Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2005
IDENTIFICAÇÃO
O meu nome é Marcos Isaac Assayag. Eu nasci em Manaus, Amazonas, no dia 19
de fevereiro de 1952.
FAMÍLIA
A família do meu pai é oriunda do Marrocos, e muito tradicional no Estado do
Amazonas: a família Assayag. Eles vieram de Casablanca no final do século XIX.
Eles vieram de Marrocos para o interior do Amazonas. O meu pai, Isaac, nasceu
em Parintins e conheceu a minha mãe, Fortunata, em Manaus. Ele nasceu e se
criou em Parintins, estudou em Belém e em Manaus. Eu nasci em Manaus e vim
pro Rio de Janeiro com quatro anos de idade, no final de 1956. Então, essa que é
a história da minha família. Eu retornei a Manaus muito tempo depois. Hoje a
Petrobras tem um campo chamado Urucu. Eu tive a oportunidade de voltar a
Manaus, que deixei quando era muito criança. Hoje a Petrobras tem bastante
atividade no Estado do Amazonas. Mas, infelizmente, a atividade que eu trabalhei
a vida inteira, a parte de águas profundas, não tinha em Manaus. Eu trabalhei
mais voltado ao Rio de Janeiro.
Pai
O meu pai era comerciante. Ele começou a trabalhar bem jovem. Ele comprava
mercadoria e botava nos barcos e levava pro interior do Amazonas e vendia
mantimentos, batata, arroz, açúcar, para a população ribeirinha do rio Amazonas.
Ele passava um mês viajando pelo interior do Amazonas e voltava depois de ter
vendido tudo. Posteriormente, ele abriu um mercado em sociedade com o meu tio,
o irmão dele. Depois, quando ele resolveu vir pro Rio para trabalhar com um outro
tio numa fábrica de capas de chuva, ele vendeu a sua parte pro irmão. Esse
mercado depois virou uma rede de supermercado, com umas 20 lojas, com
frigoríficos e distribuidores. O meu tio que teve a sorte de fazer o negócio. Mas
eles começaram juntos.
Irmãos
Eu tenho um irmão e uma irmã. Minha irmã mora em Israel. Eu sou de origem
judaica, eu nasci árabe judeu. A minha irmã mora em Israel, tem uma família
grande lá. O meu irmão mora nos Estados Unidos. Mora em Miami, na Flórida, há
dez anos. Hoje, ele tem até cidadania americana. A minha irmã mora em Israel
com a família dela. Eu vivo aqui no Rio e a minha mãe também. O meu pai já é
falecido. A minha mãe já teve dois AVC. Então, ela precisa de todo um esquema
especial, três enfermeiras, que moram com ela, pra poder sobreviver.
INFÂNCIA /MANAUS
Eu me lembro muito vagamente de Manaus. Eu vim de lá com quatro anos. O que
me lembro da minha infância, das coisas que me chamavam a atenção, são as
frutas de Manaus, as frutas tropicais, que até hoje gosto muito. Açaí era uma coisa
que me lembro que tomava lá e ainda tomo aqui. A gente gosta muito. Gosto
também de alguns pratos típicos de Manaus, como tacacá, que é uma sopa
servida numa tigela com tucupi, ela vem fervendo. É uma comida típica dos índios.
Apesar de ter saído de lá com quatro anos, me habituei com essas comidas. Aqui
no Rio tem alguns lugares que você encontra, e até hoje a gente ainda toma. Eu
ainda tenho uma relação com a cultura amazonense, principalmente com a
culinária.
Eu voltei a Manaus em 1974, havia saído em 1956, e ainda não estava formado.
Isso aconteceu uns seis meses antes da minha formatura, nem estava na
Petrobras. Então, tentei reviver as lembranças da infância, como o Mercado dos
Ingleses. Eu não tenho o sotaque amazonense. O meu sotaque é carioca mesmo.
Quatro anos não deu pra marcar, mas apesar disso eu sou amazonense.
INFÃNCIA / RIO
Eu morava em Copacabana. Tem até uma história interessante. O meu pai veio
pra trabalhar com o meu tio e um outro tio meu veio junto com ele. O meu pai,
como vendeu essa parte do mercado pro irmão dele, tinha um dinheiro que dava
pra comprar um apartamento. Ele escolheu morar em Copacabana, porque em
1956 era o lugar dos sonhos, a princesinha do mar. Todo caboclo que vinha do
interior tinha o sonho de morar em Copacabana. O meu tio veio logo depois, ele
também era um comerciante, mas não tinha os mesmos recursos que o meu pai.
E ele foi morar num bairro pobre chamado Ipanema e comprou um casarão numa
rua meio escondida, perto do morro, chamada Nascimento e Silva. Ele comprou
uma casa enorme, porque era muito barato. E o meu pai comprou um
apartamento bem mais caro em Copacabana, na rua Barata Ribeiro. O mundo é
engraçado, porque depois Ipanema ficou um bairro extremamente nobre e o
terreno e a casa, ele vendeu, foram construídos três edifícios e ele ficou rico.
INFÂNCIA EM COPACABANA
Copacabana era um lugar maravilhoso. Eu morava na Rua Barata Ribeiro perto da
Rua Constante Ramos. Eu jogava bola na rua. Em Copacabana jogava futebol na
rua. Havia muito poucos carros. Carro era uma coisa de rico. Então, a gente
fechava a rua, botava duas sandálias de cada lado e jogava futebol. Quando
passava um carro a gente parava o jogo. Pra você ver, a freqüência era tão
pequena que a gente parava o jogo pra deixar o carro passar e continuava o jogo
logo depois. Então, era muito bom. A gente ia pra praia. Violência zero. Não
existia nem um caso de roubo ou coisa assim. Era muito raro acontecer. Todo
mundo queria morar em Copacabana. Um lugar que tinha todas as facilidades
próximas. Tive uma infância muito boa
ENSINO FUNDAMENTAL
Depois fui estudar no Pedro II. Então, pegava um ônibus em Copacabana para ir
para São Cristóvão. Lembro que eu acordava bem cedinho. A escola começava às
sete horas. Então eu tinha que acordar às cinco e meia da manhã pra poder
chegar em São Cristóvão no horário.
JUVENTUDE /TRABALHO
A minha adolescência já foi mais complicada, porque o meu pai tinha um
emprego, não era um emprego estável, e aí ele perdeu esse emprego. Ele ficou
desempregado e teve que abrir um próprio negócio. Aí foi na época em que
surgiram as primeiras loterias esportivas. Então, ele abriu uma loteria esportiva em
Copacabana, na rua Francisco Sá. Eu estudava em Petrópolis, tinha que descer
porque tinha um jogo, o último dia de aposta era quinta feira. Eu descia de
Petrópolis pra trabalhar até meia noite, porque depois que fechava a loteria tinha
os jogos de fora do Rio de Janeiro, de Fortaleza, enfim, de lugares onde não tinha
loteria. E a gente continuava furando os cartões. Naquela época, cartão era
perfurado à mão. Então, a gente tinha que trabalhar muito pra poder sobreviver. A
adolescência não foi tão simples como a infância. A infância já foi mais estável,
porque ele tinha um bom emprego.
FAMÍLIA
Eu tenho um irmão e minha irmã. Mas a diferença de idade é muito grande. Minha
irmã é dez anos mais velha e o meu irmão sete anos mais velho do que eu. Então,
eu era quase que um filho único, bem temporão. E eles tinham atividades bem
diferentes. Eu lembro que brincava muito. Estudava no Pedro II e tinha alguns
colegas de rua. Então tinha uma vida tranqüila.
LAZER / FUTEBOL
Tinha a turma de rua que a gente se dava bem e o grande programa era jogar
bola. Formamos um time com camisa e tudo. A gente jogava bola na praia ou na
rua Constante Ramos. Então, a brincadeira era sempre essa, uma brincadeira
muito sadia. Não existia droga, não existia nada. A nossa brincadeira era jogar
bola. A gente se organizou pra ter um time com camisa e para jogar o campeonato
da praia. A gente tinha que registrar na região administrativa de Copacabana, eu
me lembro que era no posto seis. Lá tinha essa região administrativa. Então, a
gente tinha um time de camisa. Até que aconteceu o meu acidente.
JUVENTUDE /ACIDENTE
Eu estava voltando da escola de carona. Eu estudava no Pedro II, em São
Cristóvão. A gente costumava pegar carona. Naquela época, andar de carona era
tranqüilo. Todo mundo andava. Então, eu estava vindo da cidade, peguei uma
carona que me deixou na Marechal Floriano. E, como morava em Copacabana,
atravessei a rua Presidente Vargas pra pegar um ônibus ou tentar uma outra
carona pra voltar pra casa. Eu e um colega meu. Nessa travessia, eu parei no
meio da Presidente Vargas, onde tem a faixa de pedestre, mas veio um carro e
me atropelou. Eu estava com 17 anos, quebrei a tíbia, o perônio. Quebrei quase
todos os meus dentes. Quebrei a cara. O carro me arrastou por 40 metros. Foi um
atropelamento bem sério.
Eu estava no segundo ano científico. Nesse dia, meu pai estava trabalhando na
loja, com a minha mãe. Eu não consegui avisa-los. Fui removido para o Souza
Aguiar e fiquei uma semana nesse hospital com um tratamento muito precário. Até
que conseguiram me remover pra uma clínica particular, que hoje não existe mais,
o Hospital dos Acidentados da Cruz Vermelha, onde tive o primeiro tratamento
adequado. No caso da fratura, eles colocaram o osso na posição certa pra poder
fazer a calcificação e colocaram o gesso. Até então não tinham feito nada no
Souza Aguiar, onde o tratamento foi muito ruim. Eu tive que refazer todos os meus
dentes, todos. Os dentes saiam. Na hora, eu desmaiei. Tive o choque e desmaiei.
Na realidade, o que aconteceu? O cara que me pegou estava embriagado, estava
num fusca. Era um fugitivo da polícia. Foi preso, mas não pagou nada.
O meu amigo, que estava do meu lado, não foi atropelado. Eu me distraí e o carro
passou por cima. Ele que avisou a minha família. Eu fiquei dois meses numa cama
e mais dois meses com gesso. A minha grande preocupação era perder o ano
letivo, o que de fato não ocorreu, porque esse meu amigo ia pra aula, trazia todos
os apontamentos pra casa. Ele se sentia muito responsável. No final do ano, eu fiz
a prova e passei direto em tudo. Depois disso, eu nunca mais joguei futebol. Aí eu
virei técnico na praia. Eu distribuía as camisas etc. Mas nunca mais joguei futebol
e antes eu jogava bem.
ENSINO FUNDAMENTAL E MÉDIO
O primeiro e segundo grau, eu fiz no Pedro II, que era um internato em São
Cristóvão. Foi ali que eu me deparei com as primeiras experiências de vida. Eu
estava acostumado com as pessoas de uma classe média da Zona Sul.
Normalmente, quem morava em Copacabana era de classe média, média pra alta.
Quando eu cheguei no Pedro II, eu comecei a ver que tinha gente muito mais
pobre. O Pedro II era internato e, geralmente, quem estudava lá tinha o pai
separado da mãe, não tinha uma estrutura familiar. Era uma escola excelente em
termos de base. A escola Pedro II tinha ótimos professores. Era difícil passar no
seu concurso, não era qualquer um que passava. E todo mundo queria ir pro
internato, onde se entrava segunda e saia sexta. Tinha ainda o regime de semiinternato, que começava às sete horas e saia às quatro e meia da tarde. Era o que
eu fazia. Era dada alimentação, tinha o dormitório, e todas as coisas. Era um
sistema razoável. Eu não me lembro de ser ruim. Agora, o ensino era muito bom,
tanto que me deu base pra que passar no vestibular sem ter que freqüentar nem
um tipo de curso especial.
Lembro muito bem da escola. Uma lembrança boa? O recreio. Era a hora que eu
gostava mais. Eu jogava bolinha de gude, coisas que hoje não se faz muito. Eu
tinha uns amigos para brincar, coisas de criança mesmo, bolinha de gude e um
negócio de fincar um ferrinho, que você jogava num triângulo. Chamava-se
triângulo mesmo. Você tinha dois triângulos e tinha que cravar com um ferrinho
pra fazer um roteiro da volta na casa do outro e voltar. Era um joguinho bem
simples. Mas o Pedro II, eu me lembro bem, tinha muito bons professores. Não
era muito fácil de passar não. Você tinha que estudar muito pra poder passar. A
escola não era boate. Hoje a escola pública não é mais a mesma. Os meus filhos
todos tiveram que estudar em escola particular, porque a escola pública ficou
muito ruim. Mas eu sempre estudei em escola pública, a vida inteira.
ENSINO SUPERIOR / TRABALHO
Eu fiz o vestibular, passei pra faculdade e comecei a trabalhar. Passei para a
UCP, Universidade Católica de Petrópolis, onde fiquei exatamente um ano. Depois
fiz outro vestibular, passei para a Fluminense em Niterói, onde me formei
Engenharia. Mas o primeiro ano da faculdade eu fiz em Petrópolis. Nessa época,
eu passava a semana inteira lá. Eu descia na quinta, não assistia às aulas da
quinta feira, vinha trabalhar, ajudando o meu pai, de duas da tarde até quatro
horas da manhã do dia seguinte, furando os cartões da loteria.
OPÇÃO PROFISSIONAL
Eu não tinha uma predileção por uma profissão. Quem tinha vocação era meu
irmão, que era uma pessoa muito habilidosa com as mãos. Ele sempre teve uma
vocação grande pra Engenharia. Ele fez Engenharia Civil. Mas, pra mim, qualquer
coisa tava bom. Eu podia fazer engenharia, podia fazer medicina, podia fazer
jornalismo. Não havia algo especial. Eu gostava de estudar. Estudava. Era
estudioso, mas não era uma pessoa muito atirada, vamos dizer assim. E o meu
irmão falou assim: “Ó, faz Engenharia porque eu vou arrumar um emprego pra
você”. Eu falei: “Legal!” Eu não era uma pessoa muito determinada, não tinha
uma predileção pessoal.
FAMILÍA
O meu pai não interferiu na minha escolha. Nessa fase da minha vida, ele estava
desempregado, e a sua preocupação era muito mais pela sobrevivência do que
pela educação. A minha mãe tinha preocupação que eu estudasse e fosse alguém
na vida. O meu pai estava mais preocupado com a sobrevivência. Então, muitas
vezes, falava pra gente ter que trabalhar mesmo. Tanto eu, quanto o meu irmão,
tínhamos que trabalhar para ajudar no sustento da casa. Trabalhávamos na loteria
esportiva do meu pai. Eu lembro bem que começamos com o teste 25 – os testes
tinham números, não sei se ainda existe isso – e fomos até o teste 95, quando a
loteria fechou. Foram 70 testes. E aí o meu pai voltou pra Manaus, com minha
mãe, para ser gerente de um dos supermercados do meu tio. Voltou depois de
muitos anos. Na verdade, estamos falando de 1972. Foi nessa época que ele
voltou, mas eu fiquei aqui no Rio. Já estava estudando na Fluminense. Fiquei
morando com o meu irmão, num apartamento pequenininho aqui na Rua Lauro
Muller, em Botafogo. A minha irmã já tinha ido pra Israel. Ela casou e foi morar lá,
na época da revolução, em 63 ou 64. Ou foi bem antes. Então, foi uma infância
muito boa, muito saudável. Já a minha adolescência foi bem mais difícil.
JUVENTUDE / LAZER
Eu tinha uma família aqui no Rio de Janeiro bem grande. Tinha muitos primos e
primas na minha idade. Eu saia com eles. Eles tinham mais de recursos do que a
gente. Então, tinha esses primos com quem eu me dava, esse filho do meu tio que
comprou a casa em Ipanema, que veio de Manaus, e que tinha uma loja. Era com
a família do meu primo que o meu pai trabalhava. Esse meu tio tinha quatro filhos.
E eu saia com eles, era muito bom, muito saudável. A gente saia pras festas.
Sábado à noite íamos as festas em casa de família. Tinha alguns clubes que a
gente ia também. Íamos ao cinema. Depois começou a idade dos namoricos. Os
Beatles e os Rolling Stones eram dois grandes sucessos na época, sem contar o
Roberto Carlos, que estava começando o movimento da Jovem Guarda.
DITADURA MILITAR
O que foi muito forte na minha juventude, foi o fato de viver em plena revolução.
Eu sofri. Eu estava no segundo científico quando vi o assassinato, em frente da
Embaixada Americana, a morte daquele estudante, o Edson, que morreu baleado
pela polícia. Eu estava ao lado. Eu não vi o cara morrer, ouvi os tiros e fugi. No dia
seguinte, li no jornal que ele tinha morrido.
Eu não era uma pessoa politicamente ativa, porque era muito pobre. A minha mãe
dizia assim: “Se você se meter em política vai pra cadeia e eu não vou poder te
tirar. Os ricos, de alguma forma, podem”. Eu não era uma pessoa muito politizada.
Eu era muito curioso, mas não politizado. Não tinha ideais políticos muito fortes.
Agora, os meus primos sim, e eles tinham plena consciência do que estava
acontecendo. Eu não me metia em política, não era do Partido Comunista ou coisa
assim. Mas, normalmente, a juventude é sempre da oposição. E, em 68, teve
muito protesto contra o regime militar.
JUVENTUDE / MÚSICA E FESTIVAIS
A música era, basicamente, Chico Buarque, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Esses
eram os nossos cantores. O Chico Buarque era o melhor na época. E os
estrangeiros eram os Beatles, que a gente tocava nas festas. A gente ia aos
festivais de música. Era a época dos festivais, assisti à alguns. Fui no
Maracanãzinho. E na PUC também tinha. O Chico Buarque cantava muito na
PUC. Então, sábado à noite a gente ia pra PUC, onde tinha uma pérgula, que os
músicos tocavam. Peguei uma época muito boa da música brasileira, com os
festivais e de grandes músicos emergentes. Hoje, com MP3, a gente consegue
baixar pela Internet todas as músicas antigas que não se tocam muito hoje, como
Lunik 9, que é uma das primeiras músicas do Gilberto Gil: “Poetas, seresteiros,
namorados...” É uma música linda, é uma poesia do Gilberto Gil, hoje ministro. Foi
uma das primeiras músicas que ele cantou. E tinha a Gal, Maria Bethânia, esse
grupo todo. Foi a época da vivi na minha adolescência.
MODA / CALÇA LEE
Não era uma pessoa muito rica, mas a moda era, geralmente, calça Lee e
camiseta. Era o que se usava. Hoje é jeans, mas se chamava calça Lee. A moda
que se usava normalmente no Rio de Janeiro era essa. Era quase um uniforme. A
calça Lee era importada. Tinha a Lee e a Levi’s. A calça Lee vinha
contrabandeada, se comprava no camelô na Praça Mauá. Então como era? Vinha
pelos navios. Os camelôs contrabandeavam. Naquela época, não tinha os
contrabandos do Paraguai, como hoje. Então, os navios chegavam na Praça
Mauá, os caras traziam e vendiam as calças Lee originais, americanas. E eram
caras, porque não tinha calça Lee pra comprar em loja. Quando tinha, era dez
vezes o preço da calça que você comprava no camelô. Então, a minha primeira
calça Lee eu comprei num camelô, no contrabando, da Praça Mauá.
Era uma calça grossa e que todo mundo curtia. A moda era você curtir muito. E
não tinha muito tênis. Tênis não era tão usado como hoje. O que se usava eram
aqueles Congas. Quer dizer, eu não tenho grandes memórias de moda, porque eu
não tinha posses pra poder ter moda. Eu me vestia dentro do possível. Agora uma
calça dessas durava três, quatro anos. E quanto mais velha, melhor ficava, porque
ela ia ficando mais fina e mais confortável de usar. As pessoas, normalmente,
vestiam esse tipo de roupa. Principalmente, pra ir aos lugares públicos.
JUVENTUDE / LIVROS E DISCOS
Eu peguei uma época muito boa. A época dos Beatles. Só que os discos que a
gente ouvia eram de vinil. E nem todo mundo tinha vitrola. A vitrola era uma coisa
cara. Hoje, tudo isso evoluiu demais. Então tinha o toca disco. Você ouvia os
discos de vinil.
Eu lembro que tinha muitos livros. Tinha as feiras de livros. A turma gostava muito
de ler, mas os livros sempre foram caros. Eu gostava de ler mais os autores
nacionais, como Machado de Assis, Guimarães Rosa etc. Gostava também dos
livros russos. Os livros russos eram feitos naquele papel bem mais barato,
enquanto os nacionais eram feitos em papel branco, numa impressão muito boa.
Então, eram livros caros. Você não tinha muito acesso, as pessoas mais pobres
não conseguiam comprar os livros. Mas os livros russos custavam cinco, não
lembro a moeda, mas era um valor ínfimo, quase de graça. Então você lia Lênin,
livros que eram proibidos. Tem uma história engraçada, meu primo, que hoje é um
grande cirurgião, era muito ativista. Ele chegou pra mim e falou: “Pô, dá pra você
guardar uns livros?” Estávamos em plena revolução. E ele me deu Trotski, Lênin,
Marx, e um monte de livros pra guardar lá em casa. Um dia, a minha mãe viu e
disse: “O quê que é isso?” E eu: “Ah, o Rafael pediu pra guardar”. “O quê?
Devolve essa porcaria. Se pegam isso aqui, você tá preso!” Na época, isso era o
suficiente pra você ir pra cadeia. Basta ter os livros dos pensadores russos.
FAMÍLIA
A minha mãe sempre foi a autoridade dentro de casa. O meu pai era muito mais
uma pessoa que corria atrás pra trazer o dinheiro. A minha mãe era do lar, mas,
ela foi obrigada a trabalhar, depois que o meu pai perdeu o emprego na fábrica de
capas, onde tinha trabalhado durante 20 anos. Quando ele perdeu esse emprego,
nós tivemos que abrir uma loja. A minha mãe nunca tinha trabalhado antes. E ela
foi trabalhar pra garantir que os filhos pudessem estudar, o meu irmão e eu. Ela
aprendeu tudo muito rápido. Ela foi trabalhar na loja que tínhamos na Rua
Francisco Sá entre a Raul Pompéia e a Avenida Nossa Senhora de Copacabana.
A minha mãe trabalhava também. A gente tinha que fazer tudo. A gente pegou a
loja, pintou, fez as prateleiras das mercadorias. O meu pai tinha um dinheiro e eu
ia com ele pra São Paulo comprar mercadoria lá na 25 de Março. Enchíamos as
malas e trazíamos de ônibus pela Viação Cometa. Trazíamos a mercadoria pra
vender em Copacabana. Depois o meu tio convidou o meu pai pra ir pra Manaus.
Então, eu diria que, essa loja durou uns quatro anos. A minha mãe foi com ele pra
Manaus e nós ficamos aqui. Eu já tava na faculdade.
ESTÁGIOS / TRABALHOS
Já na Faculdade, na Fluminense, eu fiz estágios. O meu primeiro trabalho foi
numa fábrica de máquinas de sinalização de estradas, em Duque de Caxias, na
estrada Rio-Petrópolis. Eram aquelas máquinas que pintam as faixas nas
estradas. Eu fiz estágio nessa fábrica. Eu já estava na faculdade, mas como não
estudava em período integral, dava para trabalhar meio expediente. Eu trabalhava
na manutenção. A gente testava a máquina na pista pra ver se tava tudo limpinho,
pra liberar pra a obra. Essa firma prestava serviço pro DNER. Fazia pintura em
estrada. Eu aprendi uma coisa. É até um fato interessante: quando tudo vai bem a
produção é sempre elogiada, mas quando alguma coisa dá errada, a manutenção
é que paga a conta. Então, nós tínhamos recebido uma máquina e fizemos uma
revisão completa. Máquina de pintura costuma entupir com a tinta. Como é que
funciona? A tinta – na época era assim, não sei se ainda hoje é dessa forma – era
misturada com esfera de vidro pra dar o reflexo na estrada. Quando bate o farol
você vê aquele reflexo. O que brilha é o vidro, as micro-esferas de vidro que você
joga na tinta. Enfim, quando você termina de usar a máquina, tem que limpar a
mangueira com um solvente muito poderoso chamado toluol. E o que aconteceu?
A gente preparou a máquina e tinha um operador para andar com ela, que era
como um carro, com um motor de Volkswagen: dois cilindros pra tração e dois
cilindros pra compressão. Mas o operador esqueceu de limpar a máquina. Aí um
belo dia, quando nós fomos fazer a inauguração da Niterói-Marília, a gente
entregou a máquina. Foi o dono da firma da fabrica. Eu fiquei na fábrica, mas o
operador foi. Quando chegou lá começou a botar pressão. A mangueira estava
entupida, explodiu. Foi tinta pra tudo que é lado. Sujou a roupa do prefeito. Levei
uma bronca do tamanho de um bonde. Aí eu aprendi uma coisa: na manutenção
você pode trabalhar até se matar, mas se errar uma coisinha paga a conta.
Quando entrei na Petrobras, eu falei: “Eu quero trabalhar em qualquer lugar,
menos em manutenção”. Acho que essa lição eu aprendi.
A manutenção é uma atividade extremamente técnica. Hoje não é mais assim, é
dado um valor muito grande pra manutenção, porque sem ela as coisas não
funcionam. Não dá mais pra pensar como se pensava antigamente. Hoje todos os
processos são importantes. Pra você ter o processo na ponta, é porque alguém tá
fazendo algum serviço de infra-estrutura pra você poder ir para frente. Mas, na
época, a manutenção não era tão valorizada. Quando entrei na Petrobras, depois
daquele trauma com aquela máquina, pedi: não trabalho em manutenção.
Como eu disse, isso era um estagio de Engenharia, era o nome que davam. Mas
era um estágio que você trabalhava efetivamente. Eu ganhava dois salários
mínimos: um salário mínimo na carteira e mais um que eu ganhava por fora. Eu
fiquei um ano e meio nessa firma trabalhando. Quando estava no quarto ano da
faculdade, o meu irmão – que já era Engenheiro Civil da Servenco, construtora de
edifícios – conseguiu um emprego pra mim na Elevadores Schindler do Brasil. A
firma onde ele trabalhava comprava muitos elevadores, e ele conhecia as pessoas
de lá. Eu estava fazendo Engenharia Mecânica. Aí eu fui trabalhar nessa fábrica
de elevadores, que ficava lá em São Cristóvão. Hoje esta fábrica está na Avenida
Brasil, em Campo Grande. Nesse trabalho, aprendi como era o processo de
produção, como é que funcionava uma fábrica, como é que se faz assistência
técnica. Trabalhei um ano na Schindler. Estava muito bem lá. Já estava
conhecendo bem todo o funcionamento, ganhava um salário maior, acho que
ganhava cinco salários mínimos. Até que houve o concurso pra Petrobras. Eu não
ia nem fazer, porque estava satisfeito lá na fábrica. Mas os meus colegas de turma
falaram: “Ó, vai ter um concurso pra Petrobras. Você não tá a fim de ir lá se
inscrever?” Eu falei: “Ah, tá bom”. Eu era muito tranqüilo. Aí como todo mundo foi:
“Ah, eu vou também, vou junto”. Aquele negócio de colega, né, de todo mundo vai,
eu vou. Não vou deixar de fazer o que eles estão fazendo.
INGRESSO NA PETROBRAS
Quando chegou na hora de fazer a inscrição, tinha opção para vários cursos. Eu
não tinha a menor idéia do que era petróleo, da Petrobras, de nada. Eu não tinha
idéia alguma. Aí um amigo disse: “Eu vou fazer o curso de Analista de Sistema”.
Eu nem sabia o quê era isso direito. Era a parte de computadores. Eu perguntei:
“Vem cá, qual é o curso com melhor relação candidato/vagas?” Eu já fui pelo lado
da praticidade. Era o curso de Engenharia de Equipamentos, que tinha 100 vagas.
“É nesse que vou me inscrever.” Então ele se inscreveu num curso, muito mais
bonito, uma especialidade mais nobre. E eu fui mais prático. “E esse curso onde
se faz?” “É no Rio.” “Então é esse que eu vou fazer”. Porque o curso de Produção
era na Bahia. Eu queria ficar no Rio, porque o meu circulo de amizade estava todo
aqui. Então me inscrevi no curso de Engenharia de Equipamentos. E o que
aconteceu? Eu fiquei como terceiro suplente. Como é que funcionava? Tinha um
número de vagas, vamos supor 100 vagas, eu seria o 103. Era o terceiro suplente.
Aí eu até brincava muito quando perguntavam: “Que lugar você passou?” “Eu
passei em terceiro”. Mas não dizia o que era o terceiro suplente. Nós estamos em
1974 e, nessa época, além da Petrobras, tinha a Nuclebrás, a indústria nuclear
brasileira, que estava sendo criada. Então, não havia problema de desemprego.
Na minha turma de 31 engenheiros, todos tinham emprego. Aliás, emprego era
uma coisa que não faltava. Faltavam pessoas pra trabalhar, porque ainda tinha a
indústria automotiva, automobilística em franca expansão em São Paulo, a
indústria
naval
fluminense,
lotada
de
pedidos.
Os
estaleiros
estavam
desesperados por gente. Então era assim, você escolhia onde trabalhar.
Hoje eu vejo todo mundo desesperado por emprego. Naquela época, era fácil:
“Aonde eu vou? Eu não vou pra São Paulo, porque não gosto de poluição”. Então,
tinha essas coisas. A maioria dos meus colegas foi pra área naval, em estaleiros.
Niterói estava cheia de estaleiros. E eu estava trabalhando na Elevadores Schiller
e teve essa prova. Eu fiz a prova e, logo, fui chamado. Fui fazer o curso de
Engenharia de Equipamentos. Aquele meu amigo, colega de turma, não
conseguiu passar. E era um bom aluno. Na escola, ele era melhor do que eu. Ele
tinha notas melhores, mas não conseguiu passar.
IMAGEM DA PETROBRAS
O que sabia da Petrobras era muito pouco, quer dizer, eu não tinha muita
informação. Eu sabia que a Petrobras era uma empresa grande, mas não tinha a
menor idéia do que vinha a ser a Petrobras, nem o que ela fazia. A única coisa
que eu sabia é que ela pagava um salário razoável. Não era muito não. Eu me
lembro bem qual era o valor do salário: 4122 cruzeiros. Não sei o que isso
significa nos dias de hoje. Nós estamos falando de 1975. Eu entrei na Petrobras
no dia dois de janeiro de 1975, ou seja, acabei de fazer 30 anos, no dia dois de
janeiro de 2005. Mas, naquela época, não tinha a idéia do que era a Petrobras.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÂO EM ENGENHARIA DE EQUIPAMENTOS
Eu sabia que tinha que fazer curso de Engenharia de Equipamentos, que era um
curso de especialização, e era um curso excelente. Então, a vontade do saber era
mais importante do que o quanto iria ganhar ou deixar de ganhar. O que eu queria
era aumentar os meus conhecimentos. A curso de engenharia que tinha feito na
Fluminense foi um curso mais ou menos. Eu queria mesmo era ter feito o IME,
mas não consegui passar. Eu fui reprovado na quarta prova. Então, o curso de
especialização da Petrobras era uma oportunidade de melhorar os meus
conhecimentos. Eu fiquei muito satisfeito. E o curso era eliminatório, ou seja, tinha
um conjunto de provas de três em três meses. Se você não passasse, você era
demitido. Terminando o curso, você podia ser contratado ou não. Era tudo
condicionante. Como todos aqueles que passavam no concurso, assinava-se o
contrato e ia fazer o curso no Edise. Na época, o curso era dado no décimo oitavo
andar do Edise, Edifício Sede.
ESPECIALIZAÇÂO ENGENHARIA DE EQUIPAMENTOS
O curso da Petrobras não era um curso difícil, mas era extremamente cansativo.
Você tinha um volume de matérias muito grande e um tempo muito pequeno.
Então, você tinha que estudar muito, mas não tinha um grau de dificuldade que
exigisse um conhecimento profundo. Você tinha que se dedicar. Eu estudava de
12 a 15 horas por dia. Não tinha como não fazer isso. Mas não era difícil. O curso
era competitivo, porque era classificatório. Por exemplo, tinha uma matéria lá,
pintura. Tirei uma nota 9,8. Fui bem? Não, não fui porque todo mundo tirou dez.
Eu tirei 9,8 fui mal pra chuchu. E por que era competitivo? Porque quem tivesse a
melhor colocação escolhia a vaga no lugar que queria. Na época, em 75, tinha
lugar no Brasil inteiro: desde a refinaria de Manaus até Porto Alegre. Em todos os
lugares onde a Petrobras tinha atividade. Tinha a área de dutos, a área de
produção. Tinha o Xisto, no Paraná.
Você podia escolher qualquer lugar no Brasil. E o que eu queria? Eu já era noivo.
Estava noivo da minha atual esposa. Ela estudava na UFRJ. Então, eu não queria
ficar longe do Rio de Janeiro. Quando terminou o curso, eu procurei arrumar um
lugar que me garantisse o retorno pro Rio, independente do fato de ser um lugar
promissor. Enfim, eu queria ir pra um lugar onde tivesse possibilidade de voltar pro
Rio de Janeiro. Aí eu fui pesquisando os diversos lugares que ofereciam. Hoje, eu
conheço profundamente todos os lugares da Petrobras. Mas, na época, eu fui
procurando: “Ah, se for pra refinaria você vai e fica por lá, não tem como voltar”.
Então descartei essa possibilidade. Eu escolhi a Bahia, porque o pessoal disse:
“Você pode passar um ou dois anos e, depois, pode voltar pro Rio”. Foi o que
escolhi, fui para Salvador, para o departamento de Exploração e Produção. Mas a
minha visão era independente do que iria fazer.
Eu tinha feito o curso de equipamento voltado para a área de refino. A vaga era na
área de produção de petróleo, ou seja, nada a ver com refino. Era completamente
diferente. E na Bahia. Então, na realidade, o lugar que eu ia trabalhar não tinha
muita relação com o curso que tinha acabado de fazer. Mas eu não estava
preocupado com isso. Eu estava preocupado em voltar pro Rio de Janeiro dois
anos depois.
CASAMENTO
Eu queria voltar pro Rio. Todos os meus amigos eram daqui. Apesar de eu não ser
carioca, a minha vontade era voltar pro Rio. Inclusive, porque a minha namorada
estava aqui, né? Então, eu terminei o curso e fui pra Bahia. Teve até um fato
interessante. Eu fiquei em Salvador um ano, sete meses e 15 dias. O curso
terminou no final de 75. Eu fui pra Bahia e, no final de 76, dia 29 de dezembro, eu
casei no civil. Era muito comum, quase todo mundo fazia isso, quando você
acabava o curso, casava, porque já tinha condições de se sustentar. Naquela
época era quase um padrão.
Então, eu casei. Só que eu estava na Bahia e a minha esposa estudava
Engenharia Química na UFRJ. O que aconteceu? Nós casamos, ela saiu de casa.
Nós casamos aqui no Rio. Na época tinha o civil, que era outra cerimônia, e
depois o religioso. Eu casei no religioso no dia oito de janeiro, na Sinagoga da ARI
aqui em Botafogo. Tivemos a lua de mel em São Lourenço e depois fomos pra
Bahia, onde eu fui trabalhar. Quando terminou o mês de fevereiro, o que
aconteceu? Ela estava estudando, tinha que voltar pra as aulas. Então, um mês
depois, ela voltou pro Rio e eu fiquei na Bahia, porque tinha que terminar um
trabalho. Eu estava pedindo a minha transferência pro Rio. Foi engraçado que ela
saiu pro casamento e, quando voltou, foi pra casa dos pais. E o porteiro disse
assim: “Pô, coitadinha, casou outro dia e já voltou pra casa. O casamento durou
dois meses.” Essa história foi engraçada. Eu voltei para o Rio três meses depois,
porque saindo da Bahia tive que fazer um estágio. A Petrobras estava começando
a atividade offshore. Aí começa a história das águas profundas.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL / BAHIA
A Bahia era um lugar completamente novo pra mim, com um tipo de cultura
completamente diferente. A Bahia é um lugar onde a raça negra é muito presente,
a influência africana é muito forte. É um lugar maravilhoso, as pessoas são
maravilhosas. Eu comecei a trabalhar na atividade de projetos de estação coletora
em terra. O Brasil ainda não tinha nada em offshore. Eu trabalhava fazendo
projetos de produção. Vou entrar um pouquinho na parte técnica. O petróleo era
produzido em terra lá na Bahia. Então tinha o sistema de tratação. Você tinha que
tratar esse petróleo, tirar a água, separar o gás. E a gente fazia isso em estações
coletoras. Aí comecei a aprender a projetar estações para sistemas terrestres.
Cheguei na Bahia no pico da produção. Naquela época, a Bahia estava
produzindo 150 mil barris por dia. A Bahia é onde nasceu o petróleo no Brasil, no
município de Candeias, onde está o campo de Lobato. O primeiro poço foi o
Lobato. Candeias e Catú são as duas regiões na Bahia. E eu trabalhava na sede,
em Jequitai, perto da feira de Água de Menino. Era um lugar muito típico. Quando
tinha a lavagem do Bonfim, havia uma procissão que passava por lá. Na Bahia
tem muita cultura negra e muita religiosidade também. É muito forte, muito mais
do que no Rio de Janeiro, não tem nem comparação.
Eu estranhei muito, porque não tinha o círculo de amizade enorme que tinha aqui
no Rio de Janeiro. Eu me criei aqui, né? Então, na Bahia eu não conhecia
ninguém. E me dedicava demais ao trabalho, porque eu não conhecia nada. Eu
ficava oito, nove, dez horas trabalhando. Eu morava num apartamento alugado
com um colega. Ele era do Rio também. Fizemos o curso e fomos para a Bahia
juntos. Na época, não existia os bairros famosos. Era um areal. Isso foi 1975. Eu
morava na Barra, num condomínio. E a gente rachava um apartamento.
TRAJETÒRIA PROFISSIONAL
TENTANDO VOLTAR PARA O RIO
E já queria voltar pro Rio. Cheguei pro meu chefe e falei: “Olha, eu quero voltar
pro Rio, não quero mais ficar aqui”. O cara disse que não podia. Aí eu vim pro Rio,
acertei com uma pessoa, que era chefe aqui no Edise. E o cara falou: “Você passa
um ano, que eu vou fazer o seguinte: vai chegar uma nova turma, quando tiver um
engenheiro novo, eu mando pra Bahia e você vem pro lugar dele”. Falei: “Legal.”
Então, seria na base da troca. Tudo bem. E passou um ano, as pessoas foram
mudando. E eu tinha acertado aquela troca com o chefe. Mudou esse chefe,
entrou outro. O outro chefe falou: “Não, eu não vou te liberar.” Eu trabalhava bem,
produzia bastante. “Eu não vou te liberar não. Você está aqui há muito pouco
tempo”. De fato, eu tinha menos de um ano de casa, e já estava querendo ir
embora. Em 76 – olha como o mundo é pequeno e a história da Petrobras vai se
somando –, foi criado o Distrito Sudeste.
Em 1974, tinham descoberto um negócio chamado Bacia de Campos, através do
campo de Garoupa. Estavam criando o Distrito Sudeste em Vitória. Aí a minha
cabeça pensou: “Eu tô a 1600 quilômetros de casa. Indo pra Vitória, eu fico a 600
quilômetros de casa. Vou tentar ir pra Vitória. Se eu não for pro Rio, vou pra
Vitória, porque já fica mais perto, estarei a menos mil quilômetros”. E esse meu
chefe, o primeiro, me convidou: “Você quer vim comigo pra Vitória?” Eu adoraria ir
pra Vitória. Só que o chefe que ficou no lugar dele falou: “Você não vai pra Vitória,
vai ficar aqui na Bahia”. E não me deixou ir. Eu iria trabalhar numa atividade
crescente, que estava iniciando, o que hoje é a Bacia de Campos, e que estava
começando por Vitória. Eu peguei o início do início do início de todo o
desenvolvimento da Bacia de Campos atual. Então, o meu chefe não deixou eu ir
pra Vitória. Eu tive que ficar na Bahia. Eu era engenheiro novo, produzia, era o
mais novo que tinha lá. Quando eu cheguei, o mais novo tinha 13 anos de
Petrobras. Então, eu era sangue novo. A gente sabe como é importante ter os
jovens trabalhando junto com os antigos. É fundamental. Hoje, onde trabalho tem
300 engenheiros trabalhando comigo. Quando recebo as turmas dos jovens, cada
um é melhor do que outro. Há a passagem da experiência e do aprendizado. É
isso que perpetua a Companhia. Hoje, eu entendo quando meu chefe dizia que
não podia me liberar, ele tinha toda a razão. Mas eu fiquei uma fera. Eu queria vir
embora. Não queria nem saber. Eu estava determinado a ir embora. A minha
esposa, que estava aqui, perguntava: “Qual o lugar que você mais gosta da
Bahia?” Eu respondia: “O aeroporto”. “Quais os lugares que você mais freqüenta?”
E eu: “Vasp, Varig e Cruzeiro”. Eu queria voltar pro Rio e eles não me deixavam
sair de lá. Eu disse: “Não tem outro jeito, vou pedir demissão”. Aí eu vim pro Rio
durante as férias e arrumei um lugar numa empresa pra trabalhar. Como tinha
feito o curso de especialização, eu teria que pagar uma indenização pra Petrobras
para poder sair. Ai o cara dessa empresa disse: “Eu pago a indenização e você
vem trabalhar aqui”. Quando eu cheguei lá pro meu chefe: “Tá aqui”. Nunca tinha
feito uma carta de demissão na minha vida. Procurei como se fazia uma carta de
demissão, fiz a carta e entreguei. Eu tinha um ano de Petrobras. Mas já tinha a
decisão: “Vou pedir demissão e vou trabalhar no Rio”. Aí quando meu chefe viu a
carta e viu que era sério: “Não, peraí, calma, você está muito nervoso. O que você
está querendo?” “Vou dar um tempo e tal” Aos poucos, eu fui conseguindo a
transferência pro Rio de Janeiro.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL / ATIVIDADES EM OFFSHORE
Mas antes de ser transferido pro Rio, eu iniciei a atividade de plataforma. A
Petrobras tinha descoberto o campo em 68. Foi o primeiro campo marítimo no
Brasil, chamado Guaricema, no litoral do Sergipe. Na época, a Petrobras não tinha
nenhum conhecimento técnico de como se explotava um campo no mar. Então,
houve uma decisão do Presidente Geisel, o então Presidente da Petrobras,
extremamente estratégica de explotar o campo sem que a rentabilidade fosse
assegurada. Hoje, qualquer projeto que se faça, tem que ver se a receita
compensa o gasto que vai ser feito. É preciso ter o que a gente chama de VPL,
que é o Valor Presente Líquido, isto é, tem que ser positivo pra justificar o
investimento. Foi uma decisão estratégica, porque naquela época o barril de
petróleo valia dois dólares, um valor muito baixo. Hoje o petróleo está bem mais
alto, mas na época era muito baixo e não compensava. Mas foi um aprendizado.
Então, eles compraram, porta fechada, das empresas americanas, as plataformas,
as jaquetas fixas, o sistema de produção das plataformas e uma estação em terra,
que é a Estação de Atalaia, que existe até hoje em Sergipe. O sistema de
produção foi comprado e tudo foi projetado pelos estrangeiros, até o aço era
importado, porque nós não tínhamos conhecimento. Quando eu saí da Bahia, para
trabalhar no Rio de Janeiro, o meu chefe do Rio falou assim: “Você vai fazer um
estágio, e vai trabalhar na atividade offshore, em Aracajú.” Ao invés de vir para o
Rio, eu saí de Salvador e fui pra Aracajú. A minha mulher falou assim: “Pô, mas
não é possível. Você não foi transferido?” “Pois é, mas agora tenho que passar
por um estágio.” “Quanto tempo?” “Um mês”. E fui pra Aracajú, visitei todas as
plataformas, conheci toda atividade offshore, foi um estágio muito legal.
Quando terminou o estágio, o cara da Bahia falou: “Olha, tem um projeto que você
fez. Você tem que voltar pra Bahia pra poder terminar esse projeto, mas agora
chegou aquele cara que eles mandaram pra você passar o serviço”. Em vez de
voltar pro Rio, eu saí de Aracajú e voltei de novo pra Bahia. E agora vai contar
essa história pra a minha esposa, a Cibele. Ela ia acreditar? “Tá me enrolando,
né?” Mas eu fui. Em maio de 77, eu fui efetivamente transferido e vim pro Rio de
Janeiro. Então, foi um período complicado até a minha volta. Mas, o meu plano
inicial estava certo. Eu fui para a Bahia em novembro de 75 e um ano e oito
meses depois, menos de dois anos, eu estava de volta no Rio de Janeiro,
conforme aquele planejamento.
Na época, offshore era uma atividade menor. O mundo é engraçado, porque
quando o petróleo era barato, a atividade de exploração e produção offshore tinha
um valor pequeno. Todo mundo, os melhores alunos, os melhores colocados, iam
pra área de refino. A Petrobras era refinaria. O petróleo era importado. A gente
produzia muito pouco petróleo no Brasil, 200 mil barris na época. Então, o petróleo
era importado. E todos os meus colegas de curso foram pra área de refino. E eu
fui pra área de produção. E os caras disseram: “Pô, você vai praquela porcaria e
tal”. E, quer dizer, a razão de eu ter ido foi mais física. Mas foi a decisão mais
certa que eu fiz na minha vida, ir pra área de produção, porque foi a área que mais
cresceu.
DÈCADA DE 70 / CHOQUES DO PETRÓLEO / MUDANÇAS NA PETROBRAS
E aí houve o choque de petróleo, os dois choques: o de 73 e o de 79. E a
prioridade da Petrobras mudou completamente, passou toda para a área de
produção. E onde tinha petróleo no Brasil? No mar. Então, a gente tinha
descoberto a Bacia de Campos, que começou a crescer. Com esse crescimento
enorme de campos descobertos, houve necessidade de desenvolvimento da
produção, porque a dívida externa brasileira era muito grande. E o petróleo era o
causador disso. Foi nesse momento que o preço do petróleo subiu muito. Então o
governo brasileiro abriu para a área de risco. Porque havia um problema de
balanço de pagamento muito grande. E a gente era totalmente dependente do
petróleo. O petróleo era importado, éramos fortemente dependentes. Então, a
atividade que eu fui trabalhar começou a crescer estupidamente.
BACIAS DE CAMPOS E DO NORDESTE / DÈCADA DE 70
O campo de Garoupa na Bacia de Campos foi descoberto em 1974. A primeira
produção – olha como eu vivi exatamente esse momento –, o primeiro óleo
produzido na Bacia de Campos foi em 15 de agosto de 1977, no Campo de
Enchova 1. E as plataformas fixas começaram a ser desenvolvidas em 79. Eu já
estava no Rio de Janeiro. Então, só pra encaixar no tempo. Eu cheguei no Rio em
maio de 77, quando já estavam produzindo o primeiro óleo na Bacia de Campos.
Eu trabalhava na Divisão de Engenharia do Departamento de Exploração e
Produção e continuava responsável pelas plataformas do Nordeste. Eu fazia os
projetos dessas plataformas. Todas as plataformas lá de Aracajú: Caioba,
Guaricema, Camorim e Dourado. Eram plataformas pequenas e fixas.
Depois a gente começou a trabalhar, subindo pra Ubarana, no Rio Grande do
Norte. Fiz o projeto para a Plataforma de Cação, no Espírito Santo. Todas
plataformas fixas pequenas. E fomos até Fortaleza, com o projeto de Curimã e a
Plataforma de Espada. Eram os projetos que a gente trabalhava. Então, criaram
um grupo chamado Gecam, que cuidava só da Bacia de Campos. E eu trabalhava
pelo resto da costa, na Divisão de Engenharia. Ficava responsável pelos projetos
do Nordeste.
PRIMEIRA TURMA DE ENGENHEIRAS
Havia um grupo especializado que trabalhava na Bacia de Campos, o Gecam.
Olha como é que a vida vai cruzando. Eu entrei em 77 e trabalhava na Divisão de
Engenharia. Em 78, a Petrobras resolveu admitir mulher no seu quadro de
Engenharia. Quando fiz a prova em 74, eu tinha guardado as questões que tinha
feito na cabeça e anotei no meu cartão o que tinha caído na prova. A Cibele,
minha esposa, estava estudando, se formando em Engenharia Química, na UFRJ.
E eu falei o seguinte: “Cibele, vai abrir um concurso pra mulher”. Ela: “Puxa, eu
vou tentar”. Eu falei: “Eu lembro da prova que fiz. Vai cair questão sobre isso...”.
Nós estudamos juntos. Ela tinha um grupo de colegas, e a gente ia estudando,
estudando. Ela fez a prova e passou de primeira. Eu tinha sido o terceiro suplente.
Eram 30 vagas e ela passou direto em 20º lugar. Quer dizer, ela passou no
concurso da primeira turma de engenheiras mulheres, quando foi permitido o
ingresso, em 1979.
CIBELE – ESPOSA E COLEGA DE TRABALHO
O que aconteceu? Ela foi fazer o curso de especialização. Ela fez processamento
pra refinaria. Eu fiz o curso de Engenharia de Equipamentos. O curso dela era
bem difícil. E no meio do curso aconteceu o inesperado, que a gente não tinha
planejado. Ela ficou grávida da minha filha Elaine. E aí? Jamais a gente podia
pensar em não ter a criança. Isso nem passava na nossa cabeça. E ela fez um
sacrifício muito grande, porque estava fazendo um curso altamente competitivo.
Era extremamente importante ela se classificar bem pra poder ficar no Rio e não
ter que ir para fora, pra não nos separarmos. Ela estava grávida e não tinha jeito.
Ela fez o curso assim mesmo. E conseguiu passar, pegou a última vaga do Rio de
Janeiro, na Reduc. Então, em 79, ela foi trabalhar na Reduc, grávida de sete
meses. E, assim que ela teve o neném, depois que passou o tempo que ela tinha
direito para amamentar, depois do período de licença, eu dei um jeito dela sair de
lá e vir pra cidade. Pra onde? Pro grupo da Bacia de Campos. Então eu trabalhava
pras plataformas do Nordeste e ela veio transferida pra trabalhar no Gecam no
grupo de plataformas da Bacia de Campos. Saiu da Reduc e mudou
completamente de ramo. Ela tinha feito um curso de Química pra refinaria e foi
trabalhar na área de produção forçada pela necessidade de ficar perto da neném e
longe da Reduc, porque ali era terrível. Ela foi a primeira mulher que teve na
refinaria, mas era tudo muito distante. Era engraçado porque a gente morava na
Morada do Sol aqui em Botafogo e ela saia às cinco e meia da manhã. Ela ia
trabalhar e eu ficava dormindo. Eu pegava às oito horas. Ela ia às cinco e meia da
manhã pra Reduc, pegava o ônibus. Era uma viagem enorme até a refinaria. E eu
só entrava às oito horas aqui no Edise. Era moleza. Tranqüilo. Eu vivia na maré
mansa e ela carregava a barra pesada. Mas a sua transferência não foi muito boa,
porque lá na Reduc ela era a Cibele. Quando ela veio pra cá e foi pro Gecam, não
era mais a Cibele, era a esposa do Assayag. E isso não é uma coisa legal. A
pessoa tem que ter a sua vida independente, não misturar uma coisa com a outra.
Então, ela perdeu a identidade dela. “Quem é essa?” “Essa é a esposa”, não era
mais uma pessoa com sua individualidade.
GECAM
Nesse período, existia o Gecam, que era o grupo especial só pra construir as sete
primeiras plataformas da Bacia de Campos. O que era esse grupo? A Petrobras
não tinha nenhuma experiência nessa área. Em todos os projetos, a tecnologia era
importada. Então os projetos vinham ou da Inglaterra, os projetos do Mar do Norte,
ou dos Estados Unidos. Eram os dois modelos: o americano e o inglês. O modelo
americano tinha a sua atuação no Golfo do México. O Golfo do México tem 6500
plataformas, é um paliteiro. Ou o modelo do Mar do Norte que tinha aquele tipo de
plataforma, adequado para as condições climáticas daquela região. Então, a
Petrobras comprava a tecnologia dos ingleses ou dos americanos.
A Cibele tinha ido trabalhar no GECAM, nos projetos das plataformas da Bacia de
Campos. Quando esse grupo acabou de construir essas primeiras plataformas,
tudo se consolidou na Divisão de Engenharia. Quer dizer, as pessoas do GECAM
foram distribuídas na Petrobras e as pessoas de projeto voltaram pra Divisão de
Engenharia.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL / DIVISÃO DE ENGENHARIA
Eu já era chefe do setor de projetos da Divisão de Engenharia que atuava pro
Nordeste. Aí a Cibele veio trabalhar comigo, passei a ser chefe dela. Olha só que
coisa interessante. Não tinha nada a ver o trabalho de um com o outro e a coisa
se cruzou. A atividade dela tinha acabado e ela veio pra cá trabalhar em
Engenharia e eu virei o seu chefe, o que foi muito ruim. Eu era muito rigoroso,
porque não queria que dissessem: “Ah, é primeira dama”. Tinha essas
brincadeirinhas chatas, mas não tem jeito. É inevitável, e a vida é assim mesmo.
Isso não vai mudar. Mas não era agradável para a Cibele conviver com aquelas
brincadeiras. Ela ficou muito tempo trabalhando comigo.
E o que aconteceu? Até então, no Cenpes, só existia atividade de pesquisa e
engenharia da área de refino. Em 83, a Petrobras resolveu criar no Centro de
Pesquisa a atividade de Engenharia Básica da área de produção. Então, nós
saímos da Engenharia, quer dizer, comecei trabalhando no Departamento de
Exploração e Produção, fui pra área de Engenharia, na época era o Segen, e
depois fui para o Cenpes. Em 83, criou-se esse grupo no Cenpes.
ENGENHARIA BÁSICA DO CENPES
Resolveu-se então criar o núcleo de Engenharia Básica da área de produção no
Cenpes em 1983. Antes existia um grupo que cuidava da área de Refino, que
nasceu em 76. Para o Cenpes, nós viemos por um processo de livre escolha.
Quer dizer, quem quisesse podia ir para a Engenharia Básica no Cenpes. O novo
núcleo ficaria encarregado de criar a tecnologia e projetar as plataformas. Quem
quisesse ficar na Engenharia ficaria na Edise. E assim foi: dois terços do grupo foi
pro Cenpes e um terço ficou na Engenharia.
BACIA DE CAMPOS – CAMPOS VERMELHO, PARGO e CARAPEBA
Quando nós chegamos no Cenpes, nosso primeiro desafio foi projetar o primeiro
conjunto de plataformas fixas do Pólo Nordeste da Bacia de Campos. Então, em
83, a gente começou a fazer o primeiro projeto 100% nacional da Bacia de
Campos. Até então os projetos eram importados. A tecnologia vinha de fora. O
Pólo Nordeste da Bacia de Campos era um complexo de seis plataformas: três
plataformas no campo de Vermelho, uma no campo de Pargo e duas no campo de
Carapeba. E a Cibele veio trabalhar comigo nesses projetos. Eu era chefe do setor
de Facilidades e Produção. Era uma chefia de uma área pequena. E nós
começamos a criar esse núcleo que trabalhava sempre na área de projetos de
plataformas. Já não existia mais o Gecam, aquele núcleo executivo que foi feito
pras primeiras plataformas da Bacia de Campos. Eu fiquei de 1983 até 1989,
trabalhando nessa área que a gente chamava de Diprex, Divisão de Projetos de
Exploração. E a Cibele trabalhando junto comigo nesse período. Em 1989, o
Guilherme Estrella, atual Diretor da Petrobras, era o superintendente do Cenpes.
Ele tinha sido recém-empossado no Cenpes. Antes era o José Paulo Silveira.
PROCAP - PROGRAMA DE CAPACITAÇÃO EM ÁGUAS PROFUNDAS
Em 1986, José Paulo Silveira criou o Procap – Programa de Capacitação em
Águas Profundas da Petrobras. A criação foi do Dr. Silveira e a execução do
primeiro programa matricial foi do engenheiro Frederico Araújo. Eles eram muito
ligados. Então, eles verificaram o seguinte. A Petrobras tinha descoberto, em 84,
o Campo de Albacora, um campo em águas profundas. Em 85, descobriu o
Campo de Marlim, um outro campo de águas profundas localizado entre 600 e
1100 metros de lâmina d’água. E qual era o modelo? A Petrobras até então
recorria a importação de tecnologia. Esse era o modelo. Quando se criaram as
refinarias na década de 60, a Petrobras foi pro exterior e comprou o projeto porque
o modelo era comprar de quem já tinha, alguma coisa que fosse comprovado e
que funcionasse. Em 70, na Bacia de Campos, a gente criou Gecam, porque era
necessário construir sete plataformas, e também se comprou a tecnologia tanto da
Inglaterra, do Mar do Norte, quanto dos Estados Unidos no Golfo do México.
Quando descobriram os campos – Marlim e Albacora –, verificou-se o quê? Não
existia tecnologia comprovada pra produzir esses campos nessas profundidades.
O mundo não tinha essa tecnologia. Existia muito conhecimento científico, mas
ninguém tinha necessidade de produzir petróleo naquela profundidade. Foi
quando o Dr. Silveira teve a visão de criar um programa pra capacitar não só os
técnicos da Petrobras, como toda a comunidade das universidades brasileiras,
para gerar conhecimentos a fim de que a gente pudesse produzir esses campos
em águas profundas. Pra mim, a idéia dele foi genial, porque a Petrobras
trabalhava de uma forma totalmente hierarquizada e a idéia era criar um programa
matricial que tivesse uma coordenação. Na época, era uma coordenação
alternada entre o Cenpes e a área de produção, o Edise, de forma que o
conhecimento circulasse dentro de todas as áreas da Petrobras. Então, o Silveira
teve o grande mérito, junto com o Dr. Alfeu Valença, de criar esse programa. O
criador foi o Silveira e o Frederico Araújo, que foi o executor do Procap, em 1986.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL /PROCAP 1000
Nessa época, eu trabalhava na divisão de projetos. Eu tinha alguns projetos de
inovação que estavam sob a minha custódia, mas muito pouca atividade na minha
área era ligada às águas profundas. Quando o Silveira saiu do Cenpes e foi pra
área de planejamento da Petrobras, ele levou o Frederico Araújo. Então, o
Guilherme Estrella assumiu a Superintendência Geral do Cenpes. E eu lembro
que estava na véspera de sair de férias, estava indo com minha família pra Caldas
Novas, em Goiás. Tinha comprado o pacote de viagem com antecedência de seis
meses. Quando o Estrella assumiu, me telefonou e pediu pra eu dar um pulo na
sala dele. Eu achei estranho porque não tinha ligação direta com ele. Tinha uma
outra pessoa que era o meu chefe, e tinha uma outra pessoa que era o chefe do
chefe até chegar a ele. Ele era, então, a terceira pessoa acima na escala
hierárquica. Ele me chamou e disse: “Assayag, estou te convidando pra assumir o
Procap”. Eu falei: “Eu? Eu não tenho essa experiência, eu não tenho essa
afinidade. A minha atividade é mais de projeto de plataforma e não de pesquisa”.
“Pois é, mas eu quero justamente uma pessoa que tenha teu perfil pra chefiar o
Programa de Capacitação de Águas Profundas.” Eu disse: “Estrella, você deve
estar com o nome errado.” Ele falou: “É você mesmo que eu quero. E mais, você
tem meio dia pra me dar uma resposta. Então amanhã você me diz sim ou não.”
“Mas eu tô saindo de férias!” “Sim ou não, amanhã.” Aí eu fui pra casa, fiquei
maluco. O que vou fazer com esse negócio? Eu vou mudar toda a minha carreira.
Será que eu vou ser capaz de pegar tanta responsabilidade? O primeiro
pensamento foi de insegurança. A gente está acostumada a fazer uma coisa e te
convidam para outra. Eu fui pra casa, pensei, pensei. Falei: “Eu acho que é uma
chance que eu tenho. Vou ter que assumir, vou ter que aceitar isso.” Foram umas
férias horríveis, porque eu fiquei 15 dias só pensando no que ia acontecer na
volta. A gente foi pra relaxar. E eu voltei no dia seguinte e falei: “Aceito o desafio.”
Tirei os 15 dias de férias só pensando nisso. Eu me lembro bem que, quando
voltei, no dia seguinte, eu tinha que fazer uma palestra em inglês pra uns alemães
sem nem saber do que se tratava. E assim foi feito. Eu comecei a trabalhar no
Procap. E não tinha nem o Frederico, que já tinha ido embora. Ele nem teve tempo
de passar o serviço pra mim. Tinha a mesa dele, tinha aquelas atividades.
Comecei a trabalhar no Procap em agosto de 89. Esse foi o primeiro Procap,
programa de capacitação. Eram 109 projetos e nós concluímos todos eles.
PROCAP 1000
O programa começou em 86 e estava previsto para terminar em 91. Era um
programa muito mais voltado à capacitação pra poder viabilizar a produção no
Campo de Marlim e Albacora. A coordenação do programa era feita
alternadamente, entre o Cenpes e o E&P, na época, estava entre o Luciano
França e o Frederico Araújo. Houve um momento que disseram: “Vamos acabar
com isso.” Era uma coisa muito anormal na Petrobras. E existiam as áreas
técnicas. Esse era um programa que percolava horizontalmente tudo. A gestão era
completamente diferente do normal. Falo isso porque, hoje, no Cenpes todos os
programas são assim. Mudou tudo. O Procap quebrou os paradigmas de como é
que você atinge um objetivo empresarial, como é que uma atividade nova gera
tecnologia. É importante você chegar num objetivo empresarial. Quer dizer, era
uma coisa que ninguém acreditou no começo. Depois, virou a regra. E foi mais
uma do Guilherme Estrella. Quando chegou em 91, quando era pra terminar o
programa, eu fiz o relatório final. Eu escrevi todo o relatório dos resultados que
nós tínhamos alcançado e o Estrella falou: “Assayag, vamos criar um outro
programa pra dois mil metros.” Eu falei: “Mas, Estrella...” “Vamos criar. Você
prepara o arcabouço do programa, porque nós vamos criá-lo.” Ele é geólogo e tem
um raciocínio totalmente “fora da caixa”. Ele não pensava com a mesma lógica de
um engenheiro. Ele tinha uma cabeça muito aberta e via coisas que eu não
conseguia ver. Eu aprendi muito com ele, com a sua maneira de pensar. Aprendi
que a gente tem, às vezes, que dar uma “surtada” mesmo pra poder fazer algo
diferente, para quebrar algum paradigma e trazer algo novo. E, em pesquisa, isso
é muito importante. Você tem que acreditar que é possível, tem que ter fé. Então,
eu gerei o arcabouço do Procap 2000.
PROCAP 1000 / PROJETOS
Os 109 projetos do Procap estavam relacionados ao problema de águas
profundas. Para produzir em águas profundas, você tem muitas especialidades:
especialidades na área de poço, na área de sistemas submarinos, na área de
escoamento, na área de unidades de produção, na área de sistema de ancoragem
da unidade de produção. É todo um processo, que nasce no reservatório de
petróleo. E nas profundidades maiores existem as disciplinas que você tem que
estudar, os diversos sistemas que você pode adotar pra produzir o petróleo.
Então, esses 109 projetos eram multidisciplinares, cobriam todas as disciplinas
envolvidas. Todos os processos. Então, a primeira etapa do processo de produção
de petróleo é – vou passar rapidamente – descobrir o reservatório. Isso não é
característica de água profunda, é o procedimento usual, é a descoberta da
geologia. É a exploração. Então, tem o reservatório, o poço, o sistema de
escoamento do poço, do reservatório pelo poço. A elevação do petróleo pode ser
natural ou artificial. Depois, como é que chega do fundo do mar esse petróleo, o
sistema de segurança que tem que ter, como é que você distribui o petróleo, a
garantia do escoamento para que esse petróleo possa sair do poço até uma
unidade de produção. Então, todo o sistema, todos os dutos que passam o
petróleo. E a plataforma inicial, a unidade de produção, que pode ser uma
plataforma submersível e pode ser um navio. Todos esses temas eram estudados
no Procap, geralmente com os projetos. Eram 109 projetos de pesquisa. Muitos
desses projetos de pesquisa eram só aprofundamento de conhecimentos que não
foram adiante. Mas, em pesquisa, é assim mesmo. Você tem 10 projetos. Um
projeto que dá certo paga todos os outros. Tem sistemas fantásticos que a gente
desenvolveu no Procap.
Na época, a gente desenvolveu um projeto do Danilo Oliveira, que é um
Engenheiro com experiência nessa área e muito competente. Ele desenvolveu o
BCSS, Bombeio Centrífugo Submerso Submarino, que era colocar uma bomba
artificial dentro do poço de petróleo no fundo do mar para bombear o petróleo para
uma unidade de produção. Essas tecnologias existiam desde a década de 40, mas
em terra. Então, diziam: “Isso em terra não funciona, você quer botar no fundo do
mar? Você é louco.” Hoje em dia os nossos sistemas de produção, muitos deles
utilizam essa bomba como se fosse uma tecnologia trivial e normal. E, na época,
quem pensava em botar um sistema como aquele pra produzir era tido louco e
visionário. Então, coisas engraçadas acontecem com quem trabalha em pesquisa.
De 10 anos pra cá, virou uma rotina o que era uma enorme inovação, na época.
Esse projeto deu certo, quer dizer, foi um daqueles que “arrebentou a boca do
balão”. E foi um grande sucesso. Fomos os primeiros a fazer esse projeto e hoje
somos benchmark* nessa atividade. É um motivo de grande orgulho. Mas tudo
começa com um projeto de pesquisa. Tem várias coisas que influenciam o
sucesso de um projeto. A chave da pesquisa é, principalmente, a pessoa que faz.
A grande matéria-prima não é computador, não é equipamento, é a cabeça das
pessoas. As pessoas são fundamentais num processo de pesquisa e de inovação.
Então, a gente tem que trabalhar muito em cima das pessoas. Esse projeto foi um
dos 109 desenvolvidos no Cenpes. Quando a gente foi passar pro Procap 2000,
era pra passar para um outro patamar, era um outro tipo de desafio que a gente
queria enfrentar. Enquanto o primeiro Procap se dedicou mais à capacitação, o
segundo programa foi mais voltado pra aplicação de tecnologias para viabilizar a
produção a dois mil metros de profundidade.
O Procap 1000 foi acúmulo de conhecimento. Nós estávamos tateando. Conhecer
era estudar. Era estudo sem muita preocupação com resultado. Foi uma
adaptação, para o mar, do sistema que se conhecia em terra. A maior parte dos
projetos era relacionada à extensão tecnológica. Vamos colocar assim, existia
extensão de tecnologia e inovação tecnológica. Inovação é uma coisa que nunca
ninguém fez. Alguma extensão foi feita, além da adaptação, pra usar em outra
situação. Nessa primeira fase, foi 80% de extensão e 20% de inovação. Quando a
gente foi pra segunda fase, fizemos o contrário: vamos mudar agora pra 20% de
extensão e 80% de inovação. Vamos pegar só aquilo que é altamente inovador. E
vamos ver se a gente consegue desenvolver alguma coisa que viabilize a
produção a dois mil metros. Então, a criação foi essa. O Procap era pra ser
encerrado em 1991 e a gente criou o segundo programa graças ao patrocínio do
Guilherme Estrella. É preciso dar o crédito pra ele. Eu fui mais um executor, não
fui o criador da idéia. Isso é importante deixar registrado. E o Estrella me apoiou.
Porque, se ele não apoiasse, o Procap teria acabado em 1991. O idealizador do
Procap foi o Silveira, junto com o Alfeu. Em setembro de 1992, nós conseguimos
aprovar na diretoria o Procap 2000.
PRÊMIO DA OTC – 1991
O prêmio da OTC foi recebido em 1992. A cronologia é o seguinte: o Procap
terminou em 1991, o prêmio foi recebido em maio de 1992, e o Procap 2000 foi
aprovado em setembro de 1992. O prêmio foi no meio e culminou com um
conjunto de projetos que a gente fez para produzir o Campo de Marlim. Então, a
gente criou o sistema chamado “pré-piloto de Marlim”, que viabilizou a produção
na faixa dos 700 metros de profundidade, que foi o recorde mundial naquele ano.
Esse conjunto de tecnologias aplicado num projeto, que teve como resultado a
produção de petróleo, quer dizer, o sistema de completação submarina, árvore de
natal molhada, sistema de coleta e a unidade de produção, esse conjunto é que foi
premiado como tecnologia para águas profundas, na época, fruto de trabalhos
gerados no Procap em 1986. O Procap é programa de conhecimento, é projeto, é
papel. O produto é o relatório. E o que foi premiado não foi papel, foi um sistema
de produção efetivo que tinha tudo isso junto, o reservatório produtor que foi
descoberto, o poço que colocou em produção, o sistema de escoamento e a
plataforma.
PETROBRAS – BACIA DE CAMPOS COMO DIFERENCIAL
Qual é a grande diferença da Petrobras pras outras empresas? Como a Petrobras
é dona do reservatório, ela pode ousar e inovar sem ter que pedir licença a
parceiros. Nos outros campos de petróleo fora do país, geralmente, você tem a
sociedade de várias companhias. Aí você tem que ter a licença de cada um pra
poder inovar. A inovação pode dar certo e pode dar errado. Se der errado,
ninguém quer bancar o prejuízo. Então, a grande vantagem da Petrobras é que
ela sempre ousou. Os técnicos ousavam e os chefes, os gerentes apoiavam essa
ousadia. Nunca se deixou de fazer nada por falta de dinheiro. Todos os nossos
projetos foram feitos com o apoio total de todas as diretorias, fosse ela desse ou
aquele partido político. Não houve nenhuma diretoria, desde que trabalho lá, que
dissesse: “Ó, eu não fiz isso porque não tinha dinheiro.” Sempre tinha dinheiro.
Isso é uma coisa importantíssima. Todo mundo apoiou. Se a gente não fez mais,
foi por falta de capacidade e não por falta de dinheiro. Eu diria que tinha verbas
em abundância. Não deixamos de fazer nada por falta de dinheiro.
Como a gente foi tendo uma série sucessiva de sucesso, o sucesso financiava a
ousadia seguinte. Mas o programa poderia ter tido sucesso e mais nada. Só que a
gente fez o primeiro projeto, produziu e ganhou o prêmio e o reconhecimento
mundial. O que é o prêmio? O prêmio não é nada, é uma tabuleta. Mas o que
representa? O reconhecimento mundial. E significa que um país de terceiro mundo
pode gerar uma tecnologia que o primeiro mundo reconhece como o top do
mundo. Representa que um país agrícola, tido como subdesenvolvido e cheio de
problemas, pode criar uma tecnologia nova que o mundo de fora reconhece.
A partir de então, eu fui trabalhando nisso. Eu era convidado pra fazer palestra no
mundo inteiro. Eu viajei o mundo inteiro só proferindo palestras sobre tecnologias
de águas profundas em todo lugar que você pode imaginar: na Europa, na Índia,
na China, no Japão, na Nigéria, na África. Rodei o mundo inteiro levando o
conhecimento de como é que a Petrobras desenvolveu o seu programa
tecnológico, como é que a gente desenvolveu essa competência pra poder chegar
onde nós estamos hoje.
IMAGEM DA PETROBRAS
Quando você entrava num táxi aqui no Rio e falava da Petrobras, naquela época
em que os preços da gasolina subiam, os motoristas reclamavam: “A Petrobras é
uma porcaria, só faz subir o preço da gasolina.” Aqui no país, a Petrobras tinha
uma imagem terrível. A imagem da Petrobras, no Brasil, nunca foi muito boa,
nunca conseguimos passar pra sociedade brasileira o que a Petrobras
efetivamente é. Hoje, talvez, esteja melhor. Eu acho até que os nossos últimos
programas de comunicação têm tentado passar isso. Mas, quando você ia pra
fora, você tinha um reconhecimento muito maior do que se tinha aqui dentro. Era
muito interessante: lá fora, a gente era tratado como rei e aqui, quando a gente
dizia que era empregado da Petrobras, era tratado como um “marajá”. Havia essa
diferença muito grande. Era como se a Petrobras só fizesse aumentar o preço da
gasolina. E a gente não tinha a capacidade de mostrar como é que era o processo
de preço de gasolina, o que faz subir ou faz descer, o que é taxação etc. A gente
trabalhava com essa informação, mas não conseguia transmitir isso para a
sociedade. Hoje essa transparência ocorre mais.
DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIA
A Petrobras é o seguinte. O que se vende? Tecnologia é diferente de ciência. Nas
ciências, quando você descobre algo novo, a primeira coisa que você faz é
publicar um trabalho pra ser reconhecido como o dono daquela idéia. Na
tecnologia, a primeira coisa que você faz quando desenvolve algum projeto, você
esconde pra ninguém saber e ninguém te copiar. Você patenteia pra ter o direito
de uso. O grande ganho da tecnologia é aplicar nos seus recursos pra você
produzir o petróleo a um custo mais baixo. O objetivo não é vender a tecnologia. A
Petrobras não vende tecnologia, porque não é nessa venda que ela ganha. Onde
ela realmente ganha é na produção de petróleo. Então, no centro de pesquisa,
não vendemos tecnologia. Nós desenvolvemos e aplicamos nos campos que a
Petrobras possui ou nos campos que ela possui como parceiros. Mas ela não
vende pra terceiros a tecnologia que ela desenvolve.
Quando se importava tecnologia, a gente comprava de empresas de engenharia
ou de universidades. Não comprava de empresas de petróleo. Você não comprava
da Shell nem comprava da Exxon. A gente comprava de empresas de engenharia
que detinham aquela tecnologia. E você comprava, pagava em forma de royalty,
de licenciamento. Você pagava o custo do projeto mais o licenciamento do
conhecimento. Chama-se know how fee. Fee em inglês é taxa. Taxa do know how.
Você pagava isso. Até hoje é assim.
A Petrobras pode fazer isso a hora que ela quiser. Só que a filosofia e a política
era que a gente não tem recursos para fazer projetos para a Petrobras e pra
vender pra fora. Quando você vai vender pra fora é preciso ter uma capacidade de
venda. Então, até hoje a gente não teve condições de vender pra fora porque,
antes, temos que cumprir as nossas necessidades internas. A gente contrata pra
poder fazer, quanto mais vender pra fora. Mas nós temos todas as condições.
Alias o meu projeto de MBA era criar uma companhia de venda serviços pro
exterior. Criei uma companhia chamada Petrobras Deep Water Service, uma
companhia fictícia, onde a gente viabilizava a venda de serviços de engenharia
para desenvolvimento de tecnologia.
A gente tem muita coisa pra produzir aqui no Brasil. Ou do Brasil ou fora do Brasil
com a
Petrobras. Quer dizer, não é vendendo serviços que é o negócio da
Petrobras. O negócio da Petrobras é produzir petróleo. Então, ela aplica nisso pra
produção de petróleo, não pra a venda de serviços. Agora, pode ser que um dia a
gente venha a vender serviço, mas não pode ser na Petrobras do Brasil SA. Tem
que ser uma companhia subsidiaria separada, só de venda de serviços. Mas hoje
em dia a gente não tem condições de atender a própria Petrobras, quanto mais
vender pra fora. Esse é o ponto. Todo o trabalho é feito pra dentro da Petrobras.
Agora, se criassem uma empresa, a gente conseguiria vender serviços e
certamente seria rentável, não tenho dúvida disso.
PROCAP 2000
O Procap 2000 foi um programa de seis anos. Começamos em 92 e terminou em
final de 98, 99. E depois veio o Procap 3000. Então, nesse Procap 2000 a grande
meta era trabalhar nos projetos que viabilizassem a produção de petróleo em 2000
metros de profundidade. A carteira de projetos era cerca de 20 projetos. O
primeiro foram 109 projetos. Esse era bem mais focado. A gente tinha projetos
sistêmicos. Foi proposital. Porque enquanto no primeiro o negócio era conhecer, o
Procap 2000 estava mais focado em tecnologias de inovação. E mais focado em
resultados. Então, a parte ligada à capacitação em si foi deixada mais pra projetos
junto com universidades e não faziam parte da carteira. No começo foi muito
importante. Na segunda fase, menos importante. A gente deu um foco maior para
o programa mais voltado para as tecnologias.
CAMPO DE RONCADOR / 2º PRÊMIO OTC
E o grande resultado, tiveram vários resultados, mas o maior resultado foi
viabilizar a produção do Campo de Roncador, que a gente produziu numa
profundidade de 1886 metros e que culminou com o final do Procap 2000. Esse
campo de Roncador tem algumas histórias interessantes, porque nós colocamos o
Campo em produção bem rapidamente. Descobriu-se o campo e em um ano e
meio a gente colocou em produção com o sistema provisório e ganhamos o
prêmio da OTC de 2001. A gente já conhecia todos os sistemas. Então, na hora
que se descobriu o campo, aconteceu o que se chama de fast track, rápida
implementação. Para dar um exemplo, o Campo de Albacora foi descoberto em 84
e foi colocado em produção em 89. Foi um espaço de tempo grande para colocar
em produção. E em Roncador, que é um dos maiores campos brasileiros, a gente
colocou em produção um ano e meio após a sua descoberta, em tempo recorde.
Já existia o conhecimento e uma segurança. E, dessa forma, quando se
desenvolve um estudo, você pode fazer, pode comprar, pode instalar esse sistema
que vai funcionar, sabe que não tem risco também, porque é minimizado, ta
mitigado pelo conhecimento. Então nós colocamos o campo em produção através
de um poço e íamos colocar em produção através da P-36, quando teve aquele
lamentável acidente da plataforma. Mas o sistema submarino já tinha sido
premiado, aquele que nós ganhamos por causa de Roncador, o prêmio da OTC
em 2001, o nosso segundo prêmio, dado em função das tecnologias de águas
profundas voltadas à produção de petróleo e não por causa da plataforma. A
plataforma faz parte do sistema, ela recebe o petróleo. O acidente que teve não
tinha nenhuma relação com as tecnologias premiadas que haviam sido
desenvolvidas. Essas eram a base da tecnologia voltada a poços, sistema de
coleta e sistema de ancoragem da unidade, que a gente desenvolveu também
pioneiramente como primeiro no mundo. Aí o que aconteceu? Nós recebemos
anúncio do prêmio em janeiro e íamos receber o prêmio em maio de 2001. Em 15
de março, teve o acidente com a plataforma. Em 19 de março, ela afundou.
ACIDENTE COM A P-36
O problema não foi da manutenção. Foi um conjunto de falhas, uma seqüência de
falhas que ocorreu. Quer dizer, não houve uma causa específica. O acidente foi
muito fortemente investigado, com muitos comitês de investigação, quer dizer,
para saber exatamente o que aconteceu. E na realidade não houve uma causa,
houve um conjunto de falhas que ocorreram, levando ao afundamento da
plataforma. Existe uma história muito grande, foi feito um filme. Tudo foi provado.
O que aconteceu foi que uma falha de um sistema na plataforma causou o
afundamento, mas essa falha não tinha relação com a tecnologia que a gente
desenvolveu pra produzir o campo. Tanto é que, quando a plataforma afundou, as
tecnologias se mostraram eficientes, nós fechamos os poços e não houve
problema nesse sentido. Não perdemos petróleo. Não houve dano ambiental,
porque era plataforma semi-submersível, então não houve vazamento na
plataforma. Agora, os poços foram fechados. Depois afretamos um navio e em um
ano e meio colocamos de novo aqueles mesmos poços em produção sem
problema nenhum. Mas foi muito triste, muito duro, aquele o acidente foi uma
coisa terrível porque, principalmente pra mim.
Eu tinha trabalhado durante anos anteriores para a OTC. Eu construí o projeto pra
ganhar o prêmio, fiz toda a preparação. Pra você ganhar o prêmio na OTC é a
maior conferência de petróleo do mundo, uma conferência que recebe 50 mil
pessoas por ano. E você tem que preparar um caso, um projeto. Um projeto que
tem um conteúdo técnico muito forte e que tenha um projeto de marketing muito
grande. Você tem que preparar um case, com o máximo de documentação
possível. Depois você tem que ver quem são os jurados da companhia, levar,
apresentar o projeto pessoalmente um a um, deixar. Você tem que ter um grande
conteúdo. E geralmente são três colocados na final, e dos três escolhe um, tipo
Oscar. De três eles escolhem um. Tem todo um dossiê que você tem que entregar
pra poder, primeiro pra se habilitar. Quando a gente recebeu a carta em janeiro,
que a gente recebeu o prêmio, foi uma festa. Porque o prêmio não vale nada, é
uma plaquinha, uma tabuleta. Mas é mais pra dizer: “Poxa, alguém viu que a
gente fez esse trabalho em relação ao mundo e deu o reconhecimento”. Aí nós
tínhamos ganho o primeiro, comunicado em dezembro, no dia 8 de dezembro que
a gente soube. Só nós soubemos. Depois o mundo soube que a gente ganhou em
janeiro. Em janeiro foi divulgado que a gente ganhou. Em março houve o acidente
com a P 36 e aí o presidente da OTC ligou pro diretor da Petrobras, o Dr.
Coutinho, e o presidente Reichstul – e disse: “Olha, nós vamos cassar o prêmio de
vocês”. E era uma coisa inédita. Nunca ninguém tinha cassado. Você dar um
prêmio e depois cassar.“Vamos cassar o prêmio porque ta havendo uma pressão
muito forte da imprensa. Como é que é a OTC, a entidade mais famosa do mundo,
vai entregar um prêmio pra uma empresa que afunda uma plataforma e morre 11
pessoas?” E nós já estávamos traumatizados com o ocorrido. Todo mundo.
Aí o Dr. Coutinho chamou o Formigli que teve aqui ontem, e pediu pra que
fôssemos a Dallas, fizéssemos uma apresentação mostrando que não havia
relação entre o acidente e as tecnologias que tinham sido premiadas, eram coisas
totalmente independentes. E nós tivemos que preparar um filme junto com a PUC
pra mostrar o que aconteceu no acidente, o que era a tecnologia. E passamos por
uma banca de umas dez, 12 pessoas americanas de cabelo branco, onde a gente
apresentou e mostrando isso e quando terminou a apresentação de um dia, eles
efetivamente concordaram: “Você tem toda razão, não houve nada e o prêmio ta
mantido”. Quando terminou, foi aquela a sensação de missão cumprida. Se a
gente voltasse dos Estados Unidos pra cá dizendo: “Nós perdemos o prêmio”?
Seria chegar aqui .... A Petrobras tem isso. Isso ta no sangue da gente. Quer
dizer, a empresa, a gente tem tudo, se confunde com a gente. Porque é uma
coisa de você vencer o desafio. Você construiu tudo. E perder e depois ter que
reconstruir. Eu estava, a coisa mais, eu estava em Abuja na capital Nigéria.
Apesar de a cidade mais importante se chamar Lagos, a capital se chama Abuja, é
como se fosse Brasília, fica no centro do país. Eu tava assistindo a CNN quando
eu via a P-36 sendo afundada, eu e o cara americano que fazia parte do comitê do
prêmio. Ele falou: “Oh, Jesus!”. Eu lembro bem, ele fez essa exclamação pra mim
e disse: “Não acredito no que eu estou vendo”. Para ele era complicado também,
porque ele tinha votado a favor da Petrobras e tinha que justificar como é que ele
votou numa companhia que afundou uma plataforma e matou 11 pessoas? Foi
aquela coisa lá. Então, é uma outra história.
PROCAP 2000 /PROCAP 3000
A gente desenvolveu as tecnologias todas durante o Procap 2000, um programa
vitorioso. O Procap tem várias ramificações. Todos os programas tecnológicos
hoje da Petrobras são programas matriciais. Ele tem um foco voltado no objetivo
empresarial determinado. Ele tem metas a serem alcançadas e tem desafios a
serem vencidos. Então, esse é o grande mérito do Procap. E logo depois nós
criamos o Procap 3000 mais visando à aplicação pra produzir em 3000 metros.
Ainda não tivemos nenhum reservatório descoberto na profundidade. Temos
agora uma chance nos Estados Unidos, que é uma profundidade de 2600 metros.
E eu fiquei então na Petrobras trabalhando no Procap de agosto de 89 a outubro
de 2002, quando eu passei essa atividade, quer dizer, depois de 13 anos
trabalhando nisso eu fiquei, eu já me confundia com Procap. Já não me
conheciam mais como o Assayag, eu era o homem do Procap. Porque eu vivi 13
anos, isso diretamente. E eu falei: “Será que eu não sei fazer outra coisa além
disso? Será que eu só sei isso?” Então eu me perguntava às vezes. E em agosto
eu saí. Passei o Procap pro outro colega meu que deve estar fazendo um trabalho
melhor do que eu.
GERÊNCIA GERAL DE ENGENHARIA BÁSICA - CENPES
Eu quis sair do Procap, porque queria fazer outras coisas diferentes do que fazia.
Hoje eu estou na Gerência Geral de Engenharia Básica, responsável por todos os
projetos da companhia de investimentos nas áreas de E&P, todas as plataformas
de produção, toda a área de refino da Petrobras, toda a parte de gás e de toda a
área de Petroquímica, no Cenpes. Tem projeto pra todas as áreas da Petrobras.
Então é um grande desafio. O Procap, pra mim, foi uma grande escola. É uma
experiência que jamais vou esquecer. Todos esses momentos. O momento mais
emocionante pra mim foi a conquista do prêmio. O prêmio que na realidade não é
nada. O prêmio não quer dizer nada, é um pedaço de madeira com uma placa de
aço com algumas inscrições. Não é mais nada do que isso. Mas ele tem um valor
moral muito grande pra as pessoas que participaram do trabalho. O prêmio não foi
só eu que ganhei, longe de mim. Eu coordenava uma equipe de pesquisadores, o
mérito do que foi feito é deles e não de quem coordenava. Quem coordenou
apenas induziu, aglutinou o conhecimento. Anotava e divulgava os resultados. Era
um trabalho muito mais de integração e de marketing do que efetivamente um
trabalho científico, que era feito pelos pesquisadores. Foram 13 anos de trabalho.
PROCAP 3000
A terceira fase do Procap já é uma fase bem mais madura. Quando você já ta,
quer dizer, como eu falei, eu saí do Procap num momento em que ele já tinha se
consagrado, já tinha atingido os objetivos para o qual ele foi criado. Hoje ele ta
numa fase bem mais madura que está ainda com resultados, mas é uma fase
mais fortemente de inovação, quer dizer, cada vez se trabalha. O nosso objetivo é
você inovar e desenvolver tecnologias que viabilizem a produção naquelas
profundidades e a um custo altamente competitivo, porque a tecnologia vai nas
duas pontas, coisas novas e coisas que já existem, fazer de uma forma mais
simples e gastar menos pra fazer aquilo que faz. Isso que é o papel da tecnologia.
E o Procap ta numa fase bem madura, quer dizer, cada vez é mais difícil criar
coisas muito diferentes do que ta aqui agora. Mas sempre existe alguém que
pensa “fora da caixa”, e que pode gerar essa inovação. Então eu diria que hoje o
Procap 3000 ele ta aguardando uma oportunidade de ter um reservatório nessa
profundidade pra poder comprovar a tecnologia. Hoje o que nós temos são
projetos de óleos pesados em offshore, em águas profundas, que no mundo não
existe nada parecido. Então hoje o Campo de Jubarte no Espírito Santo nós
vamos colocar em produção. Eu de alguma forma estou longe do Procap, mas
estou vendo o que o Procap está fazendo e estou trabalhando na área mais da
E&P. O trabalho que a gente faz hoje é projetando as unidades que vão operar em
águas profundas ou em águas rasas. Então, tem projeto desde jaquetas a 100
metros, estações terrestres, unidade de refino até as plataformas que vão
trabalhar a 1800 metros de profundidade.
DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIAS
Sistema de Ancoragens em Sistema de Águas Profundas
Os grandes destaques de inovação tecnológica – tem muitas coisas que a gente
fez, tem coisas que foram adaptadas – o que inovou, o que quebrou o paradigma,
foi o sistema de ancoragem em sistema de águas profundas. Esse sistema é
invenção de um colega nosso que fez doutorado na Inglaterra. Como é que é
ancoragem? Ancoragem é o seguinte: como é que uma plataforma, uma estrutura
de aço, um navio ou uma plataforma semi-submersivel, como é que ela fica presa
no mar? No mar você tem onda, vento, corrente, enfim, tem movimento. E você
tem que deixar aquela unidade fixa no mar por um período de 25 anos. Sujeito a
que? A todo tipo de intempérie da natureza, tipo o tsuname que passou agora. Ela
tem que resistir. Graças a Deus, isso não existe no Brasil. Eu digo intempérie
mais, é uma onda centenária, uma rajada de vento mais forte. Você tem que
projetar a instalação pra resistir a todo esse tipo de situação. No Brasil não temos
furacão, nem terremoto. Mas nós temos que projetar pras nossas condições. E é
uma história interessante, quando começamos nós não tínhamos como saber as
condições ambientais, nós não tínhamos dados sobre as condições ambientais.
Os primeiros projetos eram feitos com base em um relatório, chamado Relatório
Glenn, gerado na Califórnia. A gente comprava as informações sobre a altura de
onda, de vento, de corrente marinha. Essas informações eram compradas e eram
dados estatísticos. Não havia confiabilidade. No Procap 1000, a gente começou a
medir isso. Hoje a gente tem um banco de dados completo. A gente pode projetar
qualquer coisa pra costa do Brasil. A gente conhece a costa brasileira como
ninguém, nenhuma companhia trabalha com as informações que nós temos das
condições ambientais brasileiras, da costa brasileira.
Então, o sistema de ancoragem foi desenvolvido em poliéster, em fibra de
poliéster. Aliás, a gente passou por vários outros materiais até chegar nessa.
Pesquisa não é só sucesso. Aliás, pesquisa é muito insucesso e um sucesso. A
gente fala mais do sucesso. Mas pra você acertar alguma coisa nova você errou
20 vezes pra acertar uma. Aí quando você acerta uma você fala muito dessa uma
e esquece as 20 que você errou. Então a gente fez vários testes com várias fibras
e chegamos a essa composição de poliéster desenvolvida por um engenheiro, o
Dr. César Del Vecchio. Ele desenvolveu esse sistema pra poder fixar a plataforma.
Qual era a vantagem? Antigamente, isso era feito com um cabo de aço. Quando
você vai em qualquer navio, o cabo é de aço com amarra, quer dizer, corrente no
final e uma âncora pra você prender e não deixar a plataforma sair da locação.
Então a gente desenvolveu esse sistema com uma fibra de poliéster. O sistema de
fixação, vários que a gente foi desenvolvendo cada vez mais, tudo 100% nacional.
Quer dizer, não tinha nada similar no mundo. O mundo copiou a gente hoje.
Então, tanto o sistema de fixação através de âncoras de carga vertical, âncoras
torpedo que nós desenvolvemos. Tecnologia 100% brasileira. Então esse eu diria
pra você que é o maior destaque porque, nas demais, sempre tinha alguma coisa
que existia parecida no exterior. Mas essa, ela é inédita e inovadora. Então, eu
diria que o sistema de ancoragem de plataforma de produção desenvolvido pela
Petrobras é exclusivo. Eu diria que é o maior feito tecnológico. Outros
desenvolvimentos e melhorias a gente introduziu no sistema flutuante usando
navio, usando plataforma pra produzir petróleo. Mas a gente não foi inovador. A
Petrobras fez o segundo sistema de produção flutuante do mundo. O segundo. O
primeiro foi feito pelos ingleses no Mar do Norte, em Campo de Argyll em 1975. A
gente fez em 77. Mas não tem valor? Lógico que tem valor porque tem lá. Então
quando a gente vê esse negócio de valor, é um negócio relativo. No caso da
ancoragem, não existia nada parecido em nenhum lugar do mundo. Então é uma
coisa que, quando você fala nisso lá fora, isso é made in Brasil. É uma coisa que
é característica.
Mas hoje a gente tem a maior experiência mundial em sistema flutuante de
produção no mundo. Experiência quer dizer, é um modo de sistema produzindo
petróleo no mundo é nosso, apesar de não ter sido o primeiro ter sido inventado
aqui. Foi inventado na Inglaterra. E a gente pegou e adaptou e melhorou e
cresceu e tem mais do que eles têm hoje. Tudo isso é muito parecido com a vida.
Você tem que ter a necessidade de. Então, por exemplo, porque que a gente hoje
é líder em águas profundas? Porque a gente descobriu o seguinte, nós não
tínhamos petróleo em terra. O nosso petróleo tava no mar e tava em águas
profundas. Aí nós tivemos uma necessidade e essa necessidade criou um desafio.
E aí a gente trabalhou pra desenvolver e vencer o desafio. Mas se não tivesse o
desafio, a gente não iria desenvolver essa, se não tivesse essa necessidade a
gente não iria fazer isso. É que nem o relatório Link, ele tem uma fama. Quando
eu entrei na Petrobras, era novo, era garoto, o meu pai, o meu pai era comerciante
mas ele era jornalista de profissão. Escrevia algumas matérias. Ele me dizia:
“Olha, tem um americano que dizia que não tinha petróleo no Brasil. Esse cara é
um crápula”. E falava mal do cara. E eu cresci ouvindo isso. Quando eu cheguei
na Petrobras tive chance de ler o Relatório Link. Walter Link é o nome dele. É um
americano. Ele era chefe de divisão de exploração. Ele dizia o seguinte, no
relatório ele dizia o seguinte: “O Brasil não tem petróleo em terra. Tem muito
pouco. Se quiser crescer e ter auto-suficiência tem que ir pro mar. E mais do que o
mar, tem que ir pra águas profundas. Tem algo bem certo na visão desse cara.
Ele dizia isso. É dito no relatório. E isso nunca veio a público.
O cara era americano. Tem um lado de nacionalismo, nessa história. E eu falei:
“Não é possível”. Pra você ver o que é propaganda. O cara, realmente, ele
acertou. Hoje você vê o petróleo brasileiro é todinho no mar. 80% ta dentro do
mar. Agora, o cara era mal interpretado. Vale a pena pegar o relatório. Quem me
mostrou esse relatório, e existe na Petrobras até hoje. Ele é batido em folha de
papel à máquina de escrever. Então, o relatório existe até hoje. O Danilo tinha
uma cópia desse relatório. Eu li na mão do Danilo, dizendo que a possibilidade de
ter petróleo no Brasil era muito mais no mar do que em terra. O cara não errou. E
no mar em águas profundas. Na época era uma coisa inimaginável. Ele escreveu
isso em 1956, final da década de 50. Então era uma coisa assim que era, e o
pessoal dizia: “Contrataram um americano pra dizer que não tinha petróleo no
Brasil, pros americanos tomarem o nosso petróleo”. Não tinha um negócio desse?
Tinha uma história dessa? Mas não é bem assim.
PETRÓLEO HOJE / NOVAS FORMAS DE ENERGIA
Antigamente, se dizia o seguinte: a idade da pedra acabou não foi porque faltou
pedra. Até hoje, existe pedra. O que mudou foram as tecnologias, que fizeram
você fazer as coisas de outro modo diferente do que se fazia na idade da pedra. O
ciclo do petróleo vai acabar não pela falta de petróleo. O petróleo é um
combustível fóssil que trás vários problemas de poluição ao meio ambiente. Eu
acredito que nós vamos ter petróleo no Brasil e no mundo ainda por um período
grande. Mas o ciclo do petróleo vai acabar por questões ambientais, e não porque
suas fontes vão se esgotar. Isso aí é uma coisa que a gente ouve muito, estuda
muito. Agora, a forma de produzir petróleo, as tecnologias que são desenvolvidas
virão para baratear aquilo que no passado custava muito caro. Por exemplo, hoje
existe um carro à célula de hidrogênio. Esse carro custa um milhão de dólares.
Ninguém vai comprar um carro de um milhão de dólares só porque ele gera vapor
d’água e não polui. Mas eu te garanto que a tecnologia vai ser desenvolvida e o
seu custo vai baratear. Vai chegar um determinado momento que as condições
ambientais vão ser tão restritivas, que vai ser praticamente proibido ter alguma
coisa que jogue CO2 na atmosfera, porque cria efeito estufa. Os ambientalistas
não vão permitir. E é por isso que hoje a Petrobras está mudando a sua cara de
empresa de petróleo para uma empresa de energia.
Duas coisas são muito importantes, a primeira é a questão do meio ambiente. É
fundamental. Se no passado não era, agora vai ser cada vez mais. E a outra
questão importante é a água. Água. Se antes havia guerra no Iraque porque o
americano queria controlar o petróleo – o petróleo era o motivo de guerra – no
futuro, o motivo de guerra será a água, porque os mananciais estão diminuindo. E
quem tiver água limpa... Então, as disputas vão ser por causa de água. É um
negócio que a gente vê e que ta na nossa cara. Não parece, mas é uma coisa
que vai acontecer.
Então, mudou a forma de produzir petróleo do passado pro hoje, quer dizer, as
ferramentas para descobrir mudaram muito. A tecnologia evoluiu muito. Agora,
ficou mais difícil de achar o petróleo fácil. Petróleo fácil você não vai achar mais.
Hoje é uma corrida. Agora eu acredito que, ainda por mais um século, a gente vai
continuar tendo petróleo. Agora, o uso petróleo, eu diria que vai ser diferente. Nós
não vamos mais usar petróleo, porque vai chegar uma hora que vai custar tão
caro, vai ter tanto dano, que você vai ter alternativas ao petróleo pra poder usar
como energia.
BACIA DE CAMPOS / ECONOMIA BRASILEIRA
Vamos colocar em partes o que a Bacia de Campos representou, representa e o
que ainda vai representar. Para o país, o que ela representou? A grande salvação.
A descoberta da Bacia de Campos fez com que a Petrobras pudesse pensar em
auto-suficiência. Quando eu entrei na Petrobras, a auto-suficiência era
inimaginável. Era como uma figura de folclore. Hoje a auto-suficiência é iminente.
Nós temos as reservas definidas, e já não temos dúvidas. É mais uma questão de
investimento, de valer a pena produzir mais ou menos petróleo. Então, a Bacia de
Campos representou a chave para o Brasil sair da condição de um país altamente
importador de petróleo para se tornar um país auto-suficiente em petróleo. A Bacia
de Campos representa tão somente isso. É uma coisa enorme! Ela representou a
maior escola de produção de petróleo que a gente podia ter. A gente tinha uma
bacia que era o nosso laboratório. Hoje eu tenho um laboratório no Cenpes, em
escala pequena, mas tínhamos onde aplicar todas aquelas coisas que a gente
bolava no laboratório. Então, a Bacia de Campos é um laboratório de produção de
petróleo em escala real, que permitiu um aprendizado de toda a cultura brasileira
de petróleo. E ela está nos dando forças para conhecer as novas bacias que estão
surgindo. Ela é enorme. Ela vai continuar a representar uma importância grande
em termos de produção, mas ela ensinou a gente a produzir petróleo, descobrir
outras bacias como a Bacia do Espírito Santo.
BACIA DO ESPÍRITO SANTO
Em reserva ainda não é, mas eu acredito que a Bacia do Espírito Santo vai
crescer e se tornar uma outra bacia. Não sei se do tamanho da de Campos, mas
com certeza a Bacia do Espírito Santo será um novo pólo petrolífero brasileiro.
Não estou dizendo que a Bacia de Campos se esgotou, mas vai ficar cada vez
mais difícil descobrir óleo novo por lá. E uma nova fronteira exploratória está
aparecendo com a Bacia do Espírito Santo, que deverá ser o novo pólo. Estamos
aumentando a exploração lá. E tudo que a gente aprendeu na Bacia de Campos
vai ser aplicado na Bacia do Espírito Santo e na Bacia de Santos, que também é o
outro pólo. São dois grandes novos pólos, Bacia do Espírito Santo e Bacia de
Santos.
TRAJETÓRIA PROFISSIONAL /ENGENHARIA BÁSICA DO CENPES
Gerência da Engenharia Básica do Cenpes
Eu deixei o Procap e quis partir pra uma nova atividade. Eu sinto muita falta do
Procap, por causa de sua importância, para país. A gente desenvolvia tecnologias
novas, teve um outro relacionamento com universidades brasileiras, com as
indústrias brasileiras. Além de ter uma relação internacional muito grande. Mas é
uma fase. A vida da gente é feita de fases. E a gente vê que também pode
contribuir com outro tipo de atividade. Agora, eu estou envolvido em uma atividade
que não é nova pra mim, que já desempenhava antes de ir pro Procap, quando
trabalhava em projetos na mesma divisão. Eu era o chefe do setor da Engenharia
Básica, agora passei a ser o Gerente Geral de todas as atividades. Eu era limitado
apenas à área de produção, mas hoje a abrangência é muito maior. E você tem
sempre coisas novas pra aprender e pra somar. Então, mudei de águas profundas
pra gestão de projetos e estou na Engenharia Básica e isso dá muita vontade de
continuar trabalhando. Eu fiz 30 anos de Petrobras, dois fora. Em tese, eu tenho
mais três anos pra me aposentar, mas eu ainda espero contribuir muito se a minha
saúde permitir.
GESTÃO DE PROJETOS
Então, estou me especializando em gestão de projetos. É a nova onda. A
Petrobras tem grande fama de ser líder em tecnologia de águas profundas. Ela
trabalhou pra isso e desenvolveu sua tecnologia. E é reconhecida no mundo e tem
resultados claros no Brasil em função das nossas descobertas e de tê-las
colocado em produção. Agora, a parte de gestão de projetos se preocupa em
como implementar um projeto, em ter a previsibilidade, como dizer: “Um projeto
desses vai custar tanto, vai ser feito num prazo de tanto e vai operar da forma tal”.
Você tem que ter a capacidade de prever e realizar exatamente o que planejou,
com o custo que você quis. É uma nova ciência. E a Petrobras, nesse aspecto,
tem espaço pra melhorar. Ela tem que melhorar muito perto das outras grandes
companhias. E hoje nós estamos trabalhando essa parte de gestão de projetos.
Eu trabalho na Engenharia Básica, mas tenho uma visão do todo. Quer dizer, o
que é gestão de projetos? É desde da fase que você descobre o campo até a fase
que você bota a plataforma e produz o primeiro óleo. Esse período todo se chama
gestão de projetos. Eu desempenho um pedaço da gestão de projetos, porque o a
parte da Engenharia Básica é desenvolver toda a documentação técnica
necessária para ir para o mercado e licitar a unidade pra ser construída. É uma
parte importante, mas é bom conhecer tudo. Então, eu estou agora trabalhando e
gostando muito dessa nova etapa. Por que? Porque é a energia que trás o
desafio. Ou seja, na hora que tem uma coisa que ta indo bem e a gente quer
mudar, aumenta a nossa vontade de trabalhar e dá mais energia pra chegar lá.
Nós temos um desafio grande de tornar a Petrobras benchmark em gestão de
projetos. E nós estamos trabalhando nesse sentido. Na próxima OTC, nós já
vamos criar um grande painel mundial pra discutir gestão de projetos com todas
as empresas. Eu vou ser chairman da minha seção. Vamos trazer a Petrobras de
novo para o ponto mais alto, agora na área de gestão de projetos. Então, a
experiência do Procap está me trazendo pra área de gestão de projetos. A gestão
de projetos é válida pra tudo: serve pra plataforma, serve para o refino, serve pra
construir um shopping, serve pra outras atividades. Projetos são projetos. O
importante é como fazer um projeto que tenha alta rentabilidade, que tenha uma
alta previsibilidade de quando acontece. Essa é a magia dessa atividade. São
projetos de dois bilhões de dólares. Um projeto de produção está na faixa de um e
meio a dois bilhões de dólares. Então, é preciso fazer bem feito, inclusive por ter
um valor tão alto. E a Petrobras está cheia de projetos. Ela só não vende fora do
país, porque a gente não consegue atender o que a sua própria demanda interna.
Não consegue atender, quanto mais vender pra fora. Um dia, a Petrobras vai
crescer tanto que vamos conseguir usar essa experiência no mundo.
NOVOS PROJETOS / NOVOS DESAFIOS
No passado, a demanda de projetos estava mais ligada ao E&P. A margem de
retorno aos projetos de E&P é maior do que na área de refino. A margem e a
rentabilidade. Se você produzir petróleo a 15 dólares o barril, e no mercado o
petróleo custar 50, você ganha muito. Mas só que agora a área de refino tem um
enorme desafio. Primeiro, as refinarias brasileiras foram compradas com
tecnologias que vieram de fora. E eram tecnologias pra que tipo de petróleo? Pra
petróleo leve, pro petróleo árabe. Naquela época, nós não produzíamos petróleo.
Hoje a gente mudou todo o perfil das nossas refinarias com a nossa tecnologia.
Transformamos as refinarias projetadas inicialmente pra petróleo leve em
refinarias próprias para o processamento do petróleo pesado, que é o petróleo
brasileiro. A sociedade nem percebeu essas mudanças. Nós mudamos o perfil das
nossas refinarias.
E o segundo grande desafio da área de refino é diminuir as emissões
atmosféricas. E nós temos que, cada vez mais em função de acertos com a
Agência Nacional do Petróleo, ter os nossos hidrocarbonetos menos poluentes
possível. Há uma campanha pra reduzir emissões de enxofre, emissões de CO2.
Então nós estamos convertendo agora as nossas refinarias pra produzir, através
de um processo, uma gasolina com menor índice de emissões desses gases. E as
refinarias estão sendo adaptadas pra que isso seja feito.
Nós temos enormes desafios só para atender todo o parque de refino brasileiro.
Hoje nós temos 13 refinarias: 11 no Brasil e duas fora do país. Então, esse
trabalho também nós temos uma carteira repleta de projetos. Hoje eu tenho 21
projetos na área de produção e 65 projetos na área de refino. É um desafio muito
grande. Fora a parte de gás natural que ta crescendo muito também. A vantagem
do gás natural é ser muito pouco poluente. Gás não é poluente, mas existe o
problema do seu armazenamento. Descobrir e armazenar gás são outros desafios.
Bom, agora vamos ter um projeto grande que é da Bacia de Santos. Descobrimos
grandes reservas de gás e temos que colocar em produção essa reserva de gás
para o mercado de São Paulo. Portanto, são outros desafios.
CASOS / HISTÓRIAS / LEMBRANÇAS
Existem várias histórias interessantes, mas, sem dúvida nenhuma, a história que
mais me marcou em termos de emoção, de chorar, foi a história do acidente da P36, ocorrida junto com o recebimento do prêmio da OTC 2001. Quando fui
defender o prêmio na OTC nos Estados Unidos, pensei se seria ou não capaz de
conseguir convencer os membros da OTC de que nossas tecnologias premiadas
não tinham nada a ver com o acidente da P-36. Era muito complicado, as coisas
eram muito interligadas e o fato muito recente. Enfim, não foi fácil passar por isso
e ter conseguido convencer os americanos a manter o prêmio. Quando o Reichstul
[Henri Philippe Reichstul, então, presidente da Petrobras] recebeu o prêmio, ele
pegou o prêmio, a tabuleta da OTC 2001 e entregou na minha mão. Eu tenho até
a foto dessa entrega. Isso foi o que mais me marcou nos meus 30 anos de
Petrobras. Na realidade, não se trata só de um prêmio, mas de todo um processo
de construção e preparação para se candidatar ao prêmio. Depois desse
processo, ainda ter que ir até lá e convencer todos os jurados que a gente era
merecedor em relação às outras companhias. Foi um período complicado, o
anuncio do prêmio, o acidente da P-36, a possível retirada do prêmio pelo
presidente da OTC e depois a volta do nosso prêmio. Tudo isso até receber
efetivamente o prêmio, ajudou a criar toda essa emoção. Esse conjunto de coisas
foi o que mais me marcou. Houve outros feitos como colocar produção alguns
poços, bater o recorde de 1800 metros, e os outros recordes que a gente ia
batendo. Mas nada foi tão traumático e marcante como todo esse processo que a
gente passou.
LAZER /VIAGENS
Olha, a gente se dedicou muito ao trabalho, mas tive a oportunidade de viajar e
conhecer o mundo. O que eu mais gosto de fazer é viajar e conhecer lugares
diferentes. O Procap me proporcionou conhecer os Estados Unidos inteiro, a
Europa toda, além de países que não fazem parte do circuito normal das pessoas,
como a Índia, a China o Japão, Singapura, Malásia, esses paises da Ásia. Então,
o que eu mais gosto de fazer, quando não estou trabalhando, é preparar e
planejar a minha próxima viagem pra lugares diferentes. Agora eu fui de férias pra
Rússia e pra Polônia. Visitei lugares como o Campo de Auschwitz. Lugares não
convencionais. Para a minha próxima viagem, eu to pensando em conhecer o
Alaska. Falta pouca coisa pra conhecer no mundo, como o Alaska e a Austrália.
Esse ano eu vou pra Joanesburgo, na África do Sul, para o Congresso Mundial do
Petróleo. É bom viajar e conhecer as pessoas. Não é só conhecer os lugares, mas
conhecer também as pessoas, como é que elas vivem, poder conversar com elas.
Isso é muito bom, porque quando a gente volta e ta conversando com os amigos,
a gente tem sempre um assunto. E sempre é agradável ter uma história diferente
pra contar, uma experiência que você viveu lá fora. Mesmo quando você não
conhece a língua. Na Rússia, por exemplo, quando eu fui a São Petersburgo,
ninguém falava uma gota de inglês e a gente tinha que se virar pra conhecer. Na
hora, fica nervoso, mas quando volta tem uma história diferente para contar.
FAMÍLIA
A Cibele sempre trabalhou comigo. Quando eu saí da Engenharia onde trabalhava
– vamos voltar de novo pra 1989, quando fui pro Procap – foi uma coisa boa,
porque fui pra uma atividade diferente, trabalhavam os dois no Cenpes. Eu fui por
Procap e ela ficou trabalhando na Divisão de Engenharia. Então, nós ficamos mais
juntos. Depois de algum tempo ela saiu da atividade de Engenharia e foi trabalhar
em planejamento, mas ainda dentro do Cenpes. Então a gente se via sempre, mas
ela ficava como a esposa do Assayag. Não era a Cibele Isso impedia o seu
crescimento profissional. Ela não sentia bem com isso. Aí ela conseguiu sair do
Cenpes e ir pra Unidade de Negócios do Rio de Janeiro, depois foi pra área do
gás e hoje está no abastecimento, onde ganhou a função de consultora de
negócios por si própria, sem depender de mim. E isso dá uma alegria muito maior
na vida dela, se sente muito melhor sendo uma pessoa independente, porque a
pior coisa é você carregar o nome de alguém que seja um pouco mais conhecido.
Não é legal. Então hoje ela tem a vida dela independente, profissional. Eu fico
muito feliz porque acho até que, em alguns momentos, atrapalhei a sua carreira
profissional pelo fato de ser mais conhecido do que ela.
FAMÍLIA / FILHOS
Eu tenho uma filha de 26 anos, que se chama Elaine. Ela se formou em
Administração de Empresas. Hoje ela é professora. Ela fez um mestrado nos
Estados Unidos. A Petrobras me deu condições de fazer com que ela estudasse
fora. Hoje ela é professora da PUC-Rio na turma de graduação. Ela é especialista
em Marketing na Internet. Ela já é mestre, e está se preparando pra fazer o
doutorado. A vida dela está bem encaminhada, deve casar no ano que vem ou no
outro ano. Ela namora um rapaz também da PUC, que é de Economia. Então, está
com a vida encaminhada. Eu tenho ainda um menino de 19 anos, o Márcio, que
faz Engenharia Química. Seguiu a profissão da mãe. Eu fico muito satisfeito com
isso. Os dois são muito espelhados na gente porque, no trabalho da Elaine na Puc
ela dá muita assistência a Petrobras. Todo mundo vê o nome dela e pergunta:
“Você é filha do Assayag?”. Então tem essas coisas. E o Márcio está fazendo
Engenharia Química, ainda está no primeiro ano e vai trabalhar, certamente, na
atividade ou de petróleo ou de petroquímica ou de abastecimento. Então ele
também está encaminhado.
PROJETO MEMÓRIA PETROBRAS
Essa iniciativa é fantástica! Eu espero continuem esses registros das principais
pessoas que fizeram a história da Petrobras, porque elas vão envelhecendo e a
história não fica na cabeça. Com isso a gente tem uma maneira de deixar
registrado a contribuição de cada um. A maioria das pessoas que trabalham na
Petrobras só teve um emprego. Praticamente, eu trabalhei em uma ou duas firmas
antes de vir pra cá. Eu já estou aqui há 30 anos. Todas essas pessoas têm
histórias e têm o seu percurso pra contar. E o Projeto Memória faz com que isso
fique registrado e guardado. Esses exemplos que a gente conta podem ser
passados pros mais novos, porque eles que vão dar continuidade à Companhia.
Então, eu achei uma idéia fantástica.
GLOSSÀRIO
* BENCHMARK - Um referencial pelo qual algum ativo pode ser medido ou
julgado.
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Rio de Janeiro, 14 de janeiro de 2005 IDENTIFICAÇÃO O meu