PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP RAFAEL DOS SANTOS NUNES A FORMAÇÃO E EDUCAÇÃO DO NEGRO PELO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (TEN) – UM ESTUDO A PARTIR DAS PÁGINAS DO JORNAL “QUILOMBO” (1948-1950) MESTRADO EM EDUCAÇÃO: HISTÓRIA, POLÍTICA, SOCIEDADE SÃO PAULO - SP 2012 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP RAFAEL DOS SANTOS NUNES A FORMAÇÃO E EDUCAÇÃO DO NEGRO PELO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (TEN) – UM ESTUDO A PARTIR DAS PÁGINAS DO JORNAL “QUILOMBO” (1948-1950) MESTRADO EM EDUCAÇÃO Dissertação apresentada à banca examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de mestre em Educação pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade. Orientador: Prof. Doutor José Geraldo Silveira Bueno SÃO PAULO - SP 2012 RAFAEL DOS SANTOS NUNES Dissertação de Mestrado: A formação e educação do negro pelo Teatro Experimental do Negro (TEN) – um estudo a partir das páginas do jornal “Quilombo” (1948‐1950) São Paulo, PUC/SP, 2012 ERRATA Página 14 Onde se lê: “industrialização promoveu, tal como afirmou Chalhoub, uma concentração de trabalhadores” Leia‐se: “industrialização promoveu, tal como afirmou Chalhoub (1986), uma concentração de trabalhadores” Página 16 Onde se lê: “O período do populismo intensifica a presença das massas” Leia‐se: “O período do populismo de Getúlio Vargas intensifica a presença das massas” Página 18 Onde se lê: “Junto a essas reivindicações estavam também o acesso ao voto pelo analfabeto” Leia‐se: “Junto a essas reivindicações estavam também o acesso ao voto do analfabeto” Página 21 Onde se lê: “surgiu o Teatro Experimental do Negro (tem)” Leia‐se: “surgiu o Teatro Experimental do Negro (TEN)” Página 47 Onde se lê: “especificamente contra os que negam os nossos direitos, sinão em especial para fazer lembrar” Leia‐se: “especificamente contra os que negam os nossos direitos, sinão (sic) em especial para fazer lembrar” Página 58 Onde se lê: “Péricles Leal traça a trajetória do tem” Leia‐se: “Péricles Leal traça a trajetória do TEN” Página 66 Onde se lê: “A educação pensada e feita pelo tem” Leia‐se: “A educação pensada e feita pelo TEN” Banca examinadora: _______________________________________ _______________________________________ _______________________________________ Dedicatória A Bruna Rosa Barreto Fonseca Dias Nunes, minha companheira, amada, cúmplice e responsável por segurar a minha “onda” nos momentos mais difíceis desta trajetória, sem ela nada disso seria possível, à nossa linda filha, Maria Rosa; À minha mãe, Dona Lió, e a meu pai, Seu Antônio, que verdadeiramente acreditaram em meu potencial e testemunharam esta caminhada tão “correria” desde o início, assim como minha irmã, Mada, e meus irmãos: Aurino, in memoriam, Zé Botafogo, Afonso, Pedro (Cocada), Antônio (Boca), João(Bode) e Tião; À minha sogra e mãe, Dona Ligia, às minhas cunhadas e irmãs, Bibi e Brenda, ao meu sogro e companheiro, Maurício Dias, agradeço pelo apoio, incentivo e compreensão; À equipe da Fundação Carlos Chagas, responsável, no Brasil, pelo IFP: International Fellowships Program – Ford Fundation, em nome de Fúlvia Rosemberg. Agradecimentos Agradeço a Deus pela força por não me deixar fraquejar frente às dificuldades. Agradeço a todos os familiares e amigos que colaboraram direta e indiretamente para a realização desta pesquisa acadêmica. Certo de que a dedicação a este trabalho foi um empreendimento familiar, agradeço a todos e todas que possibilitaram que eu dissertasse sobre esta temática. À Fundação Ford e Fundação Carlos Chagas, pelo apoio sem o qual seria difícil ter vivido a experiência de cursar o mestrado na PUCSão Paulo; Ao meu orientador, o prof. José Geraldo Silveira Bueno, pela dedicação na leitura de meus escritos; A todos e todas bolsistas da Ford, especialmente a Mazé e o José Carlos; Ao meu amigo Marquinhos; A Kely Lud e ao Flávio pelo apoio; A Lia Maria dos Santos de Deus, irmã-companheira crucial neste momento; Aos EnegreSeres pela parceria e base para a construção desta trajetória acadêmica, em especial Dilmar Durães, Ana Luiza Flauzina, Wilton Santos e Silvio Rangel. Ao meu querido Lunde, responsável por me apresentar o Quilombo e por comparecer neste momento tão crucial desta empreitada. Sumário Introdução ....................................................................................................... 11 Capítulo I Contexto Social do Brasil e do Rio de Janeiro nas décadas de1940/1950........ 13 1.1. O contexto brasileiro ................................................................................. 13 1.2. O desenvolvimento do Rio de Janeiro na 1ª. metade do Século XX... 14 1.3. A educação na época.................................................................................. 16 1.3.1. A educação da população negra........................................................... 18 Capítulo II O Teatro Experimental do Negro como expressão localizada da efervescência cultural do pós guerra......................................................................................... 22 2.1. A literatura.................................................................................................... 22 2.2. O rádio.......................................................................................................... 23 2.3. O cinema....................................................................................................... 26 2.4. O teatro......................................................................................................... 27 2.5. O surgimento do Teatro Experimental do Negro......................................... 29 2.6. Os objetivos e atuação do Teatro Experimental do Negro............................ 33 Capítulo III A imprensa e a educação do negro: O Jornal Quilombo....................................... 43 3.1. A imprensa negra no Brasil: os antecedentes do jornal Quilombo................. 44 3.2. O jornal Quilombo.......................................................................................... 45 Considerações finais.............................................................................................. 66 Referências bibliográficas.................................................................................... 67 A FORMAÇÃO E EDUCAÇÃO DO NEGRO PELO TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO (TEN) – UM ESTUDO A PARTIR DAS PÁGINAS DO JORNAL “QUILOMBO” (1948-1950) RESUMO As décadas de 1940 e 1950 foram marcadas por profundas transformações políticas e socioeconômicas no Brasil, com a Era Vargas e o final da segunda Guerra Mundial. Através desses acontecimentos surge uma gama de movimentos sociais na luta por democracia e melhores condições de vida. Em razão de a cidade do Rio de Janeiro ser a Capital Federal à época, tornou-se o principal foco das transformações no período. No ano de 1944, surge o Teatro Experimental do Negro (TEN), um movimento social de negros que constituiu um legado de lutas que semearam e promoveram transformações para a população negra através das representações artísticas, dos estudos sobre o negro e pela inclusão dos negros e da valorização de sua identidade. O TEN desenvolveu suas ações em meio a uma nova configuração de sociedade, que propiciou profundas mudanças nos movimentos sociais, sobretudo em período de tantas turbulências. Neste trabalho, a atuação do TEN é analisada por meio de pesquisa empírica do jornal Quilombo, vida, problemas e aspirações do negro, produzido pelo próprio TEN, e que representa a fonte primária para essa empreitada. Iniciando pelo contexto histórico do Rio de Janeiro do período, as condições que vivia o Brasil, enfocando a participação dos negros e suas condições sociais e posteriormente apresentando aspectos da história do TEN e seus desdobramentos principalmente nos aspectos ligados a educação, o presente trabalho procura analisar e a apresentar as relações com educação presentes nos textos escritos do jornal Quilombo, descortinadas através de exame do conteúdo do jornal,com foco nas relações com a formação pela educação e escolaridade, valorização da cultura e do esclarecimento da população em geral em meio às particularidades da população negra. Palavras chaves: Educação, Cultura Negra, Política, Memória Coletiva. TRAINING AND EDUCATION OF THE BLACK PEOPLE BY THE EXPERIMENTAL THEATER OF BLACK PEOPLE (TEN) - A STUDY FROM THE PAGES OF NEWSPAPER "QUILOMBO" (From 1949 up to 1950) ABSTRACT The 1940’s and 1950’s were target by deep political and socioeconomic transformations in Brazil, with the Vargas Era and the end of the II World War. Through these events emerges a social movements in the struggle for democracy and better living conditions. As the city of Rio de Janeiro was the Federal Capital at the time, became the main focus of the changes in the period. In 1944, the Teatro Experimental do Negro (TEN) started, a social movement of black people that was a legacy of struggles they have sown and promoted changes to the black population through artistic representations, the studies on the blackness and the inclusion of black poblation and recovery of your identity. TEN developed their actions in the midst of a new configuration of society, which led to profound changes in social movements, especially in times of turmoil. In this paper, the performance of the TEN is analyzed by means of empirical research journal Quilombo, life, problems and aspirations of blackness in Brazil, produced by the TEN and represents of the primary source for this action. Beginning by the historical context of the Rio de Janeiro period, the living conditions in Brazil, focusing on the participation of blacks people and their social conditions and presents aspects of the history of TEN and its consequences especially in aspects related to education, this paper seeks to analyze and present relations with education found in texts written at the newspaper Quilombo, unveiled by examination of newspaper content, focusing on relations with the training and education for education, appreciation of culture and enlightenment of the general population among the peculiarities of the black population. Keywords: Education, Black Culture, Politics, Collective Memory. Lista de Siglas e Abreviaturas IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística INN – Instituto Nacional do Negro ISEB – Instituto Superior de Estudos Brasileiros PUC – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo TBC – Teatro Brasileiro da Comédia TEN – Teatro Experimental do Negro UNE – União Nacional dos Estudantes UNESCO – Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura. INTRODUÇÃO A escolha desse tema surgiu devido a minha relação com as artes cênicas. Minha predileção por essa temática começou com a inserção ainda na adolescência, no teatro, e que desembocaria em aprovação no curso de artes cênicas na Universidade de Brasília, onde concluí a graduação no ano de 2006 com monografia Contribuições Negras para as artes cênicas e para a luta contra o racismo na escola: uma experiência impossível de ser ocultada. Desde a graduação, constatei a pouca produção sobre o teatro negro no Brasil, consciente do valoroso arcabouço teórico e histórico que esta ceara aporta para a memória coletiva brasileira enquanto reflexão ao sistematizar um instrumento de intervenção educacional, a escolha por esta temática tornar-se-á uma verve que conflui nesta dissertação. Importa ressaltar que, ao longo do curso, não foi oferecida nenhuma matéria que debatesse o Teatro Experimental do Negro. Entretanto, imerso em buscas intelectuais paralelas ás ofertas acadêmicas, ao longo da graduação, descobri a existência do Teatro Experimental do Negro (TEN), as quais subsidiam pesquisas a partir das quais pude desenvolver a minha monografia, destacando aspectos do TEN, sobretudo de sua trajetória artística e educativa. No ano de 2009, fui selecionado pelo programa internacional de bolsas da fundação Ford, no qual desenvolvi essa pesquisa no programa de pós-graduação em Educação: História, Política, Sociedade da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Como desdobramento das ideias lançadas na monografia e particularizando a influência educativa do TEN, podemos considerá-lo como um coletivo que mobilizou várias instâncias sociais e políticas, que realizou atividades nas áreas de teatro, artes plásticas, educação de adultos, imprensa, congressos políticos, seminários de formação e organizações de mulheres negras, no tocante à educação para a promoção social da população negra brasileira. Assim, retomo a pesquisa aprofundando a problemática na qual se insere o TEN, procurando desvendar as estratégias de educação presentes neste movimento e que são referendadas no jornal Quilombo. No primeiro capitulo da presente pesquisa, apresento os aspectos gerais da situação educacional, da composição populacional e das relações sociais e culturais que marcaram as décadas de 1940 e 1950na cidade do Rio de Janeiro. Esse período escolhido compreende os anos em que foi criado o jornal Quilombo, que utilizo como fonte primária na pesquisa. 11 A população brasileira é destacada no primeiro capítulo, que apresenta dados demográficos e a sua participação nos aspectos destacados na educação, com foco na população negra. O segundo capítulo traça um panorama da vida política e cultural brasileira. Nesse período a antiga Capital Federal concentra as principais transformações sociais, assiste a uma crescente participação popular, e conhece a ascensão da cultura de massa, representada pela popularização do rádio, cinema e teatro, aqui abordados de forma a pontuá-los como ícones da modernidade no Brasil . É também abordada a história do Teatro Experimental do Negro, identificando elementos da sua organização, seus objetivos e motivação em luta contra a discriminação racial e pela formação cultural e educacional do negro. O terceiro capítulo apresenta a análise documental dos números 1 a 10 do jornal Quilombo. Órgão oficial do TEN, o jornal Quilombo, produzido de julho de 1948 a dezembro de 1950, apresenta as demandas e as aspirações do povo negro daquele período. O foco desta pesquisa foi a análise das dez edições do jornal Quilombo, visando identificar aspectos formativos e educacionais da população negra. 12 CAPITULO I CONTEXTO SOCIAL DO BRASIL E DO RIO DE JANEIRO NAS DÉCADAS DE 1940 E 1950 1.1. O Contexto Brasileiro As décadas de 1940 e 1950 foram marcadas por transições significativas na história brasileira, pois apresentaram mudanças no cenário político, cultural, social e econômico que marcaram a transição para modernidade no país, iniciada no século XX, com acelerado processo de industrialização e crescimento demográfico das áreas urbanas, principalmente no centro-sul, mais precisamente nos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Essas transformações pontuam a presença de classes sociais que surgem no bojo do capitalismo no Brasil e que dão as bases para a transformação do país, onde surge um projeto de modernização que marcaria toda a sociedade. Segundo Ortiz, A partir das primeiras décadas do século XX, o Brasil sofre mudanças profundas. O processo de urbanização e de industrialização se acelera, uma classe média se desenvolve, surge um proletariado urbano. Se o modernismo é considerado por muitos um ponto de referência, é porque este movimento cultural trouxe consigo uma consciência histórica que até então se encontrava esparsa na sociedade (1994, p.39-40). A nova configuração da referida modernidade levou à construção de uma ideia de nacionalização de toda a sociedade brasileira, tal projeto fez emergir sujeitos que até então não eram legitimados como brasileiros; trata-se da presença dos negros, dos oriundos das classes rurais que passam a pertencer como autênticos cidadãos desse país moderno. Com a revolução de 1930, que marca o inicio da Era Vargas até o final da segunda guerra mundial, em 1945, o país viveu sob a égide da ascensão do imperialismo norte americano e declínio do britânico e por uma política interna expressada na explosão do populismo e dos regimes de exceção, reflexo do que aconteceu também na esfera mundial: A primeira fase de 1930 a 1945 fica marcada por grande efervescência política e por uma luta ideológica intensa. Começa em ambiente de relativa liberdade, para desembocar, em 1935, em medidas de exceção, e culminar, 13 em 1937, com o estabelecimento do Estado Novo; essa evolução assinala o clima de controvérsias. É reflexo, também, do que ocorre no mundo, com ascensão fascista, já anterior, em Portugal e na Itália, e a nazista, de 1933, na Alemanha, para não falar no militarismo japonês (SODRÈ, 1974, p. 69). Essa fase marcou também o posicionamento dos intelectuais frente ao contexto mundial e local, e, nesse sentido, a cidade do Rio de Janeiro era um celeiro das atividades intelectuais naquele momento. Sobre este assunto, Sodré escreve: “É, pois, uma fase em que os intelectuais são chamados a assumir posições políticas e a levar para as suas criações tudo o que essa participação revela ou impõe” (1974, p. 69). Com a queda do Estado Novo, que culminou com a convocação da Assembleia Constituinte e a consequente promulgação da Constituição Federal de 1946, iniciou-se um período de grande participação política, com ações de movimentos e partidos político na busca de um regime democrático e com a intervenção de segmentos que almejavam transformações na educação e na cultura. Se esse processo de urbanização e industrialização promoveu, tal como afirmou Chalhoub, uma concentração de trabalhadores vivendo em precárias condições, fruto da concentração de riqueza inerente ao capitalismo, por outro lado, fez surgir movimentos acadêmicos e populares que visavam à construção de um país em que sujeitos até então marginalizados pelas forças das oligarquias assumissem o papel de protagonistas da cidadania, ainda que formal. Pontua-se aí o surgimento de uma sociologia que vai pensar o negro no contexto da urbanização e da modernização; também nesse bojo há uma construção cultural que visa analisar o Brasil conforme suas tradições, suas múltiplas identidades, na qual a presença negra tem expressão e contribuição na formação da cultura brasileira, bem como é expressivo que esse projeto de nação surja da mistura racial que semeia traços peculiares na formação do país. 1.2. O desenvolvimento do Rio de Janeiro na primeira metade do século XX A cidade do Rio de Janeiro, como capital federal, concentrava grande fluxo migratório, já que na época era a maior cidade do país. Por esse motivo, esboço um 14 pequeno panorama da Capital do País, enfocando sua posição frente ao processo de urbanização e das relações sociais que ali se desenvolveram. Suas condições geográficas e econômicas definiam a sua importância como capital federal: Um dos elementos essenciais, numa sociedade política, é o estabelecimento da sua capital, isto é, do centro não só de seu pensamento político, mas também o arsenal de suas forças defensivas e ofensivas. Pela sua origem, uma capital pode ser natural como Paris, Londres ou Rio de Janeiro, ou artificial como Petrogado foi, como são Madrid e Washington. A fundação do Rio de Janeiro é posterior à descoberta do Brasil de mais de meio século; a sua escolha como capital é também muito posterior à sua fundação. Isto é, antes de ser apreciada a sua posição no mapa, como centro político, já eram aproveitadas as vantagens da sua situação topográfica, como cidade capaz de desenvolvimento (CARVALHO, 1994, p. 107). Como capital federal, além de reunir um grande contingente de funcionários públicos de todas as categorias, possuía uma imensa massa de trabalhadores, na medida em que, além de ser o centro político da nação, congregavas grandes setores industriais da construção civil, meios de transportes e grande comércio de importação, bem como de uma imensa gama de pequenos comerciantes do setor varejista que se espalhavam por toda a cidade. Toda esta concentração de atividades produtivas redundou em número significativo de habitações coletivas, que ofereciam condições precárias de vida (CHALHOUB, 1986). A constituição da população do Rio de Janeiro do final do século XIX até a década de 1950 sofreu grandes transformações, com aceleração populacional devido ao desenvolvimento industrial e expansão do capitalismo: A demografia da cidade testemunha transformações importantes em sua estrutura populacional nas ultimas décadas do século XIX e na primeira década do século XX. Em 1872 moravam na capital 274 972 pessoas; em 1890 este número cresce para 522 651, atingindo a 811 443 em 1906. A densidade populacional era de cerca de 247 habitantes por km² em 1872, passou a 409 em 1890 e a 722 em 1906. Neste ultimo ano, o Rio de Janeiro era a única cidade do Brasil com mais de 500 mil habitantes, e abaixo dela vinham São Paulo e Salvador, com apenas um pouco mais de 200 mil habitantes cada uma (CHALHOUB, 1986, p. 24-25). O mesmo autor argumenta que tal crescimento tem ligações com as migrações de escravos para a zona urbana desde o final do século: Este crescimento populacional acelerado está estreitamente vinculado à migração de escravos libertos da zona rural para a urbana, à intensificação da imigração e as melhorias nas condições de saneamento. Os dois primeiros fatores explicam algumas características peculiares da demografia da cidade nos últimos anos do Império e nos primórdios do período republicano. O Rio de Janeiro concentrava um grande contingente 15 de negros e mulatos– o maior de todo o Sudeste (CHALHOUB, 1986,p.225). Já em 1940, de acordo com o censo do IBGE deste mesmo ano, a população brasileira era composta por 41,2 milhões de habitantes, sendo 35,8% negros ou pardos. Por esse mesmo censo, verifica-se que a população total da cidade do Rio de Janeiro era de 1,8 milhões. Embora não tivéssemos a oportunidade de acesso aos dados sobre a composição racial da população da cidade, aplicando-se o percentual nacional teríamos, aproximadamente, 645 mil habitantes negros ou pardos. No censo de 1950, o IBGE indicou a existência de 54 milhões de habitantes no Brasil, com um percentual de 11% de negros e 27% de pardos, ou seja, quase três por cento a mais que os dados da década anterior. Se a população do Rio de Janeiro atingia o total de 2,3 milhões de habitantes, aplicando-se o percentual nacional, teríamos uma população negra e parda da ordem de 874 mil habitantes. 1.3. A educação na época A educação no período final do Império e início da República se organizou respondendo aos interesses da classe dominante: de um lado uma escola que formava as elites, com ensino primário e secundário que desembocava no ensino superior e, de outro, o ensino profissional, destinado a formação da força de trabalho para crianças órfãs, abandonadas ou miseráveis. Mas, mesmo assim, a maior parte da população não tinha acesso à escola, ainda que de cunho profissional (CUNHA, 1991). O período do populismo intensifica a presença das massas na escola. As escolas de elite são subproduto, que incorpora as massas de imigrantes que se deslocam das áreas rurais para urbanas. Esse momento mostra que a educação escolar teve pequeno efeito sobre a grande massa, mesmo com a intervenção do Estado, em sua característica populista e extremismo patriótico, não se avançou na distribuição de educação efetiva, ou seja,à massa trabalhadora. O máximo a ser oferecido era uma escola primária precária e, de outro lado, uma escola de qualidade para a elite, primordialmente oferecida pela iniciativa privada. Entretanto, com o crescimento dos processos de industrialização: 16 As exigências de uma sociedade em evolução para o capitalismo, nela já entrada– não discutindo as formas e as deformações dessa evolução– não se colocam apenas no terreno da instrução, isto é, da aquisição dos instrumentos de cultura, no plano da redução ou liquidação do analfabetismo; vão mais longe, colocando a necessidade de fornecer conhecimentos a camadas mais numerosas, pois o mercado de trabalho dito qualificado e de trabalho intelectual amplia-se a cada passo. Trata-se assim de formar, número crescente de pessoas dotadas de dimensão intelectual compatível com as exigências e complexidade da nova sociedade (SODRÉ, 1974, p. 72). Se estas transformações se espraiaram pelo País, não se pode negar a importância do papel que a cidade do Rio de Janeiro exerceu no campo da educação: “A importância da experiência do Distrito Federal é bastante grande não apenas no que concerne a educação de adultos, mas ao movimento educativo de modo geral” (PAIVA, 1983,p.171). A educação foi nesse período motivo de intervenção ideológica onde, por um lado, grupos revolucionários pensavam a educação como fomento para a formação das massas pobres, na tentativa de programar a participação popular, entre esses grupos estava o Partido Comunista Brasileiro que voltava à legalidade. Por outro lado, o Governo também utilizava a educação como meio de divulgar o seu poder e controle através do sistema educativo. Através da educação, sobretudo da educação de adultos, tanto as esquerdas como o Estado passaram a intervir no sentido de ampliar as oportunidades de educação para adultos bem como a difundir a cultura com foco na formação das massas; nesse período surgem os Centros de Cultura Popular e as Universidades Populares onde fica nítido a valorização da cultura popular e da arte e a ênfase na educação das massas (PAIVA, 1983, p.176). Importa ressaltar que, oficialmente, a preocupação do Estado com a educação de adultos vem desde os anos de 1920, mas a partir dos anos de 1940 intensificou-se, com a participação dos setores populares, com a volta do Partido Comunista à legalidade, que gerou a construção dos Comitês Democráticos onde havia participação das bases através dos bairros e municípios das grandes cidades. Segundo Paiva, No Distrito Federal os Comitês Democráticos começaram a estudar a situação educativa dos bairros, reivindicando do poder publico não somente a ampliação das verbas destinadas à educação como também uma melhor aplicação das mesmas e a coordenação da iniciativa privada e do estado, a fim de tornar possível o atendimento educativo e a assistência as camadas mais pobres (PAIVA, p.173). 17 Junto a essas reivindicações estavam também o acesso ao voto pelo analfabeto e a intensificação de movimentos de alfabetização visando à formação consciente dos setores populares, propostas de campanhas para criação de bibliotecas populares e espaços escolares que permitissem a difusão da cultura e do interesse político através da formação das classes menos favorecidas. No meio rural também houve iniciativas educacionais através de missões culturais voltadas para a “difusão do ensino rural” (PAIVA, 1983, p.198), que lograram êxito nos anos de 1950, mas que, vale problematizar, tinham um objetivo de inibir a migração rural-urbana. Entre as iniciativas pela educação, da parte oficial, encontram-se campanhas pela educação de jovens e adultos, a instituição do supletivo com alargamento das escolas para intensificação do ensino, a I Conferencia Nacional de Educação, em 3 de novembro de 1941. No tocante à situação educacional, o IBGE mostrou que nos anos de 1940 32,24% da população brasileira sabiam ler e escrever, um total de 13.292.605; e 67,26% não sabiam nem ler nem escrever, um total de 27.735.140; e que não declararam o nível de instrução 208.570, ou seja, 0.50% da população. Já em 1950, 49,31% sabiam ler e escrever, um total de 14.916. 779; 50,49% não sabiam nem ler e nem escrever, um total de 15.272.632 de habitantes; e 0.20%, um total de 60.012, não declararam o nível de instrução. 1.3.1. A educação da população negra O pós-abolição não garantiu ao negro as condições para que a sua educação fosse abonada, nem nos primeiros anos de República tal acesso foi garantido; ao contrário, manteve-se a ideologia imperial de dominação e subjugação dos descendentes de escravos: A educação escolar brasileira é herdeira direta do sistema discriminatório da sociedade escravagista sob dominação imperial. Mesmo tendo deixado de existir, o escravagismo deixou marcas persistentes na escola atual, apesar do avanço do capitalismo no Brasil e de alguns períodos de maior abertura do sistema político(CUNHA,1991,p. 31). 18 Apesar de a educação em geral tentar atingir as massas excluídas, tal acesso à educação era ainda marcado pela discriminação racial. Esse era um traço forte da formação brasileira, estando a educação, quando permitida, voltada para a formação de mão-de-obra. Outra relação que importa ressaltar é que a presença da população negra na educação nem sempre foi colocada nas fontes oficiais da história da educação. Essa condição é ressaltada por Cruz (2005). Para ela, À margem desse processo têm sido esquecidos os temas e as fontes históricas que poderiam nos ensinar sobre as experiências educativas, escolares ou não, dos indígenas e dos afro-brasileiros. O estudo, por exemplo, da conquista da alfabetização por esse grupo; dos detalhes sobre a exclusão desses setores das instituições escolares oficiais; dos mecanismos criados para alcançar a escolarização oficial; da educação nos quilombos; da criação de escolas alternativas; da emergência de uma classe média negra escolarizada no Brasil; ou das vivências escolares nas primeiras escolas oficiais que aceitaram negros são temas que, além de terem sido desconsiderados nos relatos da história oficial da educação, estão sujeitos ao desaparecimento (CRUZ, 2005, p.22-23). Cruz (2005) pondera que os estudos sobre a educação dos negros só ganharam visibilidade a partir da década de 1960,sendo relegados os períodos anteriores onde essa vivência poderia ser relatada, haja vista que foi um momento de considerada ampliação das escolas no Brasil. Para a autora, Há cerca de 43 anos a história da educação brasileira tem seu espaço no currículo de formação do educador como uma disciplina especifica. Porém observando-se a bibliografia nesta área, teremos a nítida impressão da inexistência de experiências escolares dos negros em período anterior à década de 1960, quando a rede publica de ensino sofre vasta expanção do numero de vagas (CRUZ, 2005, p.21). Em se tratando da escola oficial, as condições para a participação dos negros eram bastante difíceis, mas é importante ressaltar que, ainda assim, eles estiveram sempre presentes, embora sob a descrença em relação a sua capacidade intelectual, cujos resultados não poderiam ultrapassar a ascensão intelectual de uma pequena parcela, desde o início do período republicano (BARBOSA, 1997 apud CRUZ, 2005, p. 29). Importa ressaltar que a ideia de uma educação que visa formar e oferecer melhores condições de vida na sociedade daquele período foi almejada pelos grupos negros organizados, como foi o caso da Frente Negra Brasileira (1931-1937), em São Paulo, que mobilizou e organizou milhares de negros sobre o lema: Congregar, Educar e Orientar (NASCIMENTO, 2003; ROMÃO,2005; PEREIRA, 2008). 19 Em 1945, no fim da Segunda Guerra, já surge o Teatro Experimental do Negro, em momento de grandes mudanças, com o final do Estado Novo decorrente de lutas pela redemocratização, que culminariam com a promulgação da Constituição em 1946, através da Assembleia Nacional Constituinte. Do ponto de vista cultural, a década de 1940 revela um período de forte presença de atividades ligadas a uma cultura popular e de massa, quando também se intensificam os apelos por uma identidade nacional de cultura brasileira, ainda que reflexo do início da construção de uma sociedade de massas oriundas da zona rural e que desencadeou o processo de urbanização acelerada. O período marca a ascensão do rádio, televisão, cinema, música, e o crescimento do teatro, motivado por forte ascensão capitalista e avassaladora comunicação de massa, mas também por um conjunto de iniciativas voltadas para a disseminação da cultura para as camadas populares. Esse crescimento populacional, com elevada proporção de habitantes negros, propiciou o surgimento de organizações negras, a exemplo da Associação Nacional para o Progresso dos Homens de Cor (1909), a Liga Urbana (1911), os sindicatos negros, A Confraria dos Carregadores dos Vagões-Leitos (1925), entre outras que neste período aspiravam aos anseios por liberdade e integração (Cf. LARKIN NASCIMENTO, 2003; TAVARES, 1988). Outro ponto importante relacionado ao período foi o momento internacional de movimentos sociais na luta pela valorização do negro, sobretudo das organizações negras nos Estados Unidos que floresceram durante o pós-guerra. As lutas pela descolonização lançavam as bases da discussão racial, que futuramente redundariam no aprofundamento da consciência negra e da disseminação dos movimentos pelos direitos civis. No Brasil desenvolveu-se um processo político no período da década de 40, que favoreceu o surgimento do TEN e das forças sociais de caráter reivindicatório. Para Tavares, após os vinte anos de existência do TEN, sua atuação reflete que o teatro soube utilizar com qualidade o momento crítico vivido pelo Brasil: No plano interno, o TEN nasceu numa conjuntura altamente critica, pois com a crise do Estado Novo é apresentado um leque de novas questões, 20 permitindo que os fluxos ideológicos e sociais se encarregassem de nutrir os caminhos da redemocratização, com um novo pensamento e com novas propostas para explicação do que vinha ser o Brasil. O contexto nacional da década de 1940 é bastante significativo para o estudo do debate travado no período subsequente, especialmente quanto ao problema do negro (TAVARES, 1988,p. 82). Essa problemática levantada sobre a condição do negro foi motivo da organização de grupos negros em movimentos políticos, e de alguns pensadores não negros, como Florestan Fernandes, Roger Bastide e Costa Pinto, passarem, ainda neste período, a produzir estudos sobre as relações raciais no Brasil. Nesse panorama, a trajetória dos grupos negros procurou unir as lutas culturais e políticas, privilegiando a educação, ainda que de forma não escolar, como prioridade em suas ações, e visando oferecer ao povo negro possibilidades de formação. Com o reconhecimento cultural e valorização da escolarização do povo negro surgiu o Teatro Experimental do Negro (tem),no Rio de Janeiro, que será estudado no próximo capitulo . 21 CAPÍTULO II O TEATRO EXPERIMENTAL DO NEGRO COMO EXPRESSÃO LOCALIZADA DA EFERVESCÊNCIA CULTURAL DO PÓSGUERRA As décadas de 1940 e 1950têm nas manifestações culturais um momento de desenvolvimento, sobretudo nos grandes centros brasileiros, onde as expressões culturais e a imprensa ocupam espaços na vida cotidiana da população do Brasil, num primeiro momento, motivadas pela luta ideológica que começa com a efervescência política nos cenários local e internacional a partir dos anos de 1930 até 1945, com a incorporação das técnicas de cultura de massa decorrentes do desenvolvimento do capitalismo (SODRÉ, 1976). Do ponto de vista cultural, as décadas de 1940 e 1950 revelaram um período de forte presença de atividades ligadas a uma cultura popular e de massa, quando também se intensificam os apelos por uma identidade nacional de cultura brasileira, ainda que reflexo do início da construção de uma sociedade de massas que tinha a população, em sua maioria, oriunda da zona rural, passando para a urbanização acelerada, sobretudo nos grandes centros das regiões centro-sul do país. Tal período marca também a ascensão dos meios de comunicação –imprensa, rádio, televisão –, e das manifestações culturais que se intensificam, por exemplo, no cinema, na música e no teatro; de um lado, impulsionados por uma nova fase do capitalismo brasileiro, com avassaladora comunicação de massa e, de outro, por um conjunto de iniciativas voltadas para a disseminação da cultura para as camadas populares. 2.1. A Literatura Na literatura surge a ficção nordestina de caráter documentário, com Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, que contribuíram para a formação de leitores nesse período, e que têm, em comum com as outras manifestações artísticas, a relação com o público da pequena burguesia (SODRÉ,1976) 22 2.2. O Rádio O rádio na década de 1920 começava a atuar no Brasil de forma inibida, mas a partir da revolução de 1930, a publicidade representou um dos principais pilares do desenvolvimento desse veículo de comunicação, que até 1935 era não comercial. Com a publicidade foi se constituindo num promissor instrumento comercial, sobretudo, tornando-se em pouco tempo o mais importante veículo de difusão da cultura de massa do país: A radiodifusão no Brasil, após um período de infância nos anos vinte, desenvolveu-se rapidamente, depois da revolução de 1930, vindo a superar de longe o cinema como instrumento de cultura de massa. O desenvolvimento das relações capitalistas, no Brasil, afetou o desenvolvimento do rádio particularmente através da publicidade comercial. Em pouco tempo, o rádio superou a imprensa, como veículo publicitário. O impulso que levou o rádio a essa posição de vanguarda alicerçou-se, em nosso caso, na sua associação a dois grandes motivos, já capazes de mobilizar multidões: o futebol e a musica popular (SODRÈ, 1974, p. 92). A expansão da publicidade fez com que o rádio atingisse os grandes grupos populacionais daquele momento e, praticamente, tudo o que era transmitido pelas ondas do rádio alcançava bastante popularidade: Com o rádio surgem espetáculos como os programas de auditórios, músicas variadas e especialmente a radionovela, introduzida no Brasil em 1941. Esta última logo se constituindo produto típico do sistema radiofônico da época; entre 1943 e 1945, a Radio Nacional chegou a produzir 116 novelas num total de 2985 capítulos ( ORTIZ, 1991,p.40). Nesse sentido, o rádio esteve ligado a interesses muito mais comerciais do que culturais, pois na prática era como um negócio, não como instrumento de cultura (SODRÈ, 1974, p.93). 23 Ortiz reflete que a ligação entre rádio e publicidade era orgânica e que eles se estruturavam através de processo de comercialização. E que era comum o trânsito entre publicitários e radialistas: Quando se observa o trajeto de vários profissionais dos meios de comunicação, damos conta da intensidade com que se realizava a corrente entre a esfera da produção radiofônica-televisava e os meios publicitários. Walter Clark inicia sua carreira como escritor de rádio, trabalha na agência Interamericana e só depois se desloca para a TV Rio, onde se transforma em diretor de vendas. Boni trabalhava na parte de criação da Lintas, esteve na TV Rio e na Rádio Bandeirantes antes de se fixar na Rede Globo de Televisão. O itinerário de uma pessoa como Arquimedes Messina é revelador: cantor, ator de rádio-teatro, galã de radionovela, compositor de musica de carnaval, termina sua carreira como publicitário, especializandose em jingles. Os exemplos poderiam ser multiplicados. Eles certamente expressam uma vivência única, pessoal, mas a trama dessas lembranças aponta para esse traço social mais amplo, o da mobilidade entre as áreas da publicidade e da produção cultural (1991, p. 85-86). Ao mesmo tempo em que servia aos interesses comerciais, o rádio foi o meio pelo qual a produção cultural de membros não oriundos da elite social passou a ser divulgada: Foi a música popular que avançou consideravelmente, no Brasil, acompanhando a rápida urbanização de nossas populações. A urbanização, pois, foi seu primeiro fator de desenvolvimento; o segundo esteve, sem dúvida, na existência e prestígio crescente de uma festa popular e urbana, fundada particularmente na música e na dança, que foi o carnaval (SODRÈ, 1974, p. 100-101). Verifica-se, portanto, o quanto o rádio torna-se o mais importante veículo de comunicações de massa nesse período, e que, posteriormente, seria substituído pela televisão que só surgiria nos grandes centros urbanos do país: em São Paulo, no ano de 1950, e no Rio de Janeiro, em 1951. A importância do rádio foi o da popularização da música, do futebol e da política para as massas. Sobre este assunto, escreve Sodré: 24 Futebol e música colocados pelo rádio junto as multidões e por elas consagrados, constituíram, desde logo, além de tudo, na divisão do trabalho cada vez mais ampla e complexa que o capitalismo em desenvolvimento alimentava, no Brasil, espetáculos que permitiram notoriedade e enriquecimento a elementos oriundos de camadas populares, muitos deles provindo mesmo do proletariado (1976, p. 94) Sodré também ressalta que o rádio proporcionou o enriquecimento de um pequeno grupo de negros e mulatos que se transformaram em artistas de renomada notoriedade e de prestígio econômico, passando a ideia de que a grande massa também podia passar portal mobilidade: Note-se: a notoriedade e o enriquecimento de negros e mulatos, transformados em estrelas, privilegiou alguns, não a massa dos que praticavam o futebol ou se dedicavam a música popular. Privilegiando alguns, entretanto,– antes sem possibilidade de alcançar tais formas de sucesso– o rádio dava a ideia de que podia fazer o mesmo com todos (SODRÉ,1976,p. 95). Essa colocacão sugere o poder de inserção do rádio junto a classes populares, pois se ele oferecia possibilidades de mobilidade social de um número ínfimo de pessoas oriundas de classes sociais menos favorecidas que até então não viam essa probabilidade, através da radiodifusão a grande maioria das pessoas pensava que podia alcançar o mesmo patamar(SODRÉ,p.95). Do ponto de vista do controle do estado através da utilização dos meios de comunicação de massa, a radiodifusão ocupou aí um lugar muito específico pois através do rádio o estado divulgava sua proposta de educação e transmitia a sua “palavra oficial”, mas que convivia ao mesmo tempo com a radiodifusão privada de interesse comercial, apesar de se tratar de um estado centralizador ele se tornava flexível à proposta do capital privado que dominava a radiodifusão(ORTIZ,1988). Essa contradição era explicada pelo fato de que o interesse do governo se fazia em um entendimento de que havia rádios comerciais e rádios oficiais, sendo que as primeiras, por sua importância econômica, não inviabilizavam os interesses 25 educacionais das rádios oficiais. Em palavras de Ortiz: “O governo federal, permitindo que o rádio fosse utilizado como veículo publicitário, conseguiu, sem encargos para o erário publico, uma inteligente e rápida solução para o problema da radiodifusão no Brasil”(1988,p. 53). O próprio modelo de rádio estatal desse período era igual ao modelo privado e a proposta educativa e de transmissão de cultura também seguia o mesmo padrão das emissoras privadas, o que demonstra os verdadeiros interesses ou pelo menos a fácil adaptação do governo Vargas ao modelo de rádios privadas: Não deixa de ser sugestivo observar que a própria Rádio Nacional, encampada pelo governo Vargas em 1940, praticamente funcionava nos moldes de uma empresa privada. Seus programas (música popular, radioteatro, programas de auditório) em nada diferem dos outros levados ao ar pelas emissoras privadas. Se é verdade que o Estado utiliza e controla a Nacional através de sua superintendência, quando se olha a percentagem da programação dedicada aos chamados “programas culturais” observa-se que eles não ultrapassam 4,5%. Por outro lado, entre 1940 e 1946, o faturamento da emissora, graças a publicidade, é multiplicado por sete. Ao que tudo indica, a acomodação dos interesses privados e estatais se realiza no seio de uma mesma instituição sem que ocorram maiores problemas (ORTIZ, 1988, p.53). 2.3. O Cinema Nos anos de 1940 e 1950, o cinema tem uma ascensão como cultura de massa principalmente os filmes norte-americanos que com o pós guerra passaram a dominar o mercado cinematográfico, um caso mundial que atingiu em peso a sociedade brasileira, pois também nesse período dar-se-ia a aproximação política dos Estados Unidos da América com a América Latina, em sua expansão imperialista na qual o cinema exerce papel importante na ampliação dos interesses políticos e econômicos dos EUA. Para Werneck (1988), a dificuldade de desenvolvimento do cinema brasileiro se deu porque há muito tempo o país sofreu o efeito de influências culturais estrangeiras, com o cinema sendo um dos mais antigos produtos culturais de massa. E que desde os anos de 1920 existiram empenhos para o desenvolvimento de um cinema 26 brasileiro: “Até a Primeira Guerra Mundial, quando o cinema estava na infância, consumimos preponderantemente filmes europeus; daí por diante, passamos a constituir um dos grandes mercados da indústria cinematográfica norte-americana” (1976,p.80). O cinema brasileiro, anteriormente muito incipiente, passou por processo de grande expansão no período Pós-Guerra, com o surgimento da Atlântida em 1941, produtora das chanchadas que marcaram a existência de um cinema nacional e, em 1949, em São Paulo, da Cia. Cinematográfica Vera Cruz, consideradas, ambas, como os marcos iniciais da industrialização do cinema brasileiro (ORTIZ, 1998). Na Atlântida a opção por um cinema baseado no humor repetitivo visando alcançar um público popular, buscou explorar as formas do teatro ligeiro e da comédia de costumes. O seu caráter popular não significou um contraponto à burguesia mas uma adequação na construção de um cinema que visava o lucro e o enriquecimento dos artistas nos moldes do que já acontecia no rádio(ORTIZ,1998). A Vera Cruz, por sua vez, inspirou-se no modelo do cinema americano, o da construção de uma verdadeira indústria cinematográfica voltada para classe média urbana. Seus objetivos assentavam no cinema como empresa, na utilização de tecnologias e na produção industrial (ORTIZ, 1998). 2.4. O Teatro Nessa época as atividades teatrais sofreram grandes transformações que expressaram a transição do profissionalismo de um teatro comercial que perdeu espaço graças ao impacto do cinema. Essas atividades estavam mais voltadas para o amadorismo, e comprometidas com a qualidade desta manifestação artística, provocando a renovação do teatro no Brasil. Somente a partir de 1940 é que o amadorismo começa a ganhar consistência, à medida que a prática, mais do que a reflexão teórica, obrigou-o a delimitar com precisão os seus objetivos. Essa difícil passagem do velho para o novo obedeceu à orientação de um pequeno número de pioneiros, homens nascidos entre 1900 e 1910, acostumados, portanto a enfrentar quase sozinhos o pior adversário daquele momento, o descrédito em que havia caído o teatro (PRADO, 2001, p. 39). 27 Esse período marca a ascensão do teatro no cenário cultural do país, sobretudo. no eixo Rio-São Paulo, onde surgiram expoentes da história do teatro como o Grupo de Teatro Experimental (São Paulo), a Escola de Arte Dramática (São Paulo), o Teatro do Estudante do Brasil (Rio de Janeiro), Os Comediantes (Rio de Janeiro), Os Artistas Unidos e o Teatro Brasileiro de Comédia – TBC (São Paulo) (PRADO, 2007). Entre todas essas iniciativas, a que mais perdurou foi a do TBC, que merece ser destacada, pois, desenvolvida em São Paulo, significou um deslocamento da cena teatral que tinha como principal eixo o Rio de Janeiro: A consolidação do que poderíamos chamar de novo profissionalismo veio em 1948, com a criação do Teatro Brasileiro de Comédia. Até aquele instante o centro da criatividade dramática havia sido o Rio de Janeiro, não faltando motivos para que assim acontecesse (PRADO, 2007, p. 43). Um modelo de teatro que se aplicava no Rio de Janeiro, foi também utilizado pelo TBC, que foi o da utilização de encenadores estrangeiros e a utilização de textos já consagrados – e a visão empresarial na administração do trabalho teatral: O TBC – sigla que logo se populariza no meio teatral – deslocou a iniciativa para São Paulo. É que um engenheiro industrial, Franco Zampari (1898-1966), nascido na Itália, mas radicado desde a mocidade no Brasil, dispusera-se a colocar a sua não pequena experiência de homem de negócios a serviço do palco, dando-lhe uma estrutura administrativa como ele nunca tivera (PRADO, 2007, p. 43). O TBC permaneceu em atividades durante 15 anos e representou juntamente com os outros grupos, os pilares do teatro que foi se disseminando cada vez mais pelo país, pois marcaram a profissionalização da área, marcada pela utilização de textos consagrados e a direção de encenadores europeus. Os encenadores que passaram pelo TBC foram: “seis italianos: Adolfo Celi, Luciano Salce, Flaminio Bollini, Gianni Ratto, Alberto D’Aversa e Rugero Jacobbi; um belga: Maurice Veneau; e um polonês: Zbigniew Ziembinski” (PRADO, 2007, p.44). Grandes atores e atrizes do teatro brasileiro passaram pelo TBC, tais como: “Cacilda Becker, Maria Della Costa, Tônia Carrero, Cleide Yaconis, Nydia Licia, 28 Sérgio Cardoso, Paulo Autran, Jardel Filho, Fernanda Montenegro, Natália Timberg, Teresa Raquel, Fernando Torres, Walmor Chagas, Leonardo Vilar, Juca de Oliveira, Gianfrancesco Guarnieri, Raul Cortez, entre outros” (PRADO, 2007). Nesse cenário cultural de valorização da cena teatral brasileira, desenvolveu-se o Teatro Experimental do Negro (TEN), na cidade do Rio de Janeiro. O fato de ser a Capital Federal, importante centro produtivo do país e uma das principais cidades brasileiras, permitiu a construção de um teatro negro que apesar de sua qualidade cênica tinha como principal objetivo dar notoriedade para as demandas políticas, artísticas e de valorizar o negro desde a sua origem. 2.5. O surgimento do Teatro Experimental do Negro - TEN O TEN teve como os seus fundadores Abdias do Nascimento, Arinda Serafim, Marina Gonçalves, Aguinaldo Camargo, dentre outros protagonistas. Fundado em 13 de outubro de 1944, e idealizado por Abdias do Nascimento – o seu principal incentivador – constituiu um marco de referência para a luta negra brasileira, na medida em que possibilitou a presença negra no teatro como protagonista e também por colocar a defesa de dignidade para o seu povo, no combate aos preconceitos e discriminações presentes no cotidiano das pessoas negras, além do papel educador no sentido de conscientizar os outros grupos étnicos. Abdias Nascimento, intelectual e militante antirracista desde os anos 1930, nascido em Franca, São Paulo, em 1914, formou-se em contabilidade, em 1929, mudando-se para São Paulo no ano seguinte onde militou na Frente Negra Brasileira; tendo se transferido para o Rio de Janeiro, concluiu o curso de Ciências Econômicas na Universidade do Rio de Janeiro, no ano de 1938. Em 1944, criou o TEN que durou até 1968, quando Abdias foi para o exílio nos Estados Unidos. Foi professor, artista plástico, dramaturgo, militante da causa negra, deputado federal em 1983 e, posteriormente, senador em 1991, tendo falecido aos 97 anos, no dia 24 de maio de 2011. Segundo seu idealizador, o TEN constituiu-se como herdeiro da história da lutados negros, sobretudo em sua ação cultural e educativa: 29 O Teatro Experimental do Negro (TEN), fundado no Rio de Janeiro em 1944, foi a primeira entidade do movimento afro-brasileiro a ligar, na teoria e na prática, a afirmação e o resgate da cultura brasileira de origem africana com a atuação política. Assim introduzia uma nova abordagem à luta negra do século (NASCIMENTO, 2003, p. 251). Oliveira (2008) considera que o TEN surgiu com a proposta de lutar para o povo negro assumir o seu lugar como protagonista da sua própria história, no sentido de ter garantida a sua qualidade de vida, aliada à sua formação, utilizando o teatro como uma ferramenta para desenvolver uma política de inserção do negro na sociedade brasileira: O Teatro Experimental do Negro foi fundado em 1944 por iniciativa de Abdias do Nascimento, seu principal dirigente e porta voz. Seu objetivo era incentivar um “teatro negro brasileiro” e sensibilizar o público para os problemas enfrentados pela população negra no Brasil. Desejava transformar a mentalidade do povo negro despertando-lhe a consciência de seu valor e cultura, inculcando a dignidade perdida. Sua proposta era ressaltar e positivar os valores negros, junto a negros, quebrar preconceitos e conseguir o reconhecimento da cidadania negra (OLIVEIRA, 2008, p.244). Nesse sentido, esses analistas apresentam o TEN como um grupo que desenvolveu várias atividades, constituindo um coletivo que buscou atuar de forma plural e dinâmica, oferecendo a sua contribuição na formação do povo negro. Oliveira (2008) ressalta que o legado do TEN “seria um novo momento de inflexão, no qual as estratégias e as ações estariam diretamente relacionadas aos estudos científicos desenvolvidos sobre o problema racial brasileiro” (OLIVEIRA, p. 135). No sentido de apresentar as ações do TEN e as demandas as quais vivenciou, tendo o teatro como precursor de sua saga frente às relações raciais no Brasil, apresento um breve histórico da participação do negro no teatro brasileiro até a chegada do TEN. Segundo relato de Abdias do Nascimento, em depoimento à revista Dionysos, mais de 40 anos depois da fundação do TEN, a ideia da construção do grupo nasceu de uma viagem que fez pela América do Sul, acompanhando o Santa Irmandad Orquídea, 30 grupo de artistas e poetas brasileiros e argentinos. Nessa viagem, em 1941, assistiu em Lima, no Peru, uma montagem de “O Imperador Jones”, de Eugene O’Neal, em que o ator Hugo D’Heviéri designado para fazer o papel principal (o imperador Jones) aparece em cena pintado de preto. O ato de pintar o artista branco de preto foi uma herança do modelo racista desenvolvido na dramaturgia estadunidense nos anos 20, em que os personagens negros eram interpretados por atores e atrizes brancos com seus rostos pintados de preto, era a black face. De forma caricaturada, esses personagens eram geralmente empregados domésticos servis ao extremo, mulheres obesas e de pouca inteligência, homens bêbados idiotizados, moleques estúpidos e, além disso, os personagens apresentavam forte tendência a perversões sexuais. No regresso da referida viagem, Abdias foi preso em São Paulo, juntamente com um grupo de universitários, por denunciar a ditadura do presidente Getúlio Vargas: Em dezembro de 1937 fui preso juntamente com um grupo de estudantes universitários quando distribuíamos panfletos denunciando a ditadura Vargas e o imperialismo norte–americano. Condenado pelo famigerado Tribunal de Segurança Nacional, fui mantido na penitenciária do Rio de Janeiro até abril do ano seguinte (NASCIMENTO, 1976, p. 30). Segundo o próprio Abdias, foi aí que se deu a sua primeira investida no campo da dramaturgia, o “Teatro do Sentenciado”: Ao regressar dessa viagem pela América do Sul, fui logo preso em São Paulo, pois havia sido condenado à revelia. Na penitenciária de São Paulo, a famosa Carandiru, fundei o Teatro do Sentenciado. Foi a minha primeira experiência como dramaturgo. Escrevi uma peça, mas saí, antes de ela ser montada. Nos dois anos que fiquei por lá chegamos a representar várias peças, com tudo feito lá dentro – cenários, figurinos etc. Como o destino de negro era sempre polícia em cima, parece até simbólico que nessa questão do teatro eu tenha começado exatamente dentro da prisão (NASCIMENTO, 1988, p. 108). Ainda, segundo seu depoimento à revista Dyonisos, ao sair da prisão Abdias tentou organizar o Teatro Negro em São Paulo, buscando o apoio de Mário de Andrade. Como não obteve sucesso, transferiu-se para o Rio de Janeiro, no final de 31 1943, onde junto com Agnaldo Camargo, Teodorico dos Santos, José Herbel e outros, começaram a traçar os planos para a construção do TEN, segundo o depoimento à revista. Contaram com o apoio também da União Nacional dos Estudantes (UNE), por intermédio do escritor Aníbal Machado, como aponta Abdias: Aníbal Machado nos ajudou muito em nosso contato com a UNE. Por seu intermédio, conseguimos o empréstimo dos salões e do restaurante da UNE. O restaurante funcionava até umas oito horas da noite, depois a gente limpava tudo e ali virava o palco. Lá foi o nosso começo (NASCIMENTO 1998, p.109). O espaço cedido pela UNE era dividido em dois andares, mais o restaurante na parte de cima, como explica Abdias: No salão de cima Ironides Rodrigues dava aulas de alfabetização; no salão nobre Aguinaldo Camargo dava aulas de iniciação cultural e no espaço do restaurante já começavam os testes de ator pensando na montagem de nossa peça de estréia (NASCIMENTO, 1998, p. 109). Nesse espaço, o TEN oferecia aulas de alfabetização de adultos para empregadas domésticas e operários, instituídas por Ironides Rodrigues, cursos de formação sobre a iniciação cultural e o trabalho de oficina teatral, de onde surgiram talentosos artistas negros. A importância da participação das camadas populares ofereceu novos horizontes para a dramaturgia e um contraponto ao teatro da elite, pois, segundo o principal idealizador do TEN, trouxe pessoas até então excluídas para os palcos demonstrando todo o seu potencial dramático, até então, sufocado pelo racismo e a opressão, começando pela educação, através da alfabetização de adultos: O Teatro Experimental do Negro – TEN – iniciou sua tarefa histórica e revolucionária convocando para seus quadros pessoas originárias das classes mais sofridas pela discriminação: os favelados, as empregadas domésticas, os operários desqualificados, os frequentadores dos terreiros. Com essa riqueza humana, o TEN educou, formou e apresentou os 32 primeiros intérpretes dramáticos da raça negra- atores e atrizes – do teatro brasileiro (NASCIMENTO, 2002, p.73). A partir daí nasceu uma poética legitimamente afrodescendente, com a sua história contada por eles: “O TEN inspirou e estimulou a criação de uma leitura dramática baseada na experiência afro-brasileira, dando ao negro a oportunidade de surgir como personagem-herói” (NASCIMENTO, 2002, p.74). Desse modo, o TEN buscou superar a perspectiva opressora da grande maioria das obras teatrais, ao longo do século XIX e da primeira metade do século XX, em que se visualizava a presença negra de forma pejorativa. 2.6. Os objetivos e atuação do TEN Para Muller (1988), os objetivos do TEN dialogavam com as questões sociais, sem perder de vista o trabalho teatral. Tinha um formato onde o real interesse visava a melhoria da qualidade de vida das pessoas negras, tentando trazê-las para o centro dos interesses sociais e com o reconhecimento dos seus valores socioculturais, e para a população branca, a noção de responsabilidade pela atual desvalorização da população negra e de seus valores estéticos: Parece ressaltar aí como o eixo intencional mais importante dessa iniciativa: transformar a mentalidade do povo negro, despertando-lhe a consciência de seu valor próprio, de sua cultura particular, inculcar-lhe uma dignidade perdida, reabilitá-lo antes de mais nada de si mesmo. Para os brancos enfatizar sua responsabilidade na produção e reprodução desse problema. Convocá-los a partilhar do esforço na mudança de padrões de relacionamento inter-étnico, mas, sobretudo desfazer a ideologia racista cristalizada entre eles, mesmo entre os “bem-intencionados” (Revista Dionysos, 1988 p. 37). Fiel à luta contra o racismo, juntando-se a outras experiências anteriores de organização negra, o TEN imprimiu na história brasileira um momento especial para o entendimento do racismo, tanto da perspectiva epistemológica, quanto de combatê-lo na forma de políticas, denunciado a exclusão social de que padece o negro, propondo 33 aos negros e aos brancos uma forma de educação em que o negro seja valorizado. Segundo seu idealizador, o TEN teve a sua atuação apoiada nos seguintes objetivos: a) resgatar os valores da cultura africana, marginalizados por preconceitos à mera condição folclórica, pitoresca e insignificante; b) através de uma pedagogia estruturada no trabalho de arte e cultura e cultura, tentar educar a classe dominante “branca”, recuperando-a da perversão etnocentrista de se auto considerar superiormente européia, cristã, branca, latina e ocidental; c) erradicar dos palcos brasileiros o ator branco maquilado de preto, norma tradicional quando o personagem negro exigia qualidade dramática do interprete; d) tornar impossível o costume de usar o ator negro em papeis grotescos ou estereotipados: como moleques levando cascudos ou carregando bandeiras, negras lavando roupas ou esfregando o chão, mulatinhas se requebrando, domesticados Pais Joões e lacrimogêneas Mães Pretas; e) desmascarar como inautênticas e absolutamente inútil a pseudo cientifica literatura que a pretexto de estudo sério focaliza o negro, salvo raríssimas exceções, como um exercício esteticista ou diversionista: eram ensaios apenas acadêmicos, puramente descritivos, tratando de história, etnografia, antropologia, sociologia, psiquiatria, e assim por diante, cujos interesses estavam muitos distantes dos problemas dinâmicos que emergiam do contexto racista da nossa sociedade. (NASCIMENTO, 1978, p. 187188). Tais objetivos traçaram a existência do TEN e fizeram o grande êxito dos seus espetáculos que ultrapassaram os limites da dramaturgia. O TEN realizou movimentos de cunho político-sociais focados na emancipação dos brasileiros afrodescendentes: “Não separávamos nossa atuação no palco dos acontecimentos político-sociais de interesse para os descendentes de africanos” (NASCIMENTO, 2002, p.88) Oliveira (2008, p.162) descreve a trajetória do TEN destacando a importância das suas ações, em especial o papel político impresso pelo grupo, com destaque para o papel do sociólogo Guerreiro Ramos junto ao TEN. As ações políticas contra o racismo e pela promoção da população negra e da igualdade realizadas pelo TEN entre 1944 e 1968 serão apresentadasaqui de forma cronológica, oferecendo a percepção de que as atividades realizadas pelo grupo foram intensas e calcadas, sobretudo, na formação e na valorização do negro e de suas raízes. Tais ações foram documentadas na revista Dyonisos (1988), que sendo um periódico especializado na história do teatro brasileiro dedicou à história do TEN uma edição especial. Dentre as ações, podemos destacar: a) Organização do Comitê 34 Democrático Afro-Brasileiro (Março de 1945); 1ª Convenção Nacional do Negro (novembro de 1945); 2ª Convenção Nacional do Negro (maio de 1946); 1º Concurso Rainha das Mulatas (junho/setembro de 1947); 2ª Concurso Rainha das Mulatas (julho de 1948); Publicação do Jornal Quilombo (dezembro de 1948 a julho de 1950); Fundação do Instituto Nacional do Negro (janeiro de 1949); 1ª Conferência Nacional do Negro (janeiro de 1949); Unificação dos Concursos Rainha das Mulatas e Boneca de Piche (junho/setembro de 1949); 1º Congresso do Negro Brasileiro (agosto e setembro de 1950). Interessa ressaltar que tais eventos assentavam o TEN na discussão com a sociologia e a antropologia e, ao mesmo tempo, proporcionavam visibilidade para as causas negras com o objetivo de resgatar e valorizar a memória do negro brasileiro, para instrumentalizá-lo através do reconhecimento de sua identidade, o que lhe daria capacitação para poder assumir ações sociais que transformassem a sua realidade. O caráter educativo desses eventos foi um fator relevante, pois eles também ofereciam uma oportunidade de provocar o indivíduo branco com a intenção de educálo contra o seu próprio preconceito (MULLER, 1988; OLIVEIRA, 2008). Em palavras de Nascimento: Muita importância também dedicou o TEN à criação de uma pedagogia para educar o branco de seus complexos, sentimentos disfarçados de superioridade. Mostrar ao branco – ao brasileiro de pele mais clara– a impossibilidade de o país progredir socialmente enquanto ele insistir no monopólio de privilégios coloniais (NASCIMENTO, 1988, p.84). Acompanhando de modo panorâmico a proposta desse capítulo e seguindo os passos da trajetória pedagógica do TEN, faz-se necessário discutir o embate com a sociologia brasileira, sobretudo porque o TEN e os seus colaboradores ampliaram as pesquisas sobre o negro, destacando-o como protagonista para além do teatro. A imagem do negro é exposta, tornando-o capaz de falar por si próprio, de representar seus direitos, de denunciar os problemas sofridos pelo seu povo, em contraponto com os alguns estudos que só viam o negro como objeto, especialmente determinados cientistas sociais. Oliveira (2008) ressalta também a posição de Guerreiro Ramos 35 frente ao TEN, em que o sociólogo reafirma a importância do teatro negro na transformação dos estudos sobre o negro. Oliveira (2008) destaca a presença de Guerreiro Ramos junto ao TEN, defendendo a sua importância na instituição, destacando o seu trabalho intelectual: O TEN inicia as suas atividades como um grupo de teatro e, embora tenha ampliado esse objetivo inicial, permaneceu utilizando a dramatização como uma das principais estratégias em prol da “descomplexificação” dos negros brasileiros. De todos os envolvidos nesta atividade, foi Guerreiro Ramos o responsável por fazer da dramatização mais do que uma manifestação artística, mas, primordialmente, um processo terapêutico. Ao lado de Abdias Nascimento, foi o principal mentor intelectual do TEN, assumindo um papel decisivo na elaboração e na condução das principais atividades do grupo (OLIVEIRA, 2008, p. 158). Guerreiro Ramos participou também de outras realizações do TEN, onde atuou nos concursos de beleza, nos congressos e por meio de artigos escritos no jornal Quilombo. Ramos também foi orientador da tese de Abdias Nascimento concluída no curso no Departamento de Sociologia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). Sobre tal experiência o idealizador do TEN assim falou: Dentro desse conjunto de atividades mais “políticas”, freqüentei a primeira turma do Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB). E minha tese de conclusão de curso no Departamento de Sociologia, dirigido por Guerreiro Ramos, foi: “O valor sociológico do Teatro Experimental do Negro”. Tratase da análise das principais experiências desenvolvidas pelo TEN, demonstrando seu significado na reformulação da sociologia sobre o negro. Os vários depoimentos que apresento confirmam que, antes do TEN, o negro era sempre tratado como objeto, como matéria-prima para estudo. E nós procuramos modificar essa situação, transformar o negro em protagonista de sua própria história. Daí a luta do TEN para que o negro representasse seu próprio heroísmo. Foi uma tese que me pareceu muito válida na época, tendo sido aprovada por Guerreiro Ramos (NASCIMENTO, 1988, p.115). Nesse sentido, para Nascimento em seu depoimento à revista Dionysos, os estudiosos só passaram a rever suas posições em relação ao povo negro a partir da intervenção do próprio TEN. Importa destacar que os pesquisadores, principalmente 36 sociólogos, contribuíram no auge das ações do TEN com os debates acerca das relações raciais. Nascimento relata que: A partir de nossos seminários e congressos, muitos daqueles estudiosos começaram a rever suas posições e a se reciclarem. Roger Bastide reconheceu que devia mudar sua posição sobre o negro, reciclou-se logo e passou a ser um colaborador extraordinário até o fim da sua vida. Artur Ramos nem teve muito tempo de reciclar. Morreu assim que chegou a Paris, para assumir um cargo de direção da UNESCO. Sua última colaboração junto ao TEN foi a Conferência Nacional do Negro, em 1949, que ajudou a coordenar (NASCIMENTO, 1988, p. 15). O fato é que no início dos anos de 1950 surgem duas obras sociológicas que significaram um divisor de águas ante os estudos anteriores, a obra de Roger Bastide e Florestan Fernandes intitulada Brancos e Negros em São Paulo, em 1955, e a de L. A. da Costa Pinto, O Negro no Rio de Janeiro, em 1953. Parece que a atuação do TEN em relação à incorporação de estudiosos brancos na causa negra teve resultados satisfatórios, como indica Gonzalez (1982 p. 24-25): Vale notar que é também a partir do período 1945-1948 em diante que vamos encontrar a presença de representantes dos setores progressistas brancos junto às entidades negras, efetivando um tipo de aliança que se prolongaria, de maneira mais ou menos constante, aos dias atuais. E nesse ponto, a gente se pergunta sobre a importância do papel desempenhado pelo TEN para além dos limites da comunidade negra; estamos nos referindo ao movimento de renovação do teatro brasileiro, a partir dos anos cinqüenta. Além disso, não se pode deixar de recordar que não foi por acaso que um Florestan Fernandes, por exemplo, tenha iniciado suas pesquisas sobre o negro nesse período (GONZALES, 1982, p. 24-25). Fernandes, então, passou a ter um papel fundamental, na medida em que contribuiu com trabalhos sobre a população negra, analisando os efeitos da escravidão e dos seus desdobramentos na sociedade brasileira. Em análise da desigualdade racial escreve que: 37 O dilema racial brasileiro, na forma em que ele se manifesta na cidade de São Paulo, lança suas raízes em fenômenos de estratificação social tendo em vista a estrutura social como um todo, pode-se afirmar que, desde o último quartel do século XIX até hoje, as grandes transformações históricosociais não produziram os mesmos proventos para todos os setores da população. De fato, o conjunto das transformações que deu origem à “revolução burguesa”, fomentando a universalização, a consolidação e a expansão da ordem social competitiva, apenas beneficiou, coletivamente, os segmentos brancos da sociedade. (FERNANDES, 2007, p.105-106). O próprio Fernandes analisou o teatro negro, ressaltando a importância de tal iniciativa: A idéia de um teatro experimental nasce de uma formulação moderna e positiva: a questão está em saber como manejá-la. A rigor, o teatro que possuímos (excetuando-se certas manifestações de teor folclórico ou popularesco e a presença deformada ou autentica do negro no antigo teatro erudito brasileiro), como as demais manifestações intelectuais, era de brancos e para brancos. Engendrar um teatro negro significa dar oportunidade de formação e de afirmação artísticas ao negro – algo em si mesmo revolucionário, que implicava revisões de estereótipos negativos para o negro e na eliminação progressiva de barreiras que proscreviam o negro na nossa vida intelectual produtiva e criadora (FERNANDES, 2007, p.222). O processo de visibilização do negro preconizado pelo TEN e o seu ineditismo nas frentes em que agiu, a exemplo dos embates junto às Ciências Sociais, caracterizaram a importância desse movimento e endossaram a participação da gente negra nas demandas mais estruturais daquela sociedade em permanente mudança (OLIVEIRA, 2008, p.163). Além disso, o papel e a atuação feminina afrodescendente no TEN foram destacados por Romão, que constata a presença das mulheres negras no TEN argumentado que ela se deu desde a sua fundação: Além da presença de empregadas domésticas nos cursos de alfabetização, como já foi destacado, a presença de mulheres no TEN era significativa, estando elas nas peças de teatro, nas conferências como debatedoras e na organização da entidade. (ROMÃO, 2005, p. 130-131). 38 Romão destaca o papel de duas mulheres, Arinda Serafim e Maria Nascimento, a primeira na organização das empregadas domésticas, a segunda como mobilizadora para o mundo do trabalho e como articulista e secretária do jornal Quilombo: As idéias de Maria Nascimento, assistente social de profissão, são bastante visibilizadas pelo jornal. De 1948 a 1950, localizamos oito artigos assinados por ela, que abordam temas relacionadas às crianças; aos jovens e idosos; às mulheres negras; ás trabalhadoras domésticas; à participação política e ao voto das mulheres negras; a importância da escola; à discriminação racial na infância e no trabalho doméstico,etc. (ROMÃO, 2005, p.131). A organização de mulheres negras no interior do TEN foi marcada, especialmente, pela criação da Associação de Empregadas Domésticas, além de revelar grandes atrizes. A presença das mulheres foi expressiva na Educação de Adultos e na produção do jornal Quilombo, com destaque para Maria de Lourdes Vale Nascimento, responsável pela coluna “Fala Mulher”, diretora secretária e depois diretora gerente do jornal. Dentre essas mulheres destacam-se Ruth de Souza e Lea Garcia brilhantes atrizes no teatro, na TV e no cinema. Em testemunho à revista Dyonisos, Ruth de Souza escreve: Tínhamos contato com todo mundo, com outros grupos de teatros. O Café Vermelhinho – defronte da ABI– era o ponto de encontro dos artistas e intelectuais da época. Era uma coisa tão linda que hoje eu fico pensando no documento incrível que teríamos se contássemos com um vídeo naquela época. À tarde, das quatro horas em diante, você encontrava todo mundo ali – o pessoal do TEN, do Teatro do Estudante, e ali a gente batia papo com Portinari, Nelson Rodrigues (...) Ali conheci Santa Rosa, Sérgio Cardoso, Sérgio Brito, Di Cavalcante, Aldemir Martins. E dali saiáamos muitas vezes para a casa de Aníbal Machado, onde havia reuniões todas as quintas-feiras (SOUZA, 1988, p.125). A atriz também destaca o crescimento do TEN que evidenciava a extrapolação de um simples movimento teatral: 39 A partir da estréia de O Imperador Jones (os direitos autorais da peça foram cedidos graciosamente a Abdias pelo autor, Eugene O’Neill, que lhe escreveu uma carta), recomeçou a luta, para montar outras peças. Abdias escolhia o repertório. Encenaríamos “Todos os filhos de Deus tem asas” e “O filho pródigo”. Não havia local para os ensaios. A UNE já não podia ceder seus espaços, pois o TEN começava a crescer: de repente, havia lá umas 300 pessoas – aulas de alfabetização, conferências – um movimento incrível. Os negros estavam fazendo mais movimento do que os próprios alunos da UNE. O curso de alfabetização fazia parte do projeto do TEN. Acho que foi o primeiro MOBRAL existente no Brasil (SOUZA, 1988, p.124). Toda essa arregimentação feminina redundou na fundação do Conselho Nacional de Mulheres Negras, em 18 de maio de 1950, cujo objetivo era o de oferecer às mulheres negras melhores condições de vida: Entre os objetivos dessa organização estava o de oferecer serviços sociais à comunidade negra, ajudando na solução de problemas com direitos básicos de cidadania, como a obtenção de certidões de nascimento, carteiras de trabalho e serviços jurídicos. Suas metas também incluíam cursos de alfabetização e de educação primaria para crianças e adultos em colaboração com o Centro de Recuperação e Habilitação do Rio de Janeiro. Havia, ainda, os projetos de teatro infantil e teatro de bonecos, curso de orientação às mães, assistência jurídica, orientação sociológica, cursos profissionalizantes (corte e costura, bordados, tricô, datilografia), de educação física e natação (LARKIN NASCIMENTO, 2003, p.308). O desafio vivido pelo TEN no tocante à educação constituiu parte importante de sua experiência política e cultural, pois vinculava a alfabetização de adultos à proposta do teatro e da formação artística. O seu elenco era composto de pessoas analfabetas que iniciaram as suas atividades teatrais nos cursos de alfabetização, seus objetivos não estavam necessariamente atrelados a uma proposta de escolarização, propriamente dita, e sim de possibilidade de formação de artistas que percebessem a importância da presença negra na cena teatral, e para isso a formação de consciência da negritude era fundamental: A educação no Teatro Experimental do Negro não encontra relação simplesmente com a escolarização. A educação do Teatro Negro incorporou ao projeto: a perspectiva emancipatória do negro no seu percurso político e consciente de inserção do mercado de trabalho (na medida em que 40 pretendia formar profissionais no campo artístico do teatro); na dimensão da educação educativa e política e, na dimensão política, uma vez que o sentido de ser negro foi colocado na perspectiva da negação da suposta inferioridade natural dos negros (ROMÃO, 2005). A prática de educação exercida pelo TEN estava presente em todas as suas frentes de atuação, conforme já abordado por alguns autores, conforme o seu criador Abdias do Nascimento: Quando fundamos o Teatro do Negro, ficou desde logo estabelecido que o espetáculo, a pura representação, seria coisa secundária. O principal para nós, era a educação, e esclarecimento do povo. Pretendíamos dar ocasião aos negros de alfabetizar-se com conhecimentos gerais sobre história, geografia, matemática, línguas, literatura etc.(NASCIMENTO, 1946, apud LARKIN NASCIMENTO, 2003, p. 74). A visão pedagógica e o processo de alfabetização no TEN seguiam a compreensão de que a educação para o negro constituía uma forma de socialização e de possibilidade de uma melhor inserção na sociedade combatendo o estado de marginalidade em que vivia o negro. As pessoas que ingressavam nos cursos de alfabetização vinham de origem popular e buscavam no TEN possibilidades de aprender a ler e escrever. Como escreve o seu fundador: A preliminar da Fundação do Teatro Experimental do Negro foi a compreensão de que o processo de libertação da massa dos homens de cor do seu estado de marginalismo social devia se assentar na educação e na criação de condições sociais e econômicas para que essa educação para a vida livre se efetivasse. Partimos do marco zero: organizamos inicialmente cursos de alfabetização onde operários, empregados domésticos, favelados sem profissão definida, modestos funcionários públicos, etc., se reuniam à noite, depois do trabalho diário para aprender a ler e escrever (NASCIMENTO, 1966, p.123). O projeto educacional do TEN, além do ensino da leitura e escrita, visava à construção da dignidade do negro aviltada pelo racismo, e, para isso, era necessário intervenção política e cultural, partindo da valorização da população negra: 41 A alfabetização inseria-se no objetivo geral de “valorização da gente de cor” ao possibilitar o exercício do direito ao voto e o domínio do instrumental mínimo necessário para se defender no mercado de trabalho e na sociedade em geral. Além disso, porém, havia a proposta de formar pessoas conhecedoras de sua matriz cultural e capazes de articular sua concepção crítica da sociedade e do meio cultural em que iriam atuar (LARKIN NASCIMENTO, 2003, p.290). O curso de alfabetização de adultos organizado pelo TEN foi desenvolvido entre os anos de 1944 e 1945 e frequentado por mais 600 pessoas (ROMÃO, 2005; DIONYSOS, 1998). Utilizando as dependências da União Nacional dos Estudantes o curso teve curta duração, pelo fato de que a UNE precisou utilizar os espaços cedidos para as ações do teatro negro. Percebe-se que em suas ações o TEN preocupou-se em formar o contingente negro, pela valorização da cultura e da ancestralidade e, sobretudo, por emergir em um cenário em que as vozes populares passam a ocupar espaço devido há uma dinâmica cultural que facilitou a construção de uma identidade negra na diversidade brasileira. Todas essas atividades, segundo seus idealizadores, mereciam ser conhecidas por um público maior, o que motivou seus dirigentes a produzirem um jornal, o Quilombo, (que circulou entre o mês de dezembro 1948 ao mês de julho 1950), mas que, apesar de sua curta existência, merece uma análise, na medida em que se constituiu no mais importante meio de divulgação das atividades do TEN e que será objeto de análise do próximo capítulo. 42 CAPÍTULO III A IMPRENSA E A EDUCAÇÃO DO NEGRO: O JORNAL QUILOMBO Desde 1930, com a ascensão da burguesia urbana, a imprensa brasileira tal como aconteceu com o rádio e outros meios de comunicação foi afetada pela expansão do mercado publicitário e do controle do imperialismo americano. Ao traçar uma linha cronológica que caracteriza a imprensa ainda antes de 1930, Ortiz (1986) nos oferece uma consideração importante sobre a ascensão da imprensa no Brasil. Em suas palavras, No Brasil antes de 1930, os jornais sentiam muito a influência da pequena burguesia urbana, que constituía o mundo reduzido de seus leitores: é uma fase liberal, em que a maioria da imprensa defende reformas e coloca-se na oposição; a publicidade fornecida diretamente pelo comércio e pela indústria nacional. Depois de 1930, a situação muda: passa a preponderar a publicidade de grandes empresas e de monopólios estrangeiros, canalizada por agencias especializadas, também estrangeiras; a posição da maioria da imprensa é conservadora ou mesmo reacionária (1986, p.131). A imprensa naquele período dividia-se, grosso modo, em imprensa liberal e imprensa popular. A pequena imprensa, marginalizadas e reduzida em suas publicações, devido aos poucos recursos, ainda assim sobrevivia de forma a desenvolver e divulgar seus trabalhos. Nesse contexto pode-se dizer que os modelos de jornais que apresentavam seus interesses particulares ou de classe expressavam a existência de uma imprensa de caráter popular e que representava as legitimas demandas dessas classes, como os jornais operários, ou aqueles voltados para o público feminino ou das pessoas negras, conforme veremos na imprensa negra, e em particular, no jornal Quilombo. 43 3.1. A imprensa negra no Brasil: os antecedentes do jornal Quilombo Entre as formas de denúncia e resistência à discriminação racial, os grupos negros organizados criaram e difundiram veículos de imprensa negra, que podem ser encontrados desde o século XIX, conforme a pesquisadora Ana Flavia Magalhães Pinto (2010), que pesquisou o assunto e lançou um livro sobre a “Imprensa Negra no Século IX”. Para efeito de entrosamento com a proposta da imprensa negra abordada neste capítulo, pode-se inferir que a experiência do século XIX foi um pilar para os experimentos do século XX, pois representava uma das formas de protesto contra a situação vivida pelo negro. Para exemplificar a produção de impressos negros no século XIX, veja-se uma lista dos jornais daquele período, organizada em ordem cronológica: O Homem de Cor ou o Mulato, Brasileiro Pardo, O Cabrito e o Lafuente, no Rio de Janeiro (RJ) em 1833; O Homem: Realidade Constitucional ou Dissolução Social, de Recife (PE), em 1876; A Pátria – Órgão dos Homens de Cor de São Paulo(SP), em 1889; O Exemplo, de Porto Alegre(RS),de 1892; e o Progresso – Órgão dos homens de Cor, também de São Paulo(SP), em 1899 (PINTO, 2010,p. 17-18). Essas publicações levam ao entendimento de que essa forma de expressão já fazia parte do repertório dos grupos negros ,o que podemos deduzir que tais experiências já apontavam para a necessidade de formação e de construção de conhecimento para essa parcela da população (PINTO, 2010). Também no século XX assinala-se uma grande produção de jornais negros, sobretudo nas décadas iniciais, em São Paulo, os quais foram dinamizados pelaa atuação de Associações Sociais e Recreativas de negros com destacado foco na educação. Segundo Nascimento (2003, p.225): Em geral, a ação e o discurso dessas organizações e de sua imprensa almejavam alcançar para a coletividade dos ex-escravizados uma participação efetiva na sociedade vigente da qual era excluída. Para isso, a educação destacava-se como meio por excelência e, portanto, o objetivo 44 maior da prática dessas entidades, muitas das quais abriam escolas noturnas. Além de denunciar o “preconceito” e incentivar a comunidade a se unir para lutar contra ele, os periódicos da imprensa negra se propunham e cumpriam, eles mesmos, um papel educativo. Com a finalidade de destacar a imprensa negra paulista do início do século XX, veja-se uma lista de nomes de jornais que dão a ideia de quão produtivo foi esse período para a imprensa negra no interior e na capital desse estado: O Bandeirante (1910), A União (1918), A Protectora (1919), O Getulino ( 1919), Escravos (1935), O Patrocínio (1925), O Menelike (1915), O Alfinete (1918), A Liberdade (1919), O Kosmos (1924), O Elite (1924), O Auriverde (1928), O Clarim (1923), que se tornou depois O Clarim d’ Alvorada (NASCIMENTO, 2003,p.226). Com base nas informações apresentadas acima, pode-se inferir que há uma ampliação acentuada de publicações da imprensa negra, pois, se Pinto (2010) arrola oito jornais publicados pelo país (ainda que possam ter existido mais), Nascimento (2003) especifica um rol de 13 impressos, somente no Estado de São Paulo. Constatase desta maneira que o incremento da produção da imprensa negra vem a corroborar registros e manifestações da memória coletiva em prol de uma proposta educativa por intermédio do aumento das organizações negras. Esses periódicos publicados nas primeiras décadas do século passado antecederam o jornal Quilombo, periódico do TEN, e foram importantes para a difusão das experiências dos negros e da luta contra a discriminação racial. 3.2. O jornal Quilombo O jornal Quilombo, órgão oficial do TEN, circulou na cidade do Rio de Janeiro, entre dezembro de 1948 e julho de 1950, sob a direção de Abdias do Nascimento, tendo como subtítulo “Vida, Problemas e Aspirações do Negro”. Registre-se que em todos os seus números foi exibido o programa do Quilombo, transcrito integralmente a seguir, porque os pontos nele incluídos justificam a relação do jornal com a formação do negro: 45 NOSSO PROGRAMA Trabalhar pela valorização e valoração do negro brasileiro em todos os setores: social, cultural, educacional, político, econômico e artístico. Para atingir esses objetivos QUILOMBO, propõe-se: 1. 2. 3. 4. 5. Colaborar na formação da consciência de que não existem raças superiores e nem servidão natural, conforme nos ensina a teologia, a filosofia e a ciência; Esclarecer ao negro que a escravidão significa um fenômeno histórico completamente superado, não devendo, por isso, constituir motivo para ódios ou ressentimentos e nem para inibições motivadas pela côr da epiderme que lhe recorda sempre o passado ignominioso; Lutar para que, enquanto não for tornado gratuito o ensino em todos os graus, sejam admitidos estudantes negros, como pensionistas do Estado, em todos os estabelecimentos particulares e oficiais de ensino secundário e superior do país, inclusive nos estabelecimentos militares; Combater os preconceitos de côr e de raça e as discriminações que por esses motivos se praticam, atentando contra a civilização cristã, as leis e a nossa constituição; Pleitear para que seja previsto e definido o crime de discriminação racial e de côr em nossos códigos, tal como se fez em alguns estados da Norte- América e na Constituição Cubana de 1940 (NASCIMENTO, 2003, p. 253). Esse programa deixa claro a preocupação do Quilombo com a formação do negro através da educação, pois apresenta em seus pontos a importância do ensino, da consciência, da autovalorização para transformação do negro através de integração a uma sociedade onde é marginalizado e que só pode ser transformada a seu favor através da educação. Ao longo do curto período de dois anos, o jornal Quilombo divulgou os feitos do TEN e promoveu debates sobre as relações raciais, com participação de intelectuais da época, mediante a publicação de artigos originais de Arthur Ramos, Gilberto Freyre, Di Cavalcanti, Murilo Mendes, Roger Bastide, Raquel de Queiroz, Nelson Rodrigues, entre outros. Visando descortinar o projeto educacional do Quilombo, procuramos analisar as dez edições do jornal, uma a uma, objetivando, ao final, fazer uma síntese articulada de conjunto de todas elas. Número 1. No primeiro número do jornal, de 9 de dezembro de 1948, Abdias Nascimento apresenta em seu editorial uma reflexão acerca dos verdadeiros objetivos do Quilombo, em defende que o foco principal é a formação do negro: “Porém a luta 46 de QUILOMBO não é especificamente contra os que negam os nossos direitos, sinão em especial para fazer lembrar ou conhecer ao próprio negro os seus direitos a vida e a cultura” (QUILOMBO, p.19, 2003). Vê-se aí uma preocupação com a formação dos negros no sentido de reconhecimento do seu valor e direito. Uma das principais tônicas do jornal também focaliza as diferenças raciais provocadas pelo racismo contra o negro que se revelam na forma de exclusão do negro em determinados espaços sociais, como aparece em artigo assinado por Raquel de Queiroz denominado “Linha de Cor” (QUILOMBO, 2003, p.20), no qual a escritora pontua a existência do preconceito no Brasil, contrapondo-se a um escritor que afirma não existir esse problema. Destacam-se no referido artigo fragmentos sobre o preconceito em espaços escolares: “E que os colégios grã-finos não aceitam alunos ou alunas de côr?” “Recorda o caso denunciado pela minha cara amiga e grande escritora Lia Correia Dutra, a respeito de dois alunos seus que não foram admitidos em certa escola oficial – porque eram mulatos?”. “E por falar em escolas, sabe, o meu distinto confrade, que a Fundação Rio Branco, escola de preparação de rapazes para a carreira diplomática, igualmente recusa alunos de cor?”(QUILOMBO, 2003, p.20) Na página 4 do jornal também se encontra uma discussão sobre educação escolar em artigo assinada por Haroldo Costa, apresentado como ex-vice-presidente da Associação Metropolitana de Estudantes Secundários, denominado “Queremos Estudar”. Costa reflete sobre a ausência dos negros nos espaços escolares, problematizando que a questão não está somente relacionada a problemas econômicos e que parte dessas escolas pertencem à igreja: É comum, quando se diz que em determinados educandários não é permitido ao jovem de cor se matricular, surgirem os acomodados dizendo enfaticamente: “ – A questão é simplesmente econômica. Se o negro tiver dinheiro poderá estudar onde aprouver”. No entanto a questão verdadeiramente não se reduz a isto. Aí está o colégio Notre Dame de Sion, que não aceita alunas negras, mesmo que elas se sujeitem a pagar as pesadas mensalidades. No mesmo caso se encontram os colégios Andrews Benett, Santo Inácio, N.S de Lourdes e tantos outros, para citar apenas estabelecimentos secundários. O mais estranhável é que determinados educandários dirigidos por padres católicos e freiras também se destaquem 47 nessa frente constituída para impedir a formação intelectual da gente de cor (QUILOMBO, 2003, p.22). No mesmo artigo, Costa também discutiu o problema da exclusão do negro no ensino em instituições oficiais e militares, discorrendo sobre a dificuldade dos negros em ingressar no Instituto Rio Branco e nas escolas de oficiais militares. Ainda na mesma página, aparece matéria sobre a Escola de samba “Sem Você eu Vivo Bem”, cujo presidente Rodrigues Alves cogita em criar aulas de alfabetização no âmbito da associação, iniciativa enaltecida pelo jornal: O programa de Rodrigues Alves precisa ser executado apesar das dificuldades inerentes a realizações dessa natureza. Os poderes públicos, a Secretaria de Educação da Prefeitura deviam colaborar na iniciativa dessa Escola de Samba. Mas desde que não o façam, o Rodrigues Alves não deve esmorecer. Seu trabalho ficará como um exemplo a ser seguido pelas demais escolas de samba que mantendo também um curso de alfabetização só estarão aumentando seu credito diante do publico e aos olhos do governo (QUILOMBO, 2003, p.22). Estes artigos sobre educação escolar mostram que as relações da educação formal do negro nas matérias do jornal Quilombo eram de certo distanciamento em relação ao ensino público, haja vista que as matérias que retrataram tal assunto não abordaram as relações de educação formal pungentes neste período. Sobre a educação e a formação do negro, a primeira edição de Quilombo relata também a história do TEN, valorizando as suas iniciativas tanto na educação através da alfabetização de adultos, quanto as da dramaturgia. É Iiportante observar que no número inicial do Quilombo, as demais matérias procuram enfatizar a valorização da cultura negra através das manifestações culturais, nas formas de arte e religião e do enaltecimento de sujeitos negros em suas áreas de atuação, como as matérias sobre os escritores Lima Barreto e Cruz e Souza (p.2 e 3); a poesia negra, na análise de Efrain Tomás Bó (p. 5); a valorização religiosa, no artigo “Como se desenrola uma festa de Candomblé”, assinado por Edson Carneiro (p. 4 e 5); a orquestra Afro-brasileira e seu destaque na musica (p. 6); assim como o destaque dado ao cantor e radialista Blackout (p. 6) e à atriz Ruth de Souza (p.6). 48 Na página 8 encontra-se uma coluna permanente, cujo nome é “Fala a Mulher”, assinada por Maria Nascimento, uma das principais colaboradoras do TEN , que em todas as edições do Quilombo está presente, dando voz às mulheres negras. Na matéria deste primeiro número do jornal, que recebe o título de “Crianças Racistas”, vale destacar um trecho em que Nascimento convida as mulheres para escrever para a sua coluna: “Solicito a minhas amigas que me escrevam. Sem se importar com os erros de gramática, que isto aqui não é Academia de Letras e sim uma tribuna democrática para a discussão de ideias e problemas nossos” (QUILOMBO,2003, p.26). Vê-se nessa chamada proferida por Nascimento o perfil ao qual é destinada essa parte do jornal, direcionada a mulheres que de uma forma ou de outra estão inseridas no mundo da escrita e da leitura, logo, com alguma formação educacional. A primeira edição do jornal teve 8 páginas. Número 2. O segundo número do jornal, de 9 maio de 1949, ressalta o heroísmo negro em relação à luta pela abolição, evocada por Abdias Nascimento no editorial que lembra as ações de Luiz Gama, um ícone negro abolicionista. Destaca-se o seu espírito guerreiro por liberdade, assim como de outros sujeitos que igualmente lutaram contra a escravidão, estabelece-se uma ponte entre aquela luta e a da época, salientando formas perversas e subreptícias de subjugação da população negra: Pela permanência desse sentimento de liberdade e dignidade nos nossos negros encaminhamos nossa luta e nos colocamos contra aqueles que ainda hoje conservam o escravagismo psicológico e procuram impedi-los de ocupar o lugar que moral e humanamente lhes corresponde no seio da sociedade brasileira (QUILOMBO, 2003, p.27). Essa ponderação reflete o potencial do jornal, no aspecto de o seu caráter educativo procurar ter um caráter formativo para o negro, que precisa reconhecer o seu valor a partir de suas referências históricas. A exemplo do primeiro número do jornal, este dá amplo destaque à importância da contribuição cultural do negro em relação a manifestações culturais como o teatro e o cinema, além de promover o debate político a respeito da participação negra e da sua dignidade até então negada. 49 Entretanto, não foram encontradas nas oito paginas desse número matérias que se relacionassem mais diretamente à educação, motivo da presente pesquisa. Número 3. Na edição de número, de junho de 1949, na página 2 encontra-se uma seção intitulada “Sociais” que apresenta matéria sobre a Sociedade Recreativa Floresta Aurora, entidade negra de Porto Alegre. Transcreve-se a fala de seu representante, Heitor Nunes Fraga, no subtítulo “O negro gaúcho quer estudar e progredir”, que destaca a necessidade de formação escolar dos negros gaúchos: – A sociedade que tenho a honra de, neste momento, representar, – iniciou o snr Heitor Nunes Fraga – atravessa atualmente uma fase de grandes empreendimentos, o que aliás, vem se fazendo sentir desde algumas administrações passadas. Seu quadro social congrega elevado numero de homens de cor e suas respectivas famílias todos procurando, harmoniosamente, trabalhar pelo melhoramento do nível cultural de nossa gente. A Floresta Aurora, consciente do seu papel, procurou e procura sempre viver em boas relações com as sociedades co-irmãs. Sempre entendeu suas diretorias que somente com a aproximação e restabelecimentos de fortes vínculos entre os homens de cor, poderemos ver frutificados nossos ideais de progresso e valorização. O esclarecimento, a inteligência e a cultura de uns aliada à solidariedade, ao estimulo e esforço de outros, conseguirão os frutos desejados. Convem destacar – e isso faço com satisfação – que o negro de Porto Alegre está sendo atacado de uma sede de elevação cultural que muito nos anima. Não é muito raro encontrarse jovens pretos cursando as escolas superiores. E isso é indicio muito significativo, uma recomendação para os negros da cidade (QUILOMBO, 2003, p.36). Esse posicionamento do representante da Sociedade Recreativa Floresta Aurora, do Rio Grande do Sul, contribui para uma ideia recorrente no jornal Quilombo que é a de conceber o progresso dos negros através da sua formação cultural e intelectual, adquirida pela formação escolar e do reconhecimento da possibilidade que ela oferece como forma de mobilidade social. Na página 5 do jornal, em matéria intitulada “1º Congresso do Negro Brasileiro de 1949”, o jornal apresenta o temário aprovado na Conferência Nacional do Negro, que se desenrolou entre os dias 9e 13 de maio de 1949, sob a coordenação de Abdias Nascimento, Guerreiro Ramos e Edson Carneiro, cuja chamada tinha como proposta preparar o referido Congresso, dando as bases para os temas que seriam discutidos: 50 A Conferência Nacional do Negro convida os escritores, os historiadores, os antropólogos, os folcloristas, os musicistas, os sociólogos e os intelectuais em geral a prestigiar, com a sua colaboração, a realização do Congresso, e pede a cooperação de negros e mulatos, homens do povo, para que o Congresso possa ser representativo das aspirações e tendências gerais da população de cor (QUILOMBO, 2003, p.39). O temário do 1º Congresso do Negro foi aprovado no encerramento da Conferência Nacional do Negro, no dia 13 de maio, e ficou dividido nos seguintes temas: – “História”, que contemplaria as referencias históricas da presença negra no Brasil desde a escravidão, a formação de quilombos, as lutas por abolição, a participação do negro nas lutas em defesa do Brasil e os sujeitos históricos negros; – “Vida Social”, que congregaria temas as “condições gerais de vida da população de cor”; – “Sobrevivências Religiosas”, que reuniria trabalhos sobre as religiões de matiz africana na sua forma espiritual e cultural; – “Sobrevivências Folclóricas”, que englobaria as referências da cultura popular construídas pelos negros; – “Línguas”, em que se discutiria a contribuição das línguas trazidas pelos negros para o português do Brasil; e o ultimo tema. – “Estética”, em que se abordaria a relação do negro com as artes e a filosofia. Segundo o jornal, esses temas mostrariam um avanço nos estudos sobre o negro no Brasil, pois permitiriam uma inserção profícua no debate sobre a presença negra no país. Nas páginas 6 e 7, o Quilombo apresenta um panorama da Conferência Nacional do Negro e oferece um resumo dos debates e discussões por ela levantadas. Na página 11, o jornal apresenta o discurso de abertura da Conferência Nacional, no qual Abdias traça a história do TEN e focaliza principalmente a característica formativa do coletivo, para além da atividade teatral. No discurso, intitulado “Espirito e Fisionomia do Teatro Experimental do Negro”, afirma: 51 O Teatro Experimental do Negro não é, apesar do nome, apenas uma entidade de objetivos artísticos. A necessidade da fundação deste movimento foi inspirada pelo imperativo da organização social da gente de cor, tendo em vista a elevação de seu nível cultural e seus valores individuais. Entretanto, o espírito associativo é atributo da massa esclarecida e de elevado padrão cultural. Daí ser quase impossível, como se pode depreender da observação da vida brasileira, associar homens e mulheres em função, apenas, de objetivos sociais (QUILOMBO, 2003, p.45). A última página do terceiro número do Quilombo é dedicada a uma coluna social voltada para o concurso “Rainha das Mulatas” e “Boneca de Piche”, que segundo os seus organizadores é uma forma de elevação das mulheres negras, Pela qual “as garotas bonitas, côr de canela ou de jaboticaba madura, terão assim uma oportunidade única de mostrar seus dotes de beleza, elegância, “charme” e distinção social” (QUILOMBO, 2003, p.46). Número 4. O Quilombo de número quatro, de julho de 1949, foi o mais voltado para as questões políticas e culturais de valorização dos negros, apresentando referências a ícones negros na poesia, como o poeta Solano Trindade (QUILOMBO, 2003, p.46); na música, como o musico Padre José Mauricio (QUILOMBO, 2003, p.47); e no cinema, onde homenageia-se a atriz Ruth de Souza (QUILOMBO, 2003, p.47). Na coluna “Fala a Mulher”, Maria Nascimento faz uma reflexão sobre o Congresso Nacional de Mulheres, em matéria intitulada “O Congresso Nacional de Mulheres e a regulamentação do trabalho doméstico” (QUILOMBO, 2003, p.47). Ela enfatiza a importância do Congresso: Merece toda atenção as resoluções votadas em maio ultimo pelas mulheres do Brasil inteiro que aqui se reuniram em congresso nacional. Todos os itens abordados pelas congressistas são de importância básica para a existência, a felicidade e o progresso da mulher, e, consequentemente do povo brasileiro da qual ela é mãe dedicada e sacrificada...). É inacreditável que numa época em que tanto se fala em justiça social possa existir milhares de trabalhadoras como as empregadas domésticas, sem horário de entrar e sair no serviço, sem amparo na doença e na velhice, sem proteção no período de gestação e post-parto sem maternidade, sem creche 52 para abrigar seus filhos durante as horas de trabalho QUILOMBO, 2003, p.47 Nascimento também reflete sobre como as mulheres negras estão reagindo contra a opressão que historicamente sofrem. Em suas palavras: Acontece porém, que a mulher negra está abrindo os olhos. Durante a escravidão e mesmo agora na Republica, ela existiu passiva, amamentando “sinhosinhos” e aos filhos do “seu dotô”. Subjugada diminuída, refugiavase na sua doçura e mansidão natural, sem armas para lutar e resistir aos mais vis assaltos a sua honra e dignidade pessoal. Felizmente esse tempo está passando. Empregada doméstica funcionaria pública, comerciária, industriária, médica, advogada ou mãe de família, a mulher negra está aprendendo a andar de cabeça erguida e impor a sua personalidade (QUILOMBO, 2003, p.47). Nas frases de Nascimento, percebe-se que há uma transformação nas vidas das mulheres, ocasionada pela inserção no mercado de trabalho, e que isso decorre da formação pela educação, que faz com que elas ocupem vários postos na sociedade. Na página 4, encontra-se uma matéria sobre o lançamento de uma revista voltada para a cultura afro-brasileira, publicada em Porto Alegre, mostrando que as informações sobre o negro estão se difundindo, o que sugere uma relação de formação pela educação, a partir da língua escrita. Intitulada de “Letras –uma revista AfroBrasileira”, a matéria refere-se a esse empreendimento, onde se lê: A fundação do “Centro Literário de Estudos Afro-Brasileiros” em janeiro deste ano em Porto Alegre, é por si só motivo de satisfação entre negros e brancos interessados no conhecimento da cultura que os prêtos trouxeram da África para o Brasil. Partindo dêsse conhecimento vem a compreensão do Homem Negro e de seus problemas, base de onde se assenta um trabalho objeto, sincero e patriótico para o melhoramento das condições sociais desfrutadas pelo grupo mais pigmentado da nossa etnia. Centros com essa finalidade deveriam se multiplicar por todas as cidades brasileiras, levando até aos nossos mais humildes pretos das vilas e fazendas o esclarecimento indispensável á sua evolução e progresso (QUILOMBO,2003, p.50). Nesta citação outra vez se desdobra o tema da necessidade da formação para o negro, visando o seu progresso e melhoria de vida. 53 À pagina 7. em matéria assinada por Guerreiro Ramos intitulada “Uma experiência de grupoterapia”, e publicada em em uma seção denominada “Arquivo”, o sociólogo reflete sobre a Conferência Nacional do Negro, enaltecendo os objetivos do TEN em sua empreitada para formação dos negros: Muitos resultados serão colhidos deste certame de construtiva influência na vida brasileira. Nesta oportunidade porém, desejo assinalar apenas um aspecto, que julgo de capital importância e que caracteriza o movimento do Teatro Experimental do Negro como uma das iniciativas de maior gravidade e profundidade na vida cultural do país. Com efeito, quem se der ao trabalho de ler o discurso com o qual o Sr Abdias Nascimento, instalou aquele conclave verificará que o conhecido líder descobriu uma pista jamais suspeitada entre nós, ou seja, o de pelo teatro adestrar o homem de côr nos estilos de comportamento de classe média e superior. Retoma assim este negro a significação original do teatro como processo catártico, numa poderosa intuição artística e sociológica. (QUILOMBO,2003, p.53). Na página 11, a matéria “ Uma Artista Negra” fala sobre “a pintora Cleoo Novarro, brasileira educada na África – expôs na Europa e vai aos Estados Unidos retratar Ralph Bunche”, como explica o subtítulo. Nesta entrevista ao Quilombo, a referida artista, perguntada sobre racismo, dá uma resposta que é muito semelhante à visão difundida pelo TEN, de que as transformações na condição social em que o negro se encontra devem vir do próprio negro – Mudando o fio da conversa quisemos saber sua opinião a respeito dos contatos raciais no Brasil. Cleoo nos satisfez imediatamente: – O negro brasileiro é um dos homens mais felizes do mundo em matéria de racismo. Sei as discriminações veladas e ostensivas que ele tem de enfrentar para vencer, mas também conheço as do resto do mundo. Aliás convém que se diga: o nosso negro quase nada fez. Ele deve e precisa trabalhar muito em seu próprio beneficio. (QUILOMBO, 2003, p.57). Número 5. O número 5 do Quilombo, de janeiro de 1950, traz editorial a respeito do 1º Congresso do Negro Brasileiro, que se realizaria no mês de agosto daquele ano, no qual Nascimento escreve que o 1º Congresso visa a transformação social que passa pela formação do negro: 54 O 1º Congresso do Negro Brasileiro pretende dar uma ênfase toda especial aos problemas práticos e atuais da vida da nossa gente de cor. Sempre que se estudou o negro foi com o propósito evidente ou a intenção mal disfarçada de considerá-lo um ser distante, quase morto, ou já mesmo empalhado como peça de museu. Por isso mesmo o Congresso dará uma importância secundária, por exemplo, às questões etnológicas, e menos palpitantes, interessando menos saber qual seja o índice cefálico do negro, ou se Zumbi suicidou-se realmente ou não, do que indagar quais os meios que poderemos lançar mãos para organizar associações e instituições que possam oferecer oportunidades para a gente de cor se elevar na sociedade (QUILOMBO, 2003, p.59). Esse caráter de mobilidade social referido na passagem do editorial acima se caracteriza pela necessidade de uma formação que possibilite as mudanças estruturais na vida dos negros. Para isso, Nascimento ressalta a necessidade de transformações nos estudos sobre os negros no Brasil, e transformações tais só seriam possível com o esclarecimento do negro e de toda sociedade em relação a essas demandas. Na pagina 2 encontra-se em uma pequena nota intitulada “Candidato a deputado dos Negros Paulistas” que menciona a possível candidatura de José Corrêa Leite, apresentado como “uma das figuras mais prestigiosas entre os negros de S. Paulo” (QUILOMBO, 2003, p.60). A página 3 também apresenta uma matéria sobre eleições, intitulada “O Negro e as Eleições” que sugere aos negros consciência na hora de escolher os seus candidatos. Tais matérias sugerem que candidaturas negras são também uma das armas para fomentar a sua formação, haja vista que os candidatos negros apresentam boa formação intelectual e certo prestígio na sociedade. Ainda na página 3 em matéria denominada “Valorização do Homem de Côr”, a discussão sobre formação se apresenta de forma a demonstrar que já existem mudanças na história do negro. Conforme o texto: A princípio, eram apenas algumas vozes isoladas. Hoje milhares de negros, em todo o território nacional, despertam do marasmo a que se haviam entregado, olhando para o alto, procurando enxergar a luz da liberdade, liberdade da ignorância, da miséria, do analfabetismo etc. Esta consciência é hoje uma realidade, quando anos atrás representava apenas um sonho. O homem de côr do Brasil resolveu recuperar o tempo perdido. É a hora da descoberta das suas próprias forças e a marcha para uma nova vida. 55 (...) A imensa massa de pretos analfabetos verificou que “todos os filhos de Deus tem asas (no dizer de Eugene O’ Neill) e que os espaços são limitados, sem fronteiras, para todos aqueles que desejem conquistar o que têm direito neste nosso pobre e imenso país (QUILOMBO, 2003, p.61). A página 4, na seção denominada “Arquivo”, há uma matéria intitulada “Quilombo nos Estados Unidos”, assinada por George S. Schuyler, que recomenda a leitura do jornal Quilombo para os estudantes negros dos Estados Unidos: Você está estudando línguas latinas: Italiano, Espanhol, Francês ou Português? Elas são intimamente relacionadas, e assim conhecendo uma língua você pode interpretar de algum modo as outras. Devem existir dezenas de milhares de jovens de côr nas escolas superiores, colégios e universidades dos Estados Unidos que estão estudando uma ou outra dessas línguas. A esses jovens eu desejo recomendar a leitura permanente de QUILOMBO, um jornal mensal editado no Rio de Janeiro, Brasil, por gente de côr para a gente de côr (QUILOMBO, 2003, p.62). As páginas 9 e 12 apresentam uma matéria sobre o concurso “Boneca de Piche”, com o titulo “Vinte Mil Cruzeiros para a Negra mais bonita do Rio”, que estabelece as características que devem ter as candidatas para concorrerem ao concurso. Segundo o jornal, O concurso da “Boneca de Piche” objetiva proporcionar as mulheres negras uma oportunidade de se projetarem socialmente, de se valorisarem através dessa demonstração pública, em grande estilo, dos seus predicados, de suas virtudes, da sua vivacidade mental, graça, elegancia, e, sobretudo, de sua integração no que há de mais categorizado em matéria social. Sim porque o concurso é prestigiado pelas figuras mais representativas das nossas artes, pelos expoentes da nossa sociedade, corpo diplomático, literatura, jornalismo etc. (QUILOMBO, 2003, p.67). Vê-se aí que a formação também está presente no concurso, haja vista que as exigências para vencê-lo colocam a concorrente negra na busca de um desenvolvimento de suas qualidades tanto física quanto morais e intelectuais. 56 À página 11, na coluna “Fala a Mulher”, a colunista Maria Nascimento na matéria de titulo “A ‘Fundação Leão XIII’ e as Favelas”, referenda as ações filantrópicas dessa Fundação com enfoque na educação. Sobre educação, Nascimento escreve: Outro setor ativo e não menos importante é o que se dedica à educação de menores e adultos. Numa grande sala repleta de alunos, pode-se contar nos dedos de uma mão as pessoas de côr branca. E como eu me sentia feliz vendo moços, velhos e crianças negras serem tratadas com amor e carinho pelos professores da Fundação. Quem por ventura tiver visitado uma dessas aulas já poderá ter a esperança, como eu tenho, que um dia talvez mesmo amanhã a juventude dos morros do Rio não será mais analfabeta (QUILOMBO, 2003. p.69). Nascimento reflete a importância da educação para o negro e o poder de transformação que ela pode trazer para os negros dos morros cariocas e para o negro brasileiro em geral. Ela enfatiza ainda mais o significado da educação através da alfabetização. Em suas palavras, E aqui chegamos ao ponto fundamental da gente de côr: a educação. Pela educação é que havemos conquistar igualdade moral, intelectual, cultural, artística, econômica e política. Quando todo o negro souber ler e escrever teremos dado o passo mais decisivo para a nossa própria recuperação. Enfim educar e alfabetizar a população dos morros é uma forma de liberar e emancipar a gente negra. Porque a ignorância, o analfabetismo, é a forma mais terrível de escravidão (QUILOMBO, 2003, p.69). Encontra-se nesta passagem do jornal a ênfase mais exemplar da ação formadora presente nas ações do TEN, a da educação como forma de emancipação do negro. Número 6. No jornal número 6, publicado em fevereiro de 1950, a discussão gira em torno das eleições. Nascimento defende a candidatura de “negros e mulatos”, indicando a necessidade de o negro “desenvolver seus valores próprios”, mas em um processo de integração com toda sociedade. Nesse sentido ele reflete sobre a posição dos partidos políticos em relação aos candidatos negros: Certamente não basta aos partidos a indicação de um ou dois candidatos mais pigmentados para atestar a ausência de preconceito de côr em suas 57 fileiras. Não. Isso seria demasiado simplista. Somos quase vinte milhões de brasileiros mestiços fortemente caracterizados pela nossa ascendência africana a exigir, em nome da democracia, o número correspondente de vagas para candidatos negros e mulatos interessados na tarefa patriótica e humanitária de elevar os padrões social e cultural, econômico e político das massas negras (QUILOMBO, 2003, p.71) Na página 3, em seção intitulada “Tópicos”, a matéria denominada “Convite ao encontro” discute sobre o preconceito, mas chama atenção um ponto que é recorrente no discurso do Quilombo, o de preparar o negro para a sua emancipação. O fragmento dessa matéria diz que: Para nós o aspecto racial do problema do homem de côr brasileiro é secundário. O nosso objetivo é libertar o negro brasileiro de seus próprios equívocos e adestrá-lo para o jogo democrático (QUILOMBO, 2003, p.73). Na coluna “Fala a Mulher”, na página 7, intitulada “ Nosso dever cívico”, Maria Nascimento escreve sobre o papel das mulheres negras na vida política. Em suas palavras: Se nós, mulheres negras do Brasil, estamos preparadas pra usufruir os benefícios da civilização e da cultura, se quisermos de fato alcançar um padrão de vida compatível com a dignidade da nossa condição de seres humanos, precisamos sem mais tardança fazermos politica (QUILOMBO, 2003, p.77. A participação política da mulher, recomendada por Nascimento, sugere que para tanto é necessário que as mulheres negras precisem de formação para ocupar os postos na política. Na página 11, sob o titulo de “Teatro Negro no Brasil”, Péricles Leal traça a trajetória do tem, enfatizando as transformações que esse movimento trouxe para a população negra. Segundo o texto, 58 Para fazer uma análise cuidada do fenômeno do teatro negro do Brasil, com a pequena, mas algo substanciosa, estante de dramas sobre temas de gente côr, é necessário, antes de mais nada, procurar sondar as origens do movimento de libertação do negro brasileiro ou, para abordar diretamente o assunto que nos interessa neste instante, as origens e os fundamentos do Teatro Experimental do Negro, cuja vida se deve ao dinamismo dêste batalhador incansável e inquestionável que é Abdias Nascimento. Aliás, se formos falar de maneira geral, o preto só começou a despertar verdadeiramente quando do aparecimento e desenvolvimento do T.E.N. (QUILOMBO, 2003, p.81). Número 8. As edições de número 7 e 8, correspondentes aos meses de março e abril de 1950, são publicadas juntas, com matérias destacando sobretudo as eleições e a participação dos candidatos negros, inclusive do próprio Abdias Nascimento que, em editorial denominado “Minha Candidatura”, escreve: Amigos meus, colaboradores e simpatizantes do movimento que fundamos visando a elevação cultural e econômica do negro brasileiro, resolveram lançar a minha candidatura à assembléia legislativa do Distrito Federal. Justificaram seu gesto com o argumento de ser minha eleição a vereador uma etapa lógica e natural no desenvolvimento desse programa de busca de meios que acelerem o processo de integração de brancos e negros no Brasil, assegurando assim ,á tática por nós usadas, armas mais efetivas e poderosas na luta pela conquista desse padrão de existência ideal que libere os brasileiros de côr de complexos, tensões emocionais e das atuais desvantagens sócio-econômicas (QUILOMBO,2003, p.81). Na página 2, a seção “Cartaz” apresenta a biografia ao antropólogo Edson Carneiro, mas também a foto de um jovem negro, recém-graduado técnico em contabilidade. O destaque simultâneo a um grande pesquisador e a um técnico recémformado em curso mais simples mostra a importância da formação para os negros. Da mesma forma, à pagina 4, matéria intitulada “ Um Negro na Sociedade Brasileira de Geografia” refere-se ao geógrafo J. Romão da Silva. Na página 4 também, Maria Nascimento assina coluna denominada “Escreve a Mulher”, com matéria intitulada “ O Conselho Nacional de Mulheres Negras” que, como o título indica, aborda aa construção do Conselho Nacional de Mulheres Negras. Discorrendo sobre os problemas da construção desse conselho, escreve Nascimento: 59 Dentre as dificuldades sociais que teremos de enfrentar- além de outras que minhas leitoras poderão lembrar por carta ou vindo pessoalmente a nossa redação- figuram: a) ensino profissional; o Conselho estudará as possibilidades de criação imediata de uma Escola de Artes Domésticas; b) amparo moral e material as nossas patrícias que trabalham em casas de família; c) proteção á infância; o Conselho estudará as possibilidades de criação imediata de um abrigo do Negrinho abandonado; d) educação da infância; o conselho tratará de criar o seu jardim de infância, Teatro infantil (curso de dança ,canto e musica), Teatro de bonecos. (QUILOMBO, 2003, p.86). Na página 5, em matéria denominada “Manifesto Político dos Negros Fluminenses”, podemos perceber, nas falas dos negros, uma cobrança pela participação do negro na vida política através da sua própria visão, o que demonstra uma ação protagonizada pelas organizações negras rumo ao seu progresso. Nesse sentido, a matéria faz a seguinte reflexão: Destas colunas temos várias vezes chamado a atenção dos partidos políticos para um fato novo em nossa existência democrática: o esclarecimento do homem de cor. Até ontem o negro brasileiro foi um joguete, um instrumento de cabos eleitorais, um inconsciente do seu próprio valor para atuar no sentido de conseguir melhorias para a sua gente. Mas isso foi ontem. Hoje êle recusa a canga. Hoje ele sabe que seu voto pode dicidir muitas coisas, inclusive decidir se o povo de cor vai continuar como até aqui, explorado e humilhado, ou se vai conquistar a sua integração definitiva na sociedade através de postos de liderança em todos os setores da vida politica e administrativa do Brasil (QUILOMBO, 2003, p.87). Ainda na pagina 5, em matéria intitulada “ ael de Oliveira Lima patrocina a criação de uma escola profissional para os homens brasileiros de cor”, apresenta-se a criação de uma escola profissionalizante promovida pelo Instituto Nacional do Negro (INN), órgão construído pelo TEN e idealizado pelo sociólogo Guerreiro Ramos, e apadrinhada pelo industrial e engenheiro mencionado no título: Os propósitos do Instituto Nacional do Negro, departamento de estudos e pesquisas do Teatro Experimental do Negro, encontraram total compreensão na pessoa do industrial Sr. Jael de Oliveira Lima, engenheiro construtor a quem o Distrito Federal deve boa parte do seu progresso urbanístico. 60 (...) A escola profissional do I.N.N será provida oficinas especializadas em marcenaria, tipografia, eletricidade, sapataria e alfaiataria, e nela os alunos receberão ao mesmo tempo, uma habilitação profissional e uma cultura ajustada a profissão (QUILOMBO, 2003, p.87). Essa iniciativa pontua uma característica de inserção do negro, de elevação do seu padrão cultural através da formação técnica, que constitui uma forma das lutas preconizadas pelo TEN, sendo uma ação que conjuminava formação cultural e profissional. As paginas 6 e 7 exibem uma matéria especial intitulada Cinema e Artistas Negros, nas quais traçam a trajetória de produções que contaram a participação dos negros. Na página 11, na segunda parte da matéria intitulada “Teatro Negro do Brasil”, Péricles Leal continua a traçar e comentar aspectos da história do grupo. Número 9. Na nona edição do Quilombo, de maio de 1950, a pagina 3 apresenta uma matéria intitulada “ Negro já ensina em universidade branca dos Estados Unidos”, relatando a situação dos negros nos Estados Unidos da América e fazendo menção à participação do negro no campo da educação superior: A Universidade de Harvard, uma das mais famosas dos Estados Unidos em seus trezentos anos de existência ariana, acaba de aceitar em seu corpo docente, na qualidade de professor clinico de Bacterologia e Imunologia da sua Faculdade de Medicina, ao dr William Hinton, de Boston. É o primeiro catedrático negro que transpõe os umbrais do importante estabelecimento de ensino superior, sendo o Dr. Hinton também famoso por seu teste de sífilis Davis-Hinton. . (...) O nome do Dr William Hinton passará doravante a significar mais um símbolo, – entre os muitos como Booker T. Washington, Washington Carver, William Dubois, Langston Hughes, Paul Robeson ,Marian Anderson, Joe Lous, Ralph Bunche – da capacidade intelectual do negro, de sua integração na mais alta esfera cientifica e cultural da hora presente (QUILOMBO,2003, p.97). Essa matéria deixa claro o quanto o jornal tem como base a educação como forma de ascensão do negro. 61 Outra matéria que chama atenção para a formação pela educação é : “Instalado o “Conselho Nacional das Mulheres Negras” (p. 4), que apresenta mais uma iniciativa do TEN e que particularmente incide sobre a inserção da mulher negra. Sobre os seus objetivos lê-se o seguinte: “Este departamento feminino tem por objetivo lutar pela integração da mulher negra na vida social, e pelo seu alevantamento educacional, cultural e econômico.” (QUILOMBO, 2003, p.98). As páginas 6 e 7 são dedicadas à premiação do concurso “Boneca de Pixe” que referendou a beleza da mulher negra, mostrando que esta valorização dialoga com um processo educativo de humanização da beleza negra, corroborando a construção da autoestima positiva deste contingente. Na página 9, há um artigo sobre Bumba-Meu-Boi, referendando a valorização da cultura negra. E ainda nesta mesma página o pintor Di Cavalcanti escreve artigo sobre o escritor Lima Barreto, cumprindo o objetivo do Quilombo de valorizar as referências negras. Na pagina 11, em seção de coluna social, há uma nota sobre a formatura de Djalma Arruda da Costa, como técnico em contabilidade, com o seguinte comentário: Este operário trabalhava de dia e estudava de noite. No ano passado graduou-se em técnico de contabilidade pela Academia de Comercio do Rio de Janeiro. É filho de Manoel Arruda da Costa; seu esforço e tenacidade, serve de exemplo a muitos rapazes e moças e moças de cor que não estudam sob a alegação de que não tem tempo, esquecendo de que a ascensão intelectual e social é fruto de trabalho árduo, até mesmo de sacrifícios. Sentimo-nos orgulhosos em registrar, mesmo atrasados, a formatura de Djalma Arruda da Costa, a quem auguramos uma carreira brilhante (QUILOMBO,2003, p.105). Número 10. Na última edição do Quilombo, de junho e julho de 1950, apresenta-se na primeira página o discurso de abertura do 1º Congresso do Negro Brasileiro, no qual Abdias Nascimento enfatiza a importância da formação educacional e cultural para a mobilidade do Negro e defende também a mudança de paradigmas sobre os estudos das relações raciais no Brasil. Em palavras de Nascimento, 62 Porque os brasileiros de côr, patrioticamente interessados no estudo dos meios que os conduzam á sua integração definitiva na nacionalidade, através da ascensão social e econômica possibilitada pela educação e pela cultura, estão praticamente liderando a elaboração de um pensamento, precipitando e forçando a cristalização de uma política racial cujo conteúdo ideológico se encontra em nossa tradição, em nossos costumes, que nunca permitiram ou endossaram a supremacia de um grupo étnico sôbre os representantes de outras raças. Observamos que a larga miscigenação praticada como imperativo da nossa formação histórica, desde o inicio da colonização do Brasil, está se transformando, por inspiração e imposição das ultimas conquistas da biologia, da antropologia e da sociologia, numa bem delineada doutrina da democracia racial, a servir de lição e modêlo para para outros povos de formação étnica complexa, conforme é o nosso caso(QUILOMBO, 2003, p.107). A pagina 2 traz referências sobre a produção da peça “Aruanda” montada pelo TEN e também sobre o projeto de um ballet infantil do grupo. Na página 3, uma matéria discorre sobre o Candomblé. Na mesma página, na seção “Tópicos”, lê-se matéria intitulada “Despertar na Consciência Nacional”: A nossa luta é de hoje. Não tem tréguas e não descansaremos enquanto não houvermos logrado todos os altos objetivos a que norteamos a campanha de reajustamento do negro brasileiro. A segunda abolição – conforme já cognominou, alguém, o atual movimento de recuperação negra do Brasil – tem ocupado um lugar dos mais destacados no cenário político-social brasileiro. Não somente os homens de cor, mas estudiosos e povo tem procurado compreender e apoiar as nossas justas reivindicações. Assim, de nada valem as investidas dos retrógados e dos saudosistas da escravidão que têm procurado negar o nosso direito –o direito assegurado pela Constituição e pelos princípios eternos dos direitos do homem- de procurar um lugar no seio da coletividade brasileira (QUILOMBO, 2003, p.109). Nessas palavras percebe-se que os dois anos do Quilombo mostram uma certa evolução do povo negro que, consciente dos seus direitos, volta-se contra os seus opressores, buscando dentro da democracia ocupar o seu espaço na sociedade. Ainda na página 3, na seção “Democracia Racial”, em artigo especial assinado por Murilo Mendes, denominada “Uma Negra e Sua Equipe”, aborda-se a vinda da atriz Katherine Dunham ao Brasil. Mendes escreve que: “Katherine Dunham chega ao Brasil no momento em que os negros começam a tomar consciência viva da sua 63 posição na comunidade brasileira – e o fazem por meio dessa grande via de acesso que é a cultura” (QUILOMBO,2003, p.109). A página nº 4 discute a liberdade de culto e apresenta uma poesia de Carlos Drummond de Andrade, denominada “Canto Negro”, na qual o poeta faz uma ode ao povo negro. A página 5 é toda dedicada aos candidatos negros apresentando uma série deles. As paginas 6 e 7 são dedicadas à palestra de Katherine Dunham, no auditório do Serviço Nacional de Teatro(SNT). As páginas 8 e 9 apresentam uma longa discussão sobre a lei Afonso Arinos, que condena como crime a discriminação racial, na matéria intitulada “Prossegue a Cruzada para a Segunda Abolição” Pela forma como foram analisados os 10 números do Quilombo, buscou-se destacar as manifestações que referendaram a importância da educação, que se encontram pulverizadas nas formas de alfabetização, formação profissional e acesso ao ensino superior, experiências que povoam as dez edições deste periódico, mostrando a preocupação proeminente com a formação do povo negro através do seu desenvolvimento pela educação. A partir do seu programa, já apresentado no início do capítulo, percebe-se a preocupação com a educação e formação do negro, conforme foi exposto em análise anterior onde os pontos 1 (sobre a consciência de que não existem raças superiores nem servidão natural), e 2 (que versa sobre a escravidão enquanto fenômeno histórico que deve ser superado e não mais nutrir ódio ou ressentimentos alimentados ´or um passado ignominioso), que tratam da conscientização e capacitação do homem negro, e o ponto 3 (quanto à luta por gratuidade de ensino em todos os níveis escolares), que trata da educação escolar inclusive nos estabelecimentos militares. Sobre educação escolar, encontramos 12 matérias que discutem alfabetização, educação infantil, educação profissional e ensino superior, respectivamente: no nº 1, nas paginas 2 e 4; no número 3, página 2; no número 5, paginas 3 e 11; nos números 7/8, páginas 4 e 5; no número 9, pagina 11. 64 Sobre conscientização e instrumentalização do negro frente à inclusão social, mediante a apropriação de ferramentas educacionais, encontram-se referências nas edições e páginas seguintes: número 1, página 1; número 3, pagina 11; número 4, páginas 3,4,7 e 11; número 5, página 9; número 10, pagina 3. Encontram-se também, sob a ótica da formação pelo Quilombo, as reflexões teóricas e políticas acerca do negro e da educação, que, pelo que parece, concentram mais matérias, o que demonstra os objetivos do periódico em sintonia com a formação e inclusão do negro na sociedade. Dessa forma podemos perceber que a construção de congressos e conferências que tratam das demandas do povo negro, bem como da participação do negro na vida política eleitoral, refletem esse momento da vida do negro. Assim, esse assunto aborda-se no: número 1, página1; número 2, página1; número 3, páginas 5, 6 e 7; número 4, página 3; número 5, páginas 1, 2 e (divide o assunto) 3; número 6, página 1; números 7 e 8, páginas 1 e 5; número 9, página 4; número 10, páginas 4,5,6,7,8 e 9. Esta trajetória foi assim descrita por Abdias do Nascimento, na Revista Dionysos, publicada em 1988, aonde ele testemunha as ações do Quilombo da seguinte maneira: Editamos Quilombo durante dois anos, a partir de Dezembro de 1948. Dois anos para tirar dez números! A gente ia tirando como podia tudo de forma muito precária. Mas Quilombo mostrava o que se podia fazer e procurava cobrir as principais atividades do Movimento Negro da época, até 1950, quando saiu à última edição. (MULLER, 1988, p.112). Destarte podemos pontuar o protagonismo negro impresso nesta proposta realizada a revelia dos subsídios e condições ideais para a construção de um trabalho com o alcance regional e temporal; exercício este pautado pelo compromisso com a educação das relações étnico-raciais. Sendo assim, Quilombo constituiu-se num instrumento para a formação educacional da população negra e não negra, na medida em que a valorização da cultura nele expressa versa sobre a brasilidade, assim como, sobre a visibilidade cultural e política num contexto social onde a efervescência do movimento negro parece dissonante frente à urbanização da capital federal em pleno pós-II Guerra Mundial. 65 CONSIDERAÇÕES FINAIS O jornal Quilombo constitui-se instrumento para fazer reverberar as análises contemporâneas do estudo das políticas e da história da nossa sociedade. Quando mergulhamos na nossa história recente, por exemplo, sentimos que no nosso caminho, muito já foi feito para que hoje possamos reconhecer a importância da presença dos corpos e pensamentos negros dentro do espaço acadêmico e que tal presença é construída a partir de um clima de transposição das barreiras sociais e econômicas que historicamente nos afetam. Infelizmente a sociedade cerceia, até mesmo mata os sonhos de construção de uma inserção de grupos que, por resistência, extrapolam os limites impostos e se aventuram a contribuir com o seu conhecimento para somar nesse exercício em prol de uma edificação social equânime do pensamento contemporâneo brasileiro. Ao me debruçar sobre o que ocorria na sociedade brasileira nos idos de 1940 e 1950, me deparei com uma nação pensando e construindo sua identidade e seus rumos. Nesse contexto, o TEN está refletindo sobre o ser negro em uma sociedade percebida como racista e segregadora, e aponta para a educação como forma de incluir o negro nas benesses dessa sociedade recém-industrializada. A educação pensada e feita pelo tem, e divulgada no seu órgão de imprensa oficial, o jornal Quilombo, é para conscientizar os negros dos seus próprios problemas, dilemas e dificuldades, enfatizando que sua inclusão na educação formal poderá alterar o quadro de exclusão que os afetava. O teatro, as peças, o burburinho cultural se mostram como pano de fundo para educação dos negros, pelas políticas de inclusão, pela luta por poder e também para educar os não brancos. 66 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BASTIDE, Roger; FERNANDES, Florestan. Brancos e negros em São Paulo. São Paulo: Global Editora, 2008. BRIGADÃO, Clóvis; NASCIMENTO, Abdias do; SODRÈ, Werneck Nelson; FREIRE, Paulo. Memórias do exílio. Paz e Terra. São Paulo, 1976. CHALHOUB, Sidney. 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