CARTA ABERTA
Associação Insular de Geografia
Ex.mos Docentes da Disciplina de Geografia
Ex.mos Delegados/ Representantes de Disciplina
Ex. mos Membros do Departamento de Ciências Sociais e Humanas
Exmo Coordenador do Departamento de Ciências Sociais e Humanas
Continuam a chegar à Direção da Associação Insular de Geografia notícias da
existência de dificuldades, em algumas escolas, no que concerne à distribuição dos
tempos letivos no 3º ciclo de escolaridade de uma forma equitativa entre a disciplinas
de Geografia e História, no âmbito da reorganização curricular em vigor.
Atendendo que os interesses dos alunos devem sobrepor-se a qualquer interesse dos
docentes e da própria escola, e que a Geografia e a História são disciplinas
fundamentais para a formação dos alunos, havendo complementaridade entre os
objetivos das duas disciplinas.
E considerando que:
- A Revisão Curricular Intercalar vem reforçar a importância dos conhecimentos
geográficos na formação básica dos nossos jovens e na utilização das
ferramentas geográficas fundamentais para o conhecimento do território
português e mundial.
- A Constituição Portuguesa consigna o princípio da equidade e da igualdade
de oportunidades de acesso e ao êxito escolar (artigo 74º). Este princípio terá
que ser respeitado para que todos os alunos usufruam de igualdade de
oportunidades relativamente ao número de horas de trabalho letivo, no final do
ciclo de escolaridade.
- A aprendizagem de conceitos geográficos estruturantes tanto no 1º ciclo, na
área de Estudo do Meio, como no 2º ciclo, na disciplina de História e Geografia
de Portugal, é bastante deficitária devido a causas diversas, nomeadamente ao
fato de existirem lacunas no domínio da formação base dos docentes do 1.º
ciclo, face a conteúdos e conhecimentos de temas geográficos e de, ao nível
do 2.º ciclo, não ser reconhecida como habilitação própria a formação
académica dos docentes em cursos de Geografia.
- A aprendizagem dos conteúdos da Disciplina de Geografia revela-se mais
eficaz quando os alunos têm a oportunidade de viver na escola experiências de
aprendizagem ou resolver problemas reais, próximos e significativos. Tal remetenos, necessariamente, para o meio local e regional e para o confronto destes
mundos com outros que lhes estão distantes.
- A adequação dos conteúdos geográficos à realidade regional, considerada
pertinente pela Secretaria Regional da Educação e Recursos Humanos, implica,
necessariamente, a devida correspondência em termos de carga horária, para
que seja efetivada pelos docentes.
A Direção da Associação Insular de Geografia entende que:
- Nas escolas, o mapa curricular deverá ser debatido e aprovado no Conselho
Pedagógico;
-O
coordenador de Departamento deverá apresentar ao Conselho Pedagógico
a proposta dos dois grupos disciplinares que representa, quando a mesma não
for fruto de consenso. Não havendo consenso, não se deverá proceder a
qualquer tipo de votação, ao nível do Departamento, na medida em que,
contraria as boas práticas do código de procedimento administrativo, em
virtude de não existir uma distribuição equitativa de professores entre os grupos
que compõem o Departamento, o que pode condicionar a votação.
- A decisão deve ser entendida como uma definição de escola, na salvaguarda
dos superiores interesses dos alunos.
Consideramos de extrema importância que a distribuição das horas curriculares às
disciplinas de Geografia e História, no 3º ciclo do Ensino Básico, embora sendo da
responsabilidade das escolas, no que diz respeito à organização por ano, deve
respeitar o princípio da equidade, tal como defendido na Constituição Portuguesa,
devendo ser dada autonomia à escola para a gestão das horas por ano de
escolaridade, garantindo sempre que no final do 3º ciclo haja uma distribuição
equitativa dos tempos letivos (8 tempos letivos no final do ciclo para a disciplina de
Geografia).
Com os melhores cumprimentos,
A Presidente da Direção
Maria Gilda de Andrade Fernandes Dantas
Contributo para a Fundamentação Científica e Pedagógica do parecer da Associação
Insular de Geografia
A nível escolar a questão da distribuição dos tempos letivos não se coloca apenas ao
nível das disciplinas de História e Geografia, mas igualmente entre a Físico-Química e as
Ciências Naturais. Poderemos assim constatar, que estas disciplinas compreendem o
conceito da interdependência dos conteúdos que hoje se pretende, tendo por base o
melhor interesse dos alunos.
Não podemos compreender que, dum modo corporativista, quaisquer grupos
disciplinares, a despeito dos superiores interesses dos alunos, pretendam elevar a sua
disciplina, reduzindo a importância de todas as outras.
Se ao nível das escolas, a definição curricular anómala, condiciona o correto
desenvolvimento escolar dos discentes nas disciplinas em causa, impedindo a normal
lecionação dos conteúdos das mesmas disciplinas, a distribuição dos tempos letivos
não deve ser encarada como uma questão corporativa, de um ou outro grupo
disciplinar, mas sim como uma questão transversal na saudável e equilibrada
formação das novas gerações.
IMPORTÂNCIA DA GEOGRAFIA NOS CURRÍCULOS DO ENSINO BÁSICO
No ensino básico, tal como este se encontra hoje estruturado, é cada vez mais
evidente a importância do saber geográfico na formação dos alunos. Vivemos cada
vez mais num mundo caracterizado pelo aparente paradoxo entre globalização e
descentralização,
as
solicitações
quotidianas
exigem
o
desenvolvimento
de
competências de âmbito marcadamente geográfico, como ler um mapa e localizar
corretamente os fenómenos e os processos; explorar o meio físico e social envolvente
(condição prévia ao exercício de uma cidadania empenhada); ou interpretar nas
notícias do mundo distante as diferenças ambientais, culturais e socioeconómicas de
uma sociedade diversa que a educação geográfica nos ajuda a descobrir e (re)agir
de forma ponderada e esclarecida.
Consideramos assim, de toda a pertinência, alertar para a relevância da Ciência
Geográfica, bem como, para o importante papel que os professores de Geografia
desempenham na formação dos nossos alunos e consequentemente na sociedade
dos nossos dias.
A construção da identidade pessoal e comunitária e a identidade territorial assume
importância
primordial.
À
escala
pessoal,
falamos
com
frequência
desenraizamento, se o indivíduo não se reconhece no território que habita.
de
Por outro lado, continua a ser-nos estranha a situação de um povo que não possui um
ou não se identifica com um território, elemento de forte carga simbólica e afetiva e
de legitimação e afirmação institucional perante os outros.
Também em reação à uniformização ditada pela globalização financeira e
económica, seguida pela política e pela cultura, a Geografia pode revelar-se crucial
afirmando as especificidades locais e regionais e a demonstração de que as
tendências globais têm diferentes repercussões na grande escala – conceito a que
chamamos glocalização.
Neste contexto, a ciência geográfica acentua o carácter holístico da região,
entendida, cada vez mais, como construção social dinâmica e em interação com os
territórios de diferentes escalas.
Assim, a Geografia inscreve-se no grupo de disciplinas escolares a quem mais
potencialidades têm sido reconhecidas na formação dos jovens. Ocupando, uma
posição de charneira entre o mundo físico e social, a natureza e a cultura, e sendo
considerada, como uma ciência-ponte entre vários ramos do saber, esta tem sido
entendida, frequentemente, como o espaço por excelência da multidisciplinaridade.
Na realidade, talvez seja mesmo a difusão desta forma de olhar para a ciência
geográfica que justifica, desde há longa data, a sua presença assídua nos currículos
do Ensino Básico e Secundário da maioria dos países, um universo no qual se inclui
Portugal, e que, mesmo em tempos de crise dos saberes disciplinares e da afirmação
de áreas do conhecimento científico mais híbridas e globalizantes, como o é
manifestamente a pós-modernidade, esta continue a ser fortemente valorizada, e a
importância das competências geográficas sejam redescobertas, como aconteceu,
por exemplo, na sociedade norte-americana, de que nos dá conta o National
Research Council (1997)1.
Na escola, muitos são os atributos que surgem indexados à geografia e aos seus
praticantes. Lefèvre (1978: 61-62)2, por exemplo, realçando a importância que a
observação assume na disciplina, coloca os professores de geografia em primeiro
plano na descoberta das aptidões, dos interesses, dos gostos, das maneiras de ser e
das atitudes dos alunos. Para este pensador, as potencialidades da educação
geográfica são tanto intelectuais como caracteriais, incluindo-se nas primeiras, por
exemplo, a capacidade de observação e análise, a memória geral, o espírito crítico e
sentido de comparação, e, nas segundas, a objetividade e a imparcialidade, os
gostos particulares, o amor ao passado e a paixão do futuro…
National Research Council (1997): Rediscovering Geography: New Relevance for Science
and Society, National Academy Press, Washington.
2 Lefèvre, L. (1978): O Professor, Observador e Actor: condução da classe e orientação
escolar, Livraria Almedina, Coimbra.
1
Bem mais recentemente, a Geographical Association 3, numa postura pró-ativa de
encorajamento dos alunos pelo estudo da disciplina, nos seus manifestos “This is
Geography” (2000) e “This is geography… in school and beyond” (2003), não só realça
as suas valências a partir de depoimentos de reputadas personalidades, como faz
notar a elevada empregabilidade de todos aqueles que tiveram oportunidade de
estudar geografia.
Entre as competências frequentemente reconhecidas à Geografia, enquanto matéria
escolar, que justificam a sua presença assídua nos curricula nacionais encontram-se as
seguintes:
i)
A oportunidade de através do trabalho de campo se poder realizar
investigações em primeira mão sobre os lugares, o ambiente e o
comportamento humano;
ii)
A construção do conhecimento e a compreensão dos acontecimentos, da
escala local à global;
iii) O desenvolvimento de competências essenciais, fundamentais para a vida
em sociedade, como a literacia, a numeracia, as TIC, a resolução de
problemas, o trabalho de grupo, as destrezas de pensamento, o
questionamento;
iv) A valorização das visões pessoais nas tomadas de decisão relativamente a
questões fundamentais sobre a sociedade e o ambiente;
v) O interesse pelo mundo que nos rodeia e a motivação dos jovens para a
sua exploração;
vi) E, por último, a formação dos jovens para o exercício pleno da cidadania.
Em Portugal, o ensino da Geografia está presente em todos os ciclos de escolaridade,
desde o primeiro ano do 1.º ciclo ao 12.º ano. Com efeito, embora apenas ganhe
autonomia no 3.º ciclo de escolaridade, esta integra os currículos dos ciclos anteriores,
primeiro na área disciplinar de Estudo do Meio e depois na de História e Geografia de
Portugal.
No segundo ciclo, a disciplina de História e Geografia de Portugal, inclui temas
especificamente geográficos, em relação aos quais foram definidas as competências
específicas de Geografia a desenvolver pelos alunos. Este desenvolvimento deve ser
realizado através de experiências de aprendizagem que, tal como no primeiro ciclo,
também privilegiem a observação direta, para a qual se torna indispensável a
Geographical
Association
(2000):
This
is
Geography,
Sheffield,
http://www.geography.org.uk
Geographical Association (2003): This is Geography … in school and beyond, Sheffield,
http://www.geography.org.uk
3
realização de trabalho de campo e a observação indireta, com recurso a imagens e
à aquisição de destrezas cartográficas.
As competências geográficas relativas a este ciclo foram formuladas tendo em conta
a área do programa - À descoberta de Portugal e da Península Ibérica - promovendo
o conhecimento do território português, de modo a adquirir uma identidade de base
territorial que leve o aluno a desenvolver o sentimento de pertença ao país e a
capacidade de intervenção cívica, pelo conhecimento do ambiente, da sociedade e
da cultura em que está inserido. No entanto, constatamos que muitos alunos não
desenvolvem devidamente, ao longo do deste ciclo, as competências geográficas
que lhes permitam encarar com à vontade o 3º ciclo do ensino básico.
No terceiro ciclo, a disciplina de Geografia tem um papel fundamental no
conhecimento que os jovens vão adquirindo sobre Portugal, a Europa e o Mundo. As
competências formuladas pretendem centrar a aprendizagem no desenvolvimento
da observação, na classificação, na organização e interpretação de dados, na
construção e leitura de mapas, na procura de informação, na observação direta e
indireta, no levantamento de hipóteses, na discussão de factos, na tomada de
decisões,
no
desenvolvimento
de
atitudes
críticas.
Como
experiências
de
aprendizagem, privilegiam-se o trabalho individual, o trabalho de grupo, cooperativo,
a realização de projetos4.
Tal como nos dão conta L. Ucha e C. Ferreira (2000: 99-100), no 3.º ciclo do Ensino
Básico, o currículo de Geografia é formado pelo conjunto de aprendizagens e
competências a desenvolver pelos alunos ao longo do Ciclo aquando do estudo de
seis temas programáticos:
A Terra: Estudos e Representações;
Meio Natural;
População e Povoamento;
Atividades Económicas;
Contrastes de Desenvolvimento;
Ambiente e Sociedade.
Estes temas abordam temáticas e conteúdos essenciais que facilitam e promovem o
conhecimento e a compreensão do Mundo em que vivemos e, por isso, são básicos
para a investigação geográfica. No primeiro tema, A Terra: Estudos e Representações,
os alunos têm oportunidade de desenvolver competências relacionadas com o
estudo da paisagem e com a construção, uso e interpretação de mapas e gráficos –
ferramentas e técnicas fundamentais para o estudo da Geografia. O mapa é a forma
Luísa Ucha; Conceição Ferreira (2000). “O cidadão geograficamente competente.
Competências da geografia no ensino básico, Inforgeo, N.º 15, pp. 91-102.
4
ideal de apresentar a informação espacial tornando-se, por isso, na ferramenta mais
importante do geógrafo. Ensinar com e acerca de mapas é uma parte essencial deste
tema que, dada a natureza dos conteúdos, deve ser sempre estudado em primeiro
lugar.
Nos restantes cinco temas, são tratados conteúdos e temáticas da Geografia Física e
da Geografia Humana. A partir da observação e do estudo da inter-relação dos
fenómenos naturais associados ao clima, à vegetação, aos solos e à água, os alunos
podem reconhecer que o mundo físico e as regiões naturais têm uma identidade
própria, que muitas vezes ultrapassa as fronteiras políticas e económicas. O estudo e
conhecimento de temáticas do domínio da Geografia Física permitem avaliar as
oportunidades que surgem à população quando interage com o mundo físico. Este é
um domínio ideal para abordar questões fundamentais da Educação para a
Cidadania ligados com a Educação Ambiental, a sustentabilidade, …
Por sua vez, as temáticas da Geografia Humana permitem explorar a forma como o
ser humano ocupa e usa o mundo físico, e compreender como a organização das
atividades humanas podem ser afetadas pelos fatores naturais. O estudo da
população, dos seus movimentos e das atividades económicas assume uma grande
importância ao longo do 3º Ciclo. Este é um domínio ideal para abordar questões
fundamentais da Educação para a Cidadania, relacionadas com os Direitos
Humanos, a multiculturalidade e seus valores, ...
Em qualquer um dos ciclos da escolaridade obrigatória, a Educação Geográfica deve
permitir aos alunos aprender e aplicar conceitos (espaço, lugar, região, território,
ambiente, localização, escala geográfica, mobilidade geográfica, interação e
movimento), levando ao desenvolvimento de um conjunto de conhecimentos e
competências que lhes permitam saber observar e pensar o espaço e serem capazes
de atuar de uma forma responsável no meio onde vivem.
Como tal, consideramos que a Geografia deverá ser encarada pelas escolas da nossa
região como uma disciplina estruturante do currículo, pela importância que tem para
os alunos na sua formação pessoal, mas também, enquanto cidadãos conscientes e
de pleno direito.
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CARTA ABERTA Associação Insular de Geografia