Jornalismo, literatura e
história
O reencontro das artes de narrar
Jornalismo e literatura
Tanto a literatura como o jornalismo se usam da palavra
para dar corpo e sentido a uma determinada história ou fato,
seja ela verídica, na situação jornalística, ou ficcional, quando
tratamos do mundo literário. No entanto, como realmente
definir o que é realidade do que é ficção? Até que ponto a ficção
se restringe apenas à literatura? Será que ela não se apresenta
também no universo diário do jornalismo? Questões como essas
podem parecer de fáceis respostas, já que, na maioria das
ocasiões, a literatura se usa de casos, lugares e personagens de
um mundo imaginário – claro, salvo diversas exceções baseadas
em casos reais e em vivências dos próprios autores, mas sempre
com uma pitada de ficção.
Jornalismo e literatura
Já quando tratamos de jornalismo, pensamos justamente
o oposto. Isso porque notícias e reportagens diárias, ou não,
geralmente são construídas a partir de um fato real, de um
espaço físico real e com pessoas que fazem parte desse contexto
real, inclusive o jornalista que constrói a história. Porém, até
que ponto a construção jornalística, ou a representação
jornalística, não possui sua pitada de imaginação? Vamos, então,
a um exemplo.
Jornalismo e literatura
O jornalista está na redação de seu jornal quando é
avisado de um assalto a um banco e em seguida designado para
"cobri-lo”. Chegando ao local, ele apenas encontra a polícia,
vítimas, possíveis testemunhas e os assaltantes, já presos e
isolados. Precisando escrever sua matéria, ele começa a ouvir os
relatos dos presentes para montar o quebra-cabeça e levar a
melhor versão e a mais imparcial possível ao jornal, sem debater
o "mito da imparcialidade". Então, ele ouve versões de clientes
do banco que presenciaram o fato, funcionários do local que
foram rendidos para que o crime fosse realizado, a polícia que
prendeu os assaltantes e tenta, de maneira frustrada, ouvir os
praticantes do crime evitado. Partindo desses relatos, e mesmo
sem ter presenciado instante algum de êxtase do assalto, o
jornalista volta à redação e, munido de depoimentos, vai
escrever a matéria que estampará uma das páginas da edição do
dia seguinte.
Jornalismo e literatura
Já na redação e sentando em frente ao computador, ele
descreve em sua narrativa como foi a ação dos ladrões, como foi
a reação das vítimas presentes e, na seqüência, descreve
também a rápida e eficaz ação dos policiais que prenderam os
assaltantes e os levaram direto ao presídio da cidade. Agora é só
diagramar em uma das páginas destinadas à editoria de Polícia e
ver a repercussão do dia seguinte. Como ele pôde descrever
exatamente como o crime ocorreu se quando chegou ao local já
havia um desfecho? Não pôde. Mesmo tendo ouvido diversos
relatos, de diversas pessoas que estiveram presentes ao local, e
ter narrado os fatos da maneira mais fiel e imparcial possível, o
jornalista teve que usar uma parcela de ficção/imaginação para
remontar o momento do ocorrido, os fatos de maiores destaques
e o fim da história.
Jornalismo e literatura
Além disso, desde a coleta de informações começa a se
construir um mundo imaginário que parte de uma história real e
sua representação. Ao ouvir os depoimentos das pessoas
presentes, geralmente o repórter deixa de levar em
consideração os diferentes níveis intelectuais, as diferentes
culturas e vivências de cada indivíduo que contribuiu para a
construção de sua matéria. Algumas dessas pessoas darão maior
ou menor ênfase a certos detalhes do crime, enquanto um outro
percentual achará mais importante relatar outro momento, e
ainda um terceiro grupo talvez relate fatos diferentes dos outros
dois. E, para completar a parte direta da narração, já que
depois aparecem os leitores que podem interpretar a notícia
ainda de outros ângulos, existe a participação direta do
jornalista, que com seu bloco de anotações em mão, ou de um
gravador, destacará/julgará o que pare ele pareça ter maior
expressão.
Jornalismo e literatura
"Apesar da vocação para o ‘real’, o relato jornalístico
sempre tem contornos ficcionais: ao causar a impressão de que o
acontecimento está se desenvolvendo no momento da leitura,
valoriza-se o instante em que se vive, criando a aparência do
acontecer em curso, isto é, uma ficção. Além disso, o
jornalismo, produto industrial, precisa de esquemas para a
captação de notícias, dos quais a fonte é uma das principais. As
fontes podem construir posições estereotipadas [...]" (SATO, in
CASTRO e GALENO – org. , 2002, p. 31-32).
Jornalismo e literatura
Ao reproduzirem o "real" a posteriori, valendo-se da
linguagem, a literatura e a escrita jornalística são construções
discursivas, que se diferenciam mais pela intenção do discurso
do que pela sua própria natureza, e colidirão num mesmo ponto:
o leitor. Cabe a ele a tarefa final da reconstrução da coerência
narrativa, podendo ocorrer ambigüidades e até inversões: que o
texto jornalístico, objetivo e neutro, seja lido como pura ficção
e imaginação e, por outro lado, que o texto literário artístico
seja tomado como "verdade" absoluta.
Jornalismo e literatura
Os diários da história
Literatura: o diário da história
A história como matéria prima da ficção?
A ficção como articuladora da própria história?
O grau provocativo de questões como essas vem há muito
tempo motivando discussões entre historiadores e críticos
literários, as quais ao longo dos anos assumiram por vezes
características conciliatórias e, em outros momentos,
confrontaram posicionamentos acirradamente contrários.
“Antes da Revolução Francesa, a historiografia era
considerada convencionalmente uma arte literária [...] O século
XVIII foi fértil em obras que distinguem entre, de um lado, o
estudo da história e, de outro, a escrita da história. A escrita era
um exercício literário, especificamente retórico, e o produto
desse exercício devia ser avaliado tanto segundo princípios
literários quanto científicos”. (WHITE, Hayden. Trópicos do
Discurso, São Paulo, Edusp, 2001, p. 139)
Literatura: o diário da história
“A Bíblia é ficção porque é uma história produzida. Isso
não significa que ela necessariamente nada tem de verdade.
Nem significa que a Bíblia não contém nada de factual. A relação
entre fato e ficção é de maneira alguma tão simples quanto
alguém poderia pensar” (SCHOLES, Robert. Elements of fiction.
New York: Oxford University Press, 1968, p.01).
“Os historiadores ocupam-se de eventos que podem ser
atribuídos a situações específicas de tempo e espaço, eventos
que são (ou foram) em princípio observáveis ou perceptíveis, ao
passo que os escritores imaginativos – poetas, romancistas,
dramaturgos – se ocupam tanto desses tipos de eventos quanto
dos imaginados, hipotéticos ou inventados” (WHITE, Hayden. op.
cit., p. 137).
Literatura: o diário da história
Partindo-se de uma breve análise etimológica das palavras
fato (facere) e ficção (fingere) percebe-se a proximidade
semântica desses dois termos, caracterizando o valor de verdade
comumente atribuído ao termo fato como uma construção social
e histórica que acabou aproximando a palavra de conceitos
igualmente abstratos como realidade e verdade. Esse processo
acaba por contrapor os dois termos e torná-los opostos: a
verdade factual e a criação ficcional. A multiplicidade discursiva
é sacrificada em nome de uma integridade falsa da
interpretação dos acontecimentos.
Literatura: o diário da História
O século XIX traz consigo o desejo dos historiadores por
uma abordagem reconhecidamente científica de seus trabalhos
e, para isso, tentam se desvencilhar do aspecto retórico de seus
textos e passam a desenvolver seus estudos a partir de uma
dicotomia entre fato e ficção. Essa oposição adquiriu força e se
manteve intocada por muitos anos como pressuposto objetivo da
análise historiográfica. Contudo, essa idealização cientificista
não consegue sustentar seu caráter dogmático indefinidamente e
passa a sofrer críticas com a aproximação de um novo milênio,
enfatizando o movimento dialético da própria história.
Literatura: o diário da História
Como afirma a própria Linda Hutcheon, “só existem
verdades no plural, e jamais uma só Verdade; e raramente existe
a falsidade per se, apenas as verdades alheias [...] a metaficção
historiográfica procura desmarginalizar o literário por meio do
confronto com o histórico, e o faz tanto em termos semânticos
quanto formais” (HUTCHEON, Linda. A poética do pósmodernismo, Rio de Janeiro: Imago, 1988. p.145, 146.
Assim, a metaficção historiográfica ao mesmo tempo em
que recupera acontecimentos passados, também proporciona
uma visão alternativa desses episódios, alterando o
comportamento de figuras históricas ilustres ou analisando os
registros oficiais sob uma perspectiva, em muitos casos,
preterida.
Jornalismo: o diário da história
“A grande vantagem de ser jornalista reside na
possibilidade de se escrever a História”.
“O que um jornalista presencia e relata hoje será parte dos
livros de História amanhã”
Essas frases, tantas vezes repetidas por profissionais,
estudantes e professores da área ilustram a existência de uma
relação de proximidade entre a prática jornalística e a História.
Analisados de forma mais rigorosa, esses bordões nos permitem
empreender duas leituras distintas:
1 – A imprensa, enquanto instituição, e os jornalistas, enquanto
atores sociais, participam ativamente da construção da
realidade histórica;
2 – Existe uma certa semelhança (ou mesmo convergência) entre
os trabalhos do jornalista e do historiador.
Jornalismo: o diário da história
A primeira leitura nos remete à noção de imprensa
enquanto quarto poder, detentora de um mandato civil que lhe
permite fiscalizar as instituições políticas em nome da
sociedade. Quando falamos em “escrever a História” nos
referimos, sobretudo, aos momentos em que o jornalismo
ultrapassaria a simples missão de informar e passando a atuar
como “uma entidade social e cultural, carregada de emoções,
alimentando processos complexos de comunicação com
informação, análises e opiniões que podem mudar os rumos de
povos e nações” (Chaparro, 1994, p. 92).
Jornalismo: o diário da história
Uma segunda leitura, possivelmente mais interessante,
busca identificar as interações que se estabelecem entre as
práticas de jornalistas e historiadores. Se, num primeiro
momento a distinção entre esses “saberes” parece evidente do
ponto de vista discursivo, metodológico, epistemológico e sócioprofissional, entendo que essa primeira separação esconde
relações mais complexas e a criação de espaços de confronto e
justaposição. Essa hipótese inicial apóia-se nos conceitos de
“formação discursiva” e “dispersão” (Foucault, 1969).
Jornalismo: o diário da história
Que tipos de convergências podem existir entre
jornalismo e história? Em que sentido a prática do jornalista se
aproxima/diferencia do historiador? A complexidade dessas
questões nos remete inicialmente a problemas de natureza
conceitual (o que é o jornalismo? O que a história?). Ao nos
prendermos num primeiro momento a essas questões, é possível
situar jornalismo e história como práticas que emergem e
evoluem de forma a adquirirem identidade e autonomia
próprias. O jornalismo como um relato sobre a atualidade,
marcado por uma estrutura narrativa própria (lead e pirâmide
invertida) e por um conjunto de “valores notícia”, aparece como
algo distinto do trabalho realizado pelos historiadores. O risco
reside na pretensão de transformar essa (relativa) identidade
numa separação cabal entre os “saberes”, como se essas
práticas fossem essencialmente diferentes.
Jornalismo: o diário da história
1°) Jornalismo e História devem ser vistos como espaços
dinâmicos e plurais.
A constante evolução e a dispersão que ocorre no interior
desses espaços não pode ser pensada como uma exceção, como um
atentado a uma suposta natureza da prática, mas é elemento de
definição. Ao reduzirmos o jornalismo a um modelo funcional,
estrutural, canônico ou mesmo hegemônico, simplificamos a
dimensão histórica e a diversidade de modelos narrativos
(informativos, opinativos, interpretativos) de rotinas produtivas, de
mídias, etc., que está implícita a um conceito.
Jornalismo: o diário da história
1°) Jornalismo e História devem ser vistos como espaços
dinâmicos e plurais.
Da mesma forma o nome “História” remete a uma
pluralidade de “escolas” (positivista, historiografia marxista,
história dos anais, arqueologia, nova história), objetos e métodos
(documental, hermenêutico e demais metodologias “pós
modernas”). Não pretendemos defender um relativismo conceitual,
mas dizer que, para além das definições fechadas impostas pelas
teorias estruturalizantes ou modelos que emergem a partir de
trabalhos fundadores, é possível visualizar uma certa complexidade
nessas práticas.
Jornalismo: o diário da história
2°) Jornalismo e história se constroem também a partir da
interação com outras práticas sócio-discursivas.
Como explica Ruellan (1993, p. 94), o jornalismo é um
profissão de limites incertos: fora os modos de regulação interna e
o discurso profissionalista que busca a legitimação da categoria, o
território dos jornalistas se constrói de forma imperfeita, a
identidade social tende a parecer “floue” (sem nitidez). Esse “flou”
coloca o jornalismo como um espaço mal delimitado e que se
estabelece “nas fronteiras de múltiplos domínios interdependentes
e – parcialmente – fechados: pesquisa científica, filosofia,
educação, controle social, exercício político, arte literária,
divertimento, espetáculo... lugares de enriquecimento e
crescimento, tirando proveito da honra de cada gênero sem vir a
sofrer das limitações impostas pela especialização.
Jornalismo: o diário da história
2°) Jornalismo e história se constroem também a partir da
interação com outras práticas sócio-discursivas.
A história também não deixará de dialogar com outros
espaços. Ainda no século XIX, ela encontrará na sociologia
positivista os seus primeiros parâmetros de “cientificidade”. Assim,
será muitas vezes impregnada por noções como “progresso” e
“desenvolvimento da história rumo ao fim”. Da sociologia marxista
ela encontrará, numa fase posterior, a vocação para as macroanálises estruturais. A interdisciplinaridade com as demais ciências
sociais marcará o aparato teórico-metodólogico da História dos
Anais. E a falência das modalidades de explicação/explicitação do
real – documento, prova e testemunho, levará parte dos
historiadores a abandonarem as pretensões macro-analíticas em
busca de “histórias”, de teor interpretativo e hermenêutico. Assim,
ela se (re)aproxima da literatura, do subjetivo, do tempo
cotidiano, das técnicas das ciências sociais e do jornalismo.
Jornalismo e sociedade
Utilizados de uma maneira, a Imprensa, o rádio e o
cinema são imprescindíveis para a sobrevivência da democracia.
Utilizados de modo diverso, encontram-se entre as armas mais
poderosas do arsenal dos ditadores. No campo da comunicação
com as massas, como em quase todos os demais campos da
indústria humana, o progresso técnico lesou os Pequenos e
favoreceu os Grandes. Há apenas cinqüenta anos, todos os países
democráticos orgulhavam-se do grande número de pequenos
jornais e diários locais. Milhares de editoriais expressavam
milhares de opiniões independentes. Por toda parte imprimia-se
praticamente o que quisesse. Hoje, a Imprensa é ainda
legalmente livre; mas a maioria desses pequenos jornais
desapareceu.
Jornalismo e sociedade
O custo do papel, das máquinas das modernas tipografias
e das agências de informação, é muito elevado para os
Pequenos. No Leste totalitário há uma censura política, e os
meios de comunicação com as massas são controlados pelo
Estado. No Ocidente democrático há a censura econômica e os
meios de comunicação com o povo são controlados pela “Elite do
Poder”. A censura, através do aumento das despesas e a
concentração do poder de comunicação nas mãos de alguns
grandes organismos, é menos censurável do que o monopólio do
Estado e a propaganda governamental; mas não é, com certeza,
algo que um democrata jeffersoniano deva aprovar.
Jornalismo e sociedade
Jornalismo e sociedade
Jornalismo e sociedade
Jornalismo e sociedade
Jornalismo e sociedade
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Jornalismo e sociedade
Jornalismo e sociedade
Jornalismo e sociedade
Na vida pública e privada, sucede muitas vezes que não
há apenas tempo para colher os fatos relevantes ou para avaliar
a importância deles. Somos forcados a agir firmados em fatos
insuficientes e dirigidos por uma luz bem menos refulgente do
que a da lógica. Com a melhor das boas vontades do mundo,
nem sempre podemos ser totalmente verdadeiros ou
logicamente racionais. Tudo o que está ao nosso alcance é
sermos tão verdadeiros e racionais quanto as circunstâncias o
permitam, e reagirmos como pudermos à limitada verdade e aos
raciocínios imperfeitos, oferecidos à nossa
consideração por outros.
“Se uma nação diz-se ignorante e livre espera o que nunca foi e
nunca será... As pessoas nunca podem estar em segurança sem
informação. Onde a Imprensa é livre, e cada homem capaz de
ler, tudo está salvo.”
Thomas Jefferson
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