pero que garantice la sustentabilidad y continuidad de las acciones en contextos, como ya dijimos, esencialmente productores de vulnerabilidad. SIDA y pobreza: apuntes de una experiencia Algunas observaciones de la práctica cotidiana: i) trabajar con SIDA está siendo movilizador y funcionando como punta de un ovillo para el desarrollo de liderazgos, asociaciones comunitarias y comunidades en Río de Janeiro; ii) el SIDA fue incluido como un ítem en la agenda de lucha de un gran número de comunidades; iii) esas comunidades están circulando crecientemente entre las organizaciones gubernamentales y no-gubernamentales que trabajan con SIDA en busca de apoyo, recursos y trabajo en conjunto dialogan con la sociedad; iv) los liderazgos reconocen su propia militancia y son reconocidos en su comunidad por el trabajo que desenvuelven superan el rechazo inicial y alcanzan el respeto y el apoyo en la comuAIDSYEPOBREZA POBREZA SIDA nidad en que viven; v) están estructurándose y ya se presentan como fundamental apoyo para quien vive con SIDA en las comunidades un gran desafío en medio al hambre y a la violencia en las favelas cariocas; vi) participan, aún que inicialmente, del Foro de ONGs/SIDA del Estado de Río de Janeiro y se organizan en red como reflejo del movimiento social de SIDA en Brasil, cuya trayectoria histórica apunta hacia un futuro prometedor. Sabemos cuanto el SIDA compromete a las capas populares, especialmente a las mujeres y jóvenes. Sin embrago, si colocamos un lente de aumento para focalizar directamente a las comunidades, con certeza, otros apuntes se manifiestan en el aumento de esa vulnerabilidad y exigen una mirada atenta. El SIDA pasa a ser más una preocupación para las comunidades (11), donde se suma al hambre, al riego, al desempleo y esa preocupación impulsa el enfrentamiento. En las comunidades de Río de Janeiro, localizadas en su mayoría en macizos montañosos geográficos, las moradas fueron lentamente construidas contrariando todas las normas de habitabilidad. En el interior de esos morros, se van formando diferentes niveles y estratos: separaciones históricas y políticas, bolsones de pobrezas y áreas donde el acceso a los bienes y servicios sociales son aún más difíciles para quien es morador. Es posible observar que en algunas localidades, los moradores perciben al SIDA como una enfermedad que entra en la comunidad a partir del tráfico de drogas y alternan percepciones individuales y colectivas de mayor o menor vulnerabilidad al VIH, referenciados, entre otros factores, por esa percepción. Por un lado, se reconocen vulnerables y buscan espontáneamente el preservativo, por otro, se diferencian y no se reconocen grupos-objetivos del trabajo de prevención. Ese es un ejemplo de que necesitamos conocer cada comunidad, sus modos de vida, sus percepciones, sus significados, como vivencian la socialización sexual, el proceso de formación de nuevas familias, como se dan las relaciones de género, la enfermedad, las relaciones con el llamado poder local, en fin, 145 145 la cultura de la comunidad. Cultura que es peculiar y debe ser conocida e interpretada con la finalidad de formular un plan local que supere la idea de intervención educativa y promueva la construcción de una respuesta comunitaria participativa, que tenga como punto de partida, el reconocimiento de que todos somos parte de una determinada realidad y que la lucha contra el SIDA es una causa de todos. La dimensión de la investigación en las comunidades que trabajan con SIDA, tiene un papel preponderante, una investigación de base cualitativa que envuelva a los diferentes actores en el proceso de conocimiento de sí y de la comunidad a que pertenece. Estamos realizando una experiencia en Río de Janeiro a través de un proyecto de pesquisa que tiene como objetivo investigar, a partir del enfoque antropológico, dos núcleos comunitarios de prevención uno en la zona norte y otro en la zona oeste de la ciudad apoyados por el CEDAPS. La antropología se muestra como un campo teórico-metodológico capaz de abarcar la diversidad de la realidad vivida en la práctica comunitaria. Esa investigación trae, además, el posible y deseable encuentro entre una ONG y la academia a través del papel actuante del programa EICOS/UFRJ en su coordinación (12). Sintetizando, estudiar la cultura local se torna indispensable en el proceso de formulación de acciones que busquen reducir la epidemia del VIH/SIDA en determinada comunidad. Diagnosticar (13) vulnerabilidades y potencialidades promotoras de salud transforma la acción y nos distancia de la replicación simplificada de modelos con base en conceptos y metodologías preconcebidas y testadas, por más bien sucedidas que sean. Acompañar la lucha con el SIDA, desarrollada en el interior de las favelas cariocas a través de los liderazgos participantes en la Red de Comunidades en la Lucha contra el SIDA, a partir de las acciones de prevención que implementan y de la relación que establecen con quien vive con SIDA en las comunidades, es una posibilidad de descubrir caminos recorridos por la población en la 146 construcción de la que Valla (2002) llama de apoyo social ya que se trata de un proceso recíproco que genera afectos positivos para quien apoya y/o es apoyado. La prevención tiene como base el apoyo mutuo, la comunidad se responsabiliza por la construcción de su propia concepción de ser saludable, de algo que se aproxima de lo que Paulo Freire denomina de autonomía (14) de los grupos populares. Superando, de acuerdo con Paiva (2000), la instauración de un proyecto de prevención con base en la educación bancaria que se estableció como hegemónico en Brasil, yendo al encuentro de la idea de una educación libertadora que estimula la organización colectiva y cree en las respuestas producidas por quien está directamente afectado y viviendo en el contexto vulnerable. (Pág. 38) Parker (1994) llama la atención para la idea de que se hace necesaria e urgente la construcción de una política solidaria, como única respuesta posible a la epidemia de VIH/ SIDA en Brasil y en el mundo. El enfrentamiento solidario a la causa del SIDA puede movilizar sólo así debe ser comprendido, elemento real favorecedor de la transformación social y del desarrollo: Si las estructuras de la desigualdad social continúan a existir, la diseminación de la infección por el VIH y el SIDA continuará y continuará siguiendo las fisuras y fallas creadas por la opresión, prejuicio y discriminación social y económica. La lucha contra el SIDA surge necesariamente dentro de la lucha más amplia contra la injusticia contra ka pobreza y la miseria, contra el rasismo (...). Depende, por encima de todo, de nuestra capacidad de construir una política solidaria dentro de una sociedad democrática (PARKER, 1994:20). La Red de Comunidades de Lucha contra el SIDA es hoy un espacio concreto de aprendizaje y ejercicio de movimiento colectivo de enfrentamiento solidario al SIDA y a la pobreza. Acompañarla es esencial, ya que todavía hay mucho por hacer en esa caminata y que esa es una causa de nosotros. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTOS, Francisco Inácio & SZWARCWALD, Célia Landmann. Boletim ABIA. AIDS e pauperização: principais conceitos e evidências empíricas [AIDS and pauperization: principal concepts and empiri cal evidence]. Rio de Janeiro: ABIA, 2001. FREIRE, Paulo. A pedagogia do oprimido [Pedagogy of the Oppressed] Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. JACOBI, Pedro. Movimentos populares e políticas públicas [Popular Movements and Public Policies] São Paulo: Cortez, 1993. PAIVA, Vera. Fazendo arte com a camisinha: Sexualidades jovens em tempos de AIDS [Art with the Condom: Young Sexualities in Times of AIDS] São Paulo: Summus, 2000. PARKER, Richard. A construção da solidariedade: AIDS, sexualidade e política no Brasil [Building Solidarity: AIDS, Sexuality, and Politics in Brazil] Rio de Janeiro: Relume-Dumará: ABIA-IMS, UERJ, 1994. ___________, and TERTO, JR., Veriano (org). Aprimorando o debate: respostas sociais frente à AIDS [Enhancing the Debate: social responses to AIDS]. Anais do seminário Prevenção à AIDS: Limites e Possibilidades na Terceira Década [Proceed ings of the AIDS Prevention Seminar: Limits and Possibilities in the Third Decade] Rio de Janeiro: ABIA, 2000. VALLA, Victor Vincent. (org.). Saúde e educação [Health and Education] Rio de Janeiro: DP&A, 2000 ________________, & STOTZ, Eduardo (org.). Educação, saúde e cidadania [Education, Health, and Citizenship] Petrópolis, RJ: Vozes, 1996. VASCONCELOS, Eymard Mourão (org.). A saúde nas palavras e nos gestos: reflexões da Rede Educação Popular e Saúde [Health in Words and Gestures: Reflections on the Network for Popular Education and Health] São Paulo: Hucitec, 2001. NOTAS (1) Fundado en 1993, tiene como director-presidente al pediatra, mestre en Salud Pública, Daniel Becker. (2)El programa de SIDA del CEDAPS fue formulado por la autora de este texto y por otros dos miembros del equipo de la Coordinación General: Wanda Lúcia Guimarães y Maria do Socorro Lima. Cuenta además con un equipo de profesionales y practicantes, coordinados en el campo por la asistente social Ana Paula Baptista. (3)Utilizaremos el concepto vulnerabilidad bajo los términos apuntados por Jonathan Mann y que están siendo operados por diferentes estudiosos y autores en Brasil. (4)Ese número es fornecido por la Federación de las Asociaciones de Mujeres del Municipio de Río de Janeiro (FAMURJ). El origen y la evolución de las Asociaciones de Mujeres en Río de Janeiro son campos que necesitan más sistematización y registro. SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA (5)Modelo de prevención realizado por segmentos grupales específicos a sus pares, recomendado por el Programa de SIDA de las Naciones Unidas (ONUSIDA) como demostrando señales de suceso en el alcance a grupos vulnerables (ver en especial: Report on the Global HIV/AIDS Epidemic, editado por ONUSIDA, 2002) (6)Catálogo de Estrategias Comunitarias de Prevención de las ITS/SIDA. Fue realizada una investigación por la psicóloga Vanessa Fonseca, entre el 2001 y el 2002, que resultó en la organización de una publicación contemplando la diversidad y amplitud de la acción educativa protagonizada por los liderazgos. (7)Nos estamos refiriendo al campo de actuación denominado Desarrollo Local Integrado y Sustentabilidad enfocado en la Promoción de Salud, en le cual el CEDAPS desarrolla una experiencia en la región de Santa Cruz, en la zona oeste de Río de Janeiro, y está compartiendo resultados y aprendizajes junto a una red que crece en Brasil teniendo el campo ciudad/comunidad saludable como eje. (8)Problem Solving for Better Health / Constucción Compartida de soluciones en Salud, registrada por Dreyfus Health Foundation. (9)Guardan semejanzas con los bancos de preservativos creados originalmente por Médicos Sin Fronteras, gestionados en la actualidad por gestores comunitarios. Es importante resaltar, que la disponibilidad de preservativos en el interior de la comunidad es una estrategia prioritaria para facilitar el acceso a la población al mismo y a popularizar su uso. (10)Estrategia itinerante nacida en el Morro do Estado/ Niteroi/RJ en 1996, extendiéndose rápidamente a otras comunidades en que los agentes recorren el morro con una banca con materiales educativos y preservativos para presentar y discutir con los moradores, alcanzando sus diferentes estratos. (11)Preocuparse, quiere decir,según el diccionario Aurélio, impresionarse; algo que prende o despierta la atención, como lo hace el SIDA en las comunidades. (12)Investigación apoyada por el grupo matricial de la Coordinación Nacional de ITS/SIDA: Estudio Etnográfico en Núcleos Comunitarios de Prevención y Promoción de Salud, bajo la coordinación de Cecília de Mello e Souza PhD en Antropología Social, coordinadora del programa EICOS (Estudios Intedisciplinares de Comunidades y Ecologia Social), liagado al Instituto de Psicología de la Universidad Federal de Río de Janeiro. Cuenta, también, con la asistencia de Maria Luiza de Carvalho, doctoranda en Psicosociologia de Comunidades y de grupos de investigadores. (13)El CEDAPS desarrolló en el programa Iniciativa de Vila Paciencia un proceso de diagnóstico comunitario participativo, con vistas a la formulación de un plan integrado de desarrollo que cuenta efectivamente con la participación de los moradores en su elaboración. (14)Ver el libro Pedagogía de la autonomía, clásico de la obra de Paulo Freire y base de una educación libertadora. 147 147 O Projeto Kuhluvuka Corredor de Esperança, em Moçambique Paula Monjane* e E. Cipriano** * Mestre em População e Desenvolvimento. Oficial de Monitoria, Avaliação e Investigação do Projeto Kuhluvuka, da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC) ([email protected]). ** Psicóloga e coordenadora do Projeto Kuhluvuka, da FDC. 148 AIDS E DESENVOLVIMENTO M oçambique, situado na costa oriental da África e com cerca de 18 milhões de habitantes, é um dos dez países mais afetados pela AIDS no mundo. Dados oficiais do Ministério da Saúde estimam o nível de prevalência em aproximadamente 14% na população adulta (15-49 anos). Os dados nacionais sobre o número de casos de AIDS por ano indicam que a epidemia encontra-se num ponto de transição importante. Ao invés de permanecer como uma epidemia silenciosa de infecção pelo HIV, a doença começa a manifestar-se como AIDS. O estudo sobre o Impacto Demográfico do HIV/AIDS em Moçambique, realizado em 2000, indica que existiam, em 1999, cerca de 1.173.878 pessoas infectadas no país. Das aproximadamente 83.600 pessoas que morreram em conseqüência da AIDS, 14 mil eram crianças. Em algumas províncias da região central do país, com taxas de prevalência já registradas em 20% ou mais, pode-se prever um aumento rápido da mortalidade adulta num futuro próximo e um aumento de novos casos de infecção, o que vai produzir, entre outros, grandes mudanças na estrutura da população. As projeções da AIDS ilustram uma imagem sombria em relação ao futuro, similar a dos países vizinhos, o que significa que Moçambique irá muito em breve observar uma miríade de conseqüências da AIDS, incluindo crianças órfãs, força de trabalho reduzida e serviços de saúde gravemente sobrecarregados, se medidas efetivas de estancamento da epidemia não forem tomadas. Esse cenário é agravado pelo alto índice de pobreza (1) existente no país, um dos mais pobres do mundo. De acordo com o Relatório do Desenvolvimento Humano (RDH 2000), em termos do Índice de Desenvolvimento Humano, que compreende índices de rendimento, educação, alfabetização e esperança de vida, Moçambique encontra-se na 169ª posição de um total de 174 países, ou seja, é um dos dez países mais pobres do mundo. Cerca de 70% da população vive abaixo da linha de pobreza (US$ 0,40 por dia) e as taxas nacionais de analfabetismo são de 61%, sendo o analfabetismo feminino de 74%. As mulheres rurais são aquelas que menos oportunidades têm de acesso à educação (84% de analfabetismo na população feminina). AIDS E POBREZA 149 O presente artigo pretende trazer à discussão a problemática das abordagens ao HIV/AIDS num contexto de pobreza generalizada, como é o caso de Moçambique, onde essa é causa e conseqüência da propagação da epidemia. Assim, a resposta não deve centrar-se apenas em aspectos de risco comportamentais e biomédicos, que são em parte conseqüência da conjuntura existente, mas também em aspectos a longo prazo e integrada em intervenções de desenvolvimento com vistas à redução da pobreza e situação de vulnerabilidade em que a maioria da população vive. Tendo essa perspectiva de enfrentamento da epidemia de entrançamento ou associação das intervenções de combate ao HIV/AIDS em aspectos de melhoria de vida da população, no presente, discute-se a abordagem adotada pelo Projeto Kuhluvuka Corredor de Esperança, concebido pela Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), com particular destaque aos constrangimentos e desafios encontrados. Respostas ao combate do HIV/AIDS em Moçambique Em a resposta à situação do HIV/AIDS, o governo de Moçambique criou o Programa Nacional de Controle da AIDS (PNCS) em 1986 e o Programa Nacional de Controle das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) em 1988, ambos integrados no Serviço Nacional de Saúde (SNS), subordinado ao Ministério de Saúde. Até meados dos anos 1990, as intervenções de combate ao HIV/AIDS eram essencialmente governamentais, voltadas unicamente para ações de prevenção e concentradas no PNCS. A partir dessa época, começaram a surgir organizações não-governamentais que efetuavam intervenções complementares ao PNCS, também na área de prevenção. Em 1999, o governo, com impulso da comunidade doadora, efetuou um esforço de desenvolver uma estratégia sobre o HIV/AIDS que fosse intensiva, participativa e multissetorial. O Plano Estratégico Nacional de Combate às DST/ HIV/AIDS 2000-2002 (PEN), aprovado em agosto de 1999, está baseado numa abordagem multissetorial que pretende mobilizar recursos e apoio de todos os elementos do espectro político, social e econômico. Para encabeçar ou liderar essa abordagem, acima da competência exclusiva da saúde, o plano incluiu a criação do Conselho Nacional de Combate à AIDS (CNCS), incorporando membros 150 AIDS E DESENVOLVIMENTO do governo e da sociedade civil. O plano estratégico enfatizava a qualidade e a cobertura informativa com atividades de prevenção e redução do impacto. A estratégia também identificou grupos de risco, que incluem crianças de rua e órfãos, pessoas vivendo com HIV/AIDS, doentes com DSTs, estudantes e jovens fora da escola, caminhoneiros, mineiros, policiais, soldados, trabalhadores de sexo e seus clientes, prisioneiros. Igualmente, a estratégia, apesar de não excluir ou desencorajar o trabalho em outras áreas, deu prioridade às áreas urbanas e rurais adjacentes aos corredores de transporte. Nessa estratégia, o papel implementador das ONGs tornou-se prioritário, enquanto o CNCS passou a ter um papel de organismo coordenador e orientador. No presente, as intervenções no país são ainda baseadas no plano estratégico de 2000-2002, enquanto o de 2003-2005 está em fase de desenvolvimento. Apesar dos esforços de se encontrar respostas eficazes à problemática da AIDS, e o reconhecimento da ligação entre pobreza e AIDS, muitas poucas iniciativas, quer governamentais e não-governamentais, associam as ações de redução da pobreza e melhoria das condições de vida da população àquelas voltadas ao combate do HIV/ AIDS. Em relação às intervenções da comunidade, não existem dados atualizados sobre o assunto. Segundo o PEN 2000-2002, em 1998, existiam 58 programas e projetos na área do HIV/AIDS, dos quais 29 geridos por ONGs e outras organizações nacionais, nove por ONGs internacionais, sete apoiados por agências das Nações Unidas e 13 apoiados pelo governo. Como se pode constatar, o setor da sociedade civil é o que tem sido mais ativo no trabalho de informação e educação sobre HIV/ AIDS e cuidados e apoio aos infectados e afetados em nível comunitário. Contudo, apesar do sucesso notável na sensibilização da população em relação ao HIV/AIDS/DSTs, a sua capacidade de estabelecer uma resposta estratégica integrada para garantir a qualidade e a cobertura necessárias, particularmente junto às populações vulneráveis, ou de AIDS E POBREZA 151 reconhecer o papel estratégico desempenhado pelas organizações comunitárias de base e pelos líderes comunitários, é limitada. Referencial teórico de enfrentamento da epidemia Com intuito de identificar respostas mais eficazes à rápida propagação do HIV nos países do Terceiro Mundo, e em particular na África Sub-Saariana, várias interpretações sobre os determinantes do mesmo vêm sendo exploradas. Essas interpretações podem ser agrupadas em duas perspectivas: uma centrada no indivíduo e outra centrada em aspectos (macro e micro) ambientais. Perspectiva centrada no indivíduo Desde a descoberta da AIDS, na década de 1980, as intervenções dominantes de combate ao HIV/AIDS têm sido relegadas ao domínio clínico-médico e epidemiológico, como resultado da interpretação dominante dos determinantes da epidemia de AIDS que continuam centrados no indivíduo, no que ele sente e como se comporta. A medicina, como um campo vital da ciência, tem verificado importantes transformações. Uma dessas importantes transformações, de relevância para o contexto de interpretação da epidemia de HIV/AIDS, foi a divisão entre a saúde ligada ao indivíduo e àquela ligada à população (saúde pública) em princípios do século passado (GARRET, 2000). A resposta dominante da epidemia de AIDS era baseada na interpretação da mesma como um evento médico e epidemiológico. Na realidade, no princípio da epidemia, quando existiam ainda poucos casos de AIDS, a visão dos fatores determinantes da AIDS circunscrevia-se em biomédicos: subtipo de vírus, estágio da infecção, presença de outras DSTs e sexo (homem ou mulher). Esses fatores, que determinam a passagem da infecção para o estado de AIDS, eram os únicos considerados. Para evitar a transmissão da doença, as principais intervenções centravam-se no tratamento das DSTs e distribuição de preservativos. À medida que a população infectada começou a aumentar, e a AIDS se tornou uma epidemia, cresceu o 152 AIDS E DESENVOLVIMENTO interesse pelo aspecto de comportamento sexual, cujos principais determinantes incluem: taxa de troca de parceiros, múltiplo parceirismo, práticas sexuais, circuncisão e uso de preservativo. Várias teorias, baseadas fundamentalmente em psicologia, foram desenvolvidas e serviram de base para predizer o comportamento do indivíduo e desenhar respostas de intervenção. Um passo adicional havia sido dado no sentido de focalizar o problema do HIV/AIDS não apenas no corpo do indivíduo, mas também na motivação do indivíduo que leva a comportamentos de risco. A partir da visão comportamental, cresceu a idéia de grupos de risco ou de maior risco nos quais a epidemia se propaga com maior facilidade, e as intervenções adicionais podem resumir-se em promoção da mudança comportamental, isto é, redução de parceiros, uso do preservativo e adiamento da primeira relação sexual. Críticas do sul e norte indicam que ambas as visões biomédica e comportamental expressam uma perspectiva atomística, individualizada e departamentalizada, não refletindo na plenitude as causas, conseqüências e dinâmica da epidemia de HIV/AIDS (BARNET & WHITSIDE, 2002; WILKINSON, 1996). As críticas centram-se essencialmente no fato de essas excluírem completamente aspectos estruturais, de distribuição de recursos e socioculturais: a ligação entre pobreza e HIV/AIDS, a existência de desigualdades estruturais entre países e dentro de países, de natureza histórica, os efeitos a longo termo sociais e econômicos, e práticas socioculturais. Perspectiva centrada em aspectos ambientais (macro e micro) A incapacidade de reduzir ou reter o crescimento rápido da epidemia particularmente nos países pobres e as limitações das intervenções de combate ao HIV/AIDS, trouxeram nos últimos anos, ao campo da ciência e de intervenção, o desafio de novas reflexões sobre as possíveis determinantes da epidemia e sua conseqüente resposta. Essas reflexões trouxeram a perspectiva de que existem fatores, fora do controle direto do indivíduo, que tornam certos grupos de indivíduos e uma determinada sociedade mais ou menos vulneráveis a riscos e que influenciam a AIDS E POBREZA 153 sua suscetibilidade à infecção pelo HIV. Essa abordagem traz à discussão aspectos ambientais macro e micro que determinam a exposição de grupos de indivíduos à infecção pelo HIV. Por aspectos ambientais macro referimo-nos àqueles como a riqueza/pobreza, a distribuição de recursos, a cultura, a religião, a infra-estrutura existente e o governo, e por aspectos ambientais micro referimo-nos àqueles de âmbito contextual, como mobilidade, urbanização, direitos e status da mulher na sociedade, políticas sociais e econômicas, legislação de emprego, acesso a cuidados de saúde seguros e tipologia de violência/guerra. As intervenções necessárias para responder a essas áreas resumem-se, entre outros, em intervenções e cometimento a longo prazo, em políticas sociais e econômicas de redistribuição de recursos, reformas legais e investimento nos serviços sociais básicos, defesa dos direitos humanos, legislação de emprego e alívio da dívida, e melhoria dos termos de troca entre os países ricos e pobres. Para os defensores dessa perspectiva, o HIV/AIDS no mundo está estritamente ligado a fatores como diferenças, riqueza/pobreza, renda e distribuição de recursos e tem origens históricas e estruturais, que para países mais pobres e/ou com diferenciais de acumulação e distribuição de recursos, como é o caso dos da África Sub-Saariana, influenciam a rápida propagação do HIV na população. Posições mais pragmáticas apontam para a erradicação da pobreza absoluta como uma solução para o problema da AIDS (Mbeki citado em HAWA,2003). Críticas sobre essa posição extremista apontam para uma posição estruturalista, na qual existem grupos de indivíduos que criam as mesmas estratégias de sobrevivência para a mesma situação contexto, ignorando as opções de vida individuais. Para linhas menos extremistas, tanto os fatores ambientais socioculturais e econômicos que aumentam a vulnerabilidade (2) de infecção pelo HIV de certos grupos/camadas da sociedade e os fatores biomédicos e comportamentais que aumentam a suscetibilidade (3) de infecção pelo HIV de certos indivíduos devem ser abordados. Em meados da década de 1990, Jonathan Mann, que se tornou 154 AIDS E DESENVOLVIMENTO diretor do Programa Global da AIDS (GPA) na Organização Mundial da Saúde (OMS), em seu trabalho pioneiro sobre a epidemia de AIDS na África relaciona as condições de privação social e econômica e a vulnerabilidade à AIDS (HAWA,2003). Em outros trabalhos feitos por Mann e seus colegas no GPA/OMS durante a década de 1990, foram relacionados HIV/AIDS, saúde e direitos humanos. Esses trabalhos influenciaram enormemente o desenvolvimento do Programa de AIDS das Nações Unidas (UNAIDS) nos primeiros anos de sua existência, incluindo aspectos sociais e econômicos no seu plano de trabalho. Contudo, até o momento, as intervenções de resposta à problemática do HIV/AIDS pela UNAIDS e programas regionais e de países continuam a dar pouca atenção a aspectos ambientais sociais e econômicos (macro e micro) que influenciam a rápida propagação do HIV, continuando a focalizar essencialmente na perspectiva biomédica e comportamental de metas a curto prazo. Por trás dessa priorização, biomédica e comportamental poderá, em parte, estar o fato de as intervenções de resposta dessas serem a curto prazo e aparentarem metas mais facilmente tangíveis, seja número de preservativos vendidos, redução de parceiros reportados, adiamento da idade sexual reportada, entre outros. A verdade é que não há experiências concretas sobre o impacto de intervenções desse gênero que tenham tido impacto na redução de número de casos de infecção pelo HIV. Por outro lado, as estratégias de resposta de fatores ambientais requerem intervenções a longo prazo e grande investimento em serviços sociais básicos, particularmente na saúde, contrariando a política atual de livre concorrência e redução de gastos no setor público. Determinantes da epidemia de HIV/AIDS em Moçambique Moçambique é uma conjuntura de três epidemias, uma epidemia jovem progredindo devagar no norte (cerca de 6% na população adulta), uma epidemia madura no centro do país (cerca 17% na população adulta) e uma epidemia galopante no sul do país (cerca de 13%). AIDS E POBREZA 155 Ainda que não seja comprovado, acredita-se que as taxas de prevalência relativamente baixas no norte do país possam estar associadas, entre outras razões, ao relativo isolamento daquela região, a predominância da religião muçulmana e o controle social existente que promove práticas sexuais de relativo menor risco. Já no centro do país, vários fatores podem ter um papel importante na alta prevalência do HIV, como a relativa alta mobilidade de e para países vizinhos com taxas elevadas de soroprevalência, a baixa prática de circuncisão masculina, entre outros. No sul do país, a progressão rápida da epidemia pode estar sendo estimulada pelo alto movimento de pessoas ao longo do corredor de Maputo e pela vulnerabilidade dos jovens influenciados pelas grandes cidades. A trajetória histórica de Moçambique traz certos fatores e condições que, inevitavelmente, contribuem para a evolução da epidemia no país. Até 1975, Moçambique era uma colônia portuguesa cujas políticas, incluindo as de saúde, estavam desenhadas para servir aos interesses dos colonos. Na independência, o país herdou um sistema de serviços sociais básicos de educação e saúde frágeis e de fraca cobertura (em particular nas zonas rurais), com implicações na prevalência de doenças endêmicas, entre outras. A infra-estrutura e a disponibilidade de recursos foram concentradas nas zonas urbanas, particularmente na cidade de Maputo, capital do país. A economia era baseada na exportação de matéria-prima bruta e mão-de-obra barata para os países vizinhos, como a África do Sul. Houve esforços no sentido de reverter essa situação, particularmente no período pós-independência, que, contudo, não significaram grandes mudanças até os dias de hoje. Aliada à herança colonial, a guerra civil que se fez sentir logo depois da independência, as reformas estruturais introduzidas na economia no fim dos anos 1980 em Moçambique como resultado da mudança de ideologia no mundo, entre outros fatores internos e externos, também contribuíram para o contexto atual do país. Desses, resulta, por exemplo: O estabelecimento de três regiões, dominadas por três principais corredores de transporte de grande mobilidade populacional e de bens. As zonas ao longo do corredores são consistentemente as que apresentam taxas mais elevadas de HIV/AIDS, particularmente aquelas de maior circulação. A zona de maior prevalência no país (a região centro) é um corredor de transporte que teve 156 AIDS E DESENVOLVIMENTO relativa operacionalidade mesmo durante a guerra civil. Depois dessa terminar, houve um grande fluxo de retornados vindos de países vizinhos com taxas já significativamente altas. Na região sul, por outro lado, as taxas altas na província de Gaza coincidem com a província de maior proveniência de população móvel (trabalho migratório para a África do Sul). Um desenvolvimento desigual entre a capital e o resto do país. A fraca capacidade da capital de gerir e acolher a mão-de-obra proveniente do êxodo rural originou uma confluência de situações de risco à infecção pelo HIV, como prostituição e deficientes condições sanitárias, alto índice de criminalidade e migração ilegal para os países vizinhos (África do Sul e Swazilândia). Uma fraca cobertura e deficiente assistência sanitária. Estudos atuais indicam que boa parte dos casos de infecção pelo HIV, na África Sub-Saariana, aconteceu por falta de cuidados de saúde seguros. Se por um lado, as evidências sugerem que Moçambique não seja exceção, por outro, a fraca e deficiente cobertura sanitária contribuiu para que a medicina tradicional no país fosse a solução de providência de cuidados mais disponível para a maior parte da população. As práticas tradicionais, de uso de objetos cortantes não esterilizados, sugerem igualmente uma fonte importante de risco. Uma baixa coesão social originada pelas guerras e experiências traumáticas que o povo viveu (como aglomerados e dispersões forçadas), com implicações para a resposta da sociedade civil na sua capacidade de agir coletivamente. Por outro lado, estudos sugerem haver uma relação entre o grau de ordem numa sociedade e os padrões de relacionamento sexual entre grupos. Em sociedades de menor coesão social, as pessoas são mais propensas a terem parceiros sexuais fora de sua rede de relações usual, ao contrário do que seria em sociedades de maior coesão. Em períodos de grande instabilidade econômica e social, as estratégias de sobrevivência das pessoas podem proporcionar mudanças rápidas de parceiros sexuais entre e dentro de certos grupos. Assim, e ainda que pela sua atividade e situação haja grupos mais suscetíveis à infecção, a epidemia não poderá estar concentrada em grupos específicos, mas provavelmente generalizada a toda a população. AIDS E POBREZA 157 Uma pobreza generalizada como o fator base, associada direta ou indiretamente com os aspectos acima apontados (mobilidade e aspectos socioculturais e conjunturais), e tendo influência no comportamento sexual (4) e em alguns aspectos biomédicos (5) do indivíduo e de certos grupos na sociedade. A pobreza está diretamente associada a estratégias de sobrevivência que põem certos grupos na sociedade mais suscetíveis à infecção pelo HIV. A presença de outras DSTs e a capacidade de tratamento e apoio para prolongar a vida dos soropositivos são afetadas pelo contexto de fraca cobertura e deficiente assistência sanitária, em parte associado à pobreza. As diferenças encontradas no país sugerem que existem determinantes indiretos da epidemia, como a pobreza. Aliada a ela, existe uma série de outros fatores, como a grande mobilidade, aspectos conjunturais (desorganização social, cuidados de saúde não seguros) e aspectos socioculturais (religião, estrutura social, circuncisão etc.), que podem explicar as tendências da epidemia de HIV/ AIDS no país, alguns desses funcionando como dinamizadores, aceleradores da rápida propagação da epidemia em certas regiões. Esses fatores indiretos têm influência sobre os determinantes mais diretos da infecção pelo HIV, como o comportamento sexual e alguns biomédicos. As três dimensões da epidemia Ao se abordar a epidemia de HIV/AIDS, para uma situação de Moçambique com médias e altas taxas de prevalência na população adulta, o debate envolve três dimensões paralelas: A infecção pelo HIV: o número de indivíduos para os quais alguma intervenção de prevenção tem que ser feita. A doença: número de pessoas que, em determinado momento, pelo seu estado, necessitam de alguma forma de tratamento e apoio para prolongarem a sua vida. Impacto: todas as formas de mitigação necessárias, incluindo cuidados e custos econômicos e sociais; se nenhuma ação é feita nesse momento, os custos tornam-se difíceis de serem suportados no futuro. 158 AIDS E DESENVOLVIMENTO As epidemias (da infecção, doença e impacto) de HIV/AIDS na realidade comportam-se como uma catástrofe em cadeia, se medidas apropriadas de prevenção primária (prevenção de novas infecções), prevenção secundária (tratamento aos doentes de AIDS) e prevenção terciária (mitigação do impacto aos afetados e infectados, investimento nos serviços básicos e outros) não forem tomadas. Intervenções necessárias de resposta à epidemia Essa percepção do problema sugere uma abordagem não apenas centrada no indivíduo, mas também em grupos de indivíduos na sociedade, que por diversas razões, incluindo a pobreza, grande mobilidade e outras, estão mais suscetíveis à infecção. Assim, a resposta necessita ser tratada a mais longo prazo, abordando aspectos mais estruturais, como, por exemplo, a disponibilidade e o acesso a serviços sociais básicos, educação sanitária e melhoria das condições de vida da população no geral. Se por um lado, as intervenções que visam a mudança de comportamento com mensagens sobre uso de preservativo, redução de parceiros, procura dos serviços de testagem e tratamento das DSTs, entre outras, continuam importantes, devem estar relacionadas a outras intervenções de melhoria de vida das populações ligadas a serviços básicos, como saúde, educação e segurança alimentar. A resposta necessita, assim, ser conjunta entre as várias forças da sociedade, incluindo as instituições governamentais e da sociedade civil. Ao governo, para além do desenvolvimento de políticas que promovam e facilitem as intervenções necessárias de resposta e a garantia da sua implementação, está inerente um fortalecimento em investimentos a longo prazo em áreas vitais da saúde, educação e segurança social. A sociedade civil, por outro lado, desempenha um papel preponderante no complemento de ações nas diversas áreas de educação, apoio e cuidados ao nível de base. Nesse contexto, é premente fortalecer e expandir a capacidade das instituições/organizações da sociedade civil, operando junto das comunidades para que exista implementação eficaz das atividades e que o envolvimento das comunidades e suas lideranças seja a força motriz na influência nas decisões e políticas de interesse para essas comunidades. AIDS E POBREZA 159 A resposta da FDC principais intervenções A FDC, através da sua unidade de AIDS e Desenvolvimento, concebeu o Projeto Kuhluvuka Corredor de Esperança (UPK), de intervenção na região sul do país, priorizando 24 zonas ao longo do corredor de transporte que fazem ligação com os países vizinhos da África do Sul e Swazilândia, tidas como zonas de maior propagação da infecção pelo HIV no momento. As ações abrangem todas as comunidades e pessoas das 24 zonas selecionadas da região sul do país. Contudo, foram identificados parceiros sociais prioritários para o projeto, que incluem jovens, mulheres e profissionais do sexo, mineiros e seus familiares, militares, enfermeiros, pessoas vivendo com AIDS e seus familiares, órfãos, trabalhadores e empregadores. As atividades definidas com cada um desses parceiros sociais focalizam aspectos diferenciados, tendo em conta seus contextos e suas necessidades, podendo ser agrupados em diferentes formas de atuação. Atividades focalizadas no comportamento sexual (uso do preservativo, redução de parceiros, fidelidade, abstinência) e em alguns aspectos biomédicos (procura do tratamento das DSTs, aconselhamento e testagem voluntária, biossegurança e cuidados domiciliares) são realizadas por dez parceiros de implementação (ONGs) em nível de base e de acordo com a sua especialidade de atuação, ao mesmo tempo que a unidade de implementação do Projeto UPK realiza atividades de informação e sensibilização de massa na mídia e através de eventos diversos. Paralelamente, os parceiros de implementação mobilizam as comunidades onde operam para uma ação de resposta eficaz sobre os vários problemas que enfrentam, incluindo o HIV/AIDS, ao mesmo tempo que abordam aspectos culturais que promovem comportamentos seguros ou de risco, como a desigualdade de gênero. A FDC realiza ações complementares de sensibilização da opinião pública sobre o HIV nas suas várias ações de desenvolvimento existentes e de advocacy e lobby junto ao governo e doadores para o melhoramento da vida das comunidades abrangidas, visando a garantia de condições básicas relativas a saúde, educação, segurança alimentar e geração de renda. As ações transfronteiras, que objetivam essencialmente a coordenação de ações de prevenção da transmissão pelo HIV e de apoio aos infectados e afetados 160 AIDS E DESENVOLVIMENTO entre o sul do país e os países vizinhos nessa região, constituem uma estratégia importante dada à grande mobilidade de pessoas de e para os países vizinhos. Como estratégia geral, a FDC aposta na capacitação da sociedade civil como forma de garantir uma resposta efetiva da problemática do desenvolvimento e do HIV, privilegiando atuação baseada na comunidade, num processo de transferência e partilha de capacidades e experiências. Constrangimentos e desafios Existem constrangimentos e desafios de várias ordens que limitam a abordagem concebida. A perspectiva de um projeto, e não de um programa com uma duração de apenas três anos, é irreal para os resultados que se propõe. Esses incluem resultados a longo prazo, como a mudança de comportamento sexual, a mobilização e capacitação da sociedade civil para uma resposta mais eficaz ao problema do HIV/AIDS e outros. A cultura de ações esporádicas, pouco coordenadas e de concentração em locais de fácil acesso em detrimento de outras zonas mais remotas, das organizações que trabalham nessa área, incluindo as parceiras de implementação, exige um maior esforço na coordenação e acompanhamento das mesmas, que foi subestimado durante a concepção do projeto. Ligado ainda a esse assunto, existe uma fraca coordenação, cooperação e referência de ações complementares das várias áreas de desenvolvimento atuando na mesma zona geográfica. O contexto de uma abordagem nacional emergencial para o combate ao HIV/AIDS, centrada no indivíduo, em parte influenciada pela política dos doadores, constitui uma limitação para a resposta agregada, uma vez que outros intervenientes atuando nas mesmas zonas que o Projeto Kuhluvuka apresentam, de um modo geral, abordagens diferentes para o mesmo público. Assim, a FDC toma o Projeto Kuhluvuka como base para o início de um programa de mais longo prazo, dado os resultados esperados, cujas ações de respostas devem incluir, para além das intervenções propostas no campo, uma forte componente de advocacy e lobby que visa uma melhor coordenação, cooperação e integração de outros aspectos de desenvolvimento entre os vários intervenientes na melhoria de vida da população. AIDS E POBREZA 161 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARNETT, T; e WHITESIDE, A. AIDS in the twenty- first century disease and globalisation, Palgrave MacMillan, 2002 FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE. Projeto Kuhluvuka (versão final), 2000. GARRET, L. Betrayal of trust: the collapse of global public health. New York: Hyperion, 2000 HAWA R. AIDS in Africa: too little too late. http://www-twnside.org.sg./ title/late.htm (em28/2/2003) MONJANE, P. Marketization of health care provision: analyzing urban and regional bias and implications for access by the poor. Master thesis, Institute of Social Studies, The Netherlands, 1999 MOZAMBIQUE CENSUS. II recenceamento geral da população e habitação. Instituto Nacional de Estatística, 1997 MPF. Pobreza e bem-estar em Moçambique: primeira avaliação nacional (1996-97), 1997, MPF/UEM/IIPPA OLAUGHLIN B. In defence of the household: Marx, Gender and the utili tarian impasse. ISS working paper series nr. 289, 1999a PNUD. Relatório de desenvolvimento humano (RDH). PNUD Moçambique, 2000 WILKINSON, R. Unhealthy societies: the afflictions of inequality. London: Routledge, 1996 NOTAS (1) O conceito de pobreza: desde o reconhecimento da complexidade da pobreza, seu conceito e medidas operativas têm sido sujeitos a várias abordagens. O conceito de pobreza, usado por profissionais e instituições internacionais, tem cada vez mais reconhecido a natureza multidimensional da mesma. Contudo, a sua quantificação para efeitos operativos de delineamento de políticas e comparações entre países mantém-se limitada a algumas dimensões de pobreza. Tradicionalmente, a pobreza humana é definida e quantificada como a falta de acesso a bens econômicos (medido pela renda) e baixo nível de consumo familiar. Ainda que essas dimensões devam ser consideradas, a realidade tem mostrado que não capturam outras dimensões de vulnerabilidade e privação, como a distribuição da renda e/ 162 AIDS E DESENVOLVIMENTO ou consumo dentro da família, falta de acesso a educação e saúde, segurança, independência, auto-estima e redes de obrigações sociais que constituem fontes adicionais de consumo em momentos de crise (MONJANE, 1999). A atual definição de pobreza humana, usada pelo Programa para Desenvolvimento das Nações Unidas (UNDP), medido pelo Índice de Pobreza Humana (HPI), ainda que não extensivo, já inclui importantes dimensões básicas da privação humana, como a esperança de vida, a falta de acesso a educação, água e saúde, e o estado de saúde. Em Moçambique, os indicadores de pobreza são medidos pelo nível de consumo dos agregados familiares, pelo nível de rendimento per capita e pelo HPI. Ambos mostram níveis altos de pobreza no país, em termos de consumo, acesso (principalmente em termos de disponibilidade) a educação e saúde, esperança de vida e estado de saúde. (2) O conceito de vulnerabilidade aqui está associado a aspectos que aumentam a possibilidade de a epidemia ter impacto sério na organização social econômica, seja de famílias, grupos de pessoas, instituições ou outros. (3) O conceito de suscetibilidade refere-se a aspectos que contribuem para que um indivíduo tenha maior probabilidade de se infectar pelo HIV. (4) Os determinantes de risco ligados ao comportamento sexual incluem múltiplos parceiros, taxa de troca de parceiros, práticas sexuais e uso de preservativo. (5) Os determinantes de risco ligados aos aspectos biomédicos incluem a presença de outras DSTs, a prática de circuncisão, as diferenças biológicas relativas ao sexo, estágio de infecção e subtipos do vírus. AIDS E POBREZA 163 THE KUHLUVUKA PROJECT: A CORRIDOR FOR HOPE IN MOZAMBIQUE Paula Monjane* and E. Cipriano** * Master in Population and Development, Monitoring, Evaluation, and Research Official for the Kuhluvuka Project, under the Foundation for Community Development (FDC) ([email protected]) ** Psychologist and Coordinator of the Kuhluvuka Project, FDC Mozambique, located on the eastern coast of Africa with a population of some 18 million, is one of the ten countries in the world most heavily affected by AIDS. According to official data from the Ministry of Health, the estimated prevalence is approximately 14% in the adult population (15-49 years). National data on the number of AIDS cases per year indicate that the epidemic is now at an important transition point. Rather than remaining as a silent epidemic of HIV infection, the disease has begun to manifest itself as AIDS. According to the Study on the Demographic Impact of HIV/AIDS in Mozambique conducted in 2000, in 1999 there were an estimated 1,173,878 infected individuals in the country. Of the approximately 83,600 persons who had died of AIDS, 14 thousand were children. In some provinces in the central area of the country, with prevalence rates recorded at 20% or more, one can predict a rapid increase in adult mortality in the near future and an increase in new cases of infection, which will produce major changes in the demographic structure, among others. AIDS forecasts paint a somber picture for the future, similar to that of neighboring countries, meaning that Mozambique will soon witness a myriad of consequences of the disease, including orphans, a reduced workforce, and severely overburdened health services, if effective measures to stop the epidemic are not taken. This scenario is aggravated by the high poverty rate in Mozambique (1), one of the worlds poorest countries. According to the 164 Human Development Report (RDH 2000) and based on the Human Development Index (which includes income, schooling, literacy, and life expectancy), Mozambique ranks 169th out of a total of 174 countries. This makes Mozambique one of the ten poorest countries in the world. Some 70% of the population lives below the poverty line (US$ 0.40 a day) and the overall national illiteracy rate is 61%, with female illiteracy at 74%. Rural women have the fewest opportunities for access to education (with an 84% illiteracy rate). This article deals with the issue of approaches to HIV/AIDS in a context of widespread poverty, as in the case of Mozambique, where poverty is both a cause and consequence of the epidemics spread. Thus, the response should focus not only on behavioral and biomedical risk aspects, which are partly the consequence of the prevailing context, but also on long-term aspects, integrated with development interventions with a view towards reducing poverty and the vulnerability in which the majority of the population lives. Based on this perspective for confronting the epidemic and the interweaving or association between interventions in the fight against HIV/ AIDS and improvements in the populations living conditions, this article discusses the approach adopted by the Kuhluvuka Project, a Corridor of Hope, conceived and designed by the Foundation for Community Development (FDC), particularly highlighting the constraints and challenges dealt with in the experience. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT Responses in the fight against HIV/AIDS in Mozambique In response to the HIV/AIDS situation, the Government of Mozambique created the National AIDS Control Program (PNCS) in 1986 and the National Program for the Control of Sexually Transmitted Diseases (STDs) in 1988, both part of the National Health Service (SNS), under the Ministry of Health. Until the mid1990s, HIV/AIDS interventions were essentially governmental, focused exclusively on preventive measures and concentrated in the PNCS. Beginning in the mid-1990s, nongovernmental organizations began to emerge that complemented those of the PNCS and also focused on prevention. In 1999 the Government, encouraged by the donor community, undertook an effort to develop an intensive, participatory, and multisector HIV/AIDS strategy. The National Strategic Plan to Fight STDs/HIV/AIDS, 2000-2002 (PEN), approved in August 1999, is based on a multi-sector approach intended to mobilize resources and support from all elements in the political, social, and economic spectrum. To head or lead this approach, above and beyond the exclusive competency of health, the plan included the creation of the National Council for the Fight against AIDS (CNCS), incorporating members of government and civil society. The strategic plan emphasized quality and information coverage with prevention and impact-reduction activities. The strategy also identified risk groups, including street children and orphans, people living with HIV/AIDS, STD patients, students and youth outside of school, truck drivers, miners, police, soldiers, sex workers and their clients, and prison inmates. In addition, the strategy, while not excluding or discouraging work in other areas, prioritized urban and rural areas adjacent to transportation routes. In this strategy, the implementing role of the NGOs became the priority, while the CNCS assumed a coordinating and orienting role. Interventions in Mozambique are currently based on the 2000-2002 strategic plan, while the 2003-2005 plan is in the development stage. Despite efforts to find effective AIDS AIDS AND E POBREZA POVERTY responses to the AIDS problem and the recognition of the link between poverty and AIDS, very few initiatives, whether governmental or nongovernmental, combine measures to reduce poverty and improve the populations living conditions with those aimed at the fight against HIV/AIDS. There is no up-to-date information on community interventions. According to the PEN 2000-2002, in 1998 there were 58 programs and projects in the field of HIV/AIDS, of which 29 were managed by NGOs and other national organizations, nine by international NGOs, seven supported by United Nations agencies, and 13 supported by the Government of Mozambique. As observed, civil society is the most active sector working with HIV/AIDS information and education and care and support for HIV-infected individuals and people with AIDS at the community level. However, despite the noteworthy success in raising the populations awareness in relation to HIV/ AIDS/STDs, they have a limited capacity to establish an integrated strategic response to guarantee the necessary quality and coverage, particularly with vulnerable populations, or to recognize the strategic role played by grassroots community organizations and community leaders. Theoretical framework for fighting the epidemic In order to identify more effective responses to the rapid spread of HIV in Third World countries, particularly in Sub-Saharan Africa, various interpretations of the determinants have been explored. Such interpretations can be grouped into two perspectives: one centered on the individual and the other centered on macro- and micro-environmental factors. Individual-centered perspective Since AIDS was discovered in the 1980s, the predominant interventions in the fight against HIV/AIDS have been limited to the clinical/medical and epidemiological domain, as the result of the dominant interpretation of the epidemics determinants, which con165 165 tinue to be centered on individuals and how the feel and behave. As a vital field of science, medicine has undergone important transformations. One with particular relevance for the context of interpreting the HIV/AIDS epidemic was the division between individual health and population-based health (public health) in the early 20th century (GARRET, 2000). The dominant response to the AIDS epidemic was its interpretation as a medical and epidemiological event. When the epidemic began and there were still few AIDS cases, the view was that the diseases determinants were limited to biomedical factors: viral subtype, stage of infection, presence of other STDs, and gender (male or female). These factors, which determine the transition from HIV infection to AIDS, were the only ones taken into consideration. To avoid transmission of the disease, the main interventions focused on STD treatment and condom distribution. As the infected population began to grow and AIDS turned into a full-blown epidemic, interest increased in the issue of sexual behavior, whose main determinants include: rate of sex partner exchange, multiple sex partners, sexual practices, circumcision, and condom use. Various theories, based fundamentally on psychology, were developed and served to predict individual behavior and design intervention responses. An additional step had been taken to focus the HIV/AIDS problem not only on the individual body but also on individual motivation leading to risk behaviors. Based on the behavioral view, the notion of risk groups (or groups at increased risk) gained increasing acceptance, whereby the epidemic spread more easily and additional interventions would focus on behavior change, that is, reduction in the number of sex partners, condom use, and postponing sexual initiation. According to critics from both the South and the North, both the biomedical and the behavioral views express an atomistic, individualized, and compartmentalized perspective, thus failing to fully reflect the causes, consequences, and dynamics of the HIV/AIDS epi166 demic (BARNET & WHITSIDE, 2002; WILKISSON, 1996). The criticism essentially focuses on the fact that these views completely exclude structural aspects such as distribution of resources and socio-cultural characteristics: the link between poverty and HIV/AIDS, the existence of structural inequalities within and between countries, historical issues, long-term social and economic effects, and socio-cultural practices. The macro- and micro-environmental perspective In recent years, the inability to reduce or detain the rapid spread of the epidemic (especially in the poor countries) and the limitations of interventions to fight HIV/AIDS have challenged the field of science and intervention to reflect anew on possible determinants of the epidemic and thus the response to it. These reflections have raised the perspective that there are factors lying outside the individuals direct control which make certain groups of individuals and a given society more (or less) vulnerable to risks and that influence their susceptibility to HIV infection. This approach adds to the discussion of macroand micro-environmental factors that determine group or individual exposure to HIV infection. By macro-environmental aspects we are referring to wealth versus poverty, distribution of resources, culture, religion, existing infrastructure, and governance. Micro-environmental aspects involve the contextual surroundings, including mobility, urbanization, womens rights and status in society, social and economic policies, employment legislation, access to health care and health insurance, and the prevailing typology of violence and war. The interventions needed to respond to these issues include long-term commitments to resource distribution, social and economic policies, legal reforms, investment in basic social services, defense of human rights, employment and debt relief legislation, and improvement in the terms of trade between rich and poor nations. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT For those who defend this perspective, the H IV/AIDS issue in the world is closely linked to such factors as differences in wealth and poverty, income, and distribution of resources, and has historical and structural origins which influence the rapid spread of HIV in the poorer countries and/or those with accumulated differences in the distribution of resources, as in the case of Sub-Saharan Africa. More pragmatic positions recommend the eradication of absolute poverty as a solution to the AIDS problem (Mbeki, quoted in HAWA, 2003). Critics of this extremist position point to a structuralist position, where there are groups of individuals who create the same survival strategies for the same contextual situation, ignoring individual life options. For less extremist approaches, not only the environmental, socio-cultural, and economic factors that increase the vulnerability (2) to HIV infection in certain groups and segments of society, but also biomedical and behavioral factors that increase susceptibility (3) to HIV infection in certain individuals should be taken into account. In the mid-1990s, Jonathan Mann, who became Director of the Global Program on AIDS (GPA) under the World Health Organization (WHO), in his pioneering work on the AIDS epidemic in Africa, related social and economic dispossession to AIDS vulnerability (HAWA). Other studies by Mann and colleagues at the WHO/GPA during the 1990s drew the links between HIV/AIDS, health, and human rights. These studies greatly influenced the development of the United Nations AIDS Program (UNAIDS) in its initial years, including social and economic aspects in its work plan. However, thus far the interventions in responses to HIV/AIDS by UNAIDS and regional and national programs still focus little attention on social and economic macro- and micro-environmental aspects influencing the rapid spread of HIV, but continue to focus essentially on the biomedical and behavioral perspective of short-term goals. This biomedical and behavioral prioritization could be partially based on the AIDS AIDSAND E POBREZA POVERTY fact that short-term interventions appear to involve more tangible goals, like the number of condoms sold, reduction in the reported number of sex partners, and reported postponement of sexual initiation, among others. The truth is that there are no concrete experiences of this type with a proven impact in reducing the number of cases of HIV infection. On the other hand, strategies involving responses to environmental factors require long-term interventions and large investments in basic social services, especially health, thus contradicting the current policy of free competition and reduced spending in the public sector. Determinants of the HIV/AIDS epidemic in Mozambique Mozambique has a situation with three epidemics: a young epidemic evolving slowly in the North (with approximately 6% prevalence in the adult population), a mature epidemic in the Central Region of the country (some 17% of the adult population), and a galloping epidemic in the South (some 13%). Although it has not been proven, it is believed that the relatively low prevalence rates in the North may be related, among other factors, to that regions relative isolation, the predominance of the Islamic religion, and social control which promotes sexual practices with relatively lower risk. Meanwhile, in the Central Region, several factors may play an important role in the high HIV prevalence, like the relatively high mobility to and from neighboring countries with high seroprevalence rates and the limited practice of male circumcision, among others. In the South, the epidemics rapid progression may be fueled by the heavy movement of individuals along the so-called Maputo corridor and the vulnerability of youth influenced by large cities. Mozambiques historical background includes certain factors and conditions which unavoidably contribute to the evolution of the epidemic in the country. Until 1975, Mozambique was a Portuguese colony whose policies, including its health policies, were designed to serve the interests of the European settlers. 167 167 After Independence, the country inherited a system of weak basic social services in education and health, with limited coverage (particularly in rural areas) and resulting implications for the prevalence of endemic diseases, among others. The infrastructure and availability of resources were concentrated in urban areas, particularly in the capital city of Maputo. The economy was based on exportation of raw materials and cheap labor to neighboring countries like South Africa. There were efforts to change this situation, particularly in the post-Independence period, but which have not led to major changes thus far. Along with the colonial legacy, the civil war that broke out soon after Independence, the structural reforms introduced in the economy in the late 1980s as the result of international ideological change, and other internal and external factors contributed to the countrys current context. The following were some of the results: The establishment of three regions, dominated by three main transportation corridors, with extensive mobility of people and goods. The areas along these corridors are consistently the ones with the highest HIV/AIDS rate, especially those with the heaviest circulation. The area with the highest prevalence in the country (the Central Region) is a transportation route with relatively normal operations even during the civil war. After the civil war ended, there was a huge flow of people returning from neighboring countries with significantly high HIV rates. In the South, the high rates in the province of Gaza coincide with the largest mobile population (migratory labor to South Africa). Unequal development between the capital city of Maputo and the rest of the country. The weak capacity of the capital city to generate employment and absorb labor from the rural exodus led to the convergence of risk situations for HIV infection, like prostitution and deficient health conditions, a high crime rate, and illegal migration to neighboring countries (South Africa and Swaziland). Weak coverage and deficient health care. According to current studies, a major 168 share of cases of HIV infection in Sub-Saharan Africa have occurred due lack of safe health care. While evidence suggests that Mozambique is no exception, due to the weak and deficient health coverage in the country, traditional medicine has been the most widely available source of care for most of the population. Traditional practices involving the use of unsterilized sharp objects also suggest an important source of risk. Low social cohesion resulting from war and traumatic experiences (like forced crowding and dispersion), with implications for civil societys capacity to respond collectively. Studies suggest a relationship between the degree of order in a society and patterns of sex relations in different groups. In societies with less social cohesion, individuals are more prone to have sex partners outside their usual networks, unlike societies with greater cohesion. In periods of great economic and social upheaval, individuals survival strategies can lead to rapid changes in sex partners within and between certain groups. Thus, although due to their activity and situation there are groups that are more susceptible to infection, the epidemic cannot be concentrated in specific groups but probably spreads to the entire population. Widespread poverty is a basic factor associated directly or indirectly with the above-mentioned aspects (mobility and socio-cultural and contextual factors) and influences the sexual behavior (4) and certain biomedical aspects (5) of individuals and certain groups in society. Poverty is directly associated with survival strategies that make certain groups in society more susceptible to HIV infection. The presence of other STDs and treatment and support capacity to prolong the lives of HIV-positive individuals are affected by the context of weak coverage and deficient health care, in part associated with poverty. The differences in the country suggest that there are indirect determinants of the epidemic, like poverty. In addition, there are a series of other factors, like widespread mobility (social disorganization, unsafe health care) and socio-cultural aspects (religion, soAIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT cial structure, circumcision, etc.), that can explain the trends in the HIV/AIDS epidemic in Mozambique, some of which act as aggravating factors, increasing the rapid spread of the epidemic in certain regions. The indirect factors influence the more direct determinants of HIV infection, such as sexual behavior and some biomedical factors. The three dimensions of the epidemic When one approaches the HIV/AIDS epidemic in a situation like that of Mozambique, with medium and high prevalence rates in the adult population, the debate involves three parallel dimensions: HIV infection: the number of individuals for whom some preventive intervention can be implemented. Disease: the number of individuals who, at a given time and based on their state, require some form of treatment and support to prolong their lives. Impact: all forms of mitigation are necessary, including care and economic and social costs, because if no action is taken at this stage, the costs become difficult to bear in the future. In reality, the HIV/AIDS epidemics (infection, disease, and impact) behave like a catastrophic chain of events if appropriate primary prevention measures (prevention of new cases of infection), secondary prevention (treatment of AIDS patients), and tertiary prevention (mitigation of the impact on infected or affected individuals, investment in basic services, and other measures) are not taken. Necessary interventions in response to the epidemic This perception of the problem suggests an approach centered not only on the individual but also on groups of individuals in society who are more susceptible to infection for various reasons, including poverty, widespread mobility, and others. The response thus needs to focus on the longer term, approaching more structural aspects like availability of (and access to) basic social services, health AIDS AIDS AND E POBREZA POVERTY education, and improved living conditions for the general population. While interventions aimed at behavior change with messages on condom use, reduction in the number of sex partners, use of STD testing and treatment services, and others are still important, they should be related to other interventions to improve living conditions, linked to basic services like health, education, and food safety. A joint response is thus required, involving the various forces in society, including government institutions and civil society organizations. In addition to the development of policies that promote and facilitate necessary response interventions and guarantee their implementation, the governments inherent role is to strengthen long-term investments in vital areas like health, education, and social security. On the other hand, civil society plays a preponderant role in complementing actions in various areas of education, support, and basic care. In this context, it is crucial to strengthen and expand the capacity of institutions and civil society organizations working with the communities for there to be effective implementation of the activities and for the involvement of communities and their leaders to be the motor force influencing relevant decisions and policies for these communities. The response by FDC: principal interventions The FDC, through its AIDS and Development Unit, conceived and designed the Kuhluvuka Project: a Corridor for Hope (UPK), aimed at intervention in the Southern Region of Mozambique and prioritizing 24 areas along the transportation corridor linking to the neighboring countries of South Africa and Swaziland, currently considered the areas with the greatest spread of HIV. The actions encompass all the communities and individuals in the 24 selected areas in the Southern Region of the country. However, priority social partners for the project were identified, including youth, women, and sex workers, miners and their family mem169 169 bers, military personnel, nurses, people living with HIV/AIDS and their family members, orphans, and workers and employers. The activities defined for each of these social partners focus on different aspects, considering their contexts and needs, and can be grouped into different types of action. Activities focused on sexual behavior (condom use, reduction in the number of sex partners, fidelity, abstinence) and some biomedical aspects (treatment of STDs, counseling and voluntary testing, biosafety, and home care) are conducted by ten grassroots implementation partners (NGOs) according to their specialties, while the Kuhluvuka implementation unit at FDC conducts information and awareness-raising activities through the mass media and various events. Meanwhile, the implementation partners mobilize the communities in which they work to respond effectively to the various problems they face, including HIV/AIDS, while discussing cultural aspects that promote either safe or risky behaviors, such as gender inequality. The FDC conducts complementary public awareness-raising work on HIV through advocacy and lobbying the government and donors to improve living conditions in the target communities, aimed at ensuring basic conditions for health, education, food safety, and income generation. The cross-border activities, aimed essentially at coordinating activities to prevent HIV transmission and provide support for individuals infected and affected by HIV in southern Mozambique and neighboring countries, constitute an important strategy given the extensive mobility of individuals to and from these countries. As an overall strategy, the FDC wagers on empowerment and capacity-building in civil society as a way of ensuring an effective response to the issue of development and HIV, prioritizing community-based action in a process of transferring and sharing capacities and experiences. 170 Constraints and challenges There are various levels of constraints and challenges limiting the approach as conceived and designed. A project lasting only three years (rather than a longer program) is unrealistic for achieving the proposed results. The results aim at the long term, like changes in sexual behavior, mobilization and capacitybuilding of civil society for more effective responses to the HIV/AIDS problem, and others. A culture of sporadic measures with limited coordination and concentrated in easy-to-access locations to the detriment of more remote areas on the part of organizations working in this area (including implementation partners) must be enhanced by greater coordination and follow-up, an aspect which was underestimated during the project design. Further linked to this issue, there is weak coordination, cooperation, and referral of complementary actions by development partners working in the same geographic area. The context of an emergency national approach to the fight against HIV/AIDS, centered on the individual and partially influenced by donor policy, poses a limitation to an aggregate response, since other projects working in the same areas as the Kuhluvuka Project generally practice different approaches to the same target public. Thus, the FDC considers the Kuhluvuka Project as the base for launching a more longterm program in keeping with the expected results, which should include, in the proposed interventions in the field, a heavy advocacy and lobbying component aimed at better coordination, cooperation, and integration of other development aspects among the various stakeholders in improving the populations living conditions. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT BIBLIOGRAPHICAL REFERENCES BARNETT, T. and WHITESIDE, A. AIDS in the TwentyFirst Century: disease and globalisation, Palgrave MacMillan, 2002. FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE. Kuhluvuka Project (final version), 2000. GARRET, L. Betrayal of Trust: the collapse of global public health. New York: Hyperion, 2000 HAWA R. AIDS in Africa: too little, too late. http://www-twnside.org.sg./title/ late.htm (on Feb. 28, 2003) MONJANE, P. Marketization of health care provision: analyzing urban and regional bias and implica tions for access by the poor. Masters thesis, Institute of Social Studies, The Netherlands, 1999. MOZAMBIQUE CENSUS. II recenceamento geral da população e habitação [2nd General Population and Housing Census]. Instituto Nacional de Estatística, 1997 MPF. Pobreza e bem-estar em Moçambique: primeira avaliação nacional (1996-97) [Poverty and Well-being in Mozambique: first national evaluation], 1997, MPF/ UEM/IIPPA. OLAUGHLIN B. In Defence of the Household: Marx, gender and the utilitarian impasse. ISS working paper series number 289, 1999a. UNDP. Human Development Report (HDR). UNDP Mozambique, 2000 and/or consumption within the family, lack of access to education and health, safety and security, independence, self-esteem, and social support networks that constitute additional sources of consumption in times of crisis (MONJANE, 1999). The current definition of human poverty used by the United Nations Development Program (UNDP), measured by the Human Poverty Index (HPI), although not extensive, already includes basic dimensions of human deprivation, such as life expectancy, lack of access to education, water, and health, and health status. In Mozambique, poverty indicators are measured by level of household consumption, per capita income, and HPI. Both show high levels of poverty in the country in terms of consumption, access to (principally availability of) education and health, life expectancy, and health status. (2) The concept of vulnerability used here is associated with factors that increase the possibility of the epidemic having a serious impact on socioeconomic organization of families, groups, institutions, and others. (3) The concept of susceptibility refers to factors that increase the individuals probability of becoming infected with HIV. (4) Risk determinants linked to sexual behavior include multiple sex partners, rate of partner exchange, sexual practices, and condom use. (5) Risk determinants linked to biomedical factors include the presence of other STDs, circumcision, sex-related biological differences, stage of infection, and viral subtypes. WILKINSON, R. Unhealthy Societies: the afflictions of inequality. London: Routledge, 1996. NOTES (1) The concept of poverty: since the recognition of the complexity of poverty, its concept and operational measures have been subject to various approaches. The concept of poverty used by international experts and institutions has increasingly recognized its multidimensional nature. Still, its quantification for operational purposes of establishing policies and comparisons between countries is limited to only a few of its dimensions. Human poverty has traditionally been defined and quantified as the lack of access to economic goods (as measured by income) and a low level of family consumption. Although these dimensions should be taken into account, reality has shown that they fail to capture other dimensions of vulnerability and dispossession, like income distribution AIDS AIDS AND E POBREZA POVERTY 171 171 EL PROYECTO KUHLUVUKA CORREDOR DE LA ESPERANZA EN MOZAMBIQUE Paula Monjane* y E. Cipriano** * Mestre en Población y Desarrollo. Oficial de Monitorización, Evaluación e Investigación del Proyecto Kuhluvuka de la Fundación para el Desarrollo de la Comunidad (FDC) ([email protected]) ** Psicóloga y coordinadora del Proyecto Kuhluvuka de la FDC Mozambique, situado en la costa orien- similar a la de los países vecinos, lo que tal de África tiene alrededor de 18 millones de significa que en Mozambique, muy en breve, habitantes y es, en el mundo, uno de los diez se podrá observar toda una serie de conse- países más afectados por el SIDA. Datos cuencias provocadas por el SIDA como son: oficiales del Ministerio de Salud estiman en niños huérfanos, reducción de la fuerza de un 14%, aproximadamente, el nivel de trabajo y servicios de salud fuertemente prevalencia adulta sobrecargados, en el caso de que medidas comprendida entre los 15 a los 49 años de edad. efectivas de enfrentamiento a la epidemia no Los datos nacionales sobre le número de casos sean tomadas. en la población de SIDA por año indican, que la epidemia se Ese escenario se agrava por el alto encuentra en un punto de transición índice de pobreza (1) que existe en el país, que importante, es decir, al contrario de es uno de los más pobres del mundo. Según el permanecer como una epidemia silenciosa de Informe del Desarrollo Humano (IDH 2000) infección por el VIH, ya comienza a en lo que se refiere al Índice de Desarrollo manifestarse como SIDA. Humano, que comprende los índices: Un estudio realizado en el 2000, sobre rendimiento, educación, alfabetización y el Impacto Demográfico del VIH/SIDA en esperanza de vida, Mozambique ocupa el lugar Mozambique indica que existían en 1999 169 de un total de 174 países en el mundo, o alrededor de 1.173.878 personas infectadas con sea, es uno de los diez países más pobres del el virus en el país. También coloca que de las mundo. Alrededor del 70% de la población vive 83.600 personas que murieron como por debajo de la línea de pobreza con 0,40 consecuencia del SIDA, 14 mil eran niños. En centavos de dólar por día y la tasa nacional de algunas provincias de la región central del analfabetismo es de un 61% para la población país, con tasas de prevalencias de un 20%, se general y de un 74% para las mujeres, siendo puede prever que en un futuro próximo habrá que las que viven en la zona rural tienen menos un rápido aumento de la mortalidad en oportunidades de acceso a la educación con adultos así como un aumento de nuevos casos cifras de hasta un 84% de analfabetismo. de infección, lo que provocará, entre otras Este artículo pretende discutir sobre la cosas, grandes cambios en la estructura de la problemática de los enfrentamientos al población. VIH/SIDA en un contexto generalizado de Las proyecciones del SIDA ilustran una pobreza, como es el caso de Mozambique, imagen sombría con relación al futuro, muy donde eso es causa y consecuencia de la 172 AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO propagación de la epidemia. Por eso, la VIH/SIDA que fuese intensiva, participativa y respuesta no debe estar centralizada sola- multisectorial. El Plan Estratégico Nacional de mente sobre aspectos de comportamientos Combate a las ETS/VIH/SIDA 2000-2002 de riesgo y biomédicos que son, en parte, (PEN), aprobado en agosto de 1999, tiene como consecuencia de la coyuntura existente, sino base un abordaje multisectorial que pretende también, en aspectos a largo plazo e movilizar recursos y apoyo de todos los integrados en intervenciones de desarrollo elementos del espectro político, social y con el objetivo de reducir la pobreza y la económico. Para encabezar o liderar ese situación de vulnerabilidad en que la mayoría abordaje, además de la competencia exclu- de la población vive. siva de la salud, el plan incluyó la creación del Teniendo esa perspectiva de enfren- Consejo Nacional de Combate al SIDA (CNCS) tamiento a la epidemia, así como el entrela- incorporando miembros del gobierno y de la zamiento o asociación de las diferentes sociedad civil. El plan estratégico enfatiza la intervenciones de combate al VIH/SIDA con calidad y la cobertura informativa con el objetivo de mejorar la calidad de vida de la actividades de prevención y reducción del población, se discute en la actualidad la forma impacto. de enfrentamiento adoptada por el Proyecto La estrategia también identificó Kuhluvuka Corredor de la Esperanza, grupos de riesgo que incluye a niños que viven concebido por la Fundación de Desarrollo de en las calles y huérfanos, personas viviendo con la Comunidad (FDC), destacando los VIH/SIDA, enfermos con una ETS, estudiantes constreñimientos y desafíos encontrados. y jóvenes que están fuera de las escuelas, camioneros, mineros, policías, soldados, Respuestas en el combate al VIH/ SIDA en Mozambique trabajadores/as del sexo y sus clientes, El gobierno de Mozambique creó, en no excluir o desalentar el trabajo en otras 1996, el Programa Nacional de Control del SIDA áreas, dio prioridad a las áreas urbanas y (PNCS) en respuesta a la situación de la rurales adyacentes a los corredores de epidemia. También creó, en 1998, el Programa transporte. En esa estrategia, el papel ejecutor de Control de las Enfermedades Trans- de las ONGs se tornó prioritario, mientras el misibles CNCS pasó a tener un papel de coordinador y Sexualmente (ETSs). Ambos programas están integrados al Sistema prisioneros. También, la estrategia, a pesar de orientador. Nacional de Salud (SNS) y subordinado al En la actualidad, las intervenciones en Ministerio de Salud. Hasta mediados de los el país todavía tienen como base el plan años 90, las intervenciones de combate al estratégico del 2000-2002 debido a que el VIH/SIDA eran esencialmente guberna- plan del 2003-2005 está en fase de mentales, dirigidas únicamente para acciones confección. A pesar de los esfuerzos para de prevención y concentradas en el PNCS. A encontrar respuestas eficaces a la proble- partir de esa época comenzaron a surgir mática del SIDA y del reconocimiento de la organizaciones no-gubernamentales que relación entre la pobreza y el SIDA, pocas efectuaban intervenciones complementarias iniciativas, sean gubernamentales o no- a las del PNCS, también en el área de la gubernamentales, asocian las acciones de prevención. reducción de la pobreza y la mejora de las El gobierno, en 1999, con impulso de la comunidad donadora, efectuó un esfuerzo condiciones de vida de la población a aquellas dirigidas al combate del VIH/SIDA. para desarrollar una estrategia sobre SIDA AIDS YE POBREZA POBREZA 173 173 Con relación a las intervenciones de la interpretación de los determinantes domi- comunidad, no existen datos actualizados nantes de la epidemia de SIDA que continúan sobre el asunto. Según el PEN 2000-2002, en centralizado en el individuo, en lo que el siente 1998, existían 58 programas y proyectos en el y cómo se comporta. área del VIH/SIDA, de los cuales 29 eran La medicina, como un campo vital de la dirigidos por ONGs y otras organizaciones ciencia, ha experimentado importantes nacionales, nueve por ONGs internacionales, transformaciones. Una de esas transforma- siete por agencias de las Naciones Unidas y 13 ciones, vista como relevante para el contexto apoyados por el gobierno. Como puede de la interpretación de la epidemia de VIH/ constatarse, el sector de la sociedad civil es el SIDA, fue la división entre la salud ligada al que ha sido más activo en el trabajo de individuo y aquella ligada a la población (salud información y educación sobre VIH/SIDA y pública) a principios del siglo pasado (GARRET, cuidados y apoyo a los infectados y afectados 2000). La respuesta dominante a la epidemia en la comunidad. Sin embargo, a pesar del no- de SIDA era con base en la interpretación de table suceso en la sensibilización de la la misma como un evento médico y epidemio- población con relación al VIH/SIDA/ETS, su lógico. capacidad es limitada a la hora de establecer Realmente, al inicio de la epidemia, una respuesta estratégica integrada para cuando todavía existían pocos casos de SIDA, garantizar la calidad y la cobertura necesaria, la visión de los factores determinantes del en particular en las poblaciones vulnerables, SIDA se restringía a lo biomédico: subtipo de así como también para reconocer el papel virus, estadío de la infección, presencia de estratégico desempeñado por la organiza- otras ETSs y sexo (hombre o mujer). Única- ciones comunitarias y por los líderes mente eran considerados esos, que deter- comunitarios. minan el paso de la infección para el SIDA. Para evitar la transmisión de la enfermedad, las Referencial teórico de enfrentamiento a la epidemia principales intervenciones se centralizaban Con la intención de identificar res- distribución de preservativos. en el tratamiento de las ETSs y en la puestas más eficaces a la rápida propagación En la medida que la población infectada del VIH en los países del Tercer Mundo y comenzó a crecer y el SIDA se convirtió en una particularmente en África Subsahariana, se epidemia, también creció el interés por el aspecto están explorando varias interpretaciones del comportamiento sexual, cuyas principales sobre las determinantes de esa rápida determinantes incluyen: tasa de cambio de parejas, propagación y pueden agruparse en dos múltiples parejas, prácticas sexuales, circuncisión perspectivas: una centralizada en el individuo y uso de preservativo. Fueron desarrolladas varias y otra en los aspectos (macro y micro) teorías, con base en la psicología, que sirvieron de ambientales. base para predecir el comportamiento del individuo y diseñar respuestas de intervención. Perspectiva centralizada en el Entonces, podemos decir que un paso individuo fue dado en el sentido de focalizar el problema Desde que fue descubierto el SIDA, en del VIH/SIDA no sólo en el cuerpo, sino la década de los 80, las intervenciones también en la motivación del individuo que lo dominantes de combate al VIH/SIDA han sido lleva a comportamientos de riesgo. A partir delegadas al dominio clínico-médico y de la visión comportamental, creció la idea de epidemiológico, como resultado de la grupos de riesgo o de mayor riesgo, donde la 174 AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO epidemia se propaga con más facilidad y las Entendemos por aspectos ambientales intervenciones adicionales se pueden macro, aquellos como la riqueza/pobreza, la resumir en: promoción de cambios de compor- distribución de recursos, la cultura, la religión, tamiento, es decir, reducción de parejas la infraestructura existente y gobernación. En sexuales, uso del preservativo y aplazamiento cuanto a aspectos micro, entendemos de la primera relación sexual. aquellos de ámbito contextual como Críticas del sur y del norte apuntan, que movilidad, urbanización, derechos y status de ambas visiones, biomédica y comportamental, la mujer en la sociedad, políticas sociales y expresan una perspectiva atomística, económicas, legislación de empleo, acceso individualizada y departamentalizada que no seguro a los cuidados de salud y la tipología reflexionan en profundidad sobre las causas, de violencia/guerra. consecuencias y dinámica de la epidemia de VIH/SIDA (BAR NET & Las intervenciones que son necesarias WHITSIDE, 2002; para responder a esas áreas se resumen, en- WILKINSON, 1996). Las críticas se concentran tre otras, en intervenciones y emprendi- esencialmente en el hecho de que esas mientos a largo plazo, en políticas sociales y visiones excluyen por completo, aspectos económicas de retribución de recursos, estructurales, de distribución de recursos y reformas legales e inversión en los servicios socioculturales: la unión entre pobreza y VIH/ sociales básicos, defensa de los derechos SIDA, la existencia de desigualdades estruc- humanos, legislación de empleo y alivio de la turales entre países y dentro de los países de deuda y mejora de los términos de naturaleza histórica, los efectos a largo plazo intercambio entre los países ricos y pobres. desde el punto de vista social, económico y prácticas socioculturales. Para los defensores de esa perspectiva, el VIH/SIDA en el mundo está estrictamente ligado a factores como diferencias, riqueza/ Perspectiva centralizada en pobreza, renta y distribución de recursos, aspectos ambientales (macro y micro) teniendo orígenes históricos y estructurales, La incapacidad de reducir o de detener que para países más pobres y/o con el crecimiento rápido de la epidemia, diferencias de acumulación y distribución de particularmente en los países pobres, y las recursos, como es el caso de África limitaciones de las intervenciones de Subsahariana, influencian la rápida propaga- combate al VIH/SIDA, trajo al campo de la ción en la población del VIH. Posiciones más ciencia y de la intervención, en los últimos años, pragmáticas apuntan para la erradicación de el desafío de nuevas reflexiones sobre las la pobreza absoluta como una solución para posibles determinantes de la epidemia y sus el problema del SIDA (Mbeki, citado en consecuente respuesta. HAWA,2003). Esas reflexiones trajeron la perspectiva Críticas sobre esa posición extremista de que existen factores, fuera del control apuntan para una posición estructuralista, directo del individuo, que tornan ciertos grupos donde existen grupos de individuos que crean de individuos y a una determinada sociedad, las mismas estrategias de sobrevivencia para más o menos vulnerables a riesgos e la misma situación, ignorando las opciones influencian la susceptibilidad a la infección por individuales de vida. el VIH. Ese abordaje trajo a discusión aspectos Para los menos extremistas, tanto los ambientales, macro y micro, que determinan factores ambientales socioculturales y la exposición de grupos de individuos a la económicos que aumentan la vulnerabilidad infección por el VIH. (2) para la infección por el VIH de determinados SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA 175 175 grupos/camadas de la sociedad, como los en servicios sociales básicos, particularmente factores biomédicos y comportamentales en la salud, contrariando la política actual de que aumentan la susceptibilidad (3) para la libre concurrencia y reducción de gastos en el infección por el VIH de ciertos individuos, sector público. deben ser abordados. A mediados de la década del 90, Jonathan Mann, que fue el director del Programa Global de SIDA (GPA) de Determinantes en la epidemia de VIH/SIDA en Mozambique la Organización Mundial de la Salud (OMS), en Mozambique presenta una coyuntura su trabajo pionero sobre la epidemia de SIDA de tres epidemias. Una epidemia joven en África, relaciona las condiciones de progresando lentamente en el norte privación social y económica y la vulnera- (alrededor del 6% en la población adulta), una bilidad al SIDA (HAWA,2003). epidemia madura en el centro del país (cerca En otros trabajos realizados por Mann de 17% en la población adulta) y una epidemia y sus colegas del GPA/OMS durante la década galopante en el sur del país (alrededor del 13%) de los 90, son relacionados el VIH/SIDA con la Aunque no esté comprobado, se piensa salud y los derechos humanos. Esos trabajos que las tasas de prevalencia relativamente influenciaron enormemente el desarrollo del bajas en el norte del país pueden estar Programa de SIDA de las Naciones Unidas asociadas, entre otras razones, al relativo (ONUSIDA) en los primeros años de su aislamiento existencia, incluyendo aspectos sociales y predominancia de la religión musulmana y el económicos en su plan de trabajo. Sin em- control social existente, que promueve bargo, hasta el momento, las intervenciones prácticas sexuales con un relativo menor de respuesta a la problemática del VIH/SIDA riesgo. En el caso del centro del país, varios por ONUSIDA y los programas regionales y de factores pueden tener un papel importante en los países, continúan dando poca importancia la alta prevalencia del VIH, como por ejemplo, a los aspectos ambientales, sociales y la relativa alta movilidad de y para países económicos (macro y micro) que influencian vecinos con altas tasas de seroprevalencia, la la rápida propagación del VIH, centralizándose baja tasa de circuncisión masculina, entre esencialmente, en la perspectiva biomédica y otros factores. En el sur del país, la rápida comportamental de metas a corto plazo. progresión de la epidemia puede estar siendo de aquella región, con Por atrás de esa prioridad, biomédica y estimulada por el alto movimiento de perso- comportamental, podrá estar, en parte, el nas a lo largo del corredor de Mozambique y hecho de que las intervenciones con repuestas por la vulnerabilidad de los jóvenes a corto plazo aparentan metas más influenciados por las grandes ciudades. fácilmente alcanzables, ya sea el número de La trayectoria histórica de Mozam- preservativos vendidos, reducción del número bique, trae ciertos factores y condiciones que, de parejas sexuales, aplazamiento de la inevitablemente, contribuyen para la evolu- primera relación sexual, entre otros. La verdad ción de la epidemia en el país. Hasta 1975, es que no existen experiencias concretas Mozambique era una colonia portuguesa sobre el impacto de intervenciones de ese cuyas políticas, incluyendo las de la salud, género que demuestren un impacto en la estaban diseñadas para servir a los intereses reducción del número de casos de infección de los colonos. Con la independencia, el país por VIH. Por otro lado, las estrategias de heredó un sistema de servicios sociales repuestas a factores ambientales requieren básicos, de educación y de salud muy precario intervenciones a largo plazo y gran inversión y de poca cobertura, particularmente en la 176 AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO zona rural, con implicaciones en la prevalencia infección por el VIH, como por ejemplo, la de enfermedades endémicas, entre otras. prostitución y deficiencias sanitarias, alto La infraestructura y la disponibilidad de índice de criminalidad y emigración ilegal recursos, fueron concentradas en las zonas para los países vecinos (África del Sur y urbanas, particularmente en la ciudad de Suazilandia). Maputo, capital del país. La economía era Poca cobertura y deficiente asistencia basada en la exportación de materia prima sanitaria. Estudios actuales indican, que buena bruta y de mano de obra barata para los países parte de los casos de infección por VIH en vecinos, como África del Sur. Hubo esfuerzos África Subsahariana, surgieron por falta de para revertir la situación, particularmente en cuidados seguros de salud. Si por un lado las el período post-independencia, que a pesar evidencias sugieren que Mozambique no sea de todo, no significaron, hasta hoy, grandes una excepción, por otro, a pobre y deficiente cambios. cobertura sanitaria contribuyó para que la Aliada a la herencia colonial, la guerra medicina tradicional fuese la solución para civil que se sintió inmediatamente después proveer y disponer más cuidados a la de la independencia, las reformas estruc- población. Las prácticas tradicionales, de uso turales introducidas en la economía a finales de objetos cortantes no esterilizados, sugieren de los años 80, como resultado de los cambios igualmente una fuente importante de riesgo. ideológicos en el mundo, entre otros factores Una baja cohesión social originada pro internos y externos, también contribuyeron las guerras y experiencias traumáticas que el para el contexto actual del país. De eso pueblo vivió (como aglomeraciones y tenemos como resultados, entre otros: dispersiones obligatorias), con implicaciones El establecimiento de tres regiones para la respuesta de la sociedad civil en su dominadas por tres principales corredores de capacidad de actuar colectivamente. Por otro transporte de gran movilidad poblacional así lado, algunos estudios sugieren, que existe una como de bienes. Las zonas, a lo largo de los relación entre el grado de orden en una corredores, presentan, sociedad y los patrones de relaciones consistentemente, las tasas más elevadas de sexuales entre grupos. En sociedades de VIH/SIDA, particularmente a aquellas de menor cohesión social, las personas son más mayor circulación. La zona de mayor propensas a tener parejas sexuales fuera de prevalencia en el país (la región central) es un su red de relaciones habitual, al contrario de corredor de transporte que tuvo relativa lo que sería en sociedades con una mayor operación aún durante la guerra civil. Después cohesión. En períodos de gran inestabilidad de terminada la guerra, hubo un gran flujo de económica y social, las estrategias de personas retornando al país con tasas sobrevivencia de las personas, pueden significativamente altas. Por otro lado, en la proporcionar rápidos cambios de parejas región sur, las altas tasas en la provincia de sexuales entre o dentro de determinados Gaza coinciden con la provincia de mayor grupos. Así, aún que por la actividad y situación, éxodo de población móvil (trabajo migratorio existan grupos más susceptibles a la para África del Sur). infección, la epidemia no podrá estar son los que Un desarrollo desigual entre la capi- concentrada en grupos específicos, sino que tal y el resto del país. La poca capacidad de la probablemente estará generalizada en toda capital de absorber y acoger la mano de obra la población. proveniente del éxodo rural, originó una Una pobreza generalizada como fac- confluencia de situaciones de riesgo a la tor base, asociada directa o indirectamente SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA 177 177 con los aspectos antes mencionados propio estado, necesitan de alguna (movilidad y aspectos socioculturales y forma de tratamiento y apoyo para coyunturales) y teniendo influencia en el prolongar sus vidas. comportamiento sexual (4) y en algunos Impacto: todas las formas de aspectos biomédicos (5) del individuo y de amortiguación necesarias, incluyendo ciertos grupos en la sociedad. La pobreza está cuidados y costos económicos y directamente asociada a estrategias de sociales, que en caso de no realizar sobrevivencias que deja más susceptibles a ninguna acción en ese momento, los la infección por VIH a ciertos grupos en la costos se tornan difíciles de ser sociedad. La presencia de otras ETS y la soportados en el futuro. capacidad de tratamiento y apoyo para prolongar la vida de los seropositivos se ven Las epidemias (de la infección, enfermedad afectadas por el contexto de poca cobertura y e impacto) de VIH/SIDA en la realidad se compor- de una asistencia sanitaria deficiente, tan como una catástrofe en cadena, en caso de que asociada, en parte, a la pobreza. medidas apropiadas de prevención primaria Las diferencias encontradas en el país (prevención de nuevas infecciones), prevención determinantes secundaria (tratamiento a los enfermos de SIDA) directas de la epidemia, como la pobreza. y prevención terciaria (amortiguación del impacto Aliada a ella, existen una serie de otros a los afectados e infectados, inversión en los factores como la gran movilidad, aspectos servicios básicos de salud y otros) no sean tomadas. sugieren que coyunturales existen (desorganización social, cuidados de salud inseguros) y aspectos socioculturales (religión, estructura social, Intervenciones necesarias de respuesta a la epidemia circuncisión, etc.) que pueden explicar las Esa percepción del problema, sugiere tendencias de la epidemia de VIH/SIDA en el un abordaje no solo centralizada en el país, algunos de esos funcionando como individuo, sino también en grupos de dinamizadores, aceleradores para una rápida individuos en la sociedad, que por diferentes propagación de la epidemia en ciertas razones, incluyendo la pobreza, gran regiones. Esos factores indirectos influen- movilización y otros, son más susceptibles a cian sobre los determinantes más directos la infección. Así, la respuesta tiene que ser de la infección por VIH, como el comporta- trabajada para largo plazo, abordando miento sexual y algunos de tipo biomédico. aspectos más estructurales como por ejemplo, la disponibilidad y el acceso a los Las tres dimensiones de la epidemia Al abordar la epidemia de VIH/SIDA en servicios sociales básicos, a la educación sanitaria y a la mejora de las condiciones de vida de la población en general. Mozambique, con tasas medias y altas de Si por un lado las intervenciones que prevalencia en la población adulta, el debate visan cambios de comportamiento con involucra tres dimensiones paralelas: mensajes sobre el uso de preservativo, 178 La infección por el VIH: el número de reducción de parejas, busca de los servicio de individuos para los cuales alguna testes y tratamientos de las ETSs entre otras, intervención de prevención tiene que continúan siendo importantes, también ellas ser realizada, deben estar relacionadas con otras interven- La enfermedad: número de personas ciones para mejorar la calidad de vida de las que, en determinado momento por su poblaciones ligadas a los servicios básicos AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO como, salud, educación y seguridad alimenticia. familias, huérfanos, trabajadores y empleadores. Las actividades definidas con cada uno De esa forma, la respuesta necesita ser de esos aliados sociales enfocan aspectos conjunta entre varias formas de la sociedad, diferenciados, teniendo en cuenta sus incluyendo las instituciones gubernamen- contextos y sus necesidades, pudiendo ser tales y de la sociedad civil. Es inherente al agrupados en diferentes formas de actuación. gobierno, además del desarrollo de políticas Actividades centralizadas en el que promuevan y faciliten las intervenciones comportamiento sexual (uso del preservativo, necesarias de repuesta y la garantía de su reducción de parejas sexuales, fidelidad, implementación, un fortalecimiento de las abstinencia) inversiones a largo plazo en áreas vitales de biomédicos (procura del tratamiento de las la salud, la educación y la seguridad social. Por ETSs, consejería y teste voluntario, biosegu- otro lado, la sociedad civil desempeña un ridad y cuidados domiciliares) son realizadas papel preponderante en el complemento de por 10 ONGs a nivel de base y en concordancia las acciones en las diversas áreas de con su especialidad de actuación, al mismo educación, apoyo y cuidados a nivel de base. tiempo que la unidad de implementación del y en algunos aspectos En ese contexto, es importante proyecto UPK de la FDC realiza actividades de expandir la capacidad de las instituciones/ información y sensibilización de las masas a organizaciones de la sociedad civil, operando través de los medios de comunicación masiva en conjunto con las comunidades para que y de diversos eventos. exista una implementación eficaz de las Paralelamente, los aliados para la actividades y que el desarrollo de las implementación movilizan a las comunidades comunidades y sus liderazgos sea la fuerza donde operan para una acción de respuesta eficaz motriz en la influencia de las decisiones y sobre los diferentes problemas que enfrentan, políticas de interés para esas comunidades. incluyendo el VIH/SIDA, al mismo tiempo que abordan aspectos culturales que promueven La respuesta de la FDC principales intervenciones comportamientos seguros o de riesgo, con la desigualdad de género. La FDC, a través de su unidad de SIDA y La FDC realiza acciones complemen- Desarrollo, ideó el proyecto Kuhluvuka tarias de sensibilización de la opinión pública Corredor de Esperanza (UPK) con intervención sobre el VIH en sus varias acciones de en el sur del país, priorizando 24 zonas a lo largo desarrollo existentes y de advocacy y lobby del corredor de transporte que establecen junto al gobierno e donadores para el conexión con otros países vecinos de África mejoramiento de la vida de las comunidades del Sur e Suazilandia, que se tienen como zo- alcanzadas, con el objetivo de garantizar nas de mayor propagación de la infección por condiciones básicas con relación a la salud, el VIH. seguridad alimentar y generación de renta. Las acciones abarcan todas las Las acciones más allá de las fronteras, comunidades y personas de las 24 zonas que tiene como objetivo esencial la coordi- seleccionadas de la región sur del país. Sin nación de acciones de prevención de la embargo, fueron identificados aliados transmisión del VIH y de apoyo a los infectados sociales prioritarios para el proyecto que y afectados entre el sur del país y los países incluye a jóvenes, mujeres, profesionales del vecinos en esa región, constituyen una sexo, mineros y sus familiares, militares, estrategia importante dada la gran movilidad enfermeros, personas viviendo con SIDA y sus de personas de y para los países vecinos. SIDA AIDS YE POBREZA POBREZA 179 179 Como estrategia general, la FDC Siguiendo aún en ese asunto, existe una apuesta en la capacitación de la sociedad civil débil coordinación, cooperación y referencia como forma de garantizar una respuesta de acciones complementarias de las efectiva de la problemática del desarrollo y diferentes áreas de desarrollo actuando en la del VIH, privilegiando la acción comunitaria, misma zona geográfica. El contexto de un en un proceso de transferencia e intercambio abordaje nacional de emergencia para el de capacidades y experiencias. combate al VIH/SIDA, centrado en el individuo, en parte influenciada por la política de los Constreñimientos y desafío donadores, constituye una limitación para la Existen constreñimientos y desafíos de respuesta agregada, una vez que otros varios tipos que limitan el abordaje concebido. interventores actuando en las mismas zonas La perspectiva de un proyecto y no de un que el proyecto Kuhluvuka presenta, de un programa con una duración de apenas tres modo general, abordajes diferentes para el años, es irreal para los resultados que se mismo público. propone. Esos incluyen resultados a largo Siendo así, la FDC toma el proyecto plazo, como el cambio de comportamiento, la Kuhluvuka como base para el inicio de un movilización y capacitación de la sociedad programa a más largo plazo, determinado por civil para una respuesta más eficaz al los datos esperados, cuyas acciones deben problema del VIH/SIDA y otros. La cultura de incluir, más allá de las intervenciones acciones esporádicas, poco coordinadas y propuestas en el campo, un fuerte concentradas en locales de fácil acceso en componente de advocacy y lobby con el detrimento de otras zonas más remotas, de objetivo de tener una mejor coordinación así las organizaciones que trabajan en esa área, como una mejor cooperación e integración de incluyendo las colaboraciones de implemen- otros aspectos de desarrollo entre los demás tación, exige un mayor esfuerzo en la que intervienen en la mejoría de la calidad de coordinación y acompañamiento de los vida de la población. mismos, que fue subestimado durante la concepción del proyecto. 180 AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARNETT, T. e WHITESIDE, A. AIDS in the twenty- first century disease and globalisation, Palgrave MacMillan, 2002 FUNDAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO DA COMUNIDADE. Projeto Kuhluvuka (versão final), 2000. GARRET, L. Betrayal of trust: the collapse of global public health. New York: Hyperion, 2000 HAWA R. AIDS in Africa: too little too late. http://wwwtwnside.org.sg./title/late.htm (em28/2/2003) MONJANE, P. Marketization of health care provision: analyzing urban and regional bias and implica tions for access by the poor. Master thesis, Insti tute of Social Studies, The Netherlands, 1999 MOZAMBIQUE CENSUS. II recenceamento geral da população e habitação. Instituto Nacional de Estatística, 1997 MPF. Pobreza e bem-estar em Moçambique: primeira avaliação nacional (1996-97), 1997, MPF/UEM/ IIPPA. OLAUGHLIN B. In defence of the household: Marx, Gender and the utilitarian impasse. ISS working paper series nr. 289, 1999a. PNUD. Relatório de desenvolvimento humano (RDH). PNUD Moçambique, 2000 WILKINSON, R. Unhealthy societies: the afflictions of inequality. London:Routledge, 1996 NOTAS (1) La pobreza, desde el reconocimiento de su complejidad conceptual y operativa, ha sido sujeta a varios abordajes. El concepto de pobreza, usado por profesionales e instituciones internacionales, ha reconocido cada vez más la naturaleza multidimensional de la misma. Sin embargo, su cuantificación para efectos operativos de delineamientos de políticas y comparación entre países se mantiene limitada a algunas dimensiones de pobreza. Tradicionalmente, la pobreza humanada es definida y cuantificada como la falta de acceso a bienes económicos (medido por la renta) y bajo nivel de consumo familiar. Auque esas dimensiones deben ser SIDA AIDSYEPOBREZA POBREZA consideradas, la realidad ha demostrado que ellas no capturan otras dimensiones de vulnerabilidad y privación como son la distribución de renta y/o el consumo dentro de la familia, la falta de acceso a la educación y a la salud, la seguridad, las independencia, el autoestima y las redes de obligaciones sociales que constituyen fuentes adicionales de consumo en momentos de crisis (MONJANE, 1999). La definición actual de pobreza humana usada por el Programa para el Desarrollo de las Naciones Unidas (UNDP) medido por el Índice de Pobreza Humana (HPI), aunque no sea extensivo, incluye ya importantes dimensiones básicas de privación humana como por ejemplo, la esperanza de vida, la falta de acceso a la educación, al agua y a la salud y el estado de salud. Los indicadores de pobreza en Mozambique son medidos por el nivel de consumo de los agregados familiares, por el nivel de rendimiento per cápita y por el HPI. Ambos, muestran altos niveles de pobreza en el país, en lo que se refiere a consumo, acceso (principalmente en lo referente a disponibilidad) la educación y salud, esperanza de vida y estado de salud. (2) Este concepto de vulnerabilidad está asociado a aspectos que aumentan la posibilidad de la epidemia tener un impacto serio en la organización social y económica, ya sea de las familias, de grupos de personas, de instituciones y otros. (3) El concepto de susceptibilidad se refiere a los aspectos que contribuyen para que un individuo tenga más probabilidad de infectarse con el VIH. (4)Los determinantes de riesgo, relacionados al comportamiento sexual incluyen: múltiplas parejas, tasa de cambio de parejas, prácticas sexuales y uso de preservativo. (5)Los determinantes de riesgo relacionados a los aspectos biomédicos incluyen: la presencia de otra ETS, la práctica de la circuncisión, las diferencias biológicas relativas al sexo, estadío de la infección y su subtipos de virus. 181 181 3 182 AIDS E DESENVOLVIMENTO Propriedade intelectual Intellectual Property Propiedad intelectual PROPRIEDADE INTELECTUAL 183 Panorama internacional contemporâneo do acesso a anti-retrovirais Michel Lotrowska Economista e mestre em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/FIOCRUZ) ([email protected]) 184 AIDS E DESENVOLVIMENTO O processo de globalização ficou cada vez mais evidente com os avanços das novas tecnologias de informação, dos meios de transporte e com o fim do bloco dos países comunistas. Neste mundo cada vez mais interdependente, as relações comerciais têm um lugar privilegiado entre as nações. Com a ideologia comunista derrotada em toda a ex-União Soviética e no Leste Europeu, o neoliberalismo expandiu sua ideologia para a maioria dos países do mundo, e a única opção de desenvolvimento oferecida para os países ditos em desenvolvimento foi entrar no grupo das nações neoliberais com abertura de mercados, reformas dos setores produtivos, incentivos para atrair investimentos estrangeiros e divisas, e endividamento externo como motor de desenvolvimento. Exportar constitui a fonte principal de divisas para a maior parte dos países em desenvolvimento. Aumentar a participação no comércio mundial tem sido o esforço de cada nação na sua luta para um desenvolvimento econômico que possa gerar desenvolvimento social, mais empregos e melhores condições de vida. É nesse contexto que as regras que regem o comércio internacional foram evoluindo após a Segunda Guerra Mundial, passando da Convenção de Paris aos acordos do General Agreement on Tariffs and Trade GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio), processo cujo auge da formalização foi a criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1996. A OMC e o Acordo TRIPS Em 1992, iniciou-se uma rodada de negociação internacional multilateral conhecida como Uruguay Round, que resultou na criação da OMC. Essa organização supranacional surgiu dotada de uma sede própria e de poderes de arbitragem sobre conflitos na área do comércio internacional. Para aderir à OMC, os países candidatos tiveram que concordar com um conjunto de acordos e tratados relacionados ao comércio de bens e serviços, assim como com o Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights, o Acordo TRIPS, sobre os aspetos PROPRIEDADE INTELECTUAL 185 relacionados ao comércio dos direitos de propriedade intelectual, que não diz respeito diretamente ao comércio, mas à defesa das questões relacionadas à propriedade intelectual. Desde que os países começaram a aderir à OMC, assinando o conjunto indissociável desses acordos, vem ocorrendo uma transformação espetacular das relações entre o bloco de países desenvolvidos e os países em desenvolvimento, processo que tem levado a uma nova configuração das relações comerciais e políticas, em que o poder das nações e o destino de bilhões de habitantes deste planeta estão se modificando. O Acordo TRIPS não estabelece apenas padrões mínimos de proteção para a questão de patente (trata também de copyright e de marcas comerciais), mas é justamente esse assunto que gera conseqüências importantes para o acesso a medicamentos nos países em desenvolvimento. A proteção da inovação tecnológica e industrial consolidou-se através do Acordo TRIPS, que legitima a concessão de um monopólio mínimo de 20 anos ao detentor de uma invenção, a fim de que se possa recuperar os pesados investimentos alocados em sua descoberta, sem que cópias venham a competir com sua inovação durante esse período. Dessa maneira, incentivam-se a pesquisa e o desenvolvimento (P&D) de novos produtos e de novos processos de produção em diversas áreas, como a de telecomunicações, de informática, de biotecnologia, de agricultura e de produtos farmacêuticos. Para os países desenvolvidos, esse mecanismo tem proporcionado muitos produtos inovadores, que beneficiaram a maior parte de sua sociedade, apesar do aumento de preço provocado pela criação de monopólios temporários para esses produtos (MSF, 2001). A implementação do Acordo TRIPS significou uma transformação importante na legislação de cada país, a fim de torná-la compatível com os padrões mínimos de proteção estipulados no acordo, assim como uma modificação das regras do jogo no campo da P&D. 186 AIDS E DESENVOLVIMENTO Período de adaptação Para permitir essa adequação, previu-se um período de adaptação das legislações nacionais aos princípios contidos no Acordo TRIPS. Os países considerados de baixa renda, segundo dados relacionados ao Produto Interno Bruto, tinham, inicialmente, até o dia 1º de janeiro de 2006 para adaptar suas legislações ao termo do acordo. Esse prazo estendeu-se para 2016, com a assinatura da Declaração de Doha, como veremos a seguir. Os países considerados de renda média tiveram até 1º de janeiro de 2000 para adaptar suas legislações nacionais aos conteúdos do Acordo TRIPS (TRIPS, art. 65.2), mas essa obrigatoriedade poderia ser adiada até janeiro de 2005, para alguns produtos estratégicos, como medicamentos, para os quais não havia o reconhecimento de patente quando o Acordo TRIPS foi assinado naquele país. Países como a Índia estão utilizando esse período para adaptar suas capacidades de P&D e continuam não concedendo patentes para inovações na área de medicamentos, o que permite à indústria de genéricos indiana copiar, até hoje, todos os medicamentos anti-retrovirais manufaturados nos países desenvolvidos. Por outro lado, países como o Brasil não utilizaram as possibilidades desse prazo maior para adequar sua capacidade de inovação e incorporaram, mais rapidamente do que o necessário, os princípios do Acordo TRIPS. Desde 1996, o Brasil adequou sua legislação para respeitar as leis de patentes, inclusive para medicamentos, categoria de produtos que não se beneficiava de patentes anteriormente. Promulgou-se, em 14 de maio de 1996, a Lei n° 9.279, chamada de Lei de Patentes, que regula as questões relativas à propriedade intelectual de produtos industrializados e o tempo de vigência (20 anos, em média) dos direitos exclusivos de produção e de comercialização de um produto patenteado (PASSARELLI, 2001). Esse mesmo Acordo TRIPS prevê exceções ao direito exclusivo concedido pela patente, mais conhecidas como salvaguardas, que podem ser incorporadas à legislação nacional para evitar que o monopólio concedido ao detentor de uma patente possa provocar danos à sociedade. PROPRIEDADE INTELECTUAL 187 A mais conhecida e controvertida dessas salvaguardas é a licença compulsória (TRIPS, art.31), que significa a utilização da invenção sem a autorização do detentor da patente. Essa licença compulsória pode ser utilizada em vários casos de práticas anticompetitivas, de emergência ou de extrema emergência, em caso de recusa de negociação, em caso de uso não comercial e de patente dependente (CORREA, 2000). A licença compulsória, conhecida no Brasil como quebra de patente, consiste na quebra temporária do monopólio concedido ao inventor de um produto, para que outro produtor possa desenvolvê-lo com preço mais baixo e abastecer o país. A importação paralela é outra salvaguarda que existe no Acordo TRIPS, mas não foi incorporada na legislação brasileira de propriedade industrial, que rege as questões de patentes. Trata-se da possibilidade de comprar em um país A um produto patenteado tanto nos países A e B, mas vendido por um preço mais alto no país B do que no país A. Não se trata da possibilidade de importar cópias, mas produtos do mesmo fabricante, vendidos, no entanto, a preços diferentes em dois países. Apesar dessas salvaguardas existirem no Acordo TRIPS, nem sempre foram traduzidas em legislações que as incorporaram e, mesmo quando isso ocorreu, não foram postas em prática. Até hoje, nenhuma licença compulsória foi utilizada por nenhum país em desenvolvimento. O Ministério da Saúde do Brasil já utilizou a ameaça da licença compulsória como mecanismo de negociação de preços com as empresas farmacêuticas transnacionais, mas ainda não utilizou as possibilidades para a produção local. Em 15 de fevereiro de 2001, o Poder Público Federal ameaçou conceder o licenciamento compulsório dos anti-retrovirais efavirenz (Merck Sharp&Dome) e nelfinavir (Roche), caso os laboratórios não reduzissem o preço desses medicamentos. A questão do uso da licença compulsória faz parte da agenda internacional como símbolo de um reequilíbrio necessário de poder entre as nações e as indústrias transnacionais. Numa perspectiva de que, até 2006, o comércio nos países 188 AIDS E DESENVOLVIMENTO de renda média será totalmente submetido ao conteúdo do Acordo TRIPS, com o mesmo ocorrendo, em 2016, para os países de baixa renda, a existência de uma licença compulsória eficiente, capaz de evitar abusos, fácil de ser utilizada pelas nações e em nome do bem de seus povos, é um desafio que não se pode perder. Conseqüências do TRIPS para o acesso a medicamentos Há um consenso mundial para afirmar que o principal elemento dificultador para o acesso a anti-retrovirais é o preço dos medicamentos num contexto de patentes vigentes (UNAIDS, 1998; OXFAM, 2001). A criação de monopólios de 20 anos para os produtos patenteados e a globalização dos mercados resultaram numa concentração cada vez maior das empresas em todos os setores de produção, inclusive no setor farmacêutico, que viveu, e ainda vive, modificações estruturais importantes. Grandes fusões e aquisições deixaram apenas algumas empresas transnacionais ocupando o mercado, tanto no campo da P&D de novos medicamentos, como no campo da comercialização do resultado dessas pesquisas. O mercado farmacêutico está dominado por uma estrutura oligopolítica que, associada a um aumento de proteção patentária, criou situações de preços altos numa visão de maximização de lucros. Essa situação significa um acesso a esses medicamentos-mercadorias limitado àqueles pacientes-consumidores com poder aquisitivo suficiente para comprá-los ou recebê-los, através de sistema de seguro saúde, público ou privado. Ou seja, boa parte da humanidade não se enquadra nesse caso e encontra-se excluída do mercado de medicamentos patenteados. A epidemia de AIDS revelou ao mundo, pelo viés dos antiretrovirais, como medicamentos essenciais para prolongar a vida não são acessíveis para a maior parte das pessoas convivendo com o HIV no mundo. O relatório do UNAIDS, de dezembro de 2002, revela números pessimistas em relação à epidemia de AIDS e ao acesso a medicamentos anti-retrovirais em países em desenvolvimento (UNAIDS, 2002): PROPRIEDADE INTELECTUAL 189 · 42 milhões de pessoas estão vivendo com HIV/AIDS · 5 milhões de pessoas contaminaram-se, em 2002 · 3,1 milhões de pessoas morreram de AIDS, em 2002 · Menos de 4% das pessoas que precisam de tratamento anti-retroviral nos países chamados de baixa e média renda conseguem tratamento · Menos de 10% das pessoas com HIV/AIDS têm acesso a cuidados paliativos ou a tratamento para doenças oportunistas · Mais de 45 milhões de pessoas vão se infectar pelo HIV, em 126 países de baixa e média renda, até 2010 (além de 42 milhões existentes). A situação na África Sub-Saariana (UNAIDS, 2000) reflete o tamanho da crise da AIDS para esse continente: · 29,4 milhões, ou 70% das pessoas com HIV/AIDS, vivem na África SubSaariana · 3,5 milhões, ou 70% das novas infecções que ocorreram, em 2002, aconteceram na África Sub-Saariana · 2,4 milhões, ou 77% dos óbitos por AIDS, em 2002, aconteceram nessa parte do mundo · 3 milhões de crianças com menos de 15 anos estão vivendo com HIV/ AIDS nessa região · 95 milhões de pessoas vão morrer de AIDS nos próximos 12 anos. Uma estimativa conservadora da Organização Mundial da Saúde infere que, nos países em desenvolvimento, 6 milhões de pessoas precisam imediatamente da terapia anti-retroviral para salvar suas vidas (WHO, 2002). Patentes e incentivos para P&D de novos medicamentos Apesar do Acordo TRIPS sugerir, em vários de seus artigos, que ele favorece o desenvolvimento de inovações tecnológicas, a realidade tem sido diferente para os países em desenvolvimento. A proteção patentária para novos medicamentos implica a proibição de copiar esses medicamentos e de produzi-los, sob a forma de genéricos, durante o prazo mínimo de concessão da patente, que é de 20 anos, impedindo, assim, uma competição de mercado. 190 AIDS E DESENVOLVIMENTO Como a capacidade de P&D na maioria dos países em desenvolvimento é extremamente reduzida, a absorção de tecnologia nesses países, que acontecia principalmente pela engenharia reversa e pela produção de cópias genéricas ou similares, não pode mais se desenvolver. Apenas o uso de uma licença voluntária bem negociada, ou de uma licença compulsória, permitiria essa produção nacional antes do fim do prazo de concessão da patente. A indústria de cópia, a principal em países em desenvolvimento, não pode mais produzir cópias dos novos medicamentos patenteados e precisa rever sua política de desenvolvimento, pois está ameaçada com uma estagnação drástica da sua produção, para não dizer uma redução sensível dessa produção, nos próximos anos. Tendo em vista que a África representa apenas 1% do mercado mundial de medicamentos e a América Latina 7%, é fácil compreender por que nenhum medicamento novo foi e será desenvolvido para esses mercados residuais. Qualquer medicamento novo, desenvolvido nos países ricos, onde está localizada a maior parte das capacidades de P&D, sempre terá que satisfazer às expectativas de mercado da América do Norte, da Europa e do Japão, que agregam 80% do mercado mundial de medicamentos (MSF, 2001). Uma pesquisa realizada junto às maiores empresas farmacêuticas com capacidades de P&D mostrou que, nos últimos 25 anos, apenas 1% dos medicamentos inovadores no mundo foi desenvolvido para doenças que atingem, sobretudo, à população dos países em desenvolvimento, onde residem 80% da população mundial. No caso dos anti-retrovirais, o mercado principal para esses medicamentos encontra-se nos países desenvolvidos e é para os consumidores desses países que os medicamentos foram produzidos e estão trazendo um retorno financeiro significativo. O mercado é considerado, aqui, como um mercado de consumidores com poder aquisitivo, que podem pagar os preços unilateralmente impostos pelas potentes empresas farmacêuticas transnacionais. PROPRIEDADE INTELECTUAL 191 A configuração das necessidades de medicamentos em uma escala mundial é extremamente diferente da configuração do mercado. Com apenas 1% do mercado de medicamentos, a África representa uma carga de doença muito maior e, só no campo da AIDS, a diferença entre os 29,4 milhões de pessoas com HIV/ AIDS (que representam, aproximadamente, 70% do número de pessoas com HIV no mundo) e as dezenas de milhares de pessoas com acesso a medicamentos anti-retrovirais, exemplifica a discrepância entre a configuração do mercado e a configuração das necessidades de saúde. Reequilíbrio entre direitos das patentes e direitos dos pacientes A reação do filósofo Boaventura de Souza Santos à reunião do G8, em Gênova, em 2001, expressa a indignação de uma porção cada vez maior dos atores mundiais de um sistema globalizado, no qual o acesso a bens e serviços encontrase impossibilitado para uma grande parte da população mundial. Ele considera como hipócrita a posição do G8 em relação a pandemias como AIDS, malária e tuberculose: O G8 reconhece que essas doenças matarão 15 milhões de pessoas por ano, nos países menos desenvolvidos, mas insiste para que a produção de medicamentos mais baratos seja feita sem violação da propriedade intelectual. Boaventura critica abertamente a hegemonia dos interesses econômicos transnacionais num contexto de neoliberalismo extremo, que só busca o lucro e cria disparidades eticamente repugnantes entre ricos e pobres, que causam danos irreversíveis ao ambiente. Ele considera que o nascimento de milhares de ONGs e de redes de advocacia transnacionais significa a organização de uma resistência à globalização hegemônica, formulando a idéia comum que a dignidade humana é indivisível e só pode florescer em equilíbrio com a natureza e numa organização social que não se reduza a preços de mercado. (LIÇÕES, 2001) 192 AIDS E DESENVOLVIMENTO Em 1999, a ONG Médicos Sem Fronteiras criou a Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais. Essa iniciativa surgiu da constatação de que, cada vez mais, medicamentos necessários para o tratamento de pacientes não estavam disponíveis em países em desenvolvimento por causa de seu alto preço, incompatível com o poder aquisitivo, tanto da população, como dos governos desses países. Houve, também, uma constatação de que várias doenças infecciosas e tropicais, que atingem, em especial, à população dos países em desenvolvimento, não contam com medicamentos eficazes para tratar as pessoas acometidas por elas. Outras organizações, como Oxfam GB e Health Gap, já apontavam para o problema dos preços altos e o associavam à questão da implementação do Acordo TRIPS. Um alerta para os riscos do Acordo TRIPS para a questão dos medicamentos já tinha sido feito por vários pesquisadores dos países em desenvolvimento. Por exemplo: Bermudez (1992) já alertava, há dez anos, sobre os riscos do acordo para a saúde pública no Brasil: As seguintes constatações foram evidenciadas no que se refere às patentes, em absoluto desacordo com as alegações das empresas multinacionais: as patentes não incentivam o investimento em pesquisa nas subsidiárias em países em desenvolvimento; as patentes não interferem na decisão do empresário sobre o investimento; as patentes representam um monopólio e favorecem a formação de trustes; as patentes não servem à revelação de segredos em tecnologia; as patentes podem provocar, por causa do monopólio, preços maiores, riscos no abastecimento, eliminação da concorrência, criação de mercados cativos, maior remessa de divisas e desigual distribuição da renda nacional; as patentes beneficiam exclusivamente as empresas que controlam o mercado de tecnologia. (p 73-74) PROPRIEDADE INTELECTUAL 193 Essas constatações estão de acordo como a análise da ONG Médicos Sem Fronteiras, que mostra que apenas 3% das patentes depositadas no mundo provêm de empresas ou indivíduos residentes em países em desenvolvimento. Estima-se, também, que 80% das patentes depositadas em países em desenvolvimento pertençam a empresas ou a indivíduos residentes em países desenvolvidos (MSF, 2001). A crise de saúde pública desencadeada pela AIDS e a emergência de medicamentos inovadores,patenteáveis e eficazes para salvar e prolongar a vida serviram de pano de fundo para mostrar a fragilidade do poder de barganha das nações em desenvolvimento frente aos gigantes do setor farmacêutico. A luta brasileira O Brasil foi um dos primeiros países a enfrentar os Estados Unidos para conseguir preços mais eqüitativos, visando combater a epidemia de AIDS. A ameaça da licença compulsória e as possíveis retaliações comerciais por parte dos Estados Unidos mostraram o poder das transnacionais farmacêuticas e o apoio incondicional do governo norte-americano a essas corporações, que possuem orçamentos maiores do que o PIB da maioria dos países em desenvolvimento. Entretanto, a questão emblemática, que realmente alertou o mundo para o fato de que havia uma situação injusta e errada no sistema de comércio mundial, foi a queixa dos laboratórios farmacêuticos na África do Sul, onde, em 2001, estimava-se em 29% a prevalência de HIV/AIDS em mulheres grávidas com idade entre 20 e 24 anos (UNICEF et al, 2001). Em maio de 2001, 39 empresas farmacêuticas entraram com uma ação contra o governo sul-africano para impedi-lo de realizar importações de antiretrovirais genéricos. Frente às fortes reações da sociedade civil organizada e com medo de manchar sua imagem, os laboratórios finalmente retiraram a queixa (GALVÃO, 2002). Contudo, o braço de ferro entre a indústria farmacêutica transnacional e os interesses dos beneficiários continua e resultou em várias outras ações. 194 AIDS E DESENVOLVIMENTO Em 19 de janeiro de 2001, um pedido oficial dos Estados Unidos solicitou a abertura de uma painel na OMC contra o Brasil, por considerar que o inciso 1º,do parágrafo 1º, do artigo 68, da Lei nº 9.279/1996, violava o artigo 27.1, do Acordo TRIPS: Ensejam , igualmente, licença compulsória: I a não exploração do objeto da patente no território brasileiro por falta de fabricação ou fabricação incompleta do produto, ou, ainda, a falta de uso integral do processo patenteado, ressalvados os casos de inviabilidade econômica, quando será admitida a importação... (VIANA, 2002) Após uma luta intensa, em 25 de junho de 2001, os Estados Unidos retiraram sua queixa contra o Brasil na OMC, talvez motivados, também, pelo contra-ataque do Brasil, em 4 de abril, durante uma reunião de consulta Brasil-EUA, no âmbito do Sistema de Solução de Controvérsias da OMC. Nessa reunião, o Brasil questionou os artigos 203, 204 e 209 da legislação de patentes dos EUA, praticamente o equivalente do artigo brasileiro, objeto da queixa americana. Uma grande vitória intermediária do Brasil foi a aprovação, em 23 de abril de 2002, pela Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), da resolução brasileira que define acesso aos medicamentos como questão de direitos humanos. Foram 52 votos a favor e uma abstenção, justamente a dos EUA (VIANA, 2002). Vários outros acontecimentos permearam essa luta de poder durante os últimos dois anos e pode-se afirmar que se constituíram em anos de luta para o reequilíbrio entre as forças presentes, além de privilegiar os direitos dos pacientes e reduzir a santidade dos direitos das patentes. No caso do Brasil, as barreiras do acesso em relação aos preços altos dos medicamentos anti-retrovirais têm sido enfrentadas pelas autoridades nacionais de maneira bem diferente das de outros países em desenvolvimento. A relação PROPRIEDADE INTELECTUAL 195 de poder entre o governo brasileiro e os poderosos detentores de patentes farmacêuticas e seus aliados está num processo que tende um pouco mais para o equilíbrio das forças de negociação. Declaração de Doha Em novembro de 2001, uma negociação liderada pelo Brasil, junto com mais de 50 países em desenvolvimento, permitiu a assinatura de um acordo na reunião interministerial da OMC, em Doha, para uma flexibilização do Acordo TRIPS quando a questão da saúde pública está presente, sem que haja ameaças de sanções comerciais ou retaliações. A Declaração da Organização Mundial do Comércio sobre o Acordo TRIPS e a Saúde Púbica, conhecida como Declaração de Doha, foi assinada por todos os países signatários da OMC e estipula, sem equívocos, que o direito do paciente tem prioridade sobre o direito de patente. Nessa declaração, a licença compulsória foi reforçada como mecanismo indispensável e legítimo para aumentar o acesso a medicamentos, e o uso desse instrumento não ficou apenas restrito (no campo da saúde pública) a situações de emergência, urgência nacional, ou a doenças específicas como a AIDS. A Declaração de Doha é um documento fundamental para garantir a ampliação do direito à saúde e do acesso a medicamentos, mas não conseguiu resolver o problema dos países em desenvolvimento, que não possuem capacidade de produção própria de medicamentos. Nesse caso, como seria possível a produção, a partir da licença compulsória? Uma empresa farmacêutica de outro país deveria ter autorização para produzir cópias do medicamento de marca para o mercado interno do país que emitiu a licença compulsória. Como pode haver uma patente protegendo o medicamento em questão no potencial país produtor, a situação complica-se. Essa questão foi deixada em aberto na Declaração de Doha que, em seu parágrafo 6, pede que, até o final de 2002, uma resposta seja dada pelo Conselho TRIPS a esse vazio regulatório. 196 AIDS E DESENVOLVIMENTO Dois artigos no Acordo TRIPS podem ser usados como base para essa produção em outro país, os de número 30 e 31(f). Os debates internacionais são intensos sobre essa questão, e o Brasil lidera uma proposta apoiada pela maior parte das ONGs que trabalha com esse tema (MSF, Oxfam GB, Health GAP etc.), para que uma solução simples, baseada no artigo 30 do Acordo TRIPS, seja adotada (BRIDGES, 2002). Até que o impasse seja resolvido, fica impossível, para um país sem capacidade de produção de medicamentos, utilizar a licença compulsória. Até fevereiro de 2003, as negociações falharam e a questão continua sem solução aceitável. Os Estados Unidos querem limitar o escopo de doenças que poderiam se beneficiar dessa solução para produzir medicamentos sob licença compulsória. Assiste-se, portanto, a uma negociação única, na qual a Organização Mundial da Saúde (OMS) seria um arbítrio designado pela OMC para definir o escopo das doenças que poderiam se beneficiar da licença compulsória, dentro do espírito da declaração de Doha. Evidentemente, essa transferência de poderes nacionais para a OMC e essas restrições não se aplicariam aos países desenvolvidos, que poderiam, soberanamente, continuar a escolher quando, como e para qual doença querem utilizar o mecanismo da licença compulsória. A solução dessa crise condicionará o acesso de milhões de pessoas a medicamentos essenciais para salvar suas vidas. Riscos dos acordos regionais de comércio para o acesso a medicamentos A Declaração de Doha representa um avanço considerável para a saúde pública dos países em desenvolvimento. No entanto, existe um risco importante de se retroceder à situação anterior, devido, sobretudo, à negociação de acordos regionais de livre comércio, que querem reforçar as discussões sobre questões de propriedade intelectual. Na África Ocidental, 16 países assinaram, em 1977, um acordo regional chamado Acordo de Bangui. Uma revisão desse acordo aconteceu em 1999, para adequá-lo às exigências do Acordo TRIPS, incluindo regras mais restritivas de propriedade intelectual. Com o novo acordo, as importações paralelas só poderiam ser feitas a partir de países signatários. Além disso, há fortes restrições PROPRIEDADE INTELECTUAL 197 sobre o uso da licença compulsória e uma impossibilidade de implementar os avanços de Doha, a partir dessas restrições. Doze desses 16 países são classificados como de baixa renda e teriam até 2016 para adequar suas legislações ao Acordo TRIPS. No entanto, com a assinatura do acordo revisado de Bangui, todos os países têm que respeitar as regras definidas no Acordo TRIPS, além das regras mais restritivas do Acordo de Bangui revisado. Gavin (2002) aponta para o aumento de preço dos medicamentos antiretrovirais no Burkina-Faso (signatário do Acordo de Bangui), onde não existe mais a possibilidade de importar genéricos. Em abril de 2002, nesse país, uma terapia tripla composta de zidovudina + lamivudina + efavirenz custava US$ 1.230, enquanto uma versão genérica da mesma terapia custava US$ 642. Essa e outras comparações de preços de medicamentos essenciais mostram como os limites impostos à importação paralela; o reconhecimento, antes do prazo estabelecido pelo Acordo TRIPS, da propriedade intelectual em cada país; assim como as restrições ao uso da licença compulsória, podem ameaçar o acesso a medicamentos a preços acessíveis às populações desses países (GAVIN, 2002). Nas Américas, a negociação da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), iniciada, oficialmente, em 1998, sob a liderança dos Estados Unidos,representa uma ameaça concreta aos avanços conseguidos com a Declaração de Doha. Uma análise das propostas dos Estados Unidos em relação às questões de propriedade intelectual revela uma restrição maior para uso da licença compulsória, uma extensão do prazo de patentes e a supressão da possibilidade de importação paralela (BOULET&COHEN, 2002). Essas medidas, conhecidas como TRIPS +, estão no contra-senso dos resultados alcançados em Doha e são rejeitadas pelos negociadores brasileiros. Existe também a proposta norte-americana para que os dados referentes a produtos patenteados não sejam publicados durante cinco anos. Dessa maneira, a fórmula básica que permite à Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), através do Instituto Far-Manguinhos, de proceder à engenharia reversa de um medicamento sob patente, seria absolutamente sigilosa durante cinco anos. Para que o 198 AIDS E DESENVOLVIMENTO medicamento seja investigado e reproduzido, através da engenharia reversa, haveria uma dificuldade suplementar, já que nem o Far-Manguinhos, nem qualquer outro órgão público teria acesso a dados referentes ao produto patenteado durante o prazo de cinco anos. Por enquanto, é a engenharia reversa que permite ao laboratório público Far-Manguinhos desenvolver a fórmula dos medicamentos patenteados para que sejam calculados os custos de produção e negociados a preços justos, compatíveis com o orçamento do Ministério da Saúde e respeitando uma margem de lucro razoável para as empresas farmacêuticas. Tendo a fórmula dentro de um laboratório público, a ameaça de uma licença compulsória surte melhores efeitos para a negociação de preço com as empresas farmacêuticas transnacionais. Caso entrassem em vigor as medidas propostas pelos Estados Unidos para a ALCA, esse instrumento fundamental de negociação do governo brasileiro não poderia mais ser utilizado, enfraquecendo bastante o seu poder de negociação frente às multinacionais farmacêuticas. Os riscos da ALCA, em relação ao acesso a medicamentos, são extremamente preocupantes e não podem ser menosprezados pelos segmentos sociais brasileiros envolvidos com a saúde pública. É notório que os acordos de comércio visam, principalmente, aumentar os mercados para as exportações. Alguns setores produtivos acham que o Brasil pode ganhar novos mercados na agricultura e na indústria, por exemplo, negociando um acordo regional do tipo ALCA. No entanto, há de se reconhecer que, na maioria das negociações, existe uma reciprocidade na concessão de benefícios e será certamente necessário oferecer alguma coisa em troca desses novos mercados. Existe risco de que as propostas norte-americanas, mais restritivas em relação à propriedade intelectual, sejam uma moeda de troca para se conseguir esses novos mercados de exportação, o que poderia ser dramático, a médio e longo prazos, para a saúde pública brasileira, e poderia ter um impacto negativo na política de acesso a medicamentos essenciais e, em particular, a antiretrovirais. Não podendo mais negociar os preços de medicamentos sob patentes, os custos disparariam e, dentro de um orçamento limitado governamental, não se poderia assegurar com facilidade um acesso universal e gratuito aos antiretrovirais patenteados. PROPRIEDADE INTELECTUAL 199 Conferência de Barcelona: conclusões e desafios A 14a Conferência Internacional de AIDS, realizada em Barcelona, no ano de 2002, sintetizou o espírito vigente na maioria dos segmentos sociais e econômicos envolvidos na pandemia de AIDS. A questão do tratamento com anti-retrovirais foi o tema central da conferência e, ao contrário da conferência anterior, realizada em 2000, em Durban (África do Sul), todos os atores pareceram concordar que o acesso a medicamentos anti-retrovirais deve ser ampliado nas regiões mais afetadas pela pandemia, sobretudo na África Sub-Saariana. As mais de três milhões de vítimas fatais estimadas da pandemia, em 2002, foram lembradas inúmeras vezes, e a pressão sobre os laboratórios farmacêuticos transnacionais foi tremenda, sobretudo por parte de grupos como ACT-UP, que chegaram a destruir os estandes de determinadas companhias. No entanto, os debates relativos à questão do financiamento de programas de HIV/AIDS com tratamento anti-retroviral, assim como a questão da compra de formulações genéricas mais baratas, não levaram a conclusões otimistas. As iniciativas lançadas há dois anos para melhorar o acesso não surtiram os efeitos desejados: a Accelerated Access Initiative (Iniciativa para Acesso Acelerado AAI), por exemplo, lançada em maio de 2000, pelo UNAIDS, em parceria com outras agências da ONU (OMS, FNUAP, UNICEF), Banco Mundial e cinco companhias farmacêuticas (Boehringer Ingelheim, Bristol Myers Squibb, Glaxo Smith Kine, Merck & Co. e Hoffman La Roche), foi criada na crença de que forneceria, aos países em desenvolvimento, um acesso a medicamentos ao preço mais baixo possível. Também acreditava-se que forneceria apoio técnico para a implementação de programas nacionais de acesso a medicamentos para tratamento da AIDS. A realidade da AAI, no entanto, é que as grandes corporações estabelecem as regras e oferecem descontos apenas a compradores selecionados. Em conseqüência, muitos países continuam tendo um acesso extremamente restrito aos anti-retrovirais. Por isso, em 24 meses de existência, a AAI não conseguiu abastecer mais do que 0,1% das pessoas vivendo com AIDS (UNAIDS/WHO, 2002), além de oferecer preços duas a três vezes superiores aos da maioria dos medicamentos genéricos correspondentes. 200 AIDS E DESENVOLVIMENTO Além do mais, para conseguir tais preços, exceto o caso da Merck, que tem uma política clara, as outras companhias fazem longas negociações individuais com cada governo, preenchendo os contratos com cláusulas restritivas em relação ao uso e à questão de patentes. Durante uma sessão satélite organizada pelo UNAIDS e pela OMS, esses procedimentos foram duramente criticados por ONGs como Médicos Sem Fronteiras, Health GAP e ACT-UP, que sugeriram que as companhias farmacêuticas transnacionais estão se aproveitando dessa parceria com instituições internacionais e utilizando o AAI para manter seus monopólios e limitar a redução de preço sobre os anti-retrovirais. (ANEMA, 2002). O caso do nelfinavir foi emblemático no que diz respeito à falta de política clara de preço eqüitativo por parte das empresas multinacionais: desde que o Brasil (país de renda médio) ameaçou com o licenciamento compulsório a Companhia Roche para que baixasse drasticamente o preço do nelfinavir, o preço anual do tratamento obteve uma redução importante, e custa ao governo brasileiro, aproximadamente, US$ 2.350 por ano por paciente. No entanto, a melhor oferta internacional para os países menos desenvolvidos era, até setembro de 2002, de US$ 2.700. Somente o poder de negociação do Ministério da Saúde do Brasil conseguiu um preço melhor do que qualquer iniciativa construída para abastecer os países mais pobres do mundo. Como exemplo, a companhia vende, para a Ucrânia (país de renda média, como o Brasil), o Viracept (nelfinavir), pelo preço anual de US$ 7.110, enquanto na Suíça o medicamento custa US$ 6.169. Pior: um fornecedor da matéria-prima da Roche, em Portugal, ofereceu a matéria-prima do nelfinavir a uma empresa genérica por um preço de US$ 700 a US$ 900 por kilograma. Por esse preço, qualquer empresa de genéricos produziria o medicamento finalizado pelo preço aproximativo de US$ 1.350 por ano e ainda lucraria. A opacidade dos custos de produção reais e dos custos de P&D desses produtos impede qualquer diálogo com bases transparentes para negociações embasadas em dados efetivos. Em fevereiro de 2003, após anos de denúncias da prática de preço incoerente, a Roche, finalmente, cedeu às pressões e criou uma estratégia de preço diferenciada para países de baixa renda e de renda média. PROPRIEDADE INTELECTUAL 201 A dificuldade do Fundo Global para AIDS, Tuberculose e Malária em arrecadar fundos foi outra nota pessimista da conferência. Apesar de estimar-se que, para um enfrentamento efetivo à AIDS nos países em desenvolvimento, seriam necessários US$ 10 bilhões anuais, apenas um quinto desse valor foi prometido até agora e menos de um terço foi liberado. Ou seja, nenhum projeto, até hoje, recebeu um centavo do Fundo Global, e as perspectivas de conseguir agregar mais fundos, numa época em que a luta contra o terrorismo prima sobre todas as outras lutas nos países desenvolvidos, parecem reduzidas. O recente anúncio pelo presidente norte-americano, George W. Bush, de uma ajuda de US$ 10 bilhões para o combate à AIDS, foi recebida com satisfação por todos. Sobretudo, destacando a menção ao tratamento com anti-retrovirais como uma necessidade urgente em toda a África. No entanto, apenas 10% desse financiamento passariam pelo Fundo Global de Luta para AIDS, Malária e Tuberculose, inicialmente criado pelos Estados Unidos. O resto do orçamento seria utilizado em programas de ajuda bilateral, raramente eficientes. Custo x efetividade A relação custo-benefício tem sido a grande vilã internacional da falta de acesso aos anti-retrovirais no mundo em desenvolvimento. Boa parte das agências internacionais de cooperação e desenvolvimento, assim como dos economistas da saúde de renome internacional, apoiou, durante anos, a tese segundo a qual, dentro de uma lógica de orçamento limitado e de estruturas de saúde enfraquecidas, a terapia anti-retroviral não era custo-efetiva em relação à prevenção. Pode-se mostrar como exemplo o documento do Banco Mundial chamado HIV/AIDS no Caribe, publicado em 2001, e objeto de uma apresentação durante o Grupo Caribense de Cooperação para o Desenvolvimento Econômico (CGCED), com a presença de primeiros-ministros, ministros das Finanças e outros tomadores de decisão. Esse documento foi distribuído, em julho de 2002, em Barcelona, durante uma conferência satélite organizada pelo UNAIDS para discutir a AIDS no Caribe. Sobre a questão do acesso a anti-retrovirais, o documento faz as seguintes ressalvas: 202 AIDS E DESENVOLVIMENTO O custo das novas terapias a preços ocidentais de US$ 1.000 por mês por paciente é proibitivo para a maior parte das pessoas infectadas pelo HIV nesses países. Além do mais, mesmo que novas drogas possam às vezes ser encontradas, não há oferta contínua e consistente. Por esse motivo, médicos em países em desenvolvimento estão às vezes com receio de prescrever novas drogas. (WORLD BANK, 2001, p.34). Quando esse documento foi editado, já existiam medicamentos antiretrovirais genéricos mais baratos no mercado, mas não se menciona esse fato no texto. A descontinuidade do tratamento e o medo das resistências são argumentos sempre levantados para não se oferecer anti-retrovirais nos países em desenvolvimento. O documento ainda menciona: Muitos observadores insistiram que a mera redução de preço dos medicamentos anti-AIDS não vai resolver a crise internacional da AIDS. Por exemplo, Tom Coates, diretorexecutivo da Universidade da Califórnia no Instituto de Pesquisa de AIDS em São Francisco, concorda que se medicamentos são introduzidos na população, mas não em quantidades suficientes, essa política poderia ser desastrosa, deixando as pessoas mais doentes, em vez de deixá-las em melhor estado, e aumenta a possibilidade do desenvolvimento do HIV resistente. (WORLD BANK, 2001, p. 34). Esse tipo de ideologia ainda está muito presente nos organismos internacionais e universidades dos países desenvolvidos, que têm tendência em basear suas recomendações no fato de não haver bastante dinheiro e orçamento para desenvolver programas de prevenção e de tratamento. Portanto, o tratamento tem que ser sacrificado em nome da maior custo-efetividade da prevenção. Mais recentemente, um artigo publicado na revista científica The Lancet, em junho de 2002, pouco antes da Conferência de Barcelona, insiste, mais uma vez, no fato de que, mesmo com o preço de uma terapia anti-retroviral passando PROPRIEDADE INTELECTUAL 203 de US$ 12.000/ano para US$ 350/ano, o orçamento do Fundo Global para AIDS, Tuberculose e Malária será melhor utilizado (no caso da AIDS) no campo exclusivo da prevenção e cuidados paliativos do que gastando parte desse dinheiro com tratamento anti-retroviral. Partindo do objetivo de minimizar os anos de vida perdidos (Disability Adjusted Life-Years - DALYS), os autores chegam à conclusão de que a prevenção é 28 vezes mais custo-efetiva do que o tratamento e, mais uma vez, considerando um orçamento cronicamente subfinanciado, os autores chegam à conclusão de que a prevenção tem que ser priorizada numa situação de uso racional do pouco dinheiro disponível. A ideologia subjacente a esse artigo não é neutra, como os autores pretendem convencer os leitores. Parte do princípio de que o orçamento é, e sempre será, muito limitado, e as necessidades, gigantescas. Essa ideologia também não considera as externalidades positivas, a médio prazo, do uso da terapia anti-retroviral. Cálculo que o Brasil tenta fazer e apresentar ao resto do mundo. Sem entrar em detalhe nessa questão que mereceria um aprofundamento muito maior, existem sérias dúvidas, por parte dos estudiosos mais conservadores dos temas econômicos da AIDS, em relação aos números otimistas levantados pelo Brasil e apresentados sob a forma de economias, feitas através da nãointernação e do não-adoecimento dos usuários de anti-retrovirais. O benefício econômico e social de ficar com uma população produtiva e capaz de sustentar seus filhos e suas famílias nem entrou no cálculo do Ministério da Saúde e, muito menos, nos cálculos de custo-efetividade até agora apresentados para justificar o não tratamento com anti-retrovirais da maior parte das pessoas HIV positivas deste planeta. Economias fundamentais à sociedade No entanto, as economias são inúmeras. O fato de não ter de cuidar de órfãos porque os pais podem trabalhar e cuidar dos seus próprios filhos é um ganho social e econômico fundamental para a sociedade. Os custos associados à perda de profissionais de saúde e de educação são dramaticamente altos nos países sem acesso amplo a anti-retrovirais, onde esses profissionais já são raros. 204 AIDS E DESENVOLVIMENTO O enviado especial do secretário-geral das Nações Unidas relata alguns números impressionantes, colhidos durante a sua última viagem à África. Na Zâmbia, 1.967 professores morreram em decorrência da AIDS, em 2001, e mais de 2 mil professores, em 2002. Enquanto isso, menos de mil professores formam-se a cada ano no país. No Malawi, estima-se que mais de 30% dos professores estão com HIV/AIDS (LEWIS, 2003). Formar e treinar novos profissionais custará caro aos países que deixaram suas populações produtivas sem tratamento com anti- Os próprios agentes de prevenção à AIDS, tão fundamentais para qualquer programa de enfrentamento dos estigmas e das crenças associadas à epidemia, são geralmente oriundos da população infectada pelo HIV/AIDS que consegue manter uma qualidade de vida, através da terapia anti-retroviral. retrovirais. Essa população é, geralmente, muito mais motivada para atuar como agente de prevenção na sua comunidade, e a sinergia entre prevenção e tratamento é grande. O programa piloto com medicamentos anti-retrovirais de Médicos Sem Fronteiras, na África do Sul, confirma essa sinergia. Esses ganhos não fazem parte dos cálculos de custo-efetividade apresentados pela maioria dos economistas que definem as prioridades no campo da luta contra a AIDS. Essa contextualização internacional é fundamental para entender que, no ano de 2002, o chamado mundo em desenvolvimento está excluído, em sua maior parte, do acesso às terapias anti-retrovirais, apesar de nele viver o maior número de pessoas com HIV no mundo. Nessa perspectiva, o Brasil é considerado pelos outros países do mundo em desenvolvimento como um exemplo viável de enfrentamento efetivo do HIV/ AIDS. Estima-se que, até o final de 2002, aproximadamente 230 mil pessoas tinham acesso a medicamentos anti-retrovirais no conjunto dos países em desenvolvimento. Desse total, a metade vivia no Brasil e utilizava-se dos medicamentos disponibilizados pelo Programa Nacional de DST/AIDS (WHO, 2002). PROPRIEDADE INTELECTUAL 205 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEMA, A. XIV International AIDS Conference in Barcelona (July 7-12,2002): turn passion into action!, 2002 (disponível no escritório de Médicos Sem Fronteiras em Genebra, Departamento de Comunicação) BERMUDEZ, J. Remédios: saúde ou indústria? A produção de medicamentos no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992 BOULET, P. &COHEN, R. Negociações de propriedade intelectual na ALCA e o acesso aos remédios: enfraquecendo conquistas da Declaração da OMC sobre o Acordo TRIPS e a saúde pública. Rio de Janeiro: MSF, 2002 BRIDGES Weekly Trade News Digest. TRIPS extension for LDCs on pharmaceutical patents. Vol. 6, nº 25, 3/7/2002 . www.ictsd.org/weekly/02-07-03/story1.htm CORREA, C.M.Intellectual property rights, the WTO and developing countries: the TRIPS Agree ment and policy options. Londres, Nova York, Malásia: Zed Books, Third World Network, 2000. GALVÃO, J. 1980-2001: uma cronologia da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: ABIA, 2002 GAVIN,C. 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Washington, 2001 206 AIDS E DESENVOLVIMENTO THE CURRENT INTERNATIONAL SCENARIO OF ACCESS TO ANTIRETROVIRALS Michel Lotrowska Economist and Master in Public Health from the National School of Public Health of the Oswaldo Cruz Foundation (ENSP/FIOCRUZ) ([email protected]) The process of globalization has become more and more evident with the breakthroughs of new information technology, means of transportation and the end of the communist bloc. In this ever-more interdependent world, trade relations occupy a privileged place among nations. With the overthrow of the communist ideology throughout the former Soviet Union and Eastern Europe, the ideology of neoliberalism to most of the countries in the world and the only option of development offered to the so-called developing countries was to join the group of the neoliberal nations with their open markets, reformed productive sectors, incentives to attract foreign investments and currencies, in addition to external debt as the driving force behind development. Exporting is the main source of currency for most o f the so-called developing countries. Increasing participation in world trade has been the effort of each country in its striving to enjoy economic development capable of generating social development, more jobs and better living conditions. This is the context in which the rules governing international trade were shaped after the second world war, moving ahead from the Paris Convention to the agreements contained in the General Agreement on Tariffs and Trade GATT, the process that eventually led to the establishment of World Trade Organization (WTO) in 1996. PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL INTELLECTUAL The WTO and the TRIPS Agreement In 1992 a round of multilateral international negotiations began known as the Uruguay Round, which resulted in the establishment of the WTO in 1996. This supranational organization was born endowed with its own headquarters and powers of arbitration on disputes in the area of international trade. To join the WTO, countries had to agree to a set of agreements and treaties related to the commerce of goods and services, as well as to the Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights: the TRIPS Agreement, which does not deal directly with trade but rather with defending questions related to intellectual property. Since countries began to join the WTO, by signing this indissoluble set of agreements, a spectacular change has been taking place in the relations between the bloc of developed countries and the so-called developing countries, a process that has led to a new configuration of commercial and political relations that is modifying the power of nations and the destiny of billions of inhabitants of this planet. The TRIPS Agreement not only sets forth minimum standards of protection for the question of patents (it also deals with copyright and trademarks), but it is precisely on this point that it bears impor tant consequences concerning access to medicine in developing countries. The protection of technological and industrial innovation was consolidated by the 207 207 TRIPS Agreement, which legitimizes the concession of a minimum monopoly of 20 years to the holder of an invention, so that the substantial investment spent on the discovery can be recovered without copies appearing to compete with the innovation during that period of time. In this way, incentive is given to research and development of new products and new production processes in many areas, such as telecommunications, information technology, biotechnology, agriculture and pharmaceutical products. For the developed countries, this mechanism has brought many innovative products to benefit most of their society, despite the higher prices as a result of temporary monopolies being set up for these products (MSF, 2001). The implementation of the TRI PS Agreement meant an important transformation in each countrys legislation in order to make it compatible with the minimum standards of protection stipulated in the agreement, as well as a change in the rules of the game in the field of research and development. Period of adaptation In order to permit this arrangement, a period was provided for national legislations to adapt to the principles contained in the TRIPS Agreement . The so-called low-income countries (according to data related to the Gross National Product) had initially until January 1, 2006 to adapt their legislations to the terms of the agreement. This deadline was prolonged until 2016 with the signing of the Doha Declaration, as we shall see below. The countries classified as middleincome had until January 1, 2000 to adapt their national legislations to the provisions of the TRIPS Agreement (TRIPS, art. 65.2), but this obligatoriness could be postponed until January 2005 for certain strategic products (such as medicine) whose patents were not recognized when the TRIPS Agreement was signed in that particular country. 208 Countries like India are using this period to adapt their research and development capacity and are still not conceding patents for innovations in the area of medication, which enables the Indian generics industry to copy all the antiretroviral medicine manufactured in the developed countries. On the other hand, countries like Brazil did not make use of the possibilities allowed by this extended timeframe to adjust their capacity to innovate and incorporated the principles of the TRIPS Agreement faster than they needed to. Since 1996, Brazil has adapted its legislation to respect the patents law, even for medicine, a category of products that formerly did not benefit from patents. Law 9.279, called the Patents Law, was enacted on 14 May 1996 to rule on the questions related to the intellectual property of industrialized products and the length of validity (20 years on average) of the exclusive rights of production and commercialization of a patented product (PASSARELLI, 2001). This same TRIPS Agreement provides for exceptions to the exclusive right conceded for the patent (better known as safeguards), which may be incorporated to the national legislation to prevent the monopoly granted to the holder of a patent from causing any damage to society. The best known and most controversial of these safeguards is the compulsory license (article 31 of the TRIPS Agreement), which means the use of an invention without the authorization of the patent-holder. This compulsory license may be resorted to in certain cases of anti-competitive practices, emergency or extreme emergency, or refusal to negotiate in the case of non-commercial use of a dependent patent (CORREA, 2000). The compulsory license, known in Brazil as breach of patent, consists of the temporary breach of the monopoly granted to the inventor of a product so that another producer can develop it at a lower price and thus supply the country. Parallel importing is another safeguard provided for in the TRIPS Agreement, AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT but this was not incorporated into the Brazilian legislation on industrial property, which rules on patents matters. This deals with the possibility of buying in country A a product patented both in countries A and B but sold in country B at a higher price than in country A. This is not a matter of the possibility of importing copies but rather products of the same manufacturer sold at different prices in two different countries. Although these safeguards exist in the TRIPS Agreement, they have not always been translated into legislations that have incorporated them, and even when this has happened, they have not been put into practice. So far, no compulsory license has been used in any developing country. The Brazilian Ministry of Health has already made use of the compulsory-license threat as a mechanism to negotiate prices with transnational drug companies, but has yet to make use of the possibilities for local production. On 15 February 2001 the Federal Public Prosecutors Office threatened to grant compulsory licensing of the antiretrovirals Efavirenz (Merck Sharp&Dome) and Nelfinavir (Roche) if the laboratories failed to lower the price of these medicines. The question of the use of compulsory license is part of the international agenda as a symbol of a necessary re-balancing of power between countries and transnational corporations. According to the perspective that by the year 2006 trade in the middle-income countries will betotally submitted to the provisions of theTRIPS Agreement, and the same applying in 2016 to the lower-income countries, the existence of an efficient compulsory license that is capable of curbing abuses and is easy to use by nations on behalf of the welfare of their people is a challenge that cannot be ignored. The consequences of TRIPS for access to medication A worldwide consensus claims that the main obstacle against access to antiretroviral medicines is their price in a context of patents in effect (UNAIDS, 1998; OXFAM, 2001). INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL The establishment of 20-year monopolies for patented products and the globalization of markets have resulted in an increasingly greater concentration of companies in all sectors of production, including pharmaceutics, which has undergone and is still undergoing major structural changes. Large measures and takeovers left only a few transnational companies occupying the market both in the area of R&D of new medicine and in the field of commercialization of the result of such research. The pharmaceutical market is dominated by an oligopolic structure which, together with increased patent protection, leads to situations of high prices aimed at maximizing profits. This situation means that access to this medication-merchandise is limited to those patient- consumers with enough buying power to buy or receive them via a system of public or private health-insurance plans. In other words, the substantial portion of humanity that does not fit this case finds itself excluded from the market of patented medicine. The AIDS epidemic revealed to the world, from the bias of antiretoviral medicines, how medicine that is essential for prolonging life is not accessible to most of the people living with HIV throughout the world. The UNAIDS report of December 2002 contains pessimistic numbers as regards the AIDS epidemic and access to antiretroviral medication in developing countries (UNAIDS, 2002): 42 million people are living with HIV/ AIDS 5 million people were contaminated in 2002 3,1 million people died of AIDS in 2002 Less than 4% of the people who need antiretroviral treatment in the so-called low- and middle-income countries manage to get treatment Less than 10% of the people with HIV/ AIDS have access to palliative care or treatment of opportunistic diseases 209 209 More than 45 million people will become infected by HIV in 126 low- and middle-income countries by 2010 (in addition to the 42 million already infected). The situation in Sub -Saharan Africa (UNAIDS, 2000) reflects the size of the AIDS crisis on that continent: 29,4 million or 70% of the people with HIV/AIDS live in Sub-Saharan Africa 3,5 million or 70% of the new infections registered in 2002 occurred in SubSaharan Africa 2,4 million or 77% of deaths on account of AIDS in 2002 occurred in this part of the world 3 million children under the age of 15 are living with HIV/AIDS in this region 95 million people will die of AIDS in the next 12 years. A conservative estimate of the World Health Organization infers that in the developing countries there are 6 million people in immediate need of antiretroviral therapy to save their lives (WHO, 2002). Patents and incentives for R&D for new medications Although some of the articles of the TRIPS Agreement suggest that it favors the development of technological innovations, the reality has been quite different in the case of the developing countries. Patent protection for new medicines entails the prohibition of copying these medications and producing them in the form of generics during the minimum period of concession of the patent, which is 20 years, thus preventing market competition for these products. Since the research and development capacity in most developing countries is extremely low, the absorption of technology in these countries, principally by means of reverse engineering and the production of generic copies or similar products, is no longer feasible. Only the use of a well-negotiated volunteer 210 210 license or a compulsory license would allow this national production before the end of the validity period of the concession of the patent. The copies industry, which is the principal industry in the developing countries, can no longer produce copies of the new patented medicines and must review its development policy, which is menaced by a drastic stagnation of production, not to say a significant reduction of this production over the next few years. Bearing in mind that Africa represents a mere 1% of the world market of medicines and Latin America 7%, it is easy to understand why no new medication has been or will be developed for these residual markets. Any new medication that is developed in the rich countries where most of the R&D capacity is located will always have to satisfy the market expectations of North America, Europe and Japan, which together account for 80% of the world medications market (MSF, 2001). A survey carried out with the biggest pharmaceutical companies with R&D capacity showed that over the last 25 years only 1% of the innovating medicine in the world was developed for diseases that especially afflict the population of the developing countries, where 80% of the world population lives. In the case o f antiretrovirals, the principal market for such medicine is to be found in the developed countries, and it is for the consumers of these countries that the medicine was produced and is yielding a significant financial return. Here the market is considered as a market of consumers with buying power who can pay the prices that are unilaterally levied by the powerful transnational drug corporations. The configuration of the need for medication on the world scale is extremely different from the configuration of the market. With only 1% of the market for medicine, Africa represents a much bigger disease load and in the field of AIDS alone the difference between AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT the 29, 4 million people with H IV/AIDS (amounting to approximately 70% of the number of people with HIV in the world) and the dozens of thousands of people with access to antiretroviral medications exemplifies the discrepancy between the market configuration and that of the health needs. Re-balancing patent rights and patients rights The reaction of philosopher Boaventura de Souza Santos to the G8 meeting in Genoa in 2001 expresses the indignation of an evergrowing portion of the world actors of a globalized system in which access to goods and services is made impossible for a large part of the worlds population. He sees hypocrisy in the position of the G8 vis-à-vis pandemics like AIDS, malaria and tuberculosis: The G8 recognizes that these diseases will kill 15 million people a year in the less developed countries, yet still insists that the production of cheaper medicines should not violate intellectual property. Boaventura openly criticizes the hegemony of transnational economic interests in a context of extreme neoliberalism that is geared exclusively towards profit, creates ethically repugnant disparities between rich and poor and causes irreversible harm to the environment. He holds that the bir th of thousands of NGOs and transnational advocacy networks points to an organization of resistance to hegemonic globalization, formulating the common idea that human dignity is indivisible and can only flourish in equilibrium with nature and in a social organization that is not reduced to market prices. (LIÇÕES, 2001) In 1999 the NGO Doctors without Frontiers set up the Campaign for Access to Essential Medicine. This initiative arose from the realization that medicinesto treat patients were becoming less and less available in developing countries on account of their high prices, which were incompatible with the buying power both of the population and the governments of these countries. There was also the realization that many infectious and tropical diseases that especially INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL affect the population of developing countries do not have efficacious medications available to treat the people afflicted by them. Other organizations, such as Oxfam GB and Health Gap, already underscored the problem of high prices and linked this to the question of implementation of the TRIPS Agreement. An alert to the risks of the TRI PS Agreement on the question of medications had already been sent out by many researchers concerned with developing countries. For example: ten years ago, Bermudez (1992) alerted the public as to the risks of the agreement for public health in Brazil: The following was observed with regard to patents, in total disagreement with the allegations of the multinational corporations: patents do not stimulate investments in research in the subsidiaries in developing countries; patents do not interfere in the businessmans decision regarding investment; patents represent a monopoly and favor the formation of trusts; patents do not serve to reveal secrets in technology; because of the monopoly, patents can cause higher prices, supply risks, elimination of competition, creation of captive markets, greater remission of foreign currencies and unequal distribution of national income; patents benefit exclusively the companies that control the technology market. (p. 73-74) These affirmations are in keeping with the analysis made by the NGO Doctors without Frontiers, which shows that only 3% of the patents deposited all over the world come from companies or individuals residing in developing countries. It is also estimated that 80% of the patents deposited in developing countries belong to companies or individuals residing in developed countries (MSF, 2001). The public-health crisis triggered by AIDS and the emergence of innovating medicines that can be patented and are effective in saving and prolonging life served as a backcloth to show the fragility of the bargaining power of developing nations before the giants of the pharmaceutical sector. 211 211 The Brazilian struggle Brazil was one of the first countries to face the United States on the issue of fairer prices to combat the AIDS epidemic. The threat of compulsory licensing and possible trade retaliation on the part of the United States showed the power of the pharmaceutical transnational corporations and the unconditional support of the United States government for these groups, which have larger budgets than most developing countries. However, the emblematic question that really awoke the world to the fact that there was an unjust and mistaken situation in the world trade system was the complaint of the pharmaceutical laboratories in South Africa, where it was estimated in 2001 that the prevalence of HIV/AIDS in pregnant women aged 20-24 years old was 29% (UNICEF et al, 2001). In May 2001, 39 drug companies placed a lawsuit against the South-African government to stop it from importing generic anti-retrovirals. In the face of strong reactions from organized civil society and the fear that their image would be sullied, the laboratories eventually withdrew the complaint (GALVÃO, 2002). However, the arm-wrestling between the transnational pharmaceutical industry and the interests of the beneficiaries goes on and has resulted in many other lawsuits. On 19 January 2001, the United States made an official request to open a panel in the WTO against Brazil, because it considered that clause 1 of paragraph 1 of article 68 of Law 9.279/1996 was in violation of article 27.1 of the TRIPS Agreement: A compulsory license is also required in the following situation: I non-exploitation of the object of the patent in the Brazilian territory for non- manufacture or incomplete manufacture of the product, or else the nonintegral use of the patented process, except in cases of economic unfeasibility, when importing will be admitted ... (VIANA, 2002) After an intense fight, on 25 June 2001 the United States withdrew its complaint 212 212 against Brazil at the WTO, perhaps also motivated by Brazils counter-attack on 4 April during a consultation meeting between the United States and Brazil in the sphere of the WTO System of Dispute Settlement. At this meeting, Brazil questioned articles 203, 204 and 209 of the United States legislation on patents, which is practically the same as the Brazilian article that caused the complaint. A great intermediate victory for Brazil was the approval on 23 April 2002 by the Human Rights Commission of the United Nations of the Brazilian resolution defining access to medication as a matter of human rights. There were 52 votes for and one abstention: the United States (VIANA, 2002). A series of other events has characterized this struggle during the last few years, and it may be asserted that these have been years dedicated to efforts towards rebalancing the forces present, besides privileging patients rights and reducing the sanctity of patent rights. In the case of Brazil, the barriers to access due to the high prices of anti-retroviral medicine have been faced by the government in a manner different from other developing countries. The power relations between the Brazilian government and the powerful holders of pharmaceutical patents and their allies are part of a process that tends slightly more towards the equilibrium of the forces of negotiation. The Doha Declaration In November 2001, negotiations led by Brazil together with over 50 developing countries ended in the signing of an agreement at the interministerial meeting of the WTO in Doha to make the TRIPS Agreement more flexible whenever public health is in question, without any threats as to trade sanctions or retaliations. The Declaration of the World Trade Organization on the TRIPS Agreement and Public Health, known as the Doha Declaration, was signed by all the signatory countries of the AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT WTO and unequivocally stipulates that patients rights bear priority over patent rights. This declaration reinforced compulsory licensing as an indispensable and legitimate mechanism for increasing access to medication, and the use of this instrument was not restricted in the field of public health to just emergency situations, national urgency or specific diseases such as AIDS. The Doha Declaration is a fundamental document for guaranteeing extending the right to health and access to medication, but is has not succeeded in solving the problem of developing countries, which lack the capacity to produce their own medicines. In this case, how could production be possible, in view of the compulsory license? A foreign pharmaceutical company should have the authorization to produce copies of the trademark medicine for the internal market of the country issuing the compulsory license. Since there can be a patent protecting the medicine in question in the potential producer country, the situation becomes complicated. This question was left open in the Doha Declaration, paragraph 6 of which requests that this regulatory lacuna be given an answer by the TRIPS Council by the end of 2002. Two articles in the TRIPS Agreement 30 and 31(f) - can be used as a basis for this production in another country. The international debates on this matter are intense and Brazil leads a proposal supported by most NGOs that work in this area (MSF, Oxfam GB, Health GAP and so on) so that a simple solution based on article 30 of the TRIPS Agreement can be adopted (BRIDGES, 2002). Until such time as the impasse is settled, it is impossible for a country lacking the capacity to produce medicine to make use of the compulsory license. Negotiations failed as far as February 2003 and the question remains without an acceptable solution. The United States wants to limit the scope of diseases that could benefit from this solution to produce medication under compulsory license. INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL What is being witnessed, therefore, is a single negotiation in which the WHO is an arbiter designated by the WTO to define the scope of the diseases that could benefit from the compulsory license within the spirit of the Doha Declaration. Of course, this transfer of national powers to the WTO and these restrictions would not apply to developed countries, which could go on sovereignly choosing when, how and for which disease they want to use the compulsory-license mechanism. The settlement of this crisis will determine the access of million of people to medicines that are essential for saving their lives. Risks of the regional trade agreements for access to medication The Doha Declaration represents a considerable step ahead for public health in developing countries. Nevertheless, there is a serious risk of regressing to the previous situation, mostly due to the fact that negotiations on regional free-trade agreements want to reinforce discussions on intellectual property. In Western Africa in 1977, 16 countries signed a regional agreement called the Bangui Agreement. A revision of this agreement took place in 1999 to adjust it to the demands of the TRIPS Agreement, including ore restrictive rules on intellectual property. According to the new agreement, parallel imports could only be made from signatory countries. In addition, there are strong restrictions as to the use of compulsory licenses; based on these restrictions, it is impossible to implement the advances approved at Doha. Twelve of these 16 countries are classified as low-income and have until 2016 to adjust their legislations to the TRI PS Agreement. However, with the signing of the revised Bangui agreement, all countries must respect the rules defined in the TRI PS Agreement, besides the more restrictive rules of the revised Bangui Agreement. 213 213 Gavin (2002) points to the increase in the price of antiretroviral medicine in Burkina-Faso (a signatory of the Bangui Agreement), where it is no longer possible to import generics. In this country in April 2002, a triple therapy composed of Zidovudina + Lamivudina + Efavirenz cost US$ 1,230, whereas a generic version of the same therapy cost US$ 642. This and other comparisons of prices of essential medications show how the limits imposed on parallel imports, the recognition of intellectual property in each country before the deadline set by the TRIPS Agreement, and the restrictions on the use of the compulsory license, can menace the access to medicine at prices accessible to the population of these countries (GAVIN, 2002). Within the Americas the negotiations for the Free Trade Area of the Americas (FTAA), which began officially in 1998 under the leadership of the United States, represent a concrete threat to the advances achieved with the Doha Declaration. An analysis of the proposals of the United States with regard to questions of intellectual property reveals greater restriction on the use of compulsory license, an extension of the timeframe for patents and suppression of the possibility of parallel impor ts (BOULET&COHEN, 2002). These measures, known as TRIPS +, run counter to the results achieved in Doha and are rejected by the Brazilian team of negotiators. There also exists the North American proposal that data on patented products not be published for five years. Accordingly, the basic formula that allows the Oswaldo Cruz Foundation (FIOCRUZ), through the FarManguinhos Institute, to perform reverse engineering on a medicine under patent would be kept absolutely secret for five years. In order for the medicine to be investigated and reproduced through reverse engineering, there would be an additional difficulty, since neither Far-Manguinhos nor any other public body would have access to data on the patented product for five years. 214 214 For the time being, it is reverse engineering that enables the Far-Manguinhos public laboratory to develop the formula of the patented medicine so that the production costs can be calculated and negotiated at prices that are fair and compatible withthe budget of the Ministry of Health,while also and at the same time respecting a reasonable margin of profit for the drug companies. Having the formula in a public laboratory, the threat of a compulsory license bears better effects for negotiating prices with transnational pharmaceutical corporations. Should the measures proposed by the United States for the FTAA come into effect, this fundamental instrument of negotiation for the Brazilian government could no longer be used, which would considerably weaken the governments power of negotiation before the multinational drug companies. The risks of FTAA as far as access to medicine is concerned are extremely worrisome and must not be underestimated by the segments of Brazilian society involved in public health. It is well known that trade agreements aim chiefly at expanding markets for exports. Some productive sectors feel that Brazil stands to win new markets in agriculture and industry, for example, by negotiating an FTAA-type regional agreement. But it must be understood that most negotiations contain a reciprocity clause on granting benefits, so it will certainly be necessary to offer something in exchange for these new markets. There is a risk that the United States proposals, which are more restrictive as regards intellectual property, amount to an exchange currency in order to win these new export markets, which could be dramatic for Brazils public-health sector in the middle and long term and could have a negative impact on the policy of access to essential medication, and in particular antiretrovirals. If the prices of medicine under patent can no longer be negotiated, costs would soar and within a limited governmental budget there would be no easy guarantee of free and universal access to the patented antiretrovirals. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT The Barcelona Conference: conclusions and challenges The 14th International AIDS Conference held in Barcelona in 2002 was a synthesis of the prevailing spirit in most of the social and economic segments involved in the AIDS pandemic . The issue of treatment with antiretrovirals was the core theme of the conference and, unlike the previous conference held in Durban, South Africa, in 2000, all the sectors seemed to agree that access to antiretroviral medication should be increased in the regions most affected by the pandemic, principally in Sub-Saharan Africa. The estimated more than three million fatal victims of the pandemic in 2002 were remembered over and over again and the pressure on the transnational pharmaceutical laboratories was tremendous, especially on the part of groups such as ACT-UP, who went as far as to destroy the stands of cer tain companies. Nonetheless, the debates on the question of financing for HIV/AIDS programs with antiretroviral treatment, as well as the question of buying cheaper generic formulations, failed to produce optimistic conclusions. The initiatives launched two years ago to improve access did not yield the desired effects: the Accelerated Access Initiative (AAI), for example, launched by UNAIDS in May 2000 in par tnership with several United Nations agencies (WHO, UNFPA, UNICEF), the World Bank Mundial and five drug companies (Boehringer Ingelheim, Bristol Myers Squibb, Glaxo Smith Kine, Merck & Co. and Hoffman La Roche), was set up in the belief that it could provide the developing countries with access to medicine at the lowest price possible. It was also believed that technical support could be provided to implement national programs for access to medicine for the treatment of AIDS. The reality of the AAI, however, is that the large corporations set the rules and offer discounts only to select buyers. Consequently, many countries still have extremely limited access to the antiretrovirals. That is why, in its INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL 24 months of existence, the AAI managed to supply no more than 0,1% of the people living with AIDS (UNAIDS/ WHO, 2002), besides offering prices two or three times higher than most of the corresponding generic medicines. Moreover, in order to obtain these prices (except in the case of Merck, which adopts a clear policy), the other companies engage in lengthy individual negotiations with each government and fill the contracts with restrictive clauses as to use and the question of patents. During one satellite session organized by UNAIDS and the WHO, these procedures were bitterly criticized by NGOs such as Doctors Without Frontiers, Health GAP and ACT-UP, which suggested that the transnational drug companies are taking advantage of the partnership with international institutions and using the AAI to maintain their monopolies and limit price reduction on antiretrovirals. (ANEMA, 2002). The case of Nelfinavir was symbolic in respect to the lack of a clear policy on fair prices on the part of the multinational companies: ever since Brazil (a middle-income country) threatened the Roche Company with compulsory licensing so that it would lower the price of Nelfinavir drastically, the annual price of treatment came down considerably, and now costs the Brazilian government approximately US$ 2,350 per year per patient. However, the best international offer for the less developed countries was US$ 2,700 until September 2002. Only the Brazilian Ministry of Healths power of negotiation managed to get a better price than any initiative devised to supply the poorer countries in the world. For example, the company sells Viracept (Nelfinavir) to Ukraine (a middle-income countries like Brazil) for the annual price of US$ 7,110, whereas in Switzerland the medicine costs US$ 6,169. Worse still: a Portuguese supplier of rawmaterial to Roche offered the raw-material for Nelfinavir to a generic company for the price of US$ 700-900 per kilo. For this price, any generics company would be able to produce the 215 215 finished medicine for the approximate price of US$ 1,350 per year and still make a profit. The opacity of real production and R&D costs of these products hinder any dialogue with transparent negotiating bases supported by actual data. In February 2003, after years of denunciations of practices of incoherent prices, Roche finally gave in to the pressures and came up with a strategy of differentiated prices for low- and middle-income countries. The difficult faced by the Global Fund for AIDS, Tuberculosis and Malaria in raising funds was another pessimistic note of the conference. Although it is estimated that an effective attach on AIDS in the developing countries would cost US$ 10 billion per year, only one fifth of this amount was promised up to now and less than a third released. In other words, so far no project has received a cent from the Global Fund and the outlook as far as gathering more funds is concerned - at a time when the fight against terrorism predominates over all the other struggles in the developed countries - seems desolate. The recent announcement by United States President George W. Bush of a US$ 10 billion contribution to the fight against AIDS was received by all with much satisfaction. Above all, the mention of treatment with antiretrovirals as an urgent necessity all over Africa. Nevertheless, only 10% of this financing would benefit the Global Fund for AIDS, Tuberculosis and Malaria, which was first set up by the United States. The rest of the budget would be used in bilateral-aid programs, which are hardly ever efficient. Cost x effectiveness The cost-benefit relation has proved to be the great international villain to blame for the lack of access to antiretrovirals in the developing world. A good number of the international agencies for cooperation and development, together with world-famous economists in the area of health have for years supported the thesis (using a logic of limited budget and weakened structures of the health 216 216 system) that antiretroviral therapy is not costeffective in respect to prevention. An example of this is the World Bank document published in 2001 called HIV/AIDS in the Caribbean and presented during the Caribbean Group for Cooperation on Economic Development (CGCED), with the presence of Prime-Ministers, Ministers of Finance and other decision-makers. This document was distributed in Barcelona in July 2002 during a satellite conference organized by UNAIDS to discuss AIDS in the Caribbean. On the issue of access to antiretrovirals, the document makes the following remark: The cost of the new therapies at Western prices of US$ 1,000 per month per patient is prohibitive for most of the people infected by HIV in these countries. Furthermore, even if new drugs can at times be found, there is no continuous and consistent supply. For this reason, doctors in developing countries are sometimes afraid to prescribe new drugs. (WORLD BANK, 2001, p.34). When this document was written, cheaper generic antiretroviral medicines already existed on the market, but this fact was omitted. Discontinuity of the treatment and fear of resistances are the usual arguments put forward for not offering antiretroviral medicines in developing countries. The document also states that: Many observers have insisted that merely lowering the price of the anti-AIDS medicine will not solve the international AIDS crisis. For example, Tom Coates, executive-director of the University of Californias AIDS Research Institute in San Francisco, agrees that if the medicine is introduced to the public, but not in sufficient quantity, this policy civil society can be disastrous, leaving the people worse rather than better and increasing the chances of developing a resistant HIV. (WORLD BANK, 2001, p. 34). This type of ideology is still very present in international organizations and universities in the developed countries, which tend to base their recommendations on the fact that there is not enough money and budget to develop AIDS DESENVOLVIMENTO AIDSE AND DEVELOPMENT programs for prevention and treatment. So treatment has to be sacrificed in the name of the greater cost-effectiveness of prevention. More recently, an article published in the scientific journal The Lancet in June 2002, just before the Barcelona Conference, emphasizes once more the fact that even with the price of antiretroviral therapy dropping from US$ 12,000/year to US$ 350/year, the budget of the Global Fund for AIDS, Tuberculosis and Malaria will be put to better use (in the case of AIDS) in the exclusive field of prevention and palliative care than spending part of this money on antiretroviral treatment. Using as a starting point the objective of minimizing the years of life lost (Disability Adjusted Life-Years - DALYS), the authors reach the conclusion that prevention is 28 times more cost-effective than treatment and, considering a chronically under-financed budget, once again they draw the conclusion that prevention has to be prioritized in a situation of rational use of the little money that is available. The ideology underlying this article is not neutral, for the authors are trying to convince their readers. The starting point is that the budget is and always will be very limited, and the needs gigantic. This ideology also fails to take into account the positive middle-run externalities of the use of antiretroviral therapy. A calculation that Brazil is trying to make and present to the rest of the world. Without going into details on the matter, which calls for far deeper treatment, there are serious doubts on the part of the more conservative observers of the economic aspects of AIDS with regard to the optimistic figures raised by Brazil and presented in the form of savings because the users of antiretrovirals are not hospitalized and do not fall ill. The economic and social benefit of having a productive population that is capable of supporting its children and families did not even enter the calculation made by the Ministry of Health and far less in the calculations of cost-effectiveness presented so far to justify not treating most of the HIV-positive people on the planet with antiretrovirals. INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL Fundamental savings for society Nonetheless, the savings are numerous. The fact of not having to care for the orphans because the parents can work and look after their own children is a fundamental social and economic gain for society. The costs associated with the loss of health and education professionals are dramatically high in countries without wide access to antiretrovirals, where these professionals are already scarce. The special envoy of the SecretaryGeneral of the United Nations reports some impressive statistics gathered during his last journey to Africa. In Zambia, 1,967 teachers died as a result of AIDS in 2001 and over 2,000 in 2002. At the same time, less than a thousand teachers graduate in the country each year. In Malawi it is estimated that more than 30% of the teachers have HIV/AIDS (LEWIS, 2003). Training new professionals will cost a lot to those countries that left their productive population without any antiretroviral treatment. The agents of AIDS prevention themselves, who are so crucial in any program that combats the stigmas and beliefs associated with the epidemic, usually come from the segment of the population infected by HIV/AIDS that manages to maintain some quality of living through antiretroviral therapy. This population is in general far more motivated to act as prevention agents in their community and there is great synergy between prevention and treatment. The Doctors Without Frontiers pilot-program with antiretroviral medicine in South Africa is a confirmation of this synergy. These gains do not enter the calculations of costeffectiveness presented by most economists who define the priorities in the field of the struggle against AIDS. This international contextualization is fundamental to understanding that in the year 2002 the so-calleddeveloping world is mostly excluded from access to antiretroviral therapies, despite the fact that the largest number of people with HIV in the world live there. 217 217 In this perspective, Brazil is considered by the other countries in the developing world as a workable example of how to combat HIV/ AIDS effectively. It is estimated that by the end of 2002, approximately 230,000 people had access to antiretroviral medicines in the group of developing countries. Half of this total lived in Brazil and used the medications made available by the National Program for STD/AIDS (WHO, 2002). BIBLIOGRAPHICAL REFERENCES ANEMA, A. XIV International AIDS Conference in Barcelona (July 7-12,2002): turn passion into action!, 2002 (available from the office of the Doctors Without Frontiers in Geneva, Communications Department) BERMUDEZ, J. Remédios: saúde ou indústria? A produção de medicamentos no Brasil. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992 BOULET, P.S. & COHEN, R. Negociações de propriedade intelectual na ALCA e o acesso aos remédios: enfraquecendo conquistas da Declaração da OMC sobre o Acordo TRIPS e a saúde pública. Rio de Janeiro: MSF, 2002 BRIDGES Weekly Trade News Digest. TRIPS extension for LDCs on pharmaceutical patents. Vol. 6, nº 25, 3/7/2002 . www.ictsd.org/weekly/ 02-07-03/story1.htm CORREA, C.M. Intellectual property rights, the WTO and developing countries: the TRIPS Agreement and policy options. London, New York, Malaysia: Zed Books, Third World Network, 2000. GALVÃO, J. 1980-2001: Uma cronologia da epidemia de HIV/AIDS no Brasil e no mundo. Rio de Janeiro: ABIA, 2002 GAVIN,C. 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Notes for press briefing, Noon, 8 January, United Nations, New York, 2003 218 218 AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT PANORAMA INTERNACIONAL CONTEMPORÁNEO DEL ACCESO A ANTI-RETROVIRALES Michel Lotrowska Economista y master en Salud Pública de la Escuela Nacional de Salud Pública de la Fundación Oswaldo Cruz (ENSP/FIOCRUZ) ([email protected]) El proceso de globalización se hizo cada vez más evidente con los avances de las nuevas tecnologías de información, de los medios de transporte y con el fin del bloque de los países comunistas. En este mundo cada vez más interdependiente, las relaciones comerciales tienen un lugar privilegiado entre las naciones. Con la ideología comunista derrotada en toda la ex-Unión Soviética y en el Este Europeo, el neoliberalismo expandió su ideología para la mayoría de los países del mundo y la única opción de desarrollo ofrecida a los países llamados en desarrollo fue entrar en el grupo de las naciones neoliberales con apertura de mercados, reformas de los sectores productivos, incentivos para atraer inversiones extranjeras y divisas, y endeudamiento externo como motor de desarrollo. Exportar constituye la principal fuente de divisas para la mayor parte de los países que se dicen en desarrollo. Aumentar la participación en el comercio mundial ha sido el esfuerzo de cada nación en su lucha por un desarrollo económico que pueda generar desarrollo social, más empleos y mejores condiciones de vida. Es en ese contexto que las reglas que rigen el comercio internacional fueron evolucionando después de la segunda guerra mundial, pasando de la Convención de París a los acuerdos de la General Agreement on Tariffs and Trade GATT (Acuerdo General sobre Tarifas y Comercio), proceso cuyo auge de la formalización fue la creación de la Organización Mundial de Comercio (OMC), en 1996. PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL La OMC y el Acuerdo ADPIC En 1992, se inició una rueda de negociación internacional multilateral conocida como Uruguay Round, que resultó en la creación de la OMC, en 1996. Es una organización supranacional surgió dotada de una sede propia y de poderes de arbitraje sobre conflictos en el área del Comercio internacional. Para adherir a la OMC, los países candidatos tuvieron que concordar con un conjunto de acuerdos y tratados relacionados al Comercio de bienes y servicios, así como con el ADPIC, el Acuerdo ADPIC, (Acuerdo de Aspectos de Derechos de Propiedad Intelectual relacionado con el Comercio), que no habla respecto al comercio directamente, pero sí, respecto a la defensa de las cuestiones relacionadas a la propiedad intelectual. Desde que los países comenzaron a adherirse a la OMC, firmando el conjunto indisociable de esos acuerdos, viene ocurriendo una transformación espectacular de las relaciones entre el bloque de países desarrollados y los mencionados países en desarrollo, proceso que ha llevado a una nueva configuración de las relaciones comerciales y políticas, en que el poder de las naciones y el destino de billones de habitantes de este planeta están modificándose. El Acuerdo ADPIC no establece sólo patrones mínimos de protección para la cuestión de patente (trata también de copyright y de marcas comerciales), pero es justamente ese asunto que genera 219 219 consecuencias importantes para el acceso a medicamentos en los países en desarrollo. La protección de la innovación tecnológica e industrial se consolidó a través del Acuerdo ADPIC, que legitima la concesión de un monopolio mínimo de 20 años al poseedor de una invención, a fin de que se puedan recuperar las pesadas inversiones hechas para lograr su descubrimiento sin que ninguna copia venga a competir con su innovación durante ese período. De esa manera, se incentiva la pesquisa y el desarrollo (P & D) de nuevos productos y de nuevos procesos de producción en diversas áreas, como la de telecomunicaciones, de informática, de biotecnología, de agricultura y de productos farmacéuticos. Para los países desarrollados, ese mecanismo ha proporcionado muchos productos innovadores, que beneficiaron a la mayor parte de su sociedad, a pesar del aumento de precio provocado por la creación de monopolios temporales para esos productos (MSF, 2001) La implementación del Acuerdo ADPIC significó una transformación importante en la legislación de cada país, a fin de tornarla compatible con los patrones mínimos de protección estipulados en el acuerdo, así como una modificación de las reglas de juego en el campo de P & D. Período de adaptación Para permitir esa adecuación, se previó un período de adaptación de las legislaciones nacionales a los principios contenidos en el Acuerdo ADPIC. Los países considerados de baja renta, según datos relacionados al Producto Interno Bruto, tenían, inicialmente, hasta el día primero de enero de 2006 para adaptar sus legislaciones al término del acuerdo. Ese plazo se extendió para 2016, con la firma de la Declaración de Doha, como veremos a seguir. Los países considerados de renta media tuvieron hasta el 1º de enero del 2000 para adaptar sus legislaciones nacionales a los contenidos del Acuerdo ADPIC ( art. 65.2), pero esa obligación podría ser postergada hasta 220 enero del 2005, para algunos productos estratégicos, como medicamentos, para los cuales no había reconocimiento de patente cuando el Acuerdo ADPIC fue firmado en aquel país. Países como India están utilizando ese período para adaptar sus capacidades de P&D y continúan no concediendo patentes para innovaciones en el área de medicamentos, lo que permite a la industria de genéricos de India copiar, hasta hoy, todos los medicamentos antirretrovirales manufacturados en los países desarrollados. Por otro lado, países como Brasil no utilizaron las posibilidades de ese plazo, para adecuar su capacidad de innovación e incorporaron, más rápido de lo necesario, los principios del Acuerdo ADPIC. Desde 1996, Brasil adecuó su legislación para respetar las leyes de patentes, inclusive para medicamen tos, categoría de productos que no se beneficiaba, anteriormente, de patentes. El 14 de mayo de 1996, se promulgó la ley N° 9.279, llamada Ley de Patentes, que regula las cuestiones relativas a la propiedad intelectual de productos industrializados y el tiempo de vigencia (20 años, en media) de los derechos exclusivos de producción y de comercialización de un producto patentizado (PASSARELLI, 2001). Ese mismo Acuerdo ADPIC prevé excepciones al derecho exclusivo concedido por la patente, más conocidas como salvaguardas, que pueden ser incorporadas a la legislación nacional para evitar que el monopolio concedido al poseedor de una patente pueda provocar daños a la sociedad. La más conocida y controvertida de esas salvaguardas es la licencia compulsoria (ADPIC, art. 31 ), que significa la utilización de la invención sin la autorización del poseedor de la patente. Esa licencia compulsoria puede ser utilizada en varios casos de prác ticas anticompetitivas, de emergencia o de extrema emergencia, en caso de rechazo de negociación, en caso de uso no comercial y de patente dependiente (CORREA, 2000) AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO La licencia compulsoria, conocida en Brasil como quiebra de patente, consiste en la quiebra temporal del monopolio concedido al inventor de un producto, para que otro productor pueda desarrollarlo con un precio más bajo y abastecer al país. La importación paralela es otra salvaguarda que existe en el Acuerdo ADPIC, pero no fue incorporada a la legislación brasileña de propiedad industrial, que rige las cuestiones de patentes. Se trata de la posibilidad de comprar en un país A, un producto patentizado tanto en los países A y B, pero vendido por un precio más alto en el país B de lo que en el país A. No se trata de la posibilidad de importar copias, más productos del mismo fabricante, vendidos, en él, -no obstante-, a precios diferentes en dos países. A pesar de que esas salvaguardas existen en el Acuerdo ADPIC, no siempre fueron traducidas en legislaciones que las incorporaron e incluso cuando eso ocurrió, no fueron puestas en práctica. Hasta hoy, ninguna licencia compulsoria fue utilizada por ningún país en desarrollo. El Ministerio de Salud de Brasil ya utilizó la amenaza de la licencia compulsoria como mecanismo de negociación de precios con las empresas farmacéuticas transnacionales, pero todavía no utilizó las posibilidades para la producción local. El 15 de febrero del 2001, el Poder Público Federal amenazó con conceder el licenciamiento compulsorio de los antirretrovirales Efavirenz (Merck Sharp &Dome) y Nelfinavir (Roche), en caso de que los laboratorios no redujeran el precio de esos medicamentos. La cuestión del uso de la licencia compulsoria hace parte de la agenda internacional como símbolo de un reequilibrio necesario de poder entre las naciones y las industrias transnacionales. Con la perspectiva de que, hasta 2006, el Comercio en los países de renta media, será totalmente sometido al contenido del Acuerdo ADPIC, con el mismo ocurriendo en el 2016, en los países de renta baja, la existencia de una licencia compulsoria eficiente, capaz de evitar abusos, fácil de ser PROPRIEDADE INTELECTUAL PROPIEDAD INTELECTUAL utilizada por las naciones y en nombre del bien de los pueblos, es un desafío que no se puede perder. Consecuencias del ADPIC para el acceso a medicamentos Hay un consenso mundial para afirmar que el principal elemento dificultador para el acceso a medicamentos antirretrovirales es el precio de los medicamentos en un contexto de patentes vigentes (UNAIDS, 1998; OXFAM, 2001) La creación de monopolios de 20 años para los productos patentizados y la globalización de los mercados tuvo como resultado una concentración cada vez mayor de las empresas en todos los sectores de producción, inclusive en el sector farmacéutico, que vivió, y aún vive, modificaciones estructurales importantes. Grandes fusiones y adquisiciones dejaron tan sólo algunas empresas transnacionales ocupando el mercado, tanto en el campo de P&D de nuevos medicamentos, como en el campo de la comercialización del resultado de esas investigaciones. El mercado farmacéutico está dominado por una estructura oligopolítica que, estando asociada a un aumento de la protección a patentes, creó situaciones de precios altos en una visión de maximización de lucros. Esa situación significa un acceso a esos medicamentos-mercancías limitado a aquellos pacientes-consumidores con poder adquisitivo suficiente para comprarlos o para recibirlos, a través de un sistema de seguro ya sea público o privado. O sea gran parte de la humanidad no se encuadra en este caso y se encuentra excluida del mercado de medicamentos patentizados. La epidemia del SIDA reveló al mundo a través de los medicamentos antirretrovirales, cómo algunos medicamentos esenciales para prolongar la vida no son accesibles a la mayor parte de las personas que conviven con el VIH en el mundo. El informe de ONUSIDA, de diciembre del 2002, revela números pesimistas con relación a la epidemia del SIDA y al acceso a 221 221 medicamentos antirretrovirales en los países en desarrollo (UNAIDS, 2002): 42 millones de personas están viviendo con VIH /SIDA 5 millones de personas se contaminaron, en 2002 3,1 millones de personas murieron de SIDA, en 2002 Menos del 4% de las personas que necesitan del tratamiento antirretroviral en los países llamados de baja y media renta consiguen tratamiento Menos del 10% de las personas con VIH /SIDA tienen acceso a cuidados paliativos o el tratamiento contra las enfermedades oportunistas Más de 45 millones de personas se infectarán con el VIH, en 126 países de baja y media renta, hasta 2010 (aparte de los 42 millones ya existentes) La situación en África Sub-Sahariana (UNAIDS, 2000) refleja el grado de la crisis del SIDA enese continente: 29,4 millones, ó 70% de las personas con el VIH /SIDA, viven en África Sub-Sahariana 3,5 millones, ó 70% de las nuevas infecciones que ocurrieron, en el 2002, fueron en África Sub-Sahariana 2,4 millones, ó 77% de los fallecidos por SIDA, en 2002, sucedieron en esa parte del mundo 3 millones de niños con menos de 15 años están viviendo con el VIH /SIDA en esa región 95 millones de personas van a morir de SIDA en los próximos 12 anos. Un estimado conservador de la Organización Mundial de la Salud infiere que, en los países en desarrollo, 6 millones de personas necesitan inmediatamente de la terapia antirretroviral para salvar sus vidas (WHO, 2002) Patentes e incentivos para P&D de nuevos medicamentos A pesar de que el Acuerdo ADPIC sugiere, en varios de sus artículos, que él favorece el 222 222 desarrollo de innovaciones tecnológicas, la realidad ha sido diferente para los países en desarrollo. La protección de patentes de nuevos medicamentos implica la prohibición de realizar copias de esos medicamentos y producirlos, bajo la forma de genéricos, durante el plazo mínimo de concesión de la patente, que es de 20 años, impidiendo así, la competencia de mercado con esos medicamentos. Como la capacidad de P & D en la mayoría de los países en desarrollo es extremadamente reducida, la absorción de tecnología en esos países, que se daba principalmente por la ingeniería reversa y por la producción de copias genéricas o similares, ya no puede desarrollarse. Sólo el uso de una licencia voluntaria bien negociada, o de una licencia compulsoria, permitiría esa producción nacional antes del fin del plazo de concesión de la patente. La industria de la copia, la principal en países en desarrollo, no puede producir ya más copias de los nuevos medicamentos patentizados y necesita revisar su política de desarrollo, pues está amenazada con una paralización drástica en su producción, por no decir una reducción sensible de esa producción, en los próximos años. Teniendo en cuenta que África representa tan sólo el 1% del mercado mundial de medicamentos y América Latina el 7%, es fácil comprender porque ningún medicamento nuevo fue ni será desarrollado para esos mercados residuales. Cualquier medicamento nuevo, desarrollado en los países ricos, donde está localizada la mayor parte de las capacidades de P & D, siempre tendrá que satisfacer las expectativas de mercado de América del Norte, de Europa y Japón, que agregan un 80% del mercado mundial de medicamentos (MSF, 2001) Una investigación realizada junto a las mayores empresas farmacéuticas con capacidades de P & D mostró que, en los últimos 25 años, sólo el 1% de los medicamentos innovadores en el mundo fue desarrollado para enfermedades que atacan, sobre todo, a la AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO población de los países en desarrollo, donde reside el 80% de la población mundial. En el caso de los antirretrovirales, el mercado principal de esos medicamentos se encuentra en los países desarrollados y es para los consumidores de esos países que los medicamentos fueron producidos y están llevando un retorno financiero significativo. Ese mercado es considerado, aquí, como un mercado de consumidores con poder adquisitivo, que pueden pagar los precios unilateralmente impuestos por las potentes empresas farmacéuticas transnacionales. La configuración de las necesidades de medicamentos a escala mundial es extremadamente diferente a la configuración del mercado. Con apenas el 1% del mercado de medicamentos, África representa una carga de enfermedad mucho mayor, sólo en el campo del SIDA, la diferencia entre los 29,4 millones de personas con VIH/SIDA (que representan, aproximadamente, el 70% del número de personas con VIH en el mundo) y las decenas de millares de personas con acceso a medicamentos antirretrovirales, ejemplifica la discrepancia entre la configuración del mercado y la configuración de las necesidades de Salud. Reequilibrio entre los derechos de las patentes y los derechos de los pacientes La reacción del filósofo Boaventura de Souza Santos a la reunión del G8, en Génova, en el 2001, expresa la indignación de una parte cada vez mayor de los actores mundiales en un sistema globalizado, en el cual el acceso a bienes y servicios se encuentra imposibilitado para una gran parte de la población mundial. Él considera como hipócrita la posición del G8 con relación a pandemias como el SIDA, la malaria y la tuberculosis: El G8 reconoce que las enfermedades matarán a 15 millones de personas por año, en los países menos desarrollados, pero insiste en que la producción de medicamentos más PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL baratos sea hecha sin violación de la propiedad intelectual. Boaventura critica abiertamente la hegemonía de los intereses económicos transnacionales en un contexto de neoliberalismo extremo, que sólo busca el lucro y crea disparidades éticamente repugnantes entre ricos y pobres, que causan daños irreversibles al ambiente. Él considera que el nacimiento de millares de ONGs y de redes de abogacía transnacionales significa la organización de una a la globalización hegemónica, formulando la idea común de que la dignidad humana es indivisible y sólo puede florecer en equilibrio con la naturaleza y en una organización social que no se reduzca a precios de mercado. (LIÇÕES, 2001) En 1999, la ONG Médicos sin Fronteras creó una campaña de acceso a medicamentos esenciales. Esa iniciativa surgió de la constatación de que, cada vez, más medicamentos que son necesarios para el tratamiento de pacientes no estaban disponibles en países en desarrollo por causa de su alto precio, incompatible con el poder adquisitivo, tanto de la población como de los gobiernos de esos países. Hubo también, una constatación de que varias enfermedades infecciosas y tropicales, que atacan en especial, a la población de los países en desarrollo, no cuentan con medicamentos eficaces para tratar a las personas contagiadas por ellas. Otras organizaciones, como Oxfam GB y Health Gap, señalaban el problema de los precios altos y lo asociaban al asunto de la implementación del Acuerdo ADPIC. Una alerta para los riesgos del Acuerdo ADPIC sobre el punto de los medicamentos ya había sido hecha por varios investigadores de los países en desarrollo. Por ejemplo, Bermudez(1992) ya llamaba la atención, hace diez años, acerca de los riesgos de este Acuerdo para la Salud Pública de Brasil: Las siguientes constataciones fueron evidenciadas en lo que se refiere a las patentes, en absoluto desacuerdo con las alegaciones de las empresas multinacionales: las patentes no 223 223 incentivan la inversión en investigación en las subsidiarias de países en desarrollo; las patentes no interfieren en la decisión del empresario sobre la inversión; las patentes representan un monopolio y favorecen a la formación de consorcios de empresas; las patentes no sirven para revelar secretos tecnológicos; las patentes pueden provocar, por causa del monopolio, aumento de precios, riesgos en el abastecimiento, eliminación de la competencia, creación de mercados cautivos, mayor remesa de divisas y distribución desigual de la renta nacional; las patentes benefician exclusivamente a las empresas que controlan el mercado tecnológico (p. 73-74) Esas constataciones están de acuerdo con el análisis realizado por la ONG Médicos Sin Fronteras, que muestra que apenas el 3% de las patentes depositadas en el mundo provienen de empresas o individuos residentes en países en desarrollo. Se estima, también, que el 80% de las patentes depositadas en países en desarrollo pertenecían a empresas o a individuos residentes en países desarrollados. (MSF, 2001) La crisis de Salud Pública desencadenada por el SIDA y el surgimiento de nuevos medicamentos, patentables y eficaces para salvar y prolongar la vida sirvió de telón de fondo para mostrar la fragilidad de las naciones en desarrollo frente a los gigantes del sector farmacéutico. La lucha brasileña Brasil fue uno de los primeros países en enfrentar a los Estados Unidos para conseguir precios más equitativos, con vistas a combatir la epidemia del SIDA. La amenaza de la licencia compulsoria y las posibles represalias comerciales por parte de los Estados Unidos mostraron el poder de las transnacionales farmacéuticas y el apoyo incondicional del gobierno norteamericano a esas corporaciones, que poseen presupuestos mayores que el PIB de la mayoría de los países en desarrollo. Entre tanto, la cuestión emblemática, que realmente alertó al mundo sobre el hecho 224 224 de que había una situación injusta y equivocada en el sistema de comercio mundial, fue la queja de los laboratorios farmacéuticos de África del Sur donde, en el 2001, se estimaba en un 29% la presencia del VIH /SIDA en mujeres grávidas con edades entre 20 y 24 años (UNICEF et al, 2001) En mayo del 2001, treinta y nueve empresas farmacéuticas entraron con una acción contra el gobierno sudafricano para impedir que realizara importaciones de antirretrovirales genéricos. Frente a las fuertes reacciones de la sociedad civil organizada y con miedo de manchar su imagen, los laboratorios retiraron la queja (GALVÃO, 2002) No obstante el brazo de hierro entre la industria farmacéutica transnacional y los intereses de los beneficiarios continua y resultó en otras acciones. El 19 de enero del 2001, un pedido oficial de los Estados Unidos solicitó la apertura de un panel en la OMC contra Brasil, por considerar que el inciso 1º, del párrafo 1º, del artículo 68, de la Ley 9.279/96, violaba el artículo 27.1, del Acuerdo ADPIC: Proporcionan, igualmente, licencia compulsoria: la no-explotación del objeto de la patente en el territorio brasileño por falta de fabricación o fabricación incompleta del producto o también, la falta de uso integral del proceso patentado, destacando los casos de inviabilidad económica, cuando será admitida la importación ... (VIANA, 2002) Luego de una lucha intensa, el 25 de junio del 2001, los Estados Unidos retiraron su queja contra Brasil en la OMC, tal vez motivados, también, por el contraataque de Brasil, el 4 de abril, durante una reunión de consulta BrasilEUA, en el ámbito del Sistema de Solución de Controversias de la OMC. En esa reunión, Brasil cuestionó los artículos 203, 204 y 209 de la legislación de patentes de los EUA, prácticamente el equivalente del artículo brasileño, objeto de la queja americana. Una gran victoria intermediaria de Brasil fue la aprobación, de la resolución brasileña que define el acceso a los medicamentos como SIDA Y DESAROLLO AIDS E DESENVOLVIMENTO cuestión de derechos humanos por la Comisión de Derechos Humanos de la Organización de las Naciones Unidas (ONU) el 23 de abril del 2002. Fueron 52 votos a favor y una abstención, justamente la de los EUA (VIANA, 2002) Otros hechos permeabilizaron esa lucha de poder durante los últimos dos años y se puede afirmar que se constituyeron en años de lucha para el reequilibrio entre las fuerzas presentes, aparte de privilegiar los derechos de los pacientes y reducir la santidad de los derechos de las patentes. En el caso de Brasil, las barreras de acceso con relación a los altos precios de los medicamentos antirretrovirales han sido enfrentadas por las autoridades nacionales de manera diferente a la de otros países en desarrollo. La relación de poder entre el gobierno brasileño y los poderosos poseedores de patentes farmacéuticas y sus aliados están en un proceso que tiende más hacia el equilibrio de las fuerzas de negociación. Declaración de Doha En noviembre del 2001, una negociación liderada por Brasil, junto a más de 50 países en desarrollo, le permitió firmar un Acuerdo en la reunión interministerial de la OMC, en Doha, para la flexibilización del Acuerdo ADPIC cuando la cuestión de la Salud Pública está presente, sin que haya amenazas de sanciones comerciales o represalias. La Declaración de la Organización Mundial del Comercio sobre el Acuerdo ADPIC y la Salud Pública, conocida como Declaración de Doha, fue firmada por todos los países miembros de la OMC y estipula, sin equívocos, que el derecho del paciente tiene prioridad sobre el derecho de patente. En esa declaración, la licencia compulsoria fue reforzada como mecanismo indispensable y legítimo para aumentar el acceso a medicamentos, y el uso de ese instrumento no quedó restringido, en el campo de la Salud Pública, sólo a situaciones de emergencia, urgencia nacional, o a enfermedades específicas como el SIDA. PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL La Declaración de Doha es un documento fundamental para garantizar la ampliación del derecho a la salud y el acceso a medicamentos, pero no consiguió resolver el problema de los países en desarrollo, que no poseen capacidad de producción propia de medicamentos. En ese caso, ¿cómo sería posible la producción, a partir de la licencia compulsoria? Una empresa farmacéutica de otro país debería tener autorización para producir copias del medicamento de marca para el mercado interno del país que emitió la licencia compulsoria. Como puede haber una patente protegiendo el medicamento en cuestión, en el potencial país productor, la situación se complica. Esa cuestión fue dejada en abierto en la Declaración de Doha que, en su párrafo 6, pide que hasta el final del 2002, una respuesta sea dada por el Consejo ADPIC a ese vacío regulador. Dos artículos en el Acuerdo ADPIC, el 30 y el 31(f ), pueden ser usados como base para esa producción en otro país. Los debates internacionales son intensos sobre esa cuestión y Brasil lidera una propuesta apoyada por la mayoría de las ONGs que trabaja con ese tema (MSF, Oxfam GB, Health GAP etc.), para que una solución simple, basada en el artículo 30 del Acuerdo ADPIC, sea adoptada (BRIDGES, 2002) Hasta que el impás sea resuelto, se hace imposible para un país, sin capacidad de producción de medicamentos, utilizar la licencia compulsoria. Hasta febrero de 2003, las negociaciones fallaron y la cuestión continúa sin solución aceptable. Los Estados Unidos quieren limitar la lista de enfermedades que podrían beneficiarse de esa solución para producir medicamentos bajo licencia compulsoria. Entonces, estamos frente a una negociación única, en la cual la Organización Mundial de Salud (OMS) sería un arbitrio designado por la OMC para definir el listado de las enfermedades que podrían beneficiarse de la licencia compulsoria, dentro del espíritu de la declaración de Doha. Evidentemente, esa 225 225 transferencia de poderes nacionales para la OMC y esas restricciones no se aplicarían a los países desarrollados, que podrían, soberanamente, continuar escogiendo cuando, como y para cual enfermedad quieren utilizar el mecanismo de la licencia compulsoria. La solución de esa crisis condicionará el acceso de millones de personas a medicamentos esenciales para salvar sus vidas. Riesgos de los acuerdos regionales de Comercio para el acceso a medicamentos La Declaración de Doha representa un avance considerable para la Salud Pública de los países en desarrollo. En el sin embargo, existe un riesgo importante de retrocederse a la situación anterior, debido, sobretodo, a la negociación de acuerdos regionales de libre comercio, que quieren reforzar las discusiones sobre cuestiones de propiedad intelectual. En África Occidental, 16 países firmaron, en 1977, un acuerdo regional llamado Acuerdo de Bangui. Una revisión de ese Acuerdo sucedió en 1999, para adecuarlo a las exigencias del Acuerdo ADPIC, incluyendo reglas más restrictivas de propiedad intelectual. Con el nuevo acuerdo, las importaciones paralelas sólo podrían ser hechas a partir de países miembros. Además de eso, existen fuertes restricciones sobre el uso de la licencia compulsoria y la imposibilidad de implementar los avances de Doha, a partir de esas restricciones. Doce de esos 16 países son clasificados como de baja renta y tendrían hasta 2016 para adecuar sus legislaciones al Acuerdo ADPIC. No obstante, con la firma del Acuerdo de Bangui revisado, todos los países tienen que respetar las reglas definidas en el Acuerdo ADPIC, aparte de las reglas más restrictivas del Acuerdo de Bangui luego de revisado. Gavin (2002) destaca el aumento de precio de los medicamentos antirretrovirales en Burkina-Faso (miembro del Acuerdo de Bangui), donde ya no existe la posibilidad de importar genéricos. En abril del 2002, en ese país, una terapia triple compuesta por 226 226 zidovudina + lamivudina + efavirenz costaba US $ 1.230, mientras que una versión genérica de la misma terapia costaba US $ 642. Esa y otras comparaciones de precios de medicamentos esenciales, muestran como los límites impuestos a la importación paralela así como el reconocimiento, antes del plazo establecido por el Acuerdo ADPIC, de la propiedad intelectual en cada país y las restricciones del uso de la licencia compulsoria, pueden amenazar el acceso a medicamentos con precios accesibles para las poblaciones de esos países (GAVIN, 2002) En América, la negociación del Área de Libre Comercio de las Américas (ALCA), iniciada, oficialmente, en 1998, bajo el liderazgo de los Estados Unidos, representa una amenaza concreta a los avances conseguidos con la Declaración de Doha. Un análisis de las propuestas de los Estados Unidos con relación a las cuestiones de propiedad intelectual revela una restricción mayor para utilizar la licencia compulsoria, una extensión del plazo de patentes y la supresión de la posibilidad de impor tación paralela (BOULET&COHEN, 2002) Esas medidas, conocidas como ADPIC+, están en contrasentido con los resultados alcanzados en Doha y son rechazadas por los negociadores brasileños. Existe también la propuesta norteamericana de que los datos referentes a productos patentizados no sean publicados durante un plazo de cinco años. De esa manera, la fórmula básica que permite a la Fundación Oswaldo Cruz (FIOCRUZ), a través del instituto Far-Manguinhos, de proceder a la ingeniería reversa de un medicamento bajo patente sería absolutamente sigilosa durante cinco años. Para que el medicamento sea investigado y reproducido, a través de la ingeniería reversa, habría una dificultad que suplir, ya que ni la FarManguinhos, ni ningún otro órgano público tendría acceso a datos referentes al producto patentizado durante el período establecido. Por el momento, es la ingeniería reversa la que permite al laboratorio público FarManguinhos desarrollar la fórmula de los AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO medicamentos patentizados para que sean calculados los costos de producción y negociados a precios justos, compatibles con el presupuesto del Ministerio de Salud y respetando un margen de lucro razonable para las empresas farmacéuticas. Teniendo la fórmula dentro de un laboratorio público, la amenaza de una licencia compulsoria surte mejores efectos para la negociación de precio con las empresas farmacéuticas transnacionales. En el caso de que entrasen en vigor las medidas propuestas por los Estados Unidos para la ALCA, ese instrumento fundamental de negociación del gobierno brasileño no podría utilizarse más, debilitando considerablemente el poder de negociación del gobierno frente a las multinacionales farmacéuticas. Los riesgos de la ALCA, con relación al acceso a medicamentos, son en extremo preocupantes y no pueden ser menospreciados por los segmentos sociales brasileños involucrados con la salud pública. Es notable que los acuerdos de Comercio visan, principalmente, aumentar los mercados de exportaciones. Algunos sectores productivos piensan que Brasil puede ganar nuevos mercados en la agricultura y en la industria, por ejemplo, negociando un acuerdo regional del tipo ALCA. No obstante, tiene que reconocerse que, en la mayoría de las negociaciones, existe una reciprocidad en la concesión de beneficios y será seguramente necesario ofrecer algo en cambio por esos nuevos mercados. Existe riesgo de que las propuestas norteamericanas, más restrictivas con relación a la propiedad intelectual sean una moneda de cambio para conseguir esos nuevos mercados de exportación, lo que podría ser dramático, a mediano y largo plazo, para la salud pública brasileña y podría tener un impacto negativo en la política de acceso a medicamentos esenciales y en particular, a los antirretrovirales. No pudiendo negociarse más los precios de los medicamentos bajo patentes, los costos se dispararían y dentro de un presupuesto limitado gubernamental, no se podría asegurar PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL con facilidad el acceso universal y gratuito a los antirretrovirales patentizados. Conferencia de Barcelona: conclusiones y desafíos La 14a Conferencia Internacional de SIDA, realizada en Barcelona, en el año de 2002, sintetizó el espíritu vigente en la mayoría de los segmentos sociales y económicos involucrados en la pandemia del SIDA. La problemática del tratamiento con antirretrovirales fue el tema central de la conferencia y al contrario de la conferencia anterior, realizada en 2000, en Durban (África del Sur), todos los actores parecieron concordar con que el acceso a medicamentos antirretrovirales debe ser ampliado en las regiones más afectadas por la pandemia, sobre todo en África Sub.-Sahariana. Las más de tres millones de víctimas fatales estimadas de la pandemia, en el 2002, fueron recordadas innumerables veces y la presión sobre los laboratorios farmacéuticos transnacionales fue tremenda, sobre todo por parte de grupos como ACT-UP, que llegaron a destruir los stands de determinadas compañías. No obstante, los debates relativos al asunto del financiamiento de programas del VIH /SIDA con tratamiento antirretroviral, así como el tema de la compra de fórmulas genéricas más baratas, no llevaron a conclusiones optimistas. Las iniciativas lanzadas hace dos años para mejorar el acceso no surtieron los efectos deseados: la Accelerated Acces Initiative (Iniciativa para acceso Acelerado AAI), por ejemplo, lanzada en mayo del 2000, por ONUSI DA, en colaboración con otras agencias de la ONU (OMS, FNUAP, UNICEF), el Banco Mundial y cinco compañías farmacéuticas (Boehringer Ingelheim, Bristol Myers Squibb, Glaxo Smith Kine, Merck & Co. y Hoffman La Roche), fue creada creyendo que le daría, a los países en desarrollo, el acceso a medicamentos a precios lo más bajo posible. También se creía que le daría apoyo técnico para la implementación de programas nacionales de acceso a medicamentos para tratamiento del SIDA. 227 227 La realidad de la AAI, es la de que las grandes corporaciones establecen las reglas y ofrecen descuentos tan sólo a compradores seleccionados. Como consecuencia, muchos países continúan teniendo el acceso extremadamente restringido a los antirretrovirales. Por eso, en 24 meses de existencia, la AAI no consiguió abastecer a más del 0,1% de las personas viviendo con SIDA (UNAIDS/WHO, 2002), además de ofrecer precios dos o tres veces superiores a los de la mayoría de los medicamentos genéricos correspondientes. Además, para conseguir tales precios, excepto el caso de la Merck, que tiene una política clara, las otras compañías hacen largas negociaciones individuales con cada gobierno, llenando los contratos con cláusulas restrictivas con relación al uso y al tema de patentes. Durante una sesión satélite organizada por ONUSIDA y por la OMS, esos procedimientos fueron duramente criticados por ONGs como Médicos Sin Fronteras, Health GAP y ACT-UP, que sugirieron que las compañías farmacéuticas transnacionales se están aprovechando de esa unión con instituciones internacionales, utilizando el AAI para mantener sus monopolios y limitar la reducción del precio de los antirretrovirales. (ANEMA, 2002) El caso del nelfinavir fue emblemático en lo que respecta a la falta de política clara de precio equitativo por parte de las empresas multinacionales: Desde que Brasil (país de renta media ) amenazó con el licenciamiento compulsorio; a la compañía Roche para que bajase drásticamente el precio del nelfinavir, el precio anual del tratamiento obtuvo una reducción importante, y cuesta al gobierno brasileño, aproximadamente, US $ 2.350 por año por paciente. No obstante, la mejor oferta internacional para los países menos desarrollados era, hasta septiembre del 2002, de US $ 2.700. Solamente el poder de negociación del Ministerio de Salud de Brasil consiguió un precio mejor que el de cualquier 228 228 iniciativa construida para abastecer a los países más pobres del mundo. Como ejemplo, la compañía vende, a Ucrania (país de renta media, como Brasil), el Viracept (nelfinavir), por el precio anual de US $ 7.110, en cuanto en Suiza el medicamento cuesta US $ 6.169. Peor: un abastecedor de materia prima de la Roche, en Portugal, ofreció la materia prima del nelfinavir a una empresa genérica por el precio de US $ 700 a US $ 900 por kilogramo. Por ese precio, cualquier empresa de genéricos produciría el medicamento finalizado por el precio aproximado de US $ 1.350 por año y todavía lucraría. La opacidad de los costos de producción reales y de los costos de P&D de esos productos impiden todo tipo de diálogo con bases transparentes para negociaciones basadas en datos efectivos. En febrero de 2003, después de años de denuncias a la puesta en práctica de precio incoherente, la Roche, finalmente, cedió a las presiones y creó una estrategia de precio diferenciada para países de baja renta y de renta media. La dificultad del Fondo Global para el SIDA, la Tuberculosis y la Malaria en recaudar fondos fue otra nota pesimista de la Conferencia. A pesar de estimarse que para un enfrentamiento efectivo al SIDA en los países en desarrollo, serían necesarios US $ 10 billones anuales, apenas un quinto de ese valor fue prometido hasta ahora y menos de un tercio fue liberado. O sea, ningún proyecto, hasta hoy, recibió un centavo del Fondo Global y las perspectivas de lograr agregar más fondos, en una época en que la lucha contra el terrorismo prima, sobre todas las otras luchas, en los países desarrollados, parecen reducidas. El reciente anuncio del presidente norteamericano, George W. Bush, de una ayuda de US $ 10 billones para combatir el SIDA, fue recibido con satisfacción por todos. Sobre todo, destacando la mención del tratamiento con antirretrovirales como una necesidad urgente en toda África. No obstante, apenas el 10% de ese financiamiento pasaría por el Fondo Global de lucha contra el SIDA, la Malaria y la SIDA Y DESAROLLO AIDS E DESENVOLVIMENTO Tuberculosis; inicialmente creado por los Estados Unidos. El resto del presupuesto sería utilizado en programas de ayuda bilateral, difícilmente eficientes. Costo x efectividad La relación costo-beneficio ha sido la granvillana internacional de la falta de acceso a los antirretrovirales en el mundo en desarrollo. Buena parte de las agencias internacionales de cooperación y desarrollo, así como de los economistas de la salud, de renombre internacional, apoyó durante años la tesis según la cual, dentro de una lógica de presupuesto limitado y de estructuras de salud debilitadas, la terapia antirretroviral no era costo-efectiva en relación con la prevención. Se puede mostrar como ejemplo, el documento del Banco Mundial llamado VIH/SIDA en el Caribe, publicado en el 2001, que fue objeto de una presentación durante el Grupo Caribeño de Cooperación para el Desarrollo Económico (CGCED), ante la presencia de primeros ministros, de las Finanzas y otros responsables por la toma de decisiones. Ese documento fue distribuido, en julio del 2002, en Barcelona, durante una conferencia satélite organizada por ONUSIDA para discutir el SIDA en el Caribe. Sobre el tema del acceso a antirretrovirales, el documento plantea lo siguiente: El costo de las nuevas terapias - a precios occidentales de US $ 1.000 por mes por paciente - es prohibitivo para la mayor parte de las personas infectadas por el VIH en esos países. Aunque nuevas drogas puedan a veces ser encontradas, no hay oferta continua y consistente. Por ese motivo, los médicos de países en desarrollo están a veces con recelo de prescribir nuevas drogas. (WORLD BANK, 2001, p.34) Cuando ese documento fue editado, ya existían medicamentos antirretrovirales genéricos más baratos en el mercado, pero no se menciona ese hecho en el texto. La discontinuidad del tratamiento y el miedo a las resistencias son argumentos siempre PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL levantados, para no ofrecer medicamentos antirretrovirales en los países en desarrollo. El documento también menciona: Muchos observadores insistieron en que la mera reducción del precio de los medicamentos anti-SIDA no va a resolver la crisis internacional del SIDA. Por ejemplo, Tom Coates, director-ejecutivo de la Universidad de California en el Instituto de investigación del SIDA en San Francisco, concuerda con la idea de que si son introducidos medicamentos en la población, pero no en cantidades suficientes, esa política podría ser desastrosa, dejando a las personas más enfermas, en vez de mejorar su estado, y aumenta la posibilidad del desarrollo del VIH resistente. (WORLD BANK, 2001, p. 34). Esa ideología todavía está muy presente en los organismos internacionales y universidades de los países desarrollados, que tienen la tendencia de basar sus recomendaciones en el hecho de no contar con suficiente dinero y presupuesto para desarrollar programas de prevención y tratamiento. Por tanto, el tratamiento tiene que ser sacrificado en nombre del mayor costo - efectividad de la prevención. Recientemente, un artículo publicado en la revista científica The Lancet, en junio de 2002, poco antes de la Conferencia de Barcelona, insistió, una vez más, en el hecho de que, incluso con el precio de una terapia antirretroviral pasando de US $ 12.000/ año para US $ 350/ año, el presupuesto del Fondo Global para SIDA, Tuberculosis y Malaria será mejor utilizado (en el caso del SIDA) en el campo exclusivo de la prevención y cuidados paliativos, que gastando parte de ese dinero con tratamiento antirretroviral. Partiendo del objetivo de minimizar los años de vida perdidos (Disability Adjusted Life-Years DALYS), los autores llegaron a la conclusión de que la prevención es 28 veces más costo-efectiva que el tratamiento y una vez más, considerando un presupuesto crónicamente sub-financiado, afirman que la prevención tiene que ser priorizada, en una situación de uso racional,de poco dinero disponible. 229 229 La ideología subyacente en ese artículo, no es neutra, como los autores pretenden convencer a los lectores.Parte del principio de que el presupuesto es, y siempre será, muy limitado y las necesidades, gigantescas. Esa ideología tampoco considera las exteriorizaciones positivas, a medio plazo, del uso de la terapia antirretroviral. Cálculo que Brasil trata de hacer y presentar al resto del mundo. Sin entrar en detalle, en esa cuestión que merecería una profundidad mucho mayor, existen serias dudas, por parte de los estudiosos más conservadores de los temas económicos del SIDA, con relación a los números optimistas levantados por Brasil y presentados bajo la forma de economías, hechas a través de la nointernación y del no-padecimiento de los usuarios de antirretrovirales. El beneficio económico y social de quedarse con una población productiva y capaz de sustentar sus hijos y sus familias no entró en el cálculo del Ministerio de Salud y mucho menos, en los cálculos de costo-efectividad hasta ahora presentados para justificar el notratamiento con antirretrovirales de la mayor parte de las personas VIH positivas de este planeta. Economías fundamentales a la sociedad No obstante, las economías sean innumerables, el hecho de no tener que cuidar huérfanos, porque los padres pueden trabajar y cuidar de sus propios hijos, es un logro social y económico fundamental para la sociedad. Los costos asociados a la pérdida de profesionales de Salud y de educación son dramáticamente altos en los países sin un acceso amplio a los antirretrovirales, donde esos profesionales ya son raros. El enviado especial del secretario general de las Naciones Unidas, da a conocer algunas cifras impresionantes, tomadas durante su último viaje a África. En Zambia, 1.967 profesores murieron como consecuencia del SIDA, en el 2001, y más de dos mil profesores, en el 2002. Con respecto a eso, menos de mil profesores se forman cada año en el país. En 230 230 Malawi, se estima que más del 30% de los profesores tienen el VIH /SIDA (LEWIS, 2003). Formar y entrenar nuevos profesionales costará caro a los países que dejaron a sus poblaciones productivas sin tratamiento con antirretrovirales. Los propios agentes de prevención del SIDA, son fundamentales para cualquier programa de enfrentamiento a los estigmas y de las creencias asociadas a la epidemia, generalmente oriundos de la población infectada por el VIH/SIDA que consigue mantener una calidad de vida, a través de la terapia antirretroviral. Esa población es generalmente, mucho más motivada a actuar como agente de prevención en su comunidad y la sinergia entre prevención y tratamiento es mayúscula. El programa piloto con medicamentos antirretrovirales de Médicos Sin Fronteras, en África del Sur, confirma esa sinergia. Esas ganancias no forman parte de los cálculos de costo-efectividad presentados por gran parte de los economistas que definen las prioridades en el campo de la lucha contra el SIDA. Ese contexto internacional es fundamental para entender que, en el año 2002, el llamado mundo en desarrollo está excluido, en su mayor parte, del acceso a las terapias antirretrovirales, a pesar de que en él vive el mayor número de personas con VIH en el mundo. A partir de esa perspectiva, Brasil es considerado por los demás países del mundo en desarrollo como un ejemplo viable de enfrentamiento efectivo al VIH/SIDA. Se estima que, hasta el final del 2002, aproximadamente 230 mil personas tenían acceso a medicamentos antirretrovirales en el conjunto de los países en desarrollo. De ese total, la mitad vivía en Brasil y utilizaba los medicamentos disponibles por el Programa Nacional de DST/ AIDS (WHO, 2002). AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANEMA, A. XIV International AIDS Conference in Barcelona (July 7-12,2002): turn passion into action!, 2002 (disponível no escritório de Médicos Sem Fronteiras em Genebra, Departamento de Comunicação) BERMUDEZ, J. 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Geneva: http://www.who.ch/emc/ diseases/hiv, 2000 PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL 231 231 O impacto das patentes na produção industrial e tecnológica dos países em desenvolvimento Cícero Gontijo Advogado e professor da Fundação Getúlio Vargas ([email protected]). 232 AIDS E DESENVOLVIMENTO H á muitos anos, estudo a área de propriedade industrial, transferência de tecnologia, e os meus cabelos brancos ainda não me fizeram perder a capacidade de me indignar. Trago algumas afirmações para apresentar nesta discussão que também vão causar indignação. Estou realizando atualmente um trabalho bastante amplo para o Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual da Rede Brasileira de Integração do Povos (REBRIP), que congrega organizações do terceiro setor e dos diversos movimentos sociais, referente às várias negociações em que o Brasil está envolvido, relacionadas com propriedade intelectual. O Brasil, neste momento, trabalha em pelo menos cinco foros diferentes em temas relacionados. Cada um deles em um nível diferente de engajamento, em um momento gradual diferente dos outros. Menciono a Organização Mundial do Comércio (OMC), os trabalhos de integração da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), o Mercosul, a União Européia e a Organização Mundial de Propriedade Industrial (OMPI/Convenção de Paris). Ou seja, há cinco foros tratando do mesmo assunto, o que exige uma grande capacidade de negociação, convencimentos e estudos. A primeira afirmação que quero trazer é a seguinte: estamos vivendo um momento de grande contradição. Os mais jovens acreditam que nascemos no neoliberalismo, que é normal isso tudo que está acontecendo, quer dizer, o governo não pode se envolver na definição de preços, ele não pode levantar tarifas de importação. Os jovens acreditam que o Brasil sempre foi assim, mas não foi, não. O mundo é muito cíclico. No final do século 19, por volta de 1800, ocorreu no mundo um grande movimento chamado livre-cambismo, isto é, de liberalismo, de globalização, um fenômeno muito parecido com o que está acontecendo agora. Havia terminado a revolução industrial na Inglaterra, a Europa estava muito desenvolvida, os Estados Unidos estavam em uma situação bastante boa economicamente e suas empresas começaram a se estender pelos outros países. Quer dizer, a tal da globalização, a intercomunicação dos interesses de grandes empresas e a sua PROPRIEDADE INTELECTUAL 233 participação dentro de países que não tinham nada a ver com a origem delas, ocorreu há 200 anos da mesma forma que está acontecendo hoje. Mas enxergo nesse fenômeno uma grande contradição. A onda do livre comércio esmagou o que havia de nacionalismo, de protecionismo, até agora igual ao que está acontecendo neste momento, com uma exceção: esmagou tudo, inclusive os sistemas de monopólio que existiam. A briga era a mesma que se põe agora: já que é livre comércio, é tudo livre, então não só as tarifas têm que ser abaixadas como tem que haver liberdade de transferências de pessoas. Concordo que posso comprar leite italiano sem necessidade, sem dar nenhum benefício para os meus produtores de leite, do interior de Minas Gerais, por exemplo. Mas é preciso que a Itália concorde que, se eu quiser me instalar na Itália, tenho o direito de fazê-lo. Isso seria livre comércio mesmo, porque o que estamos vivendo hoje é livre comércio para coisas, para bens e total nacionalismo para as pessoas. Os africanos têm que ficar na África, os árabes têm que ficar na Arábia e nós temos que ficar aqui, só que os bens e os serviços estão sendo estendidos, como se fosse natural. Conhecimento técnico O que está acontecendo hoje no campo da propriedade industrial? Enquanto as negociações, que ocorreram no âmbito do acordo de propriedade intelectual relacionado ao comércio (Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights TRIPS) da OMC, tornaram o sistema mais rígido, mais forte, mais enrijecedor no que diz respeito aos monopólios do conhecimento, o mundo estava vivendo um momento de grande livre comércio. Quer dizer, os governos, hoje, são cada vez mais encolhidos, mais enxutos, podem menos, não devem se envolver na vida das empresas, têm que entender que, entre as empresas, quem é competente que se estabeleça e permaneça em todas as áreas de bens e serviços, com exceção de uma área, a mais importante, o conhecimento tecnológico. O conhecimento tecnológico com TRIPS está exatamente na contramão do livre comércio. Essa é a grande diferença entre nós e o ocorrido no final do século 19. Ao mesmo tempo em que está tudo baseado no livre comércio, conseguiu-se uma negociação impressionante que enrijece e congela o sistema de conhecimento técnico do mundo, isto é, os países que têm conhecimento técnico têm um grande 234 AIDS E DESENVOLVIMENTO estímulo para fazer mais conhecimento técnico. Os que não têm conhecimento técnico não têm como adquiri-lo e vão continuar ignorantes, tecnicamente. Essa é a expressão mais simples do sistema de monopólios da propriedade industrial. Estamos vivendo um momento de grande contradição. Mas, certamente, dentro de dez anos, ou seremos livre comércio, ou seremos protecionistas, nacionalistas e monopolistas de novo. As duas coisas não funcionam juntas. Estamos vivendo um momento muito interessante na vida das nações. Surge com uma suprema sofisticação, com uma grande competência, o trabalho feito pelas grandes empresas multinacionais e pelos países desenvolvidos que se dedicaram à criação da OMC e a fazer o Acordo TRIPS. O sistema de propriedade industrial é perfeito, mas foi montado e organizado para funcionar entre países desenvolvidos, quer dizer, para países desenvolvidos que têm uma boa estrutura técnica, empresas que fazem pesquisas, empresas que estão disputando mercado internacional, grandes centros de tecnologia. Para esses países, o sistema que dá monopólio temporário a quem tem uma patente é bastante razoável e, desse modo, a França não reclama da Alemanha, a Alemanha não reclama da Inglaterra, a Inglaterra não reclama dos Estados Unidos, porque, em geral, o que eles perdem em um setor ganham em outros. E mesmo nos setores mais sofisticados e de mais rápido avanço, esses países todos têm um certo desenvolvimento. Mas, quando se olha para a rabeira do mundo industrializado, quer dizer, para o quintal, para nós, para o chamado mundo em desenvolvimento, o sistema é absolutamente injusto. O que ele faz? Ele me convence de que eu não devo aumentar as tarifas de importação, mas me pressiona, delicadamente, para que eu dê monopólio por 20 anos para qualquer invenção que ele faz e que é registrada aqui. O sistema de patentes brasileiras é montado para os estrangeiros. Noventa e cinco por cento das patentes concedidas no Brasil são estrangeiras. Isso não é uma afirmação baseada na teoria da conspiração internacional. Estou afirmando o que está nos livros. Todo sistema de patentes no Brasil e em qualquer país subdesenvolvido é voltado para garantir os direitos de pessoas que não são nacionais. Claro que há 5% de PROPRIEDADE INTELECTUAL 235 pessoas do próprio país que estão desenvolvendo patentes, como pesquisadores de Far-Manguinhos ou da EMBRAER, entre outras. Isso corresponde a uma ínfima partícula no meio da massa que temos que garantir. Há 100 anos, o sistema farmacêutico internacional está tentando obrigar que todos os países dêem patentes sobre os seus produtos. Ter conseguido isso é uma das maiores façanhas de que se tem notícia, obtida graças ao Acordo TRIPS. Até 30 anos atrás, dois terços dos países do mundo não davam patentes para produtos farmacêuticos. Então, quando, ao refutar os termos do Acordo TRIPS, muitas pessoas acham que é injusto dar um monopólio de 20 anos para uma invenção farmacêutica, não se está sendo nem revolucionário, nem anárquico. Estamos raciocinando da mesma forma que Estados Unidos, Alemanha, França e outras tantas nações raciocinavam há 30 anos, quando estavam em situação semelhante à nossa. Ou seja, quando a patente prejudicava a eles, em um momento em que ainda não eram suficientemente desenvolvidos, não havia patentes. Então, os países eram livres para definir os setores em que podiam dar patentes, e davam segundo um plano nacional de desenvolvimento industrial. Se havia o interesse em desenvolver tecnologicamente um determinado setor, então havia um estímulo, impedindo a formação de monopólios. Para isso, os países não forneciam patentes sobre produtos considerados essenciais ou sobre aqueles que se queria obter maior aprimoramento tecnológico. Isso era permitido há até cinco anos. Então, vejam a revolução que vivemos com a criação doTRIPS. Hoje, somos obrigados a dar patentes em todos os setores da economia, gostemos ou não, queiramos ou não. E isso foi feito é bom que saibamos por pressão e competência das indústrias farmacêuticas internacionais. Isso não ocorreu porque o mundo considerou que era justo, nem foi, eventualmente, uma idéia do governo norte-americano. Isso foi resultado da ação do sistema das empresas internacionais de medicamentos, e por aí vamos acabar chegando no assunto da AIDS. Quem acompanhou o processo da Lei de Patentes no Brasil e do TRIPS sabe quanto a indústria farmacêutica internacional veio fazer pressão no Brasil na época da aprovação da lei brasileira de patentes, com representantes visitando, por várias vezes, o Far-Manguinhos, o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), o Ministério de Ciência e Tecnologia, o governo federal, o Congresso Federal, 236 AIDS E DESENVOLVIMENTO entre outras instituições. Não se trata aqui de fazer uma crítica, mas apenas constatar que esse movimento tem, em grande parte, a mão inteligente e competente das indústrias farmacêuticas mundiais. A necessidade do equilíbrio Para um país em desenvolvimento, só faz sentido ter um sistema de patentes e propriedade industrial em geral, se o sistema for razoavelmente equilibrado. Com o Acordo TRIPS, ele é totalmente desequilibrado. Mas o que significa razoavelmente Passemos, agora à segunda afirmação. equilibrado? Que os titulares, que detêm um direito fantástico de monopólio em pleno século 21, tenham também alguns deveres. Não é o que ocorre. A nossa Lei de Propriedade Intelectual tem 244 artigos, e o único dever que ela estipula para o titular da patente é desvendar a invenção no momento de fazer a solicitação da patente. O resto é direito. O que é uma patente? O que é o sistema de propriedade intelectual? Há quem afirme que a patente é um direito natural, de recompensa a inventores, que faz parte do sistema de propriedade enraizado. No entanto, patente é uma coisa muito simples: é um contrato entre um Estado e um inventor ou uma empresa titular de uma invenção, mediante o qual o Estado admite dar um monopólio temporário de uso. Trata-se de um negócio muito rentável para o inventor, pois, em troca, ele deve somente cumprir com duas obrigações: desvendar a sua invenção e produzila no país que lhe outorga a patente. Esclarecer como alguém chega a uma determinada invenção é, supostamente, de interesse para o desenvolvimento tecnológico do país, pois nossos cientistas não perderiam tempo e poderiam produzir localmente as novidades industriais. A produção local é a melhor forma de realizar a transferência de tecnologia, pois utiliza recursos humanos e materiais do país, e, de certa forma, ensina verdadeiramente os processos que estão na base da invenção. PROPRIEDADE INTELECTUAL 237 Muita gente acha que o prazo de 20 anos é absolutamente absurdo. Ainda que os nossos pesquisadores consigam desvendar os passos de uma determinada invenção, eles só vão poder usar essas informações daqui a 20 anos. Isso significa o congelamento do desenvolvimento de tecnologia e conhecimentos, significa que um país só poderá igualar-se, minimamente, aos padrões tecnológicos dos países inventores em, pelo menos, 20 anos, tempo suficiente para que novas invenções sejam patenteadas e acirrem a distância tecnológica entre os países mais industrializados daqueles com menor capacidade tecnológica. Mas, ainda assim, o único direito razoável que as legislações davam aos países em desenvolvimento, que era o de exigir o desvendamento e a produção local, está sendo, mesmo que de forma indireta e reflexa, contestada no TRIPS. Esse acordo deixou entender que é possível aos países dar licenças compulsórias, pressionar o titular da patente quando ele não produzir localmente, mas não explicitou tais condições de forma clara. Não há uma palavra no Acordo TRIPS - que é o grande acordo do momento a respeito de propriedade industrial - que diga que os países tenham o direito de exigir produção local. Não se faz menção explícita à licença compulsória. Eles inventaram agora um eufemismo que se chama outros usos sem a utilização do titular da patente, para não usar a expressão licença compulsória. Dito de o TRIPS representa um desastre para o desenvolvimento técnico e o desenvolvimento das pesquisas industriais, em qualquer área. Os efeitos disso na área farmacêutica são mais evidentes para quem acompanha a discussão, por exemplo, dos genéricos e dos medicamentos para AIDS. outro modo, A legislação brasileira Apesar disso, o governo brasileiro aprovou, em 1996, uma lei pior do que o Acordo TRIPS, pois permite mais concessões aos inventores que o próprio acordo internacional. Isto é, aceitou tudo que o TRIPS mandava e não fez nada do que, no TRIPS, permitiria indiretamente benefícios ao país. E essa constitui a terceira afirmação que poderá causar grande indignação. Mas isso não traz indignação 238 AIDS E DESENVOLVIMENTO para grande parte da população, pois, lamentavelmente, trata-se de um assunto técnico, sofisticado, permeado por um palavreado muito restrito aos círculos das organizações do sistema das Nações Unidas. Mesmo a classe dos políticos brasileiros ou outras pessoas que tomam decisões não conseguem acompanhar essa discussão. Vou dizer com a maior franqueza e a maior humildade. Sou advogado de formação, sou economista e fiz uma tese de doutoramento em Paris sobre esse assunto, na área de economia. Ninguém entende disso no Brasil. Porque esse tema só é tratado no Brasil pelos advogados, que acreditam que, a partir do momento em que existe uma lei, ali está a verdade e que a missão deles é ajustar a realidade à lei. Esse é um defeito próprio dos advogados, que lhes permite vencer uma causa. Os outros advogados os que conhecem o assunto em suas especificidades, antes da lei, portanto, e que seriam capazes de criticar a lei e interferir na sua aprovação pelo Congresso Federal são especialistas em propriedade industrial e, portanto, têm um grande interesse em que isso fique dessa forma. Temos que considerar que são fortunas que se manipulam e se acumulam de forma legal, na proteção das patentes. No entanto, seria importante que os economistas tivessem condições de entender desse assunto, mas são poucos os que se dedicam a enfrentar o desafio. Edith Penrose, uma economista e professora inglesa, teve a coragem de fazer um documento, no qual afirma que não há nenhuma comprovação econômica de que os países têm vantagens em compensar inventores por meio de monopólios. Em 1974, 20 anos depois de haver feito o primeiro livro, ela iniciou um estudo sobre o caso específico dos países em desenvolvimento. No livro intitulado Países em desenvolvimento e propriedade industrial, Edith nos diz que não há nenhuma razão para que os países em desenvolvimento concedam patentes para estrangeiros, pois eles não têm nenhuma forma de se beneficiarem disso. Essa é a minha quarta afirmação, que é tomada de empréstimo dessa economista. Vejam que isso foi afirmado por uma inglesa, numa época em que os países em desenvolvimento tentavam, junto à OMPI que tratava do antigo acordo de propriedade intelectual internacional, que veio a ser substituída pelo TRIPS, na OMC , obter um tratamento diferencial na legislação internacional. De 1974 a PROPRIEDADE INTELECTUAL 239 1979, reuniram-se em Genebra, durante todos os meses de junho e de novembro, técnicos e diplomatas do mundo inteiro para dar flexibilidade à legislação de propriedade intelectual, tratando de forma diferenciada os países em desenvolvimento. Eu participei disso, pois naquela época eu era o técnico brasileiro que acompanhava os diplomatas brasileiros em Genebra. Foi feito uma nova legislação sobre tudo a respeito de licenças compulsórias. E, ao final de cinco anos, a revisão em favor dos países em desenvolvimento deu em nada, porque os americanos já estavam estudando uma fórmula de, em vez de flexibilizar a lei, enrijecê-la, ampliá-la, endurecê-la, trazendo os temas para serem discutidos no âmbito da OMC, culminando com a elaboração do Acordo TRIPS. Ironicamente, e essa é a minha quinta afirmação, até agora isso não teve grande conseqüência no Brasil, porque, graças a Deus, esse é um país desorganizado. As brigas que ocorrem não chegam a uma resultante rápida. O problema é que os países desenvolvidos e suas multinacionais já entenderam isso. O TRIPS é um sistema super-sofisticado, tem um punhado de decisões substanciais que mudam a legislação internacional, dando direitos aos titulares da patente, mas, ao mesmo tempo, traz cerca de 40 artigos que tratam só de meios de garantir a aplicação do estabelecido. É o chamado enforcement. Assim, não será mais possível, como se costuma dizer no Brasil, afirmar que a lei não pegou. Estou focalizando essas questões em um trabalho recente para o grupo de propriedade intelectual da REBRIP. Ou seja, no momento em que os dispositivos do Acordo TRIPS forem aplicados, o país não poderá recorrer a subterfúgios usuais, como a morosidade do Poder Judiciário. Quem leu a Lei de Patentes no Brasil teve a curiosidade de ver o que o penúltimo artigo diz: o Poder Judiciário está autorizado a criar varas de Justiça Federal, com juízes especializados, para tratar só de propriedade intelectual. Vejam como a pressão externa atuou sobre a nossa lei. 240 AIDS E DESENVOLVIMENTO Criou-se também no Acordo TRIPS um sistema complexo de solução de controvérsias. É o primeiro tipo de tribunal internacional a quem os países devem obediência, coisa que não se conseguiu nem com o sistema internacional de direitos humanos, com o Tribunal Internacional de Haia. Nessa instância, qualquer sentença tem que ser aceita pelo país. Já com o TRIPS, a OMC cria uma autoridade supranacional para resolver as controvérsias. Até o momento, nenhum país contestou o direito da OMC de decidir discussões entre países. É a primeira vez que acontece isso. Patentes e medicamentos para AIDS Para finalizar, vou me ater às questões relativas aos medicamentos para AIDS. Depois que a AIDS surgiu e aqui temos que considerar que a AIDS, ao invés de ser um problema, é uma verdadeira bênção o mundo se deu conta, nesse caso específico de propriedade intelectual, que havia uma grande injustiça sendo imposta aos países. É admissível dar um monopólio de 20 anos para empresas que produzem, por exemplo, gravatas francesas, o que faz com que esse produto custe dez vezes mais que o preço de uma gravata feita no Brasil. No entanto, se eu posso economizar com produtos supérfluos, o mesmo não se pode dizer para medicamentos. Quando você tem uma doença grave, uma doença para a qual nem existem soluções definitivas, qualquer remédio se torna a coisa mais essencial para a manutenção da vida. Jeffrey Sachs, um economista norte-americano, altamente favorável ao livre comércio, nos revelou que o custo do assim chamado coquetel para a AIDS é de US$ 500 por pessoa/ano. Nos Estados Unidos, onde se pensa que há dinheiro sobrando, esse tratamento é vendido a US$ 10 mil pessoa/ano. Isso porque, segundo Sachs, existe um negócio chamado monopólio de patentes. O sujeito que tem monopólio sobre um produto, que só poderá ser repetido por outro país daqui a 20 anos, estipula o preço que achar conveniente, pois não há nenhuma relação entre o custo de produção e o preço no mercado. Como é que se define o PROPRIEDADE INTELECTUAL 241 preço de monopólio? Todos sabemos isso. Estamos acabando de ver agora os produtores de álcool e açúcar aumentarem em 70% o preço desse combustível e ficamos totalmente impotentes diante do fato. Isso é monopólio. A AIDS serviu como um foco de luz para que pudéssemos enxergar essas questões com mais clareza. O monopólio nos obriga a pagar US$ 10 mil por algo que lhes custa US$ 500 e que é um insumo necessário para a manutenção da vida de muitas pessoas. O mesmo se dá em outras áreas, como na agricultura e na produção de alimentos. Podemos correr o risco de não ter como alimentar a população porque haverá monopólio de sementes que compõem a base da alimentação, da mesma forma como existe monopólio na produção de fármacos. O governo brasileiro teve uma atuação decisiva na Reunião Interministerial da OMC, realizada em Doha, em novembro de 2001, na discussão sobre o impacto do TRIPS na saúde pública. Houve uma declaração assinada por 50 ministros que estavam presentes, inclusive alguns desses ministros de países desenvolvidos. Do ponto de vista político, foi uma conquista significativa, mas daí a modificar alguma coisa na OMC e no TRIPS existe um caminho muito longo. Existe muita pressão, de países como os Estados Unidos, para alterar a Declaração de Doha. Inviabilizando o desenvolvimento e a industrialização As questões envolvendo patentes e propriedade intelectual não são problemáticas apenas na área de produção de remédios. A AIDS é apenas um ponto dramático e que acabou se destacando junto à opinião pública. Esse problema é da indústria dos países em desenvolvimento. Estamos sendo congelados, obrigados a abrir as nossas fronteiras em todas as negociações internacionais e ao mesmo tempo oferecer monopólio sobre o conhecimento tecnológico e científico. 242 AIDS E DESENVOLVIMENTO Isso inviabiliza, em cur to prazo, o desenvolvimento tecnológico e a industrialização do país. No início dos anos 1990, o Brasil importou, na área farmacêutica, US$ 25 milhões. Em 1995, importou US$ 400 milhões. Em 1998, importou US$ 1 bilhão e 400 milhões. E se antes era possível para o governo brasileiro influenciar e focalizar as demandas das companhias farmacêuticas para a indústria nacional, hoje, com o TRIPS e a nossa lei de patentes, ficamos totalmente a mercê do que ditam os monopólios internacionais. Antes, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estimulava a criação de empresas nacionais para que pudessem empregar pessoas no Brasil e realizar uma pequena industrialização, aquela que fosse possível. Hoje, não podemos fazer mais nada, pois as tarifas estão muito baixas e o governo não tem mais condições de aumentá-las porque deixou-se enredar nessas legislações internacionais. O problema na origem é de propriedade intelectual, e é necessário mobilizar a opinião pública para que algo se transforme. Se o país não conseguir reorientar o mercado para sua indústria nacional, não tem futuro como país e isso é muito difícil na situação em que chegamos. PROPRIEDADE INTELECTUAL 243 THE IMPACT OF PATENTS ON THE INDUSTRIAL AND TECHNOLOGICAL PRODUCTION OF DEVELOPING COUNTRIES Cícero Gontijo Lawyer and Professor at the Getúlio Vargas Foundation ([email protected]) For many years I have been studying the area of industrial property and transfer of technology, and my grey hair has not yet made me lose the ability to become indignant. Some of the affirmations that I have brought along to present for discussion will cause some indignation. At present I am engaged in quite an extensive work for the Working Group on Intellectual Property of the Brazilian Network for Integration of Peoples (REBRIP), which gathers together organizations of the third sector and various social movements involved in the negotiations being carried out by Brazil in the area of intellectual property. At present, Brazil is working on at least five different forums on related themes. Each of them on a different level and stage of engagement. I refer to the World Trade Organization (WTO), the works towards integrating the Free Trade Area of the Americas (FTAA) with Mercosur, the European Union and the World Organization for Industrial Property (WOIP/Paris Convention). In other words, there are five forums dealing with the same matter, which demands a great capacity for negotiating, convincing and studying. The first affirmation I would like to make is the following: we are going through a moment of great contradiction. The younger ones believe we were born in neoliberalism, that all this that is happening is normal, meaning that the government cannot get involved in defining prices and raising import tariffs. The younger ones believe that Brazil was always like this, but no, it wasnt! The world is very cyclical. At the end of the 19th century, around 1800, a great movement took place in the world 244 called free-tradism, that is, liberalism, globalization, a phenomenon much like what is going on right now. The industrial revolution had ended in England, Europe was very developed, the United States was in quite a healthy situation economically speaking and its companies were beginning to expand into other countries. In other words, this so-called globalization, this intercommunication of interests of large companies and their participation in countries that had nothing to do with where they came from happened 200 years in the same way that it is happening today. But I see a great contradiction in this phenomenon. The wave of free trade crushed what stood as nationalism or protectionism, just like what is happening nowadays, but with one exception: it crushed everything, including the monopoly systems that existed. The fight was just the same as is taking place now: since it is free trade, its all free, so not only do the tariffs have to be lowered but there has to be the freedom to transfer people. I agree that I can buy Italian milk without any necessity, without giving any benefit to the milk producers in the interior of Minas Gerais, for example. But Italy has to agree that if I want to set up in Italy, then I have the right to do so. This would truly be free trade, because what we are seeing today is free trade for things and goods and total nationalism for people. The Africans have to stay in Africa, the Arabs have to stay in Arabia and we have to stay here, except that goods and services are being sent abroad, as if this were all so natural. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT Technical knowledge What is the situation today in the field of industrial property? Whereas the negotiations that took place in the sphere of the WTOs Trade Related Aspects of Intellectual Property Rights (TRIPS) made the system more rigid, stronger and stricter in respect to the monopolies of knowledge, the world was living through a moment of intense free trade. In other words, today governments have shrunken and grown leaner, they can do less, they must not get involved in the business of corporations, they need to understand that in corporations those who are competent set themselves up and remain in all the areas of goods and services, with the exception of one area, the most important of all, namely, technological knowledge. With TRIPS, technological knowledge is running in precisely the other direction from free trade. That is the big difference between us and what happened at the end of the 19th century. At the same time that everything is based on free trade, an impressive negotiation has managed to restrict and congeal the system of technological knowledge in the world, that is, the countries with technological knowledge are strongly encouraged to produce more technical knowledge. Those that have no technological knowledge lack the means to acquire it and will continue in their technical ignorance. This is the simplest expression of the system of monopolies of industrial property. We are living through a moment of deep contradiction. But it is certain that in ten years time we will either be free-traders or else protectionist, nationalist and once more monopolistic. The two things do not work together. We are going through a very interesting moment in the life of nations. The work done by the big multinational companies and by the developed countries that dedicated themselves to setting up the WTO and arranging the TRIPS Agreement was supremely sophisticated and highly competent. The system of industrial property is perfect, but it was set up and organized to work INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL among developed countries, that is to say, among developed countries that have a solid technical structure, companies that perform research, corporations that are disputing the international market, great centers of technology. For such countries the system that grants a temporary monopoly to whoever has a patent is quite reasonable, and so France does not complain about Germany, Germany does not complain about England and England does not complain about the United States because in general what they lose in one sector they gain in others. And even in the more sophisticated and more advanced sectors, all these countries possess a certain degree of development. Yet, when we look at the tail end of the industrialized world, I mean the backyard, at ourselves, at what they call the developing world, the system is absolutely unjust. What does this system do? It convinces me that I should not raise the import tariffs, but ever so delicately pressurizes me to grant a 20-year monopoly to any invention they come up with and register here. The Brazilian patents system is set up for foreigners. Ninety-five percent of the patents granted in Brazil are foreign. This is not a statement based on the theory of international conspiracy. What I am affirming here is in the books. All patents systems in Brazil and any other under-developed country are meant to guarantee the rights of people who are not nationals. Of course, 5% are locals who are developing patents, such as researchers at Far-Manguinhos or Embraer, among others. This corresponds to a tiny particle in the midst of the entire mass we have to guarantee. The international pharmaceutical industry has been trying for a hundred years to make all the countries grant patents on their products. To have managed this, thanks to the TRIPS Agreement, is one of the greatest exploits ever heard of. Up to thirty years ago, two thirds of the countries in the world did not grant patents to pharmaceutical products. Then, when they refute the terms o f the TRIPS 245 245 Agreement, many people think it is unfair to give a 20-year monopoly to a pharmaceutical invention, but there is nothing revolutionary or anarchistic about this. We are reasoning the same way as the United States, Germany, France and so many other nations reasoned thirty years ago when they found themselves in a situation like ours today. That is to say, when patents jeopardized them, at a moment in their history when they were not developed enough, there were no patents. So countries were free to define the sectors in which they could grant patents, and did so according to a national plan of industrial development. If there was any interest in developing any given sec tor technologically, then there was an incentive that prevented monopolies being formed. With this in mind, countries did not provide patents on products held to be essential or on those that they wanted to improve technologically. This was allowed up to five years ago. Then, just look at the revolution we are going through with the creation of TRIPS! Today we are obliged to give patents in every sector of the economy, whether we like it or not, whether we want to or not. And this was done let nobody be mistaken by means of the pressure and competence of the international drug companies. This did not come about because the world felt that it was fair, nor even because maybe it was an idea of the United States government. This was the result of actions perpetrated by the system of international drug corporations - and that is how we are going to arrive at the subject of AIDS. Those who followed the process of the Patents Law in Brazil and TRIPS are well aware of how much pressure the international pharmaceutical industry exerted on Brazil at the time the Brazilian patents law was approved, with representatives paying visit after visit to Far-Manguinhos, the National Institute of Industrial Property (IN PI), the Ministry of Science and Technology, the Federal Government, the National Congress, and other institutions. No criticism is being made here, 246 246 merely a statement that in large measure this movement was conducted with the intelligence and competence of the international drug companies. The need for equilibrium Now for the second affirmation. For a developing country, it only makes sense to have a system of patents and industrial property in general if the system is reasonably balanced. With the TRIPS Agreement it is totally off balance. But what does reasonably balanced mean? That the patent holders, who possess a fantastic monopoly right in the 21st century, also have some obligations. This is not the case. Our Intellectual Property Law has 244 articles, and the only obligation they stipulate for the holder of the patent is to disclose the invention at the moment he applies for the patent. The rest is his rights. What is a patent? What is the system of intellectual property? Some claim that a patent is a natural right, a reward for the inventors that is part of the ageold system of property. Nonetheless, a patent is a much simpler matter: it is a contract between a State and an inventor or a company that is the holder of an invention, through which the State agrees to grant a temporary monopoly on its use. This is a very lucrative business for the inventor, who in exchange only has to fulfill two obligations: disclose his invention and produce it in the country that grants him the patent. To explain how someone arrives at a given invention is presumably of interest to a countrys technological development, since our scientists are thus spared the time and could produce the industrial novelties locally. Local production is the best way to carry out technological transfer, because it uses the countrys human and material resources and in a certain way really teaches the processes on which the invention is based. Many people think that the 20-year timeframe is quite absurd. Even if our researchers succeed in unveiling the steps of a given invention, they will only be able to use AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT this information 20 years from now. This means congealing the development of technology and knowledge, which in turn means that a country can only minimally attain the technological standards of the inventor countries in at least 20 years, time enough for new inventions to be patented and so widen the technological gap between the more industrialized countries and those with less technological capacity. But even so, the only reasonable right that the legislations gave to developing countries the right to demand the disclosure and local production of the invention - is being contested in TRIPS, albeit in an indirect, reflex manner. This agreement has made it manifest that it is possible for countries to grant compulsory licenses and to pressure the patent holder when he does not produce locally, but these conditions are not stated in a clear fashion. There is not a single word in the TRIPS Agreement which is the major agreement at the moment as far as industrial property is concerned saying that countries have the right to demand local production. No explicit mention is made of compulsory licenses. Now they have invented a euphemism called other uses without the utilization of the patent holder, to avoid using the expression compulsory license. To put it differently, TRIPS represents a disaster for technical and industrial-research development in any area. The effects of this in the pharmaceutical sector are more evident to those who follow, for example, the discussion on generics and medication for AIDS. The Brazilian legislation Despite this, in 1996 the Brazilian government approved a law worse than the TRIPS A greement, for it granted more concessions to the inventors than the international agreement itself. That is to say, it accepted everything that TRIPS ordered and did nothing of what in TRIPS would indirectly benefit the country. And this is the third affirmation that could cause deep indignation. INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL But this does not provoke strong indignation in most of the population because unfortunately this is a technical, sophisticated matter that is packed with a vocabulary that is very restricted to the circles of the organizations of the United Nations. Even the class of Brazilian politicians or other people who make decisions cannot manage to follow this discussion. What I am about to say is said candidly and humbly. I graduated as a lawyer, I am an economist with a doctorate from Paris on this subject in the area of economics. Nobody understands this in Brazil, because this is dealt with here in Brazil by lawyers, who believe that as of the moment that a law exists, there lies the truth, and that their mission is to adjust reality to the law. This is a defect peculiar to lawyers, it enables them to win cases. The other lawyers those who know the specifics of the matter before the law, and are therefore able to criticize the law and interfere in its being approved by the Federal Congress are specialists in industrial property and so have a deep interest in things staying as they are. We have to consider that there are fortunes being handled and amassed legally in the protection of patents. Nevertheless, it would seem important that economists should have the means to understand this matter, but few of them are dedicated enough to face the challenge. Edith Penrose, an English economist and professor, was courageous enough to write a document in which she claims that there is no economic proof that countries have any advantages in rewarding inventors by means of monopolies. In 1974, 20 years after writing the first book, she began a study on the specific case of the developing countries. In the book entitled Developing countries and industrial property, Edith tells us that there is no reason why developing countries should grant patents to foreigners, for there is no way they can benefit from this. This is my fourth affirmation, which I borrow from the English economist. 247 247 Note that this was said by an English lady at a time when the developing countries were trying - through the WOIP, which was responsible for the old agreement on international intellectual property and was later replaced by TRIPS in the WTO to obtain differential treatment in international legislation. Every June and July from 1974 to 1979, technicians and diplomats from all over the world gathered in Geneva to make the legislation on intellectual property more flexible by lending it a different form in developing countries. I took part in all this, because at that time I was the Brazilian technician who accompanied the Brazilian diplomats in Geneva. A new legislation was drawn up on everything concerning compulsory licenses. And at the end of five years the revision in favor of the developing countries came to nothing because the Americans were already studying a way to make the law tougher and broader and harder rather than more flexible, bringing the themes to be discussed within the WTO, which culminated in the TRIPS Agreem Ironically, and this is my fifth affirmation, so far this has not been of any major consequence to Brazil because, thank God, this is a disorganized country. The fights that break out are never quickly settled. The problem is that the developed countries and their multinational companies now understand this. TRIPS is a super-sophisticated system, equipped with a handful of substantial decisions to change international legislation and give rights to patent holders, but at the same time it contains about 40 articles that deal only with enforcement: ways of guaranteeing that what has been established is applied. So it will no longer be possible to claim, as one usually says in Brazil, that the law did not catch on. I focus on these questions in a recent work for the intellectual property group at REBRIP. In other words, as of the moment when the provisions of the TRIPS Agreement are enforced, the country will not be able to resort to the usual subterfuges such as the 248 248 slowness of the Judiciary. Those who have read the Brazilian Patents Law notice that the second last article says: the Judiciary Power is authorized to set up federal justice courts with specialized judges to deal only with intellectual property. This shows how outside pressure has acted on our law. The TRIPS Agreement also created a complex system of dispute settlement. This is the first type of international court to which countries owe obedience, something that not even the International Court at The Hague managed to do with the international system of human rights. In this instance, any sentence has to be accepted by the country. As for TRIPS, the WTO has set up a supra-national authority to settle disputes. Up to the moment, no country has contested WTOs right to decide on decisions between countries. This is the first time this has happened. Patents and medicine for AIDS To conclude, I shall dwell on questions relating to medicine for AIDS. After the appearance of AIDS and here we must consider that AIDS, rather than a problem, is a true blessing the world realized, in this specific case of intellectual property, that a great injustice was being done against countries. It is inadmissible to grant a 20-year monopoly to companies that produce, for example, French neckties, which makes this product cost ten times more than a necktie made in Brazil. Nonetheless, I can save on superfluous goods, but the same does not hold true for medicine. When you have a serious disease, a disease for which there are not even definitive solutions, any medicine becomes the most essential thing to maintain life. Jeffrey Sachs, a United States economist who is very much in favor of free trade, revealed to us that the so-called AIDS cocktail costs US$ 500 per person per year. In the United States (where they say that there is a lot of spare money), they sell this very same treatment at US$ 10,000 per person per year. This, according to Sachs, is because there exists a business AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT called patent monopoly. The holder of the monopoly on a product, which can only be repeated by another country in 20 years time, stipulates the price that he thinks is convenient, because there is no relation between production cost and market price. How is the monopoly price defined? We all know how. We have just seen the alcohol and sugar producers raise the price of this fuel 70% and we are utterly impotent to do anything about it. That is monopoly. AIDS has served as a beam of light to enable us to see these questions more clearly. Monopoly obliges us to pay US$ 10,000 for something that costs others US$ 500 and is a necessary substance for the survival of many individuals. The same is true of other areas such as agriculture and food production. We may risk the risk of not having enough food to feed the population because there will be a monopoly on the seeds that make up the basis of food, in the same way that there is a monopoly on the production of drugs. The Brazilian government played a decisive role at the Interministerial Meeting of the WTO held in Doha in November 2001, at the discussion on the impact of TRIPS on public health. A declaration was signed by 50 Ministers who attended the meeting, including some from developed countries. From the political point of view it was a significant victory, but there is still a long way to go to see any changes in the WTO or TRIPS. There is a lot of pressure from countries like the United States to change the Doha Declaration. time offer monopolies on technological and scientific knowledge. In the short run this make s the countrys technological development and industrialization impractical. In the early 90s, Brazils pharmaceutical sector imported US$ 25 million. In 1995 it imported US$ 400 million. In 1998 it imported US$ 1.4 billion. And if formerly it was impossible for the Brazilian government to influence and focus on the demands of the drug companies on the national industry, today, with TRIPS and our patents law, we are at the entire mercy of what the international monopolies dictate. Formerly the National Bank for Economic and Social Development (BNDES) stimulated national companies to set up so that they could employ people in Brazil and carry out whatever small industrialization process was possible. Today we can do nothing more because the tariffs are very low and the government is no longer able to raise them because it has allowed itself to get all tied up in all this international legislation. The core problem belongs to intellectual property, and public opinion must be mobilized so that some changes are made. If the country does not manage to re-direct the market towards its national industry, it has no future as a country and that is very difficult in the situation we have reached. Making development and industrialization impractical The questions involving patents and intellectual property are not only problematic in the area of production of medicines. AIDS is only one dramatic point that ended up receiving a great deal of attention from public opinion. This problem belongs to the industry of developing countries. We are being frozen, obliged to open up our frontiers in all international negotiations and at the same INTELLECTUAL PROPRIEDADEPROPERTY INTELECTUAL 249 249 EL IMPACTO DE LAS PATENTES EN LA PRODUCIÓN INDUSTRIAL Y TECNOLÓGICA DE LOS PAÍSES EN DESARROLLO Cícero Gontijo, Abogado y profesor de la Fundación Getúlio Vargas ([email protected]) Hace muchos años, estudio el área de propiedad industrial y transferencia de tecnología, y mis cabellos blancos aún no me han hecho perder la capacidad de indignarme. Traigo algunas afirmaciones para presentar en esta discusión, que también van a causar indignación. Estoy realizando actualmente un trabajo bastante amplio, destinado al Grupo de Trabajo sobre Propiedad Intelectual de la Red Brasileña de Integración de los Pueblos (REBRIP), que congrega a organizaciones del tercer sector y de los diversos movimientos sociales, referente a las varias negociaciones en las que Brasil está involucrado, relacionadas estas con la propiedad intelectual. En este momento, Brasil trabaja en por lo menos cinco foros diferentes, con temas relacionados. Cada uno de ellos en un nivel diferente de contrato y en un momento gradual diferente de los otros. Menciono a la Organización Mundial del Comercio (OMC), a los trabajos de integración del Área de Libre Comercio de las Américas (ALCA), al MERCOSUR, a la Unión Europea y a la Organización Mundial de Propiedad Industrial (OMPI/Convención de París). O sea, hay cinco foros tratando el mismo asunto, lo que exige una gran capacidad de negociación, de convencimientos y estudios. La primera afirmación que quiero traerles es la siguiente: Estamos viviendo un momento de gran contradicción. Los más jóvenes creen que nacimos en el neoliberalismo, que es normal todo lo que está pasando, quiere decir, que el gobierno no puede involucrarse en la definición de precios, él no puede levantar tarifas de importación. Los jóvenes creen que Brasil siempre fue así, pero no lo fue. El mundo es cíclico. 250 250 A fines del siglo XVIII, alrededor del 1800, ocurrió en el mundo un gran movimiento llamado de libre-cambio, o sea de liberalismo, de globalización, un fenómeno muy parecido al que se está dando ahora. Había terminado la revolución industrial en Inglaterra, Europa estaba muy desarrollada, los Estados Unidos estaban en una situación bastante buena económicamente y sus empresas comenzaron a extenderse por otros países. Quiere decir, que la tal globalización, la intercomunicación de los intereses de grandes empresas y su participación dentro de países que no tenían nada que ver con el origen de ellas ocurrió hace 200 años de la misma forma en que está ocurriendo hoy. Pero veo en ese fenómeno una gran contradicción. La onda de libre comercio aplastó lo que había de nacionalismo, de proteccionismo, hasta ahora igual a lo que está sucediendo en este momento, con una excepción: aniquiló todo, inclusive los sistemas de monopolio que existían. La pelea era la misma que se puede ver ahora; ya que es libre comercio, es todo libre, en él sólo las tarifas tienen que ser bajadas como que tiene que haber libertad de transferencias de personas. Concuerdo en que puedo comprar leche italiana sin necesidad, de dar ningún beneficio a mis productores de leche, del interior de Minas Gerais, por ejemplo; pero es preciso que Italia concuerde en que, si yo quisiera instalarme en Italia, tengo el derecho de hacerlo. Eso sería libre comercio de verdad, porque lo que estamos viviendo hoy es libre comercio para cosas, para bienes y total nacionalismo para las personas. Los africanos tienen que quedarse en África, los árabes tienen que quedarse en Arabia y nosotros tenemos AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO que quedarnos aquí, sólo que los bienes y los servicios están siendo extendidos, como si fuera natural. Conocimiento técnico ¿Qué está sucediendo hoy en el campo de la propiedad industrial? Referente a las negociaciones, que ocurrieron en el ámbito del Acuerdo de Aspectos de Derechos de Propiedad Intelectual relacionados con el Comercio (ADPIC) de la OMC, hicieron al sistema más rígido, más fuerte, más endurecido. En lo que respecta a los monopolios del conocimiento, el mundo estaba viviendo un momento de gran libre comercio. Quiero decir, que los gobiernos hoy, cada vez pueden menos, no se deben involucrar en la vida de las empresas, tienen que entender que, entre las empresas, quien es competente puede establecerse y permanecer en todas las áreas de bienes y servicios, con excepción de un área, la más importante, la del conocimiento tecnológico. El conocimiento tecnológico con ADPIC está exactamente al contrario del libre comercio. Esa es la gran diferencia entre nosotros y lo ocurrido al final del siglo XIX. Al mismo tiempo en que está todo basado en el libre comercio se consiguió una libre negociación que arrecia y congela el sistema de conocimiento técnico del mundo, los países que tienen conocimiento técnico tienen un gran estímulo para lograr más conocimiento técnico. Los que no lo tienen, no tienen como adquirirlo y van a tener que continuar ignorantes en lo que a técnica se refiere. Esa es la expresión más simple del sistema de monopolios de la propiedad industrial. Estamos viviendo un momento de gran contradicción. Pero, seguramente, dentro de diez años, o seremos de libre comercio, o seremos proteccionistas, nacionalistas y monopolistas de nuevo. Las dos cosas en él funcionan unidas. El momento es interesante sobre todo para la vida de las naciones. Surge con una suprema sofisticación, con una gran competencia, el trabajo realizado por las grandes empresas multinacionales y por los países desarrollados que se dedicaron a la creación de la OMC y a hacer el Acuerdo ADPIC. PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL El sistema de propiedad industrial es perfecto, pero fue montado y organizado para funcionar entre países desarrollados, quiere decir, para países desarrollados que tienen una buena estructura técnica, empresas que hacen investigaciones, empresas que están disputándose el mercado internacional, grandes centros de tecnología. Para esos países, el sistema que da monopolio temporal a quien tiene una patente es bastante razonable y de ese modo, Francia no le reclama a Alemania, Alemania no le reclama a Inglaterra e Inglaterra no le reclama a los Estados Unidos, porque, en general, lo que ellos pierden en un sector lo ganan en otro, incluso en los sectores más sofisticados y de más rápido avance. Todos esos países tienen un cierto desarrollo. Pero, cuando se mira para la cola del mundo industrializado, quiero decir, para el patio, para nosotros, para el llamado mundo en desarrollo, el sistema es absolutamente injusto. ¿Qué es lo que hace él? Me convence de que no debo aumentar las tarifas de importación, pero me presiona, delicadamente, para que le dé monopolio por 20 años para cualquier invención que hagan y que es registrada aquí. El sistema de patentes brasileñas es montado para los extranjeros. Noventa y cinco por ciento de las patentes concedidas en Brasil son extranjeras. Esa no es una afirmación basada en la teoría de la conspiración internacional. Estoy afirmando lo que está en los libros. Todo sistema de patentes en Brasil y en cualquier país subdesarrollado, está volcado a garantizar los derechos de foráneos. Claro que hay un 5% de personas del propio país que están desarrollando patentes, como investigadores de Far-Manguinhos o de la Embraer, entre otras. Eso corresponde a una ínfima partícula en medio de la gran masa que tenemos que garantizar. Hace 100 años que el sistema farmacéutico internacional está tratando de obligar a todos los países a que le den patentes a sus productos. Que esto se haya conseguido es una de las mayores hazañas de que se haya tenido noticia, obtenida gracias al Acuerdo 251 251 ADPIC. Hasta hace 30 años, dos tercios de los países del mundo no les daban patentes a sus productos farmacéuticos. Entonces, cuando, al refutar los términos del Acuerdo ADPIC, muchas personas encuentran que es injusto dar un monopolio de 20 años a una invención farmacéutica, no se está siendo ni revolucionario, ni anárquico. Estamos raciocinando de la misma forma que Estados Unidos, Alemania, Francia y otras tantas naciones raciocinaban hace 30 años, cuando estaban en situación semejante a la nuestra. O sea, cuando la patente los perjudicaba a ellos, en un momento en que aún no eran suficientemente desarrollados, no había patentes. Entonces, los países eran libres para definir los sectores en que podían dar patentes, y las daban según un plan nacional de desarrollo industrial. Si había interés en desarrollar tecnológicamente un determinado sector, entonces había un estímulo, impidiendo la formación de monopolios. Para eso, los países no daban patentes a productos considerados esenciales o sobre aquellos de los que se quería obtener mayor perfeccionamiento tecnológico. Eso era permitido hasta hace cinco años. Entonces, miren la revolución que vivimos con la creación del ADPIC. Hoy, somos obligados a dar patentes en todos los sectores de la economía, gustemos o no, queramos o no. Y eso fue hecho es bueno que lo sepamos por la presión y la competencia de las industrias farmacéuticas internacionales, no ocurrió porque el mundo consideró que era justo, ni fue, eventualmente, una idea del gobierno norteamericano. Eso fue resultado de la acción del sistema de las empresas internacionales de medicamentos, y por ahí vamos acabar llegando al asunto del SIDA. Quien siguió el proceso de la Ley de Patentes en Brasil y del ADPIC, sabe cuanta presión hizo, la industria farmacéutica internacional en Brasil, en la época de la aprobación de la Ley Brasileña de Patentes, con representantes visitando, varias veces, el FarManguinhos, el Instituto Nacional de Propiedad Industrial (INPI), el Ministerio de Ciencia y 252 252 Tecnología, el Gobierno Federal, el Congreso Federal, entre otras instituciones. No se trata de hacer aquí una crítica, y sí tan sólo constatar que ese movimiento tiene, en gran parte, la mano inteligente y competente de las industrias farmacéuticas mundiales. La necesidad de equilibrio Pasemos, ahora a la segunda afirmación. Para un país en desarrollo, sólo tiene sentido un sistema de patentes y propiedad industrial en general, si el sistema fuera razonablemente equilibrado. Con el Acuerdo ADPIC, es totalmente desequilibrado. Pero, ¿qué significa razonablemente equilibrado? Que los titulares, que detienen un derecho fantástico de monopolio en pleno siglo XXI, tengan también algunos deberes. Eso no es lo que ocurre. Nuestra Ley de Propiedad Intelectual tiene 244 artículos, y el único deber que ella estipula para el titular de la patente es el de dar a conocer la invención en el momento de hacer la solicitación de la patente. El resto es derecho. ¿Qué es una patente? ¿Qué es el sistema de propiedad intelectual? Hay quien afirma que la patente es un derecho natural, de recompensa a inventores, que forma parte del sistema de propiedad. No obstante, una patente es una cosa muy simple: es un contrato entre un Estado y un inventor o una empresa titular de una invención, mediante la cual el Estado admite dar un monopolio temporal de uso. Se trata de un negocio muy rentable para el inventor, pues, en cambio, él solamente debe cumplir con dos obligaciones: mostrar su invención y producirla en el país que le otorga la patente. Esclarecer como alguien llega a una determinada invención es, supuestamente, de interés para el desarrollo tecnológico del país, pues nuestros científicos no perderían tiempo y podrían producir localmente las novedades industriales. La producción local es la mejor forma de realizar la transferencia de tecnología, pues utiliza recursos humanos y materiales del país, y de cierta forma, muestra verdaderamente los procesos que están en la base de la invención. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO Mucha gente piensa que un plazo de 20 años es absolutamente absurdo. Aunque nuestros investigadores consigan descubrir los pasos de una determinada invención, ellos sólo van a poder usar esas informaciones de aquí a 20 años. Eso significa el congelamiento del desarrollo de la tecnología y los conocimientos, significa que un país sólo podrá igualarse, a los patrones tecnológicos de los países inventores en, por lo menos, 20 años, tiempo suficiente para que nuevas invenciones sean patentadas y reduzcan la distancia tecnológica entre los países más industrializados, de aquellos con menor capacidad tecnológica. Aún así, el único derecho razonable que las legislaciones daban a los países en desarrollo, que era el de exigir el desenmascaramiento y la producción local, está siendo negado aunque de forma indirecta en el ADPIC. Ese acuerdo dejó entender que a los países les es posible dar licencias compulsorias, presionar al titular de la patente, cuando no produzca localmente, pero no dejó explicitas tales condiciones de forma clara. No hay una palabra en el Acuerdo ADPIC - que es el gran acuerdo del momento sobre propiedad industrial- que diga que los países tienen el derecho de exigir producción local. No se hace mención explícita a la licencia compulsoria. Inventaron ahora un eufemismo que se llama otros usos sin la utilización del titular de la patente, para no usar la expresión licencia compulsoria . Dicho de otro modo, el ADPIC representa un desastre para el desarrollo técnico y el desarrollo de las investigaciones industriales, en cualquier área. Los efectos de esto, en el área farmacéutica son más evidentes para quienes acompañan la discusión, por ejemplo: de los genéricos y de los medicamentos para el SIDA. La legislación brasileña A pesar de eso, el gobierno brasileño aprobó en 1996, una Ley que es peor que el Acuerdo ADPIC, pues permite más concesiones a los inventores que el propio acuerdo internacional. Esta, aceptó todo lo que el ADPIC mandaba y no hizo nada de lo que, en el ADPIC PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL se planteaba; permitiría indirectamente beneficios al país; y esa constituye la tercera afirmación que podrá causar gran indignación. Pero eso no trajo indignación a gran parte de la población, pues, lamentablemente, se trata de un asunto técnico, sofisticado, penetrado de un palabreo muy restringido a los círculos de las organizaciones del sistema de las Naciones Unidas. Tanto la clase de los políticos brasileños y otras personas que toman decisiones, no logran seguir esa discusión. Voy a decirlo con la mayor franqueza y la mayor modestia. Soy abogado de formación, soy economista e hice una tesis de doctorado en Paris sobre ese asunto, en el área de economía. Nadie entiende de eso en Brasil. Porque ese tema sólo es tratado en Brasil por los abogados, que creen que, a partir del momento en que existe una ley, en ella está la verdad y que la misión de ellos es ajustar la realidad a la ley. Ese es un defecto propio de los abogados, que les permite vencer una causa. Los otros abogados los que conocen el asunto en sus especificidades, antes de la ley, por tanto, y que serían capaces de criticar la ley y interferir en su aprobación por el Congreso Federal son especialistas en propiedad industrial y por tanto, tienen un gran interés en que eso quede de esa forma. Tenemos que considerar que son fortunas que se manipulan y se acumulan de forma legal, en la protección de las patentes. Aunque, sería importante que los economistas tuviesen condiciones de entender de ese asunto, pero son pocos los que se dedican a enfrentar el desafío. Edith Penrose, una economista y profesora inglesa, tuvo el coraje de hacer un documento, en el cual afirma que no hay ninguna comprobación económica de que los países tienen ventajas en compensar inventores por medio de monopolios. En 1974, 20 años después de haber hecho el primer libro, ella inició un estudio sobre el caso específico de los países en desarrollo. En el libro titulado Países en desarrollo y propiedad industrial, Edith nos dice que no hay ninguna razón para que los países en desarrollo les concedan patentes a extranjeros, pues ellos no tienen 253 253 ninguna forma de beneficiarse de eso. Esta es la cuarta afirmación, que tomo prestada de esa economista. Como pueden ver, eso fue afirmado por una inglesa, en una época en que los países en desarrollo trataban, junto a la OMPI que trataba del antiguo acuerdo de propiedad intelectual internacional, que fue sustituido por el ADPIC, en la OMC , de obtener un tratamiento diferenciado en la legislación internacional. De 1974 a 1979, se reunieron en Ginebra, durante los meses de junio y de noviembre, técnicos y diplomáticos del mundo entero para dar flexibilidad a la legislación de propiedad intelectual, tratando de forma diferente a los países en desarrollo. Yo participé de eso, pues en aquella época era el técnico brasileño que acompañaba a los diplomáticos brasileños en Ginebra. Fue hecha una nueva legislación sobre todo respecto a licencias compulsorias y al pasar cinco años, la revisión a favor de los países en desarrollo dio en nada, porque los americanos ya estaban estudiando una fórmula que, en vez de flexibilizar la ley, la arrecia, la amplía, la endurece, llevando los temas a ser discutidos en el ámbito de la OMC, terminando con la elaboración del Acuerdo ADPIC. Irónicamente,-y esa es mi quinta afirmación, hasta ahora eso no tuvo gran consecuencia en Brasil, porque, gracias a Dios, este es un país desorganizado. Las peleas que ocurren no llevan a un resultado rápidamente. El problema es que los países desarrollados y sus multinacionales ya entendieron eso. El ADPIC es un sistema súpersofisticado, tiene un puñado de decisiones sustanciales que cambian la legislación internacional, dando derechos a los titulares de la patente, pero, al mismo tiempo, trajo cerca de 40 artículos que tratan sólo acerca de los medios de garantizar la aplicación de lo establecido. Es el llamado enforcement. Así, no puede ser posible, como se acostumbra decir en Brasil , afirmar que la ley no pegó. Estoy destacando esas cuestiones en un trabajo reciente preparado para el grupo de propiedad intelectual de la REBRIP. O sea, en 254 254 el momento en que los dispositivos del Acuerdo ADPIC sean aplicados, el país no podrá recorrer a subterfugios usuales, como la morosidad del poder judicial. Quien leyó la Ley de Patentes en Brasil tuvo la curiosidad de ver el que en el penúltimo artículo dice: El Poder Judicial está autorizado a crear varas de justicia federal, con jueces especializados, para tratar sólo de propiedad intelectual. Se ve evidentemente, como la presión externa actuó sobre nuestra ley. Se creó también en el Acuerdo ADPIC un sistema complejo de solución de controversia. Es el primer tipo de tribunal internacional a quien los países deben obediencia, algo que no se consiguió ni con el sistema internacional de Derechos Humanos, ni con el Tribunal Internacional de Haia. En esa instancia, cualquier sentencia tiene que ser aceptada por el país. Ya con el ADPIC, la OMC creó una autoridad supranacional para resolver las controversias. Hasta el momento, ningún país protestó por el derecho de la OMC de decidir discusiones entre países. Es la primera vez que sucede eso. Patentes y medicamentos para SIDA Para finalizar, voy a atarme a las cuestiones relativas a los medicamentos para el SIDA. Después que el SIDA surgió y aquí tenemos que considerar que el SIDA, en vez de ser un problema, es una verdadera bendición el mundo se dio cuenta, en ese caso específico, de propiedad intelectual, que había una gran injusticia siendo impuesta a los países. Es admisible dar un monopolio de 20 años a empresas que producen, por ejemplo, corbatas francesas, el que hace que ese producto cueste diez veces más que el precio de una corbata hecha en Brasil. No obstante, yo puedo economizar con productos superfluos, lo mismo no se puede decir en el caso de los medicamentos. Cuando usted tiene una enfermedad grave, una enfermedad para la cual no existen soluciones definitivas, cualquier remedio se convierte en la cosa más esencial para la manutención de la vida. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO Jeffrey Sachs, un economista norteamericano, altamente favorable al libre comercio, nos reveló que el costo del así llamado cóctel para el SIDA es de US $ 500 por persona/año. En los Estados Unidos, donde se piensa que el dinero sobra , ese tratamiento es vendido a US $ 10 mil personas/año. Eso, porque según Sachs, existe un negocio llamado monopolio de patentes. El sujeto que tiene monopolio sobre un producto, que sólo podrá ser repetido por otro país de aquí a 20 años, estipula el precio que halle conveniente, pues no hay ninguna relación entre el costo de producción y el precio en el mercado. ¿Cómo es que se define el precio de monopolio? Todos sabemos eso. Estamos acabando de ver ahora a los productores de alcohol y azúcar como aumentaron un 70% el precio de ese combustible y nos tuvimos que quedar totalmente impotentes ante ese hecho. Eso es monopolio. EL SIDA sirvió como un foco de luz para que pudiésemos ver esas cuestiones con más claridad. El monopolio nos obliga a pagar US $ 10 mil por algo que cuesta US $ 500 y que es un insumo necesario para mantener la vida de muchas personas. Lo mismo se da en otr a s á reas, como la agricultura y la producción de alimentos. Podemos correr el riesgo de no tener como alimentar a la población, porque habrá monopolio de semillas que componen la base de la alimentación, de la misma forma que existe monopolio en la producción de fármacos. El gobierno brasileño tuvo una actuación decisiva en la Reunión Interministerial de la OMC, realizada en Doha, en noviembre del 2001, en la discusión sobre el impacto del A D P I C en la salud pública. Hubo una declaración firmada por 50 ministros que estaban presentes, inclusive algunos de esos ministros de países desarrollados. Desde el punto de vista político, fue una conquista significativa, pero de ahí a modificar algo en la OMC y en el ADPIC existe un camino muy largo. Hay mucha presión, de países PROPIEDAD PROPRIEDADE INTELECTUAL INTELECTUAL como los E stados Unidos, para que sea alterada la Declaración de Doha. Haciendo no viable el desarrollo y la industrialización Los temas que tratan patentes y propiedad intelectual, no son problemáticos sólo en el área de la producción de remedios. El SIDA no es más que un punto dramático, que acabó destacándose con la opinión pública. Ese problema es de la industria de los países en desarrollo. Estamos siendo obligados a abrir nuestras fronteras a todas las negociaciones internacionales y al mismo tiempo a ofrecer monopolio sobre el conocimiento tecnológico y científico. Eso, en un corto plazo, hace noviable el desarrollo tecnológico y la industrialización del país. A principios de los años 90, Brasil importó, en el área farmacéutica, US $ 25 millones. En 1995, importó US $ 400 millones. En 1998, importó US $ 1 billón 400 millones y si antes le era posible al gobierno brasileño influenciar y focalizar las demandas de las compañías farmacéuticas para la industria nacional, hoy, con el ADPIC y nuestra Ley de Patentes, nos quedamos totalmente a merced de lo que dictan los monopolios internacionales. Antes, el Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social (BNDES) estimulaba la creación de empresas nacionales para que pudieran emplear a personas en Brasil y realizar una pequeña industrialización, la que fuera posible. Hoy, no podemos hacer nada más, pues las tarifas están muy bajas y el gobierno no tiene condiciones de aumentarlas, pues se dejó enredar en esas legislaciones internacionales. El problema en su origen es de propiedad intelectual, y es necesario movilizar a la opinión pública para que algo sea transformado. Si el país no consigue reorientar el mercado hacia su industria nacional, no tiene futuro como país y eso, es muy difícil en la situación a que hemos llegado. 255 255 4 256 AIDS E DESENVOLVIMENTO Financiamento das ações de controle de DST/AIDS Financing STD/AIDS control activities Financiamiento de las acciones de control de ETS/SIDA FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 257 Políticas de financiamento das ações de controle da AIDS e desenvolvimento social Alexandre Grangeiro Sociólogo e coordenador-adjunto da Coordenação Nacional de DST e AIDS, do Ministério da Saúde ([email protected]) 258 AIDS E DESENVOLVIMENTO E m um primeiro momento, farei algumas considerações com o intuito de tentar localizar quais seriam os parâmetros ou diretrizes de uma política de financiamento para AIDS no contexto que articula AIDS e desenvolvimento. Em seguida, procurarei mostrar como está a composição de gastos relativos à AIDS, para, por fim, comentar sobre a lógica de financiamento no setor público. Para pontuar algumas questões relativas à política de financiamento no contexto da AIDS e desenvolvimento, vou partir de determinados pressupostos. a epidemia de AIDS hoje no Brasil, ela não tem um impacto expressivo, do ponto de vista global, nas políticas ou nas questões relativas ao desenvolvimento, nem do ponto de vista econômico e nem do ponto de vista do desenvolvimento social. Isso é um diferencial O primeiro deles é que, considerando muito grande se compararmos com outros países do sul. Por exemplo: na África, há países em que o impacto da AIDS no setor produtivo é muito significativo, chegando a comprometer, em alguns casos, a própria viabilidade econômica das nações. Embora não existam estudos profundos sobre o tema no Brasil, podemos inferir que não há uma diminuição significativa na produção de riquezas no país por causa da AIDS. Talvez o grande impacto seja na expectativa de vida, mas cuja redução ainda assim é pequena, se considerarmos a realidade de outros países. Em 1996, estudos indicavam que havia uma redução de quatro meses da expectativa geral de vida do brasileiro em decorrência da epidemia de HIV/AIDS. Se atualizarmos para 2001, esse tempo de diminuição na expectativa de vida deve se reduzir. Entretanto, podemos falar que há um significativo impacto, se olharmos especificamente para aquelas populações que são diretamente afetadas pela epidemia de HIV/AIDS. Isso leva, de fato, ao aumento da vulnerabilidade social, o que pode ser verificado a partir dos níveis de desemprego entre pessoas vivendo com HIV/AIDS. Apesar de termos somente estudos FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 259 pontuais, verifica-se que a taxa de desemprego é 50% maior na população de pessoas vivendo com HIV/AIDS do que na população em geral. No que diz respeito à orfandade em função da morte dos pais em decorrência da AIDS, que é um dos grandes impactos que podemos considerar, encontramos cerca de 30 mil órfãos, aproximadamente, no país. Também podemos falar de um impacto no âmbito da previdência social. Considerando que a doença pode gerar a saída do indivíduo do mercado de trabalho, há uma estimativa de que 9,1 mil pacientes recebam benefícios da previdência, sejam esses benefícios permanentes (aposentadoria) ou temporários. Conseqüências do modelo de desenvolvimento Se, por um lado, temos dificuldades para constatar um impacto expressivo da epidemia de AIDS no desenvolvimento econômico-social do país, por outro, é bastante evidente que o modelo de desenvolvimento existente acaba por ser um dos principais determinantes da epidemia de HIV/AIDS. Assim, esse modelo de desenvolvimento, marcado por processos de exclusão social, leva a um padrão específico da epidemia de HIV/AIDS no país. Se tomarmos alguns indicadores sociais, isso fica bastante manifesto. Por exemplo: hoje, o crescimento da epidemia se dá de forma mais expressiva em populações de baixa renda. A prevalência em grupos vulneráveis, que são marcados pela exclusão social, é maior do que na população em geral. Há um crescimento da epidemia expressivo e diferenciado entre mulheres, assim como as mulheres morrem mais do que os homens, o que também é fruto de uma política de exclusão social. Encontramos, ainda, desigualdades regionais, nas quais verificamos tendências diferenciadas de crescimento da epidemia entre a região centro-sul e a região norte-nordeste. Enquanto que nos estados da região centro-sul, como foi dito, a epidemia tende a um estabilização em alguns lugares há, inclusive, um decréscimo , nas regiões norte e nordeste ela tende a um crescimento. Ressalta-se que, na região nordeste, se persistir a tendência atual, a epidemia deve ter uma taxa de crescimento maior do que na região sul do país, onde hoje 260 AIDS E DESENVOLVIMENTO a epidemia incide de forma mais proeminente. Se observarmos o crescimento dos municípios, os municípios novos que têm entrado na epidemia são locais onde a renda per capita é menor do que a do país, como um todo. Portanto, fica essa política de desenvolvimento, baseada na exclusão social e na desigualdade, pode começar a determinar o padrão epidemiológico da AIDS. bastante claro que Dados epidemiológicos recentes, relativos a instrução e ocupação, demonstram crescimento do número de casos de AIDS entre pessoas com menor escolaridade. Se olharmos para as taxas de incidência de AIDS em determinadas categorias ocupacionais para homens de 20 a 49 anos, verificamos que as ocupações de menor qualificação são aquelas que apresentam, de fato, os valores mais altos, enquanto que nas profissões liberais observa-se uma tendência de redução. Já entre as mulheres, a incidência de casos de AIDS por ocupação é bastante diferenciada, pois todas as ocupações apresentam tendência de crescimento. Mas o que é mais interessante aqui é que a grande maioria das ocupações das mulheres é de baixa remuneração e de grande fragilidade na inserção no mercado de trabalho. Tais informações só corroboram a exclusão social de que as mulheres são alvo. Tomando as informações relativas à previdência social, embora observemos que, entre 1996 e 2001, haja uma redução importante em todos os benefícios (auxílio-doença, aposentadoria e auxílio continuado), o único que mostra uma tendência de crescimento é um auxílio permanente, concedido em função de incapacidade de pessoas com baixa renda (que recebem menos de 1/4 de salário mínimo). Trata-se, portanto, de um benefício que é concedido em função de precárias condições sociais, e é significativo o fato de ele apresentar tendência de crescimento enquanto outros mostram redução no mesmo período. Também se olharmos para a forma como a epidemia se distribui segundo as categorias de exposição, iremos identificar impactos significativos. Se tomarmos as taxas de prevalência entre grupos específicos, como usuários de drogas, profissionais do sexo ou homens que fazem sexo com homens, constatamos que elas são superiores quando comparadas à população geral. No caso de homens que fazem sexo com homens, a probabilidade de infecção é 11 FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 261 vezes maior em relação à população masculina heterossexual. Enfim, são grupos mais expostos e mais vulneráveis. Inclusão social qualquer política de financiamento deve, necessariamente, privilegiar as ações que tenham impacto na redução da exclusão e das desigualdades, e que promovam a inclusão social. No que diz Nesse contexto, podemos pensar que respeito à saúde, essa política de financiamento tem que coincidir com os princípios do Sistema Único de Saúde (SUS), de universalidade, de eqüidade e de integralidade. Por outro lado, tal política deverá buscar a superação daqueles problemas que hoje são estruturais, quer dizer, que determinam a maior vulnerabilidade das pessoas frente ao HIV. Se olharmos até para os menores avanços com relação à resposta social à AIDS, vamos observar que as ações mais eficientes ou estão relacionadas com problemas estruturais da área de saúde ou com problemas conjunturais, no campo social e econômico. É aí que essas políticas compensatórias devem se pautar de forma mais imediata. Tomemos, como um exemplo das questões estruturais, como a inclusão social, o caso da prevenção da transmissão vertical, na qual a estrutura de assistência ao pré-natal e ao parto é absolutamente deficitária, impossibilitando a inclusão e o acompanhamento com qualidade das gestantes. Mesmo considerando os recentes avanços, esse é um campo da atenção à saúde da mulher que precisa melhorar muito. Para tentarmos discutir sobre se a política de financiamento para o controle da AIDS possibilita promover a inclusão e a redução das diferenças sociais existentes, vou tentar mostrar como é a composição do gasto e, em seguida, qual é a lógica do financiamento público da área de saúde. Hoje, 1,34% de todos os gastos relativos à saúde realizados no país, sejam públicos ou privados, refere-se ao controle e à prevenção da epidemia de HIV/AIDS, e 2,9% dos gastos realizados pelo Ministério da Saúde são destinados para esse fim (informações 262 AIDS E DESENVOLVIMENTO relativas a 2000). Nesse mesmo ano, tivemos gastos em relação à AIDS no valor de US$ 660 milhões, sendo que 80% desses gastos são relativos à área pública e 20% são gastos privados, isto é, dispendidos pelos indivíduos. A grande composição desse gasto é relativa ao consumo e à aquisição de preservativos. Ainda temos que 4,8% dos gastos são feitos por empresas e 0,1%, por organizações não-governamentais. Do ponto de vista de financiamento, sem considerar os gastos feitos por alguns organismos internacionais, 8% dos gastos provêm de fonte internacional, ou seja, do acordo de empréstimo com o Banco Mundial, e 92% são realizados com recursos nacionais, sejam eles privados ou públicos. No que diz respeito especificamente à questão dos tratamentos, 80% dos gastos estão relacionados com assistência, sendo que os medicamentos antiretrovirais são aqueles que têm o maior peso dentro dos gastos relativos à epidemia. De 1999 para 2001, houve uma redução dos gastos relativos ao controle e à prevenção da epidemia de HIV/AIDS. Entretanto, essa redução se deve, principalmente, ou quase que exclusivamente, à redução dos gastos com antiretrovirais, pois todos os outros gastos com prevenção, assistência direta às pessoas vivendo com HIV/AIDS e fortalecimento institucional mantêm-se em patamares iguais ou vêm aumentando. É óbvio que, na realidade, a concentração dos gastos da assistência (atenção médica e farmacêutica) é muito alta dentro do sistema de saúde. É interessante notar que os gastos de saúde são diferentes dos gastos relativos à AIDS, chegando a ser muito mais concentrados na assistência individual (mais de 90%), ao passo que os gastos relativos à promoção e ao fortalecimento institucional são muito minimizados. Se comparados com os gastos de saúde em geral, os gastos em AIDS são maiores com as ações de promoção e de prevenção. Composição de gastos O financiamento do SUS deve ser compartilhado pelos três níveis de governo. A partir da emenda constitucional 29, em vigor desde 2000, os estados devem comprometer 12% dos seus orçamentos em ações de saúde, os municípios, FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 263 15% e o nível federal deve aumentar gradativamente em 5% os gastos, tendo como base o ano de 1999. Essa composição de gastos deve se reproduzir, em uma certa medida, também para o financiamento das políticas de DST/AIDS. Se consideramos como as fontes de recursos que são próprias ao Ministério da Saúde, teremos quatro grandes blocos. O primeiro deles é o que corresponde a 16% do total de financiamento dos recursos do ministério, que são as chamadas formas regulares de financiamento para assistência, tanto para a atenção básica como a de alta e média complexidades, isto é, as internações, atendimentos ambulatoriais, exames de diagnósticos, entre outros procedimentos. O segundo bloco é formado por cerca de 64% do total e refere-se aos repasses de insumos (principalmente, anti-retrovirais e preservativos) comprados pelo ministério para estados e municípios. Para o fortalecimento de programas de estados e municípios e as ações executadas por esses níveis de gestão do SUS, temos agora a instituição da política de incentivos, que prevê a utilização de US$ 100 milhões/ano para os estados e municípios, utilizando 12% do total dos recursos do Ministério da Saúde, mais os recursos do acordo de empréstimo com o Banco Mundial, que, como vimos, corresponde a cerca de 8% dos gastos. Embora seja do conhecimento de todos, acho importante destacar os significados dessa política de incentivo que está sendo implementada. Tal estratégia visa financiar os estados e municípios, promovendo as ações programáticas no campo da AIDS, em três grandes componentes. O primeiro é o de promoção, prevenção e direitos humanos; o segundo corresponde à qualificação das ações de assistência, tratamento e diagnóstico, e o terceiro diz respeito ao apoio das ações desenvolvidas por organizações da sociedade civil (10% dos recursos). A política de incentivo começou a vigorar a partir de 1o de janeiro de 2003 e desempenha um papel importante na promoção da descentralização. Com ela, será possível aumentar o número de municípios com ações voltadas para o controle da epidemia e, ao mesmo tempo, institucionalizar o financiamento dos estados e municípios, ou seja, a partir do momento que estados e municípios estiverem habilitados, passam a receber regularmente os recursos segundo um plano de ações e metas. Na elaboração e no cumprimento de tais planos, é imprescindível o aprimoramento das instâncias de controle social do SUS em todos os níveis de gestão. 264 AIDS E DESENVOLVIMENTO Banco Mundial Com relação ao terceiro acordo de empréstimo com o Banco Mundial, cumpre esclarecer que não se trata de repetir os dois projetos anteriores. O novo acordo está sendo negociado para um período de três anos, no valor de US$ 200 milhões. Portanto, tanto em período, como em valor, é inferior aos dois anteriores. Nesse acordo, serão US$ 100 milhões formando a contrapartida nacional (parte do governo brasileiro) e o mesmo valor da parte do Banco Mundial, com um pagamento previsto em 15 anos e uma taxa de juros de 7,5%, o que significa uma previsão de pagamento final no valor de US$ 170 milhões. Não estamos mais no momento de fazer acordos que produzam os modelos existentes nos dois anteriores, quer dizer, o novo projeto deve acrescer à resposta nacional, isto é, deve ser pensado a partir do que foi construído ao longo dos últimos anos. Diante disso, o novo acordo está vinculado a dois grandes objetivos: a gestão estratégica o aprimoramento do processo de gestão dos três níveis de governo e da sociedade civil e o desenvolvimento tecnológico e científico, a fim de melhor qualificar a resposta à epidemia onde ela é deficitária nos aspectos científicos e tecnológicos, como, no controle das DSTs, no aumento do diagnóstico de HIV, na qualificação da assistência, entre outras áreas. Como referimos inicialmente, é muito difícil constatar, no caso brasileiro, que a epidemia de HIV/AIDS tem um impacto negativo no desenvolvimento do país, mas as políticas de desenvolvimento social determinam, em algum grau, o padrão epidemiológico. Assim, é importante fazer uma consideração sobre a integração entre as políticas de desenvolvimento e as de financiamento no setor saúde. Assim, é necessário avaliar qual é o impacto, no âmbito da saúde como um todo, do financiamento das ações programáticas em DST/AIDS. Na realidade, como observado em alguns outros países, a resposta à epidemia de HIV/AIDS pode tanto qualificar, como desestruturar a área de saúde, à medida que tem um impacto mais amplo no cuidado e na própria atenção à saúde da população de uma forma em geral. Com relação à questão do HIV, temos algumas evidências de que os resultados das políticas de HIV/AIDS acabaram por levar a um controle dos gastos, isto é, a partir de 2000/2001 a economia de recursos é equivalente ao quanto se gasta em relação à epidemia. FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 265 Indicadores Tomemos dois indicadores para exemplificar essa questão. Estima-se que, entre 1994 e 2002, 58 mil casos de AIDS foram evitados, o que significa uma economia, considerando somente os gastos com tratamento dessas pessoas, de US$ 1,1 bilhão. Além disso, há uma significativa redução das internações de pacientes em função da AIDS, sendo que, em 1997, a média era de 1,6 internação por paciente/ano, passando para 0,8 em 2001. Isso representou, tomando somente o ano de 2001, uma economia de R$ 359 milhões. Considerando esses dois fatores (número de casos evitados e redução do número de internações) e tomando por base o ano de 2000, o Ministério da Saúde evitou o gasto de US$ 446 milhões e realizou gastos na ordem de US$ 503 milhões. Espera-se, assim que tivermos as informações completas para os anos de 2001/ 02, verificar que a relação entre economia e gastos tenha se invertido. Tais considerações são importantes no sentido de destacar que a análise das políticas de financiamento, no âmbito do controle das DST/AIDS, não deve se restringir somente aos aspectos que envolvem os projetos do Banco Mundial, mas deve abranger a totalidade da resposta nacional à epidemia. E essa iniciouse há 20 anos, isto é, não começou com os acordos de empréstimo em 1992, nem com a disponibilização da terapia combinada de anti-retrovirais em 1996. Ela começou em 1983, há 20 anos, e as bases políticas, éticas e até estratégicas foram adotadas já naquela época, em conjunto com a sociedade civil, e, desde então, vem sendo aperfeiçoada. Essa é uma questão, inclusive, de fonte de conflitos nas discussões com o Banco Mundial, que possui outras premissas no campo da saúde, como veremos a seguir. Esses processos de negociação geraram discussões internas, tanto no âmbito governamental, como não-governamental, quando se trazia à pauta a desintegração das ações, a sua verticalidade e as possibilidades de causar impactos negativos nos outros investimentos de saúde. Esses 20 anos de história constituem-se num excelente exemplo para que possamos melhor refletir sobre as políticas de saúde de uma maneira geral. Por exemplo: a implementação da que transfere recursos e responsabilidades, por meio do repasse fundo a fundo, para política de incentivos, acima descrita, 266 AIDS E DESENVOLVIMENTO estados e municípios, é um avanço no que diz respeito ao conjunto do processo de descentralização previsto pelo SUS e uma grande contribuição ao desenvolvimento de políticas de saúde no Brasil. Ao mesmo tempo, tal iniciativa vai ao encontro da incorporação da promoção da saúde nas ações básicas e da sistematização da participação popular e do controle social. Uma outra lição importante diz respeito ao diálogo político que, de fato, se estabeleceu com o Banco Mundial. Pode-se afirmar, com toda a honestidade, que as discussões com o banco, hoje, são muito mais tranqüilas e flexíveis, não só em relação à ação no Brasil, mas com impactos para os projetos dessa instituição com outros países. Por exemplo: o projeto do Banco Mundial, que foi assinado recentemente com Barbados, inclui o acesso ao tratamento antiretroviral, o que também se observa em novos projetos em negociação nos países africanos. Com certeza, o programa brasileiro tem alguma responsabilidade nisso. Para realmente mudar as premissas que, durante algum tempo, nortearam a relação do governo brasileiro com o Banco Mundial, não podemos esquecer que o diálogo, por vezes, foi doloroso e tenso, principalmente nos primeiros anos. Em várias circunstâncias, como em 1995, foram longas as discussões com o banco com o intuito de conseguir liberação para usar um determinado volume de recursos do acordo de empréstimo na compra de exames de contagem de CD4+. À época, os representantes do banco sugeriram que o país fizesse, durante um ano, a avaliação sobre a importância do uso desses exames para o controle da epidemia de AIDS no Brasil, para depois dar uma decisão final sobre a liberação dos recursos. Nesse momento, estabeleceu-se uma tensão muito forte, pois não era cabível que as pessoas que precisavam do exame tivessem que aguardar um ano, até que o país conseguisse provar para o Banco Mundial que a estratégia era justificável. Então, usou-se de um subterfúgio, tendo sido feita uma solicitação para a compra de reagentes de laboratório para contagem de subpopulação de linfócitos, o que acabou sendo aceito. Eles não sabiam que era a mesma coisa e o dinheiro pôde ser usado. No entanto, o mesmo fato se repetiu em 1998, e o governo brasileiro teve que devolver o dinheiro. FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 267 Contribuição brasileira Assim, a questão do diálogo teve um progresso imenso, mas nós devemos ter esse contexto histórico, a fim de conseguir afirmar e enriquecer as políticas públicas e o próprio país. O projeto brasileiro com o Banco Mundial serviu para aprimorar as próprias políticas de desenvolvimento do banco e, indiretamente, contribuiu com outros países em desenvolvimento, estabelecendo novos paradigmas de discussão e ação. Tais paradigmas, no entanto, não devem levar em conta somente os aspectos meramente financeiros ou econômicos. Por exemplo: há um ponto de divergência técnica que mantemos com o Banco Mundial há muitos anos: a cada missão, o país é criticado por gastar muito dinheiro com publicidade para a população em geral, que tem um risco pequeno, alegando-se que esse dinheiro deveria ser usado com populações sob maior risco. No entanto, do ponto de vista técnico e político, é importante que o governo estabeleça um diálogo com o conjunto da sociedade, a fim de que as ações possam ser realizadas nas comunidades e tenham algum sentido. Isso é algo que o Banco Mundial não consegue entender. Enfim, as considerações sobre financiamento dependem das análises políticas, sociais e epidemiológicas, entre outras. Nesse sentido, não podemos considerar o empréstimo com o Banco Mundial somente em sua característica de aporte de recursos. Da mesma maneira, também não podemos conceber um projeto ou uma intervenção, tendo como referência, principal ou exclusiva, a relação custo-benefício. Assim, a partir de nossa relação com essa instituição, podemos perceber que o projeto é mais efetivo se tomarmos a moldura e a agenda que ele estabelece e os próprios mecanismos de utilização que se tem desses recursos. Somente isso irá permitir que o projeto venha a ser implementado com grandes benefícios para o país. Pode-se até argumentar que o Brasil poderia prescindir de um novo acordo. Mas não podemos analisar simplesmente sob a ótica de um maior ou menor endividamento do país. É fundamental olhar para os benefícios que um projeto multilateral ou bilateral pode vir a gerar e 268 AIDS E DESENVOLVIMENTO que seriam impossíveis ou muito difíceis de serem conquistados somente com os recursos orçamentários. Não estamos afirmando que não devemos contar com a estrutura política, financeira, econômica e orçamentária do governo. Apenas alertamos para os riscos que podem advir com a interrupção dos aportes financeiros do Banco Mundial, que podem vir a comprometer um projeto de âmbito nacional. Também não estamos fazendo uma defesa de que os projetos sejam executados sem avaliação. No entanto, não se pode entender a avaliação como um processo que paralise as ações de um projeto. Os projetos do Banco Mundial em relação à AIDS têm sido, sistematicamente, avaliados e revisados nestes últimos oito anos, sem que isso tenha impedido a continuidade das ações. Por fim, é importante olharmos para um dos principais diferencias da resposta brasileira, quando comparada com outros países que também receberam recursos do Banco Mundial: a participação de organizações não-governamentais, não só na execução do projeto, como também na elaboração do mesmo. Isso foi um fato inédito, tanto para o banco, como para o país, o que mudou, radicalmente, as premissas éticas e políticas e permitiu chegarmos aos resultados que temos hoje. Em conclusão, se é verdade que, como afirmamos anteriormente, o desenvolvimento social tem um impacto importante na determinação do padrão epidemiológico do HIV/AIDS, qualquer política de financiamento tem que estar voltada a dar resposta a essas questões promovendo a inclusão das pessoas e reduzindo as desigualdades. Esse, com certeza, deve ser um projeto coletivo, que envolva o conjunto da sociedade brasileira. FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 269 POLICIES FOR FUNDING AIDS CONTROL AND SOCIAL DEVELOPMENT Alexandre Grangeiro Sociologist, and Coordinator of the Brazilian National STD/AIDS Programme, Ministry of Health ([email protected]) This article begins with some remarks aimed at identifying parameters or guidelines for a funding policy for AIDS in a context linking AIDS and development in Brazil. I then proceed to analyze the composition of AIDS-related spending in the country, and conclude by commenting on the funding logic in the public sector. To identify key funding policy issues in the context of AIDS and development, I begin with certain premises. The first is that the current AIDS epidemic in Brazil does not have an overwhelming impact on development policies or issues from either the economic or social development point of view in Brazil. This is a huge difference between Brazil and other countries of the South. For example, there are countries in Africa where AIDS has a highly significant impact on production, in some cases even jeopardizing the nations economic feasibility. Although there are no in-depth studies on the issue in Brazil, we can infer that there is no significant decrease in the countrys GDP due to AIDS. The main impact is probably on life expectancy, but even so the reduction is still slight in comparison to other countries. Studies in 1996 indicated an overall decrease of four months in the life expectancy of Brazilians due to the HIV/AIDS epidemic. Updating the data from 1996 to 2001, there was even less of a decrease in life expectancy. However, there is in fact a significant impact if we specifically consider the population groups that are directly affected by the HIV/ AIDS epidemic. There is an increase in social vulnerability, as observed in the unemployment rates of people living with HIV/AIDS. Although the studies are limited, they show a 50% higher 270 unemployment rate among people living with HIV/AIDS as compared to the overall population. One of the epidemics main impacts is AIDS orphans, and some 30 thousand children have lost their parents to the epidemic in Brazil. There has also been an impact on the social security system. Considering that the disease can exclude individuals from the labor market, an estimated 9.1 thousand patients receive social security benefits in the form of either permanent retirement pensions or temporary unemployment insurance. Consequences of the Brazilian development model While it is difficult to pinpoint a huge impact of the HIV/AIDS epidemic on Brazils economic and social development, it is evident that the countrys prevailing development model is one of the epidemics principal determinants. This development model, marked by social exclusion, leads to a specific pattern in the HIV/AIDS epidemic in the country. Some key social indicators clearly illustrate this situation. For example, the epidemic is currently spreading most rapidly among low-income population groups. The prevalence in vulnerable groups, those marked by social exclusion, is greater than in the overall population. There is a significant and differentiated growth of the epidemic among women, and women die from the disease more than men, another result of the countrys prevailing policy of social exclusion. There are also regional inequalities, with a differential spread of the epidemic in the Central-South as compared to North-Northeast. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT While in States in the Central-South the trend is for the epidemic to stabilize and in some places it has even decreased , in the North and Nor theast it has tended to increase. In the Northeast, if the current trend persists, the epidemic is expected to reach a faster growth rate than in the South, where the epidemic has been most prominent thus far. The municipalities (or counties) where the epidemic has spread most recently are same that have a lower per capita income than the national average. It thus becomes evident that Brazils prevailing development model, based on social exclusion and inequality, may begin to determine the epidemiological pattern of HIV/AIDS in the country. Recent epidemiological data on education and occupation demonstrate an increase in the number of AIDS cases among individuals with less schooling. Focusing on the AIDS incidence rates in given occupational categories for men ages 20 to 49, the least skilled occupations are those with the highest rates, while in the liberal professions there has been a downward trend. Among women, AIDS incidence rates by occupation are highly differentiated, since all female occupations have shown an upward trend. Interestingly, however, the vast majority of occupations among women with AIDS involve low pay and precarious participation in the labor market. Such data further corroborate the social exclusion affecting women in Brazil. Although from 1996 and 2001 there was an important overall drop in social security benefits due to AIDS (unemployment insurance, retirement pensions, and special permanent pensions for low-income individuals), the only category showing an upward trend was special permanent pensions, granted on the basis of AIDS-related disability among poor individuals (earning less than one-fourth the minimum wage). By definition, this benefit is granted on the basis of precarious socioeconomic status, and it is significant that it has shown an upward trend when overall social security benefits for people with AIDS decreased during the same period. FINANCING FINANCIAMENTO CONTROL DAS ACTIVITIES AÇÕES DE CONTROLE Considering the epidemics distribution by exposure categories, we can identify significantly different impacts. The prevalence rates among specific groups, like injecting drug users, sex workers, and men who have sex with men are higher than in the overall population. For men who have sex with men, the probability of infection is 11 times that of the heterosexual male population. In short, these are more exposed and more vulnerable groups. Social inclusion Based on the above, an effective funding policy should necessarily prioritize measures with an impact that reduces exclusion and inequalities and promotes social inclusion. In relation to the health sector as a whole, such a funding policy for HIV/AIDS should coincide with the principles of the Unified National Health System (SUS), that is, universal, equitable, and comprehensive care. In addition, such a policy should seek to overcome what are now structural problems, that is, ones which determine greater vulnerability to HIV. Considering even minor advances in the social response to AIDS, the most efficient measures are related to either structural problems in the field of health or problems in the social and economic context. This is where compensatory policies should focus immediately. An example of structural issues, like social inclusion, relates to the prevention of mother-tochild HIV transmission, where the infrastructure for prenatal and childbirth care is absolutely deficient in Brazil, hindering inclusion and quality follow-up of pregnant women. Even considering recent advances, this area of womens health care demands major improvements in the country. To discuss whether a given funding policy for AIDS control helps promote inclusion and reduce existing social differences, I will first analyze the prevailing composition of AIDS-related spending and then the logic of public funding in the health field. At present, 1.34% of all health-related expenditures in Brazil (both public and private) are for control and preven271 271 tion of the HIV/AIDS epidemic, and 2.9% of the expenditures by the Ministry of Health are for this purpose (data from 2000). During the same year, a total of US$ 660 million was spent on AIDS in Brazil, 80% of which by the public sector and 20% by the private sector (that is, by individuals). The majority of this spending is on condoms. In addition, 4.8% of AIDS-related spending is by companies and 0.1% by nongovernmental organizations. From the point of view of funding (not including direct expenditures by some international agencies), 8% of spending is covered by an international source, namely the loan agreement with the World Bank, and the other 92% by Brazilian national sources, both private and public. Specifically related to treatment, 80% of spending goes to health care per se; here, antiretroviral drugs carry the greatest weight in AIDS-related expenditures. From 1999 to 2001 there was a reduction in the spending on control and prevention of the HIV/AIDS epidemic. However, this reduction was due mainly (or almost exclusively) to the decrease in spending on antiretroviral drugs, since all the other expenditures on prevention, direct care for people living with HIV/AIDS, and institutional capacity-building have either remained stable or increased. There is obviously an extremely high concentration of expenditures on health care (medical and pharmaceutical care) in the health system as a whole. Interestingly, overall health-related expenditures in Brazil are different from AIDS-related spending, and are much more heavily concentrated on individual care (more than 90%), with minimal spending on health promotion and institutional capacitybuilding. As compared to health-related spending in general, AIDS-related spending focuses a higher proportion on promotion and prevention. Composition of expenditures As designed, funding of the Unified National Health System (SUS) is shared among the 272 three levels of government (Federal, State, and Municipal). According to Constitutional Amendment 29 (in force since 2000), States are required to earmark 12% of their budgets for health, as compared to 15% for Municipalities, while the Federal government is mandated to gradually increase its health spending by 5% over the base year of 1999. To a certain extent this spending breakdown is expected to be reproduced for funding STD/AIDS policies. Considering the budget resources from the Ministry of Health itself, there are four major categories. The first, corresponding to 16% of the total Ministry of Health budget, includes so-called regular forms of health care funding, both for basic care and medium and high-complexity care, outpatient care, diagnostic tests, and other procedures. The second category comprises some 64% of the total and includes transfers of health-related inputs (principally antiretroviral drugs and condoms) purchased by the Ministry of Health for the States and Municipalities. To strengthen the State and Municipal programs and the actions conducted by these management levels in the National Health System, Brazil now practices an incentives policy providing US$ 100 million a year for the States and Municipalities, utilizing 12% of the total Ministry of Health funding, in addition to resources from the World Bank loan agreement, which represents some 8% of the expenditures as mentioned above. Although it is common knowledge, it is important to highlight the significance of this current incentives policy. The strategy aims to finance the States and Municipalities in three major AIDS-related components. The first includes promotion, prevention, and human rights; the second is the upgrading of care, treatment, and diagnosis; and the third involves support for action by civil society organizations (10% of the funds). The incentives policy has been in force since January 1, 2003, and plays an important role in promotion and decentralization. This policy helps increase the number of MunicipaliAIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT ties with AIDS control activities, while institutionalizing the funding for States and Municipalities; that is, as soon the States and Municipalities are accredited for the incentives, they can receive the funds regularly, based on a plan with clearly defined actions and goals. In the drafting and implementation of these plans, it is mandatory to improve the social control mechanisms over the National Health System at all the management levels. World Bank The third loan agreement with the World Bank is not meant to repeat the two previous projects. The new agreement is being negotiated for a three-year period, totaling US$ 200 million. Therefore both the duration and total amount are less than in the two previous agreements. In the new agreement, the national matching funds will be US$ 100 million (from the Brazilian government), with the same amount from the World Bank and a scheduled 15-year payback period at 7.5% interest, meaning a final payback of US$ 170 million (principal plus interest). Brazil is no longer at a stage for signing agreements that reproduce the existing models from the two previous loan agreements. In other words, the new project should add to the national response. It should be conceived and designed according to what has been achieved in recent years. In this sense, the new agreement is linked to two major objectives: strategic management, or the improvement of the management process at the three levels of government and in civil society, and technological and scientific development, aimed at better qualifying the response to the epidemic wherever it is deficient in scientific and technological aspects, like STD control, increased diagnosis of HIV, and upgrading care, among other areas. As mentioned initially, in the Brazilian case it is difficult to document how the HIV/ AIDS epidemic has had a negative impact on the countrys overall development, but social development policies have determined the epiFINANCING FINANCIAMENTO CONTROL DAS ACTIVITIES AÇÕES DE CONTROLE demiological pattern to a certain degree. It is thus important to comment on the integration between development policies and health sector funding policies. It is necessary to evaluate the impact of funding for program actions in STD/AIDS on the health sector as a whole. In reality, as observed in some other countries, the response to the HIV/AIDS epidemic can either improve or disrupt the health sector, to the extent that it has a broader general impact on health care for the population as a whole. There is some evidence that the results of HIV/AIDS policies help control expenditures; that is, beginning in 2000/2001 the savings in resources has been equivalent to the amount spent on the HIV/AIDS epidemic. Indicators Two indicators serve to illustrate this issue. According to estimates, from 1994 to 2002 some 58 thousand AIDS cases were averted in Brazil, meaning a savings of US$ 1.1 billion on treatment alone for these individuals. In addition, there has been a significant reduction in hospitalizations for AIDS: in 1997 there was an average of 1.6 hospitalizations per patient/year, decreasing to 0.8 in 2001. For the year 2001 alone this represented a savings of R$ 359 million. Considering these two factors (number of cases averted and reduction in hospitalizations) and taking 2000 as the base year, the Ministry of Health averted expenditures of US$ 446 million and spent some US$ 503 million. As soon as complete figures are available for 2001-2002, the ratio between savings and expenditures is expected to be reversed (that is, savings will have surpassed expenditures). Such observations are important to highlight that the analysis of funding policies in STD/AIDS control should not be limited to aspects involving World Bank projects, but should encompass the national response to the epidemic as a whole. This response began 20 years ago, that is, not with the loan agreements in 1992 or with the availability of combination antiretroviral therapy beginning in 1996. The 273 273 response began in 1983, 20 years ago, and the political, ethical, and even strategic groundwork was established at that time, together with civil society, and has been improved since then. This issue has even been a source of conflict in discussions with the World Bank, which follows other premises in the field of health, as we shall see next. The loan agreement negotiation processes generated internal discussions, both in the governmental and nongovernmental spheres, when issues of unbundling of actions and their verticality came up on the agenda along with the possibilities of causing negative impacts on other health investments. These 20 years of history provide an example for us to better reflect on health policies in general. For example: the implementation of the incentives policy described above, which transfers resources and responsibilities (a fund-to-fund transfer to States and Municipalities), is a major step forward in the overall decentralization process inherent to the National Health System and a significant contribution to the development of health policies in Brazil. Meanwhile, this initiative is in keeping with the incorporation of health promotion into basic health measures and systematizing community participation and social control. Another important lesson relates to the political dialogue that was established with the World Bank. Quite clearly, discussions with the World Bank are now more tranquil and flexible, not only in relation to action in Brazil, but with impacts for World Bank projects in other countries as well. For example, the World Bank project recently signed with Barbados includes access to antiretroviral treatment (and the same is also happening with new projects under negotiation with African countries). The Brazilian program certainly has a degree of responsibility in this trend. In order to truly change the premises underlying the relationship between the Brazilian government and the World Bank, we should not ignore the fact that the dialogue was sometimes painful and tense, especially in 274 the initial years. At various stages, as in 1995, there were lengthy discussions with the World Bank to obtain release of a given portion of funds from the loan agreement to purchase tests for CD4 counts. At the time, World Bank representatives suggested that Brazil spend a year evaluating the importance of using these tests to control the AIDS epidemic in Brazil, after which a final decision would be reached on releasing the funds. This created an extremely tense moment, since it was unthinkable for people who needed the test to have to wait a year until the country succeeded in proving to the World Bank that the strategy was justifiable. So a subterfuge was used: Brazil submitted a request to purchase laboratory reagents for counting a lymphocyte sub-population, and the request was approved. The Bank failed to realize that it was the same thing, and the money ended up getting spent. However, the same situation occurred again in 1998, and the Brazilian government had to return the money. The Brazilian contribution The dialogue thus made huge strides, but this historical experience was necessary in order to affirm and enhance public policies and the countrys own position. The Brazilian project with the World Bank served to enhance the Banks own development policies; indirectly, Brazil contributed with other developing nations to establish new paradigms for discussion and action. However, such paradigms should not only take financial or economic factors into account. For example, Brazil has experienced a point of technical contention with the World Bank for several years: each new mission criticizes the country for spending too much money on advertising for the population at large (which is at low risk), claiming that this money should be focused on population groups at increased risk. However, from the technical and political point of view, it is important that the government establish a dialogue with society as a whole in order for the actions to be taken at the community level and to make some AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT sense. This is something the World Bank cannot grasp. After all, funding considerations depend on political, social, and epidemiological analyses, among others. In this sense, we should not view the World Bank loan exclusively as a supply of funds. Neither should we design a project or intervention with the cost-benefit ratio as the main or exclusive reference. Based on our relationship with the World Bank, we realize that the project becomes more effective if we take charge of the framework and agenda it establishes and the very mechanisms for utilization of these resources. This is the only way to allow the project to be implemented with major benefits for the country. One could argue that Brazil could do without a new loan agreement. But we should not analyze the issue purely on the basis of greater or lesser national indebtedness. It is crucial to consider the benefits a multilateral or bilateral project can generate and that would be impossible or extremely difficult with the countrys own budget resources alone. This does not mean to say that we should not rely on the governments political, financial, economic, and budget structure. We are merely calling attention to the potential risks of interrupting the funding from the World Bank, thereby jeopardizing a nationwide project. Neither do we claim that projects should be conducted without evaluation. However, the evalu- FINANCING FINANCIAMENTO CONTROL DAS ACTIVITIES AÇÕES DE CONTROLE ation process should not paralyze a projects activities. The World Banks projects for AIDS have been systematically evaluated and reviewed in the last eight years, but this has not prevented the activities from continuing. Finally, it is important to view one of the main differences in the Brazilian response as compared to other countries that have received World Bank funding, namely the participation of nongovernmental organizations, not only in the projects execution, but also in its design and elaboration. This was an unprecedented fact for both the World Bank and Brazil, and it radically changed the ethical and political premises and allowed us to achieve the results we see today. In conclusion, while it is true, as stated previously, that social development has an important impact on the HIV/AIDS epidemiological pattern, any funding policy must be focused in such a way as to respond to these issues by promoting the inclusion of individuals and reducing inequalities. This must definitely be a collective project, involving Brazilian society as a whole. 275 275 POLÍTICAS DE FINANCIAMIENTO DE LAS ACCIONES DE CONTROL DEL SIDA Y DEL DESARROLLO SOCIAL Alexandre Grangeiro Sociólogo y coordinador-adjunto de la Coordinación Nacional de ETS y SIDA, del Ministerio de Salud ([email protected]) En primer lugar, haré algunas consideraciones, con el objetivo de localizar, cuales serían los parámetros o directrices de una política de financiamiento para el SIDA en el contexto que lo articula al desarrollo. Luego pasaré a tratar de mostrar la situación de los gastos relativos al SIDA, para, finalmente, comentar acerca de la lógica de financiamiento en el sector público. Para enfatizar en algunos puntos relativos al asunto de la política de financiamiento en el contexto del SIDA y el desarrollo, voy a partir de determinados presupuestos. El primero de ellos es que, considerando a la epidemia del SIDA hoy, en Brasil esta no tiene un impacto expresivo, desde el punto de vista global, en las políticas o en los asuntos relativos al desarrollo, ni desde el punto de vista económico, ni desde el punto de vista del desarrollo social. Eso es una diferencia muy grande si lo comparamos con otros países del Sur. Por ejemplo: en África, hay países donde el impacto del SIDA en el sector productivo es muy significativo, este llega a comprometer, -en algunos casos-, a la propia viabilidad económica de las naciones. Aunque no existan estudios profundos sobre el tema en Brasil, podemos inferir que no hay disminución significativa en la producción de riquezas en el país por causa del SIDA. Tal vez el gran impacto sea en la expectativa de vida, cuya reducción, aún así es pequeña, si consideramos la realidad de otros países. En 1996, algunos estudios señalaban la reducción de cuatro meses en la expectativa general de 276 vida del brasileño como consecuencia de la epidemia del VIH / SIDA. Si actualizamos este estudio, llegando hasta el 2001, ese tiempo de disminución de expectativa de vida debe reducirse. Por tanto, podemos decir que hay un significativo impacto, si miramos específicamente hacia aquellas poblaciones que son directamente afectadas por la epidemia del VIH/SIDA. De hecho, eso lleva al aumento de la vulnerabilidad social, pudiendo ser verificado a partir de los niveles de desempleo entre las personas que viven con el VIH/SIDA. A pesar de contar solamente con estudios puntuales, se pudo verificar que la tasa de desempleo es mayor en un 50% en la población de personas con el VIH/SIDA, de lo que en la población en general. En lo referente a la orfandad, en función de la muerte de los padres como consecuencia del SIDA, la cual constituye uno de los grandes impactos que puede considerarse, encontramos un aproximado de 30 mil huérfanos, en todo el país. También podemos hablar del impacto en el ámbito de la seguridad social. Teniendo en cuenta que la enfermedad puede generar la salida del individuo del mercado de trabajo, existe un estimado de 9,1 mil pacientes que reciben beneficios de la asistencia social, sean esos beneficios permanentes ( jubilación) o temporales. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO Consecuencias del modelo de desarrollo Si por un lado, tenemos dificultades para constatar el impacto expresivo de la epidemia del SI DA en el desarrollo económic o-social del país, por otro lado , es bastan te e vidente que el modelo de desarrollo existente en el país termina siendo uno de los principales determi nantes de la epidemia de VIH/SIDA. De esta forma, ese modelo de desarrollo, marcado por procesos de exclusión social, es que nos lleva a un patrón específico de la epidemia del VI H/SI DA en el país. Si tomamos algunos indicadores sociales, eso queda bastante manifiesto. Por ejemplo: hoy, el crecimiento de la epidemia se da de forma más expresiva en las poblaciones de baja renta. El predominio en grupos vulnerables, que son grupos marcados por la exclusión social, es mayor que en la población en general. Hay un crecimiento de la epidemia expresivo y diferenciado entre mujeres, como también las mujeres mueren más que los hombres, lo que es también, fruto de una política de exclusión social. También encontramos desigualdades regionales, donde verificamos tendencias diferenciadas de crecimiento de la epidemia entre la región centro-sur y la región norte- nordeste. En cuanto a que en los estados de la región centro-sur, como ya fue dicho, la epidemia tiende a una estabilización en algunos lugares hay, inclusive, un decrecimiento, en las regiones norte y nordeste ella tiende a un crecimiento. Se destaca que, en la región nordeste, persiste la tendencia actual, la epidemia debe tener una tasa de crecimiento mayor al de la región sur del país, donde hoy esta incide de forma más prominente. Si observamos el crecimiento de los municipios, los municipios nuevos, que han entrado en la epidemia, son lugares donde la renta per capita es menor que la del país, como un todo. Por lo tanto, queda bastante claro que esa política de desarrollo, basada en la exclusión social y en la desigualdad, puede comenzar a determinar el patrón epidemiológico del SIDA. FINANCIAMIENTO FINANCIAMENTO DE DASLAS AÇÕES ACCIONES DE CONTROLE DE CONTROL Los datos epidemiológicos recientes, relativos a la instrucción y a la ocupación, demuestran el crecimiento del número de casos del SIDA entre personas con menor escolaridad. Si miramos las tasas de incidencia del SIDA en determinadas categorías ocupacionales para hombres de 20 a 49 años, verificamos que las ocupaciones de menor calificación son aquellos que presentan, de hecho, los valores más altos, en cuanto a que en las profesiones liberales se observa una tendencia a la reducción. Ya entre las mujeres, la incidencia de casos del SIDA por ocupación es bastante diferenciada, pues todas las ocupaciones presentan tendencia de crecimiento. Pero lo que es más interesante aquí es que la gran mayoría de las ocupaciones de las mujeres es de baja remuneración y de gran fragilidad en la inserción en el mercado de trabajo. Tales informaciones sólo corroboran la exclusión social a que las mujeres son sometidas. Tomando las informaciones relativas a la seguridad social, aunque se vea que, entre 1996 y 2001, hay una reducción importante en todos los beneficios (auxilio-enfermedad, jubilación y auxilio continuado), el único que muestra una tendencia de crecimiento es el auxilio permanente, concedido en función de la incapacidad de las personas con baja renta (que reciben menos de 1/4 de salario mínimo) Se trata, por lo tanto, de un beneficio que es concedido en función de unas condiciones sociales precarias, y es significativo el hecho de que este presente una tendencia de crecimiento, mientras otros muestran reducción en el mismo período. También si miramos la forma en que la epidemia se expande según las categorías de exposición, identificaremos impactos significativos. Si tomamos las tasas de predominio en grupos específicos, como usuarios de drogas, profesionales del sexo o hombres que hacen sexo con hombres, verificamos que ellas son superiores siendo comparadas con la población en general. En el caso de los hombres que hacen sexo con otros hombres, la probabilidad de infección es 11 veces mayor en relación con la 277 277 población masculina heterosexual. En fin, son grupos más expuestos y más vulnerables. Inclusión social En ese contexto, podemos pensar que cualquier política de financiamiento debe, necesariamente, privilegiar a las acciones que tengan impacto en la reducción de la exclusión y de las desigualdades y que promuevan la inclusión social. En lo que se dice respecto a la salud, esa política de financiamiento tiene que coincidir con los principios del Sistema Único de Salud (SUS), de universalidad, de equidad y de integridad. Por otro lado, tal política deberá buscar la superación de aquellos problemas que hoy son estructurales, quiere decir, que determinan la mayor vulnerabilidad de las personas frente al VIH. Si miramos hacia los menores avances con relación a la respuesta social al SIDA, vamos a observar que las acciones más eficientes están relacionadas con los problemas estructurales del área de salud o con los problemas coyunturales, en el campo social y económico. Es ahí donde esas políticas compensatorias deben medirse de forma más inmediata. Tomemos, como un ejemplo una de las cuestiones estructurales, como la inclusión social, el caso de la prevención de la transmisión vertical, en la cual la estructura de asistencia prenatal y al parto es absolutamente deficitaria, imposibilitando la inclusión y el seguimiento de las gestantes con calidad. Incluso considerando los recientes avances, ese es un campo de la atención a la salud de la mujer que necesita mejorar mucho. Para discutir si la política de financiamiento de control del SIDA posibilita promover la inclusión y la reducción de las diferencias sociales existentes, voy a tratar de mostrar cual es la composición del gasto y posteriormente, cual es la lógica de financiamiento público del área de salud. Hoy un 1,34% de todos los gastos relativos a la salud realizados en el país, sean públicos o privados, se refieren al control y a la prevención de la epidemia del VIH / SIDA, y el 2,9% de los gastos 278 realizados por el Ministerio de Salud son destinados a ese fin (informaciones relativas al año 2000) En ese mismo año, tuvimos gastos con relación al SIDA por el valor de US $ 660 millones, teniendo que un 80% de esos gastos fueron relativos al área pública y un 20% son gastos privados, o sea, hechos por cada individuo. La gran composición de ese gasto es relativa al consumo y a la adquisición de preservativos.Todavía encontramos que el 4,8% de los gastos son hechos por empresas y un 0,1%, son hechos por organizaciones nogubernamentales. Desde el punto de vista del financiamiento, sin considerar los gastos hechos por algunos organismos internacionales, el 8% de los gastos proviene de una fuente internacional, o sea, del acuerdo de préstamo con el Banco Mundial, y el 92% de los gastos son realizados, entonces, con recursos nacionales, ya sean estos privados o públicos. En lo que respecta, específicamente al asunto de los tratamientos, el 80% de los gastos está relacionado con la asistencia, teniendo en cuenta que los medicamentos antirretrovirales son aquellos que tienen el mayor peso dentro de los gastos relativos a la epidemia. De 1999 al 2001, hubo una reducción en los gastos relativos al control y a la prevención de la epidemia del VIH/SIDA. Esa reducción se debe, principalmente, o casi que exclusivamente, a la reducción de los gastos en medicamentos antirretrovirales, pues los otros gastos en prevención, asistencia directa a las personas con el VIH/SIDA y el fortalecimiento institucional se mantienen en índices iguales o han venido aumentando. Es obvio que, en realidad, la concentración de los gastos de la asistencia (atención médica y farmacéutica) es muy alta dentro del sistema de salud. Es curioso notar que los gastos de salud son diferentes a los gastos relativos al SIDA, llegando a ser mucho más concentrados en la asistencia individual (más del 90%), al punto de que los gastos relativos a la promoción y al fortalecimiento institucional son muy minimizados. Comparados con los AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO gastos de salud en general, los gastos en el SIDA son mayores contando las acciones de promoción y de prevención. Composición de los gastos El financiamiento del SUS debe ser compartido por los tres niveles del gobierno. A partir de la enmienda constitucional 29, puesta en vigor desde el 2000, los estados deben comprometer el12% de sus presupuestos en acciones destinadas a la salud; los municipios el 15% y el nivel federal deben aumentar gradualmente en 5% los gastos, teniendo como base el año 1999. Esa composición de gastos debe reproducirse, en cierta medida, también para el financiamiento de las políticas de las ETS/SIDA. Si consideramos las fuentes de recursos que son propias al Ministerio de salud, tendremos cuatro grandes bloques. El primero de ellos es el que corresponde al 16% del total del financiamiento de los recursos del Ministerio de Salud, que son las llamadas formas regulares de financiamiento de la asistencia, tanto para la atención básica, como para la de alta y media complejidad, estas son, los ingresos hospitalarios, la atención ambulatoria o los exámenes de diagnósticos, entre otros procedimientos. El segundo bloque está formado por cerca del 64% del total, y se refiere a las remesas de insumos (principalmente, antirretrovirales y preservativos) comprados por el ministerio para los estados y municipios. Para el fortalecimiento de programas de estados y municipios y las acciones ejecutadas por esos niveles de gestión del SUS, tenemos ahora la institución de la política de incentivos, que prevé la utilización de US $ 100 millones /año en los estados y municipios, utilizando el 12% del total de los recursos del Ministerio de Salud, más los recursos del acuerdo de préstamo con el Banco Mundial, que, como objetamos, corresponde a cerca del 8% de los gastos. Aunque sea de conocimiento de todos, encuentro importante destacar los significados de esa política de incentivo que está siendo FINANCIAMIENTO FINANCIAMENTO DAS DE LAS AÇÕES ACCIONES DE CONTROLE DE CONTROL implementada. Tal estrategia es con vistas a financiar a los estados y municipios, promoviendo las acciones programáticas en el campo del SIDA, en tres grandes componentes: El primero es el de la promoción, la prevención y los derechos humanos; el segundo corresponde a la mejora de las acciones de asistencia, tratamiento y diagnóstico, y el tercero es con respecto al apoyo de las acciones desarrolladas por las organizaciones de la sociedad civil (10% de los recursos). La política de incentivo comenzó en vigor a partir del 1o de Enero del 2003 y desempeña un papel importante en la promoción de la descentralización. Con ella, será posible aumentar el número de municipios con acciones volcadas hacia el control de la epidemia y al mismo tiempo, la institucionalización del financiamiento de los estados y municipios, o sea a partir del momento en que los estados y municipios estén habilitados, pasarán a recibir regularmente los recursos según un plan de acciones y metas. En la elaboración y en el cumplimiento de tales planes, es imprescindible el perfeccionamiento de las instancias de control social del SUS en todos los niveles de gestión. Banco Mundial Con relación al tercer acuerdo de préstamo con el Banco Mundial, vale la pena esclarecer que no se trata de repetir los dos proyectos anteriores. El nuevo acuerdo está siendo negociado para un período de tres años, por valor de US $ 200 millones. Sin embargo, tanto en período, como en valor, es inferior a los dos anteriores. En ese acuerdo, serán US $ 100 millones formando la contrapartida nacional (parte del gobierno brasileño) y el mismo valor por parte del Banco Mundial, con un pago previsto en 15 años y una tasa de intereses del 7,5%, lo que significa una previsión de pago final por US $ 170 millones. Ya no estamos en tiempos de hacer a c u e rdos que pr o d u zcan los modelos existentes en los dos anteriores, quiere decir que el nuevo proyecto debe acrecentar 279 279 a la respuesta nacional, este debe ser pensado a partir del que fue construido a lo largo de los últimos años. Ante eso, el n u evo acuerdo está vinculado a dos grandes objetivos: la gestión estratégica el per feccionamien to del proceso de gestión de los tres niveles de gobierno y de la sociedad civil- y el de desarr ollo tecnológico y científico, a fin de mejorar la respuesta a la epidemia; deficitaria en los aspectos científicos y tecnológicos, como, en el control de las ETS, en el aumento del diagnóstico de VIH, en la calidad de la asistencia, en otras áreas. Como referimos inicialmente, es muy difícil constatar, en el caso brasileño, que la epidemia de VIH/SIDA tiene un impacto negativo en el desarrollo del país, pero las políticas de desarrollo social determinan, en algún grado, el patrón epidemiológico. Así, que es importante hacer una consideración sobre la integración entre las políticas de desarrollo y las de financiamiento en el sector de la salud. Siendo necesario evaluar el impacto del financiamiento de las acciones programáticas en ETS/SIDA, dentro del ámbito de la salud como un todo. En realidad, como ha sido observado en otros países, la respuesta a la epidemia de VIH /SIDA tanto puede cualificar, como desarticular el área de la salud, en la medida en que ella tiene un impacto más amplio en el cuidado y en la propia atención a la salud de la población de forma general. Con relación al asunto del VIH, tenemos algunas evidencias de que los resultados de las políticas de VIH/SIDA acabaron por llevar a un control de los gastos; a partir del 2000/2001 la economía de recursos está siendo equivalente a cuanto se gasta con relación a la epidemia de VIH/SIDA. Indicadores Tomemos dos indicadores para ejemplificar esa cuestión. Se estima que, entre 1994 y 2002, 58 mil casos del SIDA fueron evitados, lo que significa economía, considerando que los gastos en el tratamiento de esas 280 personas, fue solamente de US $ 1,1 mil millones. Aparte de eso, hubo una significativa reducción de los ingresos de pacientes en función del SIDA, teniendo en cuenta que, en 1997, la media de ingresos era del 1,6 por paciente /año, pasando a ser del 0,8 en el 2001. Eso representó un ahorro de R $ 359 millones, contando solamente el año 2001. Considerando esos dos factores (el número de casos evitados y la reducción del número de ingresos) y tomando por base el año 2000, el Ministerio de la Salud se evitó un gasto de US $ 446 millones y realizó gastos en el orden de US $ 503 millones. Se espera, de este modo que cuando tengamos las informaciones completas de los años de 2001/02, verifiquemos que la relación entre economía y gastos se haya invertido. Tales consideraciones son importantes en el sentido de destacar que el análisis de las políticas de financiamiento, en el ámbito del control de las ETS/SIDA, no debe restringirse solamente a los aspectos que involucren los proyectos del Banco Mundial, debe abarcar la totalidad de la respuesta nacional a la epidemia y esa se inició hace 20 años, ella no comenzó con los acuerdos de préstamo en 1992, ni con la disponibilidad de la terapia combinada de antirretrovirales en 1996; comenzó en 1983, hace 20 años, y las bases políticas, éticas y hasta estratégicas fueron adoptadas ya en aquella época, en conjunto con la sociedad civil, y desde entonces, viene siendo perfeccionada. Esa es una cuestión, incluso, de fuente de conflictos en las discusiones con el Banco Mundial, que posee otras premisas para el campo de la salud, como veremos a continuación. Esos procesos de negociación generaron discusiones internas, tanto en el ámbito gubernamental, como en el nogubernamental, cuando se traía a la pauta la desintegración de las acciones , s u verticalidad y las posibilidades de causar impactos negativos en las otras inversiones de salud. Esos 20 años de historia constituyen un excelente ejemplo para que podamos r eflexionar mejor sobre l a s AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO políticas de salud de manera general. Por ejemplo: la implementación de la política de incentivos, arriba descrita, que transfiere recursos y responsabilidades, por medio de la reposición fondo a fondo, a estados y municipios, es un a vance en lo que se refier e al conjunto del pr oceso de descentralización previsto por el SUS y una gran contribución al desarrollo de políticas de salud en Brasil. Al mismo tiempo que tal inicia t i va va al encuentro de la incorporación de la promoción de salud en las acciones básicas de esta y de la sistematización de la participación popular y del control social. Otra lección importante está referida al diálogo político que, de hecho, se estableció con el Banco Mundial. Se puede afirmar, con toda honestidad, que las discusiones con el banco, hoy, son mucho más calmadas y flexibles, no sólo con relación a la acción en Brasil, pero con impactos en los proyectos de esa institución con otros países. Por ejemplo: El proyecto del Banco Mundial, que fue firmado recientemente con Barbados, incluye el acceso al tratamiento antirretroviral, lo que también se observa en nuevos proyectos de negociación en los países africanos. Con seguridad, el programa brasileño tiene alguna responsabilidad en eso. Para cambiar realmente las premisas que, durante algún tiempo, guiaron la relación del gobierno brasileño con el Banco Mundial, no podemos olvidar que el diálogo, a veces, fue dolor oso y tenso, principalmente en los primeros años. En varias circunstancias, como en 1995, fueron largas las discusiones con el Banco Mundial con el objetivo de conseguir liber tad para el uso de un determinado volumen de recursos del acuerdo de préstamo, en la compra de exámenes de conteo de CD4+. En aquella época, los representantes del banco sugirieron que el país hiciera, durante un año, la evaluación sobre la importancia del uso de esos exámenes para el control de la epidemia del SIDA en Brasil, para después dar una decisión final sobre la liberación de los recursos. FINANCIAMIENTO FINANCIAMENTO DE DASLAS AÇÕES ACCIONES DE CONTROLE DE CONTROL En ese momento, se estableció una tensión muy fuerte, pues no era posible que las personas que necesitaban del examen tuviesen que esperar un año, hasta que el país consiguiera probarle al Banco Mundial que la estrategia era justificable. Entonces, se usó un subter fugio, habiendo sido hecha una solicitación para la compra de reactivos de laboratorio para el conteo de subpoblación de linfocitos, el que acabó siendo aceptado. Ellos no sabían que era la misma cosa y el dinero pudo ser usado. No obstante, el mismo hecho se repitió en 1998, y el gobierno brasileño tuvo que devolver el dinero. Contribución brasileña De esta manera, el asunto del diálogo tuvo un progreso inmenso, pero debemos tener ese contexto histórico, a fin de conseguir, afirmar y enriquecer las políticas públicas y el propio país. El proyecto brasileño con el Banco Mundial sirvió para perfeccionar las propias políticas de desarrollo del banco e indirectamente, contribuyó con otros países en desarrollo, estableciendo nuevos paradigmas de discusión y acción. No obstante, tales paradigmas, no deben tener en cuenta solamente los aspectos meramente financieros o económicos. Por ejemplo: hay un punto de divergencia técnica que mantenemos con el Banco Mundial hace muchos años: En cada misión, el país es criticado por gastar mucho dinero en publicidad para la población en general, que tiene un riesgo pequeño, alegándose que ese dinero debería ser usado con poblaciones bajo mayor riesgo. Si embargo, desde el punto de vista técnico y político, es importante que el gobierno establezca un diálogo con el conjunto de la sociedad, a fin de que las acciones puedan ser realizadas en las comunidades y tengan algún sentido. Eso es algo que el Banco Mundial no consigue entender. En fin, las consideraciones sobre financiamiento dependen de los análisis políticos, sociales y epidemiológicos, entre otros. 281 281 En ese sentido, no podemos considerar el préstamo del Banco Mundial solamente en su característica de aporte de recursos. Del mismo modo, tampoco podemos concebir un proyecto o una intervención, teniendo como referencia, principal o exclusiva, la relación costo-beneficio. Por lo que, a partir de nuestra relación con esa institución, podemos darnos cuenta de que el proyecto es más efectivo si tomamos el molde y la programación que él establece y los propios mecanismos de utilización que se tienen de esos recursos. Solamente eso permitirá que este sea implementado con grandes beneficios para el país. Puede hasta argumentarse que Brasil podría prescindir de un nuevo acuerdo. Pero no podemos analizarlo simplemente bajo la óptica de un mayor o menor endeudamiento del país. Es fundamental mirar hacia los beneficios que un proyecto multilateral o bilateral puede llegar a generar y que serían imposibles o muy difíciles de ser conquistados solamente con los recursos presupuestarios. No estamos afirmando que no debemos contar con la estructura política, financiera, económica y presupuestaria del gobierno. Apenas alertamos sobre los riesgos que pueden intervenir con la interrupción de los aportes financieros del Banco Mundial, que pueden llegar a comprometer un proyecto de ámbito nacional. Tampoco estamos defendiendo que los proyectos sean ejecutados sin evaluación. No obstante no se puede entender la evaluación como un proceso que paralice las acciones de un proyecto. Los proyectos del Banco Mundial con relación al SIDA han sido, sistemáticamente, evaluados y revisados en esos últimos ocho años, sin que eso haya impedido la continuidad de las acciones. 282 Para finalizar, es importante mirar hacia una de las principales diferencias de la respuesta brasileña, al ser comparada con otros países que también recibieron recursos del Banco Mundial: la participación de organizaciones no-gubernamentales, no sólo en la ejecución del proyecto, sino también en la elaboración del mismo. Eso fue un hecho nunca visto, tanto para el banco, como para el país, lo que cambió radicalmente, las premisas éticas y políticas y nos permitió llegar a los resultados con que hoy contamos. En conclusión, si como afirmamos anteriormente, es verdad que el desarrollo social tiene un impacto importante en la determinación del patrón epidemiológico del VIH/SIDA, cualquier política de financiamiento tiene que estar volcada a dar respuesta a esas cuestiones promoviendo la inclusión de las personas y reduciendo las desigualdades. Con seguridad ese, debe ser un proyecto colectivo, que involucre a toda la sociedad brasileña. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 283 Rede Brasil: pensando o programa de AIDS e os acordos de empréstimo com o Banco Mundial Aurélio Vianna Júnior Doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro ([email protected]). 284 AIDS E DESENVOLVIMENTO A Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais tem uma grande preocupação e interesse com relação aos financiamentos externos e aos financiamentos das agências multilaterais para programas sociais e outros no Brasil. Há mais ou menos oito anos, a Rede Brasil vem acompanhando e tentando monitorar os financiamentos externos no País, e isso gera uma grande intensidade de trabalho, no sentido de tentar tanto monitorar, como também entender e atuar frente às políticas públicas e aos financiamentos que são feitos. Essa não é uma tarefa fácil, porque essas instituições não têm uma posição muito bem definida. Elas não se constituem em algo monolítico. É necessário compreender esses meandros e nuanças. Devido a uma experiência profissional e ativista junto ao Instituto Estudos Sócio-Econômicos (INESC) durante cerca de três anos, também adquiri o vício de olhar para os mais diversos acontecimentos, tentando acompanhar os gastos orçamentários e a relação do orçamento com esses financiamentos. Então, diante dessa minha experiência, toda a reflexão que apresento aqui tem a ver com esse tipo de olhar, ou seja, a partir do financiamento, apesar de minha formação como antropólogo. Em primeiro lugar, é importante levar em conta o momento atual de transição política que o País vem atravessando. Apesar de estar bastante otimista com relação a essa transição, percebo que é importante verificar que é um processo que vem acompanhado de um número significativo de constrangimentos, tanto externos, quanto internos. Dentre os constrangimentos externos, eu chamaria a atenção para dois pontos que vão incidir diretamente sobre o programa nacional de AIDS e nos gastos em saúde, em geral, bem como em outras áreas sociais. O primeiro tem a ver com o novo acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), e o segundo com o portifólio e a carteira de empréstimos que já estão em andamento, negociados pelo Governo de Fernando Henrique Cardoso. Em relação a esses dois pontos, apesar da liberdade que qualquer governo tem, nós sabemos que é uma liberdade muito restrita. Isso porque se, por exemplo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciasse neste momento FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 285 que o acordo com o FMI merece ser revisto, assim como o portifólio do Banco Mundial, talvez as coisas não funcionassem tão bem. Ou seja, há uma conjugação de fatores políticos, econômicos e financeiros que limitam a governabilidade sobre uma série de temáticas que são bastante importantes e influentes nos assuntos sobre os quais estamos tratando. Olhar com ousadia Isso é que é o terrível da eleição do Lula: na minha militância, antes do Governo Lula, eu falaria aqui tranqüilamente sobre todos esses assuntos, sem preocupação ou melindre algum. Era como se já soubéssemos do que o governo anterior fosse capaz, e como ele pensava. Como agora é o Governo do Lula, pode aparecer um certo constrangimento quanto ao tipo de atuação política que vamos ter, como se perguntássemos: Se estivéssemos lá, como seria essa história? Percebo que as exposições feitas neste evento cotejam um pouco essas questões, trazem consigo um pouco dessa tensão. Nesse sentido, devemos aproveitar nossas oportunidades de reflexão e esta é uma delas para que, apesar de todos esses constrangimentos, nós, que fazemos parte da sociedade civil organizada, não limitemos a nossa ousadia no olhar. Acho que a ousadia para agir já se encontra um pouco limitada para nós. Mas não temos restrições para olhar. Então, precisamos olhar com ousadia e tentar encontrar formas de atuar diante de tudo isso. As discussões deste seminário mostram que há uma disposição para essa análise mais ousada. Eu identifico que existe e isso a gente está vivendo uma tentativa de se gerar, dentro do novo governo, uma nova forma de lidar com as questões relativas ao orçamento, aos recursos, aos financiamentos etc. Acho que, tanto nesse caso, como em outros, deveríamos ampliar esse olhar com o intuito de pensar em questões que até há muito pouco tempo eram impensáveis. Por exemplo: por que no nosso país a gente deve tomar financiamentos externos? Por que não conseguimos resolver nossas questões com o orçamento nacional? Existe uma quantidade de recursos razoáveis que formam o orçamento da União, dos estados e dos municípios, além do orçamento da previdência. 286 AIDS E DESENVOLVIMENTO A esses recursos, soma-se a capacidade que os governos têm de contrair dívida. Ou seja, o volume de recursos é ampliado. Além dessas duas fontes de recursos (o orçamento e o endividamento), há uma outra parte que é considerável também, formada pelos chamados recursos para-orçamentários, como o orçamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e outras instituições desse tipo. Penso que é importante olhar para todo esse volume de recursos e todas essas fontes, e refletirmos sobre um novo arranjo, que permita, por exemplo, atender às necessidades de saúde, educação, combate à pobreza e outras questões sociais. Esse pode ser um exercício importante, porque analiso que é irracional que um país, como o Brasil, tenha que tomar dinheiro emprestado, em dólar, e endividar-se cada vez mais. Empréstimos, por definição, devem ser devolvidos. Ajuda não, empréstimo Isso é importante ser dito, pois às vezes fica-se com a falsa impressão de que os empréstimos para projetos sociais, como é o caso dos recursos do Banco Mundial para o programa de AIDS, constituem-se numa espécie de ajuda. Não existe ajuda, mas um empréstimo. Ajuda é doação, o que não é o caso, pois esses recursos entram na capacidade de endividamento do país. Quando não se tem outra alternativa, a possibilidade do empréstimo é defensável. Isso é uma afirmação óbvia para todos. Não tenho a menor dúvida de que, diante de uma determinada situação política do governo do país, ou de um fato social de proporções alarmantes, e diante da percepção ou constatação de que os recursos orçamentários ou para-orçamentários não vão ser destinados para dar conta do problema, o empréstimo aparece como uma alternativa plausível. Mas são casos excepcionais e não podem se constituir em regra. Mas a reflexão que se propõe aqui é buscar olhar para o orçamento nacional e para a capacidade de endividamento nesse montante, e pensar em novas formas de utilizar os recursos. Imaginemos, por exemplo, que outro setor da sociedade poderia não somente fazer uso desse recurso, como também, a partir dele, gerar uma renda que vai pagar esse empréstimo de um modo mais efetivo que outros. Além disso, com a garantia dos recursos orçamentários, ou seja, de nossos próprios recursos, temos FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 287 maior liberdade para desenvolver os nossos projetos, a nossa política de saúde. Muito já se disse que a forma como o Brasil enfrentou a epidemia de AIDS não é a preconizada pelos organismos financeiros internacionais. Lições Muito do que se conquistou no campo da AIDS pode não ser aplicável para outros setores sociais. No entanto, é importante olhar para essa experiência que é avaliada com êxito para daí extrair as lições que podem ou não ser generalizadas. Provavelmente, o sucesso atingido pelo programa de AIDS no Brasil não seria o mesmo se tivéssemos seguido à risca as orientações do Banco Mundial e suas políticas para o campo da saúde. Ou seja, o País tem capacidade técnica para lidar com a questão, não precisando da inteligência do banco para tanto. É importante ficar claro que, na relação com o Banco Mundial (e outras instituições financeiras), estamos tratando de finanças, não estamos discutindo questões técnicas ou qual é a melhor política. Em outros países, talvez as coisas não se dêem do mesmo modo. Uma outra questão que parece relevante é sobre a possibilidade de um novo empréstimo do Banco Mundial para as ações no campo da AIDS, que vem sendo chamado de AIDS III. Do ponto de vista estritamente financeiro e da análise da evolução das repercussões de um empréstimo para a economia do País, um terceiro acordo de empréstimo pode representar a manutenção da dependência do País com relação a recursos externos. Tivemos o AIDS I, o AIDS II e agora está em tramitação o AIDS III. Fica-se com a impressão de que já foi gerada uma demanda, que parece que só pode ser atendida por esses recursos, que vão sendo continuamente renovados. Mas são recursos de empréstimo. Assim, levando em consideração a atual situação política, isto é, a transição, seria de fundamental importância a revisão de programas e de projetos que estão em negociação ou em fase de execução. Quando um projeto aprovado está com o desembolso ainda no início, o governo tem maior governabilidade para renegociar o componente total; quando o projeto está na negociação, essa governabilidade é ainda maior, ou seja, a possibilidade de interferir é maior. Mas isso não é uma tarefa simples, pois além das complicações inerentes às 288 AIDS E DESENVOLVIMENTO negociações, isso implica atraso na liberação dos recursos. No entanto, se existe alguma questão importante para o impacto social do projeto, ela também pode ser revista, estabelecendo melhores condições para a posterior execução. Recursos excedentes Uma outra questão financeira que deve ser considerada diz respeito ao fato de que esses projetos foram feitos quando a cotação do dólar era inferior à atual. Mesmo considerando o atual ritmo de desvalorização da moeda norte-americana, ao final do projeto ou de um determinado período vai existir um excedente de recursos, resultante dessa diferença de cotação. Em um processo de renegociação, é importante levar em conta esse excedente, porque, caso contrário, muita gente vai querer se apossar desse dinheiro. Ou seja, não é somente o conteúdo ou o mérito dos componentes de um projeto que devem chamar a atenção, mas devemos observar que, apesar dos recursos estarem orçados em dólar, a execução dos mesmo é feita em reais. Como já foi mencionado, o primeiro ano do Governo Lula (2003) coincide com o último ano do plano plurianual do Governo de Fernando Henrique Cardoso. Efetivamente, o primeiro ano orçamentário sob a gestão do Governo Lula é 2004. Além disso, 2003 é ano da elaboração e da aprovação do novo documento de assistência ao País, que norteia as políticas do Banco Mundial. Há uma coincidência ímpar: ao mesmo tempo em que um novo governo elabora um novo plano plurianual, o Banco Mundial também está reelaborando seu documento de assistência ao País. Também o BIRD vive um momento semelhante. Enfim, é uma oportunidade única que devemos aproveitar, pois os documentos estratégicos estarão sendo reformulados. Nesse cenário, percebo que a sociedade organizada pode ter a capacidade de incidir sobre todo esse processo, com grandes possibilidades de êxito. FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 289 Desafios econômicos Para encerrar, é importante chamar a atenção para as proposições econômicas do novo governo no que diz respeito às metas de superávit primário e as possibilidades de revisão das mesmas. Estão em curso entre o governo e o FMI negociações da meta do superávit anticíclica, isto é, quanto maior o desempenho da economia crescimento do Produto Interno Bruto , maior seriam as metas de superávit e, quanto menor o desempenho da economia, espera-se um superávit menor. Essa é, exatamente, a lógica inversa à do FMI, que postula um maior arrocho da economia quando o país não está tão bem em termos financeiros, a fim de provar aos credores internacionais que o país vai ter dinheiro para honrar suas dívidas. O que o governo parece estar propondo se guia por uma lógica mais de médio e longo prazos. É olhar para o País, não para o País no próximo ano, mas para o País em uma evolução e em uma recuperação econômica, para que possa, entre outras coisas, honrar seus compromissos. É importante o envolvimento da sociedade civil organizada nesses debates, que serão tensos e, em alguns casos, permanentes. Isso porque, mesmo em um governo com as características do atual, há que se esperar tensões envolvendo os anseios econômicos e os projetos sociais. Diante dessas tensões, a capacidade de endividamento pode até ser uma moeda de troca para possibilidades de liberação orçamentária para programas sociais, como é o caso da AIDS. Existe uma capacidade de endividamento do País que tem uma limitação. Parte dessa capacidade está sendo utilizada para a área social. Esses recursos, se encarados de um outro modo, talvez possam gerar mais recursos para o programa, o que faria a grande diferença dentro do cenário atual. 290 AIDS E DESENVOLVIMENTO THE BRAZIL NETWORK: A REVIEW OF THE BRAZILIAN NATIONAL STD/AIDS PROGRAMME AND LOAN AGREEMENTS WITH THE WORLD BANK Aurélio Vianna Júnior PhD in Social Anthropology, Federal University of Rio de Janeiro ([email protected]) The Brazil Network on Multilateral Fi- The first has to do with the new agree- nancial Institutions has a major concern and ment with the International Monetary Fund interest in the issue of foreign funding from (IMF), and the second with the loan portfolio multilateral agencies for social and other pro- already in progress, negotiated by the outgo- grams in Brazil. For some eight years, the Brazil ing Cardoso Administration. Although any new Network has been attempting to monitor for- Administration has some degree of freedom, eign funding in Brazil, thereby generating ex- we are aware that such freedom can be re- tensive work in the effort to understand and stricted. For example, if President Luiz Inácio take action in relation to public policies and Lula da Silva were to announce that the IMF loans involved in this process. agreement and the World Bank portfolio need This has not been an easy task, since the reviewing, the prospects might not be as various funding institutions lack a well-defined simple. In other words, there is a combination position. They do not constitute a monolithic of political, economic, and financial factors that bloc. One needs to understand the subtleties limit governability over a number of highly and nuances. During three years of experience important issues that impact the themes we as a professional and activist in the Institute are discussing here. for Socioeconomic Studies (INESC), I acquired the habit of analyzing a wide variety of events, A daring view attempting to follow the budget expenditures This is the terrible side to Lulas elec- and the relationship between the budget and toral victory: during my activism, before the these financial arrangements. Based on this ex- Lula Administration, I would have spoken out perience, my comments here have to do with on all these issues without giving it a second this type of view, focused on financing, despite thought. It was like we knew what the previ- my original training as an anthropologist. ous Administration was capable of, and how it It is important to begin by analyzing the reasoned. Since we are now under the Lula Ad- current political transition in Brazil. Although I ministration, there appears to be a certain level am quite optimistic about this transition, I re- of constraint over our political activism, as if to alize that the process entails a significant num- ask ourselves: What if we were in his shoes? ber of constraints, both external and internal. As I see it, the previous presentations at this Among the external constraints, two particular meeting touch a little on this issue, reflecting points will have a direct impact onthe National STD/ a certain degree of this tension. AIDS Program and health expenditures in general, as well as on other social areas. FINANCING FINANCIAMENTO CONTROL DAS ACTIVITIES AÇÕES DE CONTROLE In this sense, we who belong to organized civil society should take advantage of our 291 291 opportunities for reflection (and this is one of Aid, not loans them) and not limit our willingness to take It is important to state this explicitly, daring views, despite all these constraints. I since we are sometimes left with the false im- believe that our daringness to act is already pression that loans for social projects, like the somewhat limited. But there are no constraints World Bank funding for the STD/AIDS Program, on our looking at the situation. So we need to are a kind of aid. This is not aid, but a loan. take a daring look and try to find ways to act in Aid is a donation, which is not the case, since the current context. these funds increase the countrys indebted- The discussions in this seminar demon- ness. When there is no other alternative, one strate that there is a willingness to perform a can defend the possibility of a loan. This is ob- more daring analysis. I can identify an attempt vious to all of us. I have not the slightest doubt in the new Administration (and we are experi- that in the face of a given political situation in encing this) at finding a new way of dealing a countrys government, or a social fact of over- with issues related to the budget, funds, loans, whelming proportions, and based on the per- etc. I contend that in this case, as in others, we ception or observation that budgetary or quasi- should expand our view in order to reflect on budgetary funds are not forthcoming, a loan issues that until recently were unthinkable. For emerges as a plausible alternative. Yet such example: why does our country need to take cases should be the exception, not the rule. out foreign loans? Why cant we solve our prob- Still, the present discussion aims to ana- lems with our own national budget? There is lyze the national budget and this level of in- already a sizeable amount of resources from debtedness capacity, and to conceive of new the Federal budget, plus those of the States and ways to utilize the funds. Let us imagine, for Municipalities, in addition to the social secu- example, that another sector of society might rity budget. not only spend these funds, but also use them Added to these funds is the capacity that to generate revenue that would pay off this governments have to contract debts. In other loan more effectively. In addition, with the guar- words, the volume of resources is expanded. In antee of funds from the national budget (in addition to these two sources of funds (the other words our own funds), we have greater budget and indebtedness), there is another con- freedom to develop our projects, our health siderable share consisting of the so-called policy. It has already been discussed extensively quasi-budgetary funds, like the budget of the that Brazils approach to the AIDS epidemic is National Economic and Social Development not always the same as that recommended by Bank (BNDES) and other similar institutions. I international financial institutions. believe it is important for us to consider this entire volume of funds and all these sources Lessons and reflect on a new arrangement, that would Much of what has been gained in the allow, for example, to meet the populations field of AIDS may not be applicable to other needs in health, education, the fight against social sectors. However, it is important to ana- poverty, and other social issues. This could be lyze a reportedly successful experience in order an important exercise, because I consider it ir- to extract lessons which may or may not be rational for a country like Brazil to have to bor- transferable. The Brazilian National STD/AIDS row money in dollars and further increase its Program would probably not have achieved the foreign debt. By definition, loans have to be paid same success if it had followed the World back. Banks instructions and health policies to the letter. In other words, Brazil has the technical 292 AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT capacity to deal with the issue and does not current pace of devaluation in the American need the Banks know-how for this purpose. currency, at the end of the project or a given It is important to realize that in our relation- time period there will be surplus funds, result- ship with the World Bank (and other financial ing from this difference in the exchange rate. institutions) we are dealing with financing and It is important for a renegotiation process to not discussing technical issues or debating the consider this surplus, otherwise there will be best policy. Of course, the discussion may not plenty of people wanting to take possession proceed on these same terms in other coun- of this money. In other words, it is not only the tries. content or merit of a projects components that Another apparently relevant issue is the matter; rather, we should realize although the possibility of a new World Bank loan for AIDS, funds were budgeted in dollars, the project is referred to as AIDS III. From the strictly finan- executed in reals. cial point of view, analyzing the trend in the As mentioned above, the first year of the repercussions of a loan for a countrys economy, Lula Administration (2003) coincides with the a third loan agreement could mean perpetuat- last year of the Cardoso Administrations multi- ing the countrys dependence on foreign funds. annual plan. The first actual budget year under We had AIDS I, then AIDS II, and now AIDS III is the Lula Administration will be 2004. In addi- under negotiation. The impression is that a tion, 2003 is the year in which the new docu- demand was generated which can only be met ment underlying World Bank aid policies for with these funds, which continue to be re- Brazil is drafted and approved. This is a unique newed. But the funding comes in the form of a coincidence: while a new Administration is loan. drafting a new multi-annual plan, the World Thus, considering the current political Bank is also redrafting its aid document for the situation (i.e., transition), it is crucially impor- country. That is, the IBRD is experiencing a simi- tant to review the programs and projects cur- lar stage. In short, this is a unique opportunity rently under negotiation or in the implemen- that we should take advantage of, while the tation phase. When a project has been ap- strategic documents are being redrafted. In this proved and the disbursements are still begin- scenario, I believe that organized civil society ning, the government has greater room to re- has the capacity to influence the entire process, negotiate the total. When the project is still with great possibilities for success. under negotiation, this degree of governability is even greater, in other words, the possibility Economical challenges of intervening is greater. But this is not a simple To conclude, it is important to call atten- task; in addition to the inherent complications tion to the new Administrations economic pro- in negotiations, it can mean delays in the re- posals in relation to goals for the primary sur- lease of funds. However, if there is a major is- plus and possibilities for reviewing them. The sue in relation to the projects social impact, the Administration and the IMF are currently ne- project can also be reviewed, establishing bet- gotiating the goal of an anti-cyclical trade sur- ter conditions for its subsequent execution. plus policy; that it, the better the economys performance (measured by growth in GDP), the Surplus funds higher the trade surplus targets, while if the Another financial issue that should be countrys economic performance is worse, the analyzed is the fact that these projects were expected surplus would be lower. designed when the dollar exchange rate was This is precisely the opposite of the IMF lower than at present. Even considering the logic, which postulates a tighter squeeze on the FINANCING FINANCIAMENTO CONTROL DAS ACTIVITIES AÇÕES DE CONTROLE 293 293 economy when a country is not performing and in some cases ongoing. Even in an Admin- well financially, in order to prove to interna- istration like this, one can expect tension be- tional lenders that the country will have the tween economic aspirations and social projects. money to honor its debts. What the Adminis- In light of such tension, indebtedness capacity tration appears to be proposing is guided by a may even serve as a form of currency used in more medium- and long-term logic. It means possibilities for budget releases for social pro- looking at the country as it is - not next years grams, as in the case of AIDS. There are limits country, but a country undergoing evolution to the countrys indebtedness capacity. Part of and economic recovery, in order for it to be able this capacity is being used in the social area. If to honor its commitments, among other viewed from a different perspective, these things. funds could generate more funds for the STD/ It is important for organized civil society to engage in these debates, which will be tense 294 AIDS Program, which would make a major difference in the current scenario. AIDS AIDSE AND DESENVOLVIMENTO DEVELOPMENT RED BRASIL: PENSANDO EN EL PROGRAMA DE SIDA Y EN LOS ACUERDOS DE EMPRÉSTITO CON EL BANCO MUNDIAL Aurélio Vianna Júnior Doctor en Antropología Social por la Universidad Federal de Río de Janeiro ([email protected]) La Red Brasil sobre Instituciones Financieras Multilaterales, tiene una gran preocupación e interés con relación a los financiamientos externos y a los financiamientos de las agencias multilaterales para programas sociales y otros programas en Brasil. Desde hace más o menos 8 años, la Red Brasil está acompañando y tratando de monitorear los financiamientos externos en Brasil, lo que genera una gran intensidad de trabajo en el sentido de tratar de monitorear, y también cómo entender y actuar frente a las políticas públicas y a los financiamientos que son realizados. Eso no es una tarea fácil, porque esas instituciones no tienen una posición bien definida. Ellas no se constituyen en algo monolítico. Es necesario comprender esos meandros y matices. Debido a la experiencia profesional y activista junto al Instituto de Estudios Socio-económicos (INESC) durante casi 3 años, adquirí también el vicio de mirar para los más diversos acontecimientos, tratando de acompañar los gastos presupuestarios y la relación que tiene el presupuesto con esos financiamientos. Entonces, con esa experiencia, toda la reflexión que aquí realizo y presento tiene que ver con ese tipo de mirada, o sea, a partir del financiamiento, a pesar de mi formación como antropólogo. Es importante, en primer lugar, tener en cuenta el momento actual de transición política por el cual el país está atravesando. A pesar de FINANCIAMIENTO FINANCIAMENTO DE DASLAS AÇÕES ACCIONES DE CONTROLE DE CONTROL sentirme bastante optimista con relación a esa transición, percibo que es más importante verificar que esa transición es un proceso que está acompañado de un número significativo de constreñimientos, tanto externos como internos. Entre los constreñimientos externos, llamaría la atención para dos puntos que van a incidir directamente sobre el programa nacional de SIDA y en los gastos en salud, así como en otras áreas sociales. El primero está relacionado con el nuevo acuerdo con el Fondo Monetario Internacional (FMI) y el segundo, con el portafolio y la cartera de préstamos que ya está en andamiento y que fue negociada por el Gobierno de Fernando Henrique Cardoso. Nosotros sabemos, con relación a esos dos puntos, que a pesar de la libertad que cualquier gobierno tiene, en verdad esa libertad es muy restringida, ya que si por ejemplo, el presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciara en este momento que el acuerdo con el FMI merece ser revisado, así como el portafolio del Banco Mundial, quizás las cosas no funcionasen tan bien, o sea, existe una conjugación de factores políticos, económicos y financieros que limitan la gobernabilidad sobre una serie de temáticas que son importantes e influyentes en los asuntos sobre los cuales estamos tratando. Mirar con osadía Ese es el terrible problema de la elección de Lula. Antes de Lula ser elegido, estaría hablando sobre esos asuntos como 295 295 militante y tranquilamente, sin preocupación o melindre de ningún tipo. Antes podíamos imaginarnos lo que el gobierno anterior era capaz de hacer y de pensar, pero como ahora el gobierno es de Lula, eso provoca cierto constreñimiento en lo que se refiere al tipo de actuación política que debemos tener. Es como si nos preguntáramos: ¿si estuvieramos ahí, como sería esa historia? Me doy cuenta que las exposiciones realizadas en este evento confrontan un poco esas cuestiones y traen consigo un poco de esa tensión. En este sentido, debemos aprovechar nuestras oportunidades de reflexión y esta es una de ellas para que a pesar de todos esos constreñimientos, nosotros, que formamos parte de la sociedad civil organizada, no limitemos nuestra osadía a la hora de mirar. Creo que la osadía para actuar se encuentra ya un poco limitada para nosotros, pero no tenemos restricciones para mirar. Entonces, necesitamos mirar con osadía y tratar de encontrar formas de actuar frente a todo eso. Las discusiones en este seminario muestran, que existe una disposición para ese análisis más osado. Identifico que existe y eso lo estamos viviendo una tentativa de generarse dentro del nuevo gobierno, una nueva forma de lidiar con las cuestiones relativas al presupuesto, a los recursos, a los financiamientos, etc. Creo que, tanto en ese caso como en otros, deberíamos ampliar esa mirada con la intención de pensar en cuestiones que hasta hace poco tiempo atrás eran impensables como por ejemplo, preguntarnos ¿por qué debemos pedir financiamiento externo?, ¿por qué no podemos resolver nuestros problemas con el presupuesto nacional?. Existe una razonable cantidad de recursos que forman parte del presupuesto de la Unión, de los estados y de los municipios, además de la seguridad social. Además, se suma a esos recursos, la capacidad que tienen los gobiernos de contraer deudas, o sea, el volumen de recursos se amplia con esas deudas. Además de esas dos fuentes de recursos, (el presupuesto y el 296 endeudamiento) existe otra fuente que también es considerable que es la formada por los llamados recursos para-presupuestarios, como por ejemplo, el presupuesto del Banco Nacional de Desarrollo Económico y Social (BNDES) y de otras instituciones de ese porte. Pienso que es importante que miremos hacia todo ese volumen de recursos y para todas esas fuentes de financiamientos y reflexionemos sobre un nuevo tipo de arreglo que permita, por ejemplo, atender a las necesidades de salud, de educación, de combate a la pobreza y a otras cuestiones sociales. Eso puede significar un ejercicio importante, porque pienso que es irracional que un país como Brasil tenga que pedir dinero prestado, en dólar, y endeudarse cada vez más. Los préstamos, por definición, deben ser devueltos. ¡Ayuda no, préstamos! Es importante que eso sea dicho, porque a veces quedamos con la falsa impresión de que los préstamos para los proyectos sociales, como es el caso de los recursos del Banco Mundial para el programa de SIDA, constituyen una especie de ayuda ¡No existe ayuda, sino un préstamo! Ayuda es donación, que no es el caso, porque esos recursos son sumados al endeudamiento del país. Cuando no existe otra alternativa, la posibilidad de pedir un préstamo es pensable. Eso es una afirmación obvia para todos. No tengo la mínima duda de que frente a una determinada situación política del gobierno del país, o de un hecho social de proporciones alarmantes, y delante de la percepción o constatación de que los recursos presupuestarios o para-presupuestarios no van a ser destinados para resolver el problema o no son lo suficientes, el préstamo se muestra como una alternativa negociable, pero esos son casos excepcionales y no pueden constituir una regla. La reflexión que aquí se propone es la de buscar mirar para el presupuesto nacional y para la capacidad de endeudamiento en ese total, además de pensar en nuevas formas de utilizar los recursos. Imaginemos, por ejemplo, que otro sector de la sociedad pudiera no sólo AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO hacer uso de esos recursos, sino que también, a partir de ellos, generar una renta que pagaría ese préstamo de una forma más efectiva. Además de eso, con la garantía de los recursos presupuestarios, o sea, de nuestros propios recursos, tenemos más libertad para desarrollar nuestros proyectos y nuestra política de salud. Recordemos que se dice mucho, que la forma en que Brasil enfrentó la epidemia de SIDA no es preconizada por los organismos financieros internacionales. Lecciones Muchas de las cosas que fueron conquistadas en el campo del SIDA no pueden ser aplicadas en otros sectores sociales. Sin embargo, es importante mirar para esa experiencia que es evaluada como exitosa, para que de ahí extraigamos lecciones que quizás puedan ser generalizadas. Posiblemente, el suceso alcanzado por el programa de SIDA en Brasil no hubiera sido el mismo si hubiéramos seguido al pie de la letra las orientaciones del Banco Mundial y sus políticas para el campo de la salud. O sea, lo que quiero decir es que el país tiene capacidad técnica para enfrentar esa situación y no necesita de la inteligencia del Banco Mundial para ejecutarla. Es importante que tengamos claro que en la relación con el Banco Mundial (y con otras instituciones financieras) estamos tratando de finanzas y que no estamos discutiendo cuestiones técnicas ni tampoco sobre cuál sería la mejor política. Quizás en otros países esta situación no se presente del mismo modo. Otra cuestión que se presenta como relevante es la posibilidad de un nuevo préstamo del Banco Mundial para las acciones en el campo del SIDA, que está siendo llamado de SI DA I II. Desde el punto de vista estrictamente financiero y del análisis de las repercusiones para la economía del país de un préstamo, un tercer acuerdo de préstamo puede representar el mantenimiento de la dependencia del país con relación a recursos externos. Tuvimos el SIDA I, después el SIDA II y ahora está en trámites el SIDA III. Tenemos la FINANCIAMIENTO FINANCIAMENTO DE DASLAS AÇÕES ACCIONES DE CONTROLE DE CONTROL impresión de que ya se creó una demanda que sólo puede ser atendida a través de la disponibilidad de esos recursos del Banco Mundial que son continuamente renovados, pero que al final son un préstamo que se traduce en deuda. Así, teniendo en cuenta la ac tual situación política, o sea, la transición, es de fundamental importancia la revisión de los programas y proyectos que están en ejecución o en fase de negociación. Cuando un proyecto aprobado está aún en el inicio del desembolso presupuestario, el gobierno tiene más gobernabilidad para renegociar el componente total; cuando el proyecto está en la fase de negociación esa gobernabilidad es aún mayor, o sea, la posibilidad de interferir es mayor. Pero eso no es una tarea simple, porque además de las complicaciones inherentes a las negociaciones, eso también significa retraso en la liberación de los recursos. Sin embargo, si existe alguna cuestión importante para el impacto social del proyecto, ella también puede ser reanalizada, estableciendose condiciones para la posterior ejecución. Recursos excedentes Otra cuestión financiera que debe ser considerada es la que se refiere al hecho de que esos proyectos fueron negociados cuando el valor del dólar era inferior al actual. Considerando aún el presente ritmo de desvalorización de la moneda norteamericana, al final del proyecto, o de un determinado período, va a existir un excedente de recursos como resultado de esa diferencia de valor de la moneda. En un proceso de renegociación es impor tante tener presente ese excedente porque, en caso contrario, muchas personas van a querer apoderarse de ese dinero, o sea, no solo nos debe llamar la atención el contenido o el mérito de los componentes de un proyecto, sino que también debemos observar que a pesar de que los recursos estén presupuestados en dólar, la ejecución de los mismo es realizada en reales. 297 297 Como ya fue mencionado, el primer año del gobierno de Lula (2003) coincide con el último año del plan plurianual del gobierno de Fernando Henrique Cardoso. Eso significa, que el primer año presupuestario bajo la gestión del gobierno de Lula será en el 2004. Además de eso, el 2003 es el año de elaboración y de aprobación de un nuevo documento de asistencia al país, que orienta las políticas del Banco Mundial. Existe una coincidencia impar: al mismo tiempo en que el nuevo gobierno elabora un nuevo plan plurianual, el Banco Mundial también estará elaborando su documento de asistencia al país. También, el BIRD vive un momento semejante. Al final, es una oportunidad única que debemos aprovechar, porque los documentos estratégicos estarán siendo reformulados. Reparo, que es en ese escenario donde la sociedad organizada puede tener la capacidad de incidir sobre todo el proceso con grandes posibilidades de éxito. Desafíos económicos Para terminar, es importante que llamemos la atención sobre las proposiciones económicas del nuevo gobierno en lo que se refiere a las metas de superávit primario y las posibilidades de revisión de las mismas. Entre el gobierno y el FMI, se están realizando negociaciones sobre la meta del superávit anticíclica, eso quiere decir que, cuanto mayor sea el desempeño de la economía crecimiento del Producto Interno Bruto (PIB) mayor serían 298 las metas de superávit y claro, cuanto menor sea el desempeño de la economía, se espera un superávit menor. Esa es exactamente la lógica inversa del FMI, que apuesta en un mayor esfuerzo de la economía cuando el país no está tan bien en términos financieros, con la finalidad de probarles a los acreedores internacionales que el país va a tener dinero para pagar sus deudas. Lo que el gobierno parece estar probando está más bajo la guía de una lógica de mediano y largo plazo. Eso significa, mirar para el país sin tener en cuenta su avence en el próximo año, sino mirar con una perspectiva de recuperación económica que pueda, entre otras cosas, honrar sus compromisos financieros. Es importante la participación de la sociedad civil en esos debates, que serán tensos y, en algunos casos, permanentes ya que aún en un gobierno con las características del actual, hay que esperar tensiones que envuelven los deseos económicos y los proyectos sociales. Frente a esas tensiones, la capacidad de endeudamiento podría ser hasta la creación de una moneda de cambio para posibilitar la liberación de presupuestos para programas sociales, como puede verse en el caso del SIDA. Existe en el país una capacidad de endeudamiento que tiene un límite. Parte de esa capacidad está siendo utilizada para el área social. Esos recursos, si lo vemos de otro modo, quizás puedan generar más recursos para el programa, lo que haría una gran diferencia dentro del escenario actual. AIDS E DESENVOLVIMENTO SIDA Y DESAROLLO FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 299 300 AIDS E DESENVOLVIMENTO FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 301 302 AIDS E DESENVOLVIMENTO FINANCIAMENTO DAS AÇÕES DE CONTROLE 303 304 AIDS E DESENVOLVIMENTO