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Pró-Reitoria de Graduação
Curso de Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo
Trabalho de Conclusão de Curso
ESTUDOS SOBRE A TANGIBILIDADE DA OBJETIVIDADE E
IMPARCIALIDADE NA RELAÇÃO ENTRE POLIFONIA E
JORNALISMO
Autor (a): Jussara Silva Meireles
Orientador (a): Prof.ª Dr.ª Rafiza Luziani Varão Ribeiro Carvalho
Brasília - DF
2013
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JUSSARA SILVA MEIRELES
ESTUDOS SOBRE A TANGIBILIDADE DA OBJETIVIDADE E IMPARCIALIDADE
NA RELAÇÃO ENTRE POLIFONIA E JORNALISMO
Monografia apresentada ao curso de
graduação em comunicação social da
Universidade Católica de Brasília, como
requisito parcial para obtenção do título
de Bacharel em jornalismo.
Orientador (a): Prof.ª Dr.ª Rafiza Luziani
Varão Ribeiro Carvalho
Brasília
2013
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Monografia de autoria de Jussara Silva Meireles, intitulada “Estudos Sobre a
Tangibilidade da Objetividade e Imparcialidade na Relação entre Polifonia e
Jornalismo”, apresentada como requisito parcial para a obtenção de grau de
Bacharel em Jornalismo da Universidade Católica de Brasília, em 26/06/2013,
defendida e aprovada pela banca abaixo assinada.
_________________________________________
Profª. Drª. Rafiza Luziani Varão Ribeiro Carvalho
_________________________________________
Prof. Msc. Lunde Braghini Junior
_________________________________________
Profª. Msc. Ana Carolina Kalume Maranhão
3
Para Arthurmira Cabral, por toda força,
conhecimento e garra compartilhada.
4
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiramente a Deus, por ter me proporcionado saúde para
desempenhar meu trabalho e por me dar oportunidade de estudar com uma bolsa
em uma instituição reconhecida. À minha família, pelo apoio incondicional. Em
especial minha a mãe e ao meu pai, que trabalharam duro para manter meus
estudos. À minha orientadora de projeto I, Ana Karolina Kalume Maranhão, pelo
carinho, pela dedicação, por me mostrar a direção e me apoiar nessa empreitada, e
à minha orientadora de projeto II, Rafiza Luziani Varão Ribeiro Carvalho, pela
enorme paciência, disponibilidade e amizade.
Agradeço também a todos os meus amigos, pelo carinho, atenção e pela boa
vontade até mesmo nas frias madrugadas. Um agradecimento em especial eu faço
para a minha amiga Flávia Fonseca, por me ouvir e dar bons conselhos desde meu
primeiro dia de aula na graduação. Por fim, agradeço a todos os meus professores,
que me impulsionaram até aqui, na concretização de um grande sonho.
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“A realidade é circunscrita, a ilusão é
infinita; porém a realidade não passa, no
fundo, de uma ilusão vivida.”
Vargas Vila
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RESUMO
MEIRELES, Jussara Silva. Estudos sobre a tangibilidade da objetividade e
imparcialidade na relação entre polifonia e jornalismo. 2013. 49p. Monografia
apresentada ao curso de graduação em comunicação social da Universidade
Católica de Brasília, Brasília 2013.
Esta monografia tem por objetivo analisar os conteúdos vigentes sobre os conceitos
de objetividade e imparcialidade no jornalismo como forma de indagá-los em um
quadro do conhecimento que os define como ideais a serem seguidos por parte dos
profissionais, observando-os pelas vozes inseridas no discurso, mais conhecidas
como polifonia, utilizando como base a Teoria da Argumentação da Língua,
desenvolvida por Oswald Ducrot em parceria com Jean Claude Anscombre. A
investigação tem como embasamento as obras de autores da área comunicacional
que já estudaram ou comentam sobre perspectivas e opiniões acerca da
objetividade e imparcialidade jornalística, como Luiz Amaral e Clóvis de Barros Filho,
que comparados e confrontados com os apontamentos de Ducrot e Anscombre
podem levantar as respectivas conclusões sobre os conceitos serem ou não
tangíveis, bem como consequências e posturas dos jornalistas.
Palavras-chave: Objetividade. Imparcialidade. Jornalismo. Polifonia.
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ABSTRACT
This monograph pretends to analyze the current contents of the concepts about
objectivity and impartiality in journalism like as a form of asks them in a framework of
knowledge that defines them as ideals to be followed by professionals, watching
them by voices inserted in speech , better known like polyphony, using like basis the
Argumentation Theory of Language, developed by Oswald Ducrot in partnership with
Jean Claude Anscombre. The investigation has as basis the works of authors in the
field of communication who have studied or comment about perspectives and
opinions about objectivity and impartiality journalistic, like Luiz Amaral and Clovis de
Barros Filho, whom compared and confronted with the notes of Ducrot and
Anscombre can raise their conclusions about the concepts be or not achievable, as
well as consequences and positions of journalists.
Keywords: Objectivity. Impartiality. Journalism. Polyphony.
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO .......................................................................................................................................... 9
1. Apresentação do problema de pesquisa e justificativa .............................................................. 9
Objetivos, procedimentos metodológicos e estrutura da tese..................................................... 12
I PARTE: QUESTÕES PRELIMINARES ...................................................................................................... 16
1. Origens ...................................................................................................................................... 16
1.1 Níveis de isenção: uma possibilidade real? ............................................................................. 21
2. O que já foi pesquisado ............................................................................................................. 23
3. Objetividade e Imparcialidade: Perspectivas Teóricas .............................................................. 26
4. Um debate entre estudiosos ..................................................................................................... 27
5. Amaral e Barros Filho: duas pesquisas e um caminho semelhante .......................................... 32
II PARTE: JORNALISMO E POLIFONIA .................................................................................................... 36
6. Polifonia em análise .................................................................................................................. 36
6.1 A Polifonia e a Teoria da Argumentação da Língua por Ducrot e Anscombre ........................ 38
6.2 O jornalismo, a polifonia e a Teoria da Argumentação da Língua .......................................... 39
III PARTE: JORNALISMO E ÉTICA ............................................................................................................ 41
7. Objetividade, imparcialidade e ethos jornalístico ..................................................................... 41
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................................ 46
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 47
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INTRODUÇÃO
1. Apresentação do problema de pesquisa e justificativa
O jornalismo, desde seu desenvolvimento maior no século XVIII, foi uma
ferramenta para promover a veiculação dos discursos interpretativos da realidade
para a sociedade. Discursos que são executados por várias maneiras de reportar
os fatos, seja como texto, som, imagem, dentre outros, e que cumprem um papel
de informar sobre os acontecimentos de relevância social.
É difícil separar o jornalismo dos conceitos de comunidade e democracia
por causa da ligação entre eles. Ou seja, em certo contexto, ele pode exercer na
sociedade civil uma função fiscalizadora dos poderes públicos e privados e ter o
papel de trazer autonomia e a verdade dos fatos, proporcionando cidadania, como
Luiz Martins da Silva afirma em Imprensa e Cidadania – Possibilidades e
contradições:
A imprensa exerce, por delegação da sociedade e dos cidadãos, o poder
de fiscalizar os outros poderes, o que significa, por excelência, a tarefa de
dar visibilidade à coisa pública. Ora, a visibilidade é uma condição da
democracia (SILVA, 2002, p. 48).
Para fazer uma análise da atividade do jornalismo é importante estudar o
contexto no qual ele está inserido assim como para quem ele é oferecido,
incluindo-se a formação linguística usada pelo individuo receptor e pelo agente
produtor da notícia.
É importante ressaltar nesse contexto, que a definição de jornalismo
anteriormente citada, por vezes pressupõe o revestimento da atividade do
jornalista em captar informações recorrentes de fatos e transmiti-las com
impessoalidade, como será visto mais adiante, seguindo certos padrões
profissionais e éticos, uniformizando o fato de forma que ele tenha certo grau de
utilidade ao ser repassado para os cidadãos.
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Objetividade, imparcialidade e seu contexto
Im. par. cia. li. da. de s.f. neutralidade; justiça (HOUAISS, 2003, p. 285).
Objetividade (s.f.)  Etim.: do lat. objectum, aquilo que é colocado diante,
que opõe, por derivação, objetivo é aquilo que se relaciona com um objeto
dado e objetividade refere-se à qualidade de algo que existe
independentemente do espírito, do julgamento, de nossa avaliação; aquilo
que é da própria coisa. Característica do que é objetivo, externo à
consciência, resultante de uma observação imparcial, independentemente
do juízo ou preferências individuais. (MARCONDES FILHO, 2009, p. 277).
Quando se ouve falar em imparcialidade e objetividade, as palavras
remetem a princípio àquela definição descrita nos dicionários que anunciam estes
conceitos como representantes possíveis de neutralidade e da isenção,
características que exprimem um discurso limpo e objetivo, sem a defesa de uma
posição ou de um único lado. No Dicionário da Comunicação, Ciro Marcondes
Filho apresenta o conceito de forma epistemológica como um indicador de
veracidade e não como a verdade em si. Também no âmbito jornalístico, o termo é
expresso mais complexamente, seja ele, tecnicamente conceituado como um
comprometimento em adotar as regras para redigir um texto juntamente com a
adoção de uma postura eticamente neutra, ou ainda criticamente, como quando
comparada ao comércio, que não se importa com a subjetividade de ambas as
partes, mas sim com a transação comercial.
No ramo jornalístico, muitas vezes a aplicação prática de tais conceitos é
tida pelos próprios profissionais, os jornalistas, como algo impossível, apenas uma
proposta a ser idealizada para tentar ser alcançada, e essa tentativa já bastaria. A
ideia se baseia em uma série de variáveis que os acompanham em todo o seu
laborioso processo de apuração e verificação das informações, além dos
princípios pré-estabelecidos para a produção das informações, os veículos que
estão por trás delas e o próprio receptor.
São possíveis fatores que interferem na objetividade e na imparcialidade
jornalística: a ideologia e a cultura do profissional, a linha editorial da empresa, o
recorte feito da realidade em si, a própria compreensão do público e a participação
dele na elaboração do material final, dentre muitos outros aspectos. Tudo isso
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interfere na composição do material noticioso que será veiculado para o receptor
de determinado veículo e se apresentam como realidades intrínsecas, difíceis de
afastar a narrativa dos acontecimentos.
Cabe aqui, porém, tratar de objetividade e imparcialidade dentro da
polifonia1 do discurso e das diversas aparências que estes conceitos possuem e
criam características para o jornalismo, que na divulgação de informações pode ou
não transmitir ideias diferentes sobre o mesmo assunto. Valério C. Brittos e Édison
Gastaldo comentam a ideia da multiplicidade de sentidos em Mídia, poder e
controle social:
Aqui entra em cena o papel desempenhado pelo sistema da mídia, como
um importante ator discursivo, propositor de definições da realidade. É
evidente que o campo midiático é lugar de disputas entre diferentes
participantes, em condições desiguais de poder econômico e simbólico,
sendo o somatório de seus discursos uma polifonia nem sempre afinada
(BRITTOS & GASTALDO, 2012, p. 124).
O que os autores buscam explicar de forma crítica na citação acima é que
por vezes, a realidade recortada torna-se a única possível para a maioria dos
receptores, e a briga por audiência e poder muitas vezes faz com que a realidade
seja distorcida. Essa noção de parte dos jornalistas pode ser sugerida, em certo
sentido como o oposto da polifonia, caso esta última represente multiplicidade de
vozes em um mesmo discurso, e essas vozes também apresentem multiplicidade
de visões acerca do fato em si, ou seja, para eles o momento em que a
informação é simplificada dentro de uma mídia para a circulação ela não pode
faltar na complexidade e contextualização.
A polifonia no texto jornalístico pode ser analisada no trecho dos autores
acima como produtora de diversas realidades (não afinada) não descrevendo
objetivamente os fatos, ou ainda manipulando a verdade, se tornando parcial.
Contudo, esta mesma polifonia pode ainda ser usada pelo jornalismo para
produzir múltiplas versões de um mesmo assunto, possibilitando ao receptor
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Polifonia em linguística significa a existência de múltiplas vozes dentro de um mesmo texto, ou seja, a
presença, implícita ou não, de dois ou mais autores em um mesmo enunciado. Mikhail Bakhtin baseia seus
estudos polifônicos na intertextualidade, já Oswald Ducrot estuda a polifonia pelo viés semântico nos
discursos.
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analisar vários ângulos de uma mesma realidade e proporcionando a divulgação
de informações de uma forma amplificada. A depender do contexto, os conceitos
de objetividade e a imparcialidade são analisados diferentemente, transformando
os conceitos em um campo de estudo complexo, mas necessário para entender a
criação e veiculação e recepção das notícias. Contudo, para entender os
conceitos citados anteriormente e verificar suas possíveis ligações com a polifonia
é necessário ir de encontro a sua gênese e analisar seus campos de
aplicabilidade.
Objetivos, procedimentos metodológicos e estrutura da tese
Este trabalho tem como objetivo principal empreender uma análise sobre os
conceitos existentes de objetividade e imparcialidade no jornalismo como forma de
investigar tais conceitos em um quadro do conhecimento que as definem como
ideais, observando-os por meio das várias vozes inseridas no discurso ou polifonia
da língua, a partir do pensamento de Oswald Ducrot e Jean Claude Anscombre,
verificando as possíveis influências na postura ética do jornalista.
Através deste objetivo geral o presente trabalho busca:
 Analisar a gênese da formulação dos conceitos de objetividade e
imparcialidade, desde o surgimento até a atualidade, como forma de identificar
de que forma esses conceitos são representados no jornalismo através de um
debate entre os autores Luiz Amaral e Clóvis de Barros Filho onde discuta se os
mesmos conceitos podem ser tangíveis.
 Analisar as interferências gramaticais do discurso na construção da
informação, mais especificamente a polifonia, à luz da Teoria da Argumentação
da Língua proposta por Oswald Ducrot e Jean Claude Anscombre,
correlacionando esta última à respectiva objetividade e imparcialidade
jornalística.
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 Refletir sobre conceitos de imparcialidade e objetividade no campo
jornalístico, correlacionados ao ethos do profissional como forma de visualizar
as possíveis utilidades deles.
Justificativas e caminhos da pesquisa
Apesar da constante análise das ferramentas do fazer jornalístico, a
imparcialidade e a objetividade são constantes alvos de dúvidas e a escolha de uma
análise deve-se exatamente a sua relatividade e maleabilidade diante das várias
formas de construção das notícias.
Nesse sentido, a validade de um estudo também trará à luz a análise sobre o
ponto onde os conceitos de objetividade e imparcialidade devem ou não ser vistos
como mutáveis. E também irá depender do contexto de tais conceitos e de uma
compreensão implícita onde forem analisados com profundidade para acertar se
esses conceitos foram ou não buscados e contraídos nos discursos de um modo de
análise curto, ingênuo e impreciso.
Além disso, dada a relevância da informação, da produção de notícias e suas
respectivas veiculações para a sociedade alude-se a importância de analisar como
esses conceitos implicam nessa esfera do conhecimento para poder compreender
como eles podem ser trabalhados pelos próprios profissionais da notícia.
O estudo desses conceitos de objetividade e imparcialidade, portanto, auxilia
a sistematizar e compreender as procedências dos discursos noticiosos, bem como
as concepções históricas que admitem no tempo (historicamente), a presença de
enunciações que se apresentam como apropriadas, tais como os interesses de
consumo de material jornalístico que se modificam conforme o quadro de interesses
presentes, onde é possível estudá-lo pelas teorias da comunicação acima citadas.
Cabe, portanto, verificar até onde a objetividade e imparcialidade são possíveis, do
que elas dependem e por qual motivo os conceitos podem se modificar.
O presente trabalho consiste portanto, em um estudo exploratório sobre os
conceitos de objetividade e imparcialidade jornalísticas pelo viés da polifonia no
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discurso de Oswald Ducrot, seguido por um estudo descritivo de tais conceitos. A
estratégia para abordar os objetivos propostos centra-se em uma pesquisa teórica
conceitual, situada nos pensamentos e estudos de vários autores, enfatizando
Luiz Amaral e Clóvis de Barros Filho, que serão reforçados em cada aspecto
pesquisado por demais autores do âmbito comunicacional, como forma de analisar
o pensamento deles sobre objetividade e imparcialidade, demonstrando suas
respectivas posições e confrontando conceitos pertinentes às propostas deles. A
pesquisa toma como base a investigação analítica, com ênfase nos métodos de
análise de conteúdo bibliográfico e documental de pesquisas empreendidas sobre
os conceitos de objetividade e imparcialidade jornalísticas, assim como o discurso
aferido nessas obras em questão.
O corpus de análise é constituído por uma análise destes pensamentos,
relacionando-os à Teoria da Argumentação da Língua, proposta por Oswald
Ducrot e Jean Claude Anscombre a fim de verificar a relevância da polifonia
presente e a sua relação com a postura ética. Por fim as ideias dos autores serão
conferidas para ser possível visualizar se a imparcialidade e objetividade são
conceitos tangíveis.
A pesquisa dividiu-se em cinco etapas, conforme expostas abaixo:
Levantamento bibliográfico e estudo dos conceitos sobre objetividade e
imparcialidade

Inicialmente, foram estudados, por meio de pesquisa exploratória os
conceitos por uma perspectiva histórico-conceitual, referindo as obras de diversos
autores, como Nelson Traquina, Luiz Amaral, Clóvis de Barros Filho, Nilson Lage,
Mauro Wolf, dentre outros, para sintetizar suas posições.

O estudo exploratório empreendido teve como foco livros, artigos e
dissertações de estudos dos autores acerca do tema.
Identificação de valores

Por conseguinte, foram separados os autores cujo pensamento tinham
maior importância para responder os questionamentos presentes no tema proposto:
Clóvis de Barros Filho e Luiz Amaral.
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
Os autores Amaral e Barros Filho tiveram como reforço de suas ideias
artigos dos demais autores que comentam tais conceitos.
Estudos e Comparativos

Os estudos dos conceitos de objetividade e imparcialidade jornalística
foram correlacionados, quando possível, à Teoria da Argumentação da Língua,
proposta por Oswald Ducrot e Jean Claude Anscombre.

O conteúdo foi conferido e analisado sob o aspecto polifônico na
posição dos autores citados nas referências.
Contraposição de autores

As ideias dos dois autores foram confrontadas entre si e a partir da
conclusão da análise do estudo da objetividade e da imparcialidade jornalística.

As posições dos autores foram apresentadas expondo os pontos dos
conceitos acima descritos.

Foi então feita uma reflexão apontando respectivas ligações dos
conceitos de objetividade e imparcialidade ao ethos jornalístico.
Levantamentos da conclusão do debate

Por fim,
é
apresentada
uma
análise
sobre
o
conjunto
de
posicionamentos e conclusões expondo os resultados do trabalho, bem como as
considerações sobre o mesmo.
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I PARTE: QUESTÕES PRELIMINARES
“Daria tudo que sei pela metade do que ignoro.”
René Descartes
1. Origens
Aprofundando o assunto, sabe-se até aqui que a objetividade e a
imparcialidade é um assunto bastante multifacetado e polêmico, que necessita de
uma análise reflexiva sobre suas várias nuances. Mário Erbolato deixa isso bem
claro em Técnicas de codificação em jornalismo quando expõe:
Nenhum jornalista duvida que interpretar objetivamente é mais difícil do
que informar. [...] Contudo, a simples informação, às vezes, também é
difícil de ser redigida dentro da rigorosa objetividade (ERBOLATO, 1991, p.
35).
Segundo Luiz Amaral, (1996, p. 19), existem informações que remontam ao
século III a.C. onde se relata que Aristóteles (384a.C - 322a.C) afirma que as
ideias são homogêneas, remetendo a um discurso sobre objetividade, em que o
intelecto ativo que parte da inteligência capta nas coisas (mundo real) a
compreensão.
Platão (427a.C - 327a.C), por sua vez, defendia a mutabilidade e a
relatividade das ideias e das coisas, pelo questionamento da realidade, como
expõe em seu exemplo imagético clássico do mito da caverna2 onde ele narra o
que o indivíduo compreende da realidade e o que ela realmente é, e também
descreve como o mesmo pode se desprender da subjetividade para objetividade
das ideias. Para ele, a imparcialidade é possível quando o ser humano se liberta
da ignorância e alcança a consciência, obtida através da racionalização. Mais à
frente, o realismo também é estudado pela filosofia escolástica na Idade Média e
2
A narrativa Alegoria da Caverna, ou Mito da Caverna é uma das passagens presentes na obra de Platão A
República, onde o autor trata dentre outros aspectos através de um conto em que prisioneiros são impedidos
de conhecer a realidade, a dificuldade do ser humano em lidar com a verdade. Platão acreditava haver o
mundo físico, sujeito a concepções prévias e errôneas, que não necessariamente correspondem à realidade, e
também o mundo das ideias, inteligível, onde a verdade e o conhecimento habitam inertes e imutáveis.
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investigado por René Descartes (1596 - 1650), que para estabelecer a dúvida,
também lançou consciência ao indivíduo na célebre frase: “penso, logo existo”,
que também descreve seus pensamentos sobre realidade e sobre ideias inatas,
como Deus, por exemplo, podendo ser consideradas como imparciais.
Para Immanuel Kant (1724 - 1804), como a realidade depende da mente,
nunca é possível ver as coisas tal como elas realmente são. Arthur Schopenhauer
(1788 - 1860) concorda com Kant, afirmando que a realidade é uma representação
do indivíduo. Já Karl Marx (1818 - 1883) é taxativo ao descrever sua opinião sobre
o conhecimento no que concerne à objetividade e à imparcialidade, afirmando
estes últimos serem impuros (AMARAL, 1996, p.20) por uma série de questões,
mas principalmente pelas condições sociais e por estarem sujeitos à interpretação,
mas os mesmos conceitos podem ser mutáveis quando estas categorias se
alteram. Max Weber (1864 - 1920) achou difícil ser objetivo, Edmund Husserl
(1859 - 1938) procurou o objetivo no subjetivo, comentando que o objetivismo
científico deveria superar o subjetivismo, já que a realidade independe deste
último. Pesquisando sobre o assunto, Karl Popper (1902 - 1994) procurou dividir o
mundo em três, sendo um deles o objetivo, e ainda afirmou que uma teoria pode
sempre ser contrariada pelos fatos, ou seja, ela pode ser mutável. Portanto, se a
imparcialidade não puder ser completamente alcançada, ela ainda pode ser
buscada com a finalidade de se conferir níveis de isenção.
Observando também o campo da comunicação, é perceptível trajetórias
diversas na compreensão dos conceitos de objetividade e imparcialidade.
Segundo Nelson Traquina, os ideais de objetividade e imparcialidade no
jornalismo tiveram sua origem nos Estados Unidos por volta do fim do século XIX
e se tornaram conhecidos apenas no século XX com o que o autor chama de
Novo Jornalismo3, período que determinou o jornalismo como quarto poder, além
de incumbir à imprensa a função de servir ao público, auxiliando no exercício de
seus papéis na sociedade. Além disso, o Novo Jornalismo teve como propósito a
separação entre fato e opinião (TRAQUINA, 2003, p. 66), ocasião que também
3
Nelson Traquina se baseia no pensador alemão Otto Groth para utilizar a terminologia Novo Jornalismo.
Nesse caso, o termo não se refere ao New Journalism americano, mais conhecido como jornalismo literário.
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definiu os limites morais e éticos da profissão, estabelecidos nos manuais: a forma
de informar e a notícia acabaram sendo submetidos à construção do lead, à
pirâmide invertida e aos critérios de noticiabilidade, em busca de um consumo
maior e um círculo de leitores mais amplo. Alicerçado pelo positivismo, doutrina
esta que pregava a racionalidade, verdade, a realidade fundamentada na ciência,
esse advento transformou a criação da época, tendo a fotografia como um
complemento para retratar a realidade das informações prestadas pelos veículos
de informação. Traquina descreve esse acontecimento em Teorias do Jornalismo
como uma fase que foi acompanhada pela obsessão pelas notícias:
As notícias tornaram-se mais orientadas para o acontecimento, o que não
é dizer que o anterior jornalismo não noticiava acontecimentos; mas o
conteúdo dominante dos jornais começou a concentrar-se em
acontecimentos, por oposição a opiniões políticas (TRAQUINA, 2005,
p.54).
O advento desse Novo Jornalismo, fase que o autor descreve aquela de culto
aos fatos, também foi um período que marcou o crescimento da imagem do repórter,
um profissional incumbido de “relatar” o fato, através da investigação e apuração das
informações de forma “fiel” àquela realidade, transformando a objetividade e a
imparcialidade como ideais a serem perseguidos. Esses ideais passaram a ser
adotados como parte de um manual de regras para obter uma boa apuração dos
fatos, ancorando credibilidade à notícia, buscando conquistar no público a sua
confiança, determinando o conceito como parte do Ethos profissional. Luiz Amaral
relaciona esse acontecimento com a transformação do jornal como um negócio:
É dos primeiros 30 anos do século XIX na Inglaterra, França e Estados
Unidos a passagem da imprensa politizante para uma imprensa
comercializada. A partir de então, a objetividade, ou melhor, aquilo que
mais tarde ganharia o nome de objetividade, passa a se identificar com
uma mistura de estilo direto, imparcialidade, factualidade, isenção,
neutralidade, distanciamento, alheamento em relação a valores e ideologia
(AMARAL, 1996, p.26).
Ciro Marcondes Filho concorda com o autor e reforça seu argumento, na
obra Dicionário da Comunicação, na qual ele liga os conceitos ao capitalismo e ao
momento em que o conhecimento passa a ser para a sociedade um artigo
mercantil, e da mesma forma, a informação passa a ser entendida como um
produto a ser vendido.
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Além disso, Amaral aponta ainda como fatores que contribuíram para a
adesão dos conceitos, o surgimento das agências de notícias, da publicidade, das
relações públicas, o desenvolvimento da indústria, a invenção do telégrafo e a
ocorrência da 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Todos esses acontecimentos sociais e
tecnológicos desenvolveram, alicerçaram o capitalismo e transformaram o jornal
em um negócio, causando inclusive o imediatismo das informações, exigindo dos
jornais uma apuração mais objetiva, como afirma Nelson Traquina (2005, p.54) “a
utilização
duma
linguagem
homogeneizada,
rápida,
de
fatos
escassos”,
transformando o modo de noticiar e reportar as informações.
Nesse campo de transformação do jornalismo como meio mercadológico,
cabe citar personalidades importantes que marcaram a passagem deste meio de
comunicação do século XIX para XX: Joseph Pulitzer (1847 - 1911) revolucionou a
forma como os jornais eram produzidos, tornando a sua linguagem acessível a
públicos de todas as classes sociais, praticando jornalismo investigativo,
denunciando empresas e defendendo igualdade social e democracia. Pulitzer foi
responsável pela mudança nos jornais, tanto na diagramação, na criação de
manchetes, no uso de publicidade, imagens, cartuns e gráficos, quanto pela
construção de novos valores para a veiculação de informações, estes últimos mais
voltados às classes menos favorecidas. Por todas essas inovações, ele foi na
mesma época acusado pelos veículos tradicionais de produzir jornalismo
sensacionalista e jornalismo amarelo4. Contudo Pulitzer difundiu a ideologia de
liberdade de imprensa, e principalmente a produção de notícias como serviço
público.
Não obstante a Pulitzer, William Randolph Hearst (1863 - 1951) também
inovou buscando as classes trabalhadoras, trazendo publicidade aos jornais, e do
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O termo jornalismo amarelo surgiu no fim do século XIX para descrever o jornalismo sensacionalista, que
trazia para os jornais da época o entretenimento em forma de imagens chamativas, notícias de crimes, cartuns
e até mesmo jogos, criados por Pulitzer e Hearst em busca de maior audiência. O nome corresponde ao
período em que os jornais de ambos disputaram o personagem da primeira tira em quadrinhos, o yellow kid,
cartum que ficou muito popular. Um dos fatores associados a essa popularidade foi a impressão em cor
amarela da roupa do personagem. A temporada da disputa marcou a divulgação de notícias escandalosas, de
cunho essencialmente emocional e provocativo como yellow-press ou jornalismo amarelo. No Brasil o termo
para a mesma prática é conhecido como imprensa marrom.
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mesmo modo foi acusado de praticar jornalismo amarelo. Contrariando todos os
jornais
tradicionais
da
época,
Hearst
construiu
um
império
midiático,
desenvolvendo um jornalismo mais voltado ao entretenimento. No início de sua
carreira, também lutou pelos direitos da massa trabalhadora. Entretanto, com o
tempo Hearst passou a usar seus veículos para os próprios interesses,
censurando, inventando informações e manipulando as notícias.
Todavia, as contribuições de ambos foram essenciais para desenvolver em
certo grau a forma de seleção e produção de notícias, bem como a linguagem e a
amplitude de público.
Após esse período as informações veiculadas nos jornais passaram a
investigar como a notícia era transmitida e recebida, e então os profissionais
buscaram ater-se aos acontecimentos que marcavam a época e encontrar o outro
lado do que declarava a política. Antes, a maioria dos jornais produzidos eram
altamente subjetivos, não havia um veículo que conseguisse diferenciar a
informação da opinião. Apenas com a mudança começou a se pensar em como o
conteúdo era repassado ao público:
O papel central de valores como objetividade, equilíbrio e imparcialidade
dentro da própria ideologia jornalística, e a crescente importância do
desempenho dos mídia e do jornalismo no tecido social e, em particular,
na luta política contribuíram para uma preocupação com o desempenho
dos jornalistas, em que uma questão fundamental que emerge dentro do
estudo do jornalismo é se há ou não distorção na informação (TRAQUINA,
2001. p. 58).
Para Traquina, foi portanto o advento do Novo Jornalismo que trouxe essa
vertente juntamente à necessidade de se repassar um conteúdo de qualidade e
não apenas sensacionalista. Com este conceito se seguiu a necessidade de se
estruturar regras para avaliar a qualidade e a produção das notícias, os chamados
manuais de redação e códigos de ética, que continham os conceitos de
objetividade e imparcialidade, sobretudo, como uma meta para os profissionais
alcançarem o máximo de isenção possível diante dos fatos divulgados, ou seja, se
absterem de dar qualquer tipo de influência ou opinião.
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1.1 Níveis de isenção: uma possibilidade real?
Nessa nova configuração na produção da informação é o repórter que se
cobra sobre a apuração, pois foi ele quem recolheu as informações, ou seja,
esteve mais próximo da realidade descrita. Em uma situação ideal, é este
profissional que busca ser fiel às suas fontes, narrando a versão da história tal
como descrita por elas, além de buscar outras versões do mesmo evento.
Nesse sentido cabe investigar se em algum momento ou em alguma
condição é possível a realidade ser tal qual ela é.
Victor Eduardo Braga, que em sua pesquisa retoma Focault para
compreender a “vontade de verdade” descreve essa tentativa do profissional em ser
isento e verdadeiro:
A vontade de verdade é, no campo jornalístico, encampada pela promessa
de verdade do fato, que jogando com a pretensa obviedade da proposta,
nos deixa perceber um sentido subjacente [...] Há por trás da promessa de
verdade do fato, um profundo desejo do campo jornalístico de que sua
técnica seja encarada como a maneira adequada de mostrar – e logo, de
ver – o mundo (BRAGA, 2010. p.2).
Contudo, a ideia de espelhar a realidade logo se esbarra com a adequação
aos fatos, o recorte do jornalista, que pode até conseguir fazê-lo bem próximo do
real, porém a questão principal é a total ou parcial isenção. O jornalista enfrentará
ao descrever a realidade todo um contexto imposto ao redor da notícia que pode
influenciá-la. E o fato da comunicação ser o meio comum de todas as informações
coloca a polifonia, ou seja, as vozes dentro da narrativa jornalística dos fatos um
importante objeto de análise para identificar onde e
o quanto esses
enfrentamentos são bem sucedidos na prática jornalística, o seja na transmissão
de notícias. Não obstante, a imparcialidade e a objetividade quando procuradas,
sejam elas significando metas ou mitos, hoje ainda são conceituadas tanto nos
dicionários, quanto nos manuais de redação e códigos de conduta profissional
como mediadoras da verdade, equalizadoras da informação e da realidade na
situação a qual elas estão inseridas. Nesse sentido pode-se, portanto, obter níveis
de isenção, onde a objetividade e imparcialidade são consideradas maiores ou
menores, definidas em graus que dependerão do contexto no qual estão sendo
22
analisados os conceitos. Dentre os autores que reforçam esse conceito, Caio Túlio
Costa se baseia em Gilles Gauthier em sua obra Ética, Jornalismo e nova Mídia,
relembrando características deste último que enquadram a objetividade em
contextos e sentidos diferentes, podendo ela ser em algumas questões palpável, e
em outras não, conforme sua adequação:
A área de aplicação de objetividade no jornalismo seria então limitada à
maneira pela qual a notícia é manipulada. O aspecto no qual a objetividade
se aplica seria somente o da manufatura da notícia, e não o da coleta de
informação nem o de suas condições externas. A quinta proposição de
Gauthier indica que o essencial da objetividade jornalística seria
preliminarmente, o relacionamento fundamental entre o profissional e os
fatos que relata, ou melhor, a maneira pela qual este processa a
informação. A quinta proposição seria o resultado lógico das quatro
primeiras. Porque a objetividade foi sucessivamente reduzida à
reportagem e ao jornalismo informativo, e porque a coleta de informação e
as condições de trabalho do jornalista foram excluídas da área de
aplicação da objetividade, tornou-se possível e certamente necessário
limitá-la ao aspecto do processamento da informação (COSTA, 2009. p.
162).
As cinco proposições a que o autor se refere são os pontos essenciais à
objetividade apresentados por Gauthier: o primeiro afirma que a objetividade deve
abranger apenas reportagens factuais, excluindo outras áreas em que o repórter
defende algo ou alguém, como jornalismo editorial e partidário. A segunda
proposição diz que a objetividade deve ser aplicada apenas ao jornalismo
informativo, para assim restringir o comprometimento do jornalista com a notícia
em si. A terceira proposição de Gauthier alerta que a objetividade não se aplica à
coleta de informações e a quarta diz que a objetividade também não se aplica à
produção de reportagens. A quinta e justifica as anteriores ressaltando que a
objetividade possui campo limitado, nesse nível portanto, Gauthier acreditava ser
possível o exercício da objetividade em jornalismo. Costa (2009, p.163) critica a
forma como Gauthier comporta sua teoria para objetividade, pois ele acaba
citando J.C. Merrill e Donald McDonald para contrapor forças e derrubar suas
respectivas teses, esquecendo-se de comentar a questão ideológica do conceito.
Costa então aponta Judith Lichtenberg, que se apoiando em Gauthier desenvolveu
melhor a ideia da possibilidade da objetividade, afirmando que o conceito se apoia
na verdade, condição em que a autora acaba por comprometer sua tese,
misturando o conceito de verdade com jornalismo.
23
O autor ainda perpassa por estudiosos que descartam a impossibilidade da
objetividade em alguns aspectos, como Clóvis de Barros Filho, Theodor Adorno e
Max Horkheimer e outros a favor do conceito como Adam Schaff e Liriam Sonholz,
estes dois últimos apontando uma série de situações onde a objetividade poderia
ser obtida em certos graus, como na abstenção de sentimentos, ou ainda na
coleta de informações, antes de se tornar signo. O autor então ataca alegando que
quando o jornalismo veicula a informação, ele transmite uma representação da
realidade, representação esta, limitada por uma série de fatores, como ser
procedente de outras representações, passível das mais variadas interpretações e
produtora de mais representações a depender de contextos.
Aprofundando ainda mais seu ponto de vista, Caio cita as limitações físicas
e o filtro da indústria cultural que acaba por comprometer até mesmo o que a
sociedade acredita ser verdadeiro e necessário. A indústria cultural portanto acaba
por comprometer a verdade e a realidade.
Já na polifonia, esse grau pode ser definido em informação manipulada que
omite e/ou esconde a realidade ou multiplicidade de sentidos para uma maior
liberdade de interpretação por parte do receptor, ou ainda na possibilidade de
múltiplos locutores que acabam por proporcionar mais pontos de vista e assim
maior número de interpretações distintas.
2. O que já foi pesquisado
Diversas pesquisas foram empreendidas como forma de caracterizar a
objetividade e imparcialidade no campo do jornalismo. Liriam Sponholz trata do
campo através dos variados pontos de vista que se pode ter sobre as palavras:
Objetividade é a palavra-chave para muitos jornalistas, acadêmicos,
leitores de jornal, ouvintes de rádio ou telespectadores tirarem as pedras
do bolso. Esta postura, no entanto, tem prejudicado que se reflita no que
jornalistas, acadêmicos, leitores de jornal, ouvintes de rádio,
telespectadores e críticos da mídia estão pensando quando falam de
objetividade. Mesmo quando eles utilizam esta palavra para dizer que
objetividade não existe. Vários estudos se esforçam para mostrar a
impossibilidade de ser objetivo e criticam a mídia por não ser neutra, como
24
se fosse possível "ler" a realidade sem interpretá-la, sem encarar os fatos
a partir de uma determinada perspectiva (SPONHOLZ, 2003.p. 110).
Darlete Cardoso adverte sobre os problemas e as dificuldades que o
profissional pode enfrentar na busca por tais conceitos na elaboração e repasse das
notícias:
O próprio jornalista tem dificuldade em separar a informação e o juízo de
valor. Por outro lado, tem que policiar suas atitudes para não promover
uma autocensura com relação a fontes de informação ou a elementos
captados durante a cobertura e a captação de dados e mesmo na hora de
escrever (CARDOSO, 2003, p. 116).
Isabelle Anchieta de Melo defende uma nova objetividade jornalística com o
uso da intersubjetividade, tratando a narrativa intersubjetiva como um meio
equalizador para se alcançar uma isenção equilibrada:
[...] ao invés de se opor a concepção da notícia como narrativa, esse
procedimento leva em conta o seu caráter simbólico. E, por isso mesmo,
utiliza com equilíbrio os elementos expressivos buscando a melhor
apresentação possível do fato, ou se preferirem, sua maior objetividade.
Portanto, o mero registro, sem utilização da potencialidade narrativa
produz a menor clareza e comunicabilidade do fato, enquanto a utilização
de recursos narrativos ao contar o acontecimento, ao invés tornar ficcional,
dá ao fato maior objetividade (MELO, 2007, p. 6).
Beatriz
Dornelles
defende
o
fim
dos
conceitos
de
objetividade
e
imparcialidade no jornalismo ambiental e cívico com a justificativa do profissional ter
o dever fundamental de tomar uma posição que impulsione as autoridades a uma
tomada de decisões que alterem o quadro atual, seja naturalmente seja por pressão
da sociedade, que deve questionar, debater e cobrar propostas que a beneficiem:
O perfil do novo jornalista seria o de estar aberto a ver a democracia como
algo que temos de criar, de reinventar, de re-imaginar. Nesse sentido, não
poderão, nem deverão ser neutros em relação às questões relativas à
participação das pessoas na vida política, à existência de debate político
alargado e sério, ao funcionamento do sistema político e outras temáticas
inerentes à existência de uma democracia política. O profissional de
jornalismo não poderá ser indiferente à qualidade das práticas
democráticas (DORNELLES, 2008, p.130).
25
Flávia Biroli e Luiz Felipe Miguel fazem uma análise questionando a relação
dos conceitos de objetividade e imparcialidade jornalísticas com o público, afirmando
que tais conceitos representam uma realidade e constroem outra:
O equívoco, nesse caso, está em tomar o vínculo entre os veículos de
comunicação e seu público como a mera formalização de posições e
entendimentos que o antecederiam. Trata-se, diferentemente, de uma
relação complexa e que se estende no tempo, na qual as representações
da realidade social são alimentadas por um noticiário factual que é, por
sua vez, resultante de representações específicas dessa mesma realidade.
A neutralidade é, portanto, o efeito de parcialidades que coincidem ou se
assemelham em contextos nos quais o jornalismo tem uma atuação
importante na lapidação dos consensos (BIROLI & MIGUEL, 2012, p. 42).
A objetividade e imparcialidade no processo de elaboração e difusão das
informações são essenciais para a prática jornalística, seja como ideal ou como
referência eles são fundamentos importantes intrínsecos a atividade do jornalista.
A preferência por utilizar como objeto de estudo a polifonia, as vozes
presentes no discurso e a Teoria da Argumentação da Língua são relevantes pelo
fato desse estudo não estar ainda presente no lócus das pesquisas na área
comunicacional, portanto, é através desses conceitos relevantes que será permitido
analisar os impactos e influências que esses conceitos têm na construção da
informação assim como seu alcance.
O presente trabalho se baseia, contudo, nas obras de autores que já
estudaram sobre o assunto da objetividade e imparcialidade, juntamente com os
criadores das teorias da polifonia e da comunicação afim de confrontar as ideias
vigentes propostas por eles e chegar a terminação se a imparcialidade é ou não um
mito sob esse viés.
Como Nilson Lage (2005, p.109) explicita em A Reportagem: “cabe ao
jornalista, como agente do público, relatar sobre as coisas do mundo com critérios
do senso comum” (LAGE, 2005, p.109). Quando se pergunta sobre ser ou não
possível praticar os conceitos vigentes no âmbito da imparcialidade e objetividade
dentro do jornalismo é problematizado nesse universo o trabalho jornalístico no
sentido dele ser uma ferramenta de veiculação de informações de acontecimentos
de relevância social e, dentro desse universo, os conceitos vigorantes a serem
analisados pelo fato de serem alicerces das teorias do jornalismo.
26
A objetividade é percebida como uma ponte que liga a realidade social e a
mídia. Essa ideia começou a surgir no século XIX e se ancorou no conceito de
facticidade jornalística, termo que aborda o fato como elemento mais importante da
notícia, dentro deste contexto, a objetividade e imparcialidade então são
observadas como caminhos de alcançar (ou tentar atingir) esse conceito. E a
imparcialidade, que possui conceitos correlatos, surge na mesma época e parte do
princípio de neutralidade, da não revelação de impressões pessoais dentro do
corpo da informação noticiosa.
O que coube, então, analisar então é se a formulação tão importada dentro
do jornalismo é uma meta, sendo um dos passos para se conseguir uma cobertura
pública relevante, ou se ela não passa de um mito, um ideal a ser imaginado.
Dentro desse conjunto de conceitos e referenciais teóricos, coube avaliar em
qual situação se inserem a objetividade e a imparcialidade dentro do jornalismo. Em
quais momentos eles se tornam evidentes. Produzindo uma cadeia históricoideológica, também se pode-se perguntar o que a história fala sobre esses
elementos. Nesse sentido, cabe verificar as complexidades históricas, as bases
conceituais e as referências teóricas que importam para o jornalismo tais conceitos.
Além disso, cabe um enfoque mais específico e técnico, centrado na
formulação da informação, sobre o que é polifonia e como ela interfere na descrição
dos fatos feita pelo jornalista. Dentro disso cabe reconhecer como a Teoria da
Argumentação da Língua se insere no contexto do jornalismo. São essas algumas
das perguntas que formam o escopo do presente trabalho, voltado à análise e
debate sobre a tangibilidade dos conceitos de objetividade e imparcialidade no
jornalismo, a possibilidade de polifonia nos discursos noticiosos, as diferenças da
construção da escrita, e também como os discursos desenvolvidos são afetados
pelo ethos jornalístico.
3. Objetividade e Imparcialidade: Perspectivas Teóricas
Existem muitas maneiras na qual é possível analisar os campos da
objetividade e imparcialidade no jornalismo, todas elas observando um estudo das
27
dificuldades encontradas na profissão que tem a função de transformar a vida ao
seu redor em notícias, mediando a história a partir dos relatos da realidade e
trazendo consequências sobre o futuro, traçando, assim, uma linha histórica e
temporal e as próprias limitações dessa apuração, na tentativa de compreender a
influência no produto final.
A partir de um estudo sobre diversos autores estudiosos de comunicação
social é possível traçar um paralelo fazendo um comparativo sobre a
imparcialidade e a objetividade, desde seus conceitos como sua aplicabilidade no
cotidiano, desvendando assim até onde eles são ideais buscados pelos
profissionais e onde eles se tornam concretos na narrativa e no texto jornalístico.
No que concerne aos conceitos de objetividade e imparcialidade, existe uma
miscelânea de formas de análise onde, a depender do estudo empreendido, as
conclusões à cerca do tema são demasiadamente diferentes. Nessa definição,
portanto, cabe estabelecer os limites de estudo da objetividade e imparcialidade, tais
quais suas possibilidades de apreciação. Então, a reflexão da objetividade e da
imparcialidade que é buscada neste trabalho utiliza como filtro os conceitos
sinônimos dos termos, descritos nos dicionários da língua portuguesa, que se
mostram
extremamente
amplos,
abertos
a
múltiplas
interpretações.
As
possibilidades de analisar dentro do campo comunicacional são as pretensões
desses ideais que alicerçam a edificação da notícia, o papel deles na polifonia
dentro da Teoria da Argumentação da Língua, e também as contradições que se
possam surgir dentro de cada corpo de apreciação.
4. Um debate entre estudiosos
Quando se fala de objetividade e imparcialidade jornalística, logo aparecem
dúvidas, tanto como sua definição, que por alguns autores é descrita como um
termo específico essencial para o desenvolvimento adequado do trabalho do
jornalista, e por outros, respectivamente, são atribuídos por outros termos
considerados sinônimos por estes últimos, como isenção, neutralidade, fidelidade
ao fato, sendo considerados em geral como mitos, abstrações, ideologias muito
28
difíceis de alcançar, ou simplesmente conceitos relativos, que dependem do
contexto em qual a narrativa dos fatos os inserem.
Como foi dito anteriormente, e Nelson Traquina (2001) descreve em O
estudo do jornalismo no século XX, o conceito surgiu nos EUA com o Novo
Jornalismo, sendo reforçado em 1970 com os estudos no campo comunicacional
sobre a parcialidade, definindo e estudando assim o imparcial como um oposto a
essa regra. Traquina sugere que o conceito é um valor que estabelece o
comportamento dos profissionais e é exigido pela sociedade na construção da
informação e que ela também participa:
A própria teoria democrática influencia fortemente a definição social da
postura profissional dos profissionais do quarto poder. A objetividade, ou o
que se aceita como seu oposto, a parcialidade, são conceitos que a
maioria dos cidadãos associa ao papel do jornalismo e que são
consagrados nas leis que estabelecem as balizas do comportamento dos
órgãos de comunicação social, em particular, do setor público
(TRAQUINA, 2001, p. 59).
O autor comenta ainda sobre o fato da ideologia usar como referente para o
produto jornalístico da notícia a realidade em si, descrita muitas vezes através da
teoria do espelho, que define que as notícias têm de ser necessariamente um
espelho da realidade. Entretanto, ele admite que essa mesma teoria é pobre,
antiga e insuficiente para explicar a complexidade do assunto, tal qual analisar a
retidão dos profissionais da área.
Concordando em parte com Traquina, para Mauro Wolf, dentro da teoria do
Gatekeeper, as notícias dependem do jornalista para vir a conhecimento público,
ou seja, a seleção, a apuração do fato e a construção da realidade dependem do
desempenho do profissional de comunicação:
A noticiabilidade é constituída pelo conjunto de requisitos que se exigem
dos acontecimentos – do ponto de vista da estrutura do trabalho nos
órgãos de informação e do ponto de vista do profissionalismo dos
jornalistas – para adquirirem a existência pública. Tudo o que não
corresponde a esses requisitos é “excluído”, por não ser adequado às
rotinas produtivas e aos cânones da cultura profissional (WOLF, 2002, p.
189).
Quando Wolf comenta sobre a cultura profissional, pode-se perceber
implicitamente as regras utilizadas para a constituição da notícia e dentro dela os
29
conceitos de objetividade e imparcialidade. Nesse sentido, Wolf pressupõe que os
ideais seguidos pelos jornalistas estão sujeitos a uma série de fatores: o receptor,
a hierarquia e muitos outros, mas principalmente ele defende que esses conceitos
dependem da dedicação do próprio profissional. Sendo então, ideais exigidos para
a prática da profissão como objetividade e imparcialidade tangíveis conforme a
disposição do trabalhador comunicacional e, ainda, que o papel deste gatekeeper
pode ser objetivo quando ele, mesmo sem conseguir demonstrar ao menos a
tentativa de ser isento em seu trabalho.
Mas não é somente a teoria do gatekeeper que procura edificar a realidade
dentro de um determinado modo. A agenda setting também é uma proposição
teórica que tenta direcionar o receptor para uma informação específica, escolhida
pela imprensa. Nesta última, Wolf admite a limitação da hipótese, mas acredita
que essa é a forma que o mass media tenta descrever as informações próximas
da realidade para mobilizar a posição e ação do público para temas específicos.
No entanto, muitos autores acreditam que a teoria também é limitada para o
campo, pois a hipótese não é livre de persuasão por parte da imprensa, que pode
desejar impor uma realidade segundo os próprios interesses. Clóvis de Barros
Filho acredita que a hipótese deseja impor sobre o que falar, limitando o acesso
do leitor à informação:
Ao nos impor um menu seletivo de informações como sendo “o que
aconteceu”, a mídia impede que outros temas sejam conhecidos e,
portanto, comentados. Decretando seu desconhecimento pela sociedade,
condena-os a inexistência. Nesse sentido, o menu da mídia, porque é o
único temário comum de agentes sociais em comunicação, é o que
apresenta maior incidência nas comunicações interpessoais (BARROS
FILHO, 2008, p. 157).
Ainda no pressuposto das hipóteses agenda setting e newsmaking, Darlete
Cardoso (2003, p.108) reforça a opinião de Barros Filho comentando que ambas
as hipóteses tentam filtrar as notícias conforme a necessidade da imprensa
lembrando que: “o que acontece, contudo, é que a imprensa normalmente, toma
para si a responsabilidade de filtrar os temas para discussão pública”, lembrando
assim que os conceitos de objetividade e imparcialidade se tornam presentes
nessas hipóteses com a mesma força no sentido de apoderar-se da
responsabilidade da imprensa em veicular notícias para a sociedade em geral.
30
Darlete Cardoso ainda descreve quando o repórter tem de submeter as
diversas fontes de notícias, ele se sujeita ao discurso dessas fontes, e por
conseguinte a suas interpretações. Entretanto, para ela, quando a objetividade e
imparcialidade se remetem ao método e não ao profissional, é possível se chegar
a um grau maior ou menor a depender o empenho do jornalista.
Seguindo essa linha de relatividade dos conceitos a depender do contexto
em que a objetividade e imparcialidade estão inseridas, Nilson Lage (2009, p.91)
critica manuais de redação, apesar de sua obra em si apresentar as mesmas
características de instrução para comunicadores. Apesar de apontar problemas
como: “a obediência a compromissos éticos tem resultado com frequência em
redações empasteladas e profissionais assassinados”, o autor acredita que o
profissional deve ter como meta a busca por esses ideais para um jornalismo mais
ético:
Um agente inteligente deve ter autonomia, isto é, operar sem intervenção
direta de seu contratante; ter habilidade social, isto é, interagir com outros
agentes, desenvolvendo, para isso, competência comunicativa; ser reativo,
isto é, perceber o meio em que atua e responder em tempo aos padrões
de mudança que ocorrem nele, e ser capaz de tomar iniciativa,
comportando-se de modo a cumprir sua tarefa (LAGE, 2009, p. 23).
No mesmo pensamento de Lage, Barros Filho ainda critica os obstáculos no
sentido da dificuldade do jornalista em prevê-los: como o fato em si, as
observações já feitas sobre ele, as fontes serem subjetivas e o deadline. Barros
Filho ainda afirma que o jornalista toma para si tais atividades como um dever
profissional. Polifonicamente falando, os assuntos externos em geral podem
influenciar a informação, fazendo do processo de busca e alcance de tais conceitos
de objetividade e imparcialidade uma tarefa de escolhas por parte dos jornalistas:
Como já dissemos anteriormente, elementos formais e de conteúdo do
produto mediático informativo fazem crer na ausência aparente do autorcodificador, que faz crer na objetividade aparente, que por sua vez, faz
crer na mídia como “espelho” da realidade, e assim sucessivamente
(BARROS FILHO, 2008 p. 63).
Nesse trecho, o autor faz clara referência crítica a teoria do espelho, na qual
o jornalista é um ser abnegativo e prestador de fatos tais quais eles são, uma teoria
considerada por Traquina (2001) mal construída e impossível. Interessante
31
ressaltar que nesse sentido, Barros Filho se opõe a existência de conceitos como a
objetividade e a imparcialidade já que estes são, assim como a teoria do espelho,
difíceis de alcançar, pois como ele mesmo acredita, simplificando ou narrando um
acontecimento o sujeito não é capaz de entender completamente uma realidade.
Entretanto, caso aproxime-se do lide o receptor, ele acredita assim estar mais
próximo dos almejados ideais.
Ciro Marcondes Filho também não acredita que objetividade seja uma
constante, o autor alude aos estudiosos do pensamento crítico da Escola de
Frankfurt para afirmar no Dicionário da Comunicação que o conceito é válido.
Porém, na maioria das vezes, pode “encobrir” as possíveis influências existentes na
produção da notícia.
Para Maurice Mouillaud (1997, p. 39) não há um “todo-informativo”, pois as
fontes influenciam de uma forma ou de outra o texto “a verdade não está escondida
no real. É o real que cria rizoma” (MOUILLAUD, 1997, p. 41), ou seja, a
objetividade e imparcialidade são sombras construídas de uma verdade, que pode
inclusive, representar vários sentidos:
Parece-nos que toda e qualquer informação engendra o desconhecido, no
mesmo movimento pelo qual informa; inicialmente, porque pro-duzir uma
superfície visível induz o invisível como seu avesso (a vitrine mostra e
esconde, a palavra diz e não diz): um invisível que não pode ser mais
destacado do visível; o avesso de um tecido não o pode ser de seu direito
(MOUILLAUD, 1997, p. 39).
Nesse sentido, o autor defende que a informação pode ser um dado de um
determinado contexto, e, mesmo assim, ter vários sentidos, ou um sentido mais
profundo, não totalmente apontado, mas passível de ser interpretado conforme a
necessidade, ou seja, “o real é apenas um vago referente, reacontecendo com mais
riqueza no enunciado do jornalista” (MOUILLAUD, 1997, p. 315).
Luiz Amaral também destaca sua preocupação afirmando que o jornalista
teria de ser isento, despido de seus princípios e preconceitos para conseguir
produzir a objetividade e a imparcialidade, este profissional está sujeito, não
somente a fatores sociais externos, mas também a formação, sentimentos e forma
de lidar com o mundo, fazendo com que o cumprimento de princípios impostos em
32
manuais de redação, como os de objetividade e imparcialidade sejam imprecisos, e
por consequência, passíveis de engendramentos:
É interessante ver como a linguagem é empregada, como palavras são
utilizadas, como se vai fundo na semântica quando se pretende manipular.
[...] a objetividade contradiz a natureza essencialmente subjetiva do
jornalismo, pois cada passo importante do processo jornalístico envolve
uma decisão de valor (AMARAL, 1996. p. 58).
É consenso entre os autores que a maleabilidade da produção do texto
interfere no questionamento acerca dos ideais de objetividade e imparcialidade,
pois existem causas que são vistas de outro modo a depender da teoria, do
contexto ou do profissional de comunicação. Portanto, essas causas explicam suas
mudanças de posições ou inseguranças em afirmar dogmaticamente algo sobre os
ideais discutidos.
Pode-se perceber até aqui que a objetividade e a imparcialidade jornalísticas
levantam perspectivas onde o macroambiente e o microambiente são fatores de
debate, concordância ou refutação desses ideais, sejam eles parte do jornalista, ou
do método dele. Todavia, cabe analisar se a multiplicidade de vozes em um mesmo
contexto é inerente à prática do jornalismo, ou não. Para tal, é necessário
compreender a proposição sobre a argumentação da língua desenvolvida por
Oswald Ducrot e Jean Claude Anscombre.
5. Amaral e Barros Filho: duas pesquisas e um caminho semelhante
Ainda na pesquisa dos conceitos de objetividade e imparcialidade, os
autores Clóvis de Barros Filho e Luiz Amaral se destacam pelo fato de dedicarem
estudos significativos sobre tais termos. Analisando mais profundamente as suas
obras Ética na Comunicação (BARROS FILHO, 2008, 232 p.) e A Objetividade
Jornalística (AMARAL, 1996, 98 p.) é possível encontrar nos autores alguns pontos
em comum tanto no direcionamento e o foco da pesquisa, quanto em suas
respectivas opiniões acerca do tema em questão.
33
Vislumbrando um pouco mais esse caminho, tanto Amaral como Barros Filho
elegem pontos onde a objetividade e imparcialidade são comumente estudadas,
colocando assim em cheque uma série de questionamentos de outros autores à
respeito do assunto.
Luiz Amaral, além de fazer uma linha do tempo dos conceitos, também
questiona se a objetividade é tangível, levantando vários pontos onde os ideais são
comumente contestados: “Isso é conversa de jornal. A frase, antiga, revela o
sentimento de desconfiança popular em relação à maneira como lhe é servida a
ração diária de notícias e comentários.” (AMARAL, 1996. p. 55). Na busca por
compreender e identificar a objetividade e imparcialidade, Amaral alerta para
algumas limitações observadas dentro do mesmo ideal, como a subjetividade, a
dificuldade de isenção e até mesmo a verdade em si. Elementos estes que
poderiam gerar um efeito dominó, desenterrando preconceitos, interesses
implícitos, sendo afetados por obstáculos como a pressa na produção da notícia, os
prazos apertados, o próprio tempo da notícia e o espaço limitado:
Ora, a paixão e o preconceito sempre governaram o mundo (e continuam
governando), sob a capa da razão. Mas, além disso, temos que levar em
conta na apreciação crítica da objetividade outros fatores imediatos –
como o interesse econômico, o medo e a timidez diante do mais forte e
dos poderosos, o desejo de convencer o interlocutor. Nem sempre o
esforço de abstração (quando há) permite uma apreciação livre de
qualquer mancha dessas influências. (AMARAL, 1996, p. 51).
O autor preocupa-se também com a manipulação da notícia e as distorções
que ela pode apresentar:
A manipulação – com toda a carga negativa que lhe joguem em cima de
termo pouco moderno – é fato conhecido na mídia mundial. Jornais,
emissoras de rádio e TV nem sempre conseguem honrar as promessas
públicas de isenção e equidade quando está em jogo o interesse próprio.
(AMARAL, 1996, p. 56-57).
A verdade é que, para Amaral, a notícia sofrerá todos os tipos de
interferência, inclusive, a da interpretação e da realidade social na qual está
inserida, moldando de certa forma a própria sociedade, mas nem por isso o
profissional deve abandonar a busca de ser isento e verdadeiro.
34
Da mesma forma que Amaral, Clóvis de Barros Filho identifica uma série de
componentes que podem interferir na objetividade:
Diante do que expusemos, e da diversidade de regras sociológicas
necessárias para compreender o conjunto de mecanismos não aparentes
que caracterizam as múltiplas relações de um jornal com o seu leitor,
podemos concluir que, longe de se tratar um produto homogêneo quanto
às expectativas que produz, o jornal é multiestrututurado e
multiestruturante. E, em função disso, expectativa, adesão, dependência e
persuasão são apenas algumas fases dessa integração. (BARROS FILHO,
2008, p. 63).
Barros Filho dedica-se portanto em investigar a objetividade e seus impactos
na sociedade. O autor classifica o termo objetividade em aparente e estratégica.
Em seu trabalho, ele demonstra sua preocupação ao observar a utilização
do termo de forma equivocada, e ainda alerta de que os veículos midiáticos se
apoderam do conceito para vender uma ideia de credibilidade, ou seja, até mesmo
a imprensa utiliza o termo de forma banalizada, intencionalmente ou não.
Assim como Amaral, Barros Filho chega à conclusão de que, pelo fato de
haver subjetividade nas mais variadas fases de escolha, produção e edição da
notícia, a objetividade deve ser apenas observada como uma tendência, um ideal a
ser buscado, mas que não é necessariamente encontrado.
Barros Filho então aprofunda seus conceitos no Agenda Setting 5, na
recepção e na teoria da espiral do silêncio6 onde ele consegue identificar cada vez
mais a influência da mídia ao impor o tema que se deseja falar, apresentando de
certa forma, que a subjetividade é inerente à natureza humana.
Já Amaral sai em busca de contornar a subjetividade implícita no discurso
jornalístico, apoiando-se nas teorias que buscam a aproximação desse ideal.
Analisando a tese do justo e do equilibrado, ideia que tem como princípio a busca
5
Agenda Setting trata-se de uma teoria de estudo da influência exercida pela mídia na sociedade, onde estes
meios selecionam e transmitem temas que consideram pertinentes à sociedade e ignoram outros,
direcionando as atenções do receptor a informações consideradas de interesse público.
6
Assim como o Agenda Setting, a teoria Espiral do Silêncio também estuda os efeitos da mídia na sociedade.
Segundo essa tese, o silêncio das opiniões de uma minoria social discordante é cada vez maior na medida em
que a opinião geral é amplamente divulgada.
35
constante da isenção como um caminho necessário para a produção de
informações respeitando a ética profissional sempre que possível, e estudando
também a tese da diversificação de interlocutores, onde o maior número de vozes
apresenta uma maior quantidade de pontos de vista. Nestes dois últimos casos, o
casamento entre polifonia e os conceitos de objetividade e imparcialidade
proporcionam positivamente mais versões da notícia, que traz maior proximidade
com a realidade em si e até mesmo a isenção.
36
II PARTE: JORNALISMO E POLIFONIA
“O português é uma língua muito difícil. Tanto que
calça é uma coisa que se bota, e bota é uma coisa
que se calça.”
Barão de Itararé
6. Polifonia em análise
Polifonia (s.f.)  Etim.: do gr. polús, numeroso, abundante, +jonia, do gr.
phoné, voz, som, timbre da voz.  Linguagem. Pluralidade de vozes do
discurso". Diz-se que um texto é polifônico quando é constituído por mais
de uma voz. Há pelo menos duas instâncias de definição das vozes de um
discurso. A primeira instância distingue "quem" fala (locutor), "para quem"
o texto se dirige (alocutário) e "de quem" se fala (delocutário). As marcas
desses sujeitos podem ser localizadas no texto, estabelecendo um mapa
das vozes ali inscritas.
É importante destacar que um dos fatores relevantes da construção textual
da notícia é a polifonia: trata-se ela da multiplicidade de vozes dentro de um texto,
ou seja, a polifonia discursiva. Segundo a linguística, essas vozes dentro do texto
podem se apresentar implicitamente, e o entendimento delas dependerá da
memória do leitor e da sua bagagem cultural, para analisar a intertextualidade
presente. E a polifonia explícita pode ser vista através dos discursos, onde
posições são claramente demarcadas e as vozes aparecem como em textos
irônicos por exemplo. Nele há diferentes posições que se defrontam, entrechocam,
demonstram conforme a narrativa, distintas visões dos assuntos.
Nesse sentido, a polifonia participa da objetividade e a imparcialidade
quando tem de se compreender a intertextualidade no tempo e espaço no qual
aquele discurso está inserido. Há ainda o contexto desse discurso. Em qualquer
idioma nem sempre é possível encontrar na língua uma palavra apropriada para
descrever certa ação. Além disso, a percepção e o conhecimento de cada
indivíduo podem fazer com que uma notícia possua significado diferente. Isso faz
com que qualquer texto, não somente a notícia tenha múltiplas significados, sendo
uma colcha de retalhos de sentidos.
37
Abordando esse estudo polifônico, o linguista francês Oswald Ducrot,
juntamente a Jean Claude Anscombre propõem que mesmo antes produção
textual cada indivíduo é capaz de deixar um sinal, uma marca no recorte do fato e
até mesmo no modo de transcrever essa realidade:
Queremos adaptar a noção de polifonia para a análise propriamente
linguística dos pequenos segmentos do discurso que chamamos de
enunciados. Tentaremos mostrar que o autor de um enunciado não se
expressa nunca diretamente, sem que ponha em cena em um mesmo
enunciado, certo número de personagens (DUCROT, 1988, p. 16).
Parte da proposta dessa teoria é dizer que, equivalente a fala havia a
argumentação, que as vozes que ficavam inseridas em um mesmo discurso são
intrínsecas na língua, e que valor argumentativo dessas palavras é que
proporcionará sentido a continuidade do texto:
Deste momento em diante, começa a se desvelar a ideia de que o sentido
de um enunciado é obrigatoriamente polifônico e de que é nas próprias
frases que existe a indicação das relações entre interlocutores. Dito de
outra forma, na própria frase já está previsto o contexto que envolve os
interlocutores. A noção de argumentação e polifonia está contemplada,
então, por este caráter instrucional da frase e, consequentemente, do
próprio discurso. O sentido não pré-existe ao enunciado, mas sim se
define pelo discurso (KESKE, 2011, p.8).
A partir desses pontos de vista, em um próprio enunciado já seriam
encontradas essas indicações de interlocutores. Na proposta de Ducrot e
Anscombre há a ideia de que existem vários sujeitos que exercem três funções
diferentes. A empírica, a de locutor e a de enunciador. Como Humberto Ivan Keske
afirma:
Nestes termos, em todo o discurso há um ser falante (ser empírico) e
outros “personagens”, que são os enunciadores e os locutores. O locutor é
a pessoa a quem se atribui a responsabilidade da enunciação; por sua
vez, o enunciador é o responsável pelos pontos de vista que se
apresentam no enunciado (KESKE, 2011, p.19).
Ducrot se embasa para comprovação desses casos nos textos irônicos e
cômicos. Em ambos pode ser visto pelo menos um duplo sentido, onde podem ser
caracterizados como até mesmo opostos. No humor, por exemplo, podem ser
encontrados bordões onde o sentido original daquele texto torna-se torna
completamente diferente por conta da situação que foi usado.
38
Dando continuidade ao raciocínio, vale lembrar também que esses valores
polifônicos servem para todos os tipos textuais, inclusive as notícias de cujo os
estudiosos nomeiam como de caráter objetivo. Assim, Ducrot e Anscombre abrem o
leque da polifonia para a subjetividade dando uma nova perspectiva sobre os textos
e a produção.
6.1 A Polifonia e a Teoria da Argumentação da Língua p or Ducrot e
Anscombre
Aprofundando um pouco melhor o assunto, a Teoria da Argumentação da
Língua surgiu a partir da década de 70 quando o linguista francês Oswald Ducrot,
em parceria com Jean Claude Anscombre decidiu investigar a estrutura linguística e
os seus efeitos. Ducrot partiu do pressuposto de que a argumentação se encontra
no interior do discurso. Os autores então estudaram principalmente a língua, que
para eles representaria o ato de dizer, e a fala, que seria o dito.
Dentro do dizer e do dito, podem ser observados, segundo eles a instância
da enunciação como mediadora entre língua e fala, mediação essa que
proporcionaria uma noção para agrupar uma classe de elementos da realidade.
Dentro da enunciação, está pressuposto logicamente pelo enunciado, o enunciador,
que seria o eu pressuposto que diz, e o narrador, que pode ser o eu colocado
dentro do enunciado, além do interlocutor que pode participar do discurso. Todos
estes logo se inclinarão a responder ao enunciatário, ou seja, o leitor, o narratário
que é a pessoa a quem o narrador se dirige e o interlocutário, este último se refere
a quem o interlocutor se dirige.
Ducrot descreve a argumentação da semântica em palavras como apenas,
mas, porém, que a depender do restante da frase pode mudar o sentido e ainda
promover a pressuposição, antes citada, elemento importante na teoria do autor,
pois a pressuposição possibilita a incursão do conceito polifonia no discurso,
trazendo à tona as vozes que na maioria das vezes são opostas. Pois, segundo
Ducrot e Anscombre, é a presença implícita da oposição de discursos em um
mesmo texto que acarreta na argumentação da língua.
39
Basicamente, Ducrot estuda os mesmos efeitos da polifonia que Bakhtin, a
única diferença é que os estudos de Bakhtin se baseiam basicamente em
intertextualidade,
enquanto
isso
Ducrot
deram
continuidade
aos
estudos
polifônicos, desta vez, na área da semântica. Um dos objetivos portanto, era
ampliar o universo da teoria.
6.2 O jornalismo, a polifonia e a Teoria da Argumentação da Língua
Já é possível observar que a polifonia, descrita na Teoria da Argumentação
da Língua aborda basicamente a presença de várias vozes dento de um mesmo
discurso. Porém, como vislumbrá-la no jornalismo? E em que aspectos as vozes se
apresentam positivas à busca da objetividade e imparcialidade?
A questão não é simples, mas os mesmos autores que inclusive identificaram
a objetividade e suas fronteiras já analisaram a interferência polifônica em algum
aspecto jornalístico.
Luiz Amaral (1996, p. 58) comenta ao fim de sua obra a manipulação da
linguagem por parte dos veículos de comunicação, estes usando as ferramentas
semânticas já transformaram opiniões: “é interessante ver como a linguagem é
empregada e como as palavras são utilizadas, como se vai fundo na semântica
quando se pretende manipular.” Porém o autor também acredita que várias vozes
possam dar a uma informação visões diferentes a serem recebidas.
Barros Filho (2008, p. 59) também deixa claro acreditar na possibilidade de
um mesmo discurso possuir vários sentidos, e portanto, que pode-se ter opiniões
distintas sobre uma mesma informação: “qualquer escolha – seja ela temática
sintáxica ou léxica – será entendida como óbvia, portanto não-aparente, quanto mais
ela representar uma solução esperada pelo receptor.”
O jornalismo portanto, seja observado de forma objetiva ou não tem a
capacidade de utilizar a semântica para construir e dar sentido a uma informação,
moldando uma nova realidade, que não deixa de ser verdadeira, e pode expressar
versões
que
são
sensíveis
de
uma
captação
receptora
ou
não,
mas
40
consequentemente em algum momento influenciando o público. As vozes do
discurso portanto, até mesmo para fazerem parte da teoria de Ducrot e Anscombre
devem possuir opiniões diferentes do mesmo assunto.
41
III PARTE: JORNALISMO E ÉTICA
“Nem todas as verdades são para todos os
ouvidos.”
Umberto Eco
7. Objetividade, imparcialidade e ethos jornalístico
Os conceitos de objetividade e imparcialidade aparecem descritos em
diversos manuais de redação e códigos de ética e conduta dos jornalistas, dentre os
principais brasileiros, o manual de redação do jornal Folha de São Paulo e o Código
de Ética dos jornalistas Brasileiros, aprovado em 2007 pela Federação Nacional dos
Jornalistas este último com 19 artigos dentre os quais do artigo 3º ao 14 o texto se
preocupa em apresentar os deveres dos jornalistas de forma que a conduta, as
restrições e responsabilidades fiquem bem claras. Porém, ao tentar se basear na
postura desses manuais, os jornalistas dificilmente averiguam a legitimidade das
normas ali impostas, ou seja, se há a possibilidade de ser ético segundo esses
códigos.
Um dos autores que estudam a influência dos códigos de ética e de manuais
de conduta é o jornalista Nilson Lage. Segundo Lage (2009, p. 89) “ética é o estudo
dos juízos de valor (bem/mal) aplicáveis à conduta humana.” O autor comenta que
apesar de existirem códigos de conduta buscando formar indivíduos éticos, a
verdade é que o próprio aspecto relativo da ética impede com que os manuais e
códigos de conduta sejam eficazes. E vai ainda mais fundo no problema, alertando
ao perigo e criticando a forma como a imprensa exige de seus profissionais que
cumpram os princípios descritos nesses manuais:
No caso dos jornalistas, a obediência a compromissos éticos tem resultado
com frequência em redações empasteladas e profissionais assassinados,
sem contar carreiras brilhantes interrompidas e a infinidade de casos de
sofrimento pessoal, desmoralização e prejuízos financeiros. Não faltam à
profissão heróis e mártires (LAGE, 2009, p. 91).
Lage também critica a atuação dos jornalistas citando o Código de Ética dos
Jornalistas Brasileiros e segue seu pensamento apresentando o que para ele
42
representa os objetos éticos, onde os códigos são passíveis de serem aplicados e
tais regras jamais devem ser esquecidas: o relacionamento honesto com a fonte, o
comprometimento do jornalista com o público, o exercício constante da autocrítica,
esta última com a finalidade de evitar a propagação de preconceitos, e a atenção ao
ato de informar, verificando o impacto de todos os envolvidos na questão. Somente
nesses pontos Lage aposta na eficácia de uma postura ética do jornalista, isso se
não houver exageros, mais que isso, segundo ele, só acarretaria em prejuízos ao
próprio profissional, desencadeando situações de perigo, como a anteriormente
descrita. Lage apoia-se na noção de que a ética é influenciável, inclusive pelo
capitalismo, citado por Karl Marx, e como já foi observado, o jornalismo não está
isento das influências do capital e do mercado. Lage (2009, p. 103) acredita que o
capitalismo tem influência crucial sobre a ética jornalística, lançando mão de outro
conceito, o de que a ética do jornalista é a que convém a ele em determinado
momento: “A prática da história é um processo caótico (o que não quer dizer
desordenado, mas de muitas ordens superpostas) e, neste caos, cada um de nós
cuida de validar seus próprios juízos éticos.”
Em suma, Lage considera os deveres do texto do Código de Ética um tanto
quanto utópicos, fruto da criação da mitologia que existe entre o campo do
jornalismo ligando este a noção de verdade, bem como os ideais de objetividade e
imparcialidade, que estão presentes artigo 4º do presente código, mas deixa
implícito que estes preceitos éticos devem ser buscados mesmo que não possam
ser alcançados por completo, e o jornalista também deve procurar realizar a função
de forma abnegada, tanto quanto possível.
Outro estudioso da questão da conduta ética é Nelson Traquina. O autor
dedica o quinto capítulo da obra Teorias do Jornalismo, porque as notícias são como
são, para investigar este polo do campo do jornalismo. Traquina (2005, p. 126)
baseia-se na definição de Everett Cherrington para definir sua noção de ética
profissional, relembrando o conceito em que o sociólogo afirma que cada profissão
possui um ethos próprio, ou seja, cada grupo institui um código de conduta onde
elegem direitos e deveres que vão orientar o trabalho desses profissionais. Traquina
desenvolve um exemplo onde várias vozes discutem entre si o conceito para tentar
43
definir o termo ethos jornalístico, o autor então aponta que para se definir o código
de conduta do jornalismo, deve-se primeiramente apurar qual a função que este
desempenha. Traquina cita então a teoria democrática, que define o jornalismo
como um serviço de utilidade pública, defendendo os interesses da sociedade e
reagindo contra a opressão do poder. O jornalismo em uma situação ideal então,
teria a função de guardião do poder, assim salvaguardando a democracia:
No “tipo ideal” esboçado, os membros desta comunidade interpretativa são
pessoas comprometidas com os valores da profissão em que agem de
forma desinteressada, fornecendo informação, ao serviço da opinião
pública, e em constante vigilância na defesa da liberdade e da própria
democracia (TRAQUINA, 2005, p.129).
Traquina também percebe que esta forma de visualizar o jornalismo é
bastante utópica, parte da construção mitológica da imagem do jornalismo que antes
já foi dita. O autor então seleciona um conjunto de valores que devem estar
presentes no jornalismo: a liberdade, atributo esse que gera independência dos
poderes. Também deve haver credibilidade, e para isso é essencial a associação
com a verdade. A exatidão, o rigor, a honestidade e a objetividade e seus sinônimos,
tão discutidos e criticados:
Com a ideologia da objetividade, os jornalistas substituíram uma fé simples
nos fatos por uma fidelidade às regras e aos procedimentos criados para
um mundo no qual até os fatos eram postos em causa. [...] A objetividade
no jornalismo não é a negação da subjetividade, mas uma série de
procedimentos que os membros de uma comunidade interpretativa utilizam
para assegurar uma credibilidade como parte não-desinteressada e que se
protegem contra eventuais críticas ao trabalho (TRAQUINA, 2005, p. 138139).
Traquina portanto, submete a objetividade à ética, demonstrando que ela é
um falso ideal, que na sua opinião serve apenas para mascarar erros e inibir críticas.
O autor também demonstra preocupação em sua outra obra O Estudo do Jornalismo
no século XX diante da cobrança dessa postura ética dos jornalistas e no retorno
que essa postura evoca, inclusive tornando o profissional alheio a influenciar a
realidade:
[...] outra conclusão se impõe: a responsabilidade dos jornalistas são, de
fato, terríveis; esta constatação implica que as exigências feitas aos
profissionais do campo jornalístico serão cada vez maiores. Por isso,
44
torna-se insustentável negar o papel ativo que os jornalistas exercem na
construção de realidade social. Só a cegueira provocada pela ideologia
jornalística pode explicar que alguns jornalistas insistam em pretender que
o seu trabalho se limite à identificação dos fatos e à simples recolha e
transmissão de relatos. Por isso, perante as altas responsabilidades
sociais dos jornalistas, seria oportuno fomentar a reflexão sobre a
deontologia e os ideais que levam muitos a identificarem com toda carga
mitológica, esta profissão com a procura da verdade (TRAQUINA, 2001, p.
46).
Neste mesmo trecho, o autor também aponta a forma que justifica ser errônea
de ligar os conceitos de jornalismo à realidade, e como os ideais presentes nos
manuais de conduta atrapalham, de fato, a visão que estes mesmos profissionais
tem de seu trabalho, assim como seus os direitos previstos e principalmente os
deveres. Traquina ainda fala da autonomia que o jornalista tem como profissional e
de como a crença na conduta ética colabora para uma eterna busca que forma no
consciente coletivo a imagem do jornalismo como um serviço de utilidade pública,
que auxilia na democracia:
A autonomia do campo jornalístico implica um número crescente de
jornalistas comprometidos única e exclusivamente com a sua própria
profissão, substituindo outras militâncias, tal como a militância política, por
uma militância profissional. Assim, o aperfeiçoamento do sistema
democrático passa também pelo apego dos jornalistas às regras
deontológicas e éticas [...] (TRAQUINA, 2001, p. 47).
Mauro
Wolf
também
analisa
as
nuances
da
postura
ética,
mais
especificamente, ele medita sobre a distorção involuntária oferecida por Philip Elliott,
percebendo que o jornalista mesmo sendo ético, não está livre das distorções no ato
de informar:
Segundo este ponto de vista, autonomia profissional e distorção da
informação surgem como duas faces da mesma moeda: a perspectiva é
muito mais radical do que aquela que, remetendo toda a deficiência e
manipulação da cobertura informativa exclusivamente para pressões e
influências externas, se priva da possibilidade de captar o funcionamento
da <<distorção inconsciente>>, ligada às práticas profissionais, às rotinas
produtivas normais, aos valores partilhados e interiorizados acerca do
modo de desempenhar a função de informar (WOLF, 2002, p. 184).
Já para Amaral (1996, p. 34) a prática da ética é necessária, inclusive para o
mercado, pois um jornal com maior credibilidade vende mais: “ficou decidido que a
notícia guardaria isenção.”
45
Em suma, a ética jornalística, ou o ethos profissional representa algo relativo,
que irá depender muito do que se constitui não somente a bagagem e o veículo no
qual o jornalista representa, mas também a conduta do profissional, aceitando ou
rejeitando preceitos para a afirmação de seu trabalho. Apesar dos manuais imporem
uma série de normas de conduta, a relativização do ethos jornalístico permite que
esses textos também possam ser visualizados de forma subjetiva, ou seja, o
profissional poderá absorver do suposto código uma parte, mais exigida naquele
momento, mas nunca conseguirá cumprir todas as regras. E nem por isso ele
deixará de ser ético. Como Caio Túlio Costa sugere no título de sua obra: para os
profissionais, a ética basicamente se trata de uma moral provisória.
46
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que pode se acertar desse estudo é que a objetividade e a imparcialidade
devem ser observadas junto à própria polifonia e o ethos jornalístico apenas como
conceitos relativos, pois todos eles dependerão basicamente do contexto no qual
estão inseridos, assim como de uma compreensão implícita onde se não for
analisado caso a caso só se pode acertar que tais ideais foram ou não buscados e
contraídos nos discursos de um modo de análise curto e ingênuo.
Por todas as ideias analisadas, discutidas e apresentadas, o estudo desses
ideais de objetividade e imparcialidade devem abranger entender as procedências
dos discursos, além das particularidades da língua, que intencionalmente ou não,
podem
transmitir
informações
completamente
opostas,
podem
agregar
conhecimento novo ou apenas se tornarem incompreendidas, não trazendo
nenhuma informação nova ou original. Outra característica que pelos estudos podese perceber é que a própria história interfere nesses ideais, ela variará conforme o
tempo em que estiver presente, o espaço e a apresentação de enunciações, que
poderão se apresentar como apropriadas ou não. E será passível de persuasão de
fatores como os interesses de consumo de material jornalístico, que se modificam
para cada receptor, este último também possui bagagens culturais diferentes que
irão interferir, juntamente com a aceitação, a absorção desses ideais e as
necessidades que caso a caso também serão diferentes. Deste modo, seria um
equívoco analisar o público como uma massa que consome as mesmas coisas.
Seria uma regressão as antigas hipóteses hipodérmicas onde se afirmava que a
mídia fazia com a massa o que bem entendesse.
Cada discurso jornalístico pode, portanto, ser parcial ou imparcial, objetivo ou
subjetivo a depender da dimensão em que se encontra, do tempo em que passa,
das necessidades de todos os lados envolvidos, e estes conceitos são
extremamente maleáveis, eles portanto podem se modificar quando quiserem ou
quando for indispensável, cabe aos profissionais perceber quando isso será
necessário.
47
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50
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Jussara Silva Meireles - Universidade Católica de Brasília