bilinguismo 605 606 Administração. n.º 13/14. vol. IV, 1991-1.°. 607-648 O PAPEL DAS DIFERENÇAS INDIVIDUAIS NA APRENDIZAGEM DO PORTUGUÊS COMO SEGUNDA LÍNGUA EM MACAU: O CASO DO PEP * Luís Fonseca ** Ⅰ INTRODUÇÃO A prática profissional que temos vindo a desenvolver na área da psicologia das organizações em Macau, ao longo de quase 6 anos, fez surgir a necessidade de proceder a estudos neste âmbito, dadas as dificuldades sentidas no recrutamento e selecção de pessoal de etnia chinesa para a Administração Pública do Território. Concretamente, pretendem focar-se aqui os problemas inerentes ao prognóstico da aprendizagem da língua portuguesa e as metodologias e técnicas psicológicas empregues com esse objectivo. A abordagem experimental proposta neste estudo compreende um conjunto complexo de variáveis, tendo em vista destacar e, porventura, isolar no âmbito da psicologia diferencial algumas características de comportamento previamente definidas e que prognostiquem um determinado nível de sucesso na aprendizagem do português como língua estrangeira. O facto de, no título deste artigo nos referirmos a «segunda língua», tem por intenção e finalidade destacar, não o carácter do «processo de aprendizagem» em si, mas a urgência com que o português deve ser aprendido de modo a obter rapidamente um * Este artigo constitui a síntese de um trabalho de desenvolvimento com o mesmo título, elaborado em Maio de 1990. ** Centro de Formação para a Administração Pública do Serviço de Administração e Função Pública. À data da elaboração deste trabalho, desempenhava funções no Departamento de Recrutamento e Selecção do SAFP. 607 estatuto real de segunda língua, não só na Administração como no Território. Em relação ao contributo das diferenças individuais na aquisição de competências no estudo de línguas estrangeiras, a pesquisa, face aos dados de que dispomos, tem sido reduzida e frequentemente inconclusiva. O aproveitamento destas investigações para a selecção de candidatos a cursos de línguas praticamente não tem expressão, provavelmente por não constituir a principal preocupação desses investigadores. Contudo, as realidades são diferentes de lugar para lugar e a investigação deve obedecer a objectivos concretos, tentando satisfazer as necessidades que se colocam em situações específicas. Nesta perspectiva, o presente trabalho procura contribuir para um melhor conhecimento das técnicas utilizadas em selecção, de modo a destacar os principais instrumentos aplicados, estudando a sua validade num contexto sociocultural de múltiplas diferenças. No «puzzle cultural» de influências múltiplas e diversas que é Macau, a questão linguística aparece como uma das peças de formato difícil a colocar no espaço certo e onde se evidenciam o poder da língua chinesa, a importância da língua portuguesa e a utilidade da língua inglesa. Ⅱ ENQUADRAMENTO TEÓRICO 1. A ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, O PROGRAMA DE ESTUDOS EM PORTUGAL E O BILINGUISMO A Administração Pública de Macau, não tão antiga como a presença efectiva dos portugueses no Território (1557), acompanhou de perto as suas grandezas e declínios, principalmente após a perda da hegemonia como primeiro entreposto europeu comercial, cultural e religioso no Oriente, aquando da proclamação, em 1842, de Hong-Kong como colónia britânica. A resistência à mudança, própria das organizações, designadamente as administrativas, tem diminuído por circunstâncias de carácter político e socioeconómico, fruto das profundas transformações do território de Macau. Em 1976, Macau passou a ser Território chinês sob Administração Portuguesa com ampla autonomia administrativa, económica, financeira e legislativa; em 1979, foram restabelecidas as relações diplomáticas com a RPC e a 15 de Janeiro de 1988, através da ratificação da Declaração Conjunta sobre a Questão de Macau, iniciou-se um período de transição político-administrativa que terminará em 20 de Dezembro de 1999. Anualmente o número de efectivos na Administração Pública tem aumentado significativamente. 608 As razões para este crescimento podem resumir-se nos seguintes pontos (Rocha, 1988): a) tório; b) c) d) Fazer face ao desenvolvimento socioeconómico do Terri A previsão do crescimento demográfico; A formação (on job) dos quadros locais; A necessidade de admitir pessoal local dada a inevitável transição de funcionários para a República a médio e longo prazo. O último factor considerado destaca-se como o de maior relevância para este trabalho, na medida em que o Programa de Estudos em Portugal (PEP) constitui actualmente uma das principais fontes de recrutamento local para a Administração. Este Programa, inserindo-se numa política de localização de quadros e de promoção do bilinguismo 1, tem como objectivos principais: o aperfeiçoamento da língua portuguesa, o contacto com a cultura e a realidade portuguesa (in loco), e a compreensão e organização e funcionamento da Administração Pública em Portugal e em Macau. Assim, os participantes de etnia chinesa integram as diferentes fases do PEP com duração global superior a um ano, frequentando primeiro cursos de português, em seguida um curso de Introdução à Administração Pública e finalmente estágios de carácter profissional. As etapas descritas decorrem tanto no Território como em Portugal e terminam com a contratação dos participantes, sempre que obtenham uma avaliação global positiva. A importância que tem para a Administração de Macau a execução deste Programa não pode deixar de ser realçada e reforçada: a) A aprendizagem da língua e cultura portuguesas, facilitadoras da comunicação entre indivíduos de etnias diferentes e fundamental para a troca e transmissão de conhecimentos e experiências; b) Dotar os serviços de quadros locais qualificados; c) Contribuir para uma política (bi)linguista que se reflicta no próprio sistema de ensino e de uma forma mais vasta em toda a sociedade de Macau. 1 O PEP foi instituído em Dezembro de 1986 (1.° diploma). Com a localização de quadros, pretende-se a fixação nos serviços públicos de grupos sócio--profissionais com formação académica de nível superior, cujas tarefas serão predominantemente técnicas, de supervisão, concepção e adaptação (cf. R. Rocha — segunda acepção, ibidem). Com a promoção do bilinguismo, pretende-se a utilização das línguas portuguesa e chinesa como instrumento de comunicação na Administração (Gov. de Macau, 1987b). 609 Alcançar o bilinguismo é necessariamente uma das funções do PEP. Mas o que é ser bilingue? Ser autenticamente bilingue é dominar perfeitamente dois sistemas linguísticos sem manifestar superioridade de qualquer um deles, envolvendo situações e indivíduos sempre que seja necessária a utilização de uma ou de outra língua (Gonçalves, 1987). O bilinguismo resulta normalmente da existência de pelo menos duas culturas diferentes e na prática não existem «bilíngues puros» verificando-se sempre um grau maior ou menor de justificada «assimetria» linguística 2. Constata-se que a população do Território é predominante-mente monolíngue (domínio do chinês falado, lido e escrito) e uma percentagem pequena, é o que se poderá mais correctamente chamar, diglóssica que bilíngue. São de salientar ainda, no que refere à situação diglóssica, dois casos distintos relativamente à população de etnia chinesa: a) Os indivíduos que exercem a sua actividade profissional no sector privado, p.e. em empresas de tipo multinacional ou instituições bancárias, utilizam como 2.a língua o inglês; b) Os indivíduos que pretendem ingressar na Função Pública ou que já são funcionários 3 procuram dominar o português. No âmbito do Governo, têm sido tomadas iniciativas no sentido de criar uma «política linguística global de generalização do bilinguismo, ou seja, a utilização das línguas portuguesa e chinesa como instrumento de comunicação» com destaque em quatro áreas: a) b) c) d) «Na criação de um ambiente cultural bilíngue»; «No sistema jurídico»; «No sistema educativo»; «Na Administração Pública». Da análise do quadro n.° l, conclui-se que aproximadamente 53% dos trabalhadores da Função Pública domina (bem ou regularmente) a língua portuguesa, correspondendo a um número absoluto de 6 145 indivíduos. Um grande esforço deverá ser feito se se pretender que os 47% restantes adquiram conhecimentos, mesmo que elementares de português. Por outro lado, 85% fala o cantonense, mas menos 18% domina o chinês escrito e lido, isto é, 67% dos funcionários. A percentagem de indivíduos bilíngues é de aproxidamente 20%. Os números baixam muito significativamente 2 O bilinguismo não deverá ser confundido com a diglosia, isto é, o uso de duas línguas (ou variedades da mesma língua), com «estatutos» diferentes na sociedade, uma a «língua nobre», oficial, da política, etc., a outra, informal, das relações de trabalho ou familiares (Neves e Rosário, 1988). 3 Em sentido amplo do termo. 610 quanto às pessoas que afirmam falar e escrever bem o português e o cantonense: 169 ou 1,4%, apenas. Conhecimentos linguísticos na Administração [QUADRO N.° 1] Fonte: Governo de Macau (1989 b) Nota: Percentagem de indivíduos que afirmaram ter conhecimentos do idioma independentemente da forma (falado, lido e escrito) ou nível (bem ou regular). 2. ASPECTOS SOCIAIS, CULTURAIS E INTERCULTURAIS 2.1. PROBLEMAS CULTURAIS O Programa de Estudos em Portugal enquadra-se numa linha sociológica multicultural. A prová-lo, está a aparente «unidade étnica» dos participantes no PEP que esconde diversas «assimetrias» individuais, não tanto ao nível da comunicação ou do grupo social de base, mas sobretudo relativas ao ambiente que envolveu a socialização (p.e. o local de nascimento), o lugar onde se realizaram os estudos superiores, o contexto profissional e outros (Quadro n.° 2). 3.°/4.° PEP — Naturalidade dos participantes [QUADRO N.° 2] Fonte: Serviço de Administração e Função Pública/Departamento de Recrutamento e Selecção (SAFP/DRS) Assim, os indivíduos que cursam o PEP provêm não só de meios socioculturais específicos, como de ambientes organizacionais com características próprias desta região do mundo. É de realçar ainda que a maioria dos participantes obteve as habilitações académicas no exterior de Macau e possui experiência profissional em empresas privadas (Quadro n.° 3). 611 3.°/4.° PEP — Local de habilitação e situação profissional dos participantes [QUADRO N.° 3] Fonte: SAFP/DRS Por outro lado, a aprendizagem da língua portuguesa na República, o relacionamento com as pessoas, as dificuldades do quotidiano (p.e., a comunicação, os hábitos alimentares), o contacto com o sistema administrativo público e o regresso/ integração na Administração de Macau, constituem um «ciclo de saída/retorno» condicionado por variáveis específicas, sobretudo de natureza intercultural. As influências da cultura no comportamento não podem deixar de ser referidas (Adler, 1986). Caracterizamos aqui a cultura como algo que é compartilhado por quase todos os membros de uma dada sociedade, que implica a transmissão de experiências sociais adquiridas (costumes, leis, normas e outras) e é determinante de valores, atitudes e comportamentos. Os valores e atitudes dos indivíduos chineses que frequentam o PEP — como a preferência pelo relacionamento em grupo, o constrangimento social, auto--controlo, perseverança, religiosidade, autoritarismo (Yang, 1988) — influem necessariamente no «ciclo de saída/retorno» atrás referido (nomeadamente na aprendizagem do português) e deverão ser objecto de análise aprofundada se se pretender obter resultados/ sucesso com este Programa. Particularmente o processo de comunicação entre sujeitos de culturas diferentes determina repetidas «incompreensões», devido aos padrões perceptivos de ambos os interlocutores. Sabendo-se que a percepção é selectiva, condicionada pela experiência, pelo meio cultural, e por vezes «unilateral» (tendência para perceber qualquer acontecimento e acto, sempre do mesmo modo), torna-se necessário facilitar a compreensão mútua, nomeadamente através da apresentação das mensagens por múltiplos 612 canais (voz, considerar: imagem, escrita). No caso vertente, é importante a) Na linguagem verbal — usar expressões simples, utilizar sinónimos, frases curtas; b) No comportamento não verbal — recurso aos meios visuais, gestos, demonstrações práticas; c) Nas actividades ou trabalhos— criar silêncios que induzam à reflexão do interlocutor, assumir as diferenças e não a semelhança; d) Na compreensão — partir do princípio que a mensagem foi incompreendida e explicar de novo, aguardar pelo feedback e confirmar se foi percebido; e) Na motivação — encorajamento na utilização da língua, reforçar sem embaraçar. Os estudantes do PEP enfrentam ainda outra situação que não deverá ser menosprezada: o «choque cultural». Se arriscarmos por similaridade pressupostos apresentados por Adler 4 na situação do trabalhador expatriado (aquele que desempenha funções em país diferente do seu) e considerarmos cada indivíduo que frequenta o PEP sujeito ao mesmo tipo de influências, estamos perante o «ciclo de saída/retorno» já enunciado e aqui caracterizado (fig. 1). O ajustamento a uma nova sociedade/cultura inicia-se por uma fase de descoberta positiva e excitação (A), posteriormente seguida por desilusão, frustração e desencanto (B) e finalmente pelo reencontro do equilíbrio e entrada na vida corrente (C). O choque cultural define-se como uma reacção imprevisível a um novo ambiente circundante, resultante de uma alteração perceptiva (selecção e interpretação de estímulos) e eventual conflito de valores. Frequentemente, associa-se-lhe um estado de stress com causas diversas, destacando-se a separação familiar e dos amigos, com sintomatologia vária: angústia, ansiedade, desapontamento e perturbações psicossomáticas (insónias, tremuras, dores de cabeça). Temos a confirmação de que a fase de choque cultural no caso do PEP não é ilusória, embora se ofereça menos complexa e dramática do que em relação ao expatriado, visto os apoios (colaboração, orientação) prestados ao PEP procurarem reduzi-los ao mínimo. O retorno e a reentrada podem produzir também alguns efeitos de desadaptação, destacando-se porém como positivos (fruto da experiência adquirida): a) Melhor conhecimento de outros tipos de gestão (privada ou pública); 4 Adapt. de N. Adler (ibidem). 613 O CICLO SAIDA/RETORNO E O CHOQUE CULTURAL [FIGURA N.O 1] 614 b) ertura de espírito; c) Tolerância à ambiguidade (capacidade de compromisso e compreensão da diferença); d) Análise multifactorial da realidade; e) Incremento das relações humanas (maior condescendência com os outros, valorização da comunicação interpessoal). Todas as questões interculturais focadas são influenciadas nas organizações pelas atitudes dos indivíduos que as compõem e pelos estilos de gestão adoptados. Em estudos desenvolvidos nesta área (Hofstede e Bond, 1988), numa investigação que abrangeu 40 países, foram isoladas quatro variáveis principais: individualismo/ colectivismo, poder (e grau de distância), incerteza (e evitação) e masculinidade/feminilidade. Assinala-se que Portugal e Hong-Kong (Macau) se distinguem, no contexto do modelo apresentado, conforme se resume na fig. 2. As características destas quatro dimensões tornam-se relevantes para o PEP, se considerarmos as diferenças existentes entre Portugal e, por exemplo, Hong-Kong, este último com um estilo socioeconómico e cultural semelhante a Macau. Bond 5, através de um projecto de investigação peculiar em 22 países e pela aplicação do «Chinese Value Survey», confirmou os resultados de outros autores6 e encontrou um novo factor comum sobretudo aos países asiáticos: o «Dinamismo confucionista». Tal vector, fundamenta-se nos ensinamentos filosóficos de Confúcio e transferido para algumas questões do CVS, faz sobressair um conjunto de valores como: perseverança, relações sociais estabelecidas directamente pelos estatutos pessoais, sentido de «vergonha» (sensibilidade no contacto social) e espírito de riqueza (poupança e reinvestimento). M. Bond confirmou ainda a correlação positiva deste factor com o desenvolvimento económico de 5 países do sudeste asiático (após 1955): Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Hong-Kong e Singapura. As principais conclusões que destaca são: a) Governos e políticas adequadas são condições necessárias ao desenvolvimento; b) Existência de mercados abertos e livre iniciativa e concor rência; c) A cultura determina valores/atitudes indispensáveis ao progresso económico e social dos povos; 5 Ibidem. Bond e colaboradores construíram o questionário baseando-se nos valores da cultura chinesa. Tal facto trouxe como consequência curiosa não ter evidenciado a dimensão «Incerteza». A discussão destes resultados encontra-se no texto. Para mais desenvolvimento consultar bibliografia cit. 6 615 PRINCIPAIS ATITUDES ORGANIZACIONAIS DE PORTUGAL E H. KONG (MACAU) [FIGURA N.o 2] 616 d) Existem 3 dimensões comuns ao pensamento ocidental e oriental ( distanciamento do poder, individualismo/ colectivismo, masculinidade/feminilidade), uma dimensão tipicamente ocidental (evitar a incerteza) e outra clara mente oriental (a dinâmica confucionista); e) O ocidente tem procurado uma única «verdade» (caso das religiões: cristã, judaica, islâmica, historicamente intoleran tes e com o privilégio de cada uma ser a única verdadeira), e adquirir um espírito científico e tecnológico inegável; f) O oriente tem valorizado a «virtude» (existem várias «verdades» que se entrecruzam e não se opõem: budismo, hinduísmo) e o espírito prático e de síntese; g) Ambas as culturas contribuem para um fim comum: o aperfeiçoamento e crescimento dos diversos países princi palmente ao nível da gestão das organizações numa perspec tiva multicultural. Interessa-nos destacar para este trabalho, os seguintes «pontos de contacto»: a) A tradição religiosa em Macau (budista, confucionista, taoísta); b) O desenvolvimento económico acelerado verificado nos últimos anos; c) A contribuição da Administração Pública para esse cresci mento, sobretudo através da modernização administrativa, capacidade de resposta e adaptação às recentes exigências internas (transição política, necessidades sociais), e externas (manutenção do equilíbrio financeiro, novos mercados, importação/exportação); d) O papel dos futuros quadros na Administração (políticas de localização, a generalização do bilinguismo, o Programa de Estudos em Portugal). 2.2 TESTES PSICOLÓGICOS E DIFERENÇAS CULTURAIS O carácter intercultural desta pesquisa envolve necessariamente a problemática dos instrumentos utilizados na recolha de dados. As características e objectivos das provas aplicadas serão descritos com maior profundidade quando da apresentação da metodologia. Merecem particular reflexão as técnicas psicométricas empregues, dado que a questão é antiga e ainda controversa (Anastasi, 1977; Freeman, 1976; Paiva, 1978). A compreensão das relações entre as culturas e o comportamento individual permite verificar que não existem conclusões aceites universalmente no que respeita à explicação dos fenómenos psicológicos. O conhecimento de tal facto tem importância considerável para a psicologia e coloca por outro lado problemas metodológicos ao investigador. 617 Um dos assuntos mais sensíveis nesta área é sem dúvida a questão dos testes serem construídos, validados e aferidos numa determinada cultura e aplicados em outra diferente. Vários instrumentos de medida em psicologia, quase sempre de natureza verbal (instruções e conteúdo), produzidos para evidenciar diferenças individuais no ocidente revelaram-se desajustados noutros continentes. Como resultado, nasceram os testes supostamente livres de influências culturais (culture-free) mas que não conseguiram atingir na íntegra esse objectivo, e posteriormente provas destinadas a várias populações e favoráveis à diversidade cultural (culture-fair). Os mais conhecidos e que têm obtido maior sucesso, são o teste de Inteligência Geral de Cattell (1940), o Teste de Rorschach (1921) e o Teste de Apercepção Temática de Morgan e Murray (1935). Em Macau, os principais factores que temos procurado controlar rio estudo de testes interculturais, ao longo de quase 6 anos, são: a) Os de tipo linguístico (tradução para língua chinesa ou veicular inglesa, redução ao mínimo dos aspectos verbais, instruções simplificadas, recurso a pessoal bilingue especial mente formado para o efeito); b) Os de motivação (familiarizar os candidatos com as provas explicando a sua finalidade e relação com o real, isto é, a correspondência aptidões/desempenho e o perfil de exigên cias da função); c) A padronização (normalizações progressivas e reservas na aplicação e interpretação de resultados até se obterem amostras significativas para análises mais consistentes); d) A adaptação integral dos testes à realidade oriental, especialmente da sua filosofia e ritmos de vida, cognição e personalidade (projectos a iniciar: alteração de construtos, passar da tradução simples ou equivalência literal para a equivalência funcional significante, determinar estatistica mente índices de fidelidade, sensibilidade discriminatória e validade). A fase actual não se encontra isenta de problemas e alguns riscos, sendo estes extensivos às técnicas aqui usadas. O exame psicológico para selecção dos candidatos ao 4.° PEP, constituiu, a nosso ver, um avanço considerável relativamente aos métodos anteriores em que eram utilizadas unicamente a avaliação curricular e entrevistas (sócio-profissional e capacidade linguística). Assim, passaram a ser aplicadas: uma prova de inteligência geral (factor g), um questionário de personalidade (EPI), prova de grupo e entrevista psicológica. Mais tarde e para efeitos do presente trabalho, foram aplicados aos participantes do 3.° PEP, o mesmo teste de inteligência geral e o 618 EPI, um teste de atenção concentrada, um teste de memória associativa verbal imediata (auditiva) e um teste de raciocínio verbal (em chinês). Estas três últimas provas foram também posteriormente aplicadas aos frequentadores do 4.º PEP (pós selecção). Não se pretendendo neste ponto aprofundar a questão, sintetizam-se apenas duas razões para a escolha destas provas: a sua importância como instrumentos de medida para a eventual confirmação das hipóteses teóricas formuladas (aptidões/diferenças individuais/«aptidão linguística») e o facto de já se possuirem aferições anteriores de populações semelhantes (indivíduos com graus académicos de nível universitário). Exclui-se deste último pressuposto o teste de raciocínio verbal, aqui estudado experimentalmente no que respeita à fidelidade e validade. Para concluir, insistimos num requisito fundamental: não há pesquisa sem dificuldades, perigos e discussões apaixonadas. Parafraseando os argumentos de Prince 7, é necessário ser pragmático e distinguir entre «investigação pura» e «investigação aplicada». Na verdade, também os governos e as organizações dos diversos países (e culturas) pretendem soluções práticas para os seus problemas, (por exemplo, psicopedagógicos, formação e selecção de pessoal) estimulando a «ocidentalização» dos processos de pensamento dos seus povos e a aculturação ao ocidente, na impossibilidade da total adequação das metodologias a realidades diferentes. 3. ASPECTOS LINGUÍSTICOS Estando embora fora do âmbito deste trabalho, a análise e discussão de inúmeros aspectos de natureza linguística, não é possível omitir, embora abordando-os superficialmente, algumas das características elementares entre as estruturas das línguas portuguesa e chinesa. O sistema de escrita chinês tem origem ideográfica e é vulgarmente designado de logográfico, onde os grafemas representam palavras. Na escrita oriental, nomeadamente a chinesa, os símbolos são designados por caracteres (logogramas). No entanto, muitas vezes os caracteres representam de facto partes de palavras (morfemas) (Cristal, 1987). Admite-se que, modernamente, o conhecimento da língua chinesa implica dominar pouco mais de 3 000 caracteres, não obstante se poderem estudar até 50 000! Os caracteres têm origem 7 R. Resenha de Prince e R. W. Brislin «Cross-Cultural Research Methods», in Journal of Cross-Cultural Psychology, 1974, 5, cit. por José de Paiva (ibidem). 619 DETERMINANTES DA ESCRITA CHINESA [FIGURA N.o 3] 620 em 6 determinantes principais. A fig. 3 permite-nos aperceber da complexidade deste tipo de escrita. Os sistemas de escrita alfabética, do qual o português faz parte, caracterizam-se pela sua versatilidade linguística de adaptação e economia, havendo relação directa entre grafemas e fonemas. Com aproximadamente 3 dezenas de símbolos é possível formar milhares de palavras! A comparação entre os dois sistemas é tarefa complexa e difícil. A fonologia (estrutura dos sons no funcionamento das línguas) e a fonética (produção de sons e articulação dos sinais gráficos que representam as palavras) constituem um dos parâmetros de análise no estudo entre o português e o cantonense (dialecto que mantém contudo a escrita chinesa comum a todas as linguagens regionais), a par das componentes sintácticas e léxicas. (Nóia, 1985; Cheng, 1989) O dialecto cantonense é constituído por nove tons (4 superiores, 4 inferiores e l médio), pelos quais os caracteres podem ser pronunciados. Porém, cada caracter não ultrapassa os 4 a 6 tons diferentes, tornando-se mesmo assim numa fonética complicada, principalmente na aprendizagem da língua por ocidentais. Por outro lado, as consequências, em termos pedagógicos, da estrutura linguística ocidental demonstram a dificuldade da generalização do bilinguismo na Administração Pública de Macau. Reportando-nos neste caso aos frequentadores do PEP, com um suporte linguístico estruturalmente diferente do nosso, o ensino da língua (e cultura) portuguesa tem procurado apetrechar os indivíduos com os conhecimentos fundamentais e indispensáveis, para o progressivo sucesso na comunicação interpessoal em português, condição sem a qual não é possível transmitir experiências e informações, ou cambiar mútuos enriquecimentos na fase de transição que se atravessa. O eventual melhoramento dos meios humanos e técnicos nesta área deve privilegiar: a preparação dos professores para o ensino do português como língua estrangeira (não como idioma materno), a utilização de material de apoio diversificado e adaptado aos valores, hábitos e atitudes da etnia chinesa e a necessidade de definir objectivos e estratégias de aprendizagem (por exemplo, falar sempre em português, usar o dicionário como último recurso, articular frases desde o início do curso, fazer exercícios, utilizar o laboratório de línguas e/ou audiovisuais) (André, 1986). No campo da psicotécnica, o aperfeiçoamento dos testes de natureza psicológica (aferição, precisão, validação) faz ressaltar o cuidado a ter com os aspectos verbais, impostos pela utilização da língua chinesa (tradução, recurso a intérpretes, dificuldades de apreensão, etc.), destacando-se pelas suas especificidades as provas que pretendam avaliar o raciocínio ou compreensão verbal em chinês. 621 4. ASPECTOS PSICOLÓGICOS O comportamento individual e social dos chineses tem sido objecto de estudos científicos por numerosos autores, mas pouco divulgados no Ocidente. Para nós a questão é crucial visto encontrarmo-nos inseridos numa sociedade maioritariamente chinesa, haver já hoje um número significativo de funcionários chineses nos diversos serviços públicos, que constituem os recursos humanos indispensáveis ao processo de «localização». Destacam-se os aspectos que interessam particularmente a este trabalho e que irão ser passados sucintamente em revista numa visão intercultural (de novo) e dicotómica entre a psicologia ocidental e a oriental (Ho; Hoosain; Liu; Yang; Bond e Hwang; 1988). O processo de socialização da criança de etnia chinesa é o primeiro passo para compreender características específicas do desenvolvimento cognitivo e de personalidade. Os pais tendem a ser bastante permissivos com os filhos na primeira infância (entre os 4 e os 6 anos) e a impor-lhes grande disciplina após esta idade, valorizando a obediência, a moral, o controlo da agressividade e a aceitação dos deveres sociais. São desincentivadas a criatividade, a auto-afirmação, a independência e o aventureirismo. A figura parental paterna é vista como a mais severa e disciplinadora, recorrendo contudo poucas vezes à coacção física ou aos castigos. Em geral, a criança tem tendência para ser mais inibida, menos activa, apreensiva no contacto social e menos verbalizadora que a sua semelhante ocidental. Diversos programas educativos na RPC e Taiwan têm procurado progressivamente contrariar estas disposições, assim como incentivar atitudes favoráveis dos pais, que se têm traduzido em melhores resultados académicos e adaptação social. Nos campos da percepção e cognição, merece realce o problema das dificuldades de leitura e compreensão da escrita que se julga diferente de comunidade para comunidade, visto as ortografias serem também diversas, neste caso a escrita chinesa e a portuguesa. O fenómeno assinalado como peculiar do Ocidente, tem igual modo « representatividade» nestas latitudes. Paradoxalmente, a dislexia da criança oriental caracteriza-se mais pela incompreensão do sentido das palavras do que na relação visão--leitura-som de palavras isoladas próprias dos testes de vocabulário. Tal facto é verificado empiricamente pelo método de ensino usado nas escolas: exercícios sistemáticos de pronúncia (em coro), a fim de relacionar a forma visual do caracter com o seu significado. Relativamente à memória, na criança oriental verifica-se um maior poder de fixação de estímulos se estes forem apresentados visualmente em vez de oralmente (por exemplo, listas de palavras). Através da aplicação das Matrizes Progressivas de Raven para 622 medir o «factor g», constatou-se que os chineses obtêm melhores resultados nos últimos itens do que os europeus, facto que parece explicado pelo teste envolver um raciocínio com base em relações figurativas visão-forma, típicas da escrita logográfica. Pela utilização de 4 subtestes do Hunter College Aptitude Scales em vários grupos étnicos, os alunos chineses alcançaram melhores notas, primeiro em aptidão espacial, depois em raciocínio, aptidão numérica e a mais fraca em compreensão verbal. Com uma versão chinesa do Torrence Tests of Creative Thinking (forma verbal) que realça a fluência de ideias, índice de originalidade e flexibilidade, obtiveram-se em Taiwan normas inferiores às americanas. Contudo verificou-se exactamente o contrário quando foi aplicada a forma não-verbal (figurativa) do teste. Ainda neste país, provas fundamentadas na teoria Piagetiana do desenvolvimento cognitivo e concretamente tendo em conta os períodos de aparecimento das noções de tempo, quantidade, seriação, peso, inclusão, volume, etc., mostraram um atraso nestas aquisições relativamente aos estudos ocidentais. A dois grupos de alunos (chineses e australianos) foram administradas as escalas de inteligência Stanford-Binet e WISC, no que respeita à avaliação dos factores espacial-mecânico, verbal e memória. Os resultados demonstraram estruturas intelectuais semelhantes, salientando-se, porém, que os australianos consideraram mais difíceis os itens de memorização do que os espaciais. Inversamente, os chineses mostraram maior dificuldade nas relações espaciais-mecânicas e maior facilidade na memória. No que refere à personalidade, vários instrumentos utilizados — Questionário de Personalidade de Bernreuter (BPI), Questionário Neurótico de Thurstone e o Questionário de Personalidade de Cattell (16PF) — levaram a concluir da existência, na população chinesa, de índices elevados nos factores relacionados com a emotividade, ansiedade, sensibilidade, timidez, desconfiança e frustração. As normalizações da versão chinesa do Inventário de Temperamento de Guilford-Zimmerman (ITGZ) revelaram valores inferiores para a estabilidade emocional. Através da Escala de Ansiedade Manifesta para Crianças, da Escala de Ansiedade de Cattell e da adaptação de conteúdo para chinês do Questionário de Personalidade de Eysenck (EPI), obtiveram-se resultados significativamente mais elevados do que as estatísticas americanas, no que respeita à ansiedade. Na última prova citada — cuja versão original foi aplicada aos participantes do PEP — a escala de neuroticismo apresentava valores mais elevados nos indivíduos chineses do que nos ingleses (sexo masculino), invertendo-se a situação no sexo feminino. 623 Outro factor importante é á reflexão, prudência e inibição, e o seu oposto, a impulsividade, impetuosidade e rapidez. As observações efectuadas confirmam aquilo que muitas vezes o senso comum ocidental tem inferido sobre o carácter dos chineses: cautela, humildade, modéstia e não-agressividade. Pelo 16 PF de Cattell e ITGZ, verificou-se, em relação às normas americanas, maior valorização em segurança, introspecção, auto-controlo e menor em aventureirismo, ousadia e irreflexão. A análise projectiva dada pelo teste de Rorschach revelou condicionamento da espontaneidade e auto-domínio, bem como um número relativamente baixo de respostas (totais), muitas «recusas» (figuras sem interpretação) e valores de tempo mais longos na reacção à l. a prancha e em cada uma das respostas. Tais factos parecem significar comportamentos cautelosos, inibidos e menos naturais. A aplicação do Teste de Apercepção Temática (TAT) demonstrou grande similaridade com estes resultados e o Teste de Frustração de Rosenzweig indicou a predominância de reacções intrapunitivas (angústia e agressividade atribuídas a si próprio em consequência da interiorização de comportamentos) sobre as extrapunitivas (frustração atribuída às situações de relação com os outros). A extroversão e a sociabilidade constituem um traço perso-nalístico estudado por alguns dos meios já referidos. Praticamente todos eles apontam uma tendência para a introversão, contacto social limitado, tristeza, fraca comunicação interpessoal e solidão. Com base nas investigações anteriores, ressaltaram dois «novos traços» que se julgam muito específicos das culturas orientais e descritos em seguida. A componente «prática» da personalidade dos chineses foi evidenciada, por exemplo, noutra técnica projectiva, o Teste de Horn-Hellersberg, que apela à análise de conteúdo no completa-mento de desenhos. Aqui, confirmou-se o realismo, o raciocínio concreto e a rapidez da aplicação prática das ideias. A outra disposição refere-se à perspectiva holística das coisas e acontecimentos. Parece confirmar-se esta hipótese pelos dados postos em evidência no teste de Rorschach, tal como o número significativo de respostas globais em vez de detalhe, e no TAT em que dominam as interpretações cénicas, como um todo em lugar da decomposição das histórias em partes. Passando em revista alguns dos aspectos relativos a aptidões, aquisição de conhecimentos e personalidade dos chineses, a procura de explicações para determinados «valores» típicos nem sempre tem sido tarefa fácil para os pesquisadores. Contudo e em síntese, existe consenso em: a) Atribuir maior complexidade à escrita dos caracteres relativamente aos alfabetos ocidentais, pondo em relevo a percepção espacial; 624 b) A aprendizagem dos dois tipos de linguagem apresenta o mesmo grau de dificuldade para ambas as culturas; c) Devido a algumas condições de socialização exclusivas, tais como o «respeito pelos mais velhos e/ou superiores», a «memorização das lições» e o «espírito prático», desenvol veram-se comportamentos como a diminuição da fluência verbal, a elevada capacidade de memorização e o raciocínio matemático; d) Determinadas características de personalidade podem evi denciar «contaminação cultural» (por exemplo, a emotivi dade, ansiedade) embora outras pareçam ter base genética (como a fraca excitabilidade e impulsividade) 8 . 5. ASPECTOS PSICOPEDAGÓGICOS Abordaremos, uma última questão de relevo neste estudo: o papel das características individuais na capacidade de aprendizagem de uma segunda língua (McDonough, 1986; Crystal, 1987; Oller, 1979; Wilkins, 1983; Anastasi, 1977; Freeman, 1976). O problema é complexo e envolve pelo menos a conjugação de quatro vectores a não ignorar no processo de aprendizagem (fig. 4). [FIGURA N. ° 4 8 Cf. D. G. Freedman e N. C. Freedman, «Behavioural differences between Chinese-American and European — American newborns», Nature, 224, 1227 (1969) e D. G. Freedman, Human Infancy: an Evolutionary Perspective, Hillsdale, New jersey: Erlbaum (1974), cit. por Kuo-Shu Yang (ibidem). 625 Nos factores sociais, incluem-se as diferenças culturais e de atitudes entre o professor e os alunos e os estratos sociais de proveniência. A inexistência de duas turmas iguais, inclusive no mesmo estabelecimento de ensino ou centro de formação, o tipo de gestão e suas relações com o pessoal docente e discente, a quantidade e a qualidade dos cursos e os meios de apoio à disposição, inserem-se nas variáveis organizacionais. Dos factores que envolvem o professor/formador destacam-se a necessidade de este ser um «nativo» da língua que ensina, a idade e o sexo, personalidade, estilo pedagógico e experiência. Por último, a variável aluno: idade, sexo, personalidade, conhecimentos já adquiridos, estilo cognitivo, motivação, atitudes e aptidões. Em relação à definição de conceitos, diferenciamos «aquisição» e «aprendizagem». A primeira deve ser referida sobretudo à língua materna e ao meio natural em que se vai processando o seu conhecimento, e a segunda, quando se trata do ensino formal (professor, sala de aula, curso estruturado). Do mesmo modo, torna-se necessária a distinção entre «língua estrangeira» e «segunda língua». No primeiro caso, qualquer língua não-materna, aprendida numa escola e sem «estatuto oficial» de comunicação num país; no segundo caso, a língua também não-materna mas «oficialmente» aceite e considerada útil para comunicação, por exemplo, na Administração, negócios, etc. Reconhece-se facilmente que a língua portuguesa pretende alcançar o nível de «segunda língua» em Macau, o que embora difícil, está a merecer o maior empenhamento da parte do Governo. O PEP, entre outras medidas positivas de igual projecção, procura diminuir o fosso da barreira linguística na Função Pública. Procurar destronar o inglês seria uma tarefa árdua e de resultados duvidosos, já que, aprendida como «língua estrangeira», ocupa de facto no Território uma posição de «segunda língua». Na Administração, e como referência estatística, recorde-se que, independentemente da forma (falado, escrito ou lido), ou de grau (bem ou regular), afirmaram ter conhecimentos de cantonense 85% dos funcionários, de português 53% e de inglês 49%. Apesar de nos irmos restringir à área das aptidões intelectuais e personalidade, a motivação constitui o primeiro aspecto a considerar no âmbito das diferenças individuais. Estar motivado implica, em primeiro lugar «sentir uma necessidade», «ter um motivo ou desejo», depois «passar à acção» (o comportamento) e por fim procurar atingir o objectivo. Dois exemplos distintos: a fome (aparecimento da necessidade biológica, procura de alimento e acto de comer) e a valorização profissional (desejo de promoção ou de adquirir novos conhecimentos, consulta de documentação e locais de formação, frequência do curso pretendido). Na última hipótese 626 referida, a motivação transformou-se em «aprendizagem pedagógica» (eventualmente de uma língua...); comer exige apenas «aprender a comer»! Interessa-nos sobretudo salientar que o grau de motivação para estudar uma língua estrangeira (ou segunda) é condicionado por diversos factores. Se alguém deseja aprender outra língua para melhor conhecer e influenciar os outros, para enriquecimento pessoal ou ocupação de tempos livres, a rapidez e eficiência serão significativamente mais elevadas que sob quaisquer outras condições. Os métodos de ensino podem e devem favorecer o ambiente propício ao desenvolvimento do interesse dos participantes, criando atitudes positivas face à nova linguagem, como se da língua materna se tratasse e para com o próprio bilinguismo. Distinguimos também entre uma motivação chamada «instrumental» (por exemplo, porque faz parte do sistema educativo, é necessária para obter um emprego, etc...) e a «integrativa» (aprender porque se deseja conhecer e participar numa cultura diferente, comunicar, perceber os valores, viver com as pessoas nesse país). É este tipo de motivos que, indiscutivelmente, os candidatos ao PEP deverão possuir, para que a tarefa de aprendizagem da língua portuguesa, se torne facilitada, encorajante e no futuro, cataliza-dora de relações humanas e troca de experiências. Muitas das diferenças de rendimento obtido por alunos ou formandos em situação de ensino escolar ou profissional, são devidas a factores externos, tais como a mudança de formador, curso ou estabelecimento, problemas financeiros, doença ou outros. Todavia, foi o facto de não se conhecer ainda em que medida as características individuais influem nos resultados obtidos na aprendizagem de uma 2. a língua e a necessidade de aplicar uma metodologia de selecção válida aos candidatos ao PEP, que justifica esta pesquisa. Não sendo aqui o momento de referir a polémica suscitada pelo conceito de inteligência, QI ou outros, interessa-nos, no entanto, a definição operacional de inteligência: a capacidade para analisar, compreender e resolver problemas de índole intelectual e a adaptação a novas situações. Ambas as vertentes, resolver problemas e adaptação, merecem o devido relevo nos meios que dispomos para a avaliação do nível intelectual. Porém, em que medida o nível intelectual pode predizer o sucesso na aprendizagem de uma língua estrangeira? McDonough 9 questiona o papel da inteligência em três aspectos: 9 Ibidem. 627 a) A inteligência parece não constituir um factor importante na aquisição da primeira linguagem. Só posteriormente, na fase escolar, se correlaciona com o desenvolvimento linguístico; ò) Existe dificuldade em separar objectivamente o factor inteligência do conhecimento da língua, dado os testes apresentarem normalmente problemas sob a forma verbal (conteúdo das perguntas e respostas); c) À inteligência, conforme a influência dos métodos de ensino, conteúdos das matérias, etc., pode ou não relacionar-se com a aprendizagem da língua em geral (por exemplo, se a motivação for elevada, indivíduos com baixos ou médios QI conseguem aprender uma língua). Se as críticas anteriores podem conter questões pertinentes, não é menos verdade que investigações várias têm concluído pela estreita relação entre o «factor g» e o rendimento escolar global, bem como com as provas de raciocínio ou compreensão verbal em particular 10). No que respeita às instruções e conteúdo dos testes apelarem aos conhecimentos da linguagem escrita, muitos deles são do tipo não verbal, como uma das escalas do Wechsler Intelligence Scale for Children (WISC), a mesma prova para adultos (WAIS), as Matrizes Progressivas de Raven e o teste utilizado neste trabalho. Outras pesquisas revelaram a existência de correlação significativa no caso do método «clássico» de aprendizagem de línguas (explicação do professor, estudo de casos, apresentação de regras gramaticais, etc.) e ausência de correlação no método audio--linguístico (através da rádio, vídeo, cassetes audio, etc.). Não esquecendo o número limitado de investigações nesta área, podemos afirmar na generalidade que são fracas as correlações obtidas entre provas de nível intelectual e de rendimento numa língua estrangeira. No campo das aptidões, os resultados são também escassos e eventualmente ainda pouco relevantes. Embora haja referência a variáveis como a memória e a atenção, na verdade estudos sobre as aptidões e o aproveitamento em línguas praticamente não constam do material bibliográfico de que dispomos. Contudo, alguns autores procuraram descobrir uma «aptidão linguística», baseados no facto de, tendo as pessoas diferentes capacidades para aprenderem línguas estrangeiras, existir, portanto, algo de inato e potencial. Assim, foram construídos vários testes para avaliar «potenciais capacidades» linguísticas e prever o rendimento em qualquer disciplina de língua não materna. 10 Cf. A. Anastasi e F. Freeman (ibidem); os testes de compreensão verbal são validados pela correlação positiva e significativa com a eficiência escolar obtida no ensino da língua materna. 628 O primeiro e mais antigo é o Teste de Prognóstico de Língua Estrangeira de Symonds, que visava medir a aptidão «pura», através de exercícios de formação de palavras e frases em Esperanto. Posteriormente apareceu o Teste de Aptidão para Línguas Modernas de Carroll e Sapon (MLAT), composto por exercícios práticos e utilizando o gravador, papel e lápis. As principais funções a medir são: a aprendizagem de números, a memória associativa, a fonética (ligação sons-símbolos), a ortografia, estrutura gramatical e vocabulário. Os resultados preditivos experimentais parecem promissores, mas os valores estatísticos alcançados não ultrapassam uma correlação média de 0,53 11 . Preparado para o mesmo fim, o Teste de Aptidão para Línguas de Pimsleur (LAB) compõe-se de elementos linguísticos e não-linguísticos. Compreende 4 subtestes: vocabulário da língua materna, identificação e aplicação correcta de partículas gramaticais e frases numa língua artificial, discriminação fonética e associação de sons com seus símbolos escritos. A segunda parte valoriza a média do estudante em outras disciplinas (não em línguas estrangeiras) e o seu interesse em aprender uma nova língua. A nota final é a soma ponderada de todos os factores, verificando-se uma predição da ordem de 0,71. Porém, a correlação apenas entre os 4 subtestes enunciados e o resultado da aprendizagem, decresce para um nível idêntico ao MLAT, demonstrando a importância da motivação em todo este processo. l2. Fruto de alguma controvérsia tem sido também o estudo da relação entre a língua materna e a aprendizagem de outra língua. Segundo Crystal e Wilkins13, tanto as correntes behavioristas como cognitivas, fundamentam as suas experiências na análise de erros idênticos em ambas as línguas, demonstrando os primeiros, que as semelhanças de sons, estrutura, etc., causam «transferências positivas» e as dissonâncias, «transferências negativas», e concluindo os segundos que a utilização da criatividade, maior esforço intelectual, etc., podem aumentar significativamente o conhecimento de uma segunda língua, sem influências da linguagem materna. As críticas a ambos os modelos são várias, embora na generalidade pareça ser reconhecido o facto de que quanto melhor foi a aquisição da primeira língua, mais facilitada é a tarefa de aprendizagem de outra. Finalmente, abordaremos em seguida o papel da personalidade, globalizadora dos valores, atitudes, comportamentos e reacções emotivas do indivíduo. O EPI (Eysenck) aplicado a alunos de francês mostrou-se não preditivo e mesmo pouco válido na medição da extroversão. 11 Cf. D. A. Wilkins, pág. 179 (ibidem). Ibidem. 13 Ibidem. 12 629 Paradoxalmente, a versão do mesmo teste (em espanhol) aplicada aos estudantes de inglês, revelou correlação significativa com provas de fluência verbal (oral). A utilização da Escala de Budner para avaliar a tolerância à ambiguidade (tendência para perceber as situações ambíguas como mais ou menos perturbadoras), visto as interacções professor/aluno/grupo originarem por vezes conflitos, divergência de opiniões, incertezas e dificuldades, demonstrou apenas que os indivíduos que ouviam e compreendiam bem as tarefas a realizar, não se preocupavam com o tipo de situação. Respostas ao TAT comprovaram a hipótese de relação entre a empatia (sensibilidade para com os outros) e o sucesso na aprendizagem da língua, especialmente na fase de verbalização e pronúncia. Para concluir, o conceito de «aptidão linguística» é ainda impreciso e os resultados inconclusivos necessitam de investigação adequada. A sua relação com o facto de haver indivíduos que obtêm maior ou menor rendimento na aprendizagem de uma língua estrangeira (ou segunda) não foi até ao momento totalmente estabelecida. Apesar de tudo, a observação e a experiência, comprovam que com a necessária motivação e inteligência, capacidade de adaptação, sociabilidade, memória, atenção e «habilidade» para discriminar diferenças fonéticas, qualquer pessoa pode realmente aprender uma língua não-materna 14. Ⅲ FORMULAÇÃO DE HIPÓTESES Após a análise dos principais pressupostos teóricos que fundamentam a observação experimental realizada, é necessário equacionar hipóteses e suposições que se pretendem vir a comprovar (ou não) através da metodologia estatística utilizada. Porém, é de salientar que mais importante do que as hipóteses formuladas, é exactamente a impossibilidade de isolar «todas» as hipóteses possíveis, relegando-nos antes para um comportamento expectante face aos reais resultados obtidos e descobrir a sua explicação. Admite-se a formulação das seguintes hipóteses no que concerne à correlação positiva e significativa entre as variáveis psicológicas e a aprendizagem de uma língua estrangeira: 14 Excluiram-se intencionalmente da nossa análise um conjunto de variáveis demasiado importantes para serem esquecidas: descontinuidade ou ensino demasiado rápido, definição de objectivos pedagógicos, flexibilidade na metodologia de apoio, experiência dos professores/formadores, estilo pedagógico, reconhecimento das diferenças individuais, etc. 630 Valores elevados na eficiência intelectual, compreensão da língua materna (raciocínio verbal), atenção concentrada e capacidade mnésica, favorecem a aprendizagem. A média das notas T dos testes de «factor g» e aptidões (raciocínio verbal, atenção e memória) poderá ser um indicador do êxito na aprendizagem da língua. A tendência para a extroversão, com as consequentes características de sociabilidade, empatia, comunicação e outras facilitam a aprendizagem; por outro lado, comportamentos ansiosos, que predisponham à angústia, irritabilidade, tensão ou outros, dificultam-na. A avaliação positiva de comportamentos manifestos pela prova de grupo e entrevista psicológica, tais como a liderança, capacidade de diálogo, decisão, integração no grupo, motivação, estabilidade emocional e maturidade, dispõem a um maior sucesso na aquisição de competências linguísticas. O resultado do exame psicológico procura ser preditivo da capacidade global de adaptação a uma função ou futura situação profissional. No caso do PEP pretende-se prognosticar não só este aspecto, mas também o sucesso na língua portuguesa. Quanto melhor for o domínio da língua materna, maiores as possibilidades para compreender e falar outra língua. Quanto melhor for o domínio de uma primeira língua estrangeira, maior facilidade poderá existir na aprendizagem de uma segunda língua. Ⅳ METODOLOGIA DE DIAGNÓSTICO 1. CARACTERÍSTICAS DA POPULAÇÃO A «população PEP» é ainda neste momento constituída por um número relativamente pequeno de sujeitos. A nossa população é constituída por 58 indivíduos com habilitação universitária provenientes da selecção efectuada para os 3.° e 4.° PEP cujas principais características se detalham no Quadro n.° 4 15. * 15 Vide também para o efeito a caracterização de naturalidade e local de habilitação (pág. 611 e 612). 631 Características da população [QUADRO N.° 4] Fonte: SAFP/DRS 2. INSTRUMENTOS DE DIAGNÓSTICO Alguns dos meios de diagnóstico utilizados tiveram como objectivo possibilitarem a recolha de dados indispensáveis ao desenvolvimento deste trabalho (provas de memória, atenção e compreensão verbal; resultados do aproveitamento escolar em chinês, inglês e português). Outros têm vindo a ser aplicados aos l.°, 2.° e 3.° PEP (avaliação curricular, entrevista profissional e de capacidade linguística) e finalmente ao 4.° PEP foi acrescido o exame psicológico individual (teste de «factor g», entrevista psicológica e prova de grupo). O Quadro n.° 5 destaca as características mais relevantes de cada técnica, sua finalidade e importância. 3. PROCEDIMENTOS A recolha de dados e os processos de selecção envolveram a aplicação das técnicas anteriormente descritas, em duas fases, a l. a dentro do calendário previsto para cada uma das acções (3.° e 4.° PEP, respectivamente em Agosto e Dezembro de 1988) e a 2.a, posterior (Março e Abril de 1989), visando estritamente este trabalho. As informações relativas ao aproveitamento de cada candidato nas línguas chinesa e inglesa foram extraídas dos respectivos diplomas considerando-se como resultado global, (0-100%) a percentagem média das notas disponíveis e ao longo dos diferentes 632 anos de ensino secundário (90% dos casos; 10% em cursos superiores). No que respeita ao aproveitamento em português, em Macau, os participantes (3.a e 4.° PEP) foram avaliados em 3 momentos diferentes (curso completo de 400 hs) e submetidos a uma prova global de avaliação (4.° PEP). Em Portugal frequentaram um curso idêntico (de aperfeiçoamento - 400 hs). As notas apresentam-se em percentagens (anexos l e 2). Instrumentos de diagnóstico (QUADRO N.° 5) (Continua na página seguinte) 633 (continuação da página anterior) Os principais procedimentos estatísticos (Garrett, 1962; Guil-ford e Fruchter, 1987; Anastasi, 1977; Freeman, 1976) que asseguraram o tratamento dos dados figuram no Quadro n.° 6. Metodologia estatística [QUADRO N.° 6] * Notas atribuídas conforme aferições anteriores já disponíveis para a população chinesa. Ⅴ RESULTADOS E DISCUSSÃO 1. O TESTE DE RACIOCÍNIO VERBAL (RV) O estudo da fidedignidade (precisão) e validade do teste de raciocínio verbal aplicado reveste-se de grande interesse não só para 634 a selecção de candidatos ao PEP como também em acções que impliquem a avaliação das capacidades verbais inerentes ao domínio da língua materna. O conhecimento ainda que elementar das diferenças fundamentais entre as línguas portuguesa e chinesa anteriormente descritas, teve, entre outros objectivos, o de alertar para a dificuldade e o risco da transposição pura e simples de conteúdos escritos, que normalmente saturam as provas psicológicas deste tipo. Contudo, julgamos haver duas questões distintas: a primeira, necessariamente difícil de controlar e que pode interferir nos resultados, relaciona-se com a tradução, que se procurou o mais fiel possível, de modo a manter o mesmo significado e sentido da versão original, visto as estruturas linguísticas serem diversas (sistema logográfico versus alfabético); a segunda, refere-se à compreensão ou raciocínio indispensável à resolução dos problemas do teste, que cremos semelhante para qualquer indivíduo com normais capacidades intelectuais que satisfaça as condições gerais de aferição (p.e., idade e nível de habilitação), e independente da linguagem, cultura ou raça. O teste foi aplicado sem tempo limite, dado tratar-se da única aplicação experimental efectuada. A duração média obtida é superior em aproximadamente 4 minutos ao usualmente concedido (7 minutos). Uma das possíveis explicações pode residir no facto da «complexidade» perceptiva (análise, interpretação) dos itens em chinês, relativamente a uma língua ocidental. Utilizaram-se duas técnicas estatísticas para a determinação do coeficiente de fidedigni-dade do teste RV: a fórmula de Kuder-Richardson e a fórmula de Spearman-Brown. O emprego dos dois métodos permitiu comparar os resultados obtidos, por vias diferentes. Os resultados obtidos consideram-se pouco satisfatórios relativamente à consistência interna do teste, se atendermos aos valores normalmente aceites como tal, ou seja, pelo menos um índice de 0,80. O coeficiente de fidedignidade para a prova total é de 0,36 (KR) ou 0,38 (SB). Significa isto que, caso a prova fosse aplicada de novo aos mesmos indivíduos, estes não teriam teoricamente resultados idênticos, demonstrando o teste RV ser neste momento um instrumento pouco fiel nas medidas que oferece, para avaliação da população chinesa. Qual a razão porque o teste RV não correlaciona com a aprendizagem do português (se é válido para o prognóstico do inglês), tratando-se também de uma língua ocidental? É uma questão que deixaremos em aberto, visto serem diversas as variáveis influentes: métodos pedagógicos de ensino diferentes, atribuição de notas e outras, que poderão ser objecto de futura reflexão. 2. APRESENTAÇÃO E INTERPRETAÇÃO DE RESULTADOS Os resultados individuais constantes nos quadros dos anexos l e 2 totalizam 14 variáveis para o 3.° PEP, e 17 para o 4.° PEP. 635 Diversas dificuldades se colocaram na recolha de dados, que de algum modo poderão influir negativamente nos valores estatísticos obtidos e induzir a interpretações menos correctas, que se passam a enumerar: a) A classificação conferida ao exame psicológico (T2) no 3.° PEP corresponde apenas ao parecer global atribuído com base na entrevista II 16; b) As notas escolares em chinês e inglês tiveram frequente mente de ser transformadas do modo qualitativo inicial (p.e. em grupos A, B, C, D...) para quantitativo (percenta gens); c) Processo idêntico foi utilizado para as avaliações a portu guês, (classificações fornecidas na escala de O a 20 valores, ou em classes — muito bom, bom +/-, suficiente +/-, etc.); d) O diferente «background» de conhecimento de língua portuguesa que os participantes possuiam à partida e a posterior orientação para grupos de aprendizagem distintos (p.e. sem prévios conhecimentos de português; com inicia ção de +/- 100 hs; e conhecimento = ou sup. a 200 hs), criam pseudo-avaliações idênticas que não reflectem o verdadeiro nível linguístico alcançado (p.e. 70% no grupo de «iniciação» não significa o mesmo que no grupo de «aperfeiçoamento»); e) Os diversos locais de aprendizagem da língua, especial mente em Portugal, associados a ambientes, métodos pedagógicos e sistemas de qualificação diferentes. As matrizes de intercorrelações apresentadas nos quadros dos anexos 3, 4 e 5, referem-se respectivamente às informações sobre o 3.° PEP, o 4.° PEP e aos 3.° e 4.° PEP (factores comuns aos dois). Estes últimos dados consideram-se mais consistentes por incluirem toda a população. Descrevem-se em seguida as análises e comentários às hipóteses propostas, tendo como referência a aprendizagem do português como língua estrangeira: As aptidões mentais primárias (inteligência geral, atenção concentrada, memória associativa e raciocínio verbal) não apresentaram uma correlação significativa com a aprendizagem da língua portuguesa, bem como o seu valor médio (Tl). A tendência para a extroversão, tal como é medida pelo EPI, e a ansiedade (factor neuroticismo) não influem significativamente na aprendizagem. * 16 Ver quadro 5, pág. 633 e 634. 636 A prova de grupo e principalmente a entrevista psicológica, apresentam correlações positivas e significativas com a aprendizagem do português (4.° PEP). Tal facto fica certamente a dever-se à forma participativa e activa da metodologia pedagógica empregue nas aulas, que farão sobressair alguns dos factores avaliados pelas duas técnicas de selecção: comunicação, motivação, sociabilidade e outras. A classificação final do exame psicológico parece ser um indicador favorável sobre o prognóstico dos futuros conhecimentos de língua portuguesa, especialmente com os resultados escolares obtidos em Macau, devido à perda de influência da bateria de testes aplicada, na conjugação com os resultados da entrevista e prova de grupo. Não existe relação entre o domínio da língua chinesa e a aprendizagem do português. Contrariamente e de algum modo paradoxal, é elevada a correlação entre as línguas chinesa e inglesa. Estes resultados parecem associar-se ao desacordo existente entre os especialistas nesta matéria (v. pág. 629). Os métodos de ensino utilizados poderão também justificar parcialmente estes valores: aprender inglês segundo modelos tradicionais ou português por métodos mais participativos. Não se comprova claramente que os participantes que demonstram possuir melhores conhecimentos de língua inglesa, alcancem bons resultados na aprendizagem de português. A correlação é superior apenas no 3.° PEP e significativa na avaliação realizada em Portugal. Ⅵ CONCLUSÕES Caracterizámos, na generalidade, o período de transição que a Administração Pública de Macau atravessa e a necessidade do seu crescimento, definimos o PEP, os seus participantes e as políticas de bilinguismo e localização, para perceber em que contexto se enquadra este trabalho, a sua actualidade, a urgência em descobrir novas metodologias e a sua importância prática no âmbito do recrutamento e selecção de pessoal para a Administração. Ultrapassámos a visão restrita dos nossos objectivos, focando e desenvolvendo ideias nas áreas sociais e das relações interculturais, demonstrando a sua relevância face à diversidade que nos rodeia. Analisámos os principais elementos constituintes das línguas chinesa e portuguesa, as características intelectuais e de personalidade próprias do povo chinês e citámos pesquisas no mesmo âmbito, possibilitando comparações, assumindo diferenças e procurando comprovar as hipóteses estabelecidas. As conclusões enunciadas em seguida serão sempre «relativas» e de carácter não definitivo, tendo sobretudo como objectivo, possibilitarem eventuais mudanças de atitudes face às necessidades 637 e desafios actuais e futuros da Administração, no que respeita à gestão de recursos humanos, especialmente no recrutamento de quadros, formação profissional e ensino do português. O Programa de Estudos em Portugal é indiscutivelmente uma das mais importantes vias de captação de pessoal, com habilitação superior, tendo em vista o preenchimento progressivo de lugares técnicos intermédios. Vários dos instrumentos psicológicos utilizados não corresponderam às expectativas depositadas. Como se pode verificar pelos resultados apresentados, apenas a prova de grupo, a entrevista e a classificação final do exame psicológico apresentam valores significativos quanto à sua validade e predição do sucesso na aprendizagem do português como língua estrangeira. A reflexão sobre as diversas variáveis abordadas remete-nos para a adopção de procedimentos que possibilitem a criação de condições favoráveis à situação de aprendizagem da língua portuguesa como segunda língua: a) Ao nível social Transmitir aos cidadãos informações precisas e autênticas sobre o esforço e empenhamento da Administração neste período da vida do Território, no que respeita às políticas de localização. Tal facto elucidará a população em geral e os candidatos ao emprego público, em particular. Incrementar o bilinguismo no interior da Administração e no exterior, procurando, respectivamente, criar áreas de maior diálogo e reciprocidade de experiências, e dar a conhecer as riquezas culturais mútuas de povos que coabitam no mesmo espaço há 400 anos. b) Ao nível dos actuais quadros (portugueses) Conhecer previamente o perfil psicológico do indivíduo de etnia chinesa, evitando conflitos e enfatizando as suas potencialidades, procurando a relação interpessoal óptima e a adaptação funcional. Aceitar e compreender a diferença cultural e os outros, especialmente os recém-chegados à função pública. A sua eventual inexperiência é compensada pela motivação, interesse em adquirir novos conhecimentos e espírito de colaboração, facilmente detectáveis no quotidiano. Enquadrar e apoiar nas dificuldades, sobretudo na resolução dos problemas linguísticos e profissionais. c) Ao nível dos participantes no PEP Informar e consciencializar para os obstáculos a vencer, salientando-se entre outros, a aprendizagem do português, a inserção momentânea na sociedade portuguesa e suas consequências positivas e negativas (hábitos, valores, atitu638 des), a eventual dissemelhança dos tipos de gestão e métodos de trabalho, e as pessoas (diferentes) que inevitavelmente vão encontrar (culturas, conhecimentos, modos de estar e sentir, etc.). d) Ao nível das técnicas de selecção Ter em conta o perfil psicológico teórico que caracteriza a população chinesa: Pontos fortes Pontos fracos Interpretação global das eoisas e aeontecimentos (holística) Raciocínio concreto Raciocínio numérico Raciocínio espacial Memória visual Tendência para: prudência não-agressividade segurança autocontrolo introspecção perseverança tolerância Compreensão verbal (expressão de ideias e fluência) Constrangimento social (sociabilidade) Comunicação interpessoal Tendência para: instabilidade emotiva ansiedade introversão egocentrismo angústia desconfiança inibição autoritarismo Aperfeiçoar metodologias de recrutamento e selecção que prognostiquem índices de sucesso mais elevados, particularmente os que se referem à escolha dos participantes no PEP. Proceder a novas investigações nesta área e à eventual utilização de testes como o MLAT ou o LAB, mais adaptados ao diagnóstico de uma «aptidão linguística geral». Concluindo, o cuidado e a qualidade a pôr na selecção de candidatos ao PEP e a outras inúmeras funções da Administração Pública, obrigará, inevitavelmente, a atrair o interesse para novas pesquisas, porventura mais concludentes e passíveis de alterar positivamente as técnicas empregues neste momento e respectivos resultados. Bibliografia Adler, Nancy J . , International Dimensions of Organizational Behavior, Boston, Kent Publishing Company, 1986. Aguila, W. del, «Educational Effects of Multilingualism in Guatemala», in Journal of Multilingual and Multicultural Environment, Clevedon, Avon, vol. 8, n.° 4, 1987. 639 Almeida, Leandro S., Manual da Bateria de Provas de Raciocínio Diferencial (estudo de adaptação e aferição à população portuguesa dos 'Tests de Raisonnement Differentiel de Meuris', 1970), Porto, Serviço de Cons. 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38 43 52 29 54 54 43 43 57 43 59 64 34 71 74 72 91 73 80 70 66 68 66 61 82 62 70 78 75 73 70 70 62 62 70 70 70 70 62 70 62 62 62 62 62 62 70 54 68 65 66 88 62 61 63 77 54 51 78 62 67 64 66 68 70 55 85 55 90 70 60 75 80 70 80 45 50 45 80 75 90 70 80 85 55 90 65 90 80 80 80 80 50 55 50 85 75 85 PORT3 70 80 85 55 90 70 90 75 80 85 75 45 50 45 85 75 90 PP 70 60 60 65 85 70 80 70 70 65 60 60 70 55 75 70 85 (continua na página seguinte) 642 (continuação da página anterior) G AT MEM 46 68 52 56 59 40 40 38 36 40 30 69 48 58 65 37 44 40 50 42 35 57 40 48 62 42 54 44 52 56 RV 43 63 46 50 58 33 63 54 46 43 Tl IE N 39 64 47 53 61 38 50 44 46 45 64 40 53 46 42 53 40 60 48 60 49 34 52 43 53 49 46 34 41 55 T2 62 62 62 62 62 62 62 70 62 62 CHI ING PORT1 60 77 68 79 69 74 76 81 64 78 70 78 60 72 69 64 75 76 87 81 75 90 40 80 85 80 70 90 80 85 PORT2 75 95 50 80 85 80 80 90 80 85 PORT3 75 95 50 85 85 80 75 90 80 90 PP 7C 8C 5C 75 70 60 85 85 75 85 Anexo II 4 . ° P E P — Resultados de provas posicológicas econhecimentosde línguas G 52 47 54 54 62 52 56 50 54 74 59 64 64 62 50 50 68 64 47 47 59 56 74 47 47 52 AT 53 37 58 58 50 48 50 56 40 65 32 53 50 56 62 62 58 62 44 44 56 56 58 53 48 50 MEM RV 57 46 44 74 50 58 38 58 52 43 50 54 59 33 57 50 48 58 59 63 64 58 50 58 42 43 48 50 46 54 49 43 59 63 48 50 50 54 40 33 52 43 49 54 50 54 44 58 52 58 54 40 Tl IE 52 64 51 43 55 60 52 45 52 72 51 50 50 52 53 56 50 46 65 43 53 60 56 64 50 43 54 56 53 64 51 52 62 60 56 48 49 38 41 48 53 56 54 64 59 60 51 45 51 45 49 64 N 46 54 49 50 43 38 46 52 34 34 34 38 34 34 57 41 34 46 46 50 38 43 29 41 41 49 PRGR 60 70 60 50 60 60 50 60 60 50 60 60 50 60 70 60 60 50 50 60 70 60 50 60 60 70 ENT 60 60 70 60 70 60 60 60 60 60 60 70 60 70 70 60 60 60 60 60 70 70 60 70 60 70 T2 CHI 57 61 57 77 57 92 53 84 62 65 57 74 57 83 57 66 57 79 57 75 60 85 62 70 57 61 62 47 60 77 57 69 62 83 57 82 53 90 57 72 65 79 62 73 57 79 57 87 57 77 60 69 ING P 57 66 86 89 62 75 82 65 75 77 82 75 63 55 81 78 75 76 90 63 80 62 82 86 90 71 ORT1 PORT2 PORT3 PGL PP 80 80 80 76 80 80 80 80 84 80 80 80 80 82 80 60 70 70 64 65 80 60 60 55 60 60 60 60 35 50 60 60 60 55 55 60 60 60 59 60 80 80 80 72 75 60 60 65 66 55 60 60 60 58 60 80 80 80 88 80 70 70 70 63 55 70 60 80 72 65 80 70 70 68 70 60 60 60 60 80 60 60 60 50 65 60 60 60 65 70 80 60 60 56 70 70 70 65 63 50 70 60 70 62 65 70 80 80 71 80 70 70 70 52 60 80 80 80 87 85 70 70 65 72 85 80 80 80 81 80 (continua na página seguinte) 643 (continuação da página anterior) G AT PP 68 59 56 59 52 42 58 42 42 53 MEM RV Tl IE 56 46 75 44 25 68 50 50 63 43 59 53 56 52 43 64 56 40 45 68 N PRGR ENT T2 CHI 46 34 59 59 46 60 50 50 60 70 50 60 60 60 70 57 57 57 60 60 85 70 78 80 62 ING PORT1 PORT2 PORT3 PGL 91 67 81 87 67 70 60 80 60 80 75 80 80 60 80 70 70 90 60 80 51 58 92 72 80 65 70 85 70 85 ANEXO III 3 .° PEP —Matriz de intercorrelações G G AT MEM RV Tl IE N T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PP 1.0000 .2571 .0231 .4414* .6671** -.4016* -.0332 -.1823 .0507 -.0201 .1199 .0761 .0588 .0843 N G AT MEM RV Tl IE N T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PP -.0332 -.1292 -.0497 -.2310 -.1695 -.0421 1.0000 -.1873 -.1675 -.3387 -.2540 -.1862 -.1475 -.1654 AT MEM RV Tl IE .2571 1.0000 .3772 -.0610 .6255** -.0887 -.1292 .2103 .1696 -.2083 .0265 -.0569 .0220 -.0239 .0231 .3772 1.0000 .2006 .6459** -.1002 -.0497 -.1247 .1051 -.2005 .0533 -.0520 -.0670 .0724 .4414* -.0610 .2006 1.0000 .6039** -.6053** -.2310 -.2972 .0704 .3921* -.0501 -.0063 -.0984 .2568 .6671** .6255** .6459** .6039** 1.0000 -.4519* -.1695 -.1499 .1536 -.0369 .0424 -.0347 -.0506 .1308 -.4016* -.0887 -.1002 -.6053** -.4519* 1.0000 -.0421 .1938 .0876 -.1676 .0197 -.1139 -.0305 -.1977 T2 CHI ING PORT1 PORT2 -.1823 .2103 -.1247 -.2972 -.1499 .1938 -.1873 1.0000 .0149 -.1823 .1061 .2719 .3091 .2820 .0507 .1696 .1051 .0704 .1536 .0876 -.1675 .0149 1.0000 .2610 .0014 -.0611 .0026 .2401 -.0201 -.2083 -.2005 .3921* -.0369 -.1676 -.3387 -.1823 .2610 1.0000 .3219 .2583 .2463 .5100** .1199 .0265 .0533 -.0501 .0424 .0197 -.2540 .1061 .0014 .3219 1.0000 .8529** .8588** .6266'* .0761 -.569 -.-0520 -.0063 -.0347 -.1139 -.1862 .2719 -.0611 .2583 .8529** 1.0000 .9781** .6450** (continua na página seguinte) 644 (continuação da página anterior) PORT3 G AT MEM RV Tl IE N T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PP PP .0558 .0843 .0220 -.0239 -.0670 .0724 -.0984 .2568 -.0506 .1308 -.0305 -.1977 -.1475 -.1654 .3091 .2820 .0026 .2041 .2463 .5100** .8588** .6266** .9781** .6450** 1.0000 .6491** .6491** 1.0000 * Significativo ao nível de p. = .05 ** Significativo ao nível de p. = .01 N = 27 ANEXO IV 4.° PEP — Matriz de intercorrelações G G AT MEM RV Tl IE N PRGR ENT T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PGL PP 1.0000 .2702 .2577 .1930 .7461** .2187 -.5143 ** -.3909* -.1679 .2800 -.0423 .0016 -.3177 -.2386 -.1294 -.2845 -.3886 * AT .2702 l .(XXX) .2644 -.1829 .3609* .2225 .1906 -.1421 .3253 .0968 .1870 -.1102 -.2242 -.1370 -.0693 -.0771 -.0086 MEM .2577 -.1644 1.0000 .0842 .5529** -.0304 -.0218 -.2554 -.2732 .0625 .2033 -.1630 -.1225 -.1932 -.0569 -.0805 -.0801 RV .1930 -.1829 .0842 1.0000 .5473** -.1857 -.0033 -.0448 -.2559 -.1124 .4135 * .3815* -.0056 -.1354 -.0960 .1056 .2099 Tl .7461 ** .3609* .5529** .5473** 1.0000 .0695 -.2970 -.3181 -.1884 .1308 .2219 -.2303 -.2753 -1775 -.0541 -.1357 -.0964 IE . 2187 -.2225 .0304 .1857 .0695 1.0000 -.1181 .4591** .4343* .5956** -.2982 -.3222 .1935 -.1556 -.1031 -.0778 .0666 (continua na página seguinte) 645 (continuação da página anterior) N G AT MEM RV Tl IE N PRGR ENT T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PGL PP G AT MEM RV Tl IE N PRGR ENT T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PGL PP PRGR ENT T2 -.5143* -.1906 -.0218 -.0033 -.2970 -.1181 1.0000 .2421 .0118 -.1850 . 1698 . 1473 . 2374 .1649 . 1302 .3792 * .2862 -.3909* -.1421 -.2554 -.0448 -.3181 .4591** .2421 1.0000 4853** .5610** .1892 -.1948 .4051* .2108 .2499 .2709 .3308 -.1679 .3253 -.2732 -.2559 -.1844 .4343* .0118 .4853** 1.0000 .5987** -.2626 -.2690 .4834** .2061 .4064* .4565 ** .3407 .2800 .0968 .0625 -.1124 .1308 .5956** -.1850 .5610** .5987** 1.0000 -.3349 -.3386 .0956 -.0981 .1147 .0989 .0504 PORT1 PORT2 PORT3 PGL -.3177 -.2242 -.1225 -.0056 -.2753 .1935 .2374 .4051 * .4834 ** .0956 .0747 -.1153 1.0000 .6386 ** .6915** .6208** . 5567** .2386 -.1370 -.1932 .1354 -.1775 .1556 .1649 .2108 .2061 .0981 -.0179 -.1164 .6386** 10000 .8392** .6602** .6484** -.1294 -.0693 -.0569 .0960 -.0541 .1031 .1302 .2499 .4064 * .1147 -.2011 -.2222 .6915** .8392 ** 1.0000 .7837** .6539** * Significativo ao nível de p = .05 N ** Significativo ao nível de p = .01 -.2845 -.0771 -.0805 .1056 -.1357 -.0778 .3794 * .2709 .4565 ** .0989 -.0938 .0764 .6208** .6602 ** .7837** 1.0000 .7670** CHI ING -.0423 -.1870 .0233 .4135 * .2219 -.2982 .1698 -.1892 -.2626 -.3349 1.0000 .8302** .0747 -.0179 -.2011 -.938 .0459 .0016 -.1102 .1630 .3815 * .2303 -.3222 .1473 -.1948 -.2690 -.3386 -.8302 ** 1.0000 -.1153 -.1164 -.2222 -.0764 .1071 PP -.3886* -.0086 -.0801 .2099 -.0964 .0666 .2862 .3308 .3407 .0504 .0459 .1071 .5567** .6484 ** .6359** .7670** 1.0000 = 31 646 ANEXO V 3.° c 4.° PEP — Matriz de intercorrelações G G AT MEM RV Tl IE N T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PP 1.0000 .2615 * .1194 .3834 ** .7266 ** -.0200 -.2934 * -.2771 * .0599 .1229 .0570 -.1485 -.0990 -.1551 N G AT MEM RV Tl IE N T2 CHI ING PORT1 PORT2 PORT3 PP -.2934* -.1628 -.0394 -.1596 -.2639 * -.1063 1.0000 .0068 -.0044 .1420 -.0557 .0138 .0066 .0791 AT MEM .2615 * .1194 1.0000 .1442.1442 1.0000 -.1014 .14351 .5126 ** .5858** .0781 -.0590 -.1628 -.0394 .0818 -.0462 -.0184 .1569. .1303 -.0066 .0631 .0109 -.0981 -.1072 -.0226 -.0645 -.0185 -.0071 T2 -.2771* .0818 -.0462 -.3160* -.2303 .1701 .0068 1.0000 -.2206 -.4037** .1284 .2984* .3352* .1549 CHI .0599 -.0184 .1569 -.2998* .2154 -.402 -.0044-.2206 1.0000 .6284** -.4384 -.0790 -.1238 .0939 RV Tl .3834 ** .7266 ** .1014 .5126 ** .1435 .5858** .0000 .6011 ** .6011 *1.0000 -.3164 * -.1366 -.1596 -.2639 * -.3160 * -.2303 2998 * .2154 .4330** .1764 -.0496 -.0811 -.0187 -1606 -.0742 -.1150 .2114 .0059 ING .1229 -.1303 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