SÉRIE REALIDADE RURAL – VOLUME 45 ENGº. AGRº. JOSÉ LUIZ B. DE AZAMBUJA Porto Alegre, 2006. © 2006 EMATER/RS-ASCAR Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida por qualquer meio, sem a prévia autorização deste órgão. (Catalogação na publicação – Biblioteca da EMATER/RS-ASCAR) A991i Azambuja, José Luiz Bortoli de A importância da pluriatividade como estratégia de reprodução da agricultura familiar: o caso da comunidade de Aguapés no município de Osório-RS/por José Luiz B. de Azambuja. – Porto Alegre : EMATER/RS-ASCAR, 2006. 62 p. : il. (Realidade Rural; v. 45) ISSN1808-0219 1. Agricultura Familiar. 2. Pluriatividade. 3. Osório. 4. Rio Grande do Sul. I. Título. CDU 63:301.185.14(816.5Osório) REFERÊNCIA: AZAMBUJA, José Luiz B. de. A importância da pluriatividade como estratégia de reprodução da agricultura familiar: o caso da comunidade de Aguapés no município de Osório/RS. Porto Alegre: EMATER/RS-ASCAR, 2006. 62 p. (Realidade Rural, 45) EMATER/RS-ASCAR - Rua Botafogo, 1051 - 90150-053 - Porto Alegre - RS - Brasil fone (0XX51) 2125-3144 / fax (0XX51) 2125-3156 http://www.emater.tche.br DIRETORIA DA EMATER/RS-ASCAR - Presidente: Ricardo Altair Schwarz Diretor Administrativo: Luiz Ângelo Poletto Diretor Técnico: Dirlei Matos de Souza ÁREA TÉCNICA - Gerência de Planejamento: Marcos Newton Pereira Organização dos Textos: Marcelo Porto Nicola Diagramação e Layout: Patrícia Henke Lazzari Normalização: Bibliotecária CRB 10/161 Mariléa Pinheiro Fabião Revisão de português: Tatiana Capaverde Capa: Bibiana Volkmer Martins APRESENTAÇÃO 1 A partir de meados dos anos 80, assistimos ao surgimento de uma nova configuração do meio rural brasileiro, baseada, fundamentalmente, na agropecuária moderna, ligada às exportações e agroindústrias. Nas atividades não agrícolas, à moradia, ao lazer e a várias atividades industriais e de serviços; e às "novas" atividades agropecuárias, impulsionadas por nichos especiais de mercado. Muitas das ditas "novas" atividades são antigas no Brasil, mas não tinham, até recentemente, importância econômica. Atividades como floricultura, criação de pequenos animais, piscicultura, antes consideradas hobbies ou negócios "fundo de quintal", transformaram-se em importantes alternativas de emprego e renda no meio rural. Valorização semelhante ocorreu com as atividades não agrícolas, decorrente da crescente urbanização do meio rural e das atividades de preservação ambiental, bem como de um amplo conjunto de atividades relacionadas aos "nichos de mercado". Em uma busca incessante por capitais e renda, muitas famílias rurais têm optado por diversificar a sua prestação de serviços, e não somente a produção agrícola, como parte de uma estratégia de resistência ao processo contínuo de inovação tecnológica exigido pela Revolução Verde. Portanto, a pluriatividade é um resultado desse esforço de diversificação realizado pelos agricultores familiares para se inserirem nos novos mercados locais que se abrem. 1 A apresentação está baseada em GRAZZIANO DA SILVA, J.; DEL GROSSI, M. CAMPANHOLA, C. O que há de realmente novo no rural brasileiro. Cadernos de Ciência e Tecnologia, Brasília, v. 19, n. 1 p. 37 – 67, jan/abr. 2002, EMBRAPA. Assim, não se pode considerar a pluriatividade como parte de um processo de empobrecimento que resulta da decadência da propriedade familiar, mas sim como uma busca de novas oportunidades a partir das transformações recentes nos contextos rural e urbano. Um dos aspectos importantes do fenômeno da pluriatividade é que se criam novos espaços de reprodução do capital no meio rural, muitas vezes revigorando regiões e atividades tradicionais, antes decadentes. A Extensão Rural gaúcha, sensível às transformações da sociedade, tem intensificado suas ações na promoção das atividades rurais não agrícolas e tem compreendido a pluriatividade como uma estratégia de reprodução sócioeconômica do seu público beneficiário, com reflexos importantes na preservação ambiental. As atividades de ATER em turismo rural, artesanato, agroindústria, capacitação de mão de obra em prestação de serviços, lazer e recreação são alguns exemplos de destaque. Nesse contexto de valorização de novas estratégias, as pesquisas de diagnóstico da realidade vivenciada pelo público beneficiário da EMATER/RS-ASCAR, as quais identificam o tamanho e a real importância da pluriatividade para a agricultura familiar, merecem ser divulgadas pelo fato de sinalizarem o melhor caminho a ser trilhado pelas equipes municipais de extensionistas na promoção do desenvolvimento rural sustentável. A EMATER/RS-ASCAR, através de um convênio com o CPDA/UFRRJ e a REDCAPA, oportunizou para 31 extensionistas rurais a possibilidade de ingressar em um curso de especialização em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade. Entre as monografias produzidas nesse curso encontra-se o trabalho desenvolvido pelo Eng. Agr. José L. B. de Azambuja que aborda o tema da pluriatividade. Tal pesquisa analisou a importância da pluriatividade para os diferentes tipos de agricultores familiares localizados na comunidade rural de Aguapés, interior do município de Osório, no litoral norte do RS, mensurando a parcela componente da renda que é proveniente dessa estratégia. Os dados coletados revelaram a existência de impactos significativos das atividades não agrícolas sobre a composição da renda familiar, com variação de intensidade para cada um dos tipos de agricultor familiar, representando 76% RBT/ano para os "tipo sobrevivência", 34,77 % RBT/ano para os "tipo subsistência", 45,96% para os "tipo de mercado" e um impacto relevante, porém difícil de quantificar, para os agricultores familiares "tipo patronal". 4 O trabalho mostra também como as famílias percebem a estratégia da pluriatividade como uma alternativa para a reprodução social da agricultura familiar e para a conquista de seus desejos. Por fim, o documento apresenta algumas sugestões de políticas públicas, apesar de não se constituírem em propósito principal do trabalho. Assim sendo, por tudo que foi exposto anteriormente, publica-se a Série Realidade Rural v. 45, intitulada "A importância da pluriatividade como estratégia de reprodução da agricultura familiar – o caso da comunidade de Aguapés no município de Osório/RS." Gerência de Planejamento. 5 LISTA DE TABELAS Tabela 1 - Área e renda das propriedades dos agricultores familiares de sobrevivência – Osório, agosto de 2002. ......................................................................................34 Tabela 2 - Composição da força de trabalho residente dos agricultores familiares de sobrevivência por faixa etária e por tempo com atividades não agrícolas – Osório, agosto de 2002. .................................................................................................34 Tabela 3 - Área e renda das propriedades dos agricultores familiares de subsistência – Osório, agosto de 2002. ..................................................................................................36 Tabela 4 - Composição da força de trabalho residente dos agricultores familiares de subsistência por faixa etária e por tempo com atividades não agrícolas – Osório, agosto de 2002. .................................................................................................37 Tabela 5 - Área e renda das propriedades dos agricultores familiares de mercado – Osório, agosto de 2002. ..................................................................................................38 Tabela 6 – Composição da força de trabalho residente dos agricultores familiares de mercado por faixa etária e por tempo com atividades não agrícolas – Osório, agosto de 2002. ...............................................................................................................39 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO .........................................................................................................11 2 OBJETIVO DO TRABALHO E REFERENCIAL TEÓRICO.............................17 3 JUSTIFICATIVA.......................................................................................................21 3.1 3.2 3.3 3.4 Agricultura Familiar de Sobrevivência ............................................................................25 Agricultura Familiar de Subsistência ..............................................................................26 Agricultura Familiar de Mercado ....................................................................................28 Agricultura Familiar Patronal .........................................................................................29 4 METODOLOGIA......................................................................................................31 5 RESULTADOS ........................................................................................................33 5.1 5.2 5.3 5.4 Familiares de Sobrevivência .........................................................................................33 Familiares de Subsistência............................................................................................35 Familiares de Mercado .................................................................................................38 Familiar Patronal ..........................................................................................................39 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS...................................................................................41 REFERÊNCIAS ............................................................................................................45 ANEXOS........................................................................................................................47 Anexo A - Mapa Regional Porto Alegre-EMATER/RS-ASCAR. ..............................................49 Anexo B - Mapa Município de Osório – RS. ..........................................................................51 Anexo C - Caracterização dos diferentes sistemas de produção. ...........................................53 Anexo D – Roteiro para entrevistas a campo na localidade de Aguapés, com vistas à monografia sobre pluriatividade. .........................................................................61 1 INTRODUÇÃO A pluriatividade não é um fenômeno novo na agricultura brasileira, particularmente, quando se aborda a agricultura familiar e, especialmente, aquela presente em regiões onde houve forte concentração de imigrantes, como é o caso de algumas regiões do Rio Grande do Sul, entre elas o litoral norte do Estado, onde está localizado o município de Osório. Assim, é necessário estudar e entender esta realidade para que seja possível propor políticas públicas eficazes na promoção do desenvolvimento sustentável. Como afirma Sachs, (2000) “o que está em jogo é o futuro do Brasil rural e não apenas a sua componente de agricultura familiar. Sabemos hoje que os empregos rurais não agrícolas contribuem de maneira significativa à renda das famílias no campo. A pluriatividade dos camponeses é um fenômeno observado universalmente". Nesse processo, torna-se fundamental o conhecimento da realidade local, pois não há dúvidas de que o desenvolvimento se dá a partir dos municípios e neles a “agricultura familiar afigura-se como uma peça chave, embora não exclusiva, do desenvolvimento integrado e sustentável, a ser definido em escala local, tomando-se como unidade territorial o município ou eventualmente consórcios de municípios” (SACHS, 2000). Para conhecer a realidade local é fundamental que se faça um resgate histórico da região da pesquisa, bem como uma caracterização do município e da comunidade de Aguapés. A região era caminho de tropas de gado, levadas pelos bandeirantes em direção ao sudeste do País. Osório chamava-se então Estância da Serra, local de paragem dos tropeiros para descanso e reabastecimento. Depois chegaram os negros que, segundo conta a história popular, salvaram-se de dois navios negreiros vindos da África que naufragaram na altura de Capão da Canoa. Povoaram os morros do município e a região, estabelecendo as casas grandes, das quais ainda hoje se encontram resquícios. Posteriormente vieram os alemães, primeiros colonizadores europeus que subiram o Rio dos Sinos e seus afluentes, fundando comunidades como, por exemplo, a Borússia, situada na cabeceira do Rio Caraá. Outros imigrantes como os italianos, chegaram no final do século XIX, os japoneses e os poloneses, que, segundo relatos, chegaram no início do século XX, trouxeram diferentes culturas, tradições e hábitos, contribuindo, dessa forma, para a diversificação da região. Osório, município criado em 16/12/1857 através da Lei nº 401, foi desmembrado de Santo Antônio da Patrulha e pode ser considerado a “porta de entrada” da região Litoral Norte do Estado, conforme se pode observar no anexo A, mapa “Regional Porto Alegre EMATER/RS-ASCAR”. Está localizado a 100 km de distância da capital do Estado, Porto Alegre, com a qual tem ligação asfáltica através de uma auto-estrada, a BR 101. Osório é um município que possui uma malha rodoviária bem conservada. A região, onde se localizam as principais praias gaúchas, apresenta uma população em torno de 200.000 habitantes fixos, que chegam a 2.000.000 nos meses de verão, representando uma verdadeira alternativa de mercado para a agricultura familiar. O município de Osório possui uma área, segundo o IBGE, de 670,41 km 2, estando todo ele localizado em uma região caracterizada por um agroecossistema frágil, sendo boa parte do seu território considerado “reserva da biosfera” e, praticamente um quarto (24,5%) dele, formado Segundo dados por lagos. do Anuário Estatístico do RS, ano 1999, da Fundação de Economia e Estatística (FEE), o PIB do município de Osório alcançava o montante de R$195.322.345,00, representando 0,2616% do PIB estadual e um PIB per capita de R$5.503,00, inferior ao PIB per capita estadual que ficou em Mata Atlântica: reserva da Biosfera- limites à exploração agrícola. R$7.435,00. Ainda segundo a FEE, o VAB (Valor Adicionado Bruto)2 municipal para o mesmo ano foi de R$ 184.534.029,00, sendo a participação dos setores, na composição do VAB municipal, assim representada: indústria 3 15,00 %, serviços, 80,11% e agropecuária 4,89%. 2 O VAB é o valor da produção livre de impostos e o consumo intermediário a preços de mercado. O dado referente à indústria engloba as indústrias de transformação (agroindústrias de leite, carne, entre outras), da construção civil, de extrativismo mineral e de eletricidade, gás e água. 3 12 Embora a agropecuária participe do PIB e do VAB municipal com um valor e percentual bem inferior aos da indústria4 e serviços, existem argumentos sociológicos que justificam apoio a políticas específicas para o setor, dado o contingente expressivo de pessoas residentes no espaço rural, onde, de acordo com o IBGE – Censo Demográfico de 2000, registravam-se 2.463 domicílios e 5.467 pessoas, representando 15,13% de um total de 36.131 habitantes do município de Osório. Além disso, se considerarmos o ISMA (Índice Social Municipal Ampliado)5 de 1998, fornecido pela FEE, verificamos que Osório, com um índice de 0,52, encontrava-se na 163ª posição entre os municípios gaúchos, uma posição intermediária, mas que revela carências importantes, notadamente no meio rural. Em termos de atividades agrícolas, o município apresenta alguma diversificação, embora cada atividade seja praticada por um pequeno número de famílias. Entre outras, podem ser citadas as seguintes atividades: a) o arroz que é a cultura mais cultivada, com 1.800 hectares (IBGE, 2000). Trata-se de uma lavoura com alta tecnologia, dependente de recursos externos (máquinas, insumos, financiamentos, etc.) e que ocupa um pequeno número de famílias. b) a banana é outra cultura importante para o município, com 215 hectares cultivados, ocupando em torno de 70 famílias de agricultores, segundo dados de 2002 fornecidos pelo escritório local da EMATER/RS-ASCAR. c) a pecuária, que envolve 24,52% dos estabelecimentos, representando 480 de um total de 1926 propriedades existentes no município, segundo informações da Inspetoria Veterinária local referentes ao ano de 1998. São 20.357 cabeças de gado, das quais 990 são de aptidão leiteira, pertencentes a 40 produtores, cuja produtividade média é de 9 litros/vaca/dia. d) as lavouras de subsistência e eventual venda de excedentes, como a de cana de açúcar, feijão, milho e mandioca, que juntas somam 930 hectares (IBGE, 1997) e estão presentes em praticamente todas as pequenas propriedades do município; 4 Ainda que se some a participação das agroindústrias, considerando-as como parte do setor agropecuário no PIB municipal, a participação relativa permanece baixa, tanto em termos percentuais quanto em números absolutos. 5 O cálculo do ISMA considera os seguintes itens: domicílios com saneamento, educação, renda e saúde. 13 e) a produção de olerícolas, principalmente folhosas, que envolve 65 produtores e uma área de 210 hectares, sendo Aguapés, local da pesquisa, uma das principais comunidades com esta atividade, segundo o escritório local da EMATER/RS-ASCAR, dados de 2002. f) além das atividades acima, há o extrativismo da samambaia e, recentemente começam a se desenvolver novas alternativas como é o caso da fruticultura, principalmente figo e abacaxi. A localidade de Aguapés está situada 18 km ao norte do município de Osório, pela BR 101 em direção a Torres, na divisa com o município de Maquiné. Seu povoamento iniciou por volta de 1850, com a presença de negros e lusos. Posteriormente, entre 1921 a 1945, chegaram os imigrantes italianos e alemães, período em que iniciou uma diversificação econômica facilitada pela posição geográfica e a existência de transporte lacustre. Em torno de 1946 iniciou-se o ciclo da cana de açúcar com a instalação de uma usina de açúcar, alambiques, uma usina de álcool e um engenho de cana. Também nesta época assinala-se inúmeras outras atividades tais como, moinhos, olarias e serrarias. Com o passar dos anos, outras atividades foram sendo desenvolvidas, as estradas foram melhoradas, houve a instalação de uma fábrica de calçados e, ao mesmo tempo, a legislação foi restringindo algumas atividades tradicionais como alambiques e serrarias. Fato importante para a comunidade foi o asfaltamento, em 1968, da BR 101 que abriu perspectivas para instalação de pontos de venda dos produtos da localidade e, ao mesmo tempo atraiu investimentos e oportunidades de emprego como é o caso de um posto de combustíveis. Em junho de 2000 a população de Aguapés era constituída por 146 famílias residentes, das quais 60 (41,10%) eram classificadas pela equipe de Extensão Rural do escritório da EMATER/RS-ASCAR de Osório6, como “agricultores”7, 27 (18,49%) como “aposentados”8, 10 (6,85%) como “diaristas”9 e 49 (33,56%) como “outros”10. 6 Classificação elaborada para fins de identificação de uma pré tipologia, e seleção de agricultores para entrevistas no curso de Desenvolvimento Rural Sustentável – enfoque Agroecológico, Turma 3. 7 Famílias cuja renda principal é oriunda de atividades agrícolas e que podem incluir também atividades não agrícolas, aposentadoria e extrativismo de samambaias. 8 Famílias onde a única fonte de renda é a aposentadoria e, no máximo criam alguns pequenos animais para consumo próprio e cultivam pequena horta também para consumo próprio. 9 Famílias que prestam serviços na comunidade, em atividades que podem ser ligadas à agropecuária ou não, e recebem por dia efetivamente trabalhado. 10 Famílias que possuem um terreno no núcleo urbano da comunidade e cuja renda é obtida de atividades não agrícolas realizadas na própria residência (artesanato, por exemplo), na comunidade (cozinheira, empregados, proprietários de pequenos negócios, etc.) ou fora da comunidade (motoristas, por exemplo), e, eventualmente também inclui rendimentos de aposentadoria. 14 A comunidade é servida por uma boa infra-estrutura em termos de energia elétrica, telefone, posto de saúde, escola, transporte, recolhimento de lixo e estradas. Há também uma boa organização social, não só em torno da igreja e seus eventos religiosos, incluindo as festas, mas também pela existência de uma associação de produtores rurais, de uma agroindústria e de um clube de mães. Atualmente, a comunidade de Aguapés se caracteriza pela produção de hortigranjeiros e também por uma diversificação de atividades agrícolas (gado de leite e de corte, banana, cana, piscicultura, eucalipto e culturas de subsistência, como milho, feijão, abóbora, etc.), além do extrativismo de samambaias e atividades não agrícolas, tais como artesanato, comércio, serviços e agroindústria. Analisando a história do município e da comunidade de Aguapés, confirma-se a afirmativa de que a pluriatividade não é um fenômeno novo. No entanto, há que reconhecer diferenças entre a pluriatividade praticada no início da colonização, decorrente de necessidades locais, da precariedade dos meios de transporte e da incipiente industrialização, que, segundo a Professora Maria José Carneiro “ela (a pluriatividade) não era reconhecida como um fenômeno à parte na medida em que tais atividades confundiam-se com as numerosas práticas cotidianas do mundo camponês”, daquela praticada atualmente, em reação a um “modelo único de exploração agrícola, sustentado na especialização da produção (e do trabalho) e em produtividade e rentabilidade crescentes”, conforme aponta Carneiro, 1998. 15 2 OBJETIVO DO TRABALHO E REFERENCIAL TEÓRICO O trabalho pretende analisar o significado da pluriatividade para os diferentes tipos de agricultores familiares identificados na localidade de Aguapés, interior do município de Osório, no litoral norte do estado do Rio Grande do Sul e qual o impacto desta estratégia familiar em termos da composição da renda. A pluriatividade é um fenômeno antigo que, no entanto, adquire um novo significado, agora como alternativa para a reprodução social da agricultura familiar brasileira diante da crise praticamente permanente do modelo de agricultura convencional produtivista. Na análise deste tema é necessário ter em mente que “o espaço rural não se define mais, exclusivamente, pela atividade agrícola” como afirma Maria José Carneiro em seu texto “Ruralidade: novas identidades em construção”. Graziano (2002) mostra que o crescimento tanto dos desempregados como dos inativos residentes em áreas rurais (aposentados e pensionistas em particular) é um importante indicador de que “o meio rural brasileiro já se converteu também num lugar de residência dissociado do local de trabalho ou, ainda, de que os espaços rurais não são mais apenas espaços privatizados e locais de trabalho, e que as pessoas residentes no meio rural não estão necessariamente ocupadas e, tampouco, ocupadas em atividades agrícolas”. Por outro lado, parece que chegamos ao limite de esgotamento do modelo de desenvolvimento agrícola conhecido como “modernização conservadora”, o qual, entre seus “efeitos perversos”, concentrou a propriedade da terra, aumentou as disparidades de renda, acentuou o êxodo rural e deteriorou a qualidade de vida no campo e nas cidades, fenômeno este assinalado por vários autores e destacado por Palmeira e Leite (1997) em seu texto “Debates econômicos, processos sociais e lutas políticas: reflexões sobre a questão agrária”. Nesse quadro se coloca a unidade familiar “como um ator social na luta pela sobrevivência, na luta por espaços, no confronto de classes, nas estratégias implementadas, e não apenas como vítimas de um processo social” (TEDESCO, 1999). Entre as conseqüências deste esgotamento, pode-se observar, juntamente com a incapacidade dos setores industrial e de serviços em absorver este excedente de mão de obra 11, um crescente reconhecimento de técnicos, estudiosos e da sociedade em geral, da “multifuncionalidade” da agricultura, passando a ser uma atividade muito mais abrangente do que a simples produção de alimentos. O campo passa a ser “um lugar de vida”, conforme assinala Mendras (1988), na medida em que as pessoas residentes no meio urbano passam a valorizar o contato com a “natureza”, associando isso a uma melhor qualidade de vida, ao mesmo tempo que se fecham as oportunidades de emprego no meio urbano. Esse fenômeno abre novas possibilidades para a agricultura familiar e estimula a pluriatividade. Na comunidade de Aguapés observa-se nitidamente esta mudança na direção da multifuncionalidade, que já é uma realidade. Se considerarmos o levantamento realizado em 2000 pela equipe municipal da EMATER/RS-ASCAR de Osório, constatamos que 86 famílias de um total de 146, portanto 58,9% das famílias, apenas moram no meio rural e executam algumas outras atividades não agrícolas relacionadas a serviços, artesanato, etc. É notório, nesta comunidade, que a produção agrícola ocupa cada vez menos o tempo total de trabalho das famílias rurais, fenômeno constatado por Graziano, Del Grossi e Campanhola (2001) em nível de Brasil. Consideramos, para as finalidades deste trabalho, a pluriatividade como “... uma noção que designa um processo social plural, o que significa reconhecer processos pluriativos incorporadores de atividades não agrícolas como constitutivos da própria dinâmica social da agricultura familiar”, perspectiva interpretativa adotada por Carneiro, 1999. Ela assinala ainda que “a complexidade do processo de transformação recente no mundo rural brasileiro, que se traduz por uma heterogeneidade das formas de organização social e da produção, só pode ser entendida se orientarmos a análise para as relações entre os agentes sociais na dinâmica de reprodução social”. Este trabalho está assentado na tipologia definida e utilizada pela EMATER/RS-ASCAR que se baseia em vários fatores, mas que considera a renda e o acesso a mercados como definidores dos tipos sobrevivência, subsistência, mercado e patronal. Em todos estes tipos há o registro da pluriatividade, o que nos levou a considerar a família pluriativa como uma unidade de análise, segundo a definição de Schneider, 2001 que entende esta família como “um grupo social que compartilha um mesmo espaço (não necessariamente uma mesma habitação) e possui em comum a propriedade de um pedaço de terra. Esse coletivo está ligado por laços de parentesco 11 Dados recentes relativos ao ano de 2001, publicados pela FEE no INFORME PED, ano 10, número especial, Janeiro 2002, informam uma taxa média de desemprego de 14,9% da PEA na região metropolitana de Porto Alegre o que significa um contingente de 252 mil pessoas desempregadas. 18 e consangüinidade (filiação) entre si, podendo a ele pertencer, eventualmente, outros membros não consangüíneos (adoção). É no âmbito da família que se discute e se organiza a inserção produtiva, laboral e moral de seus diferentes membros integrantes e é em função deste referencial que se estabelecem as estratégias individuais e coletivas que visam garantir a reprodução social do grupo”. Consideramos pluriativa a família em que pelo menos um dos seus membros esteja ocupado em atividade estranha à agricultura. 19 3 JUSTIFICATIVA O município de Osório apresenta características muito peculiares no que tange o seu desenvolvimento. Sua história está ligada à produção agrícola e, particularmente, à agricultura familiar, em uma região próxima ao litoral e encravada na mata atlântica, fato que sempre contribuiu para que o município tivesse possibilidades de desenvolver múltiplas atividades ligadas ao turismo, ao comércio e a serviços, ao mesmo tempo que vê restrita as atividades agrícolas por questões ambientais. Ao longo do tempo, pode-se destacar a ocorrência de diversos “ciclos” como o da pecuária, da cana de açúcar, da banana e, mais recentemente, da produção de hortigranjeiros. Esses ciclos, na verdade representaram épocas de maior intensificação dessas atividades, sem que deixasse de existir diversificação e a presença de atividades não agrícolas. A comunidade de Aguapés é tipicamente constituída por agricultores familiares que buscam, através da pluriatividade, manterse no meio rural, reflexo talvez de que, nas últimas décadas, o setor de serviços cresceu extraordinariamente, ao mesmo tempo que a sociedade sofreu grandes transformações como, por exemplo, a entrada da mulher no mercado de trabalho. A renda ganha um diferencial em um espaço agrícola e pluriativo em um momento que as cidades deixam de ser alternativas atrativas como eram antigamente, não só devido aos baixos salários, como também ao recrudescimento da violência, do desemprego e da qualidade de vida em geral (BUSTAMANTE, 2001). No ano de 2000 a EMATER/RS-ASCAR promoveu quatro (4) cursos de Desenvolvimento Rural Sustentável com enfoque Agroecológico (DRSA) no município de Osório, cada um deles centrado em uma comunidade diferente. A terceira turma, composta por cinqüenta e três (53) participantes entre técnicos da EMATER/RSASCAR e parcerias (prefeituras, sindicatos de trabalhadores rurais, conselhos municipais de desenvolvimento rural e ONGS), concentrou os trabalhos na comunidade de Aguapés, no período compreendido entre 19/06 e 04/08/2000. O trabalho dessa turma, cujo relatório ainda não está publicado, mas pode ser encontrado junto ao escritório regional de Porto Alegre, identificou uma tipologia basicamente constituída de agricultores familiares, assim apresentada: • familiar de sobrevivência; • familiar de subsistência; • • familiar de mercado e, familiar patronal. Cada tipo compreende diferentes “sub-tipos” com base na principal atividade desenvolvida. Chama a atenção a presença do sub-tipo “aposentado” entre todos os tipos, com exceção do familiar patronal e, o que confere relevância ao estudo proposto, a existência da pluriatividade em todos os tipos, e, praticamente em todos os sub-tipos. do A construção da tipologia seguiu metodologia desenvolvida com a consultoria CIRAD (Centre de Cooperation en Recherche Agronomique pour le Developpement), conforme Relatórios de Capacitação em Sistemas de Produção 1995 e 1996 disponíveis na Biblioteca da EMATER/RS-ASCAR (PEREIRA, 1996), adotada com adaptações pela EMATER/RS-ASCAR. A primeira atividade preconizada por esta metodologia é a realização de uma leitura da paisagem, a nível municipal, que resulta na elaboração do mapa do município com a identificação de “regiões homogêneas". No anexo B, mapa do município de Osório, verifica-se que foram identificadas três regiões 12, conforme se descreve a seguir: a) REGIÃO 1 É onde está situada a localidade de Aguapés. Limita-se ao sul com a rodovia RS 030, a leste com o município de Maquiné, ao norte e a oeste com o município de Caraá. Os principais aspectos sociais observados são a presença de energia elétrica, habitações em alvenaria, madeira e mistas, com poucas melhorias nos arredores, algumas residências em boas condições de habitação e outras abandonadas. Boa infra-estrutura de transportes próprios, caminhões na região de olerícolas e linha de ônibus. As estradas são bem sinalizadas e há alguns trechos de difícil acesso. Existe posto de saúde na localidade da Borússia e no restante da região. Há também 12 Esta regionalização foi elaborada pelos participantes da terceira turma do Curso de Desenvolvimento Sustentável com enfoque Agroecológico no período de 19/06 a 04/08/2000. Outras turmas chegaram a outras regionalizações que não coincidem, necessariamente, com esta aqui apresentada. 22 recolhimento regular de lixo, Centros Comunitários em três localidades, Igrejas, telefones (públicos e particulares), escolas, caixas de água comunitárias (redes), postos de trabalho nas localidades e áreas de lazer como cascatas, canchas de esportes e pista para vôos de asa delta, entre outros. Nos aspectos econômicos essa região apresenta lavouras de banana, cana de açúcar, milho, Asfalto, moradias e comércio, boa infra-estrutura. arroz, olerícolas, criações de suínos e bovinos de corte. A tração animal predomina em parte da região (mais acidentada) e a tração mecanizada é utilizada nas áreas mais planas (mecanizáveis). Outras atividades econômicas são o turismo (Asa Delta e Cascata); Agroindústrias de suínos, de processamento vegetal e a Casa do Mel; pontos de venda de beira de estrada (tendas) com produtos da região e artesanato; comércio da samambaia; reflorestamento com pinus, acácia negra, eucalipto e plátanos; e oferta de serviços, tais como borracharia e oficina de chapeação e pintura. Finalmente, nos aspectos ambientais, a região é uma zona de transição, com a presença de remanescentes da mata Atlântica, inclusive com uma APA (Área de Proteção Ambiental). Em torno de 50% da área é um platô que se encontra devastado e em boa parte ocupado com capoeira e vassouras. O solo está com problemas de erosão devido às práticas inadequadas de manejo, como as queimadas. São solos argilosos e arenosos, com pedregosidade e afloramento de rochas (há uma pedreira para extração de rochas). Também se observa a extração do palmito e da samambaia. b) REGIÃO 2 Limita-se ao norte com a BR 101, com a Serra do Mar e com o município de Maquiné, ao sul com os municípios de Tramandaí e Imbé, a leste com as praias de Atlântida Sul e Xangrilá e, a oeste com a RS 030. Nos aspectos sociais, observa-se boa infraestrutura caracterizada por Escolas, Telefone Público, Eletrificação (monofásica e trifásica), Posto da Turismo e lazer, boa infra-estrutura. 23 Brigada Militar, Posto de Saúde, Centros Comunitários, Igreja, Transporte coletivo e escolar, estradas em boas condições de trafegabilidade, inexistência de subhabitações e reservatórios de água. Nos aspectos econômicos, verifica-se boa estrutura de turismo e lazer representada pela existência de Hotel Fazenda, Pesquepague, Aeroclube, Iate clube, lagoas com balneários, atividades esportivas e camping. Há ainda as atividades agropecuárias em que predomina o arroz, a pecuária de corte e de leite, a caprinocultura, a ovinocultura, uma agroindústria de derivados de leite (Maribo), a produção de mel e o florestamento com Pinus e Eucalipto. Outras atividades econômicas são o comércio de beira de estrada (artesanato, restaurantes, etc.), olaria, exploração de jazidas de areia, pesca artesanal, serraria, fábrica de móveis e esquadrias e exploração imobiliária. Finalmente, nos aspectos ambientais, a região se caracteriza por uma vegetação constituída de campo nativo, capões de matas nativas, banhado e dunas. O relevo é plano e o lençol freático é superficial. Nessa região encontra-se um sistema lacustre importante e a preservação de dunas no litoral. Apesar de existir uma usina de reciclagem de lixo, verifica-se muito lixo em locais inapropriados. Há uma reserva biológica e a construção de diques para contenção de cheias. c) REGIÃO 3 Limita-se ao norte com a BR 101, a leste com a RS 030, ao sul com os municípios de Capivari e Tramandaí e, a oeste com o município de Santo Antônio da Patrulha. Nos aspectos sociais, verifica-se a existência de focos de lixo, estradas vicinais em mau estado de conservação, eletrificação e, na localidade de Passinhos, que é um Distrito, há toda uma infra-estrutura de serviços públicos e privados que, no entanto, não atendem as demais áreas da região. Existem manifestações culturais açorianas. Nos aspectos econômicos, predominam lavouras de irrigado, florestamento arroz com Eucalipto e Pinus e a pecuária de corte extensiva. Além dessas atividades, existem outras, tais como: Topografia plana, pecuária e arroz. criação de ovinos, de eqüinos, fornos de produção de carvão, olericultura em ambiente protegido, apicultura, pesca, agroindústria de arroz, comércio de água para a lavoura de arroz e abatedouro de ovinos. Embora predominem grandes propriedades, nas proximidades da sede do Distrito, há a 24 presença de pequenas unidades familiares de produção de subsistência. Nos aspectos ambientais, a região apresenta topografia plana, com predominância de solos arenosos, pastagens nativas e cultivadas, culturas do arroz e florestamento, pequenas manchas de mata nativa. São áreas com deficiência de drenagem e com lençol freático superficial, onde há o predomínio de ecossistemas aquáticos. Predomínio de um pássaro preto, localmente conhecido como Chupim. Após a leitura da paisagem municipal em nível da localidade, se faz também uma leitura da paisagem que resulta na elaboração do mapa da comunidade, elaboração esta que é feita pelos próprios moradores. Ainda no nível da comunidade, realiza-se uma caminhada transversal e identifica-se o itinerário de desenvolvimento (I.D.) com vistas à elaboração de uma “pré-tipologia”, a qual é confirmada ou modificada em função do itinerário técnico (I.T.), resultando na tipologia dos Sistemas de Produção13 existentes, os quais encontram-se esquematizados e são apresentados no anexo C. Assim, a tipologia resulta das distintas combinações de vários fatores, tais como: terra, mão de obra, bens e capital, renda e atividades econômicas, conforme se descreve a seguir: 3.1 A GRICULTURA FAMILIAR DE SOBREVIVÊNCIA Trata-se de agricultores que possuem área de terra variável, encontrando-se desde terrenos medindo 15 x 30 metros até propriedades com 26 hectares, em geral pouco cultivadas, algumas delas em áreas de preservação ambiental, próprias ou cedidas. A mão de obra utilizada é exclusivamente familiar, sendo que as famílias são compostas, em geral, por 1 a 4 pessoas com idades variadas, existindo desde casais na faixa de 30 a 50 anos até idosos na faixa de 60 a 85 anos e filho(s). A infraestrutura de bens e capital constitui-se basicamente da casa que serve de moradia para a própria família ou, em alguns casos, para terceiros. Em geral a casa é de madeira. Além disso, possuem alguns bens, tais como veículos de passeio (usados), bicicletas, eletrodomésticos, telefone e galpões de madeira. Algumas famílias não informaram atividades sociais e, entre as que informaram, destacam-se freqüentar a Igreja, ir a bailes, pescar, assistir televisão e participar de festas familiares. As atividades econômicas encontradas entre as famílias desse tipo são variadas e caracterizam os “sub-tipos” a seguir sintetizados: 13 Sistema de Produção é a combinação de sistemas de cultivo e/ou criações praticados pelos agricultores de acordo com a disponibilidade dos fatores de produção (força de trabalho, conhecimento técnico, superfície agrícola, equipamentos, capital, etc.). Fazem parte, igualmente, as atividades de transformação e de conservação de produtos vegetais, animais e florestais realizadas dentro dos limites da unidade de produção (Dufumier, 1996). 25 a) aposentados: cuja renda principal é a aposentadoria e que cultivam pequenas áreas para consumo da família; b) prestadores de serviços: vivem de trabalhos eventuais como diaristas, faxinas, etc. e produzem muito pouco para subsistência; c) assalariados: cuja renda principal é de atividades regulares pelas quais recebem salários fixos, tais como garçons e empregadas domésticas e que, a exemplo do sub-tipo anterior, produzem muito pouco para subsistência; d) agricultores: cuja renda principal resulta de eventuais excedentes de produtos agrícolas cultivados para consumo. A renda média mensal informada por estas famílias em julho de 2000 era variável de R$ 70,00 a R$ 680,00. Não havia registro de nenhuma atividade pós colheita, uma vez que a produção basicamente se destina ao consumo da própria família sendo a comercialização muito eventual. 3.2 A GRICULTURA FAMILIAR DE SUBSISTÊNCIA São famílias que possuem áreas de terras cuja extensão é variável entre 4,4 e 46 hectares aproveitáveis para agricultura, inclusive utilizando áreas inadequadas, como matas e encostas de morro (declivosas). A mão de obra, a exemplo da tipologia anterior, é exclusivamente familiar, sendo que a família é composta de 1 a 7 pessoas, casais com idades avançadas e filhos jovens, os quais, em geral, trabalham fora da propriedade. A infra-estrutura de bens e capital é formada pela casa de moradia da família que, em geral, é de alvenaria ou mista, existindo algumas (poucas) de madeira. Além disso, possuem veículos de passeio, micro trator, antena parabólica e eletrodomésticos diversos, tais como fornos de microondas, freezer, geladeiras. e galpões mistos. Outra diferenciação em relação a de sobrevivência é a existência de animais (até 20 bovinos, Agricultura familiar de subsistência – criações melhoram qualidade da alimentação. até 10 suínos e entre 10 e 60 aves), o que contribui para melhorar a qualidade da 26 alimentação e a renda familiar. As principais atividades sociais são freqüentar a Igreja; ir a bailes; assistir televisão; participar de festas familiares; realizar algumas viagens; participar de atividades do Sindicato dos Trabalhadores Rurais, do Clube de Mães, do Posto de Saúde; jogar futebol e produzir plantas medicinais. As principais atividades econômicas são a venda da mão de obra, aposentadorias, vendas de produtos de beleza, feirantes que comercializam pequenas quantidades de carne, olerícolas, peixes, bananas, queijos e leite in natura e agricultores. Foram registrados os seguintes “sub-tipos”: a) aposentado: cuja renda se compõe da(s) aposentadoria(s), complementada com alguma outra atividade (lancheria, por exemplo) ou apoio dos filhos que não residem na propriedade; b) prestador de serviços: vende a mão de obra em atividades diversas, rurais ou urbanas, sem vínculo empregatício. Além disso, eventualmente, tem outras atividades, tais como artesanato e venda de produtos de beleza; c) pescador: cuja renda principal é a pesca e comercialização de peixes, complementada por atividade de fins de semana como “assador” de carne em churrascaria localizada na própria comunidade; d) olericultor: cuja renda principal é da pequena produção de olerícolas para comercialização em feiras e pontos de venda. Pode ser complementada com empregos fora da propriedade. A renda média mensal dessas famílias girava em torno de R$ 150,00 a R$ 1.600,00 em julho de 2000. Várias atividades de pós-colheita são realizadas, tais como feiras, sacolões14, armazenagem de produtos para a futura comercialização ou mesmo para consumo próprio e comercialização de casa em casa, modalidade exercida por aqueles que têm pequenas produções. 14 Sacolões são locais de venda a varejo, onde os produtos em geral são comercializados a preço único, por quilograma, independente do tipo de produto ofertado. 27 3.3 A GRICULTURA FAMILIAR DE MERCADO As famílias enquadradas nessa tipologia possuem atividades voltadas ao mercado. A área de terras é variável desde um terreno com a casa de moradia, até áreas de 48 hectares aproveitáveis para atividades agrícolas, somando-se nessa área os arrendamentos e parcerias. Há registro de utilização de até 5 hectares de áreas da reserva da Mata Atlântica (protegida por Lei). A mão de obra é exclusivamente familiar, sendo a família composta pelo casal com idade na faixa de 20 a 60 anos e mais 2 filhos em média, com idades variáveis entre 12 e 22 anos. O tamanho mais comum da família é 4 membros. No que se refere à infra-estrutura, possuem casa de alvenaria ou de madeira que utilizam para moradia da própria família. Além disso, possuem veículos de passeio, micro trator, caminhão, eletrodomésticos, telefone, galpões, estufas, equipamentos de irrigação, juntas de bois e diversos implementos agrícolas. São pessoas com atividades sociais intensas na comunidade, principalmente em eventos e festividades religiosas. Freqüentam a Igreja, jogam futebol, pescam e jogam bocha. As atividades econômicas principais são Agricultura familiar de mercado – diversificação, produção de cana. a olericultura, a pecuária, a produção de banana, de cana, o artesanato, o comércio (armazém), algum trabalho assalariado e aposentadorias. Os “sub-tipos” identificados são: a) bovinocultor/olericultor: cuja renda principal é oriunda da produção e comercialização de gado de corte em açougues, minimercados e abatedouros da região, além de olerícolas cuja produção é repassada para atravessadores. Complementa esta renda com alguma atividade assalariada da mulher e/ou filhos; b) aposentado/bananicultor/produtor de cana: cuja renda é composta da produção e comercialização da banana, geralmente na CEASA15, em Porto Alegre, em fruteiras ou diretamente ao consumidor no município de Osório. A cana é entregue para atravessadores e parte importante da renda é composta por aposentadoria e trabalho assalariado da mulher e/ou filhos; 15 CEASA – Central de Abastecimento, local onde os produtores comercializam seus produtos diretamente a atacadistas e varejistas. É um órgão vinculado à Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado do Rio Grande do Sul. 28 c) autônomo/mercado: cuja renda é obtida de atividade comercial (armazém) na própria comunidade. Produz muito pouca coisa para consumo da família; d) Olericultor: cuja renda é oriunda da produção e comercialização de olerícolas para o mercado, complementada eventualmente por alguma aposentadoria; e) Artesão: cuja renda é obtida com a produção e venda de artesanato, complementada com atividade assalariada dos filhos. A renda média mensal informada em julho de 2000 era de R$ 608,00 a R$ 2.920,00. As atividades pós-colheita são intensas e fundamentais para essa tipologia, registrando-se feiras livres, vendas para intermediários (atravessadores), sacolões, armazém, tendas à margem da BR 101 e abatedouros. 3.4 A GRICULTURA FAMILIAR PATRONAL São famílias que possuem áreas de terras próprias, variáveis entre 38 e 80 hectares. Eventualmente arrendam outras áreas para complementação das atividades. Utilizam a mão de obra familiar, porém estabelecem parcerias com outros agricultores da localidade, principalmente para a produção de hortigranjeiros. Também contratam mão de obra permanente e temporária. Possuem boa infra-estrutura de bens e capital, constituída pela casa de moradia da família, automóveis, tratores, caminhões, implementos agrícolas, prédio industrial e equipamentos industriais. As atividades sociais citadas são, a exemplo dos demais, freqüentar a Igreja, participar de festas religiosas e da comunidade, da associação de produtores e do clube de mães. Há um agricultor familiar patronal que não reside na propriedade e também não participa de atividades sociais Agricultura familiar patronal – predominam olericolas. na comunidade. As atividades econômicas são a produção, transformação e comercialização de ervas medicinais em outros estados como Santa Catarina, Paraná e Rio de Janeiro, além do Rio Grande do 29 Sul. Também é importante atividade econômica a produção e intermediação de olerícolas. Registraram-se dois “sub-tipos”: a) hortigranjeiro: cuja renda é exclusiva da produção de olerícolas, as quais são colocadas em mercado consolidado e seguro; b) ervas medicinais: cuja renda é composta exclusivamente da produção, industrialização e comercialização de ervas medicinais e chás, também em mercado já consolidado e seguro. A renda média mensal informada em julho de 2000 girava em torno de R$ 30.000,00. As atividades de pós-colheita são absolutamente essenciais para a manutenção dos negócios e se constituem de vendas para Supermercados de Osório, presença nas Feiras em Porto Alegre o ano inteiro e, no caso das ervas medicinais, a presença constante em outros estados visando à comercialização. Para as entrevistas do Curso, foram selecionados 40 agricultores, sendo 15 (37,5%) familiares de sobrevivência, 14 (35%) familiares de subsistência, 9 (22,5%) familiares de mercado e 2 (5%) familiares patronais, observando a proporção verificável na comunidade. Finalmente, para os propósitos deste trabalho, foram escolhidos entre aqueles 40 agricultores, de forma não aleatória, um total de 9 agricultores representando os 4 tipos identificados e, em cujas entrevistas, haviam evidenciado atividades não agrícolas. Dessa forma, foram entrevistados, através de um questionário estruturado, conforme se descreve no item metodologia a seguir, três familiares de sobrevivência, três familiares de subsistência, dois familiares de mercado e 1 familiar patronal, no período de 12 a 27 de agosto de 2002. 30 4 METODOLOGIA Este trabalho tomou como base o relatório, ainda não publicado, referente à terceira turma participante do Curso de Desenvolvimento Rural Sustentável com enfoque Agroecológico (DRSA), realizado pela EMATER/RS-ASCAR em Osório, no período de 19/06 a 04/08/2000, o qual, através da metodologia desenvolvida, identificou e caracterizou uma tipologia composta por quatro (4) diferentes tipos e quinze (15) diferentes sub-tipos de agricultores familiares na comunidade de Aguapés. Nas entrevistas realizadas na época, ficou evidenciado o fenômeno da pluriatividade. Buscamos, junto ao escritório regional da EMATER/RS-ASCAR da região de Porto Alegre, que foi o responsável pela coordenação e realização dos cursos no município de Osório, as informações sistematizadas referentes ao curso, as quais foram utilizadas como fontes de dados e também serviram para a seleção dos agricultores que foram entrevistados no período de 12 a 27 de agosto de 2002. Realizamos uma entrevista com a equipe do escritório municipal da EMATER/RS-ASCAR de Osório para checar a listagem de agricultores a serem entrevistados e colher sugestões visando incorporá-las no questionário a ser aplicado junto aos agricultores. Nessa oportunidade também colhemos informações objetivando esclarecer dúvidas em relação à delimitação geográfica da comunidade de Aguapés e obtivemos a listagem de todos os moradores da comunidade que havia sido elaborada para fins de apoio ao Curso de DRSA em 2000. Elaboramos um questionário, que está apresentado no anexo D, chamado “Roteiro para entrevistas a campo na localidade de Aguapés, com vistas à monografia sobre pluriatividade”, o qual foi aplicado em entrevistas realizadas no período de 12 a 27 de agosto de 2002, abrangendo todos os quatro tipos identificados e dirigido às famílias que praticavam a pluriatividade, excluindo aquelas em que a única atividade era a agricultura. O número de famílias dedicada exclusivamente à agricultura não foi possível precisar, mas certamente representam bem menos de 40% das 146 famílias da comunidade, considerando o levantamento feito pela equipe do escritório local da EMATER/RS-ASCAR que encontrou 60 famílias de “agricultores”, considerando ainda que nestas também há pluriatividade. Foram entrevistados nove agricultores, sendo três pertencentes ao tipo “familiar de sobrevivência”, três do tipo “familiar de subsistência”, dois do tipo “familiar de mercado” e 1 do tipo “familiar patronal”, de acordo com a proporção verificável na comunidade de Aguapés. Utilizamos como fontes de consultas para obtenção de dados sobre PIB, VAB e distribuição por setores da economia, bem como dados sobre emprego e ISMA, a Fundação de Economia e Estatística (FEE). Além disso, utilizamos o IBGE para obtenção de dados referentes à produção primária do município de Osório. Finalmente, recorremos à Biblioteca central da EMATER/RS-ASCAR em Porto Alegre para consultar a bibliografia que forneceu o suporte teórico, juntamente com a consulta aos textos do Curso de Capacitação para Técnicos da EMATER/RSASCAR “Agricultura Familiar e Desenvolvimento Rural” patrocinado pela EMATER/RSASCAR em conjunto com o CPDA da UFRRJ e a REDCAPA. 32 5 RESULTADOS Os resultados da pesquisa foram agrupados por tipo para fins de análise e serão apresentados a seguir. 5.1 FAMILIARES DE SOBREVIVÊNCIA Analisando a tabela 1, observa-se a enorme importância da renda das atividades não agrícolas (RANA) para a estratégia de reprodução familiar dos agricultores familiares de sobrevivência, uma vez que elas representam 76% da renda bruta total anual. As razões apontadas por estas famílias para o desenvolvimento de atividades não agrícolas se relacionam à escassez de recursos, principalmente no que se refere à terra que, além de pouca (9 hectares em média), em geral pertence a vários herdeiros. Desta forma, o rendimento obtido com atividades agrícolas (16% da RBT anual) é insuficiente para assegurar a reprodução familiar. Em geral, os agricultores familiares de sobrevivência são famílias compostas pelo casal e 3 filhos, em média, residentes na propriedade, que estudam e trabalham fora. A idade média do homem, chefe da família, é de 46 anos e da mulher 37 anos. Tabela 1 - Área e renda16 das propriedades dos agricultores familiares de sobrevivência – Osório, agosto de 2002. Família Área (hectares Situação 1 15 2 RBT anual (A) RAA (B) RANA (C) Aposent. (D) R$ % R$ % b/a R$ % C/A R$ % D/A Do pai 8.400 100 2.400 28,57 6.000 71,43 Zero Zero 11 Da sogra 7.200 100 2.400 33,3 2.400 33,3 2.400 33,3 3 01 Própria 14.400 100 Zero Zero 14.400 100 Zero Zero Médias 09 - 10.000 100 1.600 16 7.600 76 800 8 Fonte: Dados dessa pesquisa. Pela tabela 2, observa-se que 73,3% da força de trabalho das famílias está em idade produtiva (11 até 60 anos), sendo que 46,67% encontram-se na faixa de 21 a 60 anos. Outra observação importante é que, em média, 60% das pessoas residentes de famílias de agricultores de sobrevivência exercem atividades não agrícolas, sendo que a maioria delas (53,3%) se dedicam a atividades não agrícolas em tempo total. Tabela 2 - Composição da força de trabalho residente dos agricultores familiares de sobrevivência por faixa etária e por tempo com atividades não agrícolas – Osório, agosto de 2002. 5 Nº TOTAL 15 100 - - - - - - 1,3 4 26,7 1 2 1 1,3 4 26,7 1 - 1 0,66 2 13,3 31 – 40 anos 1 1 - 0,66 2 13,3 41 – 50 anos - 1 1 0,66 2 13,3 51 – 60 anos - - 1 0,33 1 6,7 > 60 anos - - - Zero Zero Zero Nº pessoas c/atividades não agrícolas tempo total 1 3 4 2,66 8 53,3 Nº pessoas c/atividades não agrícola tempo parcial 1 - - 0,33 1 6,7 PESSOAS / FAMÍLIAS FAM.1 FAM.2 FAM. 3 Nº total de residentes 7 4 4 Nº pessoas/faixa etária - - 0 – 10 anos 4 11 – 20 anos 21 – 30 anos MÉDIA % Fonte: Dados dessa pesquisa. 16 As informações sobre as rendas (Renda Bruta Total (RBT), Renda de atividades agrícolas (RAA), Renda de atividades não agrícolas (RANA) e Rendas de aposentadorias ) foram fornecidas pelos próprios agricultores em valores aproximados, por ocasião das entrevistas. 34 As atividades não agrícolas predominantes são artesanato, serviços gerais, faxinas, ajudantes de cozinha e empregados em fábricas ou em outras propriedades rurais. Todas elas sem grandes exigências em termos de qualificação e escolaridade. A renda das atividades não agrícolas é utilizada pela família basicamente para ajudar na subsistência familiar e, eventualmente, na formação de uma pequena poupança. Essa poupança objetiva atender gastos inesperados com a saúde e, mais eventualmente ainda, investir na qualidade de vida da família, através da compra de um carro usado, sonho ainda bastante remoto dado o pequeno montante disponível e possível de poupar. Em relação aos “projetos de futuro” as famílias entrevistadas são bastante diferenciadas. Duas delas pretendem manter a propriedade, sendo que uma projeta continuar produzindo produtos agrícolas e a outra pretende manter a propriedade apenas como local para moradia, se dedicando exclusivamente para outras atividades. A terceira família pretende vender a propriedade e abandonar a agricultura. Para essas famílias a renda não agrícola (RANA) é considerada fundamental, pois sem ela, certamente, não conseguiriam realizar seu projeto de futuro. Apenas a família que pretende continuar com a atividade agrícola considerou a RANA como sendo de “pouca importância” para o seu projeto futuro. Por fim, analisando o processo de tomada de decisões sobre quem vai exercer atividades agrícolas e quem vai se dedicar a outras atividades, observa-se que, em geral, a decisão é compartilhada entre o pai e a mãe, havendo casos em que a mãe decide sozinha e, pelo menos um caso em que o filho (homem) impôs o seu gosto pessoal pela agricultura e decidiu sozinho permanecer na atividade. 5.2 FAMILIARES DE SUBSISTÊNCIA A tabela 3 se refere à tipologia “Agricultores Familiares de Subsistência”. Analisando os dados, percebe-se que, para essas famílias, a pluriatividade tem um significado importante considerando que a RANA representa, em média, 34,77% da RBT anual. Além disso, surge também como uma renda de importância relativa significativa as aposentadorias rurais e algumas aposentadorias de atividades não agrícolas, que somadas, representam, em média, 44,97% da RBT anual. 35 Tabela 3 - Área e renda das propriedades dos agricultores familiares de subsistência – Osório, agosto de 2002. Família Área Situação (hectares) RBT anual (A) RAA (B) RANA (C) 1 20 Do pai R$ 19.200 % 100 R$ 3.600 2 17 Própria 30.000 100 6.000 20 12.000 40 12.000 40 3 46 Própria 13.000 100 3.000 23,08 1.828 14,06 8.172 62,86 - 20.733 100 4.200 20,26 7.209 34,77 9.324 44,97 Médias 27,7 % B/A 18,75 R$ 7.800 Aposent. (D) % C/A 40,62 R$ 7.800 % D/A 40,62 Fonte: Dados dessa pesquisa. As famílias desse tipo apontam, entre as razões que as levaram a desenvolver atividades não agrícolas, principalmente a busca de melhoria na renda para a manutenção familiar e o desejo de obter algum recurso financeiro para investir na atividade agrícola. A penosidade do trabalho agrícola e a saída dos filhos para estudar fora também foram lembradas como razões para a realização de atividades não agrícolas. Comparando os dados com aqueles verificados na tipologia “Agricultores Familiares de Sobrevivência” anteriormente analisados, nota-se que os de subsistência têm propriedades cuja área média de terras é maior (27,7 hectares) e, em geral, própria. Observa-se também, com base na tabela 4, que a força de trabalho das pessoas em idade produtiva, na faixa de 11 a 60 anos, é ligeiramente menor (71,43% contra 73,3%), embora na faixa etária de 21 a 60 anos exista o mesmo percentual, ou seja, 46,67%. Na comparação entre os dois tipos, constata-se ainda uma RBT anual, em média, mais elevada entre os de subsistência que entre os de sobrevivência (R$ 20.733,00 – tabela 3 – contra R$ 10.000,00 – tabela 1). Verifica-se, portanto, evidências de melhores condições de produção agrícola entre os de subsistência, fato que encontra respaldo ao cotejarmos as rendas de atividades agrícolas, tanto em números absolutos quanto relativos, os quais mostram, para os de sobrevivência, uma RAA anual média de R$ 1.600,00, representando 16% da RBT anual e, para os de subsistência, uma RAA anual média de R$ 4.200,00, que representa 20,26% da sua RBT anual. Pela tabela 4 é possível observar que 35,71% das pessoas estão ocupadas em atividades não agrícolas em tempo total, valor bem menor se comparado aos 53,33% das pessoas das famílias de sobrevivência, embora deva ser ressaltado que o percentual de pessoas em atividades não agrícolas seja praticamente o mesmo nos dois casos, ou seja, 57,15% e 60,00%, respectivamente. 36 As atividades não agrícolas predominantes entre os familiares de subsistência são artesanato, serviços gerais, comerciantes proprietários de pequenos negócios na comunidade, empregados no comércio e motoristas. Em geral, são atividades que exigem um pouco mais qualificação e habilidades no relacionamento humano. Ao se analisar a destinação da RANA, observa-se que 48,76% dela é utilizada para investir na propriedade procurando melhorar as condições de produção agrícola, 12,87% é utilizada para poupança e somente 5,5% para melhorar a qualidade de vida da família (automóvel, viagens, eletrodomésticos, etc.). Este item, melhoria da qualidade de vida da família, embora tenha sido apontado como uma das razões para a pluriatividade, paradoxalmente, parece estar associado à melhoria da renda das atividades agrícolas. O “Projeto de Futuro” dessas famílias é um só e se traduz em manter a propriedade como local de produção agrícola. Todos consideram a pluriatividade fundamental para a realização deste futuro, uma vez que, sem a RANA, não conseguiriam realizá-lo. Tabela 4 - Composição da força de trabalho residente dos agricultores familiares de subsistência por faixa etária e por tempo com atividades não agrícolas – Osório, agosto de 2002. Famílias Nº total de residentes Fam. 1 Fam. 2 Fam. 3 6 5 3 Média 4,67 Nº total 14 % 100 Nº pessoas/faixa etária - - - - - - 0 – 10 anos 2 - - 0,66 2 14,28 11 – 20 anos - 2 - 0,66 2 14,29 21 – 30 anos 2 1 - 1,00 3 21,42 31 – 40 anos - - 1 0,33 1 7,14 41 – 50 anos - 1 - 0,33 1 7,14 51 – 60 anos 2 1 - 1,00 3 21,43 > 60 anos - - 2 0,66 2 14,28 Nº pessoas c/atividades não agrícolas tempo total 2 2 1 1,67 5 35,71 Nº pessoas c/atividades não agrícolas tempo parcial 1 2 - 1,00 3 21,43 Fonte: Dados dessa pesquisa. 37 5.3 FAMILIARES DE MERCADO Analisando a tabela 5 percebe-se que a RANA tem um significado importante na estratégia de reprodução familiar, representando 45,96% da RBT anual. Por outro lado, verifica-se também igual significado para as RAA, revelando uma certa consolidação e especialização da produção. É importante ressaltar que as entrevistas foram dirigidas a produtores que desenvolvem atividades não agrícolas e que, nesta tipologia, representam 44,44% do total dos familiares de mercado. O restante, ou seja, a maioria (55,56%) vivem exclusivamente de atividades agrícolas. Tabela 5 - Área e renda das propriedades dos agricultores familiares de mercado – Osório, agosto de 2002. ÁREA (hectares) SITUAÇÃO 1 08 2 14 MÉDIAS 11 FAMÍLIA RBT anual (A) R$ % Própria 10.200 Própria 18.000 - 14.100 RAA (B) RANA (C) APOSENT. (D) R$ % B/A R$ % C/A R$ % D/A 100 1.800 17,64 6.000 58,82 2.400 23,53 100 11.040 61,33 6.960 38,67 Zero Zero 100 6.420 45,53 6.480 45,96 1.200 8,50 Fonte: Dados dessa pesquisa. As famílias apontam como razões para a realização de atividades não agrícolas a penosidade do trabalho agrícola, que é rechaçado, em função disto, pelos jovens que preferem outras atividades. Também foi apontada a necessidade de independência financeira da mulher, mostrando com isso que, pelo menos no que se refere aos recursos oriundos de atividades agrícolas, a gerência dos mesmos ainda é do chefe da família (em geral, o homem). A família é constituída pelo casal com idade entre 44 e 67 anos e, em média, 3 filhos residentes na propriedade, mais um ou dois filhos, em geral casados, que saíram da propriedade e da atividade agrícola. Entre os que permanecem na propriedade, a composição da força de trabalho mostrada na tabela 6 revela que 81,8% estão na faixa etária de 11 a 60 anos, considerada produtiva, e 72,7% deles estão na faixa de 21 a 60 anos. Do total da força de trabalho disponível na propriedade, 63,64% exercem atividades não agrícolas, sendo a maioria (45,45%) em tempo total. As principais atividades não agrícolas exercidas são motorista, zelador (Prefeitura), auxiliar de escritório, merendeira (Prefeitura), diarista e funcionário público (não especificado). Ocupações que requerem algum preparo/qualificação profissional e nível médio de escolaridade. 38 A utilização das rendas de atividades não agrícolas pelos familiares de mercado tem a seguinte distribuição: 55% destinam-se para investir na produção agrícola, 20% para melhorar a qualidade de vida da família e 20% para pagar escola para os filhos, em geral escola não agrícola (registrou-se um caso de curso superior em educação física). O restante é usado na manutenção familiar, não se registrando formação de poupança. Tabela 6 – Composição da força de trabalho residente dos agricultores familiares de mercado por faixa etária e por tempo com atividades não agrícolas – Osório, agosto de 2002. FAMÍLIAS/ PESSOAS Nº total de residentes Nº pessoas/faixa etária 0 – 10 anos 11 – 20 anos 21 – 30 anos 31 – 40 anos 41 – 50 anos 51 – 60 anos > 60 anos Nº pessoas c/atividades não agrícolas tempo total Nº pessoas c/atividades não agrícolas tempo parcial FAM.1 FAM.2 6 1 1 2 1 1 5 1 2 2 - 4 - MÉDIA Nº TOTAL % 5,5 0,5 0,5 1,5 1,0 1,0 0,5 0,5 11 1 1 3 2 2 1 1 100 9,09 9,09 27,27 18,18 18,18 9,09 9,09 1 2,5 5 45,45 2 1,00 2 18,18 Fonte: Dados dessa pesquisa. Os projetos para o futuro dessas famílias, a exemplo dos familiares de subsistência, são de manter a propriedade como um local de produção agrícola. Elas consideram as RANA muito importantes para viabilizar tais projetos. A tomada de decisão sobre quem vai exercer atividades não agrícolas, em geral, é exercido pela família toda, no entanto, no caso em que a mulher buscava independência financeira, a decisão foi tomada exclusivamente por ela, sendo acatada pelos demais familiares. 5.4 FAMILIAR PATRONAL Na comunidade de Aguapés foram registradas duas famílias nesta tipologia, sendo que uma delas se dedica a produção e comercialização de olerícolas e outra a produção, industrialização e comercialização de ervas medicinais. Para este trabalho, 39 entrevistamos e utilizamos dados do produtor de olerícolas, cuja área total é de 38 hectares, sendo 23 próprios e 15 arrendados. A RBT anual é elevada (R$360.000,00) e obtida com as atividades agrícolas na produção de olerícolas na área própria, na área arrendada e através de parcerias, que são feitas tanto para produção na área própria, onde o parceiro entra com a mão de obra e o proprietário com a terra e os insumos, quanto para produção na área do parceiro (entra com a terra), onde o agricultor familiar patronal entra com os insumos. Além disso, a RBT anual é formada também pela atividade não agrícola de comercialização da produção. O agricultor comercializa os produtos direto para supermercados e sacolão em Osório e participa em Feiras Livres semanais em Porto Alegre. Não foi possível separar a renda das atividades agrícolas da renda das atividades não agrícolas. A força de trabalho familiar é constituída por 6 pessoas, todas em idade produtiva, sendo o agricultor (tempo integral na produção) e seu irmão (mais dedicado a comercialização) com idades de 55 e 46 anos, respectivamente, além dos 4 filhos, sendo 2 na faixa de 11 a 20 anos que estudam e ajudam na produção, 1 na faixa de 21 a 30 anos e 1 na faixa de 31 a 40 anos. Há 2 empregados permanentes, 3 parceiros que produzem na área da família e 4 parcerias com outros agricultores da comunidade que plantam em suas áreas próprias. A principal razão para a atividade não agrícola apresentada pela família é a garantia de escoamento da produção de forma direta, sem intermediários, procurando melhorar a renda e aumentar os lucros e, consequentemente, a qualidade de vida da família. A RANA é utilizada, em sua maior parte, para investir na infra-estrutura de produção e de comercialização (possuem 2 tratores, 2 caminhões, estufas, equipamentos de irrigação, etc.), uma vez que são produtores altamente tecnificados. Além disso, investem na melhoria da qualidade de vida da família (cada um tem seu próprio automóvel, por exemplo), mantendo um bom padrão de vida. Parte significativa da renda se destina ao custeio das atividades cujo custo, estimado pelo técnico da EMATER/RS que lhes dá assistência técnica, é da ordem de 60 – 65% da RBT anual. O “projeto de futuro” da família é adquirir ou arrendar mais terras na própria comunidade de Aguapés ou no município vizinho de Maquiné. Para aumentar a produção agrícola. Para este objetivo a RANA é considerada fundamental, uma vez que sem ela a concretização desse projeto seria impossível. A decisão de desenvolver atividades não agrícolas foi tomada em conjunto por toda a família. 40 6 CONSIDERAÇÕES FINAIS Os dados disponíveis evidenciaram, na comunidade de Aguapés, uma realidade que vem sendo apontada por vários autores e que está bem caracterizada no trabalho de Graziano, Del Grossi e Campanhola (2002), em que eles concluem que há um “novo rural” brasileiro, o qual, a partir de meados dos anos 80, apresenta: a) uma agropecuária moderna, baseada em commodities e intimamente ligada às agroindústrias que, no caso de Aguapés, o que se situa mais próximo disso é a olericultura tecnificada; b) um conjunto de atividades não agrícolas, impulsionadas por demandas urbanas por bens e serviços, ligadas à moradia, ao lazer e as várias atividades industriais e de prestação de serviços que, no caso de Aguapés se verifica nos diferentes tipos (motoristas, faxineiras, empregados em indústrias, comércio, empreendimentos turísticos, diaristas, artesãos, etc.), associadas freqüentemente, embora não exclusivamente às atividades agrícolas de subsistência; c) um conjunto de “novas” atividades agropecuárias impulsionadas por “nichos” especiais de mercados que, em Aguapés, se encontra tanto na atividade extrativista de samambaias visando atender floriculturas, especialmente do centro do País, quanto na produção e comercialização de ervas medicinais. Os dados revelam que, efetivamente há impactos significativos e diferenciados das atividades não agrícolas sobre a composição da renda familiar em todos os tipos identificados, representando 76% da RBT anual para os Agricultores Familiares de sobrevivência, 34,77% para os Agricultores Familiares de subsistência, 45,96% para os Agricultores Familiares de mercado e um impacto importante, porém difícil de quantificar, para os Agricultores Familiares patronal. Os significados da RANA para os diferentes tipos podem ser avaliados tanto pelos motivos apresentados pelas famílias para a busca de atividades não agrícolas, quanto pela destinação destes recursos tendo em vista os “projetos de futuro” das mesmas e sua importância para a concretização de tais projetos. Desta forma, para os Familiares de sobrevivência, a RANA significa uma alternativa para a sua reprodução social, considerando que há escassez do recurso terra e também o número relativamente elevado de herdeiros. Esta renda é suficiente apenas para a subsistência da família e, muito eventualmente, para formar uma pequena poupança destinada, em geral, a ser consumida em situações emergenciais de saúde. A agricultura não é projeto destas famílias, que sonham em manter a propriedade como um local de moradia ou vendê-la e mudar para a cidade. Para os Familiares de subsistência, a RANA significa a possibilidade de obtenção de algum recurso para investir na produção agrícola e melhorar a renda para a manutenção familiar, diminuindo a necessidade de crédito ou mesmo evitando esta dependência (cara e praticamente inacessível). O projeto de futuro dessas famílias é manter a propriedade como um local de produção agrícola e, nesse sentido, considera a RANA imprescindível, pois sem ela o projeto não se realiza. Para os Familiares de mercado, a RANA significa a possibilidade de investir na melhoria da produção agrícola, a exemplo dos subsistência, porém, neste caso, se observa uma produção mais tecnificada. Além disso, significa também a independência financeira de indivíduos da família, notadamente da mulher, revelando, desta forma, que há uma forte concentração gerencial da propriedade e da renda na figura do homem, chefe da família. Há ainda a preocupação com a escolaridade dos filhos, sendo parte desta renda destinada ao custeio dos estudos. O projeto de futuro da família é manter a propriedade (se possível adquirindo mais terras) como um local de produção, sendo a RANA considerada muito importante, embora não fundamental, para a realização deste projeto. Por fim, para a Familiar patronal a RANA significa a possibilidade de aumentar os lucros e expandir a atividade agrícola. Esta renda é integralmente aplicada na infra-estrutura de produção e na melhoria das condições de vida da família. O projeto de futuro é adquirir mais áreas de terras, viabilizando aumento da produção e, para isto, consideram a RANA fundamental. 42 O município de Osório não pode ser caracterizado como sendo um município de economia agrícola visto que, mais de 80% do seu VAB é oriundo do setor de serviços, conforme se verifica através dos dados constantes na apresentação deste trabalho. Esse fato, cotejado com os resultados da pesquisa realizada na comunidade de Aguapés, evidencia a necessidade de um exame mais conjuntural da realidade municipal, inserindo o setor agropecuário em um contexto mais amplo onde é recomendável que as políticas públicas municipais estejam voltadas para a geração de oportunidades de emprego e renda em atividades não agrícolas, inclusive no meio rural. A implementação de tais políticas implica, necessariamente, mudanças na visão tradicional sobre o meio rural. É preciso considerar a complexidade do “rural” que, cada vez mais, é um local onde também se pratica a agricultura e onde é cada vez maior o contingente de pessoas que buscam e se dedicam às atividades não agrícolas como forma de sobrevivência e melhoria na qualidade de vida, conforme ficou evidenciado nos resultados da pesquisa de campo. Assim, as políticas públicas municipais deverão levar em conta a existência de diferentes tipos de agricultores e a forte realidade da pluriatividade permeando todos os tipos, com impactos diferentes para cada um deles. Políticas públicas eficazes serão aquelas que oferecerem alternativas diferenciadas e adequadas às necessidades e projetos de futuro dos diferentes tipos. Apenas para ilustrar, poderíamos citar, por exemplo, uma política de capacitação de mão de obra em atividades não agrícolas voltada prioritariamente aos agricultores familiares de sobrevivência, ou então uma política de crédito agrícola em condições adequadas aos agricultores familiares de subsistência, ou ainda políticas de incentivo a inovações tecnológicas junto com um programa de capacitação voltado aos agricultores familiares de mercado, etc. Uma alternativa interessante e que vem sendo praticada de forma incipiente ainda no município de Osório e em outros municípios é a implementação de um Programa de Turismo Rural que promova a inclusão das famílias residentes no meio rural através da valorização dos costumes e cultura local, diferenciado, portanto, de iniciativas tradicionais nessa área ligadas à promoção de eventos ou grandes empreendimentos, os quais, via de regra, excluem a população local dos benefícios gerados. Um programa bem organizado poderia promover roteiros por propriedades locais, estimular pousadas e serviços de alimentação, valorizando a culinária local, identificar pontos com atrativos turísticos existentes no município, etc. Em relação ao serviço de extensão rural (EMATER/RS-ASCAR) o trabalho evidencia que é recomendável dar prosseguimento às ações desencadeadas a partir do DRSA, incorporando aos seus planos de trabalho a realidade da pluriatividade. Isto significa, além da organização de estratégias diferenciadas de acordo com o tipo de 43 agricultor assistido, também a realização de ações específicas para cada público. Em alguns casos o apoio maior da equipe deverá ser na tecnologia de produção agrícola, como é o caso dos agricultores familiares de mercado, por exemplo. Em outros casos, a ênfase terá que ser na organização e na capacitação para atividades não agrícolas, identificando quais serviços são mais demandados e, portanto, onde é necessária mão de obra mais qualificada. Poderia-se, inclusive, nesses casos, pensar na criação de uma cooperativa de prestação de serviços ou outra forma que permitisse aos agricultores melhorar a sua capacidade de interlocução e de atendimento aos demandantes. Uma outra ação importante seria no sentido de promover a melhoria na qualidade e diversidade da alimentação para o auto consumo da família, voltada prioritariamente para os agricultores de sobrevivência e, em menor grau, para os de subsistência, como forma não só de melhorar a qualidade nutricional da família, mas também, indiretamente, melhorar a renda. Enfim, não é o propósito desse trabalho apresentar sugestões de políticas públicas ou de ações para o serviço de extensão. O objetivo foi entender a nova realidade no meio rural, traduzida pelo fenômeno da pluriatividade, e avaliar qual o impacto disso sobre as famílias residentes no meio rural. Este fenômeno não é novo e vem sendo chamado por diversos autores em nível de Brasil, de o “novo rural”, de acordo com Grazziano, Del Grossi e Campanhola (2002). A pesquisa na comunidade de Aguapés evidenciou essa realidade e mostrou que ela é cada vez mais distanciada daquela de alguns anos atrás, em que o meio rural era considerado como sinônimo de local de produção agropecuária e os agricultores eram considerados “verdadeiros agricultores”, no sentido de que viviam exclusivamente das atividades agrícolas. Isto, inclusive, norteou políticas públicas importantes como o PRONAF, por exemplo, as quais, por serem assentadas sobre este viés, acabaram por excluir um enorme contingente de famílias que não atendiam aos critérios de classificação do Programa. Dessa forma, acreditamos que esse trabalho, apesar de suas limitações, possa contribuir para a melhor compreensão da realidade do município de Osório e para a discussão e implementação de políticas públicas municipais eficazes no atendimento às necessidades decorrentes da “nova” realidade. 44 REFERÊNCIAS BUSTAMANTE, João Francisco Cortes. A evolução da agricultura familiar e a pluriatividade .2001. 102 f. Monografia de conclusão do curso de graduação Ciências Econômicas (Bacharel)-Faculdade de Ciências Econômicas, UFRGS, julho 2001. CARNEIRO, Maria José. Camponeses, agricultores e pluriatividade. Rio de Janeiro: Contra Capa Livraria, 1998. CARNEIRO, Maria José. “Agricultores Familiares e Pluriatividade: tipologias e políticas”. In CARVALHO COSTA, L. F.; BRUNO, R.; MOREIRA, R. J. Mundo rural e Tempo Presente . Rio de Janeiro: Mauad, 1999. CARNEIRO, Maria José. Ruralidade: novas identidades em construção. Estudos, Sociedade e Agricultura, Rio de Janeiro, n. 11, p.53 – 75, out. 1998. DELGADO, Guilherme e CARDOSO JR., José Celso. Principais resultados da pesquisa domiciliar sobre a Previdência Rural na região sul do Brasil. In: PROJETO de avaliação sócio econômica da Previdência Social Rural. Brasília: IPEA, 2000. GRAZIANO DA SILVA, José, DEL GROSSI, Mauro e CAMPANHOLA, Clayton. O que há de realmente novo no rural brasileiro. Cadernos de Ciência e Tecnologia, Brasilia, v.19, n. 1, p. 37-67, jan./abr. 2002. GRAZIANO DA SILVA, José; CAMPANHOLA, Clayton. O novo rural brasileiro, uma análise nacional e regional. Jaguariúna, EMBRAPA; Campinas: UNICAMP, 2000. PALMEIRA, Moacir; LEITE, Sérgio. Debates econômicos, processos sociais e lutas políticas: reflexões sobre a questão agrária. Rio de Janeiro: CPDA/UFRRJ, 1997. (Debates CPDA, 1) PEREIRA, M.N., ANNONI, A.M.; BALDASSO, N.A.; RIBEIRO A., PINHEIRO MACHADO NETO, D.; SAUTIER D. Relatório da Capacitação em Sistemas de Produção: Tupanciretã período 02 a 13 de setembro de 1996. Porto Alegre: EMATERRS, 1997. 138 p. PEREIRA, M.N. (Coord.) et al. Relatório da capacitação em sistemas de produção: período 10 a 21 de junho de 1996. Porto Alegre: EMATER-RS, 1996. 142p. PEREIRA, M.N. (Coord.) et al. Relatório da capacitação em diagnóstico rápido em sistemas de produção: versão preliminar – período 06 de novembro a 17 de novembro de 1995. Porto Alegre: EMATER-RS, 1996. 85p. SACHS, Ignacy. Brasil rural: da redescoberta à invenção”. Estudos Avançados, São Paulo v.15, n. 43, p. 75 – 82, set./dez. 2001. SCHNEIDER, Sérgio. A pluriatividade como estratégia de reprodução social da agricultura familiar no sul do Brasil. Estudos, Sociedade e Agricultura. Rio de Janeiro. n.16, p. 164 – 184, abr. 2001. TEDESCO, João Carlos. Terra, trabalho e família: racionalidade produtiva e ethos camponês. Passo Fundo: EDIUPF, 1999. 46 ANEXOS ANEXO A - MAPA REGIONAL PORTO ALEGRE-EMATER/RS-ASCAR. Regional Porto Alegre ANEXO B - MAPA MUNICÍPIO DE OSÓRIO – RS. ANEXO C - CARACTERIZAÇÃO DOS DIFERENTES SISTEMAS DE PRODUÇÃO. SISTEMA DE PRODUÇÃO DO A GRICULTOR FAMILIAR DE SOBREVIVÊNCIA Hortaliças Aposentadorias Luz/gás Saúde Pe. animais Assalariado/diarista Alimentos Vestuário Família Educação SISTEMA DE PRODUÇÃO DO A GRICULTOR FAMILIAR DE SUBSISTÊNCIA INSS $+ APOSENTADO PREST. SERVIÇO ALIMENTAÇÃO $+ $ $ $- $- NA COMUNIDADE (SÍTIOS, RESTAURANTES ...) SAÚDE PRODUÇÃO CRIAÇÕES Suínos, ovos, leite, queijo - Consumo - Poupança - Mercado $- PRODUÇÃO CULTURAS Hortaliças, feijão, milho, mandioca - Consumo - Mercado CULTURAS Hortaliças, cana, aipim - Consumo - Mercado CRIAÇÕES Suínos - Consumo - Mercado SISTEMA DE PRODUÇÃO DO A GRICULTOR FAMILIAR DE MERCADO M ECANIZAÇÃO M ÃO-DE-OBRA EMBALAGENS T RANSPORTE INSUMOS OLERICULTURA AUTO CONSUMO OUTROS PRODUTORES Transformação ATRAVESSADOR FEIRA LIVRE VAREJO SUPERMERCADO SACOLÃO CONSUMIDOR HOTÉIS RESTAURANTES FRUTEIRAS SISTEMA DE PRODUÇÃO DO A GRICULTOR FAMILIAR PATRONAL MERCADO - INSUMOS TERRA ARRENDADA LAURO GAYER TERRA PRÓPRIA M. O PRÓPRIA HORTIGRANJEIROS M.O TERCEIRIZADA FOLHOSAS T OMATE BULBOS RAÍZES SOBRAS A UTO CONSUMO Mercado DIRETO CONSUMIDOR SUPERMERCADOS SACOLÕES ANEXO D – ROTEIRO PARA ENTREVISTAS A CAMPO NA LOCALIDADE DE AGUAPÉS, COM VISTAS À MONOGRAFIA SOBRE PLURIATIVIDADE. Roteiro para entrevistas a campo na localidade de aguapés, com vistas à monografia sobre pluriatividade. Elaboração: Azambuja, em 04/07/02. Dados gerais sobre a família: Nome Idade Relação 17 familiar Mora na propriedade Atividade não 18 agr. tempo total Atividade não agr. tempo 19 parcial Qual(is) é(são) a(s) outra(s) atividade(s) e onde ela(s) se realiza(m)? Atividade Na propriedade Na comunidade de Aguapés Em outra comunidade rural Na cidade Porque a família decidiu realizar outras atividades além da agricultura? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Como a família decide quem vai exercer outras atividades, e quem ficará na agricultura? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ continua... 17 18 19 Assinalar se é chefe da família e qual a relação com o chefe da família: esposa(o), pai, mãe, sogro(a), filho(a), irmão(ã), etc. Tempo total significa todo o ano e todos os dias úteis em atividades não agrícolas. Assinalar quantos dias por ano executa atividade não agrícola, e se é só no verão. continuação... O pai decide sozinho? A mãe decide sozinha? O pai e a mão decidem juntos? A família toda decide junto? O(a) filho(a) decide sozinho(a)? 20 Renda total (R$) Quanto é de atividades agrícolas (R$) Quanto é de atividades não agrícolas (R$) Qual a finalidade (o uso) da renda obtida de atividades não agrícolas? Ajudar na subsistência somente (alimentação, roupas, remédios, etc.) Ajudar na subsistência e também outras coisas, como, por exemplo: Formar poupança (para que finalidade?) Pagar escola p/filhos. agrícola ( Investir na propriedade, na produção (máquinas e equipamentos, terras, construções e benfeitorias, etc.) Investir na qualidade de vida da família (automóvel, viagens, eletrodomésticos, etc.) Investir em alguma coisa na cidade (terreno, casa, apartamento, comércio, etc.) ) outra ( ) Qual é a “idéia” de futuro da família? § § § § § Manter a propriedade e continuar produzindo? Manter a propriedade como um lugar para morar? Manter a propriedade como um lugar de lazer? Comprar mais terras para aumentar a produção? Vender a propriedade e abandonar a agricultura? ( ( ( ( ( ) ) ) ) ) Dentro desta idéia de futuro, qual é a importância da renda obtida com as atividades não agrícolas? Nenhuma importância, porque só as atividades agrícolas permitiriam realizar o futuro idealizado? ( ) § Pouca importância, porque a maior parte da renda é de atividades agrícolas? ( ) § Fundamental, porque sem as atividades não agrícolas seria impossível realizar o futuro idealizado? ( ). § 20 Considerar todas as atividades não agrícolas que compõe a renda familiar e, também todas as atividades agrícolas de todas as pessoas da família que trabalham. 62 PUBLICAÇÕES DA SÉRIE REALIDADE RURAL Vol. 1 O setor Primário do Rio Grande do Sul - Diagnóstico e Perspectivas Sócio-Econômicas (Resumo Geral). – Publicado em 1991. Vol. 2 O Setor Primário do Rio Grande do Sul - Diagnóstico e Perspectivas Sócio-Econômicas (Análises Setoriais). – Publicado em 1991. O Setor Primário do Rio Grande do Sul - Diagnóstico e Perspectivas Sócio-Econômicas (Análises por Atividades). – Publicado em 1991. A Incorporação de Pequenos e Médios Produtores no Processo de Integração do MERCOSUL. – Publicado em 1992. Vol. 3 Vol. 4 Vol. 5 Lã e Carne Ovina: O MERCOSUL, Frente aos Maiores Produtores Mundiais. – Publicado em 1993. Vol. 6 Sojicultura Rio-Grandense - Panorama Setorial/MERCOSUL. – Publicado em 1993. O Panorama Setorial da Bovinocultura de Corte Gaúcha no Processo de Integração do MERCOSUL. 2ª edição. – Publicado em 1995. Vol. 7 Vol. 8 O Panorama Setorial da Triticultura Gaúcha no Processo de Integração do MERCOSUL. – Publicado em 1993. Vol. 9 Vol. 10 A Suinocultura Rio-Grandense: um Panorama Setorial no MERCOSUL. – Publicado em 1994. O Panorama Setorial do Feijão no Processo do MERCOSUL. – Publicado em 1994. Vol. 11 Acompanhamento Técnico das Lavouras de Soja Assistidas pela EMATER/RS - 1992/93. – Publicado em 1994. O Panorama Setorial da Cultura da Maçã no Processo de Integração do MERCOSUL. – Publicado em 1994. A Cultura do Pêssego no Rio Grande do Sul, no Processo de Integração do MERCOSUL. – Publicado em 1994. Vol. 12 Vol. 13 Vol. 14 Vol. 15 Diagnóstico Agroeconômico da Cebola no Rio Grande do Sul. – Publicado em 1995. Diagnóstico do Setor Pesqueiro do Rio Grande do Sul. – Publicado em 1995. Vol. 16 Acompanhamento Técnico das Lavouras de Soja Assistidas pela EMATER/RS - 1993/94. – Publicado em 1995. Vol. 17 Diagnóstico do Setor Leiteiro do Rio Grande do Sul no Âmbito do MERCOSUL. – Publicado em 1995. O Milho no Contexto Mundial, Nacional e do Rio Grande do Sul. – Publicado em 1995. Vol. 18 Vol. 19 Vol. 21 Situação da Atividade Ervateira no Rio Grande do Sul. – Publicado em 1995. Acompanhamento Técnico das Lavouras de Soja Assistidas pela EMATER/RS - 1994/95. – Publicado em 1996. Diagnóstico do Setor Vitivinícola. – Publicado em 1996. Vol. 22 Vol. 23 MERCOSUL em Números (I Parte). – Publicado em 1997. Panorama do Setor de Grãos no MERCOSUL. – Publicado em 1998. Vol. 24 Política Agrícola Comum na União Européia. – Publicado em 1998. A Produção de Grãos e o Comércio Agrícola na Área de Livre Comércio das Américas – ALCA. – Publicado em 1998. Elementos do Comércio Internacional. – Publicado em 1998. Vol. 20 Vol. 25 Vol. 26 Vol. 27 Vol. 28 Vol. 29 Vol. 29 (30) Uma Discussão sobre a Importância do Planejamento de um Desenvolvimento Sustentável no Contexto do Mundo Globalizado. – Publicado em 1999. Levantamento da Fruticultura Comercial do Rio Grande do Sul. – Publicado em 2002. Estudo da Cadeia Produtiva dos Citros no Vale do Caí/RS. – Publicado em 2002. Região Administrativa de Porto Alegre: leitura da paisagem regional. – Publicado em 2002. continua... PUBLICAÇÕES DA SÉRIE REALIDADE RURAL ... continuação Vol. 32 Panorama do Conselho de Desenvolvimento da Região do Médio Alto Uruguai. 2ª edição atualizada – Publicado em 2003. Trigo. – Publicado em 2003. Vol. 33 Vol. 34 Safras de Verão – 2002/2003. – Publicado em 2003. Pecuária Familiar. – Publicado em 2003. Vol. 35 Vol. 37 Panorama do Conselho de Desenvolvimento da Região da Produção. – Publicado em 2003. Estudos de Casos de Tecnologia e Custos de Produção na Pecuária Leiteira. – Publicado em 2004. Cultura do Trigo: Panorama da Safra 2003. – Publicado em 2004. Vol. 38 Vol. 39 Turismo Rural – Publicado em 2004. Ação Extensionista e Formação de Capital Social. – Publicado em 2004. Vol. 40 Vol. 41 Programa de Desenvolvimento da Pecuária Familiar. – Publicado em 2004. Desenvolvimento Local Sustentável. – Publicado em 2004. Vol. 42 A Produção de Vinho e Cachaça na Pequena Propriedade – Microrregião de Marau. – Publicado em 2005. Ação Coletiva para Viabilização da Agricultura Familiar no Município de São Paulo das Missões – Noroeste do RS. – Publicado em 2005. Economia do setor agropecuário no Rio Grande do Sul: Produção, Comercialização e Mercado Externo. – Publicado em 2006. Vol. 31 Vol. 36 Vol. 43 Vol. 44 Vol. 45 A importância da pluriatividade como estratégia de reprodução da agricultura familiar – o caso da comunidade de Aguapés no município de Osório/RS. – Publicado em 2006.