Ano 5 - Número 43 - R$ 8,00 ISSN 1982-8381 Vinho&Cia ConVisão www.jornalvinhoecia.com.br É mesmo o supermercado mais barato? A propaganda do Wal-Mart diz que é o supermercado mais barato segundo a revista Veja. Vinho&Cia foi a campo pesquisar se o mesmo vale em relação aos vinhos. Tim-tim por tim-tim, o que harmoniza com cozinha japonesa Aperitivo De olho Vinho&Cia Ano 5 - Número 43 no nosso interesse de consumidor É importante estarmos de olho no que o mercado nos coloca à frente. Por melhor e mais compromissada com o público que seja uma empresa, na ótica do mercado o que vale mesmo é o lucro e como se pode vender qualquer produto ao público. Vinho&Cia está aqui sob outra ótica: a nossa de consumidores. Uma das coisas boas do mundo do vinho é que aprendemos a ver as coisas pelo ponto de vista do custo-benefício e não apenas pelo preço ou exclusivamente pela qualidade. Por isso, não pontuamos vinhos. Indicamos, porém, sempre produtos que selecionamos pelo critério do custo-benefício. Entre tantos rótulos no mercado, acreditamos que a nossa visão possa ajudar você, leitor, a ter uma boa escolha de vinhos. As seções Recheie a Sua Adega e Provamos Antes para Você Beber Melhor trazem as boas dicas, com a credibilidade da nossa equipe. Nesta edição, questionando uma propaganda do mercado, fazemos uma isenta comparação de variedades e preços de vinhos em supermercados, para que possamos avaliar quais as lojas realmente mais baratas. Nossos colunistas estão de olho no que acontece pelo país e em todo o mundo do vinho, trazendo as notícias e informações para ampliar o seu conhecimento ou tornar o seu dia mais gostoso e bem humorado. cada mês ganha mais público e promove rótulos selecionados e brindes de bonitas taças gravadas. Assim permanecemos de olho. É claro, para nós consumidores. Tim-tim! Regis Gehlen Oliveira, editor Vinho & Saúde Vinho Tinta É verdade que... D vinho protege da gripe A? esconheço pesquisas que me permitam responder. Existe um estudo feito pelo professor Takkouche e colegas do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de Santiago de Compostela, na Espanha, avaliando a ingestão de vinho e a incidência de resfriado comum. Ele acompanhou 4.272 professores de 5 universidades da Espanha por 2 anos. Concluiu que aqueles que bebiam mais do que 14 taças de vinho por semana tiveram 40% menos resfriado quando comparados com os abstêmios ou bebedores Editor Regis Gehlen Oliveira Publicação ConVisão Al. Araguaia, 933, 8o. and. Alphaville 06455-000, Barueri, SP Colaboradores Adriana Bonilha / Álvaro C. Galvão Andréa Pio / Beto Acherboim Carlos Arruda / Cesar Adames Custódio / Daniela Zandonadi Denise Cavalcante / Didú Russo Norio Ito / Euclides Penedo Borges Fernando Quartim / Jaqueline Barroso Jairo Monson / Maria Amélia Sérgio Inglez / Walter Tommasi Estamos de olho na cozinha japonesa, e contamos tim-tim por tim-tim como harmonizar com os difíceis ingredientes para vinho. De olho também estamos no Circuito Vinho&Cia, que a www.jornalvinhoecia.com.br de cerveja e destilado. Os que bebiam vinho tinto pareciam ter uma proteção maior. Assinaturas e Propaganda (11) 4192-2120 [email protected] Vinho & Cia é uma publicação da ConVisão relativa ao segmento de vinhos e suas companhias naturais, como gastronomia, restaurantes, prazer, conhecimento, viagens e outras. Circula principalmente em São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, nos principais restaurantes e lojas especializadas. Pode ser adquirido por assinaturas ou em bancas selecionadas. Os artigos e comentários assinados não refletem necessariamente a opinião da editoria. A menção de qualquer nome neste veículo não significa relação trabalhista ou vínculo contratual remunerado. Associado à Jairo Monson Médico e escritor [email protected] Vinho&Cia - No. 43 Vinho & Cia - No. 43 “ Nas próximas páginas, conheça mais sobre o mundo do vinho TudodoVinho Acontece Baita vinho, tchê! Nos 10 anos da Pizzaria Ritto, em São Paulo, um baita vinho foi aberto para a comemoração. Fabio Miolo carregou a garrafa de 6 litros do ícone da vinícola Miolo, o lote 43 safra 2002. Em clima descontraído de vinho & pizza, outras vinícolas nacionais prestigiaram o evento, como Marson e Pizzato. Entre as importadoras, Decan- ter e Vinci ofereceram seus rótulos. Na Zona Oeste da cidade, fora do tradicional agito, a Ritto tem decoração rústica e caprichada, boa carta de vinhos e pizzas que valem a pena ser experimentadas. Ritto: R. Nanuque, 243, Vila Hamburguesa, (11) 3836-2166 Miolo: (0800) 970-4165 Aos 40 anos Dois novos filhos A vinícola Fante, de Flores da Cunha, completa 40 anos. No verão de 1970, João Fante colocou na Serra Gaúcha a pedra fundamental de um sonho que se tornou uma grande realidade. A Fante especializou-se na produção de bebidas de baixo custo e recentemente deu os primeiros passos em direção a rótulos de maior qualidade, mantendo contudo os preços acessíveis. Seu espumante Moscatel foi muito elogiado em prova às cegas promovida pelo Vinho&Cia há pouco mais de um ano. Fante: (54) 3292-1122 Ela traz na “bagagem” de Portugal para o Brasil dois novos filhos: o seu “vinho molecular” e o seu filho de um ano de idade. Ela é a portuguesa Filipa Pato, que chega a convite da Casa Flora Importadora. O dito “vinho molecular” é o FLP (Filipa e Luis Pato - Frente de Libertação de Portugal), resultado da joint-venture entre a filha e o famoso pai. É elaborado com a técnica inovadora de crioextração, resultando num vinho doce que preserva a acidez e o caráter das castas e do local. Casa Flora: (11) 2186-7676 A mais tardia colheita Tradicional? Aventureiro? Mais um com 20% Tour em 5 cidades Mais vinhos A vinícola Villa Francioni comemora uma safra histórica. Em 4 de junho, quando a geada já era parte do cenário nos 1260m de altitude em São Joaquim, na Serra Catarinense, encerrou-se a mais tardia colheita do hemisfério sul em se tratando de vinhos comerciais, com as uvas tintas Petit Verdot. Isso deve resultar em vinhos muito concentrados. Após um período complicado, a vinícola aposta agora no turismo em sua magnífica propriedade. (49) 3233-1918 A importadora catarinense Porto Mediterrâneo sugere dois conceitos para presentear os pais, de acordo com o estilo de vida, recomendando vinhos diferentes da linha Surazo, da vinícola chilena Santa Mônica. Para os tradicionais, a pedida é o Gran Reserva Merlot 2002. Já para os aventureiros, a indicação é o Reserva 5 Big Reds, uma mistura de 5 uvas tradicionais: Cabernet Sauvignon, Merlot, Carmenère, Syrah e Malbec. (47) 3263-0006 Em 1o. de setembro está programado mais um Taste´n´buy, promovido pela Enoteca Decanter, em São Paulo. Acontece todos os meses, sempre na primeira terça-feira. A cada edição são cerca de 20 rótulos do mix da importadora, à disposição para degustação com orientação da equipe especializada da loja e às vezes com a presença do sommelier Guilherme Corrêa. Todos os rótulos degustados podem ser adquiridos com 20% de desconto. (11) 3073-0500 Agosto é o mês do Tour Mistral. Neste ano acontece em São Paulo (dias 17 e 18), Rio de Janeiro (dia 19), Belo Horizonte (dia 20), Brasília (dia 21) e Curitiba (dia 22). Em degustação são 200 rótulos de 25 vinícolas. Alguns produtores apresentam pessoalmente seus produtos: Luis Pato, Tancredo Biandi Santi, Miquelàngel Cerdá, Diogo Campilho, Douglas Murray, entre outros. O ingresso custa R$180 por dia. (11) 3372-3400 A Avaliação Nacional de Vinhos chega à sua 17ª edição reunindo expressivo número de vinícolas brasileiras. Neste ano, são 70 empresas (13% a mais do que em 2008), de seis estados: Bahia, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo. Participam com 312 amostras. A Avaliação seleciona a produção mais significativa da safra, mas não necessariamente vinhos que estarão no mercado. O resultado será divulgado em 26 de setembro. Vinho&Cia - No. 43 Vinho & Cia - No. 43 O Que Beber Vinhos selecionados que valem ouro! Provamos antes para você beber melhor! Belíssimo branco Para tomar de joelhos Outro vinho branco nacional belíssimo, recentemente lançado, é o Casa Valduga Gran Reserva Chardonnay 2008. Em degustação às cegas por faixa de preço recebeu pontuação máxima da maioria da equipe do Vinho&Cia. Simplemente delicioso. R$48. Casa Valduga: (11) 5044-7000 Certos vinhos poderíamos tomar de joelhos, em reverência à qualidade. O Salton Virtude Chardonnay 2008 é um desses. É a comprovação do nível a que chegou a produção brasileira de brancos. Todos os 9 degustadores de Vinho&Cia em prova às cegas deram nota máxima a ele pelo quesito qualidade-preço. Apenas R$60. Salton: (11) 2281-3300 Fresco português Das encostas Da região do Douro em Portugal, pelas mãos de uma pequena importadora que merece atenção, chega a nós um vinho bem agradável e equilibrado: o Encostas do Douro DOC 2005. É produzido pela Cavipor. R$45. Vila Vinhos: (11) 3719-1504 Estamos no inverno, mas mesmo nessa época um branco bem fresco é agradável com determinados pratos ou nos períodos de veranicos em que a temperatura sobe. O Quinta da Alorna Branco 08 é uma gostosa indicação e tem ótimo preço. R$37. Adega Alentejana: (11) 5044-5760 Máximo do Chile A importadora baiana Ana Import gradativamente amplia seu catálogo com produtos bem garimpados. Da vinícola-butique chilena Gilmore, o Merlot Reserva 2004 é, em poucas palavras, o máximo. Vale a pena por R$96. Ana Import: (11) 3951-4333 Vinho&Cia - No. 43 Vamos eleger as Garrafas de Vinho Tintas, Brancas, Rosés, Doces e Espumantes mais bonitas no Brasil Realização Vinho&Cia Vinho & Cia - No. 43 O Que Beber Recheie a sua adega Com bom custo-benefício! Siga o sentido da seta para a melhor escolha pratos mais leves pratos mais consistentes Vinhos tintos (temperatura de serviço preferencialmente entre 14oC a 200C) Mais adequados a carnes, queijos consistentes e massas mais condimentadas Casal da Coelheira Tinto 2007 (R$39) Mercovino: (16) 3625-4715 Azul Portugal Dão 2004 (R$44) Decanter: (11) 3073-0500 Colinas de São Lourenço Bairrada 2006 (R$49) Grand Cru: (11) 3062-6388 Carabantes Premium Syrah 2003 (R$114) Dom Bortolo Reserva Cabernet Sauvignon 04 (R$22) Terramater: (21) 3860-6565 Don Cayetano Reserva Shyraz (R$56) Mascarello: (54) 3292-1510 Maestrale Cabernet Sauvignon 05 (R$63) Sanjo: (49) 3233-0012 Almeria: (11) 3492-3204 Santa Ema Barrel Select Syrah 2005 (R$45) Don Laurindo Reserva Malbec 2005 (R$58) Vinoteca: (41) 3373-3444 Don Laurindo: (54) 3459-1600 Vinhos brancos e rosés (temperatura de serviço preferencialmente entre 8 a 140C) Mais adequados a peixes, frango, porco, queijos delicados e massas mais leves La Playa Block Selection Sauvignon Blanc (R$50) Adega Avant Garde 90, da Art des Caves A temperatura ideal para servir tintos varia? Os tintos mais leves em geral são melhor apreciados em temperatura mais baixa do que os tintos mais encorpados. Um Gamay, ou um Beaujolais Nouveau, pode ser tomado a 14oC, ou menos, e um Barolo a 20oC. Na média entre 16oC a 18oC é o ideal para os tintos. Abaixo, o vinho perde aromas, e acima, exala álcool em excesso. MM Vinhos: (41) 3264-7088 Los Nevados Chardonnay (R$27) Protos Verdejo 2006 (R$54) Península: (11) 3822-3986 Miolo: (0800) 970-4165 Vinhos espumantes (temperatura de serviço preferencialmente entre 5 C a 80C) o Mais adequados a aperitivos (os do tipo brut) e a sobremesas (os dos tipos demi-séc e Moscatel) Estrelas do Brasil Riesling Brut (R$26) Estrelas do Brasil: (54) 3455-8103 Pietro Felice Champenoise Brut (R$45) Irmãos Molon: (54) 3291-9500 Castellamare Moscatel (R$18) São João: (54) 3260-3010 Vinho&Cia - No. 43 Vinho & Cia - No. 43 Tim-tim por tim-tim O que harmoniza com cozinha japonesa? D á para combinar vinho com cozinha japonesa? Os ingredientes não agridem? Os frutos do mar não metalizam? Com pratos do moderno Original Shundi em São Paulo, contamos tudo tim-tim por tim-tim. H á tempo a equipe de Vinho&Cia queria se reunir para provar vinhos com cozinha japonesa. A culinária desse país está em alta nas grandes capitais brasileiras. Seus pratos leves e em geral com baixo teor de gordura combinam com a cultura da boa forma física e de bem-estar. O cuidado na apresentação dos pratos e a decoração dos restaurantes são um prazer aos olhos. Isso tudo agrada, sobretudo às mulheres. Vinhos nesse ambiente, contudo, não convivem de modo muito tranquilo. Os pratos em geral são bem agressivos, com elevada acidez, toques de doçura e presença de “maresia”, esta que provoca muitas vezes o efeito de metalização, principalmente com os tintos, traduzido por desagradável sensação na boca, que reforça o gosto de mar. 10 Assim, surge o desafio de descobrir que vinhos podem harmonizar, considerando os ingredientes de cada prato. Para isso, escolhemos um restaurante que se destaca hoje no cenário paulistano, o Original Shundi. É moderno, bonito, comandado pelo chef Shundi e aposta em pratos com ingredientes exóticos, que fogem ao convencional. Selecionamos quatro deles para comentar. A equipe do restaurante escolheu vinhos da carta para harmonizar. Vinho&Cia provou tudo. Na página ao lado, indicando nos próprios pratos, contamos tim-tim por tim-tim o que os degustadores perceberam. Participaram da degustação Adriana Bonilha, Beto Acherboim, Daniela Zandonadi, Fernando Quartim, Maria Helena Figueiredo, Regis Gehlen Oliveira e Walter Tommasi. Vinho&Cia - No. 43 Tim-tim por tim-tim Prato: Salada de iguarias, com salmão, mini-polvo e barbatanas Prato: Sashimi de atum, salmão e agulhão Vinho: Espumante Ponto Nero Brut, Domno, Serra Gaúcha, Brasil Fatias finas de salmão, macio, que dá sensação de secura e metaliza um pouco com o espumante branco. Com rosé, tendência de metalização diminui Espumante branco Brut, com toques de frutas brancas, fermento, nozes, ótima acidez, adequada ao prato, e corpo médio, também balanceado Mini-polvo, com textura rígida e caramelado, impõe um toque adocicado e untuosidade ao prato, que manda na combinação com vinho Filhotes de enguia e barbatanas de tubarão, dão toque fresco ao prato, certo amargor e forte sabor de mar, que tende a metalizar com os vinhos Molho com flor de cerejeira, ervas e especiarias, adocica um pouco o prato e ameniza o salgado dos ingredientes de mar Prato: Camarão com purê de abóbora Vinho: William Cole Rosé Mirador Selection Cabernet Sauvignon 2008 Camarão, um tanto salgado, com o seu sabor característico e toques de mar, textura levemente rígida, equilibra o doce do vinho rosé e não metaliza Rosé de Cabernet Sauvignon, com pouca acidez, simples, um pouco amargo e um tanto doce, mas que com o prato harmoniza e se potencializa Purê de abóbora, confere elegância e maciez ao prato, ameniza o salgado do camarão e ajuda a integrar o seu doce com o do rosé, além de encobrir o amargor do vinho Vinho: Château La Frainelle 2006, Bordeaux, França, Shoyu e wassabi acompanham o prato. O primeiro é ácido, doce e salgado ao mesmo tempo. O segundo é extremamente picante. Ambos dificultam qualquer casamento com vinhos Branco das uvas Semillón e Sauvignon Blanc, com toques minerais e cítricos, acidez bem marcada e equilíbrio, combinando com o prato quando provado com pouco shoyu e wassabi. O mineral ajuda na harmonia com o prato Salmão, untuoso, corpo médio, com forte sabor, tende a metalizar com os vinhos com pouca acidez ou com presença de taninos Agulhão, peixe branco, mais leve, com pouca gordura, relativamente neutro de sabor Atum, gorduroso, com sabor marcante, pede vinho mais estruturado para se equilibrar Prato: Escalopinho de carne com risoto de shitake Vinho: Landelia Petit Verdot 2006 Single Vineyard, Mendoza Argentina Risoto de shitake, cremoso, com textura levemente al dente, confere untuosidade ao prato e sabor marcante; par perfeito para alguns tintos Escalopinho de carne, bem passado, com textura mais rígida e pouco suco, pede menos tanino dos vinhos tintos e um pouco de untuosidade para balancear Tinto de Petit Verdot, corpo médio, bem mentolado e herbáceo na boca, com taninos bem redondos, entra em perfeita harmonia com o sabor do prato, produzindo a sensação de que um reforça o outro Para repetir você mesmo a experiência: Original Shundi - Rua Dr. Mário Ferraz, 490, Itaim Bibi, (11) 3079-0736, São Paulo Vinho & Cia - No. 43 11 Todo Vinho O bom Merlot “ A Merlot é uma das quatro castas tintas clássicas do mundo do vinho. Quais são as suas características? Como está no Brasil? Sérgio Inglez fala... A degustação é um ato de sensibilidade, eu diria mais até, é um retrato da sensualidade humana. Embora as muitas escolas e os incontáveis professores procurem dar um ar de ritual iniciático, a degustação não deve ser encarada como um fim em si mesma, muito pelo contrário, deve ser trabalhada como um meio, como um veículo para nos trazer prazer. O prazer, além de agradar nosso paladar, de saciar nossa sede e de nos reconfortar, é aquele sentimento lúdico de saber identificar e descrever as qualidades de um vinho e de sorvê-las em cada gole. Daí porque entender as raízes da qualidade de um vinho assume um papel importante. Em primeiro lugar não custa repetir a frase pisada e repisada, mas nem sempre entendida, de que o vinho é uma bebida alcoólica resultante da fermentação de uvas maduras e sadias. Na fermentação, o açúcar da uva se transforma no álcool do vinho. A uva madura tem maior concentração de açúcar para transformar em álcool. A uva madura e sadia, ou seja, a uva não estragada, não traz elementos que possam introduzir deformações no gosto e no aroma. As uvas maduras de qualidade têm na polpa alta concentração de açúcar, para 12 de cada dia gerar teor alcoólico e traços adocicados, e uma correta acidez residual, para garantir a vivacidade e o frescor do vinho. Na casca, apresentam conteúdo variável de polifenóis, que são os responsáveis pelos aromas e pelas cores do vinho. O álcool é a estrutura fundamental da qualidade do vinho. A videira, que é o pé de uva, trabalha movida pela energia solar. A uva de qualidade é resultado de um vinhedo bem orientado em relação ao sol. A posição e a inclinação do terreno dão ao vinhedo a característica de uma antena de captação dos raios solares. Solo e clima completam as bases; ou seja, o vinhedo tem que estar implantado em um bom terroir. e descritores aromáticos/gustativos que levam à frutas como groselha e ameixa preta, toques florais de pétalas de rosas e traços de especiarias. Os vinhos de Merlot são menos impetuosos que os da Cabernet Sauvignon, mostram-se redondos, suculentos e dão a impressão de um sutil traço adocicado. São mais fáceis de se tomar. E como esta variedade apareceu no Brasil? A Merlot foi introduzida em pequenos vinhedos no sul do Brasil no início dos anos 1900, porém, somente a partir da década de 70 que ela foi realmente descoberta pelos viticultores e teve um significativo incremento baseado na importação de mudas francesas. Inicialmente no Rio Grande do Sul, esta variedade mostrou-se muito bem adaptada aos terroirs gaúchos, a ponto de ser considerada por muitos a uva emblemática do país. Atualmente, a Merlot é cultivada em muitas outras áreas além das terras gaúchas, nos vinhedos de altitude catarinenses, no oeste paranaense, até nos do Médio Vale do São Francisco. Sérgio Inglez de Souza Escritor e consultor [email protected] Aplicando neste vinhedo tratos culturais bem ajustados e calibrados, o viticultor vai determinar o nível da qualidade da uva. Somente uva de qualidade proporciona vinho de qualidade! A uva Merlot é uma das quatro castas viníferas tintas clássicas do mundo do vinho, ao lado da Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Syrah (Shiraz). Apesar de receber outros nomes como Bigney, Crabulet, Piccard, Plant Médoc e Merlau, a variedade Merlot tem esta denominação decorrente do nome do pássaro preto Melro ou Merlo, cuja presença é constante na região de Bordeaux. Não se conhece precisamente a origem da uva Merlot. Seu cultivo teve início há cerca de 200 anos na área dos rios Gironde e Dordogne, localização de importantes regiões vinícolas de Bordeaux. A Merlot vem do mesmo ramo da Cabernet Sauvignon, com a qual guarda alguma semelhança, porém se caracteriza pela tipicidade dos taninos mais delicados Vinho&Cia - No. 43 América do Sul Mesclas de Tannat “ com outras uvas A uva emblemática do Uruguai mostrase interessante não apenas em vinhos em que aparece sozinha. Como? Em que vinhos? Euclides Penedo conta... Em Cahors, na região de produção de Quercy, entre os rios Dordogne e Aveyron, ela não passa de uma coadjuvante da Malbec, ao lado da Merlot e da nativa Jurançon Noir, tendo por mister acrescentar taninos ao conjunto. O vinho tradicional da DOC Cahors é frutado, estruturado, lembrando sous-bois e frutas vermelhas bem maduras, amassadas. O Cahors moderno tende à suavidade, à fluidez e à precocidade. C APORTANDO TANINOS - Essa propriedade de se ajustar por simbiose a outras castas, aportando seus taninos e recebendo nuances frutadas mais suaves, não poderia deixar de ser utilizada também no Uruguai e assim é feito em Canelones, nas proximidades de Montevidéu, onde algumas vinícolas associam-na ora com Merlot, ora com Cabernet Sauvignon, ou Syrah, ou Petit Verdot. Entre as “bodegas” que assim o fazem, com presença entre nós, podemos contar a Casa Filgueira, o Establecimiento Juanicó, a Família Pisano e a Viña H. Stagnari. onsiderado um irmão caçula da vitivinicultura sulamericana, o Uruguai vem ocupando gradualmente nichos no mercado de vinhos fora de suas fronteiras. Assim como a Argentina oferece seus Malbecs e o Chile ostenta a Carmenère, o país vizinho do Rio Grande do Sul tem na Tannat – casta ameaçadora devido aos seus taninos presentes e agressivos – sua uva vinífera emblemática e a mais cultivada. Mas o leque de variedades viníferas do Uruguai conta também com Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc, Merlot, Syrah, Petit Verdot e Pinot Noir para tintos e rosados, estes por sinal, uma preferência uruguaia. MESCLAS NA ORIGEM - Ainda que tenha se mostrado autosuficiente ao se aclimatar no Uruguai, depois de passar pela Argentina no Século XIX levada por família basca, a Tannat é propícia para cortes com outras uvas e assim utilizada na origem. Proveniente do sudoeste da França, ela é cortada em Madiran (região de produção de Béarn, nos Baixos Pirineus) à Cabernet Sauvignon, à Cabernet Franc e à nativa típica Fer Servadou resultando caldos sombrios, de cor púrpura fechada, atarracados e tânicos, que se aveludam com o tempo conjugando um leque olfativo de ameixa seca, sous-bois e especiarias. Vinho & Cia - No. 43 EXEMPLOS - Para ilustrar o que foi dito acima, dispuz-me a organizar a pequena lista que segue com vinhos uruguaios na faixa de R$ 20,00 a R$ 120,00 disponíveis no Brasil, em que a Tannat surge como líder ao lado de outras variedades francesas. Com Merlot, a maioria Filgueira Pátio Sur Tannat-Merlot Tinto da Bodega Filgueira, de Canelones, com 46 hectares, conduzida pela Dra. Martha Chiossoni com sua filha Mariana, contando com a assessoria do enólogo Pascal Marty. Representada pela Importadora Decanter. Pisano Cisplatino Tannat-Merlot Pisano Rio de Los Pájaros Merlot-Tannat Ambos da vinícola familiar Pisano, de Canelones, um dos nomes mais afamados do Uruguai no campo dos vinhos, com citações elogiosas por parte de Jancis Robinson e Steven Spurrier, jornalistas espcializados da Inglaterra. Representada no Brasil pela Importadora Mistral (www. mistral.com.br). Pizzorno Don Próspero Tannat-Merlot Tinto da Bodega Pizzorno, de Canelón Chico, conduzida por Carlos Pizzorno, neto do fundador Próspero Pizzorno que a estabeleceu no Uruguai em 1910. Representada pela Importadora Grand Cru (www.grandcru.com.br) Com Cabernet Sauvignon H. Stagnari Avant Premier Tannat-Cabernet Sauvignon Tinto jovem e aromático elaborado na Viña Stagnari, em La Puebla, com uvas cultivadas no norte do uruguai, a 500 km de Montevidéu. Representada pela Cantu Importadora (www.cantu.com.br). Com Syrah Don Pascual Edición Limitada SyrahTannat Elaborado pelo Establecimiento Juanicó, da Familia Deicas, de Canelones, cujo top de linha é um Tannat elaborado em conjunto com a família Magrez, de Bordeaux (Château Pape Clément). Representado no Brasil pela Expand (www.expand. com.br). Pisano Rio de los Pájaros Tannat-Syrah Também da Vinícola Pisano Com Petit Verdot Pisano Arretxea Tannat - Petit Verdot Outro da Pisano E há o caso particular das Bodegas Castillo Viejo, de San José, onde o “El Preciado Gran Reserva” (Importadora World Wine) contempla Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot, simultaneamente, ao lado da Tannat com resultado excepcional. Mas nesse caso o preço é acima da faixa aqui adotada. Euclides Penedo Borges Presidente da ABS-Rio [email protected] 13 Velho Mundo A França e La Creme de La Creme “ Que tal uma degustação vertical com 5 safras de um dos mais cobiçados vinhos do mundo? Veja isso e o que Walter Tommasi conta sobre Bordeaux... R egis, o nosso editor, desta vez vai querer me estrangular e me chamar de enochato, mas vou correr o risco e escrever sobre uma região marcada por vinhos caros e de qualidade inigualável. Afinal, vinho também é cultura. No dia 1º de setembro terei o prazer de comandar uma degustação vertical do Grand Vin Château Latour, com 5 safras deste ícone da França, montada para um pequeno grupo de felizardos. Isso me instigou a escrever algumas linhas sobre o berço desses maravilhosos vinhos. O Latour faz parte do seletíssimo grupo dos 5 Premier Cru de Bordeaux, criado em 1855 por solicitação do Imperador Napoleão, composto por Lafite Rothschild , Latour, Mouton Rothschield da AOC Pauillac, Margaux da AOC de mesmo nome, e Haut Brion da AOC Pessac Leognan. Eles formam — junto com o Château D’Yquem da AOC Sauternes (Premier Cru Supérier), Ausone e Cheval Blanc, os AOC de Saint Emilion (Premier Grands Cru Classés - A ), e o eterno injustiçado mas maravilhoso Château Petrus da AOC Pomerol — a nata dos vinhos do Bordeaux. Cidade de Saint Emilion, em Bordeaux, na França 14 Pauillac está localizada na região de Medoc e é uma das AOC na margem esquerda do rio Gironde, entre St Estephe e St Julien, e tem Margaux um pouco ao sul. Seus cortes bordaleses são caracterizados por altas porcentagens de Cabernet Sauvignon (75 a 85%), seguidos da Merlot (entre 10 e 15%), ficando o restante para a Cabernet Franc e a Petit Verdot . Para muitos essa é a região onde a Cabernet Sauvignon atinge seu máximo em termos de qualidade. A região conta com 1.200 hectares de vinhedos, sendo que por volta de 85 % são classificados como Grand Cru Classés. O Château Latour possui um total de 78 hectares, sendo 47 deles do vinhedo denominado Grand Enclos, usado unicamente para produzir as 220 mil garrafas anuais do Grand Vin. Além deste, a empresa elabora seu segundo vinho, o Les Forts de Latour, por muitos considerado o melhor segundo entre os Châteaux, com produção estimada em 150 mil garrafas, e, também, desde 1990, o genérico Pauillac. Tomar um Latour — e qualquer outro desses Premier Cru — é certamente um motivo de comemoração, pois essas jóias custam pequenas fortunas, que nossas bocas sempre desejam mas nossos bolsos nem sempre permitem. Porém não é só por isso: elas trazem consigo um pouco da história do vinho e um padrão de qualidade inigualável. Bem... Para a próxima edição ainda não sei sobre o que escreverei, mas certamente deixarei umas duas linhas para dar o resultado dessa fantástica degustação. Vive La France e seus Châteaux! Walter Tommasi Enófilo [email protected] Vinho&Cia - No. 43 Novo Mundo Desmistificando mitos D iz a lenda corrente na editoria do jornal Vinho & Cia que todo mês há uma degustação virtual no Haras do Beto. Alguns poucos felizardos já puderam participar, “in loco”, dessas degustações. Por certo, de virtuais essas degustações não tem nada. Muito pelo contrário. Somente da confraria “Serenísima”, em mais de 8 anos, pelo menos 10 degustações presenciais já foram realizadas, com os mais diversos temas. Sauvignon Blanc ao redor do mundo, tintos do sul da Itália, Chardonnay dos Estados Unidos, Merlot dos Estados Unidos, Merlot do Novo Mundo, e diversas outras, das quais, no momento, não me recordo. Mas a lenda persistia. Nosso excelentíssimo editor sempre acreditou tratar-se de um local virtual. Até em uma coluna ele comentou sobre o fato. Porém, no mês de junho, seu mundo caiu. O convite, virtual, sugeria algo inatingível. Foi convidado da Sereníssima para a degustação de junho, dia tal. Tema : tintos da África do Sul (de bom nível, please). Com a confirmação do convite, incluso endereço, aposto que a curiosidade aumentou. “Será verdade? Este lugar existe mesmo? Vinhos da África do Sul? Deve ser mais uma brincadeira do Beto. Só pode ser. Ele tem um humor...” No dia marcado, chegou no local quando estávamos terminando o almoço. Não acreditava. Tocava em tudo: paredes, portas, pessoas... Tinha certeza que estavam pregando-lhe uma peça, embora a presença das pessoas dava-lhe a garantia de que a coisa não era virtual... Era real. Além do Beto e da Mariana, estavam lá outros participantes da Sereníssima com suas respectivas esposas: Fábio e Jane, Miguel e Regina, Paulo e Alice À noite, à mesa do jantar, garrafas fechadas com papel laminado, taças preparadas, numeradas, sem nenhum truque. Vinho & Cia - No. 43 Estava realmente numa degustação. E, para melhorar ainda mais, o nível dos vinhos estava realmente muito bom. Lareira acesa, madeira crepitando, música gostosa acompanhando... O que jurava ser uma brincadeira, uma degustação virtual, era, na verdade, mais um mito derrubado. Os vinhos degustados naquela noite foram de excelente nível. Na colocação final, foi este o resultado: 1º : Merindol Syrah 2003 – produtor Simonsig – ainda não importado para o Brasil (outros vinhos desta vinícola são trazidos pela Pacific Importadora) 2º : Remhoogte 2005 Merlot / Pinotage / Cabernet Sauvignon – produtor Remhoogte – importador: Grand Cru 3º : Marlbrook 2001 Cabernet Sauvignon / Merlot – produtor Klein Constantia – importador: Expand 4º : Spice Route Shiraz 2005 – produtor Spice Route – importador: Expand 5º : Catharina 2004 Merlot / Shiraz / Cabernet Sauvignon + outras uvas – produtor Steenberg – importador: Expand 6º : Ashbourne Pinotage 2004 – produtor Hamilton Russel – importador: Expand Depois dos ótimos vinhos, o Beto fez um repasto digno do que se falou dele: Filé mignon recheado com cogumelos e Gâteau de batatas com alho-poró. Realmente, foi muito bom. Pude comprovar. Depoimento virtual do editor (imaginado por mim). Até a próxima! “ Era uma tarde de sábado quando tudo começou. Havia um local. Ou melhor, havia dúvidas se existia. Poderia ser apenas virtual. Um haras, uma degustação... Beto Acherboim Nada virtual e são-paulino [email protected] 15 Vinho na Academia Los Cavas: “ espumantes espanhóis Em determinado ano os Cavas se tornaram os espumantes mais vendidos no mundo. Quando? Como são feitos? Dicas de alguns bons? Carlos Arruda diz... R ecentemente em Belo Horizonte e Inhotim aconteceu o festival gastronômico Sabor e Saber, realizado pelo Instituto Velloso e apoiado pelo Instituto Cervantes. Chefs renomados da Cataluña estiveram mostrando suas criações e provando a culinária de Minas. Estrelas da Cataluña, foram degustados e harmonizados os cavas, excelentes espumantes típicos da região. Tive oportunidade de participar de uma apresentação de Cavas com a presença da diretora do Instituto Del Cava, associação das empresas elaboradoras dos Cavas. O Cava (é masculino) é uma DOCa (Denominación de Origen Calificada), que não tem apenas uma região limitada, nem mesmo é restrito à Cataluña para ser produzido. Diversas localidades na Espanha produzem esse espumante, seguindo as regras da DOCa. Contudo, a principal região produtora é Penedès, situada entre o Mediterrâneo e as montanhas de Montserrat, com clima e solos propícios para as uvas. Os Cavas são produzidos pelo método tradicional (segunda fermentação na garrafa, como em Champagne) desde 1860. Josef Razentes em 1872 produziu o primeiro cava “removido” - feita rémuage das borras na garrafa. O Cava se tornou 16 o espumante mais vendido no mundo em 2001. final persistente de frutas desidratadas. Um ponto interessante dos Cavas são as três principais variedades autorizadas para sua produção, todas autóctones (naturais da Espanha). Cava Freixenet Cordón Negro Brut - Fresco, com leveduras maduras, frutas brancas, tostados, encorpado, final longo de frutas brancas. Macabeo - Uva branca, de cachos grandes e compactos, frutos de pele fina. Produz vinhos leves, de acidez moderada e bastante frutados e florais. Xarel-lo - Nativa da Cataluña, tem cachos mais soltos, pele fina, produz vinhos de boa estrutura e com potencial de guarda. Parellada - Cachos grandes, pele fina, acidez média. Produz vinhos finos, elegantes e equilibrados. Ainda se usam também as brancas Chardonnay e a Subirat Parent, e a Pinot Noir foi recentemente autorizada para os Cavas brancos (era somente para os rosados). Cava Segura Viudas Reserva - Seco e fresco, frutado, mostra abacaxi, damasco, maçã seca, nozes, delicada levedura, final elegante com calda queimada. Para os Cavas rosados, são usadas ainda a Monastrell, a Garnacha e a Trepat, variedades tintas tradicionais, e também a Pinot Noir. Cava Cristalino - bastante fresco e cítrico, mostra frutas em calda e leveduras frescas, boa persistência. Cava Marrugat Brut - Boa cremosidade, frutas brancas (maçã e pêra), cítricos, Cava Codorniù Pinot Noir Brut - Ataque doce, cremoso, goiabas e framboesas. Tostado muito elegante, final longo de groselha. Cava Juvé y Camps Brut Gran Reserva 2004 - Dourado, mostra frutas carnudas e brancas bem maduras, frutas secas, longo e persistente, final de maçã desidratada. Cava Pere Ventura Cutpage d’Honor - Bastante evoluído, mostra nozes, licor de nozes, leveduras maduras, frutas em passa, amêndoas, boa persistência de leveduras e frutas secas. Esse painel mostrou que os Cavas são espumantes de muita e muitas personalidades, extremamente gastronômicos, ricos e elegantes. Não é à toa que têm esse enorme prestígio internacional. Os produtores variam as proporções das variedades, conseguindo assim Cavas com diferentes estilos, variando o frescor, a estrutura e a elegância. É como regular os graves e agudos do seu som, a seu gosto. Tivemos a oportunidade de degustar 10 Cavas de diferentes produtores, num painel surpreendente pela qualidade e diversidade dos vinhos apresentados: Cave Pere Ventura Rosado - Cor rosa casca de cebola, mostra frutas bem maduras, leveduras, suaves taninos e tostados, avelã e framboesa madura. Persistente e elegante. Atualmente os Cavas Rosados estão em alta em diversos mercados, principalmente no Japão. Cava Gramona Imperial Brut - Cítrico e estruturado, mostra tangerina, damasco, amêndoas. Ótimo para acompanhar pratos, final maduro e fresco. Cava Juvé y Camps Reserva Vintage 2005 - Safrado, dourado, com tostados, amêndoas e mel, evolui para cítricos, bastante complexo, encorpado e elegante. Um grande vinho, surpreendente e camaleônico. Carlos Arruda Academia do Vinho [email protected] Vinho&Cia - No. 43 Vinho: Que Negócio é Esse? Eis a questão: “ pontuar ou não pontuar? Álvaro Galvão prefere não pontuar os vinhos. Qualquer critério pode ser mais técnico ou mais pessoal, e influencia no negócio. Como? Veja aqui... T enho observado que esse assunto está cada vez mais interessando aos que cultuam o vinho. Tenho externado minha opinião em diversas ocasiões, em diferentes rodas de discussão, algumas bem técnicas, e outras nem tanto, e digo que prefiro não pontuar os vinhos, apesar de algumas vezes ter que fazê-lo em degustações mais especializadas e técnicas. E por que tenho esta opinião? Explico: tenho formação acadêmica em engenharia, e, até por isso, preciso ter ciência dos parâmetros utilizados nas escalas, sejam eles quais forem, e nem sempre, tirando os critérios técnicos, os temos. Toda escala de pontuação segue alguns critérios, alguns bem profissionais, e outros mais pessoais, e minha escala leva em consideração o que para mim faz muita diferença: o simples “gosto muito, pouco ou não gosto”. Além disso, lembro aqui o vinho como negócio. As pontuações de vários órgãos já considerados bíblias no assunto podem – e via de regra conseguem - catapultar determinado vinho que tenha obtido uma nota excepcional, ou impulsionar ladeira abaixo outro que não tenha obtido. O vinho é um dos exemplos onde traços de subjetividade entram na percepção do degustador, e, portanto, quando pensamos que o negócio vinho poderá sofrer influências com o resultado de alguma pontuação Vinho & Cia - No. 43 há de se pensar que essa poderá alterar uma trajetória comercial. Apesar de termos bem delineados os princípios básicos de análises visual, olfativa e gustativa para os diferentes tipos de vinhos, sempre em minha concepção entram fatores que tendem a compor algum desvio do padrão, por conta de dados menos objetivos, tais como: 1-Uma péssima noite de sono na véspera da degustação; 2- Um dia com muito estresse, seja de que natureza ou ordem for, onde aí também se aplica aos assuntos pessoais e profissionais que todos temos; 3- Saúde em condições não tão boas; e assim por diante. Quando um profissional da área se vê diante de uma degustação onde deva pontuar os vinhos, ele tem sua escala comparativa de valores, que deve ser diferente do profissional ao lado. Cada um de nós degustou centenas de vinhos, e, com certeza, muitos deles se fazem diferentes dos degustados pelos colegas, mesmo sendo os mesmos vinhos e safras e até garrafas. Costumo dizer que ao verificar um vinho bem pontuado - ou não -, por revistas especializadas, jornais, sommeliers, críticos, e enólogos, sinto essa pontuação feita em duas direções distintas: uma mais voltada para os pares profissionais, e outra para o grande público, e não estou falando de notas diferentes dadas pelos mesmos pontuadores. Isso gera, em minha opinião, o maior dos conflitos tanto no público em geral, como na carreira comercial desse vinho ou safra. As pessoas que me perguntam - pelo meu blog, em palestras, ou em feiras de vinhos - sobre os pontos obtidos por determinado rótulo estão querendo esclarecimentos de como se chegou àquela nota dada, e porque uma nota 90 e outra de 89 (em uma escala de 50 a 100) são tão diferentes da escala puramente matemática, onde se pontuam os acertos de uma prova na escola, por exemplo. Não é muito diferente, digo sempre, porém o que mais distancia uma da outra é o conhecimento técnico do degustador, seu grau de subjetividade para com aquele vinho e o despreparo em geral do leigo ou neófito que começa a provar rótulos apenas considerando as pontuações. fatores comparativos que evidentemente serão diferentes de outros degustadores, como por exemplo, o preço, que para um pode não ter influência nenhuma, mas para outros sim, e, quando se pensa que o público precisa entender o porque daquela nota, este tem mais peso ainda. Vou dar um pequeno exemplo, sem, é claro, citar rótulos. Noite dessas, em uma degustação às cegas e com profissionais, um determinado espumante chegou a uma nota que o elegeu em primeiro lugar entre os rótulos degustados por uma série de dados bem claros, quando analisados tecnicamente, e menos claros quando o critério maior poderia ser o universal “gosto ou não gosto”. Impossível? Se assim não fosse, muitos dos rótulos que temos hoje no mercado não encontrariam demanda. Meu critério para pontuar, quando necessário, é também levar em conta alguns Não podemos pontuar levando em conta o preço sem anotar suas qualidades técnicas, porém ao definir a nota comparativa entre dois vinhos que tenham obtido, por exemplo, uma nota 90, um deles tendo uma relação qualidade-preço superior fica com os 90, e o outro com a 89. Ficou mais claro? Espero que sim. Até o próximo brinde! Álvaro Cézar Galvão Colunista [email protected] 17 “ Nas próximas páginas, fique por dentro do que acontece pelo país BrasildoVinho Acontece Descontração foi o clima que reinou na degustação de lançamento do novo catálogo da Mondo di Vino no Shopping Morumbi, em São Paulo. (11) 5181-3365 Champagne a R$10 mil Mesa e tropicalismo Enoturismo em alta Chega ao Brasil a especialíssima safra 1969 da Champagne Dom Pérignon Oenothèque. São apenas 6 unidades a 10.500 reais cada. O rótulo Oenothèque indica que uma safra Dom Pérignon atingiu também o seu segundo auge de maturidade, com intensidade otimizada (15 a 20 anos depois da colheita), ou seu terceiro pico, com complexidade otimizada (depois de 30 anos de envelhecimento). Apenas 16 safras se tornaram Oenothèque. Para encontrar: (11) 3062-8388 Homenageando Carmen Miranda, precursora do movimento tropicalista, começa o São Paulo Bom de Mesa 2009, em sua 5a. edição, com apresentação da cantora Renata Lima no restaurante Vinheria Percussi. O evento é da Associação dos Restaurantes da Boa Lembrança e revista Prazeres da Mesa. A vinícola Aurora comemora o número expressivo de mais de 18 mil pessoas que visitaram as suas instalações na Serra Gaúcha, na cidade de Bento Gonçalves, no mês de julho. Por ano ela recebe cerca de 150 mil interessados em vinho. Em visitas guiadas, um pouco da história da empresa é contado e são mostradas as instalações e todas as etapas da elaboração dos vinhos. Ao final, há degustação de vários produtos. A loja da vinícola foi reformada, e agora está com design mais moderno, facilitando a visualização dos produtos. A sala de degustação técnica está equipada para grupos de até 25 pessoas. (54) 3455-2000 Música aos 9 anos Liquor Store Atrações em Gramado Em 7 de agosto, o restaurante Rosmarino em São Paulo comemorou seus 9 anos. Foi com jantar com música ao vivo. No bairro de Pinheiros, comandado por Stela Krempel e Ângela Amado, o Rosmarino destaca-se pela sua boa cozinha de inspiração italiana e pela carta de vinhos bem escolhida, com produtos a preços acessíveis. (11) 3819-3897 A loja Liquor Store no Morumbi em São Paulo reuniu, em seu novo espaço de degustações e eventos, enófilos e apreciadores para uma degustação de vinhos da região de Extremadura na Espanha. A degustação foi comandada pelo sommelier Rodolfo Chaves, da importadora Casa Flora. (11) 3507-7180 O 3o. Festival Internacional de Gastronomia de Gramado traz de 4 a 13 de setembro para a Serra Gaúcha chefs de cozinha premiados. Na lista estão os franceses David Etcheverry, Olivier Briand e Olivier Etcheverria e o alemão Deff Haupt. Na Rua Coberta acontecem degustações de vinhos. (54) 3295-2296 Mesa e França Já a também 5a. edição do São Paulo Restaurante Week, de 31 de agosto a 13 de setembro, embarca para a França. Os chefs devem preparar pratos franceses ou inspirados na cozinha desse país. São mais de 150 os restaurantes que participam. Vinho & Pizza é na Prestíssimo! Portugueses em Curitiba O dia 7 de agosto também foi de noite de vinho no Paraná. O Centro Europeu de Curitiba promoveu a noite de degustação orientada de vinhos portugueses. Com rótulos do Dão e da Bairrada e apoio da importadora Porto a Porto, o evento contou com a presença da enóloga Filipa Pato, que lançou seu vinho de sobremesa FLP. Centro Europeu: (41) 3222-6699 Porto a Porto: (41) 3018-7393 18 Wine Bar - Carta com 200 rótulos - Taças especiais Cotação no Guia Onde Beber do Vinho&Cia O sommelier Ednaldo do restaurante Matterello em São Paulo trabalha muito nas degustações do Dia Especial promovido pelo Vinho&Cia. A casa tem ficado cheia. (11) 3813-0452 Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, (11) 3885-4356, Jardins, São Paulo Vinho&Cia - No. 43 Guia em SP Onde Beber em SP Itaim Bibi / Jardins Zona Sul Zona Oeste Dui Lar Bianco Rancho do Vinho Carta comandada pela competente sommelière Eliana Araújo, com a proposta de apresentar castas autóctones. Cozinha contemporânea da chef Bel Coelho. Ambiente moderno, que reúne espaço natural, jardim de inverno e lounge. Preços dos vinhos de R$65 a R$540, e em taça desde R$14. Cardápio instigante em local recém inaugurado. Ambientes diversos com aconchego de lareira, espaço boulevard e espaço kids. Carta com cerca de 80 rótulos, armazenados em adeguinha climatizada. Preços entre R$39 e R$300. Vinhos em taça a partir de R$12. Filial recém-inaugurada da costelaria tradicional da rodovia Régis Bittencourt. O dono Celso Frizon, apaixonado por vinho, oferece uma carta ampla com ênfase em rótulos nacionais, sobretudo do Sul, sua terra natal. Preços muito bons e rótulos baratos, inclusive em taça. Al. Franca, 1590, Jardins (11) 2649-7952. Fecha seg e dom-jan R. Ribeiro do Vale, 339, Brooklyn (11) 5041-5506. Fecha seg. Av. Dr. Guilherme Dumont Villares, 321, Zona Oeste. (11) 3744-5899. Renda-se à arte da boa mesa. Charlô Jockey Club Total Vinhos Veríssimo Espaço gourmet descontraído recém inaugurado dentro da loja de vinhos. Mais de 600 rótulos que podem ser levados à mesa aos preços das prateleiras. Boas opções de variedade e atendimento atencioso por sommeliers. Preços variam entre R$25 a R$4000. No bar sempre lotado e temático em homenagem ao escritor Luís Fernando Veríssimo, o vinho também ganha espaço, competindo com as cervejas e os destilados no acompanhamento dos petiscos e do bate-papo. Adega climatizada e taças adequadas. Preços surpreendentemente bons. R. Dr. Melo Alves, 268, Jardins (11) 3081-3305. Fecha dom. R. Flórida, 1488, Brooklyn (11) 5506-6748. Fecha dom. O ambiente já não é o mesmo dos bons tempos do Jockey Club, mas almoçar na varanda com a vista das pistas de corrida de cavalos, tendo ao fundo a cidade, é um charme e uma tranquilidade. A carta é básica, com preços razoáveis e a cozinha é bem executada. Av. Lineu de Paula Machado, 1263 (11) 3032-4613. Fecha no jantar. Grande São Paulo In Vino Amici Ao fundo da compacta loja de vinhos, um espaço tranquilo, pequeno e charmoso, ótimo para happy hour ou bate-papo descontraído com vinho e petiscos. Na entrada, mesas ao ar livre. Carta com rótulos bem variados, extraídos das prateleiras. Ampla variedade a partir da faixa de 30 reais. R. Pais de Araújo, 111, Itaim Bibi (11) 3071-1902. Fecha dom. E.A.T Cozinha rápida com toques de sofisticação, sob consultoria do chef Léo Filho, com sanduíches e pratos, definida como casual food. Ambiente moderno, envidraçado, com pé-direito alto e agradável. Seleção de vinhos contida, boas taças e adega climatizada a preços não tão contidos. R. Pedroso Alvarenga, 1026, Itaim (11) 3071-3492. Fecha dom. Vinho & Cia - No. 43 Cotações Ville du Vin Alphaville Excepcional local onde beber Muito bom local onde beber Bom local onde beber Local com atrativo para beber Local onde beber É hoje um excepcional local onde beber. No bistrô no meio da loja de vinhos reúne ambiente agradável, cozinha de bom nível sob consultoria do chef Alain Urzan, excelente serviço do sommelier Nelson Pereira, carta orientativa e preços de prateleira, com ampla variedade de rótulos e preços. Al. Tocantins, 75, Alphaville (11) 4208-6061. Fecha dom. Serviço de vinhos a variedade vinhos baratos rótulos especiais taças e adega climatizada orientado por sommelier carta orientativa a sobrepreço Monte Viso Começou a carta com alguns rótulos bem comuns de supermercado, mas agora apresenta algumas alternativas um pouco mais instigantes. Adega climatizada e boas taças completam o serviço de vinhos para acompanhar as boas pizzas na fria altitude de 1100m da Aldeia da Serra. Rua Cônego Eugênio Leite 523 Jardim Paulista - São Paulo Reservas 11 3088 4920 | 3064 4094 www.percussi.com.br Av. dos Patos, 211, Aldeia da Serra (11) 4192-3366. Fecha no almoço. 19 Vinho nas Lojas É o supermercado mais barato? “ A propaganda do Wal-Mart é bem clara: segundo pesquisa da revista Veja é o supermercado mais barato. Isso é válido para os vinhos? Nossa equipe escolheu uma “cesta básica” de rótulos e foi a campo verificar. Q uinta-feira, 30 de julho, entre 18 e 22 horas. Esse foi o horário preciso em que a equipe de Vinho&Cia foi a campo pesquisar os preços de vinhos praticados pelos supermercados. A equipe escolheu 7 lojas na Região Oeste da cidade de São Paulo, típica de classe média e com a particularidade de concentrar na área as principais redes supermercadistas. No mapa da pesquisa entraram, além do Wal-Mart que fez a propaganda do menor preço, o Carrefour, o Extra, o Pão-de-Açúcar e o Compre Bem, todos de grandes redes que dominam o mercado, e o Saint Marché e o Mambo, de redes menores. A escolha dessas lojas foi com o objetivo de fazer a pesquisa da forma mais equilibrada possível, com locais situados numa região de mesmo padrão e público-alvo. 20 Endereços das lojas O mesmo dia e horário para a pesquisa também foi uma opção para evitar distorções de comparações que eventualmente pudessem ocorrer em função de qualquer sazonalidade ou prática de remarcação de preços comuns nos supermercados. Cesta Básica de Vinhos A equipe selecionou uma “cesta básica” com 22 produtos, composta não somente por vinhos de marcas com presença ostensiva nos supermercados mas também por rótulos considerados como bom custo-benefício, independentemente do preço. Ficaram fora da pesquisa algumas marcas que hoje vendem muito nos supermercados, sobretudo do Chile, da Argentina, Itália e França, que deixam a desejar em termos de qualidade. Carrefour: Av. José César de Oliveira, 21500 Vila Leopoldina Compre Bem: Praça Panamericana, 190 Alto de Pinheiros Extra: Av. Jaguaré, 4060 Jaguaré Mambo: R. Dep. Lacerda Franco, 553 Pinheiros Pão de Açúcar: Praça Panamericana, 217 Alto de Pinheiros Saint Marché: R. Carlos Weber, 502 Vila Leopoldina Wal-Mart: Av. Dr. Gastão Vidigal, 2345 Vila Leopoldina Vinho&Cia - No. 43 Vinho nas Lojas A realidade pela pesquisa Item Vinho da “Cesta Básica” Distribuidora Carrefour Extra Wal-Mart 17,47 Saint Marché Pão de Açúcar Compre Bem Mambo 19,90 17,90 20,90 BRASIL 1 Aurora Varietal Tinto Aurora 13,50 15,90 2 Espumante Chandon Brut LVMH 39,90 42,90 3 Miolo Seleçáo Miolo 16,90 16,90 4 Salton Volpi Merlot Salton 33,90 24,90 43,50 27,47 24,90 CHILE 5 Casillero del Diablo Tinto Pernod Ricard 29,90 6 Cousiño Macul Don Luis Tinto Santar 36,90 34,90 7 Santa Carolina Reserva Tinto Casa Flora / Porto a Porto 33,90 35,10 24,98 8 Santa Helena Siglo de Oro Tinto Interfood 34,79 32,29 30,90 9 Ventisquero Classico Tinto Cantu 26,90 34,30 33,90 26,95 26,69 29,90 32,90 32,95 34,48 30,30 29,90 27,90 ARGENTINA 10 Benjamin Nieto Senetiner Tinto Casa Flora / Porto a Porto 15,90 11 Finca Flichmann Varietal Tinto La Pastina 26,09 17,90 12 Terrazas Alto Chardonnay LVMH 39,90 34,90 13 Trapiche Varietal Tinto Interfood 17,90 13,90 22,90 14 Trivento Tinto Expand 18,99 13,90 18,98 26,98 41,00 15,90 18,90 24,73 21,90 21,90 36,90 35,90 18,90 19,90 19,50 18,90 21,90 PORTUGAL 15 Casal Garcia Verde Branco Interfood 16 Esporão Reserva Tinto Qualimpor 115,00 34,50 17 Periquita Tinto Diageo 25,90 18 Porca de Murça Tinto Barrinhas 21,90 19 Porto Dom José Ruby Barrinhas 69,90 32,00 89,00 28,48 25,40 89,90 27,90 28,90 22,50 26,90 56,56 ESPANHA 20 Marqués de Arienzo Crianza Tinto Pernod Ricard 44,98 52,99 75,00 51,99 63,95 AUSTRÁLIA 21 Jacobs Creek Cabernet-Shiraz LVMH 52,50 Bruck 34,90 49,29 ITÁLIA 22 Corvo di Salaparuta Tinto 26,90 31,65 No. vinhos com menor preço 7 6 4 3 3 2 2 No. vinhos da lista 20 12 12 11 10 11 10 Tabulados os dados, percebe-se várias coisas. Na mesma data e hora, o Wal-Mart da Vila Leopoldina tinha apenas 12 dos 22 rótulos da “cesta básica” e somente 4 dos vinhos com o menor preço. O Carrefour do mesmo bairro estava com a maior variedade, com 20 dos 22 rótulos selecionados, e Vinho & Cia - No. 43 também com o maior número de vinhos com o menor preço: 7. Entre todas as pesquisadas, é a loja que está melhor estruturada em termos de vinhos, inclusive no aspecto estético. O Extra do Jaguaré tinha nas prateleiras o mesmo número de vinhos da “cesta básica” que o Wal-Mart, porém foi o segundo com a maior quantidade de rótulos com menor preço. O Saint Marché, de uma rede menor mas com maior ênfase em vinhos, superou um pouco, em oferta e melhores preços, os da rede Pão de Açúcar e Compre Bem. O Mambo foi o supermercado da pesquisa com o menor número de melhores preços. Colocados e comentados todos os dados, é importante salientar que o aspecto preço é somente um dos itens a considerar na compra de vinhos em uma loja: conveniência, atendimento, cuidados no estoque, perfil de variedade e outros pesam bastante. É uma questão de ponderar. 21 Circuito Vinho &Cia Continua a promoção N as noites frias deste inverno, a promoção do Circuito do Vinho & Cia continua aquecida. Foi mais um mês em que os apreciadores e enófilos puderam desfrutar de dias e noites agradáveis com vinhos oferecidos pelas casas participantes, não só em São Paulo (no contemporâneo restaurante La Marie, na arquitetônica Cantina Matterello ou na tradicional pizzaria Prestíssimo) como também em Santos (na conceituada cozinha italiana e pizzaria da Piccola Forneria) e nas montanhas frias de Campos do Jordão (no Charpentier, no tradicional hotel de charme Frontenac). O Circuito já conquistou o público, e os restaurantes tomaram gosto pela ação promocional. “Estamos oferecendo opções diferenciadas de vinhos a preços justos, o cliente ganha uma taça de brinde e ainda temos a divulgação e o apoio do jornal: é bem diferente!”, diz o chef Edson di Fonzo do La Marie, em Pinheiros. Na cozinha, ele brinca com os aromas e sabores em suas criativas receitas a preços atrativos: é uma delícia! O sommelier Carlos conta que agora “novos clientes vêm pela indicação de outros que conheceram a promoção”. Damião, também no serviço de vinhos da casa, confirma: “ganhamos muitos clientes novos com o Circuito”. Entre eles está Elizabeth Lemos Britto, que diz com ênfase: “beber com amigos é tudo, com um vinho bem indicado é melhor ainda!”. Outro cliente, Alexandre Lamberte, afirma que o Circuito “é música, vinho e gastronomia, tudo numa taça!”. A promoção do Circuito trouxe igualmente novidades ao público do Matterello, na Vila Madalena, que já desenvolve às terças e quintas-feiras noites de vinho com diferentes degustações. No “Dia Especial” promovido pelo Vinho&Cia, a casa estava lotada para a degustação com vinhos da importadora Winery, comentada pelo crítico Breno Raigorodsky. A aprovação foi geral. O cliente Rodolfo Adami ficou entusiasmado: “pudemos conhecer novos vinhos e aprender mais sobre o assunto, comprá-los a preços acessíveis para beber em casa e, além disso, ganhar a nossa taça”. Ednaldo, o sommelier da casa, diz que acha “a ação muito inteligente. Os clientes adoram e perguntam se a próxima degustação que faremos será com o brinde do Circuito”. Na pizzaria Prestíssimo nos Jardins, a Espanha apareceu entre os favoritos nas noites de degustações comandadas pela sommelière Patrícia. Ela teve de marcar noites extras no Wine Bar, e contou com a agradável presença do grande conhecedor de vinhos desse país, Juan Rodriguez, sócio da importadora Península. “Conseguimos atrair nosso público e eles adoraram os vinhos da Espanha. Já colocamos os rótulos do Circuito definitivamente na carta”, diz Patrícia. Alexandre Levy, sócio da casa, conta que “devemos estender a ação do Circuito Vinho&Cia para o nosso delivery a partir deste mês, e vamos também disponibilizar a venda através do nosso site”. Na Piccola Forneria, no Canal 5 em Santos, a ação não rende apenas comentá- “ Em 5 restaurantes selecionados do Circuito Vinho&Cia, você pode ganhar uma taça. Como? Quais são os locais? E tem mais atrativos? Confira... rios positivos: os frequentadores passaram a consumir mais vinho. O sommelier Oliveira afirma que agora “o público está aberto às nossas sugestões e gosta das ações da casa”. O sócio Gugu Barbosa complementa: “os clientes ainda ganham como brinde uma taça e edições do jornal: eles adoram!”. Com o entardecer, o friozinho pegando nas badaladas ruas de Campos do Jordão convida a um passeio até o Charpentier, para pedir o vinho da promoção do Circuito Vinho&Cia acompanhado de fondue ou de uma deliciosa comida preparada com qualidade por uma das melhores cozinhas da serra. “A promoção só veio para agregar e apresentar novidades aos clientes”, diz Vera Lúcia Duarte, diretora do hotel Frontenac e do restaurante. O impecável sommelier Valter da Silva afirma que “os clientes seguramente estão gostando das indicações de vinhos. Já conseguimos bons resultados em pouco tempo e devemos continuar no Circuito”. A participação dos fornecedores de vinhos no Circuito é fundamental para a oferta de bons e variados rótulos a preços justos. Até o momento colocaram seus vinhos nos restaurantes as vinícolas nacionais Pericó, Sanjo e Villaggio Grando, e as importadoras D’Olivino, Península, Porto Mediterrâneo, Wine Lovers e Winery. Charpentier (Capivari, Campos do Jordão) Av. Dr. Paulo Ribas, 295, (12) 3669-1000 La Marie (Pinheiros, São Paulo) R. Francisco Leitão, 16, (11) 3086-2800 Matterello (Vila Madalena, São Paulo) R. Fidalga, 120, (11) 3813-0452 Piccola Forneria (Canal 5, Santos) Av. Almirante Cochrane, 62, (13) 3271-1200 Prestíssimo (Jardins, São Paulo) Al. Joaquim Eugênio de Lima, 1135, (11) 3885-4356 Apoio comercial ao Circuito Vinho&Cia: 22 Vinho&Cia - No. 43 Pelo País O Brasil “ para os portugueses Portugal há alguns anos investe em muitos eventos de vinhos pelo nosso país. Dá resultado? Os rótulos da terrinha ficaram mais conhecidos? Denise conta... J á ouvi algumas vezes a pergunta se os diversos eventos de degustação de vinhos com a apresentaçao de dezenas de importadoras trazem algum resultado prático. Bem, para o Instituto do Vinho do Douro e do Porto, que realiza eventos como esses no Brasil há muito tempo, os números provam os resultados. Hoje somos um dos mercados estratégicos para os vinhos da Região do Douro, que registraram crescimento importante nos últimos anos. As exportações de vinhos do Porto aumentaram mais do que o dobro nos últimos cinco anos, passando de 588 mil garrafas em 2003 para 1,4 milhão de garrafas no final do ano passado. Já em relação aos vinhos tranquilos do Douro, a evolução é de 50% nos 4 últimos anos. O Brasil é o 4º mercado de comercialização de vinhos do Douro, com aumento de 2,6% em comparação com o ano anterior. Em 2008 o valor global das exportações de vinhos dessa região para o Brasil atingiu os 6,9 milhões de euros, um crescimento de 3% em relação a 2007. O ano de 2009 representou o ano de maior investimento do IVDP no mercado brasileiro, com a realização de grandes provas — em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Brasília — além de um conjunto de 6 seminários temáticos ao longo do ano. demonstra o interesse pelos vinhos da Região Demarcada do Douro. O apoio importante dos produtores e das importadoras brasileiras é também digno de registo e aplauso. E este esforço financeiro terá continuidade nos próximos 2 anos”, anuncia Carlos. “Nós do Instituto entendemos que é essa a melhor forma de fazer face a uma retração na comercialização que se registrava nos primeiros meses do corrente ano, apesar dos excelentes resultados nos últimos 5 anos, em que mais que dobramos as vendas para o Brasil (quer de Porto, quer de Douro)”, analisa Carlos Soares, do IDVP. “Mais de 1.300 pessoas, na sua larga maioria profissionais, participaram nas ações até agora realizadas, o que O Brasil é um dos poucos países que mantém uma tendência positiva de crescimento em termos globais de comercialização de vinhos. Denise Cavalcante Jornalista [email protected] Duas dicas Evento do instituto português IDVP no Hotel Unique em São Paulo Vinho & Cia - No. 43 FÉRIAS COM VINHO INCLUÍDO Passei alguns dias em julho no Hotel Costão do Santinho, em Florianópolis, e me surpreendi com o hotel, o local, as refeições, as atrações e tudo que ofereciam. Mas não podia imaginar que o pacote que incluía todas as refeições também incluísse água, refrigerante, cerveja, whisky e - pasmem - vinho! Consumi livre em qualquer refeição. Além do hotel ser ma-ra-vi-lho-so, essa possibilidade me encantou. Os vinhos eram ótimos: espumante Salton, do nosso saudoso amigo, o argentino Trapiche Astica, o chileno Mancura e outros. Vinhos de preços baixo mas de qualidade e, sem dúvida, escolhidos com cuidado por quem conhece. Para completar, em um de seus restaurantes, um francês à la carte, havia uma adega com vinhos fantásticos de todos os países. Isso mostra o espaço que o vinho vem conquistando entre o público brasileiro. LIVRO PREMIADO EM PARIS Parabéns ao Aguinaldo Záckia Albert! Um de seus livros acaba de ganhar um prêmio na França — e logo sobre que tema, o Espumante, especialidade dos franceses, e pelo visto dos brasileiros também. O prêmio é o Gourmand World Cookbook Awards, anunciado no dia 1o. de julho, no Theatre de La Comédie Française, em Paris. Concorrendo com 18 candidatos de vários países, o livro “Borbulhas, Tudo Sobre Champanhe e Espumantes”, ganhou o primeiro lugar do prêmio Best Wine Education Book, criado em 1995, pelo expert Edouard Cointreau. Nele Záckia relata a história do champanhe, sua origem e evolução e as atuais técnicas de produção, apresentando também outros espumantes da França, Europa e Brasil. Fala do serviço do espumante e orienta a sua harmonização com pratos. O livro é da editora Senac. 23 Circuito do Vinho Uva, uva, é a uva do Marengo! “ O bairro do Tatuapé em São Paulo é reduto de italianos. Traz lembranças e, hoje, novos ares. Como um belo restaurante português. Quartim descreve... D e meus tempos de criança, lembro-me bem quando ouvia de um “alto-falante” de uma carrocinha que passava em frente de casa a seguinte frase: “Uva, uva, é a uva do Marengo!” Eu morava no Pacaembu, e o “alto-falante” na verdade era uma espécie de corneta, como o símbolo da RCA Victor, com a qual o vendedor a plenos pulmões anunciava seu produto. Naquela época isso me parecia algo meio mágico, não me fazia sentido algum que a uva fosse do Marengo ou de alguém mais, para mim eram simplesmente uvas que minha mãe comprava e nós, irmandade toda, comíamos avidamente de sobremesa. Não era assim mesmo, Didú? Tenho certeza de que do fundo do baú, você também se lembra e ouvia a mesma coisa! Eta!, saudade... Bastante depois e um pouco mais informado, desvendando mistérios de infância é que vim saber da existência, no bairro do Tatuapé, de uma “chácara” onde se cultivavam uvas, e eram exatamente aquelas que degustávamos em tempos de criança. Pois é meu, caro leitor, foi lá pelas bandas do atual Tatuapé que em 1551, Brás Cubas, pioneiro da viticultura no Brasil, instalou sua primeira vinícola! Foi durante muito tempo a principal atividade econômica da região. Muito depois, no final do século XIX, com a imigração 24 italiana, que famílias como a do senhor Francesco Marengo, plantaram suas vinícolas naquele bairro. Italiano do Piemonte, nascido em 1875 e falecido em São Paulo em 1959, Marengo, além de sua produção de uvas, criou também um viveiro de mudas das variedades americanas Isabel e Niagara, não muito apropriadas à produção de vinhos, mas de alta produtividade, e se tornou o principal fornecedor de mudas para vinhateiros da região de São Roque. O Tatuapé se caracterizou como bairro dos descendentes italianos, acolheu inúmeras indústrias e experimenta nos dias de hoje um enorme “boom” imobiliário. O interessante é que no reduto italiano, quem sabe por reminiscências do português Brás Cubas, Anselmo Neves e Sérgio Ferreira decidiram criar o primeiro restaurante lusitano no Tatuapé, denominando-o Bacalhoeiro. Sem dúvida que com esse sugestivo nome a especialidade da casa é bacalhau. São várias as modalidades. Seguem-lhes os peixes, uma Lula na Cataplana, maravilhosa, e frutos do mar, assim como também carnes e aves... Sobremesas conventuais, naturalmente, tudo nas melhores tradições portuguesas. Ambiente muito elegante, sempre lembrando motivos portugueses, desde os azulejos de estilo até duas grandes oliveiras, frente à “parede jardim” de uma de suas diversas salas. Sem que os comensais se dêem conta, em dias bonitos, o teto retrátil de algumas das salas se abre, permitindo uma agradável sensação de estar comendo no jardim. O requinte do Bacalhoeiro permite a escolha de ambientes descontraídos como o bar-balcão, a área da biblioteca enogastronômica, local para degustações, salas aconchegantes e, o que um cunhado Bacalhoeiro: Rua Azevedo Soares, 1580, Tatuapé, (11) 2293-1010, São Paulo meu chama de “criancil”, isto é, um local à prova de som, onde a infanto-garotada pode se divertir à vontade! Para elas um cardápio infantil, a brinquedoteca, videogames e, nos finais de semana, monitores. Brincadeira organizada! E o que é melhor, sossego do outro lado para a apreciação dos maravilhosos pratos e dos vinhos de uma Carta de fazer água na boca! Não poderia deixar de destacar a adega climatizada com espaço para algo como 1.700 garrafas! Todas muito bem cuidadas pelo escanção Augusto Monteiro, que lhe poderá sugerir excelentes harmonizações! Samuel Alves é o sempre sorridente maître, que faz com que as coisas corram sobre carretéis no Bacalhoeiro. Nas panelas, em uma cozinha à vista dos clientes, contamos com a brasilidade do cearense Francisco Everaldo da Silva como chef. O Bacalhoeiro pode integrar o Circuito do Vinho, onde encontramos um ótimo serviço em ambiente bastante agradável, em que o vinho, sempre presente, faz um final feliz! Fernando Quartim Vice-Presidente da SBAV-SP [email protected] Vinho&Cia - No. 43 Nas Ondas do Rio O que acontece na cidade maravilhosa Foto: Oscar Daudt Viajando com Jeanne Costumo brincar que Jeanne Marioton é a francesa mais carioca que conheço. Especialista em vinho — considero uma profissional de alta gama —, foi convidada para comandar uma viagem enogastronômica de 8 dias entre Chile e Argentina. Todas as visitas serão guiadas a 15 vinícolas, com degustação, sendo 8 no Chile e 7 na Argentina. Estão incluídos seis almoços, sendo 4 em vinícolas, e um jantar de confraternização, no ultimo dia, no famoso, renomado e prestigiadíssimo restaurante 1884, de Francis Mallmann. Confiram com ABS Turismo: rua da Ajuda, 35, cobertura, (21) 3861-9000, [email protected] Carta nova de vinhos A história da Parmê se inicia em 1972. Na época foi aberta uma pequena lanchonete em Vila Isabel, que contava com apenas cinco mesas e cinco colaboradores. Rapidamente se tornou famosa por suas pizzas e massas. Depois de longo tempo de experiência e grande sucesso, em 1989 seus fundadores resolveram abrir mais restaurantes Parmê pela cidade. Como não podia deixar de ser, desde então a rede não parou mais de crescer e consequentemente o vinho faz parte do sucesso. A nova carta foi lançada no mês passado, sob a consultoria de Célio Alzer. É Vinho & Cia - No. 43 uma carta didática, que oferece ótimos rótulos e excelentes preços. www.parme.com.br Mas o mais interessante mesmo é ir à loja e ouvir Aníbal contar a história dessa vinha ao monte. Cobal Humaitá de Botafogo: (21) 2286-8838 / 2535-0070. Espírito virou vinho Novo espaço no Centro Moreto, Trincadeira, Touriga Nacional, Aragonês, Alicante Bouschet, Mouvèdre, Petit Verdot, Souzão e etc. São 10 castas no total. Isso mesmo, 10 castas, que compõem o vinho Espírito do Vinho, do Alentejo, Portugal, de nome homônimo ao da loja de Aníbal Patrício. Seu amigo Joaquim Madeira vinificou pessoalmente o vinho na vinícola Casa de Sabicos, a partir de vinhas de 113 anos em 1 hectare, ultra especiais. Aconchegante, bem iluminada, charmosa e com boa variedade de vinhos. Assim é a mais nova loja no centro da cidade, chamada Espaço Porto Mauá. Essa é aquela combinação que eu adoro: livraria, café, bistrô e loja de vinhos. A loja realiza degustações temáticas, com Fernando Miranda e outras “feras”. Que tal escolher uma boa leitura e depois começar a saboreá-la degustando um vinho? “ Uma viagem enogastronômica, uma nova carta, duas lojas, comidinha caseira com vinho... O Rio de Janeiro está sempre ótimo. Jaque traz isso pra nós... Jaqueline Barroso Enófila [email protected] Rua do Acre, 51, Centro, (21) 22061160, www.espacoportomaua.com.br Final de semana caseiro Sabe aquele almoço de final de semana gostoso com comidinha caseira? Pois é, essa é a novidade do restaurante Alcaparra. O maitre Raimundo preparou várias gostosuras diferentes do cardápio corrente, para oferecer uma alternativa ao dia-a-dia. Claro que o vinho também é o grande destaque. A carta é composta por mais de 150 rótulos selecionados pelo maitre-sommelier Batista, que comanda também o salão. Espetáculo é o variado couvert: uma loucura! Praia do Flamengo, 150, Flamengo, (21) 2558-3937. 25 Vinho é Arte Uma viagem de sabores pela França Château Chambord, no Vale do Loire, França “ Sair do Brasil para uma viagem à França é algo apaixonante. Paris, castelos, Loire, Champagne, Bourgogne, Bordeaux, Provence... Mais? Maria Amélia traz. A no da França no Brasil. Todos falam nessa terra maravilhosa: Paris, seus museus, sua arte... A história francesa é repleta de temas, sejam lutas, sejam escultores ou filósofos; um país que é um verdadeiro cenário de contos de fadas. 26 O vale do Loire, seus castelos e a riqueza dos vinhos brancos, o berço dos biodinâmicos, a terra de Nicolás Joly. A Alsácia, história viva, sua arquitetura, seus vinhos de terroir que duram décadas. Quem não gosta do aroma da Gewurztraminer que exala no ar entre os vinhedos? Ou que sai de uma garrafa mítica, como 1997 em Vendange Tardive? A Champagne e todo o glamour, suas caves em giz, as borbulhas inigualáveis. Don Perignón, a coroação de reis, a luta, a reconstrução. Descobrir os Champagnes dos pequenos vinhedos é uma das mais fabulosas experiências de viagem. Sem contar a Bourgogne, toda a mentalidade e fervor em torno do terroir, seus pequenos produtores, fanáticos e apaixonados por sua terra. Seja Chablis, com suas caves tradicionais ou os mais renomados produtores, como Romanée Conti, são micro terroirs, o trabalho da sua gente, a defesa da natureza. E o luxo das ruas de Bordeaux, seus vinhedos, alguns dos melhores do mundo. Andar pelas ruas dessa cidade totalmente tombada pelo patrimônio histórico mundial, relaxar no SPA Caudalie ou curtir cada cantinho de Margaux não tem preço. Para quem tiver mais tempo, descobrir regiões como Loupiac, Cadillac ou Saint Croix du Mont e a doçura dos seus vinhos. Ver porque o Sauternes é uma jóia, mas que também existem mais diamantes na região. Se o caminho levar para o mar, é lá que está nossa amada Provence. Flores, arte, o azul hipnotizante do Mediterrâneo, fazem desse roteiro um dos mais cobiçados do mundo. O aroma das ervas, um toque de nostalgia paira no ar. E ali está o Rhône, e mais diversidade: você pode provar desde os vinhos próximos ao Ventoux até os instigantes Cote-Rotîe. Enfim, um país que é um paraíso para quem é apaixonado por gastronomia. A França é impossível de descrever em poucas palavras, não pode ser conhecida com pressa, pois, como as melhores coisas da vida, merece tempo e muita atenção. Maria Amélia Duarte Flores Enóloga [email protected] Vinho&Cia - No. 43 Uai! Vou-me embora pra Pasárgada “ Você sabia que as mulheres do Irã... E sabia que em BH no restaurante Persa... E que lá os preços dos vinhos... Não sabia mesmo? Ah... Andréa Pio revela. “ Vou-me embora pra Pasárgada / Lá sou amigo do rei / Lá tenho a mulher que eu quero / Na cama que escolherei / Vou-me embora pra Pasárgada...” Eu também vou! Tenho certeza que você também vai gostar de ir. Mesmo por que a Pasárgada a que me refiro está mais próxima do que você imagina. E nessa Pasárgada tem Lei Molhada. Uau !!! Ela está representada no Amigo do Rei, restaurante de culinária Persa. Inaugurado primeiramente em 1998 em Paraty (RJ), desde 2002 funciona no bairro Santo Antonio em Belo Horizonte (MG). O Amigo do Rei é raridade em outras paragens deste Brasil Varonil, Verde, Amarelo e Azul Anil e é especializado na autentica cozinha iraniana, ou Persa, como assim os proprietários preferem. Para início de conversa, lembro que no Irã as mulheres não cobrem o rosto. Os iranianos são descendentes das tribos de etnia ariana que emigraram do leste da Rússia, há milênios. Parte delas se fixou no Oriente Médio e parte seguiu para a Europa até chegarem à região escandinava, onde também se fixaram. Embora esteja encravado no Oriente Médio, o Irã não é um país árabe, lá não se fala árabe e a comida em nada se parece com a saborosa, divertida e simpática culinária árabe. E que o poema de Manuel Bandeira é simplesmente porque os proprietários Vinho & Cia - No. 43 nutrem simpatia por Manuel Bandeira e em nada faz apologia à monarquia. No Amigo do Rei a experiência é única. O restaurante é desprovido de maiores luxos, e a ambientação é bastante intimista. Funciona em uma casa familiar com apenas 23 lugares; portanto, reservar é preciso. Quem faz as honras da casa é o casal Cláudio Battaglia (carioca) e Nasrin Haddad Battaglia (iraniana), que cuida da cozinha. Além do cardápio, Cláudio que fica por conta do atendimento, traz várias fichas. Nelas constam curiosidades do Irã, e é claro, sobre a culinária local. Vez por outra a Cadbanou Nasrin – no Irã não existe a expressão chef du cuisine, portanto, mulheres que desempenham a função são assim chamadas -, circula entre as mesas para explicar os hábitos, costumes e apresentar o refrigerante crocante. Diversão imperdível a tal bebida. Embalado por musiquinha clássica iraniana, você tem a oportunidade de experimentar a rica culinária persa, de sabor suave, aromática e refinada. O cardápio traz receitas caseiras, leves e temperadas com ingredientes típicos do Irã, sendo que alguns temperos não são comercializados no Brasil. São dois cardápios: um fixo e um “paralelo” onde a Cadbanou vai mostrando receitas que se alternam de acordo com as estações e a saudade... Fessenjouhn – de sabor suave e agridoce, são esferas de carne envolvidas em molho de romã e nozes, acompanhadas de arroz branco com toque de açafrão e Borani; Sabzi pólo bo mohi – (primeira refeição do Ano Novo no Irã) é um peixe, truta aberta feita na chapa, com arroz de ervas aromáticas, torta de verduras e vinagrete; e o milenar Tahtin bo morgh – são cubos de peito de frango acompanhados por arroz Tahtin (leve base torradinha e obrigatório no Irã) e vem com zereshk (frutinhas cor de vinho, selvagens, que nascem nas montanhas do Irã) e o Borani, que vem num pequeno pote, no próprio prato e cuja função é apenas lavar a boca, não devendo misturar à comida. Como disse, nessa Pasárgada a Lei Molhada é levada a sério. Aos chegantes, essa lei adotada pelo Amigo do Rei, significa que os vinhos são oferecidos pelo mesmo preço que o freguês pagaria na importadora. “Com a economia, que calculamos entre R$ 24 e R$ 150, é possível ir e voltar de táxi”, a isso chamamos de Lei Molhada”, revela Claudio Battaglia. Os 16 rótulos (quatro franceses, dois italianos, um argentino, um neozelandês, quatro chilenos, dois espanhóis e dois portugueses) foram selecionados por ele em parceria com Rodrigo Fonseca (Premium/TasteVin), Lisandro Neis (Decanter), Dulce Ribeiro (Zahil) e André Martini (Casa do Vinho). São vinhos de bom custo-benefício, delicados mas marcantes, e que harmonizam muito bem com a comida iraniana. Cada garrafa custa entre R$ 30 e R$ 110. “Vou-me embora pra Pasárgada / Aqui eu não sou feliz / Lá a existência é uma aventura / De tal modo inconseqüente... Vou-me embora pra Pasárgada...” / Lá serei amigo do rei / Lá a experiência é única, posso saborear vinhos sem ter que pagar horrores. Andréa Pio Jornalista e editora do guia Uai [email protected] SABZI POLO BO MOHI: Peixe na chapa com arroz de ervas aromáticas, torta de verduras e vinaigrette. Amigo do Rei: Rua Quintiliano Silva, 118, Santo Antônio, (31) 3296-3881 Belo Horizonte. De quarta a sábado, das 19h30 às 23h; domingo, das 13h às 16h. 27 “ EmBoaCia Nas próximas páginas, viva mais além das garrafas de vinhos A viagem às lembranças dos pais “ Muitas vezes nos esquecemos de simples detalhes das nossas vidas, que tempos depois nos dão saudade e nos enchem de lágrimas. Adriana propõe um brinde. G ostaria de propor uma viagem diferente... Uma viagem às nossas lembranças. Às viagens que fizemos em nossas infâncias. Aos momentos em que, como crianças, nos sentíamos protegidos no calor do lar. Às brincadeiras e às histórias de famílias. Às broncas, cobranças e aos conselhos, que ouvimos e nos fizeram crescer e ser o que somos hoje. Pois é, agosto é o mês no qual comemoramos o Dia dos Pais. E eu quero aproveitar este espaço e homenageá-los. Dicas de presentes, lugar legais para leválos e bons vinhos para tomar com eles eu deixo para os outros. Eu aqui vou ficar com as lembranças e com a saudade... Busco um poema, uma letra de música, palavras que possam descrever o sentimento que nos faz girar em torno dessa figura, dessa presença que, para mim hoje distante, permanece preenchendo o tempo e norteando o caminho. Li que um certo poema pretendia demonstrar que, apesar da imagem de herói, pai é também um ser humano sensível, mesmo protetor e acolhedor, se emociona com um simples sorriso e se entristece com uma lágrima. Pensei no quanto nos esquecemos desses simples detalhes em momentos de nossas vidas, e hoje permaneço com a saudade e as lágrimas nos olhos. Façamos neste mês um brinde: aos nossos Pais! Adriana Bonilha Colunista [email protected] Pai! Pode ser que daqui a algum tempo Haja tempo prá gente ser mais Muito mais que dois grandes amigos Pai e filho talvez... Pai! Pode ser que daí você sinta Qualquer coisa entre Esses vinte ou trinta Longos anos em busca de paz... Pai! Pode crer, eu tô bem Eu vou indo Tô tentando, vivendo e pedindo Com loucura prá você renascer... Pai! Eu não faço questão de ser tudo Só não quero e não vou ficar mudo Prá falar de amor Prá você... Pai! Senta aqui que o jantar tá na mesa Fala um pouco, tua voz tá tão presa Nos ensine esse jogo da vida Onde a vida só paga prá ver... Pai! Me perdoa essa insegurança Que eu não sou mais Aquela criança Que um dia morrendo de medo Nos teus braços você fez segredo Nos teus passos você foi mais eu... Pai! Eu cresci e não houve outro jeito Quero só recostar no teu peito Prá pedir prá você ir lá em casa E brincar de vovô com meu filho No tapete da sala de estar Ah! Ah! Ah!... Pai! Você foi meu herói meu bandido Hoje é mais Muito mais que um amigo Nem você nem ninguém tá sozinho Você faz parte desse caminho Que hoje eu sigo em paz Pai! Paz!... Pai Fábio Jr. 28 Vinho&Cia - No. 43 Charutos & Destilados Entrevista com Mister Whisky “ O considerado maior especialista no destilado escocês esteve no Brasil com Cesar Adames. Ele dá a opinião sobre qual o melhor blended para começar a beber. O autor do livro “Jim Murray’s Whisky Bible” (“A Bíblia do Whisky de Jim Murray”) esteve no Brasil recentemente para tirar dúvidas sobre como beber whisky, se a bebida deve ou não acompanhar uma refeição, com qual alimento pode ser combinado, que tipo de malte é o mais indicado, entre outras questões. Considerado o maior especialista do destilado escocês, Jim já degustou milhares de maltes e é o homem que conhece o maior número de destilarias do mundo. Tive oportunidade de estar com ele e fazer algumas perguntas sobre o assunto. Vinho e Cia – Quantos rótulos você já experimentou? Jim Murray – Mais de dez mil. VC – Como identificar um bom whisky? JM - Para identificar um bom whisky você precisa identificar se há algo de errado com ele. Se você não consegue identificar nenhum problema com ele, ele deve ser um bom ou até um ótimo whisky. VC – Quais foram seus critérios para eleger os melhores whiskys do mundo? JM – Dou notas para aroma, sabor, acabamento e balanço. Acredito que seja o único livro do mundo que dê notas específicas desta forma. VC – Qual é um bom whisky para quem está começando? JM – Sugiro um blended whisky. O vencedor da Bíblia de 2009 nesta categoVinho & Cia - No. 43 ria é o Ballantines Finest. VC – E o copo ideal? JM – É muito semelhante à taça de vinho, só que sem o pé. Evite o copo com fundo grosso. VC – Qual sua opinião sobre tomar whisky com gelo? JM – Entendo que em um país tropical como o Brasil o consumo com gelo seja muito grande, mas para descobrir todos os segredos do whisky eu recomendo beber puro aquecendo-o suavemente com a palma da mão. Desta forma você vai descobrir todas as características e complexidades da bebida. VC – Whisky envelhece como o vinho? JM – Quando você engarrafa o whisky ele não evolui mais. Se você comprou um whisky que diz 12 anos na garrafa e guardar por 20 anos daqui a 30 anos terá um whisky de 12 anos. VC- Whisky e comida podem ser combinados em uma refeição? JM – Na minha opinião comer e beber whisky ao mesmo tempo é uma forma de arruinar duas excelentes experiências. É melhor beber whisky antes de uma refeição ou depois de um café preto, encerrando uma refeição. Cesar Adames Consultor gastronômico [email protected] 29 Comportamento Champagne, escargot e lagosta “ Quando jovem, isso há muitos e muitos anos, Didú Russo levava uma vida de milionário. Ia nos melhores lugares e consumia bons produtos. Como? Ah... H á pessoas realmente muito felizes com a vida. Eu sou um desses caras. Achei o amor da minha vida, com quem estou há mais de 35 anos! Acreditem, ainda por cima quando nos conhecemos, além de jovens, levávamos uma vida de milionários. Verdadeiros milionários. Explico, trabalhávamos numa Secretaria de Estado, a dos Negócios da Cultura, do Esporte e do Turismo de São Paulo. E sabem quem era o Secretário? O incrível 30 e elegante Pedro de Magalhães Padilha, meu falecido amigo e padrasto de outro já falecido grande amigo (como o tempo está passando...), Carlos Eduardo de Barros, o Cacá. Bem, o que isso tem a ver com uma coluna de vinhos e comportamento do Jornal Vinho & Cia? Tem a ver, pois, imaginem, meus queridos leitores, a cena seguinte. Você tem 22 anos de idade, é “beatnik” e se transforma durante o dia de trabalho para ser “Oficial de Gabinete” de um Secretário de Estado e vai de terno, gravata e colete para o Palácio dos Campos Elíseos (turbinado por um pacau...) todos os dias. Ao final do dia você consegue o “seu momento” e convida a melhor das mulheres do Palácio e do Mundo, uma verdadeira capa de revista para sair... Onde? Roof do Hilton. Pausa para explicação: o Hotel Hilton estava na avenida Ipiranga na década de setenta e era o point mais famoso da cidade. Para se ter uma idéia, o figurino dos atendentes do Hotel fora feito pelo Denner... Ah... vocês não sabem também quem foi o Denner, bem, essa eu não vou explicar, procurem na Wikipédia... Muito bem, chegávamos, e o “roof” tinha uma orquestra, mesas com visão panorâmica de São Paulo e pista de danças... Imaginem. “Garçom, por favor, uma garrafa de Laurent Perrier, e escargots. Obrigado”. Chegava o Champagne, brindávamos e levantávamos para dançar. Fox Trot, claro... Ah... também não sabem, né?... Ouçam “Under my Skin” e saibam do que se trata. Era a época em que se dançava a favor e não contra... A moça colada e movimentos sensuais. Chegava o escargot, que nessa época vinha na concha, e tinha a “pinça” para se segurar a concha e o garfinho próprio para “pescá-lo”. Que elegância, não dá para explicar direito, desculpem. Era um momento de pausa, namoro, conversa, e outra dança. Voltávamos à mesa e vinha o garçom. Por gentileza, vocês têm lagosta? Sim. O senhor gostaria ao Termidor? Perfeitamente. Lá íamos nós dançar no- vamente... E a noite passava. No dia seguinte, o Secretário (hoje compreendo) curtia muito a minha juventude, gostava de mim realmente e foi um grande amigo. Me dizia pela manhã: “Didú? Como foi ontem?”, e eu contava a programação. Bem, parabéns. É isso aí. Me dê aqui a nota, assinava e eu era reembolsado no financeiro... Que maravilha isso, que saudade. A sorte é que a Nazira, a mulher que roubou meu coração continua comigo. Aliás, escrevo isso na Ilhabela, olhando o mar e bebendo um LBV da Quinta das Tecedeiras 2001 e uma peça de reblochon da Serra das Antas... E La Nave Vá... Saúde! Didú Russo Confraria dos Sommeliers [email protected] Vinho&Cia - No. 43 Quantos bons negócios você já não fechou apreciando um bom vinho? A A b r a v i n h o t e m re v i s t a s e s p e c i a l i z a d a s n o m u n d o d o v i n h o . S ã o m i l h a re s d e a f i c c i o n a d o s p e l a a r t e , p e l a h i s t ó r i a e p e l a m a g i a c o n t i d a e m c a d a g a r r a f a . U m p ú b l i c o a l t a m e n t e s e l e c i o n a d o , c o m e x c e l e n t e p o d e r a q u i s i t i v o e q u e e n t re u m a s a f r a e o u t r a e s t á a t e n t o à s u a m e n s a g e m . A n u n c i e n u m a d a s re v i s t a s d a A b r a v i n h o e g a n h e m u i t o s a p re c i a d o re s p a r a o s e u p ro d u t o o u s e r v i ç o . Vinho & Cia - No. 43 31