O NOVO RURAL: TEORIA E ESTUDO DE CASO
EDNALDO MICHELLON; TANIA IZELLI GIMENES;
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE MARINGá
MARINGÁ - PR - BRASIL
[email protected]
APRESENTAÇÃO SEM PRESENÇA DE DEBATEDOR
DESENVOLVIMENTO TERRITORIAL E RURALIDADE
O NOVO RURAL: TEORIA E ESTUDO DE CASO
RESUMO
As constantes transformações que vêm se observando no ambiente rural, nos últimos
cinqüenta anos, na esteira da modernização agrícola, contribuíram para uma elevação da
produção e ao mesmo tempo para o desemprego no campo, levando assim, milhões de
trabalhadores rurais a se deslocarem para as grandes cidades, em busca de empregos e
melhores condições de vida. É neste ritmo das transformações das relações sociais,
econômicas e de trabalho, que surge o que vêm sendo chamado de Novo Rural Brasileiro,
onde o campo passa a ser utilizado para novas ocupações agrícolas e não-agrícolas, alterando
o modo de vida rural. Nesse sentido, tem-se ampliado o turismo rural, que é o objeto deste
trabalho. Ele foi desenvolvido com base em revisão de literatura, e também foi realizado um
estudo de caso no Hotel Fazenda Ubatuba. Concluiu-se que os proprietários tomaram as
medidas corretas quanto à forma de preservação do patrimônio construído e que, além de
ganhos financeiros, tal decisão trouxe ganhos para a história da família.
Palavras-chave: Novo Rural, Turismo rural, Fazenda Ubatuba, Apucarana, Paraná.
1. INTRODUÇÃO
Nos últimos cinqüenta anos, o Brasil tem assistido a uma admirável transformação em seu
ambiente rural. Isto pode ser evidenciado ao observar-se a modernização do campo, onde
máquinas e equipamentos gigantescos tomaram lugar de milhares de trabalhadores, o que
contribuiu para uma elevação da produção e ao mesmo tempo para o desemprego, levando
assim, mais de trinta milhões de trabalhadores rurais a se deslocarem do campo para as
grandes cidades, em busca de empregos e melhores condições de vida.
Muitos trabalhadores ainda permaneceram no campo, porém deixaram de trabalhar
exclusivamente com a agropecuária, buscando outras atividades geradoras de renda. Este
fenômeno pode ser explicado devido a inúmeros fatores. Entre eles, destaca-se o tempo livre
que muitos trabalhadores rurais passaram a ter depois que máquinas plantavam, colhiam e até
ordenhavam em seus lugares. Outro importante motivo é a subsistência, pois, devido à falta de
oportunidades de emprego direto na agropecuária, muitas famílias que residiam nas zonas
rurais, possuíam apenas um ou dois de seus membros laborando em trabalhos agropecuários.
Daí a necessidade de os demais membros buscarem outras formas de trabalho remunerado.
É neste ritmo das transformações das relações sociais, econômicas, e de trabalho no campo,
que surge o que vêm sendo chamado de Novo Rural Brasileiro, onde o campo passa a ser
utilizado para novas ocupações de trabalho e modo de vida, deixando de ser exclusivamente
agrícola. Essas novas atividades inseridas no espaço rural, na realidade, não são inteiramente
novas, pois, a maioria delas, há muito tempo já eram desenvolvidas pelos rurais como hobbie.
Sendo assim, a chama-se de novas porque foram recriadas com objetivo principal de gerar
renda e sustento para inúmeras famílias rurais.
São exemplos dessas novas atividades inseridas no contexto do novo rural: produção e venda
de artesanatos e doces; condomínios residenciais; resorts; clubes; chácaras de lazer; campos
de golf; pesque-pagues; criação de animais exóticos; cultivo de plantas ornamentais; hotéisfazenda e etc.
Dentro dessas inúmeras atividades desenvolvidas no espaço rural, chama-se a atenção para a
atividade turística, que, segundo a Organização Mundial do Turismo (WTO), é o ramo do
turismo que ultimamente cresce com maior velocidade perante os demais, apresentando
potencial extremamente elevado. Isto pode ser explicado diante de inúmeros fatores, como
por exemplo, as paisagens naturais encontradas nas zonas rurais, ou seja, uma paisagem
bucólica que envolve descanso, paz, beleza, e tranqüilidade, chamando a atenção de
moradores das grandes cidades, que por ventura estejam vivendo dias estressantes, diante do
caos, da violência e do tumulto encontrado nesses centros urbanos.
O movimento do turismo rural se inicia na década de 1970, e foi eleito como uma alternativa
para muitas famílias e muitos proprietários rurais, que não viam outra saída diante da atual
crise financeira e da falta de incentivos por parte dos governos ao homem do campo. Assim, o
turismo rural nasce e vai sendo aceito com facilidade, se expandindo rapidamente e se
legitimando na divulgação da preocupação com o meio ambiente e com a qualidade de vida
dos seus visitantes.
O turismo rural pode ser definido como sendo uma atividade empreendedora, capaz de
conciliar atividades agropecuárias com atividades turísticas, proporcionando benefícios aos
proprietários e funcionários, como por exemplo, renda e desenvolvimento, e ainda, benefícios
aos turistas, tais quais o prazer, o lazer e o descanso. Este ramo do turismo tem ainda, como
função indireta, a geração de empregos, pois influencia o comércio de toda a região com a
venda de produtos de uso rotineiro, dentre os quais pode-se destacar sabonetes e alimentos, e
também com a venda de produtos artesanais regionais, feitos com intuito de agradar aos
turistas.
Um exemplo que ilustra claramente as características do novo rural e do turismo no espaço
rural é o caso do Hotel Fazenda Ubatuba, que está situado nos domínios da Fazenda Ubatuba.
Esta fazenda foi, durante muitos anos, uma das maiores produtoras de café de todo o país,
tendo empregado em um mesmo período, mais de duas mil pessoas. Tal propriedade esta
localizada no Norte do Paraná.
Ultimamente, a fazenda conta com menos de 20% do seu território inicial, tendo abandonado
totalmente o cultivo do café, e em seu lugar, passou a cultivar a chamada lavoura branca, ou
seja, trigo, soja, milho e cereal.
Durante os tempos de pujança, a fazenda construiu várias casas sede, onde abrigava toda a
família e também os visitantes que vinham de todo o país para conhecer a propriedade. Mas,
com o passar dos anos, e com a perda de muitos pés de café por causa das geadas, a produção
da fazenda acabou sofrendo uma queda elevada, ocasionando na necessidade de venda de
muitos lotes de terra. Isto ocasionou na mudança da família para os centros urbanos.
É preciso que sejam analisadas as possíveis conseqüências ao se deixar, ao abandono, todo o
patrimônio construído, ocasionando em danos culturais, históricos e financeiros.
Com o abandono da sede da fazenda, os proprietários poderiam estar perdendo dinheiro e,
ainda, estariam deixando o patrimônio histórico se perder junto à sujeira e à mata, que poderia
vir a cobrir o mesmo. Uma alternativa para o caso seria o arrendamento do local para ser
utilizado como um hotel, ou condomínio residencial. Outra suposição seria derrubar as
edificações e cultivar grãos nesse espaço da sede, o que ocuparia aproximadamente treze
alqueires1 de terra.
Para dar conta destas questões, este trabalho foi desenvolvido com base em revisão literária,
envolvendo os principais autores do tema, procurando abordar os mais importantes tópicos.
Também foi realizado um estudo de caso no Hotel Fazenda Ubatuba, utilizando recursos
como entrevistas2, observação e acesso a materiais informativos. Ou seja, a metodologia
desenvolvida se baseou em pesquisas exploratórias, feitas com levantamentos, este realizado
através de questionários e entrevistas.
1 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
2.1 O NOVO RURAL BRASILEIRO
A preocupação de promover o desenvolvimento sempre foi um tema dominante na evolução
da ciência econômica mundial, porém, os papéis do setor rural no processo de
desenvolvimento brasileiro, a forma como se deveriam cumpri-los, e as conseqüências do
sistema de integração daí decorrentes, permaneceram à margem do pensamento econômico
até a metade do atual século. Desta forma, nos últimos 50 anos, têm-se assistido a uma
drástica transformação no meio rural brasileiro.
Na década de 1950, o ambiente rural era visto como atrasado, contrapondo com a
‘modernidade’ do meio urbano. Porém, segundo Graziano e Del Grossi (2002) foi nesta época
que se instalaram no país, inúmeras indústrias produtoras de insumos para a agricultura, como
por exemplo, produtos químicos, máquinas e equipamentos, firmando as bases para uma
futura revolução da agricultura.
1
2
Alqueire Paulista, equivalente a 24.200m² ou 2,42 hectares.
Cardoso e Emerich (2004).
Passando para as décadas de 1960 e 1970 começa a se pensar em produtividade com enfoque
no excedente de produção das pequenas propriedades familiares, e nos programas de
desenvolvimento e modernização rural integrado das produções dos grandes latifúndios. É
neste período que mais de 30 milhões de pessoas trocaram o campo pelos centros urbanos.
Como relata Ribeiro (1998):
Nos anos 1960/1970 houve um violento êxodo da população rural rumo às cidades.
Quase 30 milhões de pessoas abandonaram o campo. Essa pode ser atribuída a dois
fatores: de um lado a sedução das cidades, que durante o período de maior
crescimento econômico do país atraía a população rural com a oferta de empregos e
elevação de renda, através da demanda por trabalhadores de pouca qualificação nas
áreas de construção civil ou serviços domésticos, de outro a população saia do
campo expulsa: em alguns lugares pela modernização agrícola e em outros pelo
conservadorismo agrícola (RIBEIRO, 1998, p. 173).
A década de 1980 foi caracterizada pela valorização dos processos, e pela liberação dos
mercados, a fim de produzir muito e vender tudo, contribuindo, assim, com a redução da
pobreza no meio rural. Foi nesta época que os cerrados brasileiros foram incorporados à
produção de grãos, com utilização de alta tecnologia para competir ao nível de todo o
mercado internacional, como afirma Graziano e Del Grossi (2002).
Já nas décadas de 1990 e 2000, a agricultura brasileira incorpora tecnologias ainda mais
sofisticadas, dando origem à prática de inseminação artificial, a máquinas equipadas com
GPS3, a produtos transgênicos, entre outros. É neste momento que surgem estratégias
sustentáveis de vivência, onde serão estudados temas como a participação e as estratégias de
redução da pobreza, porém, sem deixar de lado outros, como por exemplo, o meio ambiente e
o desenvolvimento sustentável.
É neste ritmo das transformações das relações sociais e de trabalho no campo, que surge o que
está sendo chamado de Novo Rural Brasileiro, onde o campo, antes visto apenas como local
de produção agropecuária - como a produção de grãos e cultivo de animais, sendo quase que
exclusivamente para subsistência - passa a ser focalizado como fonte de utilização para novas
ocupações de trabalho e modo de vida, deixando de ser exclusivamente agrícola. Estas
atividades, que na realidade, não são inteiramente novas, já que a maioria delas já vinha sendo
desenvolvida há muito tempo. No entanto, eram realizadas apenas como hobbie, sendo
chamadas de novas, pois foram recriadas, recebendo maior atenção e dedicação, tornando
possível que sejam geradoras de renda e sustento para inúmeras famílias rurais.
É importante considerar que o meio rural não está passando por um processo único de
transformação em toda a sua extensão. As medidas modernizadoras da agropecuária,
moldadas no padrão de produção e de vida urbano-industrial, atingem a população local de
diferentes maneiras. Desta forma, não se pode generalizar a ruralidade, já que esta se expressa
de distintas formas e em universos culturais, sociais e econômicos heterogêneos.
Sendo, então, o espaço rural, não mais exclusivamente definido pela atividade agropecuária,
pode-se notar a significativa redução de pessoas residentes no meio rural e com ocupação
profissional exclusivamente na agropecuária. Contrapondo com este fato, têm-se o aumento
do número de pessoas residentes no campo e com atividades não agrícolas. Sobre isso,
Graziano (2000) comenta:
A população rural chegou ao fundo do poço em 1996 (ano de contagem
populacional), com 31,6 milhões de pessoas; mas a partir daí vem se recuperando,
tendo atingido 32,6 em 1999, ou seja, quase um milhão de pessoas a mais. Isso
3
GPS – Global Position Systen - Equipamento que fornece, via satélite, as referências para localização e
mapeamento detalhado (metro a metro) das propriedades.
significa uma taxa de crescimento da população total de 1% a.a. no mesmo período
(GRAZIANO, 2000).
São exemplos destas novas atividades econômicas, agrícolas ou não-agrícolas, inseridas no
contexto rural: condomínios residenciais, resorts, hotéis-fazenda, pesque-pagues, chácaras de
lazer, clubes, produção de artesanatos, criação animais exóticos, cultivo de plantas
ornamentais, agroindústrias, entre outros. Outros empregos também surgiram no contexto
rural, como o de motorista, contador, prestador de serviços, secretárias, administradores, e etc.
As figuras abaixo representam algumas das novas atividades inseridas no contexto rural:
Existem vários motivos que podem ser usados para explicar tais mudanças. Um deles seria o
crescimento das cidades, que tomou proporções gigantescas, chegando a invadir o espaço
rural para a construção de indústrias, comércios, clubes, moradias, etc. Outro motivo bastante
influenciador foi a informatização do campo, que trouxe a alta tecnologia para ser aplicada no
cultivo de grãos e na criação de animais, industrializando a agropecuária brasileira. Esta alta
tecnologia ocupou o lugar de muitos trabalhadores rurais, os quais foram coagidos a buscar
novos empregos e diversificar seu trabalho, para que pudessem sustentar suas famílias,
podendo ser então, chamados de pluriativos ou agricultores em tempo parcial (part-time
farmer).
Graziano define o indivíduo pluriativo como sendo o part-timer farmer, ou seja, o fazendeiro
em tempo parcial, e o define da seguinte maneira:
A sua característica fundamental é que ele não é somente um agricultor ou um
pecuarista, ele combina atividades agropecuárias com outras atividades não
agrícolas, dentro ou fora de seu estabelecimento, tanto nos ramos tradicionais
urbano-industriais, como nas novas atividades que vem se desenvolvendo no meio
rural, como lazer, turismo, conservação da natureza, moradia e prestação de serviços
pessoais (GRAZIANO, 1997, p. 46).
Entre os principais ramos de atividades não agrícolas, desenvolvidas pela população
economicamente ativa, residente no meio rural, necessário se faz destacar a indústria, que
entre os anos de 1981 e 1992, cresceu 2,9% ao ano, participando de 7,7% da PEA rural
ocupada em atividades não agrícolas. Essas indústrias são, em sua maioria, as pequenas
empresas semi-industriais processadoras de produtos agropecuários, como as agroindústrias
avícolas e suinocultoras, e os pequenos laticínios.
Além das indústrias, muitos outros ramos de atividades, desenvolvidas dentro ou fora das
propriedades rurais, vêm crescendo entre os residentes no meio rural. A prestação de serviços
é um deles, e teve grande crescimento, aumentando, entre os anos de 1981 e 1997, mais de
vinte mil postos de trabalho. Restaurantes e comércio de alimentos também cresceram
notavelmente, e, segundo Schneider e Fialho (2000), este fato pode trazer relação com o
crescimento acelerado do turismo no espaço rural.
A maior parte dos milhares de indivíduos residentes no meio rural, que são trabalhadores dos
centros urbanos, apresenta baixíssimo nível de formação profissional, e por isso são em sua
grande maioria, encaminhados a cargos onde se exige menores qualificações, sendo
remunerados, conseqüentemente, com menores salários. O interessante é que estes
trabalhadores estão satisfeitos com os serviços e os salários, fato este que pode ser explicado,
principalmente, devido à causa de inúmeros desempregos no mundo rural e a dificuldade de
ganhar mais trabalhando exclusivamente nas atividades agropecuárias.
É evidente o fato de que a agricultura passou a não ser a única possibilidade de ocupação e
emprego para os residentes do meio rural, porém, não há qualquer dúvida da importância
demasiada que esta tem para todo o país, empregando, alimentado, gerando renda e
desenvolvimento para toda a região.
Completando a definição de Graziano, Schneider (2003) define os indivíduos pluriativos
como sendo aqueles, membros de uma família residente no meio rural, que trabalham no
campo ou fora dele, tanto com atividades agrícolas quanto com atividades não agrícolas,
possibilitando a ampliação do orçamento familiar. Na realidade, sempre existiu este fenômeno
de agricultores pluriativos, mas antes era apenas em momentos sazonais, para
complementação da renda, sendo que hoje passou a ser permanente, representando muito mais
do que apenas uma suplementação de renda.
A autora e antropóloga Maria José Carneiro (1998), chama a atenção para o fato de se estar
presenciando um movimento de reorientação da capacidade produtiva da população rural, que
se expressa em novas formas de organização da atividade agrícola, como uma alternativa ao
êxodo rural, ao desemprego urbano, e ao padrão de desenvolvimento agrícola dominante.
Pesquisas em países desenvolvidos como a Alemanha, apontam dois importantes fatos que
elucidam este fenômeno: a rápida adaptação do agricultor familiar ao processo de
modernização, com técnicas avançadas; e a contribuição da cultura do agricultor familiar na
formulação de respostas a crises da economia, do modelo produtivista e do ecossistema,
provocadas pelas medidas modernizadoras. Um exemplo bastante claro de tal resposta é a
pluriatividade.
A produção agrícola passa então a ocupar cada vez menos o tempo total de trabalho das
famílias rurais, fazendo com que a agropecuária responda apenas por parte do tempo de
ocupação e da renda dessas famílias. Como conseqüência da queda da renda agrícola, assistise a uma crescente importância das atividades e rendas não agrícolas entre as famílias
residentes no meio rural. Esse fenômeno caracteriza-se tão forte e rapidamente, relatando
dados que, em 1998 o total das rendas não agrícolas conseguiu ultrapassar o montante das
rendas agrícolas recebidas pelos moradores rurais. Com estas informações entende-se que as
atividades agropecuárias já não respondem pela maior parte da renda da população rural neste
final de século.
Um fator bastante importante, que leva os moradores do meio rural a buscarem novas formas
de trabalho, é a pobreza e a falta de condições para trabalhar com a agropecuária. Neste
contexto, é preciso buscar alternativas viáveis para a reprodução e a manutenção do homem
no campo. Em entrevista ao Globo Rural4, famílias residentes no agreste nordestino relataram
a dificuldade que tinham para sobreviver diante da seca que durava meses. Foi nessa condição
de miséria, fome, e seca, que encontraram na apicultura a fórmula da sobrevivência,
desenvolvendo inúmeros produtos, agradando e conquistando muitos mercados consumidores.
A crise do setor agropecuário, como a crise do café - derivada a partir da chamada “Geada
Negra” de 1975 - e os limites de crescimento do emprego agrícola, também é juntamente com
a urbanização e a modernização do campo, fatores estimulantes do Novo Rural.
O IBGE apresenta uma definição do que é ou não é o rural, mas na verdade não há uma
definição oficial utilizada em todo o mundo. Para se chegar a tal conceito, é preciso analisar o
4
Programa Globo Rural, exibido em 04/10/2004, pela Rede Globo de Televisão.
meio rural através de três perspectivas, sendo estas: a representação simbólica, a perspectiva
demográfica e a rurbanização, que vem a ser a urbanização do rural.
A representação simbólica, defendida pela antropóloga Carneiro (1998), define o rural não
apenas como um ambiente distante das cidades, onde existem atividades agropecuárias, mas
sim onde existem traços culturais e comportamentais do meio rural. Pode-se explicar melhor
através de exemplos como a plantação e cultivo de hortifrutigranjeiros e festas de peão que
são realizadas nos centros urbanos. Desta forma, contextualiza-se o rural como sendo aquilo
onde exista uma identidade diferente da do meio urbano.
Segundo a perspectiva demográfica, o autor Veiga (2001) fala sobre o anacronismo
demográfico, baseado em uma definição administrativa do rural, onde todo distrito tem um
perímetro urbano e um perímetro rural.
A rurbanização, ou seja, a urbanização do campo, segundo Graziano (1997), focaliza os
aspectos ocupacionais dos indivíduos rurais, definindo o rural através da divisão entre o que
pode ser considerado agrícola e o que não pode ser considerado agrícola. O autor deixa claro
que rural e agrícola são definições diferentes. O Projeto Rurbano, de 1996 e 1997, coordenado
pelos professores do Instituto de Economia da Unicamp, José Graziano da Silva e Rodolfo
Hoffmann, mostra que a população agrícola continuava a crescer em todo o Brasil. Isto se
devia ao fato de que as atividades, que antes eram desenvolvidas apenas no meio urbano,
estavam sendo agora, desenvolvidas também no ambiente rural, ganhando cada vez mais
adeptos, caracterizando o Novo Rural.
Há pouco tempo atrás, iniciou-se uma preocupação ambiental e notou-se que existia uma
necessidade por parte da população urbana de ter um contato mais íntimo com a natureza, já
que a sociedade está fundada na aceleração do ritmo da industrialização, passando a ser
questionada pelas péssimas condições de vida que as pessoas estão levando nos grandes
centros urbanos.
Desta forma, o contato mais íntimo com a natureza é valorizado cada vez mais. O ar puro, a
simplicidade do campo, e a natureza, são vistos como elementos purificadores do corpo e da
alma. O contato com as comunidades agrícolas tradicionais apenas para o lazer, ou ainda
como opção de residência, está cada vez crescendo mais. É neste contexto que surge o tema
do turismo no espaço rural.
2.2 TURISMO RURAL NO BRASIL
O turismo rural pode ser entendido como uma atividade que integra a atividade agropecuária à
atividade turística, sendo desenvolvida exclusivamente no meio rural. De forma promissora, e
com incontestável potencial, seu movimento se iniciou, em nosso país, na década de 1970, e
veio como alternativa para proprietários rurais na atual crise financeira, diante da falta de
incentivos públicos ao homem do campo. Logo, o turismo rural se expande e se legitima na
divulgação da preocupação com a ecologia e com a qualidade de vida.
Graziano, Vilarinho e Dale (1998) defendem a idéia de que o turismo rural constitui uma
atividade que une a exploração econômica a outras funções, como a valorização do meio rural
e a valorização da cultura local.
Essa atividade está direcionada, inicialmente, a uma demanda que busca um contato mais
íntimo com a natureza, dando valor aos aspectos históricos e culturais que fundamentaram a
tradição das famílias rurais no desenvolvimento das atividades agropecuárias. Isto pode ser
explicado com o fato de que o turista busca o turismo rural para envolver-se com o modo de
vida no campo, o que abrange o contato com a natureza, com a cultura, com os hábitos e os
costumes dos chamados ‘caipiras’, com a gastronomia rural, e ainda, com as atividades
agropecuárias desenvolvidas no ambiente rural, tais como o cultivo de grãos, a criação de
animais, a ordenha das vacas, entre outras.
Diante desses fatos, o turismo rural não pode, em qualquer hipótese, abrir mão da
originalidade e da simplicidade da vida no campo, pois, caso contrário, estaria imitando o
turismo convencional, e isto o faria perder o encanto que está, a cada dia, agradando um
número maior de turistas. Porém, existe o que é chamado de turismo em zonas rurais, que de
modo geral é enquadrado no turismo rural, mas não absorve qualquer característica deste,
estando apenas localizado em tal território. É o caso de clubes e resorts.
Este ramo do turismo, qual seja, o turismo rural, é identificado como propulsor do
desenvolvimento local, pois é capaz de proporcionar renda aos proprietários e aos que moram
nas regiões vizinhas, firmando inúmeras inter-relações entre comércio e turismo rural, como
afirma Cavaco (2000). O comércio dá suporte ao desenvolvimento da atividade turística no
meio rural, assim como é animado por ele, desde produtos como materiais de construção e
objetos de uso rotineiro (sabonetes, toalhas, etc), aos produtos alimentares e ao artesanato.
Isto garante a sustentabilidade e a identidade do local, trazendo ainda, benefícios como a
maior aproximação e integração de sistemas culturais distintos, e assim, causando efeitos
positivos sobre a economia local e regional.
Neste contexto de desenvolvimento integrado e sustentável,
em que se releva o desenvolvimento territorial integrado e sustentável, as ações
dirigem-se à comunidade e aos visitantes e os benefícios das visitas devem favorecer
a população visitada; o turismo torna-se uma atividade básica, geradora de
rendimentos externos que a população regional deve procurar reter ao responder
com autonomia à procura correspondente de bens e serviços, reforçando esta
resposta com produtos originais, específicos e com valor acrescentado, dos de
natureza alimentar aos artesanais e aos recreativos (CAVACO, 2000, p. 92).
Esta afirmação acima pode ser exemplificada com o fato de introduzir na gastronomia
características próprias, como frutas e vinhos da região. Nos comércios, devem-se
disponibilizar produtos do artesanato local, sempre oferecendo qualidade. A animação deve
utilizar recursos endógenos, como a cultura e o folclore. Por fim, é preciso que o balanço seja
sempre positivo para a comunidade e para o turista, não havendo prejuízos para o meioambiente, para a população regional, e para a cultura local.
Confirmando o que já foi citado, Campanhola e Graziano (1999) também revelam que,
inseridas no turismo rural, existem atividades geradoras de renda às propriedades rurais, tais
como a industrialização de alimentos caseiros (pães, bolos, doces, queijos, embutidos, geléias,
etc), os restaurantes de comidas típicas, o artesanato, os passeios de carroça e a cavalo, e
ainda, as trilhas para caminhadas ecológicas. Isto nos desvenda o fato de que o turismo rural
pode ser explorado de inúmeras maneiras, oferecendo diversas oportunidades de trabalho e
ocupação.
Lange e Milone (2000) mostram em seus trabalhos que a geração de empregos, diretos e
indiretos, não é em primeiro momento a principal preocupação dos empreendedores que
investem no turismo rural, mas garantem que é um dos mais importantes resultados obtidos.
O Ministério Brasileiro de Turismo apresenta em seu Plano Nacional de Turismo 2003-2007
que o Brasil espera que o turismo rural contribua com o país, através da diversificação da
oferta turística, do aumento dos postos de trabalho e da renda no meio rural, da valorização da
pluralidade e das diferenças regionais, da consolidação dos produtos turísticos de qualidade, e
ainda, através da interiorização da atividade turística. O Governo Federal acredita que o
Turismo Rural possa consolidar-se como vetor de desenvolvimento sustentável.
Rodrigues (2000) classifica em dois grandes grupos as instalações do turismo rural, sendo eles
o tradicional e o contemporâneo. É no tradicional que se encontra as fazendas-hotel, onde as
atividades agropecuárias existiram por muito tempo, sendo que nas antigas instalações
utilizadas pelas famílias rurais, o hotel é adaptado. No contexto contemporâneo, existem
hotéis-fazenda, sendo estes construídos no meio rural com intuito deliberado de exploração do
turismo rural, valorizando temas como o folclore, a cultura, e a gastronomia local, entre
outros itens capazes de atrair um grande número de pessoas.
Segundo Campanhola e Graziano (1999), existe uma diferença muito importante entre
conceitos de turismo no ambiente rural, no entanto muitas vezes estes são vistos como a
mesma coisa. O turismo rural envolve atividades múltiplas de turismo e de lazer realizadas no
espaço rural, podendo envolver ou não, atividades relacionadas com a agropecuária. A
maioria das pessoas que busca o turismo rural está à procura de tranqüilidade, descanso, lazer
e comodidade, e existe ainda, um público cada vez maior de empresários que procuram hotéis
no ambiente rural para fazer convenções e reuniões.
Diante desta diversificação de consumidores atraídos pelo turismo rural, firmaram-se algumas
modalidades inseridas neste contexto, sendo elas apresentadas abaixo:
Uma modalidade de turismo no ambiente rural extremamente atraente e explorado é o ecoturismo, onde o turista tem acesso a uma grande integração e contato com a natureza, seja
com a cultura das localidades rurais, com o plantio de grãos, com a criação de animais, ou
ainda através das árvores, pássaros e pequenos animais. O ecoturismo, segundo a Organização
Mundial do Turismo, é classificado no Brasil, oficialmente, como um segmento da atividade
turística que utiliza sustentavelmente o patrimônio natural e cultural, estimando por sua
conservação e buscando conscientizar a população da importância de se manter uma
consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar da
população residente e dos visitantes.
O ecoturismo trabalha com princípios de conservação dos recursos naturais, informação
ambiental e envolvimento comunitário, mas não esquece em momento algum, de que é um
empreendimento turístico e deve gerar empregos e recursos econômicos. É uma atividade que
promove o reencontro do homem com a natureza de forma a compreender os ecossistemas
que mantêm a vida.
A Embratur define o ecoturismo como sendo,
(...) turismo desenvolvido em localidades com potencial ecológico, de forma
conservacionista, procurando conciliar a exploração do potencial turístico com o
meio ambiente, harmonizando as ações com a natureza, bem como oferecer aos
turistas um contato intimo com os recursos naturais e culturais da região, buscando a
formação de uma consciência ecológica (EMBRATUR, 1994, p. 5).
Segundo projeções da Organização Mundial do Turismo, o ecoturismo já era praticado, até o
ano de 2003, por cerca de 5% do contingente total de turistas, e apresenta perspectivas de
crescimento acima da média do mercado, principalmente em países com significativas
reservas naturais, como os da América Latina.
Pode-se ainda, classificar o agroturismo, que vem a ser uma modalidade de turismo praticada
no meio rural e administrada por agricultores familiares dispostos a compartilhar seu modo de
vida com os habitantes do meio urbano. Os agricultores, mantendo suas atividades
agropecuárias, oferecem serviços de qualidade, valorizando e respeitando o meio ambiente e a
cultural local. Segundo classificação européia, nesta modalidade de turismo rural, o turista
deve participar das tarefas agropecuárias cotidianas, não apenas conhecendo, mas como força
de trabalho.
Os principais objetivos do agroturismo são: preservar e melhorar os recursos econômicos,
sociais e naturais dos agricultores; gerar novas oportunidades de emprego, renda e lazer; e
ampliar os espaços e as possibilidades para os turistas. Uma característica bastante marcante é
que o agroturismo, assim como as demais modalidades de turismo rural, tende a praticar
preços acessíveis, garantindo a qualidade de seus produtos e serviços.
Rodrigues (2000) chama a atenção para outro fato bastante importante, que é o caso dos
resorts, motéis, clubes e chácaras destinadas para festas, que são construídos no espaço rural.
Para tais exemplos, não se pode tomar como classificação de turismo rural, já que nenhuma
ligação tem com o mesmo, a não ser o fato de estar em seu perímetro. É possível classificar
esses espaços como sendo ‘turismo peri-urbano’ no caso de ocorrer pernoites, ou ainda de
‘lazer peri-urbano’ quando acolhem apenas visitantes, não se caracterizando como turistas,
segundo critérios da Organização Mundial do Turismo.
Segundo Portuguez (1999), existem muitas propriedades rurais que atraem turistas e
consumidores, pois vendem produtos artesanais como: bolsas, artigos em madeira e em palha,
doces, pães, compotas, entre outros. No entanto, estas propriedades não se caracterizam como
turismo rural, e sim como agrocomércio.
Não é nada incomum ver-se famílias rurais, que tinham na agricultura sua principal fonte de
renda, estar abrindo mais espaço para atividades turísticas, substituindo a unidade de
produção agrícola que ali funcionava. A agricultura passa a ser um complemento, muitas
vezes voltado para a manutenção das famílias e dos hóspedes, garantindo ainda, o ambiente
caracterizavelmente rural, desejado pela grande maioria dos turistas.
Desta forma o ambiente rural vai ganhando novas atribuições, aparecendo como um ambiente
onde é possível desenvolver inúmeras atividades, ligadas ou não, à agropecuária e
proporcionando aos trabalhadores, renda e inclusão social. Segundo Navarro (2001), o
desenvolvimento rural pode ser definido como sendo a ampliação das condições sociais da
população rural, ou seja, é uma forma de inserir esta população ao meio social. É de grande
importância que seja implementado políticas que ofereçam oportunidades para que os rurais
possam trabalhar com ‘olhos’ no desenvolvimento, já que nada adianta a implantação de
programas assistencialistas se a proposta é buscar o desenvolvimento sustentável do meio
rural.
Neste contexto de desenvolvimento rural, o administrador acarreta grandes responsabilidades.
Ele deve, além de empreender, fazer planejamentos, saber controlar, saber quando e como
decidir, e deve ainda saber avaliar os resultados, utilizando o benchmark quando necessário.
Todas essas medidas devem ser tomadas em busca de maximizar os lucros e manter
motivados seus empregados. Além disso, segundo Ruschmann (2000), o administrador rural
deve saber administrar os recursos e os ambientes, já que a atividade turística no meio rural
deve ter ainda como objetivo a sustentabilidade, a fim de atender às necessidades econômicas
e sociais, preservando a integridade cultural, ecológica e ambiental, fazendo com que o
patrimônio seja desfrutado por futuras gerações.
O Brasil, diferente dos países Europeus, não tem políticas públicas intensas, capazes de
incentivar e valorizar o desenvolvimento das atividades não agrícolas mescladas com as
atividades agrícolas. Para tanto, faz-se extremamente necessário que o país adote tais políticas
públicas de incentivo, garantindo a permanência dos trabalhadores rurais no campo, mesmo
com a defasagem do trabalho agrícola e desenvolvendo as novas formas de trabalho no meio
rural.
São inúmeros os benefícios trazidos pelo turismo rural no campo, porém, pode-se também
enumerar alguns problemas ocasionados pelo mesmo. Estes problemas são característicos de
todas as regiões do país, sendo que, algumas possuem mais e outras possuem menos. Isso
devido ao fato de que em alguns locais a atividade turística não acontece de forma ordenada,
proporcionalmente à capacidade de suporte de uma determinada região e de adaptação de seus
moradores. O importante é que essas regiões estejam trabalhando para amenizar tais
dificuldades, com o objetivo de que o turismo rural venha trazer apenas benefícios para a zona
rural e para, principalmente, seus moradores ali residentes.
Segundo Mazuel (2000), a perda de conhecimento histórico, assim como a alteração do
patrimônio cultural e o desaparecimento deste patrimônio são exemplos de possíveis
problemas ocasionados com o turismo nas zonas rurais. Isto acontece porque muitos
empreendedores são inseridos no contexto do turismo rural, sem trazer consigo qualquer
bagagem cultural de vida no campo, ou seja, são inseridos neste contexto com objetivo único
de transformar o campo em um empreendimento financeiro. Desta forma, não é dada
importância necessária à cultura daquele ambiente, muito menos aos bens existentes ali.
Donnermeyer (2000) comenta sobre possíveis problemas causados ao meio-ambiente, dentre
os quais se destacam os danos advindos com o excesso de visitantes, sendo que este problema
é causado apenas se não existirem programas de conservação e preservação ao meioambiente, pois é indispensável que turistas estejam sempre acompanhados de guias e
instrutores, que devem orientar sobre o que poderá fazer mal à natureza e ao meio-ambiente.
Além disso, os empreendedores rurais necessitam se conscientizar de que existe um número
máximo de visitas aceitáveis por dia, mês e ano. Isso porque, além de danos ao meioambiente ou à estrutura física da zona rural, o excesso de turista pode ocasionar danos à
cultura local, como por exemplo, com a introdução da Coca-Cola e do MC Donald’s, e ainda
prejuízos aos moradores residentes em cidades vizinhas, como o excesso de veículos e o
aumento de preços de produtos essenciais ou até mesmo dos produtos supérfluos. Este
aumento de preço é explicado com o fato de que os comerciantes entendem que os turistas
viajam pré-dispostos a comprar, seja o produto o preço que for, acarretando assim, a elevação
do custo de vida dos moradores dessas regiões.
Algumas medidas podem ser tomadas para minimizar possíveis transtornos causados pelo
turismo rural, sendo uma delas a realização de uma organização de parceiros em torno de
técnicas de conservação e valorização dos conhecimentos locais. Esta organização estaria
disposta a trabalhar a favor da preservação do meio-ambiente, envolvendo rios, árvores,
plantas, animais, etc, e ainda, a favor da valorização da história local, ou seja, a história da
fazenda onde hoje se encontra o empreendimento turístico, não deixando morrer as raízes que
construíram aquele lugar; também trabalhar com a preservação da cultura local, não deixando
que o turismo rural traga junto com os turistas, modernidades como os exemplos citados
acima; e finalizando, com a liberdade e tranqüilidade dos residentes das localidades vizinhas,
impedindo que se aumente o tráfego de veículos a ponto de causar transtornos, e que se altere
o custo e a qualidade de vida.
Mazuel (2000) relata sobre outra possível medida capaz de diminuir o impacto causado pelo
turismo nos espaços rurais, que é a difusão do conhecimento para a conscientização dos
habitantes e dos visitantes urbanos quanto à importância do meio-ambiente. Com esta
conscientização, além de não interferirem erroneamente, os turistas teriam a oportunidade de
contribuir para a preservação e melhoria do meio-ambiente.
Mazuel (2000) comenta ainda, que o controle de visitas e explorações é uma medida que, em
hipótese alguma, pode ser deixada de lado, isso porque o impacto causado pelo excesso de
visitas em uma região rural pode trazer enormes danos ao meio-ambiente e à população local,
atingindo, indiretamente, o empreendimento do turismo rural.
Neste caminho, é preciso entender que todos os esforços ainda são poucos, diante de tamanha
falta de conscientização da grande maioria da população, sobre a importância do meioambiente e das áreas rurais para toda a nação. E é por isso que os turistas precisam ser
informados quanto à necessidade da preservação do patrimônio e da cultura histórica das
zonas rurais.
Neste contexto, entende-se que o turismo rural pode e deve ser encarado como vetor de
desenvolvimento local e regional, mas para tanto, é preciso que todos: homens, empresas, e
governos, estejam preocupados em garantir o desenvolvimento do turismo rural de forma
consciente, evitando assim, que haja prejuízo em qualquer área que se relacione com o
mesmo.
2 FAZENDA UBATUBA
A história da Fazenda Ubatuba inicia-se quando, em 1936, uma jovem família deixa a
Alemanha nazista, onde a guerra estava apontando no horizonte de uma Europa conflagrada.
Esta família5, formada por Jowin Dlerchin, Riwna Dlerchin e pelo filho menor de dez anos,
Guisurd Dlerchin, vem ao Brasil com a ajuda de um milionário amigo suíço. O destino
preciso da família Dlerchin ainda não havia se delimitado, sendo que o Sr. Jowin deixa sua
esposa e filho na grande São Paulo e parte para o Paraná em busca de oportunidades de
trabalho.
Com ordens do amigo suíço, Sr. Jowin comprou o equivalente a três mil alqueires de terra na
região conhecida como o Norte do Paraná, entre as cidades hoje conhecidas pelos nomes de
Arapongas e Apucarana. Desta forma, ficou combinado que iria pagar ao amigo suíço uma
parte da terra adquirida, com o trabalho realizado ali. Não tardou muito e logo no ano seguinte
a jovem família já estava reunida, residindo então na Fazenda Ubatuba.
Toda a fazenda encontrava-se repleta de mata nativa, e foi o Sr. Jowin quem começou o
trabalho de desmatamento, abrindo espaço ao longo dos anos para o cultivo do café. A
5
Os personagens são reais, mas os nomes apresentados são fictícios.
primeira grande árvore derrubada foi em 1938, sendo feito com serrote, já que naquela época
não havia as modernidades da atualidade. Sr. Jowin e muitos outros homens que trabalhavam
na fazenda abrindo a mata correram muitos perigos diante de cobras, onças, aranhas,
escorpiões e outros animais selvagens, peçonhentos e perigosos. Mas nem o perigo nem o
enorme trabalho que havia pela frente, fizeram com que houvesse desânimo e desistência.
Com o tempo, muita dedicação e suor, começaram a aparecer as grandes clareiras na mata,
sendo então, ocupadas pelo chamado “ouro verde”, o café.
Dez anos depois da primeira árvore derrubada, em 1948, foi inaugurada a primeira instalação
para lavagem, processamento e beneficiamento do café, e a cada ano este cultivo crescia de
maneira extraordinária, fomentando o crescimento da Fazenda Ubatuba. Foi nessa época que
as construções, algumas até hoje mantidas, foram edificadas. Casas para os colonos, para a
família Dlerchin, piscina, jardins e ainda casas para receber visitantes de todo o Brasil e de
outros países, isso porque a alta produção chamava a atenção de muitos fazendeiros.
A fazenda, sob o comando do Sr. Jowin e de seu filho Guisurd, contou sempre com muitos
trabalhadores, chegando a empregar e abrigar em uma mesma época, mais de quatrocentas
famílias. Para isso, contava com casas coloniais fabricadas com recursos próprios, já que ali
existia serraria, olaria, e muita madeira disponível. Foi instalada uma Igreja, posto de saúde,
escola, farmácia e armazém, para que os trabalhadores pudessem ter acesso a alimentos,
bebidas, condimentos, remédios e roupas, isso porque outros centros de compras ficavam
bastante longe da fazenda.
Graças à famosa engenharia alemã, os proprietários fizeram questão de construir na fazenda
um gerador de energia capaz de abastecer todas as casas diariamente até as nove horas da
noite, onde depois deste horário, os moradores contavam com a luz dos lampiões.
A grandeza da Fazenda Ubatuba chegava a impressionar. Nos anos de riqueza e prosperidade,
especialmente até meados da década de 1970, a fazenda abrigava mais de duas mil pessoas,
com o cultivo de aproximadamente um milhão de pés de café, chegando a processar em uma
única colheita, dez mil sacas desta cultura.
Toda essa pujança se viu ameaçada quando, em 18 de julho de 1975, um fenômeno natural
conseguiu comprometer mais de 75% dos pés de café. Este fenômeno, a geada, foi tão intenso
que os pés tiveram de ser totalmente destruídos, já que até suas raízes foram congeladas. Esta
foi a primeira grande crise enfrentada pelos fazendeiros do café, e ficou conhecida como
“Geada Negra”.
A família Dlerchin, sob o comando da segunda geração, plantou novamente incontáveis pés
de café após o desastre ocorrido. A primeira colheita do café ocorre apenas após três anos do
plantio, e isso fez com que durante esse tempo todo, muitas famílias ficassem sem empregos,
sendo então obrigadas a buscar nas cidades oportunidades de serviço. A própria Fazenda
Ubatuba precisou se desfazer de muitos alqueires de terra para conseguir se manter viva e
produtiva, como vinha fazendo muito bem até então.
Depois da “Geada Negra”, muitas outras crises surgiram no contexto econômico brasileiro,
enfraquecendo cada vez mais aqueles que tentavam se levantar no setor da agricultura. Até
meados dos anos 1980, mais de sete milhões de pessoas já haviam deixado o campo. É
preciso ressaltar que além das crises econômicas, outras geadas também destruíram muitos
cafezais em todo o Brasil, inclusive os da Fazenda Ubatuba.
O café, antes extremamente valorizado e desejado, foi perdendo adeptos e espaço no meio
rural brasileiro, dando lugar para a conhecida “lavoura branca”. Isso significa que os
agricultores começaram a investir em culturas de soja, milho, trigo e aveia. Mudou
completamente a ‘cara’ da lavoura. Não era mais possível ver os milhões de pés de café
verdes e robustos, já que estes foram sendo transformados em uma lavoura sem cores e
também em pasto para criação de animais.
A Fazenda Ubatuba não fugiu à regra, começando a investir em lavouras de soja, milho, trigo
e aveia, sendo que ainda o faz até os dias de hoje. No entanto, agora conta com um número
substancialmente menor de terra, totalizando seiscentos alqueires, com aproximadamente
duzentos alqueires em reserva natural, sob proteção dos órgãos de cuidado ao meio-ambiente.
É nesses duzentos alqueires de mata nativa que se encontra o rio Ubatuba, que abastece toda a
região de Arapongas e Apucarana, protegido por muitas árvores e diversas plantas.
É notável a importância que esta histórica fazenda representa para o Brasil. Antes, através de
sua formidável plantação de café, tendo chegado a ser classificada como a segunda maior
plantação de café do país. Nesta época, além de toda a produção, a fazenda abrigava,
empregava, educava e dava oportunidades para muitos trabalhadores, gerando renda e
desenvolvimento para toda a região. Hoje, sem tanto magnetismo, a Fazenda Ubatuba ainda
mantém o plantio de grãos, gerando emprego e renda, mas continua contribuindo com toda a
região, atingindo indiretamente todo o país, através da grande área de preservação da mata
nativa, garantindo minas de água, preservando a vida de inúmeros animais, contribuindo com
a fauna e a flora de maneira geral.
4 HOTEL FAZENDA UBATUBA
Em toda sua extensão, a Fazenda Ubatuba conta com uma grande área onde não está
disponível para cultivo de grãos, já que estão edificadas as construções, como a casa principal,
a piscina, os jardins, e as demais dependências construídas para abrigar o armazém, a
farmácia, o posto de saúde, e ainda casas para receber os familiares e visitantes. A idéia de
utilizar este espaço para a instalação de um hotel surgiu da família Dlerchin, pois estavam
incomodados com o fato de tal patrimônio estar abandonado. Desta forma, foi disponibilizada
uma área de treze alqueires para arrendamento.
É neste contexto, que Eduardo Emerich, um jovem empresário maringaense, surge como
empreendedor disposto a transformar as antigas construções em um hotel fazenda. Este fato
desprendeu muito trabalho, investimento financeiro e dedicação, já que o lugar careceu de
muitas reformas e grande infra-estrutura para estar apto a ser utilizado como hotel.
Em meados de 2003 o Hotel Fazenda Ubatuba foi inaugurado, oportunizando mais de quinze
empregos diretos, e trazendo benefícios, já mencionados no presente trabalho, para toda a
região.
Dentre os treze alqueires pertencentes à área arrendada, apenas um terço é utilizado para os
domínios do hotel. O restante, segundo o proprietário, será futuramente restaurado para
também funcionar como hotel.
Contíguo a abertura do hotel, o empresário criou uma organização não governamental (ONG).
Tal empresa surge com a finalidade de preservar a vida e a natureza, sendo por isso, nomeada
de PREVINA. Os objetivos centrais desta, são:
Proporcionar às crianças de escolas públicas, lazer e diversão nos domínios do hotel;
Disponibilizar a estrutura física do hotel para trabalhos de recuperação com doentes e
deficientes;
Instalar no hotel, programas como a ecoterapia, que unem tratamento médico com
natureza;
Preservar a natureza através de estudos de plantas, árvores, rios e animais, e também
através de palestras de conscientização para toda a população.
Importante se faz lembrar, que em momento algum, o empresário Eduardo obteve qualquer
tipo de auxílio por parte do governo, não tendo sido incentivado de nenhuma forma. Isso nos
relata o fato, como afirma Konzen e Zapparoli (1991), de que em nosso país, existe uma
preocupação exacerbada com os grandes produtores e proprietários de terra, enquanto que os
de pequeno porte acabam sendo prejudicados com a falta de atenção, de incentivo e de
oportunidades.
Abaixo, fotos das dependências do Hotel Fazenda Ubatuba:
5 CONCLUSÃO
Sendo o novo rural, a inserção de novas atividades agrícolas ou não agrícolas no meio rural,
torna-se explícita a definição de que o Hotel Fazenda Ubatuba está inserido neste contexto.
Além do hotel, a ONG Previna também está enquadrada no conceito de novo rural, isto
porque, esta definição engloba atividades rentáveis ou não rentáveis, como é o caso das
empresas do terceiro setor.
Diante de tanta pujança e ostentação, surge a seguinte indagação: “como todo o enorme
patrimônio da Fazenda Ubatuba, foi transformado em tão pouco?”, isto, porque se torna
complicado compreender, que uma fazenda com três mil alqueires, um milhão de pés de café
e muitas outras ostentações, tenha se deixado abater por crises, por falta de interesse ou por
qualquer outro motivo, fazendo-a reduzir-se em aproximadamente 80%.
Possíveis fatores podem explicar tal acontecimento, como por exemplo, as crises econômicas
brasileiras, que além de prejudicar intensamente muitos empresários, independente de qual
ramo, também fizeram com que muitos trabalhadores perdessem seus empregos, gerando
conseqüências para toda a sociedade, como por exemplo, a queda no consumo.
Além das crises, a geada de 1975, conhecida como “Geada Negra”, e após alguns anos, outra
forte geada, também tiveram importância extrema no declínio da propriedade, pois as
conseqüências deste fenômeno foram extremas, levando a perda de quase 100% da plantação
de café.
Diante destas crises, o Sr. Guisurd se viu na condição obrigatória de se desfazer de parte das
terras para cumprir com compromissos diversos, inclusive com pagamentos de muitos
empregados, que tiveram de ser despedidos, pois já não havia mais serviço para tantos
funcionários.
Dificuldades financeiras da família e dos parentes, doenças e dívidas também podem vir a ser
motivos para que a propriedade tenha perdido grande parte de seu esplendor e riqueza, mas
deve ser entendido que não é apenas um ou outro motivo, e sim um conjunto deles. Isso
porque o declínio da fazenda não ocorreu em pouco tempo, mas veio acontecendo em
aproximadamente vinte e cinco anos.
Diante do abandono das casas sede da fazenda, nota-se a importância de a família Dlerchin ter
decidido por arrendá-las. Esta constatação se baseia no fato de que o ganho financeiro se
expressa substancialmente, já que antes de existir o hotel, a família não tinha qualquer renda
proveniente desta área.
Outra possível conclusão a respeito deste assunto, é que além de ganhos financeiros, a família
Dlerchin também ganha com a preservação do patrimônio construído por seus antepassados, e
ainda, com o renascimento da história da Fazenda Ubatuba. Este ganho, na realidade, não
cabe somente à família, mas a todo o Brasil, devido à importância que a propriedade já
representou para o mesmo.
A família Dlerchin poderia ainda ter optado por destruir as construções e transformar a área
em lavoura, porém, o ganho financeiro não suplementaria o ganho cultural, histórico e
patrimonial, e nem mesmo, o ganho com a valorização que as edificações dão à área.
Assim, diante dos fatos relatados acima, concluí-se que a família Dlerchin, em relação às
opções apresentadas, tomou medidas corretas quanto à forma de preservação do patrimônio
construído na Fazenda Ubatuba, e que, além de ganhos financeiros, tal decisão trouxe ganhos
para a história da família Dlerchin.
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