Estudo da produção leiteira da raça caprina serrana nos concelhos mais representativos do ecotipo transmontano em sistemas de produção extensivos tradicionais António Neves Associação Nacional de Caprinicultores de Raça Serrana (ANCRAS) Bº Fundo Fomento de Habitação, B1, 14 cv dtª Luís Almendra Direcção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes R. da República, 133 - Aprt. 24 5370 MIRANDELA RESUMO A cabra Serrana é uma raça autóctone com elevado potencial produtivo, apresentando igualmente uma boa rusticidade, em particular o ecotipo Transmontano, pela forma como se tem adaptado às mais variadas condições de produção de origem ambiental (clima, solos, topografia, alimentação disponível ao longo do ano, épocas reprodutivas, etc.) que praticamente lhe são “impostas” pelos seus criadores, na maioria pessoas com idades compreendidas entre os 40 e 60 anos de idade e com pouca ou nenhuma formação. Com este trabalho pretende-se contribuir para um melhor estudo sobre esta raça e divulgar alguns dados sobre a real produção leiteira deste ecotipo, em sistema de produção extensivo tradicional que infelizmente e um pouco por causa do maneio utilizado pelos caprinicultores da região, com enormes carências e deficiências, sobretudo tecnológicas, diferem bastante dos valores que nos são apresentados pelos livros que existem sobre a raça caprina Serrana em geral (constituída por quatro ecotipos), normalmente obtidos em estação experimental, com maneio correcto e frequentemente em sistema de produção intensivo, em regime de estabulação permanente. Analisámos a produção de leite em três regiões homogéneas de Trás-os-Montes, em dois anos consecutivos (1991/2 e 1992/3); anos de seca, ingratos em sistema tradicional que depende essencialmente daquilo que a terra dá. A produção de leite foi estudada num modelo em que as fontes de variação foram: o criador, o ano, a interacção criador x ano, o mês de parto, o tipo de parto, a idade e a região. No que diz respeito à produção total de leite a cabrada de Estevais (zona agrária do Douro Superior) foi a que obteve o valor mais elevado, com uma produção média de 180,302 + 88,807 litros (P<0,001) e Pereira (zona agrária da Terra Quente) o valor mínimo com 93,199 + 45,139 litros (P<0,001). Relativamente ao factor ano, em 1993 a produção total de leite (145,590 + 71,632 litros) foi superior ao ano de 1992 (106,363 + 56,787 litros) em cerca de 37%, que traduz a existência de diferenças altamente significativas e com elevado nível de significância (P≤0,001). Podendo concluir-se a enorme influência das condições naturais na capacidade produtiva dos animais. Pelos dados obtidos verificou-se que as cabras que pariram em Novembro obtiveram a produção de leite mais elevada, com 196,316 + 126,377 litros (P<0,001), seguindo-se o mês de Janeiro, com 168,115 + 90,942 litros (P<0,001). As cabras que pariram em Agosto, Julho e Junho, foram as que apresentaram a produção total de leite menor. Relativamente ao factor tipo de parto, a produção total de leite mais elevada pertenceu às cabras com parto triplo, com a produção média de 145,217 + 113,235 litros (P<0,001). As cabras que abortaram obtiveram a produção total de leite mais fraca, com 88,638 + 38,019 litros (P<0,001). Em relação ao factor de variação idade, verificou-se que as cabras com três anos de idade foram as que atingiram maior produção de leite (185,091 + 61,579 litros) e apresentaram diferenças de produção altamente significativas (P<0,001) relativamente a todas as outras idades consideradas (entre 1 ano e os 7 anos de idade). Os resultados colhidos neste trabalho reflectem unicamente o maneio extensivo tradicional. Julgamos poder afirmar, que com uma melhoria, ainda que pouco substancial, do sistema de produção preconizado, os caprinicultores da região podem rentabilizar mais as suas explorações caprinas e melhorar as capacidades produtivas dos seus animais. INTRODUÇÃO A caprinicultura, como factor integrante do meio ambiente, constitui uma actividade desde sempre associada ao ecossistema, em que cada exploração caprina depende essencialmente do ciclo climático e dos factores endógenos locais. A produção caprina apresenta-se pois, como séria alternativa na Política Agrícola Comum (PAC), preconizada actualmente, através de dois grandes objectivos: a extensificação agro-pecuária e a manutenção das populações rurais, que a caprinicultura cumpre de forma exemplar, devido à intensa relação animal-homem-meio. Foi com este propósito que iniciámos a realização deste estudo, que pensamos vá contribuir para a melhoria da imagem desta espécie animal, ao apresentarmos resultados sobre a produção leiteira (muito satisfatórios) da raça caprina Serrana, ecotipo Transmontano, explorado em sistema extensivo tradicional. Esperamos pois que este trabalho seja um contributo para que os criadores de cabras da região possam ter um conhecimento mais profundo e de acordo com a realidade regional, da produção leiteira da raça Serrana. Para que possam no futuro produzir mais e melhores animais desta raça, realizando simultaneamente uma melhor selecção das fêmeas reprodutoras. Isto levará ao encontro da estabilidade financeira e do equilíbrio da tesouraria da exploração caprina, por forma a melhorar-se o nível de vida das pessoas e sobretudo dos jovens que queiram abraçar esta actividade, com futuro incerto, pois nos últimos dez anos - 1979 a 1989 - abandonaram a actividade 21% dos caprinicultores transmontanos. I CRITÉRIOS DE SELECÇÃO DAS ÁREAS DE ESTUDO O que se pretende com este estudo é a comparação da produção leiteira entre regiões homogéneas, em dois anos consecutivos (1991/2 e 1992/3). Assim, seleccionaram-se diversas regiões prioritárias, atendendo aos seguintes critérios: • • • • • maior vocação e tradição na caprinicultura; efectivos contrastados nos dois anos em que se vai realizar o estudo; tradição na produção de queijo; maior número de cabras por criador e maior densidade de caprinos de raça Serrana; possibilidade de o estudo ser mais viável e eficaz Tendo em conta os critérios anteriores, delimitaram-se três áreas de intervenção: 1. 2. 3. Zona agrária da Terra Quente Zona agrária do Douro Superior Norte Zona agrária do Alto Tâmega II MATERIAL E MÉTODOS O estudo teve origem em seis efectivos caprinos de raça Serrana inscritos no Livro Genealógico da Raça Caprina Serrana. Existindo quatro na Zona Agrária da Terra Quente (Pereira, Cortiços, Sezulfe e Castelãos), um na Zona Agrária do Douro Superior Norte (Estevais) e um na Zona Agrária do Alto Tâmega (Zebras). Estas cabradas possuem em média 80 a 90 animais e têm como principal objectivo produtivo a produção mista leite/carne. 1. SISTEMA DE PRODUÇÃO 1.1. Regime de exploração Os efectivos são explorados em regime extensivo tradicional, o pastoreio dos animais é efectuado mediante a realização de um determinado percurso diário, entre 10 a 20 Km, variando ao longo do ano, em função das disponibilidades alimentares das zonas em que se encontram as explorações caprinas. No Verão, os efectivos saem de manhã para o pasto e «assestam» durante a tarde, isto é, abrigam-se das horas de mais calor no cabril, praticando os caprinicultores normalmente o seguinte horário: das seis horas e meia da manhã até às onze e meia (de salientar que alguns criadores utilizam esta hora para ordenhar). Depois da «sesta» os animais começam de novo a pastar pelas quatro e meia da tarde até às nove horas da noite, por vezes até mais tarde. No Inverno, os efectivos pastoreiam durante todo o dia voltando ao fim da tarde ao cabril para passar a noite, sendo o horário mais comum entre as dez horas da manhã e as seis da tarde. A ordenha é realizada na maior parte dos casos apenas de manhã. 1.2. Regime alimentar Os efectivos em estudo são explorados num sistema de maneio tradicional ao qual se associa um regime de alimentação que tem como principal fonte o mato, constituído essencialmente por giesta, esteva, carqueja e arçã. O pastoreio destes caprinos está directamente dependente das plantas constituintes das floras locais sobretudo espontâneas, fazem também parte da sua dieta alimentar os subprodutos das explorações agrícolas (folhas de videira, ramos de oliveira, ramos de árvores, restolhos de cereais, etc), derivados das podas, limpezas e outros produtos de qualidade insuficiente para consumo humano. Os cabritos são alimentados pelo leite maternal até à altura do desmame. O desmame é do tipo tradicional (60 dias), com base exclusivamente na amamentação materna. Quando se procede à recria, os cabritos mamam por vezes até aos 6 meses de idade. Alguns criadores utilizam a técnica do «botilho», que consiste em atravessar um pau na boca da cabrita, preso à base dos cornos para que esta não consiga apanhar o teto da mãe. A recria normalmente só se efectua nos meses em que a produção de leite é fraca, ou seja, nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro que corresponde ao período de recria dos cabritos nascidos em Outubro e Novembro. Nos meses em que a produção é elevada: Março, Abril, Maio e Junho, o leite é aproveitado para o fabrico de queijo, ou então para venda a queijarias. Independente do estado fisiológico do animal e das disponibilidades alimentares ao longo do ano, não se faz qualquer tipo de suplementação alimentar, dependendo a capacidade leiteira do animal sobretudo do seu valor genético, relativamente à eficiência de transformação alimento--leite. 1.3. Maneio reprodutivo O maneio reprodutivo preconizado nestes efectivos está directamente dependente do maneio tradicional utilizado, isto é, a cobrição não é controlada tanto na paternidade como na época do ano, encontrando-se os machos permanentemente junto das fêmeas. 1.4. Alojamento dos caprinos As instalações e equipamentos utilizados pelos criadores, em estudo, não são os mais aconselháveis, pois não obedecem a normas específicas de construção e localização, sendo a construção feita de acordo com a vontade do criador e a tradição da região em que a falta de arejamento, de luminosidade e custo elevado são uma constante. Nas regiões em que o estudo foi efectuado o principal alojamento, e o mais utilizado pelos criadores é a chamada "corriça". Por norma este tipo de construção tem paredes de alvenaria, com bloco ou então parede xistosa, a cobertura é feita com placas de fibrocimento, chapa de zinco ou telha podendo apresentar uma ou duas águas. O pavimento é em terra batida onde é periodicamente espalhada palha ou mato para manutenção de uma cama seca e conforto dos animais. 1.5. Maneio sanitário As explorações em estudo têm o apoio sanitário dos ADS's, e a sua acção tem incidido, ao nível de caprinos, essencialmente no despiste de Brucelose e vacinação de animais jovens entre os quatro e sete meses de idade. No campo da higiene e sanidade pode verificar-se que existem várias deficiências higiénicas como: camas de palha ou mato com poucas mudanças periódicas, resultando daí doenças infectocontagiosas, em que se destacam as do foro respiratório. A ordenha é feita no cabril, por vezes, com um número excessivo de animais, apresentando o mungidor alguma sujidade, que põe em causa a qualidade do leite. 2. CONTROLO DE REGISTOS E VARIÁVEIS Relativamente à produção de leite, os contrastes leiteiros foram realizados após o desmame dos cabritos, com intervalos de 28 dias. O método Fleischmann foi o processo utilizado no apuramento de resultados, relativamente ao cálculo de produção total de leite na lactação de cada animal. Este método consiste na soma de vários parciais de produção de leite. Os resultados obtidos das lactações relativas à variável em estudo foram calculados através das seguinte metodologia: PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE - Cálculo obtido pelo método de Fleischman DURAÇÃO DA LACTAÇÃO - Nº de dias entre o "último contraste* + 14 dias" e o parto (*) Considera-se como último contraste, aquele em que ainda houve produção de leite (considera-se que o animal está seco, quando a sua produção diária é inferior a 200 ml). 3. ANÁLISE ESTATÍSTICA Foi efectuada uma análise de variáveis (STEEL and TORRIE, 1992), com os factores criador, ano e região para o conjunto de variáveis anteriormente descritas. A comparação entre médias foi realizada através do teste de diferença significativa mínima de Ficher. III RESULTADOS E DISCUSSÃO Neste capítulo serão apresentados os resultados sobre a produção total de leite do ano de 1992 e 1993, e a afectação dos factores: criador, ano, interacção criador * ano, mês de parto, tipo de parto, idade e região, nos resultados obtidos sobre a produção total de leite. 1. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (litros) EM FUNÇÃO DO CRIADOR. CABRADA ZEBRAS ESTEVAIS SEZULFE CASTELÃOS CORTIÇOS PEREIRA Nº CONT 129 123 70 82 99 86 MÉDIA bc 107,740 e 180,302 ac 94,226 bd 120,032 d 134,327 a 93,199 D. P. 46,065 88,807 52,819 56,121 48,200 45,139 a≠b≠c≠d≠e; P≤0,001 A produção total de leite foi influenciada pelo criador (P≤0,001), verificando-se que a cabrada de Estevais (180,302 + 88,807 litros) produziu sensivelmente o dobro da quantidade de leite produzida pela cabrada de Pereira (93,199 + 45,139 litros). G r á fic o 1 - P R O D U Ç Ã O T O T A L D E L E I T E (litros) EM F U N Ç Ã O D O C R I A D O R Z e b ra s 2 0 0 .0 0 0 P e re ira 1 0 0 .0 0 0 E s te v a is 0 C o rtiç o s S e z u l fe C a s te l ã o s 2. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (litros) EM FUNÇÃO DO ANO. FONTE 1992 1993 Nº CONT 304 285 MÉDIA a 106,363 b 145,590 D. P. 56,787 71,632 a≠b; P≤0,001 A produção total de leite foi influenciada pelo ano (P≤0,001). No ano 1993 (145,590 + 71,632 litros) a produção total de leite foi superior ao ano 1992 (106,363 + 56,787 litros) em cerca de 37%. Esta diferença é explicável sobretudo pelas condições climatéricas, pois o ano de 1992 apresentou-se como um dos mais secos nas últimas décadas, provocando uma escassez alimentar quase permanente. Gráfico 2 - PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DO ANO 58% 42% 1992 1993 3. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DA INTERACÇÃO CRIADOR * ANO. FONTE ZEBRAS, 1992 ZEBRAS, 1993 ESTEVAIS, 1992 ESTEVAIS, 1993 SEZULFE, 1992 SEZULFE, 1993 CASTELÃOS, 1992 CASTELÃOS, 1993 CORTIÇOS, 1992 CORTIÇOS, 1993 PEREIRA, 1992 PEREIRA, 1993 Nº CONT 72 57 64 59 32 38 42 40 47 52 47 39 MÉDIA 84,163 137,521 127,730 237,331 80,947 105,408 133,926 105,443 140,734 128,537 69,579 121,664 D. P. 41,593 32,240 55,082 83,280 50,162 53,044 58,556 50,105 54,671 41,188 39,194 34,297 A produção total de leite foi influenciada pela interacção criador * ano (P<0,001). Gráfico 3 - ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DA INTERACÇÃO CRIADOR * ANO 250 200 150 P. leite/ litros 100 50 0 Zebras Estevais Sezulfe 1992 Castelãos 1993 Cortiços Pereira 4. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (litros) EM FUNÇÃO DA ÉPOCA DE PARTO MÊS DE PARTO 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 Nº CONT 55 112 106 109 49 23 4 1 12 17 19 81 MÉDIA 168,115 123,758 117,461 102,078 126,986 97,165 79,165 69,700 132,792 135,412 196,316 129,304 D. P. 90,942 61,229 49,336 54,250 64,788 46,156 63,489 0,000 55,744 68,290 126,377 57,696 A produção total de leite foi influenciada pelo mês de parto (P≤0,001). Pelos dados obtidos verificou-se que as cabras que pariram em Novembro tiveram uma produção de leite mais elevada (196,316 + 126,377 litros), seguindo-se o mês de Janeiro com 168,115 + 90,942 litros. As cabras que pariram em Agosto, Julho e Junho, foram as que obtiveram uma produção total de leite menor. Gráfico 4 - ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DA ÉPOCA DE PARTO (meses) P. leite/ litros 200 150 100 50 0 J F M A M J J A S O N D 5. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DO TIPO DE PARTO. TIPO PARTO 0 1 2 3 Nº CONT 36 245 295 12 MÉDIA a 88,683 b 123,449 b 130,452 b 145,217 D. P. 38,019 61,908 70,728 113,235 a≠b; P≤0,001 A produção total de leite foi influenciada pelo tipo de parto (P≤0,001), existindo diferenças altamente significativas entre as cabras que abortaram ou pariram nado-mortos e as cabras que pariram “a bem”. Relativamente às cabras que pariram normalmente, o número de filhos não demonstrou influenciar a produção revelando não haver diferenças significativas. As cabras com partos triplos foram as que obtiveram a produção total mais elevada, com 145,217 + 113,235 litros. As cabras que abortaram obtiveram a produção total de leite mais fraca (88,638 + 38,019 litros). Gráfico 5 - PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DO TIPO DE PARTO Aborto Simples 200 Prod Total (litros) Duplo Triplo 100 0 Tipo de Parto 6. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DA IDADE (anos). IDADE (ANOS) 1 2 3 4 5 6 7 Nº CONT 122 112 11 13 20 205 106 MÉDIA a 91,139 bc 118,380 e 185,091 ac 94,892 bcd 132,720 bd 140,267 d 139,876 D. P. 46,574 43,468 61,579 28,224 48,223 82,074 65,876 a≠b≠c≠d≠e; P≤0,001 A produção total de leite foi influenciada pela idade (P≤0,001). Relativamente à influência do factor idade na produção dos animais, constatou-se que as cabras com três anos de idade apresentaram a produção de leite mais elevada (185, 091 + 61,579 litros). Na prática, as cabras exploradas em sistema tradicional apresentam a 4ª lactação quando atingem os três anos de idade. Esta situação resulta do facto do intervalo entre partos ser normalmente 7 a 10 meses e das anacas parirem demasiado cedo, entre os 12 e os 16 meses de idade. Com esta explicação, esta situação apresenta-se-nos como normal, uma vez que a 4ª lactação é considerada pela maioria dos autores como a lactação mais produtiva. Neste caso a única diferença consiste que neste sistema de produção, os animais atingem a 4ª lactação com três anos de idade. Este abuso da intensificação reprodutiva ocasiona, frequentemente, um decréscimo na produção nos dois anos seguintes (4º e 5º ano de idade), em virtude do excessivo desgaste que os animais sofreram (ainda por cima precocemente) e da sua necessidade de recuperação. Gráfico 6 - PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DA IDADE Produção de leite/ litros 200 180 160 140 120 100 80 60 40 20 0 1 2 3 4 Idade/ anos 5 6 7 7. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DA REGIÃO. REGIÃO Terra Quente Alto Tâmega Douro S. Norte Nº CONT 340 130 123 MÉDIA a 112,230 a 107,592 b 180,302 D. P. 53,150 45,917 88,807 a≠b; P≤0,001 A produção total de leite foi influenciada pela região de produção (P≤0,001), manifestando a região do Douro Superior Norte diferenças altamente significativas (P≤0,001), relativamente às regiões da Terra Quente e Alto Tâmega. Apesar das regiões do Alto Tâmega e Douro Superior Norte apresentarem neste trabalho uma cabrada em estudo, o número razoável de fêmeas reprodutoras (130 e 123) respectivamente e o facto de serem cabradas “tipo” dessas regiões, permite que estes resultados sejam utilizados a titulo indicativo. IV CONCLUSÕES Depois de termos feito a análise dos dados obtidos e de acordo com os resultados disponíveis, cremos poder extrair as conclusões a seguir mencionadas, que deverão ser entendidas como indicadores de trabalhos futuros, a realizar no âmbito da raça Serrana. Relativamente à produção total de leite, existe uma grande variabilidade na produção de leite da raça Serrana. A produção de leite foi influenciada por todos os factores que foram analisados (P<0,001). A cabrada de Estevais foi a que obteve uma produção total de leite mais elevada (180, 302 + 88,807 litros), produzindo praticamente o dobro da cabrada que teve a produção de leite menor que foi Pereira, com 93,199 + 45,139 litros. No ano 1992/ 93 a produção total de leite (145,590 + 71,632 litros), foi superior ao ano 1991/ 92 (106,363 + 56,787 litros) em cerca de 37%. Esta diferença pode explicar-se pela escassez alimentar do ano 1991/ 92, devido a ter sido um dos anos de maior seca no nosso país. À excepção de Castelãos e Cortiços, todas as cabradas apresentaram um aumento da produção total de leite no ano de 1993, em relação ao ano de 1992. O mês de parto revelou exercer uma influência altamente significativa na produção de leite. A produção total de leite das cabras paridas em Novembro (196,316 + 126,377 litros) foi bastante superior aos restantes meses de parto. Os meses de Verão revelaram-se como muito fracos para a produção de leite: Junho (97,165 + 46,156 litros), Julho (79,165 + 63,489 litros), Agosto (69,700 + 0,000 litros). De salientar que nesta época do ano a maior parte dos pastos estão secos, daí as cabras atingirem o parto em fraco estado de condição corporal, situação que se irá manifestar negativamente na futura lactação. O tipo de parto influêncía a produção de leite. As cabras que tiveram partos triplos obtiveram a produção de leite mais elevada (145, 217 + 113,235 litros), seguindo-se por ordem decrescente, as cabras com partos duplos e simples. As cabras que abortaram foram as que produziram menos leite (88,683 + 38,019 litros). Em relação ao factor de variação idade, as cabras com três anos apresentaram uma produção de leite (185,091 + 61,579 litros) superior às cabras pertencentes aos outros estratos da estrutura etária. As cabras com um ano de idade, revelaram uma menor capacidade para a produção de leite (91,139 + 46,574 litros). Em relação às regiões estudadas, podemos dizer que a região do Douro Superior Norte, com uma média de 180,302 + 88,807 litros de leite, apresenta-se como a região com maior aptidão para a produção de leite, seguindo-se a região da Terra Quente com 112,230 + 53,150 litros e por último a região do Alto Tâmega com 107,592 + 45,917 litros. Da análise que efectuámos relativamente à influência que o mês de parto tem na produção total de leite, permitiu-nos estabelecer a distribuição anual de partos da raça caprina Serrana em sistema extensivo tradicional, com reprodução não controlada (os bodes andam permanentemente na cabrada). Assim, verificou-se a existência de uma concentração de partos, no período compreendido entre Dezembro e Abril. No entanto, os meses de Fevereiro, Março e Abril revelaram-se como os de maior concentração, correspondendo a cerca de 55% dos partos anuais da raça Serrana. Gráfico 7 - DISTRIBUIÇÃO ANUAL DE PARTOS 140 120 100 Nº PARTOS/ MÊS 80 60 40 20 0 J F M A M J J A S O N D BIBLIOGRAFIA ALMENDRA, LUÍS FILIPE O. J., 1991. Estudo Comparativo de Três Épocas Tradicionais de Produção de Leite de Origem Caprina Serrana em Trás-os-Montes, in "Agricultura Transmontana", Boletim Técnico nº1, Abril, Mirandela. BARBOSA, CARLOS; ALMENDRA, LUÍS; SOUSA, FERNANDO, 1991. “Perspectivas da Utilização da Raças Autóctones na Valorização dos Recursos Naturais” in “Agricultura Transmontana” Boletim Técnico Nº 2, Novembro, Mirandela. BARBOSA, MANUELA, 1986. “O Interesse do Leite de Cabra Para o Desenvolvimento de Novos Produtos” in “Colóquio - Queijos de Ovelha e Cabra”, F.I.L., Lisboa. BOURBOUZE, A et OUESSONS, F., 1977. “La Chévre et L`Utilisation des Ressoures dans les Milieux Difficiles, Symposium Sobre la Cabra em los Países Mediterrâneos. Malaga, Granada Murcia, Espanha. STEEL, R.G.D. E TORRIE, J.H., 1982. Principles and procedurs of statistics. A biometrical approach. Mc graw-hill - International book campany. 3rd edition, 633 pp.