ESCALA DE LIKERT CRIADA A PARTIR DE INDICADORES QUE MELHOR AVALIAM A RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL DAS INDÚSTRIAS DE COSMÉTICOS Débora Regina Molinari Bel. em Administração [email protected] Joelma Kremer Mestre em Adminisração e Doutora em Ciências Sociais [email protected] RESUMO O artigo apresenta o resultado da busca por indicadores que possam avaliar a responsabilidade socioambiental nas empresas de cosméticos, tomando-se como ponto de partida, as atitudes das consumidoras. Parte da análise bibliográfica sobre a responsabilidade socioambiental, seu histórico e as vertentes que ligam as organizações ao tema, o comportamento do consumidor, o estudo de suas percepções e de suas atitudes em relação às empresas, além de avaliar a vantagem competitiva ligada ao posicionamento por imagem das organizações. A pesquisa de campo empreendida foi elaborada em partes: primeiramente, realizou-se uma pesquisa exploratória junto ao maior público-alvo das empresas fabricantes de cosméticos – as mulheres – para identificação das varáveis intervenientes no seu processo de decisão de compra. A partir do resultado, seguindo-se a metodologia proposta por Likert, construiu-se uma escala na qual se procura medir as atitudes das consumidoras em relação às empresas que compõem a indústria de cosméticos no que tange à responsabilidade socioambiental como fator de diferenciação e posicionamento da marca nas suas mentes. Durante a pesquisa exploratória e demais fases da construção da escala, destacaram-se o surgimento de muitos atributos dos cosméticos que fugiam o objetivo do trabalho, mas, feitos os filtros necessários propostos na metodologia utilizada, encontrou-se os fatores chaves e alicerces tornando-se possível a construção da escala de Likert. A escala de Likert final declarou a credibilidade da marca como variável de maior valor na ótica das consumidoras, mas apresentou poucas variáveis relacionadas à responsabilidade socioambiental das empresas da indústria de cosméticos, ressaltando-se a importância dada pelas consumidoras às informações sobre os produtos naturais, o uso de refis, o entendimento de que as empresas que inovarem, adotando ações de responsabilidade socioambiental, terão mais garantia de sucesso, além da percepção de que selos verdes são fatores que podem influir no processo de decisão de compra. As consumidoras também manifestam o entendimento de que produtos ecologicamente corretos são mais caros e, na sua maioria, afirmaram que pagariam mais por esses produtos. Palavras-chave: responsabilidade socioambiental; comportamento do consumidor; indústria de cosmético; diferenciação baseada na imagem. 1. INTRODUÇÃO A preocupação e o respeito para com o meio ambiente já não é mais novidade nos dias de hoje. É possível encontrar pelo menos uma notícia diariamente nos meios de comunicação que remeta ao tema da responsabilidade socioambiental por parte das organizações e das pessoas. Entendendo a seriedade deste assunto, atualmente, inúmeras empresas estão reestruturando suas estratégias e formas de planejamento, para construir organizações mais sustentáveis e que visem o respeito à sociedade e a natureza como um todo. A promoção de ações que envolvam a valorização do funcionário ligado a sociedade onde vive, bem como, atividades de ação comunitária e tecnologias que proporcionem a redução de impurezas no meio ambiente, são chaves de uma nova oportunidade das organizações em atingir o público que opta e prioriza no ato da compra, por produtos de organizações sócio e ambientalmente responsáveis. A formação da consciência dos consumidores em preservar atualmente para que as gerações futuras também possam usufruir dos bens e benefícios do meio ambiente, é de certa forma prematura. Ela está em crescimento constante, porém não veloz. A prova disto está na resistência para iniciativas em projetos que minimizem o impacto socioambiental das indústrias durou até meados de 1980. As empresas entendiam que gastos nestas atividades afetariam a lucratividade, e neste cenário a idéia era passar a responsabilidade pelos atos à sociedade, mascarando e poupando o verdadeiro causador dos problemas. Porém, em meados da década de 80 a temática socioambiental foi ganhando forças através da mídia e agências ambientais mostrando e até mesmo conscientizando as empresas e pessoas de que as catástrofes envolvendo o meio ambiente são conseqüência da incapacidade de respeito nos processos produtivos gerados pelo desenvolvimento industrial. Neste contexto, os indicadores socioambientais vêm ganhando espaço com o objetivo de medir o impacto das atividades industriais sobre o meio ambiente, monitorando melhorias e avaliando importâncias. Neste trabalho, o objetivo de construir e identificar os melhores indicadores para avaliar a responsabilidade socioambiental nas empresas que compõem a indústria de cosméticos a partir da interpretação das atitudes dos consumidores, visou dar bagagem para as organizações construírem sua imagem positiva associada à saúde estética e assim alcançarem a diferenciação da marca. Para que se conseguisse alcançar o objetivo final do trabalho, tornou-se necessário que fossem atingidos três objetivos específicos: elaborar fundamentação teórica sobre a responsabilidade socioambiental das empresas e seu impacto na elaboração de estratégias mercadológicas que levassem em conta o comportamento do consumidor; realizar pesquisa de campo qualitativa junto às consumidoras de cosméticos para identificar as variáveis intervenientes no seu processo de realização de compra; e por fim, a partir da pesquisa de campo, construir uma escala de Likert para medir as atitudes das consumidoras em relação à indústria de cosméticos no que tange a responsabilidade socioambiental como fator de diferenciação. 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA Responsabilidade socioambiental compreende a análise das variáveis econômicas e sociais ligadas às dimensões ambientais como um todo. A combinação destes fatores em busca do desenvolvimento sustentável envolve organizações públicas e privadas em prol da causa. Segundo o Instituto Ethos (2010), que foi fundado em 1998 e representa uma organização sem fins lucrativos que luta em defesa do meio ambiente, a responsabilidade socioambiental compreende: Uma empresa social e ambientalmente responsável deve proteger a Natureza e contribuir para a inclusão social com eficiência econômica. Esta deve utilizar seu poder para diminuir os graves desníveis regionais existentes no País. Para tanto, se faz imprescindível uma aproximação entre empresas, poder público e sociedade civil. Para melhor entendimento do contexto deste artigo, alguns fundamentos serão abordados na sequência, como o histórico e a relação da responsabilidade socioambiental nas empresas, o comportamento e percepção do consumidor, e também a vantagem competitiva adquirida pelas organizações utilizado da responsabilidade socioambiental como diferenciação. A preocupação com as conseqüências do descuido com o meio ambiente não é atual e muitos autores entram em consenso na abordagem deste assunto. Segundo Haroldo Mattos de Lemos (2010, p. 21), o princípio da conscientização acerca do tema iniciou-se na Idade Média pelo reflexo do crescimento populacional nas cidades, teve continuidade na Revolução Industrial onde houve maior concentração da população nos municípios e se distendeu até a Segunda Guerra Mundial onde o foco girava na poluição excessiva devido à produção industrial. A década de 1970 registra, de acordo com Lemos (2010), um marco importante: a publicação, pelo Clube de Roma, do relatório denominado “Os Limites do Crescimento”, que imputava efeitos catastróficos a um crescimento da taxa demográfica. Já Demajorovic (2001) afirma que a resistência para as iniciativas de projetos que minimizassem o impacto socioambiental das indústrias durou até meados de 1980, quando então foi entendido que seria necessário tomar alguma atitude. Para o autor, “o consenso criado em torno dos benefícios proporcionados pela empresa, fundamentado em sua contribuição para o crescimento do emprego e do nível de renda, choca-se com a moral ecológica.” (2001, p. 46). A temática socioambiental foi ganhando força através da mídia e agências ambientais mostrando e até mesmo conscientizando as empresas e pessoas de que as catástrofes envolvendo o meio ambiente são conseqüência da incapacidade de respeito nos processos produtivos gerados pelo desenvolvimento industrial. Guimarães apud Demajorovic (2001, p. 52), retrata que “as empresas bem sucedidas serão aquelas que conseguirem superar os desafios advindos da incorporação da variável ambiental e social em suas estratégias de longo prazo e puderem aproveitar as oportunidades que surgirem”. 2.1 Responsabilidade social nas empresas A sustentabilidade nas organizações gira em torno do proveito retirado dos conceitos como a relação ética entre os atores ligados diretamente e indiretamente às organizações (stakeholders), combinado com a preservação e aproveitamento máximo dos recursos ambientais. Lemos (2010, p. 43), acredita que três são os desafios a serem alcançados pela humanidade para que seja atingido o desenvolvimento sustentável. Os dois primeiros – garantir a disponibilidade de recursos naturais e não jogar sobre a biosfera mais resíduos e poluição do ela possa absorver – são de natureza ambiental e caracterizam a capacidade de suporte do planeta. O terceiro é o desafio social – reduzir a pobreza em nível mundial. A constante busca das empresas pelo equilíbrio entre os contextos: social, econômico e ambiental mostra o quanto a responsabilidade social empresarial esta vindo à tona e mostrando à organização os caminhos a seguir visando dar respostas à nova demanda da sociedade que quer a garantia de um produto ecologicamente correto, com respeito aos trabalhadores e comunidade, não somente visando lucro aos acionistas, mas sim obtendo crescimento e vantagem competitiva no mercado de forma transparente e justa. Algumas empresas, no redescobrimento de suas responsabilidades e sentindo-se pressionadas pela sociedade, resolveram adotar ações filantrópicas imediatistas, limitadas a doações a entidades carentes, o que compreende a assistência de uma pequena parcela da comunidade. No antigo paradigma, o objetivo da empresa era obter lucros para seus acionistas. Hoje não somente a oferta de serviços e bens com preços justos se faz necessária, é preciso também ultrapassar os deveres legais e ter comprometimento com o mundo. O quadro 1 demonstra a evolução das abordagens de gestão ambiental empresarial. PERÍODO ABORDAGEM VALOR CONCEPÇÃO Indiferença aos problemas ambientais ATITUDE Até 1970 Sem controle de poluição Lucro Até 1985 Controle da Poluição Lucro e respeito à regulação O controle da poluição diminui os lucros Poluir no limite que a regulação permite Prevenção da poluição Lucro, respeito a regulação e eficiência Aumento dos lucros Reduzir resíduos no processo produtivo e desenvolver maior política de segurança Análise do ciclo de vida Lucro, eficiência e qualidade ambiental Atual ? Lucro e preservação da Desenvolvimento ? qualidade sustentável ambiental no longo prazo Quadro 1 - Evolução das abordagens de gestão ambiental. Fonte: Johnson apud Demajorovic (2001, p. 54) Aumento dos lucros e de vantagem competitiva no longo prazo Aumento da produção e de vantagens competitivas no longo prazo Poluir e degradar (externalizar custos) Gerenciar o produto desde a produção ate sua disposição final Produzir produtos que não agridam o meio ambiente A promoção de projetos sustentáveis despertou o mercado de negócios, fazendo-o adaptar-se à nova ordem. Segundo Oliveira (2008, p. 214), os chamados “Investimentos Sustentáveis” (IS), consideram na sua decisão os fatores ambientais e sociais. Um exemplo claro disso pode ser percebido em algumas das bolsas de valores mais tradicionais do mundo que já negociam índices de sustentabilidade empresarial nos seus pregões. Entre eles podemos citar o Dow Jones Sustainability Index (índice de sustentabilidade do Dow Jones da Bolsa de Nova York), FTSE 4Good da bolsa de Londres e, no Brasil, podemos citar o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial), negociado na Bolsa de Valores de São Paulo, a BM&FBovespa. Uma das líderes no mercado de cosméticos, a empresa Natura, fundada em 1969, passou a adotar práticas socioambientais nos anos 90, inserindo até mesmo na sua missão questões vinculadas ao compromisso com a transformação social. Destacou-se na bolsa de valores indicando que um investimento sustentável pode muitas vezes ser mais vantajoso do que um negócio tradicional (Revista BOVESPA, 2006). 2.2 O comportamento do consumidor O comportamento do consumidor é base para que as empresas encontrem a melhor forma e direcionamento para guiar suas estratégias de captação e conquista de clientes. Segundo Blackwell, Miniard e Engel (2005, p.9), é grande o desafio dos profissionais em analisar o comportamento do consumidor juntamente as empresas, uma vez que não é fácil conseguir conquistar o comprador, suprir suas necessidades trazendo-o satisfação e torná-lo cliente fiel. Para o futuro, as pesquisas que analisam o comportamento do consumidor pretendem se aprofundar mais na captura e interpretação das informações certas que as organizações precisam para suprir desejos e necessidades, bem como desenvolver técnicas para não perder as mudanças velozes que acontecem na vida dos consumidores. A atitude é um dos direcionadores mais importantes para se aprender e entender o comportamento do consumidor. Técnicas a partir de entrevistas são utilizadas como ferramentas para coletar, por exemplo, o maior número de informações relacionadas à satisfação ou insatisfação mediante um produto ou serviço. O entendimento das atitudes dos consumidores para profissionais de marketing é tão importante para que eles tenham fundamento no seu trabalho, que é praticamente impossível uma pesquisa nesse âmbito que não explore pelo menos algum aspecto das atitudes dos compradores. Uma das características da atitude é de que elas não necessariamente são completamente coerentes com o comportamento que refletem, existindo uma tendência a coerência, porém as atitudes podem não ser permanentes. É importante destacar que produtos e marcas têm valores intrínsecos para os consumidores. Para Schiffman e Kanuk (2000), estes procuram basear suas compras naquilo que combine com sua auto-imagem, e é justamente pelo fato de quererem preservar, melhorar ou mudar sua auto-imagem que procuram específicos pontos de venda no qual ofereçam produtos e serviços compatíveis com a personalidade individual de cada ser. O modo na qual um produto ou serviços é percebido e gravado na mente dos compradores se chama posicionamento. Esta imagem que os consumidores têm do produto e que consequentemente vincula à empresa produtora é primordial para que a organização consiga ocupar um lugar de destaque no mercado, pois em meio à força dos produtos substitutos e da concorrência os atributos reais do produto não tem tanta relevância quanto o poder da imagem. Adquirido este poder da imagem a empresa desfruta de vantagem competitiva, a qual surge fundamentalmente do valor que uma empresa consegue criar para seus compradores e que ultrapassa o custo de fabricação pela empresa. Uma das formas de destaque da vantagem competitiva é a diferenciação. A essência da estratégia de diferenciação está na escolha, por parte das empresas, de atributos específicos que sejam diferentes dos seus concorrentes e valorizados pelos consumidores. Deste modo as organizações serão vistas como únicas e por este fato o comprador estará disposto a pagar mais pela singularidade e exclusividade. Para que a estratégia se consolide de forma plena, o valor elevado que o cliente está disposto a pagar, deve sempre buscar cobrir os gastos que a empresa teve com a elaboração da diferenciação do produto ou serviço. As empresas que desfrutam dos benefícios provindos da diferenciação por imagem, investem fortemente em mídia e comunicação. Esta forma enfática de transmitir a idéia da empresa aos consumidores através de todos os meios de comunicação, serve para que a marca consiga se posicionar na mente dos consumidores e assim ser lembrada a longo prazo. A indústria de cosméticos atualmente utiliza da diferenciação por imagem através do compromisso com o meio ambiente e o social. O marketing é feito sobre a responsabilidade que a empresa demonstra ter perante os produtos obtidos diretamente da natureza, que compreende na sua matéria prima, vinculados ao respeito social às comunidades e produtores locais. 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS A metodologia aplicada neste trabalho consiste na utilização da pesquisa exploratória, que são métodos empregados nos primeiros estágios da investigação com objetivo de estabelecer prioridades, classificar conceitos e prover ao investigador informações mais concisas a cerca do tema em estudo. Aliado a este método, utiliza-se da pesquisa qualitativa que compreende um conjunto de técnicas interpretativas, onde estimulam o entrevistado a pensar livremente sobre o tema dando oportunidade ao entrevistador de descrever os sentidos avaliados, e sobre isto decodificar atos e sentimentos do mundo social abordado. Por fim, serão encontrados fundamentos para que, seguindo unicamente a metodologia proposta por Mattar (2005), consiga-se criar uma escala de Likert com o intuito de medir atitudes através de uma série de afirmativas relacionadas ao objeto pesquisado e seu grau de concordância ou discordância relacionada a este. 4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Este trabalho buscou analisar, o nível de preocupação e interesse de consumidoras em relação a este tema tão atual e polemico em meio a sociedade. Para isto iniciou-se a investigação através da pesquisa exploratória, que parte do princípio do levantamento de informações, e das várias opções aplicáveis na resolução do problema, bem como, na clarificação de conceitos. Isto foi importante para obter-se fundamento na construção de indicadores. Indicadores estes que não devem ser simplesmente entendidos como dados, mas sim como uma forma de identificar atributos, ou atribuir valor a um objeto, acontecimento ou situação. Os indicadores, enquanto medidas devem ser expressos por meio de categorias, ou formas na qual possam se expressar. Uma das técnicas que utiliza-se de indicadores na mensuração de atitudes, são as escalas. Para esta pesquisa optou-se em construir uma Escala de Likert, a qual foi inventada por Rensis Likert (1932) com objetivo de medir atitudes. Mattar (2005, p. 236) explica esta escala como sendo uma série de afirmações em relação ao objeto pesquisado, onde o respondente não apenas concorda ou discorda da afirmação, mas indica o grau de concordância ou discordância. A escala de Likert que foi construída partiu da realização de pesquisa de campo exploratória qualitativa junto as consumidoras de cosméticos para identificar as variáveis intervenientes no seu processo de realização de compra. E com isto identificar os melhores indicadores que medem as atitudes das consumidoras em relação à indústria de cosméticos no que tange a responsabilidade socioambiental como fator de diferenciação. Nesta primeira etapa, para construção da escala de Likert, foi necessário encontrar fundamentos para pesquisa através das experiências, opiniões e declarações das consumidoras de cosméticos. Entender a relação que existe entre comprador e produto, e identificar quais os fatores que chamam atenção ou decidem a compra são essenciais nesta fase, pois somente assim se obteve solidez e precisão nos resultados futuros. Para isto foram pesquisadas 100 consumidoras, no município de Joinville – Santa Catarina, na faixa etária de 18 a 45 anos. Este intervalo foi definido como ideal, pois concentra as idades de consumidores que mais utilizam os produtos cosméticos de diversas formas e com diversos objetivos e propósitos diferentes. Na entrevista a pesquisada foi convidada a falar livremente sobre sua relação com cosméticos e maquiagens, assim como propõe o método da pesquisa exploratória qualitativa, porém foi utilizado um roteiro mestre, para direcionar o foco da conversa e fluir de forma que fosse favorável a conquista de informações úteis e necessárias para construção da pesquisa. Em função do curto espaço de tempo para obtenção das informações, foram encaminhados alguns roteiros diretamente as consumidoras através de email. Neste email a consumidora era convidada a não responder apenas sim ou não quanto às questões do roteiro, mas a desenrolar sua opinião sobre o assunto em prol da construção do trabalho. O roteiro de pesquisa também contou com algumas questões relacionadas ao descarte das embalagens, qual o impacto causado ao meio ambiente, qual a influência que as ações socioambientais causam na decisão de compra de determinado produto, se o consumidor está disposto a desembolsar um valor maior por produtos que focam neste tipo de marketing, entre outros. Questões deste tipo influenciam o consumidor a se indagar a respeito dos impactos que são causados pelas empresas e até mesmo por ele no meio onde habitam. Após esta fase, foi realizada a formatação das opiniões, onde os variados dados obtidos através de falas, conceituações ou afirmações das consumidoras, foram transformados em opiniões sem que a essência ou idéia que a consumidora quis passar fosse perdida. Após a organização dos dados, ficou mais fácil a visualização de opiniões que não necessariamente iriam ajudar no objetivo final do trabalho, sendo assim, neste momento foi importante descartar irrelevâncias, bem como afunilar as informações de modo a buscar as idéias mais ricas que iriam agregar a pesquisa. Mattar também orienta que nesta fase ocorra a divisão das opiniões em favoráveis e desfavoráveis. Para chegar nesta meta, tomou-se como base as variáveis favoráveis selecionadas, que por sua vez eram maioria, e transformou-se as mesmas favoráveis em desfavoráveis através de adaptações. Para conseguir selecionar as variáveis mais coerentes e de maior importância que deveriam entrar nesta etapa do trabalho, foi feito um comitê com dois profissionais gabaritados e competentes da área, um deles administrador e especialista em comportamento do consumidor bem como pesquisa de mercado, e a outra também administradora, doutorada em antropologia. As opiniões foram minuciosamente analisadas, e o critério para seleção e construção daquelas escolhidas para próxima fase da pesquisa foi à busca e a identificação de opiniões que retratavam alguma relação com a responsabilidade social e ambiental das indústrias de cosméticos, bem como características dos produtos e embalagens cosméticas que tinham influência na tomada de decisão de compra, entre outros. Todo o processo de seleção de opiniões, transformação de variáveis e qualificação das mesmas, o qual foi percorrido até agora e relatado nos tópicos acima, teve como objetivo a construção de uma nova pesquisa, que foi caracterizada como uma das etapas mais significativas para que se conseguisse alcançar o objetivo final de criar uma escala de Likert. Esta nova pesquisa foi elaborada com as variáveis favoráveis e desfavoráveis definidas anteriormente. Seguindo a mesma regra da pesquisa exploratória realizada no princípio deste projeto, e para que não se perdesse a linearidade dos dados, realizou-se a nova pesquisa dentro do município de Joinville – Santa Catarina, com um grupo-piloto de 100 mulheres, sendo não necessariamente as mesmas pessoas já indagadas na primeira investigação. Utilizou-se deste momento que compreendeu uma nova fase, para medir e obter informações adicionais sobre a faixa etária da consumidora, seu nível de escolaridade e faixa de renda individual mensal. Novamente tomou-se o cuidado de distribuir os questionários em locais onde à utilização de produtos cosméticos era mais usual, como salões de beleza, centros de estética e lojas especializadas. O objetivo desta pesquisa foi entender o grau de favorabilidade e/ou desfavorabilidade das consumidoras de cosméticos em relação a cada variável definida para compor esta nova investigação. As pesquisadas tiveram cinco níveis para expressar o seu grau de concordância ou discordância quanto às opiniões contidas na pesquisa, foram eles: concordo totalmente, concordo em partes, indeciso, discordo em partes e discordo totalmente. Concluída a fase de aplicação prática da nova pesquisa, na qual, procurou-se ponderar e capturar o estilo, o costume e o modo de pensar das consumidoras, através de variáveis favoráveis e desfavoráveis relacionadas a cosméticos, suas indústrias e a responsabilidade socioambiental das mesmas, chegou-se a uma grande gama de dados resultantes. Seguindo a metodologia de Mattar (2005), o primeiro passo para avaliação dos dados resultantes da investigação, foi atribuir valores distintos a cada nível de concordância ou discordância, de acordo com as respostas obtidas nos questionários. O grande segredo nesta etapa foi relacionar de forma correta o número que vai indicar o peso da resposta, a cada alternativa. Normalmente usa-se os números de 1 a 5 para determinar o grau de relevância ou irrelevância de cada variável, ou então, a sequência de números -2, -1, 0, 1 e 2. Após atribuir os determinados pesos a cada resposta, de cada um dos 100 questionários, o objetivo foi identificar aquelas mais relevantes e menos relevantes para posteriormente fazer a eliminação de algumas variáveis a fim de reduzi-las a um número de, no máximo, 20 ou 30, sendo estas as mais discriminadoras de atitude de acordo com as respostas das consumidoras de cosméticos. Segundo Mattar (2005), um dos processos para que se chegue à redução das afirmativas, é o método das médias. Ele é questionável em termos metodológicos, pois calcula a média das variáveis de cada questão, porém, permite que se chegue a conclusões e ao resultado de forma mais simples e prática, além de ser eficaz. Sendo assim, utilizou-se desta técnica nesta fase do processo a fim de atingir o objetivo final que foi a construção da escala de Likert. A orientação para a utilização do método das médias como processo avaliativo dos dados, sugere que o grupo-piloto de pesquisados seja dividido em 2 ou 4 grupos, dependendo da quantidade de respondentes, tendo como objetivo fazer o comparativo do grupo mais concordante com determinada afirmação com o grupo mais discordante. Neste trabalho optouse por não utilizar o critério da separação dos grupos, mas sim analisá-lo como um todo e de acordo com cada alternativa concordante ou discordante, sendo que, cada variável favorável tem uma correspondente desfavorável, por exemplo, variável 1 favorável é correspondente a variável 23 que é desfavorável, e assim sucessivamente, isto fará com que a comparação seja entre variável concordante e correspondente discordante e não entre grupos. Após utilizado o método das médias como ferramenta na redução das alternativas e busca daquelas mais discriminadoras na opinião do público pesquisado, partiu-se para a ordenação das variáveis. Conforme relatado, o método das médias busca fazer a média das respostas de uma determinada questão favorável e a média das respostas da respectiva questão desfavorável e, a partir deste cálculo, já se pode concluir qual das questões tem mais peso, favorável ou desfavorável. Neste trabalho todas as médias das variáveis favoráveis foram superiores as desfavoráveis, sendo assim, são as alternativas favoráveis mais discriminadoras de opinião e que formarm a escala de Likert. Para conhecer as alternativas de maior importância na óptica das consumidoras, foi realizada a ordenação a partir da diferença das médias entre variável favorável e desfavorável, pois partimos do pressuposto que, quanto mais alto o valor desta diferença, mais considerável é a alternativa. Finalmente, após todas as etapas e processos percorridos, conseguiu-se chegar a formação oficial da escala de Likert pronta para aplicação ao público, a fim de medir a atitude das consumidoras em relação às variáveis que identificam a responsabilidade socioambiental das indústrias de cosméticos. Seguindo-se ainda a metodologia de Mattar (2005), quando aplicada ao público, a escala final de Likert deve ser analisada a partir de alguns critérios. Considerando que a escala construída, têm 18 afirmações e que o conjunto de números na qual irá se atribuir os valores a cada variável será de 1, 2, 3, 4 e 5, então o valor máximo da escala chegará a 18 x 5 = 90, e o valor mínimo será de 18 x 1 = 18. Supondo que o resultado de um determinado respondente da pesquisa foi de 67, então se pode concluir que a atitude do pesquisado em relação às variáveis que compõem a investigação é favorável em 67/90, que representa 74,4%. Importante lembrar que cada variável tem um peso diferente, devido ao seu maior destaque na avaliação dos dados através do método das médias. Então quando formado o valor da resposta do pesquisado, deve-se levar em conta a porcentagem de cada alternativa. Desde o primeiro momento em que foi definida a idéia e a temática que seria abordada neste trabalho, o entusiasmo e a perseverança tomaram frente à batalha para que fosse possível alcançar o objetivo. A razão de querer criar uma escala de Likert para medir a atitude das consumidoras em relação às indústrias de cosméticos, no que tange a responsabilidade socioambiental como fator de diferenciação, estava muito além de apenas formular um projeto de pesquisa e, sim, entender a relação que existe entre comprador e produto, bem como, identificar quais os fatores que realmente chamam atenção do consumidor e são relevantes na tomada de decisão de compra de cosméticos e produtos de beleza. Tinha-se o intuito também, de fazer com que as pesquisadas refletissem sobre o tema da responsabilidade socioambiental nas indústrias de cosméticos, e o que elas como cidadãs da Terra e consumidoras diretas destes produtos, podem contribuir ou ajudar para que se consiga atingir a sustentabilidade. Na primeira etapa da construção da escala de Likert, foi realizada uma pesquisa exploratória, onde, através das experiências, opiniões e declarações das consumidoras de cosméticos, o objetivo era encontrar fundamentos para auxiliar nas posteriores investigações. Nesta fase já ficou claro, a partir dos inúmeros depoimentos das compradoras, que os cosméticos fazem parte do “mundo feminino das vaidades”. As mulheres utilizam deste artifício para cultivar corpo e refletir na mente, pois se sentem mais bonitas, e conseqüentemente de bem com a vida como um todo. Por este fato, características como, perfume, textura, homogeneidade, filtro solar e fator antienvelhecimento tiveram imenso peso e grande destaque no testemunho das consumidoras. Com o auxílio do roteiro, conseguiu-se nas entrevistas a retomada do assunto e o direcionamento do foco da conversa para que fluísse de forma favorável na conquista de informações úteis e necessárias para construção da pesquisa, mas ainda assim, deve-se destacar o surgimento de muitos atributos dos cosméticos que fugiam o objetivo do trabalho, e por este fato pode-se considerar que não foi atingido o objetivo do trabalho de forma plena, sendo que, não conseguiu-se identificar os melhores indicadores que avaliam a responsabilidade socioambiental nas empresas que compõem a indústria de cosméticos. Identificou-se sim, indicadores relevantes para o determinado público pesquisado neste trabalho. Muitas podem ser as justificativas do porquê de não terem surgidos tantos fatores ressaltantes em relação à responsabilidade socioambiental das indústrias de cosméticos. Algumas hipóteses podem girar em torno da falta de conhecimento das consumidoras, ou da falta de interesse pelo tema, mas o fato é que neste trabalho era necessário que se buscasse o objetivo geral proposto e assim se fez. Como relatado nos tópicos anteriores, os quais descreveram a construção da escala de Likert, foi necessário fazer muitos filtros para que o tema fosse afunilando de tal forma que agregasse valor ao objetivo final de construir a escala Likert. Sendo assim, novamente enfatiza-se o fato de ter-se alcançado a meta do trabalho, porém não como se imaginava. Por entender que o respeito ao meio ambiente e as sociedades é um tema que está em voga, tinha-se a idéia de que, o menor dos problemas, seria o conceito das consumidoras e o valor que elas dão ao fato de ter que respeitar o meio ambiente e todas as formas de vida que nele existem, bem como as pessoas que lutam em prol da sustentabilidade do planeta. Talvez, em outras regiões do Brasil ou do mundo, em função da maior contribuição por parte das pesquisadas, alguns direcionamentos desta pesquisa acabassem diferentes, ou pela cultura aprimorada da localização, ou pela maior consciência das consumidoras, ou ainda, pelos cidadãos de determinadas regiões terem passado por crises violentas no trabalho, na família, e na vida devido a calamidades provocadas pelo desrespeito ao meio ambiente, e terem aprendido com isso. Considerando o fato de que a pesquisa foi realizada no município de Joinville – SC, o qual não tem marcas de catástrofes ambientais sérias na sua história e subentendendo-se que as compradoras são residentes da cidade, pode-se considerar que não “sentiram na pele” o que é a perda material, e moral do ser. O fato é que, seguida a metodologia de Mattar (2005), e feitos os determinados filtros, chegou-se ao resultado final do trabalho, e neste momento, deve-se esquecer alguns fatores entendidos e observados durante a construção da escala e focar na conclusão da pesquisa. A escala construída é apresentada no Anexo 1. 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Pode-se observar na escala de Likert construída, que o tema da responsabilidade socioambiental mostrou-se relevante na perspectiva das consumidoras em determinados pontos. Isso se dá pela percepção do considerável peso dado pelas consumidoras a variáveis como: a valorização de informações sobre os produtos naturais em relação aos cosméticos; o entendimento de que as empresas que inovarem adotando ações de responsabilidade socioambiental terão maior garantia de sucesso, pois são uma tendência no mercado, e, com segundo maior destaque na opinião das consumidoras; a certeza de que todas as empresas de cosméticos deveriam possuir selo verde. Tomando como base o público pesquisado, fica clara a disposição do mercado em querer indústrias de cosméticos legalmente responsáveis, e praticantes de ações em prol da sociedade e meio ambiente. O aparecimento de palavras chaves como inovação, tendência e sucesso, indicam o poder da responsabilidade socioambiental, na sociedade atual, como fator de diferenciação se implantada como estratégia dentro das indústrias de cosméticos. Duas outras variáveis que também apareceram de forma enfática no resultado obtido a partir da pesquisa com consumidoras de cosméticos, relacionando-se e vinculando seus valores. Enquanto uma variável afirma que os produtos das empresas socioambientalmente responsáveis são mais caros, outra variável completa garantindo que as consumidoras pagariam mais por produtos ecologicamente corretos. Isso vai ao encontro da afirmação sobre a essência da estratégia de diferenciação, que está na escolha, por parte das empresas, de atributos específicos que sejam diferentes dos seus concorrentes e valorizados pelos consumidores, neste caso a responsabilidade socioambiental. Deste modo, as organizações serão vistas como únicas e por este fato o comprador estará disposto a pagar mais pela singularidade e exclusividade. As pesquisadas declararam entendimento de que as empresas de cosméticos possuem compromisso com as pessoas e afirmaram também conhecer empresas de cosméticos que têm responsabilidade socioambiental. O aparecimento destas variáveis prova o forte investimento das indústrias do ramo da beleza, em publicidade e propaganda para divulgar sua marca e compromisso com o consumidor de seus produtos. Para finalizar as considerações, retoma-se Porter (1989, p. 146), quando afirma que, uma das variáveis responsáveis pela sustentabilidade da diferenciação de uma empresa é o valor percebido pelos compradores. No resultado final da pesquisa realizada em prol da construção da escala de Likert, a variável de maior destaque foi o valor a credibilidade da marca. Desta forma o apelo à responsabilidade socioambiental vinculado à credibilidade da marca traz às indústrias de cosméticos a diferenciação sustentável. REFERÊNCIAS BLACKWELL, Roger D.; MINIARD, Paul W.; ENGEL, James F.. Comportamento do consumidor. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2005. 606p. DEMAJOROVIC, Jacques. Sociedade de risco e responsabilidade socioambiental. São Paulo: Senac, 2001. 277p. GAMEZ, Milton. Empresas bem dirigidas já dominam os negócios. Revista Bovespa, São Paulo, abr./jun. 2006. INSTITUTO ETHOS. Empresas e responsabilidade social. São Paulo: Instituto Ethos; 2010. Disponível em: http://www.ethos.org.br. Acesso em: 04 jun. 2010. LEMOS, Haroldo Mattos. Responsabilidade Socioambiental – Apostila. Rio de Janeiro: FGV , 2010. MATTAR, Fauze Najib. Pesquisa de marketing. 3.ed. São Paulo: Atlas, 2006. 224p. MATTAR, Fauze Najib. Pesquisa de marketing. 6.ed. São Paulo: Atlas, 2005. 347p. OLIVEIRA, José Puppim de. Empresas na sociedade. Rio de Janeiro: Elsevier, 2008. 240p. PORTER, Michael E.. Vantagem competitiva. 34.ed. Rio de Janeiro: Campus, 1989. 512p. SCHIFFMAN, Leon G.; KANUK, Leslie Lazar. Comportamento do consumidor. 6.ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000. 475p. Anexo I – Proposta de escala de Likert para avaliar a responsabilidade social da indústria de cosméticos Em relação à responsabilidade socioambiental das indústrias de cosméticos, assinale seu grau de concordância ou discordância para cada uma das afirmações a seguir. Legenda: CT = Concordo totalmente C = Concordo em partes I = Indeciso D = Discordo em partes DT = Discordo totalmente 1. Valorizo a credibilidade da marca CT C I D DT % 6,26 2. Todas as empresas de cosméticos deveriam possuir selo verde 3. Uso produtos para tratamento cosmético facial CT C I D DT 6,49 CT C I D DT 6,17 4. Valorizo o uso de refis CT C I D DT 5,95 5. Valorizo as informações sobre os produtos naturais CT C I D DT 5,60 6. Os produtos orgânicos são os produzidos de forma ecologicamente correta 7. Uso maquiagem diariamente CT C I D DT 5,50 CT C I D DT 5,70 8. As empresas que inovarem adotando ações de responsabilidade socioambiental terão maior garantia de sucesso 9. Procuro reciclar as embalagens CT C I D DT 6,24 CT C I D DT 5,16 10. Uso produtos para tratamento cosmético corporal CT C I D DT 5,27 11. As empresas ecologicamente responsáveis são uma tendência no mercado 12. As mulheres têm mais consciência ecológica CT C I D DT 6,30 CT C I D DT 5,05 CT C I D DT 5,37 CT C I D DT 5,46 15. Conheço empresas de cosméticos que têm CT responsabilidade socioambiental 16. As empresas de cosméticos possuem compromisso com as CT pessoas 17. Sempre observo as informações contidas nos rótulos CT C I D DT 4,93 C I D DT 4,88 C I D DT 4,96 18. Valorizo embalagens que chamam mais a atenção C I D DT 4,71 13. Os produtos das empresas socioambientalmente responsáveis são mais caros 14. Pagaria mais por produtos ecologicamente corretos CT