A REPRESENTAÇÃO DO NEGRO NO LIVRO DIDÁTICO GOMES, Daniela Dias¹, SILVA, Liliane Jéssica Lima², SANTOS, Mônica Regina Nascimentos dos – orientadora³. Resumo: O contato com a realidade cultural em que estamos inseridos é de total importância para vida das futuras gerações, com isso se faz necessário, o comprometimento das escolas, para que desde os primeiros anos escolares as crianças possam ter acesso à história absoluta do negro em nossa sociedade, assim se fazendo, é relevante uma modificação no modo de vermos o tão trabalhado livro didático em sala de aula. Autores como MUNANGA (2002), Silva1 (2009) Silva2 (2012) entre outros, embasaram todo o processo investigativo de importante relevância social, sobretudo, pela oportunidade de levar para o meio escolar recursos educativos com novos olhares sobre o negro e sua cultura. Palavras chaves: Livro didático, Negro, Representação Social. Introdução. O ambiente escolar, é composto por uma gama ampla de diversidade, que nem sempre é respeitada, o livro didático que em muitas das circunstancias é o único material a ser aplicado em sala de aula, preza pelo saber que se funda sob a matriz cristã, ocidental e hierarquizante, desvalorizando e muitas vezes extinguindo das suas páginas a história e acultura do negro africano e afrodescendente. É necessário mais destaque com relação às maneiras que o negro é posicionado no livro didático, dar enfoque apenas a uma parte da sua história não conta a amplitude da sua participação para a formação da sociedade brasileira. Neste trabalho, buscou-se analisar este contexto abordando as bases materiais da produção do racismo como pano de fundo para a investigação do livro ¹ Graduanda pela Universidade Federal de Alagoas – Campus Sertão (UFAL), Licenciatura em Pedagogia. E-mail: [email protected] ² Graduanda pela Universidade Federal de Alagoas – Campus Sertão (UFAL), Licenciatura em Pedagogia. E-mail: [email protected] ³Professora Mestre da Universidade Federal de Alagoas – Campus Sertão (UFAL) Email: [email protected] didático adotado pelas escolas públicas do sertão alagoano à luz da legislação vigente e da literatura consultada. As bases do racismo. Silva2 (2012 p.43) fala que “o racismo tem uma base objetiva a partir da qual são geradas as ideias e preconceitos raciais”. Portanto, as relações sociais e históricas desenvolvidas pelo homem ao longo dos tempos, coloca entre eles uma divisão de classes que se assenta sobre uma inexistente divisão de raças1, sendo assim, o negro passa a ser visto como o subordinado da burguesia branca. O escravismo, produzido para a Ascenção de um grupo sobre outro, embora tenha sido praticado historicamente por diversos povos e etnias e do qual, negros, brancos e índios foram vítimas, no Brasil e em boa parte do mundo, se caracterizou como a subjugação de negros por brancos, para a produção de mais valia 2. O racismo é antes de tudo uma prática de alienação, segundo Silva2 (p.95) “a alienação, é um fenômeno histórico-social e atua sobre indivíduos e sociedade, bloqueando o desenvolvimento dos indivíduos no mesmo nível do crescimento das forças produtivas”. E conjuntamente uma ideologia que cria discriminações e falsas hierarquias. Esse fato, tem como causa a exploração do homem pelo homem, em uma luta constante pelo poder e dominação. Mostrar desde cedo essas concepções para as crianças, possibilitará às mesmas o estado de consciência que permite a reflexão crítica sobre a realidade. Na escola pública, carente de recursos didáticos, um ótimo instrumento de trabalho sobre estas questões é o livro didático. Mas, é 1 Definiu-se então “raça” para todos os indivíduos que tivessem a mesma cor de pele, durante o século XVIII o período do iluminismo tentou explicar essa diferença de raças pela razão, já que se tinham dúvidas que os que fossem diferentes seriam ou não iguais aos brancos. Somente no século XX se abandonou o conceito de raça, a medida, que se comprovou cientificamente que a raça não existe, porque não há como classificar a diversidade humana e considerar as raças como fixas, já que havia a mistura de povos diferentes. Sobre a existência do gênero humano sobrepondo-se a falsa ideia de raças no plural ler CASHMORE, E. Dicionário de relações étnicas e raciais. São Paulo: Summus, 2000. 2 A Inglaterra, junto com Portugal, soube explorar muito bem este tipo de organização social à base do escravismo, e produziram riquezas com base na mão-de-obra-escrava. Sobre isto ler Alex Callinicos e Uelber Silva. preciso ter claro que o livro didático é também, um veículo ideológico cujo poder de manipulação está nas mãos da elite burguesa. Ana Célia da Silva em sua pesquisa sobre o livro didático apresenta a categoria da representação social para ilustrar como a cultura pode ser distorcida a partir de estereótipos falsamente produzidos os quais a burguesia desde sempre, esteve a favor de explorar, sendo assim, os negros passam a ser dominados por uma classe elitista, que tem como intuito, enriquecer através de um grupo mantido à margem das oportunidades sociais. A representação social do negro na mídia em geral e, no livro didático em particular, restringe sua história e cultura ao mundo da miséria, animalidade, doenças e uma sexualidade aguçada a exemplo do estereótipo da mulata. Essa visão midiática é ideológica e não condiz com a realidade do universo negro. A riqueza histórica e cultural fica sublimada, caricaturada e, muitas vezes anulada. Silva2 (p.12) coloca que: O racismo moderno origina-se de condições objetivas existentes na transição do feudalismo ao capitalismo, expressando-se idealmente como falsificação do real, quando filósofos e cientistas buscaram dividir “cientificamente” a sociedade em raças, considerando também seu grau de hierarquização, influenciados pelas disputas travadas no interior da burguesia inglesa pela conservação ou não do Tráfico de Escravos e da Instituição Escravidão. A prática da escravidão foi um fato histórico que não pode ser esquecido nem anulado, esse modo de produção escravista gerou os pilares sobre os quais se assentou o racismo, mas, se é verdade, que a história não pode ser negada, também é verdade que ver o negro apenas como o “escravizado” se configura como um reducionismo histórico e cultural. O universo negro é rico em produção material e imaterial e não pode ser reduzido a um fato infeliz da história. Falar do negro hoje, sobretudo a partir da legislação em vigor 3, é antes de tudo abordar sua participação sua origem cultural e sua participação decisiva na construção desse país. O negro no livro didático adotado pelas escolas do sertão alagoano. 3 LDBEN 9394/96 alterada pelas leis Nacionais 10.639/03 e 1.645/088 e o Estatuto da Igualdade Racial, lei nº 12.288, todas respaldando o Art. 5º da Constituição Federal de 1988. Tomando como ponto de partida as bases materiais do racismo, bem como, a legislação que define as possibilidades de atuação, foram analisados alguns livros de história distribuídos entre 6º, 8º, 9º ano e um de EJA, das escolas públicas das redes municipais. O livro do 6º ano, intitulado História: das Cavernas ao Terceiro Milênio, publicado pela editora Moderna em 2006, e os livros do 8º e 9º ano que fazem parte do Projeto Araribá, publicado pela mesma editora no ano seguinte e, por último, o livro do EJA publicado pela IBEP em 2009, fazendo parte da coleção tempo de aprender, volume 3 – 2. Todos publicados após a alteração na LDBEN 9394/96 pela Lei 11.645/08. Eles foram analisados observando-se os seguintes critérios: nas utiliza fotos ou desenhos; quantos capítulos são dedicados ao tema; nos capítulos quantas páginas; o conteúdo está em conformidade com a legislação em vigor. Ao longo da análise, constatou-se no livro do 6º ano que um capítulo inteiro é dedicado a África pré-colonial, tendo ilustrações em desenhos e fotos reais de descendentes africanos, nos livros de 8º e 9º ano a imagem do negro como um ser de exploração, com conteúdos como a expansão cafeeira no Brasil, a abolição do tráfico negreiro e a descolonização da África. Percebeu-se pelas poucas páginas a falta de imagens reais sobre os conteúdos abordados, as ilustrações são feitas por desenhos, a falta de realismo no conteúdo, torna-o mais pobre em relação ao seu “produto final”. O livro do EJA traz como conteúdo o Estatuto da Igualdade Racial, fazendo um breve debate sobre as leis que estão a favor e em serviço do negro no Brasil, além de trazer a história sobre a resistência negra, em poucas páginas contadas de uma tão longa história, percebe-se a falta de compromisso em comunicar o conteúdo. De um modo geral notou-se que o conteúdo, de fato, já está presente no livro didático adotado pelas escolas, contudo, está presente em breves linhas em comparação com o estudo sobre a cultura ocidental/europeia. Também se verificou que o uso de desenho é constante, o que é preocupante, pois, demonstra pouco caráter investigativo em buscar dados reais, ou mesmo a pouca preocupação em dar visibilidade aos fatos. A brevidade com que é tratado o conteúdo faz pensar que ele está presente apenas para o cumprimento da legislação e não com a intenção transmitir todo o universo negro. Caso, em defesa das editoras, possa ser alegada a dificuldade par encontrar dados históricos, para além dessas dificuldades, a rica cultura dos negros também é pouco explorada nos livros didáticos, o que demonstra descompromisso com a formação integral aluno. Limites e possibilidades para trabalhar a cultura e a história africana e afro brasileira. No dia 20 de julho de 2010 entrou em vigor a lei federal nº 12.288, o Estatuto da Igualdade Racial, contendo uma série de direitos, obrigações estatais, objetivos e metas que dizem respeito a todos os brasileiros. O Estatuto da Igualdade Racial abarca um conjunto de garantias: adota o princípio jurídico da promoção da igualdade/ação afirmativa; inclusão social da população negra; acesso à saúde; educação, cultura e lazer; liberdade de crença; acesso à terra e moradia; trabalho e meios de comunicação. (BRASIL 2010). Em vídeo intitulado Relações Étnico-Raciais em que aparece o Prof°. Dr. Kabengele Munanga há importantes discussões acerca do conteúdo proposto. O racismo para Munanga resulta absolutamente da diferença. Já que a diferença amedronta realmente o racista porque ele foi educado para ter repulsa dos que não são iguais a eles. Ele traz então que, em uma abordagem psicanalítica, que “O que amedronta é a semelhança escondida pela diferença”. De acordo com Silva1: [...] sempre existiu a ilusória tentativa de demonstrar que o negro, assim como o índio, teria sido predestinado, originária e fisiologicamente, ao trabalho e apenas ao trabalho. Seria, biológica e congenitamente inferior, não tendo condições, portanto, para conquistar conhecimentos nem ganhar a representação política. [...] (2009, p.99) O que justifica as práticas discriminatórias são as diferenças, que mesmo sendo algo natural, quando não percebidas são inventadas, como no caso da Raça Judia. Munanga traz a fala de um importante filosofo Jean Paul Sartre que diz: “Se um negro e um judeu se apresentarem na porta de um local que são indesejáveis, o judeu poderá entrar se não for descoberto que é um judeu, mas o negro será barrado na porta, por causa da geografia do seu corpo”. A fala que Munanga cita faz refletir sobre o nível de exposição ideológica na qual se encontra, a melanina na pele, que deveria significar apenas uma diferença biológica, se transforma em uma diferença social e para muitos resulta no motivo para se julgar ou excluir o outro, antes mesmo de conhecer sua história. Munanga lança a seguinte pergunta: “Como explicar essas diferenças?”. E responde da seguinte maneira “Respeitando as crenças de cada um ou lançando mão das teorias científicas”. Ele fala que a diversidade genética é indispensável para a nossa sobrevivência, e por esse mesmo fato os indivíduos se diferenciam uns dos outros. A riqueza coletiva é algo que deve ser cultivado, seja ela em sua diversidade cultural ou genética. É essa riqueza que precisa aparecer no livro didático. Silva1 (2009, p.100) apresenta em sua obra, alguns ditos populares: Bebida de negro é cachaça; Negro não se penteia, alisa o pixaim; Onde falta branco sobra negro; Em negocio de branco, negro não se mete; Filho de branco é menino, filho de negro é moleque. É indiscutível, contudo, que não somente nos dizeres mais populares, mas na literatura, poesia, música brasileira, nos cordéis e até mesmo nos livros didáticos existe a predominância de atos racistas, por indivíduos que assimilaram a alienação ideológica e reproduz o mundo da dominação branca. A importância de uma nova educação que vai internalizar uma nova forma de ver o outro, respeitando-o acima de qualquer diferença deve ser o objetivo principal para a formação de futuros cidadãos que valorizem as riquezas coletivas, já que o gênero humano é constituído dessa diversidade. É imprescindível uma educação plural que oportunize outras vivências e reflexões. Em seu vídeo, Munanga ainda aborda a questão do determinismo biológico, afirmando que o mesmo nasceu da classificação da humanidade em raças e hierarquização em raças superiores e inferiores. E insiste analisando o discurso de que: “os de pele clara são bonitos, inteligentes, tem características psicológicas e morais superiores, comparativamente aos outros que não são brancos”. Munanga coloca que essa hierarquização de inferioridade do negro é hoje o grande problema do racismo. Pode-se usar como reflexão o vídeo de algumas crianças postas em frente a um boneco negro e outro branco, quando questionadas sobre qual o mais bonito o branco sempre é a unanimidade, todos querem ter algum traço branco, mesmo que por menor que seja, ninguém quer deixar de não ser branco, pois o negro é tido como o ruim, o errado, o feio. Por esse exemplo, e possível considerar que a visão racista surge através da educação e somente por ela essa visão poderá ser desfeita. Há uma enorme diferença entre a prática do racismo no Brasil e nos Estado Unidos por exemplo. No livro Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil, Kabengele Munanga, traz a lógica da construção social no Brasil e nos Estados Unidos em que o cientista social Oracy Nogueira denominou preconceito de marca e de origem. Oracy Nogueira faz uma distinção entre os Estados Unidos e o Brasil, de forma que, nos Estados Unidos existe uma linha de cor que separa brancos e não brancos, já no Brasil, existe uma zona intermediaria, fluida, e vaga que vai de acordo com as circunstâncias. Munanga fala que “O problema da discriminação deixa de ser somente algo biológico, para se tornar politico ideológico, marcado pela relação de poder”. Oracy Nogueira (apud Munanga, 2008) fala que “Os mestiços com traços negroides disfarçáveis, principalmente quando portadores de atributos que implicam status médio elevado (diploma, riquezas, etc.) podem ser incorporados no grupo branco”. Ser negro e rico é a mesma coisa de ser branco, o tratamento muda, a incorporação de outros valores passa a fazer parte da vida e instituir um sentimento de pertencimento, fazendo parte de uma cultura branca e renegando de certa forma a sua identidade. O Estatuto da Igualdade Racial fala de uma educação igualitária e sugere: A promoção da igualdade racial na educação escolar tem dois pilares principais; na educação básica (infantil, fundamental e médio), o projeto pedagógico deve valorizar a diversidade étnico-racial e tratar com igualdade a herança civilizatória, a história e cultura negras. No acesso à educação superior, o Estatuto reafirma a importância da adoção de programas de inclusão de jovens negros, a exemplo do ProUni - Programa Universidade para Todos e das medidas adotadas em dezenas de universidades e faculdades brasileiras. A formação docente deve ser orientada por princípios de igualdade, tolerância e respeito à diversidade étnico-racial. Ao Estado, cabe produzir materiais didático-escolares, subsidiar a formação inicial e continuada de professores, financiar estudos e pesquisas e orientar os sistemas de ensino na implementação de políticas educacionais igualitárias. Está previsto ainda o apoio a ações educacionais desenvolvidas por entidades da sociedade civil, bem como a participação de pesquisadores e representantes do Movimento Negro nos fóruns de deliberação da política educacional. À educação igualitária, cabe contribuir para a formação de cidadãos que valorem positivamente a diversidade humana e assumam a igualdade racial como um ideário ético e social. (BRASIL, p. 15) É preciso então, ter a consciência de que as ações dos educadores não é a única forma de mudança, mas, é fundamental, para que exista essa igualdade de direitos e oportunidades para todos, de tal maneira que as diferenças sejam respeitadas e associadas de forma que juntos possamos ser um só povo sem distinção na cor da pele. Considerações finais. Não é possível apresentar conclusões, por se tratar de um trabalho em nível de graduação, com um longo percurso a percorrer e porque diz respeito a um tema com um leque enorme de possibilidades. Importa saber, a partir do estudado que a ação do professor em sala de aula é importante para apontar novos horizontes, e esta ação torna-se mais eficaz se ele puder lançar mão de material didático coerente, em se tratando do livro didático, que esteja comprometido com ideias antirracistas, e fortaleça a discussão sobre o fim das práticas discriminatórias. Referência Bibliográfica CALLINICOS, Alex. Capitalismo e racismo. São Paulo: Zahar, 2000. CASHMORE, E. Dicionário de relações étnicas e raciais. São Paulo: Summus, 2000. Experimento Revela que o Racismo é Mais Forte do que Todos Pensam. (LEGENDADO) Disponível em: www.youtube.com/watch?v=Sq4z2Vq2K1w Acesso dia: 24/02/2015. MUNANGA, Kebengele - Rediscutindo a Mestiçagem no Brasil: Identidade Nacional Versus Identidade Negra. 3. ed. Belo Horizonte: autêntica, 2008. Relações Étnico-Raciais - Prof°. Dr. Kabengele Munanga. Vídeo disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=7FxJOLf6HCA. SILVA, Ana Célia da. A discriminação do negro no livro didático. 2ª Salvador: EDUFBA, 2004. SILVA, Martiniano J. 1936 - Racismo à Brasileira: raízes históricas: um novo nível de reflexão sobre a história social do Brasil / Martiniano J. Silva; [prefácio de Alex Ratts]. 4. ed. rev., ampl. e atualizada, - São Paulo : Anita Garibaldi, 2009. SILVA, Uelber B. Racismo e alienação: uma aproximação à base ontológica da temática racial / Uelber B. Silva – São Paulo: Instituto Lukács, 2012.