UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO INSTITUTO DE LINGUAGENS PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS DE CULTURA CONTEMPORÂNEA NILO ALVES BEZERRA A TELEVISÃO PÚBLICA BRASILEIRA NA CONTEMPORANEIDADE: O CASO DA TVU DA UFMT CUIABÁ FEVEREIRO DE 2012 NILO ALVES BEZERRA A TELEVISÃO PÚBLICA BRASILEIRA NA CONTEMPORANEIDADE: O CASO DA TVU DA UFMT Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação – Mestrado em Estudos de Cultura Contemporânea - da Universidade Federal de Mato Grosso, na Linha Comunicação e Mediações Culturais, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre. Orientadora: Professora Doutora CÁSSIA VIRGÍNIA COELHO DE SOUZA CUIABÁ – 2012 Dados Internacionais de Catalogação na Fonte B574t Bezerra, Nilo Alves. A televisão pública brasileira na contemporaneidade: o caso da TVU da UFMT / Nilo Alves Bezerra. -- 2012. 154 f. ; 30 cm : color. (incluem figuras) Orientadora: Profª. Drª. Cássia Virgínia Coelho de Souza. Dissertação (mestrado) -- Universidade Federal de Mato Grosso, Instituto de Linguagens, Programa de Pós-Graduação em Estudos de Cultura Contemporânea, Cuiabá, 2012. Bibliografia: f. 147-154 1. Televisão pública. 2. Comunicação de massa. 3. Universidade Federal de Mato Grosso - Televisão. I.Título. CDU 316.77:378(817.2) Catalogação na fonte: Maurício S.de Oliveira CRB/1-1860. Resumo O avanço tecnológico trouxe novas ferramentas para a comunicação de massa. A imagem digital, a internet e os dispositivos móveis alteraram a forma de comunicar. A televisão, que revolucionou o mundo no século passado vem perdendo sua hegemonia, mas ainda é o meio de maior abrangência de atuação. O profissional da comunicação televisiva deve se adequar à nova forma de comunicação audiovisual, mais interativa e com multiprogramação. A profusão de novas emissoras de televisão também muda a cultura de massa, agora mais segmentada. Nesta pesquisa é feita uma análise de como a TV pública, mais especificamente a TV UNIVERSIDADE da UFMT, enfrenta esse novo panorama verificando quais os maiores problemas e as novas possibilidades para cumprir seu papel na contemporaneidade. Abstract Technological advancement has brought new tools for mass communication. The digital image, the Internet and mobile devices have changed the way people communicate. Television, which revolutionized the world in the last century is losing its hegemony, but is still the larger scale of operation. The communications professional television must conform to the new form of audiovisual, more interactive and multiprogramming. The profusion of new television stations also changes the mass culture, now more targeted. This research is an analysis of how public TV, specifically the TV UNIVERSITY UFMT, facing this new situation, by checking that the major problems and new contemporary society. possibilities to fulfill their role in Lista de ilustrações Página Ilustração 1 - Quadro da estrutura da Secomm/UFMT (UFMT, 2012).....................118 Ilustração 2 - Organograma da TVU (TVU, 2009) ...................................................119 Lista de fotografias Página Fotografia 1 – Bloco Casarão atualmente ...............................................................108 Fotografia 2 – Entrada atual da TVU – Bloco Casarão, térreo, UFMT. ...................109 Fotografia 3 – Torre da TVU....................................................................................113 Fotografia 4 – Prédio dos transmissores .................................................................117 Fotografia 5 – Mesa de áudio, efeito e ilhas de edição não-linear ..........................126 Fotografia 6 – Três ilhas de edição não linear.........................................................126 Lista de Tabelas Página Tabela 1 – Índices de audiência de emissoras abertas no Rio de Janeiro Ibope/Media Workstation (EBC, 2011) ....................................................................102 Tabela 2 – Programação da TVU em 2010 (TVU – 2011).......................................120 Tabela 3 – Programação TVU 2011 (TVU 2011) ....................................................121 SUMÁRIO Página Introdução ...................................................................................................................8 1 A cultura e os meios de comunicação................................................................15 1.1 As camadas da modernidade......................................................................15 1.2 A Cultura de massa.....................................................................................19 1.3 A Indústria Cultural......................................................................................26 1.4 O Homem-médio.........................................................................................29 1.5 A Cultura midiática ......................................................................................32 1.6 Cibercultura.................................................................................................34 2 A televisão e suas especificidades.....................................................................37 2.1 A máquina audiovisual ................................................................................38 2.2 A linguagem televisiva ................................................................................39 2.3 A televisão em comunhão com o telespectador..........................................42 2.4 Transmissão Direta .....................................................................................44 2.5 A audiência .................................................................................................45 2.6 A TV Digital .................................................................................................47 2.7 A Internet ....................................................................................................49 2.8 O Fluxo de dados........................................................................................51 2.9 Tendências..................................................................................................52 2.10 A formação da mídia televisiva no Brasil ....................................................55 3 A televisão pública .............................................................................................66 3.1 Breve História da TV pública no Brasil........................................................73 3.2 Um marco histórico para a radiodifusão pública .........................................80 3.3 A TV pública institucionalizada....................................................................84 3.4 A Migração Digital na Rede Pública de televisão........................................88 3.5 A publicidade na TV pública........................................................................90 3.6 A representatividade social .........................................................................93 3.7 Características das TVs públicas ................................................................95 3.7.1 Autonomia............................................................................................96 3.7.2 TV Cidadã ............................................................................................97 3.7.3 Pluralismo ............................................................................................98 3.7.4 Atitude inovadora .................................................................................99 3.7.5 Comunicação massiva.......................................................................100 4. A TV Universidade ...........................................................................................103 4.1 Breve história da TVU ...............................................................................103 4.2 A relação TV Brasil e a TVU, ou EBC e UFMT. ........................................122 4.3 A TVU na contemporaneidade tecnológica...............................................126 4.4 Peculiaridades da emissora universitária..................................................129 4.5 A TVU como TV pública ............................................................................131 4.5.1 Programação construtiva ...................................................................133 4.5.2 Programação abrangente – Televisão pluralista................................135 4.5.3 Programação inovadora.....................................................................137 4.5.4 Comunicação massiva.......................................................................139 4.5.5 Autonomia..........................................................................................140 Considerações finais ...............................................................................................142 REFERÊNCIAS .......................................................................................................147 Introdução O ato de assistir televisão1 é uma das principais características culturais da contemporaneidade. Na maioria das residências do planeta existe ao menos um televisor, onde as pessoas fixam suas atenções, por algum tempo, recebendo mensagens. A televisão é um forte instrumento de mediação na sociedade. Ela tomou o lugar principal no espaço público. É uma das tecnologias de comunicação e informação que compõe a "ágora" contemporânea. O debate social, envolvendo o grande público, obrigatoriamente passa por ela. Esse hábito de assistir televisão, que hoje é parte essencial da nossa cultura, foi constituído ao longo de mais de oito décadas de comunicação televisual. Em grande parte dos países europeus a televisão foi criada através do Estado e em muitos deles o controle passou a ser exercido pela sociedade, o que elevou a televisão à categoria de serviço de utilidade e interesse público. Diferentemente da Europa, a televisão apareceu no Brasil, nos anos 1950, através da iniciativa privada e com finalidade comercial. Logo na primeira apresentação já se anunciava os patrocinadores. A busca pela audiência se tornou meta maior da TV brasileira, pois com ela vinham os anunciantes, em proporção direta (maior audiência, mais anunciantes). Esse objetivo gerou muitos programas sensacionalistas, espetaculares, em detrimento de seu valor cultural e educativo. Somente vinte anos depois do “reinado” das TVs comerciais, quando a sociedade já se habituara aos gêneros apelativos, é que surgiu no Brasil a televisão de caráter educativo, sem finalidade comercial. Ainda assim com larga restrição em matéria de conteúdo. A TV educativa geralmente era subordinada ao Estado, ou às universidades; faltava-lhe a autonomia. A censura e ingerências nas emissoras educativas, pelos governos populistas e pelo regime de exceção instaurado no Brasil, fizeram nascer o sentimento libertário nos meios de comunicação, passando a fazer parte do pensamento nacional a busca de uma televisão feita para atender as necessidades do cidadão e livre das limitações impostas pela lei autoritária. As emissoras educativas buscaram sair da categoria de produtoras de aula e se tornaram produtoras de cultura, no sentido educativo. Mas o grande anseio era a autonomia. Só com ela poderia uma televisão 1 O meio de comunicação televisão, neste trabalho será referido como TV. 9 ser considerada pública. Com o retorno democrático no Brasil, na Assembleia Nacional Constituinte, de 1988, se inseriu na nova Constituição Brasileira a previsão de uma televisão pública complementando as emissoras privadas e estatais. Apesar de estar prevista na Carta Magna de 1988, somente em 2007 foi institucionalizada uma emissora pública no Brasil: a TV Brasil. Essa história está detalhada nos capítulos 2 e 3, desta pesquisa. A principal característica de uma TV pública, que a diferencia das demais é ser livre de interferências estatais ou comerciais. A TV pública é feita pelo cidadão para o cidadão. Para isso existem princípios voltados à construção da cidadania plena de direitos. A TV Brasil é retransmitida em Cuiabá pela TV Universidade (TVU), que assume a responsabilidade de uma TV pública cuiabana. A TVU, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), é uma TV aberta, educativa, de pequeno porte, associada à Empresa Brasil de Comunicação (EBC). Suas imagens são geradas do campus da UFMT e atingem toda a região da baixada cuiabana, que abriga uma população de aproximadamente 551.350 habitantes2. Mas a TVU cumpre seu papel de TV Pública? A questão foi analisada no contexto atual da cibercultura e suas novas tecnologias, observando-se a integração da TVU nesse novo ambiente tecnocultural, composto pelas novas formas de transmissão, trazidas com a tecnologia digital, que são a TV Digital, a Internet e o celular. Quanto ao novo suporte tecnológico, parto do princípio estabelecido pelo Estatuto da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), de que as TVs públicas devem promover o “acesso à informação por meio da pluralidade de fontes de produção e distribuição do conteúdo” (Estatuto da EBC, art. 2º, II, aprovado pelo Decreto 6246 de 24 de outubro de 2007). Por esse princípio as TVs públicas regidas pelo Estatuto (e o canal 02, TVU, é da EBC) devem usar a “pluralidade de fontes de produção e distribuição de conteúdo”, ou seja, usar de toda a tecnologia disponível para divulgar a informação. A mudança para TV digital3 é uma obrigação legal. Isso também leva as TVs públicas a se adaptarem à Internet e celulares, novos meios de recepção permitidos à transmissão digital. 2 Censo IBGE 2010, mencionado no site http://www.cuiaba.mt.gov.br, acessado em 14/09/2011. A TV digital é a radiodifusão de áudio e vídeo em sinal modulado e comprimido digitalmente, na forma de dados, proporcionando imagem de alta qualidade. 3 10 Mas uma TV pública não se faz somente com tecnologia, a sua função primordial é ser pública. Existem princípios determinados pelo acima referido decreto, a serem seguidos pela TV pública. A TVU segue todos os princípios e cumpre os objetivos de uma emissora pública de televisão? Para responder esta pergunta, a pesquisa procurou analisar o panorama do atual sistema de comunicação, onde se operam mudanças no cenário midiático, com a proliferação de emissoras temáticas, segmentadas, surgimento da TV digital, celular e Internet e, consequentemente, apurar a divisão da hegemonia comunicacional (antes predomínio da televisão), frente ao aumento desse poder de produção de subjetividade indissociável da globalização de uma cultura de consumo. Considerando as questões colocadas acima me limito à análise específica da televisão pública, com ênfase para a TV Universidade – TVU -, da Universidade Federal de Mato Grosso. Faço uma verificação de seu desempenho frente aos crescentes desafios surgidos pela diversidade de opções disponíveis ao telespectador. A abordagem de análise adotada nessa pesquisa trata a televisão como um aparelho que trouxe muito benefício ao desenvolvimento humano, sem ignorar sua influência negativa também. Considero-a como mais uma ferramenta para o exercício da socialidade, conceituada por Maffesoli (1996), com apreço também ao seu caráter de utilidade pública. Dita comportamentos e estabelece relações. É uma máquina paradoxal, pois ao mesmo tempo em que isola o indivíduo, no ato de assisti-la, o integra à sociedade no ato de informá-lo. O embasamento teórico-conceitual do trabalho envolve um elenco de autores que ao longo da modernidade e da chamada pós-modernidade tem estudado temas e problemas relativos ao objeto da pesquisa. O trabalho está em sintonia com a escola sociológica europeia, aderindo ao pensamento de Edgar Morin (2005) e de Umberto Eco (2000), em relação à cultura de massa, e a força da comunicação como aparelho ideológico, denunciado por Althusser (1980). Sigo também o pensamento de Jesús Martín-Barbero (2009), com relação à resistência do cidadão frente ao poder da televisão. Na atualidade, acolho ainda alguns conceitos de François Jost (2010), referentes aos mundos da televisão (real, fictivo e lúdico). Esta discussão encontra-se no capítulo 1 denominado “A cultura e os meios de comunicação” e no capítulo 2, “A televisão e suas especificidades”. É importante ressaltar que a grade teórico-conceitual adotada nesses dois capítulos funciona 11 como suporte para os capítulos 3 e 4 nos quais abordo a TV pública e a TVU e configura o cenário onde se localiza o objeto de estudo da presente pesquisa: “A Televisão pública brasileira na contemporaneidade: o caso da TVU da UFMT.” Para a elaboração dos dois primeiros capítulos além dos autores e conceitos mencionados utilizei os conceitos de noosfera de Teilhard de Chardin (1851-1955), iconosfera elaborado por Cohen-Séat (1959), videosfera de Régis Debray (1993) e ciberespaço de Pierre Lévy (1999), para compreender e identificar as vias por onde transitam as informações no mundo contemporâneo. Ao lado desses conceitos e autores para compreender a história a formação da sociedade e da cultura de massa e, nesse âmbito o problema da indústria cultural, recorro às análises de Adorno e Horkheimer (1947), Bourdieu (1997), Rosnay (1995) e Muniz Sodré (2002) dentre outros. Esses pensadores trazem contribuições críticas importantes para se pensar a questão do “homem médio” como um tipo de sujeito aberto às produções descartáveis, triviais e sem valor educativo e cultural, a servir como padrão para a conquista da audiência a qualquer preço. A análise e os conceitos sobre a cultura midiática de nossos dias encontrei em Lúcia Santaella (2007), que define o cenário contemporâneo midiático como constituído por seis tipos de lógicas culturais que estão interconectadas. Essa definição é fundamental para a pesquisa porque é nesse contexto multimidiático que se faz e se pensa a televisão nos dias atuais. O conceito de cibercultura que se desenvolve no ciberespaço é indissociável da Internet e do surgimento da “rede” que hoje engloba todo o planeta. Nesse conceito destaco o seu caráter de interatividade tal como definido por Possari (2005). Nas últimas duas décadas, a audiência da televisão se dissipou em dezenas de novos canais abertos (gratuitos) e outros tantos pela TV paga, e mais ainda pela poderosa e promissora rede mundial de computadores (Internet). Busco no capítulo 2, “A televisão e suas especificidades”, conferir algumas previsões para a mídia de massa, principalmente a televisão, frente às novas possibilidades tecnológicas e as múltiplas formas de assistência dos telespectadores fazendo uma breve história de sua formação, principalmente no Brasil, e a sua influência na formação da “cultura televisiva”. Procuro conceituar e entender quais os objetivos de uma televisão pública e a sua atuação perante a sociedade na construção da cidadania proposta por alguns 12 autores latino-americanos, entre eles Omar Rincón, German Rey e Martín-Barbero (2002), questão que é retomada no capítulo 3, “Televisão Pública”. Sendo a questão da cidadania um problema que está no centro dos debates, propostas e análises sobre a TV pública considerei necessário nesse capítulo introduzir os conceitos de público e privado e de esfera pública tal como foram definidos por Hannah Arendt (2007) e J. Habermas (1984). Hannah Arendt assinala o nascimento desse conceito na Grécia antiga e Habermas o examina no contexto da modernidade no qual a televisão, ao lado de outros meios de comunicação de massa irá assumir um papel estratégico nas transformações que irão ocorrer na esfera pública. A TV pública se sustenta com o dinheiro público, do cidadão, e sua responsabilidade é de bem servi-lo, sem as tentações do consumo, mas, sim, com informação, cultura e educação, temperadas com capacidade de entreter o telespectador, acostumado ao espetacular, ao divertido, ao de fácil assimilação. A grande indagação do momento é sobre a relevância da televisão pública num campo superlotado de emissoras, segmentadas, que produzem cultura, educação e principalmente entretenimento. Nesse sentido ao tratar da TV pública procuro entender a formação histórica da televisão pública no país, desde o tempo em que era somente educativa, e as consequências de seu atraso em relação às emissoras comerciais, seus objetivos e princípios, suas características, audiência e funcionalidade. Nessa perspectiva as relações entre cultura, políticas culturais e comunicação são relevantes para um conceito de televisão pública que contemple além das características básicas de um serviço de radiodifusão pública os pressupostos de uma televisão para formação cultural. “A TV Universidade” é o título do capítulo 4, que analisa a televisão da Universidade Federal de Mato Grosso – TVU –, sua história, sua estrutura organizacional e operacionalidade, audiência e sua função dentro da sociedade cuiabana. A pesquisa se deu predominantemente através de leitura de textos e documentos, alguns de autores que estudam, outros que vivenciam a questão da televisão pública no Brasil e na America Latina. A pesquisa documental foi realizada, principalmente, no acervo da TVU e a legislativa foi obtida através da Internet. Por esse último meio também obtive muitas informações pontuais e atualizadas sobre o tema da pesquisa. 13 Para analisar a TVU, procurei seguir uma linha baseada na metodologia qualitativa de caráter etnográfico, mas sem o rigor do antropólogo. Uma das vantagens dessa metodologia é que ela se baseia na proximidade com o objeto estudado ou ambiente de investigação que nessa pesquisa é a TVU. Aproveitei de minha longa vivência dentro da TVU, como servidor4, desde as suas primeiras transmissões locais e na posição de “observador participante”, passei a anotar os dados coletados na minha "nova" experiência, dentro da emissora em que trabalho há mais de quinze anos. Ao adotar essa postura a experiência de estranhamento e deslocamento, constitutivas dessa metodologia, permitiu-me olhar o ambiente de investigação com outros olhos na busca dos significados do mundo da comunicação de massa, da indústria cultural com tudo que lhe envolve. Nesse amplo universo privilegiei os significados que se referem a televisão e mais especificamente à TVU. Ao adotar a posição de “observador participante” própria ao caráter etnográfico da metodologia adotada, não me coloquei ingenuamente em relação a minha presença no ambiente da TVU, pois uma das características dessa posição é que o observador também é observado (TRAVANCAS, 2006, p. 98-109). Dessa forma não ignorei que o fato de estar presente no ambiente de trabalho, agora como pesquisador, era diferente para os funcionários podendo interferir na rotina de trabalho. A participação esteve presente, mas procurei atuar durante a investigação com "auto-vigilância" redobrada para ser crítico necessário e evitar o protecionismo pelo vínculo laboral persistindo em que os dados coletados e examinados são formas objetivas e têm vida própria. Nesta condição tive, acesso a todos os setores da emissora e com isso pude dispor da amplitude necessária para captar a sua realidade que se iguala a muitas outras emissoras ligadas a instituições de ensino superior. Optei pela metodologia de compreensão dos processos comunicacionais, tecnológicos e administrativos que envolvem um caso específico, o da TVU da UFMT, uma das menores estruturas de televisão dentro da grande rede pública do país. Por maior concentração na pesquisa de documentos e textos em razão de sua verossimilhança aos fatos, as entrevistas foram poucas e complementares aos elementos colhidos na postura de observador participante e dos dados fornecidos 4 Afastado para mestrado há dois anos. 14 anteriormente pelo levantamento bibliográfico sobre o tema. Realizei entrevistas com a primeira supervisora da TVU a fim de obter informações históricas não escritas nos documentos consultados, principalmente na intenção inicial da emissora em Cuiabá, como produtora de conteúdo local. Fiz entrevista com o atual supervisor da TVU para colher informações sobre a migração para TV digital. E também entrevistei o Secretário de Comunicação e Multimeios da UFMT, a fim de obter informações sobre a aplicação dos princípios da TV pública, dentro da emissora com forte influência estatal. Frequentei a TVU, na fase da coleta de dados para a pesquisa, com a finalidade de acompanhar as práticas cotidianas e os avanços ou retrocessos dos dois anos que desenvolvo este estudo. Também como observador crítico passei muitas horas em frente à televisão para conferir as diversas teorias e conceitos aplicados à programação tanto pública quanto comercial, para uma real comparação entre as duas naturezas e suas consequências. Com a presente pesquisa procurei reconstituir a esfera que envolve e na qual está envolvida a televisão pública e o seu papel dentro dela. Para conceituá-la como pública, analisei a recém-nascida TV pública brasileira, a TV Brasil, sob a ótica para sua programação, com foco para uma de suas ramificações mais frágeis no aspecto técnico e de pessoal, a TVU da UFMT. Dei ênfase a essa pequena emissora, que serve como exemplo de muitas outras deste imenso país, que é o Brasil. Procurei identificar os pontos de maior dificuldade desta emissora e as suas causas. Espero que o trabalho desenvolvido, além de atender à comunidade acadêmica em futuras pesquisas, sirva como base de informações para o enfrentamento dos problemas que dificultam a assunção da pequena TV pública do interior do Brasil no seu relevante papel no espaço público, de palco para o debate e catalisadora de esforços no sentido de fortalecer a cidadania. 1 A cultura e os meios de comunicação 1.1 As camadas da modernidade Desde o final do século XIX, pensadores vêm trazendo ao conhecimento humano novos invólucros a rodear e permear a vida planetária, invisíveis mas determinantes da ideia de cultura contemporânea. O imaginário, instigado por novas formas de percepção, passa a criar novos espaços de interação social. O filósofo francês Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), envolveu o planeta na Noosfera,5 a qual entendeu ser a "esfera do pensamento humano". Como geopaleontólogo, Teilhard de Chardin estava familiarizado com as evidências geológicas e fósseis da evolução do planeta e da espécie humana. Como sacerdote cristão e católico, tinha consciência da necessidade de um metacristianismo que contribuísse para a sobrevivência do planeta e da humanidade sobre ele. No cerne da questão está a visão filosófica, teológica e mística de Teilhard de Chardin a respeito da evolução de todo o Universo, do caos primordial até o despertar da consciência humana sobre a Terra, estágio esse que, segundo ele, será seguido por uma Noogênese, a integração de todo o pensamento humano em uma única rede inteligente que acrescentará mais uma camada em volta da Terra: a Noosfera, que recobrirá todo o Biosfera Terrestre. Esse mundo ou esfera das ideias é formado por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos. Seguindo esta linha de pensamento, alimenta-se a noosfera quando se pensa e comunica (Wikipedia, 2011). Com a evolução na produção de imagens, em 1959, Cohen-Séat cunhou o termo "iconosfera" para denominar o lugar onde as imagens transitam e mediam os indivíduos. Um universo constituído pelos símbolos idealizadores do pensamento humano de onde originou o cinema e as formas relacionadas ou afins como a fotonovela e a televisão. Raúl Ramirez, em artigo postado na Internet, aponta o contexto histórico no qual Cohen Séat idealizou sua esfera iconográfica: La iconosfera como la concebía Cohen Séat, se habría formado en las sociedades industrializadas, en una época en la que se habían inventado nuevas tecnologías y nuevas modalidades expresivas de la imagen tan básicas como la foto, la litografía, el cartel o el 5 Noo - derivação da palavra grega νους (nous, "mente"). 16 fotograbado, la narrativa dibujada del comic (a la que el cine tanto le debe), en suma, medios que densificaron en gran medida el capital icónico en los espacios privados y públicos de las sociedades urbanas. (RAMIREZ, 2012). Posteriormente, outro conceito foi proposto por Yuri Lotman; a "semiosfera", para designar o ambiente de signos que rodeiam o homem moderno, exprimindo a cultura como um organismo em que estão juntos aspectos biológicos e culturais. Trata-se de um espaço que possibilita a realização dos processos comunicativos e a produção de novas informações, funcionando como um conjunto de diferentes textos e linguagens. Abraham Moles propôs o termo mediasfera que seria uma das capas mais densas da semiosfera, já que estaria constituída de um variado capital imagético. Modernamente, o francês Regis Debray, um dos fundadores da Midiologia (ou mediologia, como alguns autores grafam), no estudo de fenômenos da transmissão mediadora, identificou três etapas cronológicas, cumulativas, para o olhar: a logosfera, a grafosfera e a videosfera. As três censuras midiológicas da humanidade – escrita, imprensa, audiovisual – determinam, no tempo das imagens, três continentes distintos: o ídolo, a arte, o visual. Cada um tem suas leis. A confusão entre eles é causa de tristezas inúteis. (DEBRAY, 1993, p. 204). O “autor, considerando-as “técnicas de transmissão”, esclarece a trajetória das imagens distinguindo três etapas acumulativas: À logosfera, corresponderia a era dos ídolos no sentido lato (do grego eídolon, imagem). Este período estende-se da invenção da escrita à da imprensa. À grafosfera, a era da arte. Sua época estende-se da imprensa à TV a cores (como veremos, muito mais pertinente do que a foto e o cinema). À videosfera, a era do visual (conforme o termo proposto por Serge Daney). É precisamente a época em que vivemos. (DEBRAY, 1993, p. 206). Debray alerta que nenhuma “midiasfera” exclui a outra, mas “se sobrepõem e se imbricam uma na outra” (DEBRAY, 1993, p. 206). A visão do mundo contemporâneo está mergulhada no visível, o qual se arroga o exclusivo da verdade e da realidade. Isto é, vivemos numa época em que apenas é dado como certo e factual o que se vê. A confiança do olhar moderno não está pois no invisível, que é entendido como falso e irreal. Eis o domínio da videosfera, uma nova ordem que dá a supremacia à contemplação da imagem, desconfiando daquilo que não o é. 17 Aparece a crise da metafísica como propulsora deste status quo, que se consubstancia no desaparecimento dos invisíveis (DEBRAY, 1993, p. 206). Com o advento da informática e da Internet, surgiu um novo local de circulação do conhecimento, denominado ciberespaço, metáfora usada para o espaço imaginário que existe em e entre dispositivos computacionais, interligados em rede. O filósofo contemporâneo Pierre Lévy (1999) tem profundo estudo sobre o tema e assim define o ciberespaço: Eu defino o ciberespaço como o espaço de comunicação aberto pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos computadores. Essa definição inclui o conjunto dos sistemas de comunicação eletrônicos (aí incluídos os conjuntos de redes hertzianas e telefônicas clássicas), na medida em que transmitem informações provenientes de fontes digitais ou destinadas à digitalização. Insisto na codificação digital, pois ela condiciona o caráter plástico, fluido, calculável com precisão e tratável em tempo real, hipertextual, interativo e, resumindo, virtual da informação que é, parece-me, a marca distintiva do ciberespaço. Esse novo meio tem a vocação de colocar em sinergia e interfacear todos os dispositivos de criação de informação, de gravação, de comunicação e de simulação. A perspectiva da digitalização geral das informações provavelmente tornará o ciberespaço o principal canal de comunicação e suporte de memória da humanidade a partir do início do próximo século. (LÉVY, 1999, p 93). Mas, muitos dizem, o ciberespaço vai mais além dessa primeira realidade; há um mundo mágico dentro desse não-lugar. André Lemos (2008) numa visão antropológica, vê o ciberespaço preso em estruturas arcaicas, imaginárias e simbólicas de toda a vida em sociedade, que o leva a esclarecer seu conceito sob luz mística. Pelo hermetismo ele traça um paralelo entre os códigos herméticos com a linguagem do computador, a criptografia, acessíveis a poucos iniciados. Ele vê a gnose como parte integrante desse mundo misterioso, no qual se promove um rito de passagem, saindo da modernidade para a pós-modernidade. Para Lemos, uma nova temporalidade surgiu, a qual ele chama de tempo real, similar ao tempo sagrado, circular e reversível, “o passado é a fonte do saber na preparação do presente e do futuro” (Lemos 2008,133). O ciberespaço, diz ele, pode ser visto na metáfora da noosfera, como a “camada da consciência humana digitalizada”, e, lembrando Pierre Lévy, o ciberespaço é o receptáculo de uma inteligência coletiva. Citando Rosnay, ele vê esse organismo complexo, interativo e auto-organizante, 18 como uma entidade quase biológica, híbrido, chamado por Joel de Rosnay de “cybionte”, um cérebro planetário formado pelo conjunto dos cérebros humanos e de redes conectadas por computadores. A rede que interliga esse ecossistema complexo é vista por Lemos, lembrando Deleuze e Guattari, como uma estrutura rizomática, “um sistema de multiplicidade, um sistema de bifurcações como um verdadeiro rizoma, uma extensão ramificada em todos os sentidos, sem centro” (LEMOS, 2008, p.135-136) Por outro lado, as ciências exatas veem esse mundo imaginário com mais solidez e explicam o fenômeno da comunicação midiática de forma mais concreta: como sistemas de circulação de informações sim, mas dentro de um campo real, de possível detecção, limitado pelo espaço gerado a partir de fonte física através de sinais eletromagnéticos, hertzianos, analógico, codificados (digitais) e decodificados para chegar, via aérea ou por cabos, ao cidadão munido de aparelhos receptores como rádio, telefone, televisão e computadores. Pois é nesse universo, imaginário ou real, que flui a informação, a grande riqueza da humanidade, neste período contemporâneo. E é dessas fontes de comunicação que se forma a mentalidade da grande massa receptora. A partir do uso massivo da imprensa escrita até as mídias eletrônicas (televisão, rádio, Internet etc.) se estruturou uma grande rede de circulação de todo o conteúdo das esferas, levando a mensagem ao receptor. Por essas vias, existentes nas diversas camadas da modernidade (noosfera, iconosfera, videosfera, ciberespaço), transitam as informações que circundam o planeta. A persuasão da sociedade através dos meios de comunicação eletrônica é ação estratégica na nossa época, principalmente no mundo ocidental, onde se repugna a coação física, prevalecendo o espírito de liberdade e a democracia. Rejeita-se a imposição da força, porém se aceita o convencimento através da mídia. Através desses instrumentos propagadores se estruturou, nestes últimos dois séculos, uma sociedade organizada, onde as classes populares ganharam força política e de compra. Com a ascensão dessa massa populacional, muitos teóricos passaram a dedicar seus estudos às questões de controle e poder sobre ela. 19 1.2 A Cultura de massa A cultura de massa é o conjunto de práticas sociais e ideias consideradas como preferidas por um consenso informal dentro de uma dada sociedade. Embora tenhamos notícias de políticas culturais para uma coletividade desde a história antiga, a exemplo da política de “pão e circo” (panis et circenses), pela qual o governo romano, através do “espetáculo” das arenas, aplacava a ira dos governados, a cultura de massa passou a ser considerada, por muitos, um fenômeno social a partir do século XX. Alguns pensadores contemporâneos, no entanto, retrocederam um século a data de sua gestação, desde quando se começa a utilizar a produção em série e a utilização de mídia de distribuição massiva. A história da formação e controle da sociedade de massa está relatada por Jésus Martín-Barbero, em sua obra Dos meios às mediações. O renomado escritor coloca como ponto de partida da teoria da sociedade-massa, a reação dos liberais franceses e ingleses, no período pós-napoleônico, à revolução de 1848, por medo às “perigosas massas que conformam as classes trabalhadoras” (MARTÍNBARBERO, 1997, p. 52). Segundo o autor, junto aos novos modos de controle dos movimentos populares, se porá em marcha um movimento intelectual que, a partir da direita política, trata de compreender, de dotar de sentido o que está acontecendo. A teoria sobre as novas relações das massas com a sociedade constituirá um dos pivôs fundamentais da racionalização com que se recompõe a hegemonia e se readéqua o papel da burguesia que, de revolucionária, passa nesse momento a controlar e frear qualquer revolução. (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 53). A ideia prevalecente quando da formação da cultura de massa, era aristocrática e apocalíptica. A começar por Tocqueville que dizia estarem as massas adentrando a sociedade e dissolvendo o tecido das relações de poder, erodindo a cultura, desintegrando a velha ordem (Tocqueville apud MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 53). Barbero lembra também de Stuart Mill, que, na segunda metade do século XIX, complementando o pensamento de Tocqueville, teve a ideia de massa gerando a “tendência da sociedade a converter-se numa vasta e dispersa agregação de indivíduos isolados […] Massa é então “a mediocridade coletiva” que domina cultural e politicamente, “pois os governos se convertem em órgão das tendências e dos instintos das massas” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 56). 20 Complementando esses dois autores, em 1895, Gustave Le Bon publicou La psychologie des foules, onde ressalta o aspecto psicológico da massa. Segundo Barbero, Le Bon dizia que, como fenômeno psicológico, os indivíduos, em coletividade, “estão dotados de uma alma coletiva que lhes faz comportar-se de maneira completamente diferente de como se comportaria cada indivíduo isoladamente.” Num retorno ao estado primitivo, “as inibições morais desaparecem e a afetividade e o instinto passam a dominar, pondo a “massa psicológica” à mercê da sugestão e do contágio [...] São uma energia mas sem controle: e não é esse precisamente o ofício da ciência? O psicólogo se propõe então o estudo do modo como se produz a sugestionabilidade da massa para assim poder operar sobre ela” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 56-57). O autor detecta dois dispositivos de seu funcionamento: o mito que as une e o líder que celebra os mitos. Essas teorias sobre as massas são desmistificadas por Freud, cuja ideia, contrariando o individualismo burguês, era de que “o que acontece na massa talvez não seja tão radicalmente diferente do que se passa com o indivíduo. Pois o que explode na massa está no indivíduo, porém reprimido. O que equivale a dizer que a massa não está substancialmente feita de outra matéria, pior que a dos indivíduos” (Freud apud MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 58). Seguindo essa mesma trilha, Wilhelm Reich, em 1935, afirmava que “não existe nenhum processo socioeconômico de alguma importância histórica que não esteja ancorado na estrutura psíquica das massas e que não se tenha manifestado através de um comportamento dessas massa". E então o verdadeiro problema que uma psicologia das massas deve enfrentar é “o problema da submissão do homem à autoridade”, de sua degradação, visto que “onde quer que grupos humanos e frações das classe oprimidas lutem ‘pelo pão e pela liberdade’, o grupo das massas se mantém à margem e reza, ou simplesmente luta pela liberdade no bando de seus opressores” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 58). A partir dos anos 1930, o êxodo rural se intensificou em direção às cidades industriais, causando grande concentração de pessoas no ambiente urbano, a exigir do Estado melhorias nas áreas de trabalho, saúde, educação e diversão. Essas eram reivindicações massivas. A manutenção do poder exigia, ao menos aparentemente, o atendimento dos anseios da população. Novas ideias surgiram para o “controle da massa”, inaugurando a “psicologia social”, que seria o objeto da primeira teoria da comunicação. Barbero cita Tarde e o 21 seu livro L´Opinion et la foule, “no qual a questão das crenças é objeto de um deslocamento fundamental: em lugar de ter como espaço de compreensão de seu estatuto social o religioso, as crenças se recolocam no espaço da comunicação, de sua circulação na imprensa. A massa é convertida em público e as crenças, em opinião. O novo objeto de estudo seria, pois, o público como efeito psicológico da difusão de opinião, isto é: aquela coletividade “cuja adesão é só mental”.” (Tarde apud MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 59-60). Esse poder de adesão mental se faz pela sugestão, e os meios de comunicação seriam o melhor caminho para atingir essa adesão da “massa”. Outro pensador citado, José Ortega y Gasset, teve ampla repercussão cultural com seu livro A Rebelião das Massas. Ortega nos diz que, apesar da incapacidade da massa em entender de cultura, como dito há séculos, existe ainda uma minoria produtora de uma cultura criativa, uma nova arte, moderna, que representaria a sobrevivência da cultura (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 63). Essa onda de pessimismo dos pensadores europeus encontra resistência na América pós-guerra, quando o novo continente adquire o poder dos vitoriosos. Enquanto para os pensadores da velha Europa a sociedade de massas representa a degradação, a lenta morte, a negação de quanto para eles significa a Cultura, para os teóricos norteamericanos dos anos 1940-1950 a cultura de massas representa a afirmação e a aposta na sociedade da democracia completa. […] A profecia de Tocqueville e de todos os apocalípticos desmoronava diante da fusão de igualdade e liberdade apresentada pelo mundo norte-americano. (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 65-66). Barbero citando Daniel Bell, o qual considera como o primeiro a esboçar as chaves do novo pensamento no livro O fim da ideologia afirma: o que está mudando não se situa no âmbito da política, mas no da cultura, e não entendida aristocraticamente, mas como “os códigos de conduta de um grupo ou um povo. […] Hoje essa função mediadora é realizada pelos meios de comunicação de massa”. Nem a família, nem a escola – velhos redutos da ideologia – são já o espaço-chave da socialização, “os mentores da nova conduta são os filmes, a televisão, a publicidade”, que começam transformando os modos de vestir e terminam provocando uma “metamorfose dos aspectos morais mais profundos. […] já não é crítica política mas a crítica cultural. Aquela que é capaz de propor uma análise que vá “mais além” das classes sociais, pois os verdadeiros problemas se situam agora nos desníveis culturais como indicadores da organização e circulação da nova riqueza, isto é, da variedade das experiências culturais. E os críticos da sociedade de massa, tanto os 22 de direita como os de esquerda, estão “fora do jogo” quando continuam opondo os níveis culturais a partir do velho esquema aristocrático ou populista que busca a autenticidade na cultura superior ou na cultura popular do passado. Ambas as posições têm sido superadas pela nova realidade cultural da massa que é de uma só vez “o uno e o múltiplo” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 67). Barbero ressalta que esse novo pensamento começa a resgatar aspectos positivos da sociedade de massa, e cita Edward Shils quem iria mostrar que, além da “incorporação da maioria da população à sociedade”, esse nova cultura dá uma revitalização do indivíduo: “A sociedade de massa suscitou e intensificou a individualidade, isto é, a disponibilidade para as experiências, o florescimento de sensações e emoções, a abertura até os outros [...], liberou as capacidades morais e intelectuais do indivíduo” (Shils apud MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 67). Continua Barbero: Desse modo massa deve deixar de significar adiante anonimato, passividade e conformismo. A cultura de massa é a primeira a possibilitar a comunicação entre os diferentes estratos da sociedade. E dado que é impossível uma sociedade que chegue a uma completa unidade cultural, então o importante é que haja circulação. E quando existiu maior circulação cultural que na sociedade de massa? Enquanto o livro manteve e até reforçou durante muito tempo a segregação cultural entre as classes, o jornal começou a possibilitar o fluxo, e o cinema e o rádio que intensificaram o encontro. (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 67). A passagem da era da produção para a de consumo, foi examinada, sob a luz da psicologia social, por David Riesman, no seu livro A multidão solitária. Riesman, baseado na articulação primordial entre demografia e psicologia, propõe três tipos de sociedade: a dependente da direção tradicional, a dependente da direção interna e a dependente da direção pelos outros. Para cada tipo corresponde uma modalidade familiar, escolar, de parcerias, um modo de narrar, de trabalhar e organizar o comércio, de viver o sexo e dirigir a política. Desse princípio o autor desdobra três dimensões básicas. Primeira: a classe-eixo da sociedade de direção pelos outros é a classe média; segunda: a cada dia mais as relações com o mundo exterior e consigo mesmo se produzem no fluxo da comunicação massiva; terceira: a análise do “caráter dirigido por outros é ao mesmo tempo uma análise do norte-americano e do homem contemporâneo” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 68). Riesman projeta assim sobre a dinâmica da modernidade uma dupla-figura: a do homem médio dissolvendo as classes sociais em conflito e a dos meios de 23 comunicação elevados a causalidade eficiente da história-cultura. Dupla figura que sintetiza o pensamento dos autores norte-americanos sobre a sociedade de massas como aquela, que não é o fim mas o princípio de uma nova cultura que os meios massivos tornam possível (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 68). Outro crítico da cultura de massa americana, B. Rosemberg, citado por Barbero (1997, p. 69) proclama a mesma crença na todo-poderosa eficácia da tecnologia, e especialmente da mídia no surgimento de uma nova cultura. “se pudéssemos arriscar uma formulação positiva, diríamos que a tecnologia moderna é a causa necessária e suficiente da cultura de massa”. A linha de pensamento dos autores norte-americanos dos anos 1940-1950 convergiu para a ideia de Marshall McLuhan sobre a relação cultura/sociedade. O autor de Os meios de comunicação como extensões do homem reformula a questão e diz que o efeito é mais importante que o significado. Através de suas ideias busca formulações teóricas que elevam os meios como fator de mudanças sociais, independentemente de seu conteúdo. Diz McLuhan: Numa cultura como a nossa, há muito acostumada a dividir e estilhaçar todas as coisas como meio de controlá-las, não deixa, às vezes, de ser um tanto chocante lembrar que, para efeitos práticos e operacionais, o meio é a mensagem. Isto apenas significa que as conseqüências sociais e pessoais de qualquer meio – ou seja, de qualquer uma da extensões de nós mesmos – constituem o resultado do novo estalão introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de nós mesmos. (MCLUHAN, 1998, p. 11). A ideia de McLuhan permitiu uma visão globalizada da comunicação de massa, tendo esse pensador cunhado o termo “Aldeia Global”, que repercute até hoje nos estudos culturais. Observa Barbero que “a teoria elaborada por sociólogos e psicólogos norteamericanos contra o pessimismo aristocrático dos pensadores dos séculos XIX e XX coincide com este em um ponto crucial: a incorporação das massas à sociedade significaria, para o bem ou para o mal, a dissolução-superação das classes sociais” (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 70). Nos anos 1950, a comunicação de massa já se tornara uma das mais poderosas armas para o controle da população e, consequentemente, a manutenção do poder, dentro de um regime democrático. A aprovação popular urbana dava legitimidade ao Estado. Líderes populistas passam a surgir nesse novo ambiente social. Pelo discurso massivo o nacional-popular se fez reconhecível pelas maiorias, 24 como muito bem lembrado por Barbero. O populismo imperará até final dos anos 1950, com grande intensidade na América Latina, a exemplo do Brasil, na era Getúlio Vargas. O uso dos meios de comunicação se tornou a grande estratégia para a manutenção do poder. Paralelamente ao poder político, também o capital enxerga nos meios de comunicação de massa a grande porta aberta para expansão de mercado. O uso de propaganda em grande intensidade de distribuição certamente traz maior consumo. Edgar Morin, no seu livro Cultura de Massas no Século XX, Volume 1: Neurose, define Cultura de Massa, dizendo ser esta “produzida segundo as normas maciças da fabricação industrial; propagada pelas técnicas de difusão maciça" que se destina à massa social, isto é, "um aglomerado gigantesco de indivíduos compreendidos aquém e além das estruturas internas da sociedade (classes, família, etc.)" (MORIN, 2005, p. 14). A cultura de massa integra e se integra ao mesmo tempo numa realidade policultural; faz-se conter, controlar, censurar (pelo Estado, pela Igreja) e, simultaneamente, tende a corroer, a desagregar as outras culturas. [...] Embora não sendo a única cultura do século XX, é a corrente verdadeiramente maciça e nova deste século. Nascida nos Estados Unidos, já se aclimatou à Europa Ocidental. Alguns de seus elementos se espalharam por todo o globo. Ela é cosmopolita por vocação e planetária por extensão. Ela nos coloca os problemas da primeira cultura universal da história da humanidade. (MORIN, 2005, p. 16). Uma forte característica da cultura de massa é a efemeridade, pela qual as coisas são mostradas num ritmo rápido; o que era interessante há poucos instantes atrás o deixou de ser, substituído por outro fato mais recente, entorpecendo assim a consciência histórica do espectador. Humberto Eco, em seu livro Apocalípticos e Integrados, coloca a cultura de massa no banco dos réus, relacionando as acusações feitas por escritores modernos, dentre as quais destaco como as de maior importância o fato dela dirigirse a uma “média de gosto”, evitando soluções originais; fundar-se em homogeneidade, destruindo as características culturais próprias de cada grupo étnico; estar sujeita à “lei da oferta e da procura”, dando ao público somente o que ele quer, seguindo as leis da economia do consumo, sugerindo ao público o que deve desejar; encorajar uma visão passiva e acrítica do mundo; desenvolver-se sob o signo do mais absoluto conformismo em relação à cultura, aos princípios sociais e 25 religiosos e às tendências políticas; ser produzida em um nível superficial de atenção, valorizando o entretenimento e o lazer; funcionar como uma contínua reafirmação do que já pensamos (ECO, 2001, p. 40-42). Muitas dessas críticas se mostraram infundadas, a homogeneização foi derrubada pelas centenas de canais surgidos, segmentados por temas ou gêneros, pela diversidade de produtos dentro de um mercado sempre crescente, a exigir especificidades ao perfil individualizado do consumidor. Uma breve mais importante análise fez Pierre Bourdieu, ao escrever: Quando nos anos 60, a televisão apareceu como um fenômeno novo, certo número de “sociólogos” (com muitas aspas) precipitou-se em dizer que a televisão, enquanto “meio de comunicação de massa”, ia “massificar”. Supostamente, a televisão ia nivelar, homogeneizar pouco a pouco todos os telespectadores. De fato, era subestimar as capacidades de resistência. Mas, sobretudo, era subestimar a capacidade que a televisão teve de transformar os que a produzem e, de maneira mais geral, os outros jornalistas e o conjunto das produções culturais (através do fascínio irresistível que exerceu sobre alguns deles). O fenômeno mais importante, e que era bastante difícil de prever, é a extensão extraordinária da influência da televisão sobre o conjunto das atividades de produção cultural, aí incluídas as atividades de produção científica ou artística. (BOURDIEU, 1997, p. 51). Muita coisa boa também é atribuída à cultura de massa, conforme relaciona Eco como “peças da defesa”, dentre as quais sobressaem fenômenos como o de que toda a massa de cidadãos pode participar, com direitos iguais, da vida pública, dos consumos, da fruição das comunicações; a cultura massiva se difundiu junto a massas enormes que, tempo atrás, não tinham acesso aos bens culturais. A cultura de massa possui dados válidos para a formação humana; difusão de obras culturais valiosas, a preços muito baixos e em edição integral; capacidade de autocrítica; o acervo indiscriminado de informações e dados acerca do universo sensibiliza o homem contemporâneo face ao mundo; constituem conjunto de novas linguagens, novos estilemas, novos esquemas perceptivos, renovação estilística, com repercussões no plano das artes chamadas superiores, promovendo-lhe o desenvolvimento (ECO, 2001, p. 47- 48). A cultura de massa se realiza através dos meios de comunicação, pelos quais a mensagem chega ao maior número possível de pessoas. Ela acompanha e 26 incentiva o progresso tecnológico no sentido de ampliar sua área de abrangência ou influência. Na atualidade, é impróprio ver a cultura de massa como algo imposto a um espectador passivo, à espera de submissão a um sistema de controle. A diversidade de emissoras, cada qual com sua identidade e a segmentação do mercado, fizeram dissipar a mensagem das mais variadas formas, prevalecendo a diferença cultural frente à massificação. Também a ideia de dois polos: o transmissor e o receptor, já está há muito ultrapassada. O receptor agora é também transmissor e vice-versa. A Informação emana de diversos pontos do ciberespaço. Todos agora têm a oportunidade de serem emissores de mensagem e não mais simples receptores. 1.3 A Indústria Cultural O conceito de Indústria Cultural ganhou destaque com os filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer, no seu célebre livro A Dialética do Esclarecimento, publicado em 1947. Seu significado era o do conglomerado de instituições públicas ou privadas que utilizava dos meios de comunicação para dominar e lucrar pelo viés da cultura. Nesse aspecto, o termo tinha uma grande carga negativa, pois, segundo os autores, o interesse comercial da indústria cultural destruía a arte e criava peças sem nenhuma profundidade artística. No livro, dizem os frankfurtianos: A televisão visa uma síntese do rádio e do cinema, que é retardada enquanto os interessados não se põem de acordo, mas cujas possibilidades ilimitadas prometem aumentar o empobrecimento dos materiais estéticos a tal ponto que a identidade mal disfarçada dos produtos da indústria cultural pode vir a triunfar abertamente já amanhã – numa realização escarninha do sonho wagneriano da obra de arte total. (ADORNO, 1985, p. 58). A crítica áspera levantada pelos teóricos de Frankfurt deve ser relevada à época em que foi publicada. O livro de Adorno e Horkheimer foi escrito até maio de 1944 e publicado três anos depois. As transmissões nos anos 1940 eram precárias, tanto em quantidade como em qualidade. A televisão transmitia em preto e branco, as emissoras eram poucas. Muitas estatais e as particulares ainda claudicavam com o pouco patrocínio publicitário que recebiam. Os profissionais especializados eram 27 poucos e as técnicas subdesenvolvidas; faltava-lhe linguagem própria, emprestando a do rádio e do cinema. No prefácio da segunda edição, em 1969, Adorno faz a seguinte retratação: Não nos agarramos sem modificações a tudo o que está dito no livro. Isso seria incompatível com uma teoria que atribui à verdade um núcleo temporal, em vez de opô-la ao movimento histórico como algo de imutável. O livro foi redigido num momento em que já se podia enxergar o fim do terror nacional-socialista. Mas não são poucas as passagens em que a formulação não é mais adequada à realidade atual. E, no entanto, não se pode dizer que, mesmo naquela época, tenhamos avaliado de maneira excessivamente inócua o processo de transição para o mundo administrado. (ADORNO, 1985, p. 1). Os autores chegam a admitir no último parágrafo do seu prefácio que “atualizar todo o texto teria significado nada menos do que um novo livro.” Nos anos 1960, a indústria cultural já está fortemente estruturada através do meios de comunicação, fortalecida pela televisão, que amplia sua área de abrangência, principalmente no ocidente. A incitação do consumo e a sedução tecnológica se transforma em proposta cultural, padroniza os estilos de vida desejáveis, bane o nacionalismo para o “limbo anterior ao desenvolvimento tecnológico” e incorporando antigos conteúdos sociais, culturais e religiosos à cultura do espetáculo. Seguindo a narrativa de Barbero (1997): E no centro da nova dinâmica cultural, no papel de grande interlocutor, estará a televisão. A televisão unifica a todo o país uma fala na qual, exceto para efeito de folclorização, a tendência é para a erradicação das entonações regionais. E com sua obsessão pelo que é atual, ou melhor, pela atualidade, a televisão suplantará as temporalidades e os ritmos num discurso que procura tornar tudo contemporâneo. Claro que também a ela se deve a modernização das massas marginalizadas ou atrasadas. Mas a que preço? (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 271). Marilena Chauí diz que a Indústria Cultural define a Cultura como lazer e divertimento, diversão e distração, de modo que “tudo o que nas obras de arte e de pensamento significa trabalho da sensibilidade, da imaginação, da inteligência, da reflexão e da crítica não tem interesse, não vende” (CHAUÍ, 1995, p. 331). Massificar é, assim, banalizar a expressão artística e intelectual. Em lugar de difundir e divulgar a Cultura, despertando interesse por ela, a indústria cultural realiza a vulgarização das artes e dos conhecimentos (CHAUÍ, 1995, p. 331). 28 Rafael Cordeiro Silva analisa o conceito na atualidade e sintetiza bem a ideia da indústria cultural, vendo-a como fator de coesão social. Seu poder reside em reforçar as relações de poder estabelecidas, zelando para que a ordem dada mantenha-se constante e que o sistema que a alimenta não seja desestabilizado. Ao reforçar o caráter sempre igual das relações, a passividade diante da realidade, a ausência de crítica e o comportamento servil, ela cumpre o papel que o sistema dela espera. Nenhum esforço intelectual é exigido do ouvinte ou telespectador, o que coloca os produtos da indústria cultural em evidente oposição às obras de arte, que requerem concentração e capacidade mental para sua compreensão e fruição. A diversão, comumente usada como pretexto para o consumo da cultura padronizada, é, no fundo, a apologia da sociedade administrada. Depois de uma jornada dedicada à reprodução do capital nas fábricas e nos escritórios, nada mais salutar do que a necessidade de descanso e relaxamento que a diversão proporciona. O ciclo está completo! Assim “a diversão favorece a resignação, que nela quer se esquecer." (SILVA, 2011, p. 65). Vimos que o conceito de Indústria cultural sofreu alterações; o termo perdeu seu caráter crítico, passa a ser empregado de forma neutra para designar qualquer produção artística voltada para o entretenimento. O maniqueísmo ideológico inicial é transmudado para o comércio exacerbado. Mas uma coisa permanece: o que Adorno e Horkheimer afirmaram ser o elixir da indústria cultural, a publicidade, continua a alimentar fartamente todo o sistema produtivo da indústria cultural. Aliás é a publicidade que traz grandes inovações na linguagem televisa e trabalha muito bem com a emoção e com a estética, muitas vezes com grande valor cultural e artístico. Ainda se pode afirmar a existência de uma indústria manipuladora que age com mais intensidade sobre o telespectador com pouco acesso à informação. As grandes corporações de comunicação transmitem somente as informações que venham a seus interesses capitalistas e omitem as que as fazem perder audiência (renda). Essa força alienadora da televisão é eficaz quando o espectador a utiliza como único meio de percepção, situação bem lembrada por Tuzzo, que assim expõe o assunto: É discurso comum entre a sociedade, desde os menos favorecidos intelectualmente (que para este estudo serão aqueles indivíduos com pouca escolaridade) até os próprios estudantes de comunicação das escolas de Terceiro Grau, a afirmação que os meios de comunicação de massa alienam, mais precisamente, que a televisão aliena. 29 A afirmativa, porém, não deveria ser usada com tanta certeza, uma vez que nem a televisão, tampouco qualquer meio de comunicação de massa, muito menos qualquer programa produzido por estes, são capazes de alienarem por si mesmos. Trabalharemos com a hipótese de que os efeitos dos meios de comunicação de massa podem ser controlados por cada indivíduo através do desenvolvimento do senso crítico, adquirido através de uma diversidade de consumo de mensagens advindas dos mais variados veículos de comunicação de massa. Contudo, não podemos esquecer que num país como o Brasil, onde grande parte da população sequer tem poder aquisitivo para adquirir uma diversidade de informações, tais como a compra de revistas, jornais diários, assinatura de TV a cabo, internet, enfim veículos que podem contrapor-se a ou complementar informações advindas, por exemplo, da televisão aberta, encontramos um solo fértil de proliferação de programas que tendem à alienação. Neste contexto, podemos afirmar que somente através do crescimento da massa crítica da população poderemos ter uma mudança da programação ou da forma de comportamento dos meios de comunicação de massa. (TUZZO, 2002, p. 18). Um momento exemplar dessa possibilidade alienadora produzida pela televisão aconteceu, há pouco tempo, nos jogos Pan-americanos. Um evento esportivo internacional de grande interesse para todo o país. Somente uma rede de televisão, a Record, teve autorização para a transmissão dos jogos pan-americanos. As demais redes, principalmente a hegemônica rede Globo, em oposição, sequer deram relevância em seus telejornais sobre o acontecimento internacional, no qual o Brasil se destacou como grande nação desportiva das Américas. No caso quem assistia somente a rede Globo ficou sem saber dos jogos, ou entendeu tratar-se de fato sem importância, divulgado apenas em nota final do jornal nacional. A rede pública de televisão noticiou com destaque todo o evento pelos seus telejornais. 1.4 O Homem-médio A comunicação para a massa se baseia na capacidade perceptiva do homem médio como padrão para a produção da mensagem. O objetivo é criar sugestionabilidade para esse homem médio, porque assim se atinge praticamente a toda a sociedade. Mas essa média não quer dizer um índice de QI entre o gênio e o inábil. Trata-se de um nível de fácil assimilação, que inclui qualquer pessoa que esteja aberta a produções que não exigem esforço mental. Assim se constrói a mensagem; com conteúdo facilmente perceptível ao espectador, em detrimento de seu valor 30 cultural e educativo e sem forçar qualquer raciocínio que o tire de certa passividade perceptiva. Edgar Morin descreve esse homem-médio “como uma espécie de anthropos universal.” Diz o filósofo: A linguagem adaptada a esse anthropos é a audiovisual, linguagem de quatro instrumentos: imagem, som musical, palavra, escrita. Linguagem tanto mais acessível na medida em que é envolvimento politônico de todas as linguagens. Linguagem, enfim, que se desenvolve tanto e mais sobre o tecido do imaginário e do jogo que sobre o tecido da vida prática. Ora, as fronteiras que separam os reinos imaginários são sempre fluidas, diferentemente daquelas que separam os reinos da terra. Um homem pode mais facilmente participar das lendas de uma outra civilização do que se adaptar à diva desta civilização. (MORIN, 2005, p. 45). Marilena Chauí tece duras críticas à cultura de massa, e atribuí à Indústria cultural inventar uma figura chamada “espectador médio”, “ouvinte médio” e “leitor médio”, aos quais são atribuídas certas capacidades mentais “médias”, certos conhecimentos “médios” e certos gostos “médios”, oferecendo-lhes produtos culturais “médios”. Que significa isso? A indústria cultural vende Cultura. Para vendê-la deve agradar e convencer o consumidor. Para seduzi-lo e agradá-lo, não pode chocálo, provocá-lo, fazê-lo pensar, fazê-lo ter informações novas que o perturbem, mas deve devolver-lhe, com nova aparência, o que ele já sabe, já viu, já fez. A “média” é o senso comum cristalizado que a indústria cultural devolve com cara de coisa nova. (CHAUÍ, 1995, p. 329). Essa prática de nivelar por baixo o telespectador tem a finalidade de obter maior audiência. O assunto tratado pelos meios de massa passa a ser superficial, longe de levantar profunda investigação sobre o tema. Pierre Bourdieu aborda essa falha da comunicação massiva e defende seu ponto de vista sobre a necessidade de romper essa barreira da luta pela audiência a qualquer preço. Diz o sociólogo francês: Faço observar que a televisão produz dois efeitos. De um lado, ela nivela por baixo o direito de entrada em certo número de campos, filosófico, jurídico etc.; pode consagrar como sociólogo, escritor ou filósofo etc. pessoas que não pagaram o direito de entrada do ponto de vista da definição interna da profissão. Por outro lado, está em condição de atingir a maioria. O que me parece difícil de justificar é que se use a extensão da audiência para baixar o direito de entrada no campo. (BOURDIEU, 1997, p. 94). 31 Esse nivelamento básico põe a televisão, principalmente a comercial, muito aquém de suas possibilidades como meio de comunicação de massa. Trata-se de uma subutilização da mídia ou, como os mais críticos a veem, um propósito maniqueísta. Infelizmente é uma prática usual nos programas televisivos. Grande parte da programação da televisão comercial, dirigida para a coletividade, produz seus programas para um nível mental do idiota, no sentido dado por Joel de Rosnay, daqueles “homens menos aptos a resolver os problemas complexos” (ROSNAY, 1997, p. 241), portanto a essa coletividade se oferece conteúdo de satisfação instintiva, muito distante de elevá-la à sua real capacidade individual. Devemos ver com cautela as críticas mais acirradas a respeito deste assunto. Esse fenômeno de nivelamento em baixo nível depende muito do ponto de vista do observador. A linguagem da televisão, principalmente da aberta, tem seus limites quanto à profundidade de um tema e abrangência de público. Uma interfere na outra em relação inversamente proporcional: quanto mais profundo o assunto, menos interesse terá entre os espectadores; e, ao contrário, quanto mais abrangente pretende ser, menos profundo será o tratamento dado à matéria. Esse é o grande dilema a ser resolvido pelos profissionais da comunicação. É possível manter uma programação de qualidade educativa e cultural, mas o grande problema é que a concorrência acirrada impede a elevação do nível, mantendo-se tudo muito superficialmente e composto por dois elementos, o apelativo e o grotesco, que prevalecem na conquista da audiência. Dai a importância das emissoras públicas assumirem a função de elevar a qualidade do conteúdo, com uma linguagem inovadora, a despertar o interesse do espectador para um foco sem apelação. A televisão de maior abrangência, a TV aberta, é assistida por todos, da população de baixa até alta renda. A sua linguagem deve ser popular e diversificada. Deve, sim, na maior amplitude de temas e gêneros, levar profundidade e dar mais complexidade às informações que chegam às classes menos providas, porém numa forma que supere o inapropriado tom professoral. Em texto elucidativo sobre essa "medialização" utilizada na cultura de massa, Maria Rita Kehl, em certo trecho, diz: 32 É a imagem (televisiva, publicitária, jornalística, etc.) que constitui a massa no instante da recepção, pois, para atingir as multidões em sua diversidade e em sua complexidade, precisa fazer tabula rasa das diferenças. As imagens e enunciados característicos da cultura de massas precisam ser os mais vagos, os mais genéricos, os mais vazios possíveis, para nivelar todos os espectadores sob um denominador comum que os mantenha ligados na programação comercial das emissoras de tevê e de rádio, nas chamadas das capas de revistas e sobretudo, nos apelos publicitários onipresente nas ruas de todas as cidades. São essas imagens (ainda quando sejam construídas com palavras) que apelam a um conjunto indiferenciado de pessoas, anulando as diferenças pela via das identificações e apagando o lugar e as condições de sua enunciação. Imagens enunciadas por "ninguém" e dirigidas a "todos" são hoje o principal produto da cultura de massas. (KEHL, 2005, p. 236-237). Importante ressaltar do texto acima e do demais exposto sobre esse nivelamento superficial da mensagem é que isto se aplica principalmente às televisões comerciais em busca da audiência a qualquer preço (para o cidadão é claro). As emissoras públicas de televisão estão livre dessa concorrência desenfreada, como se verá mais adiante em capítulo específico. 1.5 A Cultura midiática Com o aparecimento da imagem digital, que possibilitou o uso de novas mídias, novas formas de transmissão, mais individualizadas, o termo cultura de massa perdeu força. A comunicação se especializa para cada novo meio eletrônico. Com isso, se adota um termo mais contemporâneo: cultura das mídias, ou midiática. Como bem explica, Lúcia Santaella (2007, p. 119), em Linguagens líquidas, na era da mobilidade, “o emprego dos termos “mídia” e “mídias” em português alastrou-se em função da crise da hegemonia da cultura de massas, uma crise que resultou do advento e expansão de novas lógicas culturais que já não se conformam com a lógica própria da cultura de massas.” Falta consenso para uma definição exata de Cultura da mídia, tendo Kellner (2001), no seu livro A Cultura da mídia, dado uma concepção a ela como a cultura veiculada pela mídia, constituída por sistemas de rádio e reprodução de som (discos, fitas, CDs e seus instrumentos de disseminação, como aparelhos de rádio, gravadores etc.); pela imprensa, que vai de jornais a revistas; e pelo sistema de televisão, situado no cerne desse tipo de cultura. […] A cultura da mídia é industrial; organiza-se com base no modelo de produção de massa e é produzida para a massa de acordo com tipos (gêneros) 33 segundo fórmulas, códigos e normas convencionais. (KELLNER, 2001, p. 9). Lucia Santaella discorda de Kellner, dizendo que, “devido ao surgimento de novos meios que já não se enquadram na lógica da comunicação de massa, o título mais apropriado para o livro de Kellner deveria ser “A cultura das mídias massivas” (SANTAELLA, 2007, p. 121). Santaella entende que existem, atualmente, seis tipos de lógicas culturais, que se acumularam ao longo do tempo, acompanhando a evolução da técnica, e hoje se mesclam e interconectam de modo indissolúvel. São elas: a cultura oral, a escrita, a imprensa, a cultura de massas, a cultura das mídias e a cibercultura. Diz a autora: os meios de massa compõem apenas uma parte das mídias em geral, não sendo, por si sós, capazes de nos levar a compreender a hipercomplexidade midiática das culturas contemporâneas cuja trama exige a apreensão de distinções bastantes sutis que a designação tout court de cultura midiática não é capaz de absorver. […] Sistemas midiáticos consistem em tecnologias comunicacionais e nas mais variadas práticas econômicas, políticas, institucionais e culturais que crescem com eles. A emergência de um novo sistema não desloca o que veio antes, mas adere como uma nova camada, tornando a ecologia midiática ainda mais estratificada. (SANTAELLA, 2007, p. 121). A pesquisadora relaciona como características da “paisagem midiática atual”: a) Inovativa: um período de mudanças tecnológicas profundas e prolongadas em que novas mídias são criadas, dispersadas, adotadas, adaptadas e absorvidas em ritmo dramático. b) Transformativa: há uma fase de experimentações estéticas e sociais enquanto a sociedade vai absorvendo e muitas vezes antecipando novas tecnologias midiáticas. c) Convergente: a comunicação se organiza no cruzamento de múltiplos canais tanto corporativos quanto de origem popular. d) Multimodal: o mesmo conteúdo pode ser encontrado em múltiplas representações. e) Global: as mídias permitem interações entre pessoas em torno do mundo, o que produz impactos positivos e negativos nas culturas locais. f) Em rede: as tecnologias das mídias estão interconectadas de modo que as mensagens fluem de um lugar a outro. g) Móvel: as pessoas podem levar com elas as suas tecnologias comunicacionais. h) Apropriativa: novas tecnologias facilitam o arquivamento, anotação, apropriação e recirculação do conteúdo midiático. 34 i) Participativa: borra-se a linha divisória entre consumidor e produtor com ênfase crescente nas afiliações sociais e engajamento ativo em torno do conteúdo da mídia. j) Colaborativa: a emergência de novas estruturas de conhecimento e criatividade depende de deliberações e soluções de problemas compartilhadas. k) Diversificada: os muros entre as comunidades culturais são quebrados à medida que as mídias fluem através de vários lugares de produção e consumo no contexto de uma sociedade multicultural. l) Domesticada: as mídias estão inteiramente integradas nas interações sociais cotidianas. m) Geracional: existem diferenças agudas entre gerações em termos de acesso ao conhecimento, gostos e interesses culturais e formas de participação e aprendizagem. n) Desigual; o acesso às tecnologias, habilidades, oportunidades de participação é desigualmente distribuído entre a população. (SANTELLA, 2007, p. 122-124). Todas essas características, e outras que ascendem com os novos meios, representam os parâmetros que balizam a produção da comunicação. É nesse ambiente multimidiático que se deve pensar em fazer televisão. O ambiente agora é maior em número de dispositivos de veiculação de mensagens e é para essa gama variada de meios que os profissionais da comunicação pensam em produzir suas peças. 1.6 Cibercultura A ideia de Aldeia Global, trazida por Marshall Mcluhan, que inspira a comunicação de massa, de um para o todo, favorecida pela televisão, também muda para conceito de rede, onde não é uma aldeia que se globaliza, mas sim o planeta que se interliga, agora através da Internet. Essa nova alçada cibernética, que possibilitou a “rede”, teve sua gestação nos anos 1970, através de uma série de invenções tecnológicas, dentre as quais podemos destacar o microprocessador, em 1971, o microcomputador, em 1975, o sistema operacional da Microsoft, em 1977, diversos softwares, o computador digital, a fibra ótica em meados da década de 1970, e, finalmente, mas não menos importante, como diz Manuel Castells, foi em 1969, que a ARPA (Agência de Projetos de Pesquisa Avançada do Departamento de Defesa Norte-Americano) instalou uma nova e revolucionária rede eletrônica de comunicação que se desenvolveu durante os anos 70 e veio a se tornar a Internet. Ela foi extremamente favorecida pela invenção, por Cerf e Kahn em 1973, 35 do TCP/IP, o protocolo de interconexão em rede que introduziu a tecnologia de “abertura”, permitindo a conexão de diferentes tipos de rede. (CASTELLS, 1999, p. 91). O surgimento desta gigantesca rede, que hoje engloba todo o planeta, mudou a comunicação, permitindo uma maior interação entre as pessoas, que deixaram de ser meros telespectadores e passaram a produzir, exprimir suas ideias para todos os “conectados”. As relações interpessoais mudaram e os pensadores da cultura contemporânea detectam uma nova forma de socialidade, que denominam de “cibercultura”. O modo de se comunicar pela Internet, com as redes sociais, os fóruns, as salas de bate papo, modificam a forma de relacionamento social. Prevalece nesse cenário da comunicação os conceitos da globalização e hibridismo. No topo, vivendo a plenitude dos prazeres da cibercultura, estão as grandes corporações globais que alcançam transmitir para todo o planeta. Suas mensagens são enviadas por todas as mídias possíveis, estão na televisão aberta, a cabo ou satélite, estão na Internet e nos celulares, ditando modos de comportamento e hábitos de consumo. Sua produção é híbrida, gerada para diversos sistemas de transmissão. Assim os grandes conglomerados da comunicação conseguem promover uma cultura global, de consumo. Mas essa cultura global convive e muitas vezes se funde com a cultura regional, com suas tradições, costumes e produções. A grande diferença entre a comunicação surgida na cibercultura e a da sua pré-história, está na interatividade. Alguns autores ainda identificam a interatividade na televisão, com o uso associado ao telefone ou do controle remoto na escolha de canais e o livre arbítrio do telespectador, mas essa interação, na verdade, é bem diferente da que ocorre no fluxo de informação que circula na Internet. A capacidade criativa e participativa do usuário da rede é bem mais ampla e intervencionista. Seguindo a concepção de níveis de interatividade afirmada por Silva, com o surgimento da Internet ocorreu uma ascensão na forma de interação do usuário. A comunicação que, antes da Internet, alcançava até o nível "arborescente", cuja forma de interagir era através de um menu ou controle remoto, sobe em eficácia para o nível "lingüístico", através da manipulação, modificação e deslocamento da mensagem original (SILVA apud POSSARI, 2005, p. 95). Esse avanço é notado por Possari, quando afirma: 36 A interatividade pode ser entendida ainda como a capacidade de o sistema acolher a necessidade do usuário e satisfazê-lo. Essa condição a faz diferente dos processos comunicacionais audiovisuais tradicionais, pois o leitor, na interatividade, é o usuário operador que assume o papel de co-autoria do texto. (POSSARI, 2005, p. 96). A cibercultura é formada pelas novas tecnologias, que introduzem nova forma de interação social, causando profundas mudanças no comportamento humano, decorrente de crise do modelo cultural precedente “e seu verdadeiro alcance só se manifesta se considerarmos que os novos instrumentos agirão no contexto de uma humanidade profundamente modificada, seja pelas causas que provocaram o aparecimento daqueles instrumentos, seja pelo uso desses mesmos instrumentos” (ECO, 2001, 34). No ciberespaço, onde se desenvolve a cibercultura, a comunicação deixa de ser massiva, no sentido usado pelos meios anteriores como a televisão. A cibercultura é formada por milhões de pontos que se interconectam entre si. A interatividade está intrínseca dentro das mídias que ocupam esse mundo invisível. Cada usuário conectado é um transmissor e receptor. A televisão ainda é aquele cômodo da casa onde as pessoas sentam para se entreterem com assuntos diversos, mas também incorpora agora outras funções permitidas pelo mundo digital e todo o avanço tecnológico dele decorrente. Nela estará incorporado o computador, o telefone, a Internet, como também neles está ela incorporada. E todas essas mídias de comunicação ganham mobilidade, e podem ser usadas por qualquer aparelho móvel com capacidade de receber o sinal digital de radiodifusão. Na cibercultura a televisão ganha novo papel num novo cenário, como fonte geradora para o ciberespaço e também absorve sua característica, a interatividade, que, ainda que meio massivo de comunicação, passa também a servir a segmentos sociais menores, complementando ou complementada pelas novas mídias cibernéticas. O modo de ver televisão muda com a cibercultura, onde se prolifera incontáveis novas emissoras acessadas por todas as telas digitais: Internet, celulares e televisores. 2 A televisão e suas especificidades O significado da palavra televisão é visão à distância (prefixo grego téle + visão). O significado semântico corresponde a sua função. A televisão nos dá a capacidade de ver fatos distantes, tanto no campo físico/temporal como no imaginário. A sua invenção é atribuída ao inglês John Baird, que em 1925 fez a primeira demonstração de uma imagem televisual, em Londres, na Inglaterra. Mas ainda foi necessária uma década e a colaboração de inúmeros cientistas e pesquisadores para que a televisão se constituisse como uma mídia produtora de conteúdo. No Brasil autores apontam a data na primeira transmissão oficial de televisão, em 18 de setembro de 1950, como a de seu nascimento. A primeira emissora a transmitir o sinal de televisão foi a TV Tupi Difusora de São Paulo, do grupo Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Com mais de sessenta anos, a televisão brasileira se tornou companheira, desde a infância, de boa parte da população ativa do país. Muitos viram seu desenvolvimento desde quando transmitia em preto e branco em apenas algumas horas diárias. Nos dias atuais, pode-se dizer, agora está em seu “state of art”, com a TV digital full HD. Parte do conhecimento da população se deve às mensagens televisivas. Pelo televisor se viu os grandes acontecimentos do mundo das últimas décadas, das viagens espaciais aos acontecimentos das cidades. Informações relevantes são transmitidas pela televisão; ela influencia as escolhas políticas e mostra as melhores e piores faces da humanidade para bilhões de pessoas no nosso planeta. A televisão é peça "essencial" numa casa e se equipara a um totem de contemplação, um altar; antes na sala, depois, mais íntima, no quarto, na cozinha, e agora até no banheiro (pelos mobiles). Ousaria aplicar à televisão o conceito de atrator, desenvolvido por Massimo Canevacci, que assim o define: Isso é o atrator: o movimento zero. Então, quando o movimento é zero significa que o olho - que está distraidamente rolando sobre os panoramas visuais - é atraído por um código que paralisa a sua retina. O olho se fixa graças à potência de um atrator. E a sua potência aderente (momentânea) é determinada pelos novos cursos do fetichismo visual difundidos na comunicação metropolitana. (CANEVACCI, 2008, p. 39). 38 A facilidade com que a luz e o som emanados pela televisão entram em nossa mente, através de dois importantes sentidos, cuja trama estimula a nossa percepção e emoção, faz dessa mídia de comunicação um dos mais eficazes transmissores de mensagem. Assistir televisão tornou-se um importante ato cultural da modernidade. 2.1 A máquina audiovisual Desde a pré-história o homem se comunica pelas imagens. Os desenhos rupestres nos trazem as informações sobre costumes dos nossos ancestrais. As primeiras formas de escrita foram através de desenhos (hieróglifos), aliás, as letras do alfabeto são imagens que se combinam e dão sentido à palavra. Por toda a história da humanidade o homem retratou sua cultura através de imagens. No começo em peças únicas, individuais, depois reproduzidas. Mas a televisão, além da imagem é som. A sua mensagem é enviada principalmente através da palavra dita. A comunicação atua sobre a audição tanto quanto a visão. O som é de extrema importância para o sistema televisivo, pois, além de dar sentido ao que se vê, atinge as emoções do ser humano. Uma música pode afetar o ânimo do telespectador; uma explosão assustá-lo ou impressioná-lo, gritos e sussurros lhe causar sensações ou o afetar de alguma forma. A narrativa sonora é necessária para melhor compreensão dos fatos, assim como para atingir a emoção da pessoa com mais profundidade. Num meio linear como a televisão, pelo qual tudo passa tão rápido a ponto do telespectador não ter tempo para refletir sobre o que passou em alguns segundos antes, o som é essencial para o êxito do seu objetivo de comunicar. A trilha sonora adicionada à imagem transforma a mensagem em objeto de fácil assimilação pelo telespectador, dá a ela emoção. A comunicação eficaz produz um mecanismo psíquico denominado identificação projetiva, permitindo-nos “imaginar que estamos no outro e sentimos o mesmo que ele, ao mesmo tempo nos induzindo a crer que somos esse outro que está no palco ou na tela” (TORVES, 2007, p. 62-63). 39 2.2 A linguagem televisiva A televisão foi construída por profissionais que vieram do rádio, do cinema e do teatro e foi considerada por muitos como a hibridação dos dois meios. No começo, sim; quando ainda “engatinhava” sem noção de qual caminho seguir, reproduzia os programas de rádio, os filmes do cinema e as peças de teatro. François Jost (2007) narra essa germinação da linguagem televisiva da seguinte maneira: a televisão é, em sua origem, o que se poderia chamar de intermédia: longe de se afirmar como uma mídia independente, com propriedades únicas e insubstituíveis, ela faz a síntese de técnicas e de espetáculos já existentes. Uma mídia só se constitui verdadeiramente como tal a partir do momento em que passa do estado de novidade técnica ao de elaboração de programas. Desse ponto de vista, é a partir dos anos 30 que começa esse processo para a televisão, em velocidades distintas segundo os diferentes países. As primeiras difusões experimentais ocorrem em 1929, na Alemanha e na Inglaterra; em 1932, na França; em 1950, no Brasil. Em 1935, a primeira estação de televisão é inaugurada em Berlim, e as emissões são difundidas regularmente até a guerra. (JOST, 2007, p. 44). Pelo avanço da eletrônica, com o surgimento do videoteipe em 1962, começou-se a produzir textos e imagens exclusivos para o formato e ambiente televisivo. No conforto do lar, assistida às vezes por um telespectador atento, outras disperso, a televisão firmou-se com uma linguagem própria, adequada às suas características, diferente das mídias a ela comparadas como o rádio e o cinema. Compactuo com o pensamento de Umberto Eco (2004) que, ao diferenciar a televisão do cinema, diz que a TV constitui um fenômeno psicológico e sociológico preciso: o fato de determinadas imagens serem transmitidas num vídeo de dimensões reduzidas, em determinadas horas do dia, para um público que se encontra em determinadas condições sociológicas e psicológicas, diversas das do público do filme, [....] É exatamente essa específica relação que qualifica todo o discurso televisional... (ECO, 2004, p. 331-332). Essa linearidade temporal da televisão a torna um verdadeiro turbilhão de mensagens, uma seguida à outra, sem tempo para o telespectador pensar muito sobre o que passou anteriormente. Derrick de Kerckhove observa com base no trabalho da teórica alemã Hertha Sturm sobre as reações cognitivas à televisão que, 40 “quando vemos televisão, é-nos negado o tempo necessário para integrar a informação a um nível de consciência completo” (KERCKHOVE, 1997, p. 28). Tratase do fenômeno chamado ‘colapso do intervalo’ expressão criada pelo comunicólogo Edward Renour Slopek. Ela se refere ao “fato de a TV eliminar o efeito de distanciamento – o intervalo entre estímulo e reação – e o tempo para processar a informação no nosso inconsciente. Sugere-se que a televisão nos deixa pouco (se é que deixa algum tempo) para refletir sobre o que estamos vendo” (KERCKHOVE, 1997, p. 28). A cultura da televisão no Brasil se estruturou a partir dos anos 1950 e hoje, na minha concepção, se funda em três estilos básicos de programas: informativo, educativo e de entretenimento. Esses estilos se entrelaçam num mesmo programa, porém, em geral, predomina um deles. Um programa é informativo quando no seu conteúdo predomina a transmissão de informações, a exemplo dos telejornais, documentários e outros do gênero. O programa educativo é aquele no qual sobressai o objetivo de ensinar, dentre os quais se destacam os telecursos e os cursos de idiomas. Em relação aos programas de entretenimento, esses são os do mundo lúdico, onde prevalece a brincadeira, a distração, um despretensioso descanso à frente da televisão. Como exemplo, os programas de auditório, os programas de esportes, as telenovelas, os reality shows, sitcom e muitos outros. Geralmente são os de maior audiência, revelando o que a maioria da população procura na televisão. Muito comum é o fato dos programas trazerem um pouco de cada um desses estilos, como é o caso de algumas “revistas eletrônicas”, como o “Fantástico”, da Rede Globo, e “Domingo Espetacular”, da Rede Record. Importante lembrar a distinção feita por Jost, entre os diversos gêneros da televisão, situando-os em níveis diferentes os quais denomina mundos. O autor formula a hipótese de que esses mundos “podem servir de fundamento a uma classificação racional dos gêneros e formar arquigêneros” (JOST, 2010, p. 61). São eles o Mundo real, o mundo crível, o da verdade, no qual as coisas realmente acontecem, tudo é real, flagrante, incoerente e sem regras; o Mundo fictivo o qual se opõe à realidade, nele se está “pronto a aceitar acontecimentos nos quais não se acreditariam ser atribuídos ao mundo real” (JOST, 2010, p. 63), mas na ficção deve haver coerência, uma parte de invenção e a presença de atores; e, por fim, o Mundo lúdico¸ o mundo do jogo, onde há o respeito à regras e que, “no entanto, encontra 41 às vezes sua verdade no mundo real [...] é, portanto, intermediário entre o mundo da ficção, ao qual se conferem regras, e o mundo real, ligando de formas diversas o jogador ao mundo do jogo” (JOST, 2010, p. 64). Jost conclui assim: Ao para a verdade da informação, que toma o mundo como referente, ao para a falsidade da ficção, que visa a um universo mental, é necessário então acrescentar um para o riso, cuja mediação toma por objeto, quer se trate de jogar com a linguagem (enunciação), de jogar com o jogo (aléa) ou de fazer a arte pela arte. (JOST, 2010, p. 65). Frases curtas, palavras fáceis e imagens espetaculares (exploração do primeiro plano e da beleza plástica). Essa é a fórmula mais usada para uma fácil comunicação da televisão com o espectador. Às vezes a mesmice impera, de forma apelativa, inescrupulosa, com o intuito de segurar o telespectador/consumidor. A mensagem procura manter o telespectador tranquilo, com eventos previsíveis e esperados, sem sustos. São as “Ideias feitas” citadas por Pierre Bourdieu, lembrando Flaubert, ou seja, “as ideias aceitas por todo mundo, banais, convencionais, comuns; mas são também ideias que, quando as aceitamos, já estão aceitas, de sorte que o problema da recepção não se coloca” (BOURDIEU, 1997, p. 41). Essa repetição do conhecido atraiu muitas críticas à televisão, a exemplo das feitas por Marilena Chauí, quando a afasta da arte e cultura: como a programação se dirige ao que já sabemos e já gostamos, e como toma a cultura como forma de lazer e entretenimento, a mídia satisfaz imediatamente nossos desejos porque não exige de nós atenção, pensamento, reflexão, crítica, perturbação de nossa sensibilidade e de nossa fantasia. Em suma, não nos pede o que as obras de arte e de pensamento nos pedem: trabalho sensorial e mental para compreendê-las, amá-las, criticá-las, superá-las. A Cultura nos satisfaz, se tivermos paciência para compreendê-la e decifrá-la. Exige maturidade. A mídia nos satisfaz porque nada nos pede, senão que permaneçamos para sempre infantis. (CHAUÍ, 2000, p. 426). A esse respeito também se manifestou Bourdieu, dizendo que As notícias de variedades, como disse, têm por efeito produzir o vazio político, despolitizar e reduzir a vida do mundo à anedota e ao mexerico (que pode ser nacional ou planetário, com a vida das estrelas ou das famílias reais), fixando e prendendo a atenção em acontecimentos sem consequências políticas, que são dramatizados 42 para deles “tirar lições”, ou para os transformar em “problemas de sociedade.” (BOURDIEU, 1997, p. 73). Apesar de se constatar essa atuação mercenária no uso da televisão, é impróprio generalizar. Em parte do tempo a mídia televisiva tem contribuído para a formação cultural do cidadão. Importantes programas e matérias jornalísticas trazem ao telespectador coisas nunca antes por ele vistas. O mínimo que a televisão pode ensinar, para muitos, já é mais do que teriam acesso sem ela. A televisão acrescenta informações e desperta iniciativas do telespectador frente ao inesperado. Existem dois modos de se fazer televisão, bem lembrados por Newton Cannito (2010): o dialógico e o monológico. O primeiro instiga o telespectador para o debate posterior num bar, numa sala de aula e até num parlamento, o segundo traz ideias preconcebidas influenciando o telespectador de forma mais instintiva. Existe público para ambas as formas de comunicação, porém a dialógica é a que deve ser usada pelas TVs públicas na busca da construção democrática da sociedade. Segundo Cannito: Uma verdadeira obra dialógica abriria realmente espaço para dúvida, permitindo a real participação do público, que poderia debater a questão com total liberdade. [...] a obra dialógica é menos maniqueísta, mostra a complexidade da situação e valoriza todas as opiniões, de forma que o público tenha espaço para tirar as próprias conclusões. (CANNITO, 2010, p. 66). Por certo que cada emissora tem sua tendência política e cultural, porém o cidadão tem o livre arbítrio para escolher qual a que melhor se adequa ao seu pensamento. A televisão jamais conseguirá imperar plenamente sobre a escolha íntima do ser humano. Muitos exemplos se veem mundo afora a demonstrar o espírito combativo da sociedade organizada, que muitas vezes age no sentido contrário ao pretendido pelo poder controlador dos meios de comunicação. Lembro o fim da ditadura militar no Brasil. Apesar da censura imposta aos meios de comunicação, obrigados a uma programação intencionalmente “alienada” em matéria sócio-política, a população brasileira se rebelou primeiro nas urnas e depois nas ruas (campanha das diretas) para instaurar a democracia no país. 2.3 A televisão em comunhão com o telespectador A ideia da comunicação como comunhão vem do teórico americano James Carey, autor do livro Comunicação como Cultura (1989), no qual sustenta que a 43 comunicação não é somente transmissão de informação, mas igualmente comunhão e compartilhamento de emoções e experiências. Essa é a forma como a televisão, em geral, procura "segurar" a audiência: através do apelo emocional. Seus programas são carregados de sensações visando sensibilizar o emocional dos telespectadores. Das telenovelas aos telejornais, da realidade à ficção, em tudo que se passa na TV se vê essa forma de dizer as coisas, tudo é explorado pelo seu lado emocional, da alegria à tristeza, do riso ao suspense e ao choro. Uma grande autora de telenovelas no Brasil, Janete Clair, soube muito bem trabalhar com esse modo de comunicação e, em uma entrevista dada no auge de seu sucesso, explicou a alta audiência de suas novelas da seguinte maneira: Eu acho que entendo um pouco da psicologia do povo. Eu sei o que o povo gosta de ver, o que gostaria de sentir naquele momento. É uma emoção de alegria, é uma emoção de tristeza, é uma emoção de drama. Então eu acho que você sabendo dosar isso bem, é quase que, não digo que uma fórmula pra atingir o sucesso, mas é uma maneira de se atingir o grande público. É uma comunicação assim de gente para gente, de emoção para emoção. (CLAIR apud TV Brasil, 2010). A escritora soube expressar muito bem como se conquista o grande público, apontando que é preciso estar em comunhão com ele. É a emoção, que sempre atraiu a atenção do ser humano, desde o tempo da mídia impressa. A linguagem cinematográfica consegue isso de forma soberba, e a televisão, apesar de lhe faltar o poder imersivo de uma sala de cinema, usa da mesma tática para conquistar seu público. Um dos seus pontos fortes, a teledramaturgia sempre teve especial atenção dos telespectadores, o que levou os profissionais da televisão brasileira ao esmero no gênero telenovela. Outra técnica muito empregada pelos profissionais da televisão, para a comunhão TV-espectador, é o que podemos chamar de “culto à personalidade”, principalmente se essa “personalidade” trabalhar na emissora que o cultua. As emissoras de televisão comercial utilizam da promoção de seus profissionais para cativar, aproximar, tornar íntimo, ao telespectador, aquele personagem de sua novela, ou de seu telejornal, ou de qualquer outro programa que desejam promover. Humanizam-no, tornam-o igual e o identificam com o público. O telespectador passa a conhecer a intimidade dos astros da televisão e muitas vezes se apaixona por eles. É um intenso frenesi que se provoca pelo excesso de exibição, sob diversas 44 formas possíveis, buscando sempre uma identificação positiva, quase familiar, com o telespectador. 2.4 Transmissão Direta Outro aspecto da televisão, no sentido de captar audiência é a instantaneidade de suas mensagens; é o “ao vivo” que dá ao telespectador a sensação de onipresença, além de ser prova indiscutível da “realidade”. As notícias, as competições esportivas, os programas de auditório, shows e outros eventos transmitidos no exato momento em que acontecem trazem satisfação quase que participativa do telespectador. Essa característica é da essência da televisão, como sua primeira forma de transmissão: direta, instantânea, pois a tecnologia de então era carente de dispositivos para armazenar as imagens (o videoteipe viria depois). Umberto Eco retrata bem essa característica, em seu livro “Apocalípticos e Integrados”, quando escreve: na transmissão direta, iria a televisão encontrar aquelas características pelas quais se pode distinguir de outras formas de comunicação ou espetáculo, podendo-se mesmo individuar no ensinamento da transmissão direta o débito do cinema novo para com a TV. [...] com a transmissão direta televisional [...] foi-se afirmando um modo de “contar” os fatos totalmente diverso (que o cinema): a transmissão direta envia ao ar as imagens de um acontecimento no momento mesmo em que acontece, e o diretor vê-se, de um lado, tendo de organizar um “relato” cujo ritmo, cuja dosagem entre essencial e inessencial seja profundamente diversa da que ocorre no cinema: habituando, assim, o público a um novo tipo de tecido narrativo, continuamente se desfiando no supérfluo, mas igualmente capaz de fazer-nos saborear, de modo novo, a complexa casualidade dos eventos cotidianos (que o filme, no seu trabalho de seleção e depuração narrativa, nos habituara a esquecer). (ECO, 1997, p. 326327). A transmissão "ao vivo" fez da televisão a ferramenta da vanguarda dos anos 1960, pela supremacia em relação às outras mídias, principalmente a impressa. O poder da instantaneidade satisfazia, como ainda satisfaz, o fascínio das pessoas por se sentirem presente no momento do fato. Com certeza essa é uma das características mais marcantes da televisão. 45 2.5 A audiência A televisão se tornou o aparelho doméstico de comunicação audiovisual e faz parte dos primeiros aparelhos de uma residência. Ela pode ser assistida confortavelmente dentro do lar, enquanto se faz qualquer outra coisa, ou simplesmente relaxado num sofá ou cama; se tornou um aparelho de relaxamento e desse modo é usada pelos produtores de mensagens para a televisão. Dada a facilidade de aquisição, gratuidade da recepção (na TV aberta) e encantamento que produz, a mensagem televisiva chega a quase todas as residências do planeta. Com essa abrangência de transmissão, a televisão se tornou o principal meio de comunicação e, até hoje, mesmo com o surgimento da Internet é obrigatório o seu uso por quem pretende transmitir mensagem para o maior número de pessoas possível. Quem quiser atingir maior audiência em menor tempo tem que fazer uso da comunicação televisiva. Com a sua hegemonia em audiência, a televisão é uma grande fonte de lucro para a indústria cultural, que por ela vende todo tipo de produto de consumo. E no mercado publicitário, quanto mais audiência, mais caro custa o segundo de transmissão. Por esse motivo as emissoras comerciais disputam entre si a liderança nas pesquisas de audiência. A concorrência entre as emissoras faz com que se aperfeiçoe a todo instante a linguagem televisiva. As técnicas de transmissão e a construção da mensagem em constantes transformações visam à eficácia plena do meio de comunicação. Mas o aperfeiçoamento da técnica nem sempre traz benefício para o telespectador. A disputa desenfreada pela audiência faz com que se dê mais valor ao poder de atração da mensagem (por pior que seja o seu conteúdo) em detrimento do seu valor intelectual; o que interessa é chamar a atenção do telespectador. “O sangue e o sexo, o drama e o crime sempre fizeram vender” (BOURDIEU, 1997, p. 22) Então o que se vê são imagens espetaculares, apelativas, efeitos especiais, feitos sobre-humanos, imagens do macro, do micro, do nano, tudo que possa atrair a atenção do telespectador; tudo que possa convencê-lo da boa qualidade do que se vê. Esse sensacionalismo a qualquer custo, muitas vezes, leva a um conteúdo sem valor artístico, cultural ou científico. São mensagens para se consumir instantaneamente e descartar da mente, desprovidas de caráter crítico e criativo. Sobre o tema, Pierre Bourdieu cita um clássico exemplo: 46 ...quanto mais um órgão de imprensa ou um meio de expressão qualquer pretende atingir um público extenso, mais ele deve perder suas asperezas, tudo o que pode dividir, excluir – pensem na ParisMatch -, mais ele deve aplicar-se em não “chocar ninguém”, como se diz, em jamais levantar problemas ou apenas problemas sem história. Na vida cotidiana, fala-se muito da chuva e do tempo bom porque é o problema com o qual se está certo de não causar choque – salvo se se discute com um camponês que tem necessidade de chuva enquanto se está de férias, é o assunto soft por excelência. (BOURDIEU, 1997, p. 63). A busca pela audiência leva as emissoras a explorar o grotesco, sob as mais variadas formas, desde a exposição de seres disformes, situações inusitadas do cotidiano, às atitudes insanas das celebridades. Tudo é elevado ao extremo pelos programas sensacionalistas. Essa busca desenfreada teve seu ápice nos anos 1970, com programas de baixíssimo conteúdo de valor social, mas de alta carga de aberrações físicas e psíquicas. A manifestação do bizarro tem como um exemplo o programa de grande sucesso na TV americana chamado "Jackass", lembrado por Muniz Sodré, ao falar do grotesco na televisão: Esse tipo de programa segue a tendência recente da televisão em testar os limites de sua audiência, procurando conquistar espectadores adolescentes que, como já se sabe, têm na internet (e não na tevê) o seu medium favorito. Jackass tenta, segundo o apresentador, "ir ao limite de todas as situações: quanto mais desagradáveis e nojentas, melhor".[...] A citação de um exemplo norte-americano serve para mostrar que parece fazer escola no centro do Império o padrão de gosto responsável por grandes audiências na programação brasileira desde fins dos anos 60: o grotesco chocante (escatológico e teratológico). (SODRÉ, 2002, p. 104). Mas nem sempre acontece assim. Muitas emissoras, principalmente as públicas, têm conteúdo de valor. Programas importantes são produzidos na televisão; debates, documentários, reportagens especiais, entrevistas e muitos outros gêneros oferecem informações valiosas. É claro que em razão do tempo reduzido dos programas é impossível se aprofundar em determinado tema, mas, mesmo assim, o valor da mensagem serve como o início de uma pesquisa a ser aprofundada. Agora facilitada pela Internet. Para Eco (1997), em verdade, muitos benefícios vieram com a massmedia,6 como o de que a televisão deu às massas acesso aos bens de valor cultural 6 Mencionados no capítulo anterior (item 1.2, p. 25). 47 contribuindo para a formação humana, elevando o nível de “castas” inferiores, difundindo obras a preços baixos e sensibilizando o homem contemporâneo face ao mundo, tornando-o mais participante da vida associada (ECO, 1997, p. 47-48). Se fizermos uma comparação do homem de período anterior ao da televisão e o atual, veremos que há um ganho no desenvolvimento humano, trazido por essa mídia. Direta ou indiretamente (via Internet), a televisão é o principal meio de comunicação de massa, colaborando para as políticas públicas em todas as áreas, desde a cultural até a científica. As mensagens da televisão formaram o cidadão da pós-modernidade. A sua área de abrangência tomou conta do planeta, hoje transmitindo para várias telas, de todos os tamanhos, com extrema qualidade, desde os gigantescos telões, passando pelos computares até os celulares. 2.6 A TV Digital A radiodifusão tem avançado em qualidade, com as novas tecnologias. O meio analógico passa agora a ser digital. A era da informática também chegou ao processamento de imagens em movimento para televisão, numa velocidade bem mais rápida que na Internet. Para conseguir transmitir imagem em movimento pela web é preciso comprimir uma quantidade enorme de dados, e isso se faz com o sacrifício da qualidade. Basta fazer uma comparação entre as WEB-TVs e a TV Digital. Em qual meio é melhor assistir aos jogos de um campeonato ao vivo de futebol? A resposta é ainda a televisão. Por certo, com o tempo essa diferença será alterada. Os avanços tecnológicos caminham para a convergência digital. Enquanto a Internet não alcança esse estado de arte, a televisão digital mantém-se como a opção para quem quer assistir, confortavelmente, imagens de alta qualidade e gratuita. Um bom exemplo de TV digital pode se ver no Brasil. Aqui acontece a migração digital nas televisões. O Sinal da TV Digital, em expansão chega às áreas metropolitanas, para a maioria dos brasileiros. O padrão de TV digital adotado pelo país é o japonês, com um sistema misto de tecnologia própria. O Sistema Brasileiro de TV Digital Terrestre – ISDB-TB7 - tem como características: transmissão simultânea em alta definição (HDTV) e em definição padrão (SDTV); 7 Sistema derivado do sistema japonês ISDB-T. 48 a transmissão para receptores móveis e portáteis (sinal oneseg); e a interatividade. Um novo padrão de compressão é utilizado e a interatividade será desenvolvida com base em middleware8 brasileiro, o Ginga. Nele existe um conjunto de interfaces de programação (API) que foram criadas por pesquisadores brasileiros para oferecer suporte às necessidades específicas de aplicações de inclusão social. A interatividade permitirá maior navegabilidade e escolhas na televisão. Ela é a funcionalidade que proporciona ao telespectador a "possibilidade de atuar sobre o conteúdo ou a forma de comunicação acessível localmente ou mediante canal de retorno para a emissora de televisão pública digital", como definido na Norma Geral para Execução dos Serviços de Televisão Pública Digital (BRASIL, 2009). O telespectador deixará de ser passivo consumidor para, através de um sistema operacional controlado remotamente, ter mais opções entre informações e produtos. O uso da interatividade no ISDB-T pode ser feito de forma local (sem conexão para retorno de dados) ou de forma plena, através da rede mundial de computadores. Em relação a essa possibilidade (a da interatividade local) é importante se considerar que uma grande parcela da população brasileira não tem conexão à Internet em casa (mas possui televisão). Sem dúvida, o grande uso da interatividade na TV digital será possibilitado com a utilização da web, atualmente limitada pela dificuldade de acesso à banda larga no país. Na realidade, a interatividade é uma previsão futura, pois os centros de pesquisa ainda estão no princípio da produção de softwares de controle, o que é motivo de muita crítica na sociedade. A multiprogramação também é uma novidade da TV digital. É o serviço de transmissão de vários programas, simultaneamente, em subdivisões da faixa de 6 MHZ (freqüência designada para que a emissora transmita seu sinal digitalizado). Quer dizer, uma emissora de televisão pode transmitir um jogo num canal, uma entrevista em outro canal, textos em outro e slide-show em outro, todos dentro da freqüência que lhe é concedida. 8 Middleware ou mediador é um programa de computador que faz e mediação entre software e demais aplicações. É utilizado para mover ou transportar informações e dados entre programas de diferentes protocolos de comunicação, plataformas e dependências do sistema operacioal (fonte: Wikipédia, 2011). 49 Existem aspectos legais e comerciais relacionados a multiprogramação que ainda precisam ser equacionados. A Norma Geral para Execução dos Serviços de Televisão Pública Digital nº 01/2009 (BRASIL, 2009), do Ministério das Comunicações, proibiu as redes comerciais e emissoras públicas estaduais de utilizarem a multiprogramação na TV digital. Da parte de alguns radiodifusores, existe a preocupação de que a multiprogramação possa pulverizar as receitas publicitárias que sustenta as emissoras comercias. O primeiro problema passa por uma mudança de marco regulatório, o segundo pela busca de novos modelos de comercialização por parte das emissoras. Atualmente, apenas os canais consignados a órgãos e entidades integrantes dos poderes da União (TV Brasil, TV Senado, TV Câmara e TV Justiça) podem utilizar a multiprogramação. Uma exceção a essa regra foi obtida pela TV Cultura de São Paulo que no ano de 2009 conseguiu autorização do Ministério das Comunicações para usar transmissões simultâneas em caráter experimental científico. Aos poucos, o Brasil vem consolidando a TV digital ideal dentro das possibilidades do suporte tecnológico, com destaque para a qualidade visual, multiprogramação e interatividade controlada por middleware nacional, de arquitetura aberta, construído com a contribuição de profissionais de diversas áreas do conhecimento e que, com certeza, tornará uma referência para o mundo. 2.7 A Internet A mudança no sistema de comunicação ocorreu de forma revolucionária com o surgimento da Internet. As possibilidades da rede mundial são inimagináveis. Os bancos de dados, o cruzamento de informações, os fóruns de debates, as pesquisas compartilhadas e muitas outras, têm contribuído enormemente para o desenvolvimento social. A World Wide Web vai ganhando papel de destaque na contemporaneidade, como meio de comunicação eficaz e democrático. É o aperfeiçoamento da comunicação dentro do mundo globalizado. As velhas mídias, pouco a pouco, vão sendo complementadas por essa nova mídia. Como disse Moniz Sodré, o fenômeno Internet é a “maturação tecnológica do avanço científico, que resulta em hibridização e rotinização de processos de trabalho e recursos técnicos já existentes sobre outras formas (telefonia, televisão, computação) há algum tempo” (SODRÉ, 2009, p. 13). 50 Do papel para a tela eletrônica, a Internet é o novo jornal. Padrões e conceitos de comunicação da imprensa escrita foram os primeiros a serem absorvidos pela rede mundial de computadores. O layout do jornal impresso passa para a tela do computador, e suas páginas são agora "viradas" pelos links. Os livros também estão sendo disponibilizados pelo e-book e leitores eletrônicos (tablet). A biblioteca virtual tem um acervo de informações jamais antes imaginado. O telefone e os correios também estão presentes no ciberespaço. Pela Internet é possível conversar através de canal de voz, ou texto, ou imagem, ou tudo ao mesmo tempo e também enviar cartas, via web-mail. A música é ouvida e consumida nas ondas do ciberespaço de forma livre e afeta profundamente a indústria fonográfica. Arquivos de áudios dos mais diversos estão disponibilizados e rádios são transmitidas na web. A televisão também está nessa nova rede de comunicação e transmite simultaneamente com a mídia original. Novas formas de distribuição de conteúdo audiovisual foram introduzidas. A produção de áudio-vídeo se tornou mais democrática e sua visualização pode ser on demand - arquivos de vídeo acessíveis a qualquer tempo. Todo internauta tem a possibilidade de disponibilizar seu vídeo na Internet e, ainda mais, pode fazer uma transmissão ao vivo, via web-cam. As emissoras de televisão já estão na web, com programação on line. Alguns sites de provedores também têm seus canais de TV on line, com qualidade satisfatória para pequenas janelas de players. Deve-se destacar também o YouTube, que adaptou com maestria o audiovisual para a Internet e oferece ao usuário vasta gama de opções de vídeos e filmes, acessados a qualquer tempo e lugar que tenha conexão da Internet. O YouTube atinge, em determinados casos, um número de acesso muitas vezes superior à audiência da televisão aberta. Só lhe falta atingir a qualidade oferecida pelas TVs digitais, mas com o avanço tecnológico isso será possível no futuro. Televisão, rádio, cinema, imprensa escrita, enfim todas as formas de comunicação se encontram na rede – web. O mundo gira em torno dela, sob a atração de uma força centrípeta, convergindo para a Internet. O seu infinito espectro de informações atrai o internauta “consumidor” e é seguido pela indústria da comunicação, com os seus métodos de “audiência a qualquer preço”, já conhecidos na televisão. 51 Essa convergência virtual, essa migração midiática para a Internet vem acontecendo ao longo do tempo. Uma implosão que aconteceu a partir dos anos 80 e avança ao centro na medida em que aumenta a velocidade da transmissão digital. Agora é preciso estar no ciberespaço. E a tendência é usá-lo cada vez mais, embora seja impossível negar a natureza de cada mídia. Os meios de comunicação continuam em atividade, com grande avanço qualitativo, por uma necessidade de sobrevivência frente à força da Internet. A taxa de transferência de dados ainda é o limite. A qualidade das mídias de comunicação na Internet é proporcional à capacidade do fluxo de dados. Algumas formas se satisfazem com os níveis atuais de transferência de dados. Por exemplo: a mídia escrita. O jornal eletrônico tem a mesma qualidade (e até mais recursos) que o jornal impresso. Pode se dizer que a imprensa escrita já foi totalmente absorvida pela Internet. Mas as antigas mídias terciárias, eletrônicas, estas, embora em aproximação ao centro, ainda estão longe do olho do furacão Web. A Internet ainda não conseguiu absorver totalmente as emissões analógicas do rádio e da TV, ainda lhe falta igual qualidade de definição da imagem comparada com a TV digital, mas isso, com certeza, um dia será alcançado e com a mesma gratuidade da TV aberta. 2.8 O Fluxo de dados A transmissão pela rede mundial de computadores é feita através de sinal digital e analógico, modulado e demodulado (modem). A transferência de dados é limitada à capacidade do meio utilizado. Um problema a ultrapassar é a velocidade da transmissão: a quantidade de bits possíveis de transmitir por segundo. Esse fluxo depende da largura de banda (bandwidth), medida da faixa de freqüência, em hertz, de um sistema ou sinal. Quanto maior a faixa, maior a bandwidth do canal e maior a capacidade de transmissão. A largura de banda varia bastante entre os países e depende da localização geográfica do usuário. Onde o mercado consumidor exige maior fluxo de dados se tem maior bandwidth. As pesquisas indicam os Estados Unidos como o local do planeta de maior fluxo de informação, um pólo fortalecido na Europa Ocidental, 52 seguido por outro mais enfraquecido na América do Sul seguido da África (CASTELL, 2009, p. 431-435). As grandes corporações, centros de pesquisas, órgãos governamentais e instituições do gênero, dispõem de tecnologia de ponta e conseguem atingir alto nível de transmissão de dados, através de sistemas especializados e caros. Mas em relação ao consumidor comum, à grande massa, essa velocidade ainda está fora de alcance. Para esse importante segmento social, até nos países mais desenvolvidos, a Internet ainda é lenta. Embora, a cada dia, se aumente o acesso à banda larga, ela ainda é lenta para transmitir áudio e vídeo com qualidade e sem paradas repentinas, e esse fato, público e notório, ainda põe em vantagem a televisão para o entretenimento passivo. 2.9 Tendências A tecnologia atual criou uma enorme variedade de telas com capacidade de transmissão audiovisual. Telas de cristal líquido (LCD), plasma, LED são as mais conhecidas. As televisões atuais variam entre o pequenino dispositivo cabível no bolso e a enorme tela pendurada na parede. A televisão pode ser assistida pela Internet e esta pode ser acessada por aparelhos de televisão. O celular reproduz ambas. Enfim, surgem novas formas de assistir TV e também de interagir com a comunicação. Toda essa mudança na cultura midiática se identifica nesta pesquisa como consequência de três causas preponderantes: o sistema digital de informações, a Internet e a mobilidade. O sistema digital alterou substancialmente a forma de fazer e ver televisão. Com o mundo digital surgiram novas utilidades para o televisor, que passou a servir para jogar ou assistir filmes em DVD. Como o sistema digital melhorou consideravelmente a qualidade da imagem e do som a um custo menor, tornaram-se acessíveis ao público equipamentos até antes impossíveis de serem adquiridos pelo cidadão comum, de médio poder aquisitivo. Pela computação gráfica pode se ampliar os limites da criação audiovisual para muito além do real, com imagens belíssimas similares à realidade. Cenários que simulam a realidade são normais nas produções atuais. 53 O sistema de produção de conteúdo foi ampliado consideravelmente e muito mais gente começou a produzir. As produtoras de vídeo se multiplicaram. As pequenas emissoras de televisão tiveram condições de aparelhar melhor seus núcleos de produção e edição. E agora, no Brasil, começa a ser introduzida a transmissão digital, ainda em fase de implantação, que promete dar um novo avanço na funcionalidade e interatividade da TV. Hoje em dia quase todos conhecem a Internet, embora ainda esteja longe o dia de todos terem acesso a ela. Faz parte da vida da maioria das pessoas de forma multiuso – presta serviços e estabelece vínculos dos mais diversos. Nesta pesquisa, seleciono somente o aspecto comunicacional da Internet. Ela substitui, perfeitamente, a função da imprensa escrita e da comunicação pessoa a pessoa, sendo mais eficaz e rápida. O progresso da Internet tem nos mostrado avanço em velocidade de transmissão, a indicar que num futuro breve será possível assistir programas ou filmes com a mesma qualidade da televisão atual. O terceiro evento que muda a forma de assistir televisão é o aparecimento dos dispositivos móveis que podem receber o sinal de televisão digital e/ou da Internet. São aparelhos híbridos que podem ser usados em qualquer ponto da área de abrangência do sinal transmitido. Pelas normas reguladoras da TV digital é previsto um sistema denominado one-seg para transmitir para aparelhos portáteis móveis. Na atualidade o mercado tende a ter telas grandes para a televisão, médias para os computadores e pequenas paras os móveis. As três telas recebem os sinais emitidos no ciberespaço: dados, vídeo e áudio. Portanto no universo midiático, os aparelhos de informação se multiplicaram, o que vem sendo detectado por todos os institutos de pesquisa do planeta. O Instituto Nielsen, dos Estados Unidos, em pesquisa de 2009, constatou a hegemonia da televisão sobre os demais meios de comunicação ali comparados. Mas ao lado se mostra o intenso uso do celular com acesso a Internet, fato a demonstrar tendência de acessos multiscreen, termo usado para os que usam diversos aparelhos para acessar informações, educação e entretenimento. Em raras ocasiões nos deparamos com textos que insistem em comparar o uso da Internet com o da televisão e concluem que a TV como se vê atualmente está com os dias contados. Essas afirmativas são equivocadas e se baseiam apenas em índices que apontam queda na audiência da TV aberta. A este respeito, muito bem expôs Muniz Sodré, ao escrever: 54 A passagem da comunicação de massa às novas possibilidades técnicas não significa a extinção da mídia tradicional, mas a coexistência e mesmo a integração da esfera atual (trabalhado na esfera pública por jornais, rádios, televisão, etc.) com a do ciberespaço, onde são proeminentes as tecnologias digitalizadas do virtual. Situando o cinema (que já teria perdido a antiga influência) como primeira geração do audiovisual, Salaun põe em segundo lugar a televisão massiva (combinação do espectro hertziano com financiamento publicitário e audiência cotidiana); em terceiro, a televisão fragmentada, que se define por rede multiforme (satélite, cabo), financiamento variado (assinaturas, pay-per-view, publicidade local, etc.) e audiência não necessariamente cotidiana; finalmente a televisão interativa, que hibridiza televisão com computador e articula rede de banda larga com financiamento dependente do tempo de utilização. Como se percebe, a televisão não é “coisa uma”, mas um médium em evolução. (SODRÉ, 2009, p. 78/79). Ora, obviamente, com o surgimento de novas formas de assistir televisão o número de televisores ligados tende a diminuir, mas apenas reflete um ajustamento aos novos meios tecnológicos. Os índices dos principais Institutos de Pesquisa do planeta apontam no sentido da manutenção do poder da televisão, embora dividam sua audiência com a Internet. No resultado das suas pesquisas de 2010, o Instituto Nielsen, dos Estados Unidos, apontou um aumento constante na aquisição de aparelhos de televisão, nos últimos dez anos (NIELSEN, 2010, p. 4). Na pesquisa “State of the Media: Consumer Usage Reporte 2011”, divulgada no início de 2012, o Instituto Nielsen, confirma a predominância da televisão, entre as novas mídias, dentro dos lares em todo os continentes e especificamente aos Estados Unidos, o instituto aponta a preferência pela TV tradicional para assistir programas e filmes (NIELSEN, 2012, p. 2/8), apesar do uso crescente, com a mesma finalidade, em outras mídias como celulares e Internet. Na Europa o European Interactive Advertising Association – EIAA -, identifica a resistência da audiência na televisão, agora usada em multi-screen, ou seja, a televisão passa a ser vista na tela do computador ou do celular. No Brasil, a Internet ainda está muito longe de superar o uso de televisão nos domicílios, mas o uso de celular se integrou totalmente ao sistema de comunicação. Isso que nos mostra a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em pesquisa realizada em 2008, pela qual se vê que 95,1% dos domicílios tem 55 televisão, enquanto 23,8 % tem acesso à Internet e 75,5 % dos lares tem celular (IBGE, 2008). Na realidade, o que está ocorrendo é uma adequação dos meios de comunicação. Um fato emblemático da atual situação nessa disputa das mídias é o lançamento pela Microsoft, em 2011, de seu set-top-box, ou seja, aquela caixinha que converte o sinal da Internet para a TV digital. Essa mesma caixa conversora, já foi lançada pela Google e pela Apple. Quer dizer: a Internet está migrando para a televisão digital. E a TV digital está migrando para a Internet e para as TVs móveis. Assim podemos dizer que a tendência atual é do telespectador/consumidor de muitas telas e as emissoras de radiodifusão passam a produzir para todas as mídias possíveis. 2.10 A formação da mídia televisiva no Brasil A literatura brasileira é abundante quanto ao aspecto histórico da televisão no país, prescindindo aqui transcrever em demasia sobre referido tema, preferindo-me concentrar especificamente na evolução da linguagem televisiva, a fim de contextualizar o assunto para um entendimento das razões expostas mais adiante, ao tratar sobre a TV pública no Brasil. Diferentemente dos países europeus, onde a televisão surgiu pela iniciativa do Estado, com objetivos relevantes para a formação do cidadão em sociedade, no Brasil ela começou através da iniciativa privada, com objetivo de lucro no oferecimento de produtos para o consumidor. O interesse comercial motivou a criação da TV no país. O empreendimento de Assis Chateaubriand foi patrocinado pelos seus futuros anunciantes: Companhia Antarctica Paulista, a Sul América Seguros de Vida e suas subsidiárias, o Moinho Santista e a Organização Francisco Pignatari. Logo no primeiro discurso de Assis Chateaubriand durante inauguração da TV Tupi Difusora de São Paulo, já estava inserida a propaganda (CHATEAUBRIAND, 2011). Nos anos 1950, a televisão brasileira se limitou a transmitir nas duas principais cidades do país: Rio de Janeiro, a capital do Brasil e São Paulo, a cidade mais populosa e desenvolvida. A primeira emissora brasileira, TV Tupi Difusora de São Paulo, Canal 3, foi inaugurada no ano de 1950, na cidade de São Paulo e, no ano seguinte foi vez da televisão carioca surgir, como TV Tupi, Canal 6, do Rio de 56 Janeiro, seguida, em 1952, da Rádio Televisão Paulista, no canal 5, e, em 1953, a TV Record, canal 7, em São Paulo. Todas eram precariamente estruturadas em equipamento, instalação física e técnicos especializados, mas já seguindo o modelo adotado pelo rádio de arrecadar receitas anunciando produtos para consumo. Outras concessões foram cedidas nessa primeira década, com destaque para a predecessora da atual com o mesmo nome, TV Cultura, canal 2, de São Paulo, que, em 1958, surgiu também como uma TV comercial, do grupo de Assis Chateaubriand. Aquela TV Cultura era a TV de “segunda linha” das Emissoras Associadas e recebia o equipamento descartado pela principal, TV Tupi. No começo as coisas foram difíceis; a pouquíssima quantidade de aparelhos e a péssima qualidade da imagem e som repeliam maior interesse da indústria cultural. Poucos se empolgavam em investir na televisão. Foi preciso mais de uma década para se atingir um número razoável de telespectadores e despertar a cobiça de investidores. Podemos dizer que o nível de investimento subiu na proporção em que progrediu a qualidade de imagem e som da televisão. No início, a produção televisiva brasileira se caracterizava pelo improviso e carência de profissionais. A programação vinha do rádio e do teatro, como também os profissionais que fizeram as primeiras produções e transmissões. Essa migração trouxe para a televisão as radionovelas e as peças teatrais, que viam a TV como objeto de entretenimento, como já vinha sendo tratada em outros países da América. A televisão passa a ser vista como um meio de distração. No Brasil a produção para televisão se deu a partir das próprias emissoras, diferentemente dos Estados Unidos, onde a televisão repassou essa atividade para os grandes estúdios cinematográficos. Nos primeiros anos, o teleteatro foi o programa de maior interesse do público. As peças, selecionadas dentre as de maior valor artístico cultural na dramaturgia e literatura mundial, eram encenadas e transmitidas ao vivo (não havia o videoteipe). Atores teatrais consagrados fizeram as primeiras peças da televisão brasileira e dela se beneficiaram com a divulgação de seus trabalhos. Um conteúdo de qualidade era produzido em condições precárias e de baixa qualidade técnica para um diminuto público da elite, que preferia o teatro à TV. Além do teleteatro, a televisão também transmitia as telenovelas, oriundas dos radialistas que, antes, produziam as radionovelas. As primeiras telenovelas 57 ainda utilizavam a figura do narrador, como no rádio. Os autores adaptavam romances de sucesso mundial para a televisão. A capacidade de produção então era pouca e os capítulos eram exibidos uma ou duas vezes por semana. A primeira telenovela brasileira foi uma adaptação de um sucesso do rádio; “Sua Vida me Pertence”, exibida pela TV Tupi em 1951, com duração de 15 minutos cada capítulo. Os roteiros das telenovelas eram produzidos por estrangeiros (argentinos, cubanos ou mexicanos) e tinham como base os grandes sucessos da literatura. Nos primeiros anos também começaram os seriados, nos quais os personagens, a cada episódio, viviam situações diferentes; eram independentes um dos outros, mantendo apenas um elenco básico. A televisão brasileira também transmitia muitos seriados e filmes importados, geralmente americanos, gravados em película 16 mm, que traziam a cultura americana para dentro dos lares brasileiros. A televisão assim era uma coadjuvante do cinema na disseminação da cultura de consumo de produtos norte-americanos. Os Estados Unidos, além de nos impor seus equipamentos também nos impunha sua cultura, como até hoje o faz com suas séries e sitcoms9 (MESSA, 2006, p. 2). A carência de conhecimento técnico e das possibilidades de uso da mídia fizeram da primeira década da televisão brasileira um período de experimentação e improviso. Os radialistas traziam sua experiência nas produções do rádio, linguagem auditiva. Assim, os programas da televisão podiam ser somente ouvidos que também seriam entendidos. Um programa vindo do rádio, com muito sucesso na televisão, em sua primeira década, era “O Céu é o Limite”, transmitido pela TV Tupi em São Paulo e no Rio de Janeiro, apresentado por Aurélio Campos (SP) e J. Silvestre (RJ) O primeiro telejornal da televisão também sofreu grande influência do rádio. O “Repórter Esso” estreou em abril de 1952, na TV Tupi do Rio, como o mesmo formato do rádio, com apenas o apresentador falando, ao vivo. No final dessa década e início da seguinte começaram a surgir novas emissoras em outros estados, levando-se em conta suas importâncias políticas e comerciais. Belo Horizonte, Porto Alegre, Brasília, Salvador, Recife e Fortaleza foram as novas capitais a terem um canal de televisão. A integração do país pela televisão ainda 9 Abreviação da expressão situation comedy, traduzido como “comédia de costumes”, histórias curtas centradas na vida e nas atividades de uma família ou grupo (MESSA, 2006, p. 2). 58 levaria pouco mais de uma década e se concretizaria com os sistemas de satélite da Embratel. Pouco material tem-se dessa época, pois inexistia o videoteipe (criado em 1962), como também, pela escassez de película para gravação. Nos anos 1960 a televisão começou a romper seus vínculos com o rádio; a TV passou a ter sua própria linguagem, com sotaque brasileiro, mas também com grande influência estrangeira, principalmente da hegemônica indústria norteamericana. Boa parte do exibido na TV brasileira era produzida pelos grandes estúdios dos Estados Unidos e quase toda a programação era de entretenimento, sem maiores intenções em educar e formar cidadãos críticos. O televisor foi tomando lugar de destaque nos lares brasileiros, como o grande objeto de divertimento familiar. Esse fenômeno foi notado pelos produtores, mais atentos ao pensar a programação, de acordo com as atividades das pessoas em suas residências. Em 1963, foi lançado o “Jornal de Vanguarda”, criado pelo jornalista Fernando Barbosa Lima para a TV Excelsior, um telejornal que marcou a trajetória do telejornalismo. Utilizava repórteres e matérias gravadas num novo sistema de gravação: o videoteipe. O formato serviria de modelo durante muitos anos para outros telejornais. Em 1964 havia no país 34 emissoras de televisão e mais de 1,8 milhão de aparelhos. A televisão se consolidava como o mais importante veículo de comunicação para a massa. Uma visão mais profissional tomou conta dos trabalhadores da televisão, mormente com a chegada de novas emissoras, destacando-se a TV Excelsior, em 1960 e a TV Globo em 1965, fortes concorrentes para as demais já instaladas. A mudança trazida pela TV Excelsior é muito bem narrada por Ana Paula Goulart Ribeiro e Igor Sacramento: A chegada da Excelsior balançou o mercado. A emissora foi a primeira a ser administrada com uma visão empresarial moderna. Isso significou um processo de racionalização em vários níveis: na produção, na programação e na gestão dos negócios. A emissora do Grupo Simonsen realizou o 1º Festival Nacional da Música Popular Brasileira, produziu a primeira telenovela diária, introduziu os princípios de horizontalidade e de verticalidade na programação (os programas eram exibidos de segunda a sexta e em horários fixos) e substituiu as adaptações de obras estrangeiras, comuns à época, por programas com linguagem coloquial e temáticas nacionais. (RIBEIRO, 2010, p. 109). 59 A TV Excelsior, porém, teve vida curta, sem fôlego financeiro, suprida somente pelo capital nacional e desalinhada com o regime militar que se instaurou no país em 1964. Após boicotes, censura e endividamento, o Grupo Simonsen perdeu a concessão em 1970. Por outro lado, a TV Globo teve rápida expansão - se enquadrou ao contexto socioeconômico e político da época -, favorecida pelo plano de integração nacional do governo militar e pelo capital estrangeiro (TORVES, 2007, p. 37). No mesmo ano em que inaugurou sua emissora no Rio de Janeiro, também adquiriu a antiga concessão da TV Paulista, canal 5, de São Paulo. A Rede Globo soube usar o cientificismo da comunicação para “falar” com o telespectador, criando uma identificação com a massa, a qual já estava muito mais consistente e abrangente. Uma linguagem simples e direta, dentro do universo popular - como contam Ribeiro e Sacramento: Quando surgiu, a emissora seguiu um modelo mais tradicional de produção. Procurou se identificar de forma mais direta com o público popular que, naquele momento, já tinha condições de dispor de aparelhos de televisão. Com essa proposta, investiu numa dramaturgia tradicional e contratou diversos “animadores de auditório” – como eram conhecidos os apresentadores dos programas de variedades. Mas, apesar da ênfase numa programação popular, a Globo não abandonou o formato do teleteatro, característico da “televisão artística” ou de elite dos anos 1950 – período em que a “TV de Vanguarda” se mitificou como a sua síntese. (RIBEIRO, 2010, p. 110). Nos anos 1960 surgiram diversos programas entre jornalísticos e de entretenimento, este último formato consolidando seu sucesso na preferência dos telespectadores. Na área da educação, a televisão ainda deixava muito a desejar. Enquanto a Globo ascendia, a Excelsior declinava e a TV Tupi se sustentava precariamente. No regime de exceção, em 1964 e mais intensamente em 1968, com a decretação do Ato Institucional n. 5 e o endurecimento da ditadura militar, a televisão se afastou compulsoriamente da política. A programação se concentrou mais no entretenimento. Por outro lado, o plano de integração nacional do Governo, criando a infraestrutura para interligar o país através da radiodifusão, favoreceu a formação das grandes redes. 60 Nesse período começaram a aparecer os programas de auditório com exploração do grotesco, da baixaria e toda forma de sensacionalismo que pudesse atrair a atenção do telespectador. Entre os programas de maior audiência estavam o "Dercy de Verdade", apresentado por Dercy Gonçalves, o "Discoteca do Chacrinha” e "Buzina do Chacrinha", por Abelardo Barbosa, o Chacrinha, o programa da Hebe Camargo, do Flávio Cavalcanti, o programa Telecatch e outros. Também os programas de jornalismo policial ganharam força apelando para a exploração do “mundo cão”, destacando-se entre eles “O Homem do Sapato Branco”, apresentado por Jacinto Figueira Júnior, em 1968/69. Muitos outros programas estrearam na década de 1960, explorando aspecto mais lúdico, como os jogos. Um especialista neste gênero foi o programa Silvio Santos, que começou em 1968, transmitido pela TV Globo. O caráter popularesco dos programas gerou muitas críticas entre a elite intelectualizada do país. Surgiram campanhas contra o “baixo nível” da programação dominante naquele momento. No início dos anos 1960, a televisão teve sua primeira experiência na área de educação: em 1961, a Secretaria de Educação de São Paulo criou o Curso de Admissão pela TV, produzido pelo Estado e transmitido gratuitamente pela TV Cultura, Canal 2, a partir desse ano. Importante frisar que se tratava ainda da TV Cultura comercial, dos Diários Associados, como bem lembra Jorge da Cunha Lima. Seguindo sua narrativa do que chamou "pré-história” da TV pública paulista (LIMA, 2008, p. 20), diz o autor: a iniciativa paulista de montar uma estrutura de educação a distância seguia em frente: em 1963, o governador Adhemar de Barros criou o Sefort (Serviço de Educação e Formação de Base pelo Rádio e TV). Graças à solicitude das Emissoras Associadas, que ofereceram mais horários em sua grade, ampliou-se a programação educativa veiculada na TV Cultura, com aulas de literatura, artes plásticas, educação musical e curso de madureza, aos sábados. (LIMA, 2008, p. 32). Em meados dos anos 1960 já se fazia sentir a necessidade de uma TV educativa. O MEC solicitou ao CONTEL (Conselho de Telecomunicações) a reserva de canais educativos e em 1966 é criada a Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa FCBTVE - destinado a fomentar ao Sistema Nacional de Televisão Educativa. O Decreto 236, de 1967, define a TV Educativa da seguinte forma: “A 61 televisão educativa se destinará à divulgação de programas educacionais, mediante a transmissão de aulas, de conferências, de palestras e de debates”. Em 15 de junho de 1969 foi inaugurada a TV Educativa de São Paulo, a mesma TV Cultura, Canal 2, adquirida das Emissoras Associadas e, a partir de então, administrada pela Fundação Padre Anchieta, subsidiada pelo Governo do Estado. Em relação à antiga TV Cultura, comercial, houve uma verdadeira reengenharia: a nova televisão parou para planejar, adquirir novos e modernos equipamentos e entrar no ar com pessoal altamente capacitado, já com a experiência de duas décadas de televisão e também na área educativa e cultural. A intelectualidade da Universidade de São Paulo (USP) estava inserida na gênese da primeira emissora pública do país. A USP já vinha desenvolvendo importantes trabalhos na área da televisão educativa. Os primeiros programas da nova TV pública eram ainda mais de caráter educativo do que cultural, mas já no início a TV Cultura criou duas vertentes de trabalho: a assessoria educativa e a cultural. Apesar de sua baixa audiência, o aparecimento das televisões educativas mostrava às comerciais e ao público em geral, que era possível fazer uma programação de melhor qualidade educativo/cultural. Esse novo estilo de televisão por certo influenciou na melhoria do conteúdo das principais emissoras, pressionadas pelas críticas de diversos setores. O certo é que a pressão surtiu efeito, como contam Ribeiro e Sacramento: A crítica ao “baixo nível” da programação constituiu um fator de pressão fundamental para a mudança de perfil da televisão brasileira nos anos 1970. Na TV Globo, a transformação foi evidente, mas resultou de um processo que começou antes. Já em 1966, um ano depois da inauguração da emissora, Roberto Marinho trouxe novos profissionais para comandarem as áreas de administração, de produção e de programação da TV. A parte financeira foi assumida por Joe Wallach, executivo do grupo Time-Life. A comercialização passou a ser comandada por José Ulisses Arce. E, como diretor geral, foi nomeado Walter Clark, que em 1967 contratou José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, com quem já havia trabalhado na TV Rio, para dirigir a área de programação/produção. Clark tinha a incumbência de ser o regente dessas três áreas. Juntos, Boni e Clark estruturaram na emissora uma grade de programação, segundo o conceito já utilizado pela TV Excelsior. Seguiam os princípios de horizontalidade e de verticalidade: o primeiro consistia na reserva de horário para determinados programas ao longo da semana, e o outro dizia respeito à organização diária em diferentes faixas de horário: de manhã, programação infantil; à tarde, programas femininos; e, à noite, telejornal e telenovelas. Essas práticas permitiram a sistematização e o aumento da venda de espaço publicitário, além da fidelização do 62 público. Foram Boni e Walter Clark que tiveram a ideia de levar ao ar no horário nobre um telejornal (o “Jornal Nacional”) intercalado por duas novelas. Também foi obra desses executivos a estruturação do núcleo de novelas da TV Globo. E a criação de diversos programas de grande sucesso, como o “Fantástico” e o “Globo Repórter”, ambos de 1973, já frutos de uma desejada televisão nacional de qualidade. As mudanças propostas por eles levaram a TV Globo ao primeiro lugar na audiência e foram, aos poucos, consolidando a sua liderança absoluta. Junto com a Excelsior, a TV Globo foi uma das primeiras emissoras a se pautar mais seriamente pelas questões de mercado, criando departamentos de pesquisa e marketing. (RIBEIRO, 2010, p. 112). A hegemonia da Globo foi impulsionada também pela política de integração nacional implantada pelo governo militar, em 1965, quando criou a Empresa Brasileira de Telecomunicações (EMBRATEL), que dispôs de um sistema de propagação através de micro-ondas, a permitir a transmissão televisiva para várias capitais simultaneamente. O Jornal Nacional foi o primeiro programa a ter ampliada sua transmissão pelo novo sistema, em 1969. A primeira grande rede de televisão começou a se formar a partir daí. No começo alcançando poucas capitais e se expandindo com o apoio tecnológico da Embratel. Em poucos anos a Globo consolidou a sua rede, transmitindo para os principais estados do país, no mesmo instante. O Jornal Nacional foi o programa escolhido para iniciar essa integração do país, servindo ao projeto de Governo, como também, aumentando os lucros da Globo ao atrair novas emissoras filiadas e anunciantes. Sobre a escolha diz Walter Clark: Nós precisávamos de um programa diário, que entrasse ao vivo em vários estados, para estimular outras emissoras a se afiliarem à Rede Globo. Com mais emissoras, poderíamos oferecer aos nossos clientes a audiência de outras praças, cobrando mais caro por isso. E, obviamente, não havia nenhum programa de TV diário melhor para fazer essa integração do que um telejornal. (CLARK, 1991, p. 213). O Jornal Nacional inovou no telejornalismo. Segundo a narrativa de Ribeiro e Sacramento, o Jornal Nacional era produzido para a família brasileira, reunida no ambiente doméstico, e usava uma linguagem mais direta e coloquial, bastante distante do modelo radiofônico dos primeiros programas, caracterizada por uma locução em voz grave e em tom sério. Suas manchetes eram, em geral, curtas e rápidas. O texto era lido alternadamente por dois apresentadores de forma ágil e dinâmica. (RIBEIRO, 2010, p. 115). 63 No final dos anos 1960 estava consolidada a linguagem da televisão brasileira, totalmente voltada ao entretenimento e só indiretamente com algum teor educativo no seu conteúdo, exceto pelas tele-aulas do madureza ginasial10, que tratava diretamente da educação. Nos anos 1970 a integração de várias emissoras do país se tornou uma realidade. Outros grandes grupos de telecomunicação se formaram, como a Bandeirantes, Manchete. Em 1970 o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contou quatro milhões de aparelhos, com cerca de 25 milhões de telespectadores. O sistema de TV em cores foi implantando no país apenas em 1972, com atraso de alguns anos em relação à América do Norte. A TV em cores ampliou a criatividade da produção e a qualidade da imagem, facilitando ainda mais comunicação televisiva. A transmissão da imagem colorida representa o avanço tecnológico que se alastrou em todos os setores da sociedade, principalmente nos meios de comunicação. Para formar uma indústria brasileira forte no campo da eletrônica de televisão, o governo implantou um sistema diferente do padrão americano (NTSC) que se impunha pelo mundo. No Brasil se adotou o sistema PAL-M, como parte de uma política de fortalecimento da indústria nacional. No campo da produção, também se incentivava a produção local, com temas brasileiros. Após duas décadas de aprendizado a televisão brasileira já estava madura o bastante para desenvolver a sua própria linguagem. A programação das televisões passou a explorar mais o local, o regional e o nacional. As telenovelas começaram a trabalhar com temas nacionais e trazia a público um pouco mais da cultura “tupiniquim”. É claro que, ainda nos anos 1960, existiam fortes restrições impostas pela censura. A televisão operava dentro de um limite possível. Uma novela de grande sucesso em 1968 foi “Beto Rockefeller”, de Bráulio Pedroso, cuja trama estava inserida dentro do cotidiano nacional, dando um maior realismo ao gênero da telenovela, excluído, obviamente, o debate político. Nos anos 1970, a telenovela se consolidou como programa predileto da família brasileira, alcançando pico máximo de audiência no Rio de Janeiro e São 10 Curso preparatório para um exame final objetivando aprovação no ginásio ou no curso colegial, equivalente hoje aos quatro últimos anos do ensino fundamental e ensino médio, respectivamente. 64 Paulo, segundo o IBOPE, como foi o caso da novela “Selva de Pedra”, de Janete Clair. A partir de então a telenovela mostra a vida do nosso povo, como seus anseios e suas alegrias. Com sua amplitude, a telenovela passa a ter influência singular na sociedade, como conta Torves: A novela padronizou comportamentos e moda, a partir do centro cultural e de produção, eixo Rio-São Paulo, para as demais regiões do país. Como a programação regional tem índice insignificante comparativamente com a grade nacional, com exceção da região sul e leste, mas que, de qualquer forma, também é muito baixa (3%), é comum no norte e no nordeste do país, jovens com padrões e referências cariocas e paulistas que contrastam com a realidade local. Estas disfunções vão desde a linguagem, com as gírias dos grandes centros, a moda e, principalmente, a cultura, colocadas como referência de comportamento e de atitudes na sua vida diária. Há um prejuízo para as culturas e os valores regionais, tão ricos em sua diversidade. Também tem se verificado que esta influência afeta padrões de consumo e de hábitos alimentares e cria um imaginário muito distante da realidade das comunidades, gerando, ao mesmo tempo, um viver de faz-de-conta, com uma frustração ao se defrontar no dia seguinte com o viver o real em condições desfavoráveis, mas que, a cada noite, diante da televisão, pode ser “anestesiado” para continuar o ciclo alienante, sem crítica e sem reflexão, tanto como indivíduo quanto coletivo, segundo Ramos (1986). (TORVES, 2010, p. 47-48). Em 1973, entrou no ar o sinal da TV Educativa do Rio de Janeiro, ligada a FUNTEVÊ, do Governo Federal, quatro anos após a inauguração da TV Cultura de São Paulo e duas décadas apos as emissoras comerciais estarem transmitindo e formando o conteúdo da cultura televisiva brasileira. O "padrão Globo" era, e ainda é, o que prevalecia na preferência nacional, tornando-se modelo para as demais emissoras, porém vedado às educativas de então, obrigadas a transmitir somente aulas, conferências e palestras, por força do decreto 236/1967, como dito antes (ps. 60-61). Enquanto nos anos seguintes esse padrão evoluía e consolidava a audiência nos moldes da programação das TVs comerciais lideradas pela Globo, as emissoras educativas estavam estancadas nos seus estreitos limites legais, o que as mantinha muito distantes dos índices satisfatórios de audiência. Somente uma "rebelião" poderia tirar as TVs educativas desse destino traçado pelo lobby das emissoras comerciais perante o legislativo brasileiro. E isso que aconteceu pelo viés da cultura. A outorgas das emissoras educativas tiveram duas vertentes: algumas foram entregues a entidades de caráter educativo e outras 65 ficaram sob a responsabilidade de órgãos estatais ligados à cultura. Obviamente, as emissoras tenderiam a explorar o campo onde estavam situadas, com isso as emissoras "culturais", passam a mostrar a cultura brasileira com o objetivo educacional, assim mantinham-se dentro do princípio em que foram constituídas. Essa programação cultural logo foi absorvida por todas as emissoras educativas, o que as tornaram mais simpáticas perante o grande público. A partir de então, as emissoras educativas passaram a usar a cultura como conteúdo de educação, mas ainda continuavam a depender do Estado financiador. 3 A televisão pública Para falarmos em TV pública torna-se necessário primeiramente apresentar alguns traços do que se costuma chamar de “público” ou “coisa pública”. Pode-se dizer que o que se entende por público ou 'coisa pública' localiza-se no limite entre o Estado e o mercado, outros dois conceitos que entram em cena quando se trata de pensar o que é ou deveria ser uma TV pública. Público e 'coisa pública' é uma instância que se localiza entre Estado e mercado, mas como algo que os ultrapassa. Nesse sentido pode se referir a algo que é comum a todos e que não pertence a ninguém em particular. Considerada numa perspectiva histórica a distinção entre público e privado é tematizada pela primeira vez na Grécia antiga em especial na Atenas democrática. As mudanças ocorridas nas estruturas sociais e políticas do mundo grego encontraram um ponto singular com a experiência desenvolvida na polis ateniense entre 510 e 323 a.C. que consagrou a prática democrática nas deliberações políticas. É essa experiência que inaugura no Ocidente a distinção entre público e privado. De acordo com Hannah Arendt (2007) localiza-se na polis grega o aparecimento de uma oposição entre esfera privada e esfera pública. Nas palavras da filósofa, Segundo o pensamento grego a capacidade humana de organização política não apenas difere mas é diretamente oposta a essa associação natural cujo centro é constituído pela casa (oikia) e pela família. O surgimento da cidade-estado significava que o homem recebera, ‘além de sua vida privada, uma espécie de segunda vida, o seu bios politikos. (ARENDT, 2007, p. 33). Esse bios politikos significava para o cidadão grego uma vida ativa e participativa na polis, designando a existência de um espaço de deliberação ocupado pelo cidadão. Apenas para registro é importante destacar que grande parcela da população estava excluída desse espaço. Nessa distinção dos papéis sociais o que importa destacar é o fato de que apenas os cidadãos – homens adultos nascidos em Atenas, filhos de homens livres oriundos de famílias locais participavam da esfera pública. Nessa esfera a liberdade tinha um sentido marcadamente político e a polis era o espaço onde ela se exercia. O espaço público era não apenas uma condição da liberdade como também uma condição de 67 realização do próprio sentido da existência humana. Nele decidia-se os rumos que as questões relativas a cidade deveriam tomar através da participação do cidadão. Essa experiência grega da esfera pública tornou-se paradigmática para o pensamento político ocidental e funciona como um contraponto para pensarmos as novas relações entre o público e o privado que surgem na modernidade com a emergência do capitalismo e da sociedade burguesa. É nesse contexto que a televisão ao lado de outros meios de comunicação de massa irá assumir um papel estratégico nas mudanças que irão ocorrer na esfera pública. De acordo com Habermas (1984) na segunda metade do século XVIII se localiza a constituição da esfera pública paralelamente a consolidação do capitalismo burguês na Europa. Para esse filósofo nesse momento emerge um espaço de discussão e ação política que envolve um público intelectualizado. É nesse cenário segundo Habermas que surge o ideal de “público” ou “coisa pública”. Essa esfera pública é constituída pelo conjunto das “pessoas privadas reunidas em um público” (1984, p. 42) que se sobressai por sua capacidade de julgamento. Ao longo da modernidade essa esfera, tal como descrita acima por Habermas no livro Mudança estrutural na esfera pública (1984) sofrerá mudanças profundas à medida que as leis do mercado penetram na esfera das pessoas privadas consideradas enquanto público. Quando isso ocorre o exercício da crítica perde sua força porque a capacidade de julgamento é capturada pela publicidade e pelo marketing dando lugar ao consumo. Como resultado desse processo a esfera da comunicação pública se enfraquece perdendo sua capacidade crítica. Essa esfera se expandiu com os meios de comunicação massiva e se transformou em comunicação de uma via, principalmente com a televisão. Como observa Bucci (2004, p. 233) “Não é mais a emergência dos sujeitos autônomos que nela tomam parte, mas a ação dos próprios meios”. Segundo ele, A esfera pública deixa de ser refletida (crítica e dialeticamente) na imprensa: ela é posta, como audiência, pelos meios. Antes, a esfera pública era a força que gerava seus meios (a imprensa de opinião). Agora, os meios (de massa), expressão do capital na forma de força comunicacional, é que geram a esfera pública. (BUCCI, 2004, p. 233). Considerando o tema desse capítulo e o exposto anteriormente, em se tratando de televisão, poderia se dizer que, quando pública destina-se diretamente ao cidadão com direito à informação, cultura, educação e entretenimento, tudo isso 68 com um principal objetivo: o de prover ao telespectador condições para melhor decidir o seu destino e o da sociedade em que vive. Mas como essa televisão é do público ela deve ser por ele financiada e, por falta de mecanismo legal, no Brasil quem assume esse papel representativo é o Estado. O Estado financia a televisão pública, mas parece inadequado dizer ser ele o seu dono. A televisão pública é dos cidadãos. Essa explicação poderia satisfazer a principal característica do que se chama televisão pública: criada para o benefício do cidadão, sem o jugo do Estado e do mercado. Para atingir esse conceito a televisão pública precisa cumprir sua obrigação de dar informação e educação com entretenimento, pois sem entreter ela perde a sua audiência. Como exposto no capítulo anterior a “cultura televisiva” no Brasil foi construída com a linguagem do entretenimento, da diversão, do show, do jogo, da novela, mais dentro dos mundos lúdico e ficcional, do que do real, concebidos por JOST (2010)11. O contato do telespectador com a TV no Brasil deuse através dessa linguagem, mas a TV pública não pode se restringir ao lúdico e ficcional. Nesse sentido sua relação com a esfera pública é fundamental. A televisão pública precisa assumir relevante papel no espaço público, entendido esse como “o campo gerado pela comunicação social”, nas palavras de Eugênio Bucci, lembrando Habermas, pois é nessa esfera pública que surge o debate público, constituindo ela “uma rede para a comunicação e pontos de vista” (HABERMAS apud BUCCI, 2004, p. 232). Mas essa mudança no espaço público se deve, também, em parte pelo domínio das emissoras comerciais que preferem ter um telespectador passivo e suscetível de convencimento, atendido assim seus interesses de lucro em vez de despertar a consciência crítica do cidadão. Nesse caso, a responsabilidade social passa a ser das emissoras dominantes (com maior audiência), as quais assumem um papel de caráter público, algumas vezes bem representado, pois a televisão nos traz importantes informações, ainda que influenciadas pelos seus interesses comerciais. Atualmente, a construção de uma esfera pública como a proposta por Habermas - a reunião de um público, formado por pessoas privadas, que elaboram 11 Vide item 2.2. 69 uma opinião pública com base na racionalidade do melhor argumento, e fora da influência do poder político e econômico, e da ação estratégica – tornou-se inviável. Sem dúvida é correta a crítica de Habermas à superficialização da política e do debate político decorrentes da fragilidade da opinião pública; somam-se a esses problemas a burocratização e a mercantilização crescente do espaço público e a utilização dos métodos quantitativos e qualitativos para avaliar a opinião pública que contam com a manipulação que a mídia e o marketing exercem neste sentido. Mas de todas as conseqüências provocadas pelo deslocamento de sentido da esfera pública decorrentes das transformações do capitalismo ao longo do século XIX e XX a mais importante é a impossibilidade de se delinear hoje o “ideal de coisa pública”, num cenário onde aumentam a concentração de capitais e a intervenção do Estado nos negócios, resultando no estreitamento dos laços do setor público com o setor privado (HABERMAS, 1984, p. 208). No entanto, isto não quer dizer que a midiatização da sociedade e da política, tenha eliminado a existência da opinião pública e de outras mediações da sociedade ou que se tornou impossível a construção de uma esfera pública democrática onde a TV pública ocupe papel relevante no que diz respeito aos direitos do cidadão. Autores como Jesus Martín-Barbero, Omar Rincón e German Rey (RINCÓN, Televisão pública: do consumidor ao cidadão, 2002), dentre outros, trazem importantes contribuições para pensarmos as relações entre público e privado e o exercício da cidadania no contexto contemporâneo tendo como foco a questão da TV pública. Para tratar do caráter público Barbero se apoia nos estudos de H. Arendt e R. Sennet. Segundo o autor dos Meios as mediações para esses dois pensadores o caráter público configura-se como "o que é comum, o mundo próprio de todos", o que implica - como a própria Arendt já afirmava em que isso seja, ao mesmo tempo, "o que se difunde, o que se 'anuncia' entre a maioria". E é isso o que Sennet sublinha, quando se refere ao caráter público como aquele espaço da cidade (desde a ágora grega) no qual as pessoas se juntam para intercambiar informações e opiniões, para perambular ouvindo e se entreter polemizando. (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 50). Além dos autores citados para esclarecer esta questão Barbero recorre a Germán Rey que explicitou e desenvolveu essa articulação, que funde o caráter público com o interesse comum, espaço cidadão e interação comunicativa: circulação de interesses e discursos em plural, já que o que têm em comum não nega absolutamente o que têm de 70 heterogêneos; pois é isso que permite o reconhecimento da diversidade da qual é feita a opinião pública, o seu contraste. O próprio da cidadania hoje é estar associada ao "reconhecimento recíproco" - ou seja, ao direito de informar e ser informado, de falar e ser ouvido, imprescindível para poder participar das decisões que dizem respeito à coletividade. (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 50-51). Esse caráter público melhor se amolda à TV Pública, livre de pressão ou interesses individuais ou empresariais. Portanto um dos objetivos da televisão pública deve ser o de ocupar o espaço público diversificando essa mensagem impositiva, de interesse ideológico, transformando-a numa linguagem reflexiva, considerando o telespectador como cidadão e não apenas como consumidor. Um exemplo usado por muitos autores do que seria uma televisão pública de qualidade é o a da British Broadcasting Corporation (BBC), a TV pública britânica, com mais de 80 anos de existência. A primeira emissora do Reino Unido era uma TV instalada pelo poder público, sem interesse comercial, como foram as pioneiras em outros países da Europa. “Mantida pelo público e por ele controlada de perto através de mecanismos institucionais eficientes, a BBC consegue prestar um serviço de radiodifusão reconhecido mundialmente por sua qualidade” (LEAL, 2008). Formalmente o conselho é nomeado pela rainha, entretanto, na prática, os nomes são indicados pelo primeiro-ministro. Os conselheiros são personalidades independentes, sem vínculos com organizações nem com a TV comercial. O modelo de financiamento tende a garantir plena autonomia à BBC. Cada cidadão paga uma taxa anual de contribuição para a manutenção do sistema. A BBC tem sido alvo de debates públicos em torno de sua qualidade, especialmente na própria Inglaterra, todavia a maturidade de seu sistema, a internacionalização e qualidade da programação assim como os níveis de audiência tendem a comprová-la como uma experiência bem sucedida. (CURY, 2009, p. 27). Nos Estados Unidos o sistema de televisão pública é formado por quase quatrocentas emissoras locais e por dois canais nacionais, Public Broadcasting Service (PBS) e Corporation for Public Broadcasting (CPB), que se organizam de forma independente, podendo ou não retransmitir a programação gerada no sistema por quaisquer das emissoras constituintes ou fora dele. A ex-vice-presidente de programação da PBS, Alyce Myatt, em palestra proferida no encontro “O Desafio da TV Pública”, realizado em 2003, no Rio de Janeiro, apresentou a PBS, informando ter sido ela criada pelas emissoras que compõem o sistema e usar diferentes fontes de recursos, com o objetivo de oferecer 71 ao espectador americano uma programação educativa de qualidade, medida sobre a eficácia na formação social do cidadão, objetivo da TV pública. A CPB foi criada pelo governo dos EUA em 1967 e recebe uma dotação governamental anual, que, em parte, é repassada para a PBS, como também para as emissoras locais e produtoras independentes. O orçamento da PBS também é composto por verbas vindas dos próprios telespectadores das emissoras locais, através de campanhas anuais para levantamento de recursos e por financiamentos de empresas que pagam para colocar seus logotipos no final ou no início do programa (MYATT, 2003, p. 20-21). Algumas emissoras do sistema público americano produzem programas, mas a maioria da programação veiculada é de produção independente oferecida à PBS, que tem critérios de escolha. Os programas financiamento da própria PBS, selecionados podem obter ou por fundações privadas ou agências governamentais (MYATT, 2003, p. 22). No Brasil o conceito de TV pública apareceu tardiamente. Em 1988, a Constituição Cidadã estabeleceu, no seu artigo 223, competência ao Poder Executivo para "outorgar e renovar concessão, permissão e autorização para o serviço de radiodifusão sonora e de sons e imagens, observado o princípio da complementaridade dos sistemas privado, público e estatal" (BRASIL, 1988). Embora previsto na Constituição, ainda faltava instituir o sistema público de radiodifusão. Curiosamente, a primeira iniciativa legal para a implantação de emissoras de caráter público, ou ao menos de interesse público, surgiu pela radiodifusão paga. Em 1995, foi promulgada a lei 8.977,12 a Lei do Cabo, que em seu artigo 23, ainda vigente, estabelece que a operadora de TV a Cabo deve tornar disponíveis canais básicos de utilização gratuita (embora o usuário pague pela assinatura do pacote de canais ofertado pela operadora), destinados ao legislativo municipal/estadual, à Câmara dos Deputados, ao Senado Federal, às universidades, à educação e cultura, à comunidade e ao Supremo Tribunal Federal, além de canais para prestação eventual e permanente de serviços. Paradoxalmente a televisão pública surgida pela Lei do Cabo excluía quem mais necessitava dos programas por ela exibidos, a população de baixa renda, sem 12 hoje revogada em parte pela lei 12.485, de 2011. 72 condições para arcar com a assinatura, e a que habitava local sem o sinal da TV a Cabo, no interior do país. Na TV aberta, gratuita, a televisão pública continuava a ser o anseio das detentoras de canais educativos (geralmente mantidas pelas unidades federativas do país ou universidades federais) por autonomia frente à ingerência estatal dentro de suas grades de programação. Essa reivindicação ganhou força nas duas últimas décadas, a partir da ideia de autonomia disseminada pela TV Cultura de São Paulo, ao reunir as emissoras educativas dos estados na Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais, ABEPEC. A TV Cultura, constituída pelo Estado, é administrada por uma fundação de direito privado, a Fundação Padre Anchieta FPA, cujo órgão de decisão, o Conselho Curador, é formado por representantes da sociedade paulista, que, na sua maioria, são eleitos ou indicados por instituições sem qualquer ligação ao Estado. O exemplo da TV Cultura despertou o desejo das demais emissoras educativas estaduais em se livrar das ingerências administrativa e programática dos políticos que as viam como um canal para promoção, de caráter eleitoreiro. Com a reunião das emissoras educativas, se formou a Rede Pública de Televisão transmitindo em conjunto e simultaneamente programas educativos e culturais entre todas as TVs que a compõem, porém sem regulação legal. Essa necessidade de regras legais era sentida também pelas demais emissoras de interesse pública, como as TVs universitárias, as comunitárias e as legislativas, que se manifestavam pelas suas entidades representativas. Na primeira década de 2000, era uníssono o clamor pela definição de uma política pública para as emissoras educativas. A pressão das emissoras e entidades sociais era intensa como se vê pelo artigo publicado pela Presidente da TVE Brasil, em 2006, Beth Carmona, que assim argumentava: Hoje, a população e o Estado começam a se dar conta da necessidade de uma televisão voltada para a sociedade, com uma programação que valorize o público não somente como consumidor, mas fundamentalmente como cidadão. Um sistema público de comunicação é necessário para a democracia. Os parâmetros de qualidade dos conteúdos, a valorização da economia do audiovisual, a formação de profissionais de comunicação com espírito social, a experimentação, a diversidade de idéias e opiniões, são apenas alguns compromissos e missões do sistema público. Organizações Não Governamentais como TVER, Andi (Agência de Notícias dos 73 Direitos da Infância) e Midiativa (Centro Brasileiro de Mídia para Crianças e Adolescentes), a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, com iniciativas como a campanha "Quem financia a baixaria é contra a cidadania", a existência do Conselho de Comunicação Social, o movimento de democratização da comunicação, o coletivo InterVozes, são apenas algumas das ações que vêm debatendo os temas referentes à comunicação social com a opinião pública e com diferentes setores da sociedade. (CARMONA, 2006). Como Beth Carmona dizia, esses eram apenas alguns dos polos de debate sobre a TV Pública. Houve muitas outras reuniões, audiências, grupos de trabalho e outros tipos de concentração social para decidir qual a televisão pública que os brasileiros queriam. Esses encontros abrangiam toda a sociedade brasileira e foram preparatórios para o encontro maior, em Brasília, num fórum nacional que entrou para a história das emissoras públicas de televisão no Brasil. 3.1 Breve História da TV pública no Brasil Em meados dos anos 1960 a sociedade brasileira almejava um caráter mais educativo para a televisão e o MEC solicitou ao CONTEL (Conselho de Telecomunicações) a reserva de canais destinados exclusivamente à educação. Até então inexistia emissora com essa característica e somente a emissora dos Diários Associados em São Paulo transmitia aulas pela televisão, por solicitação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. A legislação então vigente, o Código Brasileiro de Telecomunicações (lei 4.117, de 2 de agosto de 1962) sequer tratava da matéria, situação que só foi alterada com a sua regulamentação pelo Decreto 236, de 27 de fevereiro de 1967, que ao mesmo tempo introduziu a radiodifusão educativa e impôs a ela inadequadas restrições quanto aos programas produzidos, limitados a transmissões de aula, conferências, palestras e debates (BRASIL, 1967). A operação desses canais ficou definida pela primazia da União, depois dos Estados, dos Territórios, dos Municípios, das Universidades e das Fundações com estatutos adequados às regras do Código Brasileiro de Comunicações. A publicidade comercial foi proibida desde o início das TVs Educativas. Assim, a legislação brasileira diferenciou a radiodifusão educativa e a comercial. Aos canais comerciais foi obrigada a transmissão de um número mínimo de programas educativos. 74 Com o decreto 236/67, coube ao Ministério da Educação e Cultura normatizar e estabelecer critérios para reger as TVs educativas. A primeira outorga de emissora educativa ocorreu em 1966, para a Universidade Federal de Pernambuco – UFPE-, que inaugurou a TV Universitária de Pernambuco, vinculada ao MEC, com suas primeiras transmissões a partir de julho de 1968, em fase experimental (FIGUEIREDO, 2002). Em 1967 foi criada a Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa – FCBTVE -, a primeira experiência permanente do Governo Federal em Teleducação. Seis anos após a sua criação o seu primeiro presidente, Gilson Amado, conseguiu que esta Fundação ganhasse a outorga do canal dois, TVE do Rio de Janeiro. (MACIEL, 2011, p. 3) As duas TVs educativas mais importantes do país eram a TVE do Rio de Janeiro, Canal 2, vinculada ao Governo Federal, criada em 1967, mas que somente entrou no ar em 1973 e a TV Cultura de São Paulo, inaugurada em 15 de junho de 1969, vinculada ao Governo do estado de São Paulo, que criou a Fundação Padre Anchieta – FPA - para a administrar. Durante esta fase de pioneirismo diversos projetos foram executados, dentre eles: “SACI”, do Ministério da Educação; “Meu Pedacinho do Chão”, da TV Cultura de São Paulo; “João da Silva” e “Conquistas”, ambos produzidos pela FCBTVE (MACIEL, 2011, p. 3) Em 1972, o MEC criou o Programa Nacional de Teleducação – PRONTEL -, com o objetivo de coordenar as atividades das emissoras educativas na implantação de um sistema de educação pela TV e rádio. Foi o nascimento da rede das TVs educativas de televisão. Em 1976, o MEC, juntamente com o Ministério das Comunicações, baixou a Portaria Interministerial MEC/MINICOM n. 832, de 08/11/1976, que estabelecia critérios para sua manifestação em relação à concessão de canais de radiodifusão com finalidade educativa. Com isso, a concessão de canais educativos passava a ser feita pelo Ministério das Comunicações, após a emissão de um Parecer Técnico do Ministério da Educação (FRADKIN, 2007). Da primeira emissora educativa, em 1967, até 1977 surgiram mais oito emissoras. A TVE do Amazonas, concedida ao Governo do Estado, assim como a TVE do Ceará, a TVE do Espírito Santo e a TVE do Maranhão. Sob a gestão do Governo Federal, vinculada ao Ministério da Educação, foi criada a TVE do Rio de 75 Janeiro. A TV Universitária do Rio Grande do Norte, ligada à Universidade Federal daquele estado, TVE do Rio Grande do Sul, vinculada ao Governo do Estado e a TV Cultura de São Paulo, administrada por uma fundação privada ligada ao Governo de São Paulo, pela sua Secretaria de Cultura (FRADKIN, 2007). As emissoras educativas começaram como uma linha auxiliar no campo da educação e a programação era constituída por filmes educacionais, tele-aulas de nível médio de Linguagem, de Educação Moral e Cívica, de Conhecimentos Gerais, de Matemática e de Ciências. Após um primeiro momento de expectativa sobre os resultados do ensino pela TV, se comprovou que, além de ineficiente, o modelo era extremamente oneroso para o Estado. A TV Cultura de São Paulo foi a primeira a se afastar desta linha TV-aula e a buscar como eixo de sua programação a cultura e assim seguiram as demais emissoras educativas (TORVES, 2007, p. 90). Em 1975 foi criada a Empresa Brasileira de Radiodifusão – Radiobrás -, uma empresa pública, autorizada pela lei 6.301, de 15/12/1975, com o objetivo de implantar e operar as emissoras e explorar os serviços de radiodifusão do Governo Federal. As emissoras de organismos federais pré-existentes (TVE do Rio de Janeiro e as TVs universitárias de Pernambuco e Rio Grande do Norte) continuaram com autonomia em relação à Radiobrás, porém ficou vetado aos demais organismos federais (universidades, escolas técnicas, empresas públicas, e outros) solicitação de novos canais educativos. Qualquer entidade federal que desejasse um canal educativo deveria constituir fundação para a solicitação perante o MEC. A Radiobrás passou a gerir novos canais de radiodifusão do Governo Federal, com finalidade mais informativa do que educativa. Em 1978, o PRONTEL organizou a primeira reunião das TVs educativas, que resultou na formação da rede das emissoras educativas com o objetivo de transmitir a Copa do Mundo de Futebol, de 1978, cujos direitos de transmissão haviam sido concedidos à TV Cultura de São Paulo, que os compartilhou com os demais canais educativos (FRADKIN, 2007). Em 1979, o PRONTEL, transformado em Secretaria de Aplicações Tecnológicas – SEAT/MEC -, realizou uma nova reunião das emissoras educativas e nessa foi criado o Sistema Nacional de Televisão Educativa – SINTED -, subordinado política e administrativamente à SEAT/MEC, sendo que a sua operacionalidade ficou a cargo da TVE do Rio de Janeiro (FRADKIN, 2007). 76 Em 1982, O MEC, pela Portaria Interministerial MEC/MINICOM n. 162, de 20 de agosto, delegou para a Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa – FCBTVE a função de representar o Ministério de Educação e Cultura nos procedimentos de reserva de canais de radiodifusão e emitir parecer sobre a concessão ou permissão de execução de serviços de radiodifusão educativos (BRASIL, 1982). A FCBTVE já administrava a TVE do Rio de Janeiro e com a nova função favoreceu a televisão carioca a liderar a geração dos programas educativos e culturais por ela transmitidos para outras emissoras educativas do país. Com a edição da Portaria 162, a TV Cultura deixou de participar do SINTED, em protesto contra a determinação que as televisões educativas fossem subordinadas à TVE do Rio de Janeiro. Segundo Jorge da Cunha Lima, “A FPA nunca tomou conhecimento dessa portaria” (LIMA, 2008, p. 173). Nesse mesmo ano de 1982 a FCBTVE passou a ser identificada pela sigla FUNTEVÊ, com a mesma denominação anterior (Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa), e incorporou a SEAT e o Serviço de Radiodifusão Educativa do MEC – SER - e assim também as coordenações político-administrativa e operacional do SINTED, então convertido em SINRED - Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa -, por força da citada Portaria MEC/MINICOM n. 162/1982 (FRADKIN, 2007). Fazia parte da FUNTEVÊ, um complexo de rádio e de televisão com objetivos educacionais. O sistema de rádio – Sistema Educativo Roquette Pinto – compreendia uma rádio FM, duas emissoras AM e quatro OC e o da TV tinha duas geradoras, a TVE do Rio e o Centro de Televisão Educativa do Nordeste, em São Luiz, no Maranhão. O SINRED tinha como objetivo permitir que as emissoras integrantes veiculassem uma programação formada por programas produzidos por todas, constituindo assim a primeira rede nacional de televisão pública (FRADKIN, 2007). Segundo Fradkin (2007), na prática, tal princípio democrático era ineficiente dada as dificuldades de toda ordem sofridas pelas pequenas emissoras, muito longe de se equipararem ao aparato disponível para as duas maiores TVs educativas, a TVE do Rio de Janeiro e a TV Cultura de São Paulo, as que efetivamente participavam na produção de programas da rede criada pelo SINRED. A TVE do Rio de Janeiro, como coordenadora do SINRED, fez uso do sistema de micro-ondas da Embratel para gerar as imagens da programação transmitida em 77 conjunto pelas emissoras integrantes, passando, em 1987, a ser a única com acesso ao então novo satélite Brasilsat 1, assim reforçando sua condição de coordenadora operacional da rede (FRADKIN, 2007). Em 1988, o número de emissoras educativas duplicou. Algumas eram geradoras outras retransmissoras simultâneas, estas somente com permissão para a retransmissão em tempo real da programação da geradora (“cabeça de rede”). Em julho de 1988, com a edição do Decreto n. 96.291, regulamentado pela Portaria MINICOM n. 93/89, estabeleceu-se a possibilidade das emissoras retransmissoras de televisão educativa realizar inserções locais de programas de interesse comunitário, noticiosos ou de outra natureza de interesse da comunidade local. Surgiram então as retransmissoras mistas, transmitindo a programação da “cabeça de rede” e fazendo inserção de programas locais. Essa norma incentivou o surgimento de novas emissoras educativas de caráter misto, algumas se autodenominando “televisões comunitárias”. Muitas dessas emissoras concedidas como educativas desvirtuaram de sua natureza para transmitir a mesma programação das TVs comerciais ou servir a interesses políticos locais. Tal distorção causou, posteriormente, a extinção das retransmissoras mistas, transformadas em geradoras, pelo Decreto 2.593/1998, muitas delas concedidas à seitas religiosas, e outras, embora tornadas geradoras, continuaram a retransmitir a programação das “cabeças de rede”, por absoluta falta de condições financeiras para implantar totalmente a programação local (FRADKIN, 2007). Em 1990, a FUNTEVÊ passou a denominar-se Fundação Roquette Pinto – FRP -, por força do disposto na lei n. 8.029, de 12 de abril de 1990. Em certo momento, mais precisamente a partir de 1993, a TVE do Rio de Janeiro passou a ter um forte declínio de sua programação, em razão de séria crise financeira ou de financiamento (pelo Governo Federal). O Sistema Nacional de Radiodifusão Educativa – SINRED - foi dividido então com a TV Cultura. De acordo com Fradkin (2007): a TV Cultura da Fundação padre Anchieta, de São Paulo passou a ter acesso ao satélite, provocando uma imediata divisão no frágil equilíbrio que sustentava o Sistema (área da televisão), pois sua programação, àquela época, era de qualidade indiscutivelmente superior. Essa divisão foi caracterizada pelo fato de algumas emissoras terem passado a retransmitir a programação da TV Cultura. 78 Em 1994, o MEC editou as Portarias n. 1014 e 1015, de 08 de julho de 1994, reformulando o SINRED e criando o PROSINRED, um programa destinado a reequipar todas as emissoras educativas, beneficiando algumas emissoras que tinham projetos submetidos à FRP, como foi o caso da TV Universidade da Universidade Federal de Mato Grosso, que recebeu equipamentos para sua produção local. Em 1995, ocorreu uma modificação na esfera federal do sistema de transmissão educativa, sendo a Fundação Roquette Pinto transferida do Ministério da Educação para a Secretaria de Estado de Comunicação do Governo – SECOM. O MEC abriu mão de sua prerrogativa de emissão de pareceres para outorga de concessão dos canais educativos, passando o Ministério das Comunicações a assumir todo o processo de concessão dos referidos canais. O SINRED, na prática, passou a ter duas emissoras educativas gerando suas programações para as demais: A TVE do Rio de Janeiro e a TV Cultura de São Paulo. Surgiu então a “rede de duas cabeças”, como era chamado o sistema que reunia as TVs educativas. Em 1996 o SINRED foi informalmente desativado ficando a rede das TVs educativas sem coordenação de um órgão federal, passando a TV Cultura de São Paulo a ter hegemonia na distribuição de sua programação entre as emissoras da rede (FRADKIN, 2007). Com a extinção do SINRED a necessidade de uma nova entidade aglutinadora das emissoras educativas, fez surgir a Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais – ABEPEC -, criada oficialmente em 28 de outubro de 1998, durante assembleia geral, na sede da TV Cultura, em São Paulo, com presença de dirigentes de 20 emissoras de televisão educativas e culturais do País (ABEPEC, 2011). Um ano depois, em agosto de 1999, foi constituída a Rede Pública de Televisão, formada pelas emissoras da ABEPEC, com a proposta de mostrar a riqueza da diversidade e pluralidade cultural do País, preservando as raízes, tradições e as particularidades dos habitantes de cada região. A programação das emissoras associadas segue aos princípios éticos definidos pelos associados da ABEPEC em respeito à sociedade brasileira, que merece assistir a uma programação de qualidade, com conteúdo que enriqueça seus conhecimentos e proporcione entretenimento e diversão saudáveis (ABEPEC, 2011). 79 As emissoras associadas transmitiam um misto das duas principais emissoras da rede pública, a TV Cultura de São Paulo e a TVE do Rio de Janeiro. Essa associação foi de grande importância na colocação do conceito de TV pública no Brasil. Dada a sua desvinculação ao Governo Federal aliada à aspiração das TVs educativas por maior autonomia e compromisso na formação da cidadania, começa a batalha pela implantação dos ideais de uma televisão verdadeiramente pública. Entre os princípios que norteiam a atuação da ABEPEC, podemos destacar: independência; mecanismos de gestão que garantam a viabilidade técnica e financeira da emissora; ter na TV pública um fator de integração, inclusão social; defesa da pluralidade, da diversidade e direitos das minorias, valorizando-se as culturas regionais e a identidade nacional; valorização da criatividade e inovação na produção de programas educativos e culturais; a não submissão às imposições mercadológicas, em respeito ao telespectador como cidadão (ABEPEC, 2011). A crise na Fundação Roquette Pinto, em razão da sua dependência ao Governo Federal, em forte contingenciamento de despesas, proporcionou a busca pela solução de maior autonomia para as emissoras federais. Em 1998, surgiu uma nova figura jurídica, a organização social, como solução para a precariedade em que estava a TVE do Rio de Janeiro. Com base no permissivo do artigo 1º, da lei 9.637, de 15 de maio de 1998, o Poder Executivo extinguiu a Fundação Roquette Pinto, e cedeu seu patrimônio para a Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto - ACERP, qualificada como organização social, uma empresa privada “que, por intermédio de um contrato de gestão assinado com o Governo Federal, se obrigava a prestar serviços públicos” (FRADKIN, 2007). Com isso houve a alteração da natureza jurídica da Fundação Roquette Pinto que passou a ser uma empresa que deveria gerenciar os canais federais, a TVE do Rio de Janeiro e São Luiz do Maranhão. A TVE do Rio de Janeiro passou a denominar-se TVE BRASIL. Como se vê pelo relato histórico, as emissoras, que inicialmente tinham a finalidade estritamente educativa, assumiram posteriormente um caráter mais amplo, cultural, pelo qual procuravam se livrar das amarras legais e se desvencilhar da subordinação ao Estado mantenedor para alcançar autonomia na sua produção. Apesar da tentativa sempre estiveram sob o jugo estatal. A emissora que conseguiu ir pouco além desse controle foi a TV Cultura de São Paulo, que se destacou pela produção criativa, principalmente na premiada educação infantil. 80 Dado seu caráter educativo/cultural, as ditas emissoras públicas sempre estiveram distante do simples entretenimento. Em toda a programação há o aspecto educativo, que às vezes a torna monótona e enfadonha, como uma longa aula de ensino Médio. O que se vê são fortes tentativas de sair dessa inaudita programação educativa para uma comunicação educativa/cultural. O Sistema de TV Educativa opera no Brasil em canais abertos. A Constituição brasileira define esse sistema como público e estatal. As TVs educativas estariam enquadradas como públicas, dada a sua linha de programação, entretanto todas são sustentadas pelos estados da federação e podem também ser classificadas como estatais. A rede pública institucionalizada pela ABEPEC teve como geradora principal a TV Cultura de São Paulo e a TVE Rede Brasil do Rio de Janeiro, agora TV Brasil. As demais emissoras que a compõem têm programação local, algumas colocando um ou outro programa na rede, transmitindo para todas as emissoras afiliadas. Desde 2005 a ABEPEC teve forte participação na elaboração de políticas públicas tendo participado ativamente das discussões sobre a televisão pública brasileira. 3.2 Um marco histórico para a radiodifusão pública No novo milênio muito se falou no país sobre a TV pública. O tema veio num crescente até culminar em maio de 2007 com a realização do Primeiro Fórum Nacional de TVs Públicas, uma iniciativa pioneira do Ministério da Cultura, quando ministro Gilberto Gil, por meio da Secretaria do Audiovisual, sob a chefia de Orlando Senna e com apoio do Gabinete da Presidência da República. Durante os nove meses que antecederam o Fórum houve amplo debate sobre a televisão que o público brasileiro gostaria de ter e ver. Foram formados grupos temáticos de trabalho e audiências públicas para definir temas e assuntos a serem debatidos no Fórum. A preparação do Primeiro Fórum Nacional de TVs Públicas mobilizou setores do governo federal e da sociedade civil e reuniu, de forma pioneira, o mais completo conjunto de informações, visões e propostas a respeito do desenvolvimento do campo público de televisão no Brasil. Além de envolver diversos órgãos federais, como o SAv/MinC, Radiobrás, TVE/Rede Brasil, a proposta de articulação institucional rumo ao Fórum recebeu adesão imediata da Associação 81 Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (ABEPEC), da Associação Brasileira de Televisão Universitária (ABTU), da Associação Brasileira de Canais Comunitários (ABCCOM) e da Associação Brasileira de Televisões e Rádios Legislativas (ASTRAL). Pelo esforço dessas instituições foi possível traçar o diagnóstico do campo público de televisão (BRASIL, 2012). Nas reuniões dos dias 08 a 11 de maio de 2007, em Brasília, estiveram presentes representantes das emissoras públicas, educativas, culturais, universitárias, legislativas e comunitárias, e mais ativistas da sociedade civil e militantes dos movimentos sociais, profissionais da cultura, cineastas, produtores independentes, comunicadores, acadêmicos e telespectadores, que assinaram, por fim, o “Manifesto Pela TV Pública Independente e Democrática”. Por esse documento os representantes de todos os setores da comunicação pública, antes relacionados, estabeleceram afirmativas e recomendações da TV pública idealizada pela sociedade civil organizada. São elas: A TV Pública deve ser a expressão maior da diversidade de gênero, étnico-racial, cultural e social brasileiras, promovendo o diálogo entre as múltiplas identidades do país; A TV Pública deve ser instrumento de universalização dos direitos à informação, à comunicação, à educação e à cultura, bem como dos outros direitos humanos e sociais; A TV Pública deve estar ao alcance de todos os cidadãos e cidadãs; A TV Pública deve ser independente e autônoma em relação a governos e ao mercado, devendo seu financiamento ter origem em fontes múltiplas, com a participação significativa de orçamentos públicos e de fundos não-contingenciáveis; As diretrizes de gestão, programação e a fiscalização dessa programação da TV Pública devem ser atribuição de órgão colegiado deliberativo, representativo da sociedade, no qual o Estado ou o Governo não devem ter maioria; A TV Pública tem o compromisso de fomentar a produção independente, ampliando significativamente a presença desses conteúdos em sua grade de programação; A programação da TV Pública deve contemplar a produção regional; A programação da TV Pública não deve estar orientada estritamente por critérios mercadológicos, mas não deve abrir mão de buscar o interesse do maior número possível de telespectadores; A TV Pública considera o cinema brasileiro um parceiro estratégico para a realização de sua missão e enxerga-se como aliada na expansão da sua produção e difusão; O Campo Público de Televisão recebe positivamente a criação e inserção de uma TV Pública organizada pelo Governo Federal, a 82 partir da fusão de duas instituições integrantes do campo público e promotoras deste Fórum (ACERP e Radiobrás) Além dessas afirmativas o documento recomenda: A nova rede pública organizada pelo Governo Federal deve ampliar e fortalecer, de maneira horizontal, as redes já existentes; A regulamentação da Constituição Federal em seu capítulo sobre Comunicação Social, especificamente os artigos 220, 221 e 223; O processo em curso deve ser entendido como parte da construção de um sistema público de comunicação, como prevê a Constituição Federal de 1988; A construção e adoção de novos parâmetros de aferição de audiência e qualidade que contemplem os objetivos para os quais a TV Pública foi criada; A participação decisiva da União em um amplo programa de financiamento voltado para a produção de conteúdos audiovisuais, por meio de mecanismos inovadores; Promover mecanismos que viabilizem a produção e veiculação de comunicação pelos cidadãos e cidadãs brasileiros. (TVU, 2007). O Manifesto das TVs Públicas ainda propõem medidas em face do processo de migração digital, como construção de uma infraestrutura técnica integradora das plataformas por meio de operador de rede, incentivo à multiprogramação, inclusão digital, produção de conteúdos digitais interativos inovadores, apoio à pesquisa, abertura das TVs públicas a cabo, apoio do BNDS e fomento ao debate sobre a propriedade intelectual no universo digital. Em 07 de abril de 2008, foi editada a lei 11.652, a Lei da TV Pública, que no seu artigo 2º, estabelece, para os serviços de radiodifusão pública, os seguintes princípios: I - complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal; II - promoção do acesso à informação por meio da pluralidade de fontes de produção e distribuição do conteúdo; III - produção e programação com finalidades educativas, artísticas, culturais, científicas e informativas; IV - promoção da cultura nacional, estímulo à produção regional e à produção independente; V - respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família; VI - não discriminação religiosa, político partidária, filosófica, étnica, de gênero ou de opção sexual; VII - observância de preceitos éticos no exercício das atividades de radiodifusão; 83 VIII - autonomia em relação ao Governo Federal para definir produção, programação e distribuição de conteúdo no sistema público de radiodifusão; e IX - participação da sociedade civil no controle da aplicação dos princípios do sistema público de radiodifusão, respeitando-se a pluralidade da sociedade brasileira. No artigo seguinte, a Lei da TV Pública determina os objetivos dos serviços de radiodifusão pública: I - oferecer mecanismos para debate público acerca de temas de relevância nacional e internacional; II - desenvolver a consciência crítica do cidadão, mediante programação educativa, artística, cultural, informativa, científica e promotora de cidadania; III - fomentar a construção da cidadania, a consolidação da democracia e a participação na sociedade, garantindo o direito à informação, à livre expressão do pensamento, à criação e à comunicação; IV - cooperar com os processos educacionais e de formação do cidadão; V - apoiar processos de inclusão social e socialização da produção de conhecimento garantindo espaços para exibição de produções regionais e independentes; VI - buscar excelência em conteúdos e linguagens e desenvolver formatos criativos e inovadores, constituindo-se em centro de inovação e formação de talentos; VII - direcionar sua produção e programação pelas finalidades educativas, artísticas, culturais, informativas, científicas e promotoras da cidadania, sem com isso retirar seu caráter competitivo na busca do interesse do maior número de ouvintes ou telespectadores; VIII - promover parcerias e fomentar produção audiovisual nacional, contribuindo para a expansão de sua produção e difusão; e IX - estimular a produção e garantir a veiculação, inclusive na rede mundial de computadores, de conteúdos interativos, especialmente aqueles voltados para a universalização da prestação de serviços públicos. O termo “Televisão pública” apesar de estar cerca de duas décadas em uso no Brasil, somente em 2008 foi instituído normativamente, pela lei 11.652/2008, que estabelece princípios e objetivos dos serviços de radiodifusão pública no país e autoriza o Poder Executivo a criar a Empresa Brasil de Comunicação – EBC-13, 13 o ato de criação da EBC é de 31 de outubro de 2007, autorizada por Medida Provisória 398/2007, depois convertida na lei 11.652/2008. 84 designando-a como empresa pública agente de serviço de radiodifusão pública. O Governo Federal editou a Lei da TV púbica após amplo debate nacional através do Primeiro Fórum das TVs Públicas, realizado em 2007, no qual apresentou a EBC e ouviu as reivindicações dos trabalhadores das TVs educativas do Brasil. Já vimos que a previsão de um sistema público de radiodifusão está inserida no artigo 223 da Constituição Federal de 1988 quando estabelece o princípio de complementaridade entre os sistemas privado, público e estatal, porém demorou vinte anos para se consolidar a radiodifusão pública. Até então a televisão ligada ao Estado era de caráter educativo, previsto em lei. As ditas TVs públicas antes de 2008, eram em verdade concessionárias ou permissionárias de canais educativos, como continuam sendo as TVs estaduais. Os canais educativos são outorgados à União, Estados, Territórios, Municípios, Universidades Brasileiras ou Fundações constituídas no Brasil (art. 14, do Decreto 236/1967). 3.3 A TV pública institucionalizada. A TV Brasil é uma das entidades administradas pela Empresa Brasil de Comunicação - EBC e foi instituída para ser a televisão pública do Brasil. Sua inauguração é datada de 02 de dezembro de 2007, um mês depois da criação da EBC. O grupo técnico que elaborou os estudos preliminares sobre a EBC e a TV Pública foi coordenado por Delcimar Pires, então assessor do secretário-particular do presidente Lula, ministro Gilberto Carvalho. Dele participaram pessoas ligadas ao Ministério da Cultura, destacando-se os nomes de Orlando Senna, Mário Borgneth e Leopoldo Nunes, e à Secretaria de comunicação do governo federal, entre elas Beth Carmona e Rosa Crescente, dirigentes da TVE Rede Brasil. Também tiveram papel importante Eugênio Bucci, presidente da Radiobrás, e seu sucessor, José Roberto Garcez, o assessor do Ministro Franklin Martins, Eduardo Castro, e o assessor da então ministra Dilma Rousseff, André Barbosa. Figuras externas ao Governo também participaram, informalmente, como o professor Laurindo Lalo Leal Filho (EBC, 2011, p. 32-33). Para presidir a EBC foi convidada a jornalista Tereza Cruvinel, que em seu discurso de posse, em 2007, ressaltava o caráter de complementaridade da TV Pública dizendo que esta 85 deve apostar naquilo que a TV comercial não mostra e que venha ao encontro de anseios da cidadania. Revelando Brasis que a TV comercial, por sua própria lógica, não revela. Renovando-se, renovando a linguagem e recorrendo a este grande filão de qualidade e criatividade que é a produção audiovisual independente no Brasil, em todas as regiões. (TEOBALDO, 2010). A lei 11.652/2008 define a EBC como empresa pública, organizada sob regime de sociedade anônima de capital fechado, na qual é acionista única a União, vinculada à Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, com a missão de implantar e gerir um sistema encarregado de prestar serviços de radiodifusão pública no âmbito da União. A meta a atingir envolvia muitas tarefas, sendo uma dos principais, e considerada a "mais desafiadora" pela Diretora-presidente fundadora, Tereza Cruvinel, "a de romper o paradigma da televisão brasileira, que nasceu e se desenvolveu sob o modelo comercial e o binômio audiência-publicidade" (EBC, 2011, p. 12). Em seguida, explica Cruvinel: Sob este modelo, a TV comercial deu grandes passos, mas, também por conta dele, deixou de prestar alguns serviços públicos de radiodifusão. Serviços que, nas democracias maduras, costumam ser prestados pela televisão pública, com sua programação diferenciada, de cunho mais educativo, cultural e informativo. No Brasil, muitos diziam na época da criação da EBC, que havia ficado tarde para termos uma TV Pública: o modelo comercial, com vantagem de 60 anos, impôs um modo de fazer e ver televisão. No espectro, quase todas as freqüências já foram ocupadas pelo setor privado. Apesar de tudo isso, implantamos a TV Pública. (EBC, 2011, p. 12). Nesse mesmo texto, onde apresenta o relatório de seu mandato de quatro anos, findo em 31 de outubro de 2011, a Diretora-presidente, em breve síntese, ressalta os aspectos mais relevantes da sua gestão nos primeiros quatro anos da EBC, assim relatando: No legado institucional, asseguramos a implantação e funcionamento do Conselho Curador, destinado a vigiar a observância dos princípios da comunicação pública fixados em nossa Lei de criação. Instituímos a empresa, implantando a Ouvidoria de Conteúdo, a Auditoria Independente, os conselhos Fiscal e de Administração. Valorizamos seus recursos humanos, modernizamos a gestão, implementamos um agressivo plano de reequipamento e ampliação da infra-estrutura de produção e transmissão. Fizemos reformas prediais no Rio, em São Paulo e em São Luiz. Em Brasília, reunimos toda a EBC, antes espalhada, numa moderna e única sede, o Centro de Mídias Públicas, localizado no Venâncio 2000. Apostando nas virtudes do 86 sistema brasileiro de TV Digital, estamos na vanguarda das pesquisas em interatividade. (EBC, 2011, p. 12-13). A EBC, legalmente, está habilitada, na radiodifusão, a oferecer programação com foco educativo, informativo, cultural, artístico, cientifico e formador de cidadãos conscientes e críticos de sua realidade (EBC, 2011, p. 35). Pela narrativa do relatório dos quatro anos da EBC se mostra a preocupação de seu primeiro corpo administrativo em executar um projeto baseado no princípio da "independência editorial e na porosidade para receber influência direta da sociedade" (EBC, 2011, p. 36). O relatório relaciona as mais importantes características da empresa: 1. A existência de um Conselho Curador pluralista e representativo da sociedade, que tem como principal competência supervisionar a observância dos princípios legais e das diretrizes anualmente propostas pela diretoria-executiva e por ela aprovadas. 2. A existência de uma Ouvidoria, relacionada com programação e conteúdo, através da qual os cidadãos podem apresentar suas queixas, críticas, sugestões e quaisquer formas de manifestação, cabendo à Ouvidoria realizar a mediação entre os usuários dos canais públicos e os responsáveis por eles. 3. O mandato fixo de quatro anos para o diretor-presidente, garantindo-lhe independência e imunidade às pressões de ordem política, bem como estabilidade para a diretoria-executiva e a gestão da empresa. (EBC, 2011, p. 36). Outra obrigação legal da EBC é a de constituir a rede pública de televisão. Quando dessa determinação da lei 11.652/2008, já havia uma rede constituída pelas emissoras educativas e culturais, que se intitulava rede pública de televisão. As coisas não acontecem por salto, repentinamente. A estruturação de uma rede de televisões públicas já estava em andamento há alguns anos no Brasil, quando a EBC veio com a missão de fazê-la. Já haviam diversas emissoras educativas e culturais que transmitiam a programação da antiga TVE Rede Brasil, do Rio de Janeiro e da TV Cultura de São Paulo, a exemplo da TV Universidade de Cuiabá. E assim, com "meio caminho andado", a EBC implantou a rede pública de televisão. Hoje os brasileiros podem sintonizar a TV Brasil por diferentes sistemas de acesso ao sinal: - TV aberta, sinal próprio, canais da TV Brasil: Canais analógicos geradores de Brasília, São Paulo e São Luis. Canais digitais espelhando as geradoras acima, mais Belo Horizonte e Porto Alegre. 87 Emissoras geradoras próprias em Cuiabá, Recife, Natal, João Pessoa e Boa Vista, mas operadas por universidades federais através de convênio, seguindo o modelo de rede da EBC.14 Canais retransmissores em Juiz de Fora e Uberlândia (MG), Campos, Cabo Frio, Macaé e Rio das Ostras (RJ), Pelotas, Caxias e Santa Maria (RS), Chapecó (SC), Marília (SP) e Tabatinga (AM). - TV aberta - Emissoras que formam a Rede Pública de Televisão: TV Aldeia - AC TV Brasil Pantanal - MS TVE - BA TVE - CE TVE - ES TVE - RS TV Cultura do Amazonas TV Cultura do Pará TV Minas TV Universitária de Recife - PE TV Universitária de Natal - RN TV Universitária de João Pessoa - PB TV Universitária de Goiás – GO. (EBC, 2011, p. 57). A TV Pública também chegou a todas as TVs por assinatura, por força da lei de criação da EBC, que obriga as operadoras de TV a distribuírem a programação da TV Pública. A TV Brasil ainda é transmitida por satélite, através da banda C, recebida por usuário de antena parabólica e também é disponibilizada na Internet, através da TV Web, pelo site www.tvbrasil.org.br/tvweb (EBC, 2011, p. 58). Em 31 de outubro de 2011 encerrou-se o mandato da primeira Diretorapresidente da EBC, assumindo então o cargo o jornalista Nelson Breve15, que em seu discurso de posse assim proclamou: Coube a mim liderar a equipe que cuidará dessa criança na sua segunda infância. Neste ciclo, a criança EBC criará sua personalidade e mostrará com mais intensidade seu valor como bem público. Para isso terá que consolidar seu sistema de produção de conteúdos, sua estrutura de distribuição, sua rede de parcerias, seu modelo de financiamento e sua organização administrativa. (EBC, 2012). Além de consolidar o que foi estruturado na "primeira infância" da empresa, o Diretor-presidente da EBC, terá uma missão que poderá colocar a TV pública em um novo patamar no espaço público. O grande passo a ser dado até o final de seu quarto ano de mandato é a implantação da rede pública digital, para o que a EBC já dispõe de importante projeto. "Para a EBC, nunca houve dúvida de que a TV Pública 14 15 é o caso da TV Universidade de Cuiabá. antes Superintendente de Comunicação Multimídia da EBC. 88 só será plenamente competitiva no sistema digital. No mundo analógico, que está chegando ao fim, nunca houve espaço para a TV Pública", diz o relatório dos primeiros quatro anos (EBC, 2011, p. 61). 3.4 A Migração Digital na Rede Pública de televisão O Decreto 5.820/2006 que instituiu o Sistema Brasileiro de TV Digital, SBTVD, estabelece no seu art. 13, o seguinte: A União poderá explorar o serviço de radiodifusão de sons e imagens em tecnologia digital, observadas as normas de operação compartilhada a serem fixadas pelo Ministério das Comunicações, dentre outros, para transmissão de: I - Canal do Poder Executivo: para transmissão de atos, trabalhos, projetos, sessões e eventos do Poder Executivo; II - Canal de Educação: para transmissão destinada ao desenvolvimento e aprimoramento, entre outros, do ensino à distância de alunos e capacitação de professores; III - Canal de Cultura: para transmissão destinada a produções culturais e programas regionais; e IV - Canal de Cidadania: para transmissão de programações das comunidades locais, bem como para divulgação de atos, trabalhos, projetos, sessões e eventos dos poderes públicos federal, estadual e municipal. (BRASIL, 2006). O referido dispositivo legal ainda precisa de regulamentação e a esses quatro canais (ou redes) deverão se aglutinar as emissoras legislativas federais existentes (TV Câmara e TV Senado) e a do judiciário (TV Justiça). A rede pública gerida pela EBC não é mencionada no Decreto 5.820/2006 por ser ele anterior à criação da empresa, o que deverá ser alterado quando da implantação dos canais públicos digitais. Ao todo, existiriam seis redes públicas digitais no plano federal, afora a TV pública estadual, as universitárias e as comunitárias. Para garantir a mais rápida implantação e desenvolvimento destas redes e da sua própria rede digital, a EBC tem uma proposta inovadora no país, que é a utilização de um "Operador Único de Rede Pública Digital" (EBC, 2012)16. O projeto prevê uma plataforma de transmissões em sistema digital que será utilizada por todas as emissoras públicas e estatais federais, o que vai baratear custos e acelerar a migração para a nova tecnologia. Essa plataforma deverá ser utilizada pelos canais da EBC e também pela TV Câmara, TV Senado, TV Justiça e pelas novas 16 Sugerida no Primeiro Fórum Nacional das TVs Públicas, vide item 3.2, p. 82. 89 redes previstas pelo decreto da TV Digital: o Canal da Educação (MEC), o Canal da Cultura (Minc) e Rede da Cidadania (TVs digitais municipais). Televisões estaduais, como as educativas que formam rede com a TV Brasil em sistema analógico, também poderão optar pela operação conjunta (EBC, 2012). As emissoras privadas poderão alugar segmentos da plataforma para a transmissão digital nas regiões onde ainda não tenham instalado sistemas próprios de transmissão digital. Em alguns países, como o Japão, emissoras públicas e privadas transmitem a partir de uma mesma plataforma. Na primeira fase, o sistema alcançará mais de 60 por cento da população brasileira (EBC, 2012). O projeto será implantado pela EBC por meio de parceria público-privada. Uma empresa ou consórcio de empresas será escolhido por licitação para implantar e operar o sistema (EBC, 2012). O diretor da EBC Serviços, José Roberto Garcez, em entrevista recente concedida ao programa "Assuntando", da TV Universidade, em Cuiabá, fez uma ligeira apresentação do projeto: É um projeto que visa constituir uma plataforma unificada das emissoras públicas, pra que elas tenham uma economia de escala. Como é que funciona isso? É assim: hoje cada emissora tem que instalar suas estruturas. O modelo do Brasil é diferente do resto do mundo. Essa operadora de serviços é realidade em vários países. Aqui não. Aqui cada televisão tem a sua estrutura. Ela opera o seu transmissor, as suas equipes. Nós queremos montar uma estrutura, onde todas as emissoras públicas estarão unificadas. A operação será conjunto, reduzindo muito os custos, com uma torre só, fazendo com que as emissoras, sim, terão que custear a instalação de seus equipamentos, os transmissores e outros equipamentos, mas isso eu acho que há projeto de financiamento; o Governo estuda e os custos estão caindo bastante. Eu acho que será possível fazer essa transição sem maiores problemas. Se esse projeto de operador de rede for levar até as últimas consequencias e nós tivemos sinalização positiva da presidente Dilma nos últimos dias e o projeto faz parte do PPA, plano plurianual dos próximos quatro anos e nós temos recursos previstos nesse projeto, para que implantando essa estrutura, todo o conjunto das emissoras públicas ajude a superar aquilo que falei no início do nosso programa, de que as emissoras hoje tem o sinal de baixa qualidade e não alcança toda a população. Esse projeto vai permitir que todos nós tenhamos um alcance muito maior da população. (TVU, 2011). O Operador Único é deveras interessante, principalmente para as pequenas emissoras da rede pública, com baixo orçamento, como é o caso da TV Universidade da UFMT, que poderão dividir custos técnico-operacionais com as 90 demais emissoras públicas da cidade. Pelo relatório dos quatro anos da EBC, se tem notícia do estágio do projeto, em outubro de 2011: O projeto foi apresentado à presidenta Dilma Rousseff pela ministrachefe da Secom, Helena Chagas, e pela EBC, obtendo a promessa de que se tornará uma prioridade do Governo. Está inscrito no PPA. Seu custo, pelo modelo EBC/Telebrás, chegaria a R$ 1,9 bilhão, pouco inferior ao do modelo PPA. Mas tratando-se de um projeto do Estado brasileiro, sua implantação envolverá decisões e financiamento do Governo que escapam ao controle da EBC. (EBC, 2011, p. 69). As palavras do diretor da EBC Serviços, as notícias publicadas no site da EBC e o seu relatório dão a entender que o projeto ainda está por ser aprovado pelo Governo Federal, o que nos leva a ter certa cautela para confirmar a implantação do referido sistema. 3.5 A publicidade na TV pública Com exceção do Poder Executivo Federal regido pela lei 11.652/2008, as unidades federativas, universidades ou fundações continuam seguindo o Decreto 236/1967 e leis posteriores que amenizaram o seu rigor. Uma forma de sair do engessamento estatal é a gerência por fundação. Essa estratégia, permitida pela lei, dá certa autonomia as emissoras educativas para agilizar compras e contratação de serviços, mas, de qualquer forma, ainda são mantidas pelo Estado e estão, de modo indireto, submetidas às regras da administração pública. Esse foi o caso da Fundação Roquette Pinto – FRP -, que administrava a TVE do Rio, e ainda é o da Fundação Padre Anchieta, pessoa jurídica de direito privado, que gerencia a TV Cultura de São Paulo. Há muito tempo que a legislação brasileira estava defasada da realidade das televisões mantidas pelo Estado ou fundações. Essas emissoras ultrapassavam os limites ditados pelo artigo 13 do Decreto 236/1967, de transmissão de aulas, conferências, palestras e debates, mas eram barradas pelo parágrafo único do mesmo dispositivo legal, que proibia o uso de publicidade em qualquer hipótese17. 17 O Parágrafo único do art. 13 assim determina: A televisão educativa não tem caráter comercial, sendo vedada a transmissão de qualquer propaganda, direta ou indiretamente, bem como o patrocínio dos programas transmitidos, mesmo que nenhuma propaganda seja feita através dos mesmos. 91 O Decreto-Lei 236/1967 continua em vigor, porém perdeu força diante de outras normas posteriormente editadas permitindo outra prática. A restrição a que se refere o parágrafo único do art. 13 do referido decreto foi implicitamente revogada pela lei nº 7.505, de 02/07/1986, também conhecida como Lei Sarney, que determinava que as pessoas jurídicas que viessem a produzir operações de caráter cultural e artístico pudessem receber doações, patrocínios e investimentos e, ainda, que pudessem divulgá-los. O Art. 2º,VI, da Lei Sarney incluiu, entre as operações passíveis de serem incentivadas, a produção de vídeos, filmes e outras formas de reprodução videofonográfica, de caráter cultural. Em 1991 foi promulgada a lei nº 8.313, de 23/12/1991, conhecida como Lei Rouanet, que estabeleceu como área cultural possível de receber incentivos, em seu art. 25, IX, “a rádio e televisão, educativas e culturais, de caráter não comercial”. Em 1998, com a Lei das Organizações Sociais (lei 9.637/1998) a publicidade na TVE Rede Brasil passou a ser permitida na forma de apoio cultural. O artigo 19, da referida norma estabelece o seguinte: As entidades que absorverem atividades de rádio e televisão educativa poderão receber recursos e veicular publicidade institucional de entidades de direito público ou privado, a título de apoio cultural, admitindo-se o patrocínio de programas, eventos e projetos, vedada a veiculação remunerada de anúncios e outras práticas que configurem comercialização de seus intervalos. O citado dispositivo só é válido para as organizações sociais, as demais emissoras buscavam brechas na lei que as permitissem veicular publicidade. Finalmente, a lei 11.652/2008, que instituiu o sistema de radiodifusão pública explorado pelo Poder Executivo Federal, proclamou no seu art. 11, que os recursos da EBC serão constituídos, entre outros, de apoio cultural de entidades de direito público e de direito privado, sob a forma de patrocínio de programas, eventos e projetos; de publicidade institucional de entidades de direito público e de direito privado, vedada a veiculação de anúncios de produtos ou serviços; ou da distribuição da publicidade legal dos órgãos e entidades da administração pública federa (BRASIL, 2008). No parágrafo primeiro a referida norma entende apoio cultural como pagamento de custos relativos à produção de programação ou de um programa específico, sendo permitida a citação da entidade apoiadora, bem como de sua ação institucional, sem qualquer tratamento publicitário. No parágrafo 92 seguinte limita o tempo destinado à publicidade institucional a 15% (quinze por cento) do tempo total de programação da EBC. Como se vê, a Lei da TV Pública permite a publicidade, mas com ressalvas. A arrecadação com publicidade é insuficiente para a manutenção das emissoras, o que as mantêm dependentes da verba do Estado e implicitamente submissas a ele. Desta forma, as televisões educativas vêm buscando receitas próprias, entre as quais a venda de espaço na grade para publicidade das empresas públicas e até privadas, como é o caso da TV Cultura de São Paulo, que, através do que denomina "Mídia Promocional e Institucional: venda de patrocínios e apoios culturais" (TV CULTURA, 2012), tem veiculado propaganda de grandes grupos comerciais varejistas. A inserção de publicidade na programação da TV pública é rejeitada pelas pessoas que defendem a independência da televisão em relação ao capital, porém algumas representações de emissoras defendem o uso da propaganda institucional e ainda há outras que pregam a venda da publicidade como alternativa de sobrevivência, como é o caso da TV Cultura de São Paulo, que justifica tal prática em seu site: A atual gestão da Fundação Padre Anchieta acredita que não se faz serviço público de televisão sem a ajuda dos poderes públicos. Pela própria natureza das emissoras e para que elas possam permanecer independentes do mercado é preciso defender a consolidação de verbas provenientes do Estado. Crê, por outro lado, que os patrocínios e parcerias são a chave para garantir a criação, implantação e manutenção de novos projetos, sempre tendo como objetivo uma programação de alta qualidade. Independência do mercado não significa, contudo, manter-se alheio a ele, não somente as emissoras públicas, mas toda e qualquer emissora de radiodifusão deve manter-se atenta às significativas mudanças advindas do mercado, na razão em que são também indicativos das preferências de público que, sempre devem ser contempladas no sentido de oferecer alternativas de qualidade. Mas isso não basta. Para crescer e cumprir sua vocação educativa e cultural, especialmente num universo que se torna cada dia mais e mais competitivo, as emissoras da Fundação também precisam ter receitas próprias originadas a partir de contatos com diferentes setores da sociedade, tanto no âmbito público como privado. (TV CULTURA, 2012). O assunto é polêmico. Muitos veem a publicidade comercial como uma liberdade frente ao Estado, porém com submissão ao capital. De qualquer forma, o 93 uso da publicidade está permitido atualmente, mas as emissoras públicas têm ainda a maior parte da sua receita atrelada ao orçamento do Estado mantenedor. A maioria das TVs educativas se diz pública, mas na prática é, de certo modo, estatal. As outorgas são para canais educativos; as emissoras almejam autonomia em sua programação, mas estão subordinadas ao chefe, geralmente o Poder Executivo Estadual. Como disse Gabriel Priolli (2007): “uma televisão pública que tenha independência política do governo, mas dependa do dinheiro que venha dele, nunca terá real autonomia”. Apesar dessa submissão financeira, a principal característica da televisão pública, a diferenciá-la da televisão estatal ou educativa, é, em tese, a sua gestão democrática e independente, representada pelo conselho curador ou de programação. O anseio das emissoras educativas autointituladas públicas, pela autonomia com relação ao Estado mantenedor, está normatizado; no entanto, na prática existe essa almejada independência? Para aceitarmos uma resposta afirmativa devemos relativizar o termo, pois a sua plenitude é inalcançável por qualquer instituto social. A liberdade é permitida dentro dos princípios constitucionais e legais a serem seguidos e por eles se delimita a atuação da TV pública. 3.6 A representatividade social Obedecidos aos princípios legais, a autonomia buscada pelas TVs públicas é mais consistente quanto às diretrizes de gestão da programação e fiscalização. Estas são atribuições de órgão colegiado deliberativo, representativo da sociedade, no qual o Estado ou o governo não deve ter maioria, conforme estabelece a Carta do Segundo Fórum das TVs Públicas, realizado em 2009. A figura desse órgão colegiado gestor está representada, na maioria das emissoras públicas, pelo conselho curador. Ele pode variar quanto à forma, funcionamento, composição e duração do mandato dos conselheiros, mas têm em comum o controle da linha programática da emissora e o zelo pela obediência aos princípios constitucionais e legais. O Conselho Curador da EBC (de todos os seus canais e não apenas da TV Brasil) é composto por 22 membros: 15 representantes da sociedade civil, quatro do 94 Governo Federal (ministros da Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia e Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República), um da Câmara dos Deputados, um do Senado Federal e um funcionário da Empresa. Para garantir o rodízio dos integrantes, os conselheiros da EBC têm mandatos que variam de dois a quatro anos. A Legislação prevê que, em suas próximas renovações, o Conselho faça consultas a um conjunto de entidades representativas de diferentes setores da sociedade para elaborar a lista de indicações. Indicados pelo Presidente da República, os 15 conselheiros que representam a sociedade civil são personalidades que, em conjunto, expressam a pluralidade de opiniões, formações e experiências profissionais, origens regionais e inclinações políticas. Cabe ao próprio Conselho eleger seu presidente e aprovar seu regimento (EBC, 2011). No caso da TV Cultura de São Paulo, administrada pela Fundação Padre Anchieta, esta tem seu Conselho Curador composto por 47 membros, sendo três vitalícios (escolhidos pela doadora do fundo constitutivo, Renata Crespi da Silva Prado), 20 natos (representantes da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, de secretarias estaduais, universidades e outras instituições), 23 eletivos e um representante dos empregados da fundação. Só podem ser elegíveis personalidades indicadas no mínimo por oito conselheiros e eleitos pela maioria absoluta dos votos dos conselheiros (24). O Conselho Curador elege a Diretoria Executiva, composta por quatro membros. (FPA, 2011). No Segundo Fórum das TVs Públicas, promovido pelas entidades do setor, ABEPEC, ABTU, Astral e ABCcom, que resultou em mais reivindicações e alguns esclarecimentos, emitiu-se uma carta final, escrito a muitas mãos, na qual se esclarece e diferencia a TV estatal da TV pública: ... há um sistema de radiodifusão público, que é estatal, não tem fins lucrativos e obedece, com exclusividade e não preferencialmente, aos princípios do artigo 221 e da lei 11652. Sua programação está voltada à divulgação e transparência dos atos institucionais e à prestação de contas da administração pública em suas três esferas de poder: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário. O II Fórum entende ainda que há um sistema de radiodifusão público não-estatal que opera sem intenção de lucro, que deve obediência exclusiva aos princípios do artigo 221, que deve observar os princípios e objetivos contidos na Lei 11.652, que já vigoram para regular o sistema público de comunicação em âmbito nacional. A diferença fundamental entre os dois sistemas é que, no sistema de 95 radiodifusão público não-estatal, as diretrizes de gestão da programação e a fiscalização devem ser atribuição de órgão colegiado deliberativo, representativo da sociedade, no qual o Estado ou o governo não devem ter maioria. (TVU, 2009). No Brasil existem emissoras de caráter estatal e de interesse público que prestam importantes serviços à sociedade, sob o ponto de vista de informação ao cidadão. Os três poderes da União têm seus canais de comunicação, como é o caso do Executivo, com o NBR, por cabo ou parabólica, que oferece informações sobre políticas, ações e o dia a dia do Governo Federal; o legislativo, estadual e federal, a exemplo da TV Senado, que transmite para todo o país via satélite, cabo, ou canal aberto em algumas capitais, o debate político de seu plenário ou de comissões específicas,com temas de maior relevância para os brasileiros; ou o Judiciário, com a TV Justiça, por enquanto restrita às TVs à cabo, trazendo a esfera judicante para perto do cidadão, com programas informativos sobre o seu direito e transmitindo decisões dos tribunais. 3.7 Características das TVs públicas As emissoras públicas de televisão, ao longo de sua existência, formaram uma identidade própria, constituída por diversas peculiaridades que lhes dá esse caráter de canal da cidadania. Existem muitos aspectos utilizados por estudiosos do tema, dos quais seleciono os que mais me parecem adequados a caracterizar a televisão pública. Podemos dizer que as reivindicações da sociedade brasileira, representada pelos participantes do Fórum das TVs Públicas e relacionadas no documento final do encontro, derivam de algumas definições teóricas, que fazem do meio televisão um instrumento de defesa da democracia e do cidadão. Essa concepção vem dos primórdios da TV pública, quando a Europa pós-guerra necessitava de um meio que pudesse reunir a esfacelada população europeia, sobrevivente das agruras da Segunda Guerra Mundial. As nações fizeram da televisão o canal para a reconstrução da cultura e da cidadania. Dessa época surgiram a televisão da Alemanha, a TV1 francesa e a BBC de Londres. O princípio básico das TVs públicas, de defender a democracia e o cidadão, em minha concepção, depende de algumas atitudes perante a sociedade. 96 3.7.1 Autonomia A expressão tem relação com o poder mantenedor. Televisão autônoma é aquela protegida contra a possibilidade de manipulação. É instrumento de vigilância da democracia, capaz de denunciar atos de abuso de poder. A sociedade brasileira externou esse desejo no Primeiro Fórum das TVs Públicas, quando afirmou, no Manifesto final, que “a TV Pública deve ser independente e autônoma em relação a governos e ao mercado” (TVU, 2007). Essa independência foi contemplada pela lei 11.652/2008, como um dos princípios fundamentais estabelecidos no seu art. 2º, que assim proclama: “autonomia em relação ao Governo Federal para definir produção, programação e distribuição de conteúdo no sistema público de radiodifusão”. A autonomia das televisões públicas, como visto antes, é operacionalizada através de um órgão representativo da sociedade, do público. No Brasil algumas televisões têm sua programação escolhida por um Conselho Curador, de natureza consultiva e deliberativa, como é o caso da TV Brasil e da TV Cultura. Esse conselho é composto por representantes populares e pessoas ligadas ao ente mantenedor. Como mencionado no item 3.6 (ps. 93-94), os conselhos das duas maiores emissoras públicas no Brasil, a TV Brasil e a TV Cultura, seguem as indicações para uma boa representatividade social e têm em suas maiorias representantes da sociedade para deliberar e determinar o conteúdo da programação. A lei ainda estabelece que “as determinações expedidas pelo Conselho Curador, no exercício de suas atribuições, são de observância cogente pelos órgãos de administração” (art. 15, parágrafo 6º, lei 11.652), portanto o órgão deliberativo pode determinar até atividades administrativas. Porém na prática as TVs públicas têm autonomia limitada, justamente pela dependência financeira ao agente mantenedor. Muito difícil ouvir críticas políticas ou econômicas ao Estado dentro de um programa da televisão pública e quando se as ouve é suavizada pela abordagem jornalística. A política é raramente tratada nas televisões sustentadas pelo Estado. De certo modo parece melhor assim, pois qualquer comentário implica numa posição frente à questão tratada, o que poderia favorecer interesses partidários. Assim, é mais fácil encontrar essa discussão nas TVs comerciais, cada uma defendendo a sua posição. Mas esse aparente afastamento político precisa ser cauteloso, pois é 97 relevante papel para a TV pública a formação política do cidadão, questão a ser equacionada de forma a evitar favorecimento individual, trazendo o debate político para a televisão de forma democrática e isonômica. Apesar da dependência estatal, as TVs públicas gozam de autonomia para compor sua programação pela vontade popular representada pelo Conselho Curador e dentro dos princípios estatuídos em lei. A autonomia se limita a escolha da programação, desde que em sintonia com os princípios morais e éticos da sociedade civil organizada e dentro da possibilidade orçamentária. 3.7.2 TV Cidadã A construção da cidadania é um dos objetivos da TV pública. Ela tem compromisso com o cidadão, com a valorização do ser social e o engrandecimento de seu espírito crítico e de sua cultura. O ponto de vista da TV pública deve ser o do cidadão, a fim de informar-lhe de seus direitos e deveres, no enfrentamento de temas atuais, nos debates sociais e políticos, fornecendo-lhe subsídios para decidir seu destino e da sociedade em que vive. A programação da emissora pública por ser produzida em sintonia com o cidadão passa a ser sua voz, ou seja, profissionais da comunicação expõem o pensamento da sociedade. Como diz Barbero, “a televisão pública acaba sendo, hoje, um decisivo lugar de inscrição de novas cidadanias, onde a emancipação social e cultural adquire uma face contemporânea” (MARTÍN-BARBERO, 2002, p. 57). No Primeiro Fórum das TVs Públicas, essa valorização da cidadania foi afirmada no seu manifesto final, quando os participantes conclamavam que “a TV Pública deve estar ao alcance de todos os cidadãos e cidadãs”. E mais à frente, no mesmo parágrafo, explicitavam o dever das emissoras públicas em “promover mecanismos que viabilizem a produção e veiculação de comunicação pelos cidadãos e cidadãs brasileiros” (TVU, 2007). A lei 11.652/2008, no artigo 3º, é enfática nos objetivos da emissora pública de radiodifusão no sentido de desenvolver a consciência crítica do cidadão, através de toda sua programação (inciso II), fomentar a construção da cidadania (inciso III) e cooperar com a formação do cidadão (inciso IV). 98 A cidadania é direito de todos, mas poucos tem consciência da importância desse conceito. A televisão, como meio, serve como instrumento para posicionar o telespectador frente às imposições que sofre socialmente, munindo-lhe de saberes para reivindicar seus direitos e, por outro lado, cumprir seus deveres. E a televisão pública é a que se encontra em melhores condições para desempenhar essa função, pois está livre de interesses comerciais e políticos. 3.7.3 Pluralismo A TV pública deve ser pluralista, isto é, deve abranger na sua programação a diversidade social. Mostrar a riqueza da cultura local e universal em todos os campos; no político, religioso, étnico, de gênero, idade e regional. Essa heterogeneidade abrange a maioria e a minoria. É isso que se espera de uma emissora representante de todos. No manifesto do Primeiro Fórum das TVs Públicas o pluralismo é uma das afirmativas expostas no documento: A TV Pública deve ser a expressão maior das diversidades de gênero, étnico-racial, cultural e social brasileiras, promovendo o diálogo entre as múltiplas identidades do país (TVU, 2007, p. 2) A lei 11.652/2008 acolheu a tese do pluralismo entre os seus princípios, determinando no inciso II, do seu artigo 2º, a “promoção do acesso à informação por meio da pluralidade de fontes de produção e distribuição do conteúdo”. Além desse item, o referido dispositivo de lei, estabelece a diversidade quando, no seu inciso VI, impõe como princípio da TV pública a “não discriminação religiosa, político partidária, filosófica, étnica, de gênero ou de opção sexual”. O pluralismo parece ser o antídoto contra a massificação. É a fórmula para se evitar a homogeneização da mensagem, dando oportunidade para as diversas nuances culturais. Na TV pública a pluralidade pode ser explorada graças a despreocupação com a busca de audiência máxima, irrelevante diante do objetivo maior de mostrar a diversidade cultural do país. Com a diversidade cultural na sua tela, a televisão pública ultrapassa a barreira do massivo e adentra nessa nova era da comunicação fragmentada em determinados grupos. 99 3.7.4 Atitude inovadora A inovação em programas, na televisão comercial, é um risco. Pode dar certo, atingindo alto índice de audiência, como também pode ser um fracasso. Quando se cria um programa com nova linguagem, novo formato, é impossível saber com antecedência qual será sua receptividade perante o público. Por via das dúvidas, as emissoras detentoras de maior audiência preferem manter-se numa frequência constante na sua linha programática. Os programas que dão audiência são mantidos na sua fórmula de sucesso e muitas vezes são replicados em outros semelhantes, a exemplo dos programas de auditório, das telenovelas, dos telejornais que proliferaram na mídia televisiva. A inovação fica para as pequenas emissoras que podem arriscar e muitas vezes descobrir novas formas de sucesso para a televisão, que logo serão apropriadas pelas grandes redes, tal como aconteceu com os realities shows antes do sucesso. A inovação é possível na comunicação massiva e a TV pública deve usar desse recurso enriquecedor da cultura televisual. Sem se afastar de seu objetivo de conquistar audiência, a TV pública deve buscar novas linguagens para a televisão. Ela tem condições de ousar e criar novas formas de comunicar pela tela da tevê, em conciliação com o seu caráter de cultura de massa. Como diz Diego Portales Cifuentes: Uma busca permanente e novas expressões através dos diferentes gêneros e formatos, a expressão de novos rostos e vozes marginalizados pelos outros meios, a experimentação artística, o fomento à criatividade e à inovação. Essa atitude inovadora é complementar da busca de grandes audiências, e tenta gerar um círculo virtuoso através de novas vantagens competitivas. Trata-se de criar um estilo de programas que proporcionem identidade entre as estórias contadas e uma massa significativa de telespectadores. (CIFUENTES, 2007, p. 151). Newton Cannito propõe a inovação estética como um paradigma a ser seguido pela televisão pública, e a define nestes termos: Inovação não é necessariamente vanguardismo desvinculado da preocupação com o público. Televisão não é videoarte, é outra linguagem com características próprias. O princípio número um deve ser sempre mantido: a televisão pública deve se preocupar com o público. Inovação nesse caso, portanto, é buscar novas representações da sociedade que reconquistem as audiências. Mesmo em uma telenovela, mesmo em um formato de ficção 100 aparentemente tradicional, a inovação pode estar na capacidade de criar novos personagens e conflitos que representem o mundo de hoje. Isso é inovação em televisão, e esse deve ser o objetivo da televisão pública. (CANNITO, 2010, p. 232). No Brasil a atitude inovadora foi lembrada no Primeiro fórum das TVs públicas, que propõe, no seu documento final, a “produção de conteúdos digitais interativos inovadores” (TVU, 2007) e também foi contemplada pela lei 11.652/2008, que, no inciso VI, do seu artigo 3º, coloca entre seus objetivos “buscar excelência em conteúdos e linguagens e desenvolver formatos criativos e inovadores, constituindo-se em centro de inovação e formação de talentos” (BRASIL, 2008). A inovação na televisão pública serve para desenvolver a linguagem televisiva de forma descomprometida com interesses comerciais ou ideológicos, desprendida do medo do fracasso e com a finalidade de aperfeiçoamento do meio de comunicação como uma linguagem dialógica. Na atitude inovadora, os que produzem nas TVs públicas devem observar que a televisão entra numa nova era, na qual ela produz para diversas telas, com possibilidades tecnológicas de estabelecer novas formas dialógicas, mais eficazes na construção social, na qual as emissoras públicas de radiodifusão devem ter papel proeminente. 3.7.5 Comunicação massiva A televisão pública está na esfera de maior amplitude de audiência, na faixa das TVs abertas, gratuitas, feita para a maioria da população desprovida de condições para contratar serviços de TV por assinatura. A quantidade de pessoas que assistem à televisão aberta é de grande escala. As emissoras públicas precisam fazer uma programação que também chegue às massas. Apesar de estar dando visibilidade às minorias sociais, a TV pública precisa atingir a um maior número de telespectadores. É da natureza de seu meio a comunicação massiva. Sua função é mostrar a minoria para a maioria, é transformar o regional em universal, transformação essa que se efetiva a medida que o povo tem nela um papel ativo, participativo e crítico. Embora coincida neste aspecto com a TV comercial, a busca pela maior audiência na TV pública tem finalidade diferente. Na primeira a procura é impor-se num mercado de consumo altamente lucrativo, enquanto na segunda se pretende 101 desenvolver a potencialidade do cidadão comum, sem a ambição de acumular capital. É impróprio pensar que a TV pública, por abraçar nichos desprezados pela TV comercial, esteja fadada a transmitir para pequenos guetos ou grupos. Em verdade, a TV pública, usando de sua linguagem inovadora, da ousadia que lhe é permitida, por seu descompromisso com o conservadorismo lucrativo, pode dar um tempero especial àquilo que é rejeitado pela maioria das emissoras comerciais. Conquistar uma maior audiência foi uma preocupação dos representantes das TVs públicas no Brasil, que no manifesto resultante do Primeiro Fórum das TVs Públicas, afirmavam: “a programação da TV Pública não deve estar orientada estritamente por critérios mercadológicos, mas não deve abrir mão de buscar o interesse do maior número possível de telespectadores” (TVU, 2007). E a Lei da TV Pública (lei 11.652/2008) contemplou essa preocupação da sociedade, quando no seu artigo 3º, inciso VII, determina como um dos objetivos: direcionar sua produção e programação pelas finalidades educativas, artísticas, culturais, informativas, científicas e promotoras da cidadania, sem com isso retirar seu caráter competitivo na busca do interesse do maior número de ouvintes ou telespectadores. (BRASIL, 2008). A falta de audiência expressiva é ainda um problema a ser resolvido na nova TV pública brasileira. A EBC tece, no seu relatório dos primeiros 4 anos, considerações relevantes ao apreciar resultados de pesquisas de audiência no país. Diz o documento: Na discussão sobre audiência, a TV Brasil exige, como preliminar, a distinção entre audiência e relevância. Uma emissora poder ter altos índices de audiência e ser irrelevante. E até ser nociva à sociedade. [...] A TV Pública não pode ser medida com a fita métrica da TV comercial, na qual os pontos de audiência viram cifrões de publicidade. Sua medida tem que ser a de seu papel na democracia e na formação da cidadania, especialmente na formação das crianças. Sua relevância deve ser medida por suas contribuições à sociedade e à cultura de seu tempo, pelos serviços que presta, pelas janelas que abre aos produtores, criadores ou grupos sociais que não teriam oportunidades nas outras emissoras. Logo, a TV Brasil buscará sempre aumentar a audiência, mas sem se afastar de seus princípios e compromissos. (EBC, 2011, p. 109-110). O relatório da EBC reconhece a sua baixa audiência (EBC, 2011, p. 111) e apresenta a tabela reproduzida abaixo, com os índices das médias da audiência das 102 principais emissoras abertas, na cidade do Rio de Janeiro, nos anos de 2008 a 2010, no horário das 07h às 2h: ANOS 2008 2009 2010 TV Brasil 0,38 0,39 0,39 Índice de Audiência Domiciliar % Band CNT RedeTV Globo 1,8 0,34 1,32 17,9 2,11 0,47 1,21 18,65 1,95 0,44 1,11 16,62 Record 7,5 8,24 8,1 SBT 6,68 6,84 6,74 Tabela 1 – Índices de audiência de emissoras abertas no Rio de Janeiro - Ibope/Media Workstation (EBC, 2011) Pelos números se vê que ainda há uma longa escada para a TV Pública galgar, até atingir um patamar satisfatório para a sua completa eficácia. A comunicação de massa é inerente à televisão aberta, pois através dela é possível comunicar-se com todas as classes da sociedade. É gratuita e por isso chega a todos os lares do país. As emissoras públicas só poderão alcançar seu objeto de construir uma sociedade mais justa e igualitária quando conseguirem atingir o grande público, caminho que ainda tem muito para ser percorrido. Porém, essa comunicação massiva deve ser vista com forte ressalva, diante das mudanças culturais ocorridas com o surgimento das novas tecnologias: a multiplicação de canais comunicativos, a valorização do individual, a facilidade da produção dirigida a público específico, que proporcionaram uma nova forma de interação, voltada a nichos específicos da população. A atenção para os segmentos sociais diversos é a tônica dessa nova sociedade contemporânea. A abrangência da comunicação massiva agora se limita a uma massa específica. Os que fazem a TV pública devem preocupar menos com transmissão para a grande massa, pois ela esta se dissipando, e concentrar sua área de abrangência na localização social de seu telespectador e a partir dele disseminar o seu propósito deontológico, fazendo dele um agente propagador. 4. A TV Universidade 4.1 Breve história da TVU Sob a vigência do Decreto-Lei 236/1967, que permitia às universidades requererem outorga de canais de televisão educativa, a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) vislumbrou, a partir de 1987, a possibilidade de obter permissão governamental para transmitir programas de caráter educativo, no canal reservado às emissoras educativas (02E), pelo sinal aberto, de acesso gratuito. Em Mato Grosso inexistia interesse do Estado nesse sentido. Começou então, a se projetar na UFMT, o uso da mídia eletrônica para a educação. A instituição contou com pleno apoio da bancada política de Mato Grosso no Congresso Nacional que apresentou ao Ministro da Educação, o projeto de implantação de TV educativa em Cuiabá, sob a responsabilidade da UFMT (TVU 1987). Idealizada e requerida em 1987, na gestão do reitor Eduardo De Lamônica Freire, implantada como retransmissora na cidade de Cuiabá, MT, em 1990, na administração do reitor Augusto Frederico Muller Junior, a TV Universidade entrou no ar com programação local, em 1995, na gestão da reitora Luzia Guimarães. Nas administrações seguintes foi incrementado o seu aparelhamento e pessoal. O projeto de implantação do canal 2E foi elaborado a partir de seu aspecto técnico (como meio eletrônico), vinculado então ao Departamento de Engenharia Elétrica, chefiado por Ildomar Freitas de Oliveira e assessorado por Alcides Teixeira da Silva, ambos professores da UFMT. Os primeiros requerimentos, em nome da Fundação Universidade Federal de Mato Grosso, assinados pelo Reitor Eduardo De Lamônica Freire, foram dirigidos, o primeiro, ao Departamento Nacional de Telecomunicações – DENTEL, órgão do Ministério das Comunicações, pelo qual solicitava a aprovação de projeto de localização e instalação da retransmissora, e, o segundo, à Fundação Centro Brasileiro de TV Educativa - FUNTEVÊ, requerendo autorização para retransmitir em Cuiabá, no Canal 2E, o sinal da TVE do Rio de Janeiro (TVU, 1987). Em 21 de dezembro de 1987, a FUNTEVÊ, pelo seu então presidente Roberto D. M. Parreira, em resposta ao ofício da UFMT, comunicou ao reitor que a Fundação Universidade Federal de Mato Grosso estava autorizada a retransmitir o 104 sinal da TVE do Rio de Janeiro, através do Canal 2E, na cidade de Cuiabá (TVU, 1987). Em continuidade, o DENTEL, pela Portaria nº 043, de 11 de maio de 1988, outorgou permissão de retransmissão simultânea18, à Fundação Universidade Federal de Mato Grosso - UFMT para retransmitir os sinais gerados pela TV Educativa do Rio de Janeiro, vinculada à Fundação Centro Brasileira de TV Educativa (FUNTEVÊ), depois Fundação Roquete Pinto. Em Cuiabá, a retransmissora da UFMT entrou no ar, pela TV aberta, em 05 de maio de 1990, data considerada de sua inauguração. A partir de então a TV da UFMT começa a retransmitir, pelo canal 2, VHF, em Cuiabá, o sinal da TVE do Rio de Janeiro. Nessa condição de retransmissora bastavam dois técnicos em transmissão e o local para receber e retransmitir o sinal para a grande Cuiabá. Como a UFMT ainda não dispunha de torre própria, alugou um espaço na torre de uma emissora local, TV Brasil Oeste, e nela instalou um transmissor de 2 kW e todo o equipamento para a recepção e transmissão. A parte administrativa ficou funcionando no campus da UFMT em Cuiabá, num pequeno espaço composto por cinco salas do Instituto de Ciências Exatas e Tecnológicas - ICET. A TV ficava subordinada à reitoria da UFMT, e dispunha de uma supervisão de vídeo que gerenciava os atos burocráticos, pois inexistia produção local. A inserção de programação local passou a ser um anseio da população cuiabana, principalmente dos produtores e profissionais de televisão, que viam na TV educativa, de caráter público e estatal, um novo campo de produção cultural, livre das regras do mercado e aberto à criatividade e arte, com o objetivo da valorização do regional. No início dos anos 1990, o Governo Federal adotou política de estímulo à teleducação no Brasil. O Ministério da Educação e Infra-Estrutura edita então a Portaria Interministerial nº 236, de 29 de outubro de 1991, estabelecendo regras para autorizar retransmissão mista nas localidades onde se dispunha de canal educativo pelo Plano Básico de Distribuição de Canais de Retransmissão de TV. O caminho estava aberto para transformar a retransmissora da TVE do Rio de Janeiro em uma televisão local, também geradora de programas. 18 Permitida somente a retransmissão, sem geração de programação local. 105 Em 1992, a UFMT formalizou, junto à Fundação Roquete Pinto (antes FUNTEVÊ), solicitação para modificar a retransmissora simultânea para retransmissora mista, retransmitindo o sinal do Rio de Janeiro e gerando programação local. A UFMT instituiu uma comissão para organizar e projetar a TV da universidade como geradora de programas por ela produzidos. O projeto de produção local de programas da TV foi elaborado por uma equipe interdisciplinar, composta por dez pessoas, de diversas áreas relacionadas com a televisão19, coordenada por Maria da Glória Albues Martins, então na Assessoria da Reitoria da UFMT. Desse projeto surgiu o nome da emissora: TV Universidade (TVU). Na apresentação do Projeto da TV Universidade se expôs a função da televisão de valorar a cultura local, na qual se podia vislumbrar o desejo da emissora em fazer a educação pelo viés da cultura. Diz o texto: A necessidade de se ver e à sua circunstância é o ponto de partida para o reconhecimento do indivíduo como sujeito e ser social. Dessa observação nasce a reflexão, ato propiciatório do conhecimento. E do conhecimento a possibilidade concreta do indivíduo de participação no todo social e na sua transformação. A função de uma televisão educativa nos parece de fundamental importância nesse processo de conhecer e reconhecer como instrumento mesmo de uma nova pedagogia e na inauguração de uma nova didática que transcenda – e muito – a mera transmissão de conhecimentos compartimentalizados nos currículos acadêmicos. Erudição se importa para uma região. Mas a região só se conhece quando capaz de exportar o reconhecimento da própria cultura. Esta é a nossa intenção, o nosso compromisso e, por que não dizer, a grande aventura à qual – inteiros – nos propomos lançar: a conquista da construção da nossa visualidade estética e ética. Todos juntos, professores, alunos, técnicos, realizadores, artistas, autores, jovens, velhos e crianças. Toda esta nossa gente do mato. Do Mato Grosso. (TVU, 1993). O projeto também contemplava a melhoria do sinal transmitido pelo canal 2. O transmissor de 2 kW era insuficiente para abranger a totalidade do município, o que ensejou colocar no projeto a necessidade de aquisição de um transmissor mais potente, de 10 kW, construção de sede própria, com sala para o transmissor, torre autoportante de 100 metros e nova antena de amplo espectro. Também estava 19 Equipe de Elaboração do Projeto: Lucila Meirelles, João Batista Epaminondas, Regina Deliberai, Heraldo Coiado, Josane Salles, Kátia Luzia Brandão Caldas Meirelles, Carlos Alberto Bertholine, Menotti Reiners Griggi, Alcides Teixeira da Silva, Marta Bastos Catunda e Maria da Glória Albues Martins. 106 prevista a melhoria na recepção, com novos equipamentos para receber o sinal da TVE pelo satélite Brasilsat, da Embratel (TVU, 1993). O projeto de Geração Local da TV Universidade foi apresentado ao Ministério da Educação e do Desporto (MEC), com a justificativa de que a TV Universidade tenha uma linha de programação pertinente as questões básicas da UFMT no sentido de garantir a difusão de seu conjunto de conhecimentos, democratizando e socializando esses “saberes” junto a comunidade local e regional. Além disso, a TV Universidade pretende atender às necessidades da própria comunidade garantindo um espaço para as questões de seu interesse, oportunizando-as como objetos de discussão, divulgação e reflexão. (TVU, 1993). A justificativa para a implantação da geração local passava então pelo viés da educação, como também ao final do mesmo item do projeto, a proposta complementa: A UFMT considera, então, uma necessidade premente a implantação de uma televisão, com uma programação própria, desvinculada dos padrões já cristalizados pela mídia comercial e livre do academicismo, reencontrando o caminho da comunicação popular, inteligente, sensível e contemporânea. (TVU, 1993). Na proposta apresentada ao MEC se vê nitidamente características da TV pública que pretendia se implantar em Cuiabá. Programação de qualidade, linguagem inovadora, valorização da cultura regional e do conhecimento, num claro objetivo de contribuir para a formação do cidadão apto a decidir por uma melhor sociedade. Em entrevista, Maria da Glória Albues Martins, coordenadora do GT que idealizou a TVU, assim relata os fatos: Eu nunca pensei na TV da universidade como uma TV universitária. Eu sempre pensei como uma TV que fosse ela própria um campo de experiência de inovação da possibilidade de criar uma nova linguagem porque, mesmo as TVs abertas, as TVs comerciais, que a gente tem aqui, a programação também era muito pequena, na verdade, mais restritas aos telejornais e tal. Então eu achava que no campo da comunicação tudo era possível e que era possível fazer uma televisão que tivesse uma cara própria, uma televisão que nascesse da nossa visão, do nosso olhar, de pessoas como nós, que nós temos no interior do Brasil. [...] Uma das coisas discutidas que surgiu na época é de que o curso de comunicação queria que a TV fosse uma espécie de laboratório para o curso. Eu não achava que devia ser assim porque eu não via essa função didático-pedagógica ligada à TV. Naquele momento eu queria mais que a TV alçasse vôo, que a TV realmente criasse essa linguagem e tudo. Onde os alunos poderiam vir, depois, pra testar o 107 que eu estou dizendo. Que fosse um lugar de excelência tal que os alunos que passassem pelo estágio na TV, digamos até contaria no currículo do futuro profissional que ele seria. Então eu acho que basicamente a intenção foi essa de tentar ver, avaliar, refletir, pensar a nossa própria circunstancialidade. E que, de qualquer forma, por ser uma TV que estava dentro de um campus universitário, a ideia também era que o conhecimento produzido na universidade fosse também divulgado, que as teses de mestrado e doutorado, os ensaios, enfim, não ficassem la dentro das gavetas, como na verdade, infelizmente, até hoje ainda fiquem. Mas que pudessem ser traduzidos também dentro de uma linguagem do audiovisual para que o público se inteirasse, para que se rompesse esse muro invisível, mas que tá aí presente entre a sociedade e a universidade. Havia também esse desejo de movimento de que a universidade estivesse mais próxima da população. Eu via como um caminho de mão dupla. A universidade indo ao encontro da sociedade e a sociedade também indo ao encontro da universidade. Então para começar a pensar isso aí, nós pedimos criar um grupo de trabalho e 50 % das pessoas que estavam nesse grupo eram da universidade, pessoas ligadas à área da comunicação e as outras pessoas eram diversos profissionais que não tinham nenhuma ligação, porque eu achava que devia começar pra valer. Então pra começar pra valer, não seria só a universidade, com suas pessoas, pensando sozinha a TV. Então, logo de cara, vamos pensar juntos. Por isso esses profissionais de televisão, jornalistas, são pessoas que a gente trouxe. (MARTINS, 2011). Em 04 de agosto de 1993, o presidente da Fundação Roquete Pinto, Paulo Branco, emitiu autorização para a Fundação Universidade Federal de Mato Grosso retransmitir, em caráter misto, os sinais de TV gerados pela TVE do Rio de Janeiro (TVU, 1993). A transmissão dos programas locais estava restrita a determinados horários e um limite de tempo diário para as inserções locais (2h30/dia). Parte da programação nacional era de retransmissão obrigatória, como os noticiários, programas ao vivo ou educativos da TVE-RJ. A TVU teve de se comprometer a seguir a legislação vigente no que tange à proibição de explorar comercialmente o canal e a programação veiculada. O uso da TV com finalidade comercial estava proibido. Para gerenciar a TV Universidade, a UFMT, na gestão do Reitor Augusto Frederico Muller, em 1993, criou a Supervisão de TV, ficando como primeira Supervisora Maria da Glória Albues Martins, que antes exercia a função de Supervisora de Vídeo. 108 Obtida a permissão como retransmissora mista, a TVU começou então uma nova fase de sua história: a produção local de programas para a televisão, conjuntamente com a retransmissão da programação da TVE do Rio de Janeiro. Apesar de no projeto da TVU haver previsão de uma equipe de profissionais que pudesse manter a televisão em atividade permanente, à UFMT foi permitido, em 1995, abrir concurso para admitir alguns poucos profissionais de produção e transmissão: um cinegrafista, um editor, um diretor de imagem, um engenheiro de televisão. O restante do quadro de pessoal seria completado com os servidores da própria universidade, a serem treinados para tanto. Então vieram somar à pequena turma dos concursados mais um eletricista, um motorista, uma secretária e uma produtora, todos do quadro de servidores da UFMT. Foi nessa época que fui admitido, através de concurso, no quadro de servidores da UFMT como diretor de imagem da TVU, portanto, sua história eu acompanho desde então, sendo testemunha de muitos fatos narrados adiante. Em meados de 1995, chegou o equipamento de produção. Inicialmente consistia em duas câmeras externas e duas de estúdio, Betacam PVW, uma ilha de edição roll on 20 Betacam SP, três mesas de áudio de 12 e 8 canais, mesa de efeito DFS500, unidade de edição BVE 2000, monitores e muitos outros acessórios. Esse equipamento era o que havia de melhor para a produção de televisão e poucas emissoras dispunham de algo similar. Com a chegada do equipamento a TVU passou a ocupar algumas salas do bloco Casarão21 Fotografia 1 – Bloco Casarão atualmente Fonte – Acervo fotográfico do autor, 2012. 20 21 ou seja, com dois reprodutores (players) e um gravador (rec). nome popular dado a antigo prédio onde funcionam diversos órgãos administrativos da UFMT. 109 Fotografia 2 – Entrada atual da TVU – Bloco Casarão, térreo, UFMT Fonte – Acervo fotográfico do autor, 2012. O espaço da TVU, no “Casarão”, era suficiente para ter um pequeno estúdio, ilha mestre e de edição e demais instalações de infraestrutura para produção, jornalismo e administração. Além desse espaço específico para as atividades inerentes à televisão, a TVU tinha e tem à disposição outras áreas do campus da UFMT, como o teatro, salas de aula, auditórios e muito mais. Também grande parte da administração e manutenção da TVU era e ainda é feita através dos órgãos técnico-administrativos da instituição, como o setor de recursos humanos, almoxarifado, garagem, marcenaria, enfim toda a infra-estrutura necessária para o funcionamento da emissora. Como previsto no projeto, em 1995, foi adquirido um novo transmissor de 10 kW, operado com válvula aquecida (valvulado). O funcionamento desse equipamento exigia um prédio apropriadamente construído e climatizado para essa finalidade. O projeto de engenharia existia, mas a UFMT tinha orçamento limitado e novas linhas de financiamento estavam contingenciadas. Com isso o transmissor ficou guardado inativo, à espera de local apropriado. No início da implantação da programação local, o grande problema continuava sendo a falta da torre de transmissão e a sala do transmissor. A programação local da TVU era produzida no campus da UFMT e gerada, por transmissor de micro-ondas de curta distância (link), para um receptor instalado na 110 torre alugada e de lá se retransmitia para Cuiabá, ainda pelo antigo transmissor de 2 kW. As primeiras transmissões locais, em caráter experimental, foram inserções de 30 segundos com chamadas para a Reunião da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência – SBPC, em 1995, realizada no campus da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. Desse evento cientifico foram feitas transmissões ao vivo de alguns de seus seminários. Nesse mesmo ano, foram também transmitidas ao vivo, algumas palestras da reunião do Conselho de Reitores das Universidade Brasileiras (CRUB) realizada na UFMT. As transmissões se limitavam a reproduzir as sessões ocorridas no teatro da UFMT. Também foram produzidos VTs22 institucionais da UFMT, de caráter informativo para a comunidade cuiabana. Essas “vinhetas” faziam parte do projeto inicial da programação local. O projeto de geração local da TV UNIVERSIDADE tinha uma grande variedade de programas (27 ao todo) a serem por ela produzidos em curto, médio ou longo prazo, todos de relevante valor cultural para a região, dando à TV uma identidade cultural mais do que educativa, como era a tendência da época para as emissoras educativas do país. A maioria dos programas do projeto inicial ficou apenas no papel, impossibilitada de produção por falta de disponibilidade financeira. Alguns outros foram produzidos dentro de seu planejamento inicial e outros foram reformulados e adaptados às condições da pequena emissora. O lançamento oficial da programação da TVU ocorreu em 10 de dezembro de 1995, com uma entrevista de dois reitores, o primeiro da UFMT, Gabriel Novis Neves e a então no cargo, Luzia Guimarães.23 O primeiro programa em série produzido pela TVU se deu em parceria com o Centro de Trabalho Indigenista – CTI –, uma organização não governamental de São Paulo, dedicada ao registro audiovisual das diversas nações indígenas do país. A programação local passou então a transmitir o “Programa de Índio”,24 uma coprodução, mensal, na qual participavam ativamente indígenas de diversas nações mato-grossenses principalmente, além de profissionais das duas coprodutoras. A 22 produções em videoteipe de curta duração, variando de trinta segundos a três minutos. Apresentação do jornalista Pedro Pinto de Oliveira. 24 Direção de Maria da Glória Albues Martins e Vincent Careli. 23 111 temática veio ao encontro de princípios da televisão pública, tais como o da complementaridade do sistema público ao privado, promoção da cultura nacional, respeito à pluralidade nacional. A TVU, naquele momento, dava visibilidade às diversas minorias étnicas que formam as nações indígenas da Amazônia e CentroOeste, mostrando ao povo brasileiro a diversidade nacional, a cultura dos habitantes da selva e do cerrado e também os seus problemas e suas necessidades. O programa cumpria com o objetivo da TV pública de desenvolver a consciência crítica do cidadão, fomentar a construção da cidadania e inclusão social. O “Programa de Índio” foi um sucesso, inclusive sendo exibido em rede nacional pela TVE do Rio de Janeiro e retransmissoras; o programa também teve projeção no exterior, porém a produção durou pouco tempo. Foram realizados apenas quatro programas, pois a falta de condições financeiras impediu a continuidade da sua produção. A partir daí se sentiu a necessidade de maior apoio financeiro para grandes produções. O apoio cultural era a solução para a época, buscado pelas demais emissoras públicas do país que tinham as mesmas dificuldades, mas a baixa qualidade do sinal e as limitações legais quanto à publicidade afastavam possíveis interessados em apoiar a produção da TVU. Em abril de 1996, a Supervisora da TVU afastou-se para exercer cargo público municipal, quando assumi provisoriamente a Supervisão da TVU até a nomeação de outro supervisor indicado pelo novo reitor que estaria assumindo o cargo alguns meses depois. Nessa época, a TVU estava com bom equipamento de produção, mas faltavam profissionais para as atividades da televisão e a transmissão ainda continuava limitada a 2 kW. Dada a limitação de pessoal e inexistência de orçamento para a televisão, a única opção foi produzir um programa dentro das possibilidades existentes na universidade. O primeiro programa diário (de segunda a sexta-feira) realizado pela TVU foi o “Estação UFMT”25, previsto no projeto inicial com o nome “Agenda”. O programa de cinco minutos trazia informações sobre os eventos culturais, educacionais e científicos que ocorriam na UFMT e na cidade. Era gravado em estúdio, com apresentador sobreposto em recorte (chroma key) com fundo produzido em computador e geração de caracteres, As informações eram obtidas com o auxílio da Assessoria de Comunicação Social da UFMT - ASCOM. 25 Apresentação Roberto Silva, depois Andréia Sversut. 112 Também nessa época se produziu um programa de entrevistas de estúdio chamado "Conversando”26, de segunda a sexta-feira, com 25 minutos de duração, do qual participavam, como entrevistados, pesquisadores da própria instituição, da sociedade local e nacional em passagem pela UFMT para eventos ou palestras. O “Conversando” ficou no ar por quase dois anos. A partir de 1997, na gestão do reitor Fernando Nogueira, a UFMT é atingida por grave crise enfrentada pelas universidades federais que começavam a ter dificuldade em manter suas atividades regulares, em consequência da política recessiva imposta pelo Governo Federal, com contingenciamento de verbas e a redução de servidores, incentivados a sair do serviço público federal pelo Programa de Demissão Voluntária (PDV). Também as TVs educativas sofriam grandes dificuldades e buscavam soluções criativas para superar a falta de verba e a legislação que proibia qualquer uso comercial da emissora. A crise das universidades federais atingiu profundamente a TVU. Nesse ano, a produção local se limitou a manter sua programação informativa, voltada mais para as atividades da UFMT de interesse da população local, utilizando dos recursos disponíveis no campus da universidade. Em 1997 assumiu a Supervisão da TVU a professora Kátia Brandão Caldas Meirelles, com todo esse quadro de penúria para administrar. O velho transmissor estava em péssimas condições, o contrato de arrendamento da torre da TV Brasil Oeste estava vencendo e perduravam as necessidades anteriores de construção de torre e sala de transmissão. Em 1998, a programação local foi interrompida ficando somente a retransmissão da TVE Brasil. Nesse ano iniciam-se procedimentos com o objetivo de melhorar o sinal da transmissão da TVU, o que implicava em construção da torre e sala do transmissor. No ano seguinte, o Governo do Estado de Mato Grosso doou uma torre estaiada27 para a UFMT, de 100 metros de altura, a qual foi levantada no campus da universidade em Cuiabá, à frente, uns oitenta metros, de onde estava instalada a TV Universidade. Com isso facilitou a transmissão local, cujo controle pode ser operado diretamente da ilha master da TVU para o transmissor, sem uso de link de microondas, além de eliminar um estágio intermediário que deteriorava a qualidade da 26 27 Apresentação Creuza Medeiros, produção Nelice Ligabo. sustentada por fortes cabos de aço (cordoalhas) esticados de vários pontos da torre até o solo 113 imagem e som transmitidos e se livrar do contrato de arrendamento que exigia processo licitatório toda vez que fosse renovado. Fotografia 3 – Torre da TVU Fonte – Acervo fotográfico do autor, 2012. Apesar de ter a torre, a emissora ainda precisava do prédio para os equipamentos da transmissão. No ano 1999, buscou-se uma solução inusitada para colocar em funcionamento o transmissor de 10 kW, guardado há cinco anos: adaptar um container para servir de abrigo para ele. E isso foi feito. Colocou-se o container bem abaixo da torre de transmissão, devidamente refrigerado e com espaço exato para a colocação do transmissor. Também a antena de alta qualidade, foi finalmente instalada no topo da torre. E assim foi ligado o transmissor de 10 kW. 114 Mesmo com grande potência, esse transmissor sofria pela falta de condições adequadas. O superaquecimento e alta umidade ambiente jamais permitiram fazer funcionar satisfatoriamente a válvula incandescente do transmissor Telavo de 10 kW. A TVU operava a menos de um décimo da sua potência de transmissão. A construção de instalações próprias passou a ser necessidade urgente. Durante alguns meses funcionou bem o sistema de transmissão, mas problemas técnicos começaram a deteriorar novamente o sinal da emissora. Nessa época a TVU perdeu seu engenheiro de televisão, Alfredo Martins, falecido precocemente em acidente aéreo. A assistência técnica passou a ser por demanda, quando havia problema se chamava um técnico local. As universidades estavam proibidas de contratar novos técnicos. Os pareceres eram emitidos pelo engenheiro de telecomunicações, Professor Alcides Teixeira da Silva, lotado no Departamento de Engenharia Elétrica da UFMT, com intensa carga horária de aulas, mas que, gentilmente, cedia seu tempo restante para se dedicar às análises da transmissão da TVU. O sistema de refrigeração do container era ineficiente, sempre falhava e causava aquecimento excessivo; a corrente elétrica do local era instável e sujeita a falhas; inexistia um sistema eficaz contra descargas elétricas atmosféricas (raios) e a antena apresentava falhas de passagem do sinal, assim apenas parte da transmissão se propagava pela região urbana da cidade. Eram problemas seríssimos e de difícil solução. Exigiam técnicos especializados, indisponíveis em Cuiabá, e, em consequência, a contratação demandava mais tempo. Muitas vezes eram problemas que interrompiam a transmissão e a emissora ficava fora do ar a espera dos trâmites burocráticos da instituição no processo de contratação. Com intenção de solucionar o problema do transmissor, diversos técnicos foram chamados a trabalhar nele, mas nenhum conseguiu acionar a válvula e, pelo contrário, de tanto mexerem, acabaram por danificar irreparavelmente essa peça central do transmissor, passando ele a funcionar com menos de 1kW de potência. Isso perdurou por sete anos. Nessa fase de baixa potência, no final do ano 2000, na primeira gestão do reitor Paulo Speller, Marluce de Oliveira Machado Scaloppe, do Departamento de Comunicação Social da UFMT, assumiu a Supervisão da TVU, com a missão de voltar com a produção local, inclusive com um telejornal ao vivo, além de continuar a busca pela sempre prioritária melhoria do sinal transmitido pela emissora cuiabana. 115 Em março de 2001, com a melhoria das condições financeiras da universidade, a TVU começou a produzir o telejornal "TVU Notícias”,28 transmitido ao vivo, de segunda a sexta, com prevalência em matérias sobre cultura, saúde e educação, as que mais representam a identidade de uma emissora educativa e cultural. A linha do jornalismo da TVU seguia os parâmetros da televisão pública. Não havia reportagem apelativa ou sensacionalista. A produção estava a cargo dos servidores e mais alguns profissionais contratados. O telejornal vai ao ar ainda nos dias de hoje, com novo nome - "Repórter Mato Grosso" -, com o mesmo estilo em que iniciou. Mudaram-se as pessoas, o cenário, mas o formato permaneceu.29 Junto com o “TVU Notícias” também era produzido o programa "Agenda TVU"30, de segunda a sexta-feira, com 5 minutos de duração. Como o nome já diz, tratava-se de um programa informativo de eventos da cidade, com ênfase aos culturais e educacionais. Em 2003, estreou na TVU mais um programa, o "Por Dentro da UFMT"31, de entrevistas, de segunda a sexta, no qual se divulgavam as pesquisas, trabalhos, cursos e tudo mais que a Universidade tinha de interesse público. Nesse mesmo ano, assumiu a Supervisão da TV a servidora Nelice Ligabo, que, com o objetivo de estruturar o quadro de profissionais da TVU, realizou cursos e treinamentos e deu manutenção à programação local. Nesta época o equipamento da TVU, formado ainda pelas mesmas potentes, mas antigas, máquinas BETACAM, que faziam a gravação e edição, apresentavam frequentes problemas pelo excessivo tempo de uso, muitas vezes parando a produção, situação vivenciada por mim, como diretor de imagem da emissora. A manutenção tornava-se difícil e cara. Era hora de renovar o maquinário da produção. A partir de então começou a se mudar da mídia analógica para a digital, com a chegada de uma ilha de edição não linear AVID Mojo e câmeras de vídeo digital, para gravações externas. No ano de 2004 a TVU firmou parceria com a Secretaria de Educação de Mato Grosso no sentido de produzir um programa semanal, no qual eram 28 Direção de jornalismo Marluce Scallope, apresentação do jornalista José Porto. Atualmente o “Repórter Mato Grosso” tem a direção jornalística e apresentação da jornalista Suzi Bonfim e do jornalista Sérgio Fernandes. 30 Apresentação Josiane Dias e Tâmara Figueiredo, profissionais formadas pela UFMT. 31 Apresentação Sonia Fiori, produção Nelice Ligabo. 29 116 apresentados projetos e ações de relevante valor social realizados pela Secretaria do Estado. O nome do programa era "Palavra Aberta"32. Em outubro de 2004, assumi novamente, agora em caráter efetivo, o cargo de Supervisor da TV, com o objetivo de melhorar a transmissão da TVU, modernizar o equipamento e aumentar a produção local. Nesse mesmo ano é dado, pela administração da UFMT, sinal verde para a construção do prédio para abrigar o sistema de transmissão da TVU, e o seu projeto começou a ser elaborado pela Próreitoria de planejamento da universidade. Em 2005 começou a utilização da Internet para divulgação e veiculação dos programas da TVU. No site da UFMT foi disponibilizado um link para se assistir as entrevistas realizadas no estúdio da TVU. Nessa época começaram os primeiros intercâmbios de programas pela RedeIFES, projeto realizado pela Universidade Federal do Paraná com colaboração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 2003, e com o apoio da ANDIFES, em 2006. A RedeIFES tinha, e tem, como objetivo realizar a integração e a disseminação de conhecimento em todo o território brasileiro, através de uma rede formada pelas televisões das Instituições Federais de Ensino Superior - IFES, que disponibilizam,entre si, seus programas na Internet pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa - RNP, para downloads e uploads (REDEIFES, 2011). Em 2005 houve também mudança na programação local: o "Por Dentro da UFMT" saiu do ar, e os outros dois (“TVU Notícias” e o "Agenda TVU") foram reunidos num só programa chamado "Edição TVU"33, de 30 minutos de duração, A aspiração dos profissionais comprometidos com a TVU se tornou realidade em 2007, quando inaugurada a nova sala de transmissão, com toda a infra-estrutura necessária para pleno funcionamento dos equipamentos de transmissão. 32 33 apresentação Cristina Azevedo. Apresentação Sergio Fernandes, repórter Nivaldo Queiroz. 117 Fotografia 4 – Prédio dos transmissores Fonte – Acervo fotográfico do autor, 2012. Também um pequeno transmissor da Linear, com 2 kW de potência, começou a operar nessa nova sala. A antena de transmissão foi reparada, desobstruiu-se a passagem do sinal transmitido. Mesmo com a fraca potência, se conseguia ter uma cobertura de aproximadamente sessenta por cento da cidade de Cuiabá (TVU, 2007). O velho transmissor de 10 kW foi aposentado, sem nunca ter operado na sua plenitude. Em 2008 a TVU idealizou uma série de interprogramas para divulgar o conhecimento acadêmico e buscou parcerias dentro da própria instituição, rica em informações de interesse público. Nessa proposta de atuação foram produzidos diversos VTs de três minutos de duração, em parceria com alguns departamentos da UFMT. Destacou-se o "Momento da Literatura", no qual eram comentados obras e autores regionais e nacionais. Esse projeto foi coproduzido com o Grupo de Estudos R.G.Dick, do Instituto de Linguagens da UFMT, sob a coordenação de Mário César Leite e trouxe importante contribuição para o registro de autores mato-grossenses. Nesse ano, a TVU também produziu um série de vinhetas de um minuto sobre todos os livros lançados pela Editora da UFMT em 2008, de diversos escritores mato-grossenses, grande parte doutores e mestres da universidade. Convém também citar os interprogramas "Momento da Economia", que comentava sobre questões econômicas nacionais e internacionais de interesse local e tinha como coordenador José Manuel Martha, do Departamento de Economia da UFMT; e "Pingos de Antropologia", pela qual se divulgava essa ciência pouco conhecida pela sociedade, projeto sob a coordenação de Maria de Fátima Roberto Machado, do Departamento de Antropologia da UFMT. 118 Em 2008, com a assunção da nova Reitora Maria Lúcia Cavalli Neder, houve mudança na estrutura administrativa da UFMT, sendo criada, pela Resolução CD 44, de 31 de outubro de 2008, a Secretaria de Comunicação e Multimeios - Secomm, sendo nomeado para o cargo de Secretário Benedito Diélcio Moreira, do Departamento de Comunicação Social da UFMT, com larga experiência na área de televisão. Essa nova secretaria tem o objetivo de “divulgação da produção intelectual e artística gerada na universidade [...] com propósitos informativos, educativos e de cidadania” (UFMT, 2008). A ela está subordinada a Coordenação de Jornalismo e Imprensa, antiga ASCOM, a qual tem a Supervisão de TV sob sua alçada, conforme determinado na Resolução CD 3, de 14 de janeiro de 2009 (UFMT, 2009). Ilustração 1 - Quadro da estrutura da Secomm/UFMT. (UFMT, 2012). Através da gestão da nova Secretaria de Comunicação e Multimeios, a produção da TVU passou a ter mais comprometimento em estreitar a relação instituição/sociedade; se torna mais “estatizada”, porém com a finalidade de fortalecer a cidadania (UFMT, 2012), identificando-se aí com os objetivos da TV pública. Em 2009, a estrutura operacional da TVU, podia ser vista da forma a seguir: 119 Ilustração 2 - Organograma da TVU. (TVU, 2009). O aumento da programação local, então, se tornou objetivo prioritário para a TVU, que começou a busca por processos participativos com os produtores independentes do estado. O primeiro semestre de 2009 se caracterizou pelo planejamento de uma nova programação e a aquisição de equipamentos para atingir esse objetivo. A área de jornalismo e produção recebeu cinco novos computadores. Novos ramais telefônicos e mobiliário foram adquiridos. A parte técnica ganhou duas novas ilhas de edição não linear e novos cenários para o estúdio de gravação. A participação de estudantes se multiplicou com a implantação de seis projetos de extensão34, beneficiando mais de uma dezena de alunos da UFMT. No segundo semestre de 2009, a TVU produzia seis novos programas: "Musica Contemporânea" – programa produzido em parceria com o Departamento de Artes, Curso de Licenciatura em Música do IL-UFMT, sob a coordenação de Roberto Victorio, mostrava esse ímpar estilo musical de uma forma didática; "Instrumental UFMT", também produzido com o Departamento de Artes, sob a coordenação de Teresinha Prada, gravado nos auditórios da UFMT, apresentava à sociedade cuiabana os diversos grupos musicais da região; 34 “Agora Quando?!”, 2009; “Edição TVU”, 2008; “Interprogramas”, 2009; “Memórias”, 2009; “TVU Notícias”, 2009; e “Assuntando”, 2009. 120 "Assuntando", sob a responsabilidade e apresentação do jornalista Sérgio Fernandes, o programa, ainda no ar, é composto de uma entrevista com personalidades de grande conhecimento na área política e econômica; "Ponto de Encontro", tendo como responsável e apresentadora a jornalista Natália Roseira, o programa entrevista profissionais ligados a assuntos contemporâneos sobre comportamento, saúde e educação; "Agora Quando?!" – programa produzido pelo departamento de comunicação social da UFMT, sob a responsabilidade de Pedro Pinto de Oliveira, usa forma peculiar de entrevista, dentro de uma sala de aula os alunos entrevistam um profissional ligado a área da comunicação; "Especial TVU" - utilizava do acervo da TVU para rememorar os grandes eventos culturais ocorridos na universidade ou através dela, o programa é feito sob a supervisão da chefia da TVU. (TVU, 2009). Além dos novos programas, passaram a ser produzidos na TVU dois interprogramas35: “Memória da UFMT”, que mostrava a história da universidade; e "Arte Vida", com matérias sobre artistas plásticos locais. A programação produzida pela TVU, a partir de setembro de 2009, passou a ocupar uma hora e trinta minutos da grade da TV BRASIL, com os seguintes programas, dias e horários: Dias/Semana Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Horário 11h30 as 12h00 18h30 as 19h00 19h00 as 19h30 11h30 as 12h00 18h30 as 19h00 19h00 as 19h30 11h30 as 12h00 18h30 as 19h00 19h00 as 19h30 11h30 as 12h00 18h30 as 19h00 19h00 as 19h30 11h30 as 12h00 18h30 as 19h00 Programas TVU Notícias TVU Notícias 2ª ed. Especial TVU TVU Notícias TVU Notícias 2ª ed. Assuntando TVU Notícias TVU Notícias 2ª ed. Agora Quando?! TVU Notícias TVU Notícias 2ª ed. Ponto de Encontro TVU Notícias TVU Notícias 2ª ed. Instrumental UFMT e Música Contemporânea 19h00 as 19h30 em revezamento Tabela 2 – Programação da TVU em 2010. (TVU – 2011). 35 Pequenos VTs de até 3 minutos, inseridos nos intervalos entre os programas. 121 Essa grade de programação foi mantida durante o ano de 2010, quando assumiu a Supervisão da TV, Benedito Alencar de Arruda, do Departamento de Engenharia Elétrica da UFMT, com a principal missão de preparar a TVU para a migração digital. Em 2011 ocorreram novas mudanças na programação. O telejornal "TVU Notícias" é substituído pelo “Repórter Mato Grosso”, que vai ao ar, ainda hoje, de segunda a sexta, das 18h30 às 18h50 e segue a linha editorial do jornalismo da rede pública, de valorizar a cultura e a informação, mas sem matérias apelativas. Atualmente, além do telejornal, a TVU exibe cinco programas semanais, cada um num dia da semana. Na segunda-feira, vai ao ar o UFMT Ciências, que apresenta as pesquisas científicas realizadas na UFMT; na terça-feira vai ao ar o programa “Assuntando”, de entrevistas, agora com uma hora de duração, no qual pode se aprofundar em determinado assunto de interesse público; na quarta-feira, é exibido o “Agora Quando?”, programa de formato inovador, produzido pelos alunos de comunicação social da UFMT, dentro da sala de aula, onde entrevistam personalidades da mídia, local ou nacional; na quinta-feira é exibido o programa "Você no Cinema", no qual a sétima arte é debatida com experientes profissionais da área, não só regional mas também nacional; e na sexta-feira é veiculado o programa “Convidado de Sexta”, de conteúdo cultural, onde é entrevistado algum artista, alternado com apresentação de sua obra, geralmente musical. A grade local, a partir do setembro de 2011, ficou assim definida: Dias/Semana Segunda Terça Quarta Quinta Sexta Horário 18h30 às 18h30 19h30 às 20h00 18h30 às 19h30 18h30 às 19h30 18h30 às 19h30 19h30 às 20h00 18h30 às 19h30 19h30 às 20h00 18h30 às 19h30 19h30 às 20h00 Programas UFMT Ciência Repórter Mato Grosso Assuntando Repórter Mato Grosso Agora Quando?! Repórter Mato Grosso Você no Cinema Repórter Mato Grosso Convidado de Sexta Repórter Mato Grosso Tabela 3 – Programação TVU 2011. (TVU 2011).36 36 O projeto para 2012 altera a grade de programação, com a exibição do programa “UFMT Ciência”, de segunda a sexta-feira, com dez minutos de duração, após o “Repórter Mato Grosso”, que passa a ser exibido das 18h30 às 18h50, remanejando os programas daquele horário para 19h00 até as 20h00. 122 Programas especiais foram gravados ao longo da existência da TVU. Diversas apresentações da Orquestra Sinfônica da UFMT, inclusive a única ópera apresentada em Cuiabá, a “Flauta Mágica”, de Mozart, foi gravada pelas câmeras da TVU. Três bienais de música contemporânea em Cuiabá também foram gravadas. Esses grandes eventos geraram produtos derivados, como DVD e CD para distribuição. Muitos outros eventos culturais relevantes para a cidade estão arquivados na emissora, tais como gravação de shows e cobertura de grandes acontecimentos, que iam ao ar eventualmente. É importante lembrar que a TVU fez a cobertura de duas grandes reuniões da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Cuiabá, uma regional e outra nacional, em 1995 e 2004, respectivamente, divulgando pesquisas científicas e projetos apresentados nos eventos. Importantes personagens do cenário estadual, nacional e até internacional foram entrevistados nos estúdios da TVU, nas duas reuniões como em muitos outros eventos nacionais ou internacionais realizados na UFMT. Diversas questões ambientais também receberam total cobertura da TVU, a exemplo da 8ª Conferência Internacional de Áreas Úmidas (8ª INTECOL), realizada pela UFMT, na qual se reuniram cientistas de diversos países com o intuito de discutir o futuro dos biomas do planeta onde se concentram significativos volumes de água. A TVU participou, representando Mato Grosso, de três em quatro edições do programa DOCTV, do Ministério da Cultura. O DOCTV é um programa de fomento à produção audiovisual em todos os Estados do Brasil e é realizado em parceria com a Associação Brasileira das Emissoras Públicas Educativas e Culturais (ABEPEC) e Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura (SAV/MINC). Outro projeto, o ANIMATV, com o mesmo objetivo de fomento à produção audiovisual, mas voltado para a animação, também foi lançado em Mato Grosso através da TVU, no ano de 2007. 4.2 A relação TV Brasil e a TVU, ou EBC e UFMT. Em 2006 a situação jurídica da TV UNIVERSIDADE estava irregular junto aos órgãos federais, sua permissão era em carater precário, até que outra entidade requeresse o canal, que constava como vago na Agência Nacional de Telecomunicacoões - ANATEL. A outorga definitiva estava vetada, pois o Governo 123 Federal não poderia outorgar permissão à ele próprio, uma vez que a Instituição Federal de Ensino faz parte da administração indireta, além de que a União já dispunha de empresa própria para exercer a comunicação, a Radiobrás. Duas soluções foram apontadas: a primeira seria constituir uma Fundação privada para requerer a concessão e administrar o canal (como acontece com algumas TVs públicas); a segunda solução era estabelecer uma parceria com o órgão federal competente para operar os canais educativos, naquela época a Radiobrás, que requereria a concessão para si. A segunda opção pareceu a melhor e foi o caminho escolhido pela UFMT. Através de solicitação formal do então Reitor da UFMT, Paulo Speller, iniciou-se um processo junto à Radiobrás propondo estabelecer parceria pela qual a UFMT administraria o canal 2E (educativo) em Cuiabá, cuja concessão seria requerida pela Radiobrás, junto ao Ministério das Comunicações. Na parceria, a TVU da UFMT continuaria a manter programação local na grade de programação da TVE Brasil. Na prática nada mudava. A TVU continuava retransmitindo a TVE Brasil, do Rio de Janeiro e inserindo programação local. Porém mudava o detentor da outorga que passava a ser a Radiobrás e não mais a UFMT. Nesse período de negociação, em 2007, foi criada a Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que incorporou a Radiobrás, a TVE Brasil, e todas as outras emissoras de rádio e televisão do Governo Federal. Na área de televisão, surgiu a TV Brasil, com o escopo de ser a primeira televisão instituída com o caráter de TV pública. A proposta de parceria da UFMT com a Radiobrás é transferida então para a EBC. Existe um fato em comum à Empresa Brasil de Comunicação e a Universidade Federal de Mato Grosso, relevante para o estabelecimento da parceria entre as duas instituições: ambas são entidades de natureza Pública Federal, sendo útil a conjugação de esforços para formação da Rede Nacional de Comunicação Pública/Televisão – RNCP/TV, prevista na lei 11.652/2008, art. 8º, III (BRASIL, 2008). Esse foi um facilitador para a EBC cumprir sua finalidade de implantar e operar a emissora em Cuiabá. Ela conta com o apoio de uma instituição federal de peso dentro da sociedade local. Ambas com a mesma finalidade pública e subordinadas ao mesmo Estado mantenedor, o que evita conflitos políticos. 124 Em 2009 a EBC recebeu a concessão do canal 2 em Cuiabá e firmou um contrato com a UFMT para retransmitir a TV Brasil, podendo manter a antiga denominação local, TV UNIVERSIDADE, e fazer as inserções locais. A parceria foi e ainda está sendo benéfica para a TVU, pois a EBC faz significativo investimento na sua concessão de Cuiabá, tendo já instalado um novo transmissor, agora com 5 kW, da STB, novos equipamentos de transmissão e produção. A EBC também contribui na manutenção de uma equipe para gerar matérias para a rede nacional da TV Brasil. No contrato a TVU está autorizada a produzir até quatro horas de programação diária, dentro da grade de programação da TV Brasil. A produção pode ser independente, mas é vedada a venda de espaço na grade programação. Na prática é muito difícil para a TVU produzir diariamente quatro horas de programas. Nem as emissoras comerciais da cidade conseguem produzir tal quantidade. Pela relação contratual entre as duas instituições, a EBC, permissionária dos serviços de radiodifusão pública em Cuiabá, autoriza, com exclusividade, a UFMT a executar os mesmos serviços no município, na área de cobertura do canal 2, retransmitindo os sinais gerados da programação básica da TV Brasil, pela rede pública de televisão ou fazendo a inserção de programas locais. A programação local fica sob a responsabilidade de um Conselho de Programação com representação da EBC, da UFMT e da sociedade civil, estando suas decisões subordinadas às normas que regulamentam a EBC. Esse conselho ainda está sendo instituído, conforme relata o Secretário de Comunicação da UFMT, Diélcio Moreira: O nosso conselho curador é o conselho curador da EBC, porque a TV universitária canal 2 pertence, por decreto presidencial, à EBC. O conselho de programação vai ser instituído aqui. Estamos discutindo ainda como ele vai ser. A ideia é incluir os responsáveis pela televisão, o curso de comunicação social, as associações de audiovisual organizadas aí no mercado. Então está sendo discutido isso e nós devemos o mais rapidamente possível nomear esse conselho, a reitora deve nomear, convidar essas pessoas e instalar esse conselho. (MOREIRA, 2011). Segundo as regras do contrato (2010), ao Conselho de Programação compete: avaliar periodicamente a programação geral, de forma científica e racional, com o objetivo de torná-la diferenciada e competitiva; conduzir o processo de seleção e definição de novos programas locais; delinear sobre a realização de programas especiais; deliberar sobre propostas de coprodução local e licenciamento 125 de programas locais. Quando inexistir consenso nas matérias controvertidas, estas devem ser submetidas ao Comitê de Programação e Rede da EBC para apreciação. Para o atendimento das exigências técnicas legais necessárias à execução dos serviços, as duas instituições atuam de forma colaborativa. A UFMT se obriga a assumir as despesas relativas à instalação de novos equipamentos, manutenção e operação da estação geradora local, com funcionários ou prestadores de serviços e tarifas incidentes sobre o serviço, inclusive direitos autorais incidentes sobre o conteúdo dos programas locais. É da UFMT também a responsabilidade por danos ou prejuízos causados por ato da TVU. A EBC pode assumir alguns investimentos, que serão consignados em contrato separado e outros que, unilateralmente, entender pertinentes como forma de cooperação (TVU, 2009). A programação exibida pela TVU deve ser composta de programas gerados pela TV Brasil, constantes da grade de programação obrigatória a todas as emissoras da rede e por inserções de programas locais, por, no mínimo, 04 horas diárias. A programação local deve ser de produção própria da TVU ou de produtores independentes, sendo vedada a venda de espaço na grade. Caso não consiga produzir as quatro horas diárias, a dispensa da obrigação cabe ser decidida pela EBC, o que é o caso da TVU, que produz e veicula uma hora e trinta minutos de programação. As inserções de apoiadores ou patrocinadores da programação da Rede Nacional de Comunicação Pública – Televisão - RNCP/TV devem ser mantidas pela TVU. Por isso a UFMT tem o direito de receber, proporcionalmente à audiência da TVU em relação às demais emissoras da rede pública, repasse da verba recebida pela veiculação dos apoios e patrocínios da programação nacional. Essa proporcionalidade é calculada, pela EBC, em um e meio por cento (1,5 %) do rateio entre as emissoras que compõe a RNCP/TV. Dispõe ainda o contrato, que a TVU poderá inserir apoiadores locais, nos seus programas e nos nacionais transmitidos localmente, nestes últimos desde que submetidos à verificação da EBC, para evitar superposição de empresas concorrentes ou impróprias. O patrocínio e a publicidade institucional nos intervalos locais e nacionais (agora permitidos legalmente), não devem fazer comercialização de produtos ou serviços. 126 4.3 A TVU na contemporaneidade tecnológica As mudanças decorrentes de novas tecnologias têm chegado à TVU. Os seus equipamentos de produção são digitais, utilizando gravações em cartões e disco rígido (Hard disk), e ainda em fitas magnéticas (DVCAM). Os gravadores são também DVCAM e a edição de programas é feita agora em estações de trabalho indicadas pelo seu bom desempenho em produção e armazenagem. Fotografia 5 – Mesa de áudio, efeito e ilhas de edição não-linear Fonte – Acervo fotográfico do autor, 2012. Fotografia 6 – Três ilhas de edição não linear Fonte – Acervo fotográfico do autor, 2012. Em meio a esse equipamento de última geração, ainda subsistem e atendem as necessidades da TV velhos monitores, câmeras de estúdio, teleprompter, mesas de áudio e outras coisas menores. O pessoal técnico está desatualizado da nova 127 tecnologia, ficando subutilizado as workstations (ilhas não linear) e prejudicada a qualidade final da produção. Em matéria de qualidade podemos dizer que é aceitável para o jornalismo broadcast37 básico, sem grandes sofisticações. Mas as condições de produção da TVU ainda precisarão se adequar à TV digital. A qualidade da imagem digital é muito superior ao sinal analógico. Os detalhes mostrados pelo sinal digital impressionam pelo realismo reproduzido na televisão, muitas vezes superando até a própria realidade, com cores mais realçadas, precisão de foco e também cenários virtuais. O tamanho da tela aumenta em muitas polegadas sem perda de qualidade, como também muda seu aspecto, mais retangular, alargando-se lateralmente. A transmissão digital será feita na faixa de espectro em UHF e as emissoras deixarão de transmitir na faixa VHF baixa (canais 02 a 06). Para a TVU de Cuiabá está reservado um canal UHF para a implantação da TV digital, porém ainda não consignado pelo Ministério das Comunicações. O receptor da TVU para receber o sinal da TV Brasil é digital, mas a retransmissão ainda continua analógica. A emissora converte o sinal recebido e o retransmite para o canal 02 local, em VHF (analógico). Com a produção local também é a mesma coisa: a emissora produz em digital e transmite em analógico. A migração para a transmissão digital da TVU ainda está em fase de planejamento, a depender de iniciativas e do cronograma da concessionária EBC. A situação atual é contada pelo atual Supervisor da TVU, Benedito Alencar de Arruda, que assim relata: todo o parque de equipamentos dentro de estúdio, controle master, recepção, de receptor de satélite, questão do conversor do master, já agora, na remessa que vem, está todo adaptado para a mudança para digital, embora nós não vamos ainda transmitir a digital. Para não ter aquela questão de adaptação depois. O próprio transmissor nosso já tem módulos preparados para adaptação ao digital. Então já está mais ou menos encaminhado. Relembrando que a lei para a conversão para o sistema digital é 2016, junho de 2016. Até lá tudo terá que ser convertido para o digital. Então, a manter esse cronograma, nós estamos com boas perspectivas. E como a EBC, ela é front, ela atua como vanguarda nessa questão, até para dar o exemplo, porque a parte privada está resistindo muito à implantação da digital, porque é muito caro. Eles estão protelando a implantação, porque não é só você instalar uma antena, não. Todos os equipamentos internos têm que ser modificados. De câmera a controle master. Tudo isso é muito investimento. Além de tudo você não garante que vai ter uma recepção. Todo mundo vai ter que trocar 37 Termo para indicar material produzido para a televisão. 128 seus aparelhos ou adaptar seus aparelhos em casa. Então essa é uma das queixas dos empresários em deslanchar rapidamente a conversão do analógico para o digital. Já a EBC é obrigada, até por questão de princípios, de ser vanguarda nesta questão. Então por isso já estão todos os equipamentos novos adaptados para o digital, que assim que nós tenhamos o transmissor e a antena também, teremos que mudar também a antena, aí já fica mais fácil. (ARRUDA, 2011). Enquanto a TV digital ainda é perspectiva para o futuro, a Internet já é realidade na TVU. Ela utiliza da rede mundial de computadores (Internet) quando envia matérias, via protocolo FTP (File Transfer Protocol)38, para veiculação em rede nacional na programação da TV Brasil. Faz isso, em média, uma vez por semana. A UFMT é provedora de Internet e possui alta tecnologia de transmissão de dados. O uso da Internet para intercâmbio de programas também é feito pela TVU, através da RedeIFES, entre as TVs das IFES, mencionada anteriormente. A ideia atende ao princípio da TV pública de construção da cidadania através da educação. O sistema funciona perfeitamente, sendo possível fazer downloads e uploads numa taxa de transferência satisfatória, mas o pleno aproveitamento dessa rede ainda não se concretizou. Apesar do êxito tecnológico, a linguagem da maioria dos programas disponibilizados ainda é muito regionalizada, dificultando o seu encaixe na grade local. Mas, de qualquer forma, a RedeIFES é um projeto que viabiliza a divulgação do conhecimento e poderá contribuir para o aperfeiçoamento da produção de programas pelas emissoras universitárias, inclusive fazendo a introdução das TVs universitárias na contemporaneidade, disponibilizando no ciberespaço o conteúdo por elas produzido. A interatividade, fenômeno da contemporaneidade, ainda não pode ser implantada na programação da TVU, que funciona exclusivamente como transmissora sem retorno do telespectador. A interação se dá somente pelo telefone ou pela Internet. A TV Universidade mantém em funcionamento um site (TVU, 2011) com as informações de sua programação e disponibiliza diversas reportagens para os internautas, além de exibir a programação ao vivo pela Internet e disponibilizar o conteúdo produzido, por um portal a ser disponibilizado pela RedeIFES. A grande expectativa gira em torno da implantação da TV digital, cujo prazo limite para se efetivar expira em 2016. O projeto está sendo elaborado pela EBC, 38 Protocolo de Transferência de Arquivos. 129 que procura contemplar os telespectadores da rede pública com uma rede bem estruturada e sincronizada entre si. Mas por enquanto é só expectativa, saindo do âmbito desta pesquisa. 4.4 Peculiaridades da emissora universitária A televisão gerenciada por uma universidade federal traz características da sua condição. A TVU não tem personalidade jurídica própria e nem uma fundação exclusiva para sua administração. Ela é um órgão dentro da uma imensa instituição pública de ensino superior, a UFMT, que congrega a diversidade inerente à sua proposta social. Entre as vantagens pode ser destacada a infraestrutura da universidade, que colabora para a redução do custo da emissora. A UFMT oferece para a sua televisão todo o seu complexo administrativo, facilitando sobremaneira as atividades gerenciais da emissora, a exemplo do setor de recursos humanos, folha de pagamento, planejamento, cerimonial e muitos outros setores da universidade. A TVU conta com grande participação do curso de comunicação social da UFMT na produção de seus programas. Inúmeros estudantes passam pelos diversos setores da televisão, como estagiários ou bolsistas, contribuindo com disposição e criatividade. Professores do curso também fazem da TVU um órgão de apoio para experimentação e produção de conteúdo. Também para o conteúdo da programação existe uma ampla fonte de matérias dentro da universidade, local do conhecimento, das pesquisas e de atividades de extensão com o Estado de Mato Grosso e até com o exterior (a UFMT é pioneira no desenvolvimento da educação a distância, por exemplo). Essa universalidade é um grande facilitador para a produção de programas de interesse público e educativos, finalidade da emissora. O espaço físico disponível no campus da UFMT também facilita produções de programas em auditório, salas de aula, teatro e muitas outras áreas específicas, além de contar com o pessoal de apoio de cada setor. Entre as dificuldades inerentes às Instituições Federais de Ensino Superior (IFES) está o orçamento limitado e restrições a contratação de pessoal, serviços e compras. Esses são os principais motivos para que se fique muito aquém do que lhe é permitido inserir dentro da grade de programação. 130 Um fato exclusivo das TVs universitárias é que elas acompanham os movimentos das suas instituições: se a universidade vai bem, a TV também vai, mas se houver uma crise na instituição, ela atingirá também a sua televisão. Um exemplo típico, do qual fui testemunha por algumas vezes, ao longo do tempo em que lá trabalho, são os movimentos de paralisação dos servidores. Nas greves a TV também para, ao menos com a transmissão local, que é o que ocorre na UFMT. O orçamento da UFMT é feito de acordo com a disponibilidade de verbas a ela concedidas pelo Ministério da Educação. Nesse orçamento pouca coisa sobra para a televisão. Existem inúmeras prioridades para os gastos, tendo como máximas o ensino e a pesquisa. Em razão desse orçamento limitado a TVU ficou, e ainda fica, muitos anos a espera de novos equipamentos. O ritmo lento da burocracia estatal, precavido, muitas vezes inviabiliza soluções rápidas para os problemas diários de uma emissora de televisão, que opera em condições mínimas de funcionamento, sem equipamento reserva ou de reposição. A quebra de um aparelho, muitas vezes, leva dias ou semanas para o reparo. A dependência da TVU a setores administrativos da UFMT dificulta o dinamismo que se deve ter na televisão, tanto em compra de peças de reposição, como em novos equipamentos e contratação de profissionais para serviços especializados. Toda e qualquer solicitação da televisão tem o mesmo trâmite dos demais setores da instituição, que exige procedimentos licitatórios rígidos, os quais muitas vezes impossibilita, ou retarda por meses, a compra de equipamentos por demais específicos ou de apenas um fabricante. Assim também acontece com certos serviços realizados apenas por um profissional de Cuiabá ou de outra cidade. Acrescenta-se ainda o orçamento limitado da UFMT, priorizado para o ensino, pesquisa e a extensão. Durante os primeiros anos da TV Universidade, a mentalidade da academia estava mais voltada para o ensino, tinha certo desconhecimento da potencialidade e das necessidades de uma emissora de televisão. O planejamento da Universidade se sustentava em três pilares acadêmicos: ensino, pesquisa e extensão. Nesse caso, a televisão deveria se encaixar dentro de um desses setores. Aos poucos a TVU foi conquistando seu espaço na academia e se tornando um órgão diferenciado dentro da instituição, mostrando que suas peculiaridades podem enquadrá-la em categoria própria, como órgão de comunicação a serviço dos objetivos da instituição coincidentes com os da televisão pública, que é a construção da cidadania. 131 No balanço entre as situações positivas e negativas da televisão universitária, pode se admitir um resultado favorável à emissora, pois a academia traz muitas facilidades para a produção de conteúdo de valor, o que vem atender uma das principais características da TV pública, que é fazer uma programação que desperte o espírito crítico do telespectador. Outro fato importante a se ressaltar é que a televisão de uma instituição pública de ensino está circunstancialmente inscrita como emissora pública, com a mesma finalidade da organização a qual pertence. As dificuldades encontradas na universidade foram amenizadas com nova forma de administrar a TVU. Duas modificações alavancaram a emissora para um patamar acima em seu desenvolvimento: a criação da Secretaria de Comunicação na UFMT, em 2008 deu maior destaque para a televisão, valorizando seu papel dentro da instituição, como canal de interação com a sociedade; também a opção por ser uma emissora “preposta” da Empresa Brasil de Comunicação, trouxe um novo fôlego à TV Universidade, que agora conta com investimentos maiores, feitos pela permissionária EBC. 4.5 A TVU como TV pública Apesar de transmitir programação de interesse público, a emissora da Universidade Federal de Mato Grosso tem características que podem enquadrá-la como uma televisão ligada ao Estado, através da sua Instituição Federal de Ensino Superior – IFES. A orientação da TVU é dada pelas instâncias superiores da UFMT. Muitas pautas são originadas na Coordenação de Jornalismo e Imprensa ou na Secretaria de Comunicação e Multimeios da UFMT e a programação é construída internamente, sem participação de produtores externos. O orçamento da TVU é predominantemente constituído por verbas da UFMT. A Supervisão de TV sequer tem previsão orçamentária e somente é contemplada pela sua própria existência como parte da Coordenação de Jornalismo e Imprensa e Secretaria de Comunicação e Multimeios, ou eventualmente por outros setores da universidade em projetos específicos. Mais recentemente com a parceria firmada com a EBC, a TVU passou dela a receber alguns equipamentos e verba para manter uma equipe de reportagem. A emissora atua como um órgão funcional da UFMT e 132 produz matérias sobre a instituição e que, coincidentemente, pela natureza, são de interesse público. Com a reorganização da estrutura administrativa da UFMT, também é confirmado o compromisso da TVU com o público e estabelecido os seguintes princípios e objetivos para a emissora: garantia da pluralidade de conteúdo e de fontes de produção; o acesso do cidadão à informação plural para sua formação crítica; programação voltada para a educação, a cultura e a informação de interesse público; a participação da sociedade civil na gestão e na programação; a promoção da cultura regional em toda a sua diversidade; o incentivo à produção independente, entre outros. Nesse contexto, a TVU pode conquistar uma audiência cativa em Mato Grosso, sem renunciar aos seus princípios de oferecer uma programação diferenciada e de qualidade. (UFMT, 2012). O maior problema desse atrelamento aos planos e projetos da universidade é que ela perde a estabilidade na sua política de comunicação, ficando à mercê do administrador do turno e dos funcionários do momento. Enquanto emissora estatal, suas transformações são lentas e sua programação é alheia à concorrência e despreocupada com a audiência. Mas o fato de estar ligada à uma instituição federal de ensino a beneficia no sentido de usufruir de todo o conhecimento existente dentro da academia, podendo dela extrair uma programação de alto valor educacional, o que vem ao encontro de um dos principais objetivos da TV pública que é o de suprir o espectador de informações importantes para seu aperfeiçoamento como indivíduo social. A análise do caráter público de uma emissora de televisão passa obrigatoriamente pela verificação do conteúdo de sua programação, pois essa é a razão de existir de uma televisão, transmitir programas audiovisuais para o grande público. A programação veiculada pela TVU é formada em quase sua totalidade pelos programas da TV Brasil. Para dizer se a TVU tem caráter público, primeiro é preciso analisar se a cabeça da Rede, a TV Brasil, pode ser considerada uma emissora pública de televisão. Uma matéria veiculado no programa “O Público na TV” 39, produzido pela Ouvidoria da EBC, relata bem a produção da TV Brasil: A TV Brasil transmite 20 horas diárias40 de conteúdos informativos, educativos, culturais, científicos que chegam, total ou parcialmente, a 24 Estados e ao Distrito Federal pela Rede de Emissoras Públicas. Há dois anos, com a renovação de vinte e cinco por cento da grade 39 40 Apresentação Regina Lima. Agora é 24 horas no ar. 133 de programação, a TV Brasil leva aos lares brasileiros 13 programas jornalísticos e 17 documentários, que valorizam a diversidade do país. A grade conta também com sete programas musicais, 11 culturais e quatro programas que atendem especificamente a cinéfilos e amantes da dramaturgia. O público infanto-juvenil tem seis horas de programação diárias. A cidadania é contemplada com quatorze programas e os temas educação e esporte contam com mais 11 programas. (EBC, 2011). É importante verificar as principais características das emissoras públicas dentro do seu conteúdo programático, observado o princípio constitucional da complementaridade com os demais setores - privado e estatal. 4.5.1 Programação construtiva Forte característica da TV pública é seu compromisso com a construção da cidadania. Teóricos latinos como Martín-Barbero, Germán Rey e Omar Rincón (RINCÓN, 2002, p. 30) são categóricos em selecionar essa premissa como condição sine qua non para o pleno exercício da televisão pública. Programas de qualidade, que despertem a consciência crítica do cidadão, que eduquem e informem plenamente o telespectador são a base das TVs públicas. Ao assistir a programação da TV Brasil se vê claramente essa característica. Os programas têm conteúdo de alto valor socioeducativo dentro de grande variedade de gêneros. A programação infantil é ponto forte da emissora, que utiliza das séries premiadas da TV Cultura, como o “Castelo Ra Tim Bum” ou os desenhos animados que possuem a condição de serem educativos, livres da violência apelativa das televisões comerciais, sem esquecer-se das séries brasileiras como "O Menino Maluquinho"e "A Turma do Pererê". Os programas para a faixa jovem também sobressaem na programação, com linguagem inovadora, moldados dentro de bons princípios morais. Os programas de música procuram dar oportunidade às pequenas bandas ou músicos talentosos excluídos das grandes emissoras comerciais. A TV Brasil traz também para o debate público temas de relevância na sociedade, principalmente os de repercussão entre os jovens, que precisam ser esclarecidos sobre tabus, preconceitos e saúde. A programação para a faixa adulta da população, também, é de alta qualidade. Há programas de muitos anos, como o “Roda Viva”, gerado pela TV Cultura de São Paulo, dentro de formato único nas televisões brasileiras, pelo qual o 134 entrevistado, sempre uma personalidade de relevante valor social, fica no centro de uma roda de jornalistas e representantes da sociedade respondendo às questões de sua área de atuação e de interesse nacional e internacional. Outro programa único na televisão brasileira, desde 2005 no ar, o “Observatório da Imprensa”41, é a versão televisiva do site criado pelo Labjor Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp – que analisa o desempenho da mídia brasileira, caso único de um veículo originário da Internet converter-se num veículo de massas. O Observatório da Imprensa é interativo e seu público participa por telefone ou e-mail, além de votarem pelo site em pesquisa sobre o tema a ser tratado naquela semana. O programa é produzido e gerado pelo Rio de Janeiro. Apresentado o tema, por uma reportagem, convidados especialistas o comentam, via Embratel, das principais capitais brasileiras e, pela Internet, das mais importantes cidades do mundo (TV BRASIL, 2011). O Observatório da Imprensa é um instrumento estratégico no processo de aumentar o grau de participação da sociedade brasileira em tudo o que lhe concerne. E tem sido um valioso estímulo para as discussões internas que hoje converteram-se em rotina nas redações. O programa instiga o avanço na qualidade do jornalismo brasileiro e na atitude crítica do público diante da imprensa. Os telejornais da TV Brasil também se adequam a veiculação de conteúdo de valor informativo, excluindo matérias sensacionalistas ou apelativas. O telejornal da noite “Repórter Brasil” segue linha editorial sóbria e imparcial, como deve ser o jornalismo público. A TV Brasil veicula inúmeros documentários, inclusive alguns da BBC, e programas musicais explorando a música brasileira e a chamada música erudita. A emissora também transmite produções independentes e realiza diversos concursos de projeto e produção de programas para serem veiculados pela rede pública de televisão. Enfim, toda a programação da TV Brasil tem relevo na formação da cidadania. Na TVU, o telejornalismo é pautado com matérias de relevância científica e educacional. A maioria da pauta é de eventos da Universidade Federal, que, por ser uma instituição pública de ensino superior, traz nos seus propósitos sempre a educação e pesquisa como base de suas atividades, o que repercute na qualidade 41 apresentação Alberto Dines. 135 das matérias produzidas na TVU. As realizações da UFMT, além de serem divulgadas pela TVU, servem de pauta para todas as emissoras de televisão locais. A TVU retransmite mais de noventa por cento dos programas da TV Brasil, e insere uma programação local, também de conteúdo com relevante valor sociocultural. Ao longo de sua existência a TV Universidade pautou sua linha de programação de acordo com o seu projeto inicial de uma televisão educativa e cultural e ao mesmo tempo divulgou as atividades da UFMT. Como demonstrado no item anterior, sobre os programas da TVU, a sua linha segue as diretrizes traçadas na sua proposta inicial de produzir programas culturais e informativos, com isso contribuindo para a formação do cidadão cuiabano e matogrossense. Portanto, em relação à programação da TVU, pode se dizer que ela é típica de uma TV pública. 4.5.2 Programação abrangente – Televisão pluralista A programação da TV Brasil procura atingir a diversidade cultural brasileira de forma democrática e pluralista. Para isso existe uma vasta gama de programas, dos mais variados gêneros. Existem projetos específicos para oportunizar as culturas regionais do país de se apresentarem para o grande público, para a massa, através da TV Brasil. Um exemplo bem sucedido desta experiência é o DOCTV, uma iniciativa das TVs públicas (ABEPEC), com aval do Ministério da Cultura e sua Secretaria do Audiovisual (SAv), capitaneadas pelo Setor de Documentários da TV Cultura de São Paulo (Fundação Padre Anchieta), e auxiliada pela Associação Brasileira de Documentaristas (ABD). Pelo DOCTV é oferecido aos produtores independentes de todos os estados brasileiros um concurso de projeto e coprodução de documentários exibidos pela rede pública de televisão e comercializados no mercado audiovisual. Em cada Estado, a TV pública local é responsável pela realização do concurso, inclusive entrando com contrapartida de aproximadamente 20 % do prêmio. Nas quatro edições, o concurso de documentários DOCTV foi realizado da forma democrática, restringindo-se as exigências do edital às questões técnicas da televisão, como formato de vídeo, áudio, duração, para se ajustar ao padrão broadcast. O tema dos documentários é sobre a cultura local e a escolha do vencedor se faz através de uma comissão, formada por cinco membros ligados à 136 cultura audiovisual do estado participante. Alguns estados foram contemplados com dois documentários outros com um, dependendo do volume de produção de cada. O DOCTV se estendeu além das fronteiras nacional e abriu concurso para os países da América Latina e aos de língua portuguesa, buscando documentar as ligações culturais do Brasil com os seus vizinhos e com os de semelhança de linguagem. A parceria com o Ministério da Cultura, através da Secretaria do Audiovisual (SAv) é iniciativa estratégica para alcançar maior abrangência dentro da diversidade cultural brasileira. Anualmente a SAv publica diversos editais para produção de programas a serem veiculados nas TVs públicas. Outro exemplo marcante neste aspecto foi o I Programa de Fomento à Produção e Teledifusão de Séries de Animação Brasileiras– ANIMATV, um programa da Secretaria do Audiovisual e da Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Empresa Brasil de Comunicação – TV Brasil, Fundação Padre Anchieta – TV Cultura, Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais – ABEPEC, com o apoio institucional da Associação Brasileira de Cinema de Animação – ABCA. Como o nome do programa diz, o ANIMATV é um concurso público para a produção de séries de animação a serem veiculados pela rede pública de televisão. O concurso foi um grande estímulo para a produção de animação no país, árido campo de trabalho, de alto custo e pouco investimento. Pela primeira vez na história do audiovisual brasileiro, foi aberta oportunidade aos produtores de filmes de animação para fazerem grandes produções em desenho animado ou animação 3D. Muitos outros concursos são realizados anualmente, contemplando os segmentos relegados para segundo plano pelas emissoras comerciais. No momento em que escrevo, passa uma longa matéria no telejornal “Repórter Brasil” sobre os jogos parapanamericanos, evento pouco divulgado pelas emissoras comerciais. Na rede pública também existe a iniciativa de divulgar as diferentes etnias que formam a cultura brasileira, os afro-descentes e os indígenas são participantes frequentes da programação da TV Brasil. Essa mesma política é adotada pela TV Universidade, que tem dado visualidade às minorias rejeitadas pelas TVs comerciais, oportunizando a elas reivindicarem seus direitos, apresentarem sua arte e defenderem suas opções. 137 Também recursos audiovisuais para deficientes auditivos são usados ao longo de programação da rede pública, inclusive reservando um telejornal para esse segmento, o “Jornal Visual”. A programação gerada pela TV Brasil para a rede pública de televisão contempla a diversidade cultural brasileira. Nesse quesito podemos afirmar que a TV Brasil cumpre o seu papel de emissora pública de televisão. 4.5.3 Programação inovadora A linguagem de televisão brasileira está consolidada pelas fórmulas criadas pelas emissoras comerciais, que colocaram esse meio de comunicação massiva a serviço do capital, por questão da própria sobrevivência. A partir dessas fórmulas a televisão procura captar o maior número de telespectadores. São procedimentos estáveis que visam manter o telespectador dentro de sua expectativa, sem sobressalto, relaxado, apenas absorto na mensagem. Inovar na linguagem televisiva comercial significa arriscar, o que é mais propício a quem não tem muito a perder. Em razão disso muitos programas de sucesso nas grandes redes surgem em pequenas emissoras, a exemplo do “Domingão do Faustão”, agora sucesso da TV Globo, antes era uma pequena produção com o nome “Perdidos na Noite” que estreou pela Rede Gazeta, depois transferido para a TV Record, e depois em rede nacional pela Rede Bandeirantes até chegar à Globo (WIKIPÉDIA, 2011). Boa parte dos programas da TV Brasil tem linguagem própria, fora dos padrões das grandes redes comerciais. Geralmente se usa inovação nos programas para os jovens, a exemplo do “Aglomerado”42, uma parceria entre a TV Brasil e Central Única das Favelas (Cufa), gravado embaixo do viaduto de Madureira, no coração do subúrbio carioca, está sintonizado com a cultura que surge nas ruas. O programa traz entretenimento, conteúdo e informação deste universo urbano, recebe público, convidados e artistas em entrevistas e números musicais. O programa é permeado por matérias e quadros com o objetivo de abrir um canal de informações sobre ações sociais, educacionais, ecologia, humor, arte, gastronomia, esportes. Outro local de gravação inusitado foi no programa "Atitude no Telhado", derivado do "Atitude.com", exibido pela antiga TVE Brasil, cuja gravação era feita em 42 apresentação Nega Gizza e MV Bill. 138 cima de uma laje, ao ar livre, onde ao fundo se viam os arcos de Santa Tereza, no Rio de Janeiro. Era um programa para jovens, com apresentações e entrevistas com bandas de pop-rock e similares. Diversos outros programas saíram dos estúdios indo ter como cenário o ambiente no qual está circunscrito o seu conteúdo, o seu gênero. Nas gravações de estúdios a TV Brasil inova nos temas tratados nos seus programas. Também o programa “Comentário Geral”, apresentado por Luiza Sarmento, tem estilo único, no qual o tema para cada programa é uma determinada palavra. Uma “revista eletrônica” temática, desenvolvida a partir de uma palavra ou expressão e de seus mais diversos desdobramentos, que conduz o espectador a refletir sobre uma palavra. Cada episódio conta com um mosaico de VTs que contém comentários de artistas, intelectuais, especialistas e pessoas comuns que têm proximidade com o tema do dia (TV Brasil, 2011). A criatividade vem sendo mostrada na programação da TV Brasil, cumprindo assim um papel de busca por novas formas de se fazer pensar. A linguagem inovadora deve ser a forma predominante de produção dos programas da TV pública, mas sempre com o objetivo de conquistar, com ela, grandes audiências. Por isso, a rede pública de televisão utiliza, também, de alguns formatos usados pelas TVs comerciais, inclusive lançando mão das minisséries, unindo a história com o melodrama, a exemplo da série “Equador”, produzida em 30 capítulos, envolvendo 120 atores, quase 500 técnicos, milhares de figurantes e produzida pela TVI – Televisão Independente de Portugal. A série é baseada no livro homônimo do escritor e jornalista Miguel Sousa Tavares, sucesso de público da televisão portuguesa (TV Brasil, 2011). Muitos documentários da BBC também são veiculados pela TV Brasil para a rede pública de televisão, com a linguagem clássica dos documentários, porém com a qualidade de conteúdo que uma TV pública deve ter. No caso, a qualidade de conteúdo é determinada pelos parâmetros da TV pública, ou seja, programação educativa e auxiliar na formação de cidadãos aptos a decidirem pelo melhor caminho para o desenvolvimento da sociedade. 139 4.5.4 Comunicação massiva Atingir um alto número de telespectadores deve ser a meta de toda TV aberta, tanto as comerciais, como as estatais, públicas, educativas, culturais, religiosas e legislativas, cada qual com sua razão ideológica particular. A TV aberta é gratuita e, por isso mesmo é por onde circulam os sinais mais propagados pelo meio televisão, chegando a todos os lares que possuem televisor. Esse é o tipo de sinal que devem ter as emissoras públicas de televisão, pois só através dele se alcança todas as classes sociais, principalmente a menos favorecida pelas TVs a cabos, via satélite e até a Internet. Mas alcançar essa ampla receptividade também vem a ser o grande problema da rede pública de televisão do Brasil. A audiência das emissoras públicas e educativas é baixíssima. Os índices divulgados pelos institutos de pesquisa mostram que em torno de 2% da população assistem as emissoras da rede pública, em alguns casos o índice é apenas traço (-). O fato tem diversas causas, dentre as quais seleciono a histórica como uma das principais. Na história da televisão brasileira, as emissoras educativas apareceram nos anos 1970, ou seja, vinte anos depois da consolidação de um sistema de uso comercial da mídia. O grande público aprendeu a ver TV como algo relaxante e lúdico. O mundo lúdico, citado por François Jost (2010), é o que prevaleu na televisão brasileira, desde os seus primórdios. Jogos, músicas, entretenimento, brincadeiras, comédias era o que de melhor se fazia na TV, até o surgimento das aulas pela televisão. As TVs educativas brasileiras foram instituídas com a proibição de atuarem nesse mundo lúdico em que operavam as demais emissoras do país. As TVs educativas surgiram falando uma linguagem diferente da usada pelas outras emissoras. Elas nasceram com o estigma de serem emissoras chatas, nas quais só se podia assistir aulas ou oradores. Tal mito foi construído por força de Decreto 236/67, que ao instituir as TVs educativas restringiu suas transmissões a aulas, conferências, palestras e debates. Como bem lembrou HOINEFF pode parecer a uma grande parte dos espectadores que a televisão pública não é nada mais do que residual. O problema é que o mercado também tem a mesma percepção, o que afeta diretamente 140 tanto os modelos de produção como os mecanismos de criação da TV pública. (HOINEFF, 2003, p. 41). Então, o caráter secundário com que surgiram as TVs educativas no país levou ao afastamento de possíveis investidores da TV pública e até mesmo um sistema de autofinanciamento que a libertasse da dependência estatal. No caso particular da TVU de Cuiabá, bem como em muitas outras associadas à rede pública, herdeiras da baixa audiência histórica e do parco financiamento, outro fator a diminuir a audiência é a baixa qualidade da transmissão, em parte como consequência financeira, mas também pela falta de equipamentos e pessoal especializado. Como foi relatado no histórico da TVU, a transmissão local nunca alcançou a excelência em qualidade. A falta de financiamento levou a produção da TVU a improvisar, frente a ausência de estrutura adequada. Poucos equipamentos de reserva, instalações elétricas instáveis e número insuficiente de técnicos especializados para manutenção permanente do sinal, tem a impedido conquistar e manter uma boa qualidade da transmissão. A luta pela melhoria do sinal sempre foi meta inalcançada pela TVU, que só há pouco tempo, sob uma nova forma de gestão, em associação à EBC, pode ver seu sinal ampliado para 5 kW, com o novo transmissor adquirido pela empresa pública, mas que ainda encontra problemas periódicos de manutenção. Outra causa da baixa audiência deve-se também ao fato da proliferação de novos canais e novas mídias que vem reduzindo drasticamente o uso da TV aberta. 4.5.5 Autonomia A independência em relação ao poder estatal ou do mercado é a forma como a TV pública pode direcionar seus programas para o objetivo primordial de dar subsídios ao cidadão no seu posicionamento social. As emissoras da rede pública brasileira têm procurado instituir essa autonomia através do uso de um conselho representativo da sociedade, a exemplo da britânica BBC, a TV pública modelo. Como exposto no capítulo anterior, a EBC possui seu Conselho Curador que delibera sobre a sua programação. Esse conselho, formado por brasileiros “de reputação ilibada e reconhecido espírito público”, tem a maioria (15 de 22) escolhida 141 “segundo critérios de diversidade cultural e pluralidade de experiências profissionais, sendo que cada uma das regiões do Brasil deverá ser representada por pelo menos 1 (um) conselheiro”, conforme determina o art. 15, IV, lei 11.652/2008 (BRASIL, 2008). A legislação também determina a autonomia da TV em relação ao Governo Federal para definir produção, programação e distribuição de conteúdo na rede pública de televisão (art. 2º, lei 11.652/2008). A autonomia é visível nos programas da TV Brasil, cujo conteúdo está além da promoção do ente mantenedor. A linha programática é bem distribuída procurando abranger todos os segmentos da sociedade. A programação da TV Cultura de São Paulo vem de longa data sendo elaborada pelo seu Conselho Curador, de ampla representatividade da sociedade. Das emissoras brasileiras é a que mais se aproximava da autonomia almejada por todas. Agora a TV pública nos é dada pelo Governo Federal, com a criação da TV Brasil e o reconhecimento legal de uma rede pública de radiodifusão. Por certo que, em tempo de paz, a autonomia é fácil de existir. Mais difícil é poder afirmá-la em momentos de exceção, que felizmente o país superou há pouco mais de duas décadas. Mas a dependência financeira ainda é entrave para realmente se proclamar totalmente autônoma. O financiamento da TV Brasil é totalmente subsidiado pelo Governo Federal e os membros da diretoria devem ser aprovados pelo Presidente da República. No caso da TVU essa autonomia ainda é mais dificultada, pois a programação local é estabelecida de acordo com a capacidade de produção da emissora e muitas vezes pelo interesse da instituição. Pelo contrato com a EBC, a TVU se obriga a manter um conselho de programação, que represente os anseios da sociedade local. Esse órgao, ainda em formação, será constituído em sua maioria por membros da UFMT, o que leva a colocar em dúvida a sua independência em relação ao conteúdo produzido pela TVU. A autonomia na definição da programação da TVU está mais no compromisso democrático de seus dirigentes do que na sua formação estatutária. Na elaboração dos programas sempre se leva em conta os princípios que norteiam as TVs públicas. 142 Considerações finais O meu objetivo nesse trabalho foi pensar a TV pública brasileira na contemporaneidade com ênfase para a TV Universidade, da Universidade Federal de Mato Grosso. Ao longo da pesquisa investiguei a formação da televisão pública no país, com a criação da TV Brasil e a rede de emissoras por ela comandada. Usei como foco nessa ramificação a TVU de Cuiabá. A questão “A TVU segue todos os princípios e cumpre os objetivos de uma emissora pública de televisão?” funcionou como uma espécie de fio condutor da análise do tema proposto. Essa questão foi investigada no contexto atual da cibercultura e suas novas tecnologias observando-se a integração da TVU nesse novo ambiente tecnocultural, composto pelas novas formas de transmissão trazidas com a tecnologia digital, que são a TV Digital, a Internet e o celular. A televisão se tornou desde o século passado importante instrumento de mudança na cultura das sociedades organizadas do planeta. Através dela a grande maioria das pessoas pode ampliar seu conhecimento do mundo em que vive. A televisão ajudou a romper preconceitos e promover avanço em diversas áreas do conhecimento, principalmente o popular. Mas não só de glórias ela pode ser coroada. Assim como traz benefícios, também, influencia negativamente as pessoas com pouca visão crítica, que acreditam em tudo que vêem e ouvem, muitas vezes caindo em manipulação ideológica ou comercial. No Brasil, a televisão surgiu com intenções comerciais frente ao telespectador, em detrimento de suas possibilidades educativas e culturais. Ela se firmou como uma máquina de distração e relaxamento, tendo para isso todo um favorecimento político durante décadas. Objetivos mais dignos para a televisão só foram introduzidos com o aparecimento das TVs estatais (entenda-se aqui as das universidades também), as quais, ante a sólida cultura lúdica implantada anteriormente, tiveram e ainda têm enorme dificuldade em mudar o gosto do telespectador brasileiro. Somam-se ainda, para o fracasso de audiência, o baixo orçamento a elas reservado e o desvio de finalidade (para satisfação do “governante da vez”). A solução para a comunidade dessas televisões estatais vinha apontando para a criação de uma TV pública, mais autônoma e democrática. 143 A TV pública no Brasil é uma ideia mais recente, de cerca de uma década e meia, que apareceu institucionalizada legalmente na última metade desse tempo. Se comparada às sexagenárias emissoras comerciais, a TV pública é recém-nascida de uma gestação que demorou bastante tempo. Podemos dizer que 2008 é o ano em que se implantou legalmente o sistema público de radiodifusão no país, com a criação da EBC e a TV Brasil. Até então havia televisões educativas autointituladas públicas, mas em verdade, quase todas eram e ainda são emissoras com forte ingerência do Estado ou da Instituição mantenedora. A exceção foi a TV Cultura de São Paulo, que ao longo de sua existência sempre pugnou por ser TV pública, mesmo sendo mantida pelo governo do seu estado, o que ocorre com as demais emissoras estaduais. A legislação anterior a 2008 sequer mencionava sobre um sistema público de radiodifusão, embora a Constituição de 1988 tenha previsto, no seu artigo 223, a complementaridade entre o sistema privado, público e estatal, porém, como norma geral, exigia regulamentação legal, o que levou duas décadas para acontecer. Após a Constituição, as emissoras educativas e culturais dos Estados e da União começaram a se visualizarem públicas, ao menos no aspecto do conteúdo. Essas emissoras se uniram e pavimentaram a estrada para o reconhecimento legal das emissoras públicas de televisão. Vinte anos após a previsão constitucional, a TV pública é instituída para complementar a programação comercial. A lei 11.652/2008 regulamentou a matéria sobre a televisão pública brasileira, com seus princípios, objetivos e características. A Lei da TV pública foi fruto de reivindicação das emissoras educativas, que se recusaram a seguir as regras massacrantes da legislação anterior (Dec.236/1967); se organizaram e estabeleceram os ideais de como deveria ser a rede pública no Brasil. As novas regras estão agora estabelecidas, atendendo reivindicações dos representantes das emissoras comprometidas com a construção da cidadania. Porém a lei por si só é insuficiente para se consolidar um sistema público de radiodifusão, em toda a sua plenitude. A rede pública de televisão tem desempenhado a contento algumas de suas atribuições na edificação de um sistema democrático de comunicação, porém existem objetivos ainda difíceis de serem alcançados. A independência frente ao 144 Estado e a participação popular são objetivos ainda muito distantes das emissoras públicas brasileiras. Pela experiência na TVU, pude ver a maioria das emissoras da rede pública se caracterizar como um “híbrido” de educativa, cultural, pública e estatal. Pelos seus princípios estão elas comprometidas com a educação e cultura, no cumprimento de seu objetivo de construir a plena cidadania, a custas do Estado que as mantém inclusive administrativamente. A TV pública brasileira se caracteriza como tal por força de seu conteúdo de programação mais do que pela gestão. O fato de quase todas, estatais e universitárias de canal aberto, estarem vinculadas a entes públicos lhes gera um caráter público imanente. Um grande obstáculo a ser superado é a forma de financiamento para a TV pública brasileira. A sua submissão ao financiamento estatal a prende à boa vontade do seu "patrocinador". Um sistema de receitas independente do governo federal ou estadual, conforme o caso, é importante passo para alcançar a autonomia total e, com certeza, continuará sendo a busca constante de todos os que aspiram a TV pública "cidadã". O quantum desse financiamento também é outro problema a ser superado. O valor do orçamento da TV pública é irrisório, deixando-a muito aquém de obter condições técnicas e humanas para ganhar audiência. Isso preocupa também no aspecto da migração digital, que demanda soma expressiva de dinheiro. A TV digital pode vir a ser a grande chance para as emissoras públicas alcançarem audiência satisfatória para a eficácia de seu objetivo deontológico, comprometido com o desenvolvimento social do país. Importante passo foi dado com a criação da EBC, instituindo a TV Brasil como emissora pública de radiodifusão e destinando uma boa estrutura para sua consolidação. A TV Brasil desempenha seu papel satisfatoriamente, veicula programas de alto valor cultural e científico, porém deixa a desejar quanto à sua abrangência social, dada a sua baixa audiência. A programação da rede pública de televisão, de caráter educativo e cultural, tem uma grande rejeição pela população, acostumada a “digestão rápida e divertida” dos programas das emissoras comerciais. A conquista da audiência obrigatoriamente enfrenta esse problema, o que leva as emissoras públicas a produzirem o conteúdo educativo-cultural na mesma linguagem das comerciais. Por certo existem bons exemplos a serem seguidos nas emissoras privadas, de 145 programas que trabalham dialogicamente com o público, trazendo-lhe subsídio para um debate social sobre temas controvertidos. Isso a TV pública deve seguir, sabendo inserir na sua programação educativa a emoção, a paixão e o desejo de interagir. A TV pública precisa entrar em comunhão com o telespectador, partilhando com ele uma intimidade cativante, pela qual se identifica o povo brasileiro, com seus costumes e tradições. Aos que fazem a TV pública é importante estarem atentos nessa busca por audiência, para evitar a prática de exploração do grotesco ou de amenidades vazias e, consequentemente, sacrificar um aprofundamento do tema tratado. Os programas da rede pública de televisão devem procurar audiência, sim, mas com técnicas que preservam a boa qualidade didática e cultural do produto exibido. Acima da preocupação em conquistar audiência a TV pública deve dar voz aos nichos culturais abandonados pelas emissoras comerciais. A massa se dissipou com o surgimento das novas mídias e nelas deve se integrar a TV pública possibilitando assim a interação com os milhares de fragmentos liberados da cultura massiva, a fim de alcançar efetiva participação no espaço público. A TVU ao longo de sua existência sempre manteve esse “espírito” público. Desde a sua implantação, quando traçou seus princípios, objetivou catalisar forças no sentido de valorizar a cultura brasileira e matogrossense, o que vem fazendo, desde então, na sua produção local. Quando considerada do ponto de vista de sua eficácia, a TVU é uma emissora pública que apresenta uma série de problemas. Primeiramente por enfrentar dificuldades extremas de orçamento, causando grande perda de qualidade no seu sinal transmitido e, em consequência, baixa audiência e desinteresse da população em participar da construção desse canal de divulgação da cultura local. Essa precariedade financeira atinge também as suas produções, limitadas em número de profissionais, locações, cenários, equipamentos, efeitos, sonorização, iluminação entre tantos quesitos necessários para se produzir televisão. Por outro lado, a TVU tem a vantagem de ter o universal ao seu alcance, por se tratar de uma emissora administrada por uma universidade. O que ao mesmo tempo a torna estatal - por transmitir conteúdo relativo a institução a qual pertence -, também a faz pública por ter esse conteúdo sempre valor de interesse público, emanado de uma instituição pública de ensino superior. 146 A complementaridade vem sendo aplicada na programação da TV pública em Cuiabá, tanto nos programas da rede como nos locais. Assuntos mais científicos e de utilidade pública fazem parte da programação da TVU. O pluralismo também é obedecido, oportunizando às minorias – desprezadas pelas emissoras comerciais - mostrar suas reivindicações e talento no canal público de Cuiabá. O domínio da transmissão digital, com sua possibilidade de mobilidade, interatividade e multiprogramação, ainda está longe de ser alcançado, com o prazo limite se expirando em 2016, mas certamente a transmissão digital poderá ser a grande oportunidade para obtenção da tão almejada qualidade técnica. Considerando os aspectos positivos e negativos da TV pública no Brasil, mencionados nessas considerações finais, pode-se dizer que ao longo dos anos a TVU como emissora pública vem conquistando seu espaço na academia e se tornando um órgão diferenciado dentro da instituição. Suas peculiaridades podem enquadrá-la em categoria própria, como órgão de comunicação a serviço dos objetivos da instituição, coincidentes com os da televisão pública, principalmente o da construção da cidadania. Este objetivo é contemplado na programação da TVU que segue as diretrizes traçadas na proposta inicial de produzir programas culturais e informativos e contribui para a formação do cidadão cuiabano e matogrossense. Portanto, do ponto de vista da sua programação pode-se dizer que a TVU realiza os objetivos de uma TV pública. Devemos entender que a TV pública é uma nova televisão, que ainda vai demandar muitos anos, até décadas, para se consolidar como a TV ideal, mas o importante que está aí a planta desabrochada em Cuiabá, vinda de uma semente de longa germinação e já traz frutos, mas que a longo prazo propiciará uma grande colheita. Agora deve todo cidadão cuidar do crescimento de algo relevante para o desenvolvimento humano em toda a sua plenitude de vida. 147 REFERÊNCIAS ABEPEC Associação Brasileira de Emissoras Públicas, Educativas e Culturais. Conheça a ABEPEC. Disponível no site <HTTP://www.abepec.com.br/?pg=tx&id=1&title=CONHEÇA A ABEPEC>. Acesso em: 24 outubro 2011 ______ Princípios. Disponível no site <http://www.abepec.com.br/?pg=txt&id=4&title=PRINCÍPIOS>. Acesso em: 24 outubro 2011 ADORNO, Theodor Wesengrund; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. São Paulo: Zahar, 1985. ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos do Estado. 3. Ed. Lisboa, Presença, 1980 apud SANTOS, Roberto Elísio dos. As teorias da comunicação – Da fala à internet. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2010. ARAÚJO, Valéria Maria Vilas Boas. TV pública no Brasil: história, regulamentação e a criação da TV Brasil. 2008. Disponível em <http://www.tverealidade.facom.ufba.br/coloquio%20textos/Valeria%20Vilas%20Boa s.pdf>. Acesso em: 24/11/2011. ARENDT, Hannah. A condição humana. 10ª ed. Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2007. ARRUDA, Benedito Alencar de. Benedito Alencar de Arruda: depoimento (16 dezembro 2011, 10h23min). Entrevistador: Nilo Alves Bezerra. Cuiabá, 2011. BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997. BRANDÃO, Cristina. As Primeiras Produções Teleficcionais in RIBEIRO, Ana Paula Goulart; SACRAMENTO, Igor; ROXO, Marco (Org.). História da Televisão no Brasil, p. 34-54. São Paulo: Contexto, 2010. BRASIL. Constitução Federal, de 31 de outubro de 1988. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 28 fevereiro 2011. ______ Decreto-Lei nº 236, de 28 de fevereiro de 1967. Complementa e modifica a Lei número 4.117 de 27 de agosto de 1962, que institui o Código Brasileiro de Telecomunicações. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 03 março 2011. ______ Decreto nº 5.820, de 29 de junho de 2006. Dispõe sobre a implantação do SBTVD-T, estabelece diretrizes para a transição do sistema de transmissão analógica para o sistema de transmissão digital do serviço de radiodifusão de sons e imagens e do serviço de retransmissão de televisão, e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. 148 ______ Decreto nº 6.689, DE 11 de dezembro de 2008. Aprova o Estatuto Social da Empresa Brasil de Comunicação S.A. - EBC e revoga o art. 4o do Decreto no 6.246, 24 de outubro de 2007. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Lei 4.117, de 2/08/1962. Institui o Código Nacional de Telecomunicações. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 03 março 2011. ______ Lei 6.301, de 15 de dezembro de 1975. Institui política de exploração de serviço de radiodifusão de emissoras oficiais, autoriza o Poder Executivo a constituir a Empresa Brasileira de Radiodifusão - RADIOBRÁS, e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 03 março 2011. ______ Lei nº 7.505, de 02 de julho de 1986. Dispõe sobre benefícios fiscais na área do imposto de renda concedidos a operações de caráter cultural ou artístico. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Lei nº 8.029, de 12 de abril de 1990. Dispõe sobre a extinção e dissolução de entidades da administração Pública Federal, e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Lei nº 8.313, de 23 de dezembro de 1991. Restabelece princípios da Lei n° 7.505, de 2 de julho de 1986, institui o Programa Nacional de Apoio à Cultura (Pronac) e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Lei nº 8.977, de 06 de janeiro de 1995. Dispõe sobre o Serviço de TV a Cabo e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Lei nº 9.637, de 15 de maio de 1998. Dispõe sobre a qualificação de entidades como organizações sociais, a criação do Programa Nacional de Publicização, a extinção dos órgãos e entidades que menciona e a absorção de suas atividades por organizações sociais, e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Lei nº 11.652, de 7 de abril de 2008. Institui os princípios e objetivos dos serviços de radiodifusão pública explorados pelo Poder Executivo ou outorgados a entidades de sua administração indireta; autoriza o Poder Executivo a constituir a Empresa Brasil de Comunicação – EBC; altera a Lei no 5.070, de 7 de julho de 1966; e dá outras providências. Disponível em: <HTTP://www.planalto.gov.br/legislacao>. Acesso em: 12 outubro 2011. ______ Ministério das Comunicações. Portaria 24, de 11 de fevereiro de 2009, aprova a Norma Geral para Execução dos Serviços de Televisão Pública Digital nº 01/2009. Disponível em: < http://www.mc.gov.br/tv-digital/servico-de-tv-publicadigital>. Acesso em: 12 janeiro 2012. 149 ______ Ministério da Cultura. Políticas, Programas e Ações – Audiovisual – Fórum das TVs Públicas. Disponível no site <http://www.cultura.gov.br/site/2007/11/12/7217/>. Acesso em: 03/01/2012 BUCCI, Eugênio; KEHL, Maria Rita. Videologias. São Paulo: Boitempo, 2004. CANEVACCI, Massimo. Fetichismos Visuais - corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008. CANNITO, Newton. A Televisão na Era Digital: Interatividade, Convergência e Novos Modelos de Negócio. São Paulo: Summus, 2010. CARMONA, Beth. O Papel e a contribuição social da TV pública, 10/10/2006. Disponível em: http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&edicao=18&id=182. Acesso em: 11 agosto 2011. ______ (Org.) O Desafio da TV Pública: uma reflexão sobre sustentabilidade e qualidade. Rio de Janeiro: TVE Rede Brasil, 2003. CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. São Paulo: 12ª Reimpressão da 6ª edição, Paz e Terra, 2009. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1995. CHATEAUBRIAND, Assis. Discurso de inauguração da TV Tupi Difusora de São Paulo, disponível em http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/historia-datelevisao/historia-da-TV-tupi.php, acessado em 26/07/2011. CIFUENTES, Diego Portales. A Empresa: A televisão pública na América Latina: crises e oportunidades. p. 119-153 in RINCÓN, Omar (Org.). Televisão pública: do consumidor ao cidadão. São Paulo: Friedrich Ebert Stiftung, 2002. CLARK, Walter, O campeão de audiência: uma autobiografia. São Paulo, Best Seller, 1991. CURY, Maria Cecília Andreucci. Limites do público e privado na paisagem midiática Televisão pública: cidadania e consumo, 2009. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Práticas de Consumo) – Curso de Pós-graduação em Comunicação da Escola Superior de Propaganda e Marketing, São Paulo, 2009. DEBRAY, Regis. Vida e morte da imagem: uma história do olhar no ocidente. Tradução de Guilherme Teixeira. Petrópolis, RJ: Vozes, 1993. EBC, Empresa Brasil de Comunicação. Conselho Curador - disponível em: <http://www.ebc.com.br/conselho-curador>. Acesso em: 09 agosto 2011. ______ Relatório Os primeiros quatro anos de um ideal democrático: 2007-2011. Coordenação de Ana Miguel e Érica Santana. Dupligráfica Editora, 2011. 150 ______ Novidades: EBC debate implantação do Operador de Rede Pública de TV digital. Publicado em 30/06/2010. Atualizado em 24/06/2011. Disponível em <http://tvbrasil.org.br/novidades/?p=25798>. Acesso em: 03 janeiro 2012. ______ Nelson Breve assume presidência e chama sociedade a participar de novo ciclo de construção da EBC. Disponível em <http://www.ebc.com.br/content/nelsonbreve-assume-presidência-e-chama-sociedade-participar-de-novo-ciclo-de-construção-da->. Acesso em: 08 janeiro 2012. ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. EIAA European Interactive Advertising Association. Mediascope Europe. MultiScreeners Summary Report. Novembro, 2010. FIGUEIREDO, Tâmara Benvinda Pinto de, et al. A TV Pública no Brasil e em Mato Grosso: TV Universidade um estudo de caso. 2002. Trabalho de conclusão de curso (graduação) - Faculdade de Comunicação Social da Universidade Federal de Mato Grosso. TCC 01604, Biblioteca da UFMT. Cuiabá, 2002. FPA, Fundação Padre Anchieta. Conselho Curador, disponível no site http://www2.tvcultura.com.br/fpa/institucional/estatuto-fpa.pdf , acesso em: 09/08/2011. FRADKIN, Alexandre. Radiodifusão Educativa. A TVE ou não é?. 18/05/2007, disponível em: <www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/a_tve_ou_nao_e>. Acesso em: 13 outubro 2011. HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública: investigações quanto a uma categoria da sociedade burguesa. Tradução de Flávio R. Kothe. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. HOINEFF, Nelson. A Gênese das Televisões Públicas in CARMONA, Beth (Org.), O Desafio da TV Pública: uma reflexão sobre sustentabilidade e qualidade, p. 41-43. Rio de Janeiro: TVE Rede Brasil, 2003 IBGE,Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Acesso à Internet e Posse de Telefone Móvel Celular para Uso Pessoal, Rio de Janeiro: IBGE, 2008. JOST, François. Compreender a Televisão. Porto Alegre: Sulina, 2010. KEHL, Maria Rita. Muito além do espetáculo in NOVAES, Adauto (Org.), Muito além do espetáculo, p. 235-253. São Paulo: Senac São Paulo, 2005. KELLNER, Douglas. A cultura da mídia – estudos culturais: identidade e política entre o moderno e o pós-moderno. Bauru: EDUSC, 2001. KERCKHOVE, Derrick. A pele da cultura. São Paulo: Annablume, 2009. 151 LEAL, Laurindo Filho. Um modelo para o Brasil. 2008. Disponível em: http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view &id=3448. Acesso em: 17/09/2011. LEMOS, André. Cibercultura: tecnologia e vida social na cultura contemporânea. 4ª edição. Porto Alegre: Sulina, 2008. LÉVY, Pierre – Cibercultura, tradução de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Editora 34, 1999. LIMA, Jorge da Cunha, Uma História da TV Cultura. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e Fundação Padre Anchieta, 2008. MACIEL, Leandro Silvio Katzer Rezende. Projeto “João da Silva” – Pioneirismo em Teleducação Matemática. Disponível em: http://www.limc.ufrj.br/htem4/papers/6.pdf. Acesso em: 18 outubro 2011. MAFFESOLI, M. No fundo das aparências. Petrópolis: Vozes, 1996. MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações - Comunicação, cultura e hegemonia. 6. ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 2009. ______ Televisão pública, televisão cultural: entre a renovação e a invenção, in RINCÓN, Omar (Org.). Televisão pública: do consumidor ao cidadão, p. 41-79. São Paulo: Friedrich Ebert Stiftung, 2002. MARTINS, Maria da Glória Albues. Maria da Glória Albues Martins: depoimento (20 dezembro 2011, 17:57). Entrevistador: Nilo Alves Bezerra. Cuiabá, 2011. MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação como extensões do homem. Tradução de Décio Pignatari. 9. ed. São Paulo: Cultrix, 1998. MESSA, Márcia Rejane. A cultura desconectada: sitcoms e séries norte-americanas no contexto brasileiro. UNIrevista, v. 1, n. 3. Julho 2006. Disponível em: <http://www.alaic.net/ponencias/UNIrev_Messa.pdf>, Acesso em: 22 janeiro 2012. MOREIRA, Benedito Diélcio.Benedito Diélcio Moreira: depoimento (15 dezembro 2011, 11:11). Entrevistador: Nilo Alves Bezerra. Cuiabá, 2011. MORIN, Edgar. Cultura de massas no século XX: neurose. 9. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária 2005. MYATT, Alyce. A TV Pública nos Estados Unidos, p. 20-27, in CARMONA, Beth (Org.), O Desafio da TV Pública: uma reflexão sobre sustentabilidade e qualidade. Rio de Janeiro: TVE Rede Brasil, 2003. NIELSEN, Institute. How People Watch: A Global Nielsen Consumer Report. Agosto, 2010. 152 ______ State of the media: consumer usage reporte. Disponível em: <http://www.nielsen.com/content/corporate/us/en.html#2>. Acesso em: 21 janeiro 2012. PRIOLLI, Gabriel. TV Brasil: os midiocratas contra a publicidade. Observatório da Imprensa, 2007. Disponível em: http://www.direitoacomunicacao.org.br/content.php?option=com_content&task=view &id=1838. Acesso em: 10/08/2011. RAMIREZ, Raúl. Algunas ideas sueltas sobre la blogosfera y la imagen Disponível em: <http://isopixel.net/archivo/2003/05/algunas-ideas-sueltas-sobre-la-blogosfera-yla-imagen/>. Acesso em: 14 janeiro 2012. REDEIFES. Histórico. Disponível em: <http://www.redeifes.ufpr.br/Files/archives/hist.php>. Acesso em: 20 dezembro 2011. RIBEIRO, Ana Paula Goulart; SACRAMENTO, Igor. A Renovação Estética da TV, in RIBEIRO, Ana Paula Goulart; SACRAMENTO, Igor; ROXO, Marco (Org.). História da Televisão no Brasil, p. 109-135. São Paulo: Contexto, 2010. RINCÓN, Omar (Org.). Televisão pública: do consumidor ao cidadão. São Paulo: Friedrich Ebert Stiftung, 2002. ROSNAY, Joel de. O homem: gênio individual, idiota coletivo in CASTRO, Gustavo de; CARVALHO, Edgard de Assis; ALMEIDA, Maria da Conceição de (Org.). Ensaios de Complexidade, p. 241-260. Porto Alegre: Sulina, 1997. SANTAELLA, Lúcia. Linguagens líquidas, na era da mobilidade. São Paulo: Paulus. 2007. SILVA, Rafael Cordeiro. Indústria Cultural e manutenção do poder. Revista Cult, n. 154, p. 63-65, ano 14. São Paulo: Bregantini, 2011. SODRÉ, Muniz. Antropológica do Espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede, 4ª edição. Rio de Janeiro: Vozes, 2009. ______; PAIVA, Raquel. O Império do Grotesco, Rio de Janeiro: MAUAD, 2002. TEOBALDO, Délcio. Qual é o público da TV Pública?. em 09/11/2010. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/qual_e_o_publico_da_tv_pu blica>. Acesso em: 23 novembro 2011. TORVES, José Carlos. Televisão Pública, Porto Alegre: Evangraf, 2007. TRAVANCAS, Isabel. Fazendo etnografia no mundo da comunicação, in BARROS, A. e DUARTE, J. (orgs.).Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2006, p. 98-109. 153 TUZZO, Simone Antoniaci. Televisão: a fantasia e a ilusão de ter e poder aquilo que não se tem e não se pode. Semiosfera (UFRJ), Home Page, v. 06, p. 17-28, 2002. TV BRASIL. Aglomerado, sobre. Disponível em: <http://tvbrasil.org.br/aglomerado/sobre/>. Acesso em: 12 novembro 2011. ______ Equador, sobre. Disponível em: <http://tvbrasil.org.br/equador/sobre/>. Acesso em: 16 novembro 2011. ______ Comentário Geral, sobre. Disponível em: <http://tvbrasil.org.br/comentariogeral/sobre/>. Acesso em: 16 novembro 2011 ______ Observatório da Imprensa, o programa. Disponível em: <http://tvbrasil.org.br/observatoriodaimprensa/>. Acesso em: 22 dezembro 2011. ______ TV Brasileira, 60 anos de teledramaturgia, da TV Brasil, entrevista com Janete Clair, exibido em 05/10/2010. Disponível em: www,youtube.com.br. Acesso em 11/12/2011. ______ O Público na TV. Produção: Ouvidoria EBC. Apresentação: Regina Lima. Programa veiculado em: em 03/11/2011. Disponível em: <http://tvbrasil.org.br/opubliconatv/videos/#videoYT>. Acesso em: 16 dezembro 2011. TV CULTURA, Receita. Disponível em: <http://www2.tvcultura.com.br/fpa/institucional/receitas.aspx>. Acesso em: 03 janeiro 2012 TVU-UFMT, Acervo. Manifesto pela TV Pública Independente e democrática. Brasília, 2007. ______ Carta do Segundo Fórum das TVs Públicas. Brasília, 2009. ______ Assuntando, Programa de entrevista, veiculado em 18 out. 2011, entrevistado José Roberto Garcez. Direção e apresentação Sérgio Fernandes. Cuiabá: TVU, 2011. 1 DVD-ROM. ______ Projeto da geração local da TV Universidade – Canal 2, Pasta Projeto de Implantação 001, Cuiabá: 1993. ______ Autorização, FUNTEVÊ, Presidente Paulo Branco, Rio de Janeiro, 1993. ______ Regulamento ANIMATV I, 2009. ______ Regulamento DOCTV II, 2006 ______ Relatório Programação 2000 a 2011. TVU, 2011. ______ Relatório do 1º ano da Gestão Maria Lúcia Cavalli Neder. Organograma. Produção TVU, UFMT. Cuiabá, 2009. 154 ______ Relatório técnico. Eng. Alcides Teixeira da Silva. UFMT. Cuiabá, 2006. UFMT, Universidade Federal de Mato Grosso. Resolução CD 44/2008, de 31 de outubro de 2008. Reorganiza a estrutura administrativa e acadêmica da UFMT, incluindo a criação da Secretaria de Comunicação e Multimeios – Secomm. Disponível em: <http://www.ufmt.br/ufmt/secomm/index.php?sec=2>. Acesso em: 21 janeiro 2012. ______ Universidade Federal de Mato Grosso. Resolução CD 3/2009, de 14 de janeiro de 2009. Dispõe sobre alteração da Resolução CD nº 44, de 31 de outubro de 2008. Disponível em: <http://www.ufmt.br/ufmt/secomm/index.php?sec=2>. Acesso em: 21 janeiro 2012. ______ TV Universidade. Disponível em: <http://www.ufmt.br/ufmt/secomm/index. php?sec=19>. Acesso em: 25 janeiro 2012. ______ Quadro Estrutura Secretaria de Comunicação e Multimeios da UFMT. Disponível em: referência: disponível em: <http://www.ufmt.br/ufmt/secomm/index.php?sec=1>. Acesso em: 25 janeiro 2012. WIKIPÉDIA. Perdidos na Noite. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Perdidos_na_Noite>. Acesso em: 12 novembro 2011. ______ noosfera. Disponível em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Noosfera>. Acesso em: 14 abril 2011.