II Seminário Nacional em Estudos da Linguagem:
Diversidade, Ensino e Linguagem
06 a 08 de outubro de 2010
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LÍNGUA MATERNA NO ENSINO MÉDIO: O ESTUDO DO ESTILO NO
GÊNERO DISCURSIVO CONTO EM PERSPECTIVA DIALÓGICA.
KRAEMER, Márcia Adriana Dias (PG – UEL)
PERFEITO, Alba Maria (UEL)
RESUMO: Este trabalho emerge do Projeto Análise linguística: contextualização às
práticas de leitura e de produção textual, filiado ao Grupo de Pesquisa FELIP –
Formação e Ensino em Língua Portuguesa, da Universidade Estadual de Londrina –
UEL, tendo o intuito de propor algumas considerações acerca de como os professores de
língua materna do ensino médio podem articular a leitura, a análise linguística e a
produção textual, por meio do estudo do gênero discursivo conto, no qual o embate das
vozes sociais é revelado nas estratégias do dizer. Justificamos esse viés, porque, para
Bakhtin (2006), é possível perceber a apreciação valorativa do locutor em relação ao
tema e ao lugar que ocupa nas relações sociais, institucionais e interpessoais pelas
escolhas linguístico-enunciativas que faz. O texto literário, por sua vez, mostra-se
fecundo ao mobilizar todas as funções e as dimensões da linguagem, além de permitir
entrever tanto o estilo do gênero como o estilo individual do autor. Ao trabalharmos,
portanto, articulações que possibilitem demarcar linguisticamente uma multiplicidade
de vozes e de consciências que mantêm entre si uma relação de equidade no discurso
(MAINGUENEAU, 1993; FIORIN, 2006; BRAIT, 2007), o conto, em específico o
situado na contemporaneidade, como o de Lygia Fagundes Telles, torna-se material
fecundo para análise no ensino de língua materna, uma vez que se insere em uma
situação social de interação, dentro de um campo da atividade humana e com uma
determinada finalidade discursiva.
PALAVRAS-CHAVE: Ensino, conto, dialogismo, estilo.
1 - Introdução
Este relatório de pesquisa tem como intuito apresentar uma proposta de estudo
do gênero discursivo conto, em âmbito do Ensino Médio, sob a ótica da Linguística
Aplicada e da Teoria Sociológica da Linguagem. Ela advém do projeto em andamento
Análise linguística: contextualização às práticas de leitura e de produção textual,
filiado ao Grupo de Pesquisa FELIP – Formação e Ensino em Língua Portuguesa, da
Universidade Estadual de Londrina – UEL, sob a coordenação da Prof.ª Drª Alba Maria
Perfeito, no qual abordamos os gêneros discursivos em projetos de trabalho docente, a
fim de propor estratégias de como articular a leitura, a análise linguística e a produção
textual em língua materna.
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Para nós essa proposta é pertinente, uma vez que consideramos, por meio de
nossas pesquisas de cunho exploratório, as aulas de português muito carentes de
projetos que se orientem pela teoria dos gêneros discursivos e que se voltem
especificamente para o grau de escolarização e para o âmbito de conhecimento por nós
privilegiados.1
Essa constatação conduziu-nos ao estudo do gênero em relação: 1) ao seu
contexto de produção, para entender a relação do texto e sua situação social; 2) à sua
temática, à sua construção composicional e ao seu estilo, a fim de compreender como a
linguagem em uso materializa-se nesse gênero literário em específico; 3) à elaboração
de propostas de trabalho didático a partir do conto, na tentativa de possibilitar ao aluno
que maior contato com um gênero literário de larga circulação, além de viabilizar sua
imersão no texto diante de seus referenciais de construção de sentido, via análise
linguística e estilística.
2 - Bakhtin, dialogismo e estilo.
A partir da perspectiva dialógica da linguagem proposta por Bakhtin (2006) e
pelos membros de seu círculo, encontramos, nas suas obras o conceito de estilo. Em
Discurso na vida e discurso na arte2 , temos:
O estilo do poeta é engendrado do estilo de sua fala interior, a qual
não se submete a controle, e sua fala interior é ela mesma o produto
de sua vida social inteira. ‗O estilo é o homem‘, dizem; mas
poderíamos dizer: o estilo é pelo menos duas pessoas ou, mais
precisamente, uma pessoa mais seu grupo social na forma do seu
representante autorizado, o ouvinte - o participante constante na fala
interior e exterior de uma pessoa. (BAKHTIN/VOLOCHIVOV,
1926, p. 16)
1
Fundamentamos esta afirmação na pesquisa realizada em bibliotecas virturais de diversas universidad e
públicas brasileiras, quando buscamos analisar dissertações e teses que privilegiassem a Teoria
Sociológica do Círculo de Bakhtin no estudo do gênero conto. O resultado foi apresentado em forma de
relatório de pesquisa no Seminário Conceitos bakhtinianos em pesquisas sobre o ensino de língua – 1º
Congresso Internacional de Estudos Lingüísticos e Literários – CIELLI, realizado na Universidade
Estadual de Maringá – UEM, em jun. 2010.
2
Texto traduzido para fins didáticos por Carlos Alberto Faraco e Cristóv ão Tezza.
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Dessa forma, conforme postula Brait (2003), instaura-se uma perspectiva
estilística inovadora, em que a questão do estilo deixa de ser tratada na sua
individualidade e passa a implicar interação, o que vem ao encontro da concepção
dialógica da linguagem proposta por Bakhtin.
Em Marxismo e Filosofia da Linguagem, Bakhtin/Volochinov (2006b, p.144)
apresentam um estudo do estilo das formas de citação da palavra de outrem (discurso
direto, discurso indireto, discurso indireto livre), aspecto a ser destacado em nossa
análise. Assim, os autores destacam a importância dos discursos alheios para a
constituição dos discursos próprios, ―[...] como uma unidade integral da construção.‖
Nesta obra, observamos alguns dos aspectos do conceito de estilo na concepção
bakhtiniana. Conforme os autores, o estilo possui uma ordenação própria, isto é,
organiza a sua maneira os discursos do outro e os elementos da língua, não negando,
dessa forma, o caráter individual do autor, no entanto nunca deixa de ser visto como um
fenômeno social, uma vez que ele sempre se relaciona com os enunciados alheios.
Em Estética da Criação Verbal (BAKHTIN, 2006), o autor postula que a
compreensão da língua não se dá a partir de frases ou orações, mas a partir de gêneros
do discurso. De acordo com Bakhtin (2006, p. 262), os gêneros são ―tipos relativamente
estáveis de enunciados‖, ou seja, formas de textos criados pela sociedade, que
funcionam como mediadores entre o enunciador e o destinatário. Para Bakhtin (2006. p.
262), há três aspectos que caracterizam o gênero: o conteúdo temático, isto é, aquilo que
pode ser dizível num gênero (os assuntos, os temas típicos); o estilo, ou seja, a escolha
dos recursos linguísticos do gênero; a construção composicional, ou formas de
organização textual. Conforme o autor, esses três elementos ―estão indissoluvelmente
ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um
determinado campo da comunicação‖.
Logo, notamos que o estilo, na concepção bakhtiniana, só pode ser
compreendido em sua relação com o gênero no qual se concretiza. Nessa perspectiva,
Bakhtin (2006, p. 265) afirma que, na literatura de ficção, o estilo individual integra-se
ao próprio enunciado, pois ―os diferentes gêneros são diferentes possibilidades para a
expressão
da individualidade da linguagem através de diferentes aspectos da
individualidade‖. Para o autor, na maioria dos gêneros discursivos (com exceção dos
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artístico-literários), o estilo individual não faz parte do plano do enunciado, mas é seu
produto complementar.
Assim, observamos que, na obra Estética da criação verbal, especificamente no
capítulo Os gêneros do discurso, o autor centraliza sua discussão em torno do conceito
de gênero e define o estilo como indissociável do gênero no qual se realiza. Entretanto,
notamos que, nos textos anteriores, há apontamentos que são retomados naquela obra,
os quais nos auxiliam na compreensão da concepção sociológica da linguagem proposta
pelo autor.
3 - O conto na contemporaneidade: contexto, temática e estilo.
Entendemos que compreender os gêneros e seu funcionamento dentro dos
sistemas e nas circunstâncias para as quais são desenhados pode ajudar o aluno, como
escritor, a satisfazer as necessidades da situação, de forma que esses gêneros sejam
compreensíveis e correspondam às expectativas dos outros. Além disso, pensamos que
entender os atos e fatos criados pelos textos pode auxiliar também a compreender
quando estes, embora aparentemente bem produzidos, não conseguem estabelecer a
interação adequada em determinado contexto de produção. Tal compreensão constrói o
caminho para ajudar a diagnosticar e redefinir sistemas de atividades comunicativas na
escola, por exemplo, bem como a decidir quando é necessário escrever de forma
inovadora para realizar algo novo ou diferente.
Nesse aspecto, concordamos com Bazerman (2006, p.52), estudioso na análise
de gêneros, o qual afirma que ―Os estudos literários e culturais, tal como as Ciências
Humanas, precisam encontrar mecanismos que façam o lugar possível, que nos ajudem
a identificar o espaço cultural dentro do qual operamos, em um dado momento
histórico.‖ A proposta prática de aplicar uma oficina em sala de aula de Ensino Médio
em uma escola pública, fundamentada em um viés pedagógico centrado na sociologia
da linguagem, coaduna, portanto, com o objetivo de se verificar quais são os modos
possíveis de mediar o
conhecimento
via gênero discursivo conto, a fim de
instrumentalizarmos de forma adequada sujeitos do ensino como professor e aluno.
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Em nosso projeto de pesquisa, temos várias equipes de estudos. A nossa é
composta por três pós-graduandos das áreas de Letras e de Estudos da Linguagem da
Universidade Estadual de Londrina, além de duas professoras ligadas a SEED-PR e
atuantes no Ensino Médio. Em nossos estudos, percebemos que o conceito de conto
ainda é muito controverso entre os críticos literários, mas podemos tentar defini-lo
como sendo uma narrativa linear, que não se aprofunda na psicologia das personagens
nem nas motivações de suas ações. Ao contrário, procura explicar esses aspectos pela
sua conduta. Em outra perspectiva, o conto se caracteriza por ser uma narrativa curta,
um texto em prosa que dá o seu recado em reduzido número de páginas ou linhas,
apresentando como sua maior qualidade os fatores concisão e brevidade.
Nesse sentido, versar sobre as características do gênero conto, em termos de suas
dimensões (conteúdo temático, construção composicional, associadas ao contexto de
produção), conforme caracteriza Bakhtin (2006) e, sobretudo, suas marcas de estilo, por
meio das vozes que perpassam o locutor no processo de enunciação — os elos
posteriores e anteriores —, é um dos objetivos ao se analisar um gênero discursivo
específico. Mais especificamente, abordar um gênero da esfera literária, neste caso o
conto, amplia o campo de análise devido ao ato de sua construção como texto, resultante
de uma produção artística (arranjo estético), o que está em concomitância com a
proposta do projeto de pesquisa a que este estudo encontra-se veiculado. Ou seja,
pretende-se verificar como são mobilizadas as ―vozes‖ no interior de determinados
textos do gênero em pauta e como tal estudo pode ser transposto para a sala de aula,
buscando-se articular a prática de análise linguística às de leitura e de produção textual,
em uma pesquisa de intervenção.
No Ensino Médio, os gêneros da esfera literária são predominantes como objeto
de estudo e, por esse motivo, o conto é considerado viável para análises e para
discussões, por sua natureza linguística objetiva e concisa. Sob esse enfoque, focaremos
em alguns contos selecionados de cinco autores situados em contextos distintos, a saber,
João Guimarães Rosa, Murilo Rubião, José J. Veiga, Lygia Fagundes Telles e Jorge
Luís Borges.
A escolha por esses autores justifica-se face ao enfoque dado à seleção de contos
de enigma e do insólito, do maravilhoso, do realismo fantástico, uma vez quer suas
abordagens temáticas fogem do tradicional engajamento observado em outros textos do
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Realismo ou mesmo do Modernismo, porque não há preocupação em comprometer-se
com a realidade estética real. Esses textos se pautam pelo lúdico, pelo irreal, sem
convenções históricas ou políticas por manterem contato com o plano ontológico em
que sólido e insólito se fundem. Dessa maneira, observamos referências a lendas, a
mitos, a criaturas fantásticas, a universos paralelos e a outras vertentes que seguem a
linha do ―estranho‖ de Freud e do imaginário cultural. Assim, temos, por exemplo:
Jorge Luís Borges com seus delírios do racional; Guimarães Rosa e sua pintura do
irreal sertão brasileiro, com suas imagens míticas e complexas voltadas ao homem;
Rubião que segue sua linha do maravilhoso moderno; Lygia Fagundes Telles em suas
narrativas de um cotidiano insólito e uma série de outros autores que têm suas vertentes
no Realismo-mágico e que dão destaque incomum à realidade que é intensificada pela
força imagética do discurso.
Buscaremos, no módulo do projeto de trabalho docente que apresentaremos a
seguir, sob a ótica da Teoria Sociológica do Discurso, fazer um recorte que trata da
categorização de vozes sociais em narrativas curtas de Lygia Fagundes Telles, por meio
das estratégias comumente usadas para representar a voz alheia: discursos direto,
indireto e indireto-livre.
4 - Constituição do Projeto de Trabalho Docente
A metodologia adotada por nossa equipe está inserida em uma prática
pedagógica comprometida com a formação social e cognitiva tanto do professor quanto
do aluno em ambiente escolar. Para isso, fundamenta-se na teoria pedagógica da Escola
Histórico-Crítica (SAVIANI, 1999). Nessa perspectiva, a partir das práticas sociais de
dois colégios estaduais de ensinos básico e técnico, de cidades do norte do Paraná,
buscamos,
em um processo
etnográfico, investigar os saberes desse contexto
educacional em relação ao gênero conto, em atividades de investigação e de reflexão
crítica, com abordagem qualitativa, para, por fim, retornar à prática, na tentativa de
contribuição à realidade vigente.
Assim, os passos orientadores deste projeto de trabalho docente são: prática
social,
problematização,
instrumentalização,
catarse
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e
retorno
à
prática
social
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(GASPARIN, 2007). Dessa maneira, a nossa abordagem orienta-se, portanto, à sala de
aula, colocando em foco a perspectiva social do gênero discursivo conto como eixo de
articulação e de progressão curricular na escola. Para tanto, elaboramos, conjuntamente,
uma proposta de intervenção pedagógica, em que o professor irá mediar o conhecimento
do aluno, por meio de questões de interação verbal, destinadas ao segundo ano do nível
médio de ensino, a qual preconiza a aplicação didática do gênero em foco, em que a
análise linguística é o esteio para a identificação das vozes sociais (Bakhtin, 2006).
Como ilustração, apresentaremos o módulo de nossa proposta que trata da narrativa O
noivo, de 1964, publicado recentemente no livro Venha Ver o pôr-do-sol, da Coleção
Lygia Fagundes Telles3 .
O conto trata da história de Miguel, um homem de 40 anos, advogado da
empresa Goldsmith. Em uma manhã, ele é acordado pela empregada a qual lhe diz que
está atrasado para seu casamento. Entretanto, o insólito é que ele não se lembra de nada
sobre o compromisso, muito menos sobre a noiva: amnésia lacunar. Dessa forma, inicia
um processo de busca até o clímax final: quem será aquela que o espera no altar? O
conto desenvolve-se em uma cronologia de poucas horas, mas a personagem rememora
toda sua vida, naquilo que ele considera um momento insano. O narrador é
heterodiegético, mas cede a voz à personagem com ênfase no discurso indireto-livre, em
que a falta de limite específico entre a voz do narrador e o fluxo de pensamento de
Miguel propicia o equilíbrio entre o estilo e a temática, garantindo a verossimilhança ao
texto que pretende manifestar os pensamentos, os desejos, o caos interior da
personagem diante de algo tão inusitado.
Na prática social inicial, apresentam-se os conteúdos que serão trabalhados, no
caso: conto O noivo, de Lygia Fagundes Telles; análise do contexto de produção, da
temática e da organização composicional deste conto; contribuição das marcas
linguísticas para a construção de efeitos de sentido do conto em análise: a bivocalização
nos diferentes tipos de discursos. Em seguida vem o trabalho com a vivência cotidiana
dos conteúdos.
3
A escolha da autora acontece por pertencer ao grupo de escritores contemporâneos selecionados pelos
professores do projeto de pesquisa, em específico da equipe de estudo do gênero discursivo conto; e a
escolha da coleção, por seu contexto de produção, uma vez que trata da coletânea de contos da autora em
foco, organizada pela Editora Ática em dois volumes – Venha ver o pôr-do-sol & outros contos e Oito
contos de amor – denominada de Edição Escolar, dirigida ao público juvenil, estudante de Ensin o Médio.
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Nesta seção, tentamos resgatar o conhecimento já internalizado do aluno,
fazendo um trabalho de pré-leitura do conto, a fim de ativar seus esquemas mentais.
Cabem aqui perguntas relacionadas à temática 4 , como: Antes de lermos o conto,
detendo-nos apenas no título, a que a palavra noivo remete? É possível construir mais de
um sentido para ela?
Você já participou de uma cerimônia em que houvesse a
participação de um noivo? Qual é a imagem que lhe ocorre diante da recuperação dessa
cena? Quais os elementos simbólicos dessa cerimônia? Qual a função deles?
Analisemos imagens de cerimônias matrimoniais e, a partir delas, reflitamos sobre qual
a função de um noivado e de um casamento? Você acredita que o casamento é um ideal
comum ao ser humano ou é uma instituição criada por determinadas sociedades?
Justifique sua resposta. Você já leu algum livro que falasse sobre noivos ou assistiu a
algum filme que tratasse do tema? Qual deles chamou sua atenção ou surpreendeu por
tratar de forma pouco comum esse tipo de relacionamento interpessoal e por que? Você
lembra algum movimento literário que enfatize a instituição casamento? Se houver
algum,
explane sobre as características que lhe são evidentes? Entre outros
questionamentos.
Depois de ler o conto O noivo, ainda na etapa vivencial, é possível confrontar as
hipóteses levantadas anteriormente, a fim de verificar se há um grau maior ou menor de
informação na atividade. Perguntamos, então: Reflita sobre em qual dos sentidos até
agora vistos para noivado e para casamento você considera que se enquadra a temática
da narrativa? Houve quebra de expectativas para você em relação ao que pressupunha
ser o desenrolar da trama? É possível que a noiva que o espera não seja uma mulher
específica, seja uma metáfora representando um rito de passagem? O que você gostaria
de saber a mais sobre esse tema?
Na seção de conhecimentos vivenciais, a construção composicional5
também pode ser trabalhada com perguntas do tipo: Como você percebe a estrutura do
texto? Ela parece com outros que você já leu? Descreva quais as características
semelhantes e, caso o texto se destaque por pontos diferentes, quais são? Justifique e
comprove sua resposta. De que forma a voz da personagem é materializada no texto, por
meio de que estratégia? Você já ouviu a denominação desses tipos de discurso? Quais as
4
5
Proposta para discussão oral.
Esta discussão pode ser feita de maneira oral ou escrita.
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características deles? Você tem alguma curiosidade em relação a como o autor constrói
esse gênero discursivo?
Há maneiras também de se verificar o conhecimento acerca do contexto de
produção do conto: Você já leu outros contos lygianos? Em que este conto aproxima-se
ou afasta-se de outros dessa autora? Qual a possível intencionalidade, o objetivo deste
conto? Quem você acredita ser o leitor preferencial para este conto? Em que meios
culturais você considera que este texto circula? Você tem interesse em descobrir mais
sobre o contexto de produção do conto?
Na fase da problematização dos conteúdos, é cabível inquirir sobre: Por que, na
literatura, tantos tratam sobre o tema casamento? Por que se escrever sobre isso? Qual o
principal objetivo do gênero conto? Você considera que O noivo consegue atingir o
objetivo a que se propõe? Justifique sua resposta. Por que estruturar esse tema em forma
de um conto? Qual a diferença do trabalho da mensagem entre este e outros gêneros?
Explicite. Qual a forma de discurso que você considera mais eficaz para contar uma
história? Um tipo desabilita o outro ou podemos ter a mistura deles em um mesmo texto
com propósitos distintos? Justifique sua resposta.Você pensa ser relevante estudar as
diferentes formas de discurso para desenvolver sua habilidade de escrita? Justifique sua
resposta.
Nas dimensões do conteúdo a serem trabalhadas, podemos apresentar o seguinte:
Pesquise em uma enciclopédia qual é a origem das palavras noivado e casamento, Quais
os possíveis sentidos práticos que tem essas relações para a sociedade. 6 Investigue
também, em livros de língua portuguesa, sobre as diferentes estratégias de discurso que
podem estar presentes na narrativa e quais as suas características linguísticas.
Identifique no conto qual é a estratégia discursiva mais utilizada e justifique a sua
importância à criação de sentidos pelos leitores do gênero. Qual é a perspectiva
ideológica sobre o casamento que perpassa a narrativa? Como isso pode ser percebido
na escolha das palavras do texto presentes ao longo de seu discurso? Diante disso, como
Lygia Fagundes Telles constrói a figura do noivo? De que maneira os elementos
simbólicos no texto expressam esse comportamento da personagem diante do
casamento? No caso de uma leitura do conto em que o casamento seja metáfora de um
processo de mudança, qual seria e quais elementos linguísticos do texto poderiam
6
Esta questão também abarca a dimensão social da temática.
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sugerir isso? A visão de casamento expressa no texto ajusta-se à(a) qual(is)
movimento(s) literário(s) e contexto(s) histórico(s)? Qual o efeito disso para os leitores,
hoje? O que podemos inferir com essa intencionalidade? Você conhece outros autores
que corroboram em sua obra a imagem de noivo criada em torno da figura deste
protagonista?
No momento da instrumentalização, é adequado mostrar que há muitos recursos
linguísticos que mostram as diferentes vozes no texto, pois as personagens dialogam,
expressam suas ideias, seus sentimentos e suas opiniões. No caso do conto, quando o
narrador conta a história, mostrando o que aconteceu e o que as personagens disseram
de uma fala que não é de sua autoria, correspondendo à citação da voz alheia. Como
mecanismos de reprodução desses dizeres, temos, então, os discursos: direto, em que o
narrador cita o discurso alheio, reproduzindo literalmente a fala da personagem; e
indireto, em que, por meio de suas próprias palavras, o narrador comunica ao leitor os
dizeres das personagens.
Assim, são pertinentes solicitações para, por meio do conto O noivo, fazerem o
levantamento das marcas que indicam a presença desses dois discursos no texto,
distinguindo-os. Para isso, podem criar, em conjunto com o professor, um quadro
comparativo, comprovando essas características com fragmentos da narrativa analisada.
Ainda, após esse levantamento, analisar qual o efeito de sentido resultante do uso do
discurso direto para o texto, justificando e comprovando a resposta. Também é possível
apontarmos que há dois tipos de discurso indireto: um que analisa o conteúdo, que
geralmente elimina os elementos emocionais ou afetivos presentes no discurso direto,
com marcas como as interjeições, as interrogações, as exclamações, as formas
imperativas, entre outras; e outro que analisa a expressão, por meio do qual se observa e
estuda as palavras, o modo de dizer dos outros, geralmente marcada por aspas. Dessa
maneira, o professor pode pedir que os alunos procurem encontrar esses dois tipos de
discurso indireto no texto e justificar quais os diferentes efeitos que eles podem causar
aos sentidos do texto.
Além desse tipo de análise, pode ser mostrado que há formas de linguagem que
servem para mostrar diferentes vozes no texto, mas que não demarcam precisamente os
limites entre elas. Logo, verificar se eles conseguem perceber essa característica no
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conto analisado e de que maneira; quais as marcas linguísticas desse tipo de discurso
que são perceptíveis na narrativa; também com qual intencionalidade ele é usado e quais
os efeitos de sentido que esse procedimento pode causar ao leitor.
Na fase da catarse, momento em que o aluno sintetiza o que aprendeu, ele terá
condições de responder sobre: os conceitos de discurso direto, indireto e direto-livre; a
função deles em uma narrativa; a função específica do discurso indireto-livre no conto
O noivo; o porque interessa ao estudante reconhecer essa estratégia para sua habilidade
de leitura e de escrita; se essa estratégia é de fácil ou de difícil compreensão; como é a
organização do discurso indireto livre em O noivo; qual o efeito de sentido provocado
pelo seu uso no conto; entre outras possibilidades.
Na prática social final, após o estudo do conto O noivo e das estratégias de
reproduzir o discurso alheio presentes no texto, a pedido do professor, solicitasse que
eles sistematizem intenções e propostas de ação, a fim de demonstrarem que os
conteúdos foram apreendidos. Uma possibilidade é pedir a produção de um conto, de
maneira coletiva, por exemplo, em que a temática do insólito, do realismo-fantástico
esteja presente, com ênfase na construção composicional para o discurso indireto-livre e
nas escolhas léxico-gramaticais que deem suporte a essa intencionalidade. Outra
sugestão pode ser a facção individual, em que cada um prossiga com a narrativa a partir
do clímax, produzindo um final inusitado, na tentativa de quebrar a expectativa do
leitor, utilizando-se das mesmas características da proposta anterior.
5 - Conclusão
Neste
relatório
de
pesquisa,
procuramos descrever quais os caminhos
empreendidos em nosso estudos no projeto Análise linguística: contextualização às
práticas de leitura e de produção textual, filiado ao Grupo de Pesquisa FELIP –
Formação e Ensino em Língua Portuguesa, da Universidade Estadual de Londrina –
UEL. Nele discutimos a relação entre campos de atividade humana e o uso da língua
sob a ótica da Linguística Aplicada e fundamentados na crítica sociológica da
linguagem. Focalizamos o gênero discursivo conto, nosso objeto de estudo, em contexto
de Ensino Médio, buscando entender de que maneira o texto literário, como estruturação
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do lugar cultural, constrói a experiência de leitura, de análise linguística e de escrita
nesse ambiente educacional. Além disso, procuramos propor intervenções nos modos
como professores de língua materna aplicam o estudo da gramática e do gênero
discursivo em sala de aula.
Referência bibliográficas
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(1926) Trad. de Carlos Alberto Faraco e Cristovão Tezza. Disponível em
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BAZERMAN, C. Gêneros textuais, tipificação e interação. Tradução e organização:
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FIORIN, J. L. Interdiscursividade e Intertextualidade. In: BRAIT, B. (org). Bakhtin:
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ISSN 2178-8200
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