Estudo da produção leiteira da raça caprina serrana nos concelhos mais representativos
do ecotipo transmontano em sistemas de produção extensivos tradicionais
António Neves
Associação Nacional de Caprinicultores de Raça Serrana (ANCRAS)
Bº Fundo Fomento de Habitação, B1, 14 cv dtª
Luís Almendra
Direcção Regional de Agricultura de Trás-os-Montes
R. da República, 133 - Aprt. 24
5370 MIRANDELA
RESUMO
A cabra Serrana é uma raça autóctone com elevado potencial produtivo, apresentando
igualmente uma boa rusticidade, em particular o ecotipo Transmontano, pela forma como se
tem adaptado às mais variadas condições de produção de origem ambiental (clima, solos,
topografia, alimentação disponível ao longo do ano, épocas reprodutivas, etc.) que
praticamente lhe são “impostas” pelos seus criadores, na maioria pessoas com idades
compreendidas entre os 40 e 60 anos de idade e com pouca ou nenhuma formação.
Com este trabalho pretende-se contribuir para um melhor estudo sobre esta raça e
divulgar alguns dados sobre a real produção leiteira deste ecotipo, em sistema de produção
extensivo tradicional que infelizmente e um pouco por causa do maneio utilizado pelos
caprinicultores da região, com enormes carências e deficiências, sobretudo tecnológicas,
diferem bastante dos valores que nos são apresentados pelos livros que existem sobre a raça
caprina Serrana em geral (constituída por quatro ecotipos), normalmente obtidos em estação
experimental, com maneio correcto e frequentemente em sistema de produção intensivo, em
regime de estabulação permanente.
Analisámos a produção de leite em três regiões homogéneas de Trás-os-Montes, em dois
anos consecutivos (1991/2 e 1992/3); anos de seca, ingratos em sistema tradicional que
depende essencialmente daquilo que a terra dá. A produção de leite foi estudada num modelo
em que as fontes de variação foram: o criador, o ano, a interacção criador x ano, o mês de
parto, o tipo de parto, a idade e a região.
No que diz respeito à produção total de leite a cabrada de Estevais (zona agrária do
Douro Superior) foi a que obteve o valor mais elevado, com uma produção média de 180,302
+ 88,807 litros (P<0,001) e Pereira (zona agrária da Terra Quente) o valor mínimo com 93,199
+ 45,139 litros (P<0,001).
Relativamente ao factor ano, em 1993 a produção total de leite (145,590 + 71,632 litros)
foi superior ao ano de 1992 (106,363 + 56,787 litros) em cerca de 37%, que traduz a
existência de diferenças altamente significativas e com elevado nível de significância (P≤0,001).
Podendo concluir-se a enorme influência das condições naturais na capacidade produtiva dos
animais.
Pelos dados obtidos verificou-se que as cabras que pariram em Novembro obtiveram a
produção de leite mais elevada, com 196,316 + 126,377 litros (P<0,001), seguindo-se o mês
de Janeiro, com 168,115 + 90,942 litros (P<0,001). As cabras que pariram em Agosto, Julho e
Junho, foram as que apresentaram a produção total de leite menor.
Relativamente ao factor tipo de parto, a produção total de leite mais elevada pertenceu
às cabras com parto triplo, com a produção média de 145,217 + 113,235 litros (P<0,001). As
cabras que abortaram obtiveram a produção total de leite mais fraca, com 88,638 + 38,019
litros (P<0,001).
Em relação ao factor de variação idade, verificou-se que as cabras com três anos de
idade foram as que atingiram maior produção de leite (185,091 + 61,579 litros) e apresentaram
diferenças de produção altamente significativas (P<0,001) relativamente a todas as outras
idades consideradas (entre 1 ano e os 7 anos de idade).
Os resultados colhidos neste trabalho reflectem unicamente o maneio extensivo
tradicional. Julgamos poder afirmar, que com uma melhoria, ainda que pouco substancial, do
sistema de produção preconizado, os caprinicultores da região podem rentabilizar mais as suas
explorações caprinas e melhorar as capacidades produtivas dos seus animais.
INTRODUÇÃO
A caprinicultura, como factor integrante do meio ambiente, constitui uma actividade desde
sempre associada ao ecossistema, em que cada exploração caprina depende essencialmente do ciclo
climático e dos factores endógenos locais.
A produção caprina apresenta-se pois, como séria alternativa na Política Agrícola Comum
(PAC), preconizada actualmente, através de dois grandes objectivos: a extensificação agro-pecuária e a
manutenção das populações rurais, que a caprinicultura cumpre de forma exemplar, devido à intensa
relação animal-homem-meio.
Foi com este propósito que iniciámos a realização deste estudo, que pensamos vá contribuir para
a melhoria da imagem desta espécie animal, ao apresentarmos resultados sobre a produção leiteira
(muito satisfatórios) da raça caprina Serrana, ecotipo Transmontano, explorado em sistema extensivo
tradicional.
Esperamos pois que este trabalho seja um contributo para que os criadores de cabras da região
possam ter um conhecimento mais profundo e de acordo com a realidade regional, da produção leiteira
da raça Serrana.
Para que possam no futuro produzir mais e melhores animais desta raça, realizando
simultaneamente uma melhor selecção das fêmeas reprodutoras. Isto levará ao encontro da estabilidade
financeira e do equilíbrio da tesouraria da exploração caprina, por forma a melhorar-se o nível de vida
das pessoas e sobretudo dos jovens que queiram abraçar esta actividade, com futuro incerto, pois nos
últimos dez anos - 1979 a 1989 - abandonaram a actividade 21% dos caprinicultores transmontanos.
I CRITÉRIOS DE SELECÇÃO DAS ÁREAS DE ESTUDO
O que se pretende com este estudo é a comparação da produção leiteira entre regiões
homogéneas, em dois anos consecutivos (1991/2 e 1992/3).
Assim, seleccionaram-se diversas regiões prioritárias, atendendo aos seguintes critérios:
•
•
•
•
•
maior vocação e tradição na caprinicultura;
efectivos contrastados nos dois anos em que se vai realizar o estudo;
tradição na produção de queijo;
maior número de cabras por criador e maior densidade de caprinos de raça Serrana;
possibilidade de o estudo ser mais viável e eficaz
Tendo em conta os critérios anteriores, delimitaram-se três áreas de intervenção:
1.
2.
3.
Zona agrária da Terra Quente
Zona agrária do Douro Superior Norte
Zona agrária do Alto Tâmega
II MATERIAL E MÉTODOS
O estudo teve origem em seis efectivos caprinos de raça Serrana inscritos no Livro Genealógico
da Raça Caprina Serrana. Existindo quatro na Zona Agrária da Terra Quente (Pereira, Cortiços,
Sezulfe e Castelãos), um na Zona Agrária do Douro Superior Norte (Estevais) e um na Zona Agrária
do Alto Tâmega (Zebras).
Estas cabradas possuem em média 80 a 90 animais e têm como principal objectivo produtivo a
produção mista leite/carne.
1. SISTEMA DE PRODUÇÃO
1.1. Regime de exploração
Os efectivos são explorados em regime extensivo tradicional, o pastoreio dos animais é efectuado
mediante a realização de um determinado percurso diário, entre 10 a 20 Km, variando ao longo do ano,
em função das disponibilidades alimentares das zonas em que se encontram as explorações caprinas.
No Verão, os efectivos saem de manhã para o pasto e «assestam» durante a tarde, isto é,
abrigam-se das horas de mais calor no cabril, praticando os caprinicultores normalmente o seguinte
horário: das seis horas e meia da manhã até às onze e meia (de salientar que alguns criadores utilizam
esta hora para ordenhar). Depois da «sesta» os animais começam de novo a pastar pelas quatro e meia
da tarde até às nove horas da noite, por vezes até mais tarde.
No Inverno, os efectivos pastoreiam durante todo o dia voltando ao fim da tarde ao cabril para
passar a noite, sendo o horário mais comum entre as dez horas da manhã e as seis da tarde. A ordenha é
realizada na maior parte dos casos apenas de manhã.
1.2. Regime alimentar
Os efectivos em estudo são explorados num sistema de maneio tradicional ao qual se associa um
regime de alimentação que tem como principal fonte o mato, constituído essencialmente por giesta,
esteva, carqueja e arçã.
O pastoreio destes caprinos está directamente dependente das plantas constituintes das floras
locais sobretudo espontâneas, fazem também parte da sua dieta alimentar os subprodutos das
explorações agrícolas (folhas de videira, ramos de oliveira, ramos de árvores, restolhos de cereais, etc),
derivados das podas, limpezas e outros produtos de qualidade insuficiente para consumo humano.
Os cabritos são alimentados pelo leite maternal até à altura do desmame. O desmame é do tipo
tradicional (60 dias), com base exclusivamente na amamentação materna. Quando se procede à recria,
os cabritos mamam por vezes até aos 6 meses de idade.
Alguns criadores utilizam a técnica do «botilho», que consiste em atravessar um pau na boca da
cabrita, preso à base dos cornos para que esta não consiga apanhar o teto da mãe.
A recria normalmente só se efectua nos meses em que a produção de leite é fraca, ou seja, nos
meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro que corresponde ao período de recria dos cabritos nascidos em
Outubro e Novembro. Nos meses em que a produção é elevada: Março, Abril, Maio e Junho, o leite é
aproveitado para o fabrico de queijo, ou então para venda a queijarias.
Independente do estado fisiológico do animal e das disponibilidades alimentares ao longo do ano,
não se faz qualquer tipo de suplementação alimentar, dependendo a capacidade leiteira do animal
sobretudo do seu valor genético, relativamente à eficiência de transformação alimento--leite.
1.3. Maneio reprodutivo
O maneio reprodutivo preconizado nestes efectivos está directamente dependente do maneio
tradicional utilizado, isto é, a cobrição não é controlada tanto na paternidade como na época do ano,
encontrando-se os machos permanentemente junto das fêmeas.
1.4. Alojamento dos caprinos
As instalações e equipamentos utilizados pelos criadores, em estudo, não são os mais
aconselháveis, pois não obedecem a normas específicas de construção e localização, sendo a construção
feita de acordo com a vontade do criador e a tradição da região em que a falta de arejamento, de
luminosidade e custo elevado são uma constante.
Nas regiões em que o estudo foi efectuado o principal alojamento, e o mais utilizado pelos
criadores é a chamada "corriça". Por norma este tipo de construção tem paredes de alvenaria, com bloco
ou então parede xistosa, a cobertura é feita com placas de fibrocimento, chapa de zinco ou telha
podendo apresentar uma ou duas águas. O pavimento é em terra batida onde é periodicamente
espalhada palha ou mato para manutenção de uma cama seca e conforto dos animais.
1.5. Maneio sanitário
As explorações em estudo têm o apoio sanitário dos ADS's, e a sua acção tem incidido, ao nível
de caprinos, essencialmente no despiste de Brucelose e vacinação de animais jovens entre os quatro e
sete meses de idade.
No campo da higiene e sanidade pode verificar-se que existem várias deficiências higiénicas
como: camas de palha ou mato com poucas mudanças periódicas, resultando daí doenças infectocontagiosas, em que se destacam as do foro respiratório. A ordenha é feita no cabril, por vezes, com um
número excessivo de animais, apresentando o mungidor alguma sujidade, que põe em causa a qualidade
do leite.
2. CONTROLO DE REGISTOS E VARIÁVEIS
Relativamente à produção de leite, os contrastes leiteiros foram realizados após o desmame dos
cabritos, com intervalos de 28 dias.
O método Fleischmann foi o processo utilizado no apuramento de resultados, relativamente ao
cálculo de produção total de leite na lactação de cada animal. Este método consiste na soma de vários
parciais de produção de leite.
Os resultados obtidos das lactações relativas à variável em estudo foram calculados através das
seguinte metodologia:
PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE - Cálculo obtido pelo método de Fleischman
DURAÇÃO DA LACTAÇÃO - Nº de dias entre o "último contraste* + 14 dias" e o parto
(*) Considera-se como último contraste, aquele em que ainda houve produção de leite (considera-se que
o animal está seco, quando a sua produção diária é inferior a 200 ml).
3. ANÁLISE ESTATÍSTICA
Foi efectuada uma análise de variáveis (STEEL and TORRIE, 1992), com os factores criador,
ano e região para o conjunto de variáveis anteriormente descritas.
A comparação entre médias foi realizada através do teste de diferença significativa mínima de
Ficher.
III RESULTADOS E DISCUSSÃO
Neste capítulo serão apresentados os resultados sobre a produção total de leite do ano de 1992 e
1993, e a afectação dos factores: criador, ano, interacção criador * ano, mês de parto, tipo de parto,
idade e região, nos resultados obtidos sobre a produção total de leite.
1. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (litros) EM FUNÇÃO DO
CRIADOR.
CABRADA
ZEBRAS
ESTEVAIS
SEZULFE
CASTELÃOS
CORTIÇOS
PEREIRA
Nº CONT
129
123
70
82
99
86
MÉDIA
bc 107,740
e 180,302
ac 94,226
bd 120,032
d 134,327
a
93,199
D. P.
46,065
88,807
52,819
56,121
48,200
45,139
a≠b≠c≠d≠e; P≤0,001
A produção total de leite foi influenciada pelo criador (P≤0,001), verificando-se que a cabrada de
Estevais (180,302 + 88,807 litros) produziu sensivelmente o dobro da quantidade de leite produzida
pela cabrada de Pereira (93,199 + 45,139 litros).
G r á fic o 1 - P R O D U Ç Ã O T O T A L D E L E I T E
(litros) EM F U N Ç Ã O D O C R I A D O R
Z e b ra s
2 0 0 .0 0 0
P e re ira
1 0 0 .0 0 0
E s te v a is
0
C o rtiç o s
S e z u l fe
C a s te l ã o s
2. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (litros) EM FUNÇÃO DO ANO.
FONTE
1992
1993
Nº CONT
304
285
MÉDIA
a 106,363
b 145,590
D. P.
56,787
71,632
a≠b; P≤0,001
A produção total de leite foi influenciada pelo ano (P≤0,001). No ano 1993 (145,590 + 71,632
litros) a produção total de leite foi superior ao ano 1992 (106,363 + 56,787 litros) em cerca de 37%.
Esta diferença é explicável sobretudo pelas condições climatéricas, pois o ano de 1992 apresentou-se
como um dos mais secos nas últimas décadas, provocando uma escassez alimentar quase permanente.
Gráfico 2 - PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DO ANO
58%
42%
1992
1993
3. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DA INTERACÇÃO
CRIADOR * ANO.
FONTE
ZEBRAS, 1992
ZEBRAS, 1993
ESTEVAIS, 1992
ESTEVAIS, 1993
SEZULFE, 1992
SEZULFE, 1993
CASTELÃOS, 1992
CASTELÃOS, 1993
CORTIÇOS, 1992
CORTIÇOS, 1993
PEREIRA, 1992
PEREIRA, 1993
Nº CONT
72
57
64
59
32
38
42
40
47
52
47
39
MÉDIA
84,163
137,521
127,730
237,331
80,947
105,408
133,926
105,443
140,734
128,537
69,579
121,664
D. P.
41,593
32,240
55,082
83,280
50,162
53,044
58,556
50,105
54,671
41,188
39,194
34,297
A produção total de leite foi influenciada pela interacção criador * ano (P<0,001).
Gráfico 3 - ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM
FUNÇÃO DA INTERACÇÃO CRIADOR * ANO
250
200
150
P. leite/
litros
100
50
0
Zebras
Estevais
Sezulfe
1992
Castelãos
1993
Cortiços
Pereira
4. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE (litros) EM FUNÇÃO DA ÉPOCA
DE PARTO
MÊS DE PARTO
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
Nº CONT
55
112
106
109
49
23
4
1
12
17
19
81
MÉDIA
168,115
123,758
117,461
102,078
126,986
97,165
79,165
69,700
132,792
135,412
196,316
129,304
D. P.
90,942
61,229
49,336
54,250
64,788
46,156
63,489
0,000
55,744
68,290
126,377
57,696
A produção total de leite foi influenciada pelo mês de parto (P≤0,001). Pelos dados obtidos
verificou-se que as cabras que pariram em Novembro tiveram uma produção de leite mais elevada
(196,316 + 126,377 litros), seguindo-se o mês de Janeiro com 168,115 + 90,942 litros. As cabras que
pariram em Agosto, Julho e Junho, foram as que obtiveram uma produção total de leite menor.
Gráfico 4 - ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE
EM FUNÇÃO DA ÉPOCA DE PARTO (meses)
P. leite/ litros
200
150
100
50
0
J
F
M
A
M
J
J
A
S
O
N
D
5. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DO TIPO DE PARTO.
TIPO PARTO
0
1
2
3
Nº CONT
36
245
295
12
MÉDIA
a
88,683
b 123,449
b 130,452
b 145,217
D. P.
38,019
61,908
70,728
113,235
a≠b; P≤0,001
A produção total de leite foi influenciada pelo tipo de parto (P≤0,001), existindo diferenças
altamente significativas entre as cabras que abortaram ou pariram nado-mortos e as cabras que pariram
“a bem”. Relativamente às cabras que pariram normalmente, o número de filhos não demonstrou
influenciar a produção revelando não haver diferenças significativas.
As cabras com partos triplos foram as que obtiveram a produção total mais elevada, com
145,217 + 113,235 litros. As cabras que abortaram obtiveram a produção total de leite mais fraca
(88,638 + 38,019 litros).
Gráfico 5 - PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DO
TIPO DE PARTO
Aborto
Simples
200
Prod Total
(litros)
Duplo
Triplo
100
0
Tipo de Parto
6. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DA IDADE (anos).
IDADE (ANOS)
1
2
3
4
5
6
7
Nº CONT
122
112
11
13
20
205
106
MÉDIA
a 91,139
bc 118,380
e 185,091
ac 94,892
bcd 132,720
bd 140,267
d 139,876
D. P.
46,574
43,468
61,579
28,224
48,223
82,074
65,876
a≠b≠c≠d≠e; P≤0,001
A produção total de leite foi influenciada pela idade (P≤0,001). Relativamente à influência do
factor idade na produção dos animais, constatou-se que as cabras com três anos de idade apresentaram
a produção de leite mais elevada (185, 091 + 61,579 litros).
Na prática, as cabras exploradas em sistema tradicional apresentam a 4ª lactação quando atingem
os três anos de idade. Esta situação resulta do facto do intervalo entre partos ser normalmente 7 a 10
meses e das anacas parirem demasiado cedo, entre os 12 e os 16 meses de idade.
Com esta explicação, esta situação apresenta-se-nos como normal, uma vez que a 4ª lactação é
considerada pela maioria dos autores como a lactação mais produtiva. Neste caso a única diferença
consiste que neste sistema de produção, os animais atingem a 4ª lactação com três anos de idade.
Este abuso da intensificação reprodutiva ocasiona, frequentemente, um decréscimo na produção
nos dois anos seguintes (4º e 5º ano de idade), em virtude do excessivo desgaste que os animais
sofreram (ainda por cima precocemente) e da sua necessidade de recuperação.
Gráfico 6 - PRODUÇÃO TOTAL DE LEITE EM FUNÇÃO DA
IDADE
Produção de leite/
litros
200
180
160
140
120
100
80
60
40
20
0
1
2
3
4
Idade/ anos
5
6
7
7. ANÁLISE DA PRODUÇÃO TOTAL (litros) EM FUNÇÃO DA REGIÃO.
REGIÃO
Terra Quente
Alto Tâmega
Douro S. Norte
Nº CONT
340
130
123
MÉDIA
a 112,230
a 107,592
b 180,302
D. P.
53,150
45,917
88,807
a≠b; P≤0,001
A produção total de leite foi influenciada pela região de produção (P≤0,001), manifestando a
região do Douro Superior Norte diferenças altamente significativas (P≤0,001), relativamente às regiões
da Terra Quente e Alto Tâmega.
Apesar das regiões do Alto Tâmega e Douro Superior Norte apresentarem neste trabalho uma
cabrada em estudo, o número razoável de fêmeas reprodutoras (130 e 123) respectivamente e o facto de
serem cabradas “tipo” dessas regiões, permite que estes resultados sejam utilizados a titulo indicativo.
IV CONCLUSÕES
Depois de termos feito a análise dos dados obtidos e de acordo com os resultados disponíveis,
cremos poder extrair as conclusões a seguir mencionadas, que deverão ser entendidas como indicadores
de trabalhos futuros, a realizar no âmbito da raça Serrana.
Relativamente à produção total de leite, existe uma grande variabilidade na produção de leite da
raça Serrana. A produção de leite foi influenciada por todos os factores que foram analisados
(P<0,001).
A cabrada de Estevais foi a que obteve uma produção total de leite mais elevada (180, 302 +
88,807 litros), produzindo praticamente o dobro da cabrada que teve a produção de leite menor que foi
Pereira, com 93,199 + 45,139 litros.
No ano 1992/ 93 a produção total de leite (145,590 + 71,632 litros), foi superior ao ano 1991/ 92
(106,363 + 56,787 litros) em cerca de 37%. Esta diferença pode explicar-se pela escassez alimentar do
ano 1991/ 92, devido a ter sido um dos anos de maior seca no nosso país.
À excepção de Castelãos e Cortiços, todas as cabradas apresentaram um aumento da produção
total de leite no ano de 1993, em relação ao ano de 1992.
O mês de parto revelou exercer uma influência altamente significativa na produção de leite. A
produção total de leite das cabras paridas em Novembro (196,316 + 126,377 litros) foi bastante
superior aos restantes meses de parto. Os meses de Verão revelaram-se como muito fracos para a
produção de leite: Junho (97,165 + 46,156 litros), Julho (79,165 + 63,489 litros), Agosto (69,700 +
0,000 litros). De salientar que nesta época do ano a maior parte dos pastos estão secos, daí as cabras
atingirem o parto em fraco estado de condição corporal, situação que se irá manifestar negativamente na
futura lactação.
O tipo de parto influêncía a produção de leite. As cabras que tiveram partos triplos obtiveram a
produção de leite mais elevada (145, 217 + 113,235 litros), seguindo-se por ordem decrescente, as
cabras com partos duplos e simples. As cabras que abortaram foram as que produziram menos leite
(88,683 + 38,019 litros).
Em relação ao factor de variação idade, as cabras com três anos apresentaram uma produção de
leite (185,091 + 61,579 litros) superior às cabras pertencentes aos outros estratos da estrutura etária.
As cabras com um ano de idade, revelaram uma menor capacidade para a produção de leite (91,139 +
46,574 litros).
Em relação às regiões estudadas, podemos dizer que a região do Douro Superior Norte, com uma
média de 180,302 + 88,807 litros de leite, apresenta-se como a região com maior aptidão para a
produção de leite, seguindo-se a região da Terra Quente com 112,230 + 53,150 litros e por último a
região do Alto Tâmega com 107,592 + 45,917 litros.
Da análise que efectuámos relativamente à influência que o mês de parto tem na produção total
de leite, permitiu-nos estabelecer a distribuição anual de partos da raça caprina Serrana em sistema
extensivo tradicional, com reprodução não controlada (os bodes andam permanentemente na cabrada).
Assim, verificou-se a existência de uma concentração de partos, no período compreendido entre
Dezembro e Abril. No entanto, os meses de Fevereiro, Março e Abril revelaram-se como os de maior
concentração, correspondendo a cerca de 55% dos partos anuais da raça Serrana.
Gráfico 7 - DISTRIBUIÇÃO ANUAL DE PARTOS
140
120
100
Nº PARTOS/ MÊS
80
60
40
20
0
J
F
M
A
M
J
J
A
S
O
N
D
BIBLIOGRAFIA
ALMENDRA, LUÍS FILIPE O. J., 1991. Estudo Comparativo de Três Épocas Tradicionais de
Produção de Leite de Origem Caprina Serrana em Trás-os-Montes, in "Agricultura Transmontana",
Boletim Técnico nº1, Abril, Mirandela.
BARBOSA, CARLOS; ALMENDRA, LUÍS; SOUSA, FERNANDO, 1991. “Perspectivas da
Utilização da Raças Autóctones na Valorização dos Recursos Naturais” in “Agricultura
Transmontana” Boletim Técnico Nº 2, Novembro, Mirandela.
BARBOSA, MANUELA, 1986. “O Interesse do Leite de Cabra Para o Desenvolvimento de Novos
Produtos” in “Colóquio - Queijos de Ovelha e Cabra”, F.I.L., Lisboa.
BOURBOUZE, A et OUESSONS, F., 1977. “La Chévre et L`Utilisation des Ressoures dans les
Milieux Difficiles, Symposium Sobre la Cabra em los Países Mediterrâneos. Malaga, Granada Murcia, Espanha.
STEEL, R.G.D. E TORRIE, J.H., 1982. Principles and procedurs of statistics. A biometrical approach.
Mc graw-hill - International book campany. 3rd edition, 633 pp.
Download

Estudo da produção leiteira da raça caprina serrana nos concelhos