MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAPÁ PRÓ-REITORIA DE PESQUISA E PÓS-GRADUAÇÃO CURSO DE MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL Aline Bentes Monteiro POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DO HOMEM: OBSTÁCULOS AO CUIDADO MASCULINO, EM MACAPÁ Macapá 2012 1 Aline Bentes Monteiro POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DO HOMEM: OBSTÁCULOS AO CUIDADO MASCULINO, EM MACAPÁ Dissertação apresentada à pró-reitoria de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal do Amapá, para obtenção de título de Mestre em Desenvolvimento Regional. Orientadora: Profa. Dra. Rosemary Ferreira de Andrade. Macapá 2012 2 Aline Bentes Monteiro POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO À SAÚDE DO HOMEM: OBSTÁCULOS AO CUIDADO MASCULINO, EM MACAPÁ Dissertação apresentada à pró-reitoria de pesquisa e pós-graduação da Universidade Federal do Amapá, para obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento Regional. Data da defesa: 30/10/2012. Banca Examinadora: Profa. Dra. Rosemary Ferreira de Andrade Orientadora (UNIFAP): _____________________________________________ Prof. Dr. José Maria da Silva Membro (UNIFAP): _____________________________________________ Profa. Dra. Maria Mary Ferreira Membro (UFMA): _____________________________________________ Suplentes Prof. Dr. Arley Costa Membro (UNIFAP): _____________________________________________ Profª. Drª. Rosilda Isla Chamilco Membro (UNIFAP): _____________________________________________ 3 Dedicado ao meu grande e eterno amor Artêmio Marchi Júnior (in memoriam) por todo amor e incentivo. E por ter me deixado essa grande motivação para estudar a saúde dos homens, que, assim como ele, se tornam vulneráveis de tanto acreditarem serem invulneráveis. 4 AGRADECIMENTOS A Deus e aos meus pais, Albertino e Écia, pelo amor e pela oportunidade de vida. Às minhas lindas Sandra, Elizabeth e Eliane pelos exemplos, a serem seguidos ou não, ao longo da construção da pessoa que sou hoje. À minha respeitável Professora Doutora Rosemary Ferreira de Andrade por toda a parceria, incentivo, orientação e, acima de tudo, liberdade para desenvolver e escrever este trabalho. Aos meus queridos companheiros de curso de mestrado pela troca de experiências, conhecimentos e angústias ao longo de vinte e poucos meses. Aos meus amigos e familiares, pela compreensão de minhas horas ausentes em seus convívios e por todo apoio e incentivo. Ao meu amado amigo, companheiro e namorado Oscar Pantoja, pela compreensão nos momentos de angústias e estresse, pelo apoio material dado a este trabalho e, acima de tudo, por todo amor demonstrado. E, especialmente, a todos os HOMENS, participantes desta pesquisa, que me ajudaram na realização deste grande sonho, o título de Mestre. 5 “A maior descoberta de minha geração é saber que os seres humanos podem modificar suas vidas, apenas mudando as suas atitudes mentais” William James 6 RESUMO A partir de 2009, com a criação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem (PNAISH), evidenciaram-se na sociedade algumas características e posturas dos homens perante sua saúde, que revelaram que os homens morrem cada vez mais cedo que as mulheres, que pouco acessam os serviços de saúde e que, segundo a política de saúde do homem, “não se cuidam”. Mas que fatores levam os homens a tal postura? Assim, este estudo objetiva verificar se os homens, da cidade de Macapá, acreditam que não se cuidam, como diz a PNAISH, e indagar sobre os fatores que influenciam neste cuidado. Para tanto se realizou um estudo transversal quanti-qualitativo descritivo, utilizando-se o método da análise de conteúdo e teste qui-quadrado para testar a hipótese. Foi aplicado formulário com questões abertas e fechadas sobre a saúde dos entrevistados, sua relação com as instituições de saúde e sobre o autocuidado. Os 203 homens entrevistados estão na faixa etária de 20 a 59 anos, e destes, 94,6% concordaram com a afirmativa que os homens não se cuidam. As explicações para o não cuidado segundo 74,6% dos entrevistados está relacionado aos fatores de gênero, como o machismo, a virilidade, invulnerabilidade, e 25,4, estavam relacionados com fatores institucionais como a falta de tempo, horários, filas, falta de serviços voltados para homens. Nesse sentido conclui-se que fatores de gênero influenciam mais que fatores institucionais na busca do homem pelo cuidado. As estratégias da PNAISH para adesão dos homens aos cuidados e aos serviços de saúde devem ir além de disponibilizar serviços voltados para eles, mas principalmente devem considerar as construções sociais do masculino, envolvendo toda a sociedade para desconstruir o estereótipo masculino de ter uma saúde invulnerável. Palavras-chave: Saúde. Homens. Política. Cuidado. Macapá. 7 ABSTRACT From 2009, from the creation of the National Policy of Full Care To Men’s Health (PNAISH in portuguese), were proved in society some features and attitudes of men towards their health, which revealed that men die more and earlier than women, that they little access to health services and that, according to the men’s health policy, they “do not take care of themselves”. But what factors lead men to such behavior? So it was taken to verify whether the men in the city of Macapá, believe they do not care of themselves, as PNAISH says, and inquire about the factors that influence this care. For such, it was performed a descriptive cross-sectional study in quality and quantity, using the method of content analysis and chisquare test to verify the hypothesis. It was applied a form with open and closed questions on respondents' health, their relation to health institutions and self-care. 203 men, aged between 20 and 59 years-old, were interviewed, of whom 94.6% agreed with the statement that men do not care of themselves. 74.6% of the explanations for the lack of care were related to gender factors, such as sexism, virility, invulnerability, and 25.4, were related to institutional factors such as lack of time, schedules, lines, lack of services aimed for men. Accordingly it is concluded that gender factors influence more than institutional factors in man's search for care. The PNAISH strategies for adherence of men to care and health services must go beyond providing services for them, but mostly should consider the social constructions of the male universe, involving the whole society to deconstruct the masculine stereotype of having an invulnerable health. Keywords: Health. Men. Politics. Care. Macapá. 8 LISTA DE ILUSTRAÇÕES FIGURA 1 GRÁFICO 1 GRÁFICO 2 GRÁFICO 3 GRÁFICO 4 GRÁFICO 5 GRÁFICO 6 GRÁFICO 7 GRÁFICO 8 GRÁFICO 9 GRÁFICO 10 GRÁFICO 11 GRÁFICO 12 - Esquema sinóptico das oposições pertinentes................................... Percepção dos homens em relação à sua saúde atual....................... Estado nutricional dos entrevistados................................................ Risco para doença cardiovascular de acordo com a aferição da circunferência abdominal.................................................................. Consumo de cigarros pelos entrevistados......................................... Consumo de bebidas alcoólicas pelos entrevistados......................... Prática de atividades físicas pelos entrevistados.............................. Diagnóstico de doenças e doenças referidas pelos entrevistados...... Última consulta médica, tipo de atendimento e satisfação com o atendimento..................................................................................... De acordo ou não com a afirmativa de que os homens não se cuidam.............................................................................................. Você se cuida?................................................................................ Cuidados com a saúde referidos pelos entrevistados........................ Fatores que mais impedem os homens de se cuidar........................ 47 65 66 67 68 69 71 72 74 76 77 78 80 9 LISTA DE SIGLAS ACS APS BACEN CID 10 CNCDO CRTN DCNT ESB ESF HCAL HEMOAP IBGE IDH IMC MS MT NASF OMS PAB PACS PNAD PNAISH PSF REDOME SESC SISVAN SNT SPSS SUS TFD UNIFAP - Agente Comunitário de Saúde Atenção Primária à Saúde Banco Central Código Internacional de Doenças 10ª Edição Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos Centro de Referência em Tratamento Natural Doenças Crônicas Não Transmissíveis Equipe Saúde Bucal Estratégia Saúde da Família Hospital de Clínicas Alberto Lima Instituto de Hematologia e Hemoterapia do Estado do Amapá Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Índice de Desenvolvimento Humano Índice de Massa Corporal Ministério da Saúde Ministério do Trabalho Núcleo de Apoio à Saúde da Família Organização Mundial da Saúde Piso Assistencial Básico Programa de Agentes Comunitários de Saúde Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio Política Nacional de Atenção Integral a Saúde do Homem Programa Saúde da Família Registro Brasileiro de Candidatos Voluntários à Doação de Medula Óssea Serviço Social do Comércio Sistema de Informação de Vigilância Nutricional e Alimentar Sistema Nacional de Transplantes Statistical Package for the Social Sciences Sistema Único de Saúde Tratamento Fora de Domicílio Universidade Federal do Amapá 10 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO...................................................................................................... 11 2 SAÚDE: EVOLUÇÃO E ESTRUTURA.............................................................. 16 2.1 Da cura da doença à promoção da saúde............................................................... 16 2.2 Sistema Único de Saúde como disseminador de saúde......................................... 22 2.3 Estrutura e serviços de saúde no Amapá............................................................... 28 3 A SAÚDE VULNERÁVEL DO SER INVULNERÁVEL: O HOMEM..................................................................................................................... 36 3.1 A saúde do homem no Brasil e no Amapá............................................................ 36 3.2 O gênero e a construção da masculinidade........................................................... 42 3.3 O comportamento masculino frente à sua saúde .................................................. 54 4 OS CAMINHOS METODOLÓGICOS NA BUSCA DA COMPREENSÃO DA SAÚDE DOS HOMENS DE MACAPÁ........................................................... 59 5 OS HOMENS DE MACAPÁ E SUAS RELAÇÕES COM A SAÚDE....................................................................................................................... 65 6 CONCLUSÃO..................................................................................................... 86 REFERÊNCIAS........................................................................................................ 89 APÊNDICES.............................................................................................................. 95 11 1 INTRODUÇÃO É costume se ouvir que a vida dos homens começa aos 40, então, dessa perspectiva ele viveu apenas cinco anos. Inteligente, viril, forte, jovial, sedutor, com instinto protetor e provedor aparentemente nato, como todos os homens, assim era ele. Contudo, ao longo de seus 42 até os 45 anos, aflorou-se a fúria de um monstro traiçoeiro, e até então silencioso, que o acompanhava por longo tempo, a hepatite C. E veio furiosamente corroendo seu fígado, seus sentidos, seus sentimentos, sua posição social, sua função, seu emprego, seu dinheiro, seu amor, sua família, sua dignidade, sua vida. Ele sabia da gravidade, mas não a aceitava, julgava-se forte e resistente, rejeitava cuidados médicos, transplantes ou coisas parecidas, com o discurso ora de que “não era nada”, ora de que “era tudo e não tinha mais jeito”, ora de que “não queria dar trabalho” . e ora de que “estava valendo mais morto do que vivo”, referindose ao papel de provedor da família, naquele momento prejudicado pelo desemprego, fazendo uma alusão aos benefícios previdenciários a serem recebidos por seus familiares. Até nesse momento, ele não parou de pensar em prover. Por certo que a árdua prova da doença crônica, com fim anunciado para breve, não é fácil, nem rotineiro e nem ansiado por ninguém, seja homem, seja mulher. Contudo, para os homens, isso parece ser muito mais difícil, pois os colocam numa verdadeira inversão de papéis, do ser protetor, para o ser protegido, do ser provedor para o ser provido, do ser forte para o ser frágil, do ser que se julga autossuficiente para o ser insuficiente e dependente de esposas, filhas, médicos, enfermeiros. A motivação deste trabalho teve início num momento de dor e perda de um amor, de um companheiro, que preferiu recusar os cuidados até onde pôde para manter a sua imagem de protetor, de provedor, de sedutor de sua amada. Talvez assim o fizesse para que ela sempre lembre dele como o seu HOMEM de verdade, mesmo depois de ausente fisicamente. Paralelo à perda desse ente queridíssimo, inicia-se uma campanha na mídia televisionada, que afirmava que “os homens morrem mais que as mulheres, os homens vivem em média sete anos menos que as mulheres porque os homens não se cuidam”. Era o lançamento em 2009 da Política Nacional de Atenção à Saúde do Homem (PNAISH). No decorrer da campanha, foi disseminada na sociedade uma série de informações sobre o comportamento masculino em relação à sua saúde, e, dentre estas, muitas vinham de encontro aos momentos vivenciados no seio familiar. A recorrência dos fatos levou aos 12 questionamentos dos porquês dos homens agirem com descaso para com sua saúde? Por que morrem mais? E mais cedo? De que morrem mais? Por que não se cuidam? No anseio de conhecer e iniciar a busca das respostas e do entendimento em relação à saúde do homem, apresenta-se nesta pesquisa: 1) o paradigma atual de saúde e as estruturas e serviços de saúde disponíveis à sociedade no Amapá; 2) a construção social do homem como um ser masculino, considerando as discussões de gênero. No Brasil, a Constituição de 1988 representa um marco na sociedade e também na Saúde Pública. A partir deste marco, inicia-se a formação do Sistema Único de Saúde (SUS), formalizado em 1990, pensado como uma proposta de reorganizar os serviços de saúde no país, de forma a atender integral e igualitariamente a toda população. Regido por princípios que versam sobre como deve acontecer a atenção ao usuário e como esta deve estar organizada em níveis de complexidade, o SUS tem como objetivos, dentre outros, a formulação de políticas públicas de saúde e o fornecimento da assistência de saúde à população. Realizados por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, através de ações assistenciais e atividades preventivas. Contudo, apesar dos princípios de integralidade, universalidade e equidade do SUS, havia um grupo, que se apresentava no cenário da saúde pública, com uma situação preocupante e com aparente descuido de sua condição de saúde, os homens. Com isso, no ano de 2009, é criada a PNAISH, com a intenção de fomentar na sociedade a preocupação e o cuidado com a saúde masculina, tendo como proposta a política reduzir a morbidade (capacidade de produzir doenças) e mortalidade (número de óbitos) entre os homens, além de facilitar o acesso às ações e aos serviços de assistência integral desse grupo populacional. A necessidade de uma política específica para esse público é decorrente da realidade apresentada pelos indicadores de morbidade e mortalidade desta população. Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), a expectativa de vida masculina é sete anos menor e a quantidade de óbitos é muito superior à das mulheres. Destaque-se a violência que vitima o dobro de homens, e o triplo se for considerado a faixa de 20 a 39 anos. Pelos dados, têm-se que 82% dos óbitos do sexo masculino são em decorrência de acidentes de trânsito, em geral jovens, e seis de cada 10 óbitos são doenças do aparelho circulatório (BRASIL, 2009a). O diagnóstico de saúde, realizado pelo MS que serviu como fundamentação da PNAISH, destaca, ainda, que o câncer mais frequente na população masculina é o de pele, seguido pelo de próstata, que teve um aumento de cerca de 120% no período de 1979 a 2006. Este estudo também revela que os homens são mais sedentários, e que são as maiores vítimas das problemáticas relacionadas ao álcool e ao fumo. 13 Além dos estudos realizados pelo MS, existem alguns outros que destacam as características da saúde masculina e como estes se comportam perante ela. Figueiredo (2005), Gomes (2003) e Mota (1998) evidenciam, em seus estudos, que homens são mais vulneráveis às doenças, sobretudo às enfermidades graves e crônicas, e que morrem mais precocemente que as mulheres. Essa realidade ocorre, possivelmente, porque os homens só procuram o serviço de saúde quando perdem sua capacidade de trabalho. E quando necessitam de ajuda, procuram, primeiro, farmácias ou prontos-socorros, onde o atendimento é mais rápido e objetivo, embora não seja o mais adequado. Outro fato a considerar é que as atividades de prevenção e de promoção à saúde são pouco voltadas à população masculina. Desse modo, vale questionar: os homens não procuram os posto de saúde e as atividades preventivas porque não têm ações específicas voltadas para eles ou eles desconhecem por não terem o hábito de ir ao posto? Em se tratando do Amapá, a população masculina a ser beneficiada pelas ações da PNAISH é de 147 mil indivíduos, na faixa etária de 20 a 59 anos, segundo o MS. Tal população apresenta como principal causa de mortalidade as causas externas (representadas por acidentes, lesões e agressões), com 45% do total de mortes na faixa etária de 20 a 59 anos, o que se assemelha à realidade nacional. Sendo que, no ano de 2008, o estado foi líder de mortes com causas violentas no país. A segunda principal causa de morte são as doenças do aparelho circulatório, entre elas isquemias cardíacas, infarto e doenças cerebrovasculares. A terceira causa foram as doenças não especificadas, seguida da quarta causa, que foram as neoplasias. Estes dados indicam que a PNAISH tem um importante papel a desenvolver no estado do Amapá – esclarecer e convencer os homens a cuidarem melhor de si, compreendendo toda a sua vulnerabilidade, num contexto que os criou invulneráveis. Este é o grande desafio na implementação das ações da política. A importância e relevância do tema justificaram-se na necessidade de entender a relação dos homens com a saúde, focando o âmbito local, buscando-se oferecer à sociedade informações que irão servir de subsídios e compreensão, e, consequentemente, base para a implementação de ações voltadas para este público. O ineditismo do tema reforça a necessidade da contribuição, uma vez que é papel da ciência produzir estudos que forneçam dados e reflexões para subsidiar mudanças na sociedade. Os dados produzidos nesta dissertação têm, portanto, essa perspectiva e também ser modelo para outros estudos sobre a saúde de um grupo populacional pouco estudado no estado. 14 Diante do cenário descrito sobre a saúde masculina, buscou-se conhecer aspectos da saúde de homens na cidade de Macapá (AP), na faixa etária de 20 a 59 anos, que são foco da PNAISH, a partir de respostas dos próprios homens sobre a problemática em torno de seu cuidado. O problema deste estudo está em saber se os homens concordam que não se cuidam e que fatores mais influenciam no cuidado masculino, se fatores de gênero ou institucionais. Assim, após leituras sobre o assunto, construíram-se as seguintes hipóteses: 1) que os homens concordam que não se cuidam e; 2) que fatores relacionados ao gênero, ou seja, justificativas relacionadas à imagem do homem construída e aceita pela sociedade como ideal, interferem mais no cuidado dos homens do que os fatores relacionados às instituições, ou seja, ao funcionamento dos estabelecimentos de saúde e à ausência de programas ou políticas voltadas para o público masculino. Com isso, teve-se como objetivo geral identificar se os homens concordam que não se cuidam, e que fatores mais influenciam em seus cuidados, se fatores de gênero ou institucionais. E, como objetivos específicos, buscou-se verificar o estado de saúde e nutricional dos entrevistados e a relação dos homens participantes com as instituições de saúde. E, para o alcance dos objetivos e das respostas aos anseios da pesquisa, foi utilizada a pesquisa quali-quantitativa transversal descritiva, com a aplicação do método da análise de conteúdo, baseado nas orientações de Bardin (1979), e para os testes estatísticos e tabulação dos dados utilizou-se o software Statistical Package for the Social Sciences (SPSS) 20.0. Assim, o primeiro capítulo deste estudo versa sobre a evolução e a estrutura dos conceitos e das instituições de saúde, fazendo uma análise das discussões sobre a mudança do paradigma no conceito de saúde, que mudou de mera ausência de doença para um bem estar físico, mental e social, evidenciando a construção de um novo modelo de assistência, a promoção à saúde. Neste capítulo, versa-se ainda sobre a construção e o papel do SUS no contexto da mudança de paradigmas. Contextualiza-se, também, a estrutura de saúde do estado do Amapá disponível à população, bem como as complexas relações dentro desta estrutura, como a assistência médico-hospitalar à população do Pará e a deficiência desta estrutura na assistência a alguns agravos, como no caso do câncer e transplantes. No segundo capítulo, encontram-se as discussões sobre a saúde vulnerável do ser invulnerável, fundamentado, através de dados de mortalidade e morbidade da saúde masculina, na qual reflete as preocupações e a necessidade de uma política específica para este grupo, tanto no país como no estado do Amapá. Neste capítulo, analisa-se como a saúde do homem é influenciada, como se dá a construção da masculinidade, e como esta é 15 reproduzida na sociedade. Tais reflexões são fundamentadas no pensamento de autores como Pierre Bourdieu (2002), Scott (1990) e Saffioti (1987). O terceiro capítulo mostra os passos dados para a busca das informações através da metodologia e dos métodos. O quarto capítulo evidencia os homens, que foram entrevistados em Macapá (AP), frente à sua saúde e à PNAISH, suas relações e percepções sobre os fatores que mais interferem no ato de cuidar de si. Neste capítulo, são apresentados os resultados do estudo e discutidos com base no referencial teórico pesquisado. E, por fim, versa-se sobre as conclusões obtidas neste estudo. 16 2 SAÚDE: EVOLUÇÃO E ESTRUTURA 2.1 Da cura da doença à promoção da saúde Esta pesquisa parte da hipótese de que os homens não se cuidam e que fatores relacionados ao gênero, ou seja, as características construídas socioculturalmente que representam o que é ser masculino na sociedade, influenciam mais que outros fatores, como os relacionados às instituições. Entretanto, não se pode perder de vista que a saúde masculina também pode estar relacionada a condições estruturais e dinâmicas das instituições relacionadas, direta ou indiretamente, com a saúde, como, por exemplo, postos de saúde, hospitais, programas e políticas de saúde. A fim de destacar e situar estas duas vertentes, os fatores de gênero e os fatores institucionais, no processo de cuidar de si dos homens, iniciam esta discussão a partir dos conceitos sobre saúde e a partir da crise paradigmática que vive tal conceito até o momento da criação da PNAISH. Para tanto, é necessário que se esclareça que o conceito de paradigma aqui utilizado vem em consonância com Khun (1975), que diz que é o conjunto de elementos culturais, conhecimentos e códigos teóricos ou metodológicos compartilhados pelos membros de uma comunidade científica, e que a evolução científica se dá por revoluções, denotando as passagens das fases da normalidade para as crises e daí para novas teorias. E, em relação à saúde, é possível notar que seu conceito vem mudando, e que ora este atende às necessidades da sociedade, ora não atende, caracterizando as revoluções ou crises paradigmáticas, como se reflete a seguir, com autores como Lefevre e Lefevre (2004) e Santos e Westphal (1999). A saúde pública tradicional, assim como a Medicina e as demais áreas do conhecimento a ela subordinadas, entende que a doença faz parte da vida humana sobre a Terra; que, na qualidade de vicissitude, a doença é algo que, simplesmente, existe, sempre existiu e sempre existirá, enfim, que é uma espécie de fatalidade natural (LEFEVRE; LEFEVRE, 2004). E, até o século XX, o conceito que considerava saúde como a mera ausência de doença era a base do paradigma de saúde dominante na época, denominado de curativista (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Santos e Westphal (1999) citam que no século XIX a situação da morbidade e mortalidade em todo o mundo era caracterizada pela predominância de doenças infectocontagiosas sobre as demais, e que esta teria somente uma causa, um germe. Dessa 17 noção decorre que a saúde seria a ausência de doença, isto é, a ausência de um agravo causado por um patógeno. As grandes esperanças de recuperação da saúde, ausência de doença, estavam na assistência clínica, especialmente nos hospitais. No transcorrer do século XIX, ocorre o processo de transição epidemiológica, quando as doenças infectocontagiosas perdem importância para as doenças denominadas de crônicodegenerativas. O que, segundo Dardet (1994 apud SANTOS; WESTPHAL, 1999), ocorreu decorrente da melhoria das condições de vida da população, mais do que dos progressos médicos da época. Como consequência desse processo, houve o deslocamento da ênfase curativa para a prevenção, resultando, segundo estes autores, na crise do curativismo, pelo menos em nível teórico. No Brasil, é possível relacionar o paradigma curativista da saúde com o sanitarismo campanhista, época na qual a preocupação era erradicar as doenças infectocontagiosas, utilizando-se de ações que usam a força e a autoridade sob a população. Nesse período, ainda segundo os autores supracitados, a Saúde Pública assumiu o paradigma higienista. O objetivo era a resolução do problema das cidades, ainda sem infraestrutura para abrigar a população crescente, com a remodelação e o saneamento, a transmissão de normas higiênicas, configurando o que se chamou de dicotomia prevenção/cura. No século XX, teve início a era terapêutica reforçada pelo desenvolvimento moderno do Estado de bem-estar e por aumento dos recursos públicos ao setor saúde. A visão de saúde, a partir de então, passou de mera ausência de doença para a noção de bem-estar físico e mental, e daí para o conceito mais amplo que inclui uma adequação de vida social, ocorrendo, claramente, uma mudança de paradigma, inclusive com a ruptura semântica entre os conceitos de saúde, modificou-se, inclusive, a prática sanitária de curativa para preventiva e de promoção à saúde (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Começa a ser disseminada no mundo a ideia da prevenção e promoção da saúde. Segundo Terrys (1992 apud SOUZA; GRUNDY, 2004, p. 2), a expressão “promoção de saúde” foi usada pela primeira vez em 1945 pelo canadense Henry Sigerist, que definiu quatro tarefas essenciais à Medicina: a promoção de saúde, a prevenção de doenças, o tratamento dos doentes e a reabilitação. Os autores afirmam ainda que, para se ter saúde, é necessário um padrão de vida aceitável, no qual estão incluídas condições apropriadas de trabalho, educação, lazer, bem como a necessidade da interação intersetorial e de alianças interdisciplinares na promoção da saúde. Contudo, alguns autores observam que a Medicina preventiva não dá conta de todo o processo de saúde-doença: ela pode identificar riscos, atuar sobre eles, mas não é de sua 18 alçada a gênese desses riscos; nem o estudo de suas naturezas, mecanismos de atuação, meios para prevenir a sua existência etc. De fato, se é verdade que a Medicina preventiva deu origem ao novo paradigma, não chegou a romper com o antigo (NOACK, 1987; STACHTCHENKO; JENICEK, 1990 apud SANTOS; WESTPHAL, 1999). Assim, o discurso e a prática sanitária hegemônico baseados no modelo biomédico, entram em crise, mostrando-se ineficazes para o enfrentamento da complexidade dos quadros sanitários presentes no mundo, ao final do século XX e início do século XXI. O arsenal tecnológico, bem como a produção de bens e serviços disponíveis atualmente, tem sido impotente em muitos casos para proporcionar a melhoria da saúde de pessoas e comunidades, porém não tem conseguido subsidiar e instrumentalizar políticas públicas que resultem em intervenções adequadas (LEFEVRE; LEFEVRE, 2004). Era evidente que o modelo biomédico usado para enfrentar o processo saúde-doença se tornava impotente em face aos modos de urbanização que vinham estruturando as cidades e que traziam uma nova realidade na saúde da população (LEFEVRE; LEFEVRE, 2004). É nesse contexto que, em 1978, um importante evento ocorre em nível mundial e contribui para a consolidação da ideia de promoção de saúde, a Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde, realizada em Alma-Ata, no Cazaquistão. A declaração de Alma-Ata, originada desta conferência, foi considerada peça-chave pela Organização Mundial (OMS) da Saúde na disseminação da importância da atenção básica de saúde e das ações da promoção de saúde. Nesta declaração, a saúde é enfatizada como um direito humano fundamental, que necessita de ações em diversos setores sociais e econômicos para ser garantido. Nesta declaração, é estabelecida a meta de saúde para todos até o ano 2000 (ORGANIZAÇÃO, 1978). Vale ressaltar que a atenção básica ou primária de saúde é colocada como o primeiro contato dos indivíduos com os sistemas de saúde dos países. Assim, a Declaração de AlmaAta esclarece que: Os cuidados primários de saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em métodos e tecnologias práticas, cientificamente bem fundamentadas e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias da comunidade, mediante sua plena participação e a um custo que a comunidade e o país possam manter em cada fase de seu desenvolvimento, no espírito de autoconfiança e automedicação. Fazem parte integrante tanto do sistema de saúde do país, do qual constituem a função central e o foco principal, quanto do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. Representam o primeiro nível de contato dos indivíduos, da família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, pelo qual os cuidados de saúde são levados o mais proximamente possível aos lugares 19 onde pessoas vivem e trabalham, e constituem o primeiro elemento de um continuado processo de assistência à saúde (ORGANIZAÇÃO, 1978, p.1). Nesse contexto, a Promoção de Saúde, para Ferraz (1998 apud SANTOS; WESTPHAL, 1999), é o mais importante elemento do novo paradigma. Para Lefevre e Lefevre (2004), trata-se de um novo paradigma para a saúde, que rompe com a visão de que a doença não é uma fatalidade, e deve portanto ser entendida e explicada como algum tipo de sintoma dos grandes desarranjos ecológico-ambiental, urbano, produtivo e propriamente humano. No novo paradigma da saúde, o indivíduo é visto como um ser integral, que pensa, fala, vive em um meio que interfere sobre ele, e para a saúde plena são necessários paz, recursos econômicos adequados, habitação, alimentação, um ecossistema estável com uma utilização de recursos sustentável (BRASIL, 2001). Nele, a saúde de um indivíduo ou de uma comunidade depende também das coisas que o homem fez e criou, das interações dos grupos sociais, das políticas adotadas pelo governo, inclusive os próprios mecanismos de atenção à doença, do ensino da Medicina, da Enfermagem, da educação e das intervenções do meio ambiente (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Lefevre e Lefevre (2004) chamam atenção para a diferença entre a prevenção e promoção de saúde. E consideram que a prevenção relaciona-se a toda medida que, tomada antes do surgimento ou agravamento de uma dada condição mórbida ou de um conjunto dessas condições, vise afastar a doença do doente ou vice-versa, para que tal condição não se manifeste (ou que tenha diminuída a sua possibilidade de ocorrência) ou manifeste-se de forma menos grave ou mais branda nos indivíduos ou nas coletividades. Já a promoção caracteriza-se por uma intervenção ou conjunto de intervenções, que, diferentemente da prevenção, teria como horizonte ou meta ideal a eliminação permanente, ou pelo menos duradoura, da doença, porque buscaria atingir suas causas mais básicas, e não apenas evitar que as doenças se manifestem nos indivíduos e nas coletividades de indivíduos. De acordo com os autores supracitados, a promoção à saúde propõe que as doenças sejam, elas próprias, minimizadas, erradicadas, eliminadas do mundo e estabelece um importante deslocamento de objeto e de enfoque, do doente em direção à doença. De acordo com a Promoção de saúde, em tese, os indivíduos ficariam sem doença não porque as doenças foram, através do tratamento, afastadas deles, ou porque, através da prevenção, as doenças foram impedidas de chegar até eles, mas porque, foram elas próprias, atacadas para serem erradicadas, eliminadas ou minimizadas. Ora, é claro, se não existirem mais doenças também não existirão mais 20 doentes; os indivíduos então seriam ou estariam, para sempre, ou mais tempo, com saúde, porque não haveria mais doenças a serem contraídas ou geradas (genética, ambiental e socialmente) (LEFEVRE; LEFEVRE, 2004. p. 38). Nesse aspecto, e desde Alma-Ata, vários encontros marcaram as discussões a respeito da saúde e de sua promoção ao nível mundial. Aqui, destacam-se as seis conferências internacionais da promoção da saúde, que originaram documentos que estabelecem diretrizes e ações a serem realizadas em todo mundo, no intuito de promover a saúde, como direito humano fundamental. A 1ª Conferência Internacional sobre Promoção de Saúde foi realizada em 1986 no Canadá e gerou como documento a Carta de Ottawa. De acordo com Sícoli e Nascimento (2003), este evento deixou estabelecido que a promoção de saúde está além do setor saúde e também enfatiza a atribuição desta a outros setores, inclusive aos não diretamente relacionados, que assumam como meta e entendam as implicações de suas ações na saúde da população. A 2ª Conferência Internacional sobre Promoção de Saúde foi realizada em Adelaide, na Austrália, em 1988. O evento lançou como proposta a elaboração de políticas públicas saudáveis e a criação de ambientes físicos e sociais favoráveis à saúde, afirmando que todos os setores de governo devem considerar a saúde como essencial e prioritária para a formulação de políticas públicas saudáveis (BRASIL, 2001). Sobre a concepção de políticas públicas saudáveis, Lefevre e Lefevre (2004) discorrem sobre a complexidade delas, afirmando que, por um lado, elas pressupõem uma ampliação do conceito de saúde e, por outro, um novo papel que o Estado deve desempenhar perante a sociedade, através de seus governantes, assumindo o compromisso de situar a saúde no topo da agenda pública e enfatizar o compromisso técnico de intervir nos fatores determinantes do processo saúde-doença. A 3ª Conferência Internacional, realizada em Sundsvall, na Suíça, em 1991, firmou o compromisso das organizações do Sistema das Nações Unidas com o desenvolvimento sustentável. Na ocasião, procurou-se explicitar e enfatizar a interdependência entre ambiente e saúde, preconizando que a criação de ambientes promotores de saúde deve sempre ser guiada pelo princípio da equidade (BRASIL, 2001). A Declaração de Jacarta, fruto da 4ª Conferência Internacional sobre Promoção de Saúde, realizada na Indonésia, em 1997, reitera a concepção e os princípios referidos nas 21 conferências anteriores e explicita que a “saúde é um direito humano fundamental e essencial para o desenvolvimento social e econômico” (BRASIL, 2001, p. 31). A 5ª Conferência Mundial, realizada no México, em 2000, procurou avançar no desenvolvimento das prioridades da promoção de saúde para o século XXI, a saber: a) promover a responsabilidade social em matéria de saúde; b) ampliar a capacitação das comunidades e dos indivíduos; c) aumentar os investimentos no desenvolvimento da saúde; d) assegurar a infraestrutura necessária à promoção de saúde e fortalecer sua base científica; e) reorientar os sistemas e serviços de saúde (BRASIL, 2001). E, finalmente, a 6ª Conferência Internacional de Promoção da Saúde ocorreu na Tailândia, cidade de Bangkok, em 2005, e originou a carta de Bangkok, que identificou ações, compromissos e promessas necessários para abordar os determinantes da saúde em um mundo globalizado através da promoção da saúde. Nesse sentido, foram definidos quatro compromissos para com a promoção da saúde: 1) torná-la uma preocupação central na agenda do desenvolvimento global; 2) torná-la uma responsabilidade central para o governo como um todo; 3) torná-la um dos principais focos das comunidades e sociedade civil e; 4) torná-la uma exigência para boa prática corporativa (ORGANIZAÇÃO, 2005). Reportando-se ao Brasil, um importante momento de mudanças na prática da saúde deu-se a partir da Constituição de 1988, que estabeleceu a saúde como um direito de todos e dever do estado. A partir desse ponto, inicia-se uma série de intensas discussões políticas e acadêmicas, que levaram a implantação e implementação de um Sistema Único de Saúde (SUS), compatível com as noções e conceitos de saúde e doença da época (SANTOS; WESTPHAL, 1999). Destaca-se que a constituição do SUS e funções serão abordadas no subcapítulo seguinte. Diante de todo esse contexto de estruturação da promoção da saúde, dentro do novo paradigma, visto como um bem-estar físico, mental e social, as políticas públicas de saúde assumem um papel determinante para que, de fato, se assegure a saúde, como direito humano fundamental. A tarefa dessas políticas consiste em organizar as funções públicas governamentais para a promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da coletividade. Segundo Lucchese (2004), no Brasil, as políticas de saúde orientam-se pelos princípios de universalidade e equidade no acesso às ações e serviços, e pelas diretrizes de descentralização da gestão, de integralidade do atendimento e de participação da comunidade, na organização do SUS em todo o território nacional. Diante do exposto, compreende-se a necessidade de uma política específica para a saúde dos homens, especialmente quando se verifica a ausência deste seguimento nos serviços 22 de saúde da atenção básica ou primária, como atesta a própria PNAISH (BRASIL, 2009a). Tal assertiva se constitui uma contradição, haja vista que, em tempos da promoção da saúde, não se pode fechar os olhos para um grupo que não acessa os serviços da atenção básica, o que leva a se questionar o fato, buscando responder sobre os “porquês” da ausência. Será a deficiência das instituições provedoras de saúde? O que leva os homens a não acessarem os serviços de saúde da atenção básica? Seja qual for a causa, é necessário que se coloquem em prática os preceitos tão discutidos e acordados nas várias conferências sobre o assunto, onde países, incluindo o Brasil, comprometeram-se na execução das ações, assegurando a todos o direito humano fundamental, que é a saúde. Ressalte-se que este propósito deve ser um esforço de todos os setores que movimentam a sociedade, seja o setor primário, representado pelo Estado, seja o secundário, representado pelo Mercado, ou seja o terciário, representado pelas entidades da sociedade civil. Todos têm o dever de fazer a sua parte para garantir tal direito de forma igual e integral a todos os membros da sociedade. E é nesse contexto que nasce a PNAISH, em 2009, com uma proposta de qualificar a saúde da população masculina na perspectiva de resguarde, de valorização, promoção, prevenção, proteção da saúde e qualidade de vida, bem como de educação como estratégia de consolidação da saúde do homem (BRASIL, 2009a, p. 19). Esse programa visa assegurar a esta parcela da população, até então sem ações específicas no âmbito das instituições de saúde, o direito, ou, pelo menos, a disponibilização de ações voltadas para os homens. Após o entendimento da mudança de paradigma ocorrido na saúde e do advento da promoção da saúde como nova ferramenta para a concretização do direito humano à saúde, o passo seguinte é contextualizar como essa garantia se dá no Brasil. Para tanto, a seguir, traz-se ao estudo a formação e o papel do SUS, como instrumento de disseminação da saúde na sociedade brasileira. 2.2 Sistema Único de Saúde como disseminador de saúde Como já exposto, a declaração de Alma-Ata estabeleceu a saúde como um direito humano fundamental em 1978. No Brasil, o embrião desse estabelecimento foram as discussões da 8ª Conferência Nacional da Saúde, em março de 1986, que resultaram na formalização das propostas do Movimento de Reforma Sanitária do Brasil, que ensejava 23 mudanças baseadas no direito universal à saúde, acesso igualitário, descentralização acelerada e ampla participação da sociedade (POLIGNANO, 2001). Nesta direção, em 1988, a Constituição Federal, nos Art. 196 e 198, estabeleceu a saúde como um direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visavam à redução do risco de doenças e outros agravos, e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a sua promoção, proteção e recuperação (BRASIL, 1988). Pode-se considerar o germe do SUS como o momento em que se inicia a formulação de um sistema que iria garantir a assistência à saúde a toda população. De acordo com Santos (2006), este marco, a Constituição, significou a concretização das reivindicações de movimentos sociais que se referem ao período de luta pela redemocratização do país, no final dos anos 1970 e 1980. Contudo, o SUS somente foi regulamentado em 19 de setembro de 1990, com a Lei nº 8.080, que o define como um conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público (BRASIL, 1990, p.2). Na regulamentação, a saúde passa a ser definida como um direito humano fundamental, sendo dever do Estado prover as condições necessárias para o seu pleno exercício. E, em consonância com o paradigma da saúde na época, relacionado ao bem-estar físico, mental e social, e contribuindo para a visão mais abrangente dos indivíduos, a Lei do SUS também considera que: A saúde tem como fatores determinantes e condicionantes, entre outros, a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais: os níveis de saúde da população expressam a organização social e econômica do país (BRASIL, 1990, p. 2). De acordo com Polignano (2001, p. 24), o SUS é regido por princípios, divididos entre doutrinários e organizativos. Como doutrinários, tem-se: UNIVERSALIDADE – o acesso às ações e serviços deve ser garantido a todas as pessoas, independentemente de sexo, raça, renda, ocupação, ou outras características sociais ou pessoais; EQUIDADE – é um princípio de justiça social que garante a igualdade da assistência à saúde, sem preconceitos ou privilégios de qualquer espécie. A rede de serviços deve estar atenta às necessidades reais da população a ser atendida; INTEGRALIDADE – significa considerar a pessoa como um todo, devendo as ações de saúde procurar atender a todas as suas necessidades. 24 E destes derivaram alguns princípios organizativos (POLIGNANO, 2001, p. 24): HIERARQUIZAÇÃO – entendida como um conjunto articulado e contínuo das ações e serviços preventivos e curativos, individuais e coletivos, exigidos para cada caso em todos os níveis de complexidade do sistema; referência e contrarreferência; PARTICIPAÇÃO POPULAR – ou seja, a democratização dos processos decisórios consolidado na participação dos usuários dos serviços de saúde nos chamados Conselhos Municipais de Saúde; DESENCENTRALIZAÇÃO POLÍTICA ADMINISTRATIVA – consolidada com a municipalização das ações de saúde, tornando o município gestor administrativo e financeiro do SUS. O princípio da hierarquização dos serviços, como já dito, é feito através de níveis de atenção à saúde, de acordo com a complexidade dos serviços oferecidos. Assim, a atenção básica ou primária é mais generalista, com baixa complexidade tecnológica nos serviços, e visa à promoção e à prevenção da saúde, a partir do atendimento realizado pelos postos e unidade de saúde. A atenção secundária possui um nível maior de tecnologias e é mais especializada, visando o diagnóstico, o tratamento e prevenção de mais agravos durante a doença. No último nível, tem-se a atenção terciária com alto nível tecnológico e complexidade, muito especializada, focando a reabilitação da doença, reinserção do indivíduo na sociedade e na prevenção da reincidência da doença. Cabe, aqui, fazer uma relação dos níveis de complexidade do SUS com a procura dos serviços pelos homens. De acordo com a PNAISH (BRASIL, 2009a), os homens acessam os serviços de saúde principalmente pelos níveis de média e alta complexidade. Quando já estão com uma patologia instalada, e esta já interferiu na sua capacidade laboral, eles não têm o hábito de frequentar os serviços da atenção primária de saúde, em que são desenvolvidas as ações de prevenção e promoção de saúde. Foi esta constatação que gerou os principais objetivos da política. Retomando os esclarecimentos sobre o SUS, é importante ressaltar os objetivos e atribuições do SUS, estabelecidos no escopo da LEI 8080, pois alguns destes estão intimamente relacionados com o problema desta pesquisa, como se discutirá a seguir. Aqui, pontuam-se os objetivos e atribuições referidos (BRASIL, 1990, p. 1): identificar e divulgar os fatores condicionantes e determinantes da saúde; formular políticas públicas de saúde; fornecer assistência às pessoas por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas. executar as ações de vigilância sanitária e epidemiológica; 25 executar ações visando à saúde do trabalhador; participar na formulação da política e na execução de ações de saneamento básico; participar da formulação da política de recursos humanos para a saúde; realizar atividades de vigilância nutricional e de orientação alimentar; participar das ações direcionadas ao meio ambiente; formular políticas referentes a medicamentos, equipamentos, imunobiológicos, e outros insumos de interesse para a saúde e a participação na sua produção; controlar e fiscalizar serviços, produtos e substâncias de interesse para a saúde; fiscalizar e a inspecionar alimentos, água e bebidas para consumo humano; participar do controle e fiscalização de produtos psicoativos, tóxicos e radioativos; incrementar o desenvolvimento científico e tecnológico na área da saúde; formular e executar a política de sangue e de seus derivados. Observa-se que três objetivos e atribuições do SUS estão intimamente relacionados com a busca do entendimento da saúde do homem, a saber: identificação e divulgação dos fatores condicionantes e determinantes da saúde; a formulação de políticas públicas de saúde; e o fornecimento de assistência às pessoas, por intermédio de ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, com a realização integrada das ações assistenciais e das atividades preventivas. Observa-se também que um dos princípios básicos do sistema que deve ser trazido à discussão é o que se refere à equidade no atendimento. O atendimento de todos sem a distinção de raça, idade, orientação sexual e sexo “cai por terra” ao se identificar a ausência de homens fazendo uso dos serviços do sistema, uma vez que são identificados programas de atenção básica para mulheres, crianças, idosos, adolescentes, homossexuais, mas não existem programas e ações voltados para os homens, o que leva a questionar o princípio da equidade, se de fato está sendo praticado. O advento da PNAISH relaciona-se exatamente a tal realidade, e nasce com o intuito de acolher os homens nos serviços de saúde, eliminando a lacuna existente para com este grupo e a falha no sistema de saúde. A emergência desta política traz à tona a ausência de um grupo populacional, o dos homens, em um dos níveis de atenção do SUS, o primário. Desse modo, é preciso que se busquem informações sobre como está o funcionamento do sistema na prática. Como a população está sendo atendida? Qual a estrutura para o funcionamento dos serviços? Para Polignano (2001), a abrangência dos objetivos propostos e, em virtude da existência de desequilíbrios socioeconômicos regionais, a implantação do SUS não tem sido uniforme em todos os estados e municípios brasileiros. Sua implementação depende da 26 disponibilidade de recursos financeiros, de pessoal qualificado e de uma efetiva política em níveis federal, estadual e municipal para viabilizar o sistema. As falhas na execução das ações do SUS são claras e postas diariamente na rotina da sociedade, amplamente divulgada pela mídia. Polignano (2001, p. 1) enumera muito bem os problemas encontrados no SUS, a saber: • filas frequentes de pacientes nos serviços de saúde; • falta de leitos hospitalares para atender à demanda da população; • escassez de recursos financeiros, materiais e humanos para manter os serviços de saúde operando com eficácia e eficiência; • atraso no repasse dos pagamentos do Ministério da Saúde para os serviços conveniados; • baixos valores pagos pelo SUS aos diversos procedimentos médicohospitalares; • aumento de incidência e o ressurgimento de diversas doenças transmissíveis; • denúncias de abusos cometidos pelos planos privados e pelos seguros de saúde. Estes e outros problemas fazem parte da realidade do SUS no Brasil e no Amapá, interferindo diretamente na garantia do direito de saúde da população, além de contribuírem para afastar os usuários, desacreditar o sistema, denegrir a imagem das instituições e piorar os índices de morbimortalidade do país. Em relação aos homens, além desses problemas relacionados, outra barreira se interpõe entre esse segmento e a busca de saúde. Trata-se da barreira relacionada à imagem de provedor, trabalhador, viril e invulnerável de sua saúde. E a barreira institucional, que por falhas no funcionamento dificultam o acesso, pois para os homens o tempo e o trabalho são prioridades, e as filas, faltas de profissionais para atendê-los, horários de funcionamento restritos, interferem diretamente neste tempo e no trabalho. Para eles, ir ao serviço de saúde, da forma como se encontra hoje, significa perder de tempo e um dia de trabalho. Assim, em 2006, o MS com o intuito de promover melhorias na execução do SUS estabeleceu o Pacto pela Saúde, a partir de um conjunto de reformas institucionais, pactuadas entre as três esferas de gestão (União, Estados e Municípios). Este Pacto tem por objetivo promover inovações nos processos e instrumentos de gestão, redefinir as responsabilidades de cada gestor em função das necessidades de saúde da população, visando alcançar maior eficiência e qualidade das respostas do SUS (SCHNEIDER et al., 2009). Contudo, é fundamental destacar que o pacto pela saúde busca preservar os princípios do SUS previstos na Constituição e nas Leis Orgânicas da Saúde (Lei 8.080, de 19 de 27 setembro de 1990, e 8.142, de 11 de dezembro de 1990), e prevê estratégias que afirmam esses princípios. A partir deles, construiu-se uma pactuação que contempla três dimensões: o pacto pela vida, e os pactos em defesa e de gestão do SUS (SCHNEIDER et al., 2009). O Pacto pela Vida é o compromisso entre os gestores do SUS em torno de prioridades que apresentam impacto sobre a situação de saúde da população brasileira, e visa desenvolver ações regionalizadas, de acordo com as realidades locais. São seis as prioridades pactuadas: a) Saúde do Idoso; b) Controle do câncer do colo do útero e da mama; c) Redução da mortalidade infantil e materna; d) Fortalecimento da capacidade de resposta às doenças emergentes e endemias, com ênfase na dengue, hanseníase, tuberculose, malária e influenza; e) Promoção da Saúde e f) Fortalecimento da Atenção Básica (BRASIL, 2006b). E vale ressaltar que uma das ações deste pacto, em 2009, foi a implementação da PNAISH. O pacto em defesa do SUS visa o compromisso de consolidar a reforma sanitária brasileira, explicitada na defesa dos princípios do SUS estabelecidos na Constituição Federal, bem como qualificar e assegurar o Sistema Único de Saúde como política pública. Assim, o pacto tem como ferramenta de defesa do SUS: 1) a repolitização da saúde, como um movimento que retoma a reforma sanitária brasileira aproximando-a dos desafios atuais do SUS; 2) a promoção da Cidadania como estratégia de mobilização social, tendo a questão da saúde como um direito; e 3) a garantia de financiamento de acordo com as necessidades do Sistema (BRASIL, 2006b). Por fim, o pacto de gestão que estabelece diretrizes para a gestão do sistema nos aspectos da Descentralização, Regionalização, Financiamento, Planejamento, Programação Pactuada e Integrada (PPI), Regulação, Participação e Controle Social, Gestão do Trabalho e Educação na Saúde. Sobre o pacto de gestão, Schneider et al. (2009, p. 13) enfatizam que: O Pacto de Gestão do SUS definiu melhor as responsabilidades de cada esfera de governo. Essa definição é importante para que a política do SUS funcione a partir da gestão participativa. O que vemos hoje é o chamado “empurra-empurra” (descumprimento de pactuações) entre os gestores, que aumentam cada vez mais as tensões entre si para ver de quem é a responsabilidade na saúde. E o cidadão fica no meio, sem saber ao certo a quem deve recorrer para garantir o seu direito. Com a nova pactuação as responsabilidades e o processo de monitoramento e avaliação da gestão do SUS ficaram mais claros. Diante das questões do funcionamento do SUS e de suas interferências na garantia do direito a saúde, considera-se pertinente conhecer a situação dessa política em nível local. A seguir, destacam-se alguns aspectos da estrutura e serviços de saúde disponíveis do estado, no 28 sentido de refletir sobre o que está acessível à população, e como estão se desenvolvendo as ações da PNAISH, no Amapá. 2.3 Estrutura e serviços de saúde no Amapá Situado no extremo norte do país, na região denominada de Amazônia Legal, o estado do Amapá ocupa uma área que corresponde a 1,68% do território nacional e a 3,71% da região Norte, fazendo limite com o estado do Pará e fronteira com a Guiana Francesa e Suriname (SUPERINTENDÊNCIA, 1990 apud ANDRADE, 2008). Dividido politicamente em 16 municípios, apresenta uma população de aproximadamente 649 mil habitantes, sendo que 75% encontram-se nos municípios de Macapá e Santana, segundo o censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) (BRASIL, 2010a). Este estado sofre com um serviço de saúde ainda precário e limitado, a exemplo do que ocorre em grande parte dos estados brasileiros. É possível se observar quase que diariamente os meios de comunicações denunciando situações precárias de saúde: faltam profissionais, faltam equipamentos, faltam medicamentos, faltam serviços básicos, além de situações de mau atendimento devido à precariedade das condições de trabalho, instalações sucateadas e incapacidade da rede para atender à demanda aos serviços. Situações estas que também ocorrem nos demais estados brasileiros. Tal realidade é relatada por Andrade (2008), quando discorre sobre a saúde do Amapá. A autora cita que os estabelecimentos de saúde apresentam pessoal insuficiente, falta de material, de medicamentos, estrutura física sem manutenção adequada, laboratórios com funcionamentos deficientes e condições precárias de trabalho. Ao analisar a estrutura da rede de saúde do Amapá, constatou-se um aumento em seus estabelecimentos, sendo estes públicos ou privados, passando de 221, em 2002, para 288 estabelecimentos, em 2009 (BRASIL, 2009b). Em 2010 observa-se que houve um acréscimo de 95% nos estabelecimentos de saúde, que hoje totalizam 383 unidades, sendo 63,19% de natureza pública e 36,81% de natureza privada e filantrópica (BRASIL, 2011b). É importante ressaltar que se entende por estabelecimento de saúde aqueles que prestam assistência à saúde individual ou coletiva, com um mínimo de técnica apropriada, segundo critérios estabelecidos pelo MS, para atendimento rotineiro à população, seja ele público ou privado, com ou sem fins lucrativos, em regime ambulatorial ou de internação, incluindo os estabelecimentos que 29 realizam exclusivamente serviços de apoio à diagnose e terapia, além de controle regular de zoonoses (BRASIL, 2010b). Na atenção hospitalar, estão cadastrados no estado, de acordo com o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde, 13 estabelecimentos (8 gerais e 5 especializados), dos quais 5 (38,46%) são de natureza pública (3 gerais e 2 especializados) (BRASIL, 2011b). Em relação à distribuição de leitos por especialidades, o Amapá possui 1.041 leitos e, destes, 882 (84,73%) estão disponíveis ao SUS. Destaca-se a insuficiência de leitos de UTI Neonatal, com 9 leitos disponíveis ao SUS, quando seriam necessários 60 leitos para cobrir a necessidade da população, e a inexistência de leitos de UTI Intermediária Neonatal, quando seriam necessários, pelos parâmetros do MS, 179 leitos, e de leitos de UTI para queimados (BRASIL, 2011b, p. 32). Contudo, no que diz respeito a leitos/1000habitantes, o estado possui apenas 1,4 leitos/1000habitantes, o que é muito abaixo do recomendado pelo MS, que é de 2,5 a 3,0 leitos/1000habitantes (BRASIL, 2010b). Nesse aspecto, cabe lembrar que o Hospital Metropolitano, planejado para suprir esta deficiência, está com a obra paralisada desde 20041, fazendo muita falta à população, que necessita de assistência especializada. Destaca-se que, desde 2004, a população conta com o Centro de Referência de Tratamentos Naturais (CRTN), cujo objetivo é atuar na assistência especializada em terapias naturais, através de atendimento e serviços ambulatoriais, tais como: fitoterapia, psicologia, homeopatia, acupuntura, auriculoacupuntura, massoterapia, dietoterapia, trofoterapia e demais práticas integrativas e complementares e por meio da política nacional dos fitoterápicos e ervas medicinais do SUS. Tais atendimentos são regulamentados pela Portaria nº 971 do MS (AMAPÁ, 2007). O CRTN, responsável em suprir a deficiência do serviço público em tratamento natural, teve em 2007 mais de 73.000 procedimentos. Entretanto, apesar da proposta promissora, o próprio relatório de gestão do CRTN aponta dificuldades básicas, como falta de recursos humanos; falta de material permanente e de consumo; falta de espaço físico (para nutrição e outros); complementação da climatização; falta de material para massoterapia (pomadas e macas de atendimento); falta de material de expediente; falta de material para auriculoterapia; falta de material de acupuntura (AMAPÁ, 2007). As filas intermináveis, vistas e documentadas pelos meios de comunicação quando o Centro abre vagas para novos pacientes, comprovam a demanda reprimida que se tem no estado. 1 Obra paralisada pela chamada Operação Pororoca, realizada pela Polícia Federal, que identificou problemas nas prestações de contas. 30 Com relação à atenção básica, também dita de baixa complexidade, desde o ano de 2002, com a municipalização da rede, passou a ser de gestão dos municípios. Observando a evolução histórica dos estabelecimentos que compõem a rede de atenção básica, verifica-se que houve uma redução do número de postos de saúde, de 159 para 139, entre os anos de 2002 a 2009, contudo houve um aumento do número de unidades ou centros de saúde, de 24 para 61 no mesmo período (AMAPÁ, 2006; BRASIL, 2009b). Isso é positivo, pois, considerando o tipo de atendimento entre posto de saúde e centro ou unidade de saúde, estas últimas possuem serviços mais especializados com profissionais de nível superior, como médicos, enfermeiros, nutricionistas, odontólogos, psicólogos. Nos postos de saúde, entretanto, o poder resolutivo é bem menor, pois o atendimento é feito por profissionais de nível técnico. Outro tipo de estabelecimento que faz parte da atenção básica são as unidades mistas de saúde, que no estado passou de nove para dez, entre os anos de 2002 a 2009 (AMAPÁ, 2006; BRASIL, 2009b). Essas unidades estão localizadas nas sedes dos principais municípios do estado, prestando assistência básica ambulatorial e hospitalar, e possuem um poder resolutivo bem maior que os postos de saúde e as unidades ou centros de saúde, pois, além de possuírem profissionais especializados de nível superior, também realizam procedimentos hospitalares de baixa complexidade, como emergências e cirurgias de pequeno porte. Cabe ressaltar que, apesar de a atenção básica ser de responsabilidade do município de Macapá, esta representa um importante suporte de serviço de saúde a toda população do estado, pois 75% da população amapaense concentram-se nos municípios de Macapá e Santana, além de prestar atendimento à população de outros municípios, tanto do próprio Amapá como do vizinho estado do Pará. Sendo o SUS responsável pela grande maioria dos atendimentos, apesar do incremento da rede privada nos últimos anos, existem no estado apenas dois hospitais privados, levando em conta que um deles também atende ao SUS, na modalidade convênio. E, ainda, nestes hospitais alguns procedimentos não são realizados, como é o caso das hemodiálises, que, quando necessárias, são realizadas no setor de nefrologia do Hospital público de Clínicas Alberto Lima (HCAL). Outro serviço que não está disponível é a radioterapia, procedimento com radiação ionizante utilizada no tratamento oncológico. Contudo, recentemente foi divulgada, na mídia, a construção de um centro de radioterapia no estado, com previsão de entrega apenas para o final de 2013, ressaltando que tal centro é de iniciativa privada, mas que, certamente, atenderá às demandas do SUS através de convênios. Porém, enquanto se espera o término da construção, os casos que necessitam do tratamento o fazem através do Tratamento Fora do 31 Domicílio (TFD), em que o paciente é encaminhado ao Hospital Ofir Loiola no estado do Pará. A respeito destas demandas interestaduais, é possível observar, nos serviços de saúde do estado, uma alta demanda, proveniente de cidades pertencentes ao Pará, que, devido à proximidade com o Amapá, procuram atendimento aqui. A princípio, pode-se achar que, com as bases da universalidade e regionalização do SUS, essa demanda extra traria poucos prejuízos ao sistema de saúde do Estado, já que o pagamento é realizado após cada procedimento, ou ainda que seria uma forma de compensação de um serviço ao outro. Entretanto, as demandas para o Pará são de TFD, que necessitam de autorização prévia para serem realizadas, e as demandas para o Amapá geralmente são para a atenção básica, na qual os recursos são repassados aos municípios com base no Piso Assistencial Básico (PAB), que, segundo Polignano (2001), consiste em um montante de recursos financeiros destinado ao custeio de procedimentos e ações de assistência básica, de responsabilidade tipicamente municipal. Como esse piso é definido pela multiplicação de um valor per capita nacional pela população de cada município, nesse caso os do Amapá, e como esses atendimentos também são feitos para a população dos municípios fronteiriços (Breves, Afuá e Chaves), já se percebe que os recursos são insuficientes para atender a demanda. Segundo dados da Pesquisa de Assistência Médico-Sanitária 2009 (BRASIL,2010b), o Amapá não disponibiliza atendimento nas seguintes especialidades: fisiatria, genética, medicina preventiva e neurocirurgia. Também os procedimentos de radioimunoensaio e cintilografia, que são de apoio à diagnose e terapia, também não se encontram disponíveis. No que se refere ao procedimento de transplante, a partir de 2006 o Amapá foi inserido no Sistema Nacional de Transplantes (SNT) através da Central de Notificação, Captação e Distribuição de Órgãos (CNCDO). Com a inserção do sistema, o Estado passou a coordenar as atividades de transplantes no âmbito estadual, promovendo a inscrição de potenciais receptores, verificação de compatibilidade do organismo para o transplante, classificação de receptores e comunicação com o órgão central do SNT. Contudo, mesmo com este serviço, o Estado ainda não realiza transplantes (AMAPÁ, 2008; BRASIL, 2011a). Em 2009, um pequeno passo foi dado na temática transplante, com a adesão do Amapá ao Registro Brasileiro de Candidatos Voluntários à Doação de Medula Óssea (REDOME), coordenado, desde então, pelo Instituto de Hematologia e Hemoterapia do Estado (HEMOAP). O REDOME aumenta a chance de um paciente portador de leucemias, anemias falciforme, linfomas, entre outras doenças, conseguir um transplante de medula óssea. O Hemoap atende cerca de nove mil pacientes de doenças hematológicas. Até o ano de 2011, o 32 Amapá já havia cadastrado 15.000 voluntários, o que corresponde a aproximadamente 15% dos cadastrados em toda a região norte (HEMOAP..., 2011). No que se refere à atenção básica, nível em que acontece a prevenção e a promoção da saúde, o estado já se encontra organizado nos moldes da Estratégia Saúde da Família (ESF), prioridade do MS. A estratégia conta com equipes multiprofissionais responsáveis pelo acompanhamento de no máximo quatro mil habitantes de determinada localidade. Atuam com ações de promoção da saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes, e na manutenção da saúde desta comunidade. As equipes são compostas, no mínimo, por um médico de família, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e 6 agentes comunitários de saúde. Quando ampliada, conta ainda com: um dentista, um auxiliar de consultório dentário e um técnico em higiene dental. A ESF é composta por equipes do Programa Agente Comunitários de Saúde (PACS), do Programa Saúde da Família (PSF), Equipes de Saúde Bucal (ESB) e dos Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF). No período de 2006 a 2009, a cobertura da população pelo PACS, no estado do Amapá, reduziu 68,4% (de 41,2% para 13%), enquanto que a cobertura do PSF cresceu 34,9% (de 40,9% para 55,2%), indicando que, provavelmente, uma parte das equipes de PACS foi transformada em equipe do PSF, o que era objetivo do MS. Já a cobertura pelas ESB aumentou 147,3%, passando de 39,7 para 98,2 pontos percentuais. Comparando com os percentuais de cobertura da região Norte e do Brasil, observa-se que na região Norte houve uma diminuição do PACS em torno de 30% e incremento das equipes de PSF de 31,6%, enquanto que no Brasil a redução do PACS foi de 25% e o aumento do PSF em 13,4%; e o incremento de ESB, na região e no país, foi de 37,1% e 19,3%, respectivamente (BRASIL, 2011b). Diante da estrutura apresentada, é pertinente ressaltar o papel das instituições civis sem fins lucrativos no contexto dos serviços de saúde disponíveis no estado. Várias instituições de cunho religioso ou não assumiram junto à sociedade o papel que deveria ser do estadode garantir assistência à saúde à população, geralmente aos mais desprovidos do acesso aos seus direitos. No estado, as instituições, como o Instituto Joel Magalhães, Sociedade Centro de Promoção Humana Frei Daniel da Samarate, também conhecida por Capuchinhos, além de várias outras, como o Serviço Social do Comércio (SESC), Serviço Social da Indústria (SESI), associação de moradores, oferecem serviços de saúde à população. Outro dado importante a destacar é a saúde suplementar, representada pelos planos privados de saúde com ou sem odontologia, que, no ano de 2009, apresentaram cobertura de 14,06% da população. Nos anos de 2006 a 2009, essa cobertura teve um aumento de 31,6%. 33 Isso possivelmente deve-se à ineficiência e ineficácia da estrutura pública de saúde do estado em atender a população de forma integral, igual e universal. Essa situação também é observada em outros estados do Brasil. Contudo, é valido lembrar que o direito à saúde é dever do Estado, de acordo com a Constituição Federal de 1988, embora seja permitido que instituições civis filantrópicas ou privadas atuem na promoção da saúde. O que não deveria ser permitido é que as instituições civis assumissem o que é dever do Estado, que não cumpre o seu papel por deficiência na estrutura da rede de serviços. Visto sob a ótica da população atendida, estas instituições chegam em boa hora (e vê-se a sociedade civil), assumindo, com caráter de “caridade”, o que é “Direito” humano e “Dever” do Estado, garantido pelo Constituição a todos os cidadãos brasileiros. Nesse sentido, é válido lembrar e ressaltar que o estado do Amapá aderiu ao Pacto pela Saúde, em 2006, que visa ao fortalecimento do SUS. Desde então, seis municípios do estado também aderiram, o que representa 37,5% do total dos municípios (BRASIL, 2011b), os outros dez municípios não aderiram. Não é propósito deste estudo discutir as deficiências na estrutura e no funcionamento do SUS de forma geral, e, portanto, não se aprofundará estas discussões. A ideia, aqui, é destacar o funcionamento das estruturas e dos serviços de saúde disponíveis no estado, que poderão ser utilizados pelos homens, objeto de estudo desta pesquisa. Conhecer a estrutura é fundamental para compreender como os sujeitos deste estudo, os homens, a acessam para usufruírem de seu direito de saúde. Com isso, de uma forma geral e sucinta, é possível afirmar que os serviços e a estrutura de saúde do estado deixam muito a desejar. Apesar da deficiência da rede, é possível verificar (pelo menos em nível teórico) algumas melhorias na qualidade de vida e na saúde da população nos últimos anos. Isso fica claro quando se analisam alguns índices e indicadores, tais como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), taxa de mortalidade e expectativa de vida da população amapaense. De acordo com dados do Boletim Regional emitido pelo Banco Central do Brasil (BACEN), o Amapá encontra-se na 12ª posição no ranking do IDH nacional, apresentando uma evolução histórica de 0,78 para 0,8 de 2005 a 2007. Para se ter uma noção comparativa, o primeiro no ranking é o Distrito Federal com 0,9, e na 27º posição fica Alagoas com 0,772. No caso do Brasil, a evolução histórica foi de 0,794 para 0,816, nos anos de 2005 para 2007 (BRASIL, 2009g). Ainda de acordo com dados da BACEN, o aumento do IDH nacional e nos estados deve-se, principalmente, às ações de melhorias na educação, como os programas que aboliram 34 a repetência escolar e o aumento da oferta de vagas nos ensinos médio e superior. Também os programas de transferência de renda, como o Bolsa-Família, que, além de contribuírem para o fator renda, contribuem também para o fator educação com a obrigatoriedade das famílias em manter as crianças na Escola. O fator longevidade, que envolve a expectativa de vida ao nascer, foi o que menos contribuiu com o aumento do IDH (BRASIL, 2009g). Segundo estimativa do IBGE (BRASIL, 2010c), a expectativa de vida do amapaense subiu de 66 anos em 2002 para 71 anos, ocupando a 20ª posição no ranking nacional. A expectativa de vida é calculada considerando-se, além das taxas de mortalidade geral e infantil segundo a classe de renda, o acesso a serviços de saúde, saneamento, educação, cultura e lazer, bem como os índices de violência, criminalidade, poluição do local onde vive a população. Sendo, portanto, um indicador de melhorias na saúde de uma determinada população. Outro indicador de saúde analisado foi a taxa de mortalidade infantil, que passou de 24,2 para 20,7/1000 nascidos vivos (BRASIL, 2009b). Esta média encontra-se um pouco abaixo da nacional, que é de 22/1000 nascidos vivos, e é considerada péssima quando comparada à Islândia, que é de 2,9/1000 nascidos vivos, e excelente quando comparada à Serra Leoa, que é de 104,3/1000 nascidos vivos (BRASIL, 2010c). A taxa de mortalidade infantil é um importante indicador das condições de vida e do acesso e qualidade das ações e serviços de saúde. Significando o número de crianças mortas até um ano de idade para cada mil nascidas vivas. Quanto à taxa de mortalidade, que corresponde ao número de óbitos em 1.000 habitantes, no Amapá foi de 3,8, no ano de 2002, e 3,1 no ano de 2008 (BRASIL, 2009b). Quando são analisadas as causas de mortalidade na população, tem-se que, desde 2002, a principal causa de mortes são as classificadas, de acordo com Organização (1995), no Código Internacional de Doenças (CID-10), como as causas externas, que, no ano de 2008, segundo o MS, atingiu 21,5% dos óbitos, e destes 27% são decorrentes de homicídios, seguidos dos acidentes de transporte, com 16% (BRASIL, 2009c). Com relação à PNAISH, o estado, bem como todo o país, ainda se encontra em fase de implementação das ações propostas. Para tal, foram criadas coordenações estaduais e municipais, encarregadas de desenvolverem as primeiras atividades, relacionadas à capacitação de recursos humanos e à divulgação da PNAISH, além da adequação dos serviços de saúde para o público masculino. As ações, entretanto, ainda são tímidas, no Amapá. No ano de 2010, em Brasília, foram realizadas capacitações para os gestores da PNAISH, voltadas a estados e municípios, para que se desse início à implementação das ações 35 propostas pela política para o atendimento dos homens nos serviços de saúde do SUS. Em Macapá, foi realizado um seminário com os profissionais da saúde da atenção básica, quando foi discutida a situação atual da saúde masculina, bem como as ações que serão realizadas no município. Contudo, as ações de implementação dos serviços de saúde específicos para homens no estado e município ainda se encontram em processo de adequação, pois dependem de aprovação e disponibilidade financeira. Segundo informações da Coordenação de saúde do Homem do município de Macapá, a proposta que se tem ao nível municipal é de adaptar uma unidade básica de saúde para ser referência em atendimento aos homens, com a presença de médicos especialistas em urologia, que estariam habilitados, inclusive, a fazer pequenos procedimentos cirúrgicos, dentre eles a vasectomia. Cabe ao estado o papel de propagar os serviços de saúde aos homens nos demais municípios, dando ênfase à prevenção do câncer de próstata, facilitando os exames e as cirurgias relacionadas ao problema. Entretanto, até o início de 2012, as ações da execução prática da PNAISH ainda encontram-se, como já dito, tímidas e insipientes. A contextualização sobre a estrutura dos serviços de saúde permitiu apresentar o funcionamento da rede saúde no Amapá, analisando as lacunas e fragilidades da rede. Partiuse do princípio que a saúde deve ser concebida como um direito humano e cabe ao estado construir as bases para que esse direito se efetive. Esta contextualização foi necessária, pois a problemática deste estudo possui duas vertentes que podem interferir na busca do cuidado do homem pelos serviços de saúde: a vertente relacionada aos fatores institucionais e a relacionada aos fatores de gênero. Discutidos e destacados os fatores relacionados às instituições de saúde – seu funcionamento, sua disponibilidade, seus níveis de complexidade, e como estes podem interferir e influenciar no cuidado a saúde –, é hora de mergulhar nos fatores relacionados ao gênero, que explicam a construção e as características de comportamento do ser masculino na sociedade, e como estes fatores interferem na questão de saúde masculina, haja vista que este estudo parte da hipótese de que estes fatores são os mais determinantes e influenciadores do cuidado masculino. 36 3 A SAÚDE “VULNERÁVEL” DO SER “INVULNERÁVEL”: O HOMEM 3.1 A saúde do homem no Brasil e no Amapá A saúde é hoje entendida como um bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doenças. Deve-lhe ser assegurado, ainda, viver num meio com condições de moradia, saneamento básico, educação, transporte, lazer, trabalho, renda. E, de acordo com a promoção da saúde, os indivíduos devem estar aptos a cuidar-se de forma a desenvolver hábitos de vida que contribuam para sua saúde. Desde o início desta pesquisa, a máxima de que “os homens não se cuidam” foi norteadora do estudo. Esse problema está relacionado com os fatores determinantes para que os homens não se cuidem. Diante da dimensão e da complexidade das teorias pautadas para explicar e responder ao problema, observa-se que a discussão é longa e complexa. Assim, como uma forma de justificar a máxima, tão inculcada na sociedade, de que o homem não se cuida, traz-se dados de mortalidade e morbidade masculina, que justificam a condição de saúde vulnerável dos homens, buscando-se fazer um comparativo da situação em âmbito nacional e estadual. A partir da PNAISH, houve a propagação de dados alarmantes sobre a realidade masculina. Os homens brasileiros correspondem a 60% das mortes no país, e possuem expectativa de vida em torno de 7,6 anos a menos que as mulheres. Sedentário e mais acometido pela problemática da dependência química, principalmente álcool e fumo, o homem revelado pelo estudo também é pouco preocupado com as questões do planejamento familiar e com sua saúde de maneira geral (BRASIL, 2009a). A saúde do homem ganha espaço no SUS e na sociedade através da PNAISH, criada em 2009, com o objetivo de promover melhorias nas condições de saúde dos homens, contribuindo para a redução da morbidade e mortalidade masculina, e facilitando o acesso às ações e aos serviços de assistência à saúde (BRASIL, 2009a). Mas qual o cenário de saúde dos homens? De que morrem mais? Que doenças são mais frequentes? O que pensam de sua saúde? As respostas a tais perguntas podem ajudar a colocar em funcionamento ações mais direcionadas à realidade masculina. E, para responder e esclarecer tais dúvidas, traz-se à discussão, fazendo-se um comparativo entre o nacional (Brasil) e o local (Amapá), os dados mostrados pelo diagnóstico 37 de saúde, que serviu de base para a formulação e a implantação da PNAISH (BRASIL, 2009a), e os dados de morbimortalidade do Amapá, registrados no Banco de Dados do SUS (DATASUS) com homens de 20 a 59 anos, no ano de 2009. De acordo com dados divulgados pelo MS/PNAISH em 2009 as causas de mortalidade da população masculina incidem em cinco grupos principais de entidades mórbidas. Os dados apontam que 78% dos óbitos da população masculina entre 15 a 59 anos devem-se a causa externas; em segundo, a doenças do aparelho circulatório; em terceiro, a tumores; em quarto, a doenças do aparelho digestivo; e, finalmente, em quinto lugar, a doenças do aparelho respiratório. As causas externas, primeiro lugar nas causas de mortes masculinas, englobam uma série de agravos, dos quais os mais importantes são os acidentes, notadamente os acidentes de transporte, as lesões autoprovocadas voluntariamente e as agressões. Estes três tipos de agravos corresponderam, em 2005, à maioria dos óbitos (78%), por causas externas (BRASIL, 2009a). A PNAISH destaca, ainda, que 80% das internações no SUS são motivadas por estas causas, com preponderância na faixa etária dos 20 aos 29 anos. Em 2007, 39,8% das internações foram de homens, e dessas 48% ocorreram na faixa populacional dos 15 aos 59 anos, sendo os acidentes de trânsito as causas de maior magnitude (BRASIL, 2009a). De modo geral, ao se analisar o percentual de internações entre homens e mulheres no Amapá, verifica-se que, na faixa etária de menores de 14 anos, não há diferenças significativas nas internações. Contudo, estas diferenças se tornam significativas nas faixas etárias de 15 a 59 anos, na qual as mulheres são as que mais internam, e a partir dos 60 anos, os homens assumem a liderança (BRASIL, 2011b). Tratando-se de mortalidade, no estado as causas externas ocupam o primeiro lugar no ranking das causas de mortes. No ano de 2009, estas representaram mais de 45% dos óbitos, ocorridos na faixa etária de 20 a 59 anos (BRASIL, 2009h). E, no caso das mortes violentas, de acordo com as estatísticas, no ano de 2009 contabilizaram-se 113 casos de óbitos por armas brancas, sendo 93% das vítimas do sexo masculino; 103 vítimas de acidentes de trânsito, sendo 80% do sexo masculino; 82 casos de armas de fogo, cabendo 97,5% aos homens; e 40 casos de suicídio, sendo 95% de homens (BOLERO NETO, 2010). Tal quadro reafirma uma realidade já descrita por Andrade (2008), na qual o Amapá ocupava os primeiros lugares no ranking nacional, no que se refere a óbitos por conta de mortes violentas. As causas externas de óbitos são consideradas um grande problema de saúde pública com forte impacto na mortalidade e morbidade da população, haja vista que estas 38 mortes prematuras trazem consequências psicofísicas e socioeconômicas, uma vez que são vidas jovens perdidas em plena fase produtiva. A segunda causa da mortalidade masculina no Brasil são as doenças do aparelho circulatório, como também acontece no Amapá. A maior incidência de mortalidade masculina, no ano de 2005, por esta causa ocorreu após os 60 anos (72,2%). Contudo, o percentual de óbitos na população dos 25-59 anos foi de 26,8%, o que foi considerado bastante expressivo no diagnóstico da saúde masculina. As doenças isquêmicas do coração, entre elas o infarto agudo do miocárdio, foram as principais causas, seguidas das doenças cerebrovasculares. Quanto às causas das internações hospitalares, a maior parte deve-se aos acidentes coronarianos (40,5%), seguidos pela hipertensão arterial (18,7%) (BRASIL, 2009a). No Amapá, as doenças cardiovasculares representam, entre os homens de 20 a 59 anos, 13,6% dos óbitos, sendo as duas principais causas as doenças isquêmicas e cerebrovasculares, com 8% dos óbitos masculinos na referida faixa etária, exatamente como acontece ao nível nacional. 10% das internações de homens nessa faixa etária, no estado, são decorrentes de problemas circulatórios, citados a seguir em ordem de maior ocorrência: 1) insuficiência cardíaca; 2) doenças isquêmicas do coração; 3) acidente vascular cerebral; e 4) hipertensão arterial (BRASIL, 2009f). A terceira causa de mortes no Amapá, com pouco mais de 13% dos óbitos na faixa etária estudada em 2009, está classificada no CID-10, como sintomas, sinais e achados anormais ao exame clínico e laboratorial não classificado em outras categorias (BRASIL, 2009h), o que não coincide com a realidade nacional, que tem como terceiro lugar as neoplasias. Essa inexatidão das causas de mortes pode ser explicada por falhas no momento do preenchimento dos atestados de óbitos, e pela estrutura deficitária do estado no diagnóstico de doenças, como visto anteriormente no capítulo que versa sobre a estrutura de saúde do Amapá. Vale ressaltar, ainda, que, na classificação do CID-10, “outras causas” não foram consideradas como causas de mortes na discussão do diagnóstico da saúde do homem, contido na PNAISH e base para esta discussão. Se estas causas tivessem sido consideradas, estas seriam a segunda causa de mortes entre os homens, conforme os dados apresentados na referida política. Em relação às neoplasias, estas são a terceira causa de morte masculina no Brasil e a quarta no Amapá, com 6% dos óbitos masculinos, na faixa etária de 20 a 59 anos. A maior causa de mortalidade, entre as neoplasias, são as relacionadas ao aparelho respiratório (pulmão, traqueia e brônquios), seguida pelo câncer de próstata e do aparelho digestivo. No 39 Amapá, no ano de 2009, as neoplasias apresentaram 5% dos óbitos masculinos, sendo que 50% dos casos foram decorrentes das neoplasias do aparelho digestivo, 17,8% do sistema linfático hematopoiético, 7% do aparelho respiratório, e 3,5% de órgãos genitais masculinos (BRASIL, 2009h). Em 2007, os tumores do aparelho digestivo, as neoplasias malignas do lábio, cavidade oral e faringe foram as que apresentaram o maior número de internações (8.744), seguida pelo câncer de estômago (5.316), pelo câncer de cólon (5.085) e pela neoplasia maligna de esôfago (4.715) (BRASIL, 2009a). Ressalta-se ainda que, comparando-se o número de internações por estas neoplasias no ano de 2000 em relação aos pacientes internados em 2007, chega-se à conclusão que o quantitativo praticamente dobrou neste estado (INSTITUTO, 2011). No caso do aparelho respiratório, as neoplasias malignas da traqueia, brônquios e pulmões foram responsáveis, no ano de 2007, por 3.836 internações, seguidas pelo câncer de laringe, com 3.237 casos. E, dentre as internações por tumores do aparelho urinário, destacase a neoplasia maligna da próstata, com 2.377, enquanto que outros tumores malignos do aparelho genital masculino foram responsáveis por 2.183 internações, seguidas de 1.510 casos de neoplasia maligna da bexiga (BRASIL, 2009a). Quando se analisa os números de internações do Amapá, verificam-se que, em se tratando de câncer, as principais causas, no ano de 2009, são: o câncer de estômago com 23,7% das internações, seguido dos câncer de cólon com 11,4%, aparelho respiratório com 9,6% e genitais masculinos com 8,8% (BRASIL, 2009e). Ressalta-se, ainda, a problemática do câncer de pênis, que no Brasil representa 2% de todas as neoplasias que atingem os homens, sendo 16% dos casos registrados nas regiões Norte e Nordeste, existindo estados, como é o caso do Maranhão, em que sua incidência supera até o câncer de próstata, chegando à média de 26,6 novos casos por ano (NARDI; GLINA; FAVORITO, 2007). E, tratando-se do câncer de pênis no Amapá, dados mostrados em Seminário de Capacitação sobre Saúde do Homem realizado pela Prefeitura Municipal de Macapá, em 2010, revelaram que, do ano de 1990 a 2002, foram diagnosticados 22 casos, e, entre os anos de 2006 a 2009, foram 17 casos; destes, oito pacientes tiveram amputação total do pênis. A média de idade destes pacientes é de 57 anos com baixo grau de instrução. Ao relacionar os fatores de morbidade, a PNAISH destaca as disfunções sexuais, notadamente a disfunção erétil, que acomete cerca da metade dos homens depois dos cinquenta anos. Identificada como fator que mais interfere na qualidade de vida dos homens, a 40 saúde sexual também pode ser considerada um importante marcador para certas doenças, como a coronariopatia e as diabetes (BRASIL, 2009a). Em quarto lugar como causa de mortalidade masculina no Brasil, e quinto no Amapá, com 4,8% dos óbitos em homens, ficam as doenças do aparelho digestivo, dentre as quais, destaca-se as doenças do fígado, que, em 2005, foram responsáveis por 70% das causas de morte de homens de 25-59 anos. Destas, 46% devem-se à doença alcoólica, 36% à fibrose e cirrose, e 18% a outras doenças do fígado. Destacam-se, ainda, como causas de mortalidade no aparelho digestivo: a úlcera gástrica, duodenal e péptica (4%), a peritonite (2%), a colecistite (1%) e outras causas não especificadas (23%). Em relação às internações, as principais causas foram: doenças ácido-pépticas (35.782), doenças do fígado (27.354) e colelitíase e colecistite (25.333) (BRASIL, 2009a). No Amapá, as internações por doenças relacionadas ao aparelho digestivo mostram que as principais causas foram as hérnias inguinais, com 24,7% das internações de homens entre 20 a 29 anos, seguido das doenças do apêndice, com 14,4%, e de outras doenças do esôfago, estômago e duodeno com 12,9% (BRASIL, 2009e). Nesse ponto, é preciso trazer à discussão o problema do consumo de álcool que parece fazer parte do universo masculino. Laurenti, Mello e Gotlieb (2005) afirmam que tem sido usual avaliar este impacto do uso por meio da mortalidade e da morbidade hospitalar, haja vista os efeitos do alcoolismo sobre a saúde, vistos por meio da frequência da psicose alcoólica, e as síndromes da dependência do álcool, dentre os transtornos mentais, e da cirrose hepática, dentre as doenças do aparelho digestivo. De acordo com Cebrid (2005 apud BRASIL, 2009a), cerca de 19,5% dos homens são dependentes do álcool, e, para cada seis homens que fazem uso, um fica dependente. Ao passo que, para as mulheres, os percentuais de dependentes ficam em torno de 6,9%, e, para cada 10 mulheres que fazem uso de álcool, apenas uma fica dependente. Destaca-se, ainda, que no Brasil, as internações de mulheres por transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de álcool representaram 2% de todas as internações, enquanto os homens apresentaram um percentual de 20% (BRASIL, 2009a). Ficam em quinto lugar das causas de mortalidade no Brasil as doenças do aparelho respiratório. Excluindo os casos de óbitos por neoplasias malignas e por tuberculose, no ano de 2005, foram 53.017 óbitos na massa total da população masculina. Os percentuais de internamentos do aparelho respiratório mais significativos são: pneumonias (43%), doenças pulmonares obstrutivas crônicas (DPOC) (12%), asma em suas diversas formas (11%), e a tuberculose (5%) (BRASIL, 2009a). No Amapá, as doenças do aparelho respiratório 41 representam 3,9% da mortalidade em homens, de 20 a 59 anos, ficando em sétimo lugar no ranking (BRASIL, 2009f). É válido destacar, nesse ponto, o comportamento das doenças infecto-parasitárias no estado do Amapá, que, no ranking da mortalidade, ficam no sexto lugar em causas de mortes masculinas, com 4,6% dos óbitos. Em se tratando de internações, estas doenças são responsáveis pelo terceiro lugar e os homens internados estão na faixa etária de 20 a 59 anos. Das doenças infecciosas e parasitárias que provocam as internações masculinas, destacamos: 1) outras doenças infecciosas e parasitárias com 23,8; 2) doenças bacterianas com 15,7%; 3) malária com 14%; 4) dengue com 6,9% e; 5) Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (AIDS) com 6,3% (BRASIL, 2009e). Em relação à AIDS, de acordo com o último Boletim Epidemiológico (ano base 2010), foram notificados 608.230 casos acumulados de 1980 a junho de 2011, sendo 397.662 (65,4%) do sexo masculino e 210.538 (34,6%) do sexo feminino. A razão de sexo vem diminuindo ao longo dos anos. Em 1985, para cada 26 casos entre homens, havia um caso entre mulher. Em 2010, essa relação é de 1,7 homens para cada caso em mulheres (BRASIL, 2011a). No Amapá, de acordo com Brasil (2011a), foram diagnosticados 68 casos de AIDS em homens, e 46 casos em mulheres, numa proporção de 1,4 homens para cada mulher, no ano de 2009. É pertinente destacar ainda alguns dados sobre as doenças crônicas, como a obesidade, diabetes e hipertensão arterial. No que se refere à obesidade, atualmente, 13% dos adultos são obesos, sendo o índice maior entre as mulheres (13,6%) do que entre os homens (12,4%), de acordo com a pesquisa do MS Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (BRASIL, 2009h). A mesma pesquisa identificou que os homens são mais sedentários que as mulheres: 29,5% e 23,5%, respectivamente. O sedentarismo é reconhecido pela OMS como fator de risco para a obesidade e outras doenças crônicas, sendo considerados sedentários aqueles que não praticaram qualquer atividade física nos últimos três meses; não realizavam esforço físico intenso no trabalho, não se deslocavam para o trabalho a pé ou de bicicleta; e não eram responsáveis pela limpeza pesada da casa. São os chamados “quatro domínios” da atividade física. Em Macapá, 20% dos homens foram considerados inativos pela pesquisa (BRASIL, 2009h). No que refere à hipertensão arterial, 20,3% dos homens declararam ter hipertensão arterial diagnosticada por médico e 5,2% declararam ter o diagnóstico de diabetes, o levantamento ouviu 21.435 homens. Em Macapá, 12,7% dos homens entrevistados afirmaram 42 ter hipertensão arterial, e 4,7% afirmaram ter diabetes, diagnosticada pelo médico (BRASIL, 2009h). Os dados de mortalidade por diabetes no estado ficam em torno de 3,4% para os homens, de 20 a 59 anos, de acordo com o MS (BRASIL, 2009h). Também se identificou que as mulheres procuram mais pelo diagnóstico do que os homens. Enquanto 4,6% dos homens afirmam ter o diagnóstico da doença, entre as mulheres o percentual foi de 5,6% (BRASIL, 2009h). Analisando-se os dados, é possível concluir que a realidade da morbimortalidade masculina do Amapá não difere muito dos dados nacionais. E, mais uma vez, é preciso repensar os fatores que contribuem para esse cenário. Já se verificaram, nos capítulos anteriores, as abordagens das dinâmicas institucionais. Agora se convida, então, à reflexão e à observação de como os próprios homens veem tais informações e como se comportam frente às suas questões de saúde. Assim, é preciso que se traga à discussão algo além de meras diferenças entre homens e mulheres, no aspecto biológico ou epidemiológico, ou seja, acima de tudo, que se compreenda a construção social do ser masculino. Para tanto, a seguir, aborda-se a teoria de gênero e a construção da masculinidade, pautada na teoria de Pierre Bourdieu, da dominação masculina. 3.2 O gênero e a construção da masculinidade É fato que, biologicamente, os corpos de machos e fêmeas são diferentes, mas até onde essas diferenças são responsáveis por seu comportamento? Hormônios, órgãos, cromossomos que externalizam características distintas para cada sexo, seios, pelos, pênis, vagina, pomo-de-adão. A priori, pode-se pensar que homens e mulheres, por conta de tais características biológicas, têm seu comportamento diferenciado. Os homens são considerados mais fortes e viris, enquanto que as mulheres são consideradas fracas, delicadas e sensíveis. Pinheiro (2002 apud GOMES, 2008) refere que, na literatura internacional, é possível encontrar autores que atribuem as diferenças a fatores genéticos ou hormonais. A diferença biológica entre os sexos, isto é, entre o corpo de homem e de mulher, e especificamente a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode, assim, ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho (BOURDIEU, 2002). 43 Contudo, não se pode reduzir as diferenças a apenas fatores biológicos, pois o comportamento de homens e mulheres é determinado pela interação de tais estruturas biológicas com o ambiente físico e sociocultural (EL-HANI, 1996) e construído historicamente (SCOTT, 1990). Couto e Schraiber (2005) atribuem as diferenças pelas desigualdades sociais, dificuldades econômicas entre as mulheres, maior exposição dos homens a fatores estressantes no trabalho e das mulheres no ambiente doméstico familiar. Assim, neste estudo, as diferenças entre masculino e feminino serão discutidas e interpretadas a partir das relações sociais e de poder que se desenvolvem na sociedade, e que embasam a teoria de gênero. Tal teoria faz parte das ciências sociais, e teve suas discussões iniciadas nos anos 70. Durante algum tempo, o termo gênero foi utilizado como sinônimo de sexo, porém, atualmente, o termo sexo refere-se, preferencialmente, às características biológicas predeterminadas, relativamente invariáveis, do homem e da mulher, enquanto que gênero é utilizado para referir às características socialmente construídas que constituem a definição de masculino e feminino em diferentes culturas (ORGANIZAÇÃO, 2003 apud LAURENTI; MELLO; GOTLIEB, 2005). As discussões de gênero nasceram com o movimento feminista, e, por um bom tempo, foram reconhecidas e caracterizadas por estudos que se relacionavam apenas as mulheres. Contudo, verificou-se que era pouco provável se ter um entendimento pleno sobre os problemas femininos, se não se buscasse entender, também, os problemas masculinos, e as relações entre eles. Hoje, falar de gênero remete a um entendimento do comportamento relacional do masculino e feminino, considerando as relações de poder que se estabelecem na sociedade. Muitos são os teóricos que estudam e contribuem para o desenvolvimento da teoria de gênero. E, nesse contexto, apresentam-se discussões complexas, como a teoria queer, por vezes divergentes, como as teorias essencialista e o não essencialista, e que abrangem, atualmente, não apenas o masculino e o feminino, mas todas as diversidades relacionadas a estas categorias. Contudo, neste trabalho, não se teve o objetivo de discutir a formação, nem as problemáticas que perpassam a teoria de gênero. O objetivo foi utilizar o entendimento de gênero para verificar como estas características construídas e determinantes dos papéis masculinos interferem na busca dos homens pelo cuidado à sua saúde. Para embasar este entendimento, buscou-se a teórica de gênero Joan Scott, que muito tem contribuído para clarear as discussões atuais a respeito do tema. O termo gênero foi, segundo Scott (1990), utilizado inicialmente por feministas americanas, com o objetivo de enfatizar o caráter fundamentalmente social das distinções 44 baseadas no sexo, e rejeitar o determinismo biológico, implícito no uso de termos como “sexo” ou “diferença sexual”. Posteriormente, o termo ganhou abrangência e tornou-se uma categoria de análise através dos sexos, para compreender a complexidade das relações entre o masculino e o feminino como os papéis sexuais. Davis (1975 apud SCOTT, 1990) afirma que os homens deveriam ser estudados tanto quanto as mulheres. Que o objetivo dos estudos de gênero é entender a importância dos sexos, dos grupos de gêneros no passado histórico, além de descobrir a amplitude dos papéis sexuais e do simbolismo sexual nas várias sociedades e épocas, e achar qual o seu sentido e como funciona manter ou mudar a ordem social, sendo, portanto, uma categoria sociológica que traz novas possibilidades para se pensar a questão do homem e da mulher, articulando as relações entre sujeito e sociedade (SCOTT, 1990). Machado (1998) vislumbra a construção de um novo paradigma metodológico pelas análises de gênero. Em primeiro lugar, porque se está diante da afirmação compartilhada da ruptura radical entre a noção biológica de sexo e a noção social de gênero. Em segundo lugar, porque se está diante da afirmação do privilegiamento metodológico das relações de gênero. E, em terceiro lugar, porque se está também diante da afirmação da transversalidade de gênero, isto é, do entendimento de que a construção social de gênero perpassa as mais diferentes áreas do social. Scott (1990) afirma que o gênero é o aspecto maleável do “eu”, que torna possível que se reconheçam semelhanças, igualdades e padrões de coerência cultural que existem em razão da própria diferença que os separa, as contradições lógicas e emocionais que fluem desta coexistência binária. Torna-se uma maneira de indicar as “construções sociais”: a criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres. É, também, uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. O gênero é, segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado que foca sobre todo o sistema de relações que pode incluir o sexo, mas que não é diretamente determinado pelo sexo nem determina diretamente a sexualidade. Nesse sentido, a definição de gênero de Scott (1990) tem duas partes e diversos subconjuntos, que, ao mesmo tempo em que são inter-relacionados, devem ser analiticamente diferenciados, e o núcleo de sua definição repousa numa conexão integral entre duas proposições: “1) O gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos e 2) o gênero é uma forma primária de dar significado às relações de poder” (SCOTT, 1990, p. 86). 45 Para Costa (2003), gênero é uma referência a categorias de diferenciação de tudo o que desenha a imagem sexual, indicando os meios pelos quais as características de masculino e feminino tornam concretas as ideias das pessoas sobre a natureza das relações sociais. E, como um elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças percebidas, a categoria é compreendida a partir de quatro elementos inter-relacionados e interdependentes, a saber: 1) os símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações simbólicas (e com frequência contraditórias), a exemplo de Eva e Maria, tidas como símbolos de mulher na tradição cristã, mas também como mito de luz e escuridão, inocência e corrupção; 2) conceitos normativos que expressam interpretações dos significados dos símbolos, que tentam limitar e conter suas possibilidades metafóricas, a exemplo dos conceitos expressos nas doutrinas religiosas, educativas, científicas, políticas ou jurídicas, que tomam a forma típica de uma oposição binária fixa, que afirma, de maneira categórica e inequívoca, o significado do homem e da mulher, do masculino e do feminino; 3) a inclusão de uma concepção de política e social, que deve abranger não só o sistema de parentesco (centrado no lar), mas também o mercado de trabalho, a educação, o sistema político, a economia; 4) a identidade subjetiva, que deve ser examinada a partir de sua construção, relacionando-a com uma série de atividades, de organizações e representações sociais historicamente específicas (SCOTT, 1990). Em relação ao poder, a autora se refere à segunda proposição da definição do gênero como sendo um campo primário, no interior do qual, ou por meio do qual, o poder é articulado. Nesse sentido, Scott (1990) traz à sua discussão o sociólogo francês Pierre Bourdieu, que trata de como a “di-visão do mundo”, baseada em referências às “diferenças biológicas e aquelas que se referem à divisão do trabalho de procriação e de reprodução”, funcionam como “a mais fundada das ilusões coletivas”. Estabelecidos como um conjunto objetivo de referências, os conceitos de gênero estruturam a percepção e a organização concreta e simbólica da vida social. Na medida em que essas referências estabelecem distribuições de poder, o gênero interfere na concepção e na construção do próprio poder. Assim, o gênero pode ser visto como um elemento constitutivo das relações sociais, que se baseiam nas diferenças entre os sexos, sendo uma forma primária de dar significado às relações de poder que ocorrem dentro das instituições, como família, igreja, educação, estado, e na organização social. Para compreender a construção do masculino e como se dão as relações de poder entre homens e mulheres, e como isso irá interferir na postura do homem em relação ao cuidado, traz-se à discussão Pierre Bourdieu (2002), que no livro A dominação masculina descortina como se dá todo esse processo. Além de Bourdieu, traz-se ainda as 46 contribuições de autores como Cuschinir (2000; 2003) e Farrel (1991), que fomentam a discussão sobre a perda, ou o mito do poder masculino. Ao se falar de masculinidade, a memória logo recorre à imagem do homem, masculino, e no seu papel perante a mulher, o feminino. E, na relação homem e mulher, lembra-se logo da submissão das mulheres e dominação dos homens, da força e virilidade masculinas e da sensibilidade e fragilidade femininas, da condição de provedor dos homens, e, de doméstica, das mulheres. E, ainda, da famosa cena dos homens puxando as mulheres pelos cabelos no tempo das cavernas... O que leva a se pensar que o poder, a força e a supremacia masculina são uma constante nas relações sociais, vivenciadas e reproduzidas a cada dia por homens e mulheres. Desde o advento da Igreja Católica, há aproximadamente dois mil anos, as diferenças entre homens e mulheres vêm sendo reproduzidas e destacadas. É possível observar, ao ler as escrituras sagradas, uma concepção nos moldes patriarcais, a exemplo da criação da mulher através de um pedaço do homem, do filho de Deus ser um homem, da mulher apedrejada por adultério, do pecado da Eva... A própria estrutura hierarquizada da Igreja, que confere seus postos mais importantes aos homens, também é reflexo da estrutura social patriarcal. Sendo a Igreja Católica um dos primeiros e um dos mais importantes coordenadores da moral e da ética social, esta assumiu um papel fundamental na reprodução das diferenças dos papéis sociais de homens e mulheres, contribuindo para a concepção de que os homens são mais fortes, são os primeiros, são os filhos do Pai, e que a mulher é um ser secundário, místico, terno e desprotegido. Outro importante momento histórico na construção dos modelos masculino e feminino, na forma como são entendidos hoje, foi o processo de industrialização, iniciado na Europa no século XVIII. Até então, as famílias eram unidades econômicas de produção de subsistência, na qual todos tinham algum papel para a sobrevivência do grupo familiar. Com o deslocamento do trabalho para fora do espaço doméstico, a família passou de unidade produtora para unidade consumidora. E, apesar da utilização de mão de obra feminina e infantil, num primeiro momento, o trabalho fabril era basicamente masculino, o que reforçava a divisão sexual do trabalho e a cisão entre o espaço público e privado, cabendo o primeiro aos homens, e o segundo, às mulheres (WANG; JABLONSKI; MAGALHÃES, 2006). Situados do lado de exterior, do oficial, do público, do direito, do seco, do alto, do descontínuo, realizar todos os atos ao mesmo tempo breves, perigosos e espetaculares, como matar o boi, a lavoura ou a colheita, do homicídio e da guerra, estão os homens. E às mulheres reserva-se o contrário do que foi reservado aos homens, estando situadas do lado do úmido, 47 do baixo, do curvo e do contínuo. São atribuídos a elas todos os trabalhos domésticos, privados, escondidos, como o cuidado das crianças e dos animais (FIG. 1) (BOURDIEU, 2002). FIGURA 1 - Esquema sinóptico das oposições pertinentes Fonte: Bourdieu, 2002, p. 13. O mundo social constrói o corpo como uma realidade sexuada e como depositário de princípios de visão e de divisão sexualizantes. Esta visão irradia-se para todas as coisas na sociedade, e principalmente ao próprio corpo, em sua realidade biológica: é o mundo social que constrói a diferença entre os sexos biológicos, conformando-a aos princípios de uma visão mítica de mundo, enraizada na relação arbitrária de dominação dos homens sobre as mulheres, ela mesma inscrita, com a divisão do trabalho, na realidade da ordem social. A diferença biológica entre o corpo masculino e feminino, especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode, assim, ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros e, principalmente, da divisão social do trabalho (BOURDIEU, 2002). Segundo Saffioti (1987), o “normal” (referindo-se as características mais aceitas pela sociedade) é socialmente construído pelo costume, e se tornam naturais do ser, de forma que estas características parecem ser natas dos indivíduos. Nessa esfera dividida entre masculino e feminino, estabelece-se o que Bourdieu (2002) chama de a dominação masculina, em que a 48 mulher assume as piores posições e os papéis subalternos na sociedade, na condição de subordinada ao masculino. No entanto, o processo de dominação, defendido por ele, não pode ser considerado algo impositivo e agressivo. A dominação discutida pelo autor (BOURDIEU, 2002, p. 53-54) é “um sistema de estruturas duradouras inscritas nas coisas e nos corpos”, que impõe aos oprimidos limitações nas suas possibilidades de pensamento e de ação, sem eliminar espaços de resistência cognitiva crítica. É representada pela força ou violência simbólica, que é uma forma de poder que se exerce sobre os corpos, como magia, sem qualquer coação física, e se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao dominante e, portanto, à dominação. Assim, a dominação masculina, resulta da violência simbólica, suave, insensível, invisível às suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento, mais precisamente, do desconhecimento, do reconhecimento ou, em última instância, do sentimento (BOURDIEU, 2002, p. 2). O exemplo disto refere Saffioti (1987, p. 12) a força da ideologia de inferioridade da mulher é tão grande que até as mulheres que trabalham na enxada, apresentando maior produtividade que os homens, admitem sua “fraqueza”. Estão de tal maneira imbuídas desta ideia de inferioridade, que, de fato, se assumem como seres inferiores aos homens. Nesse processo de dominação e violência simbólica, os homens também são, ao mesmo tempo, prisioneiros e vítimas da representação dominante, como afirma Bourdieu (2002, p. 57): O “privilégio” da condição de dominante é também uma “cilada” que impõe a todo homem o dever de afirmar, em toda e qualquer circunstância, a sua virilidade. O homem “verdadeiramente homem” é aquele que se sente obrigado a estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de fazer crescer sua honra buscando a glória e a distinção na esfera pública. Em razão da necessidade de se autoafirmar, os homens acabam por se submeter a inúmeras situações de imprudência e perigo. Pelo “medo” de perder a estima e a consideração do grupo, de passar por situações constrangedoras diante dos “companheiros” e de se verem remetidos à categoria, tipicamente feminina, de fracos, delicados, “mulherzinhas”, homossexuais (BOUDIEU, 2002; SAFIOTI, 1987). A esse exemplo, Laurenti, Mello Jorge e Gotlieb (2005, p. 39) enfatizam que: A observação da maior mortalidade masculina leva a comentar que é difícil interpretá-la justificando-a como devida ao sexo (variável biológica), parecendo muito mais pertinente ser atribuída a fatores sociais e comportamentais (variável de gênero). Isso fica claro não somente para 49 causas externas, mas também para várias causas naturais: câncer de pulmão, doença pulmonar obstrutiva crônica, cirrose, entre outras. As características masculinas impostas pela sociedade, como poder, virilidade, força, sucesso, independência, contribuem para o distanciamento dos homens das ações relacionadas ao autocuidado e a uma maior exposição a situações de risco, como uma forma de prova e atestar a sua masculinidade. Uma prova disto são as altas taxas de mortalidade por causas externas, principalmente as relacionadas às mortes violentas, na população masculina. Couto e Schraiber (2005), ao discutirem sobre a violência e masculinidade, levantam a hipótese de que o processo de socialização masculina pode predispor homens a cometer violência contra pessoas consideradas inferiores na escala social (mulheres, idosos, homossexuais etc.), e a se envolver em situações de violência com pares do convívio social mais próximo ou distante. O mesmo é destacado por Bourdieu (2002), que considera que a “virilidade tem uma noção eminentemente relacional, e é construída diante dos outros homens, para os outros homens e contra a feminilidade, por uma espécie de medo do feminino, construído, primeiramente, dentro de si mesmo”. Para o autor, as estruturas de dominação são produto de um trabalho incessante e histórico de reprodução, para o qual contribuem agentes específicos (entre os quais os homens, com suas armas como a violência simbólica e física) e as instituições, como Família, Igreja, Escola e Estado (BOURDIEU, 2002). A família tem o papel principal de reproduzir a dominação e a visão masculina, impondo a experiência precoce da divisão sexual do trabalho; a Igreja que inculca (ou inculcava) explicitamente uma moral de valorização da família, completamente dominada pelos valores patriarcais e, principalmente, pelo dogma da inata inferioridade das mulheres; a Escola, transmitindo os pressupostos da representação patriarcal, baseada na homologia entre a relação homem/mulher e adulto/criança, e, por fim, o Estado, que ratifica e reforça a família patriarcal como princípio e modelo da ordem social como ordem moral, fundamentada na preeminência absoluta dos homens em relação às mulheres, dos adultos sobre as crianças e na identificação da moralidade com a força, da coragem com o domínio do corpo (LAKOFF, 1996 apud BOURDIEU, 2002). Homens e mulheres, pais e mães, contribuem para a perpetuação do poder masculino. Seus medos colaboram grandemente para que cada um observe a receita de como ser homem ou mulher e quem não está no formato aceito corre o risco de ser marginalizado (SAFFIOTI,1987). A mulher e o casamento também possuem um importante papel na perpetuação da dominação masculina. Nesse aspecto, Bourdieu (2002, p. 69): 50 Acredita que a inferioridade da mulher e a superioridade masculina está instaurada no terreno das trocas simbólicas, das relações de produção e reprodução do capital simbólico, no qual o dispositivo central é o mercado matrimonial. Nele as mulheres são vistas como “símbolos” cujo sentido se constitui fora delas e cuja função é contribuir para a perpetuação ou o aumento do capital simbólico em poder dos homens. Diante de toda essa estrutura de dominação, em que dominantes e dominados são cúmplices e perpetuam, conscientes ou inconscientes, o poder do homem, que ora é vilão, ora é mocinho, o autor citado reflete sobre o desaparecimento progressivo da dominação masculina: Só se pode chegar a uma ruptura da relação de cumplicidade que as vítimas da dominação simbólica têm com os dominantes com uma transformação radical das condições sociais de produção das tendências que levam os dominados a adotar, sobre os dominantes e sobre si mesmos, o próprio ponto de vista dos dominantes (BOURDIEU, 2002, P. 48). Ainda nesta linha, Bourdieu (2002) enfatiza que é imprescindível uma ação política que leve em conta todos os efeitos de dominação, que se exercem através da cumplicidade entre as estruturas dominantes e dominadas (homem e mulher), e as instituições (Família, Estado, Igreja, Escola), em que se realizam e reproduzem tal dominação. Para Saffioti (1987, p. 13), as estruturas de dominação não se transformam meramente através de legislações ou políticas, e discorre que: estas são importantes, na medida em que permitem a qualquer cidadão prejudicado pelas práticas discriminatórias recorrer à justiça. Todavia, enquanto perdurarem discriminações legitimadas pela ideologia dominante, especialmente contra a mulher, os próprios agentes da justiça tenderão a interpretar as ocorrências que devem julgar à luz do sistema de ideias justificador do presente estado de coisas. Por outro lado, a aparente hegemonia da dominação e do poder masculino parece estar abalada, isto porque, ao se observar a sociedade contemporânea, é possível identificar situações conflitantes com aquelas anteriormente padronizadas de uma sociedade patriarcal ideal: mulheres no mercado de trabalho, homens cuidando dos filhos e de tarefas domésticas, mulheres provendo famílias, homens e mulheres assumindo orientações sexuais diversas, e pesquisas científicas atestando mudanças de padrões sociais entre homens e mulheres. O autor americano Farrell (1991) questiona a obra de Bourdieu sobre o poder masculino. Para ele, os homens se tornam fracos pela sua fachada de fortes, e as mulheres se tornam fortes pela sua fachada de fraqueza. O autor é defensor do masculinismo (que, no 51 Brasil, também é chamado de masculismo), movimento que defende os direitos dos homens e acredita que os homens estão em situação de inferioridade na sociedade. Nessa direção, Farrell (1991) exemplifica: os homens são obrigados a servir as forças armadas e ir às guerras. São os homens que ficam sem os filhos no divórcio e ainda são obrigados, ainda que sem eles, a continuar a prover o sustento destes. São dos homens os piores empregos do mundo. São os homens que morrem mais que as mulheres. Somente as mulheres têm ações de saúde especificas para elas. Os homens são levados a escolher sempre as profissões que pagam mais por seu papel social de provedor da família, mesmo que esta escolha não seja o seu desejo... Farrell (1991) questiona o poder masculino na medida em que acredita que poder é ter o controle sobre a própria vida e, considerando vários aspectos da vida dos homens, principalmente nas relações do homem perante as mulheres e a família, ele acredita que o homem não detém o poder, ou seja, não detém o controle sobre sua própria vida. No Brasil, o termo masculinismo foi conceituado a primeira vez pelo Professor Doutor Luiz Cuschnir, em sua tese apresentada, em 1988, na Faculdade de Medicina da USP (CUSCHNIR, 2003). O masculinismo não é uma reação ao feminismo. O objetivo principal é tentar reverter o mito de que o homem não precisa de ajuda, não precisa de tratamento, não precisa de proteção, sendo uma complementação do feminismo. O movimento, como é próprio dos homens, está crescendo em surdina, diferente do feminismo que foi uma guerra, pois precisava atuar com firmeza para conquistar o espaço devido às mulheres e para seu reconhecimento como ser humano por inteiro. O masculinismo não tem esse afã, contudo é seu objetivo influir na legislação, para criar programas de proteção ao cidadão do gênero masculino. Esse movimento é realidade em várias partes do mundo, a exemplo dos homens que lutam pela guarda dos filhos no Canadá. Os homens podem e devem reivindicar seus direitos humanos, como fazem as mulheres, pois a conquista da posição de ser humano livre é muito mais do que um dever, é um direito (SAFFIOTI, 1987, grifo do autor). Cuschnir e Mardegan (2001) destacam que o masculinismo vem repensar os estereótipos vigentes e construir novos modos de estar no mundo, para além das demandas e cobranças impostas historicamente aos homens, alertando que os modelos a serem adotados na construção do que chamam de “novo homem” não podem limitar-se a absorver características tradicionalmente femininas. Nesse contexto de revisão de estereótipo, de mudança de papéis, de ter ou não ter poder, a literatura científica sobre masculinidades parte da ideia que os homens encontram-se, de fato, num momento de crise, de quebra de paradigmas do que é ser masculino. A 52 denominada crise da masculinidade apresenta-se num cenário em que os papéis femininos e masculinos começam a ser questionados, repensados e restabelecidos na sociedade (GOMES, 2003; RAMOS, 2000; GOLDENBERG, 2000). Segundo Connell (1995 apud COSTA, 2003), a masculinidade faz parte de um processo, e não é uma categoria estática e universal, que pode ser definida em definitivo. Movimentos sociais, como o feminismo, parecem funcionar como mola propulsora para esse momento de crise masculina. O feminismo proporcionou à mulher sair do ambiente privado (o lar) para o ambiente público (trabalhos assalariados). Levando a uma mudança no comportamento feminino e, consequentemente, nas relações homem/mulher, principalmente no que diz respeito às relações afetivas, a mulher deixava de ser propriedade do homem. O homem deixou de ser o provedor exclusivo da família, passou a compartilhar o mercado de trabalho e às vezes ser subordinado a Elas, passou a dividir tarefas domésticas, a cuidar mais dos filhos, e isso gerou, e ainda gera desconforto, conflito e insegurança a ele. Afinal, aquelas atribuições que lhe “inculcaram” nas mentes desde criança agora estavam sendo desconstruídas, compartilhadas, tomadas por aqueles seres femininos, os quais eles acreditavam ser seu papel proteger e prover. Por outro lado, o movimento feminista trouxe à tona na sociedade as discussões sobre a sexualidade e as relações interpessoais. As mulheres com maior liberdade sexual, com maior poder de decisão sobre seu corpo com o advento das pílulas anticoncepcionais, a normalização de outros modelos de orientação sexual, como o homossexualismo e o bissexualismo, além do advento do preservativo masculino, também podem ter servido de estopim para a crise da masculinidade. Especialmente quando se fala da orientação sexual, que levou o modelo de homem (heterossexual) a conviver com novos modelos de homens (homossexuais). Outro aspecto é que a liberação sexual trouxe junto a acusação de que o homem não dava a mínima para a mulher. Cuschnir (2000, p. 2) reflete sobre os conflitos masculinos: Veio a cobrança pelo homem sensível na cama. Isso acabou virando uma ditadura ao contrário: a do prazer feminino. O sexo é, portanto, o distintivo que confirma a condição de macho, e é a mulher quem outorga a ele esse diploma. Na hora em que um homem entrega esse direito à mulher, cria-se uma situação anômala. As mulheres não entendem quase nada de homem. Muitas nem sequer sabem que região do pênis lhe dá mais excitação. Sexo para esse homem em crise pode estar virando uma coisa mecânica. Quase como se ele fosse ao banheiro uma vez por dia. Ele passa a “cumprir” o dever de fazer sexo. 53 Para Gomes (2003), dentre os motivos que justificam tal crise, destacam-se as tensões que surgem entre a manutenção do poder do macho nas relações íntimas entre os gêneros e a possibilidade de se viver novos modelos de masculinidade, em que se contemplam a associação entre sexo e afetividade e um relacionamento igualitário com a parceira amorosa. Cuschnir (2000) menciona, em sua pesquisa sobre o comportamento e os sentimentos masculinos em relação a vários temas, que encontrou homens perplexos com as mudanças em suas vidas, especialmente no que diz respeito às relações homem e mulher. A crise do homem vem de uma profunda transformação no papel masculino diante do novo papel feminino. O homem sente-se absolutamente desconfortável com tanta transformação em sua vida familiar e afetiva. O homem está cada dia mais desorientado diante das exigências atuais, pois tem de se mostrar macho sem ser machista; frio e calculista para dar conta da lógica das relações econômicas e, ao mesmo tempo, deve ser terno e acolhedor no lar; fazer sua jornada de oito a 10 horas diárias no trabalho, mas ter disponibilidade e responsabilidade na condução da casa e da família; precisa continuar a exercer o principal papel: provedor da família, mas também tem de repartir a responsabilidade da manutenção da casa e da educação dos filhos; querem que seja extremamente produtivo na lógica fria do capital, mas igualmente colaborador, agregador, e tenha um bom coeficiente emocional no desempenho profissional. Sem falar da exigência de ser firme na hora da decisão, mas sensível e capaz de se colocar no papel dos outros, e, finalmente, que seja atlético e mostre que cuida de seu corpo (CUSCHNIR, 2002). Ramos (2000) acredita que o masculino vive em crise permanente e endêmica na sociedade patriarcal, pois a masculinidade não é algo dado, mas algo que constantemente se procura conquistar. Já Goldenberg (2000) expressa que o momento talvez seja de crise para o homem, visto que está sendo obrigado a conviver com outros modelos de masculinidade. O autor ressalta que não acredita mais na sobrevivência do modelo hegemônico de masculinidade, baseado na força, no poder e virilidade, muito embora homens e mulheres ainda alimentem esse ideal. Nessa mistura de masculinidades, encontram-se os metrossexuais, retrossexuais, homens alfa, beta, ômega, homem novo, homem velho, homem em transformação... Vários conceitos são usados atualmente para a sociedade classificar os tipos de masculinidades (CUSCHNIR, [200-?], o que possivelmente ocorra pela angústia de homens e mulheres em se entenderem e, acima de tudo, entenderem as relações entre si. 54 Para Connell (1995 apud COSTA, 2003, p. 79), existem, atualmente, quatro padrões principais de masculinidade na ordem de gênero do Ocidente: a hegemônica, a subordinada, a cúmplice e a marginalizada. A masculinidade hegemônica seria aquela ligada à legitimidade do patriarcado, que garante a dominação dos homens e a subordinação das mulheres. A masculinidade subordinada diz respeito à dominância e subordinação entre grupos de homens, como é o caso da dominação dos homens heterossexuais e a subordinação dos homens homossexuais. A masculinidade cúmplice se define pela conexão com o projeto de masculinidade hegemônica, mas sem a completa incorporação deste projeto. São masculinidades cúmplices porque percebem e desfrutam de algumas vantagens do patriarcado sem, no entanto, defenderem publicamente esta posição. A masculinidade marginalizada refere-se a relações entre as masculinidades e classes ou grupos étnicos dominantes e subordinados; é uma masculinidade que está marginalizada devido à condição subordinada de classe ou raça. O fato é que a postura da sociedade perante os homens, e dos próprios homens para consigo, vem mudando. Neste trabalho, vamos considerar o masculino em crise, o masculino que vem tendo de compartilhar poderes e conviver com o empoderamento feminino. Pois já não cabe mais, diante de tantos modelos e tantas novas características e posturas masculinas, pensar num homem com características definidas, pronto e acabado. E isso vem causando mudanças gradativas nas perspectivas de olhar e pensar os homens e dos homens, e a PNAISH já é um exemplo disso. 3.3 O comportamento masculino frente à sua saúde A diferença de comportamento que homens e mulheres têm perante a sua saúde é indiscutível. Os homens, construídos socioculturalmente como viris, invulneráveis e fortes têm dificuldades na adoção de práticas de autocuidado. Já as mulheres, construídas como sensíveis, frágeis e mais vulneráveis, especialmente por sua condição de seres que guardam outra vida, são mais voltadas para o autocuidado e também ao cuidado do outro. Cabe esclarecer que o conceito de cuidado utilizado para o desenvolvimento deste trabalho e questionado aos entrevistados foi o conceito popular expresso no Dicionário Aurélio, que o define como atenção, precaução, cautela, diligência, desvelo, zelo, encargo, responsabilidade, pessoa ou coisa que é objeto de desvelos (FERREIRA, 1999). 55 De acordo com a PNAISH (BRASIL, 2009a), os homens não têm o hábito da procura pelos serviços e ações de saúde. Assim, eles são vistos como negligentes para com sua saúde. De acordo com estudos, esse comportamento tem origem em dois grupos de fatores: os relacionados às questões institucionais e os relacionados às questões socioculturais (GOMES, 2003; KEIJZER, 2003; SCHRAIBER et al., 2000 apud BRASIL, 2009a). Como exemplo de fatores institucionais, tem-se a inadequação das instituições à realidade e características masculinas, pois não há nos serviços de saúde programas específicos para este grupo. Os estabelecimentos disponibilizam poucos profissionais do sexo masculino para atendê-los de forma mais confortável; os horários também são obstáculos para o acesso desse grupo aos serviços de saúde, já que, por sua condição socioconstruída de provedor, se ausentar do trabalho colocaria em risco sua condição, sua colocação e, quiçá, sua masculinidade. Por outro lado, como exemplo de fatores socioculturais, têm-se todas as características que são exigidas pela sociedade para legitimar o masculino, como a condição de forte, de invulnerável, de provedor da família, impedido de adoecer e de se cuidar. Observa-se, ainda, que tal realidade não é exclusividade dos homens brasileiros. Bancks (2004 apud GOMES, 2008) apresenta fatores que justificam a reduzida procura dos homens europeus pelos serviços de saúde: a) distância entre o local de trabalho e o serviço de saúde; b) horários de funcionamento incompatíveis dos serviços de saúde; c) a crença de que os homens devem ser fortes para a doença; d) a falsa percepção de que os serviços de saúde são apenas para as mulheres. Analisando-se as realidades nacionais e internacionais, pensa-se, de fato, que algo que transcende as meras questões institucionais é o que mais interfere na ausência dos homens nos serviços de saúde. A explicação dos homens acerca dessa diferença de gênero em termos de uso dos serviços de saúde, segundo Gomes et al. (2007), não está relacionada com a oferta e demanda dos serviços, e sim a hábitos de prevenção usualmente mais associados às mulheres que aos homens. Neste estudo, os homens entrevistados referiram que todas as pessoas deveriam procurar por serviços de saúde, contudo, segundo os autores, ficava implícito em suas falas que suas opiniões se referiam muito mais ao plano ideal do que ao real: em geral, não mencionavam o hábito relacionado a cuidados de saúde, traduzidos principalmente pela busca por consultas médicas e exames preventivos, mesmo entre os que tinham planos privados de saúde. Costa (2003, p. 84), em pesquisa na cidade de São Paulo, também constatou que todos os homens entrevistados concordaram com a afirmativa de que os homens procuram menos os 56 serviços médicos que as mulheres, e conclui que “o cuidado de si e de outros e a preocupação com saúde não são tidos como atribuições masculinas”. Outra observação importante do autor supracitado em seu estudo foi de que os problemas de saúde dos homens encontram-se relacionados a partes do corpo sem referência à sexualidade e reprodução, ao passo que os problemas de saúde das mulheres são relacionados aos seus órgãos sexuais e reprodutivos. Figueiredo (2005), ao discutir sobre a importância da atenção primária na saúde do homem, ressalta que é preciso admitir que a constatação da ausência dos indivíduos do sexo masculino acessando a saúde não deve ser pensada exclusivamente como uma falta de responsabilidade dos homens com sua saúde, nem especificamente como uma falha na organização dos modelos de atenção à saúde. Em vez disso, a ideia é compreender o problema no contexto de uma complexa teia de relações que envolvem três dimensões que interagem entre si, a saber: 1) os homens na qualidade de sujeitos confrontados com as diferentes dimensões da vida; 2) os serviços na maneira como eles se organizam para atender os usuários considerando suas particularidades; e 3) os vínculos estabelecidos entre os homens e os serviços e vice-versa. Em pesquisa qualitativa realizada com homens cariocas acima de 40 anos, Gomes et al. (2007) identificaram que o imaginário de ser homem pode aprisionar o masculino em amarras culturais, dificultando a adoção de práticas de autocuidado. Isto porque, à medida que o homem é visto como viril, invulnerável e forte, procurar o serviço de saúde, numa perspectiva preventiva, poderia associá-lo à fraqueza, medo e insegurança; portanto, poderia aproximá-lo das representações do universo feminino, o que implicaria em possível desconfianças acerca dessa masculinidade socialmente construída. Neste estudo, o medo maior, apresentado pelos homens entrevistados, não seria o da procura ao serviço, mas sim da descoberta de uma doença grave, e ainda o da exposição de seu corpo perante um profissional, particularmente a exposição da região anal (fazendo uma referência aos exames de prevenção ao câncer de próstata). Outro fator relatado no estudo foi quanto aos serviços de saúde que são considerados, pelos homens, pouco aptos a receber a demanda, pois a organização não estimula o acesso e há carência de campanhas voltadas para esse público. Além disso, o mercado de trabalho também não garante formalmente a adoção da prática da procura por tais serviços de saúde. Mais uma questão apontada pelos homens para a não procura pelos serviços de saúde está ligada à sua posição de provedor. Alegam que o horário do funcionamento dos serviços coincide com a carga horária do trabalho. Não se pode negar que, na preocupação masculina, a atividade laboral tem um lugar destacado, sobretudo em pessoas de baixa condição social, o 57 que reforça o papel historicamente atribuído ao homem de ser responsável pelo sustento da família. Ainda que isso possa se constituir, em muitos casos, uma barreira importante, há de se destacar que grande parte das mulheres, de todas as categorias socioeconômicas, faz hoje parte da força produtiva, inserida no mercado de trabalho, e nem por isso deixa de procurar os serviços de saúde (BRASIL, 2009a). De acordo com o estudo de Costa (2003), os homens vão ao ambulatório levados por suas parceiras. Na maioria absoluta das vezes, são as mulheres que procuram o ambulatório, e os homens presentes no ambulatório nos horários de atendimento de planejamento familiar estão ou acompanhando suas parceiras, ou cuidando das crianças enquanto a parceira está na consulta, ou esperando (junto com as parceiras) para serem entrevistados pela assistente social, nos casos de solicitação de laqueadura ou, muito raramente, vasectomia. Nos modelos de masculinidade idealizada estão presentes, segundo Figueiredo (2005), as noções de invulnerabilidade e de comportamento de risco – como valores de cultura masculina – e a ideia de uma sexualidade instintiva e, portanto, incontestável. Associadas a isso, encontram-se fortalecidas suas dificuldades de verbalizar as próprias necessidades de saúde, pois falar de seus problemas de saúde pode significar uma possível demonstração de fraqueza e feminilidade perante os outros. Gomes e Nascimento (2006), em estudo que objetivou analisar a produção do conhecimento da saúde pública sobre a temática “homem-saúde”, apontam duas questões fundamentais sobre a relação homem-saúde: a) modelos hegemônicos de masculinidade podem dificultar a adoção de hábitos e convicções mais saudáveis, e b) o homem, quando influenciado por ideologias hegemônicas de gênero, pode colocar em risco tanto a saúde da mulher quanto a sua própria saúde. As condutas masculinas podem, segundo Korin (2001 apud GOMES, 2008), trazer comprometimentos não só para a saúde do homem, como também para a saúde de seus familiares, exemplificando pelos homens que ignoram a saúde de seus filhos homens, vendoos como fracos e perdedores, forçando-os a uma masculinidade estereotipada, transmitindo a ideia de ter um filho arruinado. Souza (2005), correlaciona algumas das principais causas de mortes masculinas, os homicídios e os acidentes de trânsito, com os dois símbolos masculinos: as armas e os carros, que são introduzidos desde muito cedo na vida dos meninos, tornando-se sinônimos de status, poder, independência e todos os demais simbolismos que possuem no contexto capitalista ocidental contemporâneo. A preocupação com a saúde masculina tem sido deixada de lado e só recentemente vem sendo motivo de pesquisas e debates (BRAZ, 2005). Resta, no entanto, a sensibilização 58 das políticas públicas, que, por não atenderem às necessidades de saúde desta parcela da população, reforçam o preconceito social, não lhe ofertando, de forma eficiente, serviços de atendimento compatíveis com suas necessidades. Nesse ponto, acredita-se ter exposto e construído a ideia dos dois grupos de fatores que influenciam na busca dos homens pelo cuidado: os fatores institucionais, relacionados aos serviços, ao acesso e à dinâmica das instituições de saúde, e os fatores de gênero, relacionados à construção histórico-sócio-cultural e a postura que o homem é cobrado para ser socialmente reconhecido como homem. Contextualizando o leitor sobre as bases conceituais e estruturais da saúde em que nasce a PNAISH. E ainda sobre a formação da masculinidade baseada na teoria de gênero, haja vista estes pontos serem fundamentais para a discussão dos resultados obtidos na pesquisa. A seguir, são esclarecidos os passos metodológicos seguidos, para a realização da pesquisa e os resultados e discussões obtidos. 59 4 OS CAMINHOS METODOLÓGICOS NA BUSCA DA COMPREENSÃO DA SAÚDE DOS HOMENS DE MACAPÁ É fato que os homens apresentam dificuldades de toda ordem no processo de busca da saúde, como já visto e discutido anteriormente. Fatores relacionados à construção do gênero masculino, como a percepção de serem fortes, invulneráveis, inabaláveis, inatingíveis, provedores, seguros e independentes; e os fatores institucionais, como a falta de ações, programas, estabelecimentos de saúde, com horários e profissionais diferenciados e especializados, voltados para os homens, formam um conjunto de fatores que desencadeiam uma condição de morbidade e mortalidade preocupante, como visto até agora. Nesse sentido, este estudo questionou se os homens estão de acordo com a premissa apresentada pela PNAISH, baseada nos índices de morbimortalidade masculina, de que os homens não se cuidam, e, ainda, quais os fatores que mais influenciam no ato do cuidar masculino, se os fatores de gênero ou se os fatores institucionais. Paralelamente, procurou-se identificar alguns aspectos da saúde dos entrevistados, como estado nutricional, prática de atividades físicas, diagnóstico de doenças e ainda, sobre quando, onde e como tinha sido a sua última consulta médica. Partiu-se da hipótese de que os homens concordariam com a afirmativa de que não se cuidam e que os fatores relacionados ao gênero influenciam mais neste autocuidado que os fatores institucionais. Para tanto, a pesquisa teve natureza exploratória descritiva, com abordagem transversal quanti-qualitativa. O o caráter descritivo e exploratório foi relacionado com as poucas informações disponíveis sobre o tema, especialmente ao nível local. A transversalidade dele deveu-se ao fato de as entrevistas serem realizadas apenas em um momento, sem um período de acompanhamento. A natureza quantitativa foi decorrente do número amostral e dos testes estatísticos utilizados no intuito de traçar um perfil de pensamento dos entrevistados. E, por fim, a natureza qualitativa foi considerada na medida em que se busca saber, com a pesquisa, as relações e as percepções dos homens perante alguns aspectos de sua saúde. Nesse sentido, a natureza exploratória é explicada por Richardson (2007), que afirma que os estudos exploratórios são uma forma de conhecer as características de um fenômeno para procurar explicações das causas e consequências do dito fenômeno, envolvendo, segundo Gil (2002), levantamentos bibliográficos, entrevistas com pessoas que tiveram experiências 60 práticas com o problema a ser pesquisado e a análise de exemplos que estimulem a compreensão. A característica descritiva da pesquisa é, também, embasada por Richardson (2007), que reflete que os estudos descritivos são utilizados quando se pretende descrever e analisar as características ou propriedades de um fenômeno, ou ainda das relações dessas propriedades em determinado fenômeno. Reis, Ciconelli e Faloppa (2002) orientam que, nos estudos transversais (crosssectional), a determinação de todos os parâmetros é feita de uma só vez, sem nenhum período de acompanhamento, ou seja, num ponto determinado do tempo, como foi realizado nesta pesquisa. Vieira (2001) expressa que tal método é feito para descrever os indivíduos de uma população com relação às suas características pessoais e às suas histórias de exposição a fatores causais suspeitos, em determinado momento. A natureza quantitativa da pesquisa teve como referência Landim et al. (2006), que citam que as pesquisas quantitativas têm como objetivo trazer à luz dados, indicadores e tendências observáveis, gerando medidas confiáveis, generalizáveis e sem vieses. Os estudos quantitativos têm aplicação social, para alcançar grandes aglomerados de dados, de conjuntos demográficos, classificando-os e tornando-os inteligíveis através de variáveis, usadas ainda para determinar o perfil de um grupo de pessoas, baseado em características comuns. Já a natureza qualitativa foi embasada em Minayo (2008), que esclarece que as pesquisas qualitativas se aplicam ao estudo da história, das relações, das representações, das crenças, das percepções e das opiniões, produtos das interpretações que os humanos fazem a respeito de como vivem, constroem seus artefatos e a si mesmos, sentem e pensam. Permite desvelar processos sociais, propicia à construção de novas abordagens, revisão e criação de novos conceitos e categorias durante a investigação (MINAYO, 2008). Após as definições e o embasamento dos métodos, seguem os esclarecimentos sobre as técnicas utilizadas na pesquisa. O número da amostra foi estabelecimento de acordo com o critério de Barros e Samara (2007), que estabelece um número mínimo de 196 indivíduos para populações em que não se conhece o número total de indivíduos ou quando este número é maior que dez mil. O que é o caso desta pesquisa, considerando que a população de homens na cidade de Macapá, dentro da faixa etária definida, é um número maior que dez mil. Nesse sentido, a amostra foi composta de 203 homens na faixa etária de 20 a 59 anos, da cidade de Macapá, entrevistados nos meses de agosto e setembro de 2011. Aqui, cabe dirimir qualquer dúvida sobre os participantes da amostra quanto à categoria de homem, muito controversa e discutida, como visto em capítulos anteriores. Nesse sentido, para este 61 estudo, foi considerado homem todos aqueles que se autodefiniram como homens, independente de opção sexual, raça, escolaridade, renda ou outra característica que pudesse colocar em dúvida sua autodefinição de ser homem. Cabe ressaltar, ainda, que na abordagem aos entrevistados não era feita a pergunta: você é homem? Todos os participantes se aproximaram da pesquisa por livre e espontânea vontade, através do banner de chamada para a pesquisa. Com isso, acredita-se ter ficado tácito que todos os participantes se consideravam homens. Em relação à amostra de 203 participantes, esclarece-se que 122 participantes foram entrevistados no restaurante central do SESC, em seu horário de almoço, e os outros 81 homens foram entrevistados em seu local de trabalho, uma empresa de transporte coletivo urbano. Porém, vale destacar que a proposta inicial da pesquisa foi realizar todas as entrevistas em um lugar apenas, o SESC. Contudo, no decorrer da pesquisa, observou-se que não se conseguiria o total da amostra, pois o público se repetia diariamente, havendo necessidade de se escolher outro local para alcançar o objetivo inicial, e escolheu-se, então, a empresa de transporte coletivo urbano. A escolha do SESC e da empresa de transporte coletivo foi devido à facilidade de acesso da pesquisadora nestes locais, que forneceram todo um suporte logístico para a instalação dos equipamentos necessários à realização das avaliações nutricionais, bem como de um lugar reservado para as entrevistas. E ainda por estes lugares terem grande fluxo de homens, na faixa etária definida para a amostra. Ressalta-se que os resultados a serem apresentados são da amostra como um todo, e não resultados comparativos entre os dois grupos, haja vista que a proposta inicial da pesquisa foi entrevistar homens de 20 a 59 anos, independente do local onde fosse realizada. Não se constitui objetivo deste estudo comparar os homens entrevistados no SESC com os homens entrevistados na empresa de transporte coletivo. Apesar de ser esta uma pretensão futura da pesquisadora, mas que não cabe nos objetivos desta dissertação. Este estudo foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da UNIFAP e todos os participantes que aceitaram participar da pesquisa, antes de responderem às perguntas do formulário de pesquisa (APÊNDICE A), assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (APÊNDICE B), conforme propõe a Resolução nº 196/96, do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 1996). Também foram solicitadas permissão aos estabelecimentos onde se desenvolveu a pesquisa, através de documento expedido pela UNIFAP, esclarecendo os objetivos e a importância da sua realização. 62 A coleta dos dados foi realizada nas dependências dos estabelecimentos escolhidos, num espaço próprio e reservado para a sua realização. O formulário utilizado na coleta de dados foi construído com base nos objetivos da pesquisa e no referencial teórico pesquisado. Foi composto por 17 itens, com perguntas abertas e fechadas, sendo dividido em quatro seções: a primeira referindo-se à identificação; a segunda, às características socioeconômicas e de escolaridade; a terceira sobre os fatores de risco a saúde e morbidades; e, por fim, a quarta seção referente à relação com os serviços de saúde. As variáveis investigadas foram: idade, renda mensal, nível de escolaridade, que deram suporte para caracterizar a amostra; peso, altura, circunferência da cintura, atividade física, consumo de fumo e álcool e morbidades, que deram suporte para se traçar o perfil de saúde dos entrevistados; a data e o local da última consulta médica, os fatores que influenciam no acesso aos serviços de saúde da atenção básica; e o conhecimento a respeito da PNAISH foram a base para a identificação da relação dos homens com os serviços de saúde. Após o preenchimento do formulário pela pesquisadora, de acordo com as respostas dos entrevistados, foi realizado o exame antropométrico, conforme o protocolo do MS estabelecido pelo Sistema de Informação de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) (BRASIL, 2004). A pesagem foi realizada utilizando-se balança digital da marca Plenna, e o peso aferido com indivíduo descalço, com roupa e posicionado em pé, ereto, com os pés juntos e braços estendidos ao longo do corpo, no centro da balança. A altura foi medida com um antropômetro portátil de precisão de 0,1cm da marca Wiso, com o indivíduo de pé, ereto, com os braços estendidos ao longo do corpo, com a cabeça erguida, joelhos e pés unidos, olhando para um ponto fixo na altura dos olhos, encostando calcanhares, ombros e nádegas no antropômetro. A circunferência da cintura foi aferida, utilizando-se fita antropométrica da marca Wiso, com o indivíduo de pé, ereto, abdômen relaxado, braços estendidos ao longo do corpo e pés separados numa distância de 25 a 30cm. Sem camisa e sem cinto da calça apertado. A fita antropométrica foi posicionada entre as costelas e a crista ilíaca, sem ficar frouxa ou apertada. A aferição deu-se no momento de uma expiração total. Os parâmetros utilizados para o diagnóstico nutricional foram os adotados pelo MS, a saber: Índice de Massa Corporal (IMC) e da circunferência da cintura. Os itens do formulário que respondem a pergunta problema da pesquisa são as respostas dadas pelos homens na questão se estão de acordo ou não que os homens não se cuidam, e na questão sobre os fatores que mais impedem os homens a cuidar de sua saúde, 63 obtidas através de uma pergunta aberta do instrumento. O método utilizado para interpretar as respostas dos entrevistados foi a da análise de conteúdo, que: É um conjunto de técnicas de análise de comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores, quantitativos ou não que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção destas mensagens (BARDIN, 1979, p. 42). A técnica de análise de conteúdo utilizada foi a análise temática ou categorial, que, segundo Minayo (2008), consiste em operações de desmembramento do texto em unidades (categorias), segundo reagrupamentos analógicos. Sendo que as respostas, depois de interpretadas, foram classificadas em dois grupos: o grupo dos fatores institucionais e o grupo dos fatores de gênero. Nesse sentido, após a revisão bibliográfica sobre o tema, definiu-se para esta pesquisa que o grupo dos fatores institucionais seria composto pelas respostas que estivessem relacionadas com o excesso de trabalho, absenteísmo, a falta de tempo de ir ao serviço de saúde, os horários de funcionamento dos serviços de saúde, a falta de profissionais especializados para o atendimento de homens, dificuldades na marcação das consultas, mau atendimento. Enfim, todas as questões que estão relacionadas com o funcionamento das instituições relacionadas ao trabalho ou aos serviços de saúde que dificultem este acesso. Já em relação ao grupo dos fatores relacionados ao gênero, definiu-se que seria composto das respostas relacionadas ao ideário, ao estereótipo masculino, como o fato de os homens serem machistas, se considerarem mais fortes, de não precisarem de médicos, não adoecerem com facilidade, de considerarem que cuidar-se é coisa de mulher, que é natural do homem não se cuidar, entre outras. É válido fazer alguns esclarecimentos sobre as justificativas de tempo e trabalho. A priori, o tempo e o trabalho poderiam ser considerados como um fator de gênero, tendo em vista que uma das características sociais mais evidentes e cobradas do masculino é a de provedor da família, e, como tal, o trabalho passa a compor uma função social masculina de profunda importância, que quando ausente, transforma o homem num ser quase que desprezível. Contudo, neste trabalho, considerou-se como um fator institucional, pois se houvesse um esforço do poder público em adequar o funcionamento das instituições de saúde em horários e dias diferenciados para atender a esta parcela da população, esta justificativa, teoricamente, cairia por terra. 64 Ressalta-se, ainda, que uma das ações da PNAISH é exatamente nesse sentido, de adequar o funcionamento, em dias e horários diferenciados, para que se atendam os trabalhadores. Nesse sentido, eliminando-se esta lacuna das instituições, presume-se que os homens que justificaram o tempo e o trabalho como impeditivos do cuidado passaram a cuidar-se melhor. Daí a categorização do tempo e trabalho como um fator institucional e não como fator de gênero. Destaca-se, ainda, que para a tabulação dos dados e as análises estatísticas, utilizou-se o software Statistical Package for the Social Sciences – SPSS versão 20.0 em português, e para o teste da hipótese empregou-se o teste não paramétrico qui-quadrado. Para a elaboração dos gráficos, foi utilizado o Microsoft Office Excel 2007. 65 5 OS HOMENS DE MACAPÁ E SUAS RELAÇÕES COM A SAÚDE A amostra foi composta por 203 homens, na faixa etária de 20 a 59 anos, com média de idade de 34 anos. Quanto ao estado civil, 55,6% dos entrevistados declararam-se casados ou com uma união estável, e pouco mais de 40% declararam-se solteiros ou separados. Em relação à escolaridade, cerca de 50% dos entrevistados referiram ter o segundo grau completo, 27% referiram ter o terceiro grau incompleto ou completo, e 18% o primeiro incompleto ou completo. Considerando a renda mensal, o valor mediano referido pelos entrevistados foi de R$1.150,00. O valor mediano foi considerado, pois os valores possuíam grandes variações, e o cálculo da média seria impreciso, estatisticamente. O primeiro questionamento feito aos entrevistados foi sobre como eles consideravam a sua saúde. E, nesse caso, 55,2% dos entrevistados classificaram sua saúde como boa ou ótima, e 44,9% como regular, péssima ou ruim (GRAF. 1). É interessante comparar estes dados com os resultados da PNAD (BRASIL, 2009i). Nesta, 12% dos entrevistados consideraram sua saúde como regular, ruim ou muito ruim. Nesse sentido, é possível pensar que os participantes deste estudo sejam ou estejam muito mais críticos quando autoavaliam sua saúde. Ou, ainda, que há algo de errado, de fato, com suas saúdes. GRÁFICO 1 - Percepção dos homens em relação à sua saúde atual Fonte: Pesquisa de campo, 2011. Diante da boa saúde, dita pelos entrevistados, buscou-se fazer um confrontamento entre o que diziam e o que de fato apresentavam sobre sua saúde. Portanto, após classificarem 66 sua saúde, os entrevistados também responderam outras perguntas relacionadas a hábitos saudáveis de vida, ausência de doenças e, por fim, fizeram uma avaliação nutricional. E estes dados foram correlacionados para verificar se, de fato, eles apresentavam boa saúde conforme referiram. Nesse sentido, em relação ao estado nutricional, os dados são intrigantes. Verificou-se uma alta frequência de obesidade. Mais de 20% dos entrevistados foram classificados como obesos, e mais de 40% com sobrepeso (GRAF 2). Os dados coletados estão muito acima dos encontrados na pesquisa citada anteriormente, PNAD, que refere uma frequência de 12,4% de obesidade em relação à população brasileira. GRÁFICO 2 - Estado nutricional dos entrevistados Fonte: Pesquisa de campo, 2011. Contudo, algumas considerações merecem ser feitas neste ponto. A primeira é com relação ao método de avaliação nutricional pelo IMC, recomendado pela OMS. O IMC recebe muitas críticas em relação à sua classificação para homens e idosos, pois é um índice que não considera a quantidade de gordura e de massa magra corporal, contudo é um bom marcador para se verificar excesso de peso em populações (KAC; SICHIERI; PETRUCI, 2007). Sabese que os homens, especificamente se praticantes de atividades físicas, podem ter seu peso aumentado, não por tecido adiposo (gordura) e sim por massa magra (músculos). Com isso, a alta frequência do sobrepeso entre os entrevistados deverá ser confirmada pela avaliação dos resultados da circunferência da cintura, que, de fato, verifica a alta concentração de gordura na região da cintura e é considerada um marcador do risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. 67 Essa medida é um importante identificador de localização da gordura corporal. E esta localização, de acordo com Kac, Sichieri e Petruci, (2007), é mais importante do que a massa total do tecido adiposo para o desenvolvimento de várias doenças crônicas, como a hipertensão, o diabetes e as dislipidemias (aumento das gorduras no sangue, como colesterol e triglicerídeos). Nesse sentido, considera-se que, quanto maior for o depósito de gordura da cintura, e consequentemente maior a medida da cintura, maior será o risco de desenvolver doenças cardiovasculares. Os parâmetros para se classificar o risco cardiovascular de acordo com a circunferência da cintura foram os da OMS, amplamente divulgados na comunidade científica, citados inclusive por Kac, Sichieri e Petruci, (2007), que consideram com baixo risco cardiovascular os homens com circunferência da cintura menor que 94cm, médio risco, entre 94 a 102cm, e alto risco, maior que 102cm. A análise da circunferência da cintura (GRAF. 3) confirma os dados preocupantes, verificados com a avaliação do IMC, discutido acima, com cerca de 18% dos entrevistados apresentando um excesso de gordura abdominal, confirmando os 20% de obesidade verificados com a avaliação nutricional. Ratifica-se uma condição de saúde preocupante entre os participantes da pesquisa, e confirma-se a preocupação que paira sobre a saúde dos homens, de uma maneira geral. Pois, hoje, são inquestionáveis os malefícios que o excesso de peso traz à saúde dos indivíduos. GRÁFICO 3 - Risco para doença cardiovascular de acordo com a aferição da circunferência da cintura Fonte: Pesquisa de campo, 2011. 68 No que se refere ao consumo de cigarros (GRAF. 4), 14,8% dos entrevistados afirmaram ser fumantes, e, destes, mais de 50% afirmaram consumir mais de cinco cigarros/dia. Os demais afirmaram ser os tabagistas do álcool, ou seja, fumam somente quando bebem. O percentual de fumantes encontrado na população em estudo é consideravelmente menor do que o encontrado na pesquisa do MS de 2007 (BRASIL, 2009h), na qual, na cidade de Macapá, era de 24,7%. Essa redução do consumo de cigarros acompanha uma tendência nacional de queda em todas as faixas etárias. Em 1989, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde e Nutrição, 35% da população adulta no Brasil eram fumantes. De acordo com esta pesquisa, em 2008, esse índice caiu para 15,2%, sendo maior no sexo masculino (19,1%) do que no sexo feminino (11,9%). O tabagismo é amplamente reconhecido como uma doença crônica gerada pela dependência da nicotina, estando por isso inserido no CID-10 da OMS, e expõe continuamente os usuários dos produtos de tabaco a cerca de 4.700 substâncias tóxicas, sendo 60 delas cancerígenas ao ser humano (ORGANIZAÇÃO, 1999 apud BRASIL, 2006a). Nesse sentido, o tabagismo é um importante fator de risco à saúde dos homens, tendo em vista que estes são os maiores consumidores. Vale ressaltar que não há uma quantidade segura para o consumo de cigarros. Qualquer quantidade, inclusive a inalação da fumaça, é prejudicial à saúde. Sendo considerado pela Organização (2005 apud BRASIL, 2006a) como o mais importante fator de risco isolado de doenças graves e letais, como 45% das doenças coronarianas (infarto do miocárdio), 85% das mortes por doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema), 25% das mortes por acidente vascular cerebral e 30% das mortes por câncer, sendo que 90% dos cânceres de pulmão ocorrem em fumantes. GRÁFICO 4 - Consumo de cigarros pelos entrevistados Fonte: Pesquisa de campo, 2011. 69 Quanto às bebidas alcoólicas (GRAF. 5), 60% afirmaram consumir, e destes 45% referiram o consumo semanal, 25% quinzenal e 15% o consumo mensal. Os demais variaram entre a frequência de consumo bimestral, trimestral, semestral e anual, e menos de 1% referiu à frequência diária. Cabe aqui trazer a pesquisa da Universidade Federal de São Paulo, realizada em 2007 (BRASIL, 2009h), que identificou que 52% dos brasileiros acima de 18 anos bebem, pelo menos, uma vez ao ano. Destes, 65% são homens e 41% são mulheres. Em relação aos homens adultos, 11% bebem todos os dias e 28% consomem bebida alcoólica de uma a quatro vezes/semana. Fazendo-se os devidos comparativos, tem-se uma realidade preocupante dos homens entrevistados em Macapá, tendo em vista que, dos homens que referiram consumir bebidas alcoólicas, 45% referiram que o faziam semanalmente, ao passo que a média do Brasil é de apenas 28%. GRÁFICO 5 - Consumo de bebidas alcoólicas pelos entrevistados Fonte: Pesquisa de campo, 2011. De acordo com o MS, o álcool é uma droga, cuja ação é responsável pela depressão do sistema nervoso central, causando alterações comportamentais e psicológicas, além de vários efeitos metabólicos. O consumo excessivo está relacionado com problemas como a violência, suicídios, acidentes de trânsito, dependência químicas, além de patologias, como a desnutrição, hepatopatias, patologias gastrointestinais, cardiovasculares, neurológicas e do sistema reprodutivo. Também interfere no desenvolvimento fetal e aumenta o risco de desenvolvimento de vários tipos de câncer (BRASIL, 2006a). Não se pode deixar de correlacionar o fator álcool com a mortalidade masculina. De acordo com o MS, o número de óbitos que tiveram como causa básica as doenças plenamente relacionadas com o consumo de álcool (como acidente de trânsito, quedas, afogamentos etc.), 70 entre 2000 e 2006, concentrou-se no sexo masculino. Dos óbitos registrados, 89,1% foram de homens, contra 10,9% das mulheres (BRASIL, 2009h). Dados da PNAISH (BRASIL, 2009a) referem que a dependência de álcool entre os homens é de 19,5%, sendo que, para seis homens que consomem álcool, um fica dependente. Dados de Brasil (2006a) indicam que entre 3% e 9% dos adultos das cidades brasileiras são dependentes de álcool. Destaca-se, assim, que a dependência caracteriza-se, para os homens, quando consomem mais de seis doses2 e, para as mulheres, quando o consume é de 4 ou mais doses por dia. E que o consumo, para os que fazem uso, deve ser limitado a duas doses diárias para os homens e uma dose diária para as mulheres. Em relação à prática de atividades físicas, reconhecidas e recomendadas pela OMS como um fator de proteção à saúde, cabe o esclarecimento de alguns conceitos: 1) atividade física pode ser definida como qualquer movimento realizado pelo sistema esquelético com gasto de energia, e implica em adotar hábitos mais ativos em pequenas, mas importantes, modificações no cotidiano, optando-se pela realização de tarefas no âmbito doméstico e no local de trabalho e por atividades de lazer e sociais mais ativas; 2) exercício físico é uma categoria de atividade física definida como um conjunto de movimento físicos repetitivos planejados e estruturados para melhorar o desempenho físico; geralmente, requer locais próprios para sua realização sob supervisão e orientação de um profissional capacitado em academias de ginástica, clubes e outros locais. Ambas são formas importantes de manter o balanço energético (BRASIL, 2006a); 3) sedentarismo: relaciona-se a baixos níveis de atividade física (KAC; SICHIERI; PETRUCI, 2007). A recomendação diária de atividade física para a prevenção de doenças sugere que os indivíduos devam acumular pelo menos 30 minutos de atividade física de intensidade moderada na maioria ou, preferencialmente, todos os dias da semana. E, no caso de atividade física intensa, um mínimo de 20 minutos, três vezes por semana (KAC; SICHIERI; PETRUCI, 2007). Diante do exposto, questionou-se aos entrevistados se eles praticavam atividade física3 e com qual frequência. Os resultados encontrados (GRAF. 6) foram que 43% dos entrevistados afirmaram praticar atividade física, e, destes, mais de 67% a realizavam pelo menos três vezes por semana, o que é o ideal segundo a OMS. E 33% menos de três vezes na 2 O guia alimentar da população brasileira exemplifica o cálculo da dose equivalente de álcool: uma dose equivale a 150ml de vinho tinto ou 350ml de cerveja ou 40ml de bebida destilada (BRASIL,2006a). 3 O conceito de atividade física e exercício físico foram definidos aos entrevistados. 71 semana, o que, conforme os conceitos discutidos acima, não possuem efeitos benéficos para a saúde. E 57% informaram não praticar nenhuma atividade. Confrontando-se os resultados com a pesquisa VIGITEL (BRASIL, 2009h), que identificou os homens como sendo mais sedentários que as mulheres, observou-se que o número de entrevistados que se avaliarou sedentário, da amostra (57%), é muito superior aos dados da pesquisa do MS, que foi de 29,5%, entre os homens do Brasil, e de 20% entre os homens macapaenses. Vale ressaltar que a pesquisa do MS atribuiu como sedentários aqueles que não praticaram qualquer atividade física nos últimos três meses; não realizavam esforço físico intenso no trabalho, não se deslocavam para o trabalho a pé ou de bicicleta; e não eram responsáveis pela limpeza pesada da casa (BRASIL, 2009h). GRÁFICO 6 - Prática de atividade física pelos entrevistados Fonte: Pesquisa de campo, 2011. Neste estudo, não foi verificado o tempo que permaneciam em atividades. As atividades físicas mais relatadas foram futebol, musculação, caminhada/corrida, ciclismo e lutas variadas. Outro importante fator, quando se avalia o estado de saúde de um indivíduo, é a presença ou não de doenças, especialmente o que hoje se define como Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). De acordo com a OMS, as DCNT são doenças que se caracterizam por terem causas múltiplas, vários fatores de risco, longos períodos de latência, curso prolongado, origem não infecciosa e, também, por sua associação a deficiências e incapacidades funcionais. Como exemplo, citam-se as doenças cardiovasculares (cerebrovasculares, isquêmicas), as neoplasias, as doenças respiratórias crônicas e diabetes 72 mellitus, desordens mentais e neurológicas, as doenças bucais, ósseas e articulares, as desordens genéticas e as patologias oculares e auditivas (BRASIL, 2008). No Brasil, a tendência da transição epidemiológica, observada na maioria dos países, também se repete. Desde a década de 60, observa-se que está ocorrendo uma diminuição progressiva nas mortes por doenças infecto-contagiosas e a elevação da mortalidade por DCNT. As transformações econômicas, políticas, sociais e culturais produzidas pela sociedade ao longo do tempo modificaram as maneiras como sujeitos e coletividades organizam suas vidas e elegem determinados modos de viver. Tais mudanças facilitam e dificultam o acesso das populações às condições de vida mais favoráveis à saúde e, portanto, repercutem diretamente na alteração dos padrões de adoecimento. Consideradas como epidemia na atualidade, as DCNT constituem sério problema de saúde pública, tanto nos países ricos quanto nos de média e baixa renda (BRASIL, 2008). Nesse sentido, buscou-se saber se os entrevistados já haviam tido o diagnóstico oficial (feito por médico) de alguma DCNT. Vale ressaltar que nessa questão não foram aceitas as doenças que o entrevistado não sabia dizer o nome ou que referiam apenas sintomas, como, por exemplo, dor na costa, dor nos rins, tontura etc. E foram descartadas todas as doenças que não são classificadas como DCNT. Com isso, 29,6% dos participantes afirmaram ter o diagnóstico de alguma DCNT pelo médico (GRAF. 7). Sendo as doenças mais recorrentes a hipertensão arterial (16%), gastrite (15%) dislipidemias (10%), doenças da visão (9%), cardiopatias (7,7%) doenças da coluna (7,7%) e diabetes (6,2%). GRÁFICO 7 - Diagnóstico de doenças e doenças referidas pelos entrevistados Fonte: Pesquisa de campo, 2011. 73 Correlacionando-se os dados dos entrevistados que classificaram sua saúde como regular, ruim ou péssima com aqueles que afirmaram ser diagnosticados de alguma DCNT, tem-se que 42,2% dos que classificaram sua saúde como regular, ruim ou péssima tinham alguma DCNT diagnosticada. Explicando a forma como consideraram a sua saúde, contudo, também é permitido questionar e pensar sobre o que levou os outros 57,8% a também classificar sua saúde como regular, ruim e péssima. Sendo que o esperado é que a classificassem como boa ou ótima, tendo em vista toda a discussão anterior sobre os homens se verem como fortes e invulneráveis, e não se reconhecerem como carentes de cuidado. Por que tantos a classificaram como tal? Uma possível resposta vem ao se correlacionar o estado nutricional destes entrevistados. 68% apresentavam sobrepeso ou obesidade, podendo essa classificação, de ter uma saúde regular, ruim ou péssima, estar relacionada com os problemas trazidos pelo excesso de peso, tanto patologicamente quanto esteticamente. E, nesse ponto, a pesquisa pode ter apresentado um viés, pois, para que se chamasse a atenção do público-alvo do estudo, foi montado um stand, cuja chamada era para se participar da pesquisa sobre a saúde do homem e verificar o seu peso ideal. Isso pode ter tendenciado aos entrevistados a se acharem com a saúde dessa forma por conta de seu peso ou de sua alimentação. Contudo, ressalta-se que as avaliações nutricionais com o diagnóstico do peso ideal e do estado nutricional eram realizadas apenas depois de respondidas as questões do formulário. Cabe aqui supor que os próprios homens podem estar se dando conta de que não são tão invulneráveis assim. E que já iniciaram a quebra de paradigmas, a quebra do estereótipo em que o masculino não adoece e é mais forte. Contudo, tal discussão será feita mais à frente, com os dados mais oportunos. Entretanto, outra suposição para explicar o porquê de tantos homens classificarem sua saúde como regular, ruim e péssima pode estar relacionada com a busca pelos serviços de saúde, pois o fato de muitos deles não irem ao médico pode ter levado-os a classificar sua saúde de tal forma, numa tentativa de já justificar a sua ausência aos serviços de saúde. Nesse sentido, os participantes da pesquisa foram questionados sobre a data da sua última consulta médica, o tipo de serviço do atendimento, se público ou privado (os serviços privados aqui englobam convênios, planos de saúde e medicina do trabalho). E, finalmente, se ficaram ou não satisfeitos com o atendimento. E em caso de insatisfação, questionava-se o porquê de tal insatisfação. Os dados evidenciam que 66% dos entrevistados (GRAF. 8) tiveram sua última consulta médica a menos de um ano, 54,1% dos atendimentos foram feitos no serviço público 74 e 78,3% se declararam satisfeitos com o atendimento recebido em sua última consulta médica, independente da data e do tipo de serviço procurado. É importante destacar o percentual de entrevistados que não se lembra de quando foi sua última consulta médica (22,7%), o que também confirma a ausência dos homens nos serviços de saúde. Ressaltando que também foram contabilizados, nesse item, aqueles que referiram nunca ter ido ao médico depois de adultos. GRÁFICO 8 - Última consulta médica, tipo de atendimento e satisfação com o atendimento Fonte: Pesquisa de campo, 2011. Outro dado relevante e pouco esperado foi que a insatisfação em relação aos atendimentos foi maior nos serviços privados do que nos serviços públicos: 55,9% e 44,1%, respectivamente. E, quando questionados sobre o motivo da insatisfação, 55% das respostas estavam relacionadas diretamente ao atendimento do profissional médico. Abaixo, destacamse algumas falas dos entrevistados: “O médico não olhou na minha cara, não avaliou o que eu estava sentindo e nem me pediu exames”; “Não sei nem o que tive, o médico não me disse o que era, só me passou os remédios”; “O médico não me aconselhou, orientou sobre a doença”; “O médico errou o diagnóstico e tive que refazer a cirurgia”. Outros motivos de insatisfação diziam respeito ao funcionamento dos serviços. Estes foram responsáveis por 17,5% da insatisfação, como se evidencia nas falas que se seguem: 75 “Fui encaminhado para outra especialidade e não tem vaga”; “Não deu nada nos exames, e eu ainda estou me sentindo mal”; “O plano de saúde tem muita burocracia, é uma enrolação, aí estressa a gente”; “A fila tava muito grande, e demorou muito”. As queixas relatadas são comuns na rede de saúde do país, tanto para os homens quanto para as mulheres e outros segmentos da sociedade. Evidenciam a estrutura deficiente disponível, como relatada no primeiro capítulo desta dissertação. Assim, é valioso destacar que as falas dos entrevistados induzem a se pensar que o acolhimento por parte dos profissionais e nas instituições de saúde influencia na busca do homem pelos cuidados de saúde. Contudo, serão estes fatores os mais determinantes? Esta pergunta será respondia mais à frente, quando tratar-se da questão sobre que fatores mais influenciam a busca do cuidado por parte dos homens. A priori, segue-se com os motivos da insatisfação dos homens nos atendimentos realizados. Por fim, destacam-se os motivos relacionados a si próprios, as questões inerentes ao próprio estereótipo masculino, com 15% das razões para insatisfação. Exemplificando-se algumas falas em seguida: “Não queria estar lá, estava contra minha vontade”; “Eu acabei descobrindo a tal da gastrite”; “Ainda não tive tempo de fazer os exames que o médico pediu, por isso ainda não sei o que tenho”; “Não me senti à vontade pra falar o que eu tava sentindo porque o médico era do quartel”. E, mais uma vez, traz-se à discussão os homens que classificaram na entrevista sua saúde como regular, ruim ou péssima. Correlacionando-se estes entrevistados com a data de sua última consulta, no intuito de justificar tal classificação, verificou-se que 25% dos que haviam dito ter a saúde regular, ruim ou péssima haviam tido suas últimas consultas médicas há mais de um ano ou não se lembraram de sua última consulta. E 75% afirmaram ter tido sua última consulta há menos de um ano, o que sugere que a percepção de uma saúde regular, ruim ou péssima não está relacionada ao fato de não ir à consulta médica. No caso destes entrevistados, isso não se aplica, pois a maioria deles referiu ter ido ao médico há menos de um ano, denotando alguma preocupação com seu estado de saúde. De acordo com um comercial de televisão da campanha publicitária da PNAISH, “...os homens morrem mais e mais cedo que as mulheres, porque o homem não se cuida”. A afirmativa é muito bem traduzida quando se avaliam os dados de morbimortalidade masculina, discutidos em capítulo anterior. Tal afirmativa forte e contundente do comercial 76 foi uma das razões que instigaram esta pesquisa. Entretanto, o que pensam os homens sobre o cuidado dos homens? Será que, de fato, compartilham de tal opinião? Aos participantes da pesquisa foi feito o seguinte questionamento: “Os homens morrem mais e mais cedo que as mulheres, porque os homens não se cuidam. Você concorda ou não que os homens não se cuidam?”. Os entrevistados foram quase unânimes em concordar (94,6%) com a afirmativa (GRAF. 9), ressaltando que esta pergunta exprime um pensamento sobre os homens de forma geral. Contudo, o questionamento que se seguiu foi em relação a si próprios, se eles (os entrevistados) se cuidavam (GRAF. 10). E os resultados são conflitantes, como se expõe a seguir: GRÁFICO 9 - De acordo ou não com a afirmativa de que os homens não se cuidam Fonte: Pesquisa de campo, 2011. Dos entrevistados que foram quase unânimes em concordar que os homens não se cuidam, 59% afirmaram que se cuidavam, e 41% referiram que não (GRAF. 10). Vale ressaltar que a diferença de valores entre os que referiram se cuidar ou não, é insignificante estatisticamente, contudo é relativamente intrigante, pois o que se esperava era que a maioria afirmasse que não se cuidava, tendo como base as respostas dadas quando questionados sobre a afirmativa de que os homens não se cuidam. 77 GRÁFICO 10 - Você se cuida? Fonte: Pesquisa de campo, 2011. Sobre essa dicotomia entre o que de fato é real e o que é imaginário, também foi encontrada por Gomes (2008, p. 53) em sua pesquisa, quando questionava os homens entrevistados sobre sua relação com os serviços de saúde. Na pesquisa, o discurso dos entrevistados foi o de que todas as pessoas, homens ou mulheres, deveriam procurar os serviços de saúde, porém os próprios não mencionavam hábitos relacionados à sua saúde, principalmente relacionados com as consultas médicas e os exames preventivos. Contudo, cabem aqui algumas reflexões. A primeira é que talvez os homens estejam de fato se cuidando, mas, pela realidade da morbimortalidade ou do estereótipo criado, eles próprios acabem sendo induzidos a concordar que homens não se cuidam. A segunda é que tenha ocorrido outro viés na pesquisa, que por ter um stand com uma chamada de saúde do homem eles tenham já se tendenciado a responder que se cuidavam. E a terceira é que os homens, de fato, estejam se cuidando. Fazendo uma correlação entre os que afirmavam se cuidar e o seu estado nutricional, é possível afirmar que apenas 41% encontravam-se com um peso adequado, os demais se achavam com sobrepeso ou obesidade. E 41% dos entrevistados que consideraram não se cuidar, mais da metade deles (54%) também classificou sua saúde como regular, péssima ou ruim. O que sugere que o homem, mesmo considerando sua saúde deficiente, ainda assim não procura cuidados. Sugere também que os homens têm consciência das limitações de sua saúde, mas ainda o que se sobressai é o padrão masculino do não cuidado. Outro ponto a destacar é com relação aos que discordaram da afirmativa, não considerando os números, pois estes foram apenas 3% da amostra, o que é estatisticamente insignificante, considerando as explicações dadas pela discordância. Assim, seguem algumas falas: “Discordo porque a maioria morre de violência, e não de falta de cuidado”; “Porque os homens fazem mais atividade física”; “Porque os homens estão mais vaidosos e se cuidando mais”; “Porque tem muitos na academia, fazer atividade física é muito sexy”. 78 Estas falas nos remetem à discussão das mudanças que vêm ocorrendo nos modelos de masculinidades, com Farrell (1991), Cuschnir e Mardegan (2001) e Gomes (2008), e mostram que alguns dos entrevistados já conseguem perceber e expor esta mudança. Complementando a discussão sobre o cuidado para consigo dos entrevistados, foi questionado a eles sobre como se cuidavam. Este questionamento foi importante para se verificar a percepção dos entrevistados sobre o tipo de ações que eles consideram como cuidado. Os dados mostram que os homens relacionaram o cuidado principalmente à boa alimentação, à prática de atividade física e à procura do médico (GRAF. 11). Este comportamento e esta percepção podem estar relacionados com o novo paradigma de saúde, destacado no primeiro capítulo desta dissertação, que valoriza as ações de prevenção de doenças e a promoção da saúde. Bem como a forte disseminação do estilo de vida saudável, que deve ter como base a alimentação e a atividade física. GRÁFICO 11 - Cuidados com a saúde referidos pelos entrevistados Fonte: Pesquisa de campo, 2011. 79 Nesse sentido, destaca-se que tal disseminação faz parte da proposta de uma estratégia global da OMS, que visa sugerir a formulação e implementação de linhas de ações efetivas para reduzir substancialmente as mortes e doenças em todo o mundo: Seus quatro objetivos principais são: 1) reduzir os fatores de risco para DCNT por meio de ações em saúde pública e promoção da saúde e medidas preventivas; 2) aumentar a atenção e o conhecimento sobre alimentação e atividade física; 3) encorajar o desenvolvimento, fortalecimento e a implementação de políticas e planos de ação em nível global, regional, nacional e comunitário que sejam sustentáveis, incluindo a sociedade civil, o setor privado e a mídia; 4) monitorar dados científicos e influênciachave na alimentação e atividade física e fortalecer os recursos humanos necessários para qualificar e manter a saúde nesse domínio (ORGANIZAÇÃO, 2004 apud BRASIL, 2006a, p. 18, grifo nosso). Outro dado interessante a ser destacado é que o uso de preservativo foi pouco referido pelos entrevistados como um ato de cuidar de si. O que pode corroborar com a conclusão do estudo de Costa (2003), no qual a visão dos entrevistados sobre as problemas de saúde dos homens relaciona-se a partes do corpo sem referência à sexualidade e reprodução. É como se esses aspectos do ser masculino fossem inabaláveis e totalmente invulneráveis, e que o cuidado dispensado a eles não fizessem parte da saúde, e sim apenas da masculinidade. Diante do perfil e das percepções de saúde e de cuidado dos participantes deste estudo, indagou-se sobre o que, na opinião dos entrevistados, leva os homens a terem o comportamento de não se cuidarem, já que eles mostraram-se de acordo com a afirmativa de que os homens não se cuidam. É relevante que se resgate a metodologia utilizada para se avaliar os dados obtidos com tal questionamento. As respostas dos entrevistados foram interpretadas e reunidas em duas categorias: a categoria que continha fatores relacionados ao gênero e a categoria com fatores relacionados às questões institucionais. Os fatores de gênero referem-se às respostas relacionadas ao ideário, ao estereótipo masculino, como o fato de os homens serem machistas, serem mais fortes, não precisarem de médicos, não adoecerem com facilidade, que cuidar-se é coisa de mulher, que é natural do homem não se cuidar, entre outras. E os fatores institucionais, referem-se às respostas relacionadas com o excesso de trabalho, absenteísmo, a falta de tempo de ir ao serviço de saúde, os horários de funcionamento dos serviços de saúde, a falta de profissionais especializados para o atendimento de homens, dificuldades na marcação das consultas, mau atendimento. Enfim, todas as questões que estão relacionadas com o funcionamento das instituições e ao trabalho ou aos serviços de saúde que dificultem este acesso, ressaltando e relembrando a problemática 80 do tempo e do trabalho, já esclarecidas anteriormente, categorizadas como fator institucional e não como fator de gênero. É válido ressaltar, ainda, que esta pergunta relacionou-se aos fatores que levavam os homens de uma maneira geral a não se cuidarem, e não aos fatores pessoais. Ou seja, foi a justificativa do não cuidado dos homens expressa por eles. O que gera conclusões diferenciadas, tendo em vista que, ao se questionar aos entrevistados se eles concordavam que os homens não se cuidavam, estes foram quase unânimes em dizer que concordavam. Contudo, ao serem questionados se pessoalmente eles se cuidavam, mais da metade dos entrevistados afirmou que sim. O que permite pensar que, se a pergunta problema fosse direcionada para os fatores que influenciam no cuidado dos próprios entrevistados, as justificativas poderiam ser diferentes. Fica a sugestão para novas investigações e novos estudos. Com o objetivo de confirmar a hipótese inicial deste estudo, aplicou-se à amostra o teste não paramétrico qui-quadrado. Destaca-se, ainda, que, para os testes estatísticos, foram dispensados os entrevistados que não responderam à questão, os que não concordaram que os homens não se cuidam e aqueles que deram justificativas que tinham os dois motivos, gênero e instituição. Este descarte foi necessário, pois o objetivo deste estudo é saber a influência entre as duas categorias apenas. Nesse sentido, o software SPSS utilizado para a análise estatística identificou 177 casos válidos para a realização do teste (APÊNDICE C) e confirmou a hipótese com 95% de confiabilidade, de que fatores relacionados ao gênero masculino influenciam mais que os fatores institucionais, na busca do homem, de 20 a 59 anos, pelo cuidado (GRAF. 12) na amostra pesquisada. GRÁFICO 12 - Fatores que mais impedem os homens de se cuidar Fonte: Pesquisa de campo, 2011. 81 Além dos dados numéricos, é interessante destacar algumas percepções dos homens entrevistados, quando foram questionados sobre este tema. Abaixo se citam algumas falas, relacionadas aos fatores de gênero: “Machismo, isso é coisa de mulher”; “Os homens não adoecem fácil, são mais resistentes”; “É da natureza do homem”; “É medo de descobrir alguma doença”; “Não gostam deles próprios”; “Pai de família é o primeiro que acorda, último que deita e come quando sobra”; “Preconceito, acha que homem não tem que ir ao médico”; “Médico só dá notícia ruim, homens são orgulhosos”; “Inibição e vergonha dos profissionais”; “Responsabilidades familiares”; “Porque não adoecem fácil”; “Acha que sempre está tudo bem, e que a mulher o cuida”; “Homem é um bicho, e pra ele tudo tá bem, é instinto”; “Não se preocupa porque sempre tem uma mulher para querer ele”. As falas dos entrevistados traduzem bem as características do que é ser masculino nos padrões aceitos pela sociedade. O que permite a reflexão de que os homens entrevistados visualizam os homens da sociedade como machistas, à mercê dos instintos, resistentes, com medo e vergonha, quando se trata de seu cuidado e de sua saúde. Os homens e a sociedade, ao considerarem o cuidado como um ato feminino, se autoimpedem e são impedidos de o realizarem. Saffioti (1987, p.116) “reflete que, na medida em que certos campos, ou atitudes, são considerados femininos e ou negros, o homem em geral e o branco, especialmente, ficam impedidos de neles penetrar, ou realizá-las” (grifo nosso). Os homens acabam por se tornar vítimas de um engodo, um embuste, uma trapaça, quando são levados a agir de forma dominadora na vida social (SAFFIOTI, 1987; BOURDIEU, 2002; FARREL 1991). Um dos aspectos que mais reflete essa condição de vítima é na saúde, quando se excluem do processo de cuidar por conta de uma imagem de fortes e invulneráveis. Assim, é possível observar, nas respostas dos entrevistados, a naturalização de características construídas socioculturalmente para o que é ser homem e o que é ser mulher. De acordo com Saffioti (1987), os seres humanos nascem machos ou fêmeas, e através da educação tornam-se homens e mulheres, através da identidade social, que é socialmente construída. E esta identidade passa a ser reconhecida como parte da natureza de homens e mulheres, como revelam algumas falas que referem o “instinto” como a justificativa para o não cuidado. 82 No que se referem aos fatores institucionais, as razões mais referidas pelos entrevistados foram em relação à falta de tempo e ao trabalho, seja por excesso, seja por ter que justificar a falta. A seguir, algumas falas relacionadas a fatores institucionais, como exemplo: “Tem muita burocracia nos serviços de saúde, é senha, é autorização de exame, é dia pra ligar pra marcar consulta, aí não tem tempo pra isso” (Entrevistado, referindo-se aos serviços de saúde privados); “Porque não tem campanha, nem dia, nem atendimento só para os homens”; “Falta de tempo, excesso de trabalho”; “O homem tem menos tempo que a mulher pra ir ao médico”; “Além de não ter tempo, ainda é mal atendido no hospital”; Observa-se que nas duas categorias de respostas o modelo hegemônico da masculinidade se faz constante. A virilidade, sustento dos filhos, autonomia, autoridade e superioridade em relação às mulheres, prescrição de força e disputa, heterossexualidade, associação com a esfera pública são características deste modelo hegemônico que interferem e interferiram diretamente nas respostas dos entrevistados. Buscando-se comparar os achados deste, com outros estudos, traz-se Gomes (2008), que também questionou os homens sobre a baixa procura pelos serviços de saúde. Estes afirmaram que um dos motivos está relacionado ao medo de descobrir que algo vai mal, sentimento comum nas pessoas, independente do gênero. Além da resistência em mostrar partes de seu corpo ao profissional de saúde, especialmente quando se trata de partes íntimas. Em outro estudo, Costa (2003) refere que seus entrevistados resistiam à procura dos cuidados médicos pelo poder da medicina em colocar o homem numa condição passiva, de paciente, que na ideia dos homens é uma condição feminina. As respostas dos estudos vêm de encontro aos achados desta pesquisa, não no sentido de os fatores de gênero influenciarem mais ou menos na busca pelo cuidado, mas no sentido das falas dos homens, referindo, também, ao medo, à vergonha, à não aceitação da passividade pelos homens. Para Gomes (2008, p. 56) “a contradição dos dados epidemiológicos sobre a saúde do homem (que os veem com a saúde mais vulnerável) e o senso comum (que os veem como seres de saúde invulnerável) é apenas aparente, e que na verdade se complementam, na medida em que, os homens por se sentirem (e serem construídos socialmente como) invulneráveis, se expõem mais e acabam ficando mais vulneráveis” (grifo nosso). No que se refere às questões institucionais, o estudo do autor supracitado identificou que os homens também colocam o trabalho como sendo a justificativa da sua ausência 83 masculina nos serviços de saúde, especialmente no que se refere aos horários de funcionamento dos estabelecimentos de saúde. Tal questão não afeta apenas o universo masculino. No entanto, no imaginário social, o ser homem ainda é muito associado ao provedor da família, o que desencadeia uma obrigação para com o trabalho e a família, e a negligência para com seu cuidado. Outras questões consideradas pelo autor foram a falta de unidades específicas para o atendimento de homens. A partir dos resultados gerais, buscou-se verificar se a opinião dos entrevistados se assemelhava ao se considerar renda, escolaridade, idade e estado civil. Os testes estatísticos demonstraram que as diferenças não foram significativas para a renda e a escolaridade, e foram significativas para idade e estado civil. Através do teste qui-quadrado, é possível afirmar que os entrevistados mais jovens, de 20 a 40 anos, apresentaram mais justificativas relacionadas ao gênero que os demais, de 41 a 59 anos. O mesmo ocorre quando se compara os solteiros com os casados/união estável e separados. Os primeiros refletem mais fatores de gênero que institucionais, e os demais não têm diferenças estatisticamente significativas entre suas justificativas. Algumas suposições para tais diferenças podem estar relacionadas com as experiências vivenciadas junto aos serviços de saúde pelos homens mais velhos, e em relação aos solteiros e casados/união estável, a influência que as parceiras possuem sobre a saúde de seus parceiros. Contudo, são necessários estudos direcionados para estas questões, que não foram foco desta pesquisa. Por fim, retorna-se ao ponto inicial deste estudo, que é a PNAISH, política criada com o intuito de aproximar, integrar e acolher os homens aos serviços de saúde. Desde 2009, essa política vem sendo divulgada na mídia com ações voltadas para seu público masculino de 20 a 59 anos. Cabe ressaltar que, de acordo com o plano de ação da política, até o ano de 2011, todos os estados e municípios brasileiros deveriam estar com o programa de saúde dos homens em pleno funcionamento. Contudo, sabendo-se da ausência dos homens nos serviços de saúde, das dificuldades de acesso, dos problemas laborais que eles vivem, e ainda de toda a construção históricosócio-cultural masculina, que os coloca como invulneráveis, cabe a indagação de se os alvos da PNAISH (homens de 20 a 59 anos) conhecem essa política de saúde. Nesse sentido, foi perguntado aos entrevistados se eles já tinham “ouvido falar da PNAISH” e, em caso afirmativo, como tomaram conhecimento. Entre os meses de agosto e setembro de 2011, quando foram aplicados os formulários, 52,2% dos homens entrevistados afirmaram já ter ouvido falar da PNAISH. Destes, 74% referiram ter sido por meio da televisão que tomaram conhecimento, os demais pelos jornais, 84 internet e outros. É válido ressaltar, ainda, que muitos dos que afirmaram já ter ouvido falar, não sabem, de fato, o que é, qual a finalidade da política e em que isso irá atingi-los, contudo estas percepções não foram investigadas a fundo neste estudo. Muitos identificaram a política através dos comerciais de televisão, mas pensavam se tratar apenas de informações soltas, alertas para que os homens se cuidem mais, sem atrelar os comerciais com ações de uma política. Nesse sentido, observa-se que os homens ainda não se reconhecem como alvos de uma política de saúde, mesmo sabendo da existência dela. E muitos ainda nem tomaram conhecimento dela, tendo em vista que 47,8% dos entrevistados nesta pesquisa, referiram nunca ter ouvido falar dela. Kalckmann, Batista e Souza (2005 apud GOMES, 2008, p. 55) também chegaram à conclusão semelhante em seu estudo, ao enfatizar que “os homens não se reconhecem como alvo do atendimento de programas de saúde, pois as ações preventivas se dirigem, ou dirigiam, quase que exclusivamente às mulheres” (grifo do autor). Contudo, esse desconhecimento pode ser justificado ao verem as ações da política, especialmente, em Macapá, muito tímidas, com as ações ainda por fazer, com muitos projetos, pouca prática, com brigas e interferências políticas, como se observou ao buscar informações sobre a PNAISH nas secretarias municipal e estadual de saúde, processo relatado em capítulos anteriores. Assim, a partir da exposição dos resultados e discussões deste estudo, espera-se ter deixado muitas indagações e questionamentos sobre o assunto. Entende-se que este, pela constante mudança e complexidade, seja quase que inesgotável, e não houve a pretensão de esgotá-lo, concluir ou finalizar qualquer questão. A finalidade deste estudo foi de responder um questionamento, e principalmente discutir questões que permeiam a saúde dos homens. 85 6 CONCLUSÃO É notória a importância que a saúde dos homens vem ganhando no cenário da saúde pública brasileira. Desde a criação da PNAISH, os dados de saúde dos homens vêm sendo evidenciados como preocupantes, uma vez que sua expectativa de vida é sete anos menos e que morrem mais que as mulheres em quase todas as causas de mortes. Esses dados se agravam, quando se verifica que os homens pouco acessam os serviços de saúde, o que sugere que os homens não se cuidam. Diante dessa problemática, questionou-se e buscou-se analisar a realidade do Amapá em relação à saúde dos homens. Nesse sentido, este estudo teve como objetivo verificar se os homens concordam ou não com a afirmativa da PNAISH de que eles não se cuidam, e, ainda, que fatores mais os influenciam nesse cuidado. Para tanto, participaram da pesquisa 203 homens, na faixa etária de 20 a 59 anos, que responderam a um questionário com questões abertas e fechadas sobre a sua saúde. A pesquisa teve caráter quanti-qualitativo e utilizou o método da análise de conteúdo para obtenção dos resultados. As conclusões do estudo são descritas abaixo. Traçando o perfil socioeconômico dos entrevistados, verificou-se que a maioria deles foi de homens casados, com idade média de 34 anos, 50% com o segundo grau completo e renda mediana de R$ 1.150,00. Em relação à sua saúde, 55,2% dos participantes a consideram boa ou ótima. Contudo, mais de 60% foram diagnosticados com sobrepeso e obesidade com médio e alto risco para doenças cardiovasculares, de acordo com as avaliações nutricionais realizadas, a partir da análise do IMC e da circunferência da cintura. Os entrevistados foram considerados sedentários, sendo que 57% admitiram não fazer nenhum tipo de atividade física regularmente, e, dos que afirmaram praticar, 33% a fazem menos de três vezes na semana, o que é considerado insuficiente pela OMS para ser benéfico à saúde. No que se refere às doenças propriamente ditas, 30% admitiram ter alguma doença diagnosticada por médico, e as mais recorrentes foram hipertensão arterial, gastrite e dislipidemias, com 16,9%, 15,4% e 10,8%, respectivamente. O consumo de bebidas alcoólicas também foi elevado, se comparado com o consumo nacional, considerando que 60% dos participantes afirmaram fazer uso de bebidas alcoólicas, e, destes, 45% com frequência semanal, o que em nível nacional é de apenas 28%. Contudo, em relação ao cigarro, apenas 14,8% afirmaram fazer uso, o que é um resultado positivo, considerando que, de acordo com a pesquisa do MS, este índice para os homens de Macapá era de 24,7%. 86 Verificou-se, ainda, que a maioria dos entrevistados, 66%, teve seu último atendimento médico há menos de um ano. Mas cerca de 20% não se lembravam ou não tinham passado por nenhum atendimento médico depois de adultos. Ressaltando-se que atendimento, aqui, foi entendido como qualquer atendimento com o profissional médico em qualquer serviço de saúde, seja na atenção básica, seja na média ou alta complexidade. E, em relação à satisfação nesse último atendimento, 78,3% se declararam satisfeito, e os demais insatisfeitos. Curiosamente, 54,1% das consultas realizadas foram em serviços públicos e, quando se avalia a insatisfação, esta se fez maior nos atendimentos privados, 55,9%. Sendo que 55% das explicações, para a insatisfação, estavam relacionadas com a postura do profissional que o atendeu, como a rapidez e o pouco interesse do profissional pelo paciente, seguida das justificativas que dizem respeito às instituições de atendimento, principalmente da demora e burocracias do sistema, e, por último, as que são relacionadas às questões pessoais, principalmente com a imagem do homem, de invulnerável e forte. É quase unânime a concordância dos homens com a afirmativa de que eles não se cuidam: 94,6% estão de acordo. Porém, ao serem questionados se eles tinham cuidados consigo, 59% afirmou que sim, referindo-se, principalmente, aos cuidados com a alimentação, prática de atividade física, e a procura de assistência médica ao sentir algo. Aqui se conclui que a pesquisa pode ter tido um viés, já que a chamada para a participação no estudo era feita com um banner com uma pirâmide alimentar, e o fornecimento de avaliação e orientação nutricional após a entrevista com o pesquisado pode ter levado os entrevistados a refletir sobre a questão saúde no momento da abordagem. Para outros estudos, recomenda-se que a abordagem seja neutra, sem motivá-los a refletir antes sobre sua saúde, para que tenham respostas mais fiéis. Excluindo-se a possibilidade do viés, é possível que os homens, de fato, estejam um pouco mais cuidadosos com sua saúde. Ou, no mínimo, que os conceitos de cuidados com a saúde e do culto ao corpo, amplamente divulgados na mídia, estão sendo mais bem absorvidos e inculcados pelos homens, considerando que, quando questionados sobre como se cuidam, os principais cuidados referidos foram com a alimentação e a prática de atividade física. E, quando questionados sobre os fatores que impedem que eles se cuidem, mais de 74,6% citam fatores relacionados ao gênero, ou seja, a imagem, as funções e as características cobradas pela sociedade de como devem agir os homens. Isso confirmando a hipótese inicial de que os fatores relacionados ao gênero, à construção social em cima do corpo do homem, influenciam com maior intensidade no ato de cuidar de si masculino. Eles não se reconhecem como seres que inspiram cuidados. 87 Observou-se também que as justificativas relacionadas aos fatores de gênero foram mais significativas estatisticamente entre os entrevistados mais jovens e entre os solteiros. Fato que deixa um caminho aberto para novas pesquisas, principalmente quando se lembra de que esse é o olhar dos homens para os homens, e não o que pensam de si próprios, mas o que pensam dos outros homens. Pois é válido recordar que a pergunta-problema deste estudo foi que fatores mais impedem os homens de se cuidarem, e não o que os impede de se cuidar. O que se concluiu ser diferente, tendo em vista a divergência nas respostas sobre a pergunta se estava ou não de acordo que os homens não se cuidam. E as respostas sobre a pergunta: você se cuida? Nesse sentido, é possível afirmar que a construção da masculinidade interfere direta e negativamente na busca pelo cuidado dos homens. Eles, por se considerarem e serem considerados invulneráveis, acabam se expondo mais a situações de riscos, refletindo diretamente em sua saúde, tornando-os cada vez mais vulneráveis, como diz Gomes (2008). É a sua fachada de forte deixando-o fraco, como diz Farrell (1991). Assim, qualquer ação, política ou programa voltado para os homens, que almeje sucesso em sua execução, deve considerar primeiro a visão do homem sobre si e sobre a sua saúde, de forma que se atendam às expectativas e se adéquem ao pensamento masculino. Inclusive no que se refere à dinâmica das instituições de saúde, pois este trabalho, na medida em que mostra que o cuidado masculino é mais influenciado pela masculinidade em si, não exime o Estado de promover melhorias e adequações nas instituições de saúde para melhor atender os homens e todas as suas masculinidades. É claro que o universo masculino é um universo em expansão de estudos, e muito ainda deve ser pensado, analisado, pesquisado e concluído. Espera-se que este trabalho, ainda em processo de conclusão, dada a sua dimensão, seja um início de discussões sobre as masculinidades no estado do Amapá. 88 REFERÊNCIAS AMAPÁ. Secretaria de estado da saúde. Relatório de gestão 2006. Macapá, 2006. _______. Secretaria de estado da saúde. 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Em geral, você diria que sua saúde é: __________________________________________ 6. Peso: ________kg 7. Altura: ________m 8. IMC: _______kg/m2 10. Você pratica alguma atividade física: ( ) Não Pratica ( 9. C. Da cintura: _______cm ) Pratica Qual? ________________ Periodicidade: _____dias/semana 11. Você faz uso de alguma bebida alcoólica: ( ) sim ( ) não Qual a Frequência: ( ) diária ( ) semanal ( ) quinzenal 12. Você fuma? ( ) sim ( ) não ( ) mensal ( ) semestral ( ) anual Quantos cigarros você fuma por dia: ______/dia 13. Você é diagnosticado, por algum médico, de alguma doença crônica: ( ) não ( ) sim Qual? ( ) Diabetes ( ) Hipertensão ( ) Hepatites (B/C) ( ) Gastrite ( ) Câncer ( Onde: ______________) ( ) Dislipidemia (colesterol e triglicerídeos) ( ) Problemas na coluna ( ) Outras. Quais?_______________ _________________________________________________________________________________________ 4 – A BUSCA PELOS SERVIÇOS DE SAÚDE 14. Qual foi o mês/ano da sua última consulta médica: __________ ( ) não lembra 15. Onde foi esta consulta: ( ) Hosp. de emergência ( ) Hosp. de especialidades ( ) Hosp. particular ( ) Unid. básica de saúde ( ) Unid. de pronto atendimento 24h ( ) Consultório particular 16. Você ficou satisfeito com este último atendimento? ( ) sim ( ) não Por quê? _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________ 17. Vou falar uma frase, você me dirá se concorda ou não com a frase: “O homem morre mais e mais cedo que as mulheres, porque o homem não se cuida. Você concorda ou não com que o homem não se cuida?” ( ) Concorda ( ) não concorda Por quê? _________________________________________________________________________________ _________________________________________________________________________________________ 18. Você já ouviu falar da Política Nacional de Atenção Integral a Saúde do Homem? ( ) Sim, Onde? ______________________________ ( ) Não, nunca ouvi falar Responsável pela entrevista: ____________________________ 95 APÊNDICE B Termo de consentimento livre e esclarecido de pesquisa (Resolução No196/96 – CNS) Eu,________________________________________________ declaro que consinto em participar como voluntário da pesquisa “Saúde do Homem em Macapá”, sob responsabilidade da mestranda Aline Bentes Monteiro, aluna do curso de Mestrado em Desenvolvimento Regional, vinculado à Universidade Federal do Amapá. Declaro que fui satisfatoriamente esclarecido que: A) o estudo será realizado a partir da aplicação de um formulário de pesquisa e da coleta de meu peso, altura, circunferência da cintura; B) que não haverá riscos para minha saúde; C) que posso consultar os pesquisadores responsáveis em qualquer época, pessoalmente ou por telefone, para esclarecimento de qualquer dúvida; D) que estou livre para, a qualquer momento, deixar de participar da pesquisa e que não preciso apresentar justificativas para isso; E) que todas as informações por mim fornecidas e os resultados obtidos serão mantidos em sigilo e que, estes últimos só serão utilizados para divulgação em reuniões e revistas científicas sem a minha identificação; F) que serei informado de todos os resultados obtidos, independentemente do fato de mudar meu consentimento em participar da pesquisa; G) que não terei quaisquer benefícios ou direitos financeiros sobre os eventuais resultados decorrentes da pesquisa; H) que esta pesquisa é importante para o estudo, melhor entendimento, da saúde do homem e quais fatores dificultam o acesso aos serviços de saúde. Assim, consinto em participar da pesquisa em questão. Macapá, ___/___/___. Aline Bentes Monteiro Mestranda MINTEG/UNIFAP Voluntário Eu,________________________________________________ declaro que consinto em participar como voluntário da pesquisa “Saúde do Homem em Macapá”, sob responsabilidade da mestranda Aline Bentes Monteiro, aluna do curso de Mestrado em Desenvolvimento Regional, vinculado à Universidade Federal do Amapá. Declaro que fui satisfatoriamente esclarecido que: A) o estudo será realizado a partir da aplicação de um formulário de pesquisa e da coleta de meu peso, altura, circunferência da cintura; B) que não haverá riscos para minha saúde; C) que posso consultar os pesquisadores responsáveis em qualquer época, pessoalmente ou por telefone, para esclarecimento de qualquer dúvida; D) que estou livre para, a qualquer momento, deixar de participar da pesquisa e que não preciso apresentar justificativas para isso; E) que todas as informações por mim fornecidas e os resultados obtidos serão mantidos em sigilo e que, estes últimos só serão utilizados para divulgação em reuniões e revistas científicas sem a minha identificação; F) que serei informado de todos os resultados obtidos, independentemente do fato de mudar meu consentimento em participar da pesquisa; G) que não terei quaisquer benefícios ou direitos financeiros sobre os eventuais resultados decorrentes da pesquisa; H) que esta pesquisa é importante para o estudo, melhor entendimento, da saúde do homem e quais fatores dificultam o acesso aos serviços de saúde. Assim, consinto em participar da pesquisa em questão. Responsável pela pesquisa: Aline Bentes Monteiro (CRN/7-997) Contatos: (96) 9156.9491 / 8123.0850. 96 APÊNDICE C Teste estatístico no spss: teste não paramétrico de 1 amostra teste quiquadrado, nível de significância 0,05 e intervalo de confiança 95% Chi-Square Test Frequencies FATOR GENÊRO/INSTITUCIONAL Observed N Fator gênero Fator institucional Total Expected N Residual 132 88,5 43,5 45 88,5 -43,5 177 Test Statistics FATOR GENÊRO/INSTITUCIONAL Chi-Square 42,763 df 1 Asymp. Sig. a. a ,000 0 cells (0,0%) have expected frequencies less than 5. The minimum expected cell frequency is 88,5.