A “ÁREA” DA GEOGRAFIA NO CURSO DE GEOGRAFIA E HISTÓRIA DA FACULDADE CATÓLICA DE FILOSOFIA DE SERGIPE (1951-1962)1 João Paulo Gama Oliveira (Doutorando NPGED/UFS/Membro do GPDEHEA/ Professor da Faculdade Atlântico e da SEED-SE) [email protected] História do Ensino Superior. História das Disciplinas. Professores de Geografia. O presente estudo busca investigar quem foram os professores das disciplinas da “área” da Geografia, dentro do curso de Geografia e História da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe (FCFS) no período de 1951 a 1962, no qual as duas áreas formavam um só curso, como também perquirir o que era ensinado nesse curso de formação de professores, o pioneiro na área em Sergipe. Dessa forma em um primeiro momento investigamos a história que perpassa a formação destas cátedras mesmo antes de chegar a formar o curso de Geografia e História da FCFS, somente depois analisamos o desenrolar das mesmas no curso em foco, lançando o olhar para seus docentes. Por meio da pesquisa de Roiz (2004) temos uma visão do curso de Geografia e História da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo (USP), cujo primeiro professor, Pierre Deffontaines nos idos de 1934, ensinava ainda de forma conjunta a Geografia Física e Humana. Licenciado em 1919 pela Sorbonne na área de História e Geografia, um ano depois recebeu o diploma de estudos superiores em Geografia. Doutor em letras pela Sorbonne publicou vários trabalhos e alguns ex-alunos e depois professores da USP lhe atribuem à organização dos estudos geográficos brasileiros. Outro professor de Geografia daquela instituição foi Pierre Monbeig, também francês, que além de licenciado em Letras, possuía certificado de Geografia Geral, ex-aluno de Demangeon e De Martonne e com atuação profissional como docente em liceus franceses e conferências sobre a Geografia antes de chegar à USP. Foi um defensor da divisão da cadeira, resultando na contratação de Emmanuel de Martonne para ministrar um curso de Geografia Física em 1937 naquela universidade. Após o curso e com várias orientações proferidas por Martonne no sentido da separação da cátedra, essa ocorre no ano seguinte, assumindo a cadeira João Dias da Silveira (ROIZ, 2004). Nosso intuito aqui não é fazer uma genealogia, nem uma história da Geografia no país, mas mostrar como ela surge em um curso que pode ter influenciado na formação do curso de Geografia e História da Faculdade Nacional de Filosofia e consequentemente da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe (FCFS). Nesse sentido nota-se como a Geografia dentro do curso da USP, “nasce” como uma cadeira e desdobra-se em duas fazendo uma “separação” do conhecimento que estaria voltado para a Geografia Física ou para a Geografia Humana, é com essa formatação que a Geografia chega à faculdade católica sergipana. Na FCFS no curso que fornecia duas habilitações até mesmo o número de disciplinas era separado de maneira uniforme. Segundo o regimento da instituição datado de 1950, as disciplinas diretamente vinculadas à área de Geografia eram: XXI. Geografia Física, XXII. Geografia Humana, XXIII. Geografia do Brasil, assim distribuídas e contando com estes professores: QUADRO 01: PROFESSORES DAS DISCIPLINAS DE GEOGRAFIA DO CURSO DE GEOGRAFIAE HISTÓRIA DA FCFS (1951-1962) Série Disciplinas Professor (a) Formação Período de atuação Geografia Física Maria Thétis Nunes Licenciada em Geografia e 1951-1952 1ª História Petru Stefan Engenheiro 1953-1955 Cleonice Xavier de Oliveira Licenciada em Geografia e 1956 História Fernando de Figueiredo Engenheiro 1957 -1963 Porto Geografia Humana Felte Bezerra Odonto Clínico 1951-1952 José Bonifácio Fortes Neto Bacharel em Ciências 1953-1968 Jurídicas e Sociais Geografia Física Petru Stefan 1952-1955 2ª Cleonice Xavier de Oliveira 1956/1 João Aragão* ---------1956/2 Fernando de Figueiredo 1957-1963 Porto Geografia Humana Joaquim Fraga Lima Médico 1952 José Bonifácio Fortes Neto 1953-1968 Geografia do Cleonice Xavier de Oliveira 1954-1956/1 3ª Brasil Severiano Pessoa Uchôa Bacharel em Ciências 1956/2-1962 Jurídicas e Sociais FONTE: Quadro elaborado com base na documentação da FCFS, como relatórios semestrais, cadernetas, jornais, revistas e entrevistas. *Não conseguimos localizar nenhum dado sobre sua formação. As distintas formações acadêmicas compõem o quadro de professores da área de Geografia do curso em foco: duas licenciadas em Geografia e História pela Faculdade de Filosofia da Bahia: Maria Thétis Nunes e Cleonice Xavier de Oliveira e ainda um médico, um odonto clínico, dois advogados, dois engenheiros e um professor cuja formação não foi identificada. Na época da criação do curso de Geografia e História, início da década de 1950 do século XX, período do surgimento dos cursos superiores em Sergipe, existia uma carência de professores para compor o corpo docente do mesmo, possibilitando assim certa mobilidade aos professores mesmo entre as duas habilitações que o curso propunha formar. Por exemplo, Felte Bezerra de início ensina Geografia Humana, mas depois passa para a Etnologia e também a Etnografia do Brasil, já Maria Thétis Nunes migra da Geografia Física lecionada em 1951 para a História do Brasil a partir de 1952. Dentre os professores das disciplinas vinculadas totalmente a Geografia aqueles que possuem um maior tempo de atuação e guardados nas memórias dos ex-alunos estão: o professor Bonifácio Fortes de Geografia Humana e Fernando Porto de Geografia Física. Esses além de aulas expositivas também empreenderam pesquisas pioneiras que muito contribuíram para o início das atividades científicas na área da Geografia no estado de Sergipe. Vejamos um pouco mais de quem foram os professores que conduziram tais disciplinas e quais assuntos abordaram, compactuando com a ideia proposta por Goodson de que esses devem ser vistos como “portavoces de lãs comunidades de lãs disciplinas, aparecem implicados em uma elaborada organizácion del conocimento” (GOODSON, 1998, p. 101). São como porta-vozes dos conhecimentos da Geografia que partimos para uma análise de um perfil dos docentes do curso em foco. A Geografia Humana na faculdade sergipana em meados do século XX A disciplina de Geografia Humana desdobrava-se em duas, presentes na primeira e segunda série do curso de Geografia e História. O docente responsável pela primeira série do curso nos anos de 1951 e 1952 foi Felte Bezerra. Já em 1952 com o início do funcionamento da segunda série, Joaquim Fraga Lima leciona a mesma. Um ano depois José Bonifácio Fortes Neto assume até o final da década de 60 do século XX. Em entrevista, Dantas (2010) corrobora com essa afirmação, ao falar sobre a “Geografia Humana com Bonifácio Fortes, e essa era uma cadeira que antes era de Felte, quando Felte assume a área de Antropologia essa cadeira passa para Bonifácio”. A ex-aluna, assim como os demais entrevistados não recordam o nome de Joaquim Fraga Lima, todavia consta na documentação da Faculdade, inclusive com seu nome no programa da disciplina citada, como também na lista de docentes daquele ano na instituição. Conforme Santana et. all (2009) Joaquim Fraga Lima, nasceu em Paripiranga-BA, fez seus estudos superiores na Faculdade de Medicina da Bahia em 1925. Especializando-se em Leprologia e com vasta atuação nessa área aposentou-se com quarenta e um anos de serviço público. Mas diante desse currículo como se deu o ingresso na disciplina de Geografia Humana do curso de Geografia e História da FCFS? A explicação pode está na nomeação para catedrático de Geografia Geral e do Brasil do Atheneu Sergipense no ano de 1933. Sua atuação no magistério lhe rendeu certo reconhecimento no campo2 da docência e diante da criação de um curso de Geografia e História em Sergipe e da exiguidade de professores surgiu assim um convite para ali ministrar suas aulas. Porém, pouco tempo passou na instituição o que nos induz pensar sua atuação como provisória enquanto não se conseguia outro docente, fato corriqueiro na FCFS. Outro professor da disciplina trata-se de Felte Bezerra. Da odontologia a docência. De dentista a professor de Geografia Humana da FCFS. Um pouco da trajetória de Felte Bezerra na Geografia pode ser entendida com o auxílio de Dantas e Nunes (2009), conforme as pesquisadoras, Felte começa lecionar Inglês no Atheneu Sergipense, logo depois ensina Geofísica e Cosmografia e em 1938 presta concurso para Geografia com a tese “Da Terra”. Sua tese seria sobre a Geografia Física, mas posteriormente seus trabalhos encaminham-se para a Geografia Humana e daí para a dimensão cultural do homem, assim “a Geografia, foi, portanto, via de acesso e para contextualizar essa passagem – que para Felte é dupla, passa da Geografia Física para a Geografia Humana e desta para a Antropologia” (DANTAS e NUNES, 2009, p. 46). Vejamos o que fala o próprio Felte sobre o ensino de Geografia Humana: Se bem que a princípio [...] houvesse cuidado de adquirir conhecimento no campo das ciências naturais, na minha especialidade (geografia física e astronômica), senti-me pouco a pouco seduzido pela geografia humana, cujos conhecimentos procurei alargar, mesmo por dever profissional. Daí a natural atração do estudo do homem em relação com o meio cultural (no triplo conceito de Taine), e principalmente da espécie humana. Vi-me, portanto, insensivelmente mergulhado no estudo das raças humanas. Da antropologia física, é fácil passar para a etnologia (antropologia cultural), terreno que vou me fixando de modo definitivo, ao que tudo indica (A Cruzada, 25 de Dezembro de 1952). Essa é a fala do professor de Geografia Humana Felte Bezerra, o docente de Geografia do Atheneu Sergipense, com um reconhecido capital simbólico3 que lhe possibilitou uma indicação para assumir a cátedra assim que a Faculdade foi criada. O ensino da Geografia Humana do professor Felte rompia as salas de aula do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, local que inicialmente funcionou os cursos da FCFS. Em carta recebida em dois de abril de 1951 Roger Bastide incentiva a pesquisa e mesmo ciente das dificuldades, ressaltou: “Posto que o Senhor ocupa a cátedra da Geografia Humana na Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe – espero que forme aí alguns discípulos a fim de que possam ajudá-lo doravante e forme em torno de si uma boa equipe de trabalho”(BASTIDE, 1951, apud. DANTAS e NUNES, 2009, p. 200), Roger Bastide finaliza a carta com votos de futuros trabalhos. Estudos que Felte realizou com mais profundidade na Etnologia e Etnografia do Brasil, pois sua passagem pela Geografia Humana na primeira série do curso de Geografia e História durou apenas dois anos cedendo lugar ao professor José Bonifácio Fortes Neto. Bonifácio Fortes se consagrou como o nome da Geografia Humana no curso permanecendo ali por quinze anos. Mas qual a formação que concedia o capital cultural necessário a permanência e legitimação de Bonifácio Fortes como o professor de Geografia Humana do curso de Geografia e História? Algumas pistas podem ser seguidas. Segundo Santos (2010) a “Geografia Humana era dada por Bonifácio [...] muito estudioso, preocupado inclusive de fazer pesquisa sobre a área sergipana. Ele tem trabalhos sobre Aracaju, sobre Itabaiana...”. Ibarê Dantas (1998) auxilia no entendimento de quem foi este docente. Nascido em Aracaju, estudou no Jardim de Infância Maynard Gomes, no Colégio Nossa Senhora da Glória e no Colégio Tobias Barreto, concluiu seus estudos secundários no Atheneu Sergipense. Desde cedo, se interessou pela atividade jornalística, aos dez anos cria um jornalzinho datilografado, chamado O Radial, como estudante do Atheneu, revitalizou o Grêmio Clodomir Silva e editou o jornal A Voz do Estudante. Outros indícios foram localizados no discurso de saudação proferido por José Silvério Leite Fontes diante da posse de Bonifácio na Academia Sergipana de Letras. Bonifácio participou da equipe de redatores de O Nordeste, Sergipe Jornal, Gazeta de Sergipe e A Cruzada, apresentou um programa na Radio Aperipê, e tornou-se correspondente do Diário da Bahia. Em 1945 prosseguiu seus estudos na Faculdade Direito da Bahia, participou do Centro Acadêmico Rui Barbosa ocupando o cargo de bibliotecário. Em 1948 prestou concurso de suficiência para lecionar História Geral e História do Brasil, aprovado em primeiro lugar, trabalhou na Escola Normal Rui Barbosa e no Colégio Tobias Barreto (FONTES, 1981). Mas a atuação de Bonifácio Fortes não se restringiu a ao cargo de professor de História de algumas escolas públicas aracajuanas, lecionou Geografia Humana no curso de Geografia e História da FCFS (1953-1968) além de Estética (1953-1954) e História do Brasil (1956/2). Segundo Dantas (1998) Bonifácio participou da Escola de Serviço Social lecionando Noções de Direito (1954-1961) e Direito do Menor (1956-1959) e ainda na Faculdade de Direito, sua área de graduação, atuando na área de Direito Constitucional (19571964) e Direito Administrativo a partir de 1960. Ano que também é aprovado em concurso para Juiz do Trabalho, dividindo suas tarefas entre a docência e a magistratura. Bonifácio também exerceu a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (1967-1969). Com propriedade, Ibarê Dantas assim resume a atuação de José Bonifácio Fortes Neto: Como homem de seu tempo, formado dentro do ideário de esquerda dos anos quarenta e cinqüenta, preocupou-se com a igualdade e a justiça. Enquanto educador e magistrado, além de servidor burocrático, dedicado ao trabalho, contribuiu para a expansão da cidadania. Como escritor enriqueceu as ciências humanas, especialmente a Ciência Política, trabalhando com temas pouco explorados entre nós, desvelando os segredos das eleições, da representação política, do poder e do Estado (DANTAS, 1998). Sobre essas várias áreas de atuação de Bonifácio Fortes, Silvério Leite Fontes nos ajuda a compreender, quando fala da “própria circunstancialidade da implantação do ensino superior em Sergipe compeliu-nos a ser polígrafos, embora dentro do marco das ciências humanas” (FONTES, 1981, p.38). Ressalta-se que Silvério e Fontes e Bonifácio Fortes foram companheiro do magistério tanto na Faculdade de Direito quanto na FCFS e na Escola de Serviço Social, ou seja, são dois professores que viveram efetivamente essa formação dos primeiros cursos superiores em Sergipe. Possivelmente a necessidade de um docente para a disciplina, aliado a dedicação e reconhecimento de suas aulas em outras instituições de diferentes graus de ensino e sua circulação no meio católico levou Bonifácio a assumir o posto de docente da FCFS. Todavia, sua permanência foi assegurada por um trabalho intenso com publicações, dedicação e até estudos fora do estado de Sergipe, como o Curso de Altos Estudos Geográficos na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil recebendo bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em 1956. Conforme Diniz: [...] a formação de Bonifacio Fortes foi assim: ele participou do Congresso Internacional de Geografia que houve no Rio de Janeiro, na década de 50 e ele fez os cursos que o pessoal deu depois do congresso. Você está lidando num país, numa época que praticamente toda formação era por pessoas curiosas, autodidatas, então os congressos científicos tinham uma preocupação muito séria de formar (DINIZ, 2010). Ainda conforme o entrevistado foi nesse congresso que Bonifácio Fortes conheceu Manoel Correia de Andrade, iniciando ali uma série de contatos, inclusive com uma visita do pernambucano estimulando a pesquisa dos alunos do curso de Geografia e História da FCFS, tendo em vista uma assembleia da Associação de Geógrafos Brasileiros realizada na cidade de Penedo-AL. Percebe-se aqui também que a rede de sociabilidade4 do professor Bonifácio Fortes extrapolava as terras sergipanas e seus contatos podem ter contribuído para atualizações e troca de experiência no tocante a Geografia lecionada na FCFS. Embora Diniz (2010) afirme que os livros trabalhados pelo docente apesar de clássicos já eram ultrapassados mesmo para aquela época. No tocante a formação “autodidata” dos professores dos cursos Geografia e História a qual Diniz (2010) também faz referência, essa se espalhava por quase todo o país, com raras exceções como o caso dos professores da área de Geografia do curso de Geografia e História da USP que desde a década de trinta, em sua maioria eram especialistas franceses, depois sendo substituídos por brasileiros já graduados no curso daquela instituição (ROIZ, 2004). Embora com pesquisas incipientes, sem o rigor metodológico e o aparato necessário para maiores empreendimentos, alguns professores da área da Geografia na FCFS também efetuaram trabalhos pontuais, mas significativos para estudos posteriores. Silvério Fontes classifica a obra de Bonifácio Fortes e cita sua produção relacionada a “história, geografia e sociologia”, tendo em vista que até a década de sessenta em Sergipe poucos conseguiam trabalhar de forma especializada em determinada área do saber, como disse o mesmo autor em outro lugar eles eram “polígrafos” (FONTES, 1981). Mas quem foi o professor Bonifácio cravado na memória dos seus alunos do curso de Geografia e História da FCFS? Bonifácio era visto como sinônimo de responsabilidade e competência na área da Geografia da faculdade e um estudioso dessa ciência em terras sergipanas. Suas excursões, amizades dentro e fora da sala de aula, comprometimento em incentivar a pesquisa e carisma como professor, são relembrados pelos entrevistados. “Bonifácio Fortes aquele era muito querido pelos alunos, porque ele era bonachão assim ...” (GONÇALVES, 2010). Pensamento com o qual concorda Diniz (2010) “Bonifácio Fortes, era muito mais amigo da gente, a gente até fazia excursão com ele ...” (DINIZ, 2010). Sobre as citadas excursões Dantas (2010) acrescenta: Uma das coisas que eu lembro, que não eram frequentes, mas aconteciam, eram as excursões. Por exemplo, alguns professores, sobretudo de Antropologia e da área de Geografia, faziam excursões. Hoje a gente chamaria de aula de campo. Então lembro muito que Bonifácio fazia muita excursão, tanto aqui pela cidade de Aracaju, quanto pelos municípios de Itabaiana, Lagarto. Muitas vezes ele ia junto com Fernando Porto. O padre tinha uma Kombi, a chamada Kombi do padre e as excursões eram todas feitas nessa Kombi. Aí ia Bonifácio, Fernando Porto e, às vezes, a gente começava a conversar e ele dizia isso não é um passeio, isso é uma excursão científica, olhe a paisagem, olhe a paisagem, e a gente ficava repetindo, olhe a paisagem (risos). Aí vinha Fernando Porto ficava chamando atenção pra ver as rochas e Bonifácio chamava atenção para a questão da ocupação do solo. Enfim, lembro muito disso, Bonifácio, às vezes, levava a esposa, levava os filhos, então era uma coisa assim meio científica, meio acadêmica, meio doméstica, e a gente acabou fazendo amizade com a mulher de Bonifácio, que até hoje a gente conserva essa amizade. Então a faculdade tinha essas coisas assim, a faculdade terminava sendo um pouco doméstica porque era pequena (DANTAS, 2010). A descrição da então aluna nos ajuda a entender um pouco mais do cotidiano das aulas daquela disciplina para além das salas de aula da Faculdade. As excursões seriam uma das atividades mais marcantes, o tom descontraído da viagem, próprio de jovens universitários e o “caráter doméstico” da FCFS, de fato muito pequena, chamam atenção na fala da entrevistada. Mas além das boas amizades e das brincadeiras das viagens, algumas ponderações sobre a disciplina podem ser efetuadas. Primeiro observa-se certa aproximação entre as disciplinas de Geografia Humana e Geografia Física, por meio dos seus professores. As viagens eram em conjunto e possivelmente buscassem agregar o entendimento dos alunos diante de determinados assuntos da Geografia. Pois, conforme afirma Silvério Fontes o trabalho de Bonifácio chamado “Evolução da Paisagem Humana na cidade de Aracaju” datado de 1955, constitui-se como uma continuação dos estudos de Fernando Porto sobre o início da evolução urbana de Aracaju (FONTES, 1981). Assim, as relações estabelecidas nas “disciplinas vizinhas”5 da Geografia Humana e Física, extrapolavam o ambiente do curso e frutificavam até mesmo em pesquisas pioneiras sobre a Aracaju de outrora. A frase do professor Bonifácio: “Olhe a paisagem, olhe a paisagem” repetida durante aquelas “excursões científicas” ou ainda “Bonifácio chamava atenção para a questão da ocupação do solo” mostram a valorização de determinados conteúdos da Geografia Humana, assim como a análise das rochas cobrada por Fernando Porto no viés da Geografia Física em suas falas ao longo das viagens que não ficavam circunscritas a capital sergipana, mas também adentravam outros municípios do interior do Estado, como Lagarto e Itabaiana. É curioso observar o título do trabalho de Bonifácio publicado em 1955: “Evolução da Paisagem Humana na cidade de Aracaju”, cotejado com a fala da ex-aluna percebemos um nítido interesse do docente pelo tema: “paisagem”. Com relação aos livros utilizados na disciplina, as pistas são raras, mesmo nas entrevistas, os alunos não recordam de autores e obras, até mesmo porque a prática era de copiar tudo que o professor falava, mas Diniz (2010) recorda de um livro em específico: “Geografia de Jeans Brunhes, Geografia Humana, e ele usava muito isso e eu comprei esse livro eu lia muito, usava muito, o livro de Jeans Brunhes é uma certa teoria da Geografia Humana e já totalmente ultrapassada na época, mas ainda assim era visto”. O depoimento do ex-aluno fornece uma noção das obras e autores utilizados e do conhecimento que era ensinado em um curso de formação de professores de Geografia e História. Traços da Geografia Física na Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe A disciplina de Geografia Física é recordada por ex-alunos como Santos (2010) falando das aulas do estrangeiro Petru Stefan, ou por Diniz (2010), sobre Fernando Figueiredo Porto, todavia a primeira docente dessa disciplina foi à professora Maria Thétis Nunes. Quando chegou a FCFS era a única mulher a compor o corpo docente da instituição. Além de ser a única graduada na área que ali lecionava. Formada pela Faculdade de Filosofia da Bahia e catedrática de História Geral do Atheneu Sergipe, durante dois anos conduziu a Geografia Física no curso de Geografia e História, depois começou a lecionar História do Brasil, ficando a Geografia Física com os ensinamentos de Petru Stefan. Petru Stefan engenheiro formado pela Academia de Minas de Freiberg Saxônia na Alemanha (CONÇEIÇÃO, 2010). Vindo da Romênia chega a Sergipe no início da década de cinquenta com vinte oito anos de idade e casado com a Srª. Renate Stefan, de origem também romena. Imediatamente passou a compor o quadro de funcionários do Instituto de Tecnologia e Pesquisa de Sergipe e o corpo docente da Escola de Química a convite de Antônio Tavares de Bragança (MENESES e SANTOS, 2006). Sobre as aulas do professor na FCFS, Santos relata: Houve um episódio muito gozado. Nós tivemos um professor inteligentíssimo e dificílimo da gente entender, que era o doutor Petru Stefan. Ele havia vindo da Alemanha fugido da guerra, ele o professor Tony Sancu, que foram aproveitados na Escola de Química considerada a melhor do nordeste. O Petru Stefan foi aproveitado na Geologia, ele não sabia falar português, então ele falava, falava, a gente copiava, quando a gente ia ler não entendia nada, achávamos gozado, então a gente começava a rir e ele uma vez quase nos expulsou da aula, porque nós estávamos rindo das loucuras que a gente copiava, pois ele falava com muita dificuldade (SANTOS, 2010). Levando-se consideração que as aulas eram copiadas em detalhes para com aquelas anotações os alunos estudarem para as avaliações, tendo em vista a escassez de livros, é possível vislumbrar a dificuldade do entendimento do que falava aquele estrangeiro recémchegado ao Brasil. Além disso, cabe ressaltar o clima de irreverência e descontração, tão mencionado pelos entrevistados ao fazer menção aos anos que estudaram naquele curso e a denominação que a aluna faz da disciplina: “Geologia”, possivelmente esse era um dos assuntos com maior ênfase nas aulas de Geografia Física. Ao ser questionada pelas aulas de Geografia Física Maria Lígia Madureira Pina, assim responde: “Geografia Física era Petru Stefan, do qual faziam a maior propaganda, como o sétimo homem mais sábio do mundo!” (PINA, 2010). Percebe-se o reconhecimento que Stefan tinha por parte dos sergipanos, ao deixar a disciplina assume outro engenheiro. Estudamos também alguns aspectos da trajetória Fernando de Figueiredo Porto. Segundo a descrição do seu perfil em sua obra “Alguns Nomes Antigos da cidade de Aracaju” publicada em 1991, este estudioso nasceu no município de Nossa Senhora das Dores – SE nos idos de 30/05/1911, fez seus estudos básicos nos Colégios Tobias Barreto e Atheneu Sergipense, formou-se em Engenharia de Minas pela Escola de Minas de Ouro Preto, sendo colega de Faculdade de José Rolemberg Leite, governador do Estado de Sergipe na época da criação da FCFS. Fernando Porto como ficou conhecido, atuou como político, engenheiro e professor. Foi prefeito da cidade de Própria – SE no período de 1933-1934, dirigiu várias instituições de renome no Estado, lecionou na Escola Técnica de Sergipe por várias décadas, como também na FCFS e na UFS. Apesar das opiniões sobre suas aulas serem um tanto quanto díspares: “Era outro que era chato. Eu não gostava dele não. Ele morava em minha rua, mas... era Geografia ele ensinava Geografia” (GONÇALVES, 2010). Ou segundo sua parente Adelci Figueiredo Santos (2010) “Maravilhoso como professor e inteligentíssimo”, e ainda Dantas (2010) nos fala “Eram dois professores terríveis, na minha concepção (risos), era Fernando Porto e Silvério”. Muito exigente! Assim ficou guardado na memória dos seus ex-alunos. O ensino de Geografia do Brasil em Sergipe Segundo Roiz (2004) a Geografia do Brasil surge na USP na década de quarenta no terceiro ano do curso. Tal disciplina situa-se no terceiro ano do curso, justamente depois dos alunos cursarem durante dois anos os assuntos de Geografia Humana e Geografia Física de maneira mais geral e então entender um pouco mais da Geografia do Brasil. No curso de Geografia e História da FCFS a Geografia Física começou a ser lecionada no ano 1953, contando com dois docentes: Cleonice Xavier de Oliveira e Severino Pessoa Uchôa. Da professora Cleonice Xavier só sabemos que fez seu curso superior de Geografia e História na Faculdade de Filosofia da Bahia e ao regressar a Sergipe começa lecionar na FCFS. Já Severino Pessoa Uchôa, radicado em Sergipe desde 1930, no governo de Augusto Maynard era um conhecido professor de Geografia, tendo sua principal obra “Brasil Chapéu de Couro”, primeiramente publicado pela Revista O Cruzeiro e em 1964 em forma de livro. Desde 1949 fez parte da Academia Sergipana de Letras ocupando a cadeira do também professor Arthur Fortes. Secretario da Faculdade de Direito, diretor do Instituto de Educação Ruy Barbosa, representante da Agência Nacional, e presidente da Comissão Estadual do Salário Mínimo e diretor do Diário de Sergipe, além de professor da FCFS. (Revista da Academia Sergipana de Letras, nº 29, Setembro de 1984). A condição de professor da FCFS concomitante ao cargo de diretor do Instituto de Educação Ruy Barbosa, possibilitava convites a alunas do professor Severino Uchôa para lecionar naquela escola de formação de professores, como relata Maria Lígia Madureira Pina (2010): Quando eu estava no terceiro ano da Faculdade, faltou professor na Escola Normal e professor Uchôa, Severino Uchôa, era professor nosso e diretor [...] Era professor da Faculdade de Filosofia e era diretor da Escola Normal. Ele convidou-me a lecionar lá. Mas isso tudo depois de consultar o Ministério da Educação e tudo mais. Fui ensinar História, para cinco turmas que tinham ficado sem aula na Escola Normal. Foi meu primeiro emprego (PINA, 2010). Nota-se mais uma vez como as relações de amizade diante de uma Aracaju ainda pequena na qual os contatos eram vitais para a entrada do magistério. Outro ponto digno de destaque concerne à aluna ingressar no magistério mesmo antes de terminar o curso, algo muito comum para as estudantes da instituição que realmente se interessavam em seguir a carreira docente, tendo em vista as vastas possibilidades que o curso proporcionava, devido ao seu reconhecimento perante a sociedade aracajuana, ocorria até mesmo certa disputa pelas exalunas do curso na FCFS. As disciplinas e os professores da “área” de Geografia da FCFS formaram a coluna basilar do curso de Geografia, após a separação da História, algumas se desdobram, outras são incorporadas, mas após sete anos da lei federal nº 2. 594 datada de 08 de setembro de 1955, o curso de Geografia adquire vida própria na FCFS desligando-se da História. Algumas disciplinas, ainda tiveram aulas em conjunto, como às pertencentes ao antes curso de Didática ou mesmo outras como a História Econômica e Geral do Brasil e Antropologia Cultural que faziam parte do novo currículo de ambos os cursos. Assim buscamos delinear aqui uma história das disciplinas da “área” da Geografia do curso de Geografia e História, apontando como os professores aqui arrolados fizeram parte da formação de então alunos e futuros professores tanto da História quanto da Geografia enquanto o curso esteve unido por onze anos e depois estes docentes forneceram o tom do nascente curso de Geografia em terras sergipanas. REFERÊNCIAS BOURDIEU, Pierre. Razões Práticas. Sobre a teoria da ação. Trad. Mariza Corrêa. Papirus Editora. Campinas: 1996. ___________. O campo intelectual. In: Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004. CAMPOS, Antonio Carlos. O espaço da Geografia na História da UFS. UFS – História dos Cursos de Graduação. In: ROLEMBERG, Stella Tavares. SANTOS, Lenalda Andrade. São Cristóvão – SE, 1999. P. 149-158. CHERVEL, André. “História das disciplinas escolares: reflexões sobre um campo de pesquisa”. IN: Teoria & Educação, nº. 2, 1990, p. 177-229. CONCEIÇÃO, Claudileuza Oliveira da. 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Realizada em 13 de fevereiro de 1960, Relatório Semestral da FCFS – 1960/1. FACULDADE CATÓLICA DE FILOSOFIA DE SERGIPE. Programas de Ensino de Geografia do Brasil. Relatórios Semestrais, 1952-1962. ENTREVISTAS CONCEDIDAS AO AUTOR: DANTAS, Beatriz Góis Dantas. Ex-aluna do curso de Geografia e História da FCFS. Entrevista concedida a João Paulo Gama Oliveira em 3 de Junho de 2010. Aracaju-SE. DINIZ, José Alexandre Felizola. Ex-aluno do curso de Geografia e História da FCFS. Entrevista concedida a João Paulo Gama Oliveira em 1º de Junho de 2010. Aracaju-SE. GONÇALVES, Maria de Matos. Ex-aluna do curso de Geografia e História da FCFS. Entrevista concedida a João Paulo Gama Oliveira em 29 de maio de 2010. Aracaju-SE. PINA, Maria Lígia Madureira Pina. Ex-aluna do curso de Geografia e História da FCFS. Entrevista concedida a João Paulo Gama Oliveira em 08 de Junho de 2010. Aracaju-SE. SANTOS, Adelci Figueiredo. Ex-aluna do curso de Geografia e História da FCFS. Entrevista concedida a João Paulo Gama Oliveira em 10 de Junho de 2010. Aracaju-SE. 1 O presente estudo constitui-se como parte da dissertação de mestrado defendida no Núcleo de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe, desenvolvida com bolsa CAPES e sob a orientação da Prof. Dra. Eva Maria Siqueira Alves. Para outras informações consultar Oliveira (2011). 2 Segundo Pierre Bourdieu “os campos são os lugares de relações de forças que implicam tendências imanentes e probabilidades objetivas. Um campo não se orienta totalmente ao acaso. Nem tudo nele é totalmente possível e impossível em cada momento” (BOURDIEU, 2004, p. 27). O campo se constitui assim em recortes maleáveis produzidos no espaço social, local em que ocorrem disputas de posições entre os agentes, com o objetivo de aumentar determinado capital simbólico. 3 Pierre Bourdieu chama de capital simbólico “qualquer tipo de capital (econômico, cultural, escolar ou social) percebido de acordo com as categorias de percepção, os princípios de visão e de divisão, os sistemas de classificação, os esquemas classificatórios, os esquemas cognitivos, que são, em parte, produto da incorporação das estruturas objetivas do campo considerado, isto é, da estrutura de distribuição do capital no campo considerado [...] O capital simbólico é um capital com base cognitiva, apoiado sobre o conhecimento e o reconhecimento” (BOURDIEU, 1996, p.149/150). É principalmente dialogando com o “conhecimento e reconhecimento” que o capital simbólico proporciona aos agentes de determinado campo que utilizamos esse conceito ao longo do texto. 4 As “estruturas de sociabilidade” são entendidas, conforme explica Sirinelli, para este pesquisador: “Todo grupo de intelectuais organiza-se também em torno de uma sensibilidade ideológica ou cultural comum e de afinidades mais difusas, mas igualmente determinantes, que fundam uma vontade e um gosto de conviver. São estruturas de sociabilidade difíceis de aprender, mas que o historiador não pode enganar ou subestimar” (SIRINELLI, 1996, p. 248). É nesse sentido que utilizamos o conceito rede de sociabilidade. 5 André Chervel notou que ao analisar a história de uma disciplina – no seu estudo uma disciplina escolar - não podemos deixar de observar as relações que ela mantém com as disciplinas vizinhas (CHERVEL, 1990). No curso de Geografia e História da FCFS notamos as relações próximas entre algumas “disciplinas vizinhas”.