MEU JEITO DE FAZER NEGÓCIOS De Anita RODDICK. Rio de Janeiro: Campus, 2002. 287p. Por José Edmilson de Souza Lima, mestre em Sociologia Política (UFSC), doutorando em Meio Ambiente e Desenvolvimento (UFPR) e professor das disciplinas de Humanas na FAE Business School. Resenha José Edmilson de Souza Lima Antes de desvendar os instigantes segredos do livro de Anita Roddick, é fundamental saber um pouco da sua história de vida, pois sem conhecer sua história é quase impossível compreender sua obsessiva vontade de vencer não individualmente, mas sim com todos que estiverem à sua volta. Anita Roddick é filha de uma família numerosa de imigrantes italianos, orientada por uma vigorosa ética de trabalho, claramente associada à noção de vocação ou mesmo de obrigação. Seus pais eram donos do Clifton Café, em Littlehampton, litoral sul da Inglaterra, que abria às 5 horas da manhã para servir café da manhã aos pescadores e permanecia aberto o dia inteiro. A família não tinha férias e o lazer limitava-se a uma ida semanal ao cinema. Naquele contexto ela descobriu precocemente que era “[...] possível trazer o seu coração para dentro do ambiente de trabalho” (RODDICK, 2002, p. 31). Ainda menina, deu-se conta de que êxito nos negócios e amor ao próximo não são campos de disputa, mas espaços complementares da vida. 54 r e v i s t a F A E B U S I N E S S , n.6, ago. 2 0 0 3 De acordo com seu próprio depoimento, a perda do pai quando ela tinha apenas dez anos foi traumática e decisiva para suas opções ao longo da vida profissional e pessoal, uma vez que a obrigou a encarar os desafios sempre como possibilidades de emancipação, não como obstáculos intransponíveis. Muito cedo ela percebeu que a “[...] a falta de dinheiro criou as condições para o sucesso” (RODDICK, 2002, p. 37). Por mais que pareça estranho, é impossível resenhar o livro de Anita Roddick sem tornar visíveis suas credenciais, pois estas estão na base do seu sucesso não apenas como empreendedora do ramo de cosméticos, mas sobretudo como empreendedora bem-sucedida da existência humana. Seu livro apresenta um repertório de lições não dos negócios pelos Mesmo estando à frente de uma organização negócios, mas do maior de todos os empreendimentos, a autotransnacional, ela não tem receio de acusar o novo capital realização humana. Roddick está à frente da The Body Shop, empresa nômade de nunca criar raízes ou de ser o responsável fundada em 1976 e que, em 1987, foi premiada como direto pela geração de trabalhadores oprimidos e pela “empresa do ano” pela Confederação das Indústrias destruição de comunidades indígenas inteiras por todo o Britânicas. mundo. Cumpre ressaltar que sua crítica não se limita à O livro é um texto autobiográfico, cujo quadro de retórica, pois ao longo do livro são apresentados vários referências é o conjunto de experiências vivenciado por exemplos de intervenções socialmente responsáveis ela tanto em sua trajetória pessoal e lideradas por suas empresas, com existencial quanto no mundo dos objetivos de incluir pessoas e Generosidade, paixão, negócios. Os poucos autores que comunidades na economia global solidariedade e criatividade aparecem como suportes para suas sem passar por cima de sua cultura. práticas são autores solidários e podem se tornar importantes Por meio dessas intervenções engajados com causas sociais. Entre sugeridas pela autora fica evidenciado fatores de produção, porque os mais famosos aparece o físico, que a inserção de comunidades ou viabilizam a transformação de adepto da Deep Ecology e pessoas no processo de globalização iniciativas singelas em grandes idealizador da alfabetização da economia não precisa ser via realizações empresariais ecológica, Fritjof Capra. Outra submissão de seus próprios valores referência, ainda pouco conhecida no culturais, mas por meio da Brasil, é Glória Steinem, ativista das resistência. É exatamente por isso causas das mulheres e vinculada a outros movimentos que a ética que orienta as propostas de Roddick não é a considerados “marginais” pela sociedade contemporânea. da “adaptação”, pois esta tende a negar espaços A autora recusa-se a fazer referências a qualquer texto civilizatórios, mas a da “transgressão”. de teoria administrativa, econômica etc. Em seus próprios Partindo de tais pressupostos, a autora comprova que termos, não se intimida ao afirmar jamais ter lido ou ouvido é possível e lucrativo, em termos materiais e substantivos, falar de George Friedman e ao citar Keynes assim o faz conciliar necessidades impessoais do mundo dos negócios para criticá-lo severamente. Porém, apesar de seu com necessidades pessoais e íntimas de uma mulher bemdesinteresse pelos teóricos famosos das academias, é sucedida no famigerado domínio dos negócios. Os tópicos evidente que a autora parte de alguns pressupostos. tratados na obra estão todos coerentemente orientados O principal deles é o que desmonta a crença vigente no pelos princípios elencados acima. mundo dos negócios de que a gentileza é “ridícula”, “falsa” Em termos conclusivos a autora consegue demonstrar, ou “inócua”. Para ela, a despeito do cenário dos negócios com o êxito de seu negócio, que generosidade, paixão, ser colonizado pelo interesse imediato e material, há espaço solidariedade e criatividade podem se tornar importantes para a cortesia, para a solidariedade e, sobretudo, para a fatores de produção, porque viabilizam a transformação criatividade. O exemplo que ela utiliza é o de algumas ONGs de iniciativas singelas em grandes realizações empresariais. que simbolizam a dimensão positiva e emancipatória da Ao que parece, ela também demonstra as insuficiências globalização. Se, de um lado, o abuso de algumas empresas da imensa maioria dos negócios ao insistirem com políticas tem aniquilado a humanidade de maneiras diversas, de outro, gerenciais que incluem “boas práticas” apenas no discurso, algumas ONGs aparecem como verdadeiros limites éticos sem qualquer correspondência com as práticas efetivas. contra tais abusos, possibilitando o resgate da subjetividade Finalmente, torna visível que negócio bem-sucedido é de seres violentados em termos humanitários. A violência, aquele que não se resigna ao todo poderoso “mercado”, para ela, está presente sempre que algum ser humano é mas está sempre rompendo com ele em busca do tratado como se fosse desprovido de sua humanidade. Por “diferente”, isto é, do “novo”. Isso significa que, do ponto isso, sua indignação aflorou ao ouvir de um operário de de vista ético, claramente a autora orienta-se não por uma uma confecção asiática, localizada em San Francisco (EUA), ética da adaptação ao “mercado”, mas por outra que eles estavam “[...] proibidos de conversar uns com os absolutamente contrária, a ética da transgressão. outros ou de ir ao banheiro” (RODDICK, 2002, p.8). Transgressão, não no sentido vulgar da rebeldia pela 55 r e v i s t a F A E B U S I N E S S , n.6, ago. 2 0 0 3 Resenha rebeldia, mas na perspectiva de ampliar espaços no interior da organização para a criatividade, para auto-realização de todos os envolvidos e responsáveis diretos pela condução do projeto coletivo. Transgressão no sentido de que negócio bem-sucedido é fundamentalmente projeto coletivo, nunca individual. Por não ser uma obra preocupada em agradar ou tentar conquistar a aprovação da academia, não há metodologia explicitada. Mas essa ausência de metodologia, ao contrário do que possa parecer, engrandece as experiências relatadas porque não esconde nem dissimula as emoções e os sentimentos mais profundos da autora e empreendedora. Portanto, se é possível falar em metodologia, basta lembrar que a da autora é sua enorme capacidade de se emocionar, de se envolver com uma paixão indescritível nos seus negócios, sem deixar de abrir espaços para os seus colaboradores ou stakeholders. Assim, o quadro de referências do resenhista apoiou-se em autores que tentam construir explicações e teorias acerca do mundo dos negócios a partir de uma racionalidade diferente da racionalidade instrumental, exatamente por considerá-la insuficiente. A complexidade dos negócios exige 56 r e v i s t a F A E B U S I N E S S , n.6, ago. 2 0 0 3 abordagens que transcendam os cálculos insensíveis e impessoais predominantes no mundo dos negócios. Neste particular, o livro torna-se vibrante porque a autora não se envergonha de mostrar seus mais íntimos e profundos sentimentos na condução bem-sucedida de seus negócios. Com isso, ao propor práticas cooperativas, ela inclui de forma integral os seres humanos que colaboram com os seus negócios. Portanto, trata-se de leitura mais que compulsória para gestores públicos e privados, políticos, governantes, professores e educadores em geral, estudantes, pais, filhos e todos aqueles que tiverem dúvidas acerca da complementaridade entre “ser generoso” e ter êxito nos negócios. Mesmo aqueles que compartilham as crenças da autora e as praticam em seus ambientes podem e devem ler o livro para que se certifiquem de que estão no caminho certo. Talvez não seja este o modo mais acertado de fazer negócios, mas certamente é uma das formas mais significativas de Anita Roddick comprovar que o mundo dos negócios pode ser o mundo da auto-realização, não de sua negação.n