GÊNEROS DISCURSIVOS NA ESFERA ACADÊMICA Jóice Gadotti1 (PPG/FURB) [email protected] Prof. Drª. Otilia L. O. M. Heinig (Orientadora - FURB) [email protected] Discussões acerca da inclusão de gêneros discursivos/textuais são recorrentes em pesquisas e se refletem também nas ações pedagógicas, especialmente, na elaboração de currículos, os quais contemplam que gêneros devem ser ensinados ao longo do percurso no ensino superior. Diante desse cenário, esta pesquisa busca compreensões acerca dos gêneros discursivos eleitos na esfera acadêmica para a formação de professores. Para tal, procura-se, inicialmente, identificar os gêneros discursivos contemplados nos planos de ensino para, posteriormente, compreender as atitudes responsivas de seus autores. Os materiais utilizados para análise são oito planos de ensino de instituições de ensino superior da região sul do Brasil, cujo acesso pode ser feito pela internet. O aporte teórico está ancorado na análise enunciativa dos estudos do Círculo de Bakhtin e nos Novos Estudos do Letramento, fundamentando-se em Street (2006), Lewis (2007), Gee (2001). Dentro desta perspectiva, a concepção de linguagem, que mobiliza a mirada teórica e metodológica, é a de forma social de interação. Ampliando a reflexão, relaciona-se a linguagem à forma como a mesma é atingida pelas ideologias oficiais. A análise revela que a referência aos gêneros discursivos acontece em vários momentos nos documentos, alguns são citados nos objetivos, nos conteúdos, outros na metodologia e há ainda os que são referenciados na avaliação. A utilização de gêneros discursivos secundários (tanto orais quanto escritos) é enfatizada na elaboração dos planos de ensino pelos docentes, sinalizando uma discursividade permeada pelas forças centralizadoras. A análise também aponta para a menção de gêneros discursivos/textuais monossêmicos, característica dos textos acadêmico-científicos por possuírem uma estrutura mais estática. Dentre os planos de ensino, pode-se notar que é enfatizado o desenvolvimento de competências e habilidades de leitura, produção e apresentação de textos que circulam mais especificamente na esfera acadêmica, bem como suas características estruturais. Palavras-chave: Gêneros Discursivos. Letramentos. Plano de Ensino. Esfera Acadêmica. Palavras Iniciais Os gêneros discursivos/textuais além de se fazerem presentes em todos os usos efetivos da linguagem, também estão inseridos nos documentos que planejam as ações pedagógicas dos diversos níveis de escolarização. Frente a este panorama, buscam-se pelas compreensões acerca dos gêneros discursivos/textuais que são escolhidos pelos docentes quando constroem seus planos de ensino destinados aos alunos que cursam as licenciaturas. 1 Jóice Gadotti é mestranda em Educação pela FURB – Universidade Regional de Blumenau. Graduada em Letras (Português / Inglês) pela mesma instituição.Possui especialização em Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa e Literatura pela UNIASSELVI. Atuou como professora de Língua Portuguesa nas séries finais do Ensino Fundamental e Médio e professora de Língua Inglesa desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. No desenrolar deste processo de garimpagem dos gêneros que se fazem presentes nos planos de ensino que circulam na academia, objetiva-se compreender as atitudes responsivas de seus autores. A construção de um plano de ensino, destinado a qualquer nível de escolarização, é pensado de acordo com as necessidades da turma a qual se direciona, além de,procurar atender às exigências da matriz curricular estabelecida pela instituição de ensino e pelos órgãos superiores que normatizam a educação. Diante das instituições de ensino superior, esse cenário não se altera, visto que nestes ambientes também, o planejamento é preciso para orientar, professores e alunos, no decorrer das aulas. Seja em forma de conteúdos, objetivos ou como sistema de avaliação, os gêneros discursivos/textuais fazem-se presentes nesta elaboração de diretrizes que norteiam o caminhar da disciplina por um determinado período. Há um número significativo de gêneros textuais que circulam nas mais diversas esferas, ou seja, nos diversos ambientes sociais, quese frequentam e dos quais se faz parte, sejam eles, a escola, a igreja, a família, etc. A instituição de ensino superior é uma das esferas sociais que possibilita aos alunos a aproximação com um variado leque de gêneros discursivos/textuais e os professores são os agentes que proporcionam aos acadêmicos esta aproximação. Em sua formação, os futuros docentes estão expostos a diversos gêneros discursivos/textuais e, quanto maior for a possibilidade de acesso a diferentes materiais impressos, ou atividades de cunho oral, maior será a gama de textos, os quais podem apresentar a seus alunos em sala de aula. O documento que aborda quais são os gêneros discursivos/textuais que se fazem presentes no decorrer da formação dos professores é o plano de ensino, que é elaborado com base no projeto político pedagógico do curso (doravante PPP/PPC) em que são descritas as disciplinas e as ementas.Tendo como material de análise os planos de ensino, esta pesquisa é de cunho qualitativo – documental. Qualitativo, pois o relevante ao pesquisador, não são números, mas sim os dizeres dos sujeitos acerca do tema. A interpretação dos enunciados e a atribuição de sentidos a esses são ações da pesquisa qualitativa, pois como comentam Bogdan e Biklen (1994, p.51) “os investigadores qualitativos estabelecem estratégias e procedimentos que lhes permitam tomar em consideração as experiências do ponto de vista do informador”. É também documental pelo fato de a investigação estar baseada nos planos de ensino disponibilizados pelos professores aos seus alunos que cursam as licenciaturas e por estar pautada em documentos de primeira mão, ou seja, em materiais que não passaram por um tratamento analítico (GIL, 1999). Os documentos que fornecem os dados necessários para esta pesquisa foram acessados via internet e são de instituições de ensino superior, privadas e públicas, dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Na sala de aula, a apresentação dos gêneros discursivos/textuais é mais voltada às práticas pedagógicas, porém há de se lembrar de que a formação pela qual o acadêmico busca está ligada a sua futura atuação como professor, ao seu futuro profissional. Ao cursar uma licenciatura, o universitário se prepara para atuar na esfera educacional, a qual proporciona a crianças, jovens e adultos a possibilidade da construção do conhecimento mediada pelos profissionais da educação. Portanto, quanto maior a exposição dos acadêmicos aos mais variados gêneros discursivos/textuais, maior será o seu repertório acerca dos mesmos quando se inserir na escola, seu ambiente de trabalho. A seguir explanam-se concepções acerca do letramento e sua relação com a esfera acadêmica. Discute-se a construção dos planos de ensino, das licenciaturas, e como estes são permeados pelas ideologias. Como próximo passo analisam-se as atitudes responsivas de seus autores em relação às escolhas dos gêneros discursivos/textuais que compõem este documento. E por fim as considerações construídas através deste estudo. Planos de ensino: um olhar para os gêneros discursivos/textuais No cotidiano das pessoas, a escrita e, consequentemente, a leitura fazem-se presentes em diversos momentos e lugares. O acadêmico está exposto a situações de uso da leitura e da escrita no espaço da sala de aula, na biblioteca, nos corredores, no refeitório; em suma, em todos os ambientes nos quais ele se inserir, tanto dentro, quanto fora da universidade. A junção das atividades, leitura e escrita, nem sempre resulta no entendimento e na possibilidade de inferir a respeito do que foi enunciado. A compreensão e o uso efetivo da leitura e da escrita em situações de comunicação e interação social passam pelo letramento. Segundo Kleiman (1995, p.19), o letramento pode ser definido atualmente “como um conjunto de práticas sociais de leitura e escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos e para objetivos específicos”. Complementando este conceito, Soares (2002,p.145) diz que letramento “é o estado ou condição de indivíduos ou grupos sociais de sociedades letradas que exercem efetivamente as práticas sociais de leitura e escrita, participando ativamente dos eventos de letramento”. Por eventos de letramento podem-se entender as situações em que os sujeitos letrados fazem uso da leitura e da escrita, requerendo sua interpretação ao que lhes é apresentado, sua interação com os demais participantes, bem como sua inferência (SOARES, 2002). A inserção das pessoas em vários espaços sociais que se utilizam da leitura e da escrita como forma de interação, atrelados nos dias atuais também ao uso das novas tecnologias gerou a necessidade da expansão do termo letramento. Os novos estudos do letramento apontam atualmente para o uso da palavra no plural - letramentos. O termo,letramentos, refere-se aos diversos usos que se pode fazer da leitura e da escrita nas diversas situações sociais, ou seja, diferentes locais de escrita, produção e reprodução, geram diferentes letramentos (SOARES, 2002). A universidade, tanto quanto a escola, é um ambiente de comunicação discursiva, uma esfera, um campo da atividade humana e da vida, no qual ocorre a interação (BAKHTIN, 2011). A inserção em lugares e situações de interação humana diferenciados é o que proporciona ao sujeito o acesso a diferentes letramentos. Relacionados, portanto, às diversas práticas de letramento, estão os conhecimentos prévios de cada sujeito, que carrega consigo particularidades das formas de interação social em cada esfera da comunicação humana. Reforçando a necessidade de se considerar os conhecimentos prévios dos alunos nos diversos ambientes de ensino, Gee (2005, p.76, tradução nossa) comenta que: Os Novos Estudos do Letramento olham o letramento como uma prática social. Ao fazê-lo, as teorias dão conta do local e do global. Letramentos globais significam que nós precisamos levar em consideração as identidades culturais de nossos alunos2. O ingresso das crianças, jovens e adultos nos ambientes escolarizados pressupõe a inserção em um espaço que lhes proporcione a aproximação dos seus conhecimentos prévios com os múltiplos letramentos encontrados no contexto acadêmico. Segundo Lea & Street (2006, p.227, tradução nossa) “as práticas de letramento das disciplinas acadêmicas podem ser vistas como variadas práticas sociais associadas com diferentes comunidades” 3. Além disso, uma perspectiva de letramento acadêmico também leva em conta os letramentos que não estão diretamente associados com temas e disciplinas, mas com discursos e gêneros institucionais. Lewis (2006, p.146, tradução nossa) complementa reforçando que: A cultura escolar exige letramentos acadêmicos. Isto inclui interações entre alunoaluno e professor-aluno, habilidades e conhecimentos formais, incluindo vocabulário 2 The new literacy studies looks at literacy as a social practice. Global literacies mean that we need to take account of our student's cultural identities 3 The literacy practices of academic disciplines can be viewed as a varied social practices associated with different communities. acadêmico e padrões linguísticos, expectativas de atenção e participação, e uma estrutura de recompensa para o sucesso acadêmico4. Estes apontamentos se referem tanto ao professor em formação, enquanto acadêmico, quanto aos alunos das escolas, os quais serão alunos destes futuros professores. Ao abordar questões referentes ao letramento acadêmico e a formação inicial de professores, remete-se às diretrizes e documentos que norteiam os caminhos a serem seguidos por instituições de ensino superior e consequentemente por seus docentes no que compete ao ensino destinado a estes acadêmicos. Os planos de ensino são os escritos que guiam as aulas no decorrer do período letivo e que se referem aos objetivos, conteúdos e critérios de avaliação que permeiam as disciplinas. A função social dos planos de ensino está circundada pela ideologia oficial, que de acordo com Bakhtin (2004, p.118) está ligada aos “sistemas ideológicos constituídos, como a arte, a moral, o direito, etc.” o que a diferencia da ideologia do cotidiano que “acompanha cada um dos nossos atos ou gestos e cada um dos nossos estados da consciência” (Idem, 2004, p.118). A ideologia oficial perpassa todos os documentos que normatizam a construção dos planos de ensino, seja através dos princípios determinados por órgãos superiores ou pelos estipulados pela própria instituição de ensino superior, por meio dos PPP/PPC que regem os cursos de graduação da universidade. Além de passar pelos crivos dos parâmetros estabelecidos pelas entidades que normatizam sua confecção, os planos de ensino, no início do período letivo, passam pela apreciação dos discentes a quem os mesmos se destinam. Neste momento de apresentação e interação verbal entre alunos e professor as ideologias também se fazem presentes, pois “toda palavra é ideológica e toda utilização da língua está ligada à evolução ideológica” (BAKHTIN, 2004, p.122). O plano de ensino, assim como os demais gêneros discursivos/textuais, possui um formato pré-estabelecido, é gerado segundo diretrizes instituídas, que se pode chamar de forças centrípetas (BAKHTIN, 2004), ou seja, forças centralizadoras que buscam guiar os caminhos a serem seguidos por meio da ideologia oficial. O direcionamento do plano de ensino construído a cada semestre se dá por meio de documentos oficiais, porém, a forma como os conteúdos serão abordados ao longo do período é regida pelo professor responsável pela matéria. 4 The culture of schooling requires academic literacy. It includes particular student-student and teacher-student interactions; formal skills and knowledge, including academic vocabulary and linguistic patterns; expectations for attention; and a reward structure for academic success. Durante o processo de construção do plano de ensino, o docente estabelece quais os objetivos que pretende alcançar, bem como quais serão as práticas pedagógicas adotadas no percorrer do semestre, sem esquecer, dos critérios de avaliação que resultarão na nota ou no conceito de cada aluno ao final do período. De acordo com as necessidades de cada turma e os conteúdos designados à disciplina o professor escolherá quais serão os gêneros discursivos/textuais presentes no percurso. Os gêneros discursivos se caracterizam por serem [...] tipos relativamente estáveis de enunciados [...] A riqueza e a diversidade de gêneros do discurso são infinitas porque são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é integral o repertório de gêneros do discurso que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo. (BAKHTIN, 2011, p.262). Assim, a escolha dos gêneros discursivos/textuais, elencados para as atividades desenvolvidas, depende das intenções do ministrante das aulas em relação aos seus discentes. Com infinitas possibilidades, cabe a ele escolher quais as esferas sociais que pretende contemplar, bem como, quais os gêneros discursivos/textuais que melhor se adaptam a seus propósitos. Outro fator a ser considerado no momento da seleção dos textos a serem trabalhados é a quem se destinam as produções, pois “cada gênero do discurso em cada campo da comunicação discursiva tem a sua concepção típica de destinatário que o determina como gênero” (BAKHTIN, 2011, p.301). Os planos de ensino analisados nesta pesquisa são referentes a cursos de graduação destinados à formação de professores, a escolha das disciplinas se deu forma aleatória, conforme a disponibilidade dos documentos na internet. Os dados utilizados para a análise fazem parte de oito planos de ensino de instituições de ensino superior, públicas e privadas, da região sul do país, mais especificamente dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Algumas matérias estão diretamente ligadas à licenciatura a qual se destina o curso e outras, apesar de se fazerem presentes na matriz curricular das licenciaturas, também estão em outros cursos de nível superior, como é o caso da disciplina denominada Produção de Texto. Quadro 1: Identificação, curso, disciplina e carga horária dos planos de ensino Identificação Curso Disciplina Carga horária P.E.1 Pedagogia Educação e Infância 72 h/a P.E.2 Letras Língua Portuguesa I 72 h/a P.E.3 História História Antiga 72 h/a P.E.4 Pedagogia Alfabetização I 60 h/a P.E.5 Pedagogia Produção de Textos 54 h/a P.E.6 Artes Produção de Textos 72 h/a P.E.7 Pedagogia Leitura e Produção Textual 60 h/a P.E.8 Artes Visuais Ensino da Arte 60 h/a Fonte: O autor (2012) A diversidade de gêneros discursivos/textuais encontrados nos planos de ensino analisados permite perceber que quase em sua totalidade pertencem à esfera acadêmica. Em um dos planos de ensino direcionados à disciplina de Produção de Texto, porém, há a menção a textos de outras esferas5: P.E.6: Identificar a natureza de um texto: econômico, jornalístico, publicitário, oficial, técnico, didático, literário a partir de suas especificidades. Fonte: dados da pesquisa Esta variedade de esferas sociais, como reforça Grillo (2006, p.147) “dão conta da realidade plural da atividade humana ao mesmo tempo em que se assentam sobre o terreno comum da linguagem verbal humana”. Os gêneros discursivos/textuais são citados nos planos de ensino em quatro momentos: nos objetivos, nos conteúdos, na metodologia ou ainda na avaliação, dependendo dos critérios do autor. Esta seleção dos discursivos/textuais está relacionada aos objetivos que o ministrante da disciplina pretende atingir, pois [...] cada enunciado se caracteriza antes de tudo, por um determinado conteúdo semântico - objetal. A escolha dos meios linguísticos e dos gêneros do discurso é determinada, antes de tudo, pelas tarefas (pela ideia) do sujeito do discurso (ou autor) centradas no objeto e no sentido. (BAKHTIN, 2011, p.289). Como estão situados dentro da esfera acadêmica, os gêneros discursivos/textuais encontrados nos documentos referem-se aos que se denomina de secundários que “são formações complexas porque são elaborações da comunicação cultural organizada em sistemas específicos como a ciência, a arte, a política.” (MACHADO, 2005, p. 155), ou seja, surgem de condições de interação cultural mais desenvolvidas, organizadas e são em sua maioria escritos, o que os diferencia dos caracterizados como primários, pois esses são os presentes nas interações comunicativas do cotidiano. No processo de construção dos planos de ensino e consequentemente nas escolhas que estão relacionadas a essa elaboração, o sujeito reproduz suas intenções discursivas, pois 5 Os dados apresentados em itálico e em caixas de texto são fruto de dados de pesquisa coletados nos plano de ensino dos cursos analisados determina os seus enunciados por meio de sua atitude responsiva, que está relacionada às situações comunicativas, por ele já vivenciadas, bem como todo o contexto sócio-histórico por ele percorrido. [...] todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau: porque ele não é o primeiro falante, o primeiro a ter violado o eterno silencio do universo, e pressupõe não só a existência do sistema da língua que usa, mas também de alguns enunciados antecedentes – dos seus alheios – com os quais o seu enunciado entra nessas ou naquelas relações [...] Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados. (BAKHTIN, 2011, p.272). A esfera acadêmica comporta uma gama diversificada de gêneros discursivos/textuais que podem ser elencados pelos professores para serem trabalhados em suas aulas, dentre eles estão os que se caracterizam por serem predominantemente escritos e que se materializam através da oralidade. Dentre os mencionados nos planos de ensino analisados e que se caracterizam pela escrita estão6: resumo, resenha, fichamento, artigo, diário de campo, tese, dissertação, monografia, material didático, fórum de discussão, memorial da infância, prova, painel, esquema, análise textual, projeto e o quis Fonte: dados da pesquisa No que se refere à oralidade em sala de aula, os gêneros discursivos/textuais citados pelos autores dos planos de ensino que seguem essa caracterização são: seminário, comunicações, mesa-redonda, aulas expositivas, filme, documentário, debate,entrevista, vídeo e oficinas. Fonte: dados da pesquisa Relacionado à seleção de gêneros discursivos/textuais abordados nas salas de aula da academia, está o letramento acadêmico que visa práticas socias ligadas ao espaço da universidade. Diante das atividades desenvolvidas por professores e alunos objetivando alcançar este nível letrado, Lea e Street (2006, p. 227, tradução nossa) mencionam que O modelo de socialização acadêmica pressupõe que os discursos e gêneros disciplinares são relativamente estáveis e uma vez que os alunos tenham aprendido e compreendido as regras básicas de um discurso acadêmico particular eles são capazes de reproduzi-lo sem problemas7. 6 Os gêneros discursivos apresentados estão citados nos planos de ensino analisados para este artigo, optou-se em agrupá-los, pois, apareciam em diferentes partes dos planos de ensino. 7 The academic socialization model presumes that the disciplinary discourses and genres are relatively stable and that once students have learnt and understood the ground rules of a particular academic discourse they are able to reproduce it unproblematically. As características dos gêneros discursivos/textuais estão diretamente ligadas às suas esferas de produção, no caso dos planos de ensino, a relação entre ambos se dá por meio da esfera acadêmica que é o campo no qual os textos serão mais propriamente difundidos. Para tal, essa aproximação encontra-se mencionada nos objetivos específicos, revelando a atitude responsiva do sujeito-autor diante das necessidades de seus alunos. P.E.7:Objetivos Específicos desenvolver competências e habilidades de leitura, produção e apresentação de textos acadêmico-científicos; (re)conhecer a organização/estruturação de gêneros que circulam no meio acadêmico; compreender as relações entre os gêneros acadêmicos e suas funções; preparar apresentação de seminários (comunicações, mesas-redondas, etc). Fonte: dados da pesquisa Diante das inúmeras possibilidades de produção de enunciados, mencioná-los todos no planejamento nem sempre é possível, pois no momento de elaboração do documento o professor pode não conhecer a turma a qual este se aplicará e consequentemente não saber de suas necessidades. Assim a referência a tipos textuais, é notada nos dizeres dos planos de ensino. P.E.5: Produção de textos descritivos, narrativos e dissertativos. P.E.7:Tipologia Textual. Montagem de um quadro comparativo Fonte: dados da pesquisa A divisão dos inúmeros gêneros discursivos/textuais utilizando a montagem de um quadro comparativo também leva em conta essa classificação, que á sugerida por Dolz e Schneuwly (2004). A confecção dos gêneros discursivos/textuais elencados pelos docentes em seus planos de ensino por meio das atividades e avaliações direcionadas, em sua maioria, não permitem ao acadêmico muitas possibilidades estilísticas individuais. Cada gênero discursivo/textual já possui os recursos lexicais específicos ligados ao seu campo de comunicação discursiva, que fazem parte de suas características. Por se tratarem de gêneros discursivos secundários que possuem uma forma discursiva padronizada, neles estão “as condições menos propícias para o reflexo da individualidade na linguagem [...]” (BAKHTIN, 2011, p.265). Os textos acadêmicos requerem a compreensão do que está sendo explanado, sem que haja ambiguidades, por isso, visam à monossemia em detrimento da polissemia. O estilo individual traz consigo características sócio-históricas que fazem parte da constituição do sujeito e que se apresentam por meio de palavras, cercadas por ideologias, em seus textos. Os gêneros discursivos/textuais em sua infinidade de possibilidades circulam, também, entre as novas tecnologias. Porém, através da análise dos planos de ensino, pode – se perceber que a utilização dos gêneros discursivos/textuais que se remetem ao uso do computador, tanto quanto às demais tecnologias é pouco ressaltado nos documentos. A menção se detém à utilização de fóruns de discussão, quiz, e a elaboração de filmagens, o que se tratando da formação de professores, pode influenciar na prática pedagógica desses em sala de aula, fazendo pouco uso das tecnologias nesse espaço em que ele será o ministrante. A análise de qualquer enunciado é influenciada tanto pelas situações comunicativas quanto pelo contexto sócio-histórico do sujeito pesquisado e do pesquisador, pois “o enunciado se constrói levando em conta as atitudes responsivas, em prol das quais ele, em essência é criado” (BAKHTIN, 2011, p.301). Assim, não se chega a conclusões, mas a possíveis compreensões acerca do que se propôs a fazer. Possíveis considerações As práticas sociais que fazem parte da vida cotidiana das pessoas estão relacionadas ao uso da leitura e da escrita. Os ambientes, os quais as pessoas têm acesso lhes proporcionam eventos de letramento, que envolvem tanto a linguagem escrita quanto à linguagem oral. Não basta apenas estar exposto a situações concretas do uso da língua, é preciso compreender o que se pretende por meio dos enunciados que são apresentados e inferir sobre estes quando solicitado, por isso, não basta decodificar o código escrito, é preciso utilizá-lo competentemente nos eventos de letramento. A academia é uma das agências de letramento, um espaço que possibilita o uso da leitura e da escrita em diversas situações de interação humana, e é nela que estão inseridos os professores em fase inicial de formação. Para estes acadêmicos são formulados planos de ensino que direcionam a prática pedagógica de seus docentes durante o período letivo de uma disciplina. No momento de construção desses documentos, vários critérios são levados em consideração, dentre eles, quais os objetivos que se pretende alcançar, os conteúdos a serem ministrados, a metodologia que envolverá a execução do planejamento, bem como os fundamentos para a avaliação dos discentes. A utilização dos gêneros discursivos/textuais faz-se presente em todos os critérios mencionados para a elaboração do planejamento semestral: nos objetivos, nos conteúdos, na metodologia e na avaliação. A inserção dos gêneros discursivos/textuais nos planos de ensino proporciona aos acadêmicos o acesso a uma gama maior de textos, o que influencia em seu letramento acadêmico. Isso acontece, visto que quanto maior for a exposição dos universitários aos diversos textos, maiores serão as possibilidades de produção e uso dos gêneros discursivos/textuais. As ações desenvolvidas tanto nas salas de aula pelos professores, como nos demais ambientes da universidade devem permitir que se propague, neste espaço de disseminação do conhecimento, uma cultura de leitura e escrita, tornando o acadêmico um sujeito letrado tanto para a vida em sociedade como também para sua futura profissão. Dentre os gêneros discursivos/textuais, tanto orais quanto escritos, mencionados nos planos de ensino analisados, percebe-se ênfase nos que se denominam secundários. Por se tratarem de produções textuais mais elaboradas e com menos possibilidades de se fazer presente a individualidade do sujeito, autor do texto, percebe-se a presença da ideologia oficial e de sua força centralizadora, inibindo os enunciados que expressam a formação sóciohistórica e cultural do sujeito. Apesar do número de gêneros discursivos/textuais apresentados nos planos de ensino ser relativamente grande, poucos deles se referem ao uso das novas tecnologias. Isso demonstra, de certa forma, que a formação inicial dos professores não os está habilitando para que se faça o uso efetivo desses equipamentos nas escolas, o que muitas vezes é cobrado deles quando se inserem neste espaço. Diante de todos os aspectos relatados que se referem à construção dos planos de ensino, norteadores do período letivo, nota-se a atitude responsiva de seus autores, que se apresenta de acordo com seus objetivos. Os enunciados por eles apresentados refletem outros enunciados que os orientam quando da elaboração dos documentos, afinal todo “enunciado é pleno de ecos e ressonâncias de outros enunciados” (BAKHTIN, 2011, p. 297). Outro fator levado em consideração são os destinatários, sejam os alunos a quem o planejamento orienta, ou aos órgãos superiores a quem tem que atender determinadas exigências. Enfim, além de abordar aspectos relacionados à produção textual, os gêneros discursivos/textuais, mencionados nos planos de ensino, contemplam ações que envolvem a leitura, a interpretação textual e apresentação dos mesmos em atividades que percorrem todo o período letivo. Assim estabelece-se o uso da linguagem que se concretiza em ações comunicativas e não no emprego de uma língua que se remete somente ao uso de normas que não se enquadram na realidade da enunciação. Referências BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2011. BAKHTIN, M. M.; VOLOSHINOV, V. N. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Hucitec, 2004. BOGDAN, Robert; BIKLEN, Sari. Investigação qualitativa em Educação: fundamentos, métodos e técnicas. In: Investigação qualitativa em educação. Portugal: Porto Editora, 1994. DOLZ, J.; NOVERRAZ, M.; SCHNEUWLY, B. Sequências didáticas para o oral e a escrita: apresentação de um procedimento. In: DOLZ, J.; SCHEUWLY, B. 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