CIÊNCIA E REVOLUÇÃO CIENTÍFICA Objetividade científica com os homens, pelos homens e apesar dos homens. Cristiano R R Portella (*) [email protected] RESUMO Este artigo aborda a revolução das ciências segundo as visões de Karl Popper e Thomas Samuel Kuhn (pós positivismo), enfocando principalmente a questão da objetividade científica e fatores que podem impedir ou dificultar a aplicação desse conceito em sua plena acepção, quer no âmbito pessoal do pesquisador, quer pelas forças sociais que regem a produção científica. O texto relata fatos da atualidade, onde a pesquisa científica tem sofrido pressões do modismo criando a “Big Science”, pressões de natureza econômica, de crenças morais e religiosas e até mesmo do critério de “peer referee” (referência dos pares) . PALAVRAS‐CHAVE: Objetividade científica; Peer Review;; Princípio da Precaução”; “Big Science”. 1. INTRODUÇÃO Fazer ciência é um trabalho racional que pressupõe métodos que garantam, pelo menos em tese, a precisão do processo. Na prática e, especialmente em alguns campos do saber como as ciências humanas, existem momentos que fazer ciência é como procurar gato preto em quarto escuro, que não tem gato e, de vez em quando alguém grita: ‐ Achei! O conhecimento acabado, na forma de lei, não é mais a suprema ambição das ciências naturais, da mesma forma que recua a idéia de determinismo na natureza, como mostra a teoria do caos. A própria objetividade científica sofre sérias críticas, uma vez que o pesquisador, enquanto ser humana, pensa, age e reage, exercendo sua influência durante o experimento, ainda que este seja conduzido com prudência e método. Este artigo levanta outras causas de fragilidade do conceito de objetividade científica, tais como fatores econômicos, crenças e princípios morais e tendências (modismo), citando exemplos atuais desses fatos. 2. A RE‐EVOLUÇÃO CIENTÍFICA As ciências em geral e especialmente as ciências humanas distanciaram‐se um pouco em relação à perspectiva positivista, berço do seu método de constituição do saber. Essa mudança se deve ao fato de que as ciências humanas tratam de fenômenos com um grau maior de complexidade em relação aos fenômenos naturais, uma vez que o sujeito pensa, age e reage (a exposição do sujeito à pesquisa é suficiente para produzir resultados novos e induzidos). Além disso, o pesquisador enquanto ser humano também sofre inúmeras influências, alterando os dados da pesquisa, de maneira a poder progredir em direção à compreensão do problema. A perspectiva positivista supõe que os fatos humanos são como os da natureza, que são observados tal como são, sem idéias preconcebidas, que podem ser submetidos à experimentação e que permitem medidas precisas das modificações causadas durante a experimentação. Todavia esse modelo tem grandes limitações quando se trata de estudar o ser humano, o que concorreu para o esgotamento progressivo do positivismo, de uma redefinição da ciência e de seu procedimento de constituição dos saberes. 1/9 2.1 POPPER VERSUS KUHN Tanto Kuhn quanto Popper são contrários à tese positivista, que preconizava a evolução da pesquisa científica de forma racional, sistêmica, ordenada e linear. Segundo Popper, às vezes ocorre um resultado inesperado que ele chama de “experimento crítico”, mostrando evidências que não corroboram o modelo vigente. Esses experimentos são produzidos pela comunidade científica, que exerce um papel crítico à medida que buscam o falseamento da teoria vigente, a fim de produzir novas teorias. A partir dessa quebra de confiança na teoria vigente, a comunidade passa a trabalhar, através da pesquisa e da criatividade (intuição) em busca de uma nova teoria. O processo de escolha das novas teorias tem uma abordagem racional, à medida que escolhe as teorias mais lógicas. A evolução das ciências segundo Popper é num modelo de ruptura em forma de degrau, ou seja: um fenômeno sistêmico do tipo homeostasia (mudanças contínuas não‐ radicais). Em Popper (1976) vemos fatores psicológicos e sociais que corroboram a visão deste artigo (o mito da objetividade), quando diz: “Uma revolução científica não pode, contudo, embora radical, romper com a tradição, pois deve preservar o êxito de suas predecessoras. Tal a razão por que as revoluções científicas são racionais.” (pg.113). Também Kuhn compartilha a visão de uma evolução por rupturas e não de maneira linear (positivismo). Todavia o modelo de Kuhn segue uma visão de rupturas revolucionárias, portanto um fenômeno sistêmico do tipo homeoresia (mudanças bruscas e radicais). Kuhn privilegia a visão de que fatores psicológicos e sociológicos têm grande influência nessas revoluções, tanto permitindo que elas ocorram como as retardando tanto quanto possível (o conceito de paradigma). Segundo Kuhn (1978), um paradigma é uma realização científica universalmente reconhecida que, durante algum tempo, fornece problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes desse paradigma em ciência. O paradigma engloba um conjunto de teorias, instrumentos, conceitos e métodos de investigação. Durante um período que o autor chama de “fase da ciência normal”, o paradigma é aceito sem qualquer restrição pela comunidade científica, uma vez que ele consegue atender às questões atinentes à área de estudos à qual é aplicável. Os acertos do paradigma fazem crescer sua aceitação pelos seus praticantes. Com o passar do tempo, como fruto do dia‐a‐dia da ciência, algumas questões não são resolvidas pelo paradigma mas, durante algum tempo elas serão desconsideradas pela comunidade praticante do paradigma, por um excesso de crença no paradigma em uso. Dados são negligenciados, ajustados ou sequer vistos pela comunidade praticante do paradigma, criando uma espécie de “cegueira do paradigma”, o que é um primeiro fato contra o conceito de objetividade científica. É evidente que o paradigma representa um modo de vida, uma crença e um patrimônio de conhecimentos que a comunidade e o cientista individualmente relutará em descartar. O acúmulo de evidências sobre falhas no paradigma faz aparecer um segundo momento, denominado de “fase da ciência revolucionária”, onde a resistência à mudança de paradigma é minada pela quantidade de fatos que demonstram incongruência no paradigma aceito. Participantes da comunidade do paradigma em uso ou cientistas que não compartilham das teorias do paradigma irão buscar novo conjunto de conceitos, instrumentos e métodos para explicar os dados discrepantes, dando início ao nascimento de um novo paradigma, gerando o que Kuhn chamou de “revolução científica”, um autêntico período de crise e disputa, onde paradigmas novos sucedem os antigos que já não dão conta de explicar todos os fatos a ele relacionados. 2/9 Os praticantes do paradigma antigo irão relutar em aceitar o novo, numa atitude conservadora que demonstra que os cientistas não agem com espírito crítico e isento de questões psicológicas e sociais como o método de pesquisa preconiza. A aceitação do novo paradigma depende inicialmente de que ele responda às questões fundamentais com a mesma precisão que o paradigma antigo respondia. Depois de algum tempo o novo paradigma irá se impor (caso tenha fundamentação correta) e um novo período de trabalho se iniciam, sob os auspícios do novo paradigma que, pausadamente irá ganhar adeptos e formar uma nova comunidade de seguidores. O trabalho de Kuhn tem importância à medida que demonstra que a objetividade preconizada é, em muitos casos, eclipsada pela luta interior do pesquisador que vê suas crenças e pesquisas desmoronar‐se, ao mesmo tempo em que o novo paradigma ainda não demonstrou ser capaz de resolver a todas as novas questões. 2.2 O MÉTODO E A OBJETIVIDADE CIENTÍFICA A ciência progride, formulando teorias cada vez mais amplas e profundas, porém num trabalho contínuo de construção e desconstrução, uma vez que mesmo as teorias mais recentes devem ser entendidas como parciais , hipotéticas e provisórias. Para uma maior garantia de veracidade, quando o erro ou a falsidade pode estar presente (verdadeira até prova em contrário), a ciência se agarra ao Método Científico, como a cristalização da busca da objetivação, através da delimitação do problema, como essas limitações foram percebidas, por que sua hipótese é legítima e o procedimento de verificação justificado. Por objetividade entende‐se o respeito integral ao objeto de estudos na tentativa de reconhecê‐lo tal como é. Segundo Alves‐Mazzotti e Gewandsznajder (2001, p.9) Finalmente, afirmar que a ciência é objetiva não significa dizer que suas teorias são verdadeiras. A objetividade da ciência não repousa na imparcialidade de cada indivíduo, mas na disposição de formular e publicar hipóteses para serem submetidas a críticas por parte de outros cientistas; na disposição de formulá‐las de forma que possam ser testadas experimentalmente; na exigência de que a experiência seja controlada e de que outros cientistas possam repetir os testes, se isto for necessário Apesar da defesa de Alves‐Mazzotti e Gewandsznajder em prol do princípio da objetividade científica, continuaremos nosso intento em demonstrar que existem outros fatores alheios à pessoa do pesquisador, também atores com papel de restritores no desenvolvimento da ciência. A seguir vamos relatar fatos atuais que corroboram nossa posição de que, apesar da ciência ser feita para os homens, ela é feita por homens portanto condicionada pela sociedade, que atua moderando, acelerando ou impedindo o progresso em determinados campos da ciência e em determinados momentos de nossa história. 3. EFEITOS PSICOLÓGICOS NA PESQUISA. Os próximos tópicos tratam de casos onde a objetividade científica foi vencida por questões de tradição, ou como diria Khun: os seguidores do paradigma não tinham provas suficientes para abandoná‐lo, falseando ou não conseguindo ver os erros manifestos, além de serem autênticos exemplos da permanente reconstrução das teorias científicas. Também mostraremos casos onde os fatores pessoais sobrepujaram a formação do pesquisador, impedindo que a objetividade conduzisse as pesquisas, permeados com 3/9 situações que demonstram como o “caminhar” da ciência não tem a esperada racionalidade crescente, muitas vezes se assemelhando à caça de gato preto em quarto escuro, como mencionado na introdução. 3.1 O ÉTER LUMINÍFERO E A VELOCIDADE DA LUZ. Exemplos destas “inverdades” existem à mancheias, como por exemplo a teoria do Éter Luminífero, nascida no Renascimento com Descartes (1644), segundo a qual o movimento do Sol criaria no éter redemoinhos e vórtices que explicariam o movimento dos planetas. Em seguida Newton explica o movimento dos planetas através de ação da gravidade e a composição da luz como corpuscular. De novo, para explicar a locomoção dessas partículas (fótons), Newton lança mão da teoria do éter luminífero ou meio portador de luz. Se segue a teoria de Thomas Young , que graças ao experimento da “dupla fenda” apóia a teoria corpuscular e corrobora a teoria do éter luminoso, mesmo sabendo que ele (o éter luminífero) não se comportava muito bem quanto às suas propriedades mecânicas, fato resolvido dando‐lhe o status de substância com propriedades únicas. Em 1878 James Maxwell deduziu que o movimento da Terra a favor do movimento do éter e contra este, deveria ser constatado através da velocidade da luz (vento de éter). Albert Michelson criou um equipamento chamado interferômetro, com a finalidade de medir essa diferença de velocidade, cujo experimento realizado em 1881 não constatou a presumida diferença. A princípio a causa foi atribuída a erros de medição. Melhorado o instrumental a experiência foi novamente realizada e não constatou diferenças, mas a teoria não foi abandonada. No final do século XIX George Fitzgerald e Hendrik Lorentz propõem uma teoria segundo a qual o movimento da Terra contrairia os objetos, distorcendo o interferômetro e impedindo a medida. Em 1905 Einstein publica “Sobre a Eletrodinâmica dos corpos em movimento” (conhecida como Teoria da Relatividade Específica), provando que a introdução do éter luminífero é supérflua, assim como um espaço fixo, absoluto e de propriedades especiais, descartando a idéias de éter. A natureza da luz passou a ser tomada tanto onda como partícula e com velocidade constante para qualquer observador. Com isso morreu a teoria do éter? Como luminífero sim, mas se o espaço–tempo pode ser deformado, é porque alguma coisa ali existe, como um éter sem propriedades mecânicas. Mas essa história de reconstrução de velhas teorias não acaba aqui: vários cientistas atuais, dentre os quais se destaca o contemporâneo e português João Magueijo, que questiona a teoria de que a velocidade da luz no vácuo é sempre a mesma (base da teoria da relatividade einsteiniana), uma vez que observações astronômicas recentes parecem corroborar a idéia de que a luz possa ter sido mais rápida no passado. Parece‐nos que essa história ilustra bem as palavras de Popper quanto à relutância de romper com a tradição. 3.2 O ERRO QUE MUDOU O MUNDO. Em junho de 1792, dois conceituados astrônomos franceses, Pierre‐François‐André Méchain (1744‐1804) e Jean‐Baptiste‐Joseph Delambre (1749‐1822) receberam uma missão 4/9 científica: medir um trecho da superfície da Terra para, com base nele, determinar o diâmetro da Terra e, a partir daí, deduzir o tamanho do metro1. Ambos partiram de Paris, Méchain rumo ao sul e Delambre rumo ao norte, equipados apenas com um círculo repetidor (instrumento capaz de medir ângulos com surpreendente precisão). Por sete anos se empenharam nessa expedição que acaba se transformando num fracasso porque Méchain comete um erro em suas medidas e resolve encobrir o fato de seu colega. Todavia Delambre descobre a falha do colega ao constatar que o valor do metro calculado por ambos tinha uma diferença de dois décimos de milímetro ou a espessura equivalente a duas folhas de caderno. Méchain praticamente enlouquece pela falha cometida e pela falta de coragem de denunciá‐la ao colega. Delambre por sua vez também tem sérios problemas de consciência por não querer delatar o colega de falta de objetividade científica, além do que a expedição já tinha sido alvo de críticas desde o seu início. Como uma alternativa Delambre resolve deixar em seu relatório final, pistas que delatariam o ocorrido, através das cartas trocadas entre ambos, onde aparece uma segunda versão da expedição. Os documentos originais que pertenciam a Delambre, foram comprados e vendidos várias vezes. Um rico colecionador da Califórnia os adquiriu há 10 anos. Outros documentos estão na Biblioteca da Universidade Brighan Young (Utah‐USA), recolhidos do lixo de um prédio desocupado na França há cerca de 20 anos, que acabaram em um leilão em Londres. Esta autêntica prova de como a personalidade humana pode falar mais alto que a formação de um pesquisador, está relatada no livro “A medida de todas as coisas” de Ken Alder (2001), um pesquisador da Universidade Northwestern (Illinois‐USA). 3.3 A PARCIALIDADE QUESTIONADA NO PROCESSO DE “PEER REVIEW” Uma vez que não se questiona mais a possibilidade de que aspectos pessoais (psicológicos) possam influenciar a decisão de pesquisadores, uma parte da comunidade científica questiona o critério chamado de “peer review” ou revisão pelos pares, para aprovação e publicação de artigos em revistas científicas. Muitos cientistas (inclusive Mangueijo, citado no item 3.1) questionam como a ciência está sendo feita, especialmente quando se trata de temas controversos (novos paradigmas emergentes?), onde a comunidade age em favor do paradigma adotado pela própria comunidade, numa verdadeira demonstração de emoção ao invés de racionalidade. Argumenta‐se inclusive que muitos cientistas preferem, antes de publicar seus artigos, expô‐los na Internet (por exemplo, em www.arxiv.org), que não tem “peer review” nas recebem um publico de cientistas que lêem esses artigos, questionam, repetem experimentos etc., no processo normal de fazer ciência. Como exemplo, citamos o artigo publicado na Internet por 14 pesquisadores sul‐ coreanos e um argentino, no qual são descritos os procedimentos de um inédito e bem sucedido experimento: a clonagem de 30 embriões humanos para fins de pesquisa em área terapêutica dos quais foi extraída uma linhagem de células‐tronco pluripotentes (vide item 4.2). Só um mês depois a revista científica Nature publicou o trabalho pioneiro desses pesquisadores. Esse é um exemplo de como garantir prioridade numa área onde as 1 Atualmente o metro é definido através do Sistema Internacional de unidades (SI), como a distância percorrida pela luz, no vácuo, durante um intervalo de tempo, e que corresponde a uma fração de 1/299.792.458 do segundo. 5/9 pesquisas se desenvolvem mais rápido que o processo de “peer review” e a edição de revistas. Segundo Magueijo apud Nogueira (2004), a prática do “peer review” está funcionando como uma reação sociológica, ao invés de ser uma maneira objetiva de selecionar bons artigos, muitas vezes onde os “referees” sequer leram os artigos, como denunciam seus “reports” onde deixam transparecer o desconhecimento do conteúdo do trabalho em análise. Magueijo critica também uma parcela de cientistas por buscarem um excesso de estética e matemática nas novas teorias, muitas vezes onde esses fatos não existem. Cita a teoria das supercordas como uma construção elaborada através de um excesso de estética através de virtuosos da matemática, porém sem nenhuma evidência física de sua existência até o momento.Argumenta que fazer física não é nada bonito e que o primeiro “paper” de Planck (física quântica) não fazia sentido nenhum e era inconsistente logicamente. Tinha apenas o mérito de empurrar a fronteira ao tentar explicar um dado como uma idéia racional, cujo sentido só se compreendeu vinte anos depois. Conclui dizendo que a física é, em última instância, um conjunto de aproximações, cada vez melhor da realidade e, por definição, uma aproximação nunca é perfeita. 4. EFEITOS SOCIAIS NA PESQUISA. A sociedade constituída através de suas instituições, desde organizações científicas, passando pelas financeiras e até as religiosas, exerce sua influência sobre os rumos da pesquisa científica, impedindo que, em muitos casos, a decantada objetividade e a racionalidade científica possam triunfar. Se ainda não convencemos o leitor da falibilidade do conceito de objetividade científica, vamos apelar para fatos atuais, retirados do cotidiano brasileiro. 4.1 OS TRANSGÊNICOS E O PRINCÍPIO DA PRECAUÇÃO. Outra área onde a controvérsia transcendeu os limites da ciência e recebeu apoios e vetos de esclarecidos e de leigos de todos os matizes, é a questão dos alimentos geneticamente modificados (transgênicos). Com a questão da soja e a nova Lei de Biossegurança, o assunto foi parar na mídia e motivou discussões acaloradas, que certamente influenciaram o rumo que “as coisas tomaram” (onde muitas vezes o governo, autêntico leigo no assunto, parecia totalmente sem rumo). O que muitas pessoas não sabem é que desde a década de 1970 , quando foram criadas a técnica do DNA recombinante e a Engenharia Genética, muitos produtos frutos dessa tecnologia invadiram nossas vidas. Por exemplo a insulina humana produzida por bactérias modificadas, que é um produto com menor taxa de rejeição entre os diabéticos. No campo, segundo o Serviço Internacional para a Aquisição de Aplicações de Agrobiotecnologia, em 1996 havia 1,6 milhões de hectares de transgênicos em todo o mundo e, em 2002, essa cifra pulou para 58,7 milhões de hectares. As aplicações são muitas, como a inclusão de um gene de aranha em cabras (Nexia Biotechnologies‐USA), com a finalidade de obter seda da teia a partir do leite. No Brasil, a Unicamp criou uma variedade de milho com um gene humano, capaz de produzir hormônio do crescimento (fábricas celulares). O tão decantado óleo de canola, só se tornou viável comercialmente, a partir de variedades geneticamente modificadas, capazes de suprir a demanda mundial dos produtos, que nós consumimos a um valor mais caro que os outros óleos, e ainda elogiamos suas propriedades anticolesterol. Mas provavelmente, o caso mais conhecido é o do “arroz 6/9 dourado”, um coquetel de DNA de ervilha, narciso, um vírus e uma bactéria ricos em vitamina “A”, desenvolvida na Ásia para o consumo de uma população carente de nutrientes, onde o arroz é a fonte alimentar de bilhões de pessoas. Partidários dos eventuais riscos inerentes a essa pesquisa pedem a adoção do “Princípio da Precaução” nas ciências. Todavia, segundo Marcelo Leite, editor de ciência da Folha de São Paulo, esse princípio recomenda que, havendo indicação forte de riscos consideráveis em certa atividade, ainda que de mensuração difícil ou impossível, a incerteza não deve ser invocada como justificativa seja para seguir em frente, seja para adiar medidas que objetivem prevenir ou combater seus efeitos. Recentemente a revista eletrônica Spiked2 publicou uma enquete britânica sobre descobertas que nunca teriam visto a luz do dia, caso o Princípio da Precaução fosse aplicado e, dentre as centenas de inventos encontramos antibióticos, aspirina, biologia molecular, transplantes de órgãos, exploração espacial, fertilização in vitro, medicamentos com efeitos colaterais, vacinas como pólio e raiva, forno microondas, tomografia computadorizada etc. Paixões à parte e sem entrar na polêmica dos eventuais riscos, o que constatamos é novamente a sociedade ingerindo na pesquisa científica, através de uma parcela significativa de seus membros, infelizmente não preparados para fazer juízo de valor de assuntos tão intrincados, onde até os cientistas não têm perfeito conhecimento. Para os alarmados de plantão, lembremo‐nos que a bomba atômica bem como o tratamento radioterápico de tumores, surgiu como subproduto de uma pesquisa feita com papel e caneta e uma equação simples como E=mc2. 4.2 AS PESQUISAS COM CÉLULAS‐TRONCO. Recentes revistas científicas trazem artigos sobre a importância das pesquisas com células‐tronco embrionárias através de clonagem (por exemplo, a revista Galileu No 152 de março/2004 trás o artigo “Esperança Renovada”). A medicina regenerativa é uma área que pode trazer a solução para doenças incuráveis como mal de Alzheimer, Parkinson, lesões na medula espinhal, diabetes e muitas outras. A razão está no fato de que células‐tronco são autênticas fábricas de células especializadas, podendo gerar todos os tipos de tecidos do corpo humano. A obtenção de células embrionárias se dá através de uma biotecnologia onde células tronco‐embrionárias, derivadas de um embrião nos estágios iniciais de desenvolvimento são retiradas para serem cultivadas em meio de cultura, onde são induzidas através de hormônios, a se diferenciarem em tecidos específicos, como músculo, neurônios e hepatócitos. Para tanto é necessária a destruição de um embrião na fase de blastócito – 5 dias – onde ainda é um aglomerado amorfo de 100 a 200 células, no formato de uma bola. Apesar da subjetividade do conceito de vida, algumas religiões e até outras instituições sociais consideram um crime contra a vida essa prática, ainda que, todo dia, milhares desses embriões excedentes sejam descartados ou esquecidos em tanques de congelamento, como nas clínicas de reprodução assistida, por serem excedentes de procedimentos de fecundação bem sucedidos. No Brasil, a nova Lei de Biossegurança, aprovada pela Câmara em fevereiro proíbe “a produção de embriões humanos destinados a servir como material biológico disponível”. Sem entrar no mérito da questão mas apenas demonstrando como grupos sociais conduzem os destinos da ciência, essa aprovação só foi possível quando a bancada dos parlamentares 2 www.spiked-online.com/Articles/00000006DD7A.htm 7/9 católicos – 120 deputados – se uniu à bancada dos deputados evangélicos – 55 deputados – obtendo assim a maioria e votando uma autêntica censura à pesquisa. De novo, sem entrar no mérito da questão, lembramos que esse fato, uma autêntica censura à produção científica, que poderia ser resolvido por Códigos de Ética, nos remete à censura imposta a Galileu Galilei, pelo fato da Terra girar em torno do Sol e que, felizmente “E puor si muove”, ou mesmo o “Massacre de Manguinhos”, destruído durante o regime militar, por supostas posições políticas e ideológicas de seus pesquisadores (A Construção da Ciência no Brasil e a SBPC, de autoria de Ana Maria Fernandes). Preocupada com os efeitos desse veto na nova Lei de Biossegurança, a FAPESP preparou um documento onde se manifesta nos seguintes termos “A Lei, nos termos em que foi criada, criará sérios obstáculos à pesquisa científica e ao desenvolvimento tecnológico em um setor no qual a transferência de tecnologia, da descoberta à sua aplicação, é extremamente rápida.... O Conselho Superior da Fapesp apela aos senhores parlamentares para que ouçam os representantes acreditados da comunidade científica, no sentido de transformar o texto da lei em instrumento de progresso e independência tecnológica...”. 4.3 O MODISMO, O PODER ECONÕMICO E A “BIG SCIENCE”. Os cientistas admitem que sempre seguiram “modas” em ciência; primeiro por razões de ego pessoal e em segundo lugar porque é para esses segmentos privilegiados que os recursos públicos são destinados. Segundo André Goffeau, biólogo belga (Ciência Hoje no. 202, março/2004, 8‐10 p.) biologia molecular, engenharia genética, apoptose, células‐tronco e pesquisa genômica estão entre as preferidas atualmente. Segundo Goffeau “Isso obriga uma série de cientistas a examinar um mesmo problema, enxergar os seus limites e sua real utilidade”. Por outro lado, esse sistema privilegia paradigmas estabelecidos e exige uma aplicação para a ciência (pesquisa aplicada) em detrimento da pesquisa pura. Essas pressões econômicas têm feito paises ricos ficarem detentores de milhares de patentes em áreas de pesquisa, ao lado de países pobres que, pela escassez de recursos, privilegiam áreas altamente produtivas onde o investimento será dirigido à compra e adaptação de tecnologias de utilidade mais imediata. Por falar em patentes, essa é outra forma do poder econômico cercear a livre pesquisa. Quem quiser desenvolver uma nova droga, um novo procedimento, terá de ultrapassar de 6 a 20 patentes, de diferentes grupos que se sobrepõem, bloqueando o conhecimento. Patentear um gene custa cerca de 10 vezes mais que o custo de seqüência‐lo, no entanto há mais de 3.500 patentes do genoma humano, portanto há mais patentes do que genes. Por outro lado, a concentração de pesquisa em algumas áreas tem gerado o aparecimento do que os cientistas chamam de “big science “ ou seja: projetos com centenas de pesquisadores em dezenas de laboratórios , como ocorreu com o sequenciamento do genoma da Xylella Fastidiosa (amarelinho da laranja), que sua publicação na revista “Nature” ocupou uma página inteira só para apresentar o nome de seus autores. Em paralelo encontramos alguns trabalhos de ciência tradicional (pura), com dois a três autores, que a comunidade já chama de “small science”. Segundo Franklin Rumlanek, biólogo da UFRJ 8/9 “Tudo isso é muito excitante para nós que estamos na platéia aguardando novos paradigmas. Mas e para os pesquisadores que tocam esses projetos? Não serão eles os novos membros de uma estrutura científica eussocial: uma abelha rainha (o coordenador do projeto) e várias castas de trabalhadores com funções específicas e imutáveis?” (Ciência Hoje, no. 202, março/2004, p.17). 5. CONCLUSÕES Esperamos ter demonstrado que fazer ciência para os homens, é uma tarefa realizada pelos homens, portanto falível, mesmo com o desejo (mito?) da objetividade científica e que, apesar dos homens, a construção da ciência tem ocorrido de forma contínua e, na maior parte do tempo exitosa. Para saber mais, leia “Rivalidades Produtivas” de Michael White (RJ:Record, 546 p.), onde o autor descreve como os conflitos de egos têm produzido resultados e fracassos na ciência e como esses atritos entre pessoas e nações rivais ou regimes políticos têm conduzido a ciência por caminhos incertos e pouco racionais. REFERÊNCIAS ALDER, K. A medida de todas as coisas: A odisséia de sete anos e o erro descoberto que transformaram o mundo. 1.ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004. ALVES‐MAZZOTTI, A. J. e GEWANDSZNAJDER F. O Método nas Ciências Naturais e Sociais: Pesquisa Quantitativa e Qualitativa. 2.ed. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2001. KUHN T.S. A estrutura das revoluções científicas. 2.ed. São Paulo: Perspectiva, 1978. LAVILLE, C e DIONNE J. A construção do Saber: Manual de metodologia da pesquisa em ciências humanas. Porto Alegre: ArtMed, 1999. NOGUEIRA, S. Astros na mira. Folha de São Paulo. São Paulo. Caderno Mais!, p. 4‐6, 11 jan 2004. POPPER K. et all. (R. Harré org.). A Racionalidade das Revoluções Científicas In Problemas da revolução científica: Incentivos e obstáculos ao progresso da ciência. Belo Horizonte: Itatiaia, 1976. (*) Cristiano Roque Roland Portella Graduado em Análise de Sistemas. Especialização em Administração de Empresas e em Engenharia da Qualidade na Produção Industrial. Mestre em Informática (Gerenciamento de Sistemas de Informação), Mestre em Educação (Novas Tecnologias Educacionais) e Mestre em Ciências da Informação (Administração da Informação). Experiência de 30 anos na docência do ensino superior e gestão de cursos. Curriculum Lattes em <http://lattes.cnpq.br/4855044319543711> 9/9