“Nós vamos lutar até o fim,
até quando o último índio resistir!”
(Tuxaua Jacir, Makuxi)
Homologação, já!
"Terra Livre: Vida e Esperança"
XXXIII Assembléia Geral do CIR,
Maturuca, RR, 6-10/Fev/2004
Relatório da viagem de Arizete Miranda Dinelly csa
Foto: Arizete Miranda csa
Homologação, já! Com esse grito de guerra os parentes indígenas de Roraima iniciaram a 33
Assembléia da região que tinha como tema "Terra Livre: Vida e Esperança". Éramos mais de 1.278
pessoas Macuxi, Wapixana, Taurepang, Yanomami, Wai-Wai, Yjekuana. Uma grande alegria
durante a Assembléia foi a presença do povo Sapará (RR) que aparentemente pensávamos extinto.
Também participaram solidariamente outros povos da Amazônia: Tukano e Sateré-Mawé (AM),
Guarani (PA), Patamona (Guiana), Galibi (Suriname) e outras/os aliadas/os do Brasil, Itália,
Alemanha, Venezuela, Espanha, Canadá.
A saída de Boa Vista para a aldeia foi sob tensão... A notícia era a de que os índios, financiados
pelos arrozeiros e fazendeiros, estariam fazendo barreira para impedir a entrada de missionárias/os.
Na sede do CIR (Conselho Indígena de Roraima), o clima era de muita expectativa: Sai ou não sai a
Homologação durante a Assembléia? Como chegar a Maturuca sem problemas? Eu, Arizete, podia
entrar como índia, mas como entrariam os outros companheiros/as (Egon do CIMI, que já teve o
corpo furado a mando dos fazendeiros, e a Ir Edina com quem trabalhamos em algumas malocas e
já escapou de emboscadas armadas por políticos, arrozeiros e fazendeiros... O melhor caminho foi
dividir um grupo para ir de ônibus e o outro de avião.
Quatro ônibus cheios de indígenas e algumas pessoas amigas saímos em silêncio da cidade antiindígena (Boa Vista). Depois de percorrermos umas cinco horas chegamos na maldita barreira na
comunidade do Contão. Que tristeza! Um pequeno grupo de índios maltratados pelo calor e
quentura, por ficar dias na beira da estrada debaixo de uma lona... Uma das nossas lideranças saiu e
foi conversar com o grupo. Como éramos dez vezes mais deixaram-nos partir em paz. Depois de
três horas mais chegamos à famosa aldeia Maturuca na Raposa Serra do Sol. Parecia uma utopia
para mim que tanto sonhei estar lá para a festa da Vitória. Na chegada uma faixa com o lema:
"Terra Livre: Vida e Esperança".
O cacique geral do CIR, sr. Jacir e outras lideranças nos receberam com o canto e dança tradicional
do Parixara. A alegria contagiou o malocão construído para essa grande festa. Jacir falou:
"Vocês são nossos amigos, por isso estamos contentes. Por isso temos motivo para festejar, mesmo
que o presidente Lula não tenha assinado a Homologação em área contínua da Terra Indígena
Raposa Serra do Sol. De hoje dia 06 `a noite até o dia 10 vamos estar juntos dançando, cantando,
comendo, bebendo, discutindo sobre os nossos problemas e vamos sair daqui com uma proposta
para resolver o que for preciso. É assim mesmo?"
Maturuca tem uma população acolhedora e uma paisagem linda, porém a área é de difícil acesso,
serras e mais serras. As roças estão nas serras, no meio das ilhas de mata e a gente fica pensando:
Carregar os paneiros cheios de produtos subindo e descendo serras só para gente valente.
São quase trinta anos de organização e luta contra fazendeiros, garimpeiros, militares, arrozeiros e
políticas anti-indígenas. Com isso os parentes de Roraima estão mais fortes, mais amadurecidos e
capazes de lutar e exigir seus direitos.
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Na Assembléia o governo se fez presente através do Ministério Público estadual e federal, Polícia
Federal, Funai estadual e federal, Ibama e alguns representantes do Senado. A igreja católica foi
bem representada por suas misionárias/os que vivem na região e por quem os indígenas
demonstravam muito carinho e respeito. O CIMI (Conselho Indigenista Missionários, órgão da
CNBB) é grande aliado do CIR e da causa indígena durante seus trinta anos de caminhada, muito
contribuiu nas reflexões sobre a situação na qual vivem os povos indígenas e, de maneira particular,
sobre a situação de Roraima. Nós estivemos lá, escutando e encorajando as/os parentes indígenas e
reanimando nosso compromisso com a defesa dos direitos e do dom da vida.
Foi formada uma comissão para ir até ao presidente Lula. Diante das inúmeras denúncias feitas
pelos povos indígenas da região o ponto alto foi ter articulado com o IBAMA, a FUNAI e outros
órgãos para trabalharem mais próximos.
Dentre as falas fortes destacamos algumas que relembravam as denúncias anteriormente feitas sem
serem resolvidas:
Tuxaua Jacir, Makuxi, Coordenador do CIR (Conselho Indígena de Roraima)
Todo mundo, toda autoridade vem aqui e diz: “Eu vim aqui escutar”. Como disse o pessoal da
Polícia Federal: “Ah, eu sou novato e vim aqui escutar”. Ou como dizem outros: “Eu vim aqui
aprender com vocês”. E eu fico pensando, já são 33 anos de Assembléia e nós sempre contando
nossos problemas. Os tuxauas vêm aqui e contam todos os problemas que sofrem no dia-a-dia em
suas aldeias e nada é feito.
As autoridades dizem: “Vamos devagar”. Enquanto isso os políticos, arrozeiros e invasores de
nossas terras vão se organizando e planejando o jeito de acabar com nós, índios. Assim não dá
minha gente! Vamos resolver alguma coisa. Os doutores já ouviram, agora vamos resolver alguma
coisa.
Jacir brincou com a responsável do IBAMA dizendo-lhe: Eu vou amarrar à senhora no esteio do
meio do malocão e só vamos lhe tirar quando o presidente Lula assinar a homologação da Raposa
Serra do Sol.
Tuxaua Orlando, Macuxi, Tuxaua do Uiramutã
Nossa Mãe Terra está triste e sendo contaminada pelos não índios. Os garimpeiros, fazendeiros e
arrozeiros se enriquecerem com nossas riquezas, enriqueceram-se explorando o nosso trabalho,
nossa terra e nossos bens. Eu pergunto as autoridades: E ainda vão dar indenização para eles?
Não deveria ser o contrário? Não deveríamos ser nós os indenizados pelo uso e maltrato que eles
fizeram da nossa terra? Nós exigimos nossos direitos, exigimos respeito. Eu sofro desde criança
nas mãos dos fazendeiros. Hoje já estou velho e não vejo muita mudança. Até quando nós vamos
ter que agüentar essa violência e discriminação? Como será o amanhã das nossas crianças?
Estamos muito preocupados. Queremos ajuda dos nossos amigos para conseguir a homologação
em área contínua. Não queremos nossa Mãe Terra dividida em ilhas.
Tuxaua Gregório, Macuxi, coordenador Regional das Serras (74 comunidades!)
Nossa luta é contra os fazendeiros, contra os garimpeiros, militares e agora, também contra os
municípios. Já temos bastantes problemas como o alcoolismo e a prostituição gerando divisão
entre nós. Isso tudo enfraquece a luta pela nossa terra. Os parentes da Guiana foram enganados
pelo governo municipal de Uiramutã que disse a eles: “Se acabar o município, vai acabar a
educação, a saúde e o comércio. Vocês irão sofrer sem nada disso”.
E continuou: O governo de Uiramutã contratou duas carreadas de parentes da Guiana para gritar
contra nós do Brasil, muitos deles estão aí na barreira passando mal. Os parentes não percebem
que os arrozeiros estão enganando eles. Mas quando acabar as migalhas que estão recebendo, eles
vão se arrepender. Os parentes deveriam estar fazendo suas roças.
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Tuxaua Dionísio, região do Surumu
Desde janeiro nós vivemos em clima de muita tensão, ninguém consegue trabalhar. Os parentes
que foram enganados pelos arrozeiros não sabem o que estão fazendo. Eles são pagos para dizer
que não querem a homologação da Raposa Serra do Sol. Que eles querem a terra dividida em
ilhas. Mas não pensam no futuro dos filhos deles. Invadiram a escola do Surumu e levaram toda a
alimentação que nós levamos para os nossos filhos que estudam lá. Quem vai assumir os prejuízos
de Surumu?
Tuxaua Marivaldo, de Baixo Cotingo
Estamos sentindo a falta de alimentação suficiente para a comunidade. Por isso lutamos pela
garantia de nossa terra. É da terra que tiramos nosso sustento e sem ela nós vamos passar fome,
nossos filhos precisam possuir a terra que é nossa para trabalharem nela e tirar o seu sustento.
Temos discutido a questão da auto-sustentação e decidimos fazer além da roça familiar, uma roça
comunitária e ver em que investir com o produto dessa roça.
Tuxaua Jerônimo
Durante muitos anos estamos sofrendo nas mãos dos fazendeiros, garimpeiros, arrozeiros e agora
pelos plantadores de acácia. Isso é uma desgraça, pois a terra vai ficando seca e logo mais não vai
servir para nada. Muitos tuxauas foram enganados, receberam duzentos reais e não pensaram no
mal que estavam fazendo para nós todos e para eles mesmos.
Tuxaua da Região do Amajari
Uma terra indígena em ilhas quem sofre é o jovem e a criança, pois eles têm que ir embora para
buscar seu sustento em outro lugar. Por isso estamos na luta pela homologação da Raposa Terra
do Sol em área contínua. Queremos desenvolver projetos criados e mantidos por nós, índios.
Tuxaua Olavo Wapixana, Serra da Lua (18 comunidades)
Nossa terra continua invadida por garimpeiros e arrozeiros. Nós somos muitos índios e a terra já é
pouca para nós viver bem. Temos que conseguir a homologação já. Vamos lutar até o fim para ter
de volta a terra que temos direito e que foi deixada para nós, pelos nossos antepassados.
Tuxaua Waldeci Wai-Wai
Estamos aqui para apoiar a luta dos parentes da Raposa Serra do Sol. Já está na hora do governo
assinar e fazer a aprovação no papel.
Marino Yanomami, professor, Catrimani
Os garimpeiros e fazendeiros trazem cachaça e todo mundo está bebendo. Estão queimando nossa
floresta, por isso venho aqui contar para os parentes e para nós lutar juntos. Yanomami está
sofrendo muito.
Tuxaua Carreira Yanomami
Nós viemos aqui para junto com os parentes makuxi, lutar pela nossa terra. Em Surucucu os
garimpeiros trocam alimentação com os Yanomami. Os garimpeiros estão dando arma de fogo
para o yanomami matar outro yanomami. Em Papiu tem muito garimpeiro sujando o rio. Como que
nós, yanomami, vamos tomar água? Estamos muito preocupados.
Enilton, coordenador da Organização dos Professores Indígenas de Roraima (OPIR)
Nossa situação está cada vez mais difícil. Fomos ameaçados por estarmos apoiando a luta dos
tuxauas. Nós continuamos enfrentando todo tipo de perseguição, nossa terra continua invadida e
nós desrespeitados.
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Vários pontos nós queremos denunciar:
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A polícia do município de Normandia está a serviço dos políticos contra as comunidades
indígenas.
Os garimpeiros continuam invadindo e poluindo nossos rios (02 balsas no rio Maú).
Os fazendeiros e arrozeiros continuam ampliando suas fazendas e arrozais.
Somos proibidos pelos não índios de caçar e pescar em nossas próprias terras.
Nossos rios, lagos e meio ambiente estão sendo poluídos e destruídos.
Sentimos vergonha de que tenha nomes de lideranças indígenas na lista dos “gafanhotos”.
Descontrole de bebida alcoólica.
O meio ambiente está comprometido, tem muito lixo, sujeiras e maltrato.
Existem matadores clandestinos.
A plantação de 70 mil hectares de acácia-manjo é gerar no futuro um deserto nessa região.
Retirada descontrolada de piçarra.
Estão recuperando as estradas vicinais em terras indígenas.
Ampliação da lavoura de arroz está causando o soterramento de lagos.
Os agrotóxicos usados pelos arrozeiros continuam causando danos e população.
Interiorização da energia. Como vai ficar a energia onde já tem?
Os arrozeiros estão mudando o curso dos rios para beneficiar seus arrozais.
As lideranças levantaram questionamentos aos representantes dos órgãos públicos:
Yolanda: Como fica a situação dos parentes do lado da Guiana que tiram documentos do lado do
Brasil? O que as autoridades estão fazendo para resolver esse problema?
Gorete: Como vocês estão vendo as problemáticas de Roraima? Qual é o plano de trabalho para
resolver os problemas que ameaçam a vida de nós povos indígenas?
Osmundo, Amajari: Como fica o caso de fazendeiros que proíbem nós indígenas de caçar e
pescar nas matas e rios por eles cercados?
Valdeci, tuxaua de Guariba: Que providências o Ministério Público está tomando quanto às
atitudes abusivas dos fazendeiros que apreenderam as armas dos caçadores indígenas e que
ameaçam as comunidades?
Etevaldo, Canauani: Que providência está sendo tomada quanto aos fazendeiros que estão
cercando as terras com arame elétrico deixando os indígenas ilhados?
Titonho: Como fica a situação dos brancos que incitam e financiam as atitudes dos parentes para
ficarem contra nós?
Walter, São Miguel: Quais são as medidas tomadas aos vendedores de bebida alcoólica e aos
arrozeiros?
Abrain: O que estão fazendo para impedir as construções de estradas em meio às terras
indígenas?
Ana: Não temos raiva dos nossos parentes que estão contra nós. Tenho pena deles. Como fica o
caso da indenização a família do parente Aldo que foi assassinado a mando do sr. Chico Tripa,
fazendeiro na região?
Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR): O que fazer com os casos de
meninas que vão trabalhar na casa de não índios aí ficam sem estudar e por cima ainda voltam
grávidas?
As respostas dadas pelos representantes do governo não satisfizeram as lideranças indígenas.
Exigiram que fossem tomadas algumas medidas mais urgentes e encaminhassem as demais. Foi
criada uma Comissão, liderada pelo Conselho Indígena de Roraima (CIR) e seus aliados na luta,
assim como pelos representantes dos órgãos públicos. Essa Comissão irá a Brasília dialogar com o
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governo federal e exigir que ele tome as providências quanto às reivindicações dos povos indígenas
de Roraima e dê melhores condições de trabalho aos órgãos públicos para que exerçam suas
funções.
Realmente estar em Maturuca numa situação de grande expectativa dos indígenas quanto a possível
homologação foi uma experiência diferente. O desejo de que o nosso governo tivesse um ato digno
ao assinar a homologação era muito forte, porém sabíamos que estava longe de vir acontecer.
Sabíamos que as negociações com os políticos do Estado de Roraima eram difíceis. E o próprio
governo não entende nada de índio e nem considera as contribuições de seus filiados e
simpatizantes que poderiam assessorá-lo. Então, com essa omissão do governo os anti-indígenas da
região ganham força, articulam-se e tramam suas maldades contra os povos indígenas, a igreja e as
pessoas aliadas e defensoras da causa indígena. Mesmo com essa dor, ainda deu para renovar a
esperança e acreditar que nem tudo está perdido e que os povos indígenas conquistarão seus
direitos.
O tuxaua Jacir reanima a gente quando cheio de convicção abre a boca e afirma com determinação:
Nós vamos lutar até o fim, até quando o último índio resistir.
Com isso a gente é capaz de cantar: Se é pra ir pra luta eu vou, se é pra estar presente estou...
A verdade é que aumenta o desejo de somar com a igreja de Roraima e com as Organizações
Indígenas, ainda que seja uma soma mínima, como, por exemplo, estar junto em algumas
atividades.
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2004-02 Relatório Ass