Moda Documenta: Museu, Memória e Design – 2015
FAMÍLIAS RENAUX, BAUER E KRIEGER: REFLEXOS DE MODA NA BELLE ÉPOQUE
BRUSQUENSE
RENAUX FAMILIES, AND BAUER KRIEGER: REFLECTIONS OF FASHION IN BELLA EPOQUE
BRUSQUENSE
Cintia dos Reis Ferreira Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP)
[email protected]
Edinéia Pereira da Silva Betta (UNIFEBE)
[email protected]
Resumo: As famílias Bauer, Renaux e Krieger, foram sinônimos de prosperidade para a Brusque – SC
no final do século XIX. Vindos da Europa, eram reflexos de modernidade, e seus costumes foram
copiados por muitos. Atualmente, ruas, praças e escolas recebem seus nomes, devido a importância
que tiveram, e tem, sobre a cidade. As referidas famílias despertam a curiosidade de muitos, pois seus
nomes estão frequentemente em evidência. Para o universo da moda não é diferente, já que estiveram
envolvidos com o setor têxtil. Em face do exposto, o presente artigo teve como objetivo analisar as
práticas vestimentares das referidas famílias em Brusque no período conhecido como a Belle Époque,
identificando se estavam de acordo com a moda vigente do período, tomando a Europa como
referência, procurando identificar como era o acesso às informações sobre moda. A pesquisa partiu de
uma investigação bibliográfica, a fim de contextualizar o tema histórico em análise, posteriormente
analisou os documentos, como: cartões postais, trocados pelas referidas famílias, diários e cartas, o
que caracterizou como Pesquisa Documental.
Palavras-chave: Belle Époque. Moda. Brusque.
Abstract: Families Bauer, Renaux and Krieger have been synonymous with prosperity for Brusque - SC
in the late nineteenth century. From Europe, were reflections of modernity, and their customs were
copied by many. Currently, streets, squares and schools are named because of the importance and has
had over the city. These families arouse the curiosity of many who live here, because their names are
often in evidence. For the fashion world is no different, as were involved in the textile sector. Against this
background, this article aims to analyze the practices of those families in vestimentares Brusque in the
period, known as Belle Époque, identifying whether they agreed with the prevailing fashion of the
period, taking Europe as a reference, was to ascertain how access to information about fashion.
Photographs were used as sources of these families and were used as sources, diaries, postcards and
photographs. That is, the study used existing data that came from a literature search in order to
contextualize the historical topic under review, then analyzed the documents, such as postcards,
exchanged by these families, diaries and letters, which has characterized as Documentary research
ultimately carried out analysis of the photographs.
Keywords: Belle Époque. Fashion. Brusque.
ISSN: 2358-5269 Ano II - Nº 1 - Maio de 2015
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1 Introdução
O fenômeno moda instiga curiosidades, constrói sentidos, provoca sensações de poder e
contribui para a construção de identidades. São várias as interfaces da moda, motivando novos olhares
e saberes, entre elas a sua relação com a história, pois o fato de ser efêmera deixa fortes marcas
registradas no tempo. E, entre esse universo de possibilidades de enfoque que tem a moda, os
elementos históricos atraem.
O presente artigo é resultado de estudos realizados com o Grupo de Estudos “História, Moda,
Têxtil e Design” do Centro Universitário de Brusque – Unifebe, no qual são delineados alguns temas
relacionados com a região, nos chamando atenção o período da Belle Époque, no Vale do Itajaí,
conhecido como Vale Europeu em Santa Catarina. Sendo assim, o recorte histórico do presente artigo
será o período apontado como Belle Époque ou Idade Bonita, como se convencionou chamar na
França, que se deu entre os anos de 1890 e 1914, em grande parte do mundo (NERO, 2007). O
período trouxe, entre outros elementos, a tecnologia, o consumo e o glamour, ou seja:
“A ‘bela época’ é a expressão da euforia e do triunfo da sociedade burguesa no
momento em que se notabilizavam as conquistas materiais e tecnológicas, se
ampliaram as redes de comercialização e foram incorporadas à dinâmica da
economia internacional em vastas áreas do globo antes isoladas.” (DAOU, 2004,
p.7)
No Brasil não foi diferente, o país conviveu com todos os elementos do referido período. A
imigração, libertação dos escravos e a transição de império para república marcaram o fim do século
XIX. Os resultados dos novos tempos eram evidentes, o Brasil iniciava uma grande marcha rumo ao
desenvolvimento e o glamour da Belle Époque se fazia presente. Como reflexo, cada estado do Brasil
apresentava suas peculiaridades, e dentro deste contexto o Sul se destacava economicamente por
diferentes razões.
A intensa imigração europeia para o Brasil, sobretudo para Sul do país, na segunda metade do
século XIX, promoveu um expressivo desenvolvimento cultural e econômico, que veio refletir no fim do
mesmo século. Brusque integra esse cenário, foi uma das primeiras Colônias alemãs do Estado de
Santa Catarina. Recebeu seus primeiros imigrantes em 1860. Inicialmente dedicou-se a agricultura, e
após três décadas a industrialização. Destacou-se no setor têxtil e ficou conhecida como A Cidade dos
tecidos e Berço da Fiação Catarinense.
O constante contato com a Europa colocou a cidade em situação privilegiada, se desenvolveu
tecnologicamente e logo apresentava uma economia diferenciada. Entre os imigrantes europeus, foram
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destaques os comerciantes João Bauer, Carlos Renaux e Guilherme Krieger, que posteriormente se
dedicaram a industrialização. O primeiro com a primeira tentativa de produção de tecidos, o segundo,
com a conhecida Fábrica de Tecidos Renaux, presente na cidade até os dias atuais e o terceiro se
dedicou a confecção.
As famílias Bauer, Renaux e Krieger, foram sinônimos de prosperidade para a cidade, eram
reflexos de modernidade, e seus costumes foram copiados por muitos. Atualmente, ruas, praças e
escolas recebem seus nomes, devido a importância que tiveram e tem sobre a cidade. As referidas
famílias despertam a curiosidade de muitos que aqui vivem, pois seus nomes estão frequentemente em
evidência. Para o universo da moda não é diferente, já que estiveram envolvidos com o setor têxtil.
Enquanto pesquisadoras de moda, nos chama atenção não apenas o que eles fabricavam, pois
historiadores constantemente versam sobre seus produtos, mas sobre suas vestimentas. Como era a
moda no período? Como se vestiam as referidas famílias? Quais eram as referências que tinham sobre
moda?
Em vista dessa problemática, o presente artigo teve como objetivo analisar as práticas
vestimentares das famílias Renaux, Bauer e Krieger em Brusque no período da Belle Époque – 1890 1914, identificando se estavam de acordo com a moda vigente do período, tomando a Europa como
referência, procurando identificar como era o acesso às informações sobre moda. Através de uma
abordagem qualitativa, que tem como “objetivo interpretar e dar significados aos fenômenos
analisados” (REIS, 2008, p.57), foram utilizadas como fontes, cartas, diário, cartões postais e
fotografias. Ou seja, a pesquisa utilizou dados já existentes, partindo de uma investigação bibliográfica,
a fim de contextualizar o tema histórico, posteriormente analisou os documentos, como: fotografias,
cartões postais, trocados pelas referidas famílias, diários e cartas, o que caracterizou como Pesquisa
Documental.
Tendo em vista o recorte histórico do objeto em estudo, pouco explorado até então, a pesquisa
apresenta resultados inéditos sobre moda na cidade de Brusque, que certamente chamará atenção do
leitor, principalmente se for da área da moda. Será que elementos característicos do período da Belle
Époque, como os ornamentados vestidos longos ou os ricos chapéus femininos, se fizeram presentes
na Brusque do fim do século XIX e início do XX? É o que veremos nos escritos seguintes.
2 La Belle Époque e o Vale Europeu no Brasil
A Belle Époque, foi marcada por significativas transformações econômicas, sociais e
principalmente culturais, o que resultou em novos hábitos. Teve suas raízes na Europa, porém logo
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tomou o novo mundo. Era a chegada democrática do glamour à todas as classes, e de forma mais
intensa à burguesia, a bem da verdade. As artes, em especial as decorativas, permearam o período,
especialmente no vestuário (BRAGA, 2004).
No que se refere as mulheres, observação maior dessa pesquisa, a estética de uma maneira
geral, foi intensamente influenciada. O corpo feminino, embora coberto, ficou em evidência,
apresentando mulheres delicadas, femininas. Conservadoras e ao mesmo tempo sensuais, porém uma
sensualidade sugerida, já que a exigência social era a de uma mulher casta, coberta da cabeça aos
pés (POLLINI, 2007).
A Europa refletia seus usos e costumes em diferentes lugares, incluindo o Brasil, no caso da
cidade de Brusque, captava as informações e instituía como regra, seja na política, economia ou na
cultural. O período não ficou marcado apenas pela mudança do século, mas por uma fase responsável
pela cidade que temos hoje – com uma diversidade cultural, arquitetura, ruas e praças ainda retratam o
período.
Na política, o país passava para uma nova forma de governo, deixando de ser Império e
passando a ser Republica, em 1889, quando a assembleia constituinte elegia Marechal Deodoro da
Fonseca como primeiro presidente. “Esse período promoveu intensas transformações e
remanejamentos nas elites que vinham se configurando no decorrer do século XIX”. (PRIORE;
BASSANEZI, 2006, P. 291). O que antes era reservado aos nobres, agora alcança a burguesia, pois,
com a república, as elites tinham mais liberdade para expor suas fortunas. Era a constituição de uma
sociedade radiante e frenética, vivendo a prosperidade dos anos dourados do fim do século. Foi nesse
período que chega a cidade de São Paulo o primeiro automóvel, trazido por Henrique Santos Dumont,
irmão do ilustre cientista Alberto Santos-Dumont (SÁVIO, 2002).
As exibições eram explícitas, o período era de ostentação. O Rio de Janeiro – Capital da
República, ditava os novos hábitos, copiados da Europa, que por consequência determinava o modelo
a ser seguido para a maioria dos estados, tanto na política quanto para os novos usos e costumes. A
Rua do Ouvidor se tornou o centro da moda no Rio de Janeiro, que no apogeu da Belle Époque se
transforma em desfile de moda, onde damas e cavalheiros exibiam em público seus trajes parisienses.
As Roupas “eram ou trazidas prontas da Europa ou cosidas por alfaiates portugueses aqui
instalados” (BRAGA; PRADO. 2011, p. 30). O fato de ter que adaptar o modelo do vestuário europeu
ao clima brasileiro, as roupas acabam sofrendo algumas alterações, mas ainda eram muito
semelhantes àquelas usadas pelos europeus.
Embora o Brasil também passasse por problemas econômicos no pós-república, a Europa
transformou-se em objeto ou obsessão (DEL PRIORE, 2001). E, nesse contexto, o Sul do País foi
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privilegiado, pois a imigração europeia foi intensa para essa região. Embora não tivessem condições
financeiras de trazer produtos europeus, os contatos, através de cartas ou cartões postais, eram
frequentes com o Velho Mundo, já que muitos se aventuraram com a migração, mas deixaram parentes
na Europa, o que mantinham atualizados no que se refere a moda.
3 O Vale Europeu no Brasil
A imigração europeia para o Brasil foi muito diversificada, a Região Sul recebeu na sua maioria,
italianos e alemães, porém “imigrantes Irlandeses, Belgas, Franceses, Poloneses e Russos também
tentaram a criação de colônias” (HERING, 1987, p. 25). A presença dos imigrantes europeus com
hábitos específicos foi significativa. A região Sul, mais precisamente, Santa Catarina, logo ficou
conhecida como o Vale Europeu no Brasil.
Brusque está inserida neste contexto. Inicialmente o objetivo da grande maioria era a agricultura,
porém de acordo com Giralda Seyferth (1974), seu terreno acidentado dificultou a permanência dos
imigrantes na lavoura, e logo desenvolveu-se um novo método para sustentar a economia da região,
resultando na indústria têxtil. As profissões ligadas ao setor têxtil são percebidas logo na chegada dos
primeiros colonos. Em 1862, “nove chefes de família eram lavradores, mas três tinham dupla profissão:
um tecelão, um cuteleiro e um carpinteiro e, ainda havia um alfaiate” (PIAZZA, 1994, p. 148). Porém, o
setor se torna intenso, mais tarde:
“[...] com a chegada à colônia, tecelões de lordz (Polônia) de língua alemã, pedem
aos marceneiros locais que confeccionassem teares, que se movimentaram a 11
de marca de 1892, fabricando tecido para o empresário Carlos Renaux, enquanto
os outros o fabricam, por conta própria, surgindo a indústria têxtil de Brusque”.
(PIAZZA, 1994, p. 152).
A primeira iniciativa de indústria foi através do empresário João Bauer, conhecido vendeiro do
fim do século XIX. Entre as profissões, os vendeiros eram os que mais obtinham sucesso na colônia,
eram os grandes responsáveis pela economia. Segundo Maria Luiza Renaux (1987), aos arredores de
Brusque, as vendas que mais se destacavam eram Krieger, Buettner, Bauer e Renaux, que logo
perceberam o potencial profissional dos imigrantes e investiam em novos negócios, entre eles a, já
citada, indústria têxtil. O contato permanente com a Europa permitiu a esses empreendedores avançar
tecnologicamente. Ainda que dentro de um contexto econômico diferente dos dias atuais, ganhou
destaque nacionalmente.
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Viagens para a Europa, ainda que de navios, aconteciam com frequência entre os comerciantes
e industriais de Brusque no período. “Em 1878, 1889 e 1900, aconteciam as grandes exposições
universais organizadas em Paris e em várias capitais estrangeiras abrindo uma infinidade de janelas
para o mundo. As indústrias as utilizavam como uma vitrine internacional” (BAUDOT, 2002, p. 33).
Feiras exposições eram frequentadas pelos novos industriais, o que os colocava em contato com a
moda vigente.
Segundo o Diário de Mathilde Bauer, filha de Guilherme Krieger, escrito em alemão em 1889
quando viajava pela Europa acompanhando a família e amigos, como Carlos Renaux, o texto traduzido
pela historiadora brusquense Maria Luiza Renaux, demonstra a preocupação do grupo, agora instalado
em Brusque, em visitar as exposições na Europa e fazer compras. Segue trechos do referido diário:
“Chegada em Hamburgo (CR viajou no mesmo navio) a 25 de Julho. Visita a casa
de negócios de Brehm e Fontes Meynberg, há mais tempo em negócios com o pai
de “Tata” Bauer, João Bauer. Quarta-feira, 14 de Agosto, chegada em Paris. Dia
seguinte, roteiro: Arco do Triunfo; - Campo de Marte, onde, no momento, ocorria a
exposição mundial e onde podiam avistar a já tornada famosa Torre Eiffel; (...) A
construção mais bela da exposição é decididamente o Palácio da Indústria. (Em
Paris, moraram na casa do tio Viktor. Ficaram até o dia 28 de Agosto, onde ainda
por mais vezes visitaram a Exposição Mundial. Daí, para Luxembrugo). (...) De
Paris, foram por algumas cidades menores, para visitar parentes, a Aachen, Krefeld
- indústria da seda bem importante e por isso João Bauer já a visitara antes.
Também desta vez JoãoBauer tinha que liquidar várias oportunidades de negócios,
daí terem ficado dois dias na cidade. Sexta-feira, 6 de Setembro, de Krefeld para
Hamburgo: Ida à casa de Meyenberg e compras na casa comercial do Sr. Braun (?)
Domingo, 8 de Setembro: Missa e ida com o Sr. Meyenberg e esposa ao local da
exposição – Hamburg Gewerb und Industrie Ausstellung. Meisterschopfungen der
Kunst gewerbes; Lá viram die „Erzeugnisse“ der Elfenbein v. Juta Industrie, der
Herren v. Damen Confection; Noutra ala: os produtos da Grande Exposição –
indústria; (...) No dia seguinte, Papa ocupado principalmente em fazer compras na
casa comercial do Sr. Braun. (...) No dia seguinte, compras novamente. Domingo à
noite, teatro com o Sr. Renaux. De 16 a 18 de Setembro, preparo da bagagem e
colocação a bordo, das compras. Dia 19, embarque, quinta-feira.1
Embora tivessem realizado alguns passeios, natural, dada a proporção da viagem, a ocupação
maior era com os negócios. Em Hamburgo fica claro o objetivo das visitas, que incluía o setor têxtil, já
que os escritos relatam empresas do setor de confecções e indústria de tecidos, como a der Elfenbein
v. Juta Industrie, der Herren v. Damen Confection. Dessa forma é possível perceber a relação de
Os textos foram traduzidos por Maria Luiza Renaux e fazem parte do arquivo da mesma, os textos originais se encontram
na Sociedade Amigos de Brusque, Avenida Otto Renaux, Brusque. Como material complementar a historiadora realizou
entrevista com Hildegart Loureiro e Tina Bauer, sobrinhas de Tata Bauer.
1
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Brusque com a Europa. Renaux (1995) reitera que, a moda na região de Brusque, era influenciada pela
moda européia, devido ao número de imigrantes na região ser bastante extenso, e que costumavam
visitar a Europa e fazer compras para revender. O que deixava aqueles que aqui viviam em contato
com a moda europeia
Nesse sentido, João Braga e Luís André do Prado em seu livro Sobre História da Moda no Brasil
(2011), falam da ligação entre o Brasil e a Europa, que era muito forte, principalmente na moda, neste
período e em outros. O comercio estrangeiro frequente, proporcionava acompanhar a moda europeia,
que já ditavam aquilo que se usariam ou não em muitos países. Segundo, Braga e Luís (2011) “A
massa imigrante que aportava no Brasil trazia malas e baús de roupas e de tradição que influenciaram
a caracterização de trajes usados em algumas regiões – como no caso da indumentária típica do
gaúcho e do catarinense.”
Além dos jornais, que também publicavam sobre moda a moda, os cartões postais ilustrados
eram frequentemente esperados por aqueles que viajavam. Criado em 1860 pelo então imperador
Austro-húngaro, os cartões postais foram intensamente utilizados por diferentes grupos étnicos
(BARROS, 2003). De acordo com Maria Eliza Linhares Borges (2011), o empreendimento foi um
sucesso, em pouco tempo, muitos empresários investiram na produção, incluindo diferentes imagens
que iam se tornando objeto de desejo das viagens da burguesia da Belle Époque. Segue abaixo um
dos cartões enviados a Mathilde Hunt, o qual registra a indumentária e os padrões de comportamento
do período.
Figura 01: Cartão postal de Mathilde Hundt.
Fonte: Museu e Arquivo Histórico do ValeDo Itajaí Mirim (Casa de Brusque).
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O cartão que foi enviado de São Paulo em 27 de março de 1911, endereçado a Senhora
Mathilde Hundt2, retrata o vestuário do período de forma vívida. Ainda que seja uma imagem construída
ela tende a ter semelhanças daquilo que estava em evidência no período, trazendo “indícios do
passado no presente” (BURKE, 2004, p. 16), ou seja, é possível verificar a partir da imagem, como era
o vestuário, comportamento e silhueta no período.
Sendo assim, ao analisarmos a imagem podemos observar a moda em voga no período. De
acordo com François Boucher (2010), no que se refere ao vestuário, as roupas femininas tinham as
seguintes características: a cintura comprimida pelo espartilho; as mangas se inflam em volume; a saia
caem roçando o chão acompanhados de babados e rendas, em geral em tons claros e os bordados
eram diversificados. Era o período do traje ampulheta, onde “o corpo feminino era dividido em duas
massas desiguais e distintas, separadas num estrangulamento da cintura sufocada num espartilho”.
(BAUDOT, 2002, p. 34). Era o período da mulher sensual, porém coberta.
O homem com cabelos aparados, em alguns momentos deixando seus chapéus de lado.
Embora “rosto barbeado fosse mais popular, bigodes encerados, com as pontas viradas para cima e
suíças como as do imperador alemão, eram muito imitados por admiradores, as roupas seguiam um
estilo elegante, porém sóbrias” (NERY, 2003, p. 186).
O cenário do cartão postal, indica a relação daquela sociedade com a natureza, que também
eram copiados, inclusive na Brusque do fim do século XIX. Fato identificado a partir da análise de uma
coleção, de aproximadamente cinquenta fotografias das famílias Renaux e Bauer, do referido período.
Entre as imagens, que estão sob a guarda do Museu e Arquivo Histórico do Vale do Itajaí Mirim (Casa
de Brusque), foi selecionada, uma em especial, para analisarmos de que maneira e em que medida a
indumentária das referidas famílias se identificada com os padrões vigentes na moda.
Figura 02: Piquenique realizado entre as famílias Renaux e Bauer em Brusque.
Fonte: Museu e Arquivo Histórico do Vale do Itajaí Mirim (Casa de Brusque)
2
Mathilde Hundt fazia parte da família Bauer, que troca de sobrenome após se casar.
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Segundo os arquivos que acompanham as fotografias, o retrato foi tirado na década de vinte na
cidade de Brusque. Embora o período da Belle Époque tenha se dado até 1914, “no Brasil ela
prosperou uma rica sociedade burguesa, e atravessa a guerra, que não atinge tanto como a Europa e
só terá seu fim com o advento do modernismo e dos anos 1920” (MACHADO, 2002). Ou seja, no Brasil
o período foi além do de 1914.
A fotografia traz da direita para esquerda, um gaiteiro de nome Erwin Hasse, Otto Renaux e
Guilherme Krieger, assinalados (pelo próprio arquivo), os Senhores Augusto Bauer e Carlos Renaux
respectivamente. As mulheres e crianças sem identificação, porém há indícios que sejam das referidas
famílias, já que na época era comum as famílias se reunirem em piqueniques. Segundo Cláudia
Mauch, os encontros de lazer eram frequentes em Blumenau e região:
Outros momentos festivos na colônia eram os piqueniques, cuja “função” não era
mais que o divertimento dos jovens, adultos e das crianças. Os piqueniques eram
uma forma de lazer bastante apreciada em Blumenau. Existem vários relatos que
mostram, nessas ocasiões, as pessoas divertindo-se muito. Eram verdadeiras festas
ao ar livre organizadas por sociedades clubes ou simplesmente por grupos de
amigos.Parece, no entanto, que esse tipo de lazer estava mais ligado ás pessoas
que moravam no núcleo-sede da colônia e não nas áreas rurais. (MAUCH, 1994, p.
217)
Realizado na cidade de Brusque, nesse em especial, que reúne as principais famílias da
cidade, pode-se perceber o comportamento hierarquizado: os homens ficam de um lado, e as mulheres
do outro, todos em pé, exceto as crianças e os jovens sentados à frente. Dentre eles, uma em especial
pode ser percebida sentada ao centro, entre os homens e as mulheres. Possivelmente a matriarca de
uma das famílias, porém não podemos afirmar com certeza, apenas que trata-se de uma mulher mais
velha, que por questões talvez de hierarquia, muito seguida na época, permaneceu sentada. O
ambiente natural estava em evidência, eventos ao ar livre eram frequentemente escolhidos. “As
famílias brusquenses mesclavam-se com outras da mesma origem e de mesma atividade na região e
novas alianças iam-se compondo dentro de um clima descontraído, onde a própria vigilância sobre
rapazes e moças era menor, favorecendo os casamentos.” (RENAUX, 1995, p.188).
O encanto feminino, a determinação masculina e, sobretudo, a beleza das mulheres refletiamse na posição do marido, somando-se aos esforços conjuntos de ascensão social. “Ao marido de terno
sóbrio, exigido pela reputação nos negócios, era a esposa bem vestida, símbolo, ao lado da casa, de
negócios bem-sucedidos”. (RENAUX, 1995, p.187). De acordo com as fotografias analisadas, poucos
eram os retratos individuais, os homens ainda demonstravam, através da mulher sua posição social. “O
casamento era ainda o alvo preferido do sexo feminino como forma de garantir um lugar privilegiado na
sociedade Belle Époque”. (NERY, 2003, p. 186).
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No que se refere as práticas vestimentares das famílias em análise, da mesma forma que o
cartão postal, a fotografia traz a presença da moda nos trajes femininos e masculinos aqui utilizados.
Os ternos sóbrios dos homens, bigodes e chapéus, também em voga no período, se faziam presentes
no grupo. As mulheres com seus vestidos longos e claros e cinturas marcadas, elegantemente se
prepararam para foto. Algumas de frente, outras de lado, todas preparadas para congelar seus retratos,
com seus amplos chapéus ornamentados.
O chapéu não poderia faltar nas mulheres que desejavam seguir a moda. “A preocupação com o
chapéu será uma constante da Bela Époque. [...] de abas largas e chatas as capelinhas se enchem de
fitas, flores ou suntuosas plumas de avestruz. Construções que requerem, para fixá-las nos penteados
fofos, compridos alfinetes pontudos, preciosos como joias” (BAUDOT, 2002, p. 52).
Mais uma vez é possível observar que as mulheres das famílias Renaux, Bauer e Krieger
acompanhavam a moda. O chapéu era um acessório presente não só nos piqueniques como em outras
ocasiões. Segue abaixo, imagem de Elsa Krieger, filha de Guilherme Krieger, proprietário de loja de
confecção na cidade.
Figura 03: Casal : Otto Gruber e Elsa Krieger
Fonte: Arquivo Maria Luiza Renaux
Mais uma vez o casal retratado, representa as características da moda do período, com um
dos principais acessórios femininos em evidência – o chapéu. Os chapéus eram de fato moda no
período, “era objeto de desejo por excelência, os modelos variavam conforme a idade, estado civil,
condição social e hora do dia. [...] Misteriosos, exuberantes, eles catalisavam olhares, ocupavam
espaço, acrescentavam traços de poder, sofisticação e ares enigmáticos à usuárias” (SEVCENKO,
1998, p. 534). A imagem representa a moda, que por vezes, também indica uma posição social, poder,
entre outros atributos. No que se refere o poder da representação das roupas, Ciro Nero reintera:
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Roupa inspira respeito ou medo, autoridade. Roupa faz o mendigo ou o Superhomem; policiais ou criminosos; sacerdotes ou incréu. Roupa é poder, é política. É a
elegância de um chefe de estado, nas ocasiões em que não estiver usando paletó e
gravata, que seus ministros e secretários também não usem: ele decide o status da
ocasião. Porque a roupa não veste somente a pessoa, mas veste a tribo. (NERO,
2007, p. 28).
A fotografia retrata aquilo que se deseja mostrar, nos casos apresentados, imagens carregadas
de significados, embora analisados apenas a presença ou não da moda. Porém junto dela pode ser
identificado as intenções para com ela, formas de representar aquilo que visualmente se tem de
melhor. “São reflexos de existência/ ocorrências conservados congelados pelo registro fotográfico”.
(COSSOY, 2001, p. 28), que demonstram, por vezes o intuito. Pois, “uma foto não é apenas uma
imagem (como uma pintura é uma imagem), é uma interpretação do real; é também um vestígio, algo
realmente decalcado do real, como uma pegada ou uma máscara mortuária” (SONTANG, 2004, p.
169).
4 Considerações finais
“A moda é efêmera. Nasce, vive rapidamente, dá frutos de beleza e morre. Um dia nasce
inteira ou, geralmente em partes.” (NERO, 2007 p.108). Porém através das imagens congeladas pelo
retrato fotográfico é possível conhecer um pouco da moda de cada período.
As práticas vestimentares das famílias Renaux, Bauer e Krieger em Brusque, no período da
Belle Époque, estavam de acordo com a moda do período. Muitos foram os fatores que influenciaram
para que isso ocorresse. As condições financeiras das famílias, todas ligadas ao comércio,
proporcionaram o acesso as informações. As viagens à Europa garantiam as informações daquilo que
estava em voga em cada período. Quando não viajavam, os parentes destes se encarregavam de
enviar os produtos que, na maioria das vezes, não tinham na colônia. Os jornais do período ou os
cartões postais traziam imagens daquilo que estavam usando em outros lugares, e as costureiras
locais se encarregavam de copiar a moda. Assim, como nos dias atuais, a atração pela moda, era
frequente já que, enquanto comerciantes, eles próprios seriam a vitrine daquilo que vendiam em seus
comércios.
Segundo Gilda Chataignier (2010), o período se destacou, foi realmente uma das mais belas
épocas vividas pelo homem e o Brasil seguiu o estilo. De acordo com as fotografias analisadas, o
período da Belle Époque em Brusque, não foi diferente, foi uma Idade Bonita, pelo menos visualmente.
A região deixava claro porque era considerada o Vale Europeu do Brasil, pois ia muito além do motivo
ter vindo daqueles países, e sim porque seguiam realmente os usos e costumes do Velho Mundo.
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A cidade de Brusque e região ainda mantém hábitos e costumes peculiares, principalmente no
que se refere ao vestuário. A indústria têxtil prosperou e atualmente representa 89% da economia da
região, mas agora não voltado a fabricação de tecidos, mas a confecção. Viagens para a Europa são
constantes, sejam para estudar, pesquisar moda ou para negócios. E, embora no século XXI, as
famílias Renaux, Bauer e Kriger, continuam fazendo parte do dia a dia da cidade, emprestando nomes
a praças, ruas, instituições e em marcas de peças do vestuário.
5 Referências
ANDRADE, Benedito de. Organização Social e Política Brasileira. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1974.
BARROS, Armando Martins de. Praticam Discursivas ao Olhar: Notas sobre a vidência e a cegueira
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