A Dimensão Pedagógica
da Arquitetura Escolar
PEDAGOGICAL ASPECTS OF
SCHOOL ARCHITECTURE
“Anísio Teixeira e a arquitetura escolar:
planejando escolas, construindo sonhos”,
de CÉLIA ROSÂNGELA DANTAS DÓREA
2003. 255p. Tese (doutorado em educação: história, política, sociedade).
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP
A
tese de doutoramento da educadora Célia Dórea (professora
titular do DEDC/Campus X da UNEB, em Teixeira de Freitas/
BA), intitulada “Anísio Teixeira e a arquitetura escolar: planejando escolas, construindo sonhos”, problematiza o papel
pedagógico da organização do espaço escolar no âmbito da
escolarização, particularmente do pensamento educacional
de Anísio Teixeira, entre 1931 e 1935, quando diretor de instrução pública do Distrito Federal (à época, o Rio de Janeiro).
A professora defende, ao longo das 220 páginas do relatório final de
sua exemplar e rigorosa pesquisa documental,1 que a proposta arquitetônica anisiana servia de apoio a uma nova e ousada concepção das práticas
escolares nacionais. Partindo, por exemplo, da exposição detalhada e do
cotejamento dos seis tipos de programas arquitetônicos planificados para
a organização do espaço escolar – denominados, respectivamente: mínimo, nuclear, platoon de 12 salas, platoon de 16 salas, platoon de 25 salas, e
playground ou escola-parque – e oficialmente implementados, na ocasião,
pelo arquiteto Enéas Silva, sob a direção de Teixeira, a autora demonstra,
de modo irrefutável, como esses modelos de edificação escolar encontram-se vinculados a uma filosofia escolanovista da educação.2
Em outras palavras, a tese de Dórea é que, por meio da arquitetura, o eminente educador baiano e polêmico dirigente público da pasta da
educação colocou em xeque os tradicionais paradigmas então vigentes
para a construção das edificações escolares do governo federal. Isso porque, “por meio da arquitetura dessas escolas, Anísio procurava expressar
o próprio sentido da educação que desejava implantar (...). Uma nova
educação pedia uma nova arquitetura” (p. II).
1
2
RICARDO JAPIASSU
Universidade do
Estado da Bahia (UNEB)
[email protected]
MAY, 2004, cap. 8, p. 205-230.
FILHO, 2002.
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O texto, ricamente ilustrado com imagens de excelente qualidade,
encontra-se organizado em quatro capítulos antecedidos das “listas de
quadros e figuras”, de uma breve introdução e sucedidos por considerações finais da pesquisadora, pela bibliografia utilizada e por uma pasta de
relevantes anexos – que nos auxiliam muito na aproximação da problemática abordada pelo trabalho.
No primeiro capítulo, Dórea expõe brevemente a trajetória do pensamento educacional e político de Teixeira, oferecendo ao leitor aspectos
históricos, culturais e sociais de sua carreira profissional. Já o segundo e
terceiro capítulos tratam de expor, detalhadamente, os planos arquitetônicos para as edificações escolares, entre 1931 e 1935, discutindo-os estética
e pedagogicamente. No quarto e último capítulo, intitulado “A arquitetura
escolar nos anos 30 no Distrito Federal” – o mais “quente” de todos –, são
apresentados documentos que revelam importantes aspectos históricos,
culturais, sociais, políticos e estéticos do debate nacional entre adeptos da
arquitetura neocolonial e simpatizantes da arquitetura modernista.
Por fim, em suas considerações finais, a autora sugere que o estilo
arquitetônico modernista nacional deveria ter como marco não o projeto
do prédio do Ministério da Educação e Saúde (MÊS, Palácio Gustavo Capanema) – assinado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, entre outros –,
mas os edifícios de escolas públicas concebidos por Enéas Silva, arquiteto
eleito por Teixeira para projetar os espaços escolares construídos durante
sua gestão na Diretoria de Instrução Pública do Distrito Federal. “Embora não reconhecidos oficialmente como integrantes do movimento da
arquitetura moderna, e algumas vezes até ignorados, os prédios das escolas municipais do Distrito Federal são considerados por alguns autores
como legítimos representantes dessa nova arquitetura” (p. 211).
Uma das lacunas verificadas no relatório final de pesquisa da professora Célia é a ausência de um detalhamento dos procedimentos metodológicos adotados por ela, ou seja, a explicitação do tipo de investigação ali
desenvolvida: a pesquisa documental. Parece que Dórea prefere dizer sobre o método que adotou, demonstrando-o na prática, mediante o hábil
manejo dos procedimentos metodológicos que possui – algo facilmente
constatado, por exemplo, ao longo da apresentação dos dados produzidos
por ela. Outra falha observada é que, apesar de o relatório final da pesquisa lançar alguma luz sobre a dimensão semântica da arquitetura, não se
percebe, ao longo do texto, o aprofundamento de uma ampla discussão
da natureza comunicativa dessa linguagem artística. Afinal, as edificações
– escolares ou não – dizem e querem dizer.
Ora, o discurso artístico da arquitetura – por meio da organização
de espaços, formas, volumes, mobiliário, materiais e cores – possui uma
dimensão educativa incontestável. Basta lembrar aqui, por exemplo, o que
se quer dizer, quando são disponibilizadas em salas de aula as famigeradas
carteiras universitárias, aquelas que trazem um só braço ao lado direito
do usuário e parecem gritar a todos: – “Você, canhoto é diferente!” Ou:
– “O trabalho aqui é “individual!”, entre outras tantas coisas...
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A natureza educativa da arquitetura e do design escolares necessita ser mais bem entendida na contemporaneidade. A tese da professora
Célia, ainda que timidamente, sinaliza a urgência de uma compreensão,
digamos, mais alargada, da natureza discursiva da arte arquitetônica – especialmente da arquitetura e do design escolares.3 Evidentemente, uma
discussão exaustiva sobre a natureza semântica da arquitetura escolar escapa aos propósitos do estudo de Dórea – e tampouco seria possível, no
âmbito limitado de uma resenha.
É lamentável que um trabalho com tão elevada e rara estatura acadêmica como esse não tenha, até o momento, despertado o interesse de
nenhuma grande editora do País. Isso só serve ao objetivo de impedir o
acesso democrático ao conhecimento historicamente acumulado sobre a
arquitetura escolar, restringindo-o às prateleiras das bibliotecas das Instituições de Ensino Superior (IES) que oferecem cursos de pós-graduação
stricto sensu nas áreas de arquitetura e educação. Traduz, também, o brutal
fetichismo mercantilista das grandes editoras – interessadas apenas em
publicações capazes de inserir-se na lógica neoliberal perversa do mercado editorial.
A tese de Dórea, no entanto, deve ser leitura obrigatória a todos os
interessados em compreender mais e melhor as implicações pedagógicas
da organização dos espaços escolares – e de sua estreita vinculação com as
concepções filosóficas educacionais que lhes oferecem sustentação. Além
disso, trata-se de um exemplo de pesquisa documental a ser seguido por
pesquisadores dispostos a adotar procedimentos metodológicos rigorosos
para abordagem de objetos de estudo nessa modalidade de investigação.
3
RASHID, 2006.
Referências Bibliográficas
FILHO, L. Introdução ao Estudo da Escola Nova. Rio de Janeiro: UERJ, 2002.
MAY, T. “Pesquisa documental: escavações e evidências”. In: ______. Pesquisa Social
– questões, métodos e processos. Porto Alegre: Artmed, 2004.
RASHID, K.“Design sem fronteiras”. Revista Viver Bem. Home page. <http://www2.
uol.com.br/viverbem/>. Acesso: 25/jul./06.
Dados do autor
Professor adjunto da Universidade do
Estado da Bahia (UNEB) – Departamento
de Educação/Campus II – Alagoinhas/BA.
Doutor em educação (psicologia
e educação) pela FE/USP.
Recebimento: 20/jul./06
Aprovada: 10/ago./06
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