IV COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES “DIFERENÇA NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO” TECNOLOGIAS NO CURSO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA: UMA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONCEPÇÕES DOS LICENCIANDOS Cláudio Rejane da Silva Dantas Filomena Maria Gonçalves da Silva Cordeiro Moita JOÃO PESSOA - PB - BRASIL 10 A 13 DE NOVEMBRO DE 2009 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos TECNOLOGIAS NO CURSO DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA: UMA REFLEXÃO A PARTIR DAS CONCEPÇÕES DOS LICENCIANDOS Cláudio Rejane da Silva Dantas1 Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 2 RESUMO: O presente estudo tem como objetivo mostrar a necessidade de levar a discussão sobre a temática das novas tecnologias, especificamente o uso do computador, nas práticas curriculares nos cursos de formação de professores de Ciências. O estudo consistiu da análise e reflexão das concepções de alunos licenciandos do Curso de Física da Universidade Regional do Cariri, no Sul do Ceará, após uma experiência de ensino sobre eletrostática na disciplina de eletromagnetismo, utilizando como recurso a simulação. Nessa investigação, buscamos respostas para as seguintes questões sobre o uso das novas tecnologias no ensino: Quando usar a tecnologia em sala de aula? Como utilizar esses novos recursos? Nesta perspectiva focamos como recurso didático o computador, através do uso de simuladores, como uma ferramenta que venha enriquecer o processo de ensino-aprendizagem dos futuros professores no ensino básico, pois são os principais agentes e multiplicadores que podem contribuir para minimizar os índices de exclusão digital dos estudantes. Os licenciandos apontaram a abordagem das novas tecnologias (o computador) como essenciais na formação inicial do professor, destacando também a importância de selecionar software de qualidade para serem inseridos no ensino de Física. Portanto, acreditamos que despertando os futuros professores de ciências para este novo contexto, estaremos de certa forma, contribuindo para a o acesso dos jovens ao mundo das tecnologias, auxiliando em suas tomadas de decisões. PALAVRAS-CHAVE: Formação inicial – Física – Novas Tecnologias. 1 Mestrando em Ensino de Ciências e Matemática pela Universidade Estadual da Paraíba - UEPB. Professor de Física da Secretaria Estadual de Educação do Estado do Ceará – SEDUC. Professor substituto do Departamento de Física da Universidade Regional do Cariri – URCA. E-mail: [email protected] 2 Professora do quadro permanente do programa de pós-graduação Mestrado Profissional Ensino de Ciências e Matemática da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB. E-mail: [email protected] Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 694 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos 1. INTRODUÇÃO As novas tecnologias estão presentes em várias atividades cotidianas das pessoas, com o uso de aparelhos modernos de comunicação, como celulares, as transmissões digitais, as redes interligas em tempo real, por meio da internet, e sua imersão nos espaços escolares, apoiando as ações didáticas, mesmo diante de incertezas sobre sua aplicação. Nesse sentido, “por ser relativamente nova, a relação entre a tecnologia e a escola ainda é bastante confusa”, razão por que surgem perguntas como; “Quando usar a tecnologia em sala de aula? Como utilizar esses novos recursos?” (POLATO, 2009,p.51) Todas essas mudanças provocam alterações no modo de se adquirir a informação, o que exige dos indivíduos estratégias de seleção dos saberes que são necessários, pois Pereira e Moita (2007, p.84) enfatizam que o mundo está globalizado e interconectado por redes digitais, possibilitando que esse novo modelo comunicacional e informacional interligue tudo e todos, num espaço de tempo cada vez menor e em ritmos de velocidade crescente. Mesmo diante de todos esses avanços, destacamos que ainda é remota a utilização dos aparatos tecnológicos no ambiente escolar pelos professores, em particular, os da área de Ciências, pois acreditamos que são eles os maiores responsáveis pela inserção dos educandos no mundo das novas tecnologias, tão presentes em suas vidas. Pesquisas apontam que é ínfima a utilização de tecnologias da informação e comunicação nas práticas cotidianas dos professores, como por exemplo, a rede de computadores, tratando do uso de softwares educacionais como instrumentos que auxiliem as práxis docentes, devido ao fato de os professores ainda temerem usar esse recurso. Um dos questionamentos que são feitos constantemente por professores é de que essa abordagem não é discutida no meio acadêmico, sobretudo nos cursos de formação de professores de Ciências, ainda marcada por um sistema de ensino conservador, caracterizado por métodos de ensino desvinculados da realidade e dissociados dos meios modernos. Terrazan (2003, p.67) concorda que os alunos de Licenciatura deverão ser estimulados e solicitados a vivenciar aspectos práticos de sua futura profissão, desde os primeiros anos de seu curso de formação. Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 695 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos Neste trabalho, pretendemos analisar as concepções de oito estudantes licenciandos do Curso de Física, para o uso de simuladores (software educativo) no estudo das cargas e dos campos eletrostáticos, os quais cursam a disciplina Eletromagnetismo I, do Curso de Física, da Universidade Regional do Cariri, localizada no sul do estado do Ceará. Nossa pretensão é a de desenvolver o conteúdo de eletrostática de forma convencional, ou seja, através de aulas expositivas, seguindo um livro texto. Esse método é caracterizado pelo processo de transmissão de conceitos e leis, o qual está fortemente presente no processo de resolução de exercícios como um meio de aplicação das teorias discutidas e de testes escritos. Em seguida, depois das discussões das aulas sobre o conteúdo já citado, em outro momento, levamos os licenciandos para o laboratório de informática para estudar o conteúdo trabalhado, através de dois simuladores – um, que se referia ao movimento de um elétron em um campo elétrico e magnético (experiência de Thonson), e outro que trata dos conceitos de campo elétrico, incluindo o estudo da carga de prova, as linhas de força e as interações entre as partículas. No final, aplicamos um questionário aberto, com o intuito de verificar as reflexões dos licenciandos sobre esse momento de ensino e aprendizagem com simuladores, tais como a descrição dessa experiência com simuladores, as dificuldades encontradas, as possibilidades de utilizar esse recurso, quando futuros professores de Física no ensino básico, ou mesmo no ensino superior. Discutindo o uso de tecnologias com estudantes do Curso de Licenciatura em Física, em seu momento de formação inicial, estaremos provocando debates sobre as possibilidades de uso das novas tecnologias como ferramenta que venha enriquecer o processo de ensino-aprendizagem de ciências dos professores do ensino básico, pois estes são os principais agentes que podem contribuir para minimizar os índices de exclusão digital dos estudantes ao mundo das novas tecnologias. Pereira e Moita (2007, p.85) afirmam que, para a inclusão digital ser efetivada, são necessárias novas tecnologias da informação, à qual antecede uma educação de qualidade, por meio da qual os alunos sejam preparados para este novo contexto. Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 696 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos 2. DISCUTINDO O USO DO COMPUTADOR COMO UMA FERRAMENTA POTENCIAL NA PRÁTICA DE ENSINO DE FÍSICA A abordagem sobre as novas tecnologias da informação e comunicação, especificamente o uso do computador, deveria estar mais presentes dentro das discussões no ambiente de formação inicial de docentes de Física. Neste contexto poderia despertar nos licenciandos o interesse a pesquisa sobre o uso do computador no ensino de física, seria relevante para o levantamento de questões a respeito se realmente esse instrumento poderia fazer parte dos debates na pauta curricular. Também apontamos o computador como um instrumento que resultou do desenvolvimento do conhecimento científico, mas que ainda chega vagarosamente dentro das escolas que poderia auxiliar a ação didática dos professores, os PCN+(2006, p.46) considera que: “a tecnologia merece atenção especial, pois aparece como parte integrante da área das Ciências da Natureza. Nos livros didáticos os conteúdos disciplinares selecionados e trabalhados pouco têm haver com a tecnologia atual, ficando essa, na maioria das vezes, como simples ilustração. Deve-se tratar a tecnologia como uma atividade humana em seu aspectos prático e social, com vista a soluções de problemas concretos.” Mas constatamos que ainda é remota a articulação dos conteúdos com a tecnologia em virtude talvez desse não tratamento nos cursos de formação inicial. Vianna (2006, p.137) nos chama atenção de que quem está em sala de aula hoje não pode fechar os olhos para o uso informática. A educação se modifica, e temos que nos valer daquilo que a sociedade nos fornece: um arsenal de novas tecnologias. Oliveira (2003, p.86) fortalece esse pensamento quando afirma que “os currículos e programas de ensino não enfatizam o tratamento da tecnologia como um conteúdo didático” e que salienta que mesmo sendo o discurso sobre a tecnologia uma utilidade duvidosa, seria preciso identificar nas matemáticas, nas ciências naturais, os elementos de tecnologia e descreve-los como conteúdos vivos, como objetivos da educação (OLIVEIRA,2002, p.87). Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 697 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos Apontamos diferentes formas de utilização do computador no ensino de Ciências, tais como, a aquisição de dados, a modelização e simulação, multimídia, realidade virtual e o uso da internet. Em nosso estudo, daremos ênfase ao uso de simuladores, que é relevante para o ensino de Física, porquanto, sabendo que as leis da Física são expressas por equações diferenciais, é possível se construir um modelo e simular de imediato um dado problema físico, como por exemplo, a queda de um grave, o movimento orbital (FIOLAHAIS E TRINDADE, 2003, p. 263). Como a luneta astronômica, o microscópio ou os raios X, a interface digital alarga o campo do visível. Ela permite ver modelos abstratos de fenômenos físicos ou outros, visualizar dados numéricos que, sem isso, permaneceriam soterrados em toneladas de listagens. A imagem digital também é complemento indispensável da simulação, e sabemos o papel que esta última tem hoje na pesquisa científica. (LEVY, 1993, p.106) Compreendemos a importância dos simuladores para o ensino de Ciências, quando Levy (1993, p.124) defende que a simulação, considerada como uma imaginação auxiliada por computador, é uma ferramenta de ajuda ao raciocínio muito mais potente que a velha lógica formal que se baseava no alfabeto. Não estamos defendendo que os futuros professores substituam sua forma de transmitir o conteúdo - geralmente através do método expositivo - pelo uso de simuladores, mas estamos de acordo com a idéia de que as simulações não devem substituir por completo a realidade que representam, pois elas são bastante úteis para abordar experiências difíceis ou impossíveis de realizar na prática por serem caras, muitos perigosas, demasiado lentas, demasiado rápidas (FIOLAHAIS E TRINDADE, 2003, p.264). É importante relatar que diante desta temática apontamos um grande desafio para os professore de física nesta era da informação, possuindo um novo meio de informação como o computador conectado a internet. Neste contexto seu saber se amplia, podendo usufruir de curso on-line, bibliotecas e laboratórios virtuais, softwares Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 698 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos educacionais, exercícios de auto correção, animações e simulações, mas que vale alertar sendo meros auxiliares do processo educacional (CARVALHO, 2006, p.140). 3. O PERCURSO: UM OLHAR A PARTIR DAS CONCEPÇÕES DOS LICENCIANDOS Para investigar as concepções dos alunos licenciandos em Física sobre a utilização de simuladores para o estudo da eletrostática, apresentamos, inicialmente, através de aulas expositivas, o conteúdo, que foi dividido em três capítulos, em que abordamos: o estudo das cargas elétricas e suas interações; o campo elétrico e a lei de Gauss, seguindo a forma convencional de ensino, cuja característica é a discussão das leis e das teorias, seguindo um livro texto de nível superior e a resolução de exercícios, utilizando, como recursos, lápis e papel. Os conceitos, ou melhor, a organização sequencial do conteúdo sobre essa parte da eletrostática é descrita no livro seguindo um direcionamento linear, de baixo para cima, a saber: 1) Estudo da carga elétrica, 2) Força elétrica, 3) Campo elétrico, 4) Fluxo elétrico e 5) A lei de Gauss (HALLIDAY; RESNICK, 1973) e (SERWAY; JEWETT, 2004). A sequência mostrada não está de acordo com as teorias de David Ausubel que, segundo Moreira (2001, p. 59), defende a posição de que as idéias, os fenômenos e os conceitos mais gerais e inclusivos devem ser apresentados no início do processo educacional para que sirvam de ancoragem conceitual para a aprendizagem subsequente. Nesse contexto, Moreira (2001, p. 29) também refere, ainda, que o princípio de diferenciação progressiva deve ser levado em conta ao se programar o conteúdo. Isso significa dizer que as idéias mais gerais e mais inclusivas da disciplina devem ser apresentadas, em termos de detalhe e especificidade. “Á medida que o sujeito vai dominando, progressivamente, situações de um campo conceitual e vai adquirindo novos conhecimentos, novos significados, ele vai também, progressivamente diferenciando seus subsunçores. Mas enquanto diferencia subsunçores e constrói subsunçores, também diferencia sua estrutura cognitiva.” (MASINI; MOREIRA, 2008, p.35) Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 699 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos Na apresentação do simulador da experiência de Thomson, percebemos que é mostrada uma partícula sendo inserida em um campo elétrico e magnético e submetida à ação de força eletromagnética, enquanto o simulador sobre o estudo de campo elétrico reuniu conceitos de campo elétrico, linhas de forças e forças eletrostáticas (ver figuras 01 e 02). Percebemos que, nesses simuladores, não existe uma separação dos conceitos, mas uma interação entre eles, servindo, nesse caso, como instrumento de construção de subsunçores e promovedor de diferenciação progressiva e reconciliação integradora. Antes do estudo dos capítulos e de conduzir os alunos ao laboratório de informática, construímos um mapa conceitual (ver figura 03), que foi apresentado na sala de aula, procurando refletir a organização conceitual do conteúdo em estudo. Partindo do conceito mais geral, que é o de campo elétrico, para os mais específicos, como carga elétrica, força elétrica, linhas de força, fluxo elétrico e lei de Gauss. Essa sequência está de acordo com a sequência ausubelinana e oposta à apresentada no livro de apoio, que dá ênfase aos conceitos, partindo do particular para o geral. Com o intuito de investigar as concepções dos estudantes do Curso de Física sobre a experiência com a utilização dos simuladores, aplicamos um questionário (quatro questões abertas), depois da aula no laboratório, que consistiu de um tempo de três aulas de 50 minutos. A seguir, explicitamos os escritos deles, enfatizando que, dos oito alunos, apenas seis estavam na aula. Na primeira questão, solicitamos aos alunos que descrevessem sua experiência com o uso de simuladores para o estudo da eletrostática; na segunda, indagamos se o simulador ajudou na aprendizagem desse conteúdo. As respostas foram as seguintes: É uma experiência fabulosa, visto que demonstra de forma magnífica a influência de todas as propriedades eletromagnéticas de forma simples e divertida. (C.H) Levando em consideração que este tópico é de difícil visualização quando estudado, o simulador ajuda bastante no aprendizado, pois podemos criar situações diferentes com as simulações. (J.S) Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 700 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos O simulador ajuda a entender os conceitos de campo, carga de prova e força, pois a partir de um jogo a física começa a ser interpretada de maneira a ser melhor entendida por parte da eletrostática. (C.F) Sim, pois, com a simulação da carga fonte repelindo ou atraindo a carga que estava negativa (carga de prova), podemos entender algumas afirmações literárias a respeito da eletrostática. (C.F) Nessa análise, verificamos que os estudantes do Curso de Física receberam com entusiasmo o uso de simuladores, pois o defenderam como um instrumento que pode tornar visíveis os fenômenos abstratos que são apresentados nos livros didáticos, alargando a possibilidade de observá-los. Percebemos, então, o grau de satisfação dos estudantes para o uso dos simuladores, analisamos as reflexões feitas sobre o estudo de todos os conceitos, e as relações entre eles, que englobam o simulador. Assim, com a simulação sobre o estudo do campo elétrico, verifica-se a relevância desse momento para ratificar as discussões conceituais que foram exploradas na sala de aula. Nesse contexto, constatamos, na fala dos estudantes de Física, que o simulador poderá permitir o processo de diferenciação progressiva, em que eles veem uma maior relação entre os conceitos. Por essa razão, é preciso compreender que, no simulador mostrado, deve partir de um conceito mais geral, como o de “campo elétrico,” para o de carga, força elétrica e linhas de força. Em outra questão, solicitamos que eles descrevessem as dificuldades que encontraram (se existiram) para manusear o simulador para as aprendizagens de conceitos introdutórios sobre eletrostática. Vejamos as respostas: Só no começo, pois nunca tinha visto antes, porém o programa que foi utilizado é muito simples. (D.A) No início sim, mas foi ficando claro com as repetições, e com as orientações do professor que sempre inova nas aulas. (C.M) A respeito das dificuldades, o simulador ajuda a entender, mas não basta só o simulador. Deve também existir alguém no qual explique, relatando os conceitos, dando como exemplo o simulador. (C.F) Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 701 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos Destacamos que, no decorrer do estudo, os licenciandos participaram constantemente da busca do conhecimento. No início, eles sentiram a necessidade do apoio do professor, o que confirma que esta análise está de acordo com a idéia de que, quanto mais ativamente uma pessoa participar da aquisição de um conhecimento, mais ela irá integrar e reter aquilo que aprender, tornando a busca do conhecimento um desafio, constituindo de uma pedagogia ativa. Com o objetivo de provocá-los sobre sua ação didática no processo de ensino e aprendizagem para a abordagem das novas tecnologias, fizemos esta pergunta: Como professor de Física do ensino básico ou superior, você usaria esse recurso tecnológico para auxiliar em sua prática de ensino? Se sim, como fariam? Se não, argumente as razões. Vejamos o que disseram alguns deles: Sim, pois alguns movimentos em cinemática são bastante complexos, como também alguns tipos de ondas e outros fenômenos que só são vistos em laboratório modernos. Com o uso de simuladores podemos visualizar esses fenômenos. (D.A) Claro que sim, eu vou usar nas próximas aulas no ensino médio com os projetores (data show), para que os alunos visualizem os fenômenos estudados. Com isso procuro estimular nos alunos a curiosidade para o ensino da física. (C.M) Sim, tentaria pelo menos levar os alunos uma vez por semana ao laboratório para usar o simulador. (J.A) Mas é claro que sim, pois como já falei, a visualização é muito importante no que se refere à aprendizagem. (J.S) Como vemos, todas as respostas conduzem a um recurso que poderá ser útil para auxiliar suas práticas de ensino. Em suas reflexões, os entrevistados expressam que o simulador seria relevante para o estudo de fenômenos mais complexos no ensino de Física, como por exemplo, em experiências que seriam impossíveis de ser realizadas em um laboratório didático de Física experimental. O aluno C.M, que é graduado em Matemática já leciona há muitos anos na rede privada de ensino, confessa que achou a Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 702 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos simulação um recurso potencial para ser empregado nas aulas de Física do ensino básico e que despenderia um esforço para essa abordagem fazer parte de suas aulas, como forma de estimular os estudantes a compreenderem os fenômenos físicos, para tornar o conhecimento mais significativo. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência deste estudo foi significativa, pois verificamos, a partir de um embasamento teórico e da coleta empírica, a importância de se inserirem as novas tecnologias da informação e comunicação no ensino de Física, despertando os futuros professores licenciando em sua formação inicial para este contexto. Entendemos que o computador deve estar presente no cotidiano escolar, em se tratando da especificidade da aplicação de simuladores no ensino dos fenômenos físicos, em nosso caso, o estudo dos conceitos introdutórios sobre eletrostática no ensino superior, podendo ser úteis em outros conteúdos. Verificamos, através de uma intervenção pedagógica, as concepções de estudantes de licenciatura em Física sobre as vantagens e as desvantagens dos simuladores para complementarem o estudo de conceitos teóricos e apontar suas reflexões para a utilização desse recurso em suas atividades de ensino, quando futuros professores. Ficamos surpresos com o grau de interesse dos licenciandos para o trabalho com simuladores. Eles os apontaram como essenciais para a preparação adequada do professor e destacaram a importância de selecionar software de qualidade para serem inseridos no ensino de Física. Portanto, devido ao quadro alarmante, no que tange à exclusão digital dos alunos neste mundo cada vez mais complexo, e defendendo que a ciência é para todos e não apenas para especialistas, acreditamos que, despertando os futuros professores de ciências para este novo contexto, estaremos, de certa forma, contribuindo para permitir o acesso dos jovens ao mundo das tecnologias no tratamento da disciplina de física no nível básico, auxiliando em suas tomadas de decisões. Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 703 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos 5. BIBLIOGRAFIA BRASIL, PCN+. Orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias . Secretaria de educação média e tecnológica-Brasília: MEC; SEMTEC, 2006. FIOLHAIS, Carlos. TRINDADE, Jorge. 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Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 706 Tecnologias no Curso de Formação de Professores de Física: uma reflexão a partir das concepções dos licenciandos Figura03: Mapa conceitual do estudo sobre o campo elétrico (construído pelos autores). Cláudio Rejane da Silva Dantas & Filomena Mª. Gonçalves da Silva Cordeiro Moita 707 IV COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES “DIFERENÇA NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO” A COMUNIDADE DISCIPLINAR DE ENSINO DE BIOLOGIA E A PRODUÇÃO DE POLÍTICAS CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO Flávia de Mattos Giovannini Busnardo JOÃO PESSOA - PB - BRASIL 10 A 13 DE NOVEMBRO DE 2009 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio A COMUNIDADE DISCIPLINAR DE ENSINO DE BIOLOGIA E A PRODUÇÃO DE POLÍTICAS CURRICULARES PARA O ENSINO MÉDIO1 Flávia de Mattos Giovannini Busnardo – PROPEd/UERJ2 RESUMO: Neste trabalho investigamos a atuação da comunidade disciplinar de Ensino de Biologia no processo de produção do documento da referida disciplina nas Orientações Curriculares Nacionais do Ensino Médio. Além da proposta curricular, recorremos a entrevistas semi-estruturadas realizadas com dois pesquisadores, membros da comunidade disciplinar em questão, que participaram do processo de elaboração das OCNEM. A análise das entrevistas e do documento curricular permitiu explorar os discursos da comunidade disciplinar de ensino de Biologia com relação a propostas curriculares implementadas anteriormente, como também compreender o processo de produção de um documento que integra as políticas para o ensino médio. Para tanto, nos baseamos em estudos de Stephen Ball sobre as políticas curriculares e em estudos de Ivor Goodson sobre comunidade disciplinar. Defendemos que, essa proposta curricular, mas especificamente o documento da disciplina Biologia, apesar de seguir as mesmas orientações que as demais políticas em vigência para o Ensino Médio, se caracteriza pelas críticas a propostas implementadas anteriormente, propondo-se a preencher as lacunas presentes. PALAVRAS-CHAVE: políticas curriculares, ensino de Biologia, Ensino Médio. INTRODUÇÃO Este trabalho integra uma pesquisa de Mestrado e apresenta considerações parciais sobre a investigação do processo de produção de políticas curriculares pela comunidade disciplinar de ensino de Biologia. O entendimento desse processo é importante, pois permite a compreensão de discursos que circulam no âmbito da comunidade disciplinar em questão. Compreendemos a comunidade disciplinar de ensino de Biologia como um dos atores sociais participantes das disputas por certas demandas nas políticas curriculares. Assim, os sentidos produzidos por essa comunidade fazem parte da luta política pelas demandas curriculares. 1 Este trabalho é parte integrante do projeto “Articulação nas Políticas de Currículo: o caso das Ciências no Ensino Médio”, financiado pelo CNPq e pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenado por Alice Casimiro Lopes e faz parte das atividades do Grupo de Pesquisa Currículo: sujeitos, conhecimento e cultura (www.curriculo-uerj.pro.br). 2 Bolsista de Mestrado CNPq Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 711 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio Nesse contexto, consideramos que as políticas de currículo são produzidas em um ciclo contínuo em múltiplos contextos (Ball, 1994), portanto não são impostas pelo governo. Entendemos as políticas não como mecanismos top-down, ou seja, elaboradas de cima (pelos órgãos governamentais) e lançadas para baixo (nas escolas), mas sim como frutos de múltiplos discursos que perpassam os diversos contextos produtores das políticas, sofrendo processos de releituras e, conseqüentemente, reinterpretações e, assim, produzem novos sentidos para as políticas. Apoiadas nessa concepção de políticas de currículo, utilizamos como material empírico de nossa análise as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNEM), especificamente o documento de Biologia. Este documento foi escolhido como material empírico deste trabalho por ser a mais recente proposta curricular voltada ao nível médio de ensino. Além da proposta curricular, recorremos a entrevistas semiestruturadas3 realizadas com dois pesquisadores, membros da comunidade disciplinar em questão, que participaram do processo de elaboração das OCNEM. A análise das entrevistas e do documento curricular, que existem aproximações e distanciamentos entre propostas curriculares elaboradas em períodos diferentes, sob a gestão de governos distintos. Essas análises também nos permitiram explorar os discursos da comunidade disciplinar de ensino de Biologia com relação a propostas curriculares, como também compreender o processo de produção de um documento que integra as políticas para o ensino médio. Na apresentação desse artigo, iniciamos discutindo nossa concepção de políticas de currículo e de comunidade disciplinar, em seguida apresentamos os resultados de nossas análises e, por fim, nossas considerações finais. A PRODUÇÃO DE POLÍTICAS CURRICULARES E A COMUNIDADE DISCIPLINAR De acordo com Ball (1994), o ciclo contínuo de políticas é composto por cinco contextos, onde três destacam-se e são particularmente interessantes para a pesquisa que desenvolvemos, por englobarem, especificamente, o processo de elaboração de uma política: contexto de influências, contexto da produção de textos e contexto da prática. O contexto de influência é caracterizado pelas disputas na construção de discursos 3 O nome dos entrevistados será mantido em sigilo para preservar suas identidades. Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 712 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio definidores dos princípios mais gerais da atividade educacional. Os atores nesse contexto são instituições ou grupos sociais que extrapolam fronteiras nacionais, objetivando o apoio dos sistemas educacionais locais às propostas que atendam seus interesses. Podemos exemplificar como participantes desse contexto as agências multilaterais financiadoras de projetos, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e governos de outros Estados-nação. Essas influências internacionais marcam as nações no mundo globalizado. Esse contexto influencia as políticas curriculares para além de suas fronteiras, tanto no sentido de realização de empréstimos financeiros, caso o país se comprometa a seguir determinadas diretrizes políticas, quanto pela capacidade de fornecer soluções entendidas como capazes de dar conta de problemas globais. Uma política difundida com sucesso em determinado país é vista como modelo para outros, aspecto que somado ao tipo de financiamento recebido pelo país colabora na semelhança entre as políticas educacionais. O contexto de produção de textos engloba ações locais de governos e partidos, responsáveis por selecionar e promover interlocução entre técnicos do governo e especialistas atuantes na produção dos documentos curriculares. Esses especialistas fazem parte de comunidades epistêmicas 4 ou são lideranças de comunidades disciplinares e são contactados com base em sua legitimidade nessas respectivas comunidades. Esse contexto corresponde à definição dos textos das propostas curriculares propriamente ditas. No caso do Brasil, podemos citar alguns documentos curriculares que fazem parte da reforma do Ensino Médio, como: os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEm), as Orientações Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN + Ensino Médio) e as Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (OCNEM), foco deste trabalho. Por último, o contexto da prática realiza as ações curriculares, recriando e reinterpretando os textos curriculares oficiais e não-oficiais e, portanto, produzindo sentidos que são apropriados pelos outros dois contextos em um processo contínuo de circularidade de discursos. 4 Entendemos, com base em Antoniades (2003), como comunidades epistêmicas uma rede de profissionais, formado por especialistas reconhecidos em suas áreas de atuação e com conhecimentos políticos legitimados em um determinado domínio ou área. Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 713 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio De acordo com Ball & Bowe, os textos legais e normativos, nesse caso as propostas curriculares, são vistos como definições de determinados grupos que têm relação tanto com o contexto de influência quanto com o contexto da prática nas escolas. O contexto da prática é caracterizado pela forma como as políticas são recebidas nas instituições escolares. Ball e Bowe (1998) afirmam que os textos das políticas são por um lado uma expressão do conjunto de intenções políticas, mas por outro se constituem em um recurso micropolítico para que os professores, as Secretarias e os pais reinterpretem e apliquem os sentidos presentes nos textos aos seus contextos sociais particulares: “o processo de construção e reinterpretação é um processo social”. Isso significa que os textos pelos quais as políticas buscam dar orientações e divulgar seus princípios, não são textos fechados, mas sim passíveis de reinterpretações, a medida que circulam por diversos contextos e são lidos por diferentes sujeitos. Nessa perspectiva, trabalhamos com a concepção de currículo como uma política cultural, na qual sistemas de representação como o mercado, a produção, o consumo, a cultura comum e o currículo nacional são capazes de produzir efeitos discursivos sobre a cultura e o currículo. Assim como Ball (1994), entendemos a política curricular como discurso e como texto. Como texto, a política é fruto de disputas, compromissos, interpretações e reinterpretações pelo controle dos sentidos e significados das leituras a serem realizadas e como discurso, não se reduz à linguagem, mas engloba a materialidade das instituições, práticas e produções econômicas e lingüísticas inter-relacionadas. Consideramos também que as políticas de currículo não são produções verticalizadas, ou seja, não são simplesmente lançadas de “cima para baixo” pelos governos nas escolas. O que é definido no poder central não é conseqüência direta do que foi estabelecido no contexto de influência e o que acontece nas escolas não é a simples implementação das definições oficiais. Nossa concepção de política, de acordo com o modelo de ciclo de políticas já apresentado, considera que são múltiplos seus produtores, assim como são múltiplos os sentidos e significados atribuídos a ela. A produção da política se dá na circularidade de discursos que perpassam os diversos contextos. Na medida em que textos e discursos passam de um contexto a outro, ocorrem reinterpretações e ressignificações, capazes de produzir novos sentidos e constituir as políticas. Concordando com Lopes (2004a), consideramos que as políticas Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 714 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio curriculares são resultados de processos que se dão em múltiplos espaços e por diferentes sujeitos, atores sociais da educação. Assim, são produções que extrapolam as instâncias governamentais. Com isso, não estamos desconsiderando o poder da atuação do governo na produção de sentidos para as políticas, mas sim que as práticas e propostas desenvolvidas nas escolas também são produtoras de sentidos para as políticas curriculares. Nesse sentido, assim como a prática incorpora sentidos das políticas, as políticas incorporam sentidos das práticas, por meio de negociações e, dessa forma, produzem discursos híbridos. Esta hibridação é fruto da negociação de sentidos nos diferentes momentos da produção destes textos e discursos da política curricular, ou seja, nos diferentes contextos pelos quais os textos circulam. Como ocorre em um processo de negociação, concepções de currículo entram em conflito e acordos são estabelecidos entre os diferentes segmentos sociais (Lopes, 2004b). Assim, as políticas são frutos de acordos estabelecidos no âmbito de grupos sociais específicos que, nesse caso, são as comunidades disciplinares. Na pesquisa que desenvolvemos, argumentamos que uma das instâncias fundamentais nessa reinterpretação dos sentidos das propostas curriculares é a disciplina escolar, já que, no Ensino Médio, essas propostas são caracterizadas por uma forte marca disciplinar. . Trabalhamos com uma concepção de disciplina que não a considera apenas em sua dimensão epistemológica, mas sim como um processo social, que envolve atores na disputa por recursos, status e território (Goodson, 1997). A disciplina escolar não deve ser entendida como uma simplificação de conhecimentos das disciplinas científicas e acadêmicas, mas como uma construção política e social em constante mudança, organizada e mantida pelos atores sociais que empregam recursos ideológicos e materiais no seu desenvolvimento (Lopes & Macedo, 2002). Esses atores sociais, professores da Educação Básica e pesquisadores em ensino de determinada área, constituem o que entendemos por comunidade disciplinar. As comunidades disciplinares produzem e recontextualizam discursos curriculares, legitimando ou não certos discursos que circulam no meio educacional. Cabe ressaltar que esses atores sociais, constituintes das comunidades disciplinares, são importantes sujeitos – especialistas e lideranças - na produção de documentos oficiais, visto sua atuação no ensino e na pesquisa em sua área de estudo. Essas lideranças das Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 715 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio comunidades disciplinares trazem, para o contexto da produção de textos, discursos que perpassam também o contexto da prática. Nessa perspectiva, não consideramos os binarismos proposta e prática, currículo formal e currículo em ação, pois ação e proposição estão relacionadas e fazem intercâmbios de sentidos e significados, em um processo mútuo de produção. Tais comunidades atuam também na divulgação da proposta curricular e na mediação dos discursos das políticas públicas, sendo vozes ativas na disseminação dos discursos, cumprindo a função de produção das políticas de currículo. Nosso interesse em investigar uma comunidade disciplinar específica - de ensino de Biologia – relaciona-se à sua atuação que, especialmente nos últimos anos, se destaca na produção de sentidos e significados para as políticas curriculares. Lideranças dessa comunidade são atuantes na elaboração de propostas curriculares oficiais. Podemos citar sua atuação nos PCNem, nos PCN +, nas OCNEM, no programa de avaliação dos livros didáticos (PNLD), assim como em avaliações e julgamentos de editais junto ao MEC. Todavia, a importância atribuída a essa comunidade disciplinar não é garantia de homogeneidade em seus discursos. Sua atuação é marcada por disputas e conflitos por interesses, mas também por acordos entre demandas voltadas à defesa da qualidade do Ensino Médio e, mas especificamente, do ensino de Biologia.. Neste trabalho, privilegiamos a já mencionada proposta das OCNEM, buscando perceber, através da análise do documento e de entrevistas realizadas com alguns dos colaboradores no processo de produção deste, sentidos que permeiam os discursos presentes. Na próxima seção, o documento curricular, mais especificamente da área de Biologia, é apresentado com mais detalhes, assim como a análise das entrevistas realizadas. INVESTIGANDO O PROCESSO DE PRODUÇÃO DO CURRÍCULO DA DISCIPLINA BIOLOGIA PARA O ENSINO MÉDIO As Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, assim como os PCNEm (proposta curricular divulgada em 2000 no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso), é um documento curricular elaborado no ano de 2006, no governo do presidente Luís Inácio Lula da Silva. O processo de elaboração deste documento foi composto por várias etapas, da qual fazem parte a produção de uma versão preliminar, Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 716 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio reuniões entre os elaboradores dos documentos das diversas áreas, cinco seminários regionais realizados em diversas cidades do país e um Seminário Nacional, que culminaram na publicação da versão final do documento. A versão preliminar das OCNEM consistiu em um texto de apresentação, seguido por uma reflexão sobre o Ensino Médio e textos elaborados por representantes das diversas disciplinas, separados pelas respectivas áreas – Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias e Ciências Humanas e suas Tecnologias. Sua versão final se afirma como resultante de ampla discussão, da qual participaram equipes técnicas do governo, representantes da comunidade acadêmica, professores e alunos da rede pública. O objetivo afirmado por esta proposta curricular é o de contribuir para aumentar o diálogo entre professor e escola sobre a prática docente. (BRASIL, 2006) Esse documento faz algumas críticas à reforma colocada em prática no Ensino Médio do país, desde a implantação das Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (DCNEM), passando pela proposição dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Já no texto de apresentação da sua versão preliminar, essa abordagem aparece: No entanto, é necessário considerar que tal proposta [PCNEM] não se concretizou com a sua implementação por não ter conseguido, nas diferentes instâncias do Ensino Médio, aprofundar análise consistente que permitisse esclarecer e orientar as escolas, bem como, promover o estudo do documento e discutir as possibilidades didático-pedagógicas, por ela apresentadas, junto ao professor na execução da sua prática docente. (BRASIL, 2004, p.6) As OCNEM trazem ainda, como críticas mais recorrentes às DCNEM e aos PCNEM o fato desses considerarem que todos os problemas educacionais podem ser resolvidos com uma reforma curricular; o currículo ser tratado como um instrumento de controle e estar submetido aos princípios de mercado; a ênfase dada às competências e habilidades visando a obtenção de metas e resultados, aliada à escassez de referências que auxiliem na orientação para aquisição dessas competências e habilidades (Brasil, 2004). Essas questões que são focos de críticas, principalmente com relação à ênfase Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 717 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio dada às competências e habilidades, são marcas presentes no texto do documento, assim como na fala de um dos entrevistados: [...] as Diretrizes Curriculares Nacionais do Ensino Médio, [...] tem uma parte profundamente equivocada quando as diretrizes falam que os conteúdos, são só pretextos para o desenvolvimento de habilidades, que as habilidades é que são importantes. Então essa desvalorização dos conteúdos, das disciplinas, isso é um tom presente nas DCNs e que acabaram também obtendo um título de repercursão nos PCNs. [...] Os PCNs, eles de certa forma, eles trazem uma repercussão do que as diretrizes diziam. Apesar de não serem diretamente um conseqüência do outro, mas de certa maneira, os PCNs ganharam um tom oficioso. [...] o meu principal problema com os Parâmetros Curriculares, tem a ver com o alinhamento que eles têm com as Diretrizes Curriculares Nacionais pro Ensino Médio. [...] que fala, que os conteúdos, eles não são fins em si mesmos, mas apenas meios, eles usam a expressão “constituir competências cognitivas ou sociais”. E termina a frase dizendo que essas competências são prioritárias sobre as informações, sobre os conteúdos curriculares. [...] isso é que é importante e pra isso os conteúdos são um mero instrumento, né? Eles em si não são importantes. Com isso que, inclusive, o ENEM, que foi criado na mesma época, tinha a intenção de ser um exame sem conteúdo [...]. (E1, entrevista, 2009) Com relação ao documento disciplinar de Biologia dessa proposta curricular, é possível fazer algumas considerações. Sua versão preliminar apresenta brevemente um histórico das Ciências Biológicas no Brasil, seguido de um panorama do desempenho escolar no país e da trajetória dos PCNEm. Na seção referente aos PCNEm, é enfatizado a aproximação desses com os princípios da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN, Lei 9394/96) e das DCNEM. Especificamente relacionado a área de Biologia, esse documento traz críticas aos Parâmetros, na medida em que questiona a abordagem que essa proposta faz com relação aos conteúdos biológicos: O aspecto mais questionável da parte referente aos conhecimentos de Biologia se refere às aplicações tecnológicas. Como dito, o ponto alto dos PCNEM, que encontra respaldo inclusive na própria LDBEN, acena para a ampliação do que se entende tradicionalmente por conteúdo a ser trabalhado no Ensino Médio, para além dos conhecimentos conceituais abstratos. As aplicações tecnológicas da Biologia, que consubstanciariam a relação teoria-prática, foram reduzidas a frases que conjugam dificuldade de expressar uma mensagem Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 718 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio com afirmações que não são nem mesmo reconhecidas pela ciência. [...] O texto sobre Conhecimentos de Biologia nos PCNEM tenta apresentar sugestões para uma abordagem que relacione teoria e prática. [...] No entanto, o texto enveredou por um caminho de frases feitas no qual os professores de Biologia podem encontrar pouca ou nenhuma contribuição para zelar pela aprendizagem de seus alunos. (BIZZO, 2004, p.166) Embora seja possível perceber muitas críticas com relação ao documento de Biologia dos PCNEm, o mesmo não acontece com relação ao documento das Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+ Ensino Médio). O documento de Biologia das OCNEM se mostra bastante satisfeito com relação à abordagem presente nos PCN+, enfatizando o diálogo que este buscou traçar com os professores. Fica explícita a satisfação com o fato dos PCN+ constituírem-se em uma espécie de manual metodológico, no qual os professores podem encontrar subsídios para organizar suas aulas. Assim, o documento de Biologia das OCNEM, já em sua versão preliminar, mostra-se próximo da proposta presente nos PCN+, ou seja, buscam, diferentemente dos PCNEm, direcionar a prática docente, apresentando propostas aos professores de como abordar e trabalhar os principais temas biológicos. Essas propostas são descritas na sessão Metodologia, onde é possível encontrar estratégias para abordagem dos temas: experimentação, estudos do meio, desenvolvimento de projetos, jogos, seminários, debates e simulação (BRASIL, 2006, p. 25-32). Essas estratégias já estão presentes no documento de Biologia dos PCN+ e são apropriadas pelas OCNEM. A valorização dessa abordagem do “como fazer” privilegiada nos PCN+ e reiterada nas OCNEM confere um tom mais propositivo a essas propostas curriculares, pois por mais que elas não estabeleçam uma lista de conteúdos que devem ser ensinados, deixam para o professor uma gama de estratégias para trabalhar os eixos temas da Biologia em sala de aula. No que tange ao processo de elaboração dessa versão preliminar das OCNEM, é possível perceber algumas particularidades. Sob a perspectiva do próprio documento, a necessidade de pensar em uma nova proposta curricular para o Ensino Médio, partiu de demandas expressas em encontros e debates com as Secretarias Estaduais de Educação, que reivindicavam retomar uma discussão dos PCNEm, buscando esclarecer determinados pontos que se mostraram falhos, desenvolver e apontar alternativas Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 719 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio didático-pedagógicas que fossem capazes de atender às necessidades e expectativas dos professores e das escolas. A partir dessas reflexões: (...) constituiu-se um grupo de trabalho multidisciplinar com professores que atuam em linhas de pesquisa voltadas para o ensino, objetivando traçar um documento preliminar que suscitasse o debate sobre conteúdos de ensino médio e procedimentos didático-pedagógicos, contemplando as especificidades de cada disciplina do currículo. (BRASIL, 2006, p.8) Pela análise das entrevistas, é possível perceber que professores foram contactados, sob a vigência de um prazo curto, para serem os autores dos documentos de suas respectivas disciplinas e isso fez do documento um conjunto de textos elaborados de forma independente. Esse foi um ponto que pesou contra as OCNEM, segundo um dos entrevistados. Isso porque, segundo ele, os PCNEm foram elaborados sob encomenda do Ministério da Educação, que selecionou as pessoas que participaram da escrita do documento e forneceu todas as diretrizes para este processo, desde a abordagem que o documento deveria ter, até o tom e direção que a escrita deveria seguir. Já no caso das OCNEM, o processo foi bem diferente; entidades e sociedades de destaque em cada área foram contactadas e indicaram um nome que seria responsável por escrever o documento disciplinar. Esse caráter de consulta à sociedade deve-se à busca, por parte do Ministério, que o documento não fosse encarado como algo que veio “de cima para baixo”. No entanto, segundo um dos entrevistados, consultar as sociedades e demais entidades científicas das diversas áreas, não garante que os professores que atuam em sala de aula se reconheçam como co-autores do texto. Podemos reforçar essa perspectiva se considerarmos que muitas dessas sociedades científicas são compostas por pesquisadores que atuam em nível universitário e onde professores da Educação Básica têm pouco espaço. Muitas vezes, é possível ver que sentidos da prática são expressos nos documentos curriculares. No entanto, isso não é garantia de que os professores que estão em sala de aula, ou seja, os representantes do contexto da prática se vejam representados nessas propostas. No caso do processo para a elaboração da versão final das OCNEM, foi enfatizada a participação dos professores da educação básica através dos seminários regionais. Nesses seminários, os professores Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 720 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio tiveram acesso à versão preliminar do documento e puderam opinar. E suas opiniões foram aceitas pelos elaboradores? Isso foi afirmado nas entrevistas? Esses documentos disciplinares constituíram-se em capítulos, que representavam a opinião de seus autores. Ao final, todos os documentos foram agrupados e formaram a versão preliminar das Orientações Curriculares. Essa diferença no processo de constituição de ambos os documentos teve repercussões na divulgação deles, como bem representa a fala de um dos entrevistados: Então você veja: um livro onde os capítulos pertencem a, refletem a opinião de seus autores, é diferente de um documento como aqueles dos PCN, que além de tudo teve CD, teve versão não sei o quê, versão internet, versão isso, versão aquilo. Eles inundaram o país com aquilo, né, enquanto que as orientações curriculares foi uma tiragem que não sei exatamente de que tamanho foi, mas que foi muito mais modesta, né? (E1, entrevista, 2009) A análise dos documentos somada a análise das entrevistas nos permitiu identificar que as duas versões do documento de Biologia das OCNEM – a versão preliminar e a versão final – foram dois processos distintos. A versão preliminar é um documento assinado exclusivamente por uma pessoa e foi elaborado segundo orientações mais propositivas, como, por exemplo, a necessidade de abordar as bases legais da política curricular. Essa versão preliminar serviu como base para os encontros regionais, do qual participaram, como dito anteriormente, desde técnicos do governo até professores da educação básica. Nesses encontros, havia relatores que produziam uma síntese das posições levantadas que, em seguida, foi levada a uma equipe que ficou responsável por fazer uma composição desses relatórios. Desse processo, um novo documento foi gerado e esse novo documento foi enviado a leitores críticos (pesquisadores e professores atuantes na disciplina Biologia) que deveriam apenas dar uma opinião crítica a respeito da parte de conteúdo presente no documento. A versão final do documento de Biologia é marcada, em sua introdução, por críticas às DCNEM – com relação ao distanciamento entre essa proposta e o ensino praticado nas escolas - e aos PCNEm – enfatizando que, embora o documento de Biologia dessa proposta traga orientações gerais sobre a prática didática, há uma escassez de sugestões e propostas direcionadas ao professor a respeito do “como fazer”. Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 721 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio A seguir, o documento traz alguns desafios relacionados ao ensino de Biologia e fala da necessidade de pautá-lo na alfabetização científica na busca por vencer esses desafios contemporâneos. Ressalta ainda que os PCN+ serviram de base para sua elaboração e que, o presente documento, a despeito de apresentar diversas orientações, não pretende “ser um manual de procedimentos ou um protocolo de atividades”, mas sim uma forma de dialogar com o professor de Biologia (BRASIL, 2006, p.19). Na seção de conteúdos e metodologia, o documento de Biologia das OCNEM estrutura-se com base nos PCN+, tanto no que diz respeito aos temas estruturadores propostos nesse documento, quanto nas estratégias que o professor dispõe para atuar como um mediador entre o conteúdo e o aluno. Geralmente, a prática é entendida como um espaço de implementação de propostas curriculares ditas oficiais, que são vistas como produções do poder central que, no caso do documento em questão neste trabalho, seria o governo Federal. Nessa visão, as escolas seriam questionadas quanto ao fato de não seguirem as prescrições do documento curricular, enquanto os professores e demais educadores acusam o governo de produzir propostas que as escolas não são capazes de implantar, por diversos motivos. Entretanto, não concordamos com essa visão. Em nosso entendimento, não fazemos distinção entre proposta e prática, entre produção e implementação. Questionamos a interpretação das políticas curriculares como produtoras de homogeneidade. Um outro ponto que merece destaque é a insatisfação com o panorama do ensino médio no Brasil, expressa tanto no documento curricular quanto nas entrevistas. Essa insatisfação tem relação com as proposições das diretrizes curriculares em vigência no país, que não consideram as dificuldades que os professores têm em conseguir aplicar as orientações que lhe são propostas, seja por que eles não dispõem de uma estrutura (como por exemplo, carga horária para reunir professores de diferentes disciplinas visando uma articulação em um projeto interdisciplinar), seja por que não tiveram uma formação científica e pedagógica no seu curso de Licenciatura voltada a atuar sob certos princípios, como interdisciplinaridade e contextualização: Nós reclamamos dos PCN. Quando sai uma proposta inicial em que você tira o foco da disciplina em si, do conteúdo em si e passa o foco pra formação do indivíduo, sem entrar em nada, o caos que se formou pros professores, que ficam totalmente Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 722 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio perdidos, né? Porque o que ele faz é reproduzir o que ele aprendeu, na verdade, com pequenas modificações, e criar coisas novas é difícil. (E2, entrevista, 2009) [...] essa história de querer medir competências já passou do tempo (...) que a gente precisava, a partir de uma nova base legal, instituir diretrizes que fossem compreendidas pelos professores, porque a única forma de resolver o problema da educação no Brasil é com os professores do Brasil. Então se você fala que eles têm que atender à estética da sensibilidade, à política da igualdade, à ética da identidade e o professor te diz “eu não entendo o que que é isso”, ora, isso é péssimo para a educação dos meninos, né? Porque os professores não tão entendendo o que tá escrito no documento. [...] Enfim, e nós temos aí resultados catastróficos em relação ao Ensino Médio, né. (E1, entrevista, 2009) Na próxima seção, apresentamos as considerações finais obtidas através das análises do documento e das entrevistas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise realizada no escopo deste trabalho nos permite defender que apesar de documentos voltados ao currículo do ensino Médio serem elaborados sob a ótica de uma mesma política, ou seja, seguindo orientações e princípios semelhantes, como por exemplo a questão da interdisciplinaridade e da contextualização, são marcados por grandes diferenças. É possível perceber que o documento em foco neste trabalho – as OCNEM - apresenta muitas críticas em relação ao documento elaborado anteriormente para esse mesmo nível de ensino – os PCNEM. Essas críticas, possivelmente, são frutos de tensões e embates existentes dentro da comunidade educacional, de forma geral, e da comunidade disciplinar, no caso específico da Biologia. Os PCNs assumiram um papel de destaque na reforma do governo FHC que, junto às diretrizes curriculares, defenderam princípios gerais, como competências, interdisciplinaridade, contextualização, dentre outros. No atual governo, buscou-se conceber outra proposta curricular para a construção de novos sentidos para a política, mas sem desconsiderar a existência dos parâmetros como uma proposta de referência. E é por isso que percebemos continuidades de uma proposta a outra, mas que não se aplica ao documento como um todo. Como supramencionado, há semelhanças, mas há grandes diferenças, na medida em que outros princípios, como a valorização do caráter Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 723 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio metodológico, mas voltado à prática docente, ganham “espaço para produzir novos sentidos para as políticas curriculares, valorizando o currículo como espaço da pluralidade de saberes, de valores e de racionalidades” (LOPES, 2004a, p.116). Nas entrevistas, muitas críticas foram feitas em relação aos documentos anteriores, assim como em relação à própria política curricular em vigência para esse nível de ensino. A insatisfação dos professores/pesquisadores em relação à organização curricular proposta para o Ensino Médio é perceptível nas falas dos entrevistados. Um ponto enfatizado é a necessidade de rever as próprias Diretrizes Curriculares para o Ensino Médio, visto que esse é um documento legal na qual as propostas curriculares buscam se embasar. Segundo Lopes (2004a), há uma continuidade das políticas entre o governo anterior e o atual devido à, dentre outros fatores, falta de mudanças nas diretrizes curriculares e ao fato dos parâmetros permanecerem sendo as referências curriculares para muitas ações do Ministério da Educação. A autora levanta a hipótese de que muito do que foi construído nas políticas curriculares do governo anterior não é modificado porque o MEC se mantém influenciado, do ponto de vista curricular, pela mesma comunidade epistêmica, mantendo muitas das concepções sobre educação do governo anterior no atual governo. Como já mencionado acima, isso se faz presente na fala dos entrevistados, que afirmam que a situação do ensino médio do país não vai ser passível de melhorias enquanto novas propostas curriculares continuarem sendo orientadas por políticas antigas e que precisam ser revistas, do ponto de vista dos princípios que consideram norteadores de um ensino médio de qualidade. Apoiados nos estudos de Ball (1994, 1998, 2001), é possível compreender que as políticas curriculares são processos de negociação complexos, nos quais estão associados a produção dos dispositivos legais, dos documentos curriculares e a prática dos professores. Os textos produzidos nesses contextos são tentativas de representação das políticas, de projeção de sentidos. Entretanto, esses textos não são fechados nem têm sentidos fixos e claros. Eles são passíveis de sofrer processos de reinterpretações e ressignificações em sua circularidade pelos diversos contextos da esfera educacional. No caso do ensino de Biologia, nossas análises nos permitem perceber que há processos de tensão na produção desses textos, na medida em que há grupos favoráveis a apresentar uma proposta curricular para o ensino dessa disciplina, do ponto de vista Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 724 A Comunidade Disciplinar de Ensino de Biologia e a Produção de Políticas Curriculares para o Ensino Médio mais propositivo, enquanto outros não defendem a necessidade de apresentar propostas curriculares prescritivas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANTONIADES, A. Epistemic communities, epistemes and the construction of (world) politics. 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(45-75) Flávia de Mattos Giovannini Busnardo 725 IV COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES “DIFERENÇA NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO” O ENSINO DA FÍSICA ASSOCIADO AOS DISPOSITIVOS MÓVEIS Kalina Lígia de Sousa Albuquerque JOÃO PESSOA - PB - BRASIL 10 A 13 DE NOVEMBRO DE 2009 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis O ENSINO DA FÍSICA ASSOCIADO AOS DISPOSITIVOS MÓVEIS1 Kalina Lígia de Sousa Albuquerque2 RESUMO: Nesta pesquisa procuramos aproximar a Física, apresentada dentro da sala de aula, ao cotidiano do aluno. Para isto usamos os dispositivos móveis aliados aos jogos para estudar as Leis da Termodinâmica. Foi usada a teoria de Ausubel como referencial teórico e analisamos quais a implicações do jogo com o ensino e a aprendizagem das Leis da Termodinâmica dentro e fora de sala de aula. PALAVRAS-CHAVE: games, aprendizagem significativa. dispositivos móveis, leis da termodinâmica, ABSTRACT This research tried to bring the Physics presented within the classroom to the daily student's life. For this we use mobile devices and games to study the Laws of Thermodynamics. We used the theoretical reference from Ausubel to analyze what the implications of this game with the teaching and learning of the Laws of Thermodynamics inside and outside the classroom. KEYWORDS: games, mobile devices, thermodynamics laws, significant learning. 1. Introdução No nosso cotidiano e nas escolas de Ensino Médio é comum nos depararmos com professores de Física enfrentando grandes dificuldades em construir o conhecimento junto aos seus alunos de maneira contextualizada. Em minha prática, por exemplo, acredito que o maior problema é que o aluno não vê relação entre os conteúdos abordados e o cotidiano dele. Vemos que no mercado existem materiais didáticos, em geral, distantes dessa realidade, que dão apenas pequenos exemplos, como os livros para 1 Este trabalho é parte de nossa dissertação de mestrado orientada pelo profa. Dra. Filomena Ma. G. da Silva Cordeiro Moita – Mestrado Profissional em Ensino de Ciências e Matemática – UEPB. 2 [email protected]; Universidade Estadual da Paraíba, CCT, Campina Grande-PB. Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 729 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis ensino médio de volume único “Física fundamental - Novo” e “Física”, cujos autores são respectivamente “Bonjorno & Clinton” e “Paraná”. Mesmo diante dessas dificuldades, poucos professores de Física têm consciência da necessidade de trazer exemplos e conteúdos relacionados ao dia-a-dia do aluno para dentro da sala de aula e, ao que parece, um número ainda menor pensa em modificar esse quadro. Em nosso dia a dia, observamos que são cobradas a nós, educadores, a responsabilidade em formar cidadãos com uma visão geral da realidade, onde o que se aprende em sala de aula é aplicado em situações reais do seu dia-a-dia. Na prática vemos que isso não acontece, pois o modelo atual de ensino segue, na maioria da vezes, em algumas escolas, ainda o modelo tradicional de aulas, onde o aluno recebe passivamente o conteúdo e não interage com esse novo conhecimento, nem muito menos vê aplicação em seu cotidiano. Além do mais, existe também a falta de infra-estrutura de algumas escolas que ao menos têm um laboratório de informática, realidade de muitas escolas da rede de ensino brasileira sendo pública ou privada e que contempla a escola onde trabalhamos e executamos esta pesquisa. Não dispõe de laboratório para experiências e nem de informática, o que não nos impede de realizar quando necessário, alguma experiência de Física para motivar o aluno a aprender e a apreender os conceitos da Física, pois aí vemos que se aprende compreendendo. Sabemos também, que ainda existe a cultura da nota e da promoção de ano desmotivando o aprendizado que logo leva ao esquecimento. No estudo da Termodinâmica, por exemplo, o aluno confunde conceitos de calor, temperatura, calor sensível, calor latente, isso porque geralmente faz-se confusão entre a Física e a linguagem matemática que ela utiliza. Entretanto, alguns pesquisadores acreditam que apenas após a compreensão dos conceitos é que se deveria recorrer à Matemática para quantificação e dimensionamento dos fenômenos. O professor em sala, muitas vezes, precisa explicar como ocorrem os fenômenos naturais. Para isto, ele pode ter apoio de um laboratório real (material de baixo custo) ou virtual (um sistema inteligente). O uso de animações permite ao professor simular situações cotidianas, ou experimentos, impossíveis de serem reproduzidas no ambiente de sala de aula. Elas servem como um modelo para auxiliar os alunos a visualizarem e entenderem fenômenos físicos, pois estão interagindo com eles. Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 730 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis Inclusive alguns pesquisadores em Ensino de Física defendem o uso de animações por computadores, quando afirmam que estas deveriam vir em CD-ROM nos livrostexto, o que atualmente vem sendo uma prática comum das editoras. Os jogos por sua vez motivam e chamam a atenção do aluno para aprender. Pois no jogo ele segue regras e é desafiado. A cada desafio os alunos têm possibilidade de simular, vivenciar, acertar e errar, errar e acertar quantas vezes desejar até chegar ao conhecimento desejado. Essa aprendizagem resultante de vivência lúdica, ativa e crítica transforma-se na construção de conhecimento. MOITA (2007) afirma que: “o jogo cria uma predisposição para se aprender, pois cria situações de desafio, ao mesmo tempo em que liberta, enquanto normatiza, organiza e integra. Posso então afirmar que o jogo, enquanto atividade lúdica é educativo, pois além do interesse, oferece condições de observação, associação, escolha, julgamento, emissão de impressões, classificação, estabelecimento de relações, autonomia.” Por tudo o que foi ressaltado em nossa pesquisa decidimos por algo que venha unir aprendizagem significativa e ludicidade, pois acreditamos que a partir daí surgirá interesse e disposição dos alunos em aprender. Para tanto, neste estudo, estamos fundamentando teoricamente nosso pressuposto na teoria Ausubeliana. 2. Teorias da aprendizagem Na intenção de sanar essas dificuldades, muitas pesquisas apontam metodologias com base nas teorias da aprendizagem, para entender como se dá a aprendizagem do aluno e qual a melhor forma dele aprender. As principais correntes teóricas são: a comportamentalista, a humanista e a cognitivista. Assim sendo, em nossa pesquisa demos ênfase ao construtivismo, pois acreditamos que esta teoria desempenha um papel relevante nos dias atuais. Dentro da corrente cognitivista, podemos destacar a teoria de Ausubel. Ela se baseia no conhecimento prévio do aluno anterior à data em que ocorre o ensino. Sua teoria é construtivista e é de grande importância o papel da interação professor-aluno, Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 731 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis pois a partir dos subsunçores que o aluno possui ele constrói novos subsunçores ou modifica os velhos, construindo assim o conhecimento novo, incorporando-o a sua estrutura cognitiva. A este processo dá-se o nome de aprendizagem significativa. A aprendizagem é dinâmica, pois ela é uma interação entre aluno e professor. Contudo, para conseguir a aprendizagem significativa é primordial que o aluno tenha disposição para aprender e que o material de ensino seja potencialmente significativo. Nessa perspectiva este texto tem como objetivo inserir a computação móvel como aliada no processo de aprendizagem. Uma vez que a cada dia os celulares têm se tornado mais populares devido à praticidade e até mesmo o custo que tem diminuído. Apresentamos a seguir trabalhos relacionados com nosso estudo. 3. O aprender a aprender Física - Trabalhos relacionados Os alunos geralmente têm dificuldade em aprender Física, pois dizem não ver relação desta ciência com seu cotidiano. E fazendo assim, eles colocam sem querer um obstáculo na compreensão de tal matéria. Dando abertura para que surjam alguns mitos tais como: as ciências naturais são feitas somente para os gênios ou loucos. No entanto, cabe ao professor desmistificar tal fato. Muitas pesquisas têm sido feitas para solucionar tal problema. ANDRADE e MAIA (2008) afirmam: muitas vezes, a escola deixa a impressão de que todo o conhecimento por ela transmitido não serve para ser aplicado no cotidiano, ou pertence a uma realidade totalmente diferente a das pessoas que fazem parte da comunidade. ESPÍNDOLA (2008) acredita que o professor de Física do Ensino médio deve sugerir aos seus alunos atividades inovadoras que podem ser desenvolvidas tanto na escola como em outros ambientes. Em nossa pesquisa escolhemos o conteúdo de Termodinâmica, pois observamos em nossa prática que os alunos têm um pouco de dificuldade de associá-la ao seu cotidiano. Sendo assim, as definições e conceitos deveriam ser trabalhados com muita cautela. Mas isso implica em se dedicar mais tempo em sala de aula a esta área da Física. Porém sabemos que isto não é possível, pois existem outros conteúdos a serem Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 732 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis estudados. Desta forma, o conteúdo é visto de forma corrida, ficando brechas na aprendizagem. GONÇALVES (2005) já disse: “Tipicamente o período dedicado à Física Térmica no nível médio é de cerca de 16 horas-aula à 36 horas-aula [...] Para tratar assunto de tamanha importância em tão exíguo prazo, é indispensável que a seleção dos tópicos a serem abordados, bem como a sua profundidade, seja feita com muito cuidado, para evitar, como é muito comum, que grande parte do tempo seja gasto em discutir escalas termométricas e calorimetria, enquanto tópicos fundamentais, como energia interna, leis da termodinâmica e aplicações, como motores, sejam ignorados.” Ele também acredita que outra dificuldade enfrentada pelos estudantes na aprendizagem da Física Térmica é que existem poucos experimentos realizáveis nos laboratórios ou demonstráveis. FIOLHAIS e TRINDADE (2003) dizem que quando isso acontece faz-se necessário o uso de simulações e animações para facilitar a interpretação de fenômenos térmicos de difícil compreensão. Como também na abordagem de experiências difíceis ou impossíveis de realizar na prática, por serem muito perigosas, lentas ou muito rápidas. Vemos assim que o uso das tecnologias é de grande importância nesses casos uma vez que é preciso recorrer a um laboratório virtual, para facilitar a aprendizagem. Isto já foi observado por alguns autores, inclusive PIRES (2005) em sua dissertação de mestrado, cita algumas experiências com o uso de Tecnologias de Informação e Comunicação no ensino de Física, como o Laboratório Didático Virtual que é uma iniciativa da Escola do Futuro e do Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada do Instituto de Física (CEPA), ambos da USP. Que tem como objetivo principal construir uma infraestrutura pedagógica e tecnológica que facilite o desenvolvimento de projetos de Física nas escolas. PIRES (2005) também cita o Laboratório Virtual que apresenta animações e jogos interativos produzidos pelo Núcleo de Criação da Estação Ciência e tem como objetivo divulgar a ciência de forma fácil e lúdica na Internet. Os trabalhos vão desde simples animações não interativas, passando por animações interativas, simulações, até jogos. Há também o Prof. Dr. Romero Tavares da Silva da UFPB que disponibiliza em sua página vários materiais didáticos que são possíveis baixar pela internet. Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 733 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis Diante de todos estes exemplos observamos que nenhum deles envolve a utilização de dispositivos móveis. Alguns autores como PAES e MOREIRA (2007) defendem o uso destas tecnologias quando afirmam que: “A crescente necessidade de formação ao longo da vida, associado à falta de tempo para as deslocações à ‘escola’ leva a uma procura de soluções alternativas. Assim, a evolução dos dispositivos móveis, quer em termos de hardware, quer na maior quantidade e variedade de aplicações, e a crescente utilização destes dispositivos, tornam-nos uma potencial ferramenta para resolver o problema da formação, dado que se baseiam na filosofia anytime, anywhere.” Com a enxurrada de informações a qual estamos sujeitos todos os dias e com a tecnologia evoluindo a todo o momento, parece que o que nos resta e sermos suficientemente inteligentes para usá-la em nosso benefício. Com o saber e as tecnologias, estamos de acordo com Michel Serres "condenados a nos tornar inventivos, inteligentes, transparentes". Para o filósofo francês resta-nos a inventividade e isso leva a uma mudança na forma de ensinar e aprender o trabalho para as novas gerações é um trabalho intelectual que tem que ser inteligente e não repetitivo como o foi até agora (SERRES, 2007). Ou seja, diante da correria que vivemos nos dias atuais, onde não há tempo a perder, por que não desfrutar destes aparatos tecnológicos para aprender a qualquer hora e em qualquer lugar? 4. A Física e os Dispositivos móveis As tecnologias estão por toda parte, sejam elas “novas” ou “velhas”. A cada dia que passa são desenvolvidos novos dispositivos para auxiliar a vida do homem e essa interação proporciona possibilidades de conhecimento, pois dá acesso à troca de informações com a máquina. As novas tecnologias da comunicação e informação (NTIC), [...], conectam diferentes espaços e permitem que as relações entre as informações sejam feitas considerando diferentes possibilidades. Isto nos faz retornar ao homem, buscando compreender melhor o seu desenvolvimento (seu complexo processo de aprendizagem, a interação e comunicação humana), que o possibilita apropriar-se de novas realidades reais e virtuais, transformando o seu meio. Relações antes não estabelecidas agora são Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 734 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis possíveis porque as pessoas interagem, tecendo uma complexa rede de possibilidades. (VALENTINE 2001) Sendo assim, não podemos ignorar o fato das tecnologias serem um recurso interessante e que deve ser aproveitado na educação. Uma vez que seu acesso tem sido comum em toda parte. Pois vemos que em cada esquina há lan house para quem não tem computador em casa ou na escola, inclusive, escolas estaduais já dispõem de laboratórios de informática. Então vemos que estamos numa realidade diferente de alguns anos atrás, e dessa forma temos que nos atualizar, e modificar nossa prática de ensino. Uma vez que já é constatado que tanto alunos como professores reagem diferente quando é utilizado tais recursos: LAWISNCKY (2008) já afirma em seu artigo que o avanço tecnológico possibilitou uma nova realidade educacional: o ensino mediado por computador. Pois a inserção do computador na educação provoca uma mudança de comportamento dos participantes do processo ensino - aprendizagem. É notável que a quantidade de informação disponível e acessível aos alunos e professores aumentou incrivelmente. Em paralelo, surge a possibilidade de contato entre os participantes através da internet. Ao mesmo tempo, o acesso ao material didático é quase instantâneo. A sala de aula perde gradativamente suas fronteiras de tempo e espaço. Pensando nisto, juntamos o incentivo que as tecnologias trazem e a motivação que os alunos têm em jogar para tentar solucionar a dificuldade na aprendizagem dos alunos. Para isso, desenvolvemos um game com as leis da termodinâmica. Escolhemos esta parte da Física devido à dificuldade que os estudantes têm em entender determinados conceitos e também devido à falta de tempo em dar este conteúdo, pois devido ao grande número de assuntos que deve ser visto e à falta de tempo durante o ano, muitos conceitos são vistos rapidamente. Então pensamos em incluir neste processo algo que chamasse a atenção do aluno dentro e fora da sala de aula. Pois sabemos que atualmente a diversão eletrônica já está espalhada por vários lugares: lan houses, fliperama, inclusive inúmeras casas. Até que são levados através de videogames portáteis, inclusive em dispositivos móveis como os celulares. Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 735 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis Então por que não aproveitar a vontade e disposição que os jovens têm para jogos (com celular) para incentivá-los à aprender Física, em particular, no nosso caso, as leis da Termodinâmica? Sendo assim, é com base nisto, que nossa pesquisa se desenvolveu. Pois devido à mobilidade, à praticidade e à motivação que escolhemos criar um jogo como um objeto de aprendizagem, voltado para o ensino de Física, especificamente à Termodinâmica. 5. Metodologia de trabalho Para o desenvolvimento deste trabalho foram seguidas as seguintes etapas: 1ª etapa: Foi feito um levantamento de dissertações e artigos que abordassem nosso tema de estudo. E também das teorias da aprendizagem para fundamentação teórica. 2ª etapa: Em seguida, foi realizada uma pesquisa sobre a influência dos dipositivos móveis e jogos na educação. 3ª etapa: Iniciamos a montagem do jogo. Para isso selecionamos no conteúdo de Termodinâmica as suas 3 leis: Lei Zero, Primeira Lei e Segunda Lei. Montando assim nosso objeto de aprendizagem. Então o objeto de aprendizagem ficou dividido em três partes, definidas a seguir: 1ª Parte – Conceituação (Sobre) Nesta parte é apresentado os conceitos básicos sobre a Lei Zero, 1ª Lei e 2ª Lei da Termodinâmica, onde o aluno/jogador poderá ficar mais familiarizado com os conceitos. 2ª Parte – Demonstração/Simulação (Ajuda) Nesta parte é apresentado uma demonstração e/ou simulação dos conceitos discutidos na primeira parte, esta simulação será uma animação (provavelmente interativa). 3ª Parte – Exercício (Game) Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 736 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis Esta é a parte mais importante da aplicação, pois é nesta onde será exigido do alunos os conhecimentos adquiridos nas etapas anteriores, esta parte será apresentada em forma de um jogo para dispositivo móvel (Celular/Smartphone), o qual será apresentado e discutido com mais detalhes a seguir. 4ª etapa: Levamos “Kelvin” (nosso game) para escola. A equipe que elabora o jogo (alunos do curso de Lic. em Computação pela UEPB: Maurílio Silva e Rodrigo Lins), a professora Filomena (orientadora desta pesquisa) e eu, visitamos o Instituto Evangélico Hatikva, escola situada na cidade de João Pessoa, na Paraíba, para apresentar o layout do jogo para os alunos. O objetivo desta visita foi coletar sugestões ou até mesmo críticas. Como nosso encontro foi num horário que não era o de aula, não tivemos a presença de todos. Contamos com a participação voluntária de 58,3% da turma (7 alunos). Todos do sexo masculino, com idades entre 15 e 18 anos. Apresentamos os cenários do jogo, o enredo e os personagens. (Figuras 1 e 2) Observamos que houve uma ótima aceitação, tendo em vista que um deles afirmou que “jogar é diversão, então nos divertindo teremos interesse em aprender”. Houve também sujestões do tipo: “acho que o personagem poderia ser mais sério”. Registramos este primeiro encontro com fotos (ver foto 1) e a anotação das opniões. Também trocamos e-mails, para que depois deste encontro, se eles tivessem o desejo de falar mais alguma coisa, entraríamos em contato para uma provável mudança no jogo. Sendo assim, concluímos que os alunos ficaram muito ansiosos e entusiasmados para ver o jogo pronto. 6. O jogo: A Aventura de Kelvin3 6.1 Gameplay: relação do game com a Termodinâmica 3 William Thomson mais tarde Lorde Kelvin, viveu no final do século XIX, foi um dos cientistas que dedicou sua vida aos estudos da Física, superou os limites de um campo de trabalho até então muito estrito e estendeu seu talento à invenção e à tecnologia. Sendo as propriedades do calor um dos seus temas preferidos. Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 737 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis O principal objetivo do jogo é fazer com que o jogador consiga aplicar os conceitos da Termodinâmica para solucionar os quebra-cabeças (desafios) propostos e prosseguir no jogo. Para isso, o jogador vai precisar está por dentro das Leis da Termodinâmica. O personagem principal é um garoto, o Kelvin, que se vê preso em um universo cheio de mistérios que precisam ser resolvidos. O jogo será dividido em duas partes, sendo cada uma destas tratando de uma das Leis da Termodinâmica, a Lei Zero e a 1ª Lei. O personagem deverá percorrer diversos ambientes, resolvendo os problemas e enfrentando os desafios até concluir todas as etapas do jogo. No momento temos quatro cenas: a primeira onde Kelvin está no jardim do castelo; a segunda ele está nos portões do castelo; e as outras duas ele está dentro do castelo, pois é quando ele consegue salvar seu cachorro de nome Stuart. 6.2 Aspectos estéticos do jogo 6.2.1 Desafio e Esforço Cada cena do jogo representa um desafio, devendo o jogador resolver-los para poder seguir adiante. 6.2.2 Conhecimento e Aprendizagem Cada conjunto de cenas traz um conceito/lei da Termodinâmica, assim, ao concluir a cena, espera-se que o jogador tenha assimilado tal conceito/conhecimento. 6.3 Dinâmica do jogo 6.3.1 Início Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 738 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis Ao inicio do jogo, será apresentando o universo onde se passa o game, assim como seu personagem e objetivos a serem alcançados. 6.3.2 Game Over O game over ocorre quando o jogador utilizar todos os seus recursos (água, fogo e gelo) e não conseguir resolver o problema/quebra-cabeças proposto. 6.3.3 Painel de Pontuação O painel de pontuação será gerado pelas melhores pontuações do jogador, baseado no tempo necessário para a conclusão de cada cena e itens utilizados. Este painel seria o responsável por determinar o nível de aprendizado do aluno, dando rankings baseado em notas, tais como: A, B, C etc. 6.3.4 Estrutura do Game Ao todo o game será composto por dois conjuntos de cenas4, totalizando (inicialmente) oito cenas. Ainda está em construção, pretendemos estar com ele todo pronto em novembro de 2009. 6.3.5 Modo de Jogo: único jogador (Single Player) O game flui dentro da linha de tempo composta por todas as cenas, na ordem em que são apresentadas neste documento. A cada cena que o jogador passa ele pode conferir seus pontos e possível posição nos rankings do game. Ao fim do game é apresentada uma tela parabenizando o jogador. 5. Conclusão Nossa pesquisa ainda está em andamento (investigação conjunta com o grupo TDAC), apresentaremos o produto final em novembro deste ano. Mas já pudemos concluir que os jogos aliados ao ensino de Física despertam curiosidade e entusiasmo, uma vez que o jogo, mas especificamente, o celular é proibido nas escolas. 4 Atualmente temos por enquanto 4 cenas, ou seja, um conjunto de cenas. Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 739 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis Portanto, acreditamos que games+dispositivos móveis, formam um importante aliado no ensino de Física, uma vez que foge do tradicional e desperta a motivação em aprender tal ciência. Agradecimentos Gostaríamos de agradecer ao grupo de pesquisa TDAC - Tecnologia Digital e Aquisição do Conhecimento, pelas trocas de saberes, orientações, apoio e especialmente pela programação com Maurílio da Silva e o game design com Hélio Meireles. Referências ANDRADE, C. R. e MAIA, M. S. Jr, 2008. [online] Ensino da Física e o cotidiano: a percepção do aluno de Licenciatura em Física da Universidade Federal de Sergipe. Scientia Plena 4 (4). Disponível em: http://www.scientiaplena.org.br/sp_v4_044401.pdf. [Acessado em 24 março 2009]. ESPÍNDOLA, A. C., 2008. O uso de projetos experimentais para o ensino e a aprendizagem de Física na escola média. 80 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Física) – Centro Universitário Franciscano, UNIFRA, Santa Maria, Rio Grande do Sul. FIOLHAIS, C. e TRINDADE, J., 2003. Física no computador como ferramenta no ensino e na aprendizagem das ciências físicas. Revista Brasileira de Ensino de Física. 25 (3), 259-272. GONÇALVES, L. J., 2005. Uso de animações visando a aprendizagem de Física Térmica no ensino médio. 97 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Física) – Instituto de Física, UFRGS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. LAWISNCKY, F. M., HAGUENAUER, C., CORDEIRO, F. e VINICIUS, M., 2009. [online] Interação em ambientes virtuais de aprendizagem: análise de uma experiência no curso de pós graduação em lingüística aplicada. Disponível em: Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 740 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis http://www.abed.org.br/congresso2008/tc/510200861738AM.pdf. [Acessado em 27 junho 2009]. MOITA, F., 2007. Game on: jogos eletrônicos na escola e na vida da geração @. Campinas: Editora Alínea. PAES, C. e MOREIRA, F., 2007. Aprendizagem com dispositivos móveis: aspectos técnicos e pedagógicos a serem considerados num sistema de educação. V Conferência Internacional de Tecnologias de Informação e Comunicação na Educação – Universidade do Minho, Largo do Paço, Braga. PIRES, M. A., 2005 Tecnologias de Informação e Comunicação como meio de ampliar e estimular o aprendizado de Física. 97 f. Dissertação (Mestrado em Ensino de Física) – Instituto de Física, UFRGS, Porto Alegre, Rio Grande do Sul. SERRES M. Les nouvelles technologies: révolution culturelle et cognitive (2007). Disponível em: http://interstices.info/m-serres-lille. [Acessado em 20 junho 2009]. VALENTINI, C. B., 2001. 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Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 741 O Ensino da Física Associado aos Dispositivos Móveis ANEXOS Kalina Lígia de Sousa Albuquerque 742 IV COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES “DIFERENÇA NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO” A UTILIZAÇÃO DO SOFTWARE EDUCATIVO DE SIMULAÇÃO E MODELAGEM COMPUTACIONAL NO ENSINO DE CIÊNCIAS E OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS Ruth Brito de Figueiredo Melo JOÃO PESSOA - PB - BRASIL 10 A 13 DE NOVEMBRO DE 2009 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais A UTILIZAÇÃO DO SOFTWARE EDUCATIVO DE SIMULAÇÃO E MODELAGEM COMPUTACIONAL NO ENSINO DE CIÊNCIAS E OS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS Ruth Brito de Figueiredo Melo1 RESUMO: Com o advento dos computadores, e conseqüentemente da evolução da tecnologia, a sociedade tem vivido constantemente os impactos desses avanços tecnológicos em seu cotidiano. Não podendo o ensino ficar alheio a essa realidade, de acordo com os parâmetros curriculares Nacionais para o ensino de ciências naturais, matemática e suas tecnologias, o professor tem papel de fundamental importância para promover a disseminação das novas tecnologias da informação e comunicação. Dentro desta perspectiva, como assim prevêem os PCN´S-EM (Parâmetros curriculares Nacionais para o Ensino Médio), esse artigo tem o papel de discutirmos a importância das TIC`S no Ensino de Ciências através da utilização do software educativo de simulação e modelagem computacional, de forma a enriquecer e dinamizar o processo de ensino-aprendizagem das ciências naturais em particular a Física, dentro de uma abordagem da aprendizagem significativa de Ausubel. PALAVRAS-CHAVE: Software Educativo de simulação e modelagem computacional, Ensino de Ciências, Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCN´SEM). 1. Introdução São conhecidas as dificuldades e os problemas que passam o sistema educacional, na atualidade, principalmente o Ensino de ciências no Brasil. Diversos grupos de estudiosos têm refletido sobre as causas e conseqüências destas dificuldades, que tanto discentes quanto docentes tem enfrentado nesse processo de ensinoaprendizagem das ciências naturais. 1 Mestranda em Ensino de Ciências e Educação Matemática pela UEPB. Professora da rede Estadual de Ensino da Paraíba. Ruth Brito de Figueiredo Melo 746 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais Dentro deste contexto, Araújo & Abib (2003), cita que as dificuldades e os problemas que afetam o sistema de ensino em geral e particularmente o ensino de Física não são recentes e têm sido diagnosticados há muitos anos, o qual tem levado a um grande número de pesquisas abordando as causas destes problemas. As dificuldades que os alunos enfrentam diante das ciências naturais particularmente da Física, em entender e assimilar os conteúdos e os fenômenos físicos se deve muitas vezes ao fato da utilização de métodos de ensino desajustados, falta de capacitação dos professores, descontextualização dos conteúdos ensinados à realidade cotidiana dos alunos, bem como da má ou da não utilização dos recursos didáticos disponíveis. Araújo & Abib (2003) relatam o importante papel da utilização da experimentação no Ensino de Física, sinalizando como uma das formas de minimizar as deficiências detectadas no processo Ensino- aprendizagem desta ciência. Mais como introduzirmos experimentação, bem como as novas tecnologias nas escolas públicas, se muitas vezes, as mesmas não dispõem de laboratórios e nem mesmo dos recursos tecnológicos necessários e disponíveis no mercado? Para Pereira (2000), fora da escola, professores e alunos, estão permanentemente em contato com tecnologias cada vez mais avançadas. Eles vivem e atuam nesta realidade como cidadãos participativos, mas não conseguem introduzir estas “novidades” dentro da escola, pois, necessitam cumprir conteúdos programáticos exigidos. Foi diante desta realidade de reconhecer o valor e a importância das tecnologias de informação e comunicação (TIC`s), que o presente artigo trata de um trabalho de pesquisa onde se investiga a utilização da simulação e da modelagem computacional como ferramenta auxiliativa para o professor em sala de aula, de forma a minimizar as dificuldades referentes ao ensino dessa ciência, sob uma perspectiva de aprendizagem significativa de Ausubel (2003). A população alvo desta pesquisa foi constituída de duas turmas do 3º ano do ensino médio, de uma escola pública da rede estadual de ensino em Campina Grande, PB. Feito um levantamento nas turmas supracitadas, observou-se a necessidade de investigar de que forma o software de simulação e modelagem computacional pode vir a contribuir no ensino de física. Ruth Brito de Figueiredo Melo 747 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais Tendo em vista que o conteúdo de eletricidade no ensino médio é tido pelos alunos como conteúdo de grande complexidade. O estudo irá focar o software Modellus (software educativo de simulação e modelagem computacional), através dos conteúdos de eletricidade em especifico a lei de ohm, observando a sua eficácia bem como a sua possível contribuição na construção do conhecimento de física, para os alunos do 3º ano do ensino médio, uma vez que os PCN´S (Parâmetros Curriculares Nacionais) prevêem a inserção das novas tecnologias no ensino das ciências naturais. 2. As Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC`S) e os PCN´S - Como são assim chamados, os Parâmetros curriculares nacionais (PCN´S) para o Ensino Médio, de ciências da natureza, matemática e suas tecnologias, trazem uma proposta no sentido de que seja produzido pelo o aluno um conhecimento efetivo, de significado próprio, não somente propedêutico, onde seja trabalhado a interdisciplinaridade bem como a contextualização. De acordo com (FILHO ET AL, 1998) através dos PCN´S – EM, uma série de competências humanas relacionadas a conhecimentos matemáticos e científicotecnológicos são desenvolvidas, para que haja uma visão do Ensino Médio de caráter amplo, de forma que os aspectos e conteúdos tecnológicos associados ao aprendizado científico e matemático sejam parte essencial da formação cidadã de sentido universal e não somente de sentido profissionalizante. Para (SCHUHMACHER ET AL, 2002), a evolução dos computadores nas últimas décadas, trouxeram mudanças significativas em diversas áreas, mostrando a imensa capacidade que os mesmos oferecem. Os computadores se encontram inseridos no desenvolvimento da Física nos últimos anos, independentemente da sua natureza teórica ou experimental, sendo claramente perceptível a sua imensa influência na resolução de grandes problemas. Este desenvolvimento tecnológico tem modificado profundamente o cotidiano das pessoas, e a escola não pode ficar alheia a essa realidade, ela precisa se adaptar e ensinar ao aluno como conviver com essas novas tecnologias (TIC`S) também dentro da escola, para que ele possa atuar como cidadão participante dentro e fora do contexto Ruth Brito de Figueiredo Melo 748 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais educacional, uma vez que os PCN´S-EM prevêem essa inserção das novas tecnologias no âmbito educacional. 3. Os PCN´S- EM (Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio) e o Ensino de Física - De acordo com os PCN´S -EM e citado por (FILHO ET AL, 1998), as Competências e habilidades a serem desenvolvidas em Física pelos alunos no Ensino Médio, estão divididas em quatro grandes grupos, as quais são elas: Representação e comunicação - Compreender enunciados que envolvam códigos e símbolos físicos. Compreender manuais de instalação e utilização de aparelhos. Utilizar e compreender tabelas, gráficos e relações matemáticas gráficas para a expressão do saber físico. Ser capaz de discriminar e traduzir as linguagens matemática e discursiva entre si. Expressar-se corretamente utilizando a linguagem física adequada e elementos de sua representação simbólica. Apresentar de forma clara e objetiva o conhecimento apreendido, através de tal linguagem. Conhecer fontes de informações e formas de obter informações relevantes, sabendo interpretar notícias científicas. Elaborar sínteses ou esquemas estruturados dos temas físicos trabalhados. Investigação e compreensão Desenvolver a capacidade de investigação física. Classificar, organizar, sistematizar. Identificar regularidades. Observar, estimar ordens de grandeza, compreender o conceito de medir, fazer hipóteses, testar. Conhecer e utilizar conceitos físicos. Relacionar grandezas, quantificar, identificar Parâmetros relevantes. Compreender e utilizar leis e teorias físicas. Ruth Brito de Figueiredo Melo 749 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais Compreender a Física presente no mundo vivencial e nos equipamentos e procedimentos tecnológicos. Descobrir o “como funciona” de aparelhos. Construir e investigar situações-problema, identificar a situação física, utilizar modelos físicos, generalizar de uma a outra situação, prever, avaliar, analisar previsões. Articular o conhecimento físico com conhecimentos de outras áreas do saber científico. Contextualização sócio-cultural Reconhecer a Física enquanto construção humana, aspectos de sua história e relações com o contexto cultural, social, político e econômico. Reconhecer o papel da Física no sistema produtivo, compreendendo a evolução dos meios tecnológicos e sua relação dinâmica com a evolução do conhecimento científico. Dimensionar a capacidade crescente do homem propiciada pela tecnologia. Estabelecer relações entre o conhecimento físico e outras formas de expressão da cultura humana. Ser capaz de emitir juízos de valor. Com base nestes pressupostos e diante destas competências e habilidades que os alunos precisam desenvolver no ensino de Física durante o ensino médio, observamos a necessidade de um processo de reformulação de valores, conceitos e de subsídios para o educar, pois mesmo sabendo que os PCN`s-EM (Parâmetros curriculares nacionais para o Ensino Médio) prevêem a introdução das novas tecnologias no ensino da Física, vivemos diante de uma realidade muito distante ainda. Quando falamos das escolas públicas, muitas delas não há os recursos mínimos necessários. E quando há a presença desses recursos, muitas vezes, os professores não conseguem aplicá-los quer seja por falta de capacitação e planejamento tanto por parte deles, como também por falta das escolas, em utilizar as novas tecnologias no processo educacional. Estudos recentes mostram que a utilização de novas tecnologias no ensino em geral, e em especifico no ensino da física, tem contribuído de forma significativa, para a compreensão por parte dos alunos dos conteúdos físicos. O uso das tecnologias de informação e comunicação (TIC`s), no espaço escolar faz resignificar o conceito de conhecimento, pois é através das ferramentas Ruth Brito de Figueiredo Melo 750 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais tecnológicas, e a partir de mediações atuantes que as potencialidades se afloram (SANTOS 2006). 4. Dificuldades no Ensino de física – A Física é uma disciplina de caráter experimental é que requer dos alunos um aprendizado dinâmico e não mecanicista, tradicionalista, muitas vezes tido como única forma do professor lecionar, utilizando-se apenas de métodos tradicionais de ensino e unicamente verbais. Para (FILHO ET AL, 1998), é essencial que o conhecimento físico seja explicitado como um processo histórico, objeto de contínua transformação e associado às outras formas de expressão e produção humanas, incluindo a compreensão do conjunto de equipamentos e procedimentos, técnicos ou tecnológicos, do cotidiano doméstico, social e profissional. Moreira (2002) nos indica que apesar do grande avanço da pesquisa acadêmica sobre o ensino de Física no Brasil, no sentido da compreensão dos problemas relativos ao ensino dessa ciência, e da existência de um sistema de divulgação, ainda há pouca aplicabilidade dos resultados destas pesquisas no âmbito educacional. Santos (2006) afirma que, as dificuldades que os alunos possuem na aprendizagem dos conceitos da Física são conhecidas, e os métodos tradicionais de ensino e a ausência de meios pedagógicos modernos e de ferramentas que auxiliem a aprendizagem constituem as causas deste problema. Para (FILHO ET AL, 1998), a física deve ser ensinado de forma a considerar o mundo vivencial dos alunos, sua realidade próxima ou distante, os objetos e fenômenos com que efetivamente lidam ou os problemas e indagações que movem sua curiosidade. Não uma mera transmissão de conceitos e resolução de listas de exercícios que favorecem unicamente o “decorar de formulas”. 5. Softwares de simulação e modelagem computacional, o Ensino de Física e os PCN´S - EM - Ruth Brito de Figueiredo Melo 751 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais Para Cavalcanti (2006), A inserção da informática nas aulas de Física, bem como, o uso de programas de simulação, proporciona realizar experimentos que só seriam viáveis em laboratório, além de reproduzir com precisão situações reais, oportunizando ao professor e ao aluno um trabalho rico em possibilidades. Para Ferreira (2000), softwares que trabalhão Simulação e modelagem promovem uma maior viabilidade do processo de ensino-aprendizagem da física, pois através de situações observáveis da vida real e modeláveis por programas computacionais, o aluno poderá correlacionar os conceitos vistos em sala de aula e aplicá-los com o uso do software. No caso da física, a modelagem computacional, trata de utilizar modelos com variáveis físicas e manipular e controlar essas variavéis, para a melhor compreensão de uma teoria, postulado ou teorema físico, para a busca da solução de problemas fisicos, possibilitando o desenvolvimento de competencias e de habilidade preconizadas pelos PCN´S – EM. A simulação e modelagem computacional juntas, fazem com que o aluno compreenda melhor os problemas fisicos, controlando as variaveis, estabelecendo relações entre essas variavéis e o conteúdo ministrado pelo professor em sala de aula, objetivando assim um maior entendimento do conteúdo. 6. Utilizações do Modellus como ferramenta auxiliar no ensino de física - Podemos citar como exemplo, o software Modellus, que é um software que trabalha com Simulação e modelagem computacional, e que permite ao aluno fazer experimentos conceituais utilizando modelos matemáticos. Além disso, ele é uma ferramenta computacional onde podemos trabalhar com a interpretação dos conceitos, não se detendo apenas nos cálculos, mas também na representação destes conceitos. Escolhemos o Modellus visto que o mesmo é um software que é direcionado ao ensino de física, química e matemática, portanto, ele é um software educacional interdisciplinar, o qual permite a alunos e professores realizarem experiências com modelos matemáticos, controlando variáveis como tempo, velocidade, distância, e etc., também sendo possível analisar a variação de uma função, bem como sua representação Ruth Brito de Figueiredo Melo 752 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais gráfica, utilizar exercícios já propostos, ou ainda, criar o seu próprio exercício no sistema de autor (GONÇALVES, 2004). Uma das importâncias do software educacional Modellus, é que ele como ferramenta computacional, pode ser utilizado para enriquecer o desenvolvimento de competências e habilidades preconizadas pelos PCN´S para o ensino médio. Também reconhecemos nele a importância de resgatarmos o ensino das aplicações da Matemática. A utilização de tecnologia e a ênfase na modelação podem contribuir para a superação ou minimização das dificuldades existentes. Muitas vezes os alunos não conseguem compreender de uma forma mais objetiva os conceitos físicos, por não apresentarem requisitos mínimos de matemática, os quais são obtidos nas series anteriores. Feito um levantamento com duas turmas de 30 alunos do 3º ano do ensino médio, das principais dificuldades encontradas por eles, referentes aos conteúdos de física, observou-se a grande dificuldade que eles possuem na compreensão de conceitos básicos como os de corrente elétrica, voltagem e associação de resistores, descritos pela lei de ohm. Assim, além de exemplificarmos e mostrarmos a eles que circuitos elétricos, nos dias de hoje, são elementos básicos de qualquer aparelho elétrico e eletrônico, como rádios, TV, computadores, automóveis, aparelhos científicos, etc., podemos mostrar através de uma simulação, o calculo da resistência equivalente de um circuito, bem como do calculo das respectivas tensões e correntes de cada resistor. A figura 1 e 2 (anexo 1) trata de uma simulação computacional, extraída da internet. Na medida em que o aluno varia os valores dos resistores nas barras de rolagem, ele percebe tanto a variação da voltagem como também de corrente nos respectivos resistores. Esse tipo de simulação também possibilita a variação do valor da bateria que alimenta o circuito elétrico, mas não permite a modificação do modelo utilizado. Da figura 1 para a figura 2 (anexo 1), os valores dos resistores foram modificados, de maneira com que o aluno observe a relação entre essa mudança de valores, bem como a mudança dos valores de voltagem e corrente em cada um deles, compreendendo assim de forma mais clara a lei de Ohm. Ruth Brito de Figueiredo Melo 753 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais Já nas figuras 3 e 4 (anexo 2), temos o exemplo do software Modellus, trabalhando a simulação e a modelagem de formas conjuntas. Observe que o comparando com a simulação anteriormente citada, observamos que o Modellus possui ferramentas mais amplas e modernas, deixando o aluno livre para criar e modificar o modelo quantas vezes ele quiser. 7. Aprendizagem Significativa – De acordo com (VEIT, 2002), para trabalharmos com qualquer ferramenta no contexto educacional, sendo ela computacional ou não, precisamos investigar de que forma o aprendiz relaciona e compreende os conceitos físicos trabalhados, com o uso do computador, e como ele relaciona os conceitos e cálculos por ele já conhecidos com os novos conceitos a ele apresentados. De acordo com a Teoria da Aprendizagem Significativa de Ausubel (2003), citada por (DORNELES ET AL, 2006), a aprendizagem é significativa à medida que o novo conteúdo é incorporado às estruturas de conhecimento de um aluno adquirindo significado para ele a partir da relação com seu conhecimento prévio, existente na sua estrutura cognitiva. Neste processo, a nova informação interage em comum à estrutura de conhecimento específico, que Ausubel chama de subsunçores. Quando o conteúdo escolar a ser aprendido não consegue ligar-se a algo já conhecido, ocorre o que Ausubel (2003) chama de aprendizagem mecânica, ou repetitiva, ou seja, as novas informações são aprendidas sem interagir com conceitos relevantes existentes na estrutura cognitiva prévia (os subsunçores). Assim, se a pessoa decora as fórmulas, as leis, os conceitos, mas esquece-os após a avaliação, houve uma aprendizagem mecânica e não significativa, pois o novo conteúdo passa a ser armazenado isoladamente ou por meio de associações arbitrárias na estrutura cognitiva. (PELIZZARI ET AL, 2002). Para haver uma aprendizagem significativa, Ausubel(2003) detalha que são necessárias duas coisas primordiais: a primeira é que o aluno deve ter a vontade e a disponibilidade de aprender, e a segunda, é que o conteudo a ser ministrado ao aluno tem que ser potencialmente significativo ( PELIZZARI ET EL, 2002). Deve-se salientar Ruth Brito de Figueiredo Melo 754 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais que isso muda de pessoa pra pessoa, pois um conteúdo pode ser significativo pra um aluno, mas não ser necessariamente significativo para o outro. Diante destes pressupostos, podemos dizer que as animações interativas utilizadas em softwares de simulação e Modelagem Computacional a exemplo do software Modellus podem ser mediadoras da aprendizagem significativa dos conceitos de Física. Burak & Barbiere (1994), cita que uma das principais relações entre a modelagem matemática e a teoria Ausubeliana e a de aproveitar os conhecimentos já adquiridos pelos alunos possibilitando-lhes formas de encontrar significados matemáticos no seu cotidiano, para participarem da construção de conceitos matemáticos não só de maneira formal como também de forma a interferir e interagir com o seu meio. 8. Conclusões e busca por respostas - De acordo com (VEIT, 2002), e tomando como base os princípios norteadores gerais estabelecidos pelas diretrizes curriculares para o ensino médio, destaca-se a produção de um ensino não propedêutico em que haja o desenvolvimento de um conhecimento efetivo e duradouro, portanto significativo, de forma integrada, contextualizada e interdisciplinar. Observa-se também que o termo “suas tecnologias” está presente nas três grandes áreas as quais os PCN´S estão organizados, mostrando a importância das TIC´S(Tecnologias da Informação e Comunicação), bem como a sua inserção, ou seja, que as tecnologias especificas a cada área venha a ser incorporada no processo de ensino-aprendizagem de cada uma. Defendemos a utilização do software educativo de simulação e modelagem computacional bem como o uso de novas tecnologias como ferramenta de maneira a auxiliar o processo didático, e nunca como um fim em si mesmo, onde o professor deve incentivar o aluno a opinar, debater e questionar sobre os resultados que vão sendo encontrados. De acordo com (VEIT, 2002), A Física expressa relações entre grandezas através de fórmulas, cujo significado pode também ser apresentado em gráficos, utilizando Ruth Brito de Figueiredo Melo 755 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais medidas e dados, desenvolvendo uma maneira própria de lidar com os mesmos, através de tabelas, gráficos ou relações matemáticas. Sendo assim, podemos dizer que o software Modellus, por trabalhar com essa linguagem de representação, simulação e modelagem computacional, possibilita uma maior viabilidade do processo de ensino-aprendizagem da Física, pois através de situações observáveis da vida real e modeláveis por programas computacionais, o aluno poderá correlacionar os conceitos trabalhados em sala de aula e aplicá-los no software de Simulação e modelagem, interligando-os com o seu cotidiano. É claro que para tornar a aula realmente significativa, o docente necessita antes de tudo planejar e organizar os objetivos e os pontos a serem trabalhados naquela aula, trabalhando por etapas, fazendo em primeiro lugar uma sondagem com seus alunos para determinar alguns conhecimentos que os mesmos já tenham, para possibilitar a tomada de decisões. Para (ARAÚJO ET AL, 2004), dentre as várias possibilidades de uso da informática no ensino da física, simulação e modelagem computacional juntas, possibilita um enriquecimento do ensino desta ciência, levando os estudantes a trabalhar com o processo de construção e analise do conhecimento, partindo de conceitos mais gerais, para os mais específicos, proporcionando uma aprendizagem mais significativa. Sendo assim, com o uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC’s), através da utilização de softwares que se utilizem de simulação e de modelagem computacional a exemplo do software Modellus, novas possibilidades de construção de animações interativas surgirão como ferramentas mediadoras para o ensinoaprendizagem da física Com base nesses pressupostos, e em outras pesquisas relatadas em artigos na internet, que reconhecemos a importância de pesquisas nesta área, na emergência dos professores não só de Física, mais de um modo geral, ficarem atentos a sua capacitação e formação, bem como ficarem antenados com a evolução da ciência, como também na investigação da sua própria pratica pedagógica. Concluímos também, que o software Modellus, conforme dito anteriormente, por ser um software que trabalha com simulação e modelagem matemática, nos apresenta princípios da teoria de Ausubel (2003) sobre a aprendizagem significativa. Uma fez que o mesmo aproveita os conhecimentos prévios dos alunos, levando-os a relacionar os Ruth Brito de Figueiredo Melo 756 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais conhecimentos adquiridos com o seu cotidiano e tornando mais fácil o entendimento de conceitos mais específicos, incentivando a tomada de decisões, bem como a interação social. Diante destes pressupostos, o aluno pode ser levado a criar e construir com eficácia, o seu próprio conhecimento, não só na escola, mas no seu cotidiano, oportunizando-lhe a ampliação do seu próprio conhecimento, como um ser políticosocial, conforme estabelece os PCN´S – EM. Assim, de acordo com Burak & Barbiere (1994), o aluno aprende participando, tomando atitudes diante de fatos, vivenciando sentimentos e escolhendo procedimentos para atingir seus objetivos, assimilando então com maior profundidade os conteúdos. Referências bibliográficas – ARAÚJO, et al . Atividades de modelagem computacional no auxílio à interpretação de gráficos da cinemática. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 26, n.2, São Paulo, 2004. Disponível em <HTTP: // WWW. Scielo.br/pdf/rbef/v26n2/allv26n2.pdf>. Acesso em 26/01/09. ARAÚJO & ABIB. Física no computador, 2003. Disponível em <HTTP: // WWW.doaj.org/doaj?func=abstract&id=30958. htm >. Acesso em 14/06/08. AUSUBEL, D. P. Aquisição e retenção de conhecimentos: Uma perspectiva cognitiva. Lisboa: Editora Plátano, 2003. BURAK & BARBIERE. Artigo sobre: Modelagem Matemática e suas implicações para uma “Aprendizagem significativa”, 1994. Disponível em <HTTP: // www.dionisioburak.com.br/CNMEM-Daniela.pdf>. Acesso em 28/02/09. CAVALCANTI, F. O uso das simulações computacionais no ensino da Física. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 28, n.4, 2006, disponível em <HTTP://WWW.cet.ucs.br/ eventos/outros/egem/cientificos/cc13.pdf..pdf>. Acesso em 12/02/09. Ruth Brito de Figueiredo Melo 757 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais DORNELES, ET AL. Simulação e modelagem computacionais no auxilio a aprendizagem significativa de conceitos básicos de eletricidade: parte I – circuitos elétricos simples. Revista Brasileira de Ensino de Física, v. 28, n.4, 2006, disponível em <HTTP: // WWW. Scielo.br/pdf/rbef/v28n4/allv28n4.pdf>. Acesso em 26/01/09. FERREIRA, A. Estratégias e de a Física e <HTTP: Teoria Pedagógicas de em Aulas de Ausubel, 2000. Ciências Disponível em //www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xvii/sys/resumos/t0484- 1.pdf>. Acesso em 25/02/09. FILHO, ET AL. Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, parte III. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/ciencian.pdf.> Acesso em 01/06/09. GONÇALVES,J.P. Tutorial Modellus. Disponível em <HTTP: // htm >. 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Experiências Virtuais Aplicadas em Aulas de Teoria de Física, 2002 Disponível em :< HTTP: //inf.unisul.br/~ines/workcomp/cd/pdfs/2810.pdf>. Acesso em 20/01/09. VEIT, E.A. Modelagem no Ensino de Ciências e os parâmetros curriculares, 2002. Disponível em <HTTP: // WWW.if.ufrgs.br/cref/ntef/publica. htm >. Acesso em 20/06/08. ANEXOS - ANEXO 1 – EXEMPLO DE SIMULAÇÃO COMPUTACIONAL – CIRCUITOS RESISTIVOS MISTOS/APLICAÇÃO DA LEI DE OHM. FIGURA 1 – Circuito Misto Fonte: <http://www.unb.br/iq/kleber/EaD/Eletromagnetismo/Resistores/Risto/R_misto.html> Acesso em 06/01/2009. Ruth Brito de Figueiredo Melo 759 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais FIGURA 2 – Circuito Misto Fonte: <http://www.unb.br/iq/kleber/EaD/Eletromagnetismo/Resistores/Risto/R_misto.html> Acesso em 06/01/2009. Ruth Brito de Figueiredo Melo 760 A Utilização do Software Educatico de Simulação e Modelagem Computacional no Ensino de Ciências e os Parâmetros Curriculares Nacionais ANEXO 2 - EXEMPLO DE SIMULAÇÃO E MODELAGEM COMPUTACIONAL (SOFTWARE MODELLUS – CIRCUITOS RESISTIVOS MISTOS, APLICAÇÃO DA LEI DE OHM. FIGURA 3 – Animação 1 Fonte: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S01027442006000400011&script=sci_arttext> Acesso em 07/01/2009. FIGURA 4 – Animação 2 Fonte: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S01027442006000400011&script=sci_arttext> Acesso em 07/01/2009. Ruth Brito de Figueiredo Melo 761 IV COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES “DIFERENÇA NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO” POSSIBILIDADES E ENTRAVES DA INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO DAS CIÊNCIAS Silvia Elizabeth Moraes JOÃO PESSOA - PB - BRASIL 10 A 13 DE NOVEMBRO DE 2009 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências POSSIBILIDADES E ENTRAVES DA INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO DAS CIÊNCIAS Silvia Elizabeth Moraes Universidade Federal do Ceará Faculdade de Educação RESUMO: Neste trabalho investigamos a atuação da comunidade disciplinar de Ensino de Biologia no processo de produção do documento da referida disciplina nas Orientações Curriculares Nacionais do Ensino Médio. Além da proposta curricular, recorremos a entrevistas semi-estruturadas realizadas com dois pesquisadores, membros da comunidade disciplinar em questão, que participaram do processo de elaboração das OCNEM. A análise das entrevistas e do documento curricular permitiu explorar os discursos da comunidade disciplinar de ensino de Biologia com relação a propostas curriculares implementadas anteriormente, como também compreender o processo de produção de um documento que integra as políticas para o ensino médio. Para tanto, nos baseamos em estudos de Stephen Ball sobre as políticas curriculares e em estudos de Ivor Goodson sobre comunidade disciplinar. Defendemos que, essa proposta curricular, mas especificamente o documento da disciplina Biologia, apesar de seguir as mesmas orientações que as demais políticas em vigência para o Ensino Médio, se caracteriza pelas críticas a propostas implementadas anteriormente, propondo-se a preencher as lacunas presentes. PALAVRAS-CHAVE: políticas curriculares, ensino de Biologia, Ensino Médio. Introdução A interdisciplinaridade faz hoje parte fundamental dos documentos curriculares oficiais tais como, os Parâmetros Curriculares Nacionais, o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), e as Diretrizes Curriculares Nacionais para os cursos de graduação (DCN). Embora possamos criticar a maneira como estes documentos incluíram a interdisciplinaridade em seu conjunto de normas, sua inserção demanda uma mudança necessária e radical na prática pedagógica. Os Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (PCNEM) estabelecem um currículo organizado em três áreas: linguagens, códigos e suas tecnologias (Língua Portuguesa, Língua Estrangeira Moderna, Educação Física, Arte e Informática); Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias (Química, Física, Silvia Elizabeth Moraes 765 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências Biologia e Matemática); Ciências Humanas e suas tecnologias (História, Geografia, Sociologia, Antropologia & Política e Filosofia). Como princípio integrador são escolhidas as tecnologias e toda proposta curricular tem por eixos a “integração e articulação dos conhecimentos em processo permanente de interdisciplinaridade” (http://portal.mec.gov.br/seb) Na matriz de referência para o ENEM 2009, dentre os eixos cognitivos comuns a todas as áreas de conhecimento destacamos a capacidade de compreender fenômenos, construindo e aplicando conceitos das várias áreas do conhecimento para a compreensão de fenômenos naturais, de processos histórico-geográficos, da produção tecnológica e das manifestações artísticas (http://portal.mec.gov.br/seb) Quanto às Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para os cursos de graduação, elas apontam caminhos na direção de uma integração de saberes, como vemos as seguir. Nas DCN do curso de Pedagogia exige-se que o estudante trabalhe com um repertório de informações e habilidades composto por pluralidade de conhecimentos teóricos e práticos, cuja consolidação será proporcionada no exercício da profissão, fundamentando-se em princípios de interdisciplinaridade, contextualização, democratização, pertinência e relevância social, ética e sensibilidade afetiva e estética (Art. 3º). Quanto ao Bacharel em Ciências Biológicas, espera-se que ele seja “generalista, crítico, ético, e cidadão com espírito de solidariedade” e que esteja “apto a atuar multi e interdisciplinarmente, interagindo com diferentes especialidades e diversos profissionais, de modo a estar preparado para a contínua mudança do mundo produtivo” (MEC, DCN de Ciências Biológicas). Na formação de engenheiros, dentre as competências e habilidades está a de atuar em equipes multidisciplinares de acordo com a Resolução 11 do Conselho Nacional de Educação (RCNE/CES 11, 11-03-2002 MEC/CNE, Câmara de Educação Superior), As DCN de Psicologia valorizam as ações multidisciplinares, a exploração das interfaces com outras áreas e profissões e levam em conta a expansão da atuação profissional para novos contextos. Além disso, acentuam a dimensão social e ética da profissão e o Silvia Elizabeth Moraes 766 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências respeito aos diferentes fenômenos pessoais, grupais e culturais” (Parecer CNE/CES n. 0062/2004). De acordo com o Parecer do CNE/CES (No. 1.303/2001, os currículos vigentes de Química estão transbordando de conteúdos informativos em flagrante prejuízo dos formativos, fazendo com que o estudante saia dos cursos de graduação com conhecimentos já desatualizados e não suficientes para uma ação interativa e responsável na sociedade, seja como profissional, seja como cidadão. Advoga-se então a inclusão nos currículos de temas que propiciem a reflexão sobre caráter, ética, solidariedade, responsabilidade e cidadania. Prega-se, igualmente, a abertura e flexibilização das atuais grades curriculares e o desenvolvimento do projeto pedagógico da instituição que deverá, necessariamente, assentar-se sobre conceitos de “matéria” e “interdisciplinaridade”. Nas DCN dos cursos de graduação em Direito, Ciências Econômicas, Administração, Ciências Contábeis, Turismo, Hotelaria, Secretariado Executivo, Música, Dança, Teatro e Design “as instituições de ensino superior deverão definir em seus projetos pedagógicos, formas de realização da interdisciplinaridade”. (Parecer Nº CES/CNE 0146/2002) Os currículos de Física podem conter duas partes: um núcleo comum a todos as modalidades dos cursos de Física e módulos seqüenciais especializados, onde será dada a orientação final do curso. Estes módulos podem conter o conjunto de atividades necessárias para completar um Bacharelado ou Licenciatura em Física nos moldes atuais ou poderão ser diversificados, associando a Física a outras áreas do conhecimento como, por exemplo, Biologia, Química, Matemática,Tecnologia, Comunicações, etc. Os conteúdos desses módulos especializados inter-disciplinares devem ser elaborados por cada IES juntando os esforços dos colegiados dos diversos cursos envolvidos (Parecer N.º: CNE/CES 1.304/2001) Os currículos dos cursos de Bacharelado/Licenciatura em Matemática devem ser elaborados de maneira a desenvolver competências e habilidades dentre as quais destaca-se a capacidade de trabalhar em equipes multi-disciplinares, de estabelecer relações entre a Matemática e outras áreas do conhecimento, e de trabalhar na interface da Matemática com outros campos de saber (Parecer N.º: CNE/CES 1.302/2001) Silvia Elizabeth Moraes 767 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências Os princípios que norteiam a proposta de Diretrizes Curriculares do curso de Letras são a flexibilidade na organização dos cursos e a consciência da diversidade/ heterogeneidade do conhecimento do aluno, tanto no que se refere à sua formação anterior, quanto aos interesses e expectativas em relação ao curso e ao futuro exercício da profissão. A flexibilização curricular, para responder às novas demandas sociais e aos princípios expostos, é entendida como a possibilidade de eliminar a rigidez estrutural do curso e prever nova validação de atividades acadêmicas. Pela Resolução CNE/CES Nº 4 (07-11-2001), o curso de graduação em Medicina deve promover a integração e a interdisciplinaridade em coerência com o eixo de desenvolvimento curricular, buscando integrar as dimensões biológicas, psicológicas, sociais e ambientais. E finalmente, nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica encontramos que nos cursos de formação de professores para as séries finais do ensino fundamental e médio predomina uma visão excessivamente fragmentada do conhecimento. Os saberes disciplinares são recortes de uma mesma área e, guardam, portanto, correlações entre si. Da mesma forma, as áreas, tomadas em conjunto, devem também remeter-se umas às outras, superando a fragmentação e apontando a construção integral do currículo. A superação da fragmentação, portanto, requer que a formação do professor para atuar no ensino médio contemple a necessária compreensão do sentido do aprendizado em cada área, além do domínio dos conhecimentos e competências específicos de cada saber disciplinar. (Despacho do Ministro, Diário Oficial da União de 18/1/2002, Seção 1, p. 31). Diante de tamanha ênfase, partimos a campo para investigar os entraves e possibilidades da prática da interdisciplinaridade nos cursos de Licenciaturas e pósgraduação em Ciências e como esses cursos estão se adaptando às demandas da reforma curricular que vem sendo gradualmente adotada por nossas instituições de ensino. Em nossa pesquisa (em andamento) propomo-nos averiguar como os alunos e professores vêem, conceituam, aceitam ou rejeitam a interdisciplinaridade, qual o peso que lhe é dado nos projetos pedagógicos dos diferentes cursos, nas ementas das disciplinas, nas Silvia Elizabeth Moraes 768 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências práticas de sala de aula e nas teses de doutorado e dissertações de mestrado nas áreas de Exatas e de Educação. Começamos perguntando aos vinte alunos do mestrado em Ensino de Ciências quais as suas visões a respeito. As conclusões da fase inicial do estudo foram apresentadas no 19º Encontro de Pesquisadores em Educação do Norte e Nordeste (EPENN – João Pessoa 2009). No presente texto expomos os resultados da segunda fase de nossa pesquisa: conceituação e prática da interdisciplinaridade sob a perspectiva dos cento e cinco alunos de Licenciatura em Física, Química, Matemática, Biologia, Letras, Engenharia de Pesca que formaram a turma de Didática I, primeiro semestre de 2009. As conclusões da segunda fase do estudo serão apresentadas neste colóquio. Evolução do conceito de interdisciplinaridade Definimos interdisciplinaridade como uma abordagem epistemológica que nos permite ultrapassar as fronteiras disciplinares e nos possibilita tratar, de maneira integrada, os tópicos comuns às diversas áreas. O intuito da interdisciplinaridade é superar a excessiva fragmentação e linearidade no currículo. Mediante o estudo de temas comuns, estabelece-se um diálogo entre disciplinas, embora sempre considerando a especificidade de cada área, com seu saber acumulado que deriva do olhar especializado. Podemos situar a discussão sobre interdisciplinaridade no contexto de uma mudança paradigmática, sendo a idéia de paradigma aquela definida por Kuhn (1970: realizações científicas universalmente reconhecidas que fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência. Nenhuma atividade científica de importância, diz Kuhn, pode se realizar fora das estruturas de um paradigma e sem o apoio de uma comunidade científica. Uma vez que o paradigma tenha atendido um alto nível de maturidade, que a articulação entre suas diversas dimensões esteja bem desenvolvida, isso significa que o paradigma atingiu o estatuto de ciência normal. A ciência normal representa uma tradição de pesquisa coroada de êxitos científicos que, daí por diante, servem de norma às pesquisas subseqüentes. Um paradigma atinge o estatuto de ciência normal porque ele consegue melhor que qualquer outro resolver certos problemas considerados importantes pelo grupo de especialistas. Quando o paradigma existente deixa de funcionar adequadamente na exploração de um Silvia Elizabeth Moraes 769 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências aspecto da natureza cuja investigação fora anteriormente dirigida pelo paradigma, ocorrem as revoluções científicas. Elas são transições de um paradigma para o outro e são chamadas de revoluções por sua semelhança com as revoluções políticas que geralmente se iniciam por um sentimento crescente de que as instituições deixaram de responder adequadamente aos problemas e que necessitam de mudanças. A visão cartesiana do mundo trouxe-nos o desenvolvimento da ciência moderna baseada na investigação rigorosa do conhecimento. O surgimento do enfoque interdisciplinar resulta precisamente da evolução desse conhecimento disciplinar que redundou num currículo caracterizado pela fragmentação e linearidade. Entretanto, é preciso que fique bem claro que não se trata de abandonar as disciplinas, pois sempre será levada em conta a especificidade de cada área, com seu saber acumulado. O que se almeja é juntarmos esforços para compreender melhor nosso contexto local, regional, nacional e global à luz de teorias significativas que nos possibilitem contribuir não só para a reflexão como também para a ação com vistas à melhoria do currículo da escola e da universidade. Carapiá Fagundes & Froes (2001) talvez diriam que esse é um primeiro passo, tímido, rumo à transdisciplinaridade que os autores definem como a superação da fragmentação e compartimentalização disciplinar do conhecimento no currículo das instituições de ensino superior. Tomando como exemplo os cursos de graduação, Carapiá Fagundes & Froes observam que as disciplinas são colocadas como conteúdos estanques, com pouca ou nenhuma interconexão entre elas, contribuindo para reforçar a visão puramente tecnicista e instrumental do saber. A transdisciplinaridade situa as relações ou reciprocidades entre as diversas disciplinas no interior de um sistema total “[...] tomando por base uma axiomática geral compartilhada capaz de instaurar uma coordenação, em vista de uma finalidade comum” (p. 40). Filigranas conceituais à parte, estamos cada vez mais convictos que é preciso um grande esforço inicial para “reformar o pensamento” (Morin 2000) a fim de superar a “inadequação cada vez mais ampla, profunda e grave entre os saberes separados, fragmentados, compartimentados entre disciplinas e, por outro lado, realidades ou problemas cada vez mais polidisciplinares, transversais, multidimensionais, transacionais, globais, planetários” (p.13). Silvia Elizabeth Moraes 770 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências Desde o século XVI, somos dominados por um modelo de racionalidade científica que delimita, se distingue e se defende, por via de fronteiras ostensivas, de duas formas de conhecimento não-científico potencialmente perturbadoras e intrusas: o senso comum e os estudos humanísticos. De acordo com o método científico, conhecer significa quantificar e reduzir a complexidade. O conhecimento científico é “causal e aspira à formulação de leis, à luz das regularidades observadas, com vista a prever o comportamento futuro dos fenômenos” (Sousa Santos 2002, p.16). A realidade objetiva, quantificável é captada pelo observador que se julga fora dessa realidade. Pressupõe-se uma separação entre realidade objetiva e experiência subjetiva, entre fato e imaginação. A razão proposital-instrumental atribui a si mesma a impossível tarefa de conhecer e interpretar com segurança as leis que regem a natureza e a sociedade (Moraes 2000). Repetimos: o desenvolvimento disciplinar das ciências trouxe-nos grandes vantagens que jamais podemos ignorar. Entretanto, pelo excesso, caímos na superespecialização, no confinamento e no despedaçamento do saber, características essas que agora tratamos de corrigir. A ênfase nas disciplinas como único reduto do saber legitimado faz com que os jovens percam o sentido do todo, pois são ensinados “a isolar objetos, a separar disciplinas, a dissociar problemas, em vez de reunir e integrar” (Morin, 2000:15). Para formarmos uma “cabeça bem-feita” (e não uma “cabeça bem cheia”), “é mais importante dispor de uma aptidão geral para colocar e tratar os problemas; e princípios organizadores que permitam ligar os saberes e lhes dar sentido” (p. 21). Para a tarefa convocamos os múltiplos olhares da academia. Metodologia Adaptamos para nossos propósitos e contexto a metodologia etnográfica do círculo dialético-hermenêutico (Guba & Lincoln, 1989) (ver Fig 1, no final do texto). De acordo com essa metodologia, a partir de uma construção inicial (C0 – C zero), o investigador lança-se a interpretar a realidade trazendo à tona as construções dos participantes. O propósito maior do método dialético-hermenêutico não é justificar a construção de cada um, mas formar uma conexão entre todos eles e ao final formular uma síntese aqui chamada de Construção Conjunta (CC). Através de círculos de conversas em sala de aula, questionários respondidos pelos alunos, observação Silvia Elizabeth Moraes 771 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências participante e pesquisa documental, reformulamos nossa C0 e chegamos a CC que traduz o consenso entre os participantes. Nossos respondentes, 105 alunos de Licenciatura da UFC, foram informados da pesquisa e se propuseram a colaborar desde o início com reflexões e discussões registradas e divulgadas no Ambiente Virtual de Aprendizagem TELEDUC. Os currículos das Licenciaturas já pressupõem uma interação entre as disciplinas específicas das áreas (Física, Química, Biologia, Matemática, Letras, Engenharia de Pesca, Geografia e História) e as matérias pedagógicas. No caso de nossa pesquisa visamos analisar como as diretrizes curriculares poderiam ser (se é que estavam sendo) postas em prática. Primeira fase da pesquisa No início foram introduzidas teorias contemporâneas de currículo dentre as quais destacamos a teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner (1995), bastante conhecida na escola fundamental brasileira, e a teoria dos significados da vida humana de Philip Phenix (1960) (Fig 2). As duas teorias se propõem retratar a totalidade do ser humano e, ao mesmo tempo, sua individualidade. O que fez Gardner famoso entre os educadores foi sua crítica à concepção de que existe somente uma única inteligência humana e que esta deve ser avaliada por instrumentos psicometricamente padronizados. Acompanhando o desempenho profissional de adultos que haviam sido alunos fracos, Gardner se surpreendeu com o sucesso obtido por vários deles na vida real. O pesquisador passou, então, a questionar a avaliação escolar, cujos critérios não incluem a análise de capacidades, que, no entanto, são importantes na vida das pessoas. Concluiu que as formas convencionais de avaliação apenas traduzem a concepção de inteligência vigente na escola, limitada à valorização da competência lógico-matemática e da lingüística. Gardner demonstrou que as demais faculdades também são produto de processos mentais e que não há motivo para diferenciá-las do que geralmente se considera inteligência. Desta forma, ampliou o conceito de inteligência, que, em sua opinião, pode ser definida como "a capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos valorizados em um ambiente cultural ou comunitário". Segundo Gardner, excetuando-se os casos de lesões, todos nascem com o potencial das várias inteligências. A partir das relações com o ambiente, incluindo os Silvia Elizabeth Moraes 772 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências estímulos culturais, desenvolvemos mais algumas e deixamos de aprimorar outras. Isso dá a cada pessoa um perfil particular, o que renega a possibilidade de medirmos a inteligência pelos métodos convencionais, principalmente pelos famosos testes de Q. I. (quociente de inteligência), que consideram apenas as manifestações das competências lógico-matemático e lingüística. Nos últimos quinze anos ele vem trabalhando com seus colegas num projeto educacional visando à criação de mecanismos de avaliação voltados ao desempenho integrado do educando e ao uso das inteligências múltiplas no planejamento e desenvolvimento de um currículo mais personalizado. Gardner lista as seguintes inteligências: Lingüística; Lógico-matemática; Musical• Intrapessoal: Interpessoal:• Espacial:.• Corporal-cinestésica: • Naturalista. Machado (1996) acrescentou a inteligência Pictórica: Philip H. Phenix, professor emérito de Filosofia e Educação do Teacher’s College (Universidade de Columbia), doutourou-se em Filosofia da Religião. Dentre os vários livros que escreveu, a maioria versando sobre a integração das disciplinas, destaca-se Realms of Meaning (1964), onde ele apresenta a teoria dos significados da vida humana. O argumento principal de Phenix (1964) é que uma visão de currículo para a educação geral deve ser derivada de certas considerações fundamentais sobre a natureza humana e o conhecimento. A vida humana consiste num padrão de significados, e a educação geral é o processo de gerar significados essenciais. Os seres humanos são essencialmente criaturas que têm o poder de experienciar significados. São seis os padrões fundamentais, os domínios do significado: simbólico, empírico, estético, sinoético, ético e sinóptico. O quadro apresentado no final do texto resume a teoria de Phenix. Em seguida recorremos à pedagogia de projetos desde que o projeto possibilita o desenvolvimento das habilidades individuais e, ao mesmo tempo, articula essa individualidade com o coletivo 1. Dividimos a classe em grupos de seis (os seis significados) e de nove (as nove inteligências). De preferência reúnem-se grupos com representantes de todas as áreas. Os temas são escolhidos pelos alunos e cada grupo deve chegar a um consenso com relação ao tema a ser abordado, aos objetivos e à justificativa de cada projeto. Divide-se o trabalho de tal forma que cada aluno se encarregue de pensar, planejar e apresentar um significado ou uma inteligência dentro 1 A esse respeito consultar Kleiman & Moraes, 2007 e Moraes 2005. Silvia Elizabeth Moraes 773 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências do tema escolhido. Essa etapa destina-se especialmente a promover o trabalho coletivo onde as partes têm de negociar para chegar a um consenso, cada uma contribuindo com sua especificidade rumo a um objetivo comum. Os projetos são apresentados ao grande grupo (a classe toda) e avaliados pelos próprios alunos (avaliação de seus pares e auto-avaliação) de acordo com critérios previamente discutidos. Os critérios de avaliação constam de uma ficha que cada aluno recebe durante as apresentações dos projetos (ao final de mais ou menos cinco encontros). Minha parte na pesquisa é ver se e como as teorias funcionam na prática de escolas e universidades onde as pessoas convivem com profissionais de outras áreas e têm de chegar a pontos comuns (ou seja, se é possível e como é possível efetuar o tão apregoado diálogo entre disciplinas). Quanto aos alunos, na grande maioria advinda de currículos fragmentados e lineares segundo o modelo tradicional (cerca de 10% somente tem experiência com projetos interdisciplinares), o intuito é fazer com que reflitam sobre a interdisciplinaridade, conceituando-a e vendo as possibilidades de sua aplicação. A fase inicial do trabalho em grupo foi chegar a um consenso quanto ao tema a ser desenvolvido no projeto. Alguns ficaram dentro de sua área de segurança, mas outros ousaram um pouco mais: Música e Educação; Escola: ambiente escolar; Etanol: Energia Renovável; A Televisão; O dilema eterno da Traição; Biodiesel; Terapias e Inteligências Múltiplas; Origem do Universo; Células-tronco; Álcool; Lixo e Meio Ambiente; Novas tecnologias; A crise; Evolução; A fome no mundo; As Inteligências Múltiplas e o ensino da informática básica e uma leitura do Pequeno Príncipe a partir das Inteligências Múltiplas; A Música e os domínios do significado. Os slides do projeto Biodiesel ao entendimento de todos, fundamentado na teoria das inteligências múltiplas de Howard Gardner, A música e os significados da vida humana e Etanol à luz da teoria de Phenix serão mostrados na apresentação. Segunda fase: conceituando interdisciplinaridade Após os projetos, foi aplicado um questionário a fim de investigar como os alunos definem interdisciplinaridade e como se posicionam frente a tais idéias, analisando as possibilidades de sua implementação na escola e na universidade. Debatemos o tópico e combinamos que eles enviariam pelo TELEDUC as respostas para as seguintes perguntas: a) Como vocês definem interdisciplinaridade? Silvia Elizabeth Moraes b) 774 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências Considera esta prática pedagógica um modismo ou algo que veio para ficar? Por que? c) Quais as etapas/estágios pelos quais vocês passaram para aceitar e/ou rejeitar tais concepções? d) Em que sentido sua formação foi/é interdisciplinar/disciplinar? e) Onde podemos identificar iniciativas e práticas de interdisciplinaridade nos cursos de Ciências? f) Como atingirmos consensos com vistas a projetos interdisciplinares comuns mesmo sendo de áreas diferentes? Escolhi algumas respostas que sintetizam o que podemos chamar de Construção Conjunta (CC) desta fase da pesquisa: - A interdisciplinaridade é um método de pesquisa e ensino voltado para a interação entre uma ou mais disciplinas, num processo que pode ir da simples comunicação de idéias até a integração de finalidades, objetivos, conceitos, conteúdos, metodologias, procedimentos, dados e formas de organizá-los e sistematizá-los no processo de elaboração do conhecimento. - Uma prática pedagógica que veio para ficar, para revolucionar a educação, porque engrandece o conhecimento, e abre o horizonte do pensamento para outras áreas e para sua própria maneira de ver o mundo. Você fica a par do que está acontecendo no mundo como um todo, processando criticas, opiniões de uma maneira ampla vendo o mundo com outros olhos. - Surgiu para resolver problemas importantes que não podiam ser solucionados por meio de apenas uma área do conhecimento. É claro que nessas áreas haverá uma parte mais compacta, uma parte menos maleável, mas haverá uma interação bem maior nessas áreas, acontecendo de algumas vezes não sabermos identificar exatamente qual área do conhecimento estamos utilizando, pelo simples fato delas terem se misturado. Pode-se perceber que o período no qual estamos inseridos exige dos professores uma maior pluralidade de conhecimentos. Hoje, não nos é possível analisar seja o que for sem mencionar outras áreas do saber. Por isso, a interdisciplinaridade surge como uma proposta que vem acoplar aos conhecimentos uma maior gama de competências, pois as matérias estudadas não são unilaterais, mas possuem ligação com mais de uma inteligência do homem. Uma verdadeira quebra de barreiras. - A educação transmitida pela escola tradicional, desde sua formalização, vem Silvia Elizabeth Moraes 775 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências abordando conceitos de forma fragmentada em disciplinas e aulas diversas que ocasiona uma completa divergência entre a realidade vivenciada pelos alunos e os conteúdos adquiridos na escola. A interdisciplinaridade visa a superar, ou ao menos a amenizar, tais distorções que tanto interferem no processo de ensino-aprendizagem. Em um processo interdisciplinar, os conteúdos adquirem um aspecto global, o que reforça e amplia a vinculação com a prática. Esta construção de saberes deve ser realizada de forma coletiva e igualitária, porém, respeitando e valorizando-se talentos e especificidades de cada um. - Ao longo de minha formação, desde o ensino fundamental, observei que o conteúdo repassado aos alunos não tinha ligação entre as diferentes áreas do conhecimento, e com isso ficava difícil aprender efetivamente algo. Hoje vejo que se houvesse algum tipo de interligação entre as disciplinas que nos são oferecidas, buscando-se interligar os fatos científicos e cotidianos, com certeza, haveria mais interesse por parte dos alunos em aprender, uma vez que a teoria repassada nas salas de aula faria parte da nossa vida prática. - Minha formação foi bem tradicional. Se, por acaso, estivesse estudando Física, nenhum questionamento referente à, digamos, Biologia poderia ser feito, pois do contrário atrairia para si as piadinhas dos colegas. Além do quê, os professores não estavam preparados para esta nova visão. Quando, na Faculdade, deparei-me com os conceitos de interdisciplinaridade, de pronto agradou-me a idéia. Muitas das inquietações de outrora encontraram eco e pude perceber o quanto as ciências estão interligadas. Propostas como as da Biofísica passaram a fazer bastante sentido. Hoje, com os novos desafios do mundo globalizado, percebo a importância destas concepções e pretendo desenvolver mais ainda as análises para futuras aplicações com meus alunos. Através de propostas motivadoras que abram suas consciências do quanto podem ser interessantes disciplinas unidas por meio de determinados tópicos que aparentemente apresentam-se díspares. Mais que aprender os conceitos da interdisciplinaridade, o desafio atual é aplicá-los em sala de aula. - Poucas são as disciplinas que levam em consideração os diversos ramos do conhecimento. Normalmente o que se vê são professores que não estão preocupados em preparar o aluno para a vida prática: são meros repassadores de teoria. Contudo, Silvia Elizabeth Moraes 776 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências alguns docentes buscam abrir os horizontes dos alunos através do contado com outros de diferentes cursos, apresentando-lhes um complemento daquilo que eles vêem em seus cursos. - Em Ciências, é até relativamente fácil, identificar tópicos em que caem bem as práticas interdisciplinares, até, porque, a natureza não segue o padrão analítico das convenções humanas, antes de tudo, ela é holística sem fronteiras entre um conteúdo e outro. Exemplos como a Biofísica mais recentes, ou mesmo a Físico-Química já mais tradicionais vêm reforçar o caráter interdisciplinar nas Ciências. Nem é preciso falar do quão, por exemplo, a Matemática está diluída na Física, Química e, mais recentemente, na Biologia onde não é difícil encontrar fórmulas e modelos matemáticos que descrevem os movimentos cardíacos, a dinâmica das células e seu metabolismo. Hoje, há o ramo da Física atmosférica (inclusive com Mestrado estruturado na Uece) onde conceitos teórico são transportados para aplicações práticas na realidade do clima no sertão. Estes são apenas alguns exemplos de como conceitos antes apontados como distintos podem estar entrelaçados na interdisciplinaridade. Por isso, a formação docente tem de contemplar estes fatos e transformar a realidade do ensino médio preparando os alunos para novos desafios. - Para atingirmos consensos com vistas a projetos interdisciplinares comuns inicialmente é importante saber se todos que participarão do projeto estão dispostos a se submeterem a um estilo no mínimo diferente de trabalho, onde terão que saber escutar a opinião dos demais componentes do grupo e quando necessário abrir mão de algo que considera o mais sensato em prol do bom andamento do projeto. Em seguida é necessário analisar cuidadosamente a questão de maneira interdisciplinar, abrangendo as diversas áreas dos saberes, para que desta forma se chegue a um consenso entre os membros deste grupo. - Um dos principais aprendizados que pude retirar dos projetos interdisciplinares é sempre estar disponível para aprender novos assuntos, por mais distantes das nossas áreas de atuação que eles possam estar, e para que isto se torne possível é necessário respeitar sempre a opinião dos outros que construíram junto com você o conhecimento. Contudo apenas aprender não é o suficiente, é importantíssimo desenvolver cuidadosamente a forma como estes conhecimentos serão repassados para os alunos, Silvia Elizabeth Moraes 777 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências de tal modo que a educação se torne uma atividade prazerosa, tanto por parte dos alunos, como também por parte dos educadores. Futuros desdobramentos O importante num estudo etnográfico é interpretar o fenômeno estudado a partir de suas relações com o contexto social mais amplo e não apenas em função de suas relações internas. Metodologicamente, isto implica por um lado, complementar a informação de campo com informação relativa a outras ordens sociais e, por outro lado, buscar interpretações e explicações a partir de elementos externos à situação particular (Rockwell, 1989). Seguindo o método, as próximas construções a serem analisadas no círculo dialético hermenêutico girarão em torno dos seguintes tópicos: Projetos pedagógicos dos diferentes cursos envolvidos; Ementas das disciplinas; Práticas de sala de aula; Projetos de tese de doutorado e dissertação de mestrado nas áreas de Exatas e de Educação que incluam os conceitos de interdisciplinaridade e transversalidade. Hoje em dia são incorporados à discussão de currículo temas como o caos, a complexidade, o multiculturalismo, as questões ambientais e ético-políticas que demandam abordagens contextualizadas e multireferenciais. Precisamos desenvolver competências que nos possibilitem lidar com os novos tempos. A interdisciplinaridade veio para ficar, pois ela deriva de uma nova postura frente ao conhecimento, ao ser humano e à natureza. Os profissionais a serem formados pelos cursos de graduação e pós-graduação deverão, portanto pensar interdisciplinarmente em sintonia com os novos tempos. Nossa parte será trazer à tona a discussão investigando tanto as possibilidades quanto os entraves à interdisciplinaridade no cenário atual da escola e universidades brasileiras. Referências Bibliográficas BURNHAM, T. FROES & FAGUNDES, N. CARAPIÁ. Transdisciplinaridade, multirreferencialidade e currículo. Revista da FACED. Nº 6. UFBA, 2001. GARDNER, H. Inteligências múltiplas: a teoria na prática. Porto Alegre: Artmed, 1995. Silvia Elizabeth Moraes 778 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências GUBA, E. & LINCOLN, Y. Fourth Generation Evaluation. Newbury Park, London, New Delhi: Sage Publications, 1989. KLEIMAN & MORAES, S. E. Leitura e Interdisciplinaridade: tecendo redes nos projetos da escola. Campinas: Mercado de Letras. 7ª reimpressão, 2007 KUHN, T. A Estrutura das Revoluções Científicas. São Paulo: Editora Perspectiva, 1987 MORAES, S.E. Currículo, transversalidade e pós-modernidade, in Escola e Universidade na pós-modernidade. Campinas: Mercado de Letras, 2000 MORAES, S.E. Interdisciplinaridade e transversalidade mediante projetos temáticos, in Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos (RBEP). Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP), Vol 86 MaioDez 2005, 213-214, 2005 MORIN, E. A cabeça bem-feita: Repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. PHENIX, P. Realms of Meaning. New York: McGraw Hill, 1964. ROCKWELL, E. & EZPELETA, J. Pesquisa Participante. São Paulo: Cortez, 1989. SOUSA SANTOS, B. Um discurso sobre as ciências. São Paulo: Cortez, 2002 Documentos 19º Encontro de Pesquisadores em Educação do Norte e Nordeste (EPENN), João pessoa, Paraíba. http://www.ce.ufpb.br/ppge/epenn/ Acesso em 12-08-2009 Ministério da Educação, despacho do Ministro em 17/1/2002, publicado no Diário Oficial da União de 18/1/2002, Seção 1, p. 31. Diretrizes Curriculares dos cursos de Pedagogia, Ciências Biológicas, Direito, Ciências Econômicas, Administração, Ciências Contábeis, Turismo, Hotelaria, Secretariado Executivo, Música, Dança, Teatro e Design, Letras, Matemática e Física – Pareceres da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (www.mec.gov.br) Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica (www.mec.gov.br) Acesso em 10-08-2008 Silvia Elizabeth Moraes 779 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências ENEM 2009 http://www.enem.inep.gov.br/ Acesso em 12-08-2009 Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Médio (www.mec.gov.br) Acesso em 12-08-2009 Pareceres da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (www.mec.gov.br) R 1 Rn Cn C1 R2 Insumos do círculo C TEMPO maior 7 ESTRUTURA R7 C6 < < escopo R 6 menor SELEÇÃO Articulação C5 C4 outros círculos documentos C2 R3 C3 literatura observações construção do pesquisador R4 R5 Fig. 1 O círculo dialético hermenêutico Fonte: Guba, E & Lincoln, Y, 1989, P. 148. R1 a Rn = respondentes; C1 a Cn = Construções dos respondentes Silvia Elizabeth Moraes 780 As Possibilidades e Entraves da Interdisciplinariedade no Ensino das Ciências Classificação lógica dos significados_____________ Classes Genéricas Reinos de Disciplinas __________________________ Significados Quantidade Qualidade Geral Forma Simbólico Linguagem comum, matemática, formas simbólicas não-discursivas. Geral Fato Empírico Ciências físicas, ciências da vida, psicologia, ciências sociais. Singular Forma Estético Música, artes visuais, artes do movimento, literatura. Singular Fato Sinoético Filosofia, psicologia, literatura, religião nos seus aspectos existenciais Singular Norma Ético As várias áreas especiais do campo Geral moral e ético Compreensivo Fato História Compreensivo Norma Sinóptico Religião Compreensivo Forma Filosofia Fig 2 Adaptado de Phenix, 1964. Projetos temáticos apresentados pela turma de Didática 2009.1 Universidade Federal do Ceará, sob a orientação da autora . Silvia Elizabeth Moraes 781 IV COLÓQUIO INTERNACIONAL DE POLÍTICAS E PRÁTICAS CURRICULARES “DIFERENÇA NAS POLÍTICAS DE CURRÍCULO” UM ENFOQUE HISTÓRICO PARA O ENSINO DE FÍSICA: O CASO DA ENTROPIA Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos JOÃO PESSOA - PB - BRASIL 10 A 13 DE NOVEMBRO DE 2009 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia UM ENFOQUE HISTÓRICO E EPISTEMOLÓGICO PARA O ENSINO DE FÍSICA: O CASO DA ENTROPIA Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos IFRN /Diretoria de Educação e Ciências [email protected] RESUMO: Partimos de um pressuposto de que o ensino de ciências que se pretenda significativo e dialógico deve ter uma base epistemológica bem definida. A epistemologia de Bachelard contempla aspectos históricos e pedagógicos que consideramos essenciais para a formulação de estratégias de ensino de física. Tomamos o caso do conceito de entropia como exemplar das distorções, imprecisões e dificuldades didáticas que acontecem quando o enfoque epistemológico que embasa a prática didática das ciências não está bem definido. Sugerimos um enfoque histórico e epistemológico para o tratamento didático do conceito de entropia em que sejam analisados os obstáculos epistemológicos, as rupturas epistemológicas tendo como base a história da ciência. Sugerimos a abordagem da termodinâmica básica em três momentos históricos e epistemológicos bem definidos e interdependentes. PALAVRAS-CHAVE: entropia, ensino de física, ensino de termodinâmica, segunda lei da termodinâmica. INTRODUCÃO A física apresenta os maiores índices de reprovação e evasão nos vários níveis de ensino dentre as demais disciplinas. A evasão dos cursos de licenciatura de física alcança uma média de 80% dos alunos ingressantes. Dentre as causas que possam ser atribuídas a estes resultados indesejáveis podemos escolher um de natureza puramente didático/pedagógica referente à escolha e enfoque dado aos conteúdos desta disciplina. Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 785 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia Um problema exemplar da dificuldade de ensino e da aprendizagem dos conceitos físicos é o conceito de entropia, no ensino médio e universitário básico. Podemos sempre encontrar na literatura alguma nova tentativa de melhorar a forma como este conceito é apresentado didaticamente. Estas tentativas nos parecem sempre endógenas, ou seja, tratam de apresentar soluções internas a uma forma tradicional de apresentação do conteúdo. O olhar que é lançado sobre o problema nos parece sempre insuficientemente abrangente. Outro aspecto também ignorado com muita freqüência diz respeito ao processo de construção deste conceito, seu desenvolvimento enquanto uma teoria do calor e suas transformações. A história peculiar da termodinâmica 1 nos permite avaliar que um tratamento histórico e filosófico apropriado do assunto pode desempenhar um papel central no entendimento dos seus conceitos por parte dos alunos e contribuir para explicações mais consistentes por parte dos professores. Partimos da avaliação das sequências didáticas comumente aceitas e usadas na maioria dos livros didáticos para questionar as situações onde existe alternância entre épocas históricas, entre explicações atomistas e energetistas do calor e alternâncias entre a visão macroscópica e microscópica da matéria. Esta situação de confusão epistemológica é, para nós, a principal fonte de problemas didáticos tais como imprecisões, simplificações e uso inapropriado de metáforas e analogias. Propomos um tratamento histórico e filosófico da termodinâmica que faça relação entre desenvolvimento técnico, estrutura econômica e social e a construção do conhecimento científico, de modo a tornar mais explícita a natureza da ciência enquanto atividade humana. ENSINO DE CIÊNCIAS EM UMA PERSPECTIVA DIALÓGICA. O objetivo embutido na proposta aqui apresentada é fazer com que o aluno, de alguma forma, se reconheça nos problemas históricos do conhecimento científico e que possa ver a ciência também como uma “criadora de problemas” 2 e não como o oráculo que pode prover sempre todas as respostas. Consideramos o problema tratado aqui, um 1 Este ramo da Física se desenvolveu independentemente do paradigma newtoneano. Seu objeto tecnológico precedeu a uma formulação teórica que pudesse ser considerada paradigmática. Até este objeto tecnológico estar bem desenvolvido não havia uma “matriz disciplinar” que definisse generalizações simbólicas e exemplares nem um consenso da comunidade científica em torno das questões fundamentais de uma teoria do calor e de suas propriedades. (DELIZOICOV, 1991) 2 A tradução para o inglês deste termo como “Troublemaker” daria um tom irônico de “encrenqueira”. Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 786 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia problema de natureza essencialmente didática: em que aspectos a história e a filosofia da ciência podem contribuir na construção de um roteiro didático para a termodinâmica de nível introdutório. Nossa idéia central é fornecer elementos históricos e epistemológicos para que se possa construir um roteiro didático para o ensino do conceito de entropia que contemple três aspectos norteadores: o aluno e seu meio social como parte ativa do processo de ensino e aprendizagem; a história da ciência como fonte de busca do caráter histórico do conhecimento científico; e o corpo teórico da física tal como foi socialmente construído. Esta proposta tem claras influências do programa de pesquisa desenvolvido por Pernambuco, Delizoicov e Angotti (2002) de uma perspectiva freireana para o ensino de ciências. Nestes autores encontram-se as diretrizes de uma pedagogia dialógica para o ensino das ciências que tem no pensamento de Paulo Freire sua base teórica primeira, mas não única. Como primeiro elemento os autores enfatizam a necessidade de uma base epistemológica que oriente os planos de ensino de ciências. Para eles esta base epistemológica deve ter como referência teorias cuja premissa dispõe que o conhecimento ocorre na interação não neutra entre sujeito e objeto (ANGOTTI; DELIZOICOV; PERNAMBUCO, 2002, p.183). Um epistemólogo que formula uma teoria do tipo citado é Gaston Bachelard (1884-1962). Podemos identificar sua epistemologia como uma das que podem ser tomadas como base para a compreensão das relações do professor e do aluno com o conhecimento científico. Neste sentido busquei aproximações entre a proposta epistemológica (essencialmente filosófica) de Bachelard e a proposta de metodologia de ensino de ciências dos autores. A proposta de um ensino de ciências significativo apresentada por estes autores parte da concepção de que o aluno é um sujeito ontológico e epistêmico. Ele traz para a escola um conjunto de experiências cognitivas, emocionais e sociais que devem ser levadas em consideração na produção do conhecimento científico escolar. O aluno não deve, portanto, ser visto como um repositório de informações e experiências conclusivas, mas como um sujeito que tem o poder de modificar sua realidade e interferir sobre ela, tanto no plano material como do pensamento. A respeito da relação professor/aluno e da aquisição do conhecimento científico pelo aluno, Bachelard diz que na maioria dos casos o professor pensa que “o espírito começa como uma lição”, que basta repetir detalhadamente uma explicação para que o aluno [neutro ou Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 787 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia cognitivamente inerte] a entenda sob qualquer ponto de vista e de qualquer professor. Entretanto, o aluno tem uma cultura anterior à cultura escolar e o significado que ele dará aos conhecimentos que lhe são apresentados na escola deverá necessariamente se relacionar com seus conhecimentos prévios. Uma visão dialógica do ensino pressupõe uma interação efetiva entre duas formas de conhecimento: o conhecimento comum que é predominantemente expresso pelos alunos e o conhecimento científico cujo porta-voz é prioritariamente o professor. É no encontro destas duas culturas que se desenvolve um processo semelhante ao que acontece na produção do conhecimento científico pelos cientistas. Uma ruptura entre a impressão primeira do real e o conhecimento construído racionalmente. Em Bachelard o processo de construção do conhecimento científico se dá através de rupturas epistemológicas, retificações de erros históricos e numa psicanálise do conhecimento que visa superar entraves próprios ao pensamento [os obstáculos epistemológicos]3. O PAPEL DA HISTÓRIA DA CIÊNCIA PARA UM ENSINO SIGNIFICATIVO A historicidade do conhecimento é um elemento importante que emerge da epistemologia de Bachelard e que é também observada numa abordagem dialógica e participativa como apresentada em Angotti; Delizoicov; Pernambuco (2002) como forma de produção significativa do conhecimento em ciências. As ciências, como produção humana, se desenvolvem a partir de uma realidade histórica que tem o homem como principal ator. E um processo histórico implica sempre em dúvidas, erros, retificações etc. “Somos o resultado de nossas ilusões perdidas”, diz Bachelard sobre os nossos erros históricos. O papel da história da ciência no ensino, no caso deste enfoque didático, não diz respeito ao “uso” desta história como elemento externo à produção do conhecimento; não se trata apenas de um objeto motivador na sala de aula. A história da ciência está presente em uma etapa anterior de elaboração didática e responde por aspectos epistemológicos de identificação dos obstáculos, identificação das rupturas e 3 Os obstáculos epistemológicos são definidos por Bachelard como entraves próprios do pensamento à aquisição do conhecimento científico: “aparecem no próprio âmago do ato de conhecer como uma espécie de imperativo funcional, lentidões e conflitos.” Bachelard (2005) Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 788 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia na construção de perfis epistemológicos dos conceitos, com o objetivo claro de promover situações de impasse, ou de pequenas “revoluções científicas” que despertem no aluno a possibilidade de novas formas de pensamento. Esta abordagem da história da ciência traz a tona quase que naturalmente o caráter provisório dos modelos e das leis científicas. Apresentamos neste trabalho uma indicação de percurso do pensamento para o conceito de entropia através das concepções históricas do calor e do estudo do funcionamento das máquinas térmicas, concepções estas que foram historicamente modificadas no processo de desenvolvimento da teoria do calor. As retificações históricas dos modelos e teorias e as rupturas epistemológicas ocorrem através da busca de reparação dos erros. O papel do erro em Bachelard tem por isso um caráter positivo. O erro é valorizado justamente porque permite avanços na racionalidade. O erro é parte constituinte do processo de descoberta científica assim como do aprendizado. Baseamos nossa análise histórica da termodinâmica no ponto de vista de que, através da explicitação destes erros históricos, poderia sugerir situações de sala de aula em que estes pudessem passar pelo processo de retificação didática, da mesma forma que passaram pelo processo de retificação histórica. Em uma abordagem dialógica do ensino como apresentada por Angotti; Delizoicov; Pernambuco (2002), o papel do erro assume uma característica semelhante: ele não é gratuito, faz parte de uma estrutura de pensamento, de um contexto social, de uma vivência experimental e não pode ser considerado apenas como advindo de uma deficiência cognitiva ou de formação do aluno. O aluno não quer deliberadamente dar respostas erradas, ele responde com base numa síntese que faz entre as diversas experiências com as quais é confrontado e o seu repertório de conhecimentos pré-existentes. Uma proposta de ensino que procure torná-lo significativo deve, além de identificar estes erros, procurar promover situações de impasse cognitivo que causem rupturas entre conhecimento comum e conhecimento científico. Além do papel importante desempenhado pela história da ciência nesta abordagem, destacam-se também os objetos tecnológicos e os fenômenos como promotores do diálogo entre conhecimento científico e conhecimento comum, em um processo de ensino e aprendizagem. O estudo dos objetos tecnológicos e das interpretações dos fatos naturais pode servir como elemento de explicitação das formas não neutras da relação entre sujeito e objeto do conhecimento. Tanto os objetos Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 789 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia tecnológicos como os fenômenos, em uma abordagem dialógica, se configuram como elementos essenciais a uma estruturação temática dos conteúdos. É a partir da abordagem temática que o professor pode ter acesso quase simultâneo a aspectos sociais e cognitivos do conhecimento expresso na fala do aluno. É também através dos temas que se manifestam as relações entre ciência e história, ciência e sociedade. UM PERCURSO DIDÁTICO COM BASE HISTÓRICO/EPISTEMOLÓGICA O percurso histórico e epistemológico para o conceito de entropia que nos propomos a construir tem suas raízes nas concepções de ensino e de produção do conhecimento científico que foram apresentados acima. Não se trata de apresentar necessariamente uma seqüência didática no sentido em que costumamos encontrar estas seqüências. Trata-se de tentar recompor um percurso do pensamento a respeito de um conceito científico sob a ótica de uma epistemologia histórica. Este percurso histórico e epistemológico tem como base três momentos históricos e epistemológicos da termodinâmica; o primeiro momento é caracterizado fundamentalmente por um pensamento empirista, ancorado na construção de máquinas em um contexto de constante desenvolvimento industrial. O segundo se caracteriza pela expressão de um modelo positivista do pensamento científico e que tem no conceito de energia e no seu princípio de conservação os elementos de união entre a mecânica e a teoria do calor. O terceiro momento histórico e epistemológico se caracteriza pela tentativa de redução do fenômeno térmico a uma teoria mais fundamental que seria a mecânica de Newton. O primeiro momento é essencialmente empirista. A ciência desenvolvida neste momento do estudo do calor está relacionada prioritariamente ao uso das máquinas a vapor e à produção de trabalho. O fato de o calor ser concebido como um fluido não impede o desenvolvimento destas máquinas, nem mesmo a detalhada síntese teórica de Carnot. As máquinas a vapor eram construídas e operadas por pessoas com pouca ou nenhuma educação científica formal. Como então poderemos justificar epistemologicamente a seqüência didática atual em que as máquinas são apresentadas Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 790 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia como obedecendo a uma seqüência linear que nasce com a noção de temperatura e culmina com o objeto tecnológico complexo? A máquina a vapor foi o objeto tecnológico que fez nascer uma ciência do calor e temos hoje a possibilidade de usar uma máquina moderna para fazer nascer nos alunos o conhecimento da termodinâmica. Em Carnot se dá a síntese que inicia o tratamento teórico das máquinas térmicas. Os principais elementos que dão origem às leis da termodinâmica estão contidos nesta formulação teórica que encerra o primeiro momento histórico epistemológico. Na perspectiva de um roteiro didático, vemos que Carnot lança as questões fundamentais que darão seqüência à termodinâmica como ciência: define a máquina térmica de forma universal, levanta a questão da máxima potência a ser desenvolvida por estas máquinas, estabelece a independência da potência em relação à substância utilizada e estabelece a condição universal de rendimento máximo de uma máquina térmica. No ponto de vista que apontamos neste trabalho, a explicitação das questões [tratadas por Carnot] a partir de uma perspectiva histórica e epistemológica e sua discussão minuciosa em sala de aula pode claramente preceder qualquer outra análise no planejamento de uma seqüência didática. A passagem do primeiro para o segundo momento se dá a partir da evolução da discussão sobre a natureza do calor. Existem dificuldades relacionadas à teoria do calórico desde Rumford; as experiências de Joule e todos os processos de conversão que estão sendo realizados compõem o momento de ruptura com a noção substancialista do calor. O segundo momento também encerra um dilema sobre a natureza do calor: uma forma de energia ou calor como movimento. Este é um problema que na prática de sala de aula não é sequer mencionado; o calor como movimento já implica em uma teoria cinética da matéria e o calor como uma forma de energia ainda tem fortes ligações com o pensamento substancialista. Uma questão crucial lançada por Kelvin explicita a contradição entre a concepção da natureza do calor utilizada por Carnot e a nova teoria do calor como uma forma de “efeito mecânico”. Neste momento nasce a idéia de uma “tendência universal para a dissipação” e esta se constitui em mais uma ruptura na visão de um universo causal e conservativo. Nasce a necessidade de uma explicação para o comportamento assimétrico das transformações de energia e das transferências de calor. Nesse contexto surge o conceito de entropia. Enfatizamos que esta “germinação” do conceito de entropia se constitui em um elemento primordial numa elaboração de Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 791 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia planejamento didático. As raízes desta formulação estão em Carnot, na condição de reversibilidade de sua máquina. O conceito de entropia tem, portanto uma origem estritamente macroscópica que é frequentemente negligenciada nas elaborações didáticas. A possibilidade de quantificação do calor e sua equivalência com o trabalho produzido se constitui em mais um salto epistemológico que foi dado na construção da racionalidade dos processos térmicos. O que mais caracteriza o segundo momento, do ponto de vista de uma corrente de pensamento é a crença positivista na obtenção da verdade científica. Este pensamento permeia ainda nos dias de hoje uma concepção de produção do conhecimento científico e também a forma como a ciência é ensinada. No pensamento positivista reside a base das seqüências didáticas lineares, impositivas e a-históricas que são comuns nos livros didáticos, os quais, como diz Bachelard, são pacientemente copiados uns dos outros. (2006; p.170) O terceiro momento histórico e epistemológico do percurso tem como foco central a redução do fenômeno térmico às leis da mecânica. A forma pela qual o paradigma newtoneano se impôs no pensamento ocidental e seu enorme sucesso em descrever o mundo físico lhe dá a autoridade necessária para servir de base teórica para a ciência do calor. Este era o pensamento secreto ou explícito dos cientistas do século XIX. A idéia central desde Joule e Clausius, até Maxwell e Boltzmann era reproduzir o determinismo das leis da mecânica nos processos térmicos. Este programa de pesquisa apenas não se realizou em sua totalidade dada as dificuldades inerentes à própria natureza do problema estudado. No ensino de física corrente, a passagem de uma visão de mundo macroscópica para microscópica se faz com numa mudança de canal na TV ou como na aplicação de uma ferramenta de zoom numa imagem de computador. No entanto, esta passagem tem razões científicas para acontecer e uma teoria cinética da matéria deve dar conta de explicar as manifestações macroscópicas da matéria, principalmente o comportamento dos gases e da natureza do calor. A questão central deste momento histórico/epistemológico é a explicação mecânica da irreversibilidade nos fenômenos naturais. Um percurso didático para a entropia deve considerar a questão da irreversibilidade como seu elemento norteador desde o início. A irreversibilidade como uma das manifestações básicas do conceito de energia da mesma forma que é a sua conservação. A questão não se restringe a simplesmente constatar que a Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 792 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia irreversibilidade existe, mas tratar das tentativas de explicar porque ela existe. Neste momento, as diferenças entre uma interpretação microscópica e outra macroscópica da segunda lei crescem em significado, ganham uma dimensão muito mais abrangente do que a mera definição estatística da entropia. A idéia de que o demônio de Maxwell coloca as trocas de calor em termos de uma seleção de partículas, faz a passagem entre um mundo e outro, abre as portas para que professor e aluno se deparem com as questões fundamentais que envolvem o problema de uma formulação mecânica e estatística da irreversibilidade. A termodinâmica, neste ponto é a porta de entrada para a revolução científica que se avizinha e que vai envolver a discussão entre as visões probabilística e determinista do mundo natural. O leitor pode notar que os três momentos têm três enfoques da termodinâmica que podem ser apresentados didaticamente em uma seqüência direta ou não. Sendo que em cada um, novos elementos são agregados à discussão aumentando o nível de complexidade. É importante enfatizar que a explicitação das rupturas que o pensamento científico proporciona em cada momento histórico/epistemológico, em relação ao pensamento comum, é parte fundamental de um planejamento didático que se pretenda dialógico e significativo. Se tomarmos os momentos separadamente, temos condições de traçar estratégias didáticas para os conceitos e fenômenos em diferentes níveis de ensino e aplicações didáticas. Por exemplo, não há necessidade de uma discussão sobre a interpretação cinética da segunda lei se nosso objetivo for um curso introdutório de termodinâmica para técnicos em mecânica de motores. Ao mesmo tempo, em um curso como este, teremos a possibilidade de transformar o objeto de trabalho do aluno em um objeto científico desenvolvido e situado historicamente. Através dos perfis epistemológicos sugeridos por Bachelard, podemos identificar como os conceitos físicos se desenvolveram no interior de cada momento histórico/epistemológico e na passagem entre estes. Através de indicações de como identificar obstáculos epistemológicos em alguns conceitos podemos explicitar as situações em que o pensamento nos engana e realizar uma tomada de consciência como parte do processo de psicanálise do conhecimento objetivo. Notamos por exemplo que o obstáculo substancialista é extremamente persistente no conceito de calor: ele nasce na concepção materialista do fogo, se desenvolve na noção pré-científica do calórico, Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 793 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia permanece embutido na idéia racionalista de calor como uma forma de energia e chega até à discussão entre atomistas e energetistas no final do século XIX. Sobre a polêmica questão da relação entre entropia e desordem, sugiro evitar a discussão sobre o que é desordem e se ela existe objetivamente enquanto noção na física. O tratamento que procuro dar a esta questão se resume ao uso da imagem da desordem na sua dimensão pedagógica. Considero que esta imagem deve ser usada com parcimônia e cercada dos cuidados técnicos que garantam o rigor científico do conceito. Não vemos como essencial, atrelar o conceito de entropia a uma imagem cotidiana. Trata-se de um conceito complexo, entretanto não é um “bicho de sete cabeças” e por isto deve ser tratado apenas como mais um conceito complexo da física. A questão não está concentrada na dificuldade do conceito em si, mas na forma como ele é comumente tratado nos manuais de física. Existe a tendência psicológica, exaustivamente demonstrada por Bachelard, de nos acomodarmos a pensamentos familiares, a imagens chamativas, a experiências fáceis encontradas na nossa vida diária. Entretanto, a tarefa do ensino científico tem em sua essência a construção da racionalidade, sem a qual não é possível a mudança efetiva da realidade. Mudar a realidade não é apenas ser capaz de promover revoluções maiores ou menores. É principalmente realizar o trabalho cotidiano da busca pela autonomia. É o esforço formativo do espírito para superar obstáculos internos e externos no caminho da autodeterminação. É autônomo aquele que é capaz de pensar e modificar o objeto do seu trabalho, de reproduzir fenômenos conhecidos, e de criar novos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANGOTTI, José André; DELIZOICOV, Demétrio; PERNAMBUCO, Marta M. C. A. Ensino de Ciências: Fundamentos e Métodos. São Paulo: Cortez, 2002. BACHELARD, Gaston. A Formação do Espírito Científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 2005. BACHELARD, Gaston. Epistemologia. Lisboa: Edições 70, 2006. Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 794 Um Enfoque Histórico e Epistemológico para o Ensino de Física: o caso da entropia Este trabalho tem em sua gênese um elemento primordialmente didático. Embora se trate de uma pesquisa cuja base empírica não tenha sido construída no lócus da sala de aula, está direcionada de forma a servir como elemento de orientação didática. Esta orientação se dá no sentido em que o trabalho visa delinear caminhos históricos e epistemológicos para o ensino da termodinâmica que agreguem elementos novos à prática do professor. Além dos elementos explícitos como o estudo histórico dos fatos científicos e a adoção de uma visão epistemológica da ciência, outros elementos de fundo norteiam a intenção global deste trabalho. Zanoni Tadeu Saraiva dos Santos 795