CENTRO FEDERAL DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA DE MINAS GERAIS – CEFET-MG DIRETORIA DE PESQUISA E PÓS GRADUAÇÃO MESTRADO EM EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA Arlana Campos Faria Martins UM PROJETO CONTRA-HEGEMÔNICO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE TRABALHADORES: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA CONCRETA Belo Horizonte 2012 2 Arlana Campos Faria Martins UM PROJETO CONTRA-HEGEMÔNICO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL DE TRABALHADORES: REFLEXÕES A PARTIR DE UMA EXPERIÊNCIA CONCRETA Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Educação Tecnológica do Programa de Pós-Graduação em Educação Tecnológica do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Área de Concentração: Educação Tecnológica. Orientadora: Profª Drª Suzana Lanna Burnier Coelho. 3 Aos meus pais, meus primeiros mestres, que me ensinaram o valor do trabalho e da educação. Aos trabalhadores(as) da educação que lutam pela democracia, pela justiça social e pela igualdade de oportunidades. 4 AGRADECIMENTOS Primeiramente, a Deus, pelo dom da vida. Aos meu pais, Arlindo (saudades) e Ildeana. Em especial, à minha mãe querida, por suportar a minha ausência sem nunca cobrar ou duvidar da necessidade, sendo sempre solidária e compreensiva em todos os momentos. À minha irmã, Amanda, melhor amiga, companheira nos momentos difíceis, parceira nos momentos alegres: presença constante em todas as horas. Ao meu amado marido, Alexandre, grande companheiro, amigo incondicional, parceiro generoso e nobre, por suportar minha presença-ausente, por ser meu maior incentivador, por estar comigo na alegria e na tristeza, todos os dias da minha vida. Aos meus familiares e amigos, que estiveram presentes durante essa trajetória incentivando e apoiando sempre. À professora Maria Rita pelos valiosos ensinamentos em sala de aula e fora dela. Ao professor José Ângelo Gariglio pelas tardes de quinta-feira, quando de maneira séria e responsável, mas sempre leve e otimista, tornou os trabalhos do grupo de pesquisa mais produtivo e prazeroso. Ao professor João Bosco Laudares, pela confiança em mim depositada e pelo aprendizado constante. A todos os professores(as) do Mestrado em Educação Tecnológica do CEFETMG por contribuírem para a minha formação profissional e humana. A todos os colegas do Mestrado, em especial, ao Alexandre, amigo de todas as horas, Gabriela, Danielle, Rogério, Délcio, Douglas e Sandra (turma 2011), que me proporcionaram bons e inesquecíveis momentos. Ao professor João César de Freitas Fonseca pelo incentivo. Aos trabalhadores e alunos da Escola Tia Dê pelo respeito e confiança com que me receberam, verdadeiros responsáveis pela realização desse trabalho. E, finalmente, à minha orientadora, Suzana, à quem declaro a minha mais profunda admiração. Mulher forte, profissional invejável, ser humano incomparável, que com firmeza, carinho, respeito, seriedade, compromisso, responsabilidade e alegria soube me conduzir pelos caminhos possíveis durante esses dois anos de trabalho. À todos que compartilharam comigo essa conquista: Muito obrigada! 5 Por onde passa uma concepção de Educação Profissional centrada numa perspectiva de emancipação da classe trabalhadora e que se contraponha ao projeto dominante sustentado pelas forças conservadoras que governam hoje o Brasil? (Gaudêncio Frigotto, 2001) 6 RESUMO A questão central da pesquisa se refere ao desafio de construir um projeto formativo coerente com os interesses da classe trabalhadora, no contexto do capitalismo, em uma economia periférica e em um contexto societário de limitadas experiências históricas de Educação Profissional calcadas em tal referência. Na medida em que a Educação Profissional tem sido instada a atuar na direção de uma educação tecnológica emancipadora e includente a investigação buscou identificar e analisar a trajetória e os percalços, a construção e a sobrevivência de um projeto educativo identificado com os interesses populares, numa perspectiva emancipadora, tendo como referência um projeto societário democrático visando oferecer subsídios tanto para o debate na área como para projetos em construção. A pesquisa teve como principais referenciais para discutir a Educação Profissional e Tecnológica os autores: Frigotto (2001, 2007), Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Bastos (1997), Machado (2008), Grinspun (1999) e Ramos (2008). Foram analisados aspectos relacionados à organização do trabalho escolar, ao clima institucional, ao projeto político-pedagógico e ao currículo em uma instituição de Educação Profissional, situada na periferia de Belo Horizonte, originada nos movimentos populares. A investigação envidada teve caráter qualitativo e se baseou em observações, entrevistas e análise documental. Foram analisados os elementos constitutivos da cultura da escola que favoreceram ou dificultaram a construção de uma proposta pedagógica emancipadora e coerente com a formação humana do trabalhador. A pesquisa apontou para o dilema histórico da Educação Profissional, que tem as suas ações orientadas por diferentes órgãos e instâncias o que configura uma fragmentação e descontinuidade de orientações e políticas, impactando negativamente esse tipo de iniciativa. Os dados evidenciam ainda que o caráter emancipatório da experiência se enfraquece também quando a mesma não conta com um aporte teórico que sustente suas definições cotidiana, tal como as que se referem a currículo, organização do trabalho e formação de professores. Palavras-chave: educação profissional, educação tecnológica, cultura da escola, projeto contra-hegemônico. 7 ABSTRACT The central question of this research refers to the challenge of building a formative project consistent with the interests of the working class, in the context of capitalism, in a peripheral economy and in a societal context of a limited historical experience of Professional Education modeled on such reference. Whereas Professional Education has been asked to work toward an emancipatory and inclusive Technological Education, the research aimed to identify and analyze the trajectory and obstacles, as well as the construction and survival of an educational project identified with popular interests, in a emancipatory perspective and with reference to a democratic societal project to offer subsidies into the debate in the area and for projects in construction. The research had as main reference for discussing the Technological Education authors: Frigotto (2001, 2007), Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Bastos (1997), Machado (2008), Grinspun (1999) e Ramos (2008). Aspects related to school work organization, the institutional environment, the political-pedagogical project and the curriculum in a professional education institution, located on Belo Horizonte periphery, were analyzed. The investigation was qualitative and based on observations, interviews and documentary analysis. The constitutive elements of school culture that promoted or hindered the construction of an emancipatory pedagogical proposal, consistent with the human formation of worker, were also analyzed. The research highlighted the historical dilemma of Professional Education, which had their actions guided by diverse government organisms which causes the fragmentation and discontinuity of guidelines and policies, impacting in a negative way this type of initiative. The data also shows the impairment of the emacipatory character of this experience by the absence of a theoretical basis which supports the daily choices as the ones referred to curricula, school work organization and teacher education. Keywords: professional education, technological education, school culture, counterhegemonic project. 8 LISTA DE SIGLAS CNAS – Conselho Nacional de Assistência Social CRAS – Centro de Referência da Assistência Social EJA – Educação de Jovens e Adultos EP – Educação Profissional EPT – Educação Profissional e Tecnológica ET – Educação Tecnológica FAT – Fundo de Amparo ao Trabalhador LOAS – Lei Orgânica da Assistência Social MDS – Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome MEC – Ministério da Educação MET – Ministério do Trabalho e Emprego NAF – Núcleo de Apoio à Família NOB – Norma Operacional Básica ONGs – Organizações não Governamentais PETMET – Grupo de Pesquisa em Teoria e Metodologia do Ensino Tecnológico PLANFOR – Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador PMQ – Programa Municipal de Qualificação PNAS – Política Nacional de Assistência Social PROEJA – Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de EJA SENAI – Serviço Nacional da Indústria SETEC – Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica SINE – Sistema Nacional de Empregos SMAAS – Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social SMAAT – Secretaria Municipal Adjunta de Trabalho e Emprego SMED – Secretaria Municipal de Educação SMPS – Secretaria Municipal de Políticas Sociais SUAS – Sistema Único de Assistência Social 9 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 10 1.1 A Educação Tecnológica no contexto da Educação Profissional ........................................ 10 1.2 Cultura Escolar e Cultura da Escola ................................................................................... 17 1.3 A Pesquisa – Como foi realizada ....................................................................................... 23 2 A INSTITUIÇÃO PESQUISADA........................................................................................ 26 2.1 A Escola Tia Dê – Um pouco de história ........................................................................... 26 2.2 Impasses legais e materiais ................................................................................................ 37 3 A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ESCOLAR .............................................................. 54 3.1 O Clima institucional na Escola Tia Dê ............................................................................. 55 3.2 A Estrutura da Escola Tia Dê ............................................................................................ 58 3.3 O Processo Organizacional ................................................................................................ 70 3.4 As Variáveis Comportamentais ......................................................................................... 77 4 A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL HOJE ............................................................................. 80 4.1 O Projeto Político-Pedagógico........................................................................................... 80 4.2 As Concepções de Educação e de Formação Profissional................................................... 91 4.3 O Currículo ..................................................................................................................... 100 5 CONCLUSÃO ................................................................................................................... 114 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 133 10 1 INTRODUÇÃO Nesta dissertação temos como objeto central de investigação identificar elementos constitutivos da cultura da escola que corroborem ou desfavoreçam a construção/manutenção de uma proposta pedagógica emancipadora e coerente com a formação humana do trabalhador no contexto do capitalismo. Para isso, tomamos uma instituição de Educação Profissional (EP) da periferia de Belo Horizonte para observação de seu cotidiano, práticas, rituais, discursos, mitos, tradições, espaços e tempos, os quais foram analisados para que o objetivo desta pesquisa fosse alcançado. O campo de discussão desta pesquisa, que se situa no debate entre trabalho e educação, pretende discorrer sobre a Educação Tecnológica (ET) como uma concepção de educação. Deste modo, é importante recuperar os principais conceitos construídos sobre ET no contexto da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) para nos auxiliar na análise de um projeto deste tipo. Para realizar essa análise, tomamos como referência autores como Frigotto (2001, 2007), Maria Rita Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Bastos (1997), Machado (2008), Grinspun (1999) e Ramos (2008). 1.1 A Educação Tecnológica no contexto da Educação Profissional O termo Educação Tecnológica começou a ser utilizado, no Brasil, na década de 1970 para regulamentar os cursos de tecnólogos ou cursos superiores de tecnologia implantados, inicialmente, pelo Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza, do Estado de São Paulo. (MEC, 2004). Nesse contexto, o termo não se refere a uma concepção de educação, mas sim a um nível de modalidade de ensino. O uso do conceito ET em contraposição ao termo educação técnica é realizado de longa data e muitos são os estudos produzidos sobre o tema ao longo dos últimos anos; portanto, trata-se de um tema em intenso e extenso debate no cenário da EP do País. Assim como Frigotto (2001, 2007), Maria Rita Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Machado (2008) e Ramos (2008), consideramos a ET uma concepção de educação na direção do conceito de educação politécnica, em sua busca pela superação da dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual, entre instrução profissional e 11 formação geral, “com base na integração de todas as dimensões da vida no processo formativo.” (RAMOS, 2008). Apesar de ter um conceito bastante difundido, concordamos com Grinspun (1999) quando afirma que não existe consenso no tocante ao significado da expressão Educação Tecnológica. A autora afirma que a ET pode ser focalizada de diferentes pontos de vista: do mundo da educação, do mundo do trabalho, da produção de conhecimentos, da necessidade de novas metodologias, ou da filosofia da tecnologia. Para essa autora, a ET deve ser trabalhada de modo a despertar o sujeito para interpretações do mundo e do seu contexto, fazendo análises que sejam capazes de aliar teoria e prática, ensino e pesquisa, promovendo transformação, superação, posicionamento crítico, envolvimento com o conhecimento e com a clareza de que os espaços de aprendizagem não se restringem à escola e ao trabalho. A fragilidade do conceito apresentado por essa autora encontra-se no fato de que ela não analisa a ET referenciada em um projeto de sociedade que se deseja construir. Frigotto (2001, 2007), Maria Rita Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Machado (2008), e Ramos (2008) defendem uma ET ancorada em princípios como a democracia, a cidadania e a emancipação humana. Maria Rita Oliveira (2000) acrescenta a eles igualdade e liberdade, com o destaque para a integração democrática da formação geral com a formação profissional, enquanto um direito do cidadão, na direção do conceito de formação humana. De acordo com essa autora é imprescindível que haja o compromisso com o domínio, por parte do trabalhador, dos processos físicos e organizacionais ligados aos arranjos materiais e sociais e do conhecimento aplicado e aplicável pelo domínio dos princípios científicos e tecnológicos próprios a um determinado ramo da atividade humana. (OLIVEIRA, M. R., 2000, p. 42). A definição de ET apresentada por Kuenzer (2008) relaciona-a, necessariamente, com a democratização da formação de qualidade, ampliando as possibilidades do trabalhador, de forma que ele possa conhecer, interpretar e analisar o mundo do trabalho de maneira crítica e em sua totalidade, considerando as relações sociais e produtivas. Kuenzer alega ainda que, para se romper com a lógica de uma inclusão excludente, cabe aos trabalhadores enfrentá-la de forma “politicamente correta e tecnicamente consistente”. A autora usa o termo “inclusão excludente” para criticar as políticas de EP que atendem a um número cada vez maior de alunos, mas, em processos pedagógicos 12 precários, com caráter meramente formal, certificatório e sem qualidade de formação, o que se constitui em falsa inclusão, subordinada aos interesses mercantis. Para enfrentar essa lógica de forma “politicamente correta” e “tecnicamente consistente” se faz necessária uma educação de caráter global, que proporcione ao trabalhador a possibilidade de lutar pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Nesse sentido, Ramos (2008) acrescenta que a educação deve possibilitar ao trabalhador a compreensão dos princípios científico-tecnológicos e históricos da produção moderna, de modo a orientá-lo na realização de múltiplas escolhas. Já Lima Filho (2004) nos alerta que o compromisso com a redução das desigualdades sociais e a elevação dos níveis de escolaridade deve fazer parte de um projeto nacional de desenvolvimento justo, igualitário e sustentável, bem como a universalização de direitos, da soberania, da autonomia, da dignidade e da redução das desigualdades sociais. Esses preceitos são compartilhados por Frigotto (2001), que sistematiza cinco aspectos que caracterizam os projetos de educação profissional que assumem uma perspectiva emancipadora, a saber: 1) no plano societário: onde o embate é permanente, se sustentam na construção de um projeto contra-hegemônico; 2) no patamar histórico: reconhecem a especificidade da formação técnico-profissional, porém, jamais separada da educação básica e sempre articulada a um projeto de desenvolvimento “sustentável”, numa dimensão ético-política da formação de sujeitos autônomos, protagonistas dos processos sociais democráticos, solidários e igualitários; 3) no plano das políticas públicas: compromisso com o desenvolvimento humano, social, político, cultural e econômico - considerando a esfera dos direitos, deve haver um projeto alternativo em que o ser humano seja o centro do processo e não o mercado ou o lucro; 4) no plano político: a articulação das relações sociais de produção e das relações políticas, culturais e educativas “para um Estado que governe com as organizações da sociedade e para a sociedade...”; e, por fim, 5) no plano educativo: se fundam na concepção de educação básica (fundamental e média) pública, laica, unitária, gratuita e universal, centrada na ideia de direito subjetivo do ser humano. Assim como Frigotto, Burnier (2004) também apresenta algumas referências para projetos que pretendam tomar tal direção: que ofereçam uma formação humana integral, sólida e omnilateral, só possível com justiça social; que realizem a aprendizagem significativa e integrada a processos de investigação; que valorizem os saberes dos alunos-trabalhadores no processo de formação; que diversifiquem as atividades formativas; que se realizem por meio de um trabalho coletivo sistemático, 13 que inclui os alunos nos processos decisórios. Burnier (2001) alerta ainda para a necessidade de se construírem estruturas institucionais que viabilizem tais princípios, assegurando tempos e espaços para a formação contínua de educadores, condições materiais para o trabalho pedagógico, circulação democrática de informações, avaliação global participativa e clima institucional de cooperação. Ciavatta (2004) destaca a proposta de uma “educação integrada”, que projeta a ideia de uma educação íntegra, inteira, que possa formar um ser humano também íntegro e inteiro, capaz de executar e pensar, dirigir e planejar. Trata-se de superar a dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual, ultrapassando, assim, a redução da preparação para o trabalho ao aspecto meramente operacional e simplificado, afastado dos conhecimentos científico-tecnológicos e da apropriação histórico-social. Sobre isto Frigotto (2001) deixa bastante clara a sua posição e, em sua definição, referenda-se em um projeto contra-hegemônico. Uma educação omnilateral, tecnológica ou politécnica formadora de sujeitos autônomos e protagonistas de cidadania ativa e articulada a um projeto de Estado radicalmente democrático e a um projeto de desenvolvimento “sustentável”. Afirmar a idéia de que essa educação, por ser básica e de qualidade social, é a que engendra o sentimento da emancipação humana e a melhor preparação técnica para o mundo da produção no atual patamar científico tecnológico. (FRIGOTTO, 2001, p. 82). Para Moll não se pode dissociar a educação técnica e a escolarização, sob pena de alimentarmos a perversa dualidade existente na história da educação brasileira “que reservou para alguns um conhecimento mais elaborado e, para a maioria, o acesso aos rudimentos do ler, escrever e contar e o iniciar-se em alguma ‘instrução profissionalizante’.” (2006, p. 12). Essa autora considera importante o princípio da inclusão social emancipadora por acreditar que é necessário avançar para além do simples ensino dos rudimentos, que permite ao trabalhador apenas a inserção em um trabalho precário. Moll considera que é preciso ter uma [...] educação plena que inclua em seu olhar e em suas temáticas afrodescendentes, indígenas, mulheres, populações ribeirinhas, pescadores, marisqueiras, portadores de necessidades especiais. Tais pressupostos articulam-se na perspectiva da construção de uma política pública de EP e tecnológica para o Estado brasileiro. (MOLL, 2006, p. 13). A compreensão ampla da educação difere do que tradicionalmente se entende por EP, por muito tempo vinculada ao mero domínio de técnicas, critérios de 14 produtividade, eficiência e eficácia. A utilização do termo EP promove uma ambiguidade, porque confronta as duas concepções: a educação tecnológica, com sua acepção mais ampla, e o ensino técnico, relacionado estritamente aos processos produtivos. Muitas expressões são usadas para dar significado à EP. Cada uma delas é utilizada de acordo com o contexto histórico e com os sujeitos produtores de discursos e práticas. Essa diversidade de expressões reflete as discussões sobre a realidade produtiva, a reorganização dos processos de trabalho e as demandas societárias do momento. Alguns exemplos dessas expressões são ensino profissional, formação profissional, capacitação, qualificação, requalificação, educação tecnológica, entre outros. A EP concretizou-se, nas últimas décadas, através de políticas do governo federal, que implantou várias experiências de qualificação e requalificação de trabalhadores. Exemplo disso são experiências como o PLANFOR1, que foi proposto como saída para o desemprego, o subemprego e a precarização do trabalho. De acordo com a Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica, do Ministério da Educação (SETEC – MEC), essa é uma face controvertida de uma prática governamental que substituiu políticas de desenvolvimento econômico e social por políticas compensatórias. “Transferiu-se para o indivíduo a responsabilidade daquilo que é criação social...” (MEC, 2004, p. 12). Ainda de acordo com a SETEC, uma correção de rumos e um reordenamento de práticas se tornaram ações necessárias para resgatar os fundamentos que vinculam a EP aos processos educativos de uma forma mais ampla. A sua manutenção meramente vinculada ao mercado torna-a refém de treinamentos que beneficiam exclusivamente os interesses imediatistas e privados das empresas e das classes dominantes. Nesse contexto, afirma-se que corrigir os rumos da EP significa propiciar aos alunos o domínio de fundamentos científicos das técnicas produtivas que dão base à multiplicidade de técnicas e processos de produção existentes, e, principalmente, a uma formação mais ampla de caráter emancipador. Os interesses representados pelo MEC e expressos no documento de Políticas Públicas para a Educação Profissional e Tecnológica (2004) considera que a EPT 1 Plano Nacional de Qualificação do Trabalhador implantado pelo governo federal em 1996 através do Ministério do Trabalho e Emprego – MET, com recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT. O PLANFOR visa contribuir para a obtenção de trabalho e geração de renda, a permanência no mercado de trabalho e a elevação da produtividade, da competitividade e da renda dos trabalhadores; e responder a novas exigências de qualificação, que vão além do “saber-fazer” relacionado ao treinamento para operações específicas. Para conhecer mais sobre esse tema ler BULHÕES, 2004. 15 consiste em desenvolver uma visão social da evolução da tecnologia, das transformações oriundas do processo de inovação e das diferentes estratégias empregadas para conciliar os imperativos econômicos às condições da sociedade. Dessa forma, busca conduzir para o caminho da renovação com o propósito específico de despertar a consciência dos agentes da inovação tecnológica para compreender seus papéis e funções na sociedade, bem como as relações de produção que são estabelecidas. Essa compreensão está relacionada com a construção da cidadania, pois ela transcende aos conteúdos fragmentários e pontuais do ensino para propor o repensar sobre o saber e sobre o fazer, colocando-os como objetos de reflexão, ação e críticas permanentes, em busca de uma formação integrada. Desta forma, a educação e o trabalho são interpretados sob os diversos valores que dividem a sociedade contemporânea, valores estes que são múltiplos e antagônicos, integrando ou rejeitando pressupostos mais amplos da conscientização do trabalhador, o que significa “dominar a tecnologia, pois, em vez de ser dominado por ela, eis a questão.” (MEC, 2004, p. 16). O mesmo documento, ainda na tentativa de esclarecer a concepção da ET, afirma-a como instrumento político para transmitir ideias e ideologias com a utilização de linguagens próprias e de meios de comunicação adequados, que cumpram com o papel de intensificar o aspecto humano na formação técnica, pautando-se na reflexão crítica com vistas a um saber que seja convertido em benefício social. Bastos (1997) assevera que a educação deve conscientizar e que a relação da educação com a tecnologia deve despertar para a consciência da existência e salvar a dimensão humana contra todos os instrumentos opressores em busca de uma sociedade livre. O padrão artesanal e o simples saber-fazer não são mais suficientes para atender as inovações tecnológicas constatadas na atualidade. Sua rápida mudança imprime também uma rápida adaptação dos trabalhadores, assim como uma atualização constante sobre processos e técnicas de produção. O mundo do trabalho tornou-se bastante mais complexo e impõe aos trabalhadores a necessidade de conhecimentos variados, além das inovações tecnológicas, o saber sobre as mudanças organizacionais, sistemas simbólicos, qualidade de produção e de serviços, atenção à justiça social, questões éticas e de sustentabilidade ambiental. Novas demandas para uma atuação crítica e criativa no mundo do trabalho. Dessa forma, afirmamos com Kuenzer que é preciso “conhecer o mundo do trabalho sem ingenuidade, a partir da apreensão do caráter de totalidade das relações sociais e produtivas.” (2008, p. 31). 16 De acordo com Kuenzer (2002), o conhecimento é resultante do processo de construção da totalidade, o qual nunca se encerra, pois há sempre algo novo para ser conhecido. Sendo assim, conhecer a totalidade do mundo do trabalho não é dominar todos os fatos, mas dominar as relações existentes entre eles. Estas são sabidamente construídas e reconstruídas no movimento sócio-histórico da humanidade, cuja realidade é desordenada e caótica e onde os homens são postos em novos e complexos desafios a todo instante. Desta forma, é exigido deles o tratamento original e criativo das novidades, mobilizando os vários campos de conhecimento, bem como a integração entre eles. Dos trabalhadores, não só é exigido participar, mas a própria classe trabalhadora reivindica a sua participação ativa no processo político e no sistema produtivo, “enquanto compreende as relações sociais que determinam o seu modo de vida, a sua concepção de mundo e a sua consciência.” (KUENZER, 1989, p. 22). Ao considerar a participação da classe trabalhadora, a autora reforça a ideia de que, para alçar tal atuação e participação, o trabalhador deve ter acesso a uma formação que lhe favoreça “a apropriação do saber científico-tecnológico e histórico-crítico, de modo a participar do processo produtivo e da vida social e política.” (KUENZER, 1989, p. 22). Como alcançar ou construir um projeto formativo de tal envergadura no contexto do capitalismo, em uma economia periférica, tecnologicamente dependente e em um contexto societário de limitadas experiências históricas de organização, participação e lutas dos trabalhadores? Quando organizados, qual o trajeto percorrido pelos trabalhadores para conquistar seus direitos e ter acesso a uma educação omnilateral, gratuita e de qualidade? Como se organizam os coletivos da classe trabalhadora? O que buscam com uma formação realizada pelos e para os trabalhadores? Essa formação tem caráter emancipador ou funciona como mero reprodutor dos interesses do capital? O mérito deste trabalho está em identificar uma experiência de organização da classe trabalhadora para conhecer as suas estratégias de enfrentamento do capital. No contexto do capitalismo, onde as classes dominantes subjugam e exploram as classes subalternas, determinar a natureza e as características de ações da classe trabalhadora é tarefa de grande relevância. Diante das concepções que foram apresentadas, concluímos que a consolidação de uma EPT não se constitui em um trabalho de fácil realização. Dentre os vários desafios e reflexões enfrentados pela EP hoje, encontra-se a construção e a sobrevivência de projetos identificados com os interesses populares numa perspectiva 17 emancipatória, tendo como referência um projeto societário democrático, justo e sustentável. A apropriação da realidade pelo ser humano se dá pela mediação do trabalho e do conhecimento. O acesso a um novo conhecimento pressupõe o domínio de um conhecimento anterior, portanto, é direito de todos o acesso ao conhecimento já produzido. Não só o acesso, mas a formação de qualidade, que permita aos seres humanos a apropriação desses conhecimentos para viabilizar a interação com o meio e a compreensão da realidade. Essa compreensão deve ser suficiente para permitir a transformação de si mesmos e da própria realidade na qual estão inseridos, sendo capazes de se projetar na realidade coletivamente, com base em outro projeto de sociedade. Para pensar e realizar outro projeto de sociedade o ser humano deve tentar realizar outro tipo de formação, que permita a superação, a transformação, a transcendência do projeto hegemônico. Mas como realizar um novo projeto? Com base em quais princípios? Visando que tipo de cidadão? Para tentar responder a alguns desses questionamentos, apontar pistas e alertar para os desafios enfrentados na construção de processos formativos profissionalizantes referenciados no conceito de emancipação, buscamos analisar um projeto de formação de trabalhadores em uma experiência concreta. Em seu fazer-se cotidiano observamos os sujeitos, os processos e as estruturas que favorecem e os que dificultam a realização de tal projeto, procurando identificar os elementos constituintes desta formação que corroboram para a criação, a manutenção ou a transformação de um projeto referenciado na busca pela emancipação humana. 1.2 Cultura Escolar e Cultura da Escola A fim de qualificar as observações e análises acerca desses processos, sujeitos e estruturas, buscamos os estudos dedicados aos processos escolares e, dentre eles, elegemos as discussões em torno dos conceitos de cultura escolar e cultura da escola. Para estudar a dinâmica da escola, as concepções que a norteiam e seu impacto sobre as práticas educativas do projeto pedagógico investigado valemos-nos da discussão sobre cultura escolar e cultura da escola, cujos referenciais foram Faria Filho et al. (2004), Julia (2001), Fourquin (1993), Vinão Frago (2000) e Candau (2000). 18 Com esse estudo, penetramos no campo de investigações sobre o cotidiano escolar, buscando descortinar a rede de relações existentes nesse espaço. Segundo Candau (2000) pesquisas sobre essa área têm sido desenvolvidas, particularmente no Brasil, desde a década de 1980, e têm se constituído em relevantes fontes de renovação do ensino e da pesquisa ao evidenciar convergências, rupturas e conflitos presentes no interior da escola. A análise qualitativa do processo educativo favorece a compreensão das tensões inerentes a uma sociedade capitalista, como a nossa, que vive em constante transformação, onde os grupos sociais são mutáveis, as instituições, leis e visões de mundo são provisórias e passageiras. De acordo com Faria Filho et al. (2004) as investigações sobre a cultura escolar oferecem novos referenciais teóricos para descrever e interpretar o universo da escola, e, assim como Candau (2000), afirmam que as pesquisas sobre essa temática se constituem em importante área de pesquisa. Faria Filho et al. declaram que trabalhar a cultura escolar significa propor um “inventário de práticas escolares, de maneira a realizar um mapeamento cultural da escola” (2004, p. 141). De acordo com os mesmos, esse inventário é composto por três grandes eixos: 1) saberes, conhecimentos e currículos; 2) espaços, tempos e instituições; 3) materialidade escolar e métodos de ensino. A esses três eixos acrescentamos um quarto e importante eixo de investigação -os sujeitos, que constroem as práticas e as estruturas, mantendo-as ou modificando-as, construindo-as e desconstruindo-as ao longo do tempo e nos diferentes espaços onde estão inseridos. Atentar-se para esses elementos significa interrogar as práticas culturais constitutivas não só da escola, mas da sociedade contemporânea, caracterizada pela complexidade das relações, das identidades e dos valores. Poder-se-ia descrever a cultura escolar como um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). Normas e práticas não podem ser analisadas sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obedecer a essas ordens e, portanto, a utilizar dispositivos pedagógicos encarregados de facilitar sua aplicação, a saber, os professores primários e os demais professores. (JULIA, 2001, 10-11). Para Vinão Frago, a “cultura escolar recobre diferentes manifestações das práticas instauradas no interior das escolas, transitando de alunos a professores, de 19 normas a teorias” (VINÃO FRAGO, 1995 apud FARIA FILHO et al., 2004, p. 147). Na sua interpretação, envolve tudo o que acontece no interior da escola. Nesta perspectiva, a cultura escolar poderia ser definida, pelo menos provisoriamente, como um conjunto de ideias, princípios, critérios, normas e práticas sedimentadas ao longo do tempo nas instituições educacionais: modos de pensar e de fazer que proporcionam a seus componentes estratégias e padrões para serem desenvolvidos tanto nas aulas como fora delas – no restante do ambiente escolar e no mundo acadêmico – e integrar-se à vida cotidiana das mesmas. Estes modos de fazer e de pensar – mentalidades, rituais, mitos, discursos, ações –, amplamente compartilhados, assumidos sem maiores questionamentos e interiorizados, servem a um e a outros para desempenhar as suas tarefas diárias, entender o mundo acadêmico-educativo e fazer frente tanto às mudanças ou reformas como às exigências de outros membros da instituição, de outros grupos e, em especial, aos reformadores, gestores e inspetores.2 (VIÑAO FRAGO, 2000, p. 100, tradução nossa). De acordo com Candau (2000), há um desafio que se coloca para a reinvenção da escola, uma vez que a cultura escolar se coloca como uma afirmação da hegemonia da cultura ocidental. As práticas, discursos, mitos e rituais que constituem a cultura escolar são produzidos e reproduzidos irrefletidamente e, por isso, reforçam o status quo. Candau afirma que, nos últimos tempos, tem crescido o número de práticas oriundas dos movimentos sociais de caráter identitário que questionam o universo escolar. Estes são mais abertos a propostas de uma “cultura escolar mais plural que incorpore contribuições de diferentes etnias e questione os estereótipos sociais, de gênero, etc., veiculadas pela escola.” (CANDAU, 2000, p. 15). A autora ainda afirma que a escola, como espaço de cruzamento de saberes e de linguagens, é o lugar onde podem surgir propostas educativas plurais, que respeitem a diversidade dos sujeitos, percebendo os diferentes âmbitos da vida, articulando o cotidiano com o conjuntural e o estrutural, o local com o global, onde o respeito a esta diversidade esteja relacionado à questão da cidadania em uma perspectiva de um projeto diferenciado de sociedade. A autora assevera que as discussões sobre a educação têm sido realizadas na lógica do mercado, como um produto de consumo, assim, a sua qualidade também tem sido pensada nesses termos. Porém, a problematização mais 2 Texto original: “Desde esta perspectiva, la cultura escolar podria ser definida, al menos de um modo provisional, como el conjunto de ideas, principios, criterios, normas y prácticas sedimentadas a lo largo del tiempo en las instituiciones educativas: modos de pensar e de actuar que proporcionan a sus componentes estrategias y pautas para desenvolverse tanto em las aulas como fuera de ellas – en el resto del recinto escolar y en el mundo académico – e integrarse en la vida cotidiana de las mismas. Estos modos de hacer y de pensar – mentalidades, actitudes, rituales, mitos, discursos, acciones -, ampliamente compartidos, asumidos sin más, no puestos em cuestión e interiorizados, sirvem a unos y a otros para desempeñar sus tareas diarias, entender el mundo acadêmico-educativo y hacer frente tanto a los câmbios o reformas como a las exigencias de otros miembros de la instituición, de otros grupos y, en especial de los reformadores, gestores e inspectores.” 20 relevante pouco tem sido feita - qual escola se deseja construir, baseada em que tipo de sociedade e de cidadania? Há uma tendência em analisar a questão da educação com base meramente em questões objetivas do sistema educacional, mas o projeto hegemônico de cidadania não tem sido questionado. Sendo assim, é importante diferenciar o que é reconhecido por cultura escolar e cultura da escola. A cultura escolar, como definida anteriormente, “estaria configurada pelos papéis, normas, rotinas e ritos próprios da escola como instituição específica.” (CANDAU, 2000, p. 65). Criada em um contexto de universalização do ensino, a cultura escolar acabou por ser gerada de uma forma “padronizada, ritualística, formal, pouco dinâmica” (CANDAU, 2000, p. 68). Assim, o convívio com o cotidiano de diferentes instituições de ensino mostra que os rituais, símbolos, organização do tempo e do espaço, etc., são elementos bastante homogêneos entre as instituições. As culturas sociais de referência mudam, mas a cultura escolar parece permanecer em um estado de congelamento, se autoconstruindo sem interagir com esses universos. Penetrar nesta rede de relações entre a cultura escolar, cultura da escola, culturas sociais de referência, seus pontos de encontro, ruptura e conflito é fundamental para promover um processo educativo entendido como prática social em que estão presentes tensões inerentes a uma sociedade como a nossa que vive processos de profunda transformação. (CANDAU, 2000, p. 68). Segundo Candau (2000), a cultura escolar tem se apresentado de forma engessada e pouco permeável ao contexto no qual está inserida. As culturas locais, juvenis e infantis pouco conseguem penetrar no cotidiano escolar. Já estudar o conceito de cultura da escola amplia a visão sobre a dinâmica escolar e oferta elementos para se fazer uma análise mais abrangente do cotidiano da escola. Candau (2000) afirma que a escola, sendo também um mundo social, possui características próprias: seus ritos, ritmos, valores, tradições, modos de regulação e de transgressão, linguagem e imaginário próprios, a tornam diferente de outra escolas. O conceito de cultura da escola favorece a ampliação da percepção sobre a dinâmica escolar, ao contribuir para o conhecimento sobre o efeito que a instituição causa nos sujeitos, processos e estruturas, além de oferecer elementos que possibilitam uma análise mais abrangente do cotidiano da escola. Ao analisarmos os processos dinâmicos vividos por um projeto de EP emancipatória, é preciso ter em conta que, no processo diacrônico de constituição de 21 uma instituição educacional, a sua cultura não se mantém inalterada ao longo do tempo, desde a sua criação, pois, de acordo Sanchis, a cultura pode ser compreendida como uma identidade social, cujo acervo de traços, referências e visões de mundo se constituem em um processo intercomunicacional: “criação e desaparecimento, estruturação e desestruturação, compartilhamento ativo ou abandono de visão de mundo, etc.” (2001, p. 33). A cultura é algo dinâmico que faz-se e desfaz-se constantemente e que, sendo atravessada por tensões e/ou conflitos, realoca o poder e altera o ordenamento social, dissolve interesses e concebe outros. As transformações do “campo” e das relações que nele se estabelecem podem alterar o escopo de um projeto. Não sendo a sociedade, ou um grupo dentro dela, a simples soma de seus indivíduos, mas, sim, a composição realizada pela “troca e pela reciprocidade pelas quais os homens se ligam” (CLASTRES, 1981, p. 87), o homem é, portanto, um ser político, situado e constituído pelas interações estabelecidas na sociedade em que está inserido. Interações essas que dependem da coincidência de fatores, elementos e encontros entre sujeitos para a concretização de um projeto. No projeto neoliberal hegemônico as reformas estruturais acentuam a marginalização e a exclusão, justificadas pela “necessidade” de abertura de mercados e ampliação de lucros. Candau (2000) afirma que nesse processo crescente de exclusão, que assume novas características e dimensões de acordo com o espaço e o tempo presentes, os mais afetados são os “outros”. Aqueles que não dominam os códigos de globalização em suas diferentes configurações e que estão em uma posição de resistência aos que estão no centro. Sanchis (2001) alerta para a tendência de esse “outro” ser reduzido a uma globalidade genérica, na qual é colocado em situação de oposição a um Eu coletivo, levado a uma condição de inferioridade e de incapacidade em relação ao Eu. A desigualdade estabelecida nessa relação corrobora para a existência de tensões e conflitos entre projetos hegemônicos e aqueles que se pretendem contra-hegemônicos. Assim, em meio a contradições e conflitos, reafirmamos que é importante reconhecer e nomear os elementos que favorecem ou fragilizam a manutenção de um projeto de EP com caráter contra-hegemônico. Penetrar a cultura da escola nos permite indagar quem é o sujeito do projeto, se é um projeto de natureza verdadeiramente contra-hegemônica, ou, um projeto neoliberal que se apropria do discurso de formação emancipadora para atender aos seus próprios interesses? As fronteiras que separam as particularizações e as universalizações são deveras imprecisas, especialmente se 22 considerarmos que o “mundo” dos projetos é absolutamente dinâmico e submetido à ação dos sujeitos e às mudanças sócio-históricas. Giddens (2002) destaca que na modernidade “alta” ou “tardia” o eu, constituído por uma biografia, está imerso em contextos institucionais mais amplos, o que amplia também as possibilidades de escolha, a diversidade de opções e os diferentes apelos externos que têm como objetivo seduzir o sujeito fazendo com que as escolhas externas pareçam a sua própria escolha. A difícil tarefa que se apresenta aos sujeitos da modernidade tardia é a diversidade de opções e possibilidades. Assim, ao se pensar um projeto de formação de trabalhadores que seja contra-hegemônico há que se pensar se as necessidades desses trabalhadores são de fato as suas próprias necessidades ou aquelas impostas pelo mercado e pelas relações de produção. Ao longo do tempo, os modos de atuar e de pensar caracterizam um dos focos de análise na construção de projetos pelos sujeitos. Assim, imbuídos das ideias de Viñao Frago (2000), Julia (2001), Faria Filho et al. (2004), Fourquin (1993) e Candau (2000) e compartilhando com eles o pensamento de que o sistema escolar, ao formar indivíduos, dissemina símbolos estéticos, culturais e ideológicos estabelecendo relações com a sociedade, o conhecimento e a construção das identidades pessoais, sociais e culturais, é que propomos a investigação das práticas escolares dos sujeitos da EP tendo como referência a concepção de ET. Nossa pesquisa contribui para o ampliação do acervo de estudos sobre o cotidiano escolar, no sentido de ampliar a percepção sobre a escola, seus sujeitos, processos e estruturas. Numa das poucas experiências de formação de trabalhadores com perspectiva emancipadora, nos interessa saber como os coletivos populares estão se organizando frente às demandas contemporâneas. No interior da escola, quais são as práticas, os modos de pensar e de fazer dos trabalhadores? Suas práticas são refletidas e projetadas para promover a emancipação do trabalhador? Há o rompimento com os processos de manutenção do status quo? Há uma ruptura frente aos estereótipos sociais, culturais, étnicos e de gênero? Se existem esses rompimentos, de que forma eles acontecem? Pesquisar uma experiência de formação de trabalhadores com perspectiva contra-hegemônica pode revelar quais os caminhos que têm sido percorridos por esses coletivos e quais os percalços e dificuldades que têm sido enfrentadas. Revelar esses fatores tende a contribuir para o avanço e fortalecimento de outros projetos que se pretendem emancipadores, na medida em que são reveladas alternativas e estratégias de organização e desenvolvimento desses projetos. 23 1.3 A Pesquisa – Como foi realizada Para identificar os elementos constitutivos da cultura da escola - organização, estruturas, práticas e sujeitos - de um projeto de EP numa perspectiva emancipadora, realizamos pesquisa empírica de caráter qualitativo em uma instituição educacional da periferia de Belo Horizonte, onde estabelecemos contato direto com os sujeitos, profissionais e alunos. O espaço-tempo privilegiado é o da vida presente e a relação face a face foi influenciada pela trajetória e pelas vivências de seus atores. Assim, concordamos com Minayo (1996) quando afirma que os próprios atores sociais constroem, de acordo com as suas conveniências e interesses, as tipificações do seu mundo cotidiano. Essas tipificações incluem o universal e o estável, o específico e o mutável. A escolha da instituição como locus de investigação se deu pelo fato de ela apresentar em suas referências iniciais um projeto contra-hegemônico de formação do trabalhador, tendo como elemento essencial a formação humana aliada à formação profissional. As referências foram obtidas a partir dos estudos realizados por Scalco (1986), que em sua pesquisa procurou reconstruir os caminhos percorridos pelos trabalhadores daquela região para criar a sua própria escola. Reconstruir com os próprios criadores da Escola a história do movimento que resultou na sua criação; como este movimento se autoconstituiu, como se materializou na prática, que formas de organização foram criadas, e que relações novas emergiram [...] a importância que tem essas experiências em relação a um contexto maior, onde cruzam com outras experiências educativas. [...] Enfim, procuro demonstrar que naquele espaço específico da sala-de-aula, criado pelos próprios trabalhadores, está a possibilidade do cruzamento de experiências vividas e narradas. E que, na construção pelos trabalhadores da teia de experiências, aquele espaço autônomo torna-se imprescindível à reelaboração do memorial de suas experiências, pois enquanto refazem sua memória, ajuntam os elementos fragmentados e silenciados de sua identidade. Nesse sentido, colocam-se como agentes de sua própria emancipação. (SCALCO, 1986, p. 07-08). Na criação de um espaço próprio Scalco (1986) caracteriza os sujeitos do projeto como agentes de sua própria emancipação, protagonistas de sua história, que, organizados, partiram para a construção, não só de um espaço, mas de seus próprios sonhos e ideais de libertação. Assim, considerando que “um dos lugares privilegiados do encontro entre o Estado e as classes subalternas é a escola” (EZPELETA e ROCKWELL, 1989, p. 56), optamos por adentrar esse universo de luta pela conquista e manutenção de direitos dos trabalhadores realizando a pesquisa em quatro etapas: 1) o 24 levantamento bibliográfico, incluindo: a análise sobre a constituição da escola a partir dos estudos de Scalco (1986); a identificação da literatura acerca da Educação Tecnológica e da cultura da escola; e, as referências de duas pesquisas do Grupo de Pesquisa em Teoria e Metodologia do Ensino Tecnológico (PETMET CEFET-MG), uma finalizada em 2005, e, a outra em 2010, das quais foram aproveitadas entrevistas realizadas com professores da escola pesquisada; 2) a observação do cotidiano: a instituição funciona de sete horas da manhã às vinte e duas horas e quarenta minutos, sendo que as atividades são distribuídas em três turnos. Entre um turno e outro há intervalos de descanso para os profissionais, no entanto, a instituição permanece aberta para uso da comunidade. Os três turnos de trabalho, bem como os intervalos entre eles foram observados durante dois meses, havendo alternância aleatória entre os turnos3. Participamos de atividades como integração de novas turmas, aulas teóricas e práticas de oficina, formaturas, encerramento de cursos, reuniões de alunos, de equipe, de professores e de pais, atendimentos na secretaria, lanches coletivos, recreios, inscrições, entrada e saída de alunos, entrada e saída de funcionários, apresentação de atividades desenvolvidas pelos alunos, bem como dos momentos informais. (CARVALHO, M., 2003); 3) as entrevistas com os representantes de todos os segmentos presentes na instituição: um dos fundadores, três Coordenadores, quatro professores4, dois alunos e dois representantes da diretoria. Com exceção da entrevista com o fundador, que está formalmente afastado da escola há aproximadamente vinte anos, todas as demais entrevistas foram realizadas dentro da instituição, após o período de observação e convivência com os sujeitos, o que possibilitou maior proximidade e familiaridade entre pesquisador/pesquisado. Para fazer uma análise cuidadosa do objeto, entendemos que a comunidade é elemento importante da pesquisa. Ela está contemplada em todos os segmentos, sendo que nove dos doze entrevistados não só residem na região do entorno da instituição como participaram direta ou indiretamente de sua construção da escola; e 4) a análise documental de registros produzidos e utilizados pela instituição, tais como planos de ação, planos de curso, relatórios de alunos matriculados, relatórios de alunos concluintes, relatório de atividades e Regimento Interno. 3 4 A atividade de observação foi realizada entre os dias 18 de abril e 16 de junho de 2011. Apesar destes profissionais serem contratados, formalmente, como instrutores, optamos por utilizar o termo professores para fazermos referência a esse grupo de profissionais. Essa opção respeita a forma como eles são reconhecidos pelos sujeitos da instituição. Conhecemos as discussões a cerca dessa temática, e os conflitos existentes em relação à nomenclatura e categorias profissionais, no entanto, não entraremos no mérito desta questão. 25 Como vimos anteriormente com Candau (2000), as pesquisas sobre o cotidiano escolar têm sido fontes relevantes de renovação do ensino e da pesquisa ao evidenciar convergências, rupturas e conflitos presentes no interior da escola. A autora alerta para o fato de que a realização de análises qualitativas do processo educativo apresenta uma enorme heterogeneidade de resultados, que podem estar relacionados às fragilidades teóricas e metodológicas no tratamento das questões relativas ao cotidiano escolar. Um dos elementos citados pela autora que podem corroborar para uma maior consistência teórica e rigor metodológico é a utilização da etnografia na pesquisa educacional. Para tanto, confirma a importância do tempo disponível para a realização da investigação, quando a imersão do pesquisador no dia a dia da escola, vivenciando com os sujeitos suas dificuldades e conquistas, mitos e ritos, construções e desconstruções de valores, estruturas, tempos e espaços, favorece, sobremaneira, a maior aproximação da totalidade das relações no interior da instituição. Desta forma, consideramos a nossa investigação ousada por reconhecermos o seu limite em relação ao tempo que dispúnhamos para a realização da pesquisa e, consequentemente, o tempo de permanência no interior da escola. Assim, adequamos os objetivos da pesquisa no sentido de abranger, o máximo possível, os elementos favorecedores e limitadores da concretização de um projeto contra-hegemônico de formação do trabalhador a partir da vida presente e da relação face a face, reconhecendo que estas são influenciadas pelas trajetórias e pelas vivências de seus atores. Além de admitir o desafio limitador do tempo, devemos mencionar a influência de nossa presença no cotidiano da instituição, pois sabemos que não há neutralidade na pesquisa e que os pesquisadores influenciam e são influenciados pelos fatos, sujeitos e valores que fazem parte do objeto de investigação. Sendo assim, descartamos o mito da neutralidade e mergulhamos no cotidiano e nas práticas educativas da escola, sabedores, junto com Marília Carvalho (2003), de que a influência das relações estabelecidas entre pesquisadores e sujeitos no processo de investigação também tem merecido constante atenção no campo da Sociologia. 26 2 A INSTITUIÇÃO PESQUISADA Os indivíduos que hoje compõem a comunidade escolar em questão estão inseridos em diversos campos e culturas, imersos na teia de experiências e vivências entre os sujeitos que caracterizam uma sociedade complexa (VELHO, 1999). Além disso, o próprio espaço da escola sofreu alterações ao longo do tempo. Também a situação sociopolítica e cultural da sociedade abrangente é outra: transformaram-se as culturas docente e juvenil, as demandas das empresas, as organizações dos trabalhadores. Assim, é fundamental que se articule a cultura da escola com as demais culturas, com as quais seus sujeitos dialogam, ou não. A relação dos sujeitos da escola com a sociedade na qual estão inseridos, as disputas e divergências, existentes, ou não, são elementos importantes para a compreensão das escolhas, das relações, dos discursos e das práticas na construção histórica dessa instituição. Para buscar melhor compreender as suas transformações, resgatamos um pouco de sua história. 2.1 A Escola Tia Dê – Um pouco de história Segundo Scalco (1986), no local onde hoje está o bairro Acácia5, onde se localiza a escola pesquisada, havia uma fazenda pertencente a Washington Pires6. A partir da década de 1950, com a especulação imobiliária devido à criação da Cidade Industrial, no município de Contagem, houve um aumento significativo do interesse por lugares próximos às fábricas, onde os trabalhadores pudessem residir. Entre os anos de 1966 e 1967 a referida fazenda foi comprada pela Imobiliária Sancruza e loteada, com a aprovação da Prefeitura de Belo Horizonte. Sem demarcações claras, a Prefeitura de Ibirité também aprovou o mesmo loteamento, a pedido da imobiliária, criando sérios problemas à população. Sem nenhum serviço de infraestrutura urbana, o novo bairro foi gradualmente sendo ocupado pelos operários, vindos de outras regiões da capital e também de cidades próximas, atraídos pelos empregos ofertados pelas fábricas que se instalavam na Cidade 5 Todos os nomes próprios utilizados nessa dissertação (bairro, instituição e sujeitos) são fictícios. Foram escolhidos aleatoriamente para preservar a identidade da instituição e dos sujeitos pesquisados. 6 Washington Pereira Pires - Ministro da Educação no período de 16/09/1932 a 23/07/1934. Mineiro, nascido na cidade de Formiga, em 1892. (Fonte: Site do Ministério a Educação <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=13514&Itemid=945> Acessado em 30/01/2012). 27 Industrial. Scalco (1986) apresenta relatos de moradores que revelam a completa ausência de serviços básicos, ou seja, não havia ruas abertas, água encanada, rede de esgoto ou energia elétrica. O fato de estar no limite entre três municípios, Belo Horizonte, Ibirité e Contagem, e de o loteamento ter sido aprovado por dois deles, fez com que a população precisasse lutar pelo reconhecimento do bairro pela jurisdição de Belo Horizonte, intentando obter o básico da infraestrutura urbana necessária. Essa situação foi o marco da organização dos trabalhadores no bairro Acácia, que, reivindicando reconhecimento, precisaram se organizar em prol de um projeto coletivo. Mesmo com dificuldades, aos poucos foram conseguindo atingir os seus objetivos, ainda que de forma precária. Com isso, perceberam que a atuação organizada coletivamente era a melhor possibilidade que tinham. Sempre organizados em grupos, ou de Vicentinos, ou no Conselho de Moradores e, mais tarde, na Associação Comunitária, lutaram por escolas, postos de saúde, transporte público, abertura e asfaltamento das ruas. Toda essa luta se deu quando o Brasil estava sob o regime militar. No meio da opressão em que viviam, em 1969 os moradores acharam que a presença da igreja católica poderia lhes possibilitar formas mais “seguras” de luta. Algo assim, conforme denominou Scalco, como “o ‘dedo de Deus’ na história dos homens” (1986, p. 44). Uma espécie de escudo da igreja que pudesse, ao mesmo tempo, fortalecer a luta e resguardar as suas formas de agir. Mais ou menos na mesma época chega ao bairro Acácia um padre, jesuíta, militante, das orientações emanadas da ala progressista da igreja católica no Brasil, organizada nas Comunidades de Base e comprometida com a construção de uma sociedade justa e igualitária, que era identificada com os pressupostos evangélicos. Vindo da Espanha aos 22 anos de idade, Pe. Gabriel tinha a intenção de conhecer a vida e a luta do trabalhador operário brasileiro, para, assim, aproximar-se dele em todas as suas dimensões e criar estratégias de formação, profissional e humana, que atendessem aos interesses da classe trabalhadora. Estudou Filosofia em Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, depois se dedicou aos estudos de Teologia, em São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Após esse período e com a intenção de colocar em prática os seus objetivos, deslocou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou por alguns anos como operário, segundo ele, para aprender como era a vida desse trabalhador e habituar-se ao novo ritmo. 28 Eu sempre fiquei preocupado pra trabalhar com os operários e fui trabalhar em fábrica, [...] como operário, soldador, [...] pra conhecer essa vida, pra conhecer a vida de operário. Uma coisa é você falar, a outra coisa é acordar todo dia e passar, trabalhar dois horários. (Pe. Gabriel, 2011). Sentindo-se mais seguro com a condição de operário, Pe. Gabriel migrou para a cidade de Belo Horizonte, onde se dedicou à sua congregação como ecônomo e, logo depois, recebeu autorização do bispo para realizar o trabalho que desejava, junto à classe trabalhadora. O bairro Acácia, onde se radicou, foi por ele cuidadosamente escolhido por causa da história de sua criação e pela forma como as pessoas ali se organizavam. Morando no bairro Acácia e trabalhando como operário na Cidade Industrial, foi na lida diária que ele vivia e aprendia com os companheiros de trabalho. Juntos buscavam formas de se organizar com o objetivo de dialogar criticamente sobre as condições em que viviam, as relações de trabalho as quais eram submetidos, as suas limitações e suas potencialidades diante da opressão que vivenciavam no período da ditadura militar. Com o convívio diário nas fábricas e a proximidade da vizinhança, tentava reconhecer as necessidades daquela gente vivenciando os mesmos preconceitos, privações, limitações e constrangimentos. Buscando manter a convivência e o conhecimento da vida dos trabalhadores, um de seus primeiros atos foi identificar lideranças locais, para que, juntos, pudessem mobilizar a comunidade em prol de um projeto coletivo que atendesse os interesses da classe trabalhadora. Essa ação tinha caráter inovador e revolucionário para aquela localidade, no entanto, não acontecia de forma isolada. Naquele período eram comuns ações da igreja católica em prol das comunidades marginalizadas, como nos mostra Gohn (2009). Nos anos 70, este plano teve um espaço privilegiado para seu desenvolvimento, a saber: as ações das comunidades eclesiais de base cristãs. O trabalho educativo de formação de lideranças gerou também inúmeras iniciativas populares que contribuíram para a organização das massas populares, especialmente urbanas, tais como: bibliotecas populares, rádios comunitárias, centros culturais de bairros, grupos de teatros, inúmeros cursos de formação em centros populares e operários, boletins e uma variada gama de mídia alternativa, músicas e concursos populares etc. A educação popular era vista como parte integrante do processo organizativo das classes e camadas populares, desenvolvida pela Igreja, clero, facções políticas novas. (GOHN, 2009, p. 23). 29 A religiosidade era uma forte marca do povo do bairro Acácia, o que facilitou a aproximação do padre, que, dando continuidade ao seu projeto de estar próximo aos operários, ofereceu-se para a celebração de missas. A falta de reconhecimento do bairro por parte dos municípios de Belo Horizonte e de Ibirité, não só os deixava sem os serviços básicos de infraestrutura urbana, mas também os impedia de ter um pároco. Isto porque as instâncias responsáveis pela igreja católica das localidades nem uma, nem outra reconheciam a região, fazendo um “jogo de empurra”. Essa situação, de certa forma, favoreceu a atuação de Pe. Gabriel, que, após buscar autorização em ambos os municípios, sentiu-se livre para “adotar” a comunidade e realizar o trabalho conforme os seus princípios, já que ela não “pertencia” a ninguém. Inicialmente, não havendo uma igreja, as pessoas reuniam-se debaixo de uma árvore para fazer orações. Com a chegada de Pe. Gabriel as orações se tornaram missas ao ar livre. Depois, em função do número de participantes, que aumentava a cada domingo, passaram a ser realizadas no pátio da escola pública, fruto da mobilização da comunidade. Diante da participação crescente, surgiu a proposta: construir a igreja. Em meio às lutas, reivindicações e movimentos de emancipação da comunidade descobriram que, no loteamento oriundo da fazenda de Washington Pires, havia um terreno que fora reservado para a construção de uma igreja católica, mas que somente seria entregue para um padre ou alguma pessoa que pertencesse à igreja. O Pe Gabriel e a comunidade, unidos em torno dos mesmos propósitos, deram início, então, à construção do prédio da igreja, após se apropriarem do espaço destinado à igreja. A conquista do espaço material veio no sentido de busca da liberdade e da independência. E com a construção da igreja materializavam-se também as intenções do padre, que utilizou o trabalho coletivo como forma de emancipação e formação do homem. Suas ações eram coerentes com o paradigma que predominou na educação popular no Brasil nos anos 1970/80, que foi um conjunto de ideias filosóficas, políticas e pedagógicas nascidas a partir dos Movimentos de Educação de Base e Cultura Popular. Esses movimentos se iniciaram nos anos 50/60 do mesmo século e ganharam força no interior dos movimentos de resistência popular nas décadas seguintes. Seus principais paradigmas eram a valorização da cultura popular; a centralidade atribuída ao diálogo, à ética e à democracia no processo de construção de relações sociais mais justas; a necessidade de ter como referência constante, ao longo de qualquer processo pedagógico ou de mudança social; a realidade da vida dos educandos e a forma como eles encaram esta realidade - a relação entre conhecimento e 30 politização, entre educação e movimentos sociais; o estímulo à participação dos educandos em todas as fases do processo educativo; a atenção ao pequeno, ao miúdo, ao cotidiano; a tentativa de fazer com que o ensino seja também pesquisa, uma investigação curiosa sobre a realidade. (GOHN, 2009, p. 19). Com a intenção de valorização da cultura popular e por meio do diálogo e da construção coletiva, a edificação do prédio da igreja católica foi o embrião da escola profissionalizante. Iniciou-se aí, em uma “gestação silenciosa” (SCALCO, 1986, p. 0607), a história da Associação Técnica, conhecida popularmente como Escola Tia Dê, uma homenagem dos trabalhadores e moradores do bairro Acácia à principal liderança comunitária da região, pessoa querida e respeitada por todos e que, juntamente com Pe. Gabriel, fortaleceu a luta dos trabalhadores contribuindo para a realização do sonho de criação de uma escola profissionalizante. Os trabalhos de construção do prédio da igreja eram realizados em mutirão nos finais de semana. A comunidade doava aquilo que podia. Os homens faziam o trabalho pesado, as mulheres, a alimentação dos trabalhadores, e, as crianças, os pequenos afazeres. Todos se sentiam (e muitos ainda se sentem) donos daquele espaço construído com a força do coletivo. Com o início das obras, que eram orientadas por um mestre de obras, morador da comunidade, o “Seu” Bob, Pe. Gabriel considerou importante para o processo de emancipação daquele povo o uso desse espaço para a formação de trabalhadores da construção civil enquanto se construía a igreja. O canteiro de obras foi a sala de aula onde foram formados pedreiros, serventes, marceneiros, eletricistas e ferramenteiros. Já no final da década de 1970, diante da escassez de empregos, os trabalhadores precisavam se qualificar e as aulas, oferecidas gratuitamente, ganhavam cada vez mais notoriedade. Não somente pelas questões práticas, mas pelos encontros de formação humana que eram ali realizados. O “Seu” Bob vinha, ele trabalhava na cidade, ele era mestre de obra, o seu Bob vinha. Ele é que estava dirigindo a construção, todo sábado e domingo. Nós ficamos lá trabalhando, ele, eu e tinha voluntários trabalhando também. Fizemos primeiro uma parte para proteger da chuva e depois tivemos essa ideia de, nós queríamos conversar com os operários todas as noites, uma vez por semana, nós reuníamos nos grupos. Nós tínhamos 5 grupos, 6 grupos de reflexão do evangelho e da realidade da vida. Então, nós nos reuníamos toda semana. Nós reuníamos nesses grupos para ver o evangelho e à luz do evangelho refletir sobre a realidade da situação em que vivíamos no bairro Acácia. E nós queríamos fazer isso mais. Essa reflexão, porque achava que era isso que conscientizava mais os operários. Porque parecia que eu estava lá mais pra ajudar os operários a ter consciência da situação deles. (Pe. Gabriel, 2011). 31 Scalco (1986) afirma que a comunidade buscava novas formas de se organizar nos momentos de crise e de repressão. Na luta pela sobrevivência e pela consolidação de sua identidade, os trabalhadores (re)inventavam, junto com o padre, maneiras de existir e de enfrentar a opressão. Diante do “abandono por parte dos dirigentes capitalistas nas áreas de alimentação, saúde, emprego, comunicação e educação” (1986, p. 76) e com a necessidade de autoconservação, os trabalhadores se agarravam às possibilidades que lhes pareciam mais aprazíveis. A proposta da igreja católica, na figura do padre que ali se estabeleceu, parecia ser a que mais se aproximava dos interesses daquela comunidade e através dessa “parceria” outras surgiram por seu intermédio. Para a construção efetiva do prédio da escola e para a ampliação dos cursos já existentes no porão da igreja católica, o maior desafio enfrentado foi a escassez de financiamentos. Para superar tal situação, a comunidade, através de sua forma peculiar de organização, buscou-os, assim como outros tipos de ajuda, inclusive fora do país. Nessa fase, foram organizados projetos de cursos e os trabalhadores obtiveram recursos na Secretaria de Estado do Trabalho de Minas Gerais. Com parte de suas atividades sendo financiadas por essa Secretaria e “adquirindo cartaz”, como conta o próprio Pe. Gabriel, junto aos gestores, os trabalhadores conseguiram, quatro anos após a fundação da escola, que se deu em 1979, o importante marco histórico da instituição - a conquista do prédio próprio, em 1983. E para dar esses cursos nós começamos por nossa conta, mas depois eu fui e fiquei sabendo que a Secretaria de Trabalho financiava pra dar esses cursos. Financiava o que era o mais importante, financiava o instrutor, dava uma mixaria pra pagar o instrutor e também financiava as ferramentas. Pagava, dava de presente, então, todos os cursos eram também um atrativo, porque o cara recebia as ferramentas: colher de pedreiro, marreta, esquadro. E aí começamos a ter um contato maior com a Secretaria de Trabalho que financiava esses cursos, e, ao mesmo tempo, com o conhecimento de alguns, do engenheiro que fez a planta e outros amigos dele. [...] ai nós fomos adquirindo cartaz, por assim dizer, diante da Secretaria do Trabalho que era de um governador muito de direita, [...]. Então fomos adquirindo confiança e eles nos ofereceram dinheiro pra fazer o prédio e montar uma escola profissional, então, pra nós foi o céu aberto. (Pe. Gabriel, 2011). Mesmo sem uma orientação formalizada em um projeto pedagógico inaugural da escola, Pe. Gabriel tinha clareza de um projeto de sociedade que desejava, sabia onde estava e onde queria chegar. Assim, o trabalho realizado pelo padre junto com as lideranças comunitárias e com a participação da comunidade em geral ganhou 32 notoriedade não só entre os trabalhadores, empregados e desempregados, da região, mas, também entre os órgãos do poder público. A comunidade precisava de financiamento para continuar a desenvolver o seu projeto e o setor público precisava investir em atividades de formação de trabalhadores, respondendo, mesmo que de forma insuficiente, à crise que se instalava no país e aos frequentes protestos e reivindicações da classe trabalhadora. De acordo com Scalco (1986), a escola demonstrava o comprometimento com os interesses dos trabalhadores, colocando-os acima dos interesses mercantis, como sujeitos ativos e protagonistas de suas histórias. Ainda importa evidenciar que assim os trabalhadores, enquanto sujeitos, expressam por múltiplas formas as vivências do seu espaço específico. Ali irrompe um processo de apropriação e compreensão sobre o seu “fazer-se”. Do referido cruzamento das experiências cotidianas resultam aprendizados cujas manifestações revelam a identidade do sujeito-trabalhador nas suas ações. Mais: reconhecendo-se como tal, ele reproduz a vida, altera as suas formas de resolver problemas e cria novas formas de existir que o personalizam e lhe dão identidade. (SCALCO, 1986, p. 16). A escola teve como seus primeiros professores os próprios trabalhadores, que detinham o saber-fazer de sua profissão, mas, principalmente, que estavam imbuídos de uma causa - conquistar direitos dos quais eram expropriados continuamente, concretizados pela falta de escola, pela precariedade do transporte, pela falta de moradia, pela ausência de espaços e serviços públicos aos quais pudessem recorrer. A escola surgiu num contexto generalizado de lutas naquele bairro; sendo assim, a população se organizou em torno deste projeto criando formas organizatórias e que são relevantes como elementos de autoeducação. A constituição de comissões, grupos, caravanas de pressão aos políticos, a prática do mutirão e a criação de cursos profissionalizantes foram as formas de organização mais evidentes no início da história da Escola... (SCALCO, 1986, p. 49). Na medida em que construíam a escola era construída também a identidade da comunidade e de cada um dos trabalhadores nela envolvidos. As necessidades existenciais das pessoas as impulsionavam para a busca de emancipação através das experiências do fazer cotidiano. As vivências cotidianas eram traduzidas nas relações entre os sujeitos, as quais oportunizavam a construção de novos conhecimentos e a descoberta de novos espaços de luta. A vida era reinventada e ganhava impulso para que fosse melhor compreendida em seu espaço específico. Trabalhadores, cujo projeto de 33 vida era qualificar-se para o trabalho ampliando suas possibilidades de inserção no mercado industrial em franca expansão e oferecer melhores e maiores oportunidades de aprendizado profissional para seus filhos, reconheceram no projeto da comunidade o seu projeto pessoal. Scalco (1986) revela que os sujeitos da Escola Tia Dê reconheciam como principal vantagem da escola a parte política, ou seja, além da formação técnica, havia a garantia do espaço de discussão e de debate sobre a condição dos trabalhadores e as relações que estabeleciam com o capital. Também da parte dos professores da Escola Tia Dê há uma veiculação da concepção de educação que toma o aluno como sujeito. Acreditam que os alunos, ao passarem pela escola, imprimem nela suas marcas; desenvolve-se, desta forma, uma relação entre aluno e escola que o coloca como agente no processo. [...] o aluno se promove, ao invés de a escola promovê-lo. Tal concepção de escola tem sua sustentação e sua expressão cotidiana nas diversas formas de relação entre a Escola Tia Dê e seus usuários. De maneira especial esta concepção ganha maior vitalidade nas relações solidárias e afetivas construídas entre os alunos. (SCALCO, 1986, p. 129). Assim, a concepção de educação vivenciada na escola reconhecia o aluno como sujeito e protagonista de sua história, capaz de criar e construir os seus projetos, deixar a sua marca por onde passava, tendo maior compreensão da realidade em que vivia, da possibilidade concreta de alterar a sua vida e a percepção da edificação de sua própria história. De acordo com Scalco (1986), essa concepção teve sustentação e expressão nas formas de relação entre os sujeitos e a escola, e, especialmente, ganhava força nas relações afetivas, de solidariedade e de cooperação entre os alunos. A escola era citada pelos alunos como um espaço de reencontro, de conversas descontraídas sobre as dificuldades e novidades do mundo do trabalho, espaço para manifestação de emoções e sentimentos que as relações opressoras do cotidiano abafavam. Sendo assim, Scalco entende que para recuperar a alma, as emoções, o corpo e a liberdade, os trabalhadores criam seu espaço onde as relações não opressoras lhes possibilitam novas energias edificadoras da sua emancipação e revitalizam-se nesses espaços. (SCALCO, 1986, p. 137). Sendo o ato de construção da escola visto como um tempo de revitalização, reencontro, formação e livres manifestações, os trabalhadores dedicaram-se a essa tarefa durante aproximadamente um ano. O prédio, que começou a ser construído no início de 34 1982, ficou pronto no final desse mesmo ano e inaugurado em 1983. Sua estrutura, ainda que precária, dava condições mínimas para a realização do trabalho proposto. Era suficiente, naquele momento, para garantir a existência do espaço específico dos trabalhadores do bairro Acácia e região. A sua estrutura, ainda que frágil, abrigava sonhos, projetos, intenções e propostas, e uma salutar indefinição em relação a quem coordenava o trabalho da escola. Essa indefinição não significava que não havia responsáveis pelo trabalho, muito pelo contrário, ela demonstrava, segundo Scalco (1986), características de uma autogestão emergente. As decisões eram orientadas pelos interesses dos trabalhadores em busca de melhores condições de vida. A escola tinha professores e operários, salas de aula e uma oficina de produção. Abrigava, ao mesmo tempo, atividades de formação e atividades de produção, cujo objetivo era gerar renda para auxiliar na manutenção da escola. Somente eram comercializadas as peças produzidas pelos operários da Associação Técnica. Os alunos tinham atividades programadas na oficina, mas sua produção não era comercializada. A oficina permanece em funcionamento até os dias atuais, mas, com a ampliação do espaço da escola, ela fica separada daquela, que é destinada aos alunos. Os alunos passam a frequentá-la quando, selecionados por desempenho e frequência nas aulas teóricas, realizam estágio remunerado.7 Após aproximadamente três ou quatro anos de funcionamento da escola em prédio próprio, o Pe. Gabriel foi convocado a assumir uma comunidade em Tocantins. Apesar de dizer que não tinha função específica dentro da escola e que não faria muita falta, Pe. Gabriel era reconhecido, e ainda é, pelos trabalhadores da escola e moradores do bairro como um Coordenador Geral, mentor da escola e grande responsável pela sua criação. Com a sua saída, a coordenação foi assumida por Célio, também com formação jesuíta e militante dos movimentos de esquerda na época da ditadura. Seu primeiro contato com Pe. Gabriel ocorreu quando ele se mudou para o bairro Acácia, em 1979. Vindo do Rio Grande do Sul, Célio estudava Filosofia na Unisinos8, de onde foi convidado a se retirar por ser considerado revolucionário para a época. Impedido de 7 A realização de atividades de produção e oferta de serviços é permitida legalmente para associações privadas sem fins lucrativos, desde que os eventuais excedentes não sejam distribuídos entre os proprietários ou diretores. A razão primeira de existência da instituição não é a geração de lucros, eles até podem ser gerados, desde que sejam aplicados nas atividades fim da associação (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA, 2004). 8 Universidade do Vale do Rio dos Sinos – universidade jesuíta do Rio Grande do Sul. 35 continuar os seus estudos, foi transferido pela Ordem dos Jesuítas para Minas Gerais, e, passou a morar com o Pe. Gabriel por indicação da Ordem. Sem condições para continuar os estudos, já que não era aceito em outra universidade, Célio começou a trabalhar nas fábricas na Cidade Industrial, como operário. Para conseguir emprego declarava ter apenas a quarta série do ensino primário. Passou por duas ou três fábricas antes de conseguir voltar aos estudos de Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Pouco tempo depois, foi aprovado para o curso de Sociologia na Universidade Federal de Minas Gerais. A essa altura já havia desistido do seminário, radicou-se definitivamente no bairro Acácia, abandonou o curso de Filosofia e foi convidado pelo Pe. Gabriel a assumir uma espécie de coordenação pedagógica da Escola Tia Dê, como voluntário, em 1983. Ministrava aulas de formação humana, de matemática e de práticas de oficina no turno da noite. Até assumir, com a saída de Pe. Gabriel, a coordenação geral da escola, na qual permanece até os dias de hoje. A escola continuou tendo financiamento da Secretaria do Trabalho para o pagamento dos professores. Os cursos continuaram a ser realizados tal qual no porão da igreja, mantendo a lógica do “aprender fazendo”. Nessa época, ocorreram algumas iniciativas de cursos realizados, pela escola, em outros bairros, mas estas não avançaram. A parceria com a Secretaria de Trabalho perdurou até os anos 1990. Como a construção da escola se deu por iniciativa principal de um padre jesuíta, boa parte de suas ações foram realizadas com financiamento da Companhia dos Jesuítas, por meio do Colégio Jesuíta. A transferência de recursos para a escola, no início, era algo mais ou menos organizado e direcionado por meio do padre responsável, primeiro o Pe. Gabriel, depois o Pe. Alaíde. A transferência financeira realizada pelo Colégio Jesuíta representava, e ainda representa, a maior parte de seus recursos financeiros. No entanto, o percentual repassado permanecia sujeito às alterações internas do Colégio, estrutura, funcionamento, lideranças, fazendo com que o funcionamento da Escola Tia Dê estivesse, sempre, em situação de insegurança pela falta de clareza do valor e das condições disponíveis para cada ano de exercício. Diante dos constrangimentos causados à escola por causa dessa situação, foram criados, juntos, na escola e Colégio, uma alternativa: instituir como presidente da diretoria da escola, que era, e continua sendo, composta pela comunidade, o diretor do Colégio Jesuíta. Portanto, a presidência da diretoria da Associação Técnica é exercida pelo diretor do Colégio Jesuíta, o que está registrado em estatuto. Dessa forma, há, desde então, a 36 garantia de financiamento das ações da escola, mesmo com as sucessivas mudanças internas às quais o Colégio está suscetível. Se em um determinado momento histórico, vários elementos se coadunaram para gerar não só uma escola, mas um projeto comunitário feito por e para os trabalhadores, com o objetivo de atender exclusivamente seus interesses, podemos supor que, por ser a cultura dinâmica e já passadas algumas décadas desde então, alguma alteração ou variação da cultura da escola pode ter ocorrido. Um projeto com tais contornos parece aproximar-se daquilo que os autores mencionados nessa dissertação, Frigotto (2001, 2007), Maria Rita Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Machado (2008), e Ramos (2008), conceituam como Educação Tecnológica. Estamos diante de um projeto de formação profissional cunhado no bojo de movimentos sociais, em defesa dos direitos dos trabalhadores e que apontava na direção de sua emancipação. Decorridos mais de trinta anos desde a sua fundação e compreendendo que a sociedade, hoje, ainda que sob o mesmo modo de produção, apresenta aspectos diferentes dos tempos em que se constituiu a escola, perguntamos: seus agentes educativos continuam os mesmos? Os princípios que os regem permanecem inalterados? A identidade coletiva dos trabalhadores ali presentes permanece a mesma? Que forças ali atuaram e como foram sendo trabalhadas? Se essa experiência partiu de um projeto com caráter emancipatório, como ela foi se reconfigurando ao longo do tempo, em seu diálogo com as forças hegemônicas? Em que medida aqueles valores iniciais se mantiveram ou se alteraram? Como foram formados os novos sujeitos que se incorporaram ao projeto? Prevalece, ainda hoje, a antiga identidade dos educadores, comprometidos com as lutas dos trabalhadores? Que forças favoreceram ou dificultaram a permanência dessa identidade docente? Que desafios e obstáculos foram encontrados e como foram superados? Que metodologias, que processos, que relações favoreceram ou prejudicaram o avanço daquele projeto em direção a uma formação profissional integrada, inclusiva, crítica e emancipatória? Que pistas essa experiência pode fornecer, nos aspectos curriculares, organizacionais, relacionais e materiais, a outros projetos que pretendam caminhar e se constituir na mesma direção? É o que trataremos a seguir. 37 2.2 Impasses legais e materiais Na introdução desta dissertação discutimos a concepção de Educação Tecnológica e apontamos para uma experiência de formação de trabalhadores construída sobre princípios e valores que parecem se aproximar do que se entende como tal. Há, no entanto, um esclarecimento importante a se fazer antes de discorrermos sobre a concepção de educação adotada, hoje, pela instituição que se constitui objeto dessa pesquisa, qual seja: a instituição se autodenomina escola profissionalizante. Seus cursos são de profissionalização de nível básico, direcionados a adolescentes, jovens e adultos em situação de risco social identificado, ou seja, em situação de carência econômica e social. Todavia, a mesma teve, por questões burocráticas, que se enquadrar como Associação Privada, cuja atividade principal é a realização de atividades de defesa de direitos sociais. Legalmente, a mesma não pode apresentar em seu escopo o desenvolvimento de atividades da área de educação. Como Associação Privada sem fins lucrativos a “escola”9 realizou atividades de formação do trabalhador e integração ao mercado de trabalho, com o financiamento da Secretaria de Trabalho até o início dos anos de 1990. Em 1993, com a divulgação da Lei nº 8.742, Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS, atualizada pela Lei nº 12.435/2011, a instituição passa a se submeter à regulamentação estabelecida pela Assistência Social, que possui, dentre os seus objetivos, a promoção da integração ao mercado de trabalho. A partir daí, a Assistência Social passou a abarcar as iniciativas privadas que eram financiadas por outros órgãos públicos. Nesse sentido, a LOAS surgiu com a necessidade de rompimento com atendimentos historicamente assistencialistas no Brasil. Desde então, a “Escola” Tia Dê, como Associação Privada sem fins lucrativos, passou a estar subordinada às leis da Assistência Social. Dito isso, passamos a apresentar a paradoxal situação da “escola” que não responde a nenhum órgão relacionado à educação, e, por consequência, não tem referências legais dessa área, tampouco presta contas pela realização de atividades de educação. Tal situação a afasta das discussões sobre concepções de educação e ensino, e, a aproxima de discussões relacionadas à defesa de direitos sociais. Contudo, por sua 9 A partir desse ponto do texto passamos a utilizar a palavra escola entre aspas na tentativa de diferenciar os dois momentos de sua existência.:O termo sem as aspas (escola) será utilizado para referir-se à instituição nos anos iniciais de funcionamento. O termo com as aspas (“escola”) será utilizado para referir-se ao período pós regulamentação e reconhecimento da instituição pela Política de Assistência Social. 38 história e vocação, desenvolve ações de educação profissional destinadas aos trabalhadores. Mas, se não há uma concepção de educação adotada pela “escola” de forma consciente, há, entretanto, uma concepção de educação percebida em suas práticas, que analisaremos mais adiante. Em sua missão, divulgada formalmente no site oficial da “escola”, a instituição afirma: Acreditamos que, ao contribuir para a profissionalização dos jovens, proporcionando-lhes condições de acesso à atividade economicamente ativa, mudamos a perspectiva do aluno e de sua família, transformando, também, a comunidade da qual ele faz parte. O resultado é a reintegração social e o resgate da dignidade da pessoa humana com a consequente melhoria da qualidade de vida. (Site da instituição, ano não divulgado). Observamos que o resultado esperado não é a mera formação ou qualificação profissional do sujeito, mas, sim, a melhoria da qualidade de vida, realizada através da reintegração social e do resgate da dignidade humana. Considerando os termos reintegração e resgate, supomos que o público alvo dessa ação seja um público marginalizado e expropriado dos seus direitos sociais e confirmamos tal suposição ao verificarmos o público alvo de suas ações. Sendo o objeto de investigação dessa pesquisa as estratégias de sobrevivência e os desafios enfrentados por um projeto de EP realizado dentro de uma perspectiva emancipatória, devemos considerar aqui duas questões: a primeira delas é o fato de que a origem da instituição está marcada pelo movimento de luta e reivindicação de direitos, pelo movimento ativo de trabalhadores associados à igreja católica. E a segunda questão é o fato de que, atualmente, há um outro contexto sócio-histórico, econômico, legal e político, diferenciado daquele que marca a origem da instituição. As questões se complementam e sinalizam para uma história marcada pelas transformações decorrentes da redemocratização do País, assim como aquelas que movem as relações de produção do sistema capitalista. Não obstante, tornamos a questionar: os princípios que os regem permanecem inalterados? A identidade coletiva dos trabalhadores ali presentes ainda permanece a mesma? O que favorece ou dificulta o avanço de uma experiência com esse caráter? Em 2004, foi aprovada pelo Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS a Política Nacional de Assistência Social – PNAS, que representou o cumprimento das deliberações da IV Conferência Nacional de Assistência Social, realizada em 2003. Dez 39 anos após a promulgação da LOAS, essa política define o novo modelo de gestão da Assistência Social e apresenta as diretrizes para a sua efetivação como direito de cidadania e responsabilidade do Estado. Além disso, incorpora as demandas da sociedade brasileira, que reivindica uma Assistência Social como direito do cidadão e dever do Estado, negando-se a continuar recebendo assistência em forma de assistencialismo, praticado como benesse ou favor. Em decorrência da criação da PNAS e ainda em cumprimento das deliberações da IV Conferência de Assistência Social, a Norma Operacional Básica do Sistema Único de Assistência Social – NOB/SUAS foi aprovada em 2005, também pelo CNAS, apresentando os eixos estruturantes para a realização do pacto a ser efetivado entre os três entes federados e as instâncias de articulação, pactuação e deliberação, visando à implementação e consolidação do Sistema Único de Assistência Social – SUAS, no Brasil. Estas são as atuais fontes regulamentadoras das ações do projeto em questão e descrevem a sua atuação como inclusão produtiva, cujas atividades devem estar voltadas para a formação, (re)qualificação e capacitação do trabalhador. A garantia dessa promoção está assegurada ao cidadão no nível de proteção social básica da Política, na qual a instituição se enquadra legalmente, exposto da seguinte forma: Art. 60-A. A assistência social organiza-se pelos seguintes tipos de proteção: I - proteção social básica: conjunto de serviços, programas, projetos e benefícios da assistência social que visa a prevenir situações de vulnerabilidade e risco social por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições e do fortalecimento de vínculos familiares e comunitários; [...] (Conselho Nacional de Assistência Social, 1993, grifo nosso). Diante desse cenário, observamos que grandes mudanças jurídicas e burocráticas são impostas à “escola”, que, ao mesmo tempo em que tem a sua ação legalmente reconhecida, passa a estar cada vez mais cerceada pelas alterações legais ligadas à PNAS. A Assistência Social, como direito do cidadão e dever do Estado, é Política de Seguridade Social não contributiva, que provê os mínimos sociais. É realizada através de um conjunto integrado de ações de iniciativa pública e da sociedade, para garantir o atendimento às necessidades básicas. Essa legislação reconhece como entidades ou associações de defesa e garantia de direitos sociais aquelas sem fins lucrativos, que prestam atendimento, assessoramento ou defesa e garantia de direitos aos seus beneficiários. A instituição em questão se enquadra como entidade de atendimento, cujo serviço é prestado de forma continuada, permanente e planejada, realizando programas 40 e projetos voltados, prioritariamente, para a efetivação dos direitos socioassistenciais, construção de novos direitos, promoção da cidadania, enfrentamento das desigualdades sociais, articulação com órgãos públicos de defesa de direitos, dirigidos ao público da Política de Assistência Social por meio de atividades de inclusão produtiva. Sendo assim, a partir de 1993, tendo que garantir a sua legalidade para a manutenção e obtenção de financiamentos, a “Escola” Tia Dê teve que se enquadrar na legislação da Assistência Social, passando a responder como entidade de atendimento de defesa de direitos sociais, a saber, o direito de integração ao mercado de trabalho. Apesar de se autodenominar escola até os dias atuais, a instituição não está designada dentro desta categoria, tendo, assim, que responder às instâncias superiores da Assistência Social, por vezes do Trabalho, e não da área de Educação. A PNAS é uma política recente, datada de 2004. Até os dias atuais está em implantação nos estados e municípios brasileiros. Na medida em que avança a sua implantação surgem novas regulamentações que buscam dar maior legitimidade e exequibilidade à lei. Em 2009, a Lei nº 12.101, conhecida como Nova Lei da Filantropia, estreitou ainda mais as possibilidades de atuação das Organizações Não Governamentais sem fins lucrativos (ONGs) uma vez que limita o repasse de recursos financeiros de instituições filantrópicas para tais organizações. Para fins dessa lei, considera-se entidade beneficente, de Assistência Social a pessoa jurídica de direito privado, sem fins lucrativos, que atue no sentido de: I – proteger a família, a maternidade, a infância, a adolescência e a velhice; II – amparar crianças e adolescentes carentes; III – promover ações de prevenção, habilitação e reabilitação de pessoas com deficiência; IV – promover gratuitamente, assistência educacional ou de saúde; V – promover a integração ao mercado de trabalho. Assim sendo, o vínculo da instituição se dá com a rede socioassistencial privada no âmbito do SUAS, com a necessidade de integrar o Cadastro Nacional de Entidades e Organizações de Assistência e Promoção Social (IANARELLI, 2010). Anteriormente, vimos que o principal financiador da “escola” tem sido o Colégio Jesuíta. Essa relação foi fortemente abalada pela Nova Lei da Filantropia, por ter limitados os repasses de recursos financeiros entre entidades sem a mesma natureza jurídica, ou seja, instituições de educação podem financiar somente outras instituições de educação. Os repasses de recurso, de acordo com a Nova Lei da Filantropia, terão uma redução gradual, para adequação sucessiva das entidades, a partir da data de sua publicação: a) até 75% no primeiro ano; b) até 50% no segundo ano; c) 25% a partir do 41 terceiro ano. Tal alteração serve para manter a coerência entre as instituições, mantenedoras e executoras, para garantir, assim, que aquela que mantém financeiramente uma ação tenha a mesma atividade fim daquela que é, por ela, mantida. Tal redução afetou sobremaneira as ações desenvolvidas pela “Escola” Tia Dê, que, durante o período de realização da pesquisa, sofria as consequências decorrentes da lei. O impacto dessas alterações é sentido no cotidiano da “escola” com o racionamento de materiais, a redução de pessoal, o remanejamento de tarefas, o “desvio” de função, a sobreposição de atividades e a sobrecarga de trabalho para aqueles que permanecem. Como ações assistenciais da Educação a Nova Lei da Filantropia considera o ensino gratuito da educação básica em unidades específicas, programas de apoio a alunos bolsistas, tais como transporte, uniforme, material didático, além de outros definidos em regulamento (IANNARELLI, 2010). Sendo assim, a “Escola” Tia Dê não conseguiu se encaixar nas prescrições legais como uma ação assistencial de educação, mas apenas como uma entidade de Assistência Social, que teria como objetivo promover a integração do trabalhador no mercado de trabalho, e cujo vínculo legal está firmado com a rede socioassistencial privada no âmbito do SUAS, com gestão do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS), e não com o Ministério da Educação (MEC). Dessa forma, não tem mais o direito de receber repasses financeiros de uma instituição de educação, como o Colégio Jesuíta. A Lei nº 12.101/2009 apresenta como uma de suas principais características as questões relacionadas aos pedidos de certificação, que garante a isenção de contribuições previdenciárias patronais e sociais (IANNARELLI, 2010). Apesar de a instituição estar diretamente vinculada à Assistência Social e ao seu representante no município, que é a prefeitura, o seu principal financiador é um colégio católico, cujo repasse de recursos financeiros, para ser isento das contribuições fiscais, deve ser direcionado para outras instituições vinculadas ao MEC, o que se constituiu um grande problema para a sustentação financeira da “Escola” Tia Dê. Assim, a Nova Lei obriga a vinculação entre instituições inscritas para o mesmo fim legal e vinculadas ao mesmo ministério. Se seu mantenedor é vinculado ao MEC e a instituição é vinculada ao MDS, o direcionamento de recursos deverá ser reduzido gradualmente até a possibilidade mínima. Se na sua origem a igreja católica foi a principal mantenedora das ações realizadas na instituição, há agora um quadro de crise identitária e crise financeira, que afeta sobremaneira as perspectivas de funcionamento da instituição para os próximos anos. 42 Para melhor compreender o impasse financeiro vivenciado pela instituição, vejamos as suas fontes de recursos. Quadro 1 - Fontes de financiamento Origem do recurso Valor recebido em 2011 (R$) Colégio Jesuíta R$ 444.936,00 Oficina de Produção R$ 191.836,40 Prefeitura Belo Horizonte R$ 135.532,00 Fonte: Plano de ação “Escola” Tia Dê – exercício 2011. Porcentagem (%) 57,61 24,85 17,54 Se, por um lado, a instituição perde, gradativamente, o seu principal mantenedor, pelo fato de não poder ser reconhecida legalmente como uma instituição vinculada ao MEC, por outro lado ela perderia toda a sua legalidade como assistência social ao tentar adequar-se juridicamente como educação, perdendo assim todos os convênios estabelecidos com a Prefeitura de Belo Horizonte, com quem tem hoje grande notoriedade pelas atividades que realiza. Tal fato pode ser comprovado nos resultados de chamamento público. Citamos aqui o chamamento público 05/2011 da Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social - SMAAS, no qual a Associação Técnica10 obteve o total de pontos (100 pontos) atribuídos às entidades que entraram em concorrência para a realização das atividades propostas no chamamento. A pontuação atribuída deve-se ao atendimento dos requisitos exigidos pela SMAAS, como espaço físico, adequação às leis de acessibilidade, equipe de coordenação multidisciplinar, corpo de professores. A diferença entre a Associação Técnica e a segunda instituição colocada é de 02 pontos, e, para a terceira, de 13 pontos, o que é uma diferença considerada pelos gestores da Assistência Social, significativa. O fato é que hoje a “escola” é reconhecida como entidade de Assistência Social, inscrita nos conselhos nacional e municipal de Assistência Social e goza de grande respeito e notoriedade entre as instituições e órgãos públicos da área. Uma alteração de seu registro legal em direção à área da educação acarretaria no impedimento de participação em concorrências públicas de financiamento. Se há perdas por não se enquadrar no campo legal da educação, também haveria perdas se não fosse da Assistência Social, com o ônus, nesse último caso, de perder toda a sua legalidade. Com a perda da legalidade no campo da Assistência, haveria a possibilidade de enquadramento na área da educação, mas essa é uma possibilidade viável? A sua organização e estruturação atenderiam as exigências legais da educação? Diante desse impasse, como não se preocupar com as questões 10 Razão social da “Escola” Tia Dê. 43 relacionadas ao sustento da instituição? Como manter o foco na qualidade política (GANDIN, 2006) quando as questões objetivas urgem por cuidados? O não reconhecimento da formação inicial de trabalhadores por parte da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC), vinculada ao MEC, como sua responsabilidade, desfavorece a existência de iniciativas populares e comunitárias com esse objetivo, que carecem tanto de financiamento como de direcionamento legal quanto à concepção de educação adotada. Hoje, a instituição está situada em contexto completamente diverso daquele que se via nos anos de sua criação. As transformações ocorridas desde então a colocaram diante de desafios, diferentes daqueles que vivenciou há trinta e dois anos atrás. Podemos dizer que tal fato não é exclusividade dessa “escola”, pois, segundo Gohn (2000), enquanto, nos anos 1970, existia consenso de que se deveria criar um contrapoder ao Estado, um poder popular e independente, nos anos 1980, com a redemocratização, os movimentos passaram a ser interlocutores do Estado. Ou seja, de contestadores do poder, passam a representá-lo na medida em que oferecem serviços públicos, sendo intermediários entre Estado e sociedade, o que verificamos na história da escola com o financiamento da Secretaria do Trabalho, durante toda a década de 1980. Já nos anos 1990, os movimentos progressistas que sobreviveram quiseram participar das políticas públicas, criando uma nova forma democrática, a pública não estatal, é a chamada, segundo Dagnino (2004), “onguização”. Tendência mundial nos anos 1990 que gerou o abandono dos vínculos dessas organizações com os movimentos sociais, que as caracterizavam, para gerar uma pseudo-autonomia política. Na medida em que a correlação de forças mudou, não havendo mais um enfrentamento do poder do Estado por parte da população, o movimento popular, não combativo, se ampliou. Assim, acabou por tomar o lugar dos movimentos combativos como interlocutor das políticas sociais, sendo contratados pelo Estado como prestadores de serviços. Gohn (2000) faz um resgate da organização das ONGs nas últimas décadas. Ela afirma que essas ONGs, especialmente as de caráter mais progressista, passaram por uma crise nos anos 1990/2000, quando tiveram a sua organização e estrutura alteradas em função da regulamentação crescente nessas duas últimas décadas. A reorganização dessas instituições, face às mudanças vividas pelos movimentos sociais nesses anos, se deve, entre outros fatores, principalmente à questão financeira. 44 a única fonte de recursos encontrava-se circunscrita ao âmbito das políticas públicas, mas os movimentos não tinham uma formatação condizente com as políticas de parceria, não podendo participar destas novas políticas. (GOHN, 2000, p. 43). Nesse sentido, Cristina Carvalho (2000) alerta que ocorrem mudanças quanto às relações desse tipo de organização ou associação privada com o Estado. Isso se deve à crescente regulamentação e controle dessas instituições por parte dos órgãos públicos e à própria sociedade civil, por meio dos conselhos de direitos. Há um paradoxo nesse movimento: ao mesmo tempo em que o Estado passa a exigir cada vez mais da atuação das ONGs, regulando e implementando políticas de parceria, o mesmo Estado se retira da execução das políticas públicas, transferindo aos demandatários dessas políticas também a responsabilidade da sua execução. Esse fato muda radicalmente a ação social coletiva, que deixa de se estruturar sob a forma de movimentos sociais e passa a se articular em grupos organizados, com certo grau de institucionalidade, de modo a apresentar propostas e soluções para as ações demandadas, já que o poder público se transforma em agente apenas repassador de recursos. A operação passa a ser intermediada pelas ONGs, capazes de, com seus recursos humanos, atuar em parcerias respondendo aos desafios técnicos postos pela execução das políticas públicas. (GOHN, 2000, p. 48). Sendo assim, dos anos 1990 em diante é sentida uma diferenciação na forma de atuação das ONGs, enquanto movimentos sociais, com a diminuição de sua participação como militância política e o aumento do movimento de adequação legal e jurídico com vistas à sua sobrevivência financeira. Num determinado momento de sua trajetória e em função de determinações legais, desde os anos de 1990, com o advento da LOAS, o projeto em questão teve que optar por um modelo institucional e, mais tarde, pela adesão à PNAS. Dadas as circunstâncias de sua sustentação financeira, viu-se premido a se encaixar como entidade de atendimento da Assistência Social, sofrendo os impactos da Nova Lei da Filantropia, que limita os recursos financeiros destinados à Associação Técnica, uma vez que esta está vinculada à Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social. A dubiedade sobre a identidade da instituição está presente no seu cotidiano e permeia as relações internas e externas de seus sujeitos. A instituição nunca esteve vinculada às instâncias da educação. Apesar disso, sempre se comportou como escola e somente com a Nova Lei da Filantropia, publicada em 2009, é que houve o enfrentamento moral do fato de não ser uma entidade vinculada à educação. A situação 45 causou, e ainda causa, bastante estranheza entre os usuários da instituição, professores, diretoria e comunidade em geral, que, durante as entrevistas realizadas, utilizaram os termos: escola, professores e alunos. Mas quando questionados sobre o uso desses termos, do ponto de vista legal, todos se retrataram, enfatizando que a instituição não é uma escola, mas uma instituição da Assistência Social. Quando eu entrei como aluno, [...] eu lidava com professor e aluno. Eu estou aqui lecionando há cinco anos e de dois anos pra cá que veio essa mudança, né! [...]. É porque a coordenação pegou e chamou a gente pra conversar que estava tendo uma mudança na lei. Então a gente teve um pouquinho de dificuldade com essa transição da lei. Hoje os alunos são usuários e [...] a gente não é mais uma escola. (Arlen, 2011). Nós somos uma entidade de Assistência Social e se você coloca aluno, você está se caracterizando como escola. Então, é um problema. [...] mas é um negócio danado, porque no fim das contas está tudo meio que imbricado. Nós somos da Assistência Social, mas a gente faz Assistência Social através do ensino, portanto, a gente é escola. [rs...] entendeu? Então, é uma coisa que se confunde. (Fábio, 2011). A mudança de discurso se deu nos últimos dois anos e apresentou alterações apenas burocráticas, conforme aponta uma professora que, quando questionada sobre o impacto da nova lei nas práticas da instituição, responde da seguinte forma: Eu entendo que sim. Impacto teve. Teve em questões, então, não práticas, mas legais. Porque, por exemplo, a contribuição que antes era, não vou dizer que era nem cobrada, mas que era entregue pelos alunos que pagavam, assim, não pode. Porque pode caracterizar como serviço, escola, assim, serviço. Ai não faz mais nada. Então nesse sentido deixou de gerar um recurso pra escola, então, “escola” tá vendo?! (Lívia, 2011). A suspensão das doações financeiras, ofertadas pela comunidade, foi decorrente da Nova Lei da Filantropia, que determina que qualquer serviço assistencial deve ser prestado gratuitamente. Assim, as doações que figuravam como parte das tradições da “escola” são cessadas, agravando ainda mais a situação financeira da instituição. As doações da comunidade, especialmente as contribuições financeiras de quem estivesse fazendo os cursos sempre foi uma situação levada a sério pela comunidade. Como condição para manutenção e permanência da “escola”, há relatos de pessoas que, mesmo após terem finalizado há anos o curso, retornam para dar a contribuição que não puderam dar anteriormente. A suspensão da contribuição gera desconforto para a instituição, que tem a sua receita reduzida, tanto pela limitação do repasse de sua entidade mantenedora, quanto pela cessação das doações da comunidade. É um 46 desconforto também para a comunidade que deixa de contribuir, talvez por sentir-se menos participante ou mesmo porque reconhece as necessidades da instituição. Do meu ponto de vista eu achava que era mais tipo uma contribuição pra Escola Tia Dê. Eu acho que igual, teve mudanças, né. Não paga mais, agora é gratuito, eu acho que isso prejudicou bastante a Tia Dê. Eu acho que prejudicou. Porque tem muita despesa e ai isso ajudava pra caramba com os gastos que tinha. Então, assim, acho que prejudicou muito. (Andrea, 2011). Uma estratégia adotada pela instituição para garantir a sua sobrevivência e que permanece ao longo dos anos é a manutenção de uma oficina de ajustagem e tornearia mecânica. A renda obtida com a comercialização dos produtos do setor, além de garantir o funcionamento da própria oficina, com a compra de materiais diversos e pagamento de pessoal, mantém a instituição funcionando como um todo (oficina e “escola”), especialmente nos momentos de crise. Além disso, oferece mais liberdade de atuação, permitindo a aquisição de itens que não são cobertos pelos convênios firmados. Igual, outro dia mesmo, precisou de comprar uma máquina aqui que não passaria em hipótese nenhuma [pelos critérios legais de destinação dos recursos]. [...]. Então tivemos que comprar com o dinheiro da instituição. (Fábio, 2011). Todavia, sendo a oficina de produção submetida à mesma razão social que a “escola”, tem a sua lucratividade limitada por, pelo menos, três fatores: pela natureza da instituição, sendo sem fins lucrativos, garante apenas a produção para suprir as necessidades de funcionamento, não podendo gerar grandes lucros. Um segunda questão que é a limitação da estrutura da oficina, (espaço físico, maquinário, número de operários), que a torna pouco competitiva diante das concorrentes, e, por fim, a própria condição do mercado capitalista, competitivo e predatório, que limita a atuação de pequenos negócios em favorecimento às grandes empresas, que abarcam a maior parte do mercado. Para além das questões relacionadas à oficina de produção é importante salientar que a submissão aos processos burocráticos externos apresenta à instituição outros constrangimentos. Entre eles, destacamos dois elementos: a) a falta de autonomia em relação aos cursos financiados pela prefeitura; e b) a mudança na origem de parte do público atendido pela instituição, atualmente. Assim, a crescente regulamentação e o ordenamento jurídico-legal da área vão gradualmente cerceando os limites das ONGs, o 47 que obriga a revisão de seus limites de autonomia e liberdade, gozadas até muito pouco tempo atrás. A instituição sofre crescentes pressões sobre seus critérios de estruturação de cursos (duração, número de alunos, currículos, investimento médio, origem do público, etc), advindas das condições impostas pela legislação da área assistencial. Antes a prefeitura trabalhava com a gente com as turmas de mecânica, essas que têm duração de dois anos e outras turmas mais de atendimento e comércio, de repente vem o chamado Programa Municipal de Qualificação, que muda todas as diretrizes. Aí não interessa mais pra eles os cursos de mecânica, eles pegam somente cursos muito rápidos, eles definem as diretrizes. Até então era muito livre, definiam qual que era a metodologia de trabalho, o conteúdo que ia ser trabalhado, a duração do curso, tudo era muito da instituição, aí a gente só tinha a obrigação de passar pra eles o início do curso e o final do curso. Aí a partir do programa municipal de qualificação eles já querem controlar mais, ou muito mais coisas. Aí eles colocam padrões bem rígidos. O que que é o curso, qual que é a duração, qual que é o conteúdo, o que que precisa de ter, o maquinário, as salas, os equipamentos, tudo eles definem e a gente decide se quer ou não participar do programa. (Sâmia, 2011). O Programa Municipal de Qualificação (PMQ), citado pela Coordenadora, tem diretrizes do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e é realizado, no município de Belo Horizonte, pela Secretaria Municipal de Políticas Sociais (SMPS). O Programa foi criado em 2007 com vistas a desenvolver ações de qualificação e intermediação de mão de obra, tendo como objetivo principal a unificação das ações de qualificação profissional desenvolvidas pelos diversos órgãos do município, além de buscar a inserção no mundo do trabalho de um público com trajetória de exclusão social. O Programa foi colocado em prática através das ONGs conveniadas com a Prefeitura de Belo Horizonte, que passaram por um exame de critérios, tais como estrutura física, quadro profissional, capacidade de atendimento, adequação à legislação vigente. De trinta e seis entidades conveniadas com a SMAAS no ano de 2006, foram conveniadas, no ano de 2008, em decorrência do PMQ, apenas sete entidades, dentre elas a Associação Técnica.11 Tanto as mudanças exigidas pelo PMQ, em 2007, quanto aquelas decorrentes do enquadramento da escola na Nova Lei da Filantropia, 2009, causaram impacto nas práticas pedagógicas da “Escola” Tia Dê. Assim, identificamos várias queixas dos educadores e Coordenadores em relação à perda de autonomia no planejamento e execução dos cursos. Se antes havia uma liberdade de organização dos cursos em 11 Fonte: Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social, Gerência de Proteção Social Básica, 2011. 48 relação à carga horária, conteúdos, metodologia, escolha de equipamentos e profissionais, hoje, há um maior controle por parte do órgão financiador. A supervisão da instituição é realizada por técnicos da prefeitura, que visitam periodicamente a instituição. Durante a pesquisa, o técnico esteve presente em mais de uma ocasião, inclusive, participando de integração de novas turmas e formaturas manifestando-se como representante do poder público diante dos alunos, deixando clara a origem dos recursos endereçados aos cursos. Já em relação ao público atendido temos a dizer que, se nos seus primórdios a escola era frequentada pelos moradores da comunidade e também dos bairros vizinhos, hoje, como entidade que oferta um serviço público municipal, ela é obrigada pela prefeitura a receber pessoas de toda a cidade, encaminhadas pelos serviços e programas da rede de proteção social do SUAS. Essa situação provoca, em parte da comunidade, o sentimento de vaidade pelo reconhecimento da instituição em âmbito municipal. Como os membros eleitos da diretoria, pessoas que fizeram parte da construção da escola, que sentem-se envaidecidas e gratas pelo fato de a “escola” ser reconhecida em âmbito municipal e por manter parceria com a prefeitura. Isso ai é muito bom, porque entrou é... como é que fala, gente? Não é convênio não, é... parceria. E essa parceria tá ajudando a escola com a prefeitura, entendeu? Porque o pessoal faz a inscrição aqui e vai na prefeitura ver. Eles levam os panfletos, né, e vê “ah, tem vaga”. Ai eles fazem inscrição aqui, mas tem que passar pela prefeitura. Tem que passar pela prefeitura, é porque lá que a prefeitura vão dar os vale transporte. Aqui a gente, tem gente que mora pra lá de Venda Nova. Tem que tomar 2, 3 ônibus pra vir aqui. Ai a prefeitura ela tá arcando com o vale transporte. [...] Porque de primeiro a escola era divulgada só aqui no bairro [...] na região, né. Agora não, já tá na parte da prefeitura de Belo Horizonte, ela tá pegando tudo. (“Seu” Arlindo, 2011). Outro membro da diretoria afirma que, atender as pessoas de todo o município de Belo Horizonte, significa dar oportunidade a um maior número de interessados em cursos profissionalizantes, pessoas que não têm condições de fazê-los. Eu acho ótimo! Porque dá oportunidade pra muitas pessoas que têm vontade de fazer o curso e não têm condições, né. Ai a prefeitura, dando essa parceria, ajudando, dá condições das pessoas fazerem. (D. Ilda, 2011). Entretanto, essa situação causa também constrangimentos aos profissionais que nela trabalham. Há queixas sobre o não comprometimento e pouca participação das pessoas que acessam a instituição via encaminhamento dos serviços sociais, se 49 comparados com os alunos da comunidade. Após longo relato sobre as dificuldades enfrentadas com uma turma da prefeitura, do curso noturno de Montagem e Manutenção de Computadores, a professora da disciplina de Formação Humana declara: Eu nem sei quantos [alunos] que tem [na turma], é uma turma tão complicada! É o perfil da turma. Eu dei aula pra oito pessoas, na última aula. (Amanda, 2011). O índice de evasão é maior nas turmas montadas exclusivamente com o “público da prefeitura”. Inquirido sobre o motivo pelo qual isso acontece, um dos coordenadores esclareceu que, em muitos casos, as pessoas encaminhadas pelos programas socioassistenciais não têm muita clareza do que estão fazendo ali, não procuram o curso por interesse, mas pela condição de participação ou permanência em outro serviço, programa ou benefício da Assistência Social. Além disso, segundo o coordenador, as condições do curso, impostas pela prefeitura, em algumas situações, podem ser inadequadas às características do público atendido. Sobre isso o coordenador ilustrou com o seguinte comentário: Tem curso, igual esse curso de Montagem e Manutenção, que ele realmente, ele até não precisava ser tão grande, mas quem determinou essa carga horária foi a prefeitura. A gente acha até que ele não precisava de ser tão grande. É... ele, é bom que ele tenha a carga horária tão grande assim, porque dá pra trabalhar os conteúdos com muito mais calma. Mas, às vezes o aluno não aguenta esperar. [...] um semestre inteiro. Praticamente. Mas, às vezes o aluno não dá conta. Não dá conta. [...] Evade. [...] Acontece muito também, que o pessoal opta por trabalhar ao invés de estudar. A sobrevivência vem em primeiro lugar, é lógico. (Fábio, 2011). O público proveniente dos encaminhamentos realizados pela prefeitura participa dos serviços, programas e benefícios da rede socioassistencial do SUAS e se encontra em situação de risco social e/ou pessoal. Estão em situação de pobreza ou extrema pobreza, com carências material e financeira, alguns em cumprimento de medidas protetivas ou socioeducativas, expropriados dos direitos sociais básicos, para quem foi elaborada a Política Nacional de Assistência Social. Na legislação ele é chamado de “usuário” e é descrito da seguinte forma: Constitui o público usuário da Política de Assistência Social, cidadãos e grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade e riscos, tais como: famílias e indivíduos com perda ou fragilidade de vínculos de afetividade, pertencimento e sociabilidade; ciclos de vida; identidades estigmatizadas em termos étnico, cultural e sexual; desvantagem pessoal resultante de 50 deficiências; exclusão pela pobreza e, ou, no acesso às demais políticas públicas; uso de substâncias psicoativas; diferentes formas de violência advinda do núcleo familiar, grupos e indivíduos; inserção precária ou não inserção no mercado de trabalho formal e informal; estratégias e alternativas diferenciadas de sobrevivência que podem representar risco pessoal e social. (BRASIL, 2004). Sobre esse público e suas características obtivemos, por meio das entrevistas, o comentário abaixo, feito por uma professora. É um povo muito pelejado. [...] financeiramente, mesmo. [...] Mas você pega gente que a situação é precária. Boa parte é precária. Então, até o desenvolvimento dele é diferente. A parte intelectual, né? [...] É diferente. Se você pegar assim, vamos fazer um trabalho só local, o povo aqui [do bairro Acácia] é diferente. Então, quando sai catando esses cantões todos ai [...] ah, eu não sei. A gente pode falar favela? Esses cantões, assim... tem gente que pega 2, 3 ônibus pra chegar aqui. Fica o dia inteiro numa viagem pra chegar aqui. Ai você observa a dificuldade, né. Até pela trajetória, mesmo. [...] [uma aluna] eu acho que ela não ganha nem um salário. Eu acho que ela dá faxina, dois filhos, o marido eu acho que nem existe, não ajuda. [...] Olha bem a situação de uma aluna da tarde: “Amanda, eu não fiz a sua prova porque o meu pai é morador de rua, e ai ele ficou doente e a gente teve que buscar ele.” E ai? (Amanda, 2011). A professora comenta a diferença entre o público da prefeitura e o público da comunidade do bairro Acácia demonstrando que as dificuldades enfrentadas pelo primeiro são maiores do que aquelas enfrentadas pelo outro. As particularidades dos encaminhados pela prefeitura os deixam em situação de desvantagem em relação ao processo de ensino, interferindo em sua participação nas atividades da instituição e consequentemente em seu aprendizado. Essa situação apresenta para a “escola” um novo aluno, um aluno que não tem vínculos afetivos com a “escola”, e, que, por isso, não participa ou não se envolve tanto com as suas questões quanto os alunos oriundos da comunidade. Ainda sobre os constrangimentos sofridos quanto ao público encaminhado pela prefeitura, a coordenadora pedagógica, Sâmia, esclarece que essas pessoas, para acessarem os cursos da “escola”, devem realizar uma pré-inscrição no SINE12, de onde são encaminhadas para o curso desejado ou para um curso necessário ao preenchimento da vaga de emprego procurada pelo trabalhador. Para o SINE, os trabalhadores são encaminhados pelos NAFs13, que elegem, de acordo com os critérios da Assistência 12 Sistema Nacional de Empregos que cadastra trabalhadores interessados em vagas de emprego e cursos gratuitos de qualificação oferecidos pela prefeitura. 13 Núcleo de Apoio à Família (NAF) criado como projeto piloto, em Belo Horizonte, no ano de 2004, para a criação dos atuais Centros de Referência da Assistência Social (CRAS). Identificados como unidades públicas de base local, integram o SUAS. Os CRAS/NAF foram implantados nos bairros do município 51 Social, os potenciais usuários da “escola”, em geral, pessoas de outras localidades que não conhecem a finalidade da instituição, tampouco a sua história e, por isso, destoam de suas ações. Porque eles já chegam aqui com o critério de passar pelo SINE. Quando eles chegam no SINE, eles já chegam desempregados, já chegam de outras políticas sociais, encaminhados pelo NAF, então, esse aluno que chega aqui ele é mais carente do que o do entorno aqui, que conhece [a escola]. Porque muita gente aqui conhece a Associação Técnica. Conhece o trabalho daqui quando ele chega aqui. Agora o público da região que vem aqui já conhece, já sabe do curso, já sabe que na mecânica ele já sai daqui praticamente trabalhando, porque tem muita vaga, a gente faz o encaminhamento. Mas o público do SINE geralmente não. (Sâmia, 2011). A participação constante e a permanência dos alunos na instituição por mais de um turno é considerada uma prática frequente por parte dos alunos da comunidade. Temos relatos de alunos que permanecem na escola fora do turno de aula para auxílio em pequenas tarefas, realização de pequenos reparos, estudos extras com o professor ou com outros alunos. O mesmo tipo de participação não é verificado em alunos da prefeitura, que são citados pela não dedicação às atividades de valorização e manutenção da “escola”. Tal fato pode estar relacionado também a questões práticas e objetivas. Se o sujeito toma dois ou três ônibus para se deslocar até a “escola” e voltar para casa, o tempo gasto com o deslocamento pode sobrecarregá-lo de maneira que, mesmo que desejasse, não teria condições objetivas, como alimentação, por exemplo, de permanecer na instituição por mais tempo. No entanto, percebemos que não ter participado direta ou indiretamente da constituição da “escola” pode, também, ser um fator de falta de identificação dos alunos com a instituição. Outro professor, ainda falando sobre os problemas encontrados na “escola”, hoje respondeu que o maior deles atualmente é a falta de identificação do aluno com a escola. Porque antigamente... vou falar de quando eu estudei. A gente tinha uma identificação maior com a escola. A gente vinha, a gente estudava aqui na escola, a gente, principalmente eu, tinha dificuldade pra estudar, mas eu ficava aqui até 3 ou 4 horas da tarde, hoje você não vê mais o aluno tendo essa identificação com a escola. Se precisar de mexer na escola, dar uma manutenção na escola a gente tava disposto. Então, hoje você não vê. O aluno, como eles são usuários, eu acho que eles estão tratando a escola como uma escola estadual ou municipal [...] é tornando o serviço mais acessível à população. Para implantação desse serviço foi realizado um mapeamento das regiões com maior vulnerabilidade social. Atualmente, Belo Horizonte conta com 44 unidades de CRAS, fazendo a cobertura dos territórios considerados de risco elevado e muito elevado. (Fonte: Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social, Gerência de Proteção Social Básica, 2011). 52 isso. É a grande diferença que eu sinto de quando era tratado como escola e agora. (Arlen, 2011). As pessoas que conhecem a história e, especialmente, aquelas que presenciaram a construção da escola, ou parte dela, têm um sentimento de comprometimento com a continuidade do projeto como um espaço comunitário, que depende da contribuição de todos. Portanto, quando há necessidade de pequenos reparos ou serviços, a própria comunidade cuida de resolvê-los, fazendo, até hoje, mas muito menos do que antigamente, pequenos reparos necessários à manutenção da “escola”. Os professores responsabilizam-se também por isso, já os alunos, em menor número. Manutenção elétrica na escola. Dou manutenção, de uma forma geral, as manutenções elas ocorrem quando possível, né. O Célio, nesse ponto, ele tem se mantido assim, um bom lado de entendimento. [Se] Ele percebe que não dá, ele chama alguém de fora. Se dá, eu vou lá, pego e faço. (Lívia, 2011). Até pela questão eu acho que da própria filosofia da instituição, a questão social. A gente vê que, se a gente que está envolvido, dentro, se a gente realmente não ficar realmente interagido com a vida da instituição talvez ela perde até um pouco o sentido. Porque se a gente precisar na época de férias contratar um técnico pra vir fazer um reparo sendo que nós temos um profissional competente aqui [...] Paramos um período, a gente verifica todas as máquinas, vê o que precisa de trocar, qual peça que tá ruim. Então tem esse período pra gente identificar isso, além do período que a gente tem pra poder trabalhar a questão do material, então a gente tem que produzir, fazer uma renovação de material. Então, a gente exerce a função, mas a gente acaba de uma certa forma fazendo outras coisas, mas pra benefício da própria instituição. (Sebastião, 2011). Assim, quando perguntado sobre o efeito da recente legislação sobre o funcionamento da instituição, o coordenador-geral nos informa: Então soltaram mais algumas resoluções e dentro da nova LOAS já está mais clara. [referindo-se as alterações de 2011]. Então trabalha com programas e projetos. A questão do mercado de trabalho. Então isso ficou mais claro pra eles também, eu acho. A gente não é escola, mas a gente é. A gente não é, e é. Então, na prática, primeiramente a gente tem que ter um pouco de cuidado quando manda a papelada [...] pro MDS. A gente tem que ter cuidado pra não transformar isso aqui numa escola. (Célio, 2011, grifo nosso). A sua observação pode ser completada com a observação da coordenadora Pedagógica, que comenta os embaraços decorrentes da mudança. Eu não consigo, a gente nem consegue nem tirar do papel que é escola, tem lugar [se referindo aos documentos] que a gente encontra “professor”, “aluno”. [...] não vejo como a gente não conseguir fazer isso. [...] também 53 nos [documentos] externos, revisando, a gente consegue achar alguma coisa. Eu acho que não tem como, não tem como. É escola, é formação profissional. Não adianta. Está dentro da educação, sim. (Sâmia, 2011). Assim, vê-se claramente como a categorização da instituição como Assistência Social e não como Educação impacta fortemente na organização do trabalho. Além disso, percebemos que a busca constante pela manutenção da instituição e por condições de sobrevivência obriga-os a dedicar mais tempo à adequação às regulações do que à manutenção de seus valores e princípios políticos. Tal fato confirma uma tendência das ONGs, que, segundo Gohn (2009), têm como uma de suas principais características, na atualidade, a transformação de seus princípios em decorrência das questões financeiras. Ao ofertar cursos de formação básica, cujo objetivo principal é a (re)inserção do trabalhador no mercado de trabalho, a instituição se enquadra no papel de prevenir situações de risco e vulnerabilidade social. Entretanto, o funcionamento, a organização do espaço, os tempos e os sujeitos continuam a se confundir com o funcionamento, tempos, espaços e sujeitos de uma instituição escolar. Tal situação é compreensível, uma vez que a instituição foi criada, funcionou e ainda funciona inspirada no modelo escolar: currículos a serem trabalhados, cargas horárias, disciplinas, alunos, professores, turmas, seriação, certificação, etc. Neste capítulo, verificamos os impactos financeiro e legal no funcionamento da instituição. Como essas questões afetaram a organização do trabalho escolar é o que veremos no capítulo seguinte. 54 3 A ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO ESCOLAR No capítulo anterior vimos que as ONGs passaram por uma série de mudanças impostas por novo marco regulatório nos últimos anos, que alterou a configuração da política de parceria entre o Estado e a sociedade civil. Conforme nos apresenta Gohn (2000), tal fato se deve ao reordenamento legal das relações entre essas duas esferas, que deu lugar a uma nova esfera reconhecida como pública não estatal, que funciona como uma espécie de ponte para a articulação entre o Estado e a sociedade civil. Assim, os espaços ocupados pelas ONGs ganharam legitimidade ao fazerem a mediação entre os coletivos de indivíduos organizados e as instituições governamentais. Na prática, essa mediação significa a ampliação da oferta de serviços públicos, realizados por intermédio das ONGs, mas, principalmente, a ampliação do acesso da sociedade civil a esses mesmos serviços. Deluiz, Gonzalez e Pinheiro (2003) afirmam que, em relação à educação profissional, houve um aumento da oferta pelas ONGs a partir de referências e orientações do MTE, desde 1996, com o PLANFOR14. E, mais recentemente, a partir do princípio da inclusão produtiva da PNAS, pelo MDS, desde 2004 (BRASIL, 2004). Essas experiências estão mais vinculadas aos programas de emergência destinados à população mais carente, considerada em situação de risco social, e são “levadas a cabo de uma forma assistencialista, clientelista, sem referência aos direitos sociais de cidadania” (DELUIZ; GONZALEZ; PINHEIRO, 2003, p. 29), quando dissociadas de controles e garantias públicas e associadas a práticas privatizadoras. Tais direcionamentos são frutos de opções de políticas governamentais que direcionam parte do investimento social de acordo com os interesses políticos. As estratégias para atendimento aos cidadãos desempregados ou subempregados, quando implementadas em caráter emergencial, introduzem “uma precariedade e uma descontinuidade na política social do país, tendendo a assistencializá-la.” (2003, p. 29). Segundo Hypólito (2009), a organização burocrática é fruto de um sistema de controle social baseado na racionalidade, que é a adequação dos meios para se alcançar os fins desejados, tendo em vista a eficiência na obtenção dos resultados. Baseado na tese weberiana, Hypólito afirma que 14 Para saber mais sobre o PLANFOR consulte pág. 5, Capítulo 1, dessa dissertação. 55 Uma organização burocrática, conforme Weber (1971), assenta-se na existência de normas e regulamentos gerais, impessoais e abrangentes, no caráter formal das comunicações, nas rotinas e procedimentos padronizados, na divisão metódica do trabalho, na organização hierárquica dos cargos e na definição precisa dos papéis dos sujeitos. (HYPÓLITO, 2009, p. 109). Assim, Hypólito (2009) assevera que as formas de dominação burocrática predominam em todas as partes, sem se restringir apenas ao Estado ou às empresas, mas expande-se para outras esferas da vida social como a escola, a igreja, o exército, etc. A organização burocrática afeta a organização do trabalho na “Escola” Tia Dê na medida em que lhe apresenta novos desafios de adequação às regulamentações de diferentes órgãos públicos, para a oferta de serviços de EP pelas ONGs. Assim, o clima institucional das ONGs é diretamente afetado pelas imposições externas. A ONG aqui retratada é reconhecida como escola pelos seus criadores, usuários e comunidade onde está inserida, e como tal é uma instituição idiossincrática, com capacidade para reinterpretar e reinventar os elementos que compõem a cultura macro. Como escola, é um importante veículo de socialização e de transmissão de cultura (CHARLOT, 1992). Sendo assim, optamos por analisar a organização do trabalho escolar a partir da descrição do clima institucional que se instala na “Escola” Tia Dê. A definição de clima institucional cunhada por Brunet (1992) foi tomada como referência para analisar a estrutura da escola, sua dimensão, arquitetura, espaços, níveis hierárquicos e tarefas; o seu processo de organização, gestão, recursos humanos, comunicação, resolução de conflitos; bem como as variáveis comportamentais de lideranças, formais e informais, as relações entre os sujeitos e a maneira como se posicionam diante da instituição. 3.1 O Clima institucional na Escola Tia Dê Antes de discorrermos sobre a organização do trabalho da “Escola” Tia Dê e as definições de clima institucional, optamos por fazer uma distinção entre os termos organização e instituição, que passarão a ser usados com frequência daqui para frente. De acordo com Marilena Chauí (2003), uma instituição difere de uma organização na medida em que esta última se define por uma outra prática social. A organização tem o caráter de instrumentalidade, pois o conjunto de meios (administrativos) particulares adotados visam a obtenção de um objetivo específico e particular. Na organização, a 56 competição entre outras organizações que fixaram os mesmos objetivos particulares é uma realidade e um princípio. A sua própria referência é o que importa, não havendo referências valorativas externas. O objetivo da organização é vencer a competição com os seus supostos iguais. Enquanto que a instituição se refere às ações articuladas de ideias de reconhecimento e legitimidade internos e externos, aspirando a universalidade (imaginária ou desejável), que lhe favoreça responder as contradições sociais. A instituição reconhece a sociedade como um princípio de sua ação e se percebe inserida na divisão social e política. Para uma instituição social é importante conhecer, discutir e questionar a sua própria existência, a sua função na sociedade e seu lugar no interior da luta de classes. Por isso, escolhemos adotar o termo instituição ao nos referirmos à “Escola” Tia Dê, por considerarmos que este seja mais coerente com os seus princípios. De acordo com Brunet (1992), a cultura institucional é composta pelas interrelações que acontecem no contexto da instituição, pelos papéis e projetos pessoais, pelas necessidades, valores e entendimentos de cada sujeito, do grupo e da própria instituição. É um conjunto de interações coletivas no qual esses papéis, valores e o próprio grupo se reinventam e se reformulam a partir da compreensão de si e do coletivo. É determinada pelo clima dentro da instituição, que é considerado em função da natureza objetiva daquilo que compõe a instituição e também da natureza subjetiva, passando pela percepção dos sujeitos. Devem ser considerados: a dimensão, a tecnologia utilizada, os níveis hierárquicos, a produtividade dos empregados, as taxas de absenteísmo, etc. O autor afirma que analisar o clima da instituição desta perspectiva consiste em medir a relação entre as características físicas da organização (dimensão, tecnologia, etc.) e dos factos objectivos observados nos empregados (taxas de rotatividade, de absenteísmo, etc.). (BRUNET, 1992, p. 125). Brunet assevera que o clima institucional é fortemente influenciado pelos sujeitos no interior da instituição. São os indivíduos que fazem dela aquilo que ela é. Por isso, “é importante compreender a percepção que estes têm da sua atmosfera de trabalho, a fim de se conhecerem os aspectos que influenciam o seu rendimento.” (BRUNET, 1992. p. 125). Cavalcante Silva (2009), afirma que o clima institucional é um elemento com dupla asserção. Assim como Brunet (1992), identifica condições objetivas e condições subjetivas, que interferem nos relacionamentos no interior da instituição. A realidade 57 objetiva do clima institucional se refere ao “campo de forças”, que afeta globalmente todos os elementos da instituição escolar. Segundo Cavalcante Silva (2009), esse “campo de forças” é confirmado pela existência de maiores diferenças interinstitucionais do que intrainstitucionais, na medida das percepções dos membros de instituições e organizações diversas. O mesmo “campo de forças” é dependente da estrutura subjetiva, na medida em que é percebido pelos indivíduos, através das interações no decurso das práticas institucionais e organizacionais. Renato Carvalho (2006) diferencia o clima institucional da cultura institucional. Enquanto o clima tem a ver com a atmosfera da instituição e é caracterizado pelo sentimento geral que interfere nas relações entre os sujeitos e na maneira como percebem o trabalho, a cultura institucional fornece uma referência comum, expressa sob a forma de normas, valores e mitos na escola. A cultura é um fator importante no funcionamento institucional. Ela é a maneira criada pelos sujeitos para lidar com a resolução de problemas, com a adaptação às novas situações, a integração interna e pressões externas. “Pode ser definida como um padrão de pressupostos básicos, inventados, descobertos ou desenvolvidos por um grupo” (CARVALHO, R., 2006, p. 1) para lidar com as questões citadas acima. Esses elementos compõem o nível meso das instituições escolares, que tem recebido atenção dos pesquisadores que buscam conhecer e considerar as especificidades locais, face à cultura global e homogeneizante. Nóvoa (1992) afirma que as investigações sobre a escola, feitas anteriormente, privilegiaram os níveis macro e micro, por isso, hoje, busca-se uma meso abordagem para preencher as lacunas de estudos anteriores. De acordo com Brunet (1992), a medida de perceptiva dos atributos institucionais tem sido a mais privilegiada pelos estudos sobre o clima institucional e a mesma apresenta uma série de características consideradas relativamente permanentes: a) cada escola possui um clima próprio e específico, carregado com as suas particularidades; b) o clima é forjado pelas variáveis físicas e humanas, sendo assim, resulta dos comportamentos e das políticas dos membros da instituição, em especial da direção; c) é percebido pelos membros da instituição; d) serve de referência para interpretar as situações, os indivíduos respondem ao meio ambiente de acordo com as percepções que possuem sobre o clima; e) funciona como um “campo de forças” com o objetivo de direcionar as atividades, na medida em que determina os comportamentos institucionais. 58 O clima institucional favorece determinadas situações e comportamentos em detrimento de outros, nele podem ser identificadas três grandes variáveis, que são determinantes: a estrutura, o processo organizacional e as variantes comportamentais. Brunet (1992) as descreve da seguinte forma: A estrutura refere-se às características físicas de uma organização, tais como a dimensão, os níveis hierárquicos ou a descrição das tarefas. O processo organizacional refere-se à forma como são geridos os recursos humanos, tais como o estilo de gestão, os modos de comunicação ou os modelos de resolução de conflitos. A variável comportamental inclui os funcionamentos individuais e de grupo que desempenham um papel activo na produção do clima. (BRUNET, 1992, p. 127). A partir das variáveis apresentadas por Brunet (1992) faremos a descrição da organização do trabalho na “Escola” Tia Dê, a começar por sua estrutura. 3.2 A Estrutura da Escola Tia Dê A Escola Tia Dê possui dimensões reduzidas. Pe Miguel as classifica, atualmente, como acanhadas. Ele explica que, na ocasião em que receberam o financiamento da Secretaria do Trabalho do Estado de Minas Gerais para a construção do prédio da escola, tinham condições de adquirir apenas dois lotes. Hoje, o próprio padre admite que o espaço é pequeno e que, talvez, se fosse nos dias atuais teriam lutado para conseguir um espaço maior. Na época, no entanto, foi o que puderam obter. As dimensões da “escola” causam certo constrangimento nos alunos e professores, o que ficou evidenciado nas entrevistas realizadas durante a pesquisa. De acordo com o relato de um aluno, a maior diferença entre a “Escola” Tia Dê e as demais escolas é o tamanho. É que aqui ela é um pouco pequena, né, mas não deixa de ser uma excelente escola. (...) Nunca precisei reclamar. Porque assim, porque igual eu falo, eu tô muito satisfeito aqui. A única reclamação assim, se a gente fosse falar mesmo, era só poder ampliar mais a escola, né. (Breno, 2011). A área construída ocupa quase a totalidade da área total da escola. A fachada é simples em cores azul e branca. Para o acesso à oficina de produção, há uma rampa de garagem por onde entra o carro de transporte de materiais. Ao lado, para a entrada de pessoas no espaço da “escola” propriamente dito, há um portão de grades. Em seguida, 59 passa-se pelo estacionamento de motos e bicicletas, depois passa-se por um segundo portão, sob a passarela do refeitório, no qual há uma campainha. Os portões permanecem abertos durante todo o dia, sem nenhum controle sobre a entrada ou saída de alunos ou da comunidade. De acordo com a “filosofia da escola”, a comunidade, por ser “dona” do espaço, deve ter acesso irrestrito à “escola”. Os alunos devem se sentir livres tanto para entrar, quanto para sair a qualquer hora, exercitando, assim, a sua autonomia. Recentemente, por solicitação dos trabalhadores do turno da noite, o portão passou a ser fechado somente nesse turno, para evitar a entrada de pessoas malintencionadas ou inconvenientes. Há sempre uma pessoa responsável por atender a campainha nesse turno, mas não há porteiros, vigias ou seguranças. Não há relatos de vandalismo, depredação, furtos ou roubos na “escola” desde a sua fundação. O coordenador-geral reconhece esse fato como uma manifestação de respeito da população local em relação à instituição, como podemos observar no relato a seguir. O pessoal tem muito respeito ainda, acho que o pessoal do bairro, os alunos, os usuários, eles tem muito respeito com a gente aqui. Você vê que a gente não tem problema de assalto, até de o pessoal, assim, destruir as coisas. Você pode ver que as carteiras são boas, o pessoal não destroe as coisas, não picham as paredes. A gente não tem isso. Você vê os banheiros? O pessoal não sujam eles, não quebram, não é pichado. Então, eu acho que isso é uma forma de respeito muito grande que o pessoal tem com a gente. Até o portão, fica aberto o dia todo. Nós não fechamos. (Célio, 2011). A escola tem características do que popularmente é conhecido como “puxadinho”. De acordo com a necessidade, foram ampliando a edificação, utilizando todos os espaços disponíveis. O terreno ocupado pode ser imaginado como um quadrado, dividido em quatro partes. Do lado esquerdo, na parte da frente, está o prédio principal. No fundo deste, o anexo, construído posteriormente. Do lado direito, na parte da frente, há um estacionamento para motos e bicicletas e, ao fundo, um terceiro prédio, construído por último. Todos os pavimentos possuem dois andares. Na parte térrea do prédio principal há o galpão, que abriga as oficinas de produção, com as máquinas e o almoxarifado de insumos e produtos, e a área pedagógica, destinada aos alunos do curso de tornearia mecânica. No andar superior, sobre as oficinas, estão cinco salas de aula, a secretaria, e duas salas para a coordenação, divididas entre a coordenação-geral e a coordenação pedagógica. Para acessar o andar superior, há uma escada estreita que culmina em um pequeno hall, onde estão localizados dois banheiros, masculino e feminino, frequentados por alunos e 60 funcionários, um bebedouro, poltronas e uma mesa de centro com jornais do dia, além de murais com informações sobre eventos externos e internos, vagas de empregos, datas de inscrições para cursos, orientações sobre segurança no trabalho, entre outras. Acima das poltronas há duas prateleiras com troféus conquistados por alunos e professores em eventos esportivos e, na mesma parede, um relógio. Dentre as salas de aula, há três com funções específicas: um laboratório de informática, com vinte computadores novos; uma sala para desenho industrial, com cinco mesas de madeira com capacidade para até seis pessoas, construídas no curso de marcenaria, já extinto; um laboratório do curso de elétrica predial, também com cinco mesas grandes e quadradas com capacidade para cinco pessoas cada uma. Ao fundo há painéis com ferramentas, circuitos elétricos e armários de aço. As outras duas salas são equipadas com carteiras de braço e destinadas às aulas teóricas. Na maior delas são realizados os cursos da área comercial e de serviços (operador de telemarketing, recepcionista, assistente administrativo, departamento de pessoal e consultor de vendas). Para isso, há no fundo da sala uma baia – cabine de atendimento, equipada com headset e PA15, onde são realizadas simulações de atendimento telefônico. A outra, menor, é utilizada como uma espécie de sala coringa. Possui, além das carteiras, uma televisão de tela plana. Nela são realizadas as aulas teóricas dos cursos da área industrial, avaliações de alunos, reuniões e atendimentos diversos. Em todas elas há um quadro branco, mesa e cadeira para o professor. Em algumas há armários para a guarda de materiais. Todas as salas de aula têm acesso a um corredor estreito que sai do hall central, passando por cinco degraus. Também a partir do hall há a secretaria, de frente para a escada principal. Na secretaria trabalham dois auxiliares administrativos, que fazem o atendimento ao público, por telefone e pessoalmente. Nessa mesma sala estão os arquivos com informações de alunos, funcionários e cursos, computador com impressora, máquina de xerox e data show, que é transportado para as salas de aula ou auditório, de acordo com a demanda. As salas da coordenação também partem do hall e ficam do lado oposto das salas de aula. A sala da coordenação-geral é pequena. Nela são realizados atendimentos, desde que individuais ou em dupla, mais do que isso é necessário usar outro espaço. Há arquivos, uma mesa retangular de trabalho, três cadeiras, computador e impressora. A sala da coordenação pedagógica tem duas mesas de trabalho, com quatro cadeiras, um 15 Headset e PA são equipamentos específicos utilizados por telefonistas e operadores de telemarketing. O headset é um fone de ouvido com microfone ligado a um ponto de atendimento telefônico monitorado (PA). 61 computador em cada mesa e um armário baixo de quatro portas, ao fundo. Após a construção dessa estrutura principal, houve a necessidade de expandir o prédio. Assim, foi construído, nos fundos dessa edificação, um anexo, que, inicialmente, foi utilizado exclusivamente para as atividades de informática. No piso inferior há um auditório com capacidade para aproximadamente oitenta pessoas. No início da pesquisa de campo esse espaço era utilizado também como sala de aula para o curso de montagem e manutenção de computadores, com cadeiras e bancadas móveis, que pudessem ser removidas ou reorganizadas de acordo com a necessidade. Nessa mesma sala há uma mesa de pingpong16 usada pelos alunos no horário do intervalo das aulas. Para acesso ao piso superior há uma escada lateral que culmina em um segundo laboratório de informática, também com 20 computadores, mesa e cadeira para o professor e dois murais. Atrás dessa sala há um espaço onde, atualmente, está o servidor de informática e a sala dos professores. É um espaço pequeno, mas frequentemente utilizado como coringa nas reorganizações das dependências da escola. No início da pesquisa era uma sala de atendimento de pais e alunos. Entre uma edificação e outra há um vão de aproximadamente dois metros, onde foi instalado um elevador para deficientes físicos e pessoas com dificuldades de locomoção, exigido para prédios públicos pelo Decreto nº 5.296/04, em razão da Lei da Acessibilidade17. O elevador fica no fundo desse vão. Sua localização no piso superior fica diante da sala da coordenação pedagógica, de um lado, e da sala do servidor de informática, de outro. A ligação entre um prédio e outro é feita pela plataforma do elevador18. Ao lado desses dois prédios, onde aparentemente era uma garagem, foi construída uma oficina de ajustagem mecânica e, ao fundo, dois banheiros com acessibilidade para deficientes, masculino e feminino. O acesso aos banheiros se dá pelo lado de fora da oficina, podendo ser utilizado por todos. A distância entre os prédios também é de aproximadamente dois metros, no corredor que se forma entre eles há bancos de jardim, bebedouro e murais informativos. Na frente dessa construção há 16 Em entrevista, a professora Lívia, do curso de Elétrica Predial, relatou que a mesa foi comprada com recurso do grêmio estudantil da escola, no ano de 1996. O grêmio estudantil, criado nesse mesmo ano por iniciativa dos alunos do curso de elétrica, funcionou por dois anos consecutivos, duração de uma turma desse curso, naquela época. A professora teve participação ativa, como aluna, na criação do grêmio, que, segundo ela, tinha como objetivo melhorar as condições dos alunos e ajudar a escola com a arrecadação de recursos financeiros. 17 Para saber mais sobre a Lei da Acessibilidade acesse <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20042006/2004/Decreto/D5296.htm >. 18 Durante o período de realização da pesquisa não foi observada a presença de nenhuma pessoa com deficiência física nas dependências da “escola”. O elevador é frequentemente usado para o transporte de carga. 62 espaço para estacionamento de motos e bicicletas. A entrada da oficina é um portão de garagem para facilitar o transporte de equipamentos e máquinas. Sobre essa construção, posteriormente, foi construído um refeitório. O acesso para essa parte da “escola” é feito, exclusivamente, pelo andar superior do prédio principal, através de uma passarela. O refeitório tem capacidade para cinquenta pessoas, o que obriga a alternância do horário de intervalo das turmas, quando a “escola” está na sua capacidade máxima de funcionamento. Essa alternância permite que todos os alunos possam sentar e lanchar com tranquilidade, na sua vez. O refeitório é separado da cozinha por uma porta e um balcão, por onde o lanche é distribuído. A cozinha possui armário, geladeira, fogão, pia e uma pequena despensa, além de bancos de madeira utilizados pelos professores e demais funcionários durante o lanche. Em geral, ficam dois ou três sentados e os demais em pé, na porta ou na despensa. Ainda no refeitório, do lado oposto à cozinha, há uma sala que, no início da pesquisa, era utilizada como sala dos professores, mas que lhes oferecia pouca privacidade. Além disso, a sala era distante da coordenação, o que ocasionava também queixas freqüentes dos docentes. Em recente reorganização, o espaço se transformou em sala de aula para o curso de montagem e manutenção de computadores, liberando o auditório para palestras, formaturas de alunos e outras atividades consideradas importantes pelos trabalhadores, mas que não estavam sendo realizadas, pela ausência de espaço adequado. A sala dos professores passou a ser a antiga sala de atendimento de pais e alunos, menor, mas com acesso direto pela sala da coordenação, além da garantia de privacidade. Desde a fundação, todas as adaptações, ampliações e reformas da escola foram realizadas com o auxílio dos alunos, que confeccionam peças, pintam móveis e paredes, apresentam soluções diversas para o uso do espaço. A coordenadora Sâmia relata que, na alteração mais recente, os alunos confeccionaram balcões e prateleiras, assim como pés sobressalentes para os armários de aço da sala de montagem e manutenção de computadores. Estudos realizados nos Estados Unidos (GOMES, 2005) mostram que o tamanho de uma escola influencia a organização da instituição sem, no entanto, determinar que as escolas menores sejam as melhores. Contudo, elas apresentam características das escolas de sucesso, proporcionadas pelo clima escolar de pessoalidade do tratamento, pela afetividade nas relações e a ausência ou poucos episódios de violência. Sendo assim, escolas pequenas atingem resultados de “maior aproveitamento, maior assiduidade, menor evasão e menos indisciplina” (GOMES, 2005, p. 285), o que nos 63 leva a crer que o tamanho da escola é uma variável importante. Tal afirmação pode ser constatada através do relato de uma professora que ressalta a importância de turmas pequenas para se manter um contato mais próximo com os alunos, proporcionando a eles o desenvolvimento de suas potencialidades. A diferença que eu vejo, é do ponto de vista é que as turmas são menores. O atendimento a gente consegue que seja um pouco mais individualizado. A gente consegue parar, às vezes, num momento da aula, que os outros estão fazendo exercícios, e perceber que o aluno estava com o olho vermelho, que estava chorando, ver o que aconteceu com ele. Se a turma é muito cheia, não dá pra gente fazer isso. Tem 3 coordenações, atualmente 2, mas até esse último semestre eram 3, e essas coordenações são muito atentas às necessidades dos alunos, o que eu vejo de diferente é isso. Porque quando uma instituição ela tem muitos alunos na turma, por mais estruturada a instituição aquele aluno não é tratado individualmente, ele é tratado em blocos, conjuntos. Então se um aluno não tiver condição de seguir tudo que é pedido, se ele não tiver uma estrutura familiar, e uma estrutura interior, psicológica até boa, ele desiste do curso, ele fica achando que não é capaz, e vai embora. Aqui a gente consegue perceber que ele não dá conta, e resgatar ele antes. (Maria, 2010). Gomes (2005) afirma que, em instituições escolares menores, é mais fácil estar próximo das culturas juvenis e das culturas locais, o que permite maior interação e participação entre os seus membros e frequentadores. Tal situação favorece também a circulação de informações, na medida em que reduz a burocratização em seu interior. A “Escola” Tia Dê e a oficina de produção são, legalmente, uma única instituição, reconhecida com a razão social de Associação Técnica. Ambas têm princípios e funcionamentos relativamente semelhantes no que diz respeito às suas estruturas. Há uma coordenação-geral da instituição como um todo, responsável tanto pela escola, quanto pela oficina. Apesar disso, a oficina de produção tem um coordenador que, assim como o coordenador-geral, dispõe de uma procuração do presidente da diretoria da instituição, que lhe dá plenos poderes para fazer a gestão da oficina. Sua função é zelar pelo funcionamento interno. Ainda na oficina há um departamento comercial, com um coordenador comercial, um auxiliar administrativo e uma faxineira. O coordenador comercial tem a função de se relacionar com fornecedores e clientes, cuidando dos insumos da oficina e do escoamento da produção. Os outros seis funcionários são operários, com funções distintas, como fresador, 64 torneiro mecânico e operador de CNC19, e estão subordinados diretamente ao coordenador de produção. Quadro 2 - Relação de trabalhadores da oficina de produção. Sujeitos Função Idade Coordenador de 38 produção Coordenador William 44 comercial Assistente Manuela 29 Administrativo Hubert* Operário 32 Marcos Operário 31 Helbert Operário 20 Emerson Operário 32 Cleiton Operário 22 Ricardo Operário 20 Isaura Serviços gerais 38 Fonte: Secretaria “Escola” Tia Dê *Também ministra aulas no turno da noite. Augusto Permanência na escola (anos) Nível de Formação 16 Superior completo 26 Técnico 4 Técnico 11 4 2 2 2 1 6 meses Técnico Profissionalizante Profissionalizante Profissionalizante Profissionalizante Profissionalizante Não informado Na escola, além da coordenação-geral, há três coordenações pedagógicas com função idêntica, cada uma responsável por um turno de funcionamento: manhã, tarde e noite. Durante a pesquisa, em função das dificuldades financeiras, houve o desligamento de uma das coordenações, fazendo com que os dois profissionais que permaneceram criassem estratégias de acompanhamento para os três turnos de aula. No mesmo período, saíram dois professores, um do curso de montagem e manutenção de computadores, do turno da noite, e outro do curso de informática do turno da manhã, ambos por demandas particulares. Após a tentativa de contratação, sem sucesso, de outros profissionais, um dos coordenadores pedagógicos, que é técnico em informática, foi forçado, pelas circunstâncias, a assumir também a sala de aula no turno da noite. Essa situação gerou sobrecarga de trabalho aos profissionais e constrangimentos frequentes por causa dos estilos diferenciados de trabalho de cada coordenação. Em contrapartida, a coordenadora pedagógica da manhã, que ministrava todas as aulas de formação humana, teve que abandoná-las para dedicar-se exclusivamente à coordenação dos cursos, inclusive daqueles que eram de responsabilidade da terceira coordenação. As aulas de formação humana foram rearranjadas de acordo com a disponibilidade de 19 CNC – equipamento específico da indústria utilizado especialmente em tornos. Significa Controle Numérico Computadorizado e permite o controle simultâneo de vários eixos através de uma lista de comandos específicos. 65 horas de trabalho de cada professor. O que não foi necessariamente produtivo, pois houve incompatibilidade e falta de identificação de alguns professores com a disciplina, o que podemos chamar de falta de perfil para a função. Outros rearranjos foram realizados até que alcançassem alternativas mais confortáveis para os profissionais. Não sendo, no entanto, consideradas pela coordenação como ideais. Durante a pesquisa, essa situação estava em pleno desenvolvimento sem ter sido totalmente solucionada. Para ajudar a coordenação, há dois auxiliares administrativos, do sexo feminino. Uma com carga horária de trabalho de oito horas diárias. Permanece na “escola” das 8h até as 17h. E outra, com carga horária de seis horas, trabalha das 16h às 22h. Ambas desempenham a mesma função: atendimento aos alunos e professores, emissão de documentos, fornecimento de materiais diversos, controle de estoques, reprodução xerográfica, controle de documentos para a prefeitura e convênios, entre outras atividades. Os professores, além de ministrarem as aulas teóricas e práticas de conteúdo específico, assumem também aulas de raciocínio lógico matemático, produção e interpretação de textos, formação humana. Para os cursos da área de atendimento há a disciplina de informática aplicada. A escolha do professor se dá, em primeiro lugar, de acordo com a sua disponibilidade e, em segundo lugar, conforme a sua capacidade. A carga horária de trabalho varia de 36 a 40 horas semanais, distribuída em dois turnos consecutivos. Em alguns casos a escala é feita nos três turnos. Semanalmente há duas horas de planejamento e estudos. A organização das atividades dos professores e a distribuição das disciplinas a serem ministradas, com exceção das específicas, são feitas com base nas necessidades da “escola”, no tocante ao pessoal disponível. Apesar da preocupação em adequar habilidade e função, nem sempre é possível conciliar as duas coisas. Em entrevista, a coordenadora pedagógica esclarece que essa organização acontece conforme o número de professores que a gente tem, então... é... por exemplo, a Amanda trabalha todos os cursos da área de atendimento, então, para que a gente desse conta de dar duas turmas no período da tarde, a gente optou pelo revezamento. Enquanto ela dava a parte específica o outro professor dava a parte de informática. Então, aí dividiu quase que meio a meio, só não é meio a meio porque o mesmo professor que dá informática, ele (também) dá o raciocínio lógico, então tem a carga horária maior, mais um pouquinho, (do que) da parte específica. Então, é muito em função do que que a gente tem. (Sâmia, 2011). 66 Também há um professor de Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS), contratado como autônomo, para ministrar a disciplina de LIBRAS dentro dos cursos de atendimento. Inicialmente a realização dessa disciplina era uma exigência da Prefeitura de Belo Horizonte para os cursos financiados por ela. No entanto, em razão dos bons resultados e da boa aceitação por parte dos alunos, a “escola” optou por ampliar a oferta da disciplina para todos os cursos da área de atendimento ao público, atingindo inclusive aqueles financiados por outros convênios que não o da Prefeitura de Belo Horizonte. O período de trabalho do professor de LIBRAS não ultrapassa três meses consecutivos, pois a coordenação opta por contratar profissionais autônomos para essa função. Quando há turmas consecutivas e, com isso, a necessidade de oferta da disciplina por tempo mais prolongado, opta-se pela troca do profissional para que não haja vínculo empregatício caracterizado. Sendo boa parte da oferta de cursos determinada pelos convênios e não pela “escola”, não há como prever a permanência dos cursos da área de atendimento. Assim, a contratação temporária desse profissional foi a opção encontrada pela “escola” para solucionar a demanda de oferta da disciplina de LIBRAS. No caso da “Escola” Tia Dê, há evidências de que o clima organizacional é afetado diretamente pelas dimensões da instituição, que é pequena, com uma média de vinte e seis trabalhadores na maior parte do tempo. Uma das evidências citadas por Brunet (1992) é a taxa de rotatividade dos funcionários, que nessa “escola” pode ser considerada pequena, conforme podemos ver no quadro abaixo, que apresenta a lista de profissionais da área pedagógica, em relação ao tempo de permanência na escola, formação e outras atividades por eles desempenhadas. Quadro 3 – Relação dos profissionais da área pedagógica Sujeitos Função Célio Coordenador Geral Fábio Coordenador pedagógico Idade 58 43 Permanência na escola (anos) Formação 28 Superior completo 15 Superior completo Outro lugar em que trabalha Profissões anteriores Participação em movimento social Operário, seminarista MR8, DA, grêmio estudantil, CMAS, CMDCA, Professor, instrutor, técnico de informática, operário, seminarista Bhrama Kumaris 67 Sâmia Coordenador pedagógico 36 10 Superior completo Psicóloga Amanda Instrutora 36 10 Superior completo Vendedora, operadora de telemarketing Arlen Instrutor 27 5 Técnico Elerson Instrutor 29 3 Superior completo Hubert Marquelson Instrutor Instrutor 32 34 11* 6 meses Lívia Instrutora 32 12 Sebastião Instrutor 45 8 Vantuir Instrutor 27 5 Técnico Técnico Superior completo Superior completo Superior completo Ensino médio Ensino médio Fundamental Fundamental Auxiliar 37 10 Administrativo Auxiliar Fabiane 25 7 meses Administrativo Magali Serviços gerais 50 1 Benício Motorista 62 4 meses Fonte: Secretaria “Escola” Tia Dê *Tempo como professor: 1 ano. Como operário é funcionário há 11 anos. **Operário na oficina de produção da própria “escola”. Marcilaine Polimig Torneiro mecânico Conferência da São Vicente de Paula Operário, professor ensino médio Operário** Grêmio estudantil Autônoma Segurança patrimonial, supervisor de linha de produção, operário, seminarista Movimentos da Igreja Católica Operário Movimentos da Igreja Católica Operadora de Caixa Nos dias atuais, a forma como alunos, professores e outros trabalhadores chegam à instituição é outra. Na sua origem, a escola foi constituída por profissionais que necessariamente faziam parte da comunidade, que juntos lutaram pela emancipação do bairro Acácia e também pela sua própria emancipação. Os professores foram os trabalhadores que detinham o saber-fazer, e que estavam imbuídos da causa de ampliar as possibilidades de formação, inserção e libertação da classe trabalhadora. A partir da primeira parceria firmada, com a Secretaria de Trabalho do Estado de Minas Gerais, somente os professores passaram a ser remunerados, ainda que com uma quantia simbólica. Todos os demais trabalhadores da escola ofereciam o seu trabalho voluntariamente. Com o correr dos anos, a formalização da parceria com o Colégio Jesuíta e a ampliação dos convênios permitiram que outros profissionais fossem remunerados. Em contrapartida, foram estipuladas exigências quanto à formação e à capacitação desses profissionais para o exercício das funções especificadas, inclusive com a necessidade de apresentação de currículos pelos professores, o que não era uma realidade na época da criação da escola. A necessidade de formação e qualificação dos profissionais da área pedagógica foi sendo estabelecida conforme prosseguia a regulação e o controle da oferta de educação profissional por organizações não governamentais. 68 A forma como hoje são contratados os profissionais é diferente da maneira como eram contratados antes das regulamentações citadas anteriormente. Se antes o trabalhador que detinha o saber-fazer compartilhava o seu conhecimento com os outros trabalhadores, hoje as contratações são realizadas com base em um currículo profissional recomendado pelas instâncias de financiamento. Essa alteração no chegar até a instituição está demonstrada nos relatos abaixo. Na verdade, eu, [era] recém-formada, eu morava no interior, Congonhas. Formei em São João del Rey, e vim para BH e conheci a Amanda que trabalha aqui há mais tempo do que eu. Vim, deixei currículo em várias agências de recursos humanos e deixei [aqui]. E na época que eu estava deixando o currículo o esposo da Amanda hoje, que era namorado, ele falou da vaga aqui, da inscrição, do trabalho que era feito aqui e tudo e que tinha surgido essa vaga de coordenação pedagógica. [...] A princípio eu não conhecia a instituição, não, o trabalho que era feito, como era organizado e tudo mais. (Sâmia, coordenadora, ingressou na escola em 2002, 2011). Desde pequeno, que eu era moleque, andava pela rua afora aqui, brincando, passava aqui na escola e via o pessoal trabalhando na oficina, ficava observando e já querendo trabalhar na área. (Arlen, professor, ingressou na escola em 2006, 2011). Na verdade, não foi exatamente o meu tio, foi um primo dele, que fez o curso de marceneiro aqui. Já tem muito tempo, já. Eu não sei informar quanto tempo que tem. Ele estava me indicando, só que eu não sabia como chegar aqui. Eu vim aqui e fiquei pedindo informação. (Breno, aluno, ingressou na escola em 2010, 2011). Como um exemplo da relação entre esses fatores, Brunet (1992) nos apresenta a hipótese de que quanto maior for a instituição, maior será a rotatividade dos trabalhadores, devido à natureza impessoal do clima. O contrário também é verdadeiro, pois quanto menor for a instituição, menor será a rotatividade de trabalhadores, devido ao ambiente de maior pessoalidade entre os sujeitos. No entanto, Brunet alerta que tomar essa afirmação como absolutamente verdadeira pode ser um risco, pois a percepção de cada indivíduo sobre esse clima também deve ser considerada. Em se tratando da “Escola” Tia Dê, o coordenador pedagógico enfatiza que, em relação aos professores, há a preferência pelo profissional que permaneça por mais tempo na instituição. Essa é uma maneira de formá-lo no cotidiano, nas práticas educativas, na lida com os próprios alunos e de acordo com a “filosofia da escola”. Essa ênfase pode ser percebida no comentário feito pelo mesmo coordenador em relação ao professor mais recente no quadro de funcionários. 69 O Marquelson está aqui porque a Maria saiu, porque senão era a Maria que ia estar aqui. (Fábio, 2011). Maria permaneceu na instituição por dez anos e solicitou dispensa para se dedicar ao aprofundamento de seus estudos, no caso, realizar o Mestrado em Educação Tecnológica do CEFET-MG, em 2010. A dimensão da instituição favorece a permanência dos sujeitos por longo tempo e privilegia a proximidade das relações entre eles, o que pode transformar o clima institucional em um ambiente com características familiares. Para exemplificar tal situação, temos o relato de uma ex-aluna da escola, coletado em entrevista, em que descreve como se dava a relação entre ela e os demais membros da escola enquanto desempenhava a função de monitora20. Eu acho que nem tinha Coordenação, nem tinha Monitora. Eu acho que ali era família, viu. Portanto que eu nem chamava a Sâmia de Sâmia. [chamava] de boneca. (rs...) era como se fosse família, mesmo. Chegava, era filhinha pra cá, mamãe pra lá, com a Marcilaine a mesma coisa também. Até com o Célio, eu chegava de manhã e “bom dia, Célio! Como é que você tá?” Eu brincava com ele e ele dizia “Só você mesmo, viu!” Aí eu “Uai! Quê que tem? Normal, uai. Ele é uma pessoa normal, uai.” Era família mesmo, amigos mesmo. Não tinha esse negócio, aquela coisa de Coordenação, não. Agora, com o Fábio que era meio complicado, porque o Fábio era muito sério. Mas ele dava uma escapadinha, eu brincava um pouco com ele também. Era bom demais o entrosamento. (Andrea, 2011). A dimensão reduzida da “escola” favorece a pessoalidade e a afetividade entre os sujeitos, o que também ajuda na permanência destes por mais tempo na instituição, inclusive no seu retorno para o desempenho de diferentes atividades. Não são raros os casos de professores que foram alunos da “escola”, ou que foram operários da oficina de produção. No caso do professor Arlen, ele passou por várias fases dentro da instituição até assumir a função de professor do curso de tornearia mecânica, conforme ele mesmo relata: 20 A monitoria é uma atividade de apoio aos instrutores das áreas de informática e comercial, se assemelha ao estágio dos cursos da área de mecânica. O monitor é selecionado entre os ex-alunos que se destacaram em sua passagem pela escola, tanto em relação ao desempenho no curso, quanto em relação à forma como estabeleceram relação com os colegas. O convívio solidário é muito valorizado e os alunos que demonstram a capacidade de auxiliar outros alunos em dificuldades diversas, além daquelas relacionadas à compreensão do conteúdo são cogitados para a tarefa. Em geral, a oportunidade é oferecida àqueles com idade inferior a 18 anos, que morem próximos à escola e que estudem no contra turno do curso. A atividade é remunerada com aproximadamente sessenta por cento do valor do salário mínimo atual. Não é elaborado contrato formal e tem duração de seis meses, não podendo ser renovado. 70 Eu comecei aqui na escola em 2000, como aluno, [depois] fiz dois anos de estágio em tornearia. Sai, trabalhei um ano e dois meses fora, em outra empresa, chamada Brasimep, como torneiro. Retornei aqui para a escola para trabalhar na área de produção, como torneiro, aí sai daqui da escola de novo, fui para a Fiat, trabalhei mais um ano e dois meses na Fiat e acabei retornando como estagiário em 2005, estagiário do ensino técnico. E como estagiário eu estava acompanhando a turma, vendo a evolução e acompanhando os instrutores. E a partir daí um professor precisou sair, tinha formado em engenharia, me deram a oportunidade, como eu já tava acompanhando a turma, me deram uma oportunidade. (Arlen, 2011). Vimos que a dimensão da instituição é uma variável importante para a organização do trabalho escolar, interferindo em seu funcionamento, nas relações entre os sujeitos e na relação dos sujeitos com a própria instituição. No entanto, não é a única dimensão a ser considerada. Brunet (1992) nos alerta para a importância também do processo organizacional e das variáveis comportamentais, sobre os quais veremos a seguir. 3.3 O Processo Organizacional A segunda variável determinante do clima institucional, de acordo com Brunet (1992), é o processo organizacional, que se refere ao modo como são geridos os recursos humanos, ou seja, qual o estilo de gestão, os modos de comunicação e a resolução de conflitos. Para analisar o processo oganizacional da “Escola” Tia Dê, tomamos a definição de clima institucional de Brunet (1992), que o caracteriza em dois extremos, designados clima aberto e clima fechado. O clima aberto permite um ambiente de trabalho mais participativo, em que o indivíduo sente-se mais reconhecido e isso é tomado como uma estratégia de desenvolvimento de seu potencial, assim como de desenvolvimento da própria instituição. Ao contrário do clima aberto, o clima fechado tem um ambiente de trabalho mais autocrático, considerado pelos seus membros como um ambiente rígido e até constrangedor. Nele, os indivíduos não são consultados para a tomada de decisões e sentem-se desconsiderados. Tomando esses extremos como referência, Brunet (1992) descreve dois tipos de clima organizacional, cada um deles subdividido em dois sistemas, a saber: Clima de tipo autoritário: a) autoritarismo explorador e b) autoritarismo benévolo; Clima de tipo participativo: a) de caráter consultivo e b) de participação de grupo. No sistema de autoritarismo explorador a maioria dos objetivos e das decisões é definida no topo da 71 organização e transmitida aos níveis inferiores, sem espaço para comentários. As pessoas permanecem imersas em um ambiente de ameaças, incertezas e receios, eventualmente, de recompensas. As necessidades individuais estão no plano do psicológico e da segurança. No sistema de autoritarismo benévolo a direção confia de forma condescendente em seus professores, com a maior parte das decisões sendo tomadas no topo da instituição. Eventualmente há a delegação de poderes. Para reconhecer ou punir o trabalho dos professores são usadas, casualmente, recompensas e castigos. Os níveis intermediários e inferiores participam dos processos decisórios, no entanto, a tomada de decisão permanece no topo. “As interações são estabelecidas com condescendência e precaução.” (BRUNET, 1992, p. 131). No clima de tipo participativo há o sistema de caráter consultivo, no qual existe a confiança da direção nos seus professores. Apesar das decisões serem tomadas no topo, a participação de vários níveis hierárquicos é permitida. Há recompensas e castigos ocasionais, e, para motivar os professores, lança-se mão da participação. A quantidade de interações é moderada, mas com um nível de confiança bastante alto. Como meio de controle, há delegação de tarefas de cima para baixo, como forma de se conseguir responsabilidade e comprometimento. A comunicação acontece sempre de cima para baixo. Por fim, no sistema de participação de grupo, a direção demonstra total confiança nos professores. As tomadas de decisões acontecem de forma disseminada em todos os níveis hierárquicos da instituição. Os trabalhadores são motivados pela participação e pela implicação nos processos, elaborando objetivos, buscando melhorias dos métodos de trabalho, bem como realizando a avaliação do rendimento, tendo os objetivos como ponto de partida. Em geral, as relações são descritas como amistosas e agradáveis, havendo confiança entre os membros da instituição. O controle é realizado por meio da forte participação dos membros, pelo sentido de implicação de cada um e o elevado senso de responsabilidade. Nesse caso, a comunicação acontece de forma ascendente e descendente, e também de forma horizontal. De acordo com Brunet (1992), quanto mais próximo o clima institucional estiver do sistema 4, de participação de grupo, melhores serão as relações entre os seus membros. Ao contrário, quanto mais afastado do sistema de participação de grupo e próximo do sistema 1, que é o clima de autoritarismo explorador, piores serão as relações entre os gestores e os diversos membros de uma instituição. A partir dessa reflexão, podemos supor que, sendo melhores as relações entre os membros de uma instituição, melhor a comunicação entre eles. 72 Em relação aos níveis hierárquicos, verificamos certa horizontalidade nas relações, permeada por vestígios de autoritarismo benévolo, caracterizado por Brunet (1992) como um sistema de gestão no qual professores e funcionários recebem do diretor uma confiança condescendente, mas com as decisões sendo tomadas no topo. Durante a pesquisa de campo, observamos uma diversidade de situações que podem ser utilizadas como evidência dessa caracterização. Optamos por descrever uma reunião entre funcionários e a coordenação, realizada para reivindicação de melhores salários. Todos os funcionários da Associação Técnica participaram. entre escola e produção. Em cada segmento foi eleito um representante incumbido de discutir antecipadamente as propostas com o grupo representado, para apresentá-las à coordenação-geral, durante a reunião. Diante da coordenação o coletivo de trabalhadores pouco se manifestou e os representantes se ressentiram desse comportamento, afirmando que estavam se sentindo sozinhos ao serem porta-vozes do grupo, pois ninguém admitia, na frente da coordenação, o que havia sido discutido anteriormente. O tempo destinado para a realização da reunião foi “improvisado”, após as aulas da manhã e antes das aulas do turno da tarde. Essa decisão nos pareceu ter sido tomada em caráter emergencial diante das reclamações crescentes e na tentativa de garantir a participação de todos os funcionários. Os alunos do turno da tarde foram orientados a aguardar nas dependências da “escola” até que a reunião terminasse. A previsão era de que a discussão durasse aproximadamente meia hora, o que não ocorreu, pois houve um atraso de quase uma hora e meia no início das aulas. Não há elementos suficientes para classificar a participação dos sujeitos nessa reunião, pois não participamos das reuniões entre os grupos de trabalhadores, nem de qualquer outra discussão que pudesse evidenciar os motivos que moviam o grupo e individualmente cada sujeito naquela reivindicação. Todavia, apesar de terem se organizado previamente em dois grupos, durante a discussão, grosso modo, pudemos identificar três grupos distintos formados ali mesmo por afinidade de ideias e não por articulação anterior. Um grupo com reivindicações explícitas, que se mostrou a favor dos trabalhadores e comparou os salários recebidos pelos funcionários com os pagos a profissionais de outras instituições. Um segundo grupo, de apoio à coordenação-geral, que lembrou as dificuldades financeiras enfrentadas pela “escola” com o advento da Lei da Filantropia, o que a impedia de manter os seus salários equiparados aos do mercado. E, por fim, um terceiro grupo, que pouco se manifestou, e de forma discreta comentava entre os colegas mais próximos sobre a inutilidade daquela discussão, demonstrando ter 73 coisas mais importantes para fazer. Não sabemos se o comportamento do terceiro grupo pode ser atribuído à descrença nas discussões, à resistência, timidez, falta de posicionamento, acomodação, ou outro sentimento qualquer que, porventura, desfavorecesse a sua manifestação. Após aproximadamente uma hora e meia de exposição por parte dos trabalhadores, a reunião foi finalizada com o argumento final do coordenador-geral sobre a impossibilidade de aumento naquele momento. Porém, o coordenador acenou com a possibilidade de um aumento gradativo até o final do ano, a partir do segundo semestre21. Além de justificar as dificuldades financeiras já compartilhadas por todos, o coordenador fez uso do argumento sobre a pouca ou nenhuma participação dos professores e operários da Associação Técnica em espaços de luta organizada de trabalhadores, especialmente sindicatos. Criticou o fato de não participarem de assembleias de sua classe profissional, tampouco das Comissões Locais e Conselhos Regionais de Assistência Social22. Seus comentários giraram em torno da ausência de senso de coletividade por parte dos trabalhadores e das atitudes individualistas de sua maioria, que recusa ou se esquiva de uma dedicação diferenciada à “escola” e aos seus usuários. Todo o seu discurso foi realizado em tom baixo de voz, mas com a exigência de não ser interrompido, uma vez que não interrompeu a manifestação de nenhum dos trabalhadores. Diante da divergência, não houve mais manifestações. Os trabalhadores começaram a sair gradualmente do auditório, dando por encerrada a reunião, em função do horário avançado. Do lado de fora do auditório, todos procuraram retornar, o mais rápido possível, para os seus postos de trabalho. Após esse episódio não foram verificados comentários explícitos sobre a situação ou a decisão tomada pela coordenação. Sendo assim, entendemos que na “Escola” Tia Dê há um misto entre os 21 A pesquisa de campo foi realizada entre os dias 04/04/11 e 16/06/12. A reunião aconteceu no dia 17/05/11. 22 Comissões Locais de Assistência Social (CLAS): instâncias de controle social mais próximas do cidadão. São compostas por representantes dos usuários dos serviços da Assistência Social, representantes de entidades públicas ou privadas e por qualquer cidadão que se interesse pelo assunto. Nestas instâncias são tomadas decisões sobre as políticas a serem adotadas, mas as questões discutidas e propostas são levadas pelos representantes das CLAS ao Conselho Regional de Assistência Social CRAS que, por sua vez, as encaminham ao Conselho Municipal da Assistência Social. Conselho Regional de Assistência Social (CRAS): formado por representantes titulares e suplentes, advindos das CLAS, e representantes governamentais indicados pela Gerência Regional de Assistência Social. O conselho discute, avalia e aponta alternativas para a Política Municipal de Assistência Social, que são remetidas ao Conselho Municipal de Assistência Social através dos Conselheiros Municipais da Assistência Social. O CRAS possui dois conselheiros titulares e dois suplentes, governamentais e não governamentais, que representam a sua regional no Conselho Municipal de Assistência Social. 74 tipos de gestão autoritária e participativa, mais especificamente entre os sistemas de autoritarismo benévolo e participativo de caráter consultivo. Em relação à comunicação, observamos que, apesar de haver um discurso de participação, as decisões, na prática, são tomadas de modo concentrado no topo da instituição. Os membros dos níveis inferiores participam do processo decisório, mas sua participação tem caráter consultivo, prevalecendo a decisão do gestor. A gente tem uma autonomia, mas ela é uma autonomia meio falsa. (Fábio, 2011). No entanto, observamos que, em ambos os tipos descritos por Brunet (1992) e identificados na instituição, as decisões são tomadas no topo, sendo assim, as informações que circulam são aquelas permitidas pelo gestor. Tal situação não impede que os demais membros especulem a respeito de fatos e orientações, podendo até questionar as decisões assumidas pelo coordenador, desde que entre si. Um importante elemento da organização do trabalho escolar é a formação de professores. Segundo Brunet, o investimento em formação e aperfeiçoamento dos trabalhadores é um fator que evidencia o clima participativo presente na instituição, assim, “um clima de tipo participativo é aberto às mudanças e estimula o empenhamento em programas de formação e aperfeiçoamento.” (1992, p. 132). As iniciativas individuais de formação são reconhecidas e valorizadas pela instituição, no entanto, não há nenhum programa específico de formação continuada do trabalhador no interior da entidade. Tampouco qualquer programa de incentivo para a elevação da escolaridade, especialmente em relação aos professores. Já com relação aos operários da oficina de produção pudemos constatar que a totalidade dos funcionários ligados diretamente à produção são ex-alunos da “escola”, o que podemos considerar como valorização da formação do trabalhador. Brunet (1992) afirma que o ambiente influencia muito nas atitudes dos sujeitos que nele estão inseridos. Cada sujeito age de acordo com o repertório de possibilidades que o ambiente lhe oferece. Os indivíduos são favorecidos e incentivados a investir em sua própria formação e desenvolvimento profissional e, à medida que buscam esse aperfeiçoamento, realçam a valorização pela formação no ambiente profissional. Tal fato faz com que cada vez mais haja, por parte de seus companheiros, uma busca semelhante. O conjunto dos educadores presentes na instituição tinha formação de nível médio no início de suas atividades profissionais na “escola”. Porém, a primeira 75 iniciativa de formação em nível superior – com o favorecimento da escola, no que diz respeito à flexibilização de horários de trabalho – fez com que cinco dos oito professores em atividade na instituição concluíssem curso de nível superior, sendo dois bacharéis e três licenciados. A formação do grupo é corroborada por iniciativas individuais que impulsionam os pares em direção a novos aprendizados. Se nesse tipo de clima há a valorização do indivíduo que está disposto a empreender pela sua formação, ao contrário, no clima de tipo autoritário, as iniciativas individuais são vistas com suspeição e desconforto. Nele, a tendência dos profissionais é assumir uma conduta passiva, de modo a evitar confrontos ou repreensões. Assim, verificamos que o ambiente pode provocar efeitos sobre o estado motivacional dos indivíduos de uma instituição, na medida em que favorece algumas atitudes em detrimento de outras. O ambiente recompensa, mesmo que de forma indireta, aqueles que se mantêm dentro daquilo que é esperado. Sendo assim, Brunet (1992), citando Lewin, afirma que o ambiente pode ser pensado com uma espécie de campo de forças – ou de motivação, ou de repulsa. Tais forças se originam nas necessidades e nas capacidades de cada indivíduo, no comportamento do outro e dos pares, e também de fatores físicos. Todos os elementos que compõem o ambiente produzem efeitos sobre a ação e motivação do indivíduo. Desse modo, a sua motivação está sujeita às variações ambientais. Esses foram investimentos pessoais em formação de nível superior realizados pelos sujeitos. Mas “quem educa os educadores” (CUNHA, 1980, p. 41) dentro da instituição? Considerando que a mesma pretende uma educação diferenciada para os trabalhadores que a frequentam, qual o tipo de formação oferecida aos professores para que sejam diferenciados? Quais temas discutem? De que forma buscam o seu desenvolvimento profissional e pessoal? Além da graduação buscada pela quase totalidade dos professores, há o investimento, por parte da instituição, na formação para o trabalho dos professores, que é realizado da seguinte forma: semestralmente, durante o período de férias dos alunos são realizados momentos de formação, chamados de Encontros Pedagógicos ou de Semana de Formação. A cada final de semestre, os professores permanecem na instituição por quinze dias, sem alunos, para que possam realizar o planejamento, organização de material, avaliação do período e participar das atividades de formação. Os relatos demonstram que o tempo dedicado à formação tem sido reduzido ao longo 76 dos anos, sendo que, no segundo semestre de 2010 e no primeiro semestre de 2011, foram destinados apenas dois dias para essa atividade. Nesse mês de dezembro, nós tivemos dois dias de Encontro Pedagógico. Primeiramente foi apresentada uma monografia que um colega nosso fez, então, ultimamente, o pessoal está terminando os cursos, aí o coordenadorgeral pediu pra cada um socializar a pesquisa que eles fizeram. Depois o coordenador-geral falou sobre a Lei da Assistência Social que está tendo muitas mudanças, Lei da Filantropia, e são mudanças que vão interferir diretamente no nosso dia a dia, principalmente no que diz respeito ao corte de verba. Eles explicaram isso pra gente, e, depois, nós fizemos uma discussão do Regimento Interno, que já tinha sido aprovado, no ano passado, e teve algumas alterações. Depois nós retomamos as avaliações que a gente fez no semestre passado, pra ver o que teve de avanço e o que precisa melhorar, e fechamos essa parte. Mas já teve ocasiões da gente fazer, nesse encontro pedagógico, oficinas mesmo de, por exemplo, como trabalhar com alunos que têm dificuldade de aprendizagem. Sempre a gente faz um levantamento dentro das necessidades dos professores. E eles vão falando o que precisa trabalhar. Como nesse semestre já foi feito esse trabalho semanalmente, nós estudamos vários assuntos relacionados com isso, então não precisou levar para o encontro pedagógico. (Maria, 2010). A partir do relato da professora verificamos que os encontros pedagógicos servem para o nivelamento de informação entre coordenações e professores. Os temas tratados dizem respeito mais à organização do trabalho escolar – avaliação do semestre, alterações na legislação, regimento interno –, do que à formação pedagógica dos professores. O fato de terem momentos reservados para o compartilhamento de informações revela que há, por parte da gestão, a preocupação em tornar transparentes as decisões tomadas ao longo do período analisado, e, ao mesmo tempo, buscar estratégias para o período seguinte, sendo, assim, coerentes com o tipo de clima institucional participativo de caráter consultivo que predomina na organização. Contudo, a despeito da importância desses encontros, identificamos tanto a necessidade quanto o desejo de alguns pelo investimento de mais tempo na formação pedagógica. Várias iniciativas já ocorridas voltadas para a formação dos professores foram mencionadas. A realização de atividades internas e a participação em eventos externos faziam, e ainda fazem, mas com menos ênfase, parte da rotina de formação dentro da instituição. Eu ia, fazia viagem aqui anualmente, a gente fazia um trabalho com um grupo que fica lá no Rio de Janeiro. Então, são uma espécie de mentores que se juntam, reúnem, agrupam escolas do mesmo conceito, como a nossa, uma vez por ano, normalmente em outubro. Eles fazem um encontrão de todas as escolas lá. E aí, lá tem o fomento de alguns temas. Então teve, no último ano que eu fui Economia Solidária. Aí chegávamos lá, falávamos das nossas 77 aspirações pro ano seguinte, dificuldades, anseios. Cada grupo ali se reunia de acordo com a sua experiência na área. Quem era da elétrica sentava junto, quem era da mecânica. Era muito bacana, mas parei de ir. [...] nos últimos quem foi, foi o Tom, aí ele saiu e ninguém tá indo por enquanto. (Lívia, 2011). Nos idos da década de 1980 houve a participação da Universidade Federal de Minas Gerais (SCALCO, 1986, p. 77) nos momentos de formação de professores. Não há relatos do período porque os profissionais que hoje estão na instituição não participaram daquela fase, mas sabem que o trabalho foi realizado. O que pudemos observar na “Escola” Tia Dê é que as iniciativas particulares são valorizadas e bem recebidas pela coordenação. A formação dos trabalhadores, levada a cabo por iniciativa própria, é privilegiada na medida em que são realizadas mudanças e adaptações em horários e distribuição de atividades de modo a permitir que cada sujeito tenha condições de iniciar e concluir a sua formação. Essa constatação pode ser feita através do relato de diversos atores entrevistados, que não só reconhecem que há por parte da instituição a valorização de sua formação como reconhecem também que essa formação pode ser revertida em prol da própria da instituição. 3.4 As Variáveis Comportamentais Para Brunet (1992), há outro fator a ser considerado no clima institucional, no caso, as variáveis comportamentais. Este elemento pode influenciar o clima da instituição e a sua definição em função da satisfação das necessidades individuais. Trata-se de uma avaliação baseada nas emoções dos sujeitos como fatores que compõem o ambiente de trabalho, inclui os funcionamentos individuais e de grupo como elemento ativo na produção do clima. Deve-se considerar que o comportamento do indivíduo acontece em função de sua personalidade influenciada pelo ambiente onde ele está inserido. O seu entendimento sobre a realidade surge como um filtro que serve para interpretá-la. As variáveis comportamentais se referem às atitudes dos sujeitos, sua personalidade e como ela se manifesta dentro da instituição. Dizem respeito à sua capacidade de desempenhar funções, de se relacionar com superiores, pares, subordinados e alunos. Em relação ao grupo, as variáveis comportamentais dizem respeito à estrutura do grupo, como seus componentes se manifestam quando reunidos, se há lideranças informais, quais os papéis que desempenham dentro do grupo, que 78 normas são estabelecidas e como cada indivíduo responde a elas. E, ainda, se há coesão no grupo ou se seus elementos se manifestam de forma concorrente ou desconexa. Brunet (1992) afirma que o clima influencia a qualidade de vida e a produtividade de alunos, professores e funcionários de uma escola, tornando-se um fator crítico para a saúde dos indivíduos e para a eficácia da instituição. As variáveis estrutura e processo organizacional estão na origem do clima e atuam como catalisadores dos comportamentos observados nos sujeitos. A dimensão reduzida da instituição e a proximidade das relações favorecem o modo familiar de lidar com os sujeitos. Isso pode apresentar como vantagem a existência de um clima familiar e de satisfação pessoal de cada sujeito em trabalhar numa instituição que considera as suas emoções e particularidades. Na “Escola” Tia Dê tal fato pode ser constatado nos relatos que evidenciam a preocupação da instituição em favorecer interesses pessoais dos profissionais, como podemos observar no comentário a seguir: Aí começamos a abrir os cursos da noite, com a demanda que tinha da comunidade, e a demanda que surgiu com os professores, eles começaram a estudar de manhã, aí só tinham a possibilidade de trabalhar a noite. (Sâmia, 2011, grifo nosso). A demanda pela oferta de cursos noturnos já era uma realidade na comunidade, no entanto, só foi efetivada a partir da necessidade apresentada pelos professores. Em relação à satisfação pessoal, um professor demonstra gratidão pela instituição e atribui a ela as suas conquistas. Eu, pra mim essa escola aqui é tudo. Desde o começo da minha vida tem muita coisa que eu tenho só que agradecer a escola. E até hoje tudo que eu constitui foi aqui dentro da escola. [...] as outras empresas foram importantes pra mim, mas igual essa aqui eu não encontrei. Por conta do fato do apoio que eu encontrei aqui, das oportunidades que me deram aqui, que eu não tive em nenhum outro, nenhuma outra escola. (Arlen, 2011). O professor refere-se às oportunidades de se aperfeiçoar profissionalmente. Como aluno e estagiário na escola, teve o seu talento reconhecido e a oportunidade de trabalhar como professor, recebendo, ainda hoje, incentivos morais para a continuidade dos estudos. O respeito ao funcionário e a aposta em suas potencialidades estão presentes na “escola” desde o início de suas atividades. Grande parte dos professores de hoje foram alunos da própria instituição. De acordo com o relato da coordenadora Sâmia, a 79 instituição procura privilegiar pessoas que estão iniciando a carreira, mesmo aquelas que chegam de outras instituições. Mas, a dimensão reduzida e a proximidade das relações na instituição podem representar também o risco de verem as relações minadas pelas micropercepções dos indivíduos, fazendo com que essas sejam sobrepostas às descrições globais das percepções. Para alguns trabalhadores, passa a ser mais importante a satisfação de suas necessidades particulares do que as necessidades da própria instituição. Esse tipo de situação pode provocar um clima desfavorável e pouco saudável de disputa entre os sujeitos. Assim, Brunet afirma que, neste caso, “o elemento principal é a percepção que um indivíduo tem do seu ambiente de trabalho. Valoriza-se o modo como nos apercebemos das coisas, muito mais do que a realidade objetiva.” (1992, p. 126). Desse modo, Brunet (1992) afirma que o clima é um fenômeno cíclico no qual os seus efeitos atuam sobre os seus componentes, ou seja, A direcção de uma escola terá tendência para modificar as variáveis estruturais e processuais, caso o rendimento do pessoal não corresponda às suas expectativas; por exemplo, a direcção de uma escola pode aumentar o controlo sobre as actividades, o que contribui para modificações na percepção do clima. (BRUNET, 1992, p. 128). Assim, concordamos com Brunet (1992) quando ele ressalta que as variáveis do clima são elementos sujeitos a modificações, inter-relacionados e imbricados uns com os outros, que fazem com que a alteração de um provoque modificações nos demais. A descrição da organização do trabalho escolar torna-se uma tarefa de difícil realização, uma vez que não há independência dos elementos analisados na prática. O seu desmembramento é necessário para uma exposição meramente didática. Desse modo, tentamos apresentá-los da maneira simples e direta, com o objetivo de favorecer o entendimento do contexto geral, mas com a clareza de que todos eles estão relacionados entre si. 80 4 A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL HOJE Nossa análise acerca da Educação Profissional ofertada hoje na “Escola” Tia Dê se baseia em três aspectos cruciais em qualquer projeto de formação profissional: o projeto político-pedagógico, as concepções de educação e de educação profissional e, por fim, mas não menos importante, o currículo. 4.1 O Projeto Político-Pedagógico Uma das primeiras questões que emergem ao se pensar em educação e organização do trabalho escolar é a existência, ou não, de um projeto políticopedagógico que norteie as ações e as práticas intencionais da instituição. Para Veiga (1995), o espaço escolar é o lugar onde o projeto deve ser concebido, realizado e avaliado, a partir da concepção de educação praticada. Essa construção/reconstrução da concepção, realização e avaliação do projeto deve ser sempre baseada no perfil dos estudantes que frequentam a instituição. Sendo assim, o projeto político-pedagógico não é o ajuntamento de planos de ensino e/ou de atividades diversas para ser construído e arquivado, ou, simplesmente, para ser encaminhado às autoridades educacionais como documento comprobatório da realização de tarefas. Segundo Veiga, a responsabilidade pela elaboração do projeto é da própria “escola”, sem que se espere por condições dadas pelas esferas administrativas. A escola há de ter clareza sobre os princípios que norteiam as suas ações. Deve manter uma relação dialógica e democrática com os seus membros para que todos sejam capazes de elaborar um projeto político-pedagógico capaz de refletir sobre o presente da instituição para conseguir projetar o seu futuro. O projeto busca um rumo, uma direção. É uma ação intencional, com um sentido explícito, com um compromisso definido coletivamente. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é, também, um projeto político por estar intimamente articulado ao compromisso sócio-político com os interesses reais e coletivos da população majoritária. É político no sentido de compromisso com a formação do cidadão para um tipo de sociedade. (VEIGA, 1995, p. 13). Segundo Gandin, “Quem precisa de projeto é quem tem algo a construir que seja diferente da mera manutenção do status quo. Precisa de projeto quem quer interferir 81 nas práticas escolares e para isso precisa saber onde quer chegar e onde está.” (GANDIN, 2006, p. 1). Além disso, O projeto político-pedagógico, ao se constituir em processo democrático de decisões, preocupa-se em instaurar uma forma de organização do trabalho pedagógico que supere os conflitos, buscando eliminar as relações competitivas, corporativas e autoritárias, [...]. (VEIGA, 1995, p. 13). De acordo com Scalco (1986) e baseados nas entrevistas realizadas, pudemos constatar que, nos primórdios da “Escola” Tia Dê, os trabalhadores desejavam e projetavam uma escola de Educação Profissional que apresentasse elementos diferenciados, algo que os colocasse em condições de lutar e de reivindicar seus direitos. Fazíamos questão que fosse mão de obra qualificada, mas que tivesse uma cabeça também, voltada para os interesses da classe operária, que não fosse oba, oba, não. Que estivessem conscientes da sua condição e não com a cabeça feita pelos que mandavam. (Pe. Gabriel, 2011). Atento à construção, com qualidade, do projeto político-pedagógico, Gandin (2006) apresenta o que ele chama de qualidade política de um projeto pedagógico, que está para além da qualidade técnica. A qualidade política diz da clareza que se tem dos “para onde” e “para que” se faz alguma coisa em Educação. Com base nessa premissa é possível dizer que a qualidade política é condição imprescindível para a elaboração de um projeto político-pedagógico e, antes disso, de um projeto de sociedade. Como o objetivo desta pesquisa foi analisar os desafios enfrentados por um projeto de EP de caráter emancipador e detectar quais os fatores que favoreceram as permanências e mudanças desses valores e práticas, verificamos que, tanto no início quanto atualmente, não há um projeto político-pedagógico formalizado dentro da “escola”, que registre os fundamentos, os objetivos e os caminhos pretendidos pela instituição. No entanto, o discurso sobre a formação do trabalhador com alguma perspectiva crítica e humanista ainda está presente, o que podemos comprovar nos vários depoimentos coletados dos profissionais da “escola” entrevistados. Eu acho que a gente aqui, a gente tem a preocupação de formar a pessoa com capacidade técnica, mas também formar a pessoa, não é? Pra ele também ser cidadão, pra ele ser pessoa, gente. [...] A gente acredita que é o cidadão que conhece os seus direitos, os seus deveres e que participa. (Fábio, 2011). 82 Eu penso que ser docente [nessa instituição] é eu conseguir mostrar para aquele aluno o tanto ele já percorreu, o que falta pra ele percorrer, e o que ele pode fazer para melhorar, não só dentro da disciplina, dentro do curso que ele estuda, mas na vida dele como um todo. [...] O objetivo da nossa instituição, é oferecer aos nossos alunos a formação específica do curso, juntamente com a formação humana. Essa formação humana é no sentido de ajudar aquele aluno a ser um cidadão atuante na comunidade em que ele vive, ele não ficar à margem das discussões políticas, ele procurar mesmo interagir com o meio onde ele está. (Maria, 2010). Se, na sua criação, o discurso baseou-se em formar trabalhadores mais críticos para que não fossem manipulados pelos que mandam, hoje o discurso da instituição diz da formação de cidadãos, formação para a cidadania, ficando praticamente restrito à questão de direitos e deveres, conforme evidenciado no depoimento do coordenaçãogeral da “escola”. Falar assim, “não, você não tem só direitos. [...] então se você tem direitos, você também tem deveres. Tem os dois lados que você tem que olhar.” Então trabalhar essas questões. (Célio, 2011). Ainda assim, é reconhecido como cidadão o sujeito que tem participação na comunidade, que procura alternativas para superar os problemas, individuais e coletivos, e que é capaz de se relacionar com o outro. Formar cidadãos, no sentido compreendido pelos profissionais da “escola”, motiva e valoriza o seu trabalho. Então, eu acho que o valor dessa escola, ele está nisso. Naquilo que a gente consegue proporcionar para essas pessoas que vêm pra cá. Na oportunidade que eles têm de discutir outras coisas além daquelas coisas técnicas, né. De se formar como pessoa, né, porque nós temos no nosso estatuto “a promoção da formação integral da pessoa”, não é só da formação técnica. Mas da formação da pessoa, como pessoa também né. [...] é capaz de se relacionar com o outro, propor alternativas pra problemas que acontecem na comunidade, ser cidadão, ter conhecimento dos seus direitos, de cidadão, né. Então, eu acho que... é... é... eu acho que isso também, é o que motiva, apesar de todas essas dificuldades que eu te falei, a gente continuar trabalhando. É saber que é diferente. O nosso trabalho aqui é diferente. (Fábio, 2011). Para professores e coordenadores, a formação humana é o mote da instituição, o forte de seu trabalho. Mesmo que haja diferenciações entre os temas trabalhados antes e agora, a Formação Humana ainda é um diferencial para a “escola”. O nosso forte é a Formação Humana, o que a gente trabalha em Formação Humana, a gente prepara o sujeito pra vida, a gente não ensina ele a ser só um torneiro, a executar uma tarefa uma peça num determinado período não, a gente dá a base pra ele ter uma visão mais ampla pra ele ter uma noção das coisas que acontece ao seu entorno, e de certa forma poder tá interferindo, 83 poder tá mudando um pouco essa sociedade que ele vive. Então ele pode estar contribuindo, e isso a gente trabalha dentro da Formação Humana, no qual a gente trabalha as relações humanas, o direito do cidadão, o direito do consumidor, a gente trabalha a questão de sociedade de classe. (Tom, 2005). No entanto, os princípios, que ajudaram a erigir a escola estão presentes somente nas práticas e discursos dos sujeitos, o que coloca em risco a sua permanência. Tal situação é facilitada pela ausência de formalização das práticas e valores, por meio de um projeto político-pedagógico. Para garantir um mínimo de homogeneidade nas práticas, foi elaborado um Regimento Interno. Segundo o coordenador-geral, a intenção do documento foi a de preservar os valores da instituição, cada vez mais conduzidos por orientações particulares e, por vezes, contraditórias aos princípios da “escola”. As soluções para os problemas cotidianos surgem à medida que os entraves aparecem, ou seja, não se baseiam em análise prévia, O registro, o arquivamento e a organização do material discutido, ou de versões do Regimento, com referência às suas respectivas datas de formulação, alteração e reedição, parece que não foram feitos. Então, cada um tem um jeito. Então, acabou assim, que cada um começou a fazer uma regrinha. Não, a tarde funciona assim, a noite assim. Até que, tipo assim, avaliação, cada um acabou tendo um jeitinho. Aí que a gente pegou, e eu entrei e falei vamos fazer uma coisa unificada, porque a gente é uma. Não podemos mais ter isso. O Fábio tem a sua regrinha, a Sâmia a sua, o Vantuir a sua. A gente tem que tentar unificar. Todo mundo tem que ter a mesma regra. [...] Aí, o quê que acontece, os coordenadores, lógico, eles tem que tomar atitude. Aí cada um começa a fazer a sua regrinha, entendeu? Cada um com um tipo de escola. Então, assim, ao invés de você ter uma entidade, você tem 1, 2, 3. E isso acontece na oficina, a mesma coisa, se eu não tiver perto da oficina. Aí eu peguei no regimento e começamos a colocar as coisas claramente no regimento, pra ninguém, nenhum instrutor, nenhum professor vai ficar criando a sua regrinha. (Célio, 2011). O Regimento Interno foi elaborado com a participação dos professores e dos coordenadores. Tem aspectos práticos do cotidiano, bem como orientações para a realização de avaliação, certificação e frequência de alunos. Inicialmente, houve a participação dos alunos nesse processo, mas as mudanças ocorridas com a introdução do público encaminhado pela Prefeitura de Belo Horizonte dificultaram sobremaneira a participação democrática dos alunos, conforme relata a professora do curso de Elétrica Predial. Agora a gente já tem isso bem consolidado porque sentou todos os professores junto com a coordenação. Tem uns quatro anos, talvez? Uns 84 quatro anos atrás? Talvez nem isso, hein. Eu teria que me recordar no meu material aqui. Era um regulamento que os alunos mesmos começaram a fazer no começo. A gente passava os primeiros instantes de aula, a gente lia esse regulamento e com o amadurecimento da turma e tinha um momento que a gente lia o regulamento, aí os próprios alunos sugeriam, iam sugerindo alterações ou mudanças, enfim, no próprio regimento. Hoje não. É uma função mesmo interna e essa posição ela vem de dentro pra fora. Isso mudou? Mudou. Porque com essa inserção de novos alunos com os cursos de prefeitura, não dá pra simplesmente trabalhar um conceito desse tão complexo, de você interferir num regimento, você tendo só quinze dias de aula. Não dá. Então, era um trabalho que era feito com essas turmas de longa data. (Lívia, 2011). A criação do Regimento Interno minimizou problemas práticos cotidianos e de falta de consenso, mas não comportou as questões de cunho político que devem sustentar a qualidade política de uma escola (GANDIN, 2006). Qualidade essa que era observada no discurso dos fundadores da Associação Técnica. De acordo com o depoimento da professora Lívia, verificamos que as discussões para a elaboração do Regimento Interno tiveram início em 2007. Antes desse período, não há prova de qualquer documento que regulasse o funcionamento da instituição. As discussões acerca da padronização ou unificação dos procedimentos de avaliação, aprovação, certificação e frequência parecem ter surgido a partir das demandas impostas pelos convênios firmados com a Prefeitura de Belo Horizonte, orientadas pelo PMQ, citado no capítulo 2 dessa dissertação. A tentativa da Prefeitura de Belo Horizonte de unificação das ações de Educação Profissional na esfera municipal exigiu das instituições conveniadas maior clareza sobre o seu funcionamento, na medida em que eram convocadas a apresentar a organização de seu trabalho. Assim, as instituições se viram diante da necessidade de unificar as suas ações não só interna, mas também externamente, tomando como referência outras entidades semelhantes e tendo o PMQ como parâmetro. Sobre a premente demanda por resolução de questões objetivas e práticas temos o alerta de Gandin (2006) para a tendência ao pragmatismo, que atinge todas as iniciativas voltadas para a Educação. Segundo o autor, há uma tendência de se fazer coisas a qualquer preço, o que pode levar a resultados inesperados e, por vezes, conflitantes com as convicções que tentam responder aos “para onde” e “para que”. Os cursos têm que andar, tem que escolher os instrutores, os jovens e se tinha alguma vez [que] dar alguma instrução, ou alguma vez dar uma palestra para os jovens. (Pe. Gabriel, 2011). 85 As questões relativas à organização do cotidiano exigem dos trabalhadores o exercício diário de não deixar de lado as suas convicções. São necessários tempos e espaços destinados a esse tipo de reflexão e decisão. Eu acho que é uma coisa que tinha que ter um grupo de pessoas que discutissem sempre e habitualmente com os professores, ou os instrutores a situação política, não simplesmente trazer um, aquela coisa de direitos humanos pra falar lá, mas uma coisa que fosse mais viva, mais presente. Eu acho que faltou e agora me parece que não tem mais jeito. Só se houvesse alguma situação limite, que pode ser que chegue. (Pe. Gabriel, 2011). A construção de um projeto alinhado com os interesses dos trabalhadores, cujo início foi definido a partir de condições sócio-históricas relevantes, foi marcada com a intencionalidade política de emancipação da classe trabalhadora. Todavia, as pressões cotidianas sobre o funcionamento da “escola”, como seleção, contratação e pagamento de pessoal, elaboração e reprodução gráfica de material didático-pedagógico, manutenção e limpeza do espaço, atendimento ao público, alimentação, captação de recursos, estabelecimento de convênios e parcerias, parecem ter desviado a atenção do elemento central do projeto para os elementos periféricos, importantes, mas que não dão sustentação política ao trabalho. Assim, como em outras situações, esse problema é identificado como desafio comum a diversas iniciativas de formação de trabalhadores numa perspectiva de emancipação. Gandin afirma que, assim, o que importa não é fazer muitas coisas, mas saber o porque de cada uma das coisas que fazemos. Nesse sentido não basta ter eficiência (fazer bem algo); é preciso combinar eficiência com eficácia (fazer bem algo que seja importante). O importante é coordenar as ações desenvolvidas na escola de modo que elas não sejam aleatórias, mas apontem para a mesma direção, construída pelo coletivo da escola. (GANDIN, 2006, p. 2). Devemos destacar que o projeto político-pedagógico parte necessariamente de um projeto inicial da instituição e se baseia na premissa da sociedade que se deseja criar. Além disso, como nos diz Gandin (2006), somente constrói um projeto pedagógico quem tem algo novo a fazer, quem quer romper com uma estrutura instituída. Isto porque praticar um projeto pedagógico significa saber que tipo de sujeito se quer formar, significa também ansiar por rupturas com estruturas pré-estabelecidas. Aliás, a principal ruptura proposta por um projeto político-pedagógico é com o presente, para se comprometer com o futuro (GADOTTI, 2001). A concretização de um projeto 86 pedagógico se dá pela organização de tarefas, que, postas em prática, farão com que o objetivo final seja alcançado (VEIGA, 1995). Está presente na “Escola” Tia Dê um discurso de projeto de sujeito, de sociedade e de formação que se deseja alcançar, mas não há a sua formalização. Um discurso ao mais das vezes fluido e contraditório, que evidencia uma concepção de formação profissional ora emancipadora, ora de conformação do trabalhador. Tal fato ocasiona a execução do trabalho de modo diferenciado por parte de cada um dos sujeitos. Essa maneira diferenciada de trabalho é sentida pelos alunos, conforme o relato a seguir. Esse ano da mesma forma. Só que esse ano está sendo um pouco diferente, porque está com outro professor. Aí, esse ano nós estamos vendo sobre postura, como nós temos que estar no trabalho [...] algumas coisas assim, ética, cidadania também. Coisas assim, muito diversificadas de um ano pro outro. (Breno, 2011). Isto traz para a instituição o risco de perder de vista os seus objetivos por causa da prática cotidiana, que imprime um ritmo acelerado às ações e faz com que as questões de sobrevivência tomem mais a atenção dos sujeitos do que as de qualidade política que deveriam sustentar o projeto. A filosofia da escola é algo que precisa ser mantido, mas não está escrita, registrada ou definida explicitamente de nenhuma forma. Todavia, é exposta de maneira mais ou menos semelhante pelos membros da instituição. Um deles disse que a filosofia da escola é a sua causa (a causa da “escola”) de existir. Essa causa que eu falei, de estar levando a oportunidade de uma profissão às pessoas de condição financeira baixa. Ou, pelo menos, vontade. Porque isso também é interessante. Eu já tive casos de aluno aqui que tinham até condição de pagar um curso, mas por outro lado não o fizeram. Mas é um aluno que valia a pena investir nessa pessoa. Então, a causa que eu digo é no sentido de dar uma condição de vida melhor pra essas pessoas. Tirar essa condição, de enfim, não ter uma perspectiva na vida. É dar essa perspectiva, é dar essa condição. Ou tentar pelo menos norteá-los, né. Se não vai ser elétrica, vai ser um outro curso. Eu tive aluno que fez elétrica, depois fez mecânica. Tudo que é oportunidade que ele pode fazer, ele fez. (Lívia, 2011). No contexto do capitalismo, no qual as relações são de competição, de ordem meritocrática e excludente, torna-se bastante difícil descrever e afirmar um projeto verdadeiro de inclusão social. Contudo, supondo que a inclusão social seja o que a professora chama de “dar uma condição de vida melhor”, nos colocamos a questão de tentar compreender se os mecanismos de aprendizagem, individuais ou coletivos, têm produzido formas de inclusão social dos sujeitos e dos grupos sociais nos diferentes 87 espaços da sociedade: o espaço doméstico, o espaço da produção, o do mercado, o da comunidade, o da cidadania e o mundial. Esses são chamados por Boaventura de Souza Santos (2001) de espaços estruturais da sociedade. São espaços onde se pressupõe a possibilidade efetiva de participação dos sujeitos nos processos decisórios que dizem respeito à sua vida cotidiana. Trata-se do exercício da cidadania. Não de uma cidadania passiva, reduzida a um conjunto de direitos pelos quais se luta, mas de uma cidadania fundada em práticas emancipatórias, com vistas à participação popular e à solidariedade. Inês Oliveira (2003) afirma que muitas ações filantrópicas e de suposta aceitação das diferenças culturais contemporâneas, fundadas nos padrões burgueses, consideram, para projetos populares de educação, apenas uma cidadania possível, uma espécie de cidadania de “segunda classe”. Esse tipo de cidadania só é possível para indivíduos de outra origem cultural, que não a burguesa. Cidadãos desse tipo devem ser ajudados e mantidos sob controle, fora dos espaços destinados aos “verdadeiros cidadãos”. Assim, manter vivo um conjunto de práticas libertadoras e democráticas pressupõe muito trabalho e atenção constante ao cotidiano, para que as ideias projetadas pelo pensamento dominante sejam constantemente questionadas. Das práticas emancipatórias, fazem parte o conhecimento e a compreensão de outros caminhos para o exercício da cidadania que não a via projetada pelo pensamento dominante. O coordenador-geral, que participou da construção da escola, inclusive com o envolvimento político no combate à ditadura militar, ligado também à Congregação dos Jesuítas, numa vertente de luta pela emancipação da classe trabalhadora, relata que a sua ausência da instituição prejudica o desenvolvimento dos trabalhos, pois afasta a ação dos seus objetivos originais. Assim, constatamos que a atenção constante ao cotidiano da instituição é, de fato, um elemento importante para a manutenção de seus valores. Mas um tempo eu perdi ela [a filosofia da escola] um pouco. Teve um tempo mesmo que eu perdi. Quando eu participei muito fora. Comecei a participar muito de coisa externa. Então, por exemplo, eu ficava dois dias, três dias fora daqui, aí eu não conseguia nem acompanhar nada, aí eu vi que isso não era bom, também. Porque quando você envolve muito em conselho, você fica muito fora. Você tem que sair quase todo dia. Você tem que ir em reunião, tem plenária, tem a comissão disso, tem a comissão daquilo. Então, você fica aí 1, 2, 3 dias fora do seu serviço. Então, você perde o contato. (Célio, 2011). 88 Então, nos perguntamos: na ausência desse sujeito, como será preservada a memória da instituição, se não há um projeto político-pedagógico formalizado, nem a formação de novos educadores ou novos líderes? Ciavatta (2005), citando Pierre Nora, destaca que, para a preservação da memória, são importantes os arquivos, os museus, bibliotecas, dicionários, coleções e até cemitérios. Tão importantes quanto esses elementos são também as comemorações, as festas, os monumentos, santuários, associações e testemunhos de um outro tempo. Não há na instituição comemorações ou festas específicas que destaquem tradições ou crenças. Restam apenas os testemunhos de outro tempo e que ocorrem em situações pontuais, de maneira informal ou relativamente formal, como acontece nos momentos de “integração” de uma nova turma. Os momentos iniciais de uma turma de alunos na instituição são chamados de “integração”. Ela pode durar um dia ou uma semana, durante o horário estipulado para as aulas, dependendo da turma, do cronograma do curso e da coordenação responsável. Assim, quando a gente entrou aqui, eles procuraram apresentar pra gente a escola, como que foi que ela fundou e como que foi evoluindo até hoje. Eles funcionam com parceria pra poder melhorar a escola, pra poder dar mais conforto pros alunos. [...] no primeiro dia, foi mais ou menos uma semana, assim, só de apresentação da escola, como que funciona e as regras daqui. (Breno, 2011). Durante a pesquisa de campo, pudemos acompanhar a integração de uma turma de informática básica. Houve, em primeiro lugar, a apresentação dos alunos entre si. O entrosamento da turma é valorizado e, para isso, são desenvolvidas dinâmicas de aquecimento e apresentação que ajudam no conhecimento de cada pessoa ali presente. Ao aluno é perguntado seu nome, onde mora, escolaridade, outros cursos que tenha feito, ou que tenha vontade de fazer, se tem filhos, se é casado(a), se estuda e onde, qual a profissão que exerce ou pretende exercer, suas expectativas com o curso, quais foram os motivos que o(a) levaram a procurar o curso ou a “escola” e quais são as suas expectativas, sonhos e desejos para o futuro. Em geral, essa atividade é realizada pelo coordenador pedagógico que usa esse momento para identificar matriculados presentes e ausentes. Os ausentes são contactados, por telefone, no mesmo dia, quando possível, para justificarem o motivo de sua falta. Essa ação permite a identificação rápida dos desistentes e o remanejamento das vagas, já que há lista de espera em todos os cursos ofertados na “escola”. 89 Após a apresentação dos alunos vem a apresentação da história da “escola”: como foi construída, em que condições, por quem, em que ano e porquê. Há ênfase na responsabilidade dos trabalhadores pela sua própria formação, para que os alunos se esforcem tanto quanto os do passado, mesmo que não façam parte da comunidade do bairro Acácia. Em seguida, ocorre a apresentação da “escola” hoje: quais os cursos ofertados no momento e quais aqueles que fizeram parte da história recente da instituição. Neste ponto, os alunos são informados sobre os horários de funcionamento do curso. São também apresentados todos os profissionais da “escola” e mencionados as formas de financiamento da instituição, a importância da preservação do seu patrimônio e o valor da participação dos alunos na manutenção e (re)criação dos espaços. Areduzida equipe de profissionais e a necessidade de convivência harmônica para o crescimento de todos também são citadas. Em relação à convivência, os alunos são informados que o portão da “escola” é franqueado à comunidade e aos usuários do espaço. Os alunos de outras comunidades são convidados a retornar e a entrar na “escola”, após o encerramento do curso, sempre que desejarem ou necessitarem, sem autorização ou aviso, num reforço à ideia de que a “escola” pertence aos trabalhadores. Em todas as turmas iniciadas durante o período da pesquisa de campo, mesmo naquelas não acompanhadas, foram apresentadas as condições da instituição com o advento da Nova Lei da Filantropia. As coordenações sempre mostraram que esse item é fundamental, devendo ser compartilhado com todos os alunos, inclusive com os novatos. Diante disso, é importante esclarecer que a instituição, mesmo sendo reconhecida popularmente como escola, revela-se vinculada à Assistência Social e não à área de Educação. Os alunos são informados sobre as questões burocráticas resultantes dessa condição, sobre o registro da instituição nos conselhos competentes e o pertencimento da “escola” à rede de proteção do SUAS. São informados também sobre os impactos sofridos na prática, como a contenção de despesas, observada na redução de pessoal e no racionamento de materiais. Os novos alunos são chamados a colaborar na manutenção da instituição e na continuidade de suas atividades. Apesar de haver ênfase no discurso sobre a condição de usuários da Assistência Social, ele é abandonado quando o diálogo passa a ser menos monitorado, com tom mais informal, em geral, nos corredores, ou quando os alunos deixam o auditório e passam a ocupar o espaço da sala de aula. Ou seja, em momentos formais são utilizados os termos instrutor ao invés de professor, aluno ao invés de usuário e entidade ao invés de escola. Também opta-se pelo uso da razão social da instituição, Associação Técnica. No entanto, no cotidiano e nas 90 relações informais os termos adotados são: professor, aluno, escola e o nome utilizado para referir-se à instituição é o nome afetivo, Escola Tia Dê. Desta forma, são apresentados aos alunos os princípios e propostas da “escola”, sem que haja qualquer registro norteador sobre eles. Assim, verificamos que existe a intenção de manutenção dos princípios que alicerçaram a criação da escola. No entanto, a ausência de um documento, como o projeto político-pedagógico, favorece a multiplicidade dos temas abordados na “integração”, nas aulas e nas atividades de um modo geral. Existe a intenção de elaboração formal de um projeto que garanta a permanência desses princípios. Intenção esta demonstrada pelas buscas constantes por consultorias externas e internas de formação de seu corpo profissional, professores e coordenadores. Scalco (1986, p. 77) revela que essa prática foi adotada desde o início, quando ele relata a parceria da instituição com a Universidade Federal de Minas Gerais para a formação de seus trabalhadores. Todavia, a elaboração de um documento que formalize as intenções da “escola” hoje é uma tarefa de difícil cumprimento. Em relatos informais, durante as observações, a coordenação conta que, por diversas vezes, deu início a um processo democrático de discussão, com a participação dos professores, para a elaboração de instrumentos formais para a “escola”, além do projeto políticopedagógico, de planos de ação, planos de ensino, planos de curso, ementas dos cursos, mas, em todas as iniciativas, as ações não foram finalizadas. Alguns motivos foram apontados para justificar a dificuldade de conclusão da tarefa, tais como escassez de tempo para realização do trabalho; grande espaçamento entre um encontro de formação e outro, já que acontecem somente no final de cada semestre, no período de férias dos estudantes; dificuldade de compreensão por parte dos professores dos componentes norteadores da elaboração do material solicitado; falta de formação acadêmica necessária; sobrecarga de trabalho; e dedicação a atividades mais urgentes do cotidiano. Dentre as razões que podem ter relação com essa questão e que podem trazer prejuízos a instituição está a dificuldade de preservação da sua memória e da sua história. Já que, como destaca Ciavatta (2005), a preservação da memória e da história de uma instituição escolar é importante para a manutenção dos seus princípios. Assim, indagamos: como fazer para preservar a memória de uma instituição, ao longo do tempo? Como interpretar as transformações do mundo do trabalho, das demandas dos trabalhadores, e da própria Educação Profissional? Como os professores e os alunos se reconhecem “em meio às contradições entre o que esperam, o que desejam e o que conseguem fazer?” (CIAVATTA, 2005, p. 11). Outra geração de trabalhadores se faz 91 presente, em outro contexto sócio político, mas, qual a importância da preservação da história da instituição para essa nova geração diante do novo contexto? Será importante manter viva a sua memória da “escola”? Caldart (2008), que estuda a Educação do Campo, mais especificamente aquela relacionada aos objetivos políticos de emancipação e de luta por justiça e igualdade social, alerta para a importância de o projeto político-pedagógico ter um diálogo permanente e estreito com a teoria pedagógica. Compreendemos que, além da necessidade de se conhecer os sujeitos que fazem parte da instituição (VEIGA, 1995) e de ter clareza dos objetivos, dos “para onde” e “para que” se realiza o trabalho (GANDIN, 2006, p. 1), é importante também dialogar com a teoria disponível, com as questões gerais da pedagogia e da educação. Sendo assim, compreendemos que, para manter um projeto político-pedagógico que dê condições de manutenção e fortalecimento de um projeto de sociedade que se deseja construir, é necessário que haja, além do acúmulo teórico, o registro com as definições claras dos sujeitos e dos objetivos. Para isso, é necessário ter clareza sobre a concepção de educação que sustenta o projeto formativo colocado em ação. Assim, discutiremos no próximo item as concepções de educação e de formação profissional presentes na “escola”. 4.2 As Concepções de Educação e de Formação Profissional Conforme demonstrado no capítulo 2 dessa dissertação, verificamos que não há na “Escola” Tia Dê uma concepção de educação conscientemente adotada e explicitada. Analisando os registros, práticas e discursos identificados na pesquisa de campo é que tentamos descobrir as concepções de educação da instituição. Elas estão presentes nas práticas, discursos, rituais, valores, etc. Permeiam todo o trabalho realizado pelos sujeitos. A despeito de não haver um projeto formal de educação, há verdadeiramente um cotidiano de práticas escolares que constituem a cultura da “escola”. Por isso, consideramos relevante mostrar os elementos que evidenciam as práticas escolares e as concepções de educação da entidade. De acordo com Minayo (1996), a pesquisa qualitativa tem uma carga histórica, cultural, política e ideológica que faz com que a análise do objeto seja bastante complexa, contraditória, inacabada e em permanente transformação. Por isso, na árdua 92 tarefa de analisar o cotidiano de uma instituição educativa, encaramos as contradições presentes no contexto do capital. A apreensão da totalidade das relações foi buscada, mas alcançada, como sempre, de forma parcial, se considerarmos os desafios temporal, experiencial e humano na realização da atividade investigativa. A lógica dialética foi buscada ao longo de toda a análise crítica. A indagação e a descoberta da realidade são “uma atitude e uma prática teórica de constante busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente.” (MINAYO, 1996, p. 23). Assim, a atividade investigativa é uma aproximação sucessiva da realidade e nunca se esgota. No exercício de aproximação da realidade e com o intuito de analisar as concepções de educação adotadas pela “Escola” Tia Dê, tomamos a referência de Araújo e Rodrigues (2011) em seu texto “Referências sobre práticas formativas em educação profissional: o velho travestido de novo ante o efetivamente novo”. O ponto de partida deste texto é a ideia de que a educação em geral e a educação profissional, em particular, constituem campos de disputa no qual predominam abordagens de dois tipos: aquelas que buscam a conformação dos homens à realidade dada e outras que buscam a transformação social. Tais abordagens consubstanciam em nossa sociedade, prioritariamente, dois projetos antitéticos de formação de trabalhadores: uma pedagogia focada no trabalho e outra pedagogia focada no capital. (ARAÚJO e RODRIGUES, 2011, p. 7). Diante destas duas abordagens, devemos identificar no nosso objeto de estudo aquela que, porventura, prevaleça em suas práticas, mas atentando sempre para a possibilidade de existirem contradições na consubstanciação e manutenção deste projeto. Além disso, precisamos observar as permanências e mudanças que possam provocar alterações no projeto original. Sendo assim, o desafio é o de identificar o projeto de Educação Profissional desenvolvido por uma instituição que tem origem nos movimentos sociais da classe trabalhadora, se diz organizada e gerida por trabalhadores e, ao mesmo tempo, é patrocinada por órgãos públicos, atendendo às políticas públicas e às políticas de governo. Frigotto (2001) alerta que, nos projetos governamentais, as propostas de Educação Profissional são subordinadas ao ideário do mercado e do capital. Desta forma, se submetem a um modelo de desenvolvimento excludente, concentrador de renda e predatório. Nesse contexto, a educação, de um modo geral, particularmente as experiências de Educação Profissional, sujeita-se a uma perspectiva de formação adestradora e de acomodação do trabalhador, ainda que se utilizem noções de cidadania, 93 de educação polivalente e de emancipação do trabalhador. Segundo Frigotto, trata-se da formação de um “cidadão mínimo, que pensa e que reaja minimamente.” (FRIGOTTO, 2001, p. 80). Esse tipo de formação se configura em uma formação individualista e fragmentária, capaz de tornar o indivíduo um mero “empregável” à disposição do mercado de trabalho. É o que Kuenzer caracteriza como inclusão excludente, ou seja, são as diversas estratégias de inclusão do trabalhador que se utilizam dos vários níveis e modalidades da educação escolar, mas que, não necessariamente, apresentam a qualidade de ensino que permite a “formação de identidades autônomas intelectual e eticamente, capazes de responder e superar as demandas do capitalismo.” (KUENZER, 2005, p. 15). No entanto, Kuenzer (2005) destaca que essas estratégias, quando adequadamente implantadas, podem favorecer a democratização das oportunidades educacionais ampliando o acesso dos trabalhadores à formação geral e, especificamente, à formação profissional. Assim, compreendemos que nem toda educação que se pretende emancipatória rompe com o modelo meritocrático, desigual e explorador, assim como nem todas as experiências que se originam na pauta do capitalismo são completamente excludentes e predatórias. Desta modo, estratégias de formação de trabalhadores, que se pretendem emancipatórias, podem ser, no que aponta Kuenzer (2005), estratégias para formar sujeitos mais flexíveis, capazes de resolver problemas novos com rapidez e eficiência, acompanhando as mudanças do mercado e se educando permanentemente. Tais estratégias são capazes de democratizar o acesso à formação, ampliar as possibilidades do trabalhador, formá-lo de maneira mais crítica e autônoma, fazendo com que se torne mais capaz de responder às demandas do mercado, de superar desafios e de se adequar às novas condições e exigências do mundo do trabalho. Ou seja, trabalhadores mais ativos e autônomos e também mais “empregáveis”. No contexto do capitalismo, as mesmas estratégias que ora parecem atender as demandas da classe trabalhadora atendem, na verdade, as exigências do capital. Com o advento da produção flexível, o aumento da competitividade econômica e a globalização, a formação profissional tem sido pressionada a se adequar às novas demandas econômicas. As formas tradicionais da formação profissional já não satisfazem a todas as necessidades de modificação do modo de produção capitalista. Atualmente, são exigidas do trabalhador “competências e habilidades que os tornem cada vez mais autônomos e capazes de responder com rapidez e eficiência aos imprevistos e desafios ocorridos no mercado de trabalho.” (OLIVEIRA, R., 2010, p. 380). Estar apto a responder ao mercado de trabalho, conforme o esperado, coloca o 94 trabalhador, de acordo com o discurso hegemônico, em uma situação de melhor empregabilidade, ou seja, delega-se exclusivamente ao sujeito a responsabilidade pelo seu sucesso ou fracasso profissional, reforçando, assim, a lógica meritocrática e individualista de inserção e permanência no mercado de trabalho. Tal aspecto tem relação direta com a lógica hegemônica neoliberal, lógica essa que os sujeitos da “Escola Tia Dê” querem romper. Um de seus fundadores relata que, na época da construção da escola, a intenção era criar um espaço diferente, onde os trabalhadores tivessem a oportunidade de refletir e discutir, de forma crítica, sobre a sua situação. Nunca quisemos formar só mão de obra qualificada. Isso sempre achei um erro, senão vão fazer Senai. Senai forma operário que só sabe ser operário, não sabem discutir um tema, não sabem discutir porque são feitos pra isso. Porque são os patrões que os educam, que os formam, que os fazem, então nunca se discutem as relações de trabalho entre patrão, não se discute o que é uma greve. O Senai é formar mão de obra, então nós nunca quisemos isso. Isso é melhor não ter. [...] Nós queríamos formar pessoas que pensassem diferente. (Pe. Gabriel, 2011). Discutiam salários, quanto que produzia um operário, quanto que cobrava por uma peça que eles faziam e quanto que ele recebia. [...] Sobre o próprio seu Bob, tinha uma família, que eram uns engenheiros da terra dele, eu acho que o exploravam miseravelmente porque ele, mestre de obras, era o único que estava lá na obra e fazia tudo, entendia muito bem de desenhos e de estrutura, ele fazia tudo lá. Era o mestre de obra só que recebia salário de pedreiro. Eles falavam que eram muito amigo, muito amigo, muito amigo, mas está lá, explorando ele, né. Muitas vezes ou até por medo de perder o emprego ficava trabalhando por um salário menor, mas com o emprego garantido. Mas tudo isso se discutia, como era a situação do Brasil, porque havia ditadura, o que era, a situação que estava a classe operária, porque perseguiam os que eram de esquerda, e toda situação, a análise da situação sócio política também. (Pe. Gabriel, 2011). Esse discurso nos mostra intenções de emancipação e libertação dos operários, voltadas para a luta de classes. A capacidade dos sujeitos de se inserir nas relações sociais e sobre elas refletir através dos conhecimentos provenientes dessa interação possibilita a realização de uma educação que se pretende emancipadora. Araújo e Rodrigues, baseados na tese gramsciana, afirmam que a educação se dá tanto pelo conteúdo quanto pelo método “entendidos como os conhecimentos oriundos do trabalho humano e a capacidade de se aprender a se apropriar desse conhecimento pela disciplina e autogestão.” (2010, p. 32). Verificamos, no caso da “Escola” Tia Dê, que a construção material de seu espaço de formação profissional e humana permitiu aos trabalhadores a 95 construção, também, de sua capacidade de autogestão, por meio da realização de seu trabalho. Deste modo, identificamos uma educação que não qualificava somente para o mercado de trabalho, mas para a vida, numa perspectiva coletivista e emancipadora. Todavia, se considerarmos as transformações ocorridas com as ONGs nas últimas décadas, citadas no capítulo 2 dessa dissertação, reconhecemos que, situada em novo contexto sócio histórico e político e premida pelas questões financeiras, mudanças de valores podem ser percebidas na forma atual de organização do trabalho da instituição. Outrossim, ao considerarmos os sujeitos, além das questões materiais, como importante elemento da cultura da escola devemos questionar: ao mudarem os sujeitos, mudam também os valores? Entretanto, ainda existem sujeitos que fizeram parte da construção e consolidação da instituição, que realizaram trabalho voluntário e se envolveram com as lutas da comunidade e com a emancipação dos trabalhadores. Vivenciaram o embrião da escola ainda no porão da igreja e têm por ela uma atitude diferenciada. A forma como esses sujeitos participaram da construção da escola, mesmo que tenham ingressado como profissionais, anos depois, tem influência sobre o modo como participam dela hoje. A sua atuação favorece a manutenção de uma concepção de educação coerente com os princípios que nortearam a sua construção. Alguns depoimentos ilustram o início da relação desses trabalhadores com a instituição. Eu dava aula nessa área de formação humana, eu dava aula de matemática, tudo que aparecia eu dava de aula. Tudo era voluntário. E o pessoal na área técnica trabalhava com a parte técnica. Então, aí, em 83 eu comecei aqui. A gente começou muito precário aqui. Só tinha o prédio, não tinha mais nada. Não tinha máquina nenhuma, não tinha uma carteira, não tinha nada. (Célio, 2011). Bom, a minha história com a Tia Dê começa desde a adolescência mesmo. A minha família veio do interior pro bairro Acácia e a minha mãe, sempre muito religiosa. O sonho dela era trabalhar na comunidade. E isso, graças a Deus aconteceu. A família sempre foi assim, aonde os pais estavam os filhos estavam todos juntos. E eu, como adolescente estava sempre envolvido nas atividades da comunidade, participando de grupos de adolescentes, da catequese, do grupo de jovens. Depois de um tempo, dessa adolescência pra juventude eu me vi voltado um pouco pra questão vocacional. Fiquei um pouco mais ligado com os padres daqui da comunidade. E esses padres, na realidade, eles tinham um trabalho importante, porque eles tinham essa visão de melhorar a vida dos pais da comunidade pra que os filhos pudessem ter uma condição boa. E essa ideia, no meu ver, é que surgiu, na realidade a escola. Por meio do padre Gabriel e pela associação de bairros. E a gente como filhos dessas pessoas que estão ali envolvidas, a gente participou também. (Sebastião, 2011). 96 Eu vim parar aqui, moleque. Quando o meu primeiro contato com essa escola aqui nesse prédio, porque ela não começou aqui, né? Como você deve saber, que ela começou lá na igreja. Mas, eu vim pra cá pra fazer um curso de torneiro mecânico. Eu morava aqui no bairro na época, né. (Fábio, 2011). Confrontando os depoimentos de Célio, Sebastião e Fábio com os de Sâmia, Arlen e Breno, observamos que a relação estabelecida com a instituição foi bastante diferenciada. A história da “escola” faz parte da história de vida dos três primeiros, o que pode influenciar no envolvimento e no comprometimento com a manutenção dos valores e da concepção de educação que deram origem à “Escola” Tia Dê. Em contrapartida, outros e novos valores são introduzidos no cotidiano da formação de trabalhadores na medida em que ingressam novos profissionais, oriundos de outras comunidades, outras realidades, outra condição socioeconômica. Esses novos valores são revelados no discurso de uma professora que está na instituição há dez anos, não participou de sua construção, tampouco tem qualquer relação com a comunidade, ou mesmo com a região, já que veio de outro município. Ao relatar a conversa que teve com seus alunos em uma aula de Formação Humana, a professora afirma que quem tem sucesso, hoje, é por merecimento. É pra quem realmente pode, correu atrás, estudou, conquistou, não é pra gente que tá acomodado. (Amanda, 2011). E quanto ao trabalho que é realizado, encara-o como uma forma de ajuda humanitária com o objetivo de minimizar os efeitos da pobreza. [nosso trabalho é] ajudá-los, né. Na verdade a gente tá ajudando. [...] Se pegar um adolescente, da forma que você trabalha, você pode tirar ele desse risco que ele envolve o tempo todo? Pode. Você pode criar uma expectativa diferenciada pra vida desse pessoal que a gente trabalha? Pode. Então, isso de uma certa forma, com todo esse problema social que a gente tem, ajuda a minimizar. Pelo menos é assim que eu vejo uma ONG. (Amanda, 2011). E, quando questionada sobre a relação que estabelece com os alunos, a professora responde: Então, assim, o negócio é, chegar, começar, dar uma aula, conversar, tiau. Vai embora. (Amanda, 2011). A exposição de uma concepção de educação na lógica das competências, com referenciais burgueses, aceita a ideia de cidadania como ajuda ao cidadão de “segunda 97 classe” (OLIVEIRA, I., 2003). Também evidencia a ausência de registros formais, debates e formação continuada em relação à concepção de educação que mantenha os princípios e valores que deram origem à escola e que ainda fazem parte do discurso de parte de seus educadores. Apesar de uma concepção de formação crítica e emancipadora estar presente nos seus primórdios e ainda nos discursos de alguns profissionais, a mesma é sutilmente percebida nas práticas dos dias atuais. Mesmo aqueles professores com postura mais crítica acabam por revelar em seu discurso e em sua prática o discurso hegemônico. A situação relatada abaixo pode ser observada em mais de uma turma e em situações distintas, revelando que é, de fato, um valor no qual o professor acredita. Eu falo assim: como você acha que seu pai ficou tanto tempo dentro de uma Fiat, de uma Mannesmam, de uma Belgo? Você vê que a história do seu pai lá, é de 20 anos dentro da Magnesita, 20 anos dentro da Fiat. Você acha que seu pai durante esse tempo ele teve sempre só coisas boas dentro da empresa? Você acha que dentro desse período, como diz o outro, ele teve vontade de largar tudo e sair fora, chutar o balde? Mas o que levou ele a ficar tanto tempo, tantos anos ali? É porque ele soube trabalhar dentro de si essa questão da formação humana. Essa questão de saber relacionar com o outro. Porque se ele não souber como fazer isso, como superar todas as dificuldades que ele ia ter ali dentro, ele não ficaria. Tanto que a pessoa que não tem esse controle, esse domínio, essa coisa trabalhada dentro de si, automaticamente ele não fica dentro da empresa. (Sebastião, 2011). Se antes trabalhar a formação humana era uma forma de buscar a libertação da classe trabalhadora, atualmente, conforme observamos no discurso acima, está mais presente a formação humana do trabalhador para a conformação ao mercado de trabalho. Saber se relacionar para se manter no emprego e para saber conversar com um supervisor ou encarregado é um valor ressaltado. Se eu for uma pessoa muito tímida, eu vou ficar no meu canto e eu vou deixar de conversar com o meu encarregado, com o meu supervisor, eu vou deixar de mostrar pra eles aptidões e habilidades que eu tenho comigo e que poderia ser utilizado dentro do meu setor de trabalho. Mas se a minha timidez for tão grande, ele não vai saber que eu sei fazer certas coisas e eu vou deixar de crescer dentro da empresa. E isso a gente vai colocando ao longo do curso, a gente vai discutindo até mesmo dentro de outras disciplinas. (Sebastião, 2011). Para Frigotto (2001), o projeto do capital é um projeto de educação e de sociedade que apresenta como horizonte [...] a educação geral e, particularmente, a educação profissional vinculada a uma perspectiva de adestramento, acomodação, mesmo que se utilizem noções como as de educação polivalente e abstrata. [...] Trata-se de uma 98 formação numa ótica individualista, fragmentária – que sequer habilite o cidadão e lhe dê direito a um emprego, a uma profissão, tornando-o apenas um mero “empregável” disponível ao mercado de trabalho sob os desígnios do capital em sua nova configuração. (FRIGOTTO, 2001, p. 80). Esse discurso do capital é aceito pelos trabalhadores como verdadeiro e, na medida em que se torna mais legitimado pelas práticas da classe trabalhadora, mais evidencia a sua hegemonia. Segundo Kuenzer (2005), existe uma ambiguidade nos discursos e práticas da Educação Profissional que tem levado muitos a acreditar que as novas demandas do capital vêm ao encontro das demandas dos trabalhadores, contemplando os seus interesses e necessidades do ponto de vista da democratização. O capital se apropria do discurso pedagógico que fala da formação do homem em todas as suas dimensões de integralidade com vistas à politecnia, a superação da fragmentação do trabalho em geral, e em decorrência, do trabalho pedagógico, o resgate da cisão entre teoria e prática, a transdisciplinaridade, e assim por diante. (KUENZER, 2005, p. 2). Assim, Kuenzer (2005) afirma que é importante estabelecer os limites que diferenciam os interesses do capital daqueles de uma pedagogia realmente comprometida com a emancipação humana. Para além dos discursos estão as práticas, que evidenciam os verdadeiros interesses que os regem. Os depoimentos dos estudantes da “Escola” Tia Dê evidenciam um sentimento de libertação e de evolução, dentro do seu campo de possibilidades. Os alunos entrevistados se mostram satisfeitos com os resultados obtidos com a formação adquirida na “escola”. Afirmam também que notaram em si uma mudança depois que começaram a fazer parte da “escola”. A Tia Dê pra mim foi um jeito de eu mesma me conhecer. [...] Então, a Tia Dê, com as pessoas que tem, me deu esse espaço de eu me autoconhecer e de mostrar pras outras pessoas como é que eu sou, de me soltar mais, porque antes eu era muito presa. (Andrea, 2011). Assim, normalmente, de todos os alunos, olhando assim, cada um entra aqui de um jeito e acaba saindo totalmente diferente. Normalmente no primeiro dia nós entrávamos aqui um pouco atrasado, faltando cinco minutos. Faltando cinco minutos não, já tivesse passado cinco minutos. Atrasado mesmo. Assim, depois que já teve umas duas semanas aqui, muda. Mudou muito. Igual, quando a gente entra aqui, o que eu posso falar é isso, sai totalmente diferente do que era. Tem mais responsabilidade, já ta mais ciente pro mercado de trabalho. [...] Igual eu falei antes, entrou aqui de um jeito e vai 99 sair de outro. Porque já tem responsabilidade, 3:10 dentro da sala, não é 3:11 não. (Breno, 2011) Vimos que o discurso empenhado pelos professores, representado pelo depoimento do professor Sebastião, é corroborado pelo depoimento da aluna Andrea, que se diz em melhores condições para dialogar e mostrar aos outros quem ela realmente é. A superação dos seus próprios limites e a maneira como o aluno se apresenta no mundo do trabalho são valores que estão incutidos nas práticas e discursos da “escola”. Esses discursos e práticas devem ser valorizados na medida em que melhoram as condições de autoestima dos alunos/trabalhadores e podem torná-los mais seguros para se inserir e/ou se manter no mercado de trabalho. Todavia, não se pode desprezar a carga de ideário hegemônico embutida nesses discursos. O que podemos observar no cotidiano da “escola” é uma busca pela “empregabilidade”, o que faz com que o mesmo sujeito retorne várias vezes à instituição para fazer diferentes cursos, inclusive em áreas distintas, sem conseguir a sua inserção no mercado de trabalho. A responsabilidade pela não inserção é atribuída ao próprio sujeito que, mesmo fazendo vários cursos, não consegue uma colocação profissional. Se você pensar que o aluno da Associação ele faz o curso de Tornearia, daqui a pouco ele tá lá em Elétrica. Se bobear depois ele tá lá em Montagem e Manutenção. (Amanda, 2011). Frigotto (2001) denomina esses indivíduos como “requalificáveis”. Ou seja, a responsabilidade social do Estado sobre esse sujeito é deslocada para o plano individual, fazendo com que o indivíduo, sem perspectiva de emprego ou de carreira, parta para uma busca infindável de procura de emprego, sem sucesso. Em função de seu “fracasso” ou “incompetência” em determinadas áreas, buscam outras, a fim de conseguir a desejada colocação no mercado de trabalho. Assim, não se trata aqui de propiciar qualificações amplas e duradouras aos trabalhadores. O conjunto de ideias políticas, sociais, econômicas, etc, que permeia esse sistema, tende a continuar perpetuando uma divisão social e técnica do trabalho, imprescindível para a manutenção e sobrevivência do próprio capital, que necessita de mão de obra sempre disponível e de acordo com o projeto do capital. A configuração da escola brasileira, destinada aos trabalhadores, tem sido constituída em conformidade com essa perspectiva. A classe trabalhadora, destituída dos meios e objetos de 100 produção, tem acesso “a uma educação que lhe propicia tão somente os requisitos mínimos para ‘manusear os parafusos da fábrica’, alijando-os de uma formação integral” (ARAÚJO e RODRIGUES, 2011, p. 11). Diante do quadro apresentado em relação à concepção de educação e ao projeto de EP observados na instituição, tentaremos expor questões relacionadas ao currículo por ela adotado. 4.3 O Currículo Em relação ao caso estudado, difícil falar sobre projeto político-pedagógico sem que mencionemos o currículo, que expressa a confluência das práticas adotadas pela instituição. Sacristán (1998) distingue tipos de currículos: o currículo prescrito, o apresentado, o moldado, o realizado e o avaliado. O currículo prescrito trata das prescrições e/ou orientações adotadas como consequência das regulações a que todo sistema educativo é submetido. O currículo prescrito serve como uma referência para a elaboração de materiais, bem como para o controle do próprio sistema. Ele está vinculado ao funcionamento e organização de cada sistema e política escolares, dando lugar a esquemas variáveis de intervenção; sendo assim, varia de um país para outro. A série de meios e formas como são traduzidas as orientações e conteúdos do currículo prescrito é chamada de currículo apresentado aos professores. O currículo apresentado tem a função de interpretar as prescrições, que, em geral, tendem a ser demasiadamente genéricas e insuficientes para orientar a atividade educativa nas aulas. Para melhor desempenho do professor, considerando o seu nível de formação e as condições de seu trabalho, é que o currículo prescrito é apresentado de uma forma capaz de tornar o seu fazer mais direcionado e prático. Um instrumento comumente utilizado para apresentar o currículo prescrito ao professor é o livro-texto. O professor, como agente ativo e decisivo na efetivação dos significados e conteúdos dos currículos, molda o que lhe é apresentado. Para isso, ele empresta sua cultura profissional e suas referências a toda e qualquer proposta curricular que lhe é encaminhada, seja por meio da prescrição administrativa do conteúdo, ou dos materiais didáticos aos quais tem acesso, livros-texto, apostilas, guias, entre outros. O professor se torna uma espécie de tradutor dos conteúdos e intervém na configuração e significados 101 das propostas curriculares elaborando um plano de ensino, que entendemos como uma programação. Essa forma de currículo é reconhecida como currículo moldado pelos professores. “Os professores podem atuar em nível individual ou como grupo que organiza conjuntamente o ensino. A organização social do trabalho docente terá conseqüências importantes para a prática.” (SACRISTÁN, 1998, p. 105). Na prática, quando são concretizadas as tarefas acadêmicas, orientadas pelos esquemas teóricos proferidos pelos professores, há o que chamamos de currículo em ação. Esse tipo de currículo sustenta a ação pedagógica, pois nela pode-se notar o significado real do que sejam as propostas curriculares. Ou seja, o currículo em ação representa uma condensação do que foi filtrado do currículo prescrito e do currículo apresentado aos professores e por estes moldado. Assim, no currículo realizado é dado o sentido real do que se deseja do currículo. É o mecanismo pelo qual o currículo se transforma em método. A ação praticada pelos professores no momento do ensino produz uma consequência que traz consigo efeitos complexos: cognitivo, afetivo, social, moral, etc. Esses efeitos, por vezes, são considerados “rendimentos” do sistema de ensino ou dos métodos pedagógicos. São produtos advindos do currículo realizado. No entanto, há outros efeitos que permanecem ocultos do ensino, por serem complexos e indefinidos – e, justamente por isso, exigirem maior sensibilidade para a sua percepção – ou mesmo por serem de médio e longo prazo. As aprendizagens dos alunos são consequências do currículo e afetam igualmente os professores, interferindo na sua forma de socialização profissional e no modo como se projetam no ambiente social e familiar. Por fim, temos o currículo avaliado, que pode estar coerente com as propostas prescritas, apresentadas ou moldadas pelo professor ou pode ser desconexo dos propósitos tanto de quem prescreveu, quanto de quem apresentou os conteúdos, e até mesmo dos objetivos que o professor tem em mente. O currículo avaliado, enquanto mantenha uma constância em ressaltar determinados componentes sobre outros, acaba impondo critérios para o ensino do professor e para a aprendizagem dos alunos. (SACRISTÁN, 1998, p. 106). Através do currículo avaliado, os significados da aprendizagem dos alunos são reforçados. Para estes, desde a sua mais tenra experiência de escolarização, há a preocupação com a valoração dos resultados alcançados. “As aprendizagens escolares 102 adquirem, para o aluno, [...] a peculiaridade de serem atividades e resultados valorizados.” (SACRISTÁN, 1998, p. 106). O currículo avaliado é uma forma de controle do saber, do ensinado e do aprendido. Essa forma de controle é inerente à função social da educação e provoca, dentro dela, uma estratificação a partir dos valores obtidos com a avaliação. Mesmo em práticas educativas cujo objetivo não é a seleção ou hierarquização dos alunos, o controle do saber é verificado por meio de formas de avaliação. Cada um desses níveis do currículo oferece diversas possibilidades de análise, estudos e pesquisas. No entanto, nos deteremos em analisar o currículo colocado em ação pelos professores, pois foi aquele melhor evidenciado durante a pesquisa. Em geral, a instituição que prescreve os conteúdos, métodos e formas a serem praticados é a Prefeitura de Belo Horizonte. Todos os cursos ofertados pela “escola” e financiados pela Prefeitura são divididos em conteúdo específico, disciplina de Formação Humana, raciocínio lógico matemático e leitura e interpretação de textos. Para os cursos da área de atendimento, são acrescidas as disciplinas LIBRAS e informática aplicada. Por vezes, as prescrições são questionadas e colocadas em cheque no plano da ação dos professores, o que permite um debate ativo sobre as mesmas, provocando, inclusive, alteração das prescrições. O relato abaixo descreve o incômodo da “escola” diante das prescrições e a decisão de acatá-las para, só após a execução dos cursos conforme o prescrito, questioná-las. Então decidimos, vamos seguir com a cartilha da prefeitura, tal como ela dita e depois a gente abre esses momentos para discussão. Tanto que hoje a gente ta com uma abertura maior. Então já tem curso, por exemplo, que dentro até desse último chamamento [público]23 que saiu foi proposta nossa. A gente mandou pra eles o funcionamento do curso aqui e eles copiaram. Achei até super engraçado, eu peguei a minha caixinha [de armazenamento de materiais do curso] para ver quais eram os instrumentos que a gente tinha e eles colocaram exatamente a quantidade que a gente tinha mandado pra eles: 11 réguas de 30 cm, 15, quer dizer numa turma de 20 alunos não precisaria ter 11 réguas, podia ser 10, né, que cada dupla usava uma. Eu achei até engraçado. [...] Copiaram: ctrl C, ctrl V. Quer dizer, hoje já tem essa negociação maior. Na última reunião o Mário [técnico da Prefeitura, que faz a supervisão e acompanhamento dos cursos na instituição] falou assim “Oh! No ano que vem a gente quer pegar torneiro com vocês”, mas aí vai ter que ter uma duração melhor, porque curso de 200h pra gente não funciona não. “Não, a gente vai negociar, sim. Vai negociar.” Estamos fazendo frente. A gente também colabora, embora seja extremamente moroso. O PMQ é de 2007, então, hoje [que] a gente tem um pouco de abertura. (Sâmia, 2011). 23 Instrumento público utilizado para localizar instituições aptas a realizarem determinada atividade dos recursos financeiros do município. Em geral, os chamamentos públicos do município de Belo Horizonte são publicados no Diário Oficial do Município (DOM) e apresentam os critérios e condições para a escolha de entidades. 103 O campo de ação dos professores permite que organizem os conteúdos de forma dispersa. Não há orientações claras sobre essa organização, materiais de referência ou mesmo estudos prévios, mas, ao mesmo tempo, organizam os conteúdos de forma encadeada com a realidade em que vivem. Estão atentos às produções do mercado, às exigências das empresas, pesquisam em sites e materiais didáticos de escolas como o SENAI. O currículo que se realiza é produto de uma série de influências sucessivas, algumas vezes coerentes, outras contraditórias. Sem a orientação explícita de um projeto político-pedagógico ou de um projeto de formação profissional, as práticas são resultado de experiências anteriores, da formação do sujeito, de sua trajetória profissional e de vida. Os professores têm como referências, não raro, parentes e pessoas próximas, que foram (ou são) trabalhadores da indústria, para construir o conteúdo de suas aulas. No entanto, apesar do discurso de uma formação diferenciada, o que se observa é a busca do que as empresas desejam. Não se trata da construção de um currículo a partir do interesse dos trabalhadores, mas a partir do interesse do Estado, como financiador, e do capital, como contratante dessa mão de obra. Assim, se o currículo sofre influência de requisitos de formação para a emancipação do trabalhador, contraditoriamente também se baseia em referências de escolas orientadas pela lógica do capital. Os conteúdos são definidos pela coordenação. [...] Existe a reunião pedagógica, a gente faz a reunião pedagógica e é definido dentro da reunião pedagógica, levando em conta que o quê? As pesquisas que a gente faz. Quais os, ensinamentos, o quê que ta cobrando. O quê que as outras escolas lecionam, pedem... faz uma pesquisa e a gente trabalha. [...] A gente consulta o Senai, entra na Fiemg [no site], consulta até mesmo o cronograma da Polimig. (Arlen, 2011). Por meio do currículo concretiza-se algo num processo complexo de construção, desconstrução, transformação. O currículo é a expressão de um equilíbrio entre múltiplos compromissos, por isso, não pode ser analisado como um objeto estático, mas em constante movimento. Entendê-lo é condição essencial para compreender a prática escolar vigente, assim como as possibilidades de mudança (SACRISTÁN, 1998). Sacristán reitera que a compreensão sobre o currículo é algo que se constrói em uma intervenção ativa e explicitamente discutida em um processo aberto de deliberação por parte dos participantes da prática escolar: professores, alunos, pais, grupos sociais, 104 etc. Dessa forma, evita-se que a sua construção seja mera reprodução de decisões tácitas. Na Associação Técnica, observamos um processo de discussão dos conteúdos e carga horária dos cursos entre professores e coordenadores, no intuito de atingir um patamar razoável de viabilização da prática educativa. O currículo dos cursos da Prefeitura é determinado previamente pela própria instituição pública. No entanto, há a discussão sobre como será colocado em prática. Em momentos específicos, as reuniões pedagógicas são utilizadas para a definição de conteúdos e carga horária, em geral, quando há alterações do currículo prescrito pela Prefeitura ou mudança de carga horária. Então a gente vai discutindo muito com os professores. Como é que pode organizar, que tempo a gente vai ter, por exemplo, a gente já chegou a ter 90h de aulas de cálculo, devido a dificuldade que o aluno tem. Depois foi pra 60, depois para 120, então, tudo é muito discutido. [...] Esse ano a gente botou 60, porém a gente resolveu que faz um mini curso no início do ano para a matemática básica. [...] Por exemplo, nos cursos da prefeitura [...] tem que ter comunicação escrita e verbal, tem que ter raciocínio lógico, tem que ter gestão para o trabalho [está incluído na disciplina de formação humana]. Aí eles falam que essas duas aqui, no caso dessas duas aqui, tem que ter no mínimo de 20 a 30 horas. Inclusive, de um edital para o outro isso muda. Tem edital que fala que tem que ser 30 horas, tem outros que fala que é de 20 a 30, tem outros que fala que é de 20 a 40. (Sâmia, 2011). Para os cursos realizados com recursos próprios avalia-se, de um ano para outro, os resultados obtidos e quais as alterações necessárias. Todavia, o número reduzido de profissionais dificulta um debate mais aprofundado sobre questões específicas ligadas a cada curso. Isso pelo fato de possuírem formação diversificada, o que desfavorece uma maior aproximação entre os professores para discussões pedagógicas. Em geral, as grandes discussões são realizadas em torno da participação e do comportamento dos estudantes, da carga horária dos cursos e da distribuição de tarefas. Na verdade, por exemplo, vou falar mais da parte de mecânica e elétrica que eu acompanhei mais tempo, da prefeitura já tem uma formação diferente. Das outras disciplinas eu não sei, porque tem uma formação diferente. Quando eu entrei aqui a gente tinha uma organização bem diferenciada, então a gente vai discutindo muito com os professores. [...] Aí, a gente pensou, no início a gente pensou em trabalhar com um professor. Na prática era um professor que dava, e, na tecnologia [disciplina teórica de conteúdo específico do curso] era outro, mas aí não dá certo. O cálculo e a prática podem ser professores diferentes, mas a tecnologia e a prática não dá certo não ter o mesmo professor, porque eles têm que falar a mesma língua. Aí chega lá na prática o aluno fala “Eu não aprendi, que termo é esse em tecnologia?” Aí o professor [fala] “Mas eu ensinei.” Aí a gente fica [pensando] “Quem que 105 ensinou, quem não ensinou, afinal de contas?” Então é muito discutido. Agora, no caso do curso da prefeitura, aí sim, tem um marcação bonitinha já, né. (Sâmia, 2011). Apesar de haver dificuldades para a discussão de questões relacionadas às especificidades dos cursos, há o favorecimento de um ambiente de interação e troca incentivado pela coordenação. Os coordenadores reconhecem que, mesmo havendo um clima amistoso entre os professores, as discussões pedagógicas entre eles são restritas, talvez pela dificuldade de expor ao outro suas limitações e fragilidades, conforme relatou um coordenador pedagógico. Porque é o que eu falo, a gente procura criar um clima de cooperação mesmo, né! E tem certas coisas que a gente, eu, particularmente, procuro estimular que é essa troca. [...] Mas não é todo mundo que pensa isso, não é? Então, às vezes, tem gente aqui que eu posso chegar, mas tem gente que eu não posso, entendeu? Porque, ele vai achar eu tô fazendo qualquer coisa lá, menos querendo ajudar. [...] Tem gente que faz isso numa boa, tem gente que não faz. É porque mexe com a pessoa. [...] Aí, você mexe com a autoestima da pessoa, entendeu? (Fábio, 2011). Para tentar dar conta de uma formação diferenciada, a disciplina denominada Formação Humana, de acordo com os entrevistados, tem grande destaque dentro da “escola”. Segundo eles, essa disciplina é o grande diferencial de formação do sujeito e materializa boa parte daquilo que intencionam. As orientações conferidas à disciplina se distinguem entre as diversas coordenações, mas servem como referência para a sua execução. Pra mim, na verdade, seria a disciplina que daria uma linha da escola. Uma linha no sentido até político. No sentido assim, de trabalhar questões, podem ser questões políticas, questões ambientais, todas essas questões que é importante pro aluno se tornar um cidadão que tenha mais conhecimento. (Célio, 2011). Quando eu trabalhava essa disciplina, focava muito na questão das relações, a cidadania sempre permeia. Um norteador que eu posso dizer é a cidadania, sempre a gente vai trabalhar a questão de direitos e deveres, ética profissional também faz parte e meio ambiente. Então esses três tópicos a gente definiu para passar em todas as turmas. Mas no mais varia muito, é questão de necessidade da turma em questão de aparecer um tema interessante. (Sâmia, 2011). Os temas da formação humana, a orientação é assim, é que eles deveriam tentar abranger alguma especificidade do curso. Ter alguma coisa do curso. Tem algumas coisas que são globais, tipo, a gente acha que é importante fazer essa discussão a respeito de valores, porque a gente vive uma crise de valores muito grande hoje, né. Então, pra tentar resgatar isso é uma coisa que perpassa, assim, qualquer outra coisa, né. É, por exemplo, é pra você tentar, você pode tentar ver algumas coisas, tipo, no curso de montagem e 106 manutenção de computadores a gente vai trabalhar ética, sei lá. Onde que eu posso, é... buscar elementos dentro da área da informática, que eu posso trabalhar com a ética, por exemplo. E é assim, com os outros cursos. E com outros temas também. Isso não acontece sempre, não. A gente percebe que isso não acontece sempre, não. (Fábio, 2011). Todavia, observamos na descrição da disciplina, colocada em prática pelos professores, uma diversidade de finalidades e de temas que merecem ser apresentados. O objetivo da nossa instituição é oferecer aos nossos alunos a formação específica do curso, juntamente com a formação humana. Essa formação humana é no sentido de ajudar aquele aluno a ser um cidadão atuante na comunidade em que ele vive, ele não ficar a margem das discussões políticas, ele procurar mesmo interagir com o meio onde ele está, e não somente vir aqui e fazer o curso, ir embora, ah, aconteceu uma greve, aconteceu um problema, ah, isso é problema dele. Não, ele está inserido naquele contexto. (Maria, 2010). O conteúdo é específico, ele é único. Ele não muda. Você segue a norma da ABNT e tranqüilo. Mas o que fazer para ser melhor? Porque só ser um técnico ali, a norma e só isso? Aí a gente trabalha sempre nessa área, é a questão da formação humana. Então esse conhecimento eu acredito que ele vem juntamente de um curso, juntamente de um estudo de um ano e meio e depois eu fiz mais um de dois anos, agora estou na faculdade. Então assim, ajuda muito o conhecimento. Mas eu acredito que esse conhecimento ele tem que ser adaptado. Se ele não for adaptado juntamente com essas diferenças sociais, a gente não consegue encantar, não consegue buscar o aluno para dentro da matéria, pra dentro da disciplina, na época que estiver trabalhando. Então eu acho que é dessa forma que o conhecimento vem. (Vantuir, 2010). O conteúdo, geralmente o conteúdo me parece que já tem uma meta, ou seja, o que eles já querem que a gente trabalhe com os alunos. No caso da prefeitura, você trabalha, por exemplo, dentro da Formação Humana, no geral é tudo relacionado, mas as vezes a gente trabalha a questão de segurança do trabalho, que é aquela questão que eu já coloquei. A gente trabalha a questão do meio ambiente, a gente faz algumas atividades aqui, uma coisa que sempre eles pedem pra gente trabalhar é essa questão dos vírus que vão surgindo ai e que requerem uma atenção da gente em termos de contaminação, né. é... H1N1, até porque o nosso ambiente é propício pra isso. Nós estamos constantemente em contato com o teclado, sai uma turma entra outra e toca os equipamentos, então... e a gente vê também um pouco sobre a questão trabalhista. A gente discute muito a questão da realidade, às vezes algumas coisas que acontecem na sociedade a gente traz pra sala pra discutir. Por exemplo, essa questão mesmo da greve dos professores, é uma situação que é trabalhada dentro da formação humana também. Nós trabalhamos muito a própria questão da ética. As aulas até nessa turma a gente discutiu um pouco essa questão ética. A gente discutiu um pouco a ética pessoal e discutiu também a ética cível, cívica. Porque a gente tem que colocar pros alunos, pros alunos adolescentes, eles discutem isso até na própria escola, mas eles não discutem de uma forma que eles entendam bem a questão da ética no sentido pessoal e no sentido cívico. Aí a gente discutiu isso aí essa semana que passou também. Ficou bem claro, acho que pela discussão e pelo que aconteceu durante as aulas, eles entenderam o que é uma e o que é outra. Onde cada uma ali se encaixa. (Sebastião, 2011). 107 Eu já trabalhei há muitos anos atrás, eu era instrutora de formação humana de tornearia. eu trabalhava com tornearia, elétrica, mecânica. Eu trabalhava Formação Humana. Muita coisa mudou daquela época pra cá? Mudou. Mas pelo menos assim, o que eu gosto de enfatizar e essa questão dos valores. É uma disciplina, não isolada, mas uma das primeiras a se trabalhar. Trabalhar essa questão do cooperativismo, do respeito logo nos primeiros dias. Dinâmicas de grupo, se é cooperação, por exemplo, tem escravos de jô que dá pra trabalhar. Tem a questão de respeito, foi o que eu trabalhei nessa turma agora, tem uma bonequinha que o pessoal guarda pra dinâmica, e eu pedi que eles se apresentassem e fizessem algum gesto ou enfim, uma fala, enfim que se comunicasse com a boneca. Cada um fez o que pensou fazer e no final a dinâmica era fazer o que você fez com a boneca com o colega da direita. Aí, quando é com o colega, ficaram meio tímidos, ai eu quis falar justamente essa questão do respeito, também objetos inanimados, também porque não é porque é um objeto que você vai poder fazer, agir, acontecer de uma forma que não convém e tal. O procedimento e tal, ferramenta. E depois, também a gente trabalha a questão de cidadania, direitos e deveres do consumidor, direitos e deveres do trabalhador, essas linhas mais de direitos e deveres. O mercado de trabalho também, que é um tema atualíssimo. Todo ano dá pra trabalhar porque tem sempre uma colocação, uma formação nova. Então, são esses temas. (Lívia, 2011). Ah, formação humana! Aí também depende. Falar que eu faço tudo igual é mentira. Eu até uso alguns temas iguais, mas tudo igual, não dá. Elétrica é um público diferente de tornearia. Então, por exemplo, você trabalha com responsabilidade social na tornearia, mas eu não trabalho em elétrica. Porque... é... o público é muito diferente. Eu busco temas que estão assim, mais próximos da realidade deles. Por exemplo, solidariedade, cidadania, essas coisas assim, [...] eles são mais pacientes. [...] quer dizer, paciente entre aspas, né. (rs...) Porque falar de formação humana é igual falar assim “Amanda, você tem religião na administração.” Então, o professor ele tem que fazer, ele tem que ser bom, porque se ele não for bom o pessoal fica contando nos dedos as faltas, pra poder ter frequência. Então, assim, eu tento mesclar. Se você pensar que o aluno da Associação Técnica, ele faz o curso de tornearia, daqui a pouco ele tá lá em elétrica. Se bobear depois ele tá lá em montagem e manutenção. (Amanda, 2011). O convívio com a sociedade, as leis que regem a CLT, que fazem parte do dia a dia deles, e... é... as normas que tem que ser seguidas. Então eu acho que é o geral da sociedade da porta da escola pra fora, porque quando ele encontrar... ele vai falar “agora eu sou um profissional, eu não sou mais aluno, não sou mais um usuário da Associação Técnica. Quando ele sair do portão pra fora ele vai encontrar um mundo todo aberto pra ele. Então a gente procura trabalhar esse aluno pra lá fora ele não depender mais do Arlen, do Vantuir, da Sâmia, apesar que ele sempre volta, mas a gente procura trabalhar isso (...) pra que ele seja bem recebido pela sociedade. (Arlen, 2011). O nosso forte lá é a Formação Humana, o que a gente trabalha em Formação Humana, a gente prepara o sujeito pra vida, a gente não ensina ele a ser só um torneiro, a executar uma tarefa uma peça num determinado período não, a gente dá a base pra ele ter uma visão mais ampla pra ele ter uma noção das coisas que acontece ao seu entorno, e de certa forma poder tá interferindo, poder tá mudando um pouco essa... essa sociedade que ele vive... então ele pode estar contribuindo, e isso a gente trabalha dentro da Formação Humana, no qual a gente trabalha as relações humanas...o direito do cidadão, o direito do consumidor, a gente trabalha a questão de...sociedade de classe, bom... todo o programa tá aí, [...]. (Tom, 2005). 108 Na tentativa de minimizar a diversificação presumida em relação à realização destas aulas, alguns professores foram destacados para assumir, além das suas aulas específicas, também as aulas de Formação Humana. A escolha destes professores se deu de maneira mais ou menos aleatória, por tentativa e erro, e de acordo com a disponibilidade do mesmo para assumir mais turmas. Isto conforme o número de horas aulas já trabalhadas. Nem sempre esses profissionais sentem-se confortáveis para realizar essa atividade. Sobre isso um professor relatou uma situação vivenciada pelo colega, Vem um e fala “Você vai dar essa disciplina.” Ele não quer saber se você tá preparado ou não. Bom, se não tem outro jeito, estressar pra quê. Vamos ver o conteúdo e eu estudar esse conteúdo e dentro daquilo que eu puder, eu vou fazer. E eu sempre procuro fazer, eu estou aqui eu procuro passar e tentar fazer o melhor pro aluno. [...] Esse ano mesmo teve situação. Eu tava ministrando a disciplina raciocínio lógico e leitura e produção de texto. Tanto que nem leitura e produção de texto eles tiraram de mim, continuou deixando. E o outro colega tava trabalhando formação humana e ele mesmo colocou “não. Essa disciplina eu não tenho domínio nenhum. Eu não sei.” (Sebastião, 2011). Já os alunos contribuem para a organização dos conteúdos quando apresentam aos seus professores sugestões de temas para serem discutidos em sala de aula. Em geral, essas sugestões estão relacionadas à disciplina de Formação Humana, que permite maior maleabilidade em seu conteúdo, diferentemente das disciplinas técnicas, cujo formato é mais rígido. Em entrevista, a professora Amanda, responsável por ministrar a disciplina Formação Humana na maior parte das turmas, relata que, com frequência, é procurada por alunos, inclusive de outras turmas, que desejam comentar e sugerir temas, dinâmicas, filmes e materiais diversos para essa disciplina. Os próprios alunos chegam com material “Ô Amanda, olha o que eu vi. Fica pra você.” Tipo bullying. Não lembro o nome dele, o material tá até guardado aqui. Eu falei assim “Ah, então tá. Vou ver, depois eu te falo.” Aí eu vi, era bom. E acabo adotando pra outras turmas. [outro aluno fala] “Ah, tô fazendo o curso tal.” “O quê que tem de novidade?” Eu já fico com o olho desse tamanho, né. (rs...) “Me mostra?!” E eles trazem numa boa vontade, você precisa de ver. (Amanda, 2011). Em momentos distintos, e com diferentes professores, pudemos observar a discussão entre eles e os alunos, em que esses últimos sugerem questões atuais para serem discutidas. Observamos que a discussão em sala de aula é bastante valorizada, em dois sentidos: em primeiro lugar pela oportunidade de se expressar. Um tema bastante 109 problematizado durante o período de observações da pesquisa foi o da greve dos professores da rede estadual de ensino de Minas Gerais. Praticamente todos os alunos foram afetados pela greve, uma vez que são estudantes ou pais/mães de estudantes das escolas estaduais. A oportunidade de expor a sua opinião é reconhecida e justificada como momento único no qual podem manifestar-se de maneira sincera. Assim, são ouvidas e respeitadas as suas opiniões, Assim, ampliam a perspectiva de seu campo de análise ao ouvirem as diferentes opiniões dos colegas. A liberdade de expressão admitida naquele espaço pode estar relacionada ao fato de ele ser reconhecido como um espaço legítimo dos trabalhadores, um espaço construído por e para a classe trabalhadora, onde eles podem ter vez e voz sem serem cerceados. Essa situação foi vivenciada durante a pesquisa de campo em todas as observações de sala de aula em que foram realizados debates sobre temas atuais, polêmicos ou emergentes. Essa atitude dos professores parece ser parte de um clima da escola, que podemos descrever como difuso. Não se sabe exatamente como surgiu essa prática, desde quando, quem orientou, mas todos os professores demonstram respeito pela manifestação dos alunos, que são incentivados a falar, debater e posicionar-se de forma crítica e sincera sobre o que quer que seja. Ainda que as manifestações não sejam comentadas pelo professor, em nenhum momento durante a pesquisa foi verificado o silenciamento ou a pouca importância dada ao posicionamento pessoal de um aluno. Um aluno relata Temos total liberdade pra falar. Pra poder reclamar e pra poder dar sugestão também. (Breno, 2011). Uma segunda questão, intimamente relacionada à primeira, é o grande respeito que se tem pela opinião emitida pelos professores e coordenadores, esses últimos nem sempre estão presentes nos momentos de discussão, mas, quando estão, são bastante respeitados. Esse respeito, conforme pudemos observar, está relacionado à história da instituição. Mesmo com certo enfraquecimento de sua memória ao longo dos anos, a força de sua atuação dentro da comunidade ainda é sentida e valorizada. Durante um intervalo de aula de um curso noturno, uma estudante, curiosa com a nossa presença durante as aulas, procurou-nos para entender o trabalho que realizávamos. Esclarecida sobre os nossos objetivos fez questão de expor os seus sentimentos em relação à “escola”. A estudante é argentina, tem 22 anos e permaneceu a maior parte de sua vida como imigrante ilegal no Brasil, onde chegou com 2 ou 3 anos de idade. A legalização de sua permanência no país, assim como de sua família, foi conquistada somente 110 recentemente, o que fez com que ela fosse “ilegal” em praticamente todos os espaços institucionalizados que frequentou, inclusive o espaço escolar. A mesma não soube esclarecer como seus pais conseguiram introduzi-la no sistema público brasileiro de ensino. Filha de artistas plásticos, vendedores ambulantes de bijouterias artesanais, que eles mesmos produzem, considera a “escola” como a melhor que já conheceu em toda a sua vida. Segundo ela, é completamente diferente das outras que frequentou, que foram escolas públicas de ensino regular. A estudante relata que se sente livre para se manifestar verdadeiramente e ser quem é dentro daquele espaço, sem sofrer repreensões ou represálias. Sente-se também grata por estar na instituição, agora não mais como aluna, mas como monitora. O convívio solidário é bastante valorizado na “escola”. Essa valorização faz parte da cultura e do clima da “escola”, formando uma atmosfera de cooperação, de modo que os professores estão sempre atentos a manifestações solidárias, sem que isso necessariamente esteja registrado em algum documento. Alunos que demonstram a capacidade de auxiliar outros alunos em dificuldades diversas, além daquelas relacionadas à compreensão do conteúdo, são cogitados para a tarefa de monitoria, ou mesmo para o estágio na oficina de produção. Alguns dos atuais professores da “escola” relatam que essa característica, que demonstraram quando eram alunos, foi preponderante para serem convidados a trabalhar na “escola”. Os cursos ministrados na “Escola” Tia Dê são divididos claramente em disciplinas de formação técnica e disciplina de formação humana, nem sempre havendo uma relação entre elas. A busca pela superação dessa dicotomia representa o desafio posto para a Educação Profissional, de um modo geral, que traz consigo as inumeráveis discussões acerca da divisão entre funções intelectuais e funções instrumentais. Sobre isso, Kuenzer afirma que essa dicotomia tem sua origem na divisão social e técnica do trabalho e somente a sua superação poderá assegurar a todos o acesso a um saber que foi apropriado por uma minoria, “a qual, não por coincidência, não é a classe trabalhadora.” (KUENZER, 1989, p. 23). A disciplina Formação Humana faz parte do currículo dos cursos e tem uma discussão limitada e dispersa, o que provoca a diversidade de sua realização. O reforço dessa questão merece atenção pelo motivo de que a disciplina, apesar da falta de consenso, está institucionalizada, pois é parte obrigatória do currículo, desde as experiências iniciais do projeto. Vista como diferencial de atuação, ela, por vezes, foi relegada a um segundo plano, o que fez com que sua realização fosse perdida e desvalorizada. 111 Acho que [ter a Formação Humana] foi muito ideia aqui do padre. Acho que do padre Gabriel. Então, ele achava que isso era importante. Teve um tempo que alguns achavam que não devia ter um horário marcado. Só que quando você não tem um horário marcado, você não faz. Não faz. Então, assim, um dia eu falei “tem que ter horário marcado.” Senão seria, “Ah, hoje eu tenho vontade de falar sobre sindicato, então eu vou falar.” Aí passou um mês e o cara não tem mais vontade de falar. Aí não fala nunca. Aí acaba isso. Acaba isso. Tem o horário. Essa formação é importante então vamos ter ela. Os alunos tem hora que não gostam. Acham ruim. Mas, você não tem só aquilo que você gosta, né. Faz parte da matéria, faz parte do currículo do curso. (Célio, 2011). O fato de não ser bem compreendida pelos alunos e, às vezes, também pelos professores, coloca a disciplina em situação de risco permanente. Durante as observações realizadas na pesquisa de campo, vários alunos se manifestaram contrariamente à disciplina Formação Humana, explícita ou veladamente, justificando o seu desinteresse pela falta de relação dessa disciplina com o curso de um modo geral. Muitos deles alegam que a disciplina faz com que percam tempo de estudo, que deveria se voltar para conteúdos mais específicos. Em contrapartida, há professores que têm dificuldade em empreender discussões mais acaloradas. Por isso, se esquivam de trabalhar com temas que possam suscitar um debate mais intenso. Em função desses comportamentos e na tentativa de minimização do risco de não se trabalhar a Formação Humana optou-se por sua obrigatoriedade em todos os cursos realizados na “escola”, independentemente da carga horária, se curso de curta duração - 40h, ou se curso de longa duração - 360h. Para a carga horária geral de cada curso é proposta uma carga horária proporcional dedicada à disciplina. Os demais conteúdos são colocados em ação de forma mais ou menos semelhante pelos professores. Quando são cursos contratados pela Prefeitura há uma definição muito clara, direta e objetiva dos conteúdos a serem trabalhados. Mas, quando os cursos são financiados com recursos próprios ou de outras origens que não o poder público, não há a prescrição clara do que deve ser trabalhado. Então, converte-se em tarefa do professor elaborar, justificar e principalmente executar todo o conteúdo. Todos os professores entrevistados nessa pesquisa e em pesquisa anterior sobre os saberes docentes, realizada no ano de 2010 pelo CEFET-MG, citaram fontes de pesquisa para organização de seu material didático e elaboração do que seria um plano de curso, ou seja, a relação de conteúdos a serem seguidos, em determinado tempo, para determinada formação. As fontes citadas preocupam-nos com relação à autonomia e identidade da instituição, bem como em relação à sua proposta de formação emancipadora e 112 diferenciada. Tal preocupação justifica-se pela razão de que as principais fontes de pesquisa e inspiração são escolas patronais de formação de trabalhadores. Esse curso, quando eu entrei a gente já pegou nesse formato. Agora, a gente busca informações em... no Senai... em outras instituições. Pra quê? Pra que a gente possa estar graduando os nossos alunos aqui, formando os nossos alunos com o mesmo, com a mesma hora e com a mesma carga horária das outras escolas, ou até superior às outras escolas. O curso aqui hoje ele é superior a qualquer outra escola da área mecânica. (Arlen, 2011). Então assim, o conteúdo ele é tranquilíssimo para a gente passar. A forma que é escolhido isso é assim: o que é necessário para se fazer o curso de tornearia. Então na época que foi montado foi pesquisado o que era necessário. O que é necessário para montar um curso de ajustagem? É necessário o cálculo de GPM. Porque GPM? “Volts” por minuto. Mas porque GPM? A gente vai trabalhar com a máquina que trabalha com (...). Então assim, é você realmente pesquisar o que vai ter dentro desse curso para que você monte o conteúdo específico. E é claro que a gente faz pesquisas. Pega aí o SENAI, pega POLIMIG, pega CEFET, a gente pega outras instituições para fazer essa comparação. Eu acho que isso é válido. A gente saber o que está sendo aplicado. E através de pesquisas [na internet e material didático das instituições citadas] também. (Vantuir, 2010). A avaliação do curso ministrado é positiva, como verificamos no depoimento do professor Arlen “O curso aqui hoje ele é superior a qualquer outra escola da área mecânica”. Esse enunciado pode dificultar uma compreensão mais crítica sobre a prática na “escola” a partir de uma prescrição feita para outros espaços. Não é o fato de adotarem referências externas – ou as orientações que partem do discurso hegemônico – que inviabiliza a utilização do material, mas sim o seu uso indiscriminado, sem análise, sem crítica e sem critérios, que pode se constituir, novamente, em um risco à manutenção dos valores e princípios do projeto que se pretende contra-hegemônico. Conhecer as estratégias e instrumentos utilizados pelo projeto hegemônico possibilita analisá-los na sua historicidade e contradições, favorecendo a construção de um projeto que se pretenda contra-hegemônico. No cotidiano da instituição é importante questionar as fontes de aprendizagem e de influência sobre as escolhas, comportamentos e práticas, individuais ou coletivas. Ou seja, é preciso indagar sobre a origem dos materiais, por quais motivos foram elaborados dessa ou daquela forma, o que está embutido no seu discurso, quais as ideologias que carregam, enfim, conhecer quem fez, para ser usado por quem e para quais objetivos. É importante se certificar se os conteúdos e as aprendizagens utilizadas por outrem são instrumentos de dominação cultural e de manutenção do status quo. Pois, como afirmam Kuenzer (2005) e Frigotto (2001), o capital se apropria do discurso 113 de valorização, liberdade, autonomia e emancipação do trabalhador para reforçar o discurso neoliberal e a sua hegemonia, de modo a atender os seus interesses e não os da classe trabalhadora. Um discurso utilizado como estratégia de exploração que Araújo e Rodrigues (2011) chamam de “o velho travestido de novo.” Assim, reconhecer e questionar o ideário formalista dominante, sustentado pela hierarquia e pela dicotomização de saberes, é um instrumento para manter a liberdade das práticas de um projeto com caráter emancipador. A carência de produções de materiais didáticos para a EP, produzidos no campo contra-hegemônico, favorece a busca de referências em organizações empresariais. Assim, os saberes específicos das áreas técnicas são apropriados pelo capital e carregados de ideologias, como empreendedorismo, empregabilidade, polivalência e valor agregado, contribuem para o fortalecimento dos interesses capitalistas. Existe atualmente, no Brasil, a iniciativa de produção de material didático em EP com referencial contra-hegemônico, financiado pelo Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) (MEC, 2007). No entanto, a distribuição desse material ainda é limitada. Por isso, os projetos comunitários, de formação de trabalhadores, acabam por utilizar os referenciais mais divulgados, que são aqueles das iniciativas patronais. 114 5. CONCLUSÃO Tivemos como objeto de estudo dessa dissertação os percalços enfrentados e as estratégias de funcionamento e sobrevivência de uma experiência popular de Educação Profissional com uma perspectiva de formação emancipadora de trabalhadores. Compreendemos que, para investigar uma experiência com tais características, deveríamos identificar um projeto cuja concepção estivesse baseada nos princípios da democracia, igualdade, liberdade e que estivesse consolidada em anos de experiência. Não poderia ser algo novo, recente ou experimental, cujas raízes ainda fossem frágeis e pouco estáveis. Buscávamos um projeto em que pudéssemos evidenciar tanto as estratégias de sobrevivência ao longo dos anos, que tivesse resistido às inúmeras mudanças de governo e de políticas, quanto os principais embaraços por ele sofridos diante dessas mesmas circunstâncias. E, ainda, como esse projeto lidou com essas adversidades. Para isso, nos propusemos a analisar a cultura de uma escola de formação profissional, a Associação Técnica, conhecida popularmente como “Escola” Tia Dê, situada na periferia de Belo Horizonte, em um bairro operário, mais precisamente no bairro Acácia. Observamos o seu funcionamento, estrutura, organização e sujeitos com vistas a identificar crenças, ritos, mitos, práticas, discursos, valores, espaços, tempos e tradições que pudessem revelar ou apontar pistas que nos auxiliassem a alcançar o nosso objetivo. Com Ezpeleta e Rockwell (1989), concordamos que a escola é um espaço privilegiado de encontro entre o Estado e as classes subalternas, onde se evidenciam as contradições e as lutas entre diferentes projetos de sociedade, nesse caso, também entre diferentes projetos de educação profissional de trabalhadores. A investigação empreendida teve caráter empírico e qualitativo, em que estabelecemos contato direto com os sujeitos pesquisados em seu cotidiano. E, com Minayo (1996), privilegiamos o espaço e o tempo da vida presente e a relação face a face, influenciados pela trajetória e vivências de seus atores. Apesar de privilegiarmos o momento atual, resgatamos acontecimentos e aspectos da história da escola, desde a sua fundação, em 1979. O principal registro que serviu de referência para o resgate de informações históricas sobre a organização dos trabalhadores por ocasião da criação da escola foi a dissertação de mestrado de Scalco (1986). A sua pesquisa remontou à participação dos sujeitos na construção dos prédios da igreja católica, onde a escola começou, e, posteriormente, à 115 construção do próprio prédio da escola. Scalco fez um inventário dos objetivos que moviam os trabalhadores em direção à concretização do projeto, o que revelou uma proposta com contornos de Educação Profissional Tecnológica. Em sua escrita Scalco revela um projeto contra-hegemônico de formação do trabalhador, formação essa que se baseia na luta dos trabalhadores em busca de sua libertação e emancipação. A sua proposta foi recuperar e destacar os caminhos e dificuldades iniciais de construção do projeto, que tinha como principal objetivo conquistar um espaço específico edificado por e para os trabalhadores, onde poderiam desenvolver uma prática diferenciada e frontalmente oposta à educação sistêmica. A exposição de Scalco sobre as características do projeto foi crucial na escolha da escola como nosso locus de investigação. A importância de se pesquisar uma experiência como essa se deve à possibilidade de identificar experiências da classe trabalhadora que possam servir de referência para outros coletivos com propósitos semelhantes, num momento em que as políticas públicas, no âmbito federal, fazem algumas inflexões em direção a projetos mais populares, inclusivos e emancipadores, como os esforços empreendidos pelo PROEJA. As muitas dificuldades encontradas para se implantarem novas propostas calcadas numa concepção de Educação Profissional Tecnológica passam pela mencionada carência de experiências documentadas e analisadas, que possam lhes servir de referencial. Para concretizar os nossos objetivos, após levantamento da literatura da área, realizamos dois meses de observação das atividades cotidianas da “Escola” Tia Dê, tais como integração de novas turmas, aulas teóricas e práticas de oficina, formaturas, encerramentos de cursos, reuniões de alunos, de equipe, de professores e de pais, atendimentos na secretaria, lanches coletivos, recreios, inscrições, entradas e saídas de alunos e funcionários, apresentação de atividades de grupos de alunos, assim como os momentos informais. Foram observados os três turnos de trabalho, escolhidos aleatoriamente, com a intenção de tentar preservar, o máximo possível, a autenticidade das práticas e a espontaneidade cotidiana. Inicialmente, fomos direcionados pelos coordenadores pedagógicos para as atividades a serem acompanhadas. Após um breve período de observação, quando consideramos que a nossa presença se tornara familiar passamos a participar de atividades diversificadas, sem aviso prévio. Isto porque concordamos com Marília Carvalho (2003) quando esta diz que a presença do 116 pesquisador pode provocar alteração de comportamentos e/ou de atividades programadas no campo de pesquisa. A receptividade dos sujeitos foi positiva, mesmo quando foram surpreendidos com a nossa presença, o que aconteceu em vários momentos. Nossa entrada foi permitida em todos os espaços e nossa participação foi aceita em todas as atividades solicitadas, sem nenhuma negativa ou resistência aparente, durante todo o período de observação. Não foram notados constrangimentos ou recusas por parte de nenhum trabalhador ou aluno envolvido nas atividades. A relação pesquisador/pesquisado se deu de forma espontânea, aberta e otimista de ambos os lados. Após o período de observação, quando também aproveitamos para nos aproximar e tornar nossa presença familiar aos sujeitos, realizamos entrevistas semiestruturadas com representantes dos vários segmentos da instituição: fundador, coordenadores, professores, alunos e diretores. Muitos desses sujeitos representam também a comunidade, peça fundamental na história da escola, uma vez que a sua construção se deu pela organização dos trabalhadores em torno de um projeto coletivo liderado pela associação de bairro e por um padre local da igreja católica. Com a clareza de que a discussão a que nos propusemos se situa no campo entre trabalho e educação, resgatamos, no primeiro capítulo, os conceitos utilizados para o termo Educação Tecnológica, contrapostos à definição de educação técnica. Identificamos, entre muitos, os conceitos assumidos por Frigotto (2001, 2007), Maria Rita Oliveira (2000), Lima Filho (2004), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Ciavatta (2005), Burnier (2001, 2004, 2006), Bastos (1997), Machado (2008), Grinspun (1999) e Ramos (2008). E, a partir deles, tentamos caracterizar a proposta pedagógica empreendida e praticada pelo projeto pesquisado. A nossa intenção ao realizar esse resgate foi, principalmente, identificar se a proposta apresentada pela escola estava coerente com o que se compreende cientificamente como uma Educação Tecnológica. Dentre os conceitos resgatados, adotamos aqueles apresentados por Frigotto (2001), Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Burnier (2001, 2004, 2006) e Ciavatta (2005) por acreditarmos que as definições propostas por eles são as mais completas, por considerarem o trabalhador em todas as suas dimensões e também o projeto de sociedade que se deseja alcançar. Assim, ao direcionarmos o nosso olhar para a escola, buscamos identificar uma Educação Tecnológica sustentada por um projeto radicalmente democrático e com desenvolvimento sustentável. Além disso, buscamos identificar no projeto a sua qualidade social e se estava imbuído, ou não, do sentimento 117 de emancipação humana aliada à preparação técnica para o mundo da produção e do trabalho, acompanhando o desenvolvimento científico e tecnológico, realizando, dessa maneira, uma formação integral. Cientes das definições defendidas pelos autores citados, passamos a esquadrinhar os elementos disponíveis e também ocultos, explícitos e implícitos, apresentados pela cultura da escola. Para isso, adotamos a definição de cultura da escola cunhada por Candau (2000), que afirma que a escola, sendo também um mundo social, possui características próprias, seus ritos, ritmos, valores, tradições, modos de regulação e de transgressão, linguagem e imaginário próprios, que a tornam diferente das outras. O conceito de cultura da escola favorece a ampliação da percepção sobre a especificidade da dinâmica de cada unidade escolar. Também oferece elementos que possibilitam uma análise mais abrangente do cotidiano da escola, como crenças, aptidões, valores, atitudes, comportamentos dos sujeitos envolvidos no processo, linguagem e imaginário próprios, símbolos, ritos e ritmos. Elementos esses que constituem a identidade social de cada escola, cujo acervo de traços, visões de mundo e referências são responsáveis por construções e desconstruções, criações e desaparecimentos, compartilhamento ou abandono de práticas e concepções, fazendo com que a cultura da escola seja dinâmica, permanentemente permeada por tensões e conflitos. Segundo Faria Filho et al. (2004) e Candau (2000), essas características têm conferido ao tema, nos últimos anos, interesse crescente por parte dos pesquisadores da área, o que torna a pesquisa realizada relevante, uma vez que tende a contribuir para o acervo de produções sobre o assunto. Para Faria Filho et al. (2004), investigar o cotidiano e as práticas escolares significa propor um inventário de elementos capaz de favorecer a realização de um mapeamento cultural da escola. Especificamente nessa pesquisa, o mapeamento cultural da “Escola” Tia Dê demonstrou poder favorecer a criação ou sustentação de outros projetos de origem popular que se pretendam emancipadores e libertadores. Assim, cientes das referências citadas, analisamos o cotidiano e as práticas da “Escola” Tia Dê, que teve a sua origem marcada por forte participação coletiva, cooperação e luta pela conquista de direitos. Entretanto, a sua trajetória foi influenciada por inúmeras pressões externas e internas, sendo as primeiras especialmente de caráter legal. Pressões estas que, ao mesmo tempo em que regulamentaram práticas institucionais, impuseram constrangimentos e impasses ao funcionamento da instituição e à sua identidade social. O maior constrangimento externo pelo qual passou o projeto pedagógico da escola mais recentemente foi a descaracterização do estabelecimento 118 como escola, apesar de legalmente nunca tê-lo sido. Embora reconhecida, desde 1993, pela Lei Orgânica da Assistência Social como uma associação privada para defesa de direitos sociais, a instituição sempre teve identidade local e coletiva de escola e funciona, na prática, como tal, oferecendo aulas, ministradas por professores (ainda que denominados como instrutores) e tem como missão a construção de conhecimentos (profissionais e de cidadania), confere certificação, possui currículo pré-definido, realiza avaliações e todas as rotinas e práticas usuais de uma instituição escolar. Assim, no segundo capítulo, apresentamos a história da criação da “Escola” Tia Dê, e, de forma breve, parte da gradual constituição da Assistência Social no Brasil, que impôs a essa, e, a outras entidades semelhantes, uma extensa lista de regulamentações, que alteraram de maneira limitante o funcionamento de instituições que tiveram origem nos movimentos populares (GOHN, 2000). A preocupação com a “educação popular” tem aparecido, na literatura da área, em relação aos programas e atividades extraescolares, especialmente, os de iniciativa de organizações não propriamente educativas. Cunha (2000) explica que a formação da força de trabalho aparece como uma preocupação ministerial a partir de 1930, quando da criação do Ministério da Educação. Daí em diante, as orientações para a Educação Profissional no Brasil aparecem de modo fragmentado e descontínuo, emanadas por diferentes ministérios, especialmente, do Ministério da Educação e do Ministério do Trabalho. Segundo Kuenzer (2010) isso vem causando sérios problemas para essa modalidade de ensino, uma vez que a ausência de explicitação de dados consistentes sobre a educação no Brasil, inclusive, com a apresentação de séries históricas sobre a relação entre escolaridade, formação profissional e emprego, impõem limites às discussões sobre o tema. Os dados disponíveis são fragmentados e descontinuados, dificultando uma análise mais rigorosa dos indicadores que favoreçam um diagnóstico de qualidade da situação. Diagnóstico esse que permita identificar as necessidades educativas, contemplando as especificidades locais e regionais, a diversidade sociocultural, o corpo de docentes e especialistas em educação, a estrutura física e material, a disponibilidade de bibliotecas e laboratórios, as peculiaridades da organização social do trabalho, as diferentes faixas etárias a serem(KUENZER, 2010, p. 857). As instituições que oferecem qualificação profissional, públicas e privadas, sem fins lucrativos, que são apoiadas financeiramente pelo Poder Público, devem, 119 obrigatoriamente, oferecer cursos profissionais de nível básico aos alunos das redes públicas e privadas de educação básica, e também aos trabalhadores com qualquer nível de escolaridade. Essa obrigatoriedade exige, das instituições aptas a oferecer esses cursos, a permanente atenção às regulamentações impostas para cada tipo de financiamento, emanadas dos diferentes ministérios. Nossos dados demonstraram que, a partir da década de 1990, e mais fortemente depois dos anos 2000, a Educação Profissional passou, em inúmeros casos, como o da Escola Tia Dê, a receber orientações, também, do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS). Assim, se a elaboração da Política Nacional da Assistência Social, em 2004, trouxe um pouco mais de clareza para os objetivos da área da Assistência Social, também impôs limites muito estreitos ao financiamento das atividades realizadas pelas ONGs, em especial as de cunho educacional, que, para poder concorrer em editais de financiamento de qualificação profissional têm que ser cadastradas no MDS, mas que, diante disso, vêm inviabilizados os repasses de recursos de entidades vinculadas e cadastradas em outros Ministérios, o que aconteceu com a “Escola” Tia Dê, em relação ao seu principal mantenedor, o Colégio Jesuíta. Se nos primórdios da “Escola” Tia Dê a educação profissional emancipatória era parte do projeto pedagógico praticado e a concepção de uma educação omnilateral, mesmo que intuitivamente, era prioridade para os fundadores da escola, hoje, as restrições impostas pela legislação fazem com que a instituição se afaste destas discussões em função da busca contínua pela sobrevivência e pela manutenção de sua legalidade. Com o aumento da regulamentação e controle das ONGs pelos órgãos públicos, torna-se cada vez mais difícil sobreviver na nova legalidade, o que confirmamos com a drástica redução de entidades conveniadas com a Secretaria Municipal Adjunta de Assistência Social de Belo Horizonte, que caiu de trinta e seis para sete, de 2007 a 2008. Situação decorrente das exigências do Programa Municipal de Educação, vinculado à Secretaria Municipal de Políticas Sociais, e, responsável pela unificação das ações de formação profissional em Belo Horizonte. Embora não haja prova documental na “Escola” Tia Dê, defendemos que as mudanças ocorridas na mesma são consequências das escolhas que foram sendo feitas ao longo do processo de redemocratização do Brasil, que teve como grande marco a promulgação da Constituição de 1988. Segundo Dagnino (2004), o processo de construção democrática no Brasil, após o período da ditadura militar, foi consagrado por esta Constituição, que expressou o princípio de participação da sociedade civil nas 120 decisões do Estado. Concordamos com Dagnino (2004) que esse documento foi fundamental para a abertura de espaços de participação civil na gestão da sociedade brasileira e nos processos de discussão e tomadas de decisão relacionados com as questões e políticas públicas. Em decorrência da Carta Magna, surgiram todos os demais documentos citados nessa dissertação, como a LOAS (1993), a PNAS (2004), a NOB/SUAS (2005) e a Nova Lei da Filantropia (2009), todos eles reforçando o princípio do direito à participação do cidadão na gestão pública. A NOB/SUAS é, inclusive, produto da IV Conferência Nacional de Assistência Social e expressa os desejos da sociedade civil em relação à Assistência Social, no Brasil. Assim, observamos que, com um novo contexto social, econômico, político e histórico, as formas de organização da sociedade civil passaram a ser outras. A “Escola” Tia Dê apenas retratou em sua experiência o que acontecia no cenário nacional. Nessa fase, muitos projetos populares, de origem progressista, sucumbiram ao novo modelo de relação com o Estado. É importante destacar que a explicitação destes limites não pode ser compreendida como uma negação das positividades do processo de democratização do País. A intenção ao expor as dificuldades enfrentadas pelas ONGs, nos últimos anos, é provocar a reflexão sobre o tipo de democracia estamos construindo, e, edificada sobre quais valores, pois, vimos com Dagnino (2004) que, a crescente participação da sociedade civil na gestão do Estado é uma aposta entendida no contexto de princípio de participação da sociedade e se tornou o centro do processo de redemocratização no País. No entanto, esse processo, que considera a participação da sociedade, terminou por se construir com referências no projeto neoliberal. Dagnino afirma que há uma confluência perversa entre os dois projetos, democrático e neoliberal. O primeiro deles é o alargamento da democracia, que se expressa na criação de espaços públicos e na crescente participação da sociedade civil nos processos de discussão e de tomada de decisão relacionados com as questões e políticas públicas. Por outro lado, existe o projeto neoliberal que demanda, assim como o projeto democratizante, uma sociedade civil ativa, propositiva e participativa, mas que se adeque com maior eficácia às demandas do capital. A confluência perversa é um dilema que faz com que os projetos oriundos dos movimentos populares questionem o seu próprio papel político: o que estamos fazendo aqui? que projeto estamos fortalecendo? não ganharíamos mais com outro tipo de estratégia que priorizasse a organização e a mobilização da sociedade, ao invés de atuar junto com o Estado? 121 Os movimentos, que antes se iniciaram como combativos e de enfrentamento ao poder do Estado, se tornaram parceiros na gestão da coisa pública. Se antes eles atuavam em favor de um projeto que buscava garantir os interesses da classe trabalhadora, agora, sob o discurso citado por Cunha (2000), e, mencionado anteriormente, de realizar a Educação Profissional a partir das demandas do mercado produtivo, impõe a esses movimentos a aceitação dos interesses do Estado, que, segundo Frigotto (2001), em geral, estão subordinados ao ideário do mercado e do capital. Assim, entendemos que, a Educação Profissional realizada a partir das demandas do setor produtivo não consideram os interesses dos trabalhadores. A participação dos movimentos de origem popular junto ao Estado é limitada e controlada nos meandros das dezenas de regulamentações impostas, assim, verificamos que houve, e, há perdas nesse processo. O princípio da democracia presente nas discussões entre Estado e sociedade civil, garante à classe trabalhadora a representação de seus interesses? Temos visto que os coletivos que permaneceram atuantes, após a redemocratização, precisaram encontrar novos modos de organização: de movimentos combativos passaram a se comportar como projetos auxiliares das políticas sociais, a cujas orientações estritas devem se submeter. No caso da “Escola” Tia Dê, com o advento da LOAS, os cursos de formação profissional ofertados pela instituição passaram a ser formulados e determinados a partir do princípio da inclusão produtiva da população mais carente, isso, a priori, não parece problemático, mas, na prática, é. Os cursos elaborados a partir desse tipo de orientação terminam por configurar o que Kuenzer (2005) denomina de inclusão excludente: cursos pobres para pobres, oferecendo pobres oportunidades de inclusão às margens dos setores dinâmicos da economia. Inês Oliveira (2003) afirma que a democracia hoje proposta pressupõe a possibilidade de participação ativa dos cidadãos no conjunto dos processos decisórios que dizem respeito à vida cotidiana, sem, no entanto, garantir a sua efetivação. A crítica expressa nessa afirmação aponta para a necessidade de compreensão do processo social excludente que se constitui mesmo no desenvolvimento das democracias. A questão que se coloca é: quais os interesses de se criar dentro da Assistência Social uma vertente de formação profissional para a parcela mais carente da classe trabalhadora? É necessário compreender os mecanismos de aprendizagem que têm produzido as formas de inclusão social, subalternas ou não, dos sujeitos e dos grupos sociais nos diversos espaços da sociedade. Porque existem formas diferenciadas de inclusão social se um dos princípios 122 da democracia é a igualdade? Historicamente a educação destinada à classe trabalhadora tem sido uma educação compensatória, realizada por instâncias que não são propriamente educativas. Na mesma direção das análises de Kuenzer (1989, 2002, 2005, 2008), Inês Oliveira (2003) afirma que muito da filantropia e da aceitação das diferenças culturais discutidas atualmente são ideias fundamentadas nos padrões burgueses, que buscam formar trabalhadores, e, muitas vezes, fora dos espaços da educação, num caráter assistencial, por vezes, assistencialista. De acordo com Inês Oliviera (2003) isso deixa evidente o seu caráter compensatório, destinado à parcela de cidadãos que não têm acesso à cidadania de fato, sendo considerados “cidadãos de segunda classe”. Se a formação da classe trabalhadora é realizada à partir dos interesses do mercado, com a oferta baseada na demanda, onde está a educação baseada nos interesses dos trabalhadores? Uma Educação Tecnológica que “deve visar sempre e tãosomente o desenvolvimento do ser humano pleno, integral” (BURNIER, 2001) e não somente uma educação que forme a massa de trabalhadores necessária ao mercado produtivo. A discussão realizada entre o Estado e a sociedade civil, em relação à formação do trabalhador, está mais para a conformação da classe trabalhadora às demandas e exigências do mercado, do que para a sua emancipação. As cobranças advindas do Poder Público para os coletivos que sobreviveram aos processos impostos pela redemocratização, giram em torno de sua adequação ao funcionamento legal. Assim, toda essa situação desloca a atenção dos membros da “escola” para as questões burocráticas do projeto, que dizem respeito diretamente à sua sobrevivência. Dessa forma, o projeto tende ao pragmatismo das ações, no intuito de se organizar diante das exigências impostas pela burocracia, atendendo estritamente às demandas impostas pelos editais de financiamento e ao escopo das ações aceitas pelo MDS. Os parceiros, agora mais do que antes, exigem e acompanham, de modo rigoroso, o cumprimento dos critérios estabelecidos nos convênios. A Prefeitura de Belo Horizonte, apesar de ser o menor parceiro no que diz respeito ao financiamento das ações da “escola”, é o organismo que mais exige em relação aos critérios estabelecidos. São ditadas as cargas horárias dos cursos, seu conteúdo, metodologia, espaços, instrumentos e maquinário. Todos os aspectos do curso são controlados pelo parceiro. Uma importante alteração que impactou negativamente, segundo os professores e coordenadores entrevistados, foi a imposição da carga horária dos cursos. A expertise da instituição esteve, desde a sua fundação, na realização de cursos de tornearia e ajustagem mecânica, com carga horária de 720hs. Os alunos desses cursos permanecem 123 na escola por dois anos inteiros. Com a introdução dos cursos rápidos, solicitados pelos convênios mais recentes, a demanda tem sido por cursos com carga horária entre 45 e 200h/a, em que a prioridade é a formação específica. Com exceção do curso de Montagem e Manutenção de Computadores, citado pelo coordenador pedagógico, que tem uma carga horária considerada maior do que a necessária, os demais cursos financiados pela prefeitura têm uma carga horária bastante restrita. A queixa dos professores em relação a esses cursos é a dificuldade de se trabalhar com os alunos a formação humana, e, a falta de identificação do aluno com escola, pelo pouco tempo que permanece nela. Isso obriga a escola a cair numa formação profissional, na maior parte das vezes, aligeirada (Kuenzer, 2005) comprovada, possivelmente, pela baixa empregabilidade de seus alunos que voltam e voltam para fazer novos cursos, como foi citada por uma professora. A formação humana dos alunos, tem sido a dimensão mais prejudicada pelo diminuição da duração dos cursos, entretanto, a duras penas, essa disciplina sobrevive, no currículo da “escola”, ainda que mal e mal. Uma vez que a instituição deve estar alinhada com a Política Nacional de Assistência Social, o poder público passa a demandar com maior intensidade o seu cumprimento. Nesse contexto, constatamos que a instituição, ao mesmo tempo em que ganha notoriedade e amplia as possibilidades de financiamentos públicos, perde autonomia. Todavia, a busca pelos financiamentos tem crescido e foi demonstrada com clareza pelos coordenadores que se esforçam em garantir o funcionamento da “escola”. Em contato informal recente com o coordenador-geral, fomos informados que, para o ano de 2012, a “escola” firmou, pela primeira vez em sua história, uma parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (SMED) para a oferta de cursos previstos no projeto Floração. Esse projeto é uma parceria entre a SMED e a Fundação Roberto Marinho, para o atendimento de jovens, entre 15 e 19 anos, na modalidade de EJA, que não concluíram o Ensino Fundamental. Juntamente com o ensino regular, serão ofertadas vagas em instituição de educação profissional em cursos profissionalizantes, de nível básico. O papel da “Escola” Tia Dê será atender aos jovens das escolas municipais, participantes do projeto, em cursos de formação profissional já existentes em seu cardápio de ofertas. Com isso, haverá uma ampliação considerável de vagas para o ano de 2012. Outro convênio firmado, para o mesmo ano, foi com a Secretaria Municipal Adjunta de Trabalho e Emprego (SMAAT), lançada em 2010, cujos critérios não foram esclarecidos pelo coordenador. As opções de cursos solicitadas por ambos os projetos estão contempladas nas propostas da “escola”, o que demonstra a 124 sua expertise em realizá-los. Apesar de firmado um convênio com a SMED, isso não significa a existência de qualquer discussão sobre concepções ou diretrizes da área de Educação, uma vez que a “escola” continuará realizando o mesmo trabalho que já vem desenvolvendo há anos, direcionado pelas orientações da Assistência Social. O lugar privilegiado que a escola goza hoje, no cenário das ONGs que ofertam formação profissional em Belo Horizonte, comprovado pela sua alta pontuação em chamamentos públicos, se deve ao total atendimento às imposições do PMQ. Com poucas entidades em condições de ofertar o serviço, atualmente, a escola tem tido mais oportunidades de financiamento junto às secretarias municipais. Os esforços em firmar parcerias com o poder público têm sido uma realidade na “escola” há muitos anos. Mas, essas iniciativas têm se intensificado nos últimos dois anos, conforme observamos a partir de relatos e entrevistas, no sentido de superar o golpe sofrido pela instituição com o advento da Nova Lei da Filantropia. Talvez esse tenha sido o golpe mais duro sofrido pela “escola”, que limitou o repasse de recursos financeiros do Colégio Jesuíta, principal mantenedor e símbolo da identidade católica da instituição. Mesmo ciente de que legalmente nunca foi uma escola, parece não ter havido, por parte da instituição, qualquer preocupação por não estar cadastrada nos órgãos de Educação. Isso nunca significou um problema, ou dificuldade. Não havia consciência sobre as divergências de interesses entre uma instituição de Educação e de Assistência Social, especialmente porque o vínculo estabelecido entre ambas não estava fixado nessa ordem, mas, sim, na origem e orientações católicas. Entendemos que, sendo a igreja católica uma executora historicamente reconhecida de ações assistenciais e humanitárias, a oferta de serviços de educação profissional para a população mais carente nunca se constituiu um problema, nem para o Colégio, nem para a “escola”. Assim, enfrentar as consequências da Lei de Filantropia significou para a “escola”, não só a perda de recursos, mas também o abalo de sua identidade. Essa situação corrobora outra, muito discutida no Brasil, que é a falta de diretrizes políticas emanadas do Ministério da Educação para orientar experiências como a pesquisada, que permanecem no limbo dos processos educacionais do País. O mote do discurso governista é afirmar que o serviço público, sendo ofertado pela própria sociedade civil, passa a estar mais próximo da população. A qualidade dessas instituições é medida pelo atendimento a critérios objetivos apresentados nos editais e chamamentos públicos, que podemos considerar, assim como Gandin (2006), que se referem exclusivamente aos aspectos formais ou burocráticos. Mas, e a qualidade 125 política? Quem tem zelado por ela? É interesse dos órgãos governamentais o incentivo à qualidade política desse tipo de projeto? Assim, o que Gandin (2006) chama de qualidade política passa a ser dificultado pelas pressões externas. Essa qualidade política diz da reflexão permanente sobre o projeto, seus objetivos e seus sujeitos, “para onde” se deseja seguir, e “para que” se realiza o projeto, com que tipo de educação. Nossa pesquisa demonstrou que as pressões externas emanadas da organização do Estado e de suas normas afetam diretamente a estrutura, os comportamentos, os processos, acirram as tensões existentes, geram conflitos e interferem nas relações. Provocam, ainda, insegurança nos sujeitos, responsáveis pela criação das estruturas e dos processos, afetando todo o funcionamento da instituição. Essa situação é confirmada pelo coordenador-geral, que relata a crescente dificuldade que a instituição enfrenta por causa da burocratização. O trabalho tá ficando mais burocrático. Tudo tá ficando mais complicado, mais complicado. Então, você tenta implementar um trabalho e não consegue. Hoje as políticas públicas já são mais claras, então, as coisas são mais burocráticas também. Então, agora que a gente conseguiu fechar um projeto com a Secretaria do Trabalho, a gente tá no fim do ano. No fim do ano eles conseguem soltar um edital pra você oferecer cursos. As verbas hoje são mais complicadas, são mais difíceis de conseguir. Apesar de que eu acho que a gente ainda tá conseguindo se virar razoavelmente bem. Que a gente tem esse convênio com o pessoal da AJEIAS [Colégio Jesuíta], mas lá também a incerteza tá rondando. Então isso é complicado, supercomplicado. Ano que vem de repente eu não tenho 30.000 por mês, como é que eu vou fazer? (Célio, 2011). Quanto à burocratização imposta à instituição é necessário reconhecer que, como todo fenômeno social, é eivada de contradições. Assim sendo, identificamos aí alguns aspectos positivos, como a regulamentação dos processos internos e parcerias externas, com favorecimento à participação em editais e chamamentos públicos para oferta de serviços. Tal fato amplia a possibilidade de se firmarem parcerias e convênios com novos financiadores, aumentando também a oferta de serviço público e, consequentemente, de postos de trabalho na “escola”. Entretanto, o fato de ter que trabalhar com um quadro reduzido de pessoal, impostos pelos contratos e remunerações propostos pelos editais, limita as perspectivas da instituição, novamente premida pelas questões práticas e burocráticas. Como vimos, atualmente, as questões burocráticas têm recebido maior atenção por ser necessário superar os desafios e percalços impostos pela regulamentação das ONGs. Com uma 126 equipe de profissionais extremamente reduzida e com uma única pessoa como referência política da constituição da escola, com o passar do tempo fica cada vez mais difícil sustentar os princípios e valores do passado, na medida em que todos devem se esforçar primeiramente para manter as condições objetivas de sobrevivência da “escola”. O coordenador-geral é o personagem mais antigo presente no cotidiano da instituição. Hoje ele é a memória viva da “escola”, até porque inexistem documentos que favoreçam a transmissão de conceitos e objetivos aos novos profissionais incorporados ao longo do tempo. O coordenador-geral dedica-se com afinco aos procedimentos burocráticos e tem papel principal na manutenção da estrutura da “escola”. Sua dedicação à instituição é algo notável e é reconhecida pelos demais trabalhadores. Porém, a ausência de outros sujeitos capacitados pedagógica e politicamente para sustentar a qualidade política da instituição reduz, sobremaneira, a dimensão desse aspecto do projeto. Nos deparamos assim com questões que denominamos aqui como mais internas ao projeto da instituição, como os processos de seleção e contratação e a formação contínua de pessoal. Assim, entendemos que, para a manutenção de um projeto que se pretenda contra-hegemônico, é fundamental a formação de novos quadros profissionais que sejam capazes de discutir os aspectos políticos do projeto, assumindo responsabilidades e tarefas, de modo a garantir relações horizontalizadas favorecendo a participação dos sujeitos de maneira ativa e democrática. Além disso, ficou claro que não basta a formação de novos líderes e coordenadores, mas é também imprescindível a formação de professores, que estejam alinhados com a proposta político pedagógica da instituição. Tardiff (2005) afirma que, em relação ao trabalho docente, uma questão frequentemente mencionada pelos professores é a falta de recursos e de tempo, assim como a escassez de instrumentos pedagógicos, que são os fatores “materiais” que mais dificultam a profissão. Na “escola” observamos que, apesar de existir um tempo específico para a preparação de aulas e estudos, duas horas/aula semanais, ele ainda é insuficiente diante do todo, especialmente, porque é utilizado de forma isolada e individual. Cada professor utiliza esse tempo para planejamento, correção de avaliações e exercícios, atividades que realiza sozinho. Havendo pouca interação entre eles. Os tempos e espaços destinados à discussão política do projeto não foram preservados ao longo do tempo. Se antes, o Pe. Gabriel garantia a reunião semanal de seis grupos de discussão política, hoje não existe prática semelhante, e os tempos são tomadas pelas 127 questões práticas e burocráticas. Pareceu-nos que faltam ali profissionais que dominem os saberes do campo da educação, imprescindíveis para o funcionamento e um avanço de um projeto de formação profissional contra hegemônico: saberes sócio-históricos e pedagógicos, em especial. Assim, ficou claro que a garantia de tempos e espaços de formação é um aspecto fundamental na manutenção do projeto. Os professores e também os coordenadores pedagógicos são sujeitos bem intencionados que realizam o trabalho com grande dedicação, mas, de modo mais ou menos intuitivo. De acordo com o que sentem no clima da instituição é que estabelecem as suas metas em direção a uma educação mais ampla. A ausência de um processo mais focalizado de formação de professores e também de lideranças é uma lacuna, que, se preenchida, favoreceria a manutenção dos princípios originais da instituição. Essa é hoje a realidade, apesar de o principal fundador da instituição, Pe. Gabriel, lembrar que o papel original da escola era o de formar pessoas que pensassem diferente, que estivessem preparadas para questionar e enfrentar “os que mandam”. Ele conta que, inicialmente, os parceiros pouco questionavam sobre o trabalho desenvolvido na escola, dando ao estabelecimento liberdade de atuação. Hoje, pelo contrário, não há um contexto de formação de pessoas para o enfrentamento dos “que mandam”. As pessoas são incentivadas a pensar e a agir de forma diferenciada, mas em um contexto de competitividade, no qual vence quem melhor demonstrar as “habilidades e as competências” exigidas pelas empresas. A pesquisa apontou para a transformação das ONGs nas últimas décadas. De movimentos combativos do poder instituído, na década de 1970, transformaram-se em aliados do Estado, encontrando nele, além da sobrevivência financeira, as orientações do tipo de cidadão que era preciso formar. Atualmente há um encolhimento do Estado e uma progressiva transferência de suas responsabilidades para a sociedade civil, em especial para as ONGs que possuem parceria com o Estado e que assumem uma importante parcela na oferta de serviços públicos. Assim, toda a ação no âmbito da Assistência termina se subordinando à identidade hegemônica do Estado, que está submetido aos parâmetros do capital. Identificamos um forte desejo da coordenação-geral em garantir um espaço de formação dos professores, que possa despertá-los para a crítica e o trabalho emancipador. Porém, a coordenação se sente premida pelas exigências externas dos órgãos financiadores, que passam a ditar conteúdos, tempos, espaços e modos. Além disso, não há outro profissional com formação suficiente ou com designação de 128 responsabilidade para assumir a tarefa de formação dos professores. Portanto, as iniciativas de formação envidadas hoje na instituição são bastante dispersas. No entanto, ainda que mais escassas agora do que em outros tempos, está claro que a formação de professores é um ponto que tem merecido alguma atenção dos gestores da “escola” durante a existência da instituição. Tomando como referência os relatos dos entrevistados em relação a essa formação percebemos que não só o seu formato, mas também o conteúdo dos encontros de foram alterados. Para alguns, deve acontecer um resgate de objetivos e práticas para garantir a manutenção da identidade da instituição. Para outros, que têm uma visão mais pragmática da qualificação profissional, as mudanças ocorridas trazem benefícios a todos, renovando temas e diminuindo o tempo gasto nessa tarefa, tornando-o mais produtivo. A principal mudança é que antes os encontros eram mais reflexivos e propriamente formadores, hoje, são reuniões de trabalho, mais objetivas, e, por isso, provavelmente, mais ao gosto dos professores com sua formação exclusivamente técnica, já distanciados dos antigos professores, oriundos dos movimentos sociais. Observamos que a mudança de foco ou as novas perspectivas de formação dos professores também podem estar relacionadas à maneira como se organizam as ONGs. As transformações ocorridas ao longo dos anos, ditadas essencialmente por demandas de regulamentação e controle externos, além de uma concepção de formação profissional para a população mais carente, aligeirada, rápida e barata, focada em números de “qualificados”, podem ter sido os principais motivos para que houvesse uma diminuição significativa dos momentos de formação pedagógica de fato, sendo substituídos por encontros de planejamento, avaliação e monitoramento da ação desenvolvida numa perspectiva meramente instrumental. Parece quase perdida a perspectiva emancipatória. Entretanto, sobrevivência histórica da cultura inicial da escola, uma atividade que ainda hoje é preservada é a participação de alunos, pais e professores nos afazeres gerais e na manutenção da escola, ainda que alunos e pais participem muito menos do que no passado. Primeiro, porque há um novo tipo de aluno frequentando a “escola”, que não é morador da comunidade; mesmo assim, ainda há alguma participação desses sujeitos. Os professores são mais demandados e se sentem contribuindo para a manutenção do projeto. Essa participação é compreendida como um princípio pedagógico, na medida em que alia o trabalho teórico ao prático, além de dar a noção de cooperação, coletivismo e solidariedade. No entanto, esta ação está revestida de 129 contradições: de um lado, um certo utilitarismo ao aproveitar a mão de obra de professores, alunos e pais para consertar equipamentos, reformar móveis ou realizar atividades diversas que possam gerar contenção de custos para a instituição. O utilitarismo e a instrumentalidade da formação são características do projeto hegemônico, que se apropria do discurso de solidariedade e cooperação para reforçar o seu próprio projeto. Mas aqui ele se reverte de um outro significado. Poderíamos nos permitir falar num utilitarismo solidário e que, ao fim, fortalece os vínculos entre os sujeitos e deles com a instituição. Isso se faz sentir claramente no ambiente cotidiano da escola, no clima institucional que transparece em relações de cordialidade, respeito e colaboração, entre os trabalhadores da escola e deles com os alunos e a comunidade. Se no passado o público atendido era formado pelo aluno-trabalhador, capaz de construir os seus projetos pessoais em consonância com os projetos da escola e que a usou como espaço de construção de libertação, solidariedade e emancipação, agora, segundo os professores e coordenadores, a “escola” tem como alunos sujeitos muitas vezes apáticos e carentes dos mínimos sociais, incapazes de oferecer algo para a instituição, porque sua carência é tão grande que eles só esperam receber. A participação dos estudantes e dos pais, hoje, ocorre em momentos pontuais em que existe a avaliação do conteúdo, de um modo geral, mas também de outros aspectos da ação educacional desenvolvida pela instituição, como utilização dos espaços e tempos, participação e desempenho dos professores, condições materiais, contingências financeiras, entre outros temas emergentes. Essas práticas não são de pouca significação num projeto de formação profissional no contexto do capitalismo. São pouco comuns nas atuais instituições que ofertam esse tipo de formação e devem ser valorizadas, uma vez que permitem e incentivam a participação efetiva dos estudantes e a presença concreta de suas famílias na organização e funcionamento da instituição. Permite inclusive o compartilhamento com os pais e alunos de aspectos da crise financeira vivenciada pela instituição, além da apresentação de justificativas para determinados atos e decisões. Abre ainda espaço para que direção, professores, pais e alunos pensem juntos alternativas de sobrevivência e superação, o que acaba indo além do aspecto meramente financeiro e cria vínculos, responsabilidades e espaços de interação. No entanto, o que percebemos durante as atividades de observação, foi uma certa transferência de responsabilidades dos pais e dos alunos para escola. Ainda que haja o espaço destinado ao compartilhamento entre instituição e comunidade, esta não o usa para esse fim. A presença dos pais nas reuniões se restringe à escuta, mantendo-se 130 numa posição passiva. Os momentos de participação, em geral, se referem a questionamentos sobre o comportamento e adequação dos filhos à “escola” e às exigências do mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, em uma análise sobre o conjunto da situação, percebemos que o reconhecimento, pelos pais, de suas próprias dificuldades, enxergadas nas dificuldades financeiras sentidas pela instituição, cria neles uma forte empatia, capaz de aumentar ainda mais sua confiança no trabalho realizado, transferindo para a instituição a responsabilidade por encontrar soluções viáveis para ambos. Pe. Gabriel, fundador da escola, mas que já se afastou da mesma, questiona se vale a pena investir em um projeto que se submeta aos interesses estatais e patronais, considerando o risco de que a instituição possa acabar servindo aos objetivos do projeto que lhe é antagônico, ao ser cada vez mais participativa junto ao poder público. A instituição, como instrumento da sociedade civil, que defende um projeto participativo democratizante e de redução da exclusão social, pode estar sendo utilizada justamente na estratégia de manutenção do projeto hegemônico. Assim pensa o Pe Gabriel que diz se for pra formar mão de obra podia fechar aquele negócio. Não ter mais dor de cabeça. Se não for pra formar pessoas. Agora, Célio, é só. Nós tínhamos antes uma equipe de dizer, pessoas que discutiam as coisas, que estavam preocupados, agora é só Célio e eu não sei se tem outros lá. (Pe. Gabriel, 2011). A trajetória de tentar construir uma escola diferente, como um direito do trabalhador, caminha para se transformar na realização de um projeto assistencial, com o risco de se tornar assistencialista. Projeto este dissociado das discussões políticas sobre a formação do trabalhador, sobre as concepções de educação pretendidas e sobre o tipo de cidadão que se pretende formar, distanciado dos movimentos sociais e até mesmo dos sindicatos das categorias para as quais a escola está formando trabalhadores. O fato de ter que atender aos projetos governamentais, baseados nos princípios do capital, que, em geral, são originados de demandas específicas de caráter emergencial e ainda opostas às demandas dos trabalhadores, vem tornando o projeto original, antes contra-hegemônico, em um projeto de conformação do trabalhador aos interesses capitalistas. Se desejamos realmente novas relações de produção e se queremos um país mais justo e com mais dignidade para todos, então, precisamos nos preocupar em transformar instituições históricas, como a escola, em lugares que ajudem a formar os sujeitos destas transformações. Não se pode perder de vista a qualidade 131 política do projeto. Precisamos aprender a potencializar os elementos presentes nas diversas experiências populares e criar escolas que ajudem neste processo mais amplo de humanização e de reafirmação da classe trabalhadora “como sujeitos de seu próprio destino, de sua própria história.” (CALDART, 2003. p. 61). Os projetos que se desejam contra-hegemônicos devem construir estruturas que sejam inseridas na dinâmica da vida social, para envolver os sujeitos que dela participam. Devem manter-se ativamente vinculados aos movimentos de formação e transformação da sociedade. Os projetos de formação profissional devem procurar manter a qualificação técnica e administrativa associada ao ensino humanístico e político como objetivo permanente. Isto porque esses elementos são imprescindíveis aos projetos educativos da classe trabalhadora, como afirma Frigotto (2001), que sistematiza cinco aspectos que caracterizam os projetos de educação profissional que assumem uma perspectiva emancipadora: 1) no plano societário: onde o embate é permanente, se sustentam na construção de um projeto contra-hegemônico; 2) no patamar histórico: reconhecem a especificidade da formação técnico-profissional, porém, jamais separada da educação básica e sempre articulada a um projeto de desenvolvimento “sustentável”, numa dimensão ético-política da formação de sujeitos autônomos, protagonistas dos processos sociais democráticos, solidários e igualitários; 3) no plano das políticas públicas: compromisso com o desenvolvimento humano, social, político, cultural e econômico - considerando a esfera dos direitos, deve haver um projeto alternativo em que o ser humano seja o centro do processo e não o mercado ou o lucro; 4) no plano político: a articulação das relações sociais de produção e das relações políticas, culturais e educativas “para um Estado que governe com as organizações da sociedade e para a sociedade...”; (FRIGOTTO, 2001, p. 83), e, por fim, 5) no plano educativo: se fundam na concepção de educação básica (fundamental e média) pública, laica, unitária, gratuita e universal, centrada na ideia de direito subjetivo do ser humano. Assim sendo, o cenário observado, analisado criticamente, demonstra uma tensão entre a intenção original e histórica de libertação e emancipação do trabalhador e uma educação profissional que pode mascarar a intenção de conformação do sujeito à lógica capitalista. Tal conformação não acontece de modo consciente pelos sujeitos que praticam a ação, mas é legitimada por suas práticas, por seus discursos e pela ausência de um corpo teórico que os confronte com as reais contradições do mundo do trabalho. Os educadores e educandos acabam seduzidos pelo canto da sereia do capital, buscando exclusivamente uma formação que assegure o emprego. Ficou mais uma vez 132 evidenciado o desejo dos trabalhadores de terem direito ao conhecimento profissional para inserção no mercado de trabalho e manutenção de sua própria sobrevivência. Desejo mais do que legítimo, mas, que não pode prescindir da compreensão da necessidade de uma participação política ativa e questionadora do sistema produtivo, sob risco de se construírem projetos de vida totalmente ingênuos e ineficazes, uma vez que as relações sociais que determinam o seu modo de vida, sua concepção de mundo e a sua consciência não são questionadas. A busca do trabalhador se resume a um posto de trabalho, que, se alcançado e quando qualificado, pode representar uma remuneração um pouco mais elevada. A pesquisa apontou ainda para a necessidade de articulação entre as políticas públicas de formação profissional. A articulação das iniciativas desse setor viria no sentido de combater a fragmentação e a multiplicidade de orientações, unificando a concepção orientadora sob os pressupostos acumulados na área, em permanente diálogo com os movimentos sociais. Nos pareceu que a Educação Profissional ainda carece de instrumentos que acolham, em seu seio, iniciativas mais articuladas aos movimentos sociais, como no caso em questão. Compreendemos, no entanto, que as conclusões obtidas através desse estudo são provisórias e parciais, devendo ser envidados novos esforços de investigação na busca de estratégias de consolidação e manutenção de projetos que sejam, verdadeiramente, emancipadores. 133 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARAÚJO, Ronaldo Marcos de Lima. RODRIGUES, Doriedson do Socorro. Referências sobre práticas formativas em educação profissional: o velho travestido de novo frente ao efetivamente novo. In: ARAÚJO, Ronaldo Marcos de Lima. RODRIGUES, Doriedson do Socorro (Orgs.). Filosofia da Práxis e Didática da Educação Profissional, Campinas, SP: Autores Associados, 2011. p. 7-44. BASTOS, João Augusto de Souza Leão Almeida. Educação e Tecnologia. Educação & Tecnologia. 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